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DESTINO

DO
X
TOXICOMAIMO

CLAUDE
OLIEVENSTEIN

ri
Título original
Destin du Toxicomane
Claude Olievenstein
Copyright (c) Librairie Arthème Fayard

Destino do Toxicômano
tradução para a língua portuguesa por
Marie Dominique Grandy

Projeto Gráfico/Capa
CLR Balieiro Editores Ltda.
Impressão / Acabamento
IMPRES Cia. Brasileira de Impressão e Propaganda

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sem expressa autorização dos editores
para a língua portuguesa
ALMED Editora e Livraria Ltda.

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Câmara Brasileira do Livro, SP

Olievenstein, Claude, 1933-


039d Destino do toxicomano / Claude Olievenstein ;
tradução Marie Dominique Grandy ; apresentação
Haim Grllnspun. — São Paulo : ALMED, 1985.

B ib lio g r a fia .

1 . Drogas - Abuso 2* Toxicomania I . T ítu lo.

CDD-616.863
8 5 -13 76 NLM-WM 27O

índices para catálogo sistemático:

1 . Drogas : Dependencia : Medicina 616.863


2. Toxicomania : Medicina 616.863
DESTINO
DO
TOXICOMANO

CLAUDE
OLIEVENSTEIN

Tradução
Marie Dominique Grandy

Apresentação
Haim Grünspun

\
/

ALIÏ1ÊÔ
São Paulo-1985 • Brasil
Apresentação

O que é um toxicômano? Todo mundo sabe que existem toxicô­


manos, também conhecidos por outros nomes como drogados, vicia­
dos, fármaco-dependentes, drogaditos, que representam tragédia no
plano individual e social. Muitos milhões de adolescentes, jovens
e adultos tornam-se dependentes de álcool e drogas e legiões de
cientistas se perguntam que aspectos são os mais importantes para
serem detectados, que constituição psicológica e que aspectos da
vida social contribuem para a dependência.
Olievenstein, idealizador do Hospital Marmottan, primeiro cen­
tro para toxicômanos na França, funcionando há 14 anos sob sua
direção, com atendimento a mais de 20.000 de viciados em drogas,
sabe que o assunto é um dado antigo com poucas respostas.
A proposta de Olievenstein, nesta obra, transforma-se numa dou­
trina nova de ação — a clínica do toxicômano e como as coisas
se passam na clínica.
A clínica do toxicômano é fundamentada sobre um tripé — a
personalidade, o produto (a droga) e o ambiente sócio-cultural.
Desde o Protocolo, estabelece a visão do que é terapêutico, vi­
sando a restituir ao homem sua liberdade e dignidade. No capítulo
sobre a Clínica, o mecanismo do vaivém é considerado como essen­
cial. Todos os instrumentos possíveis são abordados — desde os
fenomenológicos, os psicodinâmicos, neurofisioquímicos, biológicos,
relacionamentos psicológicos, sociológicos e outros — , fazendo a
melodia do clínico bem preparado.
O capítulo Infância do Toxicômano mostra como se inicia a
trajetória do toxicômano. O autor estabelece os estados de sofri­
mento pelos quais passa um organismo jovem e que o leva ao
encontro da droga e às transgressões das leis. Transpõe o conceito
Lacaniano sobre o estado do “espelho rachado” para uma com­
preensão cinética do desenvolvimento que se estabelece num movi­
mento contínuo do “face a face” com o que o espelho da convi­
vência reflete.
5
A seguir, o capítulo O Idiota da Família, apossa-se de conceitos
de Jean Paul Sartre que, em sua obra com o mesmo título, descreve
os conflitos pelos quais passou o escritor Flaubert, que não sabia
ler até os 16 anos e era confundido na família como idiota, vindo,
porém, a tornar-se um dos maiores escritores da França do século
passado e o modelo mundial para a literatura moderna. Aponta
neste capítulo para a grande reconciliação, que poderá ser realizada
pela clínica.
Nos últimos dois capítulos, a Androginia e o Sofrimento do
Indivíduo Desintoxicado, ele parte do mito e das revelações entre
o mítico, o patológico e o normal para chegar ao concreto e real;
seja a possibilidade de cura, seja a possibilidade da morte, as duas
opções sempre presentes.
No caminho a ser percorrido, só há uma alternativa humana
relativamente modesta: o toxicômano deixa de ser tudo, não há
nem o grande prazer hedonista nem a vingança da mediocridade
sobretudo que ousou. Isto acontece quando sobrevive ou quando
morre.
Claude Olievenstein, no curso de medicina e na formação nos
hospitais de Paris, já foi orientado para os problemas sociais da
Psiquiatria e mais particularmente para os problemas apresentados
por uma população particular, os jovens pós-adolescentes de 18 a
30 anos. Paralelamente a esta formação psiquiátrica sempre fez
pesquisas e investigações psicofarmacológicas confrontadas com a
clínica.
Com esta bagagem, já foi capaz de colaborar no Instituto de
Altos Estudos da França, a partir de 1968, com seus conhecimentos
sobre toxicomanias.
Sua experiência e sua orientação no tratamento com os toxicô­
manos, a partir da criação do centro experimental no Hospital
Marmottan, foram reconhecidas no mundo, através de dezenas de
publicações, conferências, cursos pós-universitários e livros consa­
grados em traduções para várias línguas.
A ação de sua atividade experimental se exerce em três vias:
— resultados das terapêuticas biológicas e psicofarmacológicas;
— ensaios com psicoterapia individual e de grupo;
— técnicas de readaptação e de ambientar antigos toxicômanos.
Sobre sua experiência, o Dr. Claude Olievenstein correspondeu
também a inúmeros convites no exterior — Europa, América e Ásia.
No ano de 1984, quando coordenamos os debates sobre as confe­
rências que realizou em São Paulo, observamos como multidões
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de pessoas afluíram para os auditórios e centenas de questões,
dúvidas e esclarecimentos foram apresentados para Olievenstein.
Estas perguntas foram sempre respondidas com clareza e certeza,
sem prescrição de receitas e sem mostrar a “verdade absoluta”.
Assim é esta obra, sem receitas práticas, sem respostas direcio­
nadas.
Ê obra teórica sobre o toxicômano e não sobre as drogas. Esse é
encontrado em todos os parágrafos e em todos os capítulos não
como deveria ser ou deveria vir a ser mas tal como é, e porque é.

Haim Grünspun

1985 — Ano Internacional da Juventude


Prólogo

Gostaríamos que o leitor não se sentisse ofendido pelo trajeto


informal que este texto parece adotar. É que seria contraditório
procurar um modo estabilizado e estruturado para expressar a tur­
bulência e o movimento, ainda que estes se apresentem a intervalos
de equilíbrio instável. Seria até mesmo mais do que contraditório
— seria uma verdadeira negação.
Portanto, para aqueles que estiverem dispostos a entender seu
ritmo próprio, este texto procede por enredos e cercos, contornos
e retornos, retenções, ultrapassagens e deslocamentos.
O pensamento é gerado no caminho, e não é o efeito de nenhuma
instância. É o fruto de uma constância. É por esta razão que no
decorrer de todo este trabalho o leitor encontrará referências a
instrumentos teóricos pertencentes à psicanálise, à física e à ma­
temática, sem que o sentido rigoroso que tem em seu próprio con­
texto tenha necessariamente sido respeitado. Tais referências pare-
cem-nos úteis como “idéias-relâmpago”, e não como referências
epistemológicas.
O presente volume deve muito ao pensamento de certos autores,
particularmente a Michel Serres cujo livro intitulado “Nascimento
da física no texto de Lucrécio” constituiu para nós uma verdadeira
iluminação, e uma generosa fonte de inspiração.
As obras de Jean Bergeret (“A Depressão e os estados limítrofes")
e de Henri Atlan (“O cristal e a fumaça") também nos ajudaram
em nossa progressão.
Recorremos a estes trabalhos — e a outros —, pois parece-nos
impensável que a clínica continue paleolítica e inculta, deixando
de empregar em uso próprio o que os métodos de investigação
modernos foram capazes de descobrir no domínio científico.
Mas, assim como não existe ciência sem consciência (a não ser
que esta se desvie de seu verdadeiro caminho), não pode haver
clínica sem acesso àquilo que é essencial ao homem, ou seja, à
poesia, à filosofia e à afetividade.
9
Pedimos então aos leitores que sejam indulgentes para com este
ensaio, e esperamos que saibam apreciar mais a tentativa, o tatea-
mento e a aproximação do que o rascunho da escrita, o qual a
nosso ver foi necessário para não imobilizar o que constitui a
própria vida.
Claude Olievenstein
índice

Protocolo 13
1. A Clínica ................................................................................ 51
2. A Infância doToxicômano ................................................. 79
3. O Idiota da Família ............................................................. * 103
4. Androginia ........................................................................ 131
5. Sofrimento doIndivíduoDesintoxicado .............................. 151

11
Protocolo

Em primeiro lugar, todo mundo sabe que existem toxicômanos —


este é um dado antigo — mas, por outro lado, a clínica do toxicô­
mano é uma doutrina nova. No primeiro caso, estamos falando de
uma afirmação, de raciocínios por analogia, de semelhanças, apro­
ximações. Já no segundo, queremos nos referir às modernas cons­
truções que carregam em si a íntima convicção de que “é assim”
que as coisas se passam.
Assim, como sem ciência moderna não haveria Física Atômica,
a existência de uma clínica dos toxicômanos seria impossível sem
as mais recentes aquisições da psicanálise, da neuroquímica, da
neurofisiologia, bem como da termodinâmica, da teoria da relati­
vidade e das teorias de Henri Atlan sobre os sistemas auto-regula­
dores e os equilíbrios instáveis.
A clínica dos toxicômanos não poderia existir enquanto persis­
tisse adotando como pressuposto (a exemplo do que fazem toda
Psiquiatria e toda Psicologia puras) uma ordem quase linear dos
fenômenos, seja esta ordem ontogênica ou filogênica, estrutural ou
tópica.
Neste ponto, a clínica dos toxicômanos aproxima-se mais da
mecânica dos fluidos do que dos sólidos. Ela tem mais a ver com
flutuações, turbulências e turbilhões do que com a queda dos corpos
sólidos. Ela obriga a aplicar um método científico e eventos incertos,
que ocorrem em tempos também incertos. Se há determinismo, este
é apenas relativo, limitado; e além do mais, só produz "efeitos”
quando certas condições de instantaneidade foram realizadas.
Vemos surgir aqui uma outra exigência desta nova clínica: a
do tempo e a do espaço. A intervenção destes elementos, ocorra
ela antes da tomada da droga, durante o clímax da "primeira vez”
ou depois, no imaginário em ação do toxicômano ou quando de
sua reintegração no mundo comum, é essencial, embora seja extre­
mamente difícil fazer uma semiologia ou explicá-la. E, no entanto,
hoje em dia, isto constitui o mínimo indispensável para que pos-
13
samos chegar a alguma compreensão do que ocorre no “aqui” e no
“alhures”, no “já-quase” e no “quase-não-mais”; para que possamos
não somente compreender, mas também induzir os gestos do clínico,
cuja conduta deverá ser ao mesmo tempo geral (já que estamos
lidando com uma clínica científica) e sutil, pois trata-se de uma
clínica móvel, rodopiante, da qual as “situações de jogo” não estão
excluídas.
Raramente alguma clínica terá sido elaborada em um campo tão
repleto de “possíveis”, lembrando, neste ponto, o movimento brow-
niano dos encontros das partículas em laboratório. É que, para citar
Michel Serres, “o real se esconde entre os possíveis, e os possíveis
se escondem sob o real”. Toda a arte do clínico residirá, pois, em
sua capacidade para tomar as decisões que, da interpretação até a
cura, levem a uma harmonia entre o real e o imaginário, entre a
lei real e a lei imaginária.
Por estas razões, vemos que uma tal clínica só poderá ser elabo­
rada se tivermos um conhecimento real de uma grande população
de usuários de drogas e de toxicômanos. Somente através de uma
amostragem pacientemente reunida, considerando-se caso por caso,
poderemos separar aquilo que é comum daquilo que é diferente uns
dos outros, reconhecer o patológico e distingui-lo do não-patológico,
pois, de uma maneira geral, para o observador comum, não existem
diferenças, enquanto localmente, para o clínico, essas diferenças são
enormes e sempre estiveram presentes, ainda que não tenha podido
formulá-las satisfatoriamente.
Mas, assim como o passado, a verdade científica só adquire seu
valor pleno tardiamente. Para que algo se torne “evidente”, com­
porte a “íntima convicção”, é preciso revelar a profunda simplici­
dade de problemas aparentemente complexos.
Em nossa área foi necessário construir, de início, “sistemas”
fixos, o que equivale dizer, fixistas. Através do conceito de “estru­
turas”, pudemos assim estabelecer uma nosografia e uma clínica
psiquiátrica e, através do conceito de “tópicos”, estabelecermos uma
clínica psicanalítica. Tais conceitos revelam-se inadequados: consti­
tuem tão somente um entre os vários elementos do “possível”, ao
qual nos referimos acima; neles há espaço demais para as disseme-
lhanças, para o “quase”. Eles não encerram a “íntima convicção”.
Convém introduzir aqui a desigualdade dos destinos apesar de sua
aparente semelhança. Não se trata de um discurso sobre des:gualdade
adquirida, genética, mas da reintrodução da noção de “momento
fecundo”, de velocidade no desenrolar dos fenômenos psíquicos, de
14
importância da instantaneidade dos choques, sobretudo, por exem-
; pio, na relação mãe-filho. A relação é fundamentalmente invariável;
] o que varia é o conjunto de condições e circunstâncias. Quando há
\ identidade profunda, não há destino comum.
Será preciso então, paradoxalmente, encontrar ordem na desor­
dem. Faz-se necessário, porém, esclarecer este “encontrar ordem”.
Não se trata de ordenar, no sentido de colocar em ordem, e sim
de encontrar o fio condutor que permitirá desfazer os nós invisíveis
do saber impossível, para chegar à clínica e, logo, à ação terapêu-
) tica. É da própria desordem, indispensável ao equilíbrio, que nas-
\ cem as perturbações patológicas, as quais não passam de outras
^formas de desordens inseridas em equilíbrios instáveis.
Digamos, para maior clareza, que entre várias desordens possíveis,
o acaso dos encontros (no interior do sistema familiar, depois fora
deste, e em seguida o encontro com o produto e com a lei) gera um
caminho particular, como se fosse o surgimento de um novo mundo.
São movimentos e choques muito mais do que predisposições ou
aquisições; estamos falando de turbulências muito mais que de
organizações. A ordem sucede à desordem assim como a desordem
sucede à ordem.
Se considerarmos apenas a fenomenologia da clínica, estaremos
perdidos e correremos o sério risco da incoerência. Precisamos esta­
belecer limites, desenhar um espaço onde, como diz Michel Serres,
“o semelhante possa reunir-se ao semelhante”. E podemos acrescen­
tar, citando o mesmo autor (que desconhece a gíria dos toxicôma­
nos), “a descida assegura a diferença, assim como a criação. Mais
uma vez, a descida faz a ordem, bem como o desvio faz o declínio,
a desordem”.
É ultrapassando a semiologia descritiva, fenomenológica, porém
ao mesmo tempo levando-a em conta, juntando os semelhantes no
interior do movimento, que criaremos a forma, a clínica da toxi-
comania.
Mas é preciso mais ainda, pois não há liberdade total: nenhuma
clínica pode deixar de considerar as pressões globais exercidas pelo
sistema de limitações inerente aos próprios homens; estes homens
que encontram-se situados, encerrados em suas famílias, seu meio,
sua sociedade, sua genética. Devemos introduzir de novo, e isto
é válido também para genética, as noções de “momentos fecundos”,
de instantaneidade criadora. Nós entendemos essas noções instinti­
vamente sem conseguir prová-las, pois estamos presos a um respeito
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pela ciência que nos faz aceitar a hereditariedade dos caracteres
adquiridos como algo imóvel.
É precisamente desta relação entre o movimento íntimo (que vai
desde o gene e a célula até o feto, o tempo vivido, passando pelo
estágio do espelho; mas onde e sempre, “o olho está dentro da
tumba e olha para Caim”) e estes sistemas pressionantes, que vai
surgir a declinação, cobrindo desde o sintoma até o homem doente.
Declinação, dizíamos, porque desde o sintoma até o homem doente
vemos tratar-se de uma reprodução pesadelesca ou grotesca do nas­
cimento até a morte. Podemos afirmar que o doente imita o destino
do homem (que é a sua própria destruição), numa tentativa de
escapar ao seu declínio real, isto é, à morte.
O toxicômano "macaqueia” este declínio num grau mais elevado
ainda que o "homem doente” comum, pois aparentemente ele o faz
seguindo sua própria vontade. Na verdade o que ele declina é o que
está inscrito nele desde o seu nascimento, encerrando desde cedo
sua "íntima convicção”. Para ele nada é inédito, tudo é ilusão, já que
vive e sente que nele mesmo qualquer tentativa de ordem se desfaz
e morre, confrontando-o invariavelmente com os indicadores de sua
própria morte. Que contraste entre sua beleza, sua juventude e um
tamanho desvio, geralmente aceito como natural apenas nos velhos!
Caberá à clínica desmascarar este jogo perante a morte (e isto
ela soube fazer em relação ao mais grotesco dos grotescos — a
histeria) e apontar com uma exigência intransigente o erro trágico,
o engodo, segundo o qual o sistema anula a desordem e evita a
morte. E isto, começando pelo terapeuta, que carnivoramente con­
some o doente buscando afastar a própria morte, ele também só
estará "curado” se conseguir aceitar este declínio fatal.
Vemos então que é absolutamente necessária a reintrodução do
tempo, ou melhor, dos tempos, na clínica. Melhor ainda, do espaço-
tempo. O modelo proposto é o da física pós-einsteiniana. Nem o
corpo, nem o cérebro e nem mesmo a célula vivem em um tempo
imóvel. Sobretudo em se tratando do nível psíquico, os fenômenos
"on”, "off” e "on-off”, a abertura de novos circuitos que prevale­
cem sobre os circuitos normais e são constantes. Se não relacio­
narmos o sintoma com todo este movimento, esta desordem, este
escoamento, estaremos reduzindo toda e qualquer possibilidade de
compreensão e apreensão dos fenômenos. Só pode haver gênese (e
todo sintoma, todo sinal, toda clínica nascem) através e no interior
de um movimento; somente no desvio, no deslocamento, na desor­
dem. O homem "são” não existe, ou apenas em algum estado final
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equilibrado. O desvio é natural a qualquer fluxo vital. Mas entre o
desvio e a situação de sofrimento existe um passo, há um limiar
sensorial de reconhecimento que é o mistério a ser elucidado pela
clínica. É a diferença entre o fogo e o calor: o primeiro é constatado,
o segundo, sentido.
Este sentir, porém, não se dá de qualquer maneira: a percepção
contorna os obstáculos materiais e psíquicos da história pessoal e
da situação do homem, mesmo que no final ela chegue ao mesmo
receptor-reconhecedor. Tudo está compreendido nesta imensa com­
plexidade de redes, de estoques de choques afetivos e/ou fisiológi­
cos. Tomemos um exemplo concreto: uma mesma fonte de dor é
recebida (logo, devolvida) de maneira inteiramente diferente por um
indivíduo são, por outro que possui a experiência da dor, outro
ainda que tem a lembrança desta dor e, finalmente, por um quarto
indivíduo para quem esta dor é vivida como um prazer masoquista.
Se no mais simples mecanismo de funcionamento de um neurônio
estão implicados inúmeros sistemas de bombeamento de potenciais
de ação, de canais seletivos, voltagem dependentes ou quimiodepen-
dentes, de enzimas em deslocamentos complexos, seria ingênuo de
nossa parte supor que, no caso do homem, o caminho que vai da
percepção bruta até a formação do sintoma seja idêntico para todos.
E na área clínica é indispensável que possamos funcionar ao mesmo
tempo em velocidades diferentes e a níveis diferentes:
— um nível globalmente igual para todos os homens no que diz
respeito ao esquema ontogênico e filogênico do reconheci­
mento mnêmico, por exemplo;
— um nível estritamente individual no que diz respeito à mistura
entre os elementos decorrentes da estrutura profunda prece­
dente (estrutura "de base”), e os elementos heterogêneos
acrescidos desde a infância em função da história biológica,
familiar e social do indivíduo;
— um nível aleatório, resultado do encontro entre "acaso e ne­
cessidade”, constituído por elementos que são aqueles "mo­
mentos fecundos”, onde se dá a "instantaneidade criadora”
de eventos psíquicos.
Vemos então que o que temos de pesquisar é o próprio movimento
e o difícil confronto, permanente e mínimo, que se dá entre estes
três níveis; devemos procurar encontrar o fio condutor que leva
desde os momentos de explosão até os de calmaria aparentemente
total, momentos esses que são um marco na vida do toxicômano.
E precisamos acrescentar (ainda tomando a física como modelo),
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o que nos traz, além da cinética dos eventos — já em si essencial ■

também o calor, o tipo de densidade calorimétrica do evento, que
tanto contribui para a atmosfera indizível do “vivido”.
Minkowsky foi um dos autores que mais brilhantemente cola­
borou na elaboração do conceito estruturalista de “tempo vivido”.
No nosso caso, além de uma diferenciação grosseira entre tempo
vivido normal e patológico, devemos atentar para a dispersão, a
fragmentação, a molecularização deste tempo. É bom notar que
isto é válido para todos, porém só acede ao nível do consciente
muito raramente (excetuando-se a sensação de dor e o orgasmo).
Nossa tarefa é gigantesca, mas a própria droga, e seus efeitos
nos ajudarão a parcelá-la, pois estes agem como reveladores, assim
como o microscópio eletrônico atua na neurologia. Ao fluxo de
informações habituais respondem receptores “de aumento”, deslo­
cados no tempo e no espaço. E como é praticamente impossível
haver vida sem que haja, ainda que virtualmente, algum tipo de
equilíbrio após as turbulências e as deformações (e isto é válido
até para os equilíbrios instáveis), teremos equilíbrios deslocados,
porém referentes a cada um dos três níveis. E teremos que ir cons­
tantemente de um a outro, sem perder de vista aqueles que não
forem imediatamente referentes. Ê uma mobilidade, uma ginástica na
qual não cabem as noções de estrutura ou de organização tópica,
a não ser na pior das hipóteses, como algo momentâneo — a
droga cria com grande rapidez um simulacro, um efeito psíquico
de fulgor para o qual, na realidade, é necessário um espaço e um
tempo longo. Para que ocorra este “clarão”, é preciso que ante­
riormente, em outras velocidades e por outras vias, tenha se cons­
tituído aquele capital mnésico que, naquele instante preciso, é
restituído.
A primeira tarefa do terapeuta é então esta decodificação através
da qual o manifesto conduz ao latente e o significado ao signifi-
cante. Isto não seria muito original se não ocorresse em níveis
referenciais distintos, acrescidos de inúmeros fenômenos complica-
dores de “feedback” e de outros fenômenos parecidos com sistemas
de facilitação preferenciais para este ou aquele afeto psicológico.
Esta aterradora complexidade nos faz lembrar os fenômenos físico-
químicos das membranas celulares.
Esta referência à célula nervosa não é gratuita, tomemos um
exemplo: em um sistema familiar qualquer, a intensidade de um
afeto é codificada pela freqüência dos choques recebidos no inte­
rior de e pelo sistema; e isto ocorre igualmente na célula, onde a
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intensidade de um estímulo é codificada pela freqüência dos influxos
nervosos. O aparelho psíquico não funciona como um sistema de
informática (seria uma simplificação abusiva e escandalosa), nem
mesmo como um sistema de encanamento aperfeiçoado. Mas similar­
mente ao que observamos na neurobioquímica, constatamos a exis­
tência de uma complexidade extrema e de não-equilíbrios perma­
nentes, de mobilidades e seletividades constantes; e podemos assim
compreender de que maneira, em meio a tantos fenômenos aparen­
temente equivalentes, produz-se a seleção inevitável.
Uma tal visão sincrética da clínica do toxicômano é necessária
se não quisermos prescindir de tudo aquilo que é específico do
toxicômano, se comparado com os quadros neuróticos ou psicóticos.
O que é específico é justamente aquilo que Michel Serres estudou
no texto de Lucrécio, a começar por um extenso teorema-limite:
“Em um átomo temporal, a totalidade do espaço”. Esta instanta-
neidade, este acme de que falam todos os toxicômanos para quem
sabe ouvi-los: luz e calor circulando no coração dos corpos, poesia
e filosofia reveladas no imediato inédito e ao mesmo tempo desossa­
das como a leitura das Tábuas da Lei por Moisés. Do infinitamente
pequeno ao infinitamente grande — tudo, já. Igualmente para o
sofrimento e a grande melancolia — a morte. Um todo global e um
todo espalhado em partículas. Como já dissemos: em tempo igual,
um espaço múltiplo; em espaço igual, um tempo múltiplo.
Infelizmente, para poder entender tudo isto, precisamos encontrar
por redução uma certa estabilidade, pelo menos referencial, caso
contrário não haverá clínica, assim como não há partituras para
dança. E é neste ponto, aliás, que a armadilha se fecha, como bem
o compreendeu Jean Bergeret, por exemplo, na sua tentativa de não
reduzir tudo às estruturas neuróticas e psicóticas. Mas aí onde ele
colocou um limiar na escada, é preciso ousar mais e soltar uma jan­
gada nas águas, limite da estabilidade necessária: estabilidade de
referência constituída por esses limiares e obstáculos tão logo deixem
de ser provisórios e fugazes. Em suma, precisamos hoje, com extre­
ma urgência, encontrar uma estática rigorosa do movimento, o que
só está tenuamente de acordo com a concepção freudiana do psiquis­
mo: com efeito, ao considerarmos esquematicamente um toxicô­
mano, achamos que sua libido permaneceu fixada numa fase auto-
erótica, perdeu sua mobilidade, não consegue mais se fixar nos
^objetos. Isto é ao mesmo tempo verdadeiro e falso; é uma concepção
que exclui os efeitos objetais e fantasmáticos da droga e, além do
mais, exclui também a memória em ação constante — em sistemas
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de facilitação, de redundância interna — dos efeitos da droga e do
final desses efeitos.
Este exemplo revela o enorme perigo que reside em aplicar uma
concepção que “se aproxima d e . . . ”, se “parece c o m ...”. Tudo
que se “parece com. . . ”, engana, e não será criando uma terceira
via no interior dos mesmos sistemas de explicação que chegaremos
a uma maior compreensão. As referências teóricas a toda concepção
estrutural, por mais úteis que possam ser, devem se referir estrita­
mente a esta “estática rigorosa do movimento”, à qual implica
ainda algo que o clínico tradicional não pode aceitar — a passa­
gem permanente, lenta ou rápida, acelerada ou extremamente demo­
rada, telescopada ou molecularizada, do mórbido ao normal e vice-
versa.
Esta crítica aplica-se também ao narcisismo e à concepção que
afirma ser o toxicômano alguém cuja toxicomania teve início a
partir da frustração. Isto é verdadeiro e falso. Nós demonstramos
no capítulo que fala da infância do toxicômano que essas noções
de frustração e de narcisismo, por serem pré-conhecidas, só podem
ser incompletas. Segundo elas, o toxicômano é agnóstico, sendo o
estágio do espelho quebrado o evento que o marca, onde se forma
o conhecimento-desconhecimento de si, num movimento no qual a
instantaneidade — o “já-quase” e o “quase-não-mais” — será cons­
tantemente repetida e verificada psicológica e biologicamente, é ver­
dade, mas onde o que acabará dominando será o desconhecimento
de uma imagem ideal de si.
Assim, o tipo narcísico (cf. o trabalho de R. Ingold) que pensa­
mos encontrar no toxicômano, com sua intolerância à frustração
externa e sua particular predisposição à psicose e a seus distúrbios
perversos, é apenas o demonstrativo manifesto, porém estritamente
intermitente e de transição, ou melhor, o “tapa-buraco” na ausência
do produto injetado, face à angústia, à agnosia em movimento per­
pétuo daquele que só pode dizer: “Ser ou não ser”. A tentativa de
adaptação só pode resultar em excesso instável para quem, ao con­
trário, a imagem ideal do ego está mais proibida, ainda do que
para os outros, por ser desconhecida, por ser desconhecível, e
cujos sentidos não cessam de ser os receptores deste conhecimento-
desconhecimento, obrigando-o sem descanso a corrigir, a tentar adap­
tar, já que na verdade o único modelo que teve não passou de um
entreperceber, nunca global, nunca total. Não há traição no imagi­
nário, como em todo narcisismo, pois o imaginário fantasmado
20
encerra em si mesmo a falta. Há lacuna do imaginário. Há obstáculo
à fertilidade do imaginário.
Mas obstáculo não significa anulação: prova disto é a ação da
droga, a qual como se fosse cimento tapa a brecha, permitindo que
um imaginário, até então esmorecido, passe a emitir em todos os
sentidos e em ondas, uma estrela de fluxos. Como se a droga abrisse
um caminho, lançasse uma ponte, até então cortada, a todo o con­
teúdo aprisionado pela ruptura.
E do final mesmo dos efeitos da droga, só podemos induzir,
mais uma vez, a sucessão do movimento e de sua estática: eis aqui
um imaginário em ação, extremamente rico e fecundo; e ei-lo no
instante seguinte aniquilado, deixando espaço no campo de batalha
apenas à dor, à melancolia e à morte.
É preciso novamente, aqui também, esquecer toda e qualquer
referência. Não podemos falar nem em carência de imaginário, nem
em imaginário luxuriante, pois há passagem repetitiva de um para
outro (mesmo com a presença de fenômenos de somação e de esgo­
tamento) .
Para compreendê-lo, precisamos dispor ao mesmo tempo de uma
teoria geral das vias ou caminhos do movimento, e de uma teoria
global capaz de restaurar as situações do manifesto; temos de pedir
ajuda à psicanálise controlando-a pela física e dentro da física, pri­
vilegiar tudo que diz respeito à mecânica dos fluidos e à termo­
dinâmica.
As coisas complicam-se ainda mais quando abordamos os fenô­
menos de somação e de esgotamento na produção de um efeito
psíquico (sintoma ou fantasma).
Retomando um vocabulário envelhecido, a habituação ou o cos­
tumeiro são tão inexplicáveis quanto a diminuição ou o aumento
da dor. Assistimos, pasmos, a uma diminuição na intensidade da
resposta ao estímulo doloroso, bem como ao efeito da droga, e
sentimo-nos tentados (tentação esta que é explorada pelos skerianos)
a ver aqui apenas uma diminuição na intensidade da resposta com-
portamental, assimilável à adaptação dos reflexos de defesa das
aplasias quando seus gânglios abdominais são repetidamente esti­
mulados.
Certamente que aqui também existem vários níveis, e não podemos
excluir a aprendizagem do reconhecimento do estímulo que se torna,
por assim dizer, banalizado. Porém, ao invés do que ocorre em
uma reação de defesa, o estímulo para o toxicômano não é inofen­
sivo, pelo contrário, ele traz uma enorme recompensa, já registrada
21
anteriormente na memória do indivíduo. Recompensa esta que, se
não é nova, não perdeu nada do seu significado, das suas virtudes
de cimento “tapa-buraco” da ruptura, de suas possibilidades praze­
rosas. A habituação do toxicômano é então outra coisa que não esta
resposta banalizada. Para compreendê-la, devemos admitir, mesmo
no nível dos fenômenos de memória, a existência de fenômenos de
fluxo, refluxo, movimento, enfim, de cinética conflitual. A memória
não é um estoque, uma reserva da qual tiramos quando queremos
a ficha adequada; a memória que existe a curto prazo, mas também
a longo prazo, é o campo permanente de um conflito seletivo e
criador (nem que seja de angústia, por exemplo quando esquecemos
o nome de alguém conhecido).
Aqui, para o toxicômano, o conflito permanente situa-se entre o
apagar da ruptura-reconhecimento (sempre reencontrada) e o pós-
ruptura. O esquecimento da ruptura só pode ser momentâneo, pois
o dinamismo do efeito da ruptura, o lugar que esta ocupa na eco­
nomia libidinal e fisiológica do indivíduo, a longo prazo acabam
vencendo o dinamismo do efeito da droga. Combate de titãs:
somente o descuido de um dos dois monstros permite a ofensiva
do outro; é o que ocorre, por exemplo, após um período de privação.
A habituação não é, como querem os behavioristas, um processo
puramente mecanicista, implicando uma diminuição de mediadores
químicos e um esgotamento dos receptores. É ao mesmo tempo uma
resposta neuroquímica e um fenômeno psíquico extraordinariamente
complexo de confronto entre interesses psíquicos contraditórios, onde
nada é definitivo, mas que também não pode ser reduzido ao
clássico conflito freudiano das pulsões entre o id e o superego dos
psicóticos, pois isto equivaleria a negar o lado orgânico, inerte, não
fantasmático da droga.
Estamos então frente a esta nova questão — da relação entre o
orgânico externo, o orgânico biofisiológico e o psiquismo criador —
a passagem do imperceptível ao perceptível. Nem o primeiro pode
ser considerado como fiel servidor de um psiquismo nobre, e nem
o outro ser reduzido a um aprendizado repetido do adquirido em
relação ao inato.
Uma coisa é certa: trata-se mesmo de um combate, onde a força
maior vence e passa, derrubando outra menos potente. Tal “Orga-
non” torna-se o aliado de tal manifestação psíquica e vice-versa.
E isto é válido até na ausência da droga, a qual age ao mesmo
tempo como catalisador e fabricante de revelador e de aumentador.
Deste combate vemos como manifesto o sinal do sofrimento, da
22
dor e da falta, cuja produção é tão espetacularmente física e psíquica
ao mesmo tempo, mas cuja manifestação não é somente contem­
porânea (a falta psicológica se faz sentir durante muito mais tempo
que a falta física).
Há uma longa distância entre este combate e o combate pela
sobrevivência do recém-nascido, para quem tudo é igualmente falta.
Evidentemente não se trata do mesmo tipo de falta. O recém-nascido
precisa de todos os auxiliares para, através do processo de apren­
dizagem, poder crescer, sobreviver e existir, enquanto o único auxi­
liar do toxicômano só pode ser uma droga potente o bastante para
fabricar o imaginário.
Mais uma vez aqui surge a necessidade de uma adequação para
a clínica: o nascimento do pequeno do homem é exatamente “natu­
ral”. Mesmo que ele tenha a falta, trata-se de uma falta construtiva,
cujos pontos de referência estão marcados onto e filogeneticamente.
O nascimento do toxicômano pela ruptura e no interior desta, seu
desvio em relação ao equilíbrio ontogênico e filogênico, produz uma
turbulência na ação, cria seu próprio tempo e seu excesso fora da
natureza. Qualquer referência à ordem normal seria fatal pois impli­
caria um retorno ao equilíbrio, o que é impossível!
A clínica deve aqui evitar a realidade externa para melhor captar
e entender a realidade interna na qual, além do combate entre o
orgânico o inorgânico (o produto com sistema nervoso, o produto
com o mediador químico etc.), dá-se outro: o da memória e, mais
especificamente, o da memória do prazer organizado em um ima­
ginário em ação, e o do orgânico cuja tendência seria esgotar, tornar
banal este imaginário em ação (este último podendo episodicamente
vencer).
Mesmo que tenhamos falado em falta, até agora não abrimos
espaço neste combate para a dependência. Ou, para sermos mais
exatos, não vimos ainda como esta se constitui nem como ela se
mantém. Poderemos então em seguida colocar a questão de qual o
espaço psíquico por ela preenchido.
A dependência psíquica constitui a ponte imaginária, cujos arco-
botantes são os mecanismos da dependência física. A dependência
é um fluxo que, através da lembrança do efeito de preenchimento
da droga, permite ao indivíduo não desmoronar frente ao vazio
psíquico da entre-ruptura. É a forma resistente e diminuída do
imaginário em ação de que falávamos. Na dependência a relação
ao prazer está invertida, mas isto não significa que esta inversão
anule o prazer; este existe, só que em negativo (é o tributo pago
23
ao masoquismo e à culpabilidade por não se ter podido ou sabido
realizar a própria identidade).
A dependência é uma espécie de alucinação negativa e igual­
mente uma mobilização do imaginário — um fenômeno tanto ativo
quanto passivo. Ela leva a um outro tipo de conhecimento do
corpo e do orgânico, complementa a totalidade sexual em seu com­
ponente masoquista. Neste ponto, a dependência é, também, uma
luta contra o uso costumeiro, a habituação, a banalização. Porém,
ao remeter à identidade impossível, ela se situa em oposição com
um modelo narcísico de imagem de si. A cada instante ela marca
e esconde esta personalidade do toxicômano que não é redutível
nem a uma personalidade psicótica, nem a uma neurótica, e nem
mesmo a um daqueles estados limítrofes tão bem descritos por
Jean Bergeret. Esta personalidade, sua relação com uma organização
estrutural qualquer, não são concebíveis e, portanto, só podem ser
definidas como uma dinâmica em ação: os “entrepercebidos” de
aspecto psicótico, neurótico, perverso, maníaco-depressivo ou de
qualquer outro tipo, não passam de patamares de ordem instável
no meio de um turbulência muito mais complexa.
Precisamos nos acostumar com a idéia: trata-se de uma clínica
do movimento.
Queremos ressaltar que, quando nos referimos ao toxicômano, é
apenas por uma necessidade da exposição; longe de nós a idéia
de que exista um tipo de toxicômano, assim como para Freud
existe um tipo narcísico. Muito menos um toxicômano típico! O
que vemos são alianças a longo prazo a partir de conflitos arcaicos,
que remontam, na maioria das vezes, ao estágio pré-genital, entre
alguns componentes das defesas psíquicas do indivíduo (elas pró­
prias fabricadas por constelações familiares diversas), e os elementos
trazidos de fora e dominados pela droga. Vemos ainda alianças a
curto prazo entre estes mesmos componentes, ou outros, e os efeitos
da droga, mas também as posições ideológicas e culturais e a si­
tuação social.
Tais alianças podem, num dado momento, organizar-se de um
modo psicótico, neurótico, perverso etc. Mas elas também se desor­
ganizam, para logo se reorganizarem em outro lugar, frente a qual­
quer novo obstáculo. Prova disto são as notáveis variações da vida
sexual objetiva, fantasmada e sublimada dos toxicômanos, que pas­
sam de um estágio agenital para uma homossexualidade ou uma
heterossexualidade, ou vice-versa, que gozam quase molecularmente
ou celularmente em seus "baratos” para, novamente, em seguida,
24
anularem todo desejo sexual, ainda que a autopenetração pela se­
ringa represente claramente mais que um símbolo e que a freqüência
e o significado da masturbação aumentem consideravelmente.
Neste contexto, não devemos separar a dependência da intole­
rância às frustrações. Frustrações que no toxicômano são tão agudas
que ele já pode ser definido como aquele que quer “tudo, já”. A
intolerância às frustrações não é constitucional. Também ela nasce
da ruptura e pela ruptura, é uma constante, como depender da
anulação das lacunas deixadas pelos pedaços de espelho quebrado.
Não provém de alguma debilidade constitucional e sim de um
“adquirido”. Um pouco à maneira de uma bomba aspirante, à
procura de uma volta ao equilíbrio, custe o que custar, em busca
de uma homeostase, é uma tentativa de reparação, um processo
ativo da economia do indivíduo, mas que é incapaz de reparar a
ruptura. Neste ponto, a intolerância às frustrações não é nem “nur-
ture” nem “nature”. A homeostase é impossível — daí o sintoma,
daí a clínica. O que significa ainda que, após cada tentativa, não
há volta possível ao statu quo ante. Só evolução, só modificação.
E e preciso levar em conta este deslocamento, esta ausência de
fechamento exato, pois servem para explicar a somação da habi­
tuação com a diminuição dos efeitos da droga.
Apesar da tentativa — tantas vezes repetida — do toxicômano em
introduzir o ciclo, o “high” e o “down”, este ciclo não é jamais idên­
tico em si. Tudo está compreendido neste estável e instável ao mes­
mo tempo, neste ciclo inclinado cujo declive e ângulo tornam-se
objetos do estudo clínico, ao invés do que ocorre classicamente, quan­
do o ciclo em si é o objeto estudado (nisto, o toxicômano difere do
paciente maníaco-depressivo). Isto equivale a dizer que, não se tra­
tando apenas de uma sensibilização aos efeitos da droga, a depen­
dência não pode tampouco ser reduzida a um fenômeno de condi­
cionamento passivo ou associativo, e deve ser vista, como já disse­
mos anteriormente, como tentativa de reconstituir o ciclo, a unidade
da própria pessoa.
A dependência não é um aprendizado, pois, ao contrário do que
querem alguns, ela não é idêntica a si mesma a cada momento (como
todo fenômeno imaginativo); ela se transforma em seguimento, um
“após” tanto quanto um “durante”. Não respeita nem as leis do
condicionamento nem as da ontologia; é, também, estável e instável.
Ser dependente é não estar morto, não estar vazio; é melhor ser
parasita do que se viver como não ser.
25
Tocamos aqui em algo do voluntarismo da toxicomania. Voluntu­
rismo este que, como disse François Perrier a respeito do alcoolismo,
se constrói ao mesmo tempo com e sem o conhecimento do inte­
ressado. O voluntarismo da dependência reintroduz, reinjeta um
‘Tempo” quase normal (ou que pode ser percebido como tal), aí onde
só existiam a instantaneidade, o “já-quase-quase não mais”. A depen­
dência faz surgir um estado; no sofrimento, é verdade, mas um sofri­
mento consciente. Quer dizer, finalmente na consciência de si —
enorme, maciça — , como o perverso que precisa ser chicoteado para
sentir uma emoção, um prazer. Preserva, pelo simples fato de exis­
tir, contra a morte ou ao menos contra a angústia da morte.
A dependência é como um enxerto: a estrutura básica da perso­
nalidade vai modificar sua estabilidade para chegar, ainda que tem­
porariamente, a uma outra estrutura. Daí as aparentes variações da
nosografia. Mas este enxerto, também ele é móvel, variável, inade­
quado a si mesmo, não fosse pelo fato de que ele depende de uma
substância inerte, fazendo com que se passe de um arranjo estrutural
para outro etc. Que se passe da primazia do princípio do prazer e
do narcisismo, para a questão centrada no registro genital e no prin­
cípio de realidade.
Certamente nós perderíamos se tentássemos raciocinar em termos
de estruturas e de tópicos; seria como, em economia, querer persis­
tir em raciocinar nos termos da economia marxista ou socialista.
Mesmo se nos considerássemos clínicos psicogeneticistas, um tal pres­
suposto implicaria quase em uma marca gênica. Pelo contrário, nosso
propósito será o de reintroduzir constantemente a telescopagem, a
fusão, o clinâmen, de nos habituarmos a um raciocínio fluido frente
a fenômenos fluidos — o clinâmen* em relação à normalidade. A
este respeito, Jean Bergeret lembra que a palavra latina “norma” cor­
responde ao esquadro do arquiteto. Este precisa de um esquadro para
constatar o declive; e Michel Serres, depois de Lucrécio, insiste sobre
o fato de que o clinâmen é mínimo, é a instância, o desvio do equi­
líbrio. Sem ele, não há clínica, pois não há uma clínica do imóvel,
nem tampouco do equilíbrio. A existência da clínica só pode ser
temporária e relacional. Temporária, pois descreve momentos de
passe; relacional, pois lida com a relação de si consigo mesmo, do
sintoma consigo mesmo, e de tudo isto com o terapeuta e o teórico.
O que a clínica deve descrever não tem nenhuma relação de equi­
valência. Todo passe, mesmo repetitivo, é único e inédito. O que vai

* Clinâmen — Desvio dos átomos da linha vertical.


26
permitir falar do toxicômano em geral são estas referências como o
movimento, a “tendência à”, a “passagem para”. Voltaremos a este
tema mais demoradamente adiante, quando descrevermos a ruptura
e o espelho quebrado; falaremos deste passe da ruptura, que é
comum a um e outro, e veremos que o que se vê para cada um no
espelho, e os olhos que o vêem e aqueles que ali se vêem não têm
evidentemente nada de equivalente.
Diz Michel Serres que “os sábios prevêem a hora do eclipse mas
mas não sabem se poderão vê-lo”. É exatamente o que ocorre com
o movimento e os passes da economia psíquica e libidinal do toxicô­
mano. Do que sabemos de sua infância, dos choques em ondas do
sistema familiar, podemos induzir a sua futura relação com a lei, com
a moral social e familiar, com a lei imaginária (por exemplo uma
extrema incapacidade para resistir às frustrações). Porém, sempre
nos surpreendemos quando esses fenômenos se confirmam, por mais
que (na qualidade de clínicos de verdade) os tenhamos previsto. Isto
porque ainda estamos impregnados pela idéia antiga tanto de lei
quanto de ordem. Aspiramos ainda hoje a uma determinação exata,
ou melhor, a uma determinação rigorosa. Neste campo a psicanálise
persegue a genética. Ora, o passe, o movimento de que falávamos é
onde se dá a desordem, o “acaso local”, o “informe”. Citando nova­
mente Michel Serres: “trata-se aqui, fundamentalmente, do tempo
de um outro tempo”.
Na ausência do tempo, todas as clínicas tornam-se falsas. Min-
kowsky já nos tinha prevenido, com seu conceito de “tempo vivido”.
É o tempo que assina o acaso e o incontrolável, a instantaneidade e
o infinito. O tempo não é um sistema fechado, ele é e já não é mais.
É futuro, é lembrança, logo imaginário e memória. Mas antes de mais
nada o tempo é fluido. Ele imprime fluidez ao evento psíquico —
sem o tempo, este converte-se em monólito e com o tempo torna-se
meteoro. Evento temporal também muda de espaço, desconcentra-se,
esvai-se em todos os sentidos. O evento psíquico deixa de estar em
ordem e de ser ordenado, faz-se caos, deixa de ser inteligível a não
ser que se decifre o caos. A clínica transforma-se no equivalente do
braile para a escrita. A referência última deste braile é que, por
mais caótica, por mais dimensão temporal que possa ser, a vida
psíquica também não pode existir sem sistema, e antes de tudo sem
sistema nervoso. Não há evento psíquico sem constrição, sem rela­
ção constante com a economia dos sistemas.
Mas o essencial aqui, a grande novidade, consiste em serem esses
sistemas porosos, modificáveis por este fluxo temporal, transforma-
27
dos eles mesmos em fluxo. Cada sistema em seu funcionamento é
entregue ao operador tempo. Este atomiza-o e globaliza-o ao mesmo
tempo. O homem comum não se deixa enganar a este respeito, e
fala de “exaltação” dos sentidos. Todo sistema tem um ritmo próprio
de funcionamento, é verdade, mas é também centro de tempestades.
O sistema escapa, transforma-se, não é imutável. Isto já era sabido;
falava-se em morte dos neurônios, envelhecimento do sistema ner­
voso, mas como se fosse a longo prazo, ao infinito. Quando na ver­
dade são fenômenos que devemos levar em conta assim que o evento
psíquico e sua tradução sintomatológica se produzem. O evento (bem
como os sistemas) é estável por certo, mas apenas por um momento,
que ainda por cima é testemunha de sua diluição. Já é o fim do
“flash”, a morte do “planeta”. Michel Serres constata, referindo-se
ao corpo, que “sistema aberto é a sede de uma troca de fluxos”.
São fluxos de alimentação (boa ou má, real ou imaginária), de eros,
de percepção (boa ou má, real ou imaginária) e de informações
(intelectuais ou infra-intelectuais). E a partir desta hipercomplexidade
vão surgir — pelo tempo e no interior deste — outros fluxos que
poderão ser sintomas e dores; somente a morte é o limite temporal
da aventura. Porém, mais ainda que para os outros, a aventura do
toxicômano baseia-se numa experiência pessoal e voluntária. Esta
experiência é intransmissível — até mesmo para o clínico. Simples­
mente, aquele que passou por ela pode resgatar alguns elementos e
comunicá-los parcialmente a alguém — ao clínico. A partir daí este
último descobrirá um possível caminho a ser percorrido. Daí, entre
outras coisas, a necessidade absoluta de uma abertura fenomenoló-
gica na clínica dos toxicômanos.
A descrição desta experiência toxicomaníaca abre um leque mais
rico que a própria experiência (ainda que não a contenha absoluta­
mente), pois só o clínico é capaz de associá-la a outras experiências
(inclusive as suas próprias) a outros tipos de saber, a um conheci­
mento.
Cabe então exclusivamente ao clínico, mais que ao toxicômano,
ao filósofo ou a quem quer que seja, construir hoje sistemas abertos,
modelos complexos, estáveis e instáveis, que passem do inerte ao
que tem vida. Complexos e abertos no interior do tempo e pelo
tempo: são essas as condições que definem sua formação. Quaisquer
outros modelos não passariam de arcaísmos ou abstrações.
Estes modelos complexos e abertos devem ainda supor que uma
adaptação às condições externas e internas da realidade do indivíduo
seja possível. O problema é que, como já vimos, a velocidade da
28
mudança, nas condições externas e também nas internas, deve ser
levada em conta no caso dó toxicômano, o que é novidade para a
clínica. Costuma ocorrer uma confusão nosográfica que surpreende
todo clínico: o mesmo indivíduo, no decorrer de um tratamento, le­
vado a efeito com um mínimo de seriedade, poderá aparecer para o
clínico, alternada ou sucessivamente, sob uma máscara psicótica, neu­
rótica, perversa etc. E até mesmo sob uma máscara normal! Acres-
cente-se a esta confusão o fato que o clínico, em sua busca de
clareza, tenderá a ver aí apenas o efeito da droga ou, pelo contrário,
apenas a espontaneidade do indivíduo.
Ora, é fácil compreender que um indivíduo possa ser e parecer
“normal” caso haja adaptação favorável aos efeitos da droga — ainda
que momentaneamente — , adaptação esta que produz, por assim
dizer, um “equilíbrio superior” a tudo aquilo que o indivíduo havia
sentido até então em relação às condições externas e internas de sua
própria realidade. A normalidade, então, não passa do reflexo da
vivência do indivíduo em relação a seus conflitos e a suas pulsões, e
em sua estimativa do tempo vivido — ainda mais que ele excluiu
a angústia. Esta normalidade não tem nada a ver com um comporta­
mento normal, nem com o que poderíamos chamar de “estrutura”
normal. Não tem nada a ver com o estado de “barato”, que é um
exagero megalomaníaco ou maníaco dos desejos e conflitos do indi­
víduo. É, como na justiça social, a reinvindicação de um direito pelo
qual todos os seres lutam arduamente — o direito ao bem-estar do
indivíduo, o direito a não se sentir mal; pois, sobretudo no caso do
toxicômano, é absolutamente necessária a introdução desta conotação
voluntarista na clínica (mesmo que as motivações sejam em parte
condicionadas pelo inconsciente). Não podemos simplesmente tradu­
zir de um modo mecanicista os “acting out” que marcam sua vida.
No entanto, o que é constantemente buscado aqui não é uma adequa­
ção à norma dos outros, mesmo à alguma norma psíquica, ou à do
psicoterapeuta. O toxicômano busca a adequação a uma forma de
bem-estar na qual a memória do prazer tem um papel essencial. Uma
tal procura de bem-estar reúne uma revelação que se deve aos efei­
tos da droga, um esforço para achar uma certa poesia íntima longe
da racionalidade lógica — mesmo que patológica, uma conformidade
com a lei externa e interna — real e imaginária. Este bem-estar de­
verá de alguma maneira seguir o modelo de uma certa tradição trans­
mitida pelo meio social, pela família, em relação à qual o toxicômano
sente-se ao mesmo tempo nostálgico e revoltado, mas que é o cami­
nho para a busca de sua identidade. Vemos então claramente o para­
29
doxo do terapeuta, que deverá tratar de uma personalidade ao mes­
mo tempo patológica e absolutamente não patológica, mas que cm
certos momentos mostra-se quase ideal, ate mesmo idílica. 1estamos
aqui confrontados com uma verdadeira transformação de “natureza”.
Voltamos à ordem e à desordem, ou melhor, aos princípios de
organização e desorganização, de movimento. Mas não há nisto nada
de anticientífico, pelo contrário! Deste modo, mesmo do ponto de
vista da anatomia, na organização celular do cérebro, a ordem coexis­
te com a desordem. Assim, todo o sistema nervoso central é a sede
permanente de fenômenos “on-off”, e o próprio potencial das mem­
branas está em estado de equilíbrio instável e ativo. Só que, aqui,
esta mobilidade refere-se, para o mesmo indivíduo e no mesmo mo­
mento, ao "normal” e ao patológico, ao sofrimento e ao bem-estar.
Obviamente não se trata em nenhum caso de incerteza nem de
jogo de azar, e já mencionamos os limites e as pressões de ordem
ontológica e filogênica, ou ainda as constrições inerentes ao estatuto
no interior do sistema familiar. Existe um sentido na ordem do fluxo
e do turbilhão. Mas o que queremos ressaltar é que, até hoje, por
falta de instrumento, a ordem e o sentido do fluxo foram privilegia­
dos em detrimento do explosivo e do turbilhão.
Para esquematizar e ilustrar este propósito, podemos comparar
estas pressões e limites com circuitos primitivos como, por exemplo,
o reflexo monossináptico que permite que alguns animais terrestres
se adaptem ao meio ambiente; afinal, para uma cabra das montanhas
o menor passo em falso pode ser fatal. Tais circuitos podem ser
comparados com sistemas reflexos de alta segurança, sem os quais
toda vida seria impossível — permitem o equilíbrio aparente que,
por sua vez, constitui um referencial familiar ao terapeuta clássico.
São eles que nos dão a ilusão de Organização cristalizada, tão im­
portante para Freud. Esta estruturação é ao mesmo tempo verdadei­
ra e falsa; verdadeira, pois é inegável, tanto quanto o é o desenvol­
vimento de um embrião; falsa, porque macroscópica, porque seu
modelo é em suma anatômico, ou fisicamente ligado à mecânica dos
sólidos.
Em nome deste modelo ela se diz irreversível (assim, fala-se em
"estrutura psicótica”). Os efeitos da droga nos ensinam que, por um
lado, todo sistema nervoso é poroso, fugidio, e, por outro, que ele é
objeto de transformações microscópicas ou macroscópicas lentas ou
brutais, evidentes ou invisíveis; que ocorrem assim mudanças de
linhas estruturais, e que apenas o caráter ainda arcaico das drogas
30
à disposição dos toxicômanos limita estas mudanças e promove uma
aparente volta ao statu quo ante.
Dissemos volta aparente pois, aconteça o que acontecer, o efeito
da droga, inicial e iniciático, marca a mudança. Assim como aparen­
temente a terra contém a água, e como o ventre materno aparente­
mente contém a criança para a eternidade.
Mas, inevitavelmente, o sistema vai em direção à sua desagregação
final. E mesmo se a todo instante o psiquismo está mergulhado no
evento, o fenômeno que mais acontece — e que sempre tentamos
anular — é justamente esta desagregação Afinal — a morte, presença
constante. Nesses sistemas que fogem em sua direção, o final dos
efeitos da droga não significa (assim como o “high” também não)
serenidade, calma, nem equilíbrio pleno. Exprime todas as relações
possíveis entre o mais alto e o mais afastado da morte e a angústia
da queda, o terror da morte. “High” e “down”, picos espetaculares
do mesmo movimento, do mesmo caminho. . .
Uma estimativa global dos sistemas transmite um sentimento de
equilíbrio onde fluxos e turbilhões surgem como sistemas alternati­
vos. Considerados isoladamente, é o tumulto — só o desdobramento
no tempo pode devolver o que pertence a cada um, e o conjunto en­
tão permite o estabelecimento de um modelo, permite a teoria. A de­
sordem perpetua-se através da manutenção de certos estados ao redor
de pontos sólidos — pontos, e não estruturas; aliás, são mais nós do
que pontos. Nós fabricados pela história e na história do indivíduo,
pelo movimento vital, indivíduo e colétivo. Pontos de maiores resis­
tências, mas nunca de resistências definitivas, pois há morte e corrida
para a morte, e a organização de tal ou qual estado de coisas não
poderia impedi-la.
A unidade da vida do toxicômano está justamente, mais que para
qualquer outra pessoa, na complementaridade destas duas forças: a
organização e a desordem, o turbilhão e o nó. Sem esta complemen­
taridade, o indivíduo não seria toxicômano, seria louco. Estas duas
forças jamais chegam a se destruir mutuamente. O toxicômano vive
no meio da tensão, ele luta primeiro contra si mesmo, sua falta de
identidade, e depois para encontrar sua realização no bem-estar, no
não-sofrimento, na não-infelicidade.
Isto implica uma crítica de noções, tais como “traumatismo ini­
cial”, no sentido estático do termo, para substituí-la não por um es­
gotamento funcional e adaptativo do ego, mas, ao contrário, por uma
mudança de formas de lutas funcionais e adaptativas do ego. Não
há defesa contra as excitações, como queria Freud (“Além do princí­
31
pio do prazer”), mas, ao contrário, há uma incorporação contínua
das excitações — verdadeira bulimia de incorporação, verdadeira
somação — e, como corolário, o esgotamento dos efeitos. Esgotamen­
to este tão bem registrado na memória que ele é reconhecido e identi­
ficado, infelizmente, junto com o esgotamento dos efeitos da droga,
para reconduzir o indivíduo ao seu destino inexorável. Notemos por
outro lado que o indivíduo só vai “precisar” se tornar toxicômano
apartir do momento em que o esgotamento dos efeitos das excitações
“naturais” estiver consumado. O que significa que a um não-esgota­
mento total podem corresponder graus de tomada de tóxicos não
toxicomaníacos.
É neste consumo bulímico de excitações que se inscreve toda a
paranosografia clínica abordada neste livro. Sobretudo o caráter apa­
rentemente perverso que tem, para o observador, o pré-toxicômano
e, em seguida, o toxicômano de fato, quando o consumo bulímico de
excitações vai cada vez mais se inscrevendo naquele “tudo, já” que
o caracteriza. Veremos adiante (cf. A infância do toxicômano) como
este hiperconsumo se traduz por uma verdadeira pressão lúdica e uma
masturbação exacerbada. Basta, por enquanto, mencionar seu caráter
maciço, desproporcional, sem possibilidade (ou com uma possibili­
dade mínima) de assumir uma lei real ou imaginária de maneira du-
doura, e, conseqüentemente, a rapidez das transformações do indi­
víduo e de seus “acting-out”. As transformações sucessivas e estu­
pendas daquilo que os autores clássicos chamam de “categorias
estruturais” vão surgir a partir da manipulação dos pontos nodais
pelas correntes da ordem, da coexistência permanente e dinâmica des­
tes conflitos. Assistimos, então, como em uma guerra, a movimentos
de recuo (e falamos em regressão), a retornos a posições previamente
conquistadas, a uma coexistência dinâmica entre o arcaísmo patoló­
gico e a normalidade. A única coisa que permanece é a nostalgia
daquilo que foi, e daquilo que foi entrepercebido — o “poder ser”,
que nós conhecemos como estágio do espelho quebrado.
Daí surgirem novamente, na nossa paranosografia, elementos de
linha psicótica com tentação de realização alucinatória de desejos.
Devemos acrescentar, no entanto, que esses elementos não são nem
mais estáveis e nem mais definitivos (salvo algumas exceções devido,
na maioria das vezes, ao acaso quando verdadeiros psicóticos fazem
uso de tóxicos visando à obtenção de uma cobertura social) que
outros elementos paranosográficos encontrados com freqüência no
toxicômano.
32
Somos obrigados a aceitar como premissa o fato de que no que
concerne as estruturas (ou tópicos) estamos em um terreno topografi-
camente confuso. A partir de mensagens provenientes de vários do­
mínios, existem diferentes tipos de condutas psíquicas, culturais e
sociais. De preferências, em vez de estruturas, deveríamos falar aqui
em linhas abertas, já que o modus operandi do aparelho psíquico,
como o do sistema nervoso central, é multimodal muito mais que
específico. Se o aparelho psíquico não tivesse acumulado previamen­
te, a grosso modo, elementos referenciais que atuam como mecanis­
mos precisos, ele só receberia ruído. O que remete às estruturas
tradicionais depende de mecanismos reguladores, cuja arma principal
é, antes da adaptação, a memória. Existem evidentemente muitas
nuances nos graus de memória, sendo algumas referências adaptati-
vas, e outras desadaptativas. Mas é preciso que elas existam, senão
haveria apenas o instinto de morte e o caos.
O que temos que descrever aqui, entretanto, tem mais a ver com
uma singularidade em movimento, uma singularidade nascendo a
cada instante. A clínica se faz clínica contra a razão acabada; contra
o equilíbrio, isso nós já sabíamos, mas também contra o equilíbrio
no mal, e isso não sabíamos tanto.
A exceção aqui torna-se regra. Passamos do normal ao patológico,
do patológico ao normal sem que nenhum limite possa ser claramente
traçado, o que seria evidente não fosse a rapidez, e até mesmo a
colisão no tempo destes fenômenos. Costumamos afirmar, por exem­
plo, que o toxicômano é incapaz de assumir qualquer culpabilidade.
Ora, quem mais que ele vive a culpabilidade no “down” dos efeitos
da droga, na alucinação mortífera do LSD, na grande culpabilidade-
suicida da “descida” por anfetaminas? E quem a vive menos, efetiva­
mente, que ele no “high” dos efeitos da droga, na certeza de ver
Deus face a face proporcionada pelo LSD, na apoteose intelectual dos
efeitos positivos das anfetaminas? Teremos a ousadia de sustentar
que se trata apenas dos efeitos da droga? Ou reconheceremos que a
droga não é senão o agente que libera, explode e expõe aquilo que
vinha se desenvolvendo, invisível e indizível no interior do indivíduo?
Nestas condições, podemos então nos colocar a questão de saber
qual a relação com a realidade, ou pelo menos qual a avaliação do
real que um tal indivíduo pode ter. Como faz ele para viver, ou
para sobreviver com tamanhas mobilizações e desmobilizações alter­
nativas, sobretudo de angústia?
Assim como qualquer pessoa alucina o real a sua maneira, o toxi­
cômano alucina em ziguezague, com períodos nos quais ele o “in-
33
corpora” ao extremo, e outros nos quais ele o “recusa” ao máximo.
Um exemplo gritante do que acabamos de dizer está na homossexua­
lidade e heterossexualidade alternadas, das quais ele é o ator cons­
tante. Na homossexualidade, há recusa pelo rapaz do sexo feminino;
e na heterossexualidade, há super-investimento. E isto para o mesmo
indivíduo, praticamente nos mesmos períodos. E, quando esta alter­
nância não se produz adequadamente, quando há colisão, surge a
possibilidade de uma derrapagem psicótica, de uma queda para o
delírio. O que vem mais uma vez explicar a perplexidade do obser­
vador-clínico afeito às disciplinas psiquiátricas ou psicanalíticas.
A realidade e sua recusa só são apreendidas fragmentariamente.
O toxicômano faz seu próprio teatro, no qual o espectador, na maio­
ria das vezes constituído pela família, não consegue entender, pois
não vive na mesma realidade. Para o toxicômano, o sentido que ele
dá ao real é evolutivo num nível totalmente diferente que para o
espectador. Em certas circunstâncias, ambos se encontram na mesma
fase; em outras, não. O que cria inúmeros conflitos e mal-entendidos,
e vem reforçar os choques no interior do sistema familiar, ou social
etc. Daí os rearranjos constantes nos lugares ocupados no interior
dos sistemas: entre angústia e culpa, quando há aproximação de iden­
tidade, e recusa de culpa quando há afastamento.
Determinadas situações vividas tornam-se francamente insuportá­
veis quando para as pessoas em volta essas mesmas situações pare­
cem benignas, e vice-versa. Assim, traumatismos aparentemente im­
portantes, como “recusas” ou acidentes graves, serão como que pas­
sados no liquidificador e banalizados. E outros, de ínfima importân­
cia (talvez porque no sentido freudiano são acompanhados por uma
pulsão sexual intensa e proibida), porém “recusados” pelo meio so­
cial e familiar, serão aqueles que darão uma orientação definitiva
para a vida do indivíduo.
As situações de crise não podem absolutamente ser identificadas
com referenciais padrão, e desafiam qualquer tipo de estudo a não
ser a leitura paciente de uma verdadeira fenomenologia — ao mesmo
tempo do comportamento voluntário e involuntário, e do imaginário
induzido pela droga e pela ausência deste. Somente descrições pa­
cientes da experiência são passíveis de destacar idéias e linhas de
força, pois a desordem torna-se laminar, assim como no sistema
nervoso central a quantidade de informações traça vias aparentemen­
te na anatômicas, na substância medular reticulada. Em clínica não
existe perspectiva abstrata, os únicos referenciais são os da expe­
riência. Não há, e nem pode haver, linha geral que não seja redutiva.
34
E se o clínico deve ter esta redução constantemente presente, sobre­
tudo no nível da terapia, é para não usá-la (a exemplo do que ocorre
com freqüência) como referente dogmático ou como ritual exorcista.
A este propósito, podemos citar, invertendo-a, uma frase de Ba-
chalard: “A clínica deve hoje, para ser verdadeira, se contentar
com o “como fenomenológico” em vez de procurar o “porquê mate­
mático”. Substituindo a palavra “matemático” por psicanalítico ou
genético, ou por psicogenético, teremos a chave que abre a porta
para uma clínica do toxicômano. Mesmo quando a experiência feno-
menológica contradiz a experiência comum, que é a da ciência, da
psiquiatria e da psicanálise, temos aqui o que constitui, hoje, o pri­
meiro passo indispensável, pois a realidade vivida pelo toxicômano
já foi atravancada demais por todo um lixo ideológico unicamente
voltado para sua vida no meio familiar e social.
Podemos afirmar desde já que esta concepção nos parece mani­
festamente arcaica e que haverá necessidade de melhorá-la e de
teorizar. Porém, antes de compor é preciso decompor; é urgente que
se verifique e que se retifique.
Com efeito, a observação é a única capaz de evidenciar uma carac­
terística constante, presente em todo toxicômano, a saber: um ele­
mento escondido, um potencial feminino em cada ser masculino e,
em cada ser feminino, um elemento escondido, um potencial mas­
culino. A virtual androginia, evitada, temida, mas também apaixo­
nadamente buscada, transforma-se no elemento essencial para a
compreensão desta singularidade em ação que é o toxicômano. Já
a conhecíamos através da biologia, estava incluída na patologia da
psiquiatria, a psicanálise a reduzia.
A androginia é um fator motor essencial para esta procura hedo­
nista apaixonada desde a pré-adolescência, para este desejo de auto-
penetração representado pela seringa. Todos aqueles que viveram em
alguma instituição para toxicômanos, certamente ficaram impressio­
nados pela constante evolução em direção ao travestismo mesmo
dos rapazes mais machistas. Reduzir esta androginia ao domínio das
pulsões, quando ela é alucinada na própria realidade graças à droga
— e isto de um modo tão penetrante que todas as estrelas do “rock”
ousaram ser andróginos no palco (David Bowie, Mike Jaegger, Alice
Cooper etc.) — , é calar e conseqüentemente deformar, mentir sobre
um ponto essencial. Enquanto a androginia não passava de uma
parte de uma concepção teórica, podíamos nos contentar com isto.
Mas agora que sua expressão concreta nos é constantemente mostra­
da pela experiência clínica em suas modificações evidentes, não pode-
35
mos construir mais nada sem colocar a questão do como desta ex­
pressão concreta.
Este lugar excluído é, também, o centro da mistura muito confusa
entre aquilo que é reversível e aquilo que não o é, e diante do
qual tudo ainda está por ser decifrado. E é testemunha de uma
característica do genital que a psicanálise não nos permitia prever.
Esta lacuna não é só passiva; é preciso deixar bem claro que aquele
lado escondido que mencionamos acima deixa de ser escondido, re­
primido, culpabilizado, e passa a ser incorporado, até mesmo magni­
ficado. Isto porque ele foi alucinado no imaginário e, enquanto tal,
fisicamente experimentado, literalmente, por todos os poros da pele,
por todas as células do corpo. A droga torna possível — de maneira
efêmera, é verdade, mas definitiva para a memória do indivíduo —
aquela unidade que é a meta de todas as grandes religiões, desde o
judaísmo até o hinduísmo.
Depois destes exemplos podemos admitir que o racionalismo e
a abstração não podem influir sobre o que acontece aqui. Não há
lógica nem obrigatoriamente discurso do inconsciente no nível do
que é vivenciado, do que é experimentado afetivamente. Mais uma
vez estamos situados em dois planos e, com o recuo do tempo, sere­
mos obrigados a constantemente complementar um pelo outro. Po­
deremos então captar os mecanismos reguladores específicos que
atuam no toxicômano e permitem-lhe viver antes de seu encontro
com o produto, durante a “lua-de-mel” com a droga e, depois, quan­
do se anuncia o fim de tudo. E, para poder captá-los, admitiremos
de uma vez por todas que eles são flutuantes, que até mesmo as
pressões de que falamos não são rígidas, que se assemelham mais a
direções, encontros de forças, ondas arrebatadoras. Já concordamos
com Michel Serres quando de seus comentários sobre o texto de
Lucrécio: o fato das coisas surgirem precisamente sob a forma de
simulacros não deve nos espantar. Sobretudo simulacros de norma­
lidade ou de patologia, pois o indivíduo busca, com seus ritmos
próprios, estabelecer equilíbrios que sejam compatíveis com os sis­
temas nos quais ele vive. Portanto, também não devemos nos sur­
preender se estes simulacros impressionam por suas lacunas e insta­
bilidade. Não se trata de fuga diante da identidade, e sim da im­
possível busca de uma identidade também impossível.
Um destes mecanismos reguladores é a busca da unidade entre-
percebida no nível da ruptura inicial, unidade esta que o indivíduo
concebe ao mesmo tempo como extremamente angustiante e terri­
velmente demiúrgica. O que explica a exacerbação do narcismo do
36
indivíduo (ela também, em ziguezague). Narciso andrógino torna-se
o modelo ideal do ego. Porém, este mecanismo regulador é quase
que imediatamente contrariado pelo componente melancólico, natu­
ral ou induzido (o “down”), e isto anda mais porque a recompensa
é sempre seguida por uma punição objetiva.
Assim, como ao “high” sucede o “down”, a unidade impossível
sempre acompanha a identidade entrepercebida. Ainda por cima,
como corolário, observamos a intervenção, desta vez externa, de
outro mecanismo regulador: a tomada da droga e sua conseqüência,
que se torna o mecanismo regulador número um — a dependência.
Ela sozinha aparece como um modelo de identificação abstrato e
concreto, real e imaginário, imagem ou personalidade infra-somática
incorporada à memória do prazer e à do sofrimento. A dependên­
cia transforma-se numa entidade em si, uma “vesícula” próxima
do nucleus, que se incorpora a ele. Torna-se um outro ego, chega
até a substituir todo ideal do ego. Faz com que toda construção
narcísica recue. Mais ainda, ela é não somente um ego, mas tam­
bém um superego totalitário. E não se trata apenas de uma repe­
tição de necessidade, ou de uma necessidade de repetição. Trata-se,
entre outras coisas, do fim do medo de não ser amado, bonito,
desejável, o fim a culpabilidade, do fim de todas as frustrações.
Tá que se torna Deus, único, é o ideal, então a dependência é um
pouco como São Pedro, que tem nas mãos as chaves do Paraíso
ou de suas ante-salas. Constitui a única possibilidade de anulação
do outro, e também dos sistemas econômicos e libidinais, nos quais
o indivíduo está preso. Ela torna-se o outro e ao mesmo tempo é
reconhecida como parte de si. E esta parte incorporada faz com
que pareça menos ameaçadora, mesmo que seja tão ou mais devora­
dora que o outro — ainda que, por exemplo, a mãe castradora.
É agressão, mas também é proteção. Graças a ela todas as outras
ameaças são afastadas e a relação sadomasoquista perfeita pode
ocorrer. Se, de uma maneira evidente, a dependência restringe a
liberdade do homem, em um movimento contrário ela o exime de
toda uma série de medos, fantasmas e lacunas, de imagens parciais
que o acompanham desde a ruptura inicial. E se falamos em sado-
masoquismo não é por acaso — ela autoriza em si e por si, a
realização de pulsões que de outra maneira aterrorizam o indivíduo
quando são destinadas a outrem.
Assim, a dependência não é algo que simplesmente é imposto ao
indivíduo. Ela tem para ele um inegável atrativo, pois abre toda
uma perspectiva de vida, sobretudo na relação dominador-dominado,
37
possuidor-possuído que ele se torna integralmente, em si mesmo,
para si mesmo e através de si mesmo. Aqui também o prazer e a
dor têm a mesma fonte.
Frente a este papel ativo (e não mais apenas passivo) da depen­
dência, começamos a entreperceber uma parte do mistério de sua
criação psíquica, que podemos esquematizar da seguinte maneira:
síntese dos elementos que são úteis à parte incorporada no ego;
armazenamento das lembranças; liberação ativa quando da ação da
droga; liberação negativa quando a droga cessa de agir, com titi-
lamento dos receptores; finalmente, esgotamento e cessação da ação
quando o estoque não é suficiente e os receptores estão esgotados.
Fica evidente neste esquema — mais do que rudimentar — , que
outras substâncias, ou as mesmas em outras quantidades, no decor­
rer de outros fenômenos psíquicos, podem reforçar ou bloquear
estes mecanismos de dependência e sua expressão psicológica, so­
mática ou psicopatológica.
Tendo agora na dependência o melhor de si mesmo, o toxicô­
mano pode então, temporária e parcialmente, desligar-se da símile-
fusão que ele mantinha com sua mãe. E não há nada menos psicótico
que um toxicômano em “lua-de-mel” com a droga. Como já dissemos,
ele de alguma forma reencontra a liberdade, qualquer que seja o
preço a pagar. Compreendemos que ele ainda prefira isto aos dra­
mas que viveu e cuja única saída é o que chamamos de estágio do
excesso (cf. o capítulo sobre A infância do toxicômano). Porém
a falta, que constitui a chave da dependência, faz com que ele
veja a cada momento qual será o seu destino quando a dependência
não agir mais em seu papel regulador. Nesta hora, nem o narci­
sismo e nem a megalomania reativada no “high” serão suficientes.
Não poderá mais haver desejo da realidade interna. A droga atuará
somente como preenchedor de lacuna, e a conotação de prazer
desaparecerá. A realidade externa não poderá mais ser manipulada
satisfatoriamente, pois a memória estará presente. Por ter sido muito
solicitado, o imaginário em ação estará consideravelmente empo­
brecido. Para reagir contra o medo que o invade, o indivíduo vai
designar o outro como inimigo. É a fase da “paranóia” e do investi­
mento psicossomático que, por sua vez, vão assumir o papel —
doloroso — de mecanismos reguladores, ao qual retornaremos mais
adiante.
Enquanto isso, a angústia só se manifesta na perspectiva de não
ocorrência de renovação dos efeitos da droga, mesmo atenuados.
Certamente, a justificativa é acabar com a dor. Mas milhares de
38
produtos legais podem fazer isto. E, além do mais, o indivíduo sabe
perfeitamente que caso a droga não aja, ele voltará (e com que
acuidade!) ao estágio da ruptura do espelho, até poder novamente
preenchê-la pela droga, como se fosse cimento. E a cada injeção,
“o campo intermediário da ilusão”, como diz Winnicot, fica mais
restrito.
Este movimento no tempo, este acme da primeira sensação e
depois estes acmes degressivos (sem que a memória acompanhe esta
degressão), é o que devemos levar em conta para compreender, para
entender o porquê desta personalidade esmigalhada, em mil facetas,
para cada uma das quais reconhecemos uma identidade parcelar,
e o porquê desta dependência tanto positiva quanto negativa, e tão
desejada pelo indivíduo. Por isso não será nunca demais insistir
na especificidade da dependência humana, que não se assemelha
em nada ao condicionamento de um sistema de recompensas, caro
aos neurobioquímicos reducionistas, como Nahas ou Iversen, e que
é passível de reprodução nos animais.
A dependência não é o resultado daquilo que Roger Guillemine
afirmou a respeito dos mediadores químicos do sistema nervoso
central, ou seja, o resultado de “um oportunismo nos processos
evolutivos onde uma molécula encarregada de certa tarefa adaptar-
se-ia a uma outra tarefa em função da hora e do local”. Não, este
mecanismo é, na melhor das hipóteses, apenas o suporte bioquímico
de um mecanismo arcaico e também presente no animal, mas o
qual, pela especificidade do ser humano, se transformou em algo
totalmente diferente. São estas mesmas concepções reducionistas
que assemelham a esquizofrenia e distúrbios do metabolismo dos
neuropeptídios, ou então que procuram dar conta do comporta­
mento sexual do homem a partir de uma chave proveniente de
experimentações (injeção de peptídios no cérebro de uma ratazana
a fim de desencadear o comportamento sexual característico da
fêmea), analogia que é uma demonstração plena de desprezo pelo
Édipo e pelo imaginário!
Extremamente complexa é a relação entre a dependência e o
desejo que não é somente necessidade, e a percepção, que não é
apenas sensação. Não há aqui nenhuma neutralidade científica,
nenhuma experiência que se possa repetir quando se quer, a não
ser negando tanto o Édipo quanto o imaginário. O desejo é a
dependência, e a dependência é o desejo. A falta não é somente
dor passiva, é reevocação do paraíso perdido, alucinação do prazer
e do sonho; ela produz formas e imagens (qual o toxicômano que
39
não sonha, toda noite no hospital, com seu papelote de “pó”?).
Após ter desejado olhar para Deus face a face, o toxicômano, no
desejo da falta, se quer mais humano, em contato com a angústia
e com os sentidos — o tato, a visão, o olfato — , que ele recobra
enfraquecidos, porém humanos. A falta constitui sua possibilidade
de reintegrar a condição humana, da qual ele espera, no fundo, que
o preço a pagar não seja elevado demais.
Mas nem a condição divina e nem a condição humana são assim
facilmente acessíveis. Se há excesso, é porque há impossibilidade
em ambas as tentativas; a insuportável angústia de ser e de não-ser
é o que domina. O pano de fundo comum a todos os toxicômanos
é esta terrível angústia, permanente e difusa. Mas mesmo esta angús­
tia não é passiva; é motora, reguladora e, por sua vez, numa espécie
de “feedback” impele a recomeçar a busca do Divino e, em seguida,
da condição humana. Outro fundo comum é a possibilidade reite­
rada da repetição; frente a angústia e ao instinto de morte, há a
possibilidade, no início vitoriosa, pelo menos da volúpia, de um
saber sem culpa e do prazer. E se esta possibilidade existe, é que
há uma enorme diferença entre o toxicômano e outra pessoa qual­
quer: para o homem comum o imaginário, a alucinação, a vida alu­
cinada são linguagens de uma certa forma assépticas, sem graça.
Para aquele que faz uso da droga, o imaginário oferece realmente
algo a ser visto e contemplado. A droga é criadora não só de repre­
sentações abstratas, ela cria também imagens. Essas imagens cria­
das, armazenadas e restituídas quando solicitadas, gravitam em um
clima, uma atmosfera de prazer e de calor que por si só justificam
a vontade de viver, já que é possível tentar recuperá-las.
Este imaginário visual é mais imenso ainda, pois, não sendo
limitado pela culpa ou pela consciência do real, ele pode associar
os desejos e os fantasmas mais inconfessáveis, mais proibidos, quer
seja na ordem do sexual, do religioso ou do fantástico (sua tradução
patente está no enorme desenvolvimento da literatura, da pintura
e do cinema fantásticos, podendo o terapeuta-clínico praticamente
associar a tal ou qual obra o nome da droga que permitiu sua
criação).
Outra qualidade, e não das menores, deste imaginário visual está
em que ele se distingue do sonho. A qualidade da “lembrança”
do imaginário visual é radicalmente diferente da qualidade da “lem­
brança” do sonho. O imaginário visual não é apenas passivo, ele é
ativo, pode ser orientado pelo ambiente externo (sobretudo pela
música), e mais ainda pelo desejo do indivíduo. Sua conotação
40
voluntarista faz com que o indivíduo possa explorar visualmente
partes do seu psiquismo que são inabordáveis pelas outras pessoas.
Literalmente, a expressão “além do espelho” aplica-se a ele. Não é
raro ouvirmos descrições de visões de Deus ou da loucura, ou em
todo caso de uma transrealidade que normalmente rejeitamos com
terror. Este é, aliás, um dos fenômenos marcantes da clínica do
toxicômano, que é totalmente incompreensível para o psiquiatra —
esta nova relação com a alucinação, ainda ontem tão temida, e
que hoje é buscada e solicitada.
De fato, o fator complicador é que a verdadeira alucinação é
vivida, mesmo que de maneira intermitente, no campo da consciên­
cia. Ela é percebida pelo indivíduo como uma criação da droga
(e assim ouviremos: “não é nada, é só uma “bad trip”), e como
que se incorporando a ele. E isto ainda mais porque a alucinação é
constantemente manipulada pelo desejo. Por esta razão, ela pertence
ao mesmo tempo ao interno (um imaginário visual moral), e ao
externo; é preciso levantar os olhos para ver nas paredes todas as
formas que aí se constituem. Ou melhor, que o indivíduo aí cons­
titui, apelando para todos os seus desejos e fantasmas, e em pri­
meiro lugar, sem falsa vergonha, para todos os fantasmas de sua
infância de outro modo censurados. Ele alucina com os olhos do
espírito. Ao recriar, a alucinação permite evacuar. Ficamos sur­
presos, por exemplo, pela qualidade do material comunicado por
alguém que tenha tomado LSD ou anfetaminas: fornece, com uma
rapidez inimaginável, dados e associações que meses de psicanálise
não teriam desvendado. O imaginário visual através da alucinação
favorece uma outra forma de contato entre a realidade interna e a
externa, e modifica, por sua vez, a avaliação da realidade, como
já o fazia desde a ruptura, o fenômeno da identidade entrepercebida.
Sem esta possibilidade de reativação e de confronto, o toxicômano
está perdido. Esta auto-análise visual e erotizada tornou-se-lhe indis­
pensável para viver. Sem ela, a realidade fica triste, descorada,
dolorosa. O “eu quero parar, não consigo mais voar” não é aces­
sório, é fundamental; é urgente reintegrar-se na ordem dos outros,
do homem comum. Senão, a única escolha possível situa-se entre
a alternativa melancólica e o suicídio, pois a construção repetitiva
desta realidade interna, moldada pelo desejo, serve menos para re­
cusar a realidade externa (que na “lua-de-mel” não é vivida como
ameaçadora), do que para recusar a angústia do não-ser, da identi­
dade entrepercebida.
41
Enquanto para o observador inexperiente a linguagem do toxicô­
mano pode parecer pobre, sua vida fantasmática, nesta espécie de
pré-consciente, é de uma riqueza fabulosa (já mencionamos sua
expressão gráfica), mesmo se ela é marcada pelo aspecto apavorante
dos monstros da infância, ou pelo desejo masoquista de ser escravo
ou de apanhar, e compreendemos o apuro da psicanálise frente ao
tumulto deste “imago” em ação. Aqui não há em nenhum caso
negação, rejeição, recuo defensivo, ou perda de objeto fantasmático,
mas, pelo contrário, mobilização ativa de todos os entraves clássicos,
tudo que complica, enrijece a personalidade e a fixa em alguma
linhagem estrutural. Para o toxicômano não há imagens constran­
gedoras, não há censura. O corolário dç tudo isso, e que devemos
incorporar à clínica, é que o metabolismo deste material tão rico
só é possível nas condições do toxicômano e quando o resultado dos
efeitos da droga é favorável. Caso contrário, o toxicômano trans­
forma-se em enfermo da vida social e da vida relacional. Tudo o
que tinha sido afastado em benefício da maquinaria fantasmática
imaginária retorna, angustiante e ameaçador, e não pode mais ser
negado.
Novamente, então, estamos frente a esta situação singular de um
homem (ou uma mulher) que exteriormente vive a vida banal de
um ser qualquer, mas sabendo da possibilidade deste desvendamento
vivido e incorporado, em ação em todos os poros de sua pele. O
conflito permanente, a negação da realidade, só podem ser a resul­
tante de uma tal situação. Situação esta que é caracterizada por
um incessante jogo de vaivém, e pela procura de outro espelho
que não o espelho arcaico (real ou simbólico), ou de outros olhos
que não os do pai ou da mãe, vividos como ameaçadores. Situação
que, tirando a droga, só pode ser um lugar excluído, pois este só
pode alucinar prazeres reais e não uma utopia, mesmo fantasmada.
Somente a droga dá à alucinação o selo da realidade, somente ela
torna o real invisível.
A fórmula que poderia definir o toxicômano é inconcebível, em
todo caso irredutível às qualificações do behaviorismo comporta-
mental, às definições de uma psicanálise, por mais refinadas que
estas possam ser, bem como às de algum mecanismo neurobio-
químico. Nem por isso ela é misteriosa, ela é vida. E a vida não
se presta a um saber rigoroso e exato. É também desta impossibili­
dade que a clínica deve tratar. Esta vida, porém, é condicionada e
repeita limites (nem que seja o espaço-tempo entre o nascimento
e a morte) — ela tropeça em obstáculos. A clínica é também c
42
estudo da luta contra esses condicionamento que fazem sofrer, ou
da luta para vencer estes obstáculos e ultrapassar esses limites.
Dissemos “luta”, e é disto mesmo que se trata, luta pela liberdade
e pela dignidade do ser humano naquilo que o diferencia (e ainda
assim!) do animal, ou seja, que ele não concorda em aceitar o
condicionamento fatalista que o marca.
Se é verdade que todas as ciências humanas aceitam as noções de
luta e de conflito, notamos que geralmente elas as situam em alguma
parte do lado do inconsciente, do inframnésico, do competitivo, do
membranoso; costumam minimizar o voluntarismo (desde o salutar
repúdio ao dogmatismo religioso). A clínica do toxicômano é justa­
mente aquela em que o conflito se situa no interior e através do
voluntarismo. Não há somente uma situação objetiva com assépticas
incorporações objetais quaisquer; o que há, é uma sucessão de situa­
ções subjetivas as quais o homem procura enfrentar. E, em suas ten­
tativas, ocorrem modificações fugazes, lábeis, mais ou menos está­
veis ou quase permanentes, de todos os dados inatos ou adquiridos
do psiquismo. E sempre sobrará alguma coisa, visualizada e armaze­
nada na memória, pois como diz Michel Serres: “Sempre podemos
ir da coisa produzida às suas condições, mas nunca destas últimas à
coisa”. Todas as condições podem estar reunidas para que alguém se
torne um toxicômano, mas isto não vai acontecer sem o lado volun-
tarista da coisa. Neste ponto é que convém eliminar toda conotação
moral desta clínica. Certamente, o toxicômano é uma vítima, como
todo doente, porém não uma vítima inocente. Se para nós, enquanto
terapeutas, este fato não é muito importante, ele não pode, no en­
tanto, ser negado. O toxicômano toma suas disposições para sê-lo,
mesmo que qualquer um não possa tornar-se toxicômano. Assim,
como ele também toma suas disposições para assumir sua andro-
ginia, realiza uma sexualidade hétero e homossexual, fazendo suces­
sivas concessões ao travestismo. Frente à ferida narcísica inicial, o
voluntarismo evita a armadilha do recuo psicótico ou da dependência
afetiva. A regressão é desejada, orientada, jogada — é o “planeta”,
que lembra tanto o estatuto do feto no ventre da mãe mas que não
o é exatamente, pois no “planeta” o onirismo é consciente, cheio de
imagens, caloroso e orientado. E se o biológico é responsável em
parte pela repetição da necessidade, somente o voluntarismo cria a
necessidade de repetição.
Finalmente, o voluntarismo realiza concretamente o desejo sim­
bólico de incorporação do objeto, da penetração erótica de si por
si mesmo, çue é o gesto da injeção com a seringa. Este objeto real­
43
mente penetra em si mesmo. Este pó inerte transforma-se, através
da vontade, em vida e fonte de prazer. Depende do indivíduo para
que isto recomece, como também depende dele para que os trauma­
tismos que o marcam se reconstituam. Os inúmeros “acting-out” que
pontuam significativamente a vida do toxicômano levam o selo deste
voluntarismo. “Acting-out” estes que constituem tanto mensagens que
precisam ser decifradas, quanto afirmações de um “eu” amarrado
nas ratoeiras da incompreensão familiar, social e cultural. Mas são
igualmente “acting-out” psíquicos, pois o voluntarismo utiliza a droga
para uma experiência mais total do ser, em áreas onde a razão não
acrescenta nada e onde não podemos demonstrar coisa alguma. Uma
tal experiência mais total do ser só pode existir através da vontade
do indivíduo. Ninguém tem o poder, de provocá-la, anulá-la ou apa-
gá-la da memória, e menos ainda, a experiência não é jamais uma
necessidade de ordem lógica ou, em todo caso, nunca é indispensável
à sobrevivência. O voluntarismo não é nenhuma trapaça inventada
para sobreviver, criando uma divisão entre um imaginário idílico,
edêmico, e uma realidade negra e desesperadora. Não é tampouco
um efeito de óptica enganador, permitindo a negação da alienação
estrutural, é a tentativa prometéica de criar-se enquanto ser mutante,
modificar a ordem das coisas, perder ou ganhar. Até onde, até quan­
do? Eis a grande questão, e somos tentados a dizer que estamos
ainda na pré-história da coisa. Mas é na sua derrota que se joga a
necessidade de uma clínica, e igualmente talvez porque aqueles que
ousaram tentar a transgressão não tinham, se comparados ao homem
comum, muita coisa a perder ao tentá-la.
Afinal, quem é o toxicômano, este homem que escolhe ou a quem
é imposto um investimento psíquico e somático outro que sexuado,
este homem cuja existência não passa de caos e desordem, cuja rela­
ção com o real e o imaginário está totalmente modificada? Será ele
um gênio, uma espécie, um doente, um perverso, um mutante? Seu
corpo é igual ao dos outros homens e é sangue o que escorre da
seringa? Mas, é evidente, ele é diferente; não é apenas um homem
são que, subitamente, passa a apresentar os sintomas de alguma
doença, e nem um psicótico que de repente descompensa. Qualquer
que seja sua formação e sua orientação, o clínico fica completamente
desamparado ao aplicar seus princípios ao toxicômano. Caso siga
estes princípios, a relatividade degenera em relativismo: ocorre então
uma distorção, e a clínica não permanece inteiramente no domínio
dos fatos. Para que isto não aconteça, convém aplicar o “método em
buquê” das múltiplas descrições e explicações, e admitir que ainda
44
hoje não há nenhuma teoria acabada do que vem a ser um toxicô­
mano. Talvez precisamos começar a admitir que a economia do
toxicômano é, ao menos parcialmente, autogerida, já que as regras
da genética, da biologia ou da triangulação edípica são recolocadas
em questão pelo voluntarismo e pela droga. Esta economia é um
pouco como um albergue espanhol, ela encerra uma conjugação de
todos os elementos que quisermos encontrar, porém sua especifici­
dade reside nas conjugações destes elementos por uma sucessão de
equilíbrios e de desequilíbrios, na tentativa infinitamente repetida de
se subtrair a fatalidade da relação familiar e social.
O toxicômano não é um ser ameaçado em sua integridade psíquica
e física. Esta integridade — e é nisto que reside sua originalidade —
estilhaçou-se antes mesmo de poder se constituir e, concomitantemen­
te, nesta mesma instantaneidade, foi entrepercebida enquanto se cons­
tituindo (é o que denominamos de estágio do espelho quebrado). A
dependência em relação à mãe, por exemplo, já não é mais possível
da mesma maneira, pois participou e continua participando da ruptu­
ra e de sua manutenção, através das ondas de choques negativos que
ela transmite. A partir de então, o futuro toxicômano vai tentar
por todos os meios trocar esta dependência supertraumática por outra
dependência. Porém, esta busca da dependência, esta procura hedo­
nista, descrita desde a adolescência, não vai se orientar para uma
sublimação no imaginário (contrariamente aos outros homens, que
podem ter conhecido a mesma ruptura), ou para um ou outro clã,
e nem para uma busca permanente de algum suporte no outro. Esta
busca não precisa de sustento, não quer nenhum reasseguramento,
nenhum reconforto. Esta busca tem uma única exigência: a comple-
tude com o prazer, a completucle dentro do prazer c junto com este.
O feio, e aiiula mais, também o êxtase.
Não há aqui perda do objeto amoroso e, logo, não há melancolia;
não há tampouco impossibilidade de encontrar no objeto o amor
perdido, logo, não há depressão. Há outra coisa, mesmo que elemen­
tos melancólicos e depressivos estejam presentes em pequenas quan­
tidades. No voluntarismo do toxicômano, não encontramos apenas
defesas ou luta contra a angústia, vemos também esperança, procura,
utilização das funções do corpo e do espírito. Isto vem confirmar
as teses sobre educação de Korzybski: “Há ultrapassagem dos prin­
cípios da psicologia da forma através de uma educação sistemática
da deformação”. O espírito do toxicômano constitui-se de uma forma
tal que ele não precisa (pelo menos na fase de “lua-de-mel” com a
45
droga) escolher, por um lado, entre uma interpretação verdadeira e
útil, e uma falsa e nociva por outro. Ele pode escolher uma plurali­
dade de interpretações. Assim, qualquer bloqueio psíquico de origem
estrutural é para ele impossível. Isto constitui uma diferença substan­
cial com o “normal”, o “psicótico”, ou o “neurótico”; há pelo me­
nos uma tentativa de romper com o determinismo cerebral, e para
o toxicômano (assim como para Korzybski em relação ao cérebro
infantil), o cérebro é um organismo aberto, com funções psíquicas
abertas que não mais dependem exclusivamente de dados ontofilo-
gênicos fixos. Por essa razão, o clínico não pode continuar obcecado
com a idéia de uma cura do toxicômano. Sua função enquanto tera­
peuta deve consistir não em evacuar a identidade do toxicômano, e
sim em fazer face a situações fragmentárias de sofrimento;, e ele
deve então evacuar este sofrimento, porém tentando manter os dina­
mismos induzidos pelo voluntarismo e pela droga. Caso não proceda
desta maneira, o clínico é levado àquele impasse normativo que é o
apanágio de inúmeros centros de “tratamento” para toxicômano, onde
tudo o que há de essencial e de original em sua personalidade é
anulado, sobretudo sua tentativa inédita de criar uma linguagem
diferente da língua falada, capaz de traduzir estruturas variáveis: por
exemplo, a importância que tem para a vivência, aquilo que chamam
de “vibrações”, abrindo caminho a uma “conceituação aberta, livre,
arborescente” (Bachelard, in “A Filosofia do Não”).
O clínico deve, então, iniciar sua tarefa fazendo um levantamento
daquilo que é positivo e construtivo na nova organização mental do
toxicômano, e daquilo que é negativo e produz sofrimento. A toxico-
mania não é apenas derrota, pois a tomada de produtos tóxicos não
o é. As pessoas conhecidas como “usuários recreativos” das drogas
combinam com bastante facilidade uma inserção sócio-afetiva e uma
vivência libidinal satisfatórias com a tomada de produtos tóxicos,
que lhes trazem prazer e revelação. Sua diferença com os toxicôma­
nos está na dependência, porém já mostramos que a dependência,
específica do toxicômano, também não é apenas sinônimo de derro­
ta, é também uma produção ativa, um modo de estabelecer boas
relações com um ego até então em dificuldades. Notemos a este
respeito que não é praticamente nunca a toxicomania que é vivida
pelo indivíduo como derrota (quase sempre, ela é, pelo menos secre­
tamente, lastimada por ele), e sim as condições de sua manutenção
impossível — fim dos efeitos da droga, preço da heroína, problemas
judiciais ou sociais, e mais, quando o indivíduo fala mal da droga,
é sempre em referência à sua má qualidade.
46
Se quiser responder mais ou menos claramente a todas as questões
colocadas, o clínico deve começar pelas seguintes perguntas: como é
induzida a toxicomania?; por que razões ela se desenvolve em certos
meios e não em outros (o que limita bastante a única hipótese psico-
genética da toxicomania)?; como se constitui, desde o íntimo até o
macroscópico, o que é identificado como dependência?; como se dá
a passagem da não-dependência para a dependência?; como ocorrem
as disfunções psíquicas que criam a entidade toxicômana e, sobretu­
do, como se estabelecem as conexões entre essas diferenciações psí­
quicas, e entre elas e seu suporte biossomático? e, finalmente, como
termina a toxicomania e como tais conexões podem desaparecer?
Muitas destas questões e seus mecanismos de construção consti­
tuem, hoje em dia, enigmas para nós. A clínica das toxicomanias é
marcada pela história. O toxicômano, ao que parece, participa da na­
tureza e da história do homem, inclusive do homem doente. Parte da
natureza de que o homem toxicômano está doente, porém o toxicôma­
no tem em si e por si uma outra história e outra natureza. O indiví­
duo que se coloca em relação com a droga (e não existe toxicomania
sem droga, a respeito do que afirmam certos psiquiatras ou psicana­
listas) começa a obedecer a certos mandamentos que para ele tor­
nam-se absolutos. Estes mandamentos não são redutíveis a rituais
ou obsessões; constituem a chave que abre a porta para uma espécie
de sagrado e de segredo, que permitem que certos limites sejam
recuados. Ê um conhecimento inalienável, mesmo no sofrimento e
na dor. E marca, por sua vez, todas as atitudes, pensamentos e afe­
tos do toxicômano: relativiza o prazer da sexualidade genital, mini­
miza a solidão, apaga a angústia da morte, por um tempo limitado.
E é esta limitação do tempo vivido do toxicômano que determina o
atual estatuto arcaico da toxicomania, e fornece-nos as razões para
não aceitá-lo mais para não poder mais suportá-lo. Este entreperce-
bido mais bonito, mais pregnante, que o toxicômano fez por merecer
ao aceitar o seu estatuto de drogado, quando deixa de ser operacio­
nal, remete-o ao vazio e à angústia do entrepercebido da ruptura;
daí frente a esta instantaneidade paradisíaca e sua alternativa catas­
trófica, vermos surgir sua demanda imperativa de ter “tudo, já”, que
o torna tão insuportável a nossos olhos.
A parte doente do homem toxicômano depende de um certo deter­
minismo ontofilogênico, no qual os últimos fenômenos são marcados
pelo sistema familiar, e podemos ter acesso a ela através de um
estudo psicopatológico da deformação e da perturbação, daí as refe­
rências constantes neste texto à psiquiatria e à psicanálise. A parte
47
não-doente depende de um voluntarismo de desorganização que não
estabelece uma ligação rigorosa entre todos os aspectos da toxicoma-
nia, mas com o qual devemos nos acomodar se não quisermos
deformar a verdade.
Assim, o homem toxicômano é constituído pela conjunção de uma
parte doente e de outra extraordinária. E tal união parece coerente,
ao menos na fase de “lua-de-mel”. A desordem acaba produzindo
este universo coerente, assim como a aspiração à androginia acaba
recriando a unidade. Além disto, tudo reaparece e, sobretudo, seu
destino de homem mortal, pois tudo se desgasta irremediavelmente
com o tempo. Se a “lua-de-mel” pudesse ser permanente, o toxicô­
mano seria imortal, e não haveria nada no mundo que justificasse
que os outros homens também não o fossem. A “lua-de-mel” não
recobra nem a história pessoal do indivíduo, nem a história dos
homens e o passar do tempo. O tempo vivido é tão somente inesque­
cível, já o indivíduo não é. A “lua-de-mel” nasce de eventualidades,
de choques e encontros. É uma aventura excepcional, mas só pode
ser um elemento perturbador numa existência. Perturbação esta que
é sem dúvida revolucionária, e constitui uma violência para romper
com o destino, ou seja, em primeiro lugar, com a relação forçada
com a sagrada família. E, certamente, vale a pena demorar-se sobre
esta revolução, a única verdadeira aventura humana que não é fun­
dada sobre a analogia.
O toxicômano vive aquilo que ele quis ver e que lhe foi recusado
pelos meios ordinários; ele ouve aquilo que lhe foi recusado pelo
entendimento comum; ele sente o que lhe foi negado pelo receptá­
culo sensorial normal; ele transgride tudo que lhe foi proibido.
Mas, assim como Adão e Eva depois de morderem o fruto da árvore
do conhecimento do bem e do mal, ele é, não morto (o que fora o
prometido), porém expulso do Paraíso. E mais uma vez confrontado
com a lei, imaginária e real. Caberá à clínica do toxicômano definir
este confronto, e o estatuto do imaginário neste retorno ao espaço-
tempo da normalidade. Mas, desde já, é preciso saber que a busca
compensatória do “tudo, já” tornará este confronto com a lei —
principalmente com a lei social — extremamente severo. As conces­
sões serão feitas a duras penas, e as transgressões, por serem incom­
preensíveis para os novos espelhos adotados pelo toxicômano, não
serão admitidas.
É neste estágio, ou seja, antes que se constitua a dependência, que
as situações de sofrimento são operacionais. É nesta fase que uma
terapia pode ser construtiva, a não ser que ela seja a negação de
48
tudo que tentamos mostrar neste texto. A base de uma terapia deste
tipo não pode ser uma construção a priori; ela deve reconhecer e
respeitar a incoerência e a desordem e, mais ainda, a cinética própria
do destino do toxicômano. Além do princípio do prazer e do prin­
cípio do poder, igualmente além do legítimo fascínio por esta estu­
penda aventura e pelo universo das drogas, ela visa a restituir ao
homem que sofre sua liberdade e sua dignidade, respeitando tudo
aquilo que constitui seu direito adquirido.
1
A Clínica

Os movimentos de vaivém constituem os mecanismos e os refe­


renciais fundamentais da clínica do toxicômano. Qualquer situação,
qualquer objeto, qualquer interlocutor é observado, seduzido e de­
pois rejeitado. Jean Bergeret afirma que o indivíduo realiza “uma
sinusoide contínua de investimentos maciços e de desinvestimentos
todos também imperativos, súbitos e globais”.
Desde então, a clínica constitui não “objetivamente” sobre o que
o indivíduo traz como sintoma, distúrbio ou demais patologias compi­
ladas, e sim “subjetivamente” sobre a maneira como se estabelece
e se mantém a relação com o aparelho terapêutico, quer este seja
representado pelo terapeuta, pela instituição terapêutica ou por
ambos, sucessivamente. A clínica constitui-se no quadro da relação
de dependência, bem como nas tentações-tentativas de fugir a esta
dependência, mas sem poder nem querer fazê-lo. A clínica tem
pouco a ver com o que acontece “em casa” (privadamente) ou
“na rua” (publicamente), e que estaria mais ligado a uma antro­
pologia ou a uma etnografia. Não há estabilidade possível na clí­
nica do toxicômano, exceto aquela, bastante artificial, do quadro
na qual a situamos. Artificial porque tudo se apoia — como já
vimos — no movimento e na desordem e porque, como diz Witt­
genstein: “do fato de que a mim ou a todo mundo pareça ser assim,
não resulta que assim seja”. A proposta de uma clínica só faz
sentido na maneira como ela é empregada, e não em si e por si.
E vemos aqui o que constitui, se não a originalidade, pelo menos
uma diferença extremamente importante em relação às outras clínicas
que se pretendem científicas ou, pelo menos, objetivas. Aqui, é na
intersubjetividade que se localiza a adequação e, logo, a cientifici-
dade. Só mais tarde é que esta adequação vai precisar se estabelecer
de maneira objetiva no somatório dos casos e na massificação con­
cordante dos resultados. São os fatos reais estabelecidos na relação
que vão se sobressair na elaboração dos fundamentos da clínica. As
construções fantasmáticas, que geralmente são úteis para estabelecer
51
os fundamentos psicoterápicos, só podem ser utilizadas por, e no
interior de, uma crítica da manipulação tentada pelo indivíduo, e
do modelo que este se esforça por apresentar como sendo aquele que
“convém” ao terapeuta e à instituição. Sem esta crítica, não há clíni­
ca do toxicômano. Sua gênese deve ser radical: mesmo que as ques­
tões colocadas sejam as mesmas das outras clínicas, esta só tem a
ver — é bom repetir — com a desordem e com o caos. O sentido
vai surgir das combinações, entrelaçamentos, ruídos. Não pode haver
modelo, a não ser que, passo a passo, encontremos algum fazendo
referência a física, à poesia, à filosofia e também à música. O que
não é de surpreender, pois a linguagem do toxicômano (‘'planeta,
viagem” etc.) e sua relação com a música e com a poesia, são uma
demonstração constante desta possibilidade.
Nesta construção essencialmente dinâmica, o latente é e deve
permanecer constantemente minimizado em relação ao manifesto. O
que explica a importância que atribuímos a uma concepção fenome-
nológica da clínica. O que não significa que o latente não exista,
ao contrário, não pode haver trabalho terapêutico se o latente não
for levado em consideração. Mas precisamos nos perguntar as razões
pelas quais, até hoje, os terapeutas clínicos evitaram o manifesto
(o que, em contrapartida, permitiu a criação da concepção fascista
do behaviorismo, que perverte a noção do manifesto). Esta evitação
deve-se em grande parte ao fato que o manifesto não aparece como
cientificamente rentável, nem para os médicos nem para os psicana­
listas. Não há nem sintomas-receita nem sintomas-compromisso, as­
sim como os sintomas também não se organizam seqüencialmente em
formas clínicas típicas ou atípicas. O que parecia claro na véspera,
não o é mais no dia seguinte; o depressivo de ontem, hoje é normal;
° esquizofrênico alucinado da noite passada analisa hoje sua "des­
cida” por anfetaminas com extrema lucidez e sabedoria; ontem, na
sala de espera, Martine tomava conta de um bebê com muita respon­
sabilidade, para 10 minutos depois, numa demonstração cujo senti­
do é difícil alcançar, engolir uma dose cavalar de barbitúricos. . . Há
uma lacuna, uma falha tanto do discurso e do significado, quanto da
sanção. Esta lacuna, porém, não é original, é preciso ir lá ver. E ir,
despojando-se de qualquer saber, aceitando a existência da energia
motivadora, a rapidez das transformações tanto quanto as próprias
transformações, o como das modificações sintomáticas tanto quanto
seu “porque”. Pois só podemos entreperceber o porque graças ao
como — como alguém se torna um “Punk” drogado com anfetami-
nas e não um “baba” com haxixe, quando aparentemente a história
52
e o porquê são os mesmos? Em outras palavras, como se cria a
heterogeneidade clínica, em vez de, o como se cria a ordem sintomá­
tica ou a ordem estrutural. Não pelo prazer da diferença — é bom
repeti-lo — e sim como a única fonte possível de eficácia terapêutica,
pois mais ainda que em outras clínicas, a ação terapêutica aqui
só pode ser individualizada.
O sintoma não é próprio de cada indivíduo, mas o instante do
nascimento deste sintoma é particular, e aquele que desapareceu on­
tem já era, faz tanto tempo quanto aquele cujo término se deu há
vários anos. A explosão faz mais sentido que o latente. Ela pode ou
não ocorrer, tendo como pano de fundo o mesmo latente. É uma
questão de energia e de encontros polimorfos que não raramente es­
quecemos de considerar, enquanto todos nós admitimos que o mesmo
bacilo de Koch causa ou não a tuberculose. Mal que acompanha a
área atingida e as condições do indivíduo e, na possibilidade da ex­
plosão, as circunstâncias da relação com o terapeuta devem ser leva­
das em consideração. Entendemos por explosão tanto a manifestação
de um sintoma, quanto a atuação ou a irrupção verbalizada da lem­
brança, que aqui não é nunca asséptica. O problema prático funda­
mental é saber qual o tipo de controle que pode ser exercido sobre
esta explosão que, como tal, não suportaria nenhuma atitude neutra
ou puramente objetiva. Para estabelecer qualquer tipo de organização
seqüencial, e logo, para poder intrevir com uma atitude terapêutica
mais ortodoxa, só devemos considerar o caráter repetitivo dessas
explosões.
Desde a explosão até a repetição, passando pelo vaivém, organiza-
se o movimento que é específico desta clínica — não se trata em
nenhum caso de um órgão gritando seu sofrimento, nem da excreção
de um simbólico prisioneiro das malhas de uma organização tópica e
decifrado na relação transferencial. Trata-se, isto sim, de um movi­
mento cuja característica é ser a um só tempo “relacional” e “não-
relacional” — um pouco como os personagens das Máscaras de Jean
Genet — , o que, aliás, nos remete ao lado “não-sólido” desta relação,
que quase sempre nos impressiona quando entramos em contato com
um toxicômano e que é tanto mais difícil de resolver quanto maior
terá sido a ilusão calorosa do primeiro encontro. A primeira ex­
pressão, apesar de tão necessária, revela-se quase sempre falsa na
prática, e costuma constituir um elemento complicador no plano da
relação. A única saída para o terapeuta reside na investigação do
movimento em seu conjunto, e não no parcelamento da sedução ou
53
da rejeição. O que importa realmente é o modo de utilização deste
movimento na relação, e não o movimento interno que a cria.
Quando usamos a expressão "modo de utilização”, não estamos
querendo invocar nenhuma receita mágica. Queremos apenas dizer
que a seqüencia dos fatos é o fator determinante, sobretudo o mo­
mento em que os diferentes grupos de fatos (sintomáticos ou outros)
vão atingir aquilo que, por falta de algo melhor, chamamos de alvo,
isto é, o terapeuta. Criando, assim, o que em ciência é chamado de
afinidade química, e que está longe de ser o que designamos, em
geral, como transferência ou contra-transferência. Nem sempre con­
seguimos decifrar o código. O importante talvez não seja tanto que
naquele momento a mensagem deixe de ser incompreensível, e sim
que se perceba e que se faça perceber, que sentimos que há mensa­
gem. Hoje em dia verificamos nas terapias um uso abusivo do senso
e, logo, do contra-senso. Abusivo porque é rígido, artificial, assépti­
co, e nossos pacientes reagem a ele contrapondo, por exemplo, suas
vibrações (isto é, seus afetos micro e macroscópicos) às nossas in­
terpretações. É preciso ainda ter em mente que contraditoriamente
não se trata nem de um jogo nem do acaso e que, mesmo que
possa parecer anticientífico, muitas vezes trata-se mesmo de algo que
tem a ver com o secreto, e também com o sagrado. Assim, a clínica
não nasce, a exemplo do que costuma ocorrer, de uma decodificação
a partir de um código bem regular — é o caso hoje da leitura
psicanalítica, e ao que se pretende o pragmatismo behaviorista — , e
sim de uma decifração casual do secreto, que só pode ser entredes-
coberto no movimento e na relação. Com quanto pudor e com que
sutileza se dá esta descoberta, mas também com quantas dissimula­
ções! Dissimulações estas, das quais as menores não são as que
simulam as significações que aprendemos na clínica psiquiátrica ou
na psicanalítica. . .
Esta decifração é, por assim dizer, da ordem de uma intuição
lógica: o significado do movimento é um modo de sua utilização.
Este significado é o que aprendemos no momento em que o movi­
mento se incorpora à nossa relação, sem que haja certeza científica
no sentido clássico do termo. Não estamos falando de algo enqua­
drado ou exposto afrontosamente como a “letra roubada”, e sim da
manifestação que deve ser induzida pelos gestos e condutas do clíni­
co, cuja sutileza vai criar o método que encerra as situações em
jogo. É dessa maneira que a clínica se constitui, sem jamais perder
de vista este procedimento e seu sentido, chegamos passo a passo a
54
apreender, não o que é o toxicômano, mas o seu modo de proceder.
Este procedimento implica, de parte do indivíduo, uma estratégia
(ele não é apenas um organismo que sofre) e mobiliza fraudes, esper­
tezas e relações de poder. É no interior de uma tal dialética que
podem ser efetuadas as distinções indispensáveis entre os níveis
econômicos latentes e os fragmentos estruturais de base existentes e
coexistentes desde o estágio do espelho quebrado, os quais orientam
para o que é familiar ao clínico e para uma sintomatologia do com­
portamento. Vemos então que, paradoxalmente, é a partir do movi­
mento que se estabelece o que é fixo, aquilo que, bem ou mal, sobre­
viveu ao traumatismo de que falaremos adiante no capítulo sobre a
infância do toxicômano. Mas é somente graças ao movimento que o
terapeuta consegue evitar a armadilha do que é familiar, e descobrir,
nas inúmeras mudanças, o aspecto parcelar, despedaçado, escancara­
do dos fragmentos estruturais em causa. O que implica na coexis-
tcnq dinâmica, no mesmo indivíduo, de elementos extremamente
arcaít^s c dc elementos infinitamente mais elaborados que podemos
detectar nas estruturas psicóticas, neuróticas ou perversas. Como já
dissemos, isto significa também que não temos nunca uma patologia
total, e sim, sintomas depressivos, histéricos, fóbicos, megalomanía­
cos etc., cuja característica é serem lábeis, mutantes e incompletos,
pois esses sintomas não passam de expressões de conflito subjacen­
tes, os quais não conseguem se estruturar como poderiam fazê-lo em
uma organização estrutural ou uma tópica ortodoxa.
A vivência do indivíduo é verdadeiramente a de uma batalha ínti­
ma, uma sucessão de tempestades e tufões que não permitem muito
descanso. A rapidez com que estas tempestades se sucedem não deixa
espaço para a elaboração de estruturas defensivas e superegóicas. Só
há lugar para a avidez (e podemos falar, a respeito da anorexia ou
da bulimia, de toxicomania sem droga), o desejo violento, impulsivo
e compulsivo, e uma certa ‘'calmaria” interior, um preenchimento —
é o “tudo, já” tão característico do toxicômano. E é esta forma cata­
clísmica que pode e deve vir à tona em toda relação autêntica. Neste
ponto, ainda não há possibilidade de compromisso. O que explica a
brutal transformação de certas pessoas que à primeira vista seriam
consideradas normais, e que precisam expressar suas feridas ferindo
a si mesmas no decorrer do passe "relacional”. Nem que seja para
constatar a cada vez que, se há ganho parcial, há também perda
parcial. Perda esta que é causada por outro passe: o da ruptura,
responsável pelo desmembramento do ego, dinâmico e sempre reati­
vado, aquele que o jogo terapêutico vai tentar reconstituir juntando
55
as partes do quebra-cabeça — cada uma das quais depende de um
agente característico do estágio no qual se constituiu e tem sua sobre­
vivência garantida por um registro mnésico. Agente específico não
significa, evidentemente, algo como “germe” ou “micróbio”, e sim
o mecanismo estabelecido naquele estágio do desenvolvimento, e
que se repete como uma porta abrindo sobre outra, que abre sobre
outra etc. Tais mecanismos não se desenvolvem de maneira linear,
sucessiva; eles se entrelaçam para compor o verdadeiro tecido psí­
quico e sua expressão psicológica, o que não facilita as coisas. De
fato, não se trata aqui de decifrar o inconsciente como uma lingua­
gem, mas de isolar, passo a passo, da ordem “relacional” aquelas
combinações que se tornam compreensíveis e sobre as quais pode­
mos ser eficazes.
Quando dizemos compreensíveis, não estamos nos referindo a um
arranjo seqüencial lógico, como acontece na lingüística, onde o ar­
ranjo seqüencial de palavras produz uma frase. Ao contrário, a
combinação pode ser monstruosa, sem sentido aparente, sendo, po­
rém, obrigatória em seu aparecimento, naquele instante preciso da
relação ou no quadro daquela instituição particular. E é justamente
este lado obrigatório que faz com que ela se torne inteligível, pois
ela intervém na ausência de qualquer tipo de lógica, para significar
que aqui não cabe ordem nem razão: o psiquismo formado deve
produzir aquilo. Podemos citar, como exemplo, a expressão da andro-
ginia, tantas vezes encontrada, porém quase sempre disfarçada, e
que se revela no casulo da instituição (vivida como mãe, boa ou
má), ou nas casas noturnas, sede do prazer autorizado e da provoca­
ção, constituindo uma transgressão cuja finalidade é testemunhar o
desejo de ser um, e não sendo nem um nem outro (nem homem,
nem mulher), mostrar que a lacuna anterior raramente permite que
se pertença a um ou a outro sexo. E só o movimento (aqui, o demons­
trativo) é capaz de desvendar, e pedir ao outro (suposto represen­
tante da lei e da ordem do saber e da autorização), que libere a
passagem para que o indivíduo possa livrar-se desta lacuna, desta
falha que marca seu destino. Movimento ainda, pois o toxicômano
não é autista, ele não vive um sistema morto, ele grita bem alto
sua ferida, recusa-se a ser esta carne devorada pelos habitantes das
cavernas. Já que ele não pode, não quer ser aceitável. Todos aqueles
que trabalham em asilos sabem disso, pois nunca conseguem trans­
formar os toxicômanos em “bons doentes”, pois nem a psiquiatria,
nem a fisiopatologia, ou a psicanálise têm condições de decifrar
ou decodificar a mensagem latente, fora do movimento.
56
Este movimento, de funcionamento parcelar em funcionamento
parcelar, vai construindo um funcionamento global compatível com
os compromissos individuais, familiares e sociais, ou, em outras pa­
lavras, de um arbítrio aceitável (pelo menos para os outros, pois
muitas vezes, quando o possível não é aceitável pelo indivíduo, ou
quando pensa que não vai conseguir realizá-lo, ele se suicida). Este
arbítrio introduz um sentido nas regras do jogo clássico, onde não
havia nenhum. Fica assim bem evidente para nós a desqualificação
do behaviorismo, que funciona como um serralheiro que pretende a
qualquer preço abrir uma porta sem fechadura, com uma chave. Pois
se há criação de sentido, não há e nem pode haver desvendamento
do sentido latente. Não há e nem pode haver aceitação da lei sócio-
familiar, a não ser que se trancafie o indivíduo como em uma verda­
deira prisão, e que não se atribua nenhuma importância às suas dores,
angústia, feridas e carência. E, mesmo assim, no quadro aqui for­
mado, é preciso ter muita habilidade e muita experiência, pois, por
mais arbitrário que possa ser, o sentido criado é uma “raridade fil­
trada”. Sua transformação em algo “racional”, aceita pelos dois
lados, permanece sempre aleatória — como uma maionese que pode
não pegar o ponto. É preciso que aconteça uma espécie de melodia
íntima que faça com que o indivíduo sinta que o que se passa é
“verdadeiro” para os dois, que contém sua íntima convicção (o que
se opõe a todo saber aplicado).
É deste modo então que se cria a semiótica da toxicomania.
A verificação só é possível pela aprendizagem do número de casos.
Esta modesta perseverança é necessária, pois não se constrói uma
clínica assim em cinco anos, e nem em cem. Cada clínico se verá,
sem dúvida, na obrigação de fazer pesquisas para verificar o caráter
comum de tal ou qual dado, e isto, na relação e através desta.
Daí a necessidade imperiosa — e no entanto bem contraditória
com o refinamento artesanal da experiência individual — de se
estabelecer um código lingüístico adequado; daí também a não
menos premente necessidade, da referência psicanalítica e do mo­
delo neurofisioquímico para uma melhor apreensão do funciona­
mento das coisas, mantendo-se a possibilidade de corrigi-la através
do conhecimento que temos sobre a íntima percepção da poesia, da
música, da Cabala, da filosofia. É novamente Michel Serres quem
afirma a necessidade, para nós, de que “nesta bagunça do compli­
cado, a relação mais geral denomine (aqui torne-se) uma permuta­
ção”. Somente “funciona” a permutação que torna o passe realizável,
sensato e viável.
57
Esta permutação só pode ocorrer quando nos responsabilizamos
pelas múltiplas diferenças evidenciadas através da relação no plano
manifesto, tanto “a nível psíquico quanto a nível dos comportamen­
tos ou das vivências corporais”. São palavras de Jean Bergeret, do
qual discordamos quando ele afirma que estas diferenças são ape­
nas “os sinais visíveis dos fatores metapsicológicos latentes subja­
centes que marcam a especificidade das linhagens estruturais em
questão”. Não, pelo contrário, a somação destas diferenças é impos­
sível fora do movimento ‘"relacional” e de seu arranjo seqüencial
arbitrário, pois os fatores latentes tropeçam justamente, em meio
ao caos e a desordem, sobre a não-especificidade das linhagens
estruturais em causa. Mesmo e principalmente a este nível, não
há imobilidade — esta não tem nem tempo para se constituir. A
organização tropeça sobre a desorganização das falhas estabelecidas
pela ruptura e renovada a cada onda de choque de caráter familiar,
cultural ou social. A partir daí, não pode haver, por parte do
paciente, nenhum discurso em continuidade, mas sim uma sucessão
de discursos fazendo uso de exteriorizações diferentes. No meio
destas, o psiquiatra ou psicanalista, acreditando ter encontrado a
sua, vai lhe dar preferência, enquanto o organicista vai aproveitar
para argumentar — tão erroneamente — em favor de lesões, colo­
cando em questão um organização harmoniosa qualquer preexistente,
sem levar em conta jamais o determinismo causal dessas lesões.
Muito pelo contrário, cada situação manifesta — vivida na relação
— é fugidia, transitória, imediatamente posta em posição de com­
petição com outras situações manifestas, aparentemente tão inteli­
gíveis e lábeis quanto aquela.
O que precisamos admitir é que o sistema neurofisioquímico e
também o psiquismo, participam da formação de “estruturas” muito
mais plásticas, e logo bem mais “mutáveis” do que costumamos
acreditar em nossas concepções teóricas habituais de todas as clíni­
cas. O córtex cerebral, enquanto órgão, o psiquismo, enquanto fun­
cionamento, produzem situações cujos níveis de análise dinâmica
são diferentes e que hoje requerem um esforços de conceituação
completamente diverso. Na clínica do toxicômano, este e seu tera­
peuta são parceiros; mas não do jeito que seriam em uma psicaná­
lise. O que se nota aqui é a existência de uma atração recíproca
(e não é apenas uma técnica) criando uma situação indispensável
à cura, a qual sem ela não existiria, ou existiria de outra forma.
É esta bipolaridade que cria a clínica. Não fosse ela o toxicômano
só poderia passar por louco, ou por normal.
58
Ora, não existe nenhuma clínica que leve inelutavelmente o
toxicômano ao terapeuta para que este o cure. Apenas as situações
de sofrimento (na maioria das vezes induzidas pelo contexto social
do “tóxico”) são capazes de levar um toxicômano a uma consulta,
e ele só vai por causa delas, e não por sua toxicomania — ele vai
pela falta, pela família, pela prisão, nunca por sua toxicomania
nem por sua dependência, que ele, aliás, descreve, depois de alivia­
do, como contendo inúmeras delícias ocultas. Sua “vontade” de ir
ao clínico não tem nada a ver com a “vontade” de alguém que
formule uma demanda de cura psicanalítica. A cura do seu estado
e, principalmente, da sua identidade de toxicômano, não é objeto
do seu desejo, mesmo sendo objeto de sua demanda.
Somente o encontro cria (ou melhor, pode criar), a partir da
falta, uma outra completeza; mesmo que esta se oponha àquela outra,
tão forte, da droga. O terapeuta incorpora a falta e a ausência ao
mesmo tempo em que ele se torna o ser mais seguro, mais durável
de todos aqueles aos quais o toxicômano deu alguma importância:
pais, amores, “dealer” (traficante). Ele é percebido enquanto “eu”,
e se oferece plenamente enquanto “jogo” — o que é inteiramente
diferente de ser apreensível pelo entendimento (ou pela culpa, como
na relação com os pais, por exemplo).
Privado da faculdade de conceber o clínico intelectualmente, o
toxicômano aprende a vivê-lo, a querer possuí-lo; ele vai tentar
entregar-se a ele, para recebê-lo por sua vez. E isto com os meios
de que dispõe, ou seja, sedução, erotização, manipulação e, em
seguida, luto, sofrimento, sintomas psiquiátricos, agressões, auto-
mutilações e suicídio. O terapeuta deve então ser capaz de prestar-
se a isto, ao mesmo tempo em que deve a cada instante reiterar
que possui a experiência de criar este tipo de relação, e que seu
desejo é ao mesmo tempo igual, e outro que não o do toxicômano.
Não pode trapacear pelo fato de possuir uma vontade diretriz e
uma concepção a respeito do porvir, concepção esta que a história
da toxicomania e sua própria experiência tornaram possível.
A desordem da demonstração do toxicômano deixa então de
parecer um não-sentido, e surge como uma tentativa repetida na
busca de uma bipolaridade criadora de sentido. No início, tudo
parece ir em todas as direções, mas isto não se sustenta durante
muito tempo e a necessidade da relação vai gerar um sentido —
o que não significa gerar uma norma. O sentido, assim suscitado,
é uma integração das modificações de sentido que se dão na tenta­
59
tiva da relação entre os parceiros (inclusive os parceiros institucio­
nais). Tudo se passa como se aparecesse algum sinal propício a
uma real bifurcação no interior do sentido. O que aliás, na prática,
pode ocasionar uma mudança de parceiro ou a recorrência a outras
formas institucionais (existe uma ‘‘cena” topológica necessária à
expressão de tal ou qual passe para o paciente). E este sinal é
forçosamente induzido em algum ponto pela vontade diretriz do
terapeuta. Mas, este só pode induzi-lo após medir o peso exato
que este sinal tem para a relação, comparando-o com a atração
exercida sobre o indivíduo pela droga e pela vida do toxicômano,
para que ele não transforme este sinal em doença, já que sua
única vontade é livrar-se dele. E, para tanto, ele precisa realizar
que, no instante preciso em que surgem, os sintomas identificáveis
não passam, na maioria das vezes, de elementos protetores destina­
dos a iludir, indicando que o toxicômano está entregando ao doutor
apenas aquilo que ele supõe ser esperado. O clínico deve então ter
em mente que esses sintomas são elementos destinados a testar a
solidez e a força da escolha de vida do terapeuta, apesar (ou por
causa de) do conhecimento, que possui sobre a droga e seus efeitos.
Num só instante, este cessa de ser o doutor, e ao mesmo tempo
faz-se doutor plenamente. É o conjunto do que ocorre com o indi­
víduo e com o terapeuta que gera esta melodia e esta tensão capazes
de expressar o sinal. Sinal este que permite a passagem a um nível
diferente da relação e, logo, da cura.
Caso o terapeuta insista em perseguir um sintoma, o indivíduo
estará ameaçado em sua identidade, só lhe restando ficar doente,
com maior ou menor autenticidade, e nem por isso deixando de
ser toxicômano. Para comprovar essa afirmação basta verificar quan­
tas pessoas já ingressaram psiquicamente “sadias” em algum destes
centros especializados, e de lá saíram “doentes”, deprimidas, obse-
cadas, delirantes. Isto porque nada em suas identidades de toxicô­
manos fora modificado, a não ser a interdição de sê-lo formulada
pelos terapeutas, e a substituição — para elas inexplicável e inqua­
lificável — de medicamentos ruins, que fazem tanto efeito quanto
a droga, só que não dão prazer. Além do mais, é bom lembrar que
para o indivíduo tomar esta medicação só se justifica se ele estiver
realmente doente. Para olhos desavisados, esses indivíduos tornam-se
assustadores, mas para os atendentes, eles são tranqüilizadores, já
que doentes. Sedutores ou doentes, assim são os toxicômanos quando
querem ser aceitos por aqueles que nada sabem a respeito de sua
clínica específica.
60
É evidente que nesta situação, tudo está bloqueado: o sistema
psíquico e o sistema biológico não obedecem as ordens que parecem
provir do médico, e são parecidas demais com as emitidas pela
família, pela escola, e que, além do mais, por tudo que sabemos
da história do toxicômano, não podem ser eficazes. Quanto ao
indivíduo, ele continua a pensar e a sentir como fazia antes, nenhum
sinal externo aparece para significar que a realidade de suas ativi­
dades cerebrais está sendo percebida por seu parceiro. De ambos
os lados, a palavra, a expressão facial, o jeito de dirigir o olhar,
o comportamento referem-se a outras leis que não aquelas que deve­
riam ser seguidas para desbloquear a situação. Não é o caso, porém,
de substituir este tipo de coisa por qualquer psicodrama ou “game”
americano, os quais são inspirados pelas mesmas referências siste­
máticas e ideológicas e produzem invariavelmente os mesmos “feed-
back” negativos de sedução ou de patologia. Neste ponto reside
toda a diferença que existe entre a clínica “passiva” clássica, que
só produz concepções em função de determinadas regras do jogo
preestabelecidas, e a clínica “ativa” onde, sem ignorar essas tais
regras do jogo, e valendo-se das experiências acumuladas, o tera­
peuta deve reinventar a cada vez todo o movimento. Nesta pers­
pectiva, “ativo” remete ao movimento de próprio indivíduo em sua
relação com o parceiro (terapeuta e/ou instituição), e “passivo”,
àquilo que é previamente organizado para instaurar uma relação
terapêutica, sem que seja levado em consideração nem o que é um
toxicômano, nem como ele funciona.
Esta crítica não é motivada pelo prazer ou pela novidade do
tema, e sim pela constatação, facilmente verificável, de que todas
as clínicas atualmente adotadas não funcionam com o toxicômano.
E isto, enquanto vemos que certos personagens carismáticos indivi­
dualmente obtêm melhores resultados (pagando um preço exorbi­
tante à ética, à moral e à democracia), pois, instintivamente, eles
abusam do movimento e utilizam a concepção dinâmica do sinal
para estabelecer uma relação pervertida de dependência em relação
a eles.
Estamos tentando mostrar que, se quisermos que a clínica seja
operacional, precisamos constantemente, a cada passo, evitar o fun­
cionamento mecânico do pensamento e a racionalização dos com­
portamentos. Precisamos até mesmo, pelo menos enquanto a rela­
ção autêntica está se estabelecendo, tentar criar em nós mesmos e
no outro aquela melodia quase emocional, não perversa, que nos
situa em outro lugar que não a doença, além do bem e do mal,
61
além da boa ou da má técnica, sem abandonar jamais aquilo que o
toxicômano espera com avidez, isto é, o papel do terapeuta e do
clínico que leva, pouco a pouco, o paciente a construir uma iden­
tidade diferente da do toxicômano.
Dissemos em outro texto que o imaginário do toxicômano é
mais real que a realidade. Conseqüentemente, para levar em conta
este imaginário, é preciso alucinar o real, a dois, para que este
se torne operacional o bastante, e isto ainda mais porque o discurso
intervém com muita freqüência como um obstáculo para a expres­
são. Enquanto a droga está aí, e bem aí, no real e no imaginário,
para assegurar ao indivíduo (na sua memória e no seu corpo, nos
seus receptores psíquicos, clínicos e sensoriais) a fusão dinâmica e
calorosa, aquela fusão do corpo e do espírito que propicia, tem­
porariamente, a possibilidade de ser um, como antes da ruptura.
Sem esta alucinação a dois, só sobra espaço para a falta. Falta
ainda mais temível que a da droga, pois vem acompanhada por um
discurso científico totalitário e gera apenas desespero; para o indi­
víduo não há mais percepção de nenhuma mudança. Não houve
tradução inteligível pelo clínico de seu mal-estar caótico, de sua
unidade impossível; não houve diversão da memória do prazer e
da unidade — o indivíduo não pode alterar seu destino enquanto
seu enigma não tiver sido decifrado e, nesta hora, o clínico não
sabe mais a respeito dele mesmo. Porém, o clínico está aí como
co-explorador de sentido, passo a passo, pelos mesmos caminhos,
através de um verdadeiro trabalho de reajuste da história do indi­
víduo, tal como é vivida por ele, a uma realidade que vai se tornando
suportável. Mas isto não é viável sem um esforço do terapeuta para
se iniciar aos "fatos primeiros” da vida do toxicômano — o que
parece contraditório, no estado atual das ciências, com uma abor­
dagem científica. Com efeito, não há nenhum "plano” de criação
do toxicômano, o clínico aventura-se, por assim dizer, em uma zona
proibida, da qual, pela primeira vez, ele deve ultrapassar as frontei­
ras não à procura de conhecimento ou com o intuito de investigar,
mas com uma meta quase iniciática, para que a alteração de destino
possa acontecer a dois, mesmo modestamente.
Não há um único caminho possível; existem vários, e depende
da parelha terapeuta-paciente seguir um, que, naquele instante fe­
cundo, preciso, permita-lhe sair um pouco do mistério. Não importa
saber se tal procedimento faz ou não parte de algum sistema coe­
rente, o essencial é que, na íntima convicção do toxicômano, apa­
reça como verdadeiro. Talvez acabemos compreendendo que sistema
62
não é igual a meio vital! O meio vital é basicamente constituído
por forças que se opõe entre si, relações internas de trombadas, de
subordinação, antagonismos fulgurantes ou infinitamente lentos. É
verdade para o homem normal; mais ainda para o homem doente
(física ou psiquicamente); infinitamente mais para o toxicômano
antes da tomada do tóxico; e extraordinariamente mais para aquele
que já provou os efeitos repetidos e sucessivos da droga — e que
oscila constantemente entre os pólos da tensão e da escansão. O
meio vital aqui e mais uma vez a memória: da ante-ruptura; da
lacuna suscitada por esta; da unidade recobrada pelo calor e pelo
prazer fora da sexualidade, que obriga a ter no mínimo um parceiro,
enquanto o indivíduo jamais conseguiu ser um ainda.
O Verdadeiro não é aqui nem um código nem uma escrita.
Parece-se mais com a intuição poética, o amor à primeira vista (em
oposição à “lua-de-mel”), o entrepercebido (para o crente: a Divin­
dade), e compreendemos que as conexões seguintes só podem se
dar no movimento “relacional”, e não através de alguma informa­
ção memorizada por todos os clínicos, que são, em relação à reali­
dade dos fatos verdadeiros, pessoas presentes, mas, de fato, com­
pletamente arcaicas. Sabemos o quanto os toxicômanos são peritos
na arte de se manifestarem através de sintomas de aparência neuró­
tica, perversa, psicótica, psicossomática, os quais são, ou foram,
ou serão utilizados para tentar preencher as lacunas deixadas pela
ruptura. Esses sintomas têm em comum a dupla característica de
serem reativos aos choques das relações (em primeiro lugar, a relação
com a mãe) e de serem lábeis, existindo na maioria das vezes
apenas para serem “exibidos” ou outro, ou em tal ou qual situação
(hospital-instituição, por exemplo), para serem negociados com o
interlocutor, nem que seja para testar sua resistência.
Ora, o terapeuta deve estar absolutamente ciente deste grande
risco de manipulação, e ter em mente que, quando o indivíduo o
tiver incorporado (o que aliás é vivenciado também a nível do
grande público, para o qual foram criadas figuras como o Dr.
Droga ou Mme. Droga), ele substituirá o sintoma por outra coisa.
Terá verificado que nada nem ninguém poderá transformar sua
identidade de toxicômano, e que, entretanto, terá, ainda por cima,
sido “promovido” ao estatuto de toxicômano doente, permanecendo,
por outro lado, os mecanismos geradores do sistema de sofrimento
a funcionar naturalmente, derivados deste novo estatuto, mesmo que
os laços entre os dois sejam sutis, estreitos e elaborados tanto
quanto inaparentes para o aparelho conceituai à disposição do
63
clínico clássico (e caberá à “cura" prévia recolocá-los em seus
devidos lugares).
Nesta situação, a verdade só vai aparecer no meio de um jogo
de esconde-esconde, onde os parceiros disputam qual dos dois é
mais hábil para ser o doente ou o médico, quem vai fazer surgir a
pulsão apesar do medo, quem vai utilizar melhor a erotização sem
ser incorporado ou castrado. Pois é isto que constitui a busca do
indivíduo, muito mais do que um verdadeiro ganho de identificação,
e o clínico deve, para ser um bom terapeuta, deixar de manter um
distanciamento real, só remeter a “realidade” com conhecimento de
causa, utilizando para tanto verdadeiras intervenções (pessoais ou
institucionais) em “feedback”, bem longe de qualquer neutralidade
(a despeito do risco de ser incorporado que mencionamos acima).
Como se naquele instante preciso da relação, o terapeuta opusesse
um movimento voluntário não natural a um movimento reflexo
natural, vendo já com maior clareza a meta a ser atingida (porém,
para assim proceder, o terapeuta precisa ter previamente uma pro­
funda reflexão ética sobre o assunto, para não se transformar em
manipulador perverso). Esta meta a ser atingida precisa de um
apoio mútuo, ou seja, que se crie passo a passo a íntima convicção
da possibilidade de mudança do toxicômano. É o que passa a exis­
tir, que logo se transforma na Tábua de sua própria lei. Como diz
Michel Serres, dá-se uma “circunstância”, um “caso”, mas que,
graças a este apoio mútuo, se torna na relação uma “circunstância
codificada”, levando-se em conta as condições iniciais. Aqui e agora,
a partir do que foi sentido, vivencíado como verdadeiro, vão se
desembaraçar de maneira irreversível os fios atados desde a infância
do toxicômano.
Porém, é bom lembrar o número extraordinário de tentativas às
cegas, de erros, de seqüências repetitivas que precisamos acumular,
o que abrange casos onde um passe parecia bem adiantado a ne­
cessidade de tentar ainda mais, e até de precisar voltar atrás, para
uma instantaneidade anterior, a qual ela mesma não era operacional
o bastante. Mais uma vez, aqui, a cadeia volta-se sobre si mesma
antes que a circunstância codificada torne-se efetivamente o local
de “emergência” de uma organização clínica inteligível e por con­
seguinte operacional, e passe a ocupar, ao mesmo título que a droga
e seus efeitos, um espaço na memória dos dois parceiros. Queremos
insistir em afirmar que não se trata de uma relação essencialmente
interpretativa, ou, estritamente falando, transferencial, e sim de uma
relação vivenciada, mesmo que os parceiros não consigam apreender
64
suas mútuas intenções, consistindo o essencial em que ambos per­
cebam, cada vez com mais clareza, a correspondência que existe
entre aquilo que estão vivendo e a meta comum que se propuseram
atingir.
Uma clínica “pelo prazer”, “objetiva” ou “cultural” é inconce­
bível. Só podemos pensar na clínica no interior de uma prática
que tenha em vista uma mudança neste psiquismo. É que, por si
só, as perturbações deste psiquismo constituem um universo dinâ­
mico, cujo funcionamento ninguém consegue apreender muito bem,
pois aí coexistem uma ordem simbólica interior, bem como o caos,
a violência, a inadequação. E se o clínico está autorizado a utilizar
as clínicas médicas, psiquiátricas, psicanalíticas e as ciências moder­
nas, recorrendo à analogia, à dedução, à indução e ao cálculo dos
signos, ele deve, no entanto, estar sempre consciente do alcance
reducionista e fixista de tal procedimento e, no interior do tempo
vivido da relação, corrigi-lo permanentemente pela instabilidade dos
afetos infraverbais ou parainstitucionais, criando junto com o toxi­
cômano aquela melodia e aquele clima tão fundamentais quanto
o conhecimento do porque e do como, e sem os quais não pode haver
verdade autenticamente científica — esta verdade que infelizmente
só podemos verificar, e conseqüentemente autenticar, a posteriori.
A Verdade clínica não é uma verdade fixa, mas é o movimento
gerado em volta que vai determiná-la como tal. É então com uma
visão fenomenológica que o clínico vai elaborar a Clínica, fenome-
nologia do movimento e da melodia, da instantaneidade e do tempo
vivido, coisas para as quais ele não está preparado, mas que só
podem ser apreendidas pelo interior dos mecanismos reconstrutores
que ele mesmo vai criar com seu paciente. Não há realidade debi­
litada e nem necessidade de esclarecer e enfrentar mecanismos
latentes, o que há é uma troca dinâmica entre duas formas possíveis
de identidade: uma permuta dissimulada mais do que franca e
sincera, porque, no fundo, um deles nega ao outro o benefício real
da identidade reivindicada como sendo a melhor.
É nesta troca que, pouco a pouco, é gerada a nova história do
toxicômano, história que lhe é tão própria quanto a precedente, só
que agora tornada, se não inteligível, operacional. História esta
que não passa de uma segunda natureza, não a natureza própria do
indivíduo, mas que permite efetuar a síntese — e é por isso que
ela se torna operacional — de todos os elementos em ação na vida
do toxicômano, e talvez selecionar aqueles que irão ser “úteis”, ou
melhor, utilmente possíveis.
65
Assim, só percebemos que a clínica se faz possível no decorrer
de seu processo de criação: os signos e sintomas tomam seus lugares
à medida que a ação se desenvolve, e, o que é mais importante,
ocupam espaços antes pertencentes a outros signos e sintomas clas­
sicamente ligados a alguma patologia mental ou somática. A relação
com o terapeuta, ela mesma, torna-se menos superficial, menos
cambiante, mais estável, sem que este último precise impor esta
estabilidade (que seria então artificial, "colada”). Podemos citar,
para voltar ao mesmo exemplo, o caso da androginia, cujas mani­
festações denunciam menos uma homossexualidade latente, e mais
a descoberta, pelo indivíduo angustiado — no decorrer de suas
experiências precedentes — , da existência de várias formas de
Unidade, de várias maneiras de seu um, e de que, certamente, a
saída superior é ser, ao mesmo tempo, Vishnu e Kali. Através deste
exemplo, compreendemos que uma das modalidades de saída pode
ser a aceitação, pelo indivíduo, de uma bissexualidade mais ou
menos feliz, em vez de uma heterossexualidade forçada ou uma
homossexualidade concedida pelo terapeuta "liberal” "por falta de
algo melhor”.
Aqui, a organização de um Ego viável não passa pelo confronto
edípico triangular, mas por um confronto bem mais complexo,
onde os cacos espalhados do espelho permitem um número bem
maior de casos de figura, o que implica enormes dispêndios ener­
géticos que poderiam fazer o indivíduo desistir caso ele não esti­
vesse tão envolvido na parelha com o terapeuta. Porém, este desejo
de renunciar recorrente, vai gerar por sua vez uma semiologia
específica, uma combinação da trapaça e da autenticidade na rela­
ção terapêutica (quem não conhece o discurso do toxicômano que
vem a uma consulta "muito doido”, e, apesar das aparências, con­
tinua afirmando que está indo muito bem e que parou com tudo?).
O progresso da relação é então marcado passo a passo pela dimensão
desta instabilidade, desta falha na autenticidade, que causa mais
sofrimento ao paciente do que costumamos pensar, de tanto que
esta negação da realidade lhe parece grosseira! Já que ele vem e
volta, é porque tem consciência de estar participando de um verda­
deiro processo de criação através daquela relação em movimento.
De uma certa maneira, aquilo que é esperado pelo indivíduo e
aquilo que é criado graças ao "sinal”, constituem uma moral da
relação à qual ele poderá, enfim, tomar como apoio e modelo, para
tentar outras formas de relações diferentes daquele “tudo, já” que
ele conhece e que já está se tornando totalmente frustrante.
66
Dissemos que o reconhecimento desta autenticidade passa por
algo de infraverbal, que chamamos de “melodia”. Esta melodia de
partitura dual não é só um ingrediente. Sem ela não haveria clínica,
ela é o óleo que permite ao motor da “criação em processo”
existir. Só ela permite, quando o caos e a desordem invadem a
relação, que se recupere, de uma maneira reversível, uma certa
periodicidade conhecida e assimilada. Só ela favorece o aspecto
repetitivo da relação, os retornos que não significam necessaria­
mente anulações. Ela tem a relação nas mãos, e, conseqüentemente,
qualquer progresso vai depender dela.
Percebemos como podem parecer estranhas para um clínico que
se quer científico noções como estas de “moral” e “melodia”. Teria
sido a mesma coisa falar em “discurso do inconsciente” para algum
psiquiatra ou neurologista, antes de Freud. E, no entanto, a lingua­
gem, enquanto significante do inconsciente, a moral da relação e a
melodia formam um todo e tem em comum um certo número de
funções fundamentais, e em particular, o comando da idade do
toxicômano em sua realidade. Em conjunto, geram o “agora”, e este
agora transforma-se em signo o qual se inscreve da maneira evidente
na memória do toxicômano, torna-se código assim como o são os
efeitos da droga. É este “agora”, esta instantaneidade fecunda, que
deve se tornar objeto do saber do clínico. Clínico este que admite,
com naturalidade, há dezenas de anos que a retenção das lembran­
ças inscreve-se na face interna do lobo temporal, incluindo o hipo­
campo, e que não nega a participação deste hipocampo nas mani­
festações dos afetos. Porém, é preciso ter uma certa experiência
para saber reconhecer e tornar operacional a fecundidade deste
“agora”, ao mesmo tempo sintoma, e superação do sintoma. Ê o
mesmo toxicômano, e não é mais o mesmo. Em outras palavras,
o conhecimento deve também se tornar dinâmico e não pode mais
se contentar em fotografar esta ou aquela situação, e disso se utilizar
face a outro paciente, salvo algumas estabilidades finas, parcial­
mente induzidas pelo saber, mas também pela experiência clínica.
O raciocínio por analogia deve ser aqui a exceção, pois a fonte
do saber (se é que existe um saber!) está no “agora” único, no
“quase-já” e no “quase-não-mais” de que fala W. Jankélévitch. Nesta
instantaneidade é que o querer do indivíduo pode surgir, e não no
discurso da demanda, e menos ainda certamente no desejo do indi­
víduo desejo dissimulado que é o de verificar que nem ele, nem
ninguém tem o poder de fazê-lo deixar de ser um toxicômano.
67
i. cs(;i inslantaneidade que transcende o querer e o não-querer
do indivíduo, de tal maneira que nunca mais ele vai poder recuar
completamente, nem anular o que acaba de se produzir e que é
quase uma espécie de catálise, a qual, na concomitância contradi­
tória dos dois desejos, orienta (ou não orienta) o caminho mental
(e social) do indivíduo com um certo voluntarismo.
A ligação — que não é transferencial — entre o terapeuta e o
indivíduo é também uma catálise. Ligação esta que vai causar uma
demanda bulímica, desproporcional do toxicômano, para quem o
terapeuta tornou-se a sua realidade, pois juntos eles alucinam o
real de tal maneira que este se torna suportável, e depois aceitável,
e as necessidades narcísicas de reasseguramento do indivíduo são
satisfeitas pelo clínico, quando este se interessa por ele não apenas
tecnicamente. Mas é um jogo perigoso, onde a armadilha está sempre
se deslocando entre o sedutor e o seduzido. A objetividade profis­
sional consiste então em evitar a rejeição desta parcela de realidade,
capaz de anular o que está se transformando em uma outra “lua-
de-mel”, mais falsa do que a que se dá com a droga, pois esta
dualidade não existe dentro de um casulo e, pelo menos para o
terapeuta, esta relação não deve ser a única (caso o seja, trata-se
ou de amor, ou de um terrível erro profissional), e de fazer o
possível para que o Ego fragmentado, partido, não seja substituído
por um Ego binário mais patológico ainda.
Assim, não há a mínima chance de afastamento da ruptura, pelo
menos não em uma evolução "fusionai” desta natureza. Por esta
razão, voltamos a enfatizar o caráter dinâmico da relação, e a
necessidade de se levar em conta e de se responsabilizar por toda
situação manifesta que possa surgir, com seus signos e sintomas
novos, sem insistir em reforçar esta ou aquela situação que esteja
sendo deliciosa para os dois mais que, de fato, é perigosa e poderia
causar um outro tipo de carência e, conseqüentemente, outra de­
cepção para o indivíduo. Se no início de uma relação terapêutica
deste tipo algum indício de relação "fusionai” ainda pode ser
tolerada — permitindo tirar o indivíduo de sua fusão indivíduo-
droga — esta não deve ser, em hipótese alguma, instaurada, per­
manentemente, num encontro que se tornaria monstruoso, sem
benefício algum, já que ninguém poderia resistir ao esgotamento
provocado por uma tal demanda bulímica. Demanda esta que só
pode ser mesmo bulímica, pois neste estágio os pedaços do espelho
estão ainda muito dispersos.
68
O problema é mais complexo ainda porque não se trata de criar
um outro homem à imagem do terapeuta; é preciso, de um lado, res­
tituir ao indivíduo seu porvir anterior à ruptura, e por outro lado,
ao fazer isto, não alienar todos os benefícios exploratórios que este
conseguiu juntar para reconstituir sua unidade, alguns dos quais —
precisamos admitir — pertencem à sua identidade de toxicômano.
Dissemos que não há trabalho terapêutico unicamente por analogia,
mas, apesar disto, um trabalho por analogia negativa é necessário, o
que, comparando o código do toxicômano com o do terapeuta, vai
permitir que se isole e se elimine o que produz carência e sofrimento,
e que os problemas existenciais do toxicômano tornem-se relativos.
Ao se dar a um parceiro, este já começa a mudar, além de seu códi­
go, também sua identidade. O parceiro não anula a identidade do
toxicômano — não tem poderes para tanto — , mas torna possível,
passo a passo, uma pluralidade de identidades e sua coexistência. O
que contradiz a noção clássica de “estrutura” ou de “reparos estru­
turais”, pois estamos em uma situação complexa de dependência e
de não-dependência, na qual ainda é difícil distinguir o que já cons­
titui um ganho real e definitivo para o indivíduo. Caberá finalmente
a ele mesmo transformar uma situação que ele ao mesmo tempo
quis e não quis, e caberá ao clínico mostrar-se flexível o bastante
para permitir esta transformação, que só pode ser uma vocação para
a vida.
Gênese, sucessão de “agora” constantemente suspensa à reversibili­
dade e à anulação, dividida pelo ruído de fundo constituído pela
memória, lembrando o prazer e a unidade “entrevivendada”; gênese
mantida, porém, orientada pela melodia gerada pela relação e den­
tro desta — a melodia atenuante, que transcende as atuações, as
depressões, os suicídios e aquilo que chamamos de recaídas. Nestas
recaídas, o clínico prefere considerar que “não é mais a mesma
coisa”, que o clima não é o mesmo; ele vai julgar que o estado
depressivo tem mais a ver com um último refúgio antes da “saída”,
do que com uma constatação de derrota; que a insônia é ativa e
mobilizadora de lembranças, em vez de passiva e sintoma de angús­
tia; ou melhor, vai entender que a angústia aqui não se refere ao
passado e sim ao futuro. Esta melodia torna possível a comparação
entre os “antes” e os “depois”, e propicia também um certo fascínio
por aquilo que está sendo vivenciado, e que não é mais a busca
narcísica absoluta que substituía a unidade perdida. Nesta fase não
há mais espelho, nem inteiro nem quebrado. O indivíduo só pode
se ver como alguém em vias de ser. A vida e a identidade se auto-
69
conhecem no movimento, e se são diferentes daquelas do imaginário,
elas diferem como o indivíduo quer que o façam, através de sua
ação. O saber está na experiência e não mais no discurso. E este
saber pouco a pouco torna-se o saber de que o indivíduo não morre
por ter saído de um tipo de casulo qualquer — útero materno ou
“planeta do barato” — , e de que existe uma fonte de prazer nos
outros e com os outros, que o tempo nesta vivência nova está mais
afastado da morte do que na velha.
Esta gênese não tem nada de um sistema de evidências, mesmo
que estas sejam necessárias para provocar a íntima convicção do in­
divíduo; ela implica na existência de desconexões, principalmente nos
circuitos da memória, cujo caráter lábil, porém resistente, e constan­
temente reativado pela experiência em movimento que é a vida do
toxicômano, conhecemos bem. Esta labilidade e resistência explicam
o caráter intermitente da semiologia nostálgica do indivíduo, que
parece alternativamente curado, e mais toxicômano do que nunca.
Para compreender estas situações, o clínico deve entender o jogo in­
cessante de conexões e interrupções de conexões que se dá no psi­
quismo do indivíduo, e deve ativar outras formas de afetos e de vida
que possam competir com a memória. Memória esta que contém
não apenas a lembrança, mas também sua atmosfera e grau de calor,
e de suas atividades cinéticas. A cada momento, o terapeuta deve
ter em mente que o toxicômano possui uma verdadeira “reserva”
mnésica, da qual ele sabe se servir, e que ele sempre utilizou en­
quanto sua identidade de toxicômano só lhe trazia benefícios; mas
que, agora, esta reserva tornou-se quase que estruturalmente anta­
gônica à noção de uma possível mudança de identidade. Isto é mais
verdadeiro ainda porque ela participa da fisiologia psíquica “normal”
do toxicômano, enquanto o que é introduzido pelo terapeuta só
pode — e durante muito tempo — ser sentido como um corpo
estranho. E, no entanto, é ele quem vai fazer com que o toxicômano
forme um novo estoque de experiências das quais ele não poderá
duvidar, que considerará como verdadeiras e cuja veracidade trans­
formará daí em diante, faça ele o que fizer (mesmo que continue
se drogando), a qualidade e a atmosfera de seu estoque mnésico,
bem como suas tentativas de restabelecer o mesmo tipo de lembran­
ças. É um. pouco como se ele sofresse de prosopagnosia — não po­
derá mais (ou cada vez menos) estabelecer uma ligação entre sua
identidade e seu estoque mnésico, ou esta ligação se dará de uma
maneira destacada, parcelada, sem a mesma qualidade de calor, pra­
zer, atmosfera. Não sendo mais satisfatória, a concordância torna-se
70
mais insípida, insossa, como se o acesso afetivo e qualitativo a tais
lembranças não coubesse na relação de parelha com o terapeuta.
Aos poucos, este processo expressa-se na semiologia presente, a
medida que os motivos de conflito e tensões vão se atenuando: a
vivência da relação terapêutica (que no início deverá ser bem “exci­
tante”) passa a ser sentida como mais benéfica, questionando me­
nos aquela parte de sua identidade que o toxicômano não tem von­
tade (e nem necessidade) de abandonar para escapar das situações
de sofrimento que o trouxeram à consulta. Quando a relação se
estabelece satisfatoriamente, é como se o indivíduo se permitisse
uma nova legalidade, na qual os elementos têm o sentido da solidez
de suas correlações ou oposições com a exigência terapêutica, ou
seja, com um projeto, e não mais uma resistência encarquilhada.
Porém, é bom lembrar mais uma vez que mesmo estes elementos
e esta nova legalidade não existem em si e por si. Não se trata de
uma gênese “ex abrupto”. Há uma origem subjetiva nesta criação e
no seu porvir, que permanece móvel, freqüentemente conflitual e
contraditória, e que é tudo, menos uma nova ordem estrutural. Mas
que, pela primeira vez, ao contrário da família e da construção
cultural do Ego e do Superego, consegue (ao menos um pouco)
lentamente subverter o irreversível, formar a bifurcação indispensá­
vel a uma nova legitimidade íntima, a uma certa medida no meio
de tanta “desmedida”, de tanto caos, onde o medo e a angústia do
toxicômano costumavam bater, como um inseto vem bater à noite
nas vidraças, atraído por uma lâmpada acesa.
A primeira coisa a se tornar manifesta é a construção do tempo e
do espaço do toxicômano, que até então vivia apenas uma terrível
instantaneidade do tempo vivido. O surgimento e a aceitação do tem­
po constituem os primeiros sinais importantes da mudança em curso
(não estamos falando simplesmente da aceitação do ritmo ortodoxo
das sessões). O tempo comum toma-se medida de todas as coisas, o
indivíduo pode começar a investir libidinal e estruturalmente. Ele sa­
be, que é capaz de colher os frutos destes investimentos. Ele aprende
a esperar (sem precisar se embrutecer de tanto trabalho, como nas
comunidades terapêuticas); como se estivesse nascendo, descobre a
natureza das coisas, particularmente que se pode fazer amor com
amor, e não mais como única instauração possível de unidade, quer
no gozo amoroso, quer na anulação arcaica de toda sexualidade em
uma relação de casal progressivamente “agenitalizada”.
Estes arranjos são extremamente frágeis e sua solidificação é lenta;
o próprio indivíduo, em suas vontades contraditórias ou então quan­
71
do confrontado com seu meio ambiente (que não muda), tenderá a
procurar uma instituição sadomasoquista que o castigue ou que ele
possa castigar (introduzindo tóxicos, ou então fugindo). Ou então,
procurará alguma justificativa externa para uma derrota pela qual
não será culpado, mas que lhe permitirá anular tudo.
É por isso que, em contrapartida, ele faz o terapeuta pagar o
preço dos seus “progressos”, através de descompensações mais ou
menos severas que, como já vimos, vão imitar todas as doenças pos­
síveis e imagináveis. E isto, na ânsia de anular tudo — ainda que o
preço a pagar seja muito elevado (uma “psicose”, por exemplo) —
e poder se convencer, por intermédio do tratamento então aplicado,
de que decididamente não há nada a fazer, e que ele não vai sair
deste impasse jamais.
Tais regressões clínicas são comuns, e podem nos fazer esquecer
o essencial, que é o que se inscreve no movimento como um todo.
De uma certa maneira precisamos verificar as tendências do mercado
a longo prazo, e não confiar na lei da oferta e da procura momentâ­
neas. Nossa clínica precisa de uma visão de conjunto, de um esque­
ma generalizado, já que ela se baseia apenas no movimento, e cons­
trói-se através deste. Isto constitui um agravamento das dificuldades,
contornável porém pela soma dos movimentos de vaivém, cuja repe­
tição e reversibilidade vão atenuar a importância. Esta reversibili­
dade fornece por si só o “tempo” desta sinfonia generalizada, e faz
com que não se considere uma tragédia (mas que se leve a sério!)
um destes fenômenos isolado dentro do esquema geral, o qual é
marcado por uma intencionalidade totalmente diferente — a de uma
verdadeira estrutura psicológica da relação, de um verdadeiro ato
psíquico. A gênese desta intencionalidade dividida torna-se um fato
clínico tão objetivo quanto o é uma cirrose do fígado para um hepa-
tologista. Ela introduz unidade onde havia dualidade, e pressupõe
uma receptividade por parte do indivíduo que, inicialmente, não era
de se esperar. Esta receptividade é ela mesma criada no decorrer
da relação como uma verdadeira matéria sensível vivida, sobre a
qual o afeto melódico vai trabalhar. Ela propicia a abertura essencial
a uma assimetria da relação, a qual pode então tornar-se terapêutica,
sem que seu caráter de desprazer adquira o aspecto de um contra-
prazer masoquista, ou transforme-se no substituto de outras frustra­
ções, ou de satisfações que não podem mais se repetir.
Mais uma vez, aqui, compreendemos que uma relação deste tipo
só pode dispor de um sistema de referências muito amplo, dentro
do qual inúmeras bifurcações são possíveis e até mesmo prováveis,
72
mas onde é fundamental que a matéria sensível vivida de que fala­
mos acima, possa produzir, por seu turno, imagens mnésicas tão
importantes quanto as reativadas a cada vez pela ingestão da droga.
É essencial também que essas novas imagens possam sedimentar e
constituir em suma um outro estoque mnésico capaz de, de alguma
forma, devolver golpe por golpe. O sistema de referências aqui, reside
em tudo e por tudo na experiência, no fato de que, em outros casos,
as coisas aconteceram desta maneira. Nossa informação científica diz
respeito então ao modo como, nestes casos, os resultados foram posi­
tivos ou negativos.
O que sabemos é que, quando ocorre este processo, o prazer ma­
nifesto certamente não é comparável àquelè produzido pela droga.
Mas acontece algo reparador que é sentido como autêntico pelo in­
divíduo, ou em todo caso, parece bastante poderoso para que este o
leve em consideração, e isto vai marcar seu imaginário de tal maneira
que, quando ele alucinar o real, vai fazê-lo de um modo um pouco
diferente a cada vez.
Assim, tudo se move, mesmo que às vezes as aparências enganem
e constituam uma outra história do indivíduo, outra clínica. Não há
desmoronamento interno, nem reorganização estrutural do universo
do toxicômano. Há modificação das forças em presença, das relações
entre estas, de seus respectivos pesos, do calor de atmosfera que elas
emitem. Neste verdadeiro movimento interno, ocorrem desvendamen-
tos e mais rupturas, porém vemos também retornos, reconciliações
psíquicas, silêncios, dissimulações. Nada é estável, e o combate per­
manece incerto. Mas enquanto há combate, não há finitude e, logo,
a possibilidade de tender para a Unidade — sobre a qual se funda
a ação livre — perdura.
Resta saber por que, em tal ou qual momento, o paciente paraliza
esta progressão. Uma coisa é certa: sabemos porque ele tem tanto
apreço pelos benefícios da droga e pela sua identidade de toxicôma­
no, e conhecemos também seu incrível sofrimento, sua carência abso­
luta face ao espelho partido. Mas geralmente não atribuímos a devida
importância à todas as dúvidas, dores e derrotas sofridas, desde que
o universo superegóico (o seu, de sua família, de sua biologia, da
sociedade em geral) vem tentando restituí-lo à “Normalidade”. É
justamente neste ponto que ocorre a derrota, quando na relação
(particularmente na convicção do clínico de estar perante alguma
patologia), surge alguma coisa, um erro, que lembra todas estas ten­
tativas e seus fracassos inevitáveis. Isto equivale a dizer que o clínico
não pode — ou, pelo menos não em qualquer momento da relação
73
— propor qualquer tipo de solução, como se dispusesse de uma
variedade clínica já repertoriada e bem definida.
O fracasso é muitas vezes decorrente de uma confusão entre sinto­
ma e atmosfera, entre signo e meio ambiente. Ele é causado pelo
desconhecimento afetivo e intuitivo pelo indivíduo, aqui e agora,
do tempo vivido; e pela tendência instintiva que tem o terapeuta
de reduzir a semiologia a este ou aquele nível da economia psíquica,
a tal ou qual conflito latente. É o sinal de que não foi instaurada
nenhuma cooperação autêntica e uma análise clínica deve detectar
aí algum conflito de poderes — o qual impede a exata apreciação
da emoção e do estado de espírito de ambas as partes, acarretando
reações inadequadas.
Por outro lado, o fracasso pode ser produzido também por uma
supervalorização do aspecto afetivo, uma estimação excessiva da
erotização da relação, ou de seu caráter iniciático de fusão que, por
um lado, amedronta o indivíduo, e por outro lado não permite mais
que este construa uma ligação, uma organização com valor de estru­
tura operacional — nem por um período limitado, o que é, porém,
indispensável. Pois na realidade psíquica, as coisas não são nunca
muito nítidas, são mais complexas, a tal ponto que situações de ordem
sucedem a situações de desordem (ou coexistem com elas), e que os
elementos estruturais ou tópicos foram praticamente eliminados por
nós apenas de um modo muito arbitrário, em oposição a atitudes
muito lineares ou fixistas. De fato, existem tensões e conflitos ins­
táveis entre estes elementos, de um lado, e esta desordem da instan-
taneidade, de outro. E fomos obrigados a privilegiar esta última
neste texto porque nunca tinha sido levada em conta, ou melhor,
sempre fora minimizada na atividade econômica dos indivíduos. Ora,
este abandono, que já é prejudicial numa relação com um verda­
deiro doente, é aqui não apenas dramático (uma falta profissional),
mas também absolutamente não operacional, não fosse pelo simples
fato de que impede a consideração da falta — cujo investimento
pelo indivíduo é tão forte, que a dependência torna-se um mecanis­
mo ativo e positivo de sua economia psíquica. Este investimento, é
bom lembrar, dá-se em termos qualitativos e de intensidade. O pró­
prio Freud fala em “nostalgia”, referindo-se a um objeto ausente ou
perdido — aqui trata-se de um objeto que não é apenas fantástico,
mas cujos efeitos podem ser reproduzidos.
E é este investimento afetivo, esta “nostalgia”, que são negociados
no decorrer de toda a relação terapêutica (enquanto os elementos
estruturais, por serem muitos e esparsos, são pouco negociáveis).
74
Não se trata de participar da construção de uma nova ordem em
troca de uma ordem antiga, e sim de substituir equilíbrios muito
instáveis e difíceis de se manter por outros menos instáveis. Estes
novos equilíbrios, cujas frustrações, somadas, devem ser suportáveis,
produzem um certo prazer sem que se corra o risco do aparecimento
de outras dissociações mais patológicas, como saída para situações
de sofrimento insustentáveis — situações que; sem os efeitos dos
refratores químicos, remetem ao abismo, ao “entreperceber” da mor­
te. Abismo este que vamos encontrar inúmeras vezes ainda no decor­
rer deste livro, como ponto e contraponto últimos: é ele o conti­
nente da desordem do espelho; ele quem faz o tempo vivido parecer
infinitamente longo ou extremamente curto (tal a proximidade da
morte); é contra ele que o indivíduo se defende. E, como este abismo
inicial e derradeiro se apresenta em ziguezague, a defesa também o
é, o que explica estas contorções clínicas: a continuidade e a descon-
tinuidade, a semelhança e a contradição. É face a seu aspecto reta­
lhado, que o discurso mostra-se pouco eficiente e que o indivíduo se
defende em primeiro lugar pela ação. E frente a este mesmo aspecto,
o discurso terapêutico mostra-se também inútil e o clínico utiliza o
afeto e a melodia. Não existe nenhuma descrição correta, e nem
talvez alguma experiência absolutamente segura a este respeito. Ri­
gorosamente falando, há apenas as experiências em comum de todos
os clínicos que optaram pelo mesmo tipo de trabalho e que admitem
as mesmas observações e a mesma aprendizagem (note-se que dize­
mos, como Wittgenstein, “admitem”, e não aprendem).
As coisas complicam-se, como já vimos, porque tudo é intermi­
tente: abismos, sintomas, plenitudes, unidades. E a esta intermitên­
cia própria da economia psíquica do indivíduo, vem somar-se, e
existe em si e por si, a intermitência dos efeitos da droga, a qual
dá origem a uma verdadeira explosão de afetos no “high”, e a outra
no “down”, completamente fora do controle da linhagem afetiva ge­
ral do indivíduo, porém marcando-a como ferro em brasa. A forma­
ção de outra sintomatologia clínica prevalece, então, graças a esta
mistura onde se juntam o prazer e a falta, a plenitude e o abismo e,
sobretudo, a lembrança repetida de um e de outro. É o testemunho
autêntico da elaboração de uma semiologia inteiramente ambivalente,
onde nenhum modelo é formado, onde tudo é instável. O abismo
está presente, bem como os pedaços esparsos do espelho, que im­
pedem a estabilização. A longa vivência da relação pode desmoronar
como um castelo de areia, após outra vivência fulgurante da falta;
tudo é, a todo instante — e durante muito tempo — , perigosamente
75
reversível. Sem a melodia, a emoção, a nostalgia, não há nenhuma
troca entre estes tempos. Se há alguma, esta coisa passa então a
existir e torna-se objeto da clínica, a qual deve descrever sua consti­
tuição e incluí-la no estoque da experiência, tornando assim possível
sua repetição. O que surge aí transforma-se em sinal, contribuindo
para a formação de outras emergências que, por sua vez, vão se
autodescrever e transformar-se em signos e sintomas. Todos contri­
buem para as transformações em curso, ao mesmo tempo em que
são transformados por elas; alguns tornam-se mais sólidos (partici­
pando da construção de uma identidade diferente), enquanto outros
se desfazem conforme os acontecimentos, a utilidade, o prazer ou
desprazer, às vezes conforme sua aproximação organasmática.
Mas a relação em si corre o risco de se transformar em uma intoxi­
cação a dois (principalmente quando a melodia aparece sob a forma
desta aproximação organasmática), uma espécie de magia que se
torna operacional dentro de sua própria existência e por esta, na
qual na verdade há um deslocamento de dependência, e não supres­
são desta, o que resulta em um verdadeiro engodo terapêutico (que
é muito comum nas comunidades do mesmo nome) e em um escân­
dalo ético (transferência imposta e obrigatória). Para o terapeuta, a
relação não deve constituir um fim em si, o que aliás não poderia
ocorrer já que uma de suas funções, enquanto terapeuta, é justamen­
te reconhecer e fazer reconhecer uma carência (que não é a falta),
como sendo consubstanciai à existência, já que vive e morre. A
noção de liberdade a ser conquistada como meta final do tratamento
deve estar sempre presente, e ser lembrada toda vez que for neces­
sário. Não há evolução espontânea pela liberação de um sentido
latente do sintoma (o que é outro engodo profissional). A atitude do
clínico é constantemente voluntarista: constitui sua verdadeira cou­
raça democrática, mas também todo seu profissionalismo, pois o des­
locamento da dependência, sozinho, acarreta um bloqueio cujas re­
sultantes patogênicas trazem pesadas conseqüências.
A clínica deve ainda considerar as mudanças de distância “rela­
cional”, ligadas à imprevisibilidade do afeto, e que ela deverá corri­
gir, mesmo pagando o preço de feridas narcísicas aos dois parceiros.
Estas verdadeiras modificações no clima da relação são salutares e
não são externas ao psiquismo do indivíduo, o qual se acostuma as­
sim a outro tipo de participação estas mudanças de distância. Isto
constitui matéria para uma reorganização afetiva — mas não para
a anulação, que seria mortal, pois remetería um indivíduo fraco
demais àquilo que seria vivido como Nada — , lembrando sempre
76
que esta ou aquela reorganização sempre deverá ceder seu lugar
para uma outra, quando o desejo e a necessidade estiverem prepa­
rados para tanto.
A relação é entre o "eu” e o jogo, e, no jogo, ganha-se ou perde-
se. De tantas substituições, transformações e permutações, o “eu”
acaba prisioneiro de seu próprio jogo, e pede uma certa coerência.
Esta coerência só pode consistir em um acordo com o “eu” do tera­
peuta, cujo jogo resume-se a dar outro sentido à identidade do
toxicômano, ao seu renascimento, sua nova história, sua nova liber­
dade.
Existe um paradoxo neste procedimento e nesta atitude que exige
tanto do clínico, o qual descobre pouco a pouco o sinal, modula a
melodia, edifica o sintoma, organiza o equilíbrio, seduz o sedutor,
para finalmente pedir-lhe que abra os caminhos para sua liberdade,
o que passa por uma cesariana de sua relação profunda, visceral e
primitiva com o toxicômano. O paradoxo, porém, é apenas aparente,
pois trata-se do instinto de vida de um e do outro, de um pelo
outro — caso contrário, a única saída possível seria carnívora.
Como fica então este esquema, quando nos voltamos aos poucos
para a vida do toxicômano? Nós privilegiaremos sua infância para
mostrar como ele se constrói, desloca-se, sem dispor de meios de
referência familiares e culturais, e sublinharemos por que o discurso
científico tradicional é impotente para estancar tais hemorragias. Em
seguida, tomando o título de empréstimo a Sartre, trataremos do
Idiota da família, para definir o lugar que lhe é atribuído no sistema
familiar. Falaremos então do problema do código sexual do toxicô­
mano, antes e durante seu encontro com a droga. E terminaremos
aí, com uma conclusão provisória marcada de repetições, pois a re­
petição é nascimento e ritmo, e a pergunta sempre abre o caminho
para outras perguntas.

77
2
A Infância do Toxicômano

"Aquilo que está descoberto atrai a vista, aquilo que é escuro


chama o saber”, diz a Cabala.
Sabemos ou pensamos saber o que é um toxicômano; nós o
vemos, falamos com ele, ele nos vê, fala-nos. Não sabemos, porém,
como ele se constrói, como é fabricado. E assim que tentamos
sabê-lo, ocorrem-nos inúmeras perguntas:
— Existe um sistema de fabricação de toxicômanos?
— Existe um determinismo causal e conseqüentemente irredu­
tível?
— Existe uma identidade de toxicômano, ou em outras palavras,
plagiando Henri Atlan, o toxicômano se parece com outro
toxicômano, assim como a estrutura de um cristal se parece
isomorficamente com a estrutura de outro cristal? Ou eles
só têm em comum a imperceptível evanescência da fumaça?
Nossa intenção no presente texto é afirmar muitas coisas às vezes
contraditórias, pois na verdade todo sistema humano é ao mesmo
tempo organizador e sede do acaso, e o psiquismo humano (cons­
ciência e inconsciente juntos) oscila entre a fumaça e o cristal. Nossa
intenção é mostrar de uma forma causativa que há um sistema de
fabricação organizador do toxicômano e que, contraditoriamente,
este destino não é inelutável, pelo menos não é irreversível.
Queremos ainda lembrar o que dissemos nos textos anteriores
sobre as relações entre o psiquismo e a cinética, ou seja, que todo
fenômeno pode ou não se produzir, dependendo da velocidade do
encontro intrapsíquico e do momento de sua aparição. Queremos
integrar em toda clínica humana a noção sobretudo de “instanta-
neidade” — a instantaneidade fecunda capaz de recolocar em ques­
tão, definitiva ou transitoriamente, uma organização estrutural ou
tópica.
Dito isto, o leitor deverá então interpretar este texto não como
uma gnose fixista, e sim, como uma tentativa de aproximação
visando a apreender um movimento, aproximar-se ao máximo de
79
uma realidade, cujo desenvolvimento não é conhecido nem mesmo
por aqueles que a vivem. Algo da ordem de: "tudo se passa como
se. . . ”. Este "passe” é infinitamente mais sutil e complexo do que
aquele que geralmente se encerra na armadilha que é o discurso.
Mas a colocação deste "tudo se passa como se. .. ” é necessária, ain­
da mais que estas afirmações devem gerar irredutivelmente outras
aproximações com a Lei — real ou imaginária — e com uma tera­
pêutica específica para os toxicômanos. Esta especificidade é radical
em relação a todas as outras psicoterapias, pois, para poder atuar
sobre os fenômenos, esta clínica precisa conhecer os mecanismos de
fabricação do toxicômano, as razões de ser da droga que ele toma
ou injeta-se, e os efeitos produzidos por esta droga na economia
psíquica e libidinal do indivíduo.
Uma das razões deste texto consiste em formular uma diferença
que consideramos fundamental — e que é constantemente escondida
por uma Lei e por um poder médico que não sabem de nada — entre
os usuários de drogas, sejam elas leves ou pesadas, e os toxicômanos.
Os usuários de drogas dependem de uma interrogação social; os
toxicômanos são doentes que sofrem e, por esta razão, dependem de
uma intervenção terapêutica. Já é tempo de pôr um termo a essas
confusões que nos perturbam, e o papel de uma "clínica dos toxicô­
manos” é justamente colocar as coisas nos seus devidos lugares, lon­
ge de uma psiquiatria ou psicofarmacologia moralistas e facilitado-
ras de todo tipo de tirania.
Podemos afirmar com certeza que o usuário de drogas não teve
nenhuma infância específica. E podemos afirmar com a mesma cer­
teza que ocorrem eventos e "passes” específicos na infância do toxi­
cômano. Isto se verifica não obrigatoriamente com crianças de alto
risco, em famílias de alto risco, mas com crianças aparentemente
normais que sofrem uma ou mais rupturas. Podemos entrevê-las,
assinalá-las, indicá-las, podemos às vezes — nem sempre — achar o
porquê parcial dessas rupturas. Não sabemos ainda por que a "ins-
tantaneidade” dessas rupturas é tão operacional, em comparação com
outras crianças, por que ela se inscreve com tamanha obrigatorieda­
de no psiquismo e na memória deste ou daquele indivíduo.
Por isso, não devemos esperar deste texto mais do que ele pode
nos dar. Seu procedimento é mais intuitivo que demonstrativo. Por
não ter raízes ditas científicas, ele não é tampouco um texto pura­
mente filosófico ou especulativo, pois tem por base essencialmente a
experiência clínica fenomenológica (principalmente o estudo das
80
neuroses compulsivas e impulsivas elaborados por Durand em 1958),
e como suporte teórico — a psicanálise.
Conta também com o testemunho de legitimidade a experiência
efetuada no Centro Médico de Marmottan, que recebeu em 10 anos
12 mil usuários de droga e toxicômanos.
Antes de prosseguirmos, queremos reiterar nossa convicção de que
algo de essencial também ocorre na ordem do biológico, enquanto
suporte e retorno do psiquismo, através da construção e da redistri-
buição de sistemas organizadores neurobiológicos, sinápticos, hormo­
nais, enzimáticos. Algo da ordem do infinitamente pequeno, da com­
petição, que emprega fenômenos “on-off”, cuja soma torna possível
a passagem do quantitativo ao qualitativo — anunciando assim o
que será feito depois pelo produto; produto este, é bom lembrar,
cuja natureza é objetiva e não fantasmática. Esta mobilização, este
deslocamento cinético e esta competição repetitiva são essenciais para
que se estruture um toxicômano, o qual talvez capitalize, sobretudo
a nível das estruturas rinencefálicas, um ganho sensitivo-sexual cada
vez mais diferenciado dos outros homens.
Este assunto foi levantado por nós apenas superficialmente, pois
uma verdadeira cultura neurobiofisiológica faz-nos falta. Considera­
mos porém fundamental que seja feita a associação.
Dissemos anteriormente que não há nada de específico na infância
dos usuários de drogas, leves ou pesadas. A prova disto é evidente,
flagrante, cotidiana. Todos nós alguma vez experimentamos, atual­
mente tomamos, ou então tomaremos um dia algum tipo de droga.
Conhecemos milhares de pessoas que o fazem, e que não são e nem
se tornarão toxicômanas. E, no entanto, os toxicômanos existem.
Há então uma diferença entre esses dois tipos de homens, e vamos
tentar demonstrar que ela se constitui desde a mais tenra infância.
É preciso deixar claro — e não é simplesmente uma questão de esti­
lo — que neste caso não estamos falando da lei do “tudo ou nada”,
e que inúmeros estados intermediários podem existir, evoluções po­
dem ocorrer num sentido como no outro (o que, aliás, justifica a
própria terapia), e que ser ou não toxicômano depende mais da pará­
bola seguinte: somamos um grão de areia a outro grão de areia, e
quando chegamos a x + 1 grãos de areia, dizemos que temos um
monte de areia.
É preciso ressaltar também que inúmeras pessoas têm este patri­
mônio como parte de suas aquisições infantis, e nem por isso tornam-
se toxicômanas. Para que alguém dotado desses elementos adquiri-
81
dos transforme-se em toxicômano, duas condições são necessárias e
suficientes:
— a primeira é que ele encontre a droga;
— a segunda é sua relação com a transgressão da Lei.
Por Lei entendemos tanto a lei imaginária quanto a lei real. A
relação do futuro toxicômano com a Lei modifica-se, ou por neces­
sidade absoluta de organizar em outra parte o narcisismo destruído
(de que falaremos adiante), ou porque a pressão lúdica para existir
é mais imperativa que a pressão legal — esta última é sentida como
inoperante, pois aqueles que a encarnam são renegados (pai idoso,
impotente, homossexual por exemplo, ou melhor, sentido como inca­
paz de satisfazer a mãe) —, ou então porque o único modo de ser
no mundo, primário e biológico, reside no masoquismo como tenta­
tiva de organização da auto-imagem, ou, finalmente — é o caso
mais freqüente — , porque, como para o grão de areia, todos esses
elementos se combinam.
A questão da relação com a Lei, para nós fundamental, não cabe
no presente texto, mas deverá obrigatoriamente complementá-lo.
Falamos em diferença. A questão que se apresenta então para
todo terapeuta é saber de que se trata a estrutura psicológica, e se
o toxicômano tem outra personalidade.
Durand descreveu uma neurose toxicomaníaca com dois compo­
nentes: um impulsivo e outro compulsivo. Observando mais atenta­
mente, constatamos que efetivamente muitos de nossos pacientes,
cujas identidades não podem ser questionadas por clínico algum, têm
a ver com isto, sobretudo no que diz respeito às atuações e ao senti­
mento de culpa. Verificamos igualmente que suas neuroses têm
“certa” semelhança, mas não são exatamente iguais — a complexi­
dade do toxicômano não pode ser, por exemplo, reduzida à uma
neurose obsessiva. Da mesma forma, o terapeuta destituído de idéias
pré-concebidas vai constatar que o toxicômano sempre é “um pouco”
parecido com alguma coisa que ele já viu: um pouco de psicótico,
um pouco de maníaco-depressivo, um pouco de perverso, um pouco
de homossexual etc. Um pouco, mas não exatamente — com varia­
ções para cada indivíduo, e para o mesmo indivíduo, a cada etapa
do atendimento terapêutico.
Quando for tratar, sobretudo se tiver formação psiquiátrica, ele
vai tratar este '‘pouco” que lhe é familiar (o que constitui o erro
fundamental de todo atendimento não especificamente destinado ao
toxicômano), mas vai negligenciar o essencial: a construção especí­
fica da personalidade do indivíduo, o caráter específico da droga,
82
e aquele encontro não menos específico do corpo, do psiquismo e da
droga, que acarreta uma modificação impossível de ser reduzida a
qualquer outra, pois se dá de maneira indissolúvel no corpo e no
espírito, gerando a “instantaneidade” organizadora de uma unidade
até então ausente.
Assim, na maioria das vezes, o terapeuta prende-se ao terreno do
que lhe é familiar. Ele não ousa se aventurar adiante porque não
compreende. Hoje em dia, aqueles que quiserem ir além, têm que
resolver dois problemas essenciais, e que se renovam a cada caso
individual:
— o primeiro é o porquê deste “um pouco”, e não “tudo”, que
acabamos de mencionar, desta “incompletude” pouco tranqüi-
lizadora da patologia encontrada; é o que vamos chamar de
“estágio do espelho quebrado”;
— o segundo, que já vimos superficialmente, é essencialmente
fenomenológico: é a questão do grão de areia somado a outro
grão de areia, ou seja, de saber Como e Quando se obtém o
monte de areia; trata-se então de redescobrir todo aquele pro­
cesso em ziguezague, não racional, irredutível a qualquer lin­
guagem: o processo dos combates, das pulsões agressivas e
violentas, do choque da ruptura, da devolução deste choque
pela mãe, da função do tempo — por onde se introduz a des-
continuidade e a ruptura geradora da perda momentânea de
si — e, finalmente, do confronto com a Lei. É o que vamos
tentar ver agora.

O estágio do espelho quebrado


Sabemos a importância que tem o estágio do espelho na concepção
lacaniana da formação da identidade do homem, com a criança se
descobrindo enquanto outro em um espelho real ou simbólico, o que
a torna capaz de romper a fusão que mantinha com sua mãe.
Sabemos menos que, para Lacan, este estágio tem uma conotação
cinética. Falamos no “flash” da autodescoberta, da descoberta da
própria imagem. Quase todos nós escamoteamos este aspecto explo­
sivo, esta fissão separativa porque, em última instância, somos obce­
cados por uma concepção linear do desenvolvimento ontogênico o
filogênico do homem.
Ora, nada é menos linear que o desenvolvimento psíquico do
homem: desde o traumatismo do nascimento, até a aprendizagem
83
das leis, o filhote de homem se vê obrigado a enfrentar verdadeiras
onda de choque. Considerando estes dados, percebemos a medida
da vulnerabilidade extraordinária de uma criança, e quantos fatores
de derrapagem podem existir, mesmo que "no geral” as coisas pare­
çam em ordem.
Quando nos referimos ao estágio do espelho quebrado, trata-se
justamente de uma derrapagem desta espécie. Com efeito, sabemos,
por exemplo, que toda teoria psicogenética da psicose implica, ou
deixa entrever, uma impossibilidade, por múltiplas razões, da reali­
zação deste estágio do espelho — um impossível desligamento do
estágio "fusionai”.
Para o toxicômano, acontece mais ou menos alguma coisa interme­
diária entre um estágio do espelho bem sucedido, e um estágio do
espelho impossível. Algo que vai decodificar o programa psicológico
preestabelecido em função de novas informações recebidas. Se qui­
sermos encontrar, ou ao menos nos aproximar deste "passe”, através
do estudo da infância do toxicômano, existem dois métodos à nossa
disposição:
— por um lado, a anamnese, indispensável, mas suspeita;
— e, por outro, uma aproximação antropológica invertida que,
partindo da hipótese segundo a qual o comportamento do toxi­
cômano tem uma função ao mesmo tempo nos sistemas social
e familiar, consiste em ir ver, observar o que faz o toxicômano,
principalmente com seu próprio filho — o que ele projeta na
sua criança.
Pensamos que ele projeta em parte o que ele mesmo recebeu, so­
bretudo pelas seguintes razões: a tomada da droga, o que os clínicos
chamam de uma forma simplificadora de sintoma toxicomaníaco, as­
sume o poder quando as vias de transmissão da Lei estão impedidas,
por exemplo, quando existe um segredo não-dito. O melhor exemplo
do medo da revelação é o crime cometido pelo pai, ilustrado perfei­
tamente pelo tema de Laio no mito edípico. Mito este tão famoso, e
no qual sempre esquecemos de ressaltar que, antes de morrer assas­
sinado, Laio, o pai, tinha seduzido o amigo masculino do filho. . .
Este não revelado pode ser, de maneira mais banal, uma família
psicótica, lutos, um pai muito velho, sua impotência para satisfazer
a mãe, rompimentos, uma homossexualidade etc.
Ora, ao observarmos um toxicômano com seu filho, uma coisa
pelo menos nos impressiona: ao contrário do que dizem alguns, à
criança não falta (ou quase nunca) nem carinho materno, nem afeto
— isto é verdadeiro mais para as mães do que para os pais, uma vez
84
que o pai geralmente vive a criança como um acidente que ele tem
de assumir enquanto está ligado à mãe. Mas o que impressiona ainda
mais, é que a criança nunca é considerada sagrada perante o “ de­
monstrativo” (mesmo quando é bem pequena).
Assim como a tomada da droga, o “demonstrativo” assume o po­
der, em lugar daquilo que a tradição oral familiar ocultou. A obser­
vação mostra que o toxicômano projeta sobre a criança o ver, o
“demonstrativo”, o espetacular, assim como quando criança ele já
se manifestava através do que podia ser considerada uma inadapta­
ção, um “desequilíbrio”. Este último, examinado mais profunda­
mente, não passava de uma exasperação da função lúdica, de uma
verdadeira pressão lúdica que no seu tempo assumia o poder lá onde
a palavra não acontecia.
E agora, na frente do seu próprio filho, ele não lhe poupa nada:
crises, suicídios, comas, violências. A criança tem que ver: L., de
35 anos, fez três tentativas de suicídio na frente do seu filho, e H.,
de 31 anos, entrou em coma 12 vezes na presença do seu (quando
isto só ocorreu duas vezes em sua ausência).
Tudo se passa como se o pai acertasse as próprias contas na frente
do filho. Contas que tinham algo a ver com ele, mas numa época
em que, como já vimos, as vias de transmissão (e sobretudo a trans­
missão da Lei), estavam ocupadas pelo impossível dito, pelo não-dito.
Isso constitui a fonte de uma angústia e de um sentimento de culpa
incomensuráveis — ou habitualmente sem possibilidade de referên­
cia e, logo, de comparação com qualquer outro — e que ele, por
conseguinte, não soube nem conseguiu metabolizar. Portador da an­
gústia de uma demanda que ele não pôde formular em tempo útil
em relação aos seus próprios pais, o lado espetacular do seu “de­
monstrativo” é a conseqüência direta da censura que lhe foi imposta
e/ou que ele se impôs.
É esta oposição, entre o espetacular desta demonstração literal­
mente “amoral” frente a seu filho, e sua própria infância — trauma­
tizada, porém onde as reações eram, afinal de contas, “razoáveis” — ,
que nos trazem de volta à noção de espelho quebrado. É como se
existisse um raciocínio infraverbal implícito, que seria o seguinte:
“Eu nunca consegui fazer passar a mensagem da minha angústia. Eu
a escamoteei, preenchendo a carência com a droga. Isto não funcio­
nou — prova disto é meu filho que, pelo simples fato de existir,
mostra que eu existo, enquanto eu não tenho nenhuma certeza sobre
minha identidade. Se eu não o fizer passar por isto, eu enlouqueço”.
Com efeito, face a este novo ser, o que está em jogo — e que as
85
pessoas costumam chamar de egoísmo ou vício — é a extrema difi­
culdade para constituir um eu adulto. Dificuldade esta que vem
marcando a existência do toxicômano desde sua infância.
Marca emergente, pois a toxicomania é sempre uma vivência em
movimento, uma seqüência de atuações, com a constância de um
imaginário em aparência voluntariamente orientado, através do qual
o toxicômano tenta reviver, ou, mais exatamente, recriar, instantes
privilegiados da sua infância, ou realizar situações fantasiadas na
infância. Para ele, o privilégio aconteceu e foi destruído numa ins-
tantaneidade simultânea. É que (admitindo e retomando a metáfora),
foi precisamente naquele momento, naquele "passe” onde um ego
diferente do ego-mãe devia se constituir, naquele face a face com o
espelho, naquele "flash” da descoberta de si e da descoberta da ima­
gem de si, que o espelho se partiu, refletindo uma imagem, porém
uma imagem partida. Uma "incompletude” onde os vazios deixados
pelos pedaços ausentes só podiam remeter àquilo que existia ante­
riormente — a fusão, a indiferenciação. Este estado pode ser com­
parado ao instante preciso em que Adão, pressionado por Eva, co­
meça a morder o fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal:
o "entrepercebido” fulgurante de um inelutável futuro, as saudades
de um paraíso perdido, a nostalgia de ser e de não ser explicam em
parte o lado melancólico da toxicomania. É este movimento duplo e
simultâneo de ruptura e de reconhecimento que gera a "incompletu­
de” nosográfica ligada à sua patologia.
A partir deste instante, o indivíduo é ao mesmo tempo normal e
psicótico, normal e perverso etc. A partir deste instante, está em jogo,
antes de tudo, o futuro do toxicômano: a cada minuto de sua vida,
face a face ou nas profundezas secretas de sua intimidade ele vai
jogar com esta simultaneidade do reconhecimento e de sua impossi­
bilidade. Vai tentar anulá-la ou dela se aproximar ao máximo, a
qualquer preço. As coisas então se passam assim: primeiro, na sua
própria infância, há a pressão lúdica, da qual já falamos; em seguida
é a vez da droga e da seringa; depois, frente à criança que lhe
devolve o problema insolúvel do ego e da identidade, ele vai jogar
sua vida até morrer, quando a droga não for mais capaz de lhe
proporcionar sequer uma unidade efêmera. E, de fato, só pode haver
alguma solução definitiva para ele no compromisso ou na morte. Aí
reside outro aspecto da clínica do toxicômano.
Assim, em parte "fusionado” em parte autônomo, logo, em par­
te psicótico, em parte perverso e, então, em parte normal, o toxicô­
mano em potencial vai levando seu destino. Mas, antes de segui-lo
86
adiante, precisamos nos questionar sobre as causas desta ruptura, e
sobre o momento em que esta se dá.
A ruptura não se dá em sentido único; antes de tudo, há a inter­
venção da mãe. Esta ruptura se produz no sistema mãe-filho, quando
este sistema e o papel que desempenha na economia libidinal não
funcionam, ou não funcionam completamente. Para haver ruptura, é
preciso que haja um ou vários choque. Este choque é recebido pela
mãe mas ela o devolve. A manutenção desta devolução permanente
durante a infância é que contribui para o impossível reforço do ego
do toxicômano. Conseqüentemente, vai ser a supressão ou ao menos
a neutralização desta devolução, a responsável posteriormente pela
"cura” do toxicômano.
A ruptura se estabelece então em uma cinética da relação mãe-
filho. É causada por inúmeros fatores, que na verdade seriam insufi­
cientes, se a personalidade da mãe (e também, mas de outra forma,
a do pai) não fosse o que é.
Prevalecem aqui alguns elementos sempre presentes na biografia
do indivíduo, os mais significativos dos quais vamos tentar relacio­
nar, porém sem pretender fornecer uma lista exaustiva. Entre eles,
temos o caso em que a criança substitui outra, por exemplo um
irmão ou irmã mortos: L. era o terceiro entre quatro irmãos; depois
da morte do primeiro, o segundo recebera o nome do que morrera,
e assim por diante. Mas o que ocorre ainda com maior freqüência
é a rejeição explícita de uma criança do sexo oposto, ou um não-
desejo do nascimento por parte da mãe, constantemente reafirmado
em seguida, ou, como no exemplo acima, a escolha de nomes que
significam a permanência do não-desejo. Em suma, a criança é vivida
(se vive) no lugar de outro, pelo menos não no seu próprio, e toda
e qualquer tentativa de reivindicação desse lugar próprio vai acar­
retar "ipso facto” a mesma reação, a mesma remoção à não-identi­
dade. É no interior desta cinética da relação mãe-filho que talvez se
encontre uma das razões pela tão freqüente homossexualidade nos
toxicômanos.
É também nesta cinética "relacional” que se situa — ou melhor,
não se situa — o pai. Não podemos falar em exclusão e no nome
do pai e no próprio pai. Este só intervém de modo negativo, seja
não demonstrando seu desejo de "nominar” a criança, seja abdicando
seu papel de pai para assumir o papel materno em lugar da mãe.
Porém, se ele adota uma ou outra posição, é porque ele é vivido e
apresentado como não podendo adotar nenhuma outra: o não-dito da
tradição oral familiar apresenta-o como impotente, ou pela sua idade
87
real, ou pelo lugar que ocupa na atividade sistêmica familiar, ou
ainda porque é vivenciado como incapaz de satisfazer a mãe. Nem
é preciso acrescentar que os três fatores podem se combinar ou se
complementar.
É preciso porém ressaltar que o que estamos tentando descrever é
um sistema dinâmico, cuja instalação temporária é progressiva, reati­
vada por períodos, atualizada na adolescência pela crise da puber­
dade, a relação com a Lei, a conotação social da transgressão.
De tudo isso que acabamos de descrever e que mereceria ser bem
mais aprofundado, ou seja, desta ruptura, nasce e constitui-se —
como uma borboleta que não consegue se livrar de sua crisálida — ,
este bastardo polimorfo cuja identidade facetada, em pedaços, reme­
te a todas aquelas patologias nas quais ele, como nós, vai se enredar.
Mas elas não bastam para situá-lo: sua identidade encontra-se além,
assim como a identidade do povo judaico não se reduz a dados
previamente estabelecidos. Se não podemos afirmar que o judaísmo
é uma religião, um nacionalismo ou a superestrutura de um problema
econômico, também o toxicômano não pode ser apontado como sen­
do um maníaco-depressivo ou um perverso. Na verdade, estamos
lidando com o problema irredutível de uma comunidade de destinos.
Dissemos tratar-se de um conjunto dinâmico, e de repetição. O
essencial, porém, reside na primeira vez, no movimento, na instanta-
neidade do simultâneo — o espelho se constitui e quebra-se. Há
um acme na emergência. Este movimento, esta impossibilidade do
statu quo — que, como acabamos de mostrar, é sentida a todo
momento — constitui a originalidade do toxicômano.
O curso deste statu quo impossível situa-se em três níveis:
— No nível da interioridade, onde os conflitos não resolvidos,
pois insolúveis, acumulam-se; onde, já que é impossível de­
tectar as razões de ser das pulsões, estas oscilam entre uma
agressividade e uma violência dirigidas para terceiros, e em
seguida voltadas contra si mesmo, objeto indigno de ser amado
pois vivenciado como "não sendo”.
— No nível da relação, onde o sentimento agudo do “quase-já”
e do "nunca mais” explica a demanda carnívora do “tudo, já,
agora” formulada pelo toxicômano.
— No nível da Lei, cuja referência não é jamais suficiente para
acalmar a angústia do toxicômano, tamanha é sua necessi­
dade de ir para o outro lado do espelho, ver o que se passa,
procurar não se sabe bem que eco oculto de um ego "entre-
percebido”.
88
Podemos imaginar a quantidade de decepções repetidas, acumula­
das com o passar dos anos — e isso, ainda mais porque toda a
organização familiar, escolar, social, todos os códigos, todas as in­
formações com que o indivíduo vai lidar, remetem-no a uma norma
que não pode ser a sua, pois, pelas razões expostas acima, elas não
podem permitir que se organize um narcisismo feito em pedaços.
A partir de então, a injeção, o gesto da injeção da droga na
veia, vai representar no plano simbólico a tentativa de introjetar
estes pedaços para reconstruir o todo perdido — um pouco como o
cimento nas rachaduras de uma parede.
E para quem conhece as qualidades (iniciais e iniciatórias) deste
cimento — por exemplo, da heroína — , quem sabe de suas pro­
priedades caloríficas e de "atmosfera”, capazes de fazer o indivíduo
se sentir como em um casulo, um banho de água morna, xaroposo,
uma atmosfera arcaica, pré-genital, fica fácil compreender que, do
símbolo à realidade, o toxicômano acredita ter encontrado o paraíso,
isto é, a Unidade.
A este respeito, costuma ser extremamente impressionante a des­
crição total, quase totalitária, além do êxtase, como se fosse uma
revelação incomparável, do primeiro "flash” e do primeiro "pla­
neta” bem sucedidos.
Sabemos da importância para a manutenção da toxicomania dos
fenômenos da memória, particularmente do encontro com o "flash”
e do primeiro "planeta” alcançado, desta unidade enfim conquis­
tada, e em que atmosfera de clima de fruição! À lembrança deste
encontro, vai somar-se ainda a do prazer. Por outro lado, sabemos
que a criança, sobretudo na mais tenra infância, é um "perverso
polimorfo”.
Junto com a noção de espelho quebrado, nós admitimos como
hipótese de trabalho que, de uma maneira infinitamente mais mar­
cante que para todos os outros fenômenos de sua ontogênese, o
toxicômano tem como mnemonização privilegiada, esta pré-instan-
taneidade, este acme da emergência no qual se dá a ruptura; e que
a fase seguinte, obrigatória, é o movimento no qual deveria se situar
o encontro constrangedor com as leis, e a organização da relação
com o outro. Por conseqüência, o toxicômano vai tentar, ao mesmo
tempo consciente e inconscientemente, reviver, reassumir a posição
de criança pequena, anular a ruptura. E não é surpreendente vê-lo,
então, fazer durar ao máximo seu lado "um pouco perverso”, pois
ele tenta reencontrar estes momentos e estes elementos de perversão,
que são as únicas situações de felicidade que conheceu. Esta é a
89
razão pela qual o observador, assombrado, vai presenciar as tenta­
tivas aparentemente incompreensíveis do toxicômano para reconsti­
tuí-las e nelas se reecontrar, pois é próprio da criança perversa
polimorfa este movimento de alucinar a realidade, em particular
através do jogo, de tal modo que ela consiga anulá-la a cada mo­
mento (mas só por aquele momento). E é exatamente este o papel
que vai assumir a droga, única a ser capaz de alucinar a realidade,
única a poder anulá-la, quando o modo de agir precedente torna-se
insuficiente e inoperante. É o que faz o toxicômano com a droga.
Vemos então se delinear mais claramente o papel desempenhado
pela droga na economia das identificações e da libido do indivíduo:
preencher os vazios do espelho, anular o real (fonte de angústia
total), reencontrar no acme da emergência a Unidade identificató-
ria, e no “planeta” reviver a época de lactente, sem culpa e sem
sexualidade, logo, sem problemas. A droga, o papel da droga, é de
se colocar aí, em lugar da ruptura e de anulá-la neste momento
preciso.
Tudo se dá, então, em torno da ruptura, no antes imediato e na
instantaneidade. Mas pouco importa o tempo real, a dimensão deste
tempo não tem importância. Ela tem a medida do que é vivenciado
pelo indivíduo. Só importa o tempo vivido do “reconhecimento-
desconhecimento”, da perda da identidade. E também o “quase-
não-mais” do após. Toda a questão da criança que vai se transfor­
mar em toxicômana está aí — ser ou não ser.
Podemos até mesmo imaginar o módulo da inscrição biológica de
tais rupturas e de suas áreas de organização, no substrato orgânico
do “mnemotron” humano. A partir de agora, encontramo-nos frente
a um novo sistema auto-organizador com propriedades ao mesmo
tempo antigas, clássicas, e novas. Devemos então nos interrogar
sobre o modo como ele vai se construirr. É o que vamos chamar
de estágio do excesso.

O estágio do excesso
Vimos o choque da ruptura, e o choque devolvido através da
reação da mãe. É neste ponto que se inicia todo excesso. Em rela­
ção a tudo que vinha antes, a sensação, o sentimento vivenciados
são exacerbados. É o evento: imenso. A partir de então, com o
prosseguimento do processo biológico e psicológico de envelhecimen­
to, o futuro toxicômano tem nas mãos os pedaços esparsos do
90
espelho, e tenta se constituir um ego e uma personalidade. Para
tanto, ele explora todas as dimensões de seu espalhamento. Cada
uma delas remete-o à sua “incompletude”, pois se todas são neces­
sárias, nenhuma é suficiente.
Thomas, de cinco anos, é filho de L., que mencionamos acima.
Seu pai A., de 33 anos, é um ex-toxicômano, que agora trabalha
em uma instituição para toxicômanos e não vive mais com a mãe
do seu filho, a qual vem acumulando acidentes demonstrativos.
Thomas já viu de tudo, conhece tudo, inclusive os amantes de sua
mãe. Ele está na praia conosco e sua atividade de jogo frenética.
Mas o que ele nos mostra com orgulho, encorajado pelo pai, é a
dimensão enorme do seu pênis. Na nossa frente, sem vergonha
nenhuma, com cinco anos de idade, ele se masturba várias vezes
e se entrega a um simulacro de relação sexual com sua prima.
Visivelmente, está acostumado com esse tipo de jogo, sem ser repri­
mido de nenhuma maneira. Nenhuma lei foi aqui estabelecida, pelo
contrário, o pai — que no entanto resolveu admiravelmente sua
relação com a droga e com a lei — está muito orgulhoso. Thomas
está apenas repetindo algo que ele já fez, e que ele sente como
sendo permitido.
Mais tarde, o menino nos leva para uma cabana que ele construiu
no meio de uns espinheiros; descreve seu apartamento da seguinte
forma: “aqui é a cozinha, aqui o quarto, o banheiro. . . e aqui, é
a farmácia”. É evidente que outra criança não teria pensado em
nos mostrar a farmácia. O que Thomas nos mostra, e que ocupa um
lugar importante na sua vida, é o que ocupa um lugar importante
na vida de sua mãe. Não é apenas um local de cuidados médicos:
é um local fundamental.
Juntando estes fatos: o lugar do “demonstrativo”, aceito, que se
tornou banal, o prazer concedido da masturbação, o orgulho pela
dimensão do sexo (quando se trata de uma criança) e, finalmente,
o peso não habitual atribuído à farmácia, e temos então, refletidos
no menino, os elementos que tiveram uma importância despropor­
cional para os pais, elementos que ocuparam — ou ocupam —
grande parte do “agir” do pai e da mãe. Parte suficiente, no míni­
mo, para que a criança possa expressá-los sem culpa e sem vergonha,
aos olhos de todos, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
O agir dos pais toxicômanos é o agir de pessoas que se encon­
tram numa situação irreversível; eles não podem voltar a um estágio
de fusão; a ruptura nesta hora (de sua infância) é irreparável como
os meios de que dispõem. Ela se define sozinha como impossibili-
91
dade de repetição: eles não podem se olhar novamente, como qual­
quer outro homem (por exemplo, como o futuro “simples” usuário
de drogas). Sua única alternativa é então a procura “pulsional” de
substitutos. E isto, até que encontrem a droga; daí a pressão lúdica,
as transgressões, até a prática de uma sexualidade vivida como
incompleta e, por isso mesmo, rapidamente desinvestida. Por en­
quanto, eles não têm meios de negociar algum possível compro­
misso, pois são pequenos demais para apreender, e alienados demais
para poder explicar. São apenas crescidos bastante para sentir a
falta e sofrer com isto.
Frente à falta, a esta falta de caráter arcaico, as únicas armas
que estão à disposição da criança, de uma maneira quase obriga­
tória — de tão indizível que é o sofrimento causado pela apren­
dizagem das leis familiares e sociais — , são o prazer e o jogo.
Sendo a realidade insuportável, a criança precisa alucinar o ima­
ginário infinitamente mais que as outras. E como o tempo vivido
também lhe é intolerável, ela alucina durante um período mais
longo, além do limite normal — quando toda criança distingue o
fantasma da realidade — , até que a droga vai tornar possível o
desvendamento daquilo que foi ocultado, assumindo literalmente o
papel de porta-voz da identidade momentaneamente reencontrada.
E isto ainda mais porque o que aconteceu é para ela “insensato”,
e que a insensatez se não for anulada, pode enlouquecer.
Perante a insensatez, o excesso lhe é imposto; sua memória o
remete apenas a um bloqueio, ao estágio onde a auto-organização
primitiva foi bloqueada, a um fechamento. A crueldade da catás­
trofe acarreta o excesso da própria reação e das novas tentativas
de organização. E na medida em que o desvendamento do incons­
ciente está parcialmente paralizado, isto se dá através da mobiliza­
ção de uma consciência voluntária. Deste modo, quando a alucina­
ção deixa de ser possível por causa do peso da ordem, da lei, de
relação, ele procura por todos os meios reencontrá-la — até achar
seus efeitos melhorados na droga, por intermédio desta.
Na sua idade, nesta situação, devido ao bloqueio de todo sistema
de referências, ele não pode utilizar a língua. O discurso não é
possível, e mesmo que o fosse, não serviria para nada, pois todos
os fenômenos que acabamos de descrever são impalpáveis e imper­
ceptíveis, apesar de se localizarem in vivo na psique do indivíduo.
Já assinalamos que o jogo constitui a primeira maneira de alu­
cinar o imaginário. Mencionamos a “pressão” lúdica. Toda atividade
lúdica tem uma função, mas aqui a função do jogo é particular-
92
mente coercitiva: tudo deve se transformar em jogo. A uma situação
de exceção, corresponde a um jogo de exceção. É “jogável” aquilo
que não o é para os outros: o afeto, o sentimento e, é claro, a lei
e seus representantes e representações.
Assim, em um centro de pós-cura que conhecemos, onde residem
rapazes e moças cujas idades variam entre 20 e 30 anos, os filmes
de vídeo que eles próprios fazem têm dois temas principais: o
travestismo e os assaltos a bancos ou a diligências. O próprio meio
ambiente se traveste: é só lembrar o início da moda dos cabelos
compridos, que surgiu em um universo onde a droga era soberana.
Com efeito, o excesso neste jogo se faz notar em suas dimensões
temporais (além do tempo em que se deveria parar de jogar. Ex.: o
mundo “hippie”), em seu travestismo (que mais uma vez sublinha
a identidade impossível), em sua recusa da realidade (sobretudo a
realidade escolar), no hedonismo, enfim, acoplado à recusa de cres­
cer — neste mesmo centro de pós-cura, os jovens decoram seus
quartos conforme descrições vistas em livros de contos infantis,
com camas com dossel, cabanas de Tarzan etc.
É claro que com a idade, o jogo torna-se mais complicado, e os
exemplos citados servem apenas de demonstração. O jogo vai então
lembrar na verdade todos os rituais sadomasoquistas: vai-se jogar
de fazer a família sofrer, de fugir, assustar, assustar-se (é impres­
sionante, por exemplo, o fascínio que sente o pré-toxicômano pelos
filmes de terror). O jogo torna-se intelectual, racional, mas quando
porventura atinge alguém com crueldade, o indivíduo vivência este
episódio como “um teatro”. Aí reside a desproporção: no desvio
entre aquilo que é vivido pelo indivíduo da situação, e o que é
percebido por seus próximos.
Jogo prolongado, cada vez mais perverso, coercivo: o toxicômano
vive no meio de um turbilhão que se faz e se desfaz, enquanto,
exteriormente, sua forma continua a mesma. Este distanciamento
entre o “percebido” e o “que deveria ser percebido” psíquico é a
causa do sentimento de paranóia — também ele, desproporcional —
que acompanha quase sempre a vivência do toxicômano.
Para a criança, alucinar o real ou viver o imaginário não é o
bastante. Como toda criança, esta também tem relações privilegiadas
com seu próprio corpo. E usa estas relações de maneira tão exces­
siva quanto o faz com o jogo. A descoberta do corpo como fonte
de prazer é fundamental. Ela que não é nada, que não tem nada,
para quem o real é incompreensível, para quem a identificação
com as figuras parentais não é nunca inteiramente possível, ela
93
tem um corpo, do qual pode obter prazer quando quer, e como
quer. Esta criança, que busca uma repetição impossível, descobre
a possibilidade da repetição do prazer. E vai praticá-la exacerba­
damente.
E antes de tudo, é a masturbação que vai adquirir uma impor­
tância desproporcional, por sua repetição e sua duração no tempo
(não é raro encontrá-la depois da adolescência, quase sempre asso­
ciada ao haxixe, que é uma droga parapubertária). Assim como
não é responsável pela loucura — crença difundida no século XIX
—, a masturbação também não cria a toxicomania; ela constitui a
prática na qual reside a única fusão acessível à criança: a do
concreto de seu corpo. Assim, a criança pode verificar que se corpo
é criação — não somente da possibilidade de prazer — mas da
instantaneidade, no clímax da qual finalmente a angústia da não-
identidade, do ser despedaçado, esfacelado, anula-se. Clímax este
que é uma verdadeira propedêutica daquilo que mais tarde ela
vai fazer com a droga.
Vimos então que a masturbação é repetitiva e que se desdobra no
tempo para que o indivíduo possa estabelecer verificações, o que já
constitui uma desproporção em relação à sua prática. Mas a mas­
turbação é ainda mais desproporcional em relação à sua vivência
fantasmada e à “quantidade” do prazer que proporciona; é evidente
que o prazer sentido é enorme, se comparado com tudo que foi
vivido até então pelo futuro toxicômano, e que se resume à angústia,
à incerteza, à instabilidade e à permanente sensação de falta —
enquanto que, durante a prática masturbatória, ele é Um, e com
prazer. Esta dimensão é armazenada então na memória do indivíduo
e vai ser cada vez mais projetada no futuro, enquanto (como com
a droga) a “quantidade” de prazer e de fusão vai diminuindo com
a repetição, preenchendo cada vez menos a falta.
Ao mesmo tempo a pressão moral e social aumentam: o indivíduo
já não pode mais praticá-la sem vergonha e culpa. Deste modo,
com o término da alucinação lúdica e da masturbação — não na
prática (a qual ainda vai substituir por muito tempo na falta de
algo melhor), e sim, no seu poder de preencher a carência — ,
desenvolve-se uma busca compulsiva de algum substituto, que po­
derá ser, então, a droga, caso esta seja descoberta.
Porém, apesar deste aspecto de desproporção, a masturbação seria
algo banal se não insistíssemos na Dimensão, a qual, como o tempo
vivido, a instantaneidade ou a “quantidade”, remete a noções que
só podemos comparar a termos da termodinâmica e da cibernética.
94
Além da repetição e da duração, o que é exagerado, e até mesmo
exacerbado na prática masturbatória, é a intensidade das sensações
experimentadas. Assim como a criança futura-toxicômana vive sua
relação com terceiros em termos de paranóia, assim como vive suas
relações com o tempo (ver adiante) de maneira específica, assim,
também, seus movimentos de vaivém sobre seu sexo se intensificam
na verificação da própria existência do sexo, e a qualidade das
sensações freneticamente sentidas não pode ser comparada ao que
seria uma atividade sexual com um parceiro. Não é de surpreender
então que este movimento de vaivém sobre o sexo seja mais tarde
projetado, não apenas no vaivém da seringa, mas também, em sua
exacerbação, na "subida” e na "descida” que a droga proporciona.
Este mesmo vaivém tem outro significado importante, assim como
mais tarde a subida e a descida (o "high” e o "down”) — ambos
lembram os momentos de excitação e de depressão do maníaco-
depressivo.
Não é por acaso que introduzimos aqui este conceito de maníaco-
depressivo, usado por Rosenfeld: é o quadro clínico do excesso por
excelência, da fuga para um imaginário completamente megalo­
maníaco, mas cujo preço é muito elevado, quando, em seguida, o
retorno à realidade é vivido como ainda mais excessivamente cruel
e inatingível.
Como acabamos de ver, é precisamente isto o que está em jogo
no toxicômano desde sua infância. É o que explica a presença de
elementos de excitação e de depressão no seu desenvolvimento ou,
quando de suas atuações, de elementos equivalentes; o "high” e o
"down” são para a toxicomania os equivalentes desta ciclotimia.
Mas as verdadeiras psicoses maníaco-depressivas são raras na infân­
cia e na adolescência. Ao contrário, o que mais comumente impres­
siona o clínico, é o aspecto fragmentado, despedaçado dos episódios,
como se fossem tentativas do indivíduo para dissimulá-los, disfarçá-
los. Um dos elementos destes momentos depressivos é, por exemplo,
o grande pânico do adormecer, a extrema dificuldade de ir para
a cama, no escuro, que é freqüente nessas crianças, bem como, no
dia seguinte, a enorme dificuldade para acordar, se colocar "de dia”,
sair do casulo da cama. As atuações suicidas, tão freqüentes nos
antecedentes juvenis do toxicômano, constituem outro elemento
desses momentos depressivos.
Sabemos que esta característica de fragmentação está ligada à
quebra do espelho. Por outro lado, como é o caso também da
masturbação, estes elementos podem ser encontrados em todas as
95
crianças. São eliminados normalmente. No nosso caso, não somente
eles não são extintos, como também são vivenciados primeiro, de
uma maneira desproporcional no jogo e através deste — mas já
que a repressão pela aprendizagem da lei não pôde ser efetuada, a
angústia torna-se imensa, de tal modo que estes elementos são man­
tidos e cultivados como único modo de ser no mundo. Como toda
tentativa de voltar ao normal desemboca no elemento depressivo
(que é cada vez mais melancólico, e menos depressivo), os elementos
de excitação passam a ser armazenados na memória como únicos
momentos dignos de serem vividos; e mais, passam a ser procurados
voluntariamente para serem vivenciados de novo, a qualquer preço.
Quando a droga está no caminho, há fissão nuclear — está criado
o toxicômano.
Empregamos aqui o termo de fissão nuclear, pois, no campo do
excesso, o choque experimentado, então, é no mínimo tão forte
quanto o da ruptura. É o choque associado da reconstituição da
Unidade no prazer. Ou, mais exatamente, a emergência da anulação
da ruptura, ultrapassada desta vez por outra totalidade, já definida
anteriormente como sendo “um filho que ele teria feito à sua mãe,
e que seria ao mesmo tempo imortal e jamais nascido”. O surgi­
mento deste modelo, que lembra o do mutante, conduz toda a
economia psíquica para uma tentativa, em vão, de construção de
um sistema auto-organizador — é então a toxicomania.
Para o conjunto de fenômenos que acabamos de descrever, insis­
timos sempre sobre noções temporais: falamos em cinética, instan-
taneidade, excesso, desproporção. Com efeito, a dimensão do tempo
vivido é para nós essencial, assim como^enorme a diferença existente
entre o tempo vivido do adulto e o da criança normal (por exemplo,
um mês não tem a mesma dimensão para um e para outro), existe
também uma grande diferença entre o tempo do toxicômano e o do
homem comum. Tal diferença se inscreve a partir da ruptura. Pode­
mos dizer, por exemplo, que para ele a dimensão da ansiedade é
diferente, é desproporcional; é possível encontrá-la na vivência da
instantaneidade, principalmente quando è questão de satisfazer o
“tudo, já”, e na necessidade absoluta de transgredir apesar da
consciência de ter de pagar por isto com uma angústia de culpa
ainda maior.
Esta dimensão está ligada à noção temporal fundamental da im­
possibilidade de reprodução dos fenômenos anteriores, e à da irrea­
lizável unidade sintética necessária a todos nós. O passado do futuro
toxicômano reveste-se de uma dimensão diferente da de todos os
96
outros, pois sua permanência é absolutamente impossível. Não há
sucessão legítima entre passado e presente, nenhum sistema de
referências. Dissemos dimensão, e não ansiedade; dimensão do pas­
sado, e não passado. Uma tal dimensão de tempo, informulável, é
pessoal e única, e o seguinte exemplo pode ilustrá-la: A., de 24
anos, toxicômano com múltiplas tentativas de suicídio, incapaz de
suportar a mínima frustração, cuja vida está cheia de inúmeras
atuações, que transpira ansiedade noite e dia, é, no entanto, capaz de
ficar horas a fio pescando com uma vara na mão. Esta pescaria o
traz de volta a momentos felizes de sua infância passados com o
avô: e ele, que é incapaz de tolerar a espera um minuto sequer,
permanece assim durante longas horas. É que o tempo adquire neste
caso uma outra dimensão, deixa de ser fonte de angústia.
Esta dimensão irrecuperável do tempo vivido, ao desvendar a
irredutibilidade da morte, faz com que compreenda mais que os
outros, que não se pode dominar o tempo, pois, como diz Wladimir
Jankélévitch, “mesmo que o último corpo celeste desapareça na
conflagração universal, o tempo continua a passar”.
Para ele, houve conflagração, e o tempo continuou a passar. De
um modo mais marcante que todos nós, ou em todo caso mais
preciso, ele aprende que há um começo e um fim, e isto, apesar de
todas as tentativas de repetição. Vimos que a repetição-verificação
tenta anular isto. Com a droga, ele acredita ter encontrado a extraor­
dinária possibilidade desta anulação do tempo vivido. O que é ver­
dade, mas apenas por um segundo. “Oh, tempo, suspende o teu
voo!” — tempo suspenso, unidade reencontrada, sensação de calor.
Trata-se mesmo de um paraíso, do paraíso perdido. Porém, como
no caso da maçã de Adão e Eva, é preciso pagar o preço: preço
da inexorabilidade dos efeitos da droga, que acaba, e do tempo
que passa. Como Adão e Eva, o indivíduo sabe que deverá pagar
com a própria morte, pois ele não se tornou Deus. E podemos
dizer agora que a “dimensão” da morte, ou melhor, da consciência
da morte, ocupa em sua vida, principalmente na adolescência, um
espaço desproporcional. Tanto assim que muitas vezes, passada a
angústia da primeira atuação suicida e a primeira transgressão para
o outro lado do espelho, por intermédio de uma espécie de jogo-
suicida, o indivíduo vai repetir com um verdadeiro luxo de pro­
gressão suas tentativas de suicídio, até encontrar a droga. E quando
esta não fizer mais efeito, ele vai então com freqüência buscar
uma saída na morte.
97
Repetição excessiva do jogo ao suicídio, da masturbação à inje­
ção. Mais ainda que a progressão, a repetição é o mecanismo auto-
regulador que o indivíduo encontra para atingir uma finalidade que
lhe escapa, pois a sua finalidade foi desde cedo comprometida —
menos no que concerne a morte.
Podemos acrescentar que o futuro toxicômano tem mais que os
outros o sentimento de ter sido vítima de uma injustiça temporal:
ele sofreu a ruptura, não a desejou; aquela carência inicial não foi
buscada por ele; a onda de choque proveniente de sua mãe parace-
Ihe incompreensível e insuportável. Ele é e será para sempre um
culpado-inocente. E esta culpabilidade-inocência vai ser responsável
pela sua “imoralidade”, que tanto nos escandaliza quando depara­
mos com o aspecto aparentemente voluntário de seu comportamento.
Com efeito, a desproporção também está sempre nesta dimensão
moral, na maneira de se interrogar continuamente, de ser espectador
da própria existência, desde o início estigmatizada por uma infâmia
indesejada e não aceita.
O Evento, que para qualquer um de nós é insignificante, assume
para ele uma ressonância incrível; um nada será tudo — o excesso
aplica-se ao microscópico. Porém, a fortiori, também ao macroscó­
pico! Cada segundo, cada minuto adquire um valor estranho, estran­
geiro, e cada minúscula ferida inflingida ao narcisismo cria estragos
inimagináveis. O indivíduo vivência seu tempo como uma seqüência
de feridas e traumatismos, como a impossibilidade de comunicá-los
a terceiros e à sua família em primeiro lugar.
Trata-se aqui da construção do “espaço ”-tempo. Assim como
também não pôde construir seu “espaço” libidinal e seu “espaço”-
ego, o indivíduo, por mais que tente efetuar a repetição, é incapaz
de organizar o tempo em seqüências orientadas para um futuro.
Seu tempo não é uma vivência em ação com destino ao futuro. Sua
única possibilidade é ser anulado no êxtase do prazer ou no clímax
da emergência, ou então ser vivido na angústia existencial. O tempo
não é organizador nem construtor — mesmo, ou sobretudo, se é
medido pelo envelhecimento biológico, ele só permite a verificação
da “incompletude”. Verificação esta que é tanto mais angustiante
quanto mais marcante se tornar a comparação com os outros. Prin­
cipalmente, comparando-se a outros irmãos, ou a outras crianças da
mesma faixa etária com as quais compete. Surge então a tentação
de voltar à imobilidade, de suspender o tempo — as saudades do
tempo arcaico, fetal, caloroso. E somente no “planeta” da heroína,
naquele “útero” xaroposo, o indivíduo vai ser capaz de achar o
98
equivalente mais parecido com este estado. Ou então, no caso
daqueles que não podem suportar nem mesmo o resíduo de estado
de vigília suposto por este "planeta”, só resta o instante sutil onde
a ingestão maciça de barbitúricos faz o indivíduo submergir no estado
de coma.
"Oh, tempo, suspende o teu voo!” O desejo é efetivamente esta
suspensão do tempo, ou melhor, da função do tempo que é criar
a descontinuidade. É que, para o indivíduo, as rupturas do tempo
não passam da repetição da perda de si mesmo. A suspensão do
tempo, ela sim, permite o status quo impossível. É preciso que o
tempo não conte mais. Vimos que a alucinação do real no imaginário
lúdico preenche esta função. No exemplo veio acrescentar-se a
parte da lembrança, desproporcional, colecionada à vontade. Esta
força é tão grande que pode literalmente anular sua atuação com­
pulsiva constante.
Mais uma vez aparece o papel essencial desempenhado pela me­
mória. Raramente os outros homens contabilizam suas lembranças
de infância com tanta intensidade quanto o toxicômano. É que, na
seqüência de traumatismos e carências, qualquer época feliz —
mesmo insignificante para os outros — é vivida como um evento.
Evento este que é igualmente mobilizado e buscado, quase sempre
no temor de que não produza o efeito desejado, para tentar preen­
cher a "falta”. Evento repetido, prelúdio da repetição da injeção.
Compreendemos então que por causa de sua insignificância, a
lembrança feliz não pode ser dita, e, conseqíientemente, é incomu­
nicável para terceiros, pois se o fosse, sua dimensão poderia parecer
irrisória, isolando ainda mais o indivíduo.
A lembrança não tem aqui uma função nostálgica, não é um
romantismo: é um instrumento ativo, como o jogo e a masturbação.
Desempenha um papel de recarregamento, necessário para que possa
haver pausas na existência compulsiva, sem as quais o indivíduo
ficaria esgotado. A lembrança do tempo feliz vivido organiza a
economia psíquica do futuro toxicômano, assim como o fazem as
outras repetições.
A desorganização provém da interrupção entre todas estas ativida­
des, que é fonte de uma angústia insuportável. Para evitá-la, Edgar
Morin afirma ser preciso "um pensamento não inteiramente inves­
tido na ação presente, isto é, uma presença do tempo no seio da
consciência”. Esta presença aguda do tempo no seio da consciência,
do tempo passado, do tempo da instantaneidade, do tempo impos­
sível de ser repetido, conseqüentemente, esta presença aguda da
99
Morte antes mesmo da organização da construção do seu futuro,
vai acabar constituindo a parte dominante da consciência que o
toxicômano tem de sua infância.
Para sobreviver a esta consciência da Morte, só lhe resta fabricar
imaginário. Aliás, é bom notar que, guardadas as devidas propor­
ções, isto é válido para todos nós — daí a invenção de Deus.
Podemos compreender agora porque a lembrança da vivência feliz
é mobilizada numa contra-ofensiva contra a presença deste outro
tempo vivido, e porque ela também passa a ocupar um lugar exces­
sivo, gerando desproporções nos momentos “high” e “down” do
futuro toxicômano, antes da tomada da droga, quando a lembrança
do seu efeito vai ter uma importância excessiva na memória do
indivíduo.
O paradoxo do futuro toxicômano vai residir então em sua contí­
nua tentativa para resistir à morte, ao mesmo tempo em que a
suscita e provoca. O “western” é parte integrante de sua vida, asso­
ciando de modo contraditório a ingenuidade da criança que brinca,
e a angústia daquele que sabe que vai morrer.
Será que ressaltamos bastante o procedimento constantemente
contraditório desta criança? Ela é “fusionada”, e não o é; é Uma,
e não é; joga, e não pode jogar; encontra o paraíso, e por isso sua
queda é ainda mais dura; anula o tempo, e o tempo vivido lhe é
infinitamente cruel. Se toda verdade provém do homem, é difícil
imaginar onde estará a sua, já que a ela só cabe duvidar de tudo
e de todos, e em primeiro lugar de si mesma enquanto Unidade.
Vemos então que com um indivíduo assim, a aplicação de qual­
quer linha terapêutica ortodoxa seria inicialmente inútil. Constata­
mos que é preciso, primeiro e antes de mais nada, restituir-lhe um
tempo — situá-lo nas dimensões de seus semelhantes, no seu tempo
vivido. Mas que também é necessário levar em conta os “high” e
os “down”, e a função de descontinuidade do tempo, o papel orga­
nizador da função lúdica, do imaginário em ação. Em suma, deve­
mos estar atentos a tudo aquilo que para ela (mais que para as
outras) depende do aleatório das perturbações cinéticas, da comple­
xidade irredutível à uma progressão linear encontrada nos outros
homens. Como diz H. Atlan: “é preciso ter uma visão fluida e
móvel na cabeça”, pois assim é a realidade do nosso indivíduo, em
confronto permanente com o momento de sua morte.
Desde logo, se lhe for restituído um tempo de homem normal, vai
poder enfrentar o aprendizado de uma vida que começará, como
para todos nós, pela capacidade de suportar as frustrações e de
100
expressar a culpa de outras maneiras, e não somente através de
atuações.
Podemos prever, porém, a complexidade de tal processo, pois o
indivíduo que se apresenta a nós está sempre por um fio, entre o
“já-quase” e o “quase-não-mais”, naquela instantaneidade digna de
uma jogada de pôquer, onde ele exige de nós “tudo, já”.
3
0 Idiota da Família

A família admite e tolera aquilo que a sociedade não admite, mas


só pode fazê-lo em um sistema adequado. Para que esta adequação
funcione, quando é preciso suportar algo insuportável, é necessário
que haja excreção, rejeição, produção de detritos. Como as coisas
não são simples, ou pelo menos não são lineares, e que o sistema
é tudo menos coerente e racional e como se trata de seres humanos
e não de sistemas de encanamento e por conseguinte são gerados afe­
tos, a excreção não é inerte nem produz inércia. Ela reintroduz no
seio da família uma outra adequação, vivida como dolorosa, dramá­
tica e/ou patológica, ou seja, ela cumpre o papel que nas civiliza­
ções antigas cabia ao bode-expiatório (de maneira mais ou menos
assumida), e que hoje em dia, no interior de sistemas muito mais
policiados e normativos, cabe àquele que Jean Paul Sartre chamou
de o “Idiota da Família”.
Tentaremos mostrar neste texto o como e o porquê desta fabricação,
e também os benefícios — que escapam ao domínio da coerência e
do racional — obtidos pelos membros da família, sobretudo no que
diz respeito à finitude e à angústia perante a morte. Poderemos com­
preender melhor esses benefícios caso aceitemos como verdade tudo
que foi dito nas páginas anteriores, principalmente no que concerne
as noções de cinéticas psíquicas, os confrontos nas sucessivas instan-
taneidades entre as lentas contribuições do desenvolvimento ontofilo-
gênico, e a intensidade do evento intrapsíquico se produzindo no
aqui e agora. E a experiência da droga, através de seu aspecto reve­
lador, quase microscópico, torna possível a verificação de existência
dinâmica destes eventos cuja importância é, como já tivemos a opor­
tunidade de afirmar, tão grande quanto a dos fundamentos estrutu­
rais e tópicos. Aos olhos daqueles que dele fazem parte, o sistema
permanece adequado e acaba sendo aceito, justamente porque esses
benefícios se situam tanto (se não mais) no fulgor do momento, na
fugacidade da explosão emocional, na punhalada sadomasoquista do
instante verbal e infraverbal, quanto no longo curso onde se pagam
103
pela banalidade do sofrimento cotidiano. Mas, para obtê-los, é pre­
ciso que, desde a infância até a maturidade, vá se constituindo todo
um cenário, um teatro no qual os personagens podem dar tudo de
si, numa representação ininterrupta.
A finalidade de toda essa construção — não podemos nos enganar
a este respeito — é fazer de conta que o nada, a morte, estão incor­
porados ao que já existe. É por isso que nas religiões temos o pecado
(a Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, que Adão isolou da
Árvore de Vida). O pecado, por existir e possibilitar a redenção,
permite que inventemos um futuro e, assim, que nos livremos da
angústia de morte. Quando, por múltiplas razões, a função exercida
pelo pecado deixou de ser adequada, foi preciso inventar outra coisa;
é o que Foucault explica maravilhosamente bem no nascimento da
loucura. É evidente, porém, que a loucura só pode ser um caso
extremo, e assim como encontramos várias posições intermediárias
entre o usuário “recreativo” de drogas e o toxicômano, existem tam­
bém inúmeras posições intermediárias na adequação necessária para
que a família moderna possa eliminar a angústia de morte. Ainda
mais porque não se trata de relações estáticas e imutáveis, e as vibra­
ções afetivas produzem uma confusão que é indispensável. Caso con­
trário, se o papel do bode-expiatório-pecador se tornasse claro para
todos, a situação ficaria insustentável e o alívio só poderia se dar
através da morte (assassinato ou suicídio).
Desde já, podemos assinalar que nosso ponto de vista coincide
com o que diz Georges Bataille, em “A experiência interior”: “O
sofrimento se confessando do desintoxicado é o objeto deste livro”,
pois é quando cessa esta confusão que mantém a Adequação, que
todos os membros da família vão se defrontar com a terrível questão
— e com que acuidade! — de não serem tudo, nem agora nem para
a eternidade e, logo, de serem mortais.
Como o Idiota da Família constitui na verdade o narcótico do
grupo familiar, e como ele mesmo ingere narcótico com a única fina­
lidade de executar seu papel, no lugar que lhe foi designado para
e pelos outros — nunca para si mesmo, quando poderia talvez até
obter algum benefício com isto — , se ele não existisse em diferentes
graus, “o vazio seria irrespirável”.
Na qualidade de leitor, ninguém pode admitir o que acaba de ser
dito sem antes reconhecer em si mesmo o choque muitas vezes oculto
mas as vezes revelado (por exemplo, no amor à primeira vista), da
angústia e do desejo; do incrível desejo carnívoro de comer o outro
104
e em primeiro lugar os próprios filhos, buscando com isso continuar
jovem, gozar e não morrer.
Existem, evidentemente, inúmeras variações para o tema central
que acabamos de expor, por razões que foram abordadas no capítulo
sobre a “Infância do toxicômano”. Não é todo Idiota da Família
que toma tóxicos e, além do mais, a parte de “idiotia” pode ser
distribuída entre os irmãos, ou se deslocar de um para outro no
decorrer dos movimentos intrafamiliares, ou nas relações da família
com o mundo externo. Desde o microscópico até o macroscópico,
nada é menos estático que as relações da família, intersubjetivas e
interpsíquicas. Ainda mais em suas relações com as leis simbólicas,
imaginárias e reais, que são variáveis em cima do variável.
Dito isto, porém, continuamos mortais: os membros de uma mes­
ma família, de acordo com o declive de suas existências, vão se des­
prender como folhas mortas. Que queiramos, quer não, o religioso
(ou a lenda) perdeu seu sentido totalitário. Como afirma Michel
Serres, nem que seja apenas pelo confronto com as ciências, “o
inferno é aqui mesmo”, ou pelo menos poderia sê-lo, não existissem
estes dois únicos obstáculos específicos da espécie humana: o amor
e o desejo, transcendidos por sua expressão carnívora primitiva.
Nesta transcendência surge a imperiosa necessidade da juventude
do Idiota da Família. Já que a fome carnívora, antropofágica não
pode ser satisfeita na realidade, ela precisa de um sucedâneo. E este
reside justamente naquilo que é ao mesmo tempo ameaçador e infini­
tamente desejável — a beleza e a juventude. A fome precisa subju­
gar aquilo que a subjuga (Georges Bataille). Aí estão contidos todo
o mecanismo e a lei fundamental que regem a família. Qualquer
sinal de independência e tudo o que impede a apropriação conduz
à morte parcial ou total. Por mais tênue que possa ser, o fio da apro­
priação é fonte de vida. Podemos então compreender os mil e um
tesouros da economia psíquica, os milhares de escândalos e artifícios
utilizados para tecer este fio e mantê-lo, mesmo ao custo de outros
sofrimentos. Todas as demais leis ficam mais ou menos excluídas, se
comparadas com a autoridade desta, e isto ainda mais porque no
nosso mundo moderno, as diversas “autoridades”, as morais, as
psicanalíticas, as científicas e as de identificação estão, ao menos em
parte, enfraquecidas. Se quiséssemos talvez nos aproximar de um
dos possíveis motivos, poderíamos pensar no desfile cinético das ima­
gens dos audiovisuais, as quais fazem “ver” sucessivamente tantas
autoridades tornando-se falhas, e isto com uma força de persuasão
muito maior do que tudo que pode ser dito ou lido.
105
Pois é preciso repetir que esta lei, cuja última finalidade é ela
mesma, no auge da canibalidade permitida, é vivenciada como fonte
de vida. Isto não é transmissível através da palavra — nem a escri­
ta, nem a falada. Somente aqueles que vivem tal experiência a partir
de dentro podem aproximar-se de sua pertinência; e também o clíni­
co, que possibilita que ela seja revivida — como já vimos — no
campo transferencial específico da primeira fase fusionai.
Este medo da morte, porém, é também medo da vida, enquanto
interpretação do caminho irreversível que leva à morte. O medo é
responsável pelo arranjo da encenação do sistema familiar: angústias
sem objeto aparente, medo dos golpes, do acaso e do destino. Todos
estes medos acarretam ciúmes, ansiedade e possessividade. Estamos
bem longe daqueles traumas maciços que sempre tentamos descobrir
na infância do indivíduo. A exemplo do que vimos em todo este
volume, estamos situados em uma realidade na qual os problemas
de atmosfera, tensões, emergências, instantes fecundos são no mínimo
tão legítimos quanto as noções de estruturas, ultrapassando e trans­
cendendo as oposições fixas entre o que é inato e o que é adquirido.
Este medo e estas atmosferas geram a culpa, tão bem e tão inteira­
mente utilizada por todas as religiões. Culpa esta que, sem poder
compreendê-la, o Idiota da Família vai assumir, pois ele tem, ou
terá, o sentimento legítimo de ser o responsável por estes temores
e pelo clima decorrente. Tivemos a oportunidade de verificar isto
observando a vida de um indivíduo chamado Pierre B., de 30 anos.
Rotulado desde a infância como doente, depois toxicômano, e em
seguida alcoólatra, em sua depressão crônica ele repete sem parar
que “não serve para nada”, e consegue corresponder ao que diz.
Na verdade, “objetivamente ”, Pierre é bonito, sensível e talentoso,
só que perfeitamente ciente de que quando tenta melhorar, imedia­
tamente algum de seus irmãos piora em seu lugar.
O sentimento de culpa transforma-se na interpretação extrema­
mente arcaica do elo familiar obrigatório, e torna-se assim um valor
em si. Tão importante quanto os íons de sódio para os fenômenos
de potencial elétrico das membranas, o sentimento de culpa afasta-se
do sintoma e aproxima-se do instinto. Ele é indecodificável através
da interpretação, mas pode ser transformado por um reforço afetivo
de certas categorias de defesas egóicas como alternativa para o
sistema familiar. Mas a culpa gera ao mesmo tempo o medo e o
desejo da punição, o que é confirmado pelo exemplo de Pierre que,
a intervalos regulares de alguns meses, vai para a casa da mãe, onde
entra em coma, é hospitalizado e logo rejeitado novamente.
106
No sistema familiar, a punição traduz-se na maioria das vezes por
algo que é sentido como perda de amor. Daí a necessidade que o
indivíduo apresenta de estruturar sistemas de verificação em espiral,
como o que descrevemos no caso de Pierre. Dizemos “em espiral”
porque este tipo de carência, marcada em sua forma extrema na
quebra do espelho que vimos anteriormente, não tem nenhuma rela­
ção com algo objetivo, codificável. Logo, não pode ser satisfeita,
pois a verificação é impossível para ambas as partes por motivo de
não-objetividade, de não-racionalidade. As únicas possibilidades res­
tantes são: ou o deslocamento, pelo menos do desejo, ou a repeti­
ção. Repetição da necessidade e necessidade de repetição. Ou a fusão
que, na ausência da loucura, leva a algum lugar em direção à toxi-
comania.
Para que as partes envolvidas possam aderir a este sistema, ou
seja, possam viver nele e através dele, a dramatização desta econo­
mia de relações faz-se indispensável. O drama é a liturgia desta
missa concelebrada em família. Observando mais atentamente, ve­
mos que o drama é muitas vezes forçado — audível somente para
os atores que sentem (mais do que conhecem) quais são seus ele­
mentos decisivos. Sem este aspecto forçado que no fundo é sentido
por todos, ele seria tão insustentável quanto a angústia de morte e,
logo, inútil. Porém, se por alguma infelicidade, uma das partes rompe
o contrato (porque este não a satisfaz mais) pode ocorrer, então, a
morte de alguém, e muitas vezes vai tratar-se do Idiota da Família.
Em toda a história, ele é o mais sincero, o menos egoísta, pois é
também o que mais sofre. Este fim, este aspecto forçado, esta verifi­
cação em espiral são os únicos elementos (assim como o é o sadoma-
soquismo) que fazem com que a sensibilidade não seja apenas uma
música de acompanhamento, e que ela constitua a melodia que im­
pede a invasão do inerte e, por conseguinte, o medo da morte.
Falamos em encenação e melodia para deixar bem claro o aspecto
não-estrutural e não-genético de tudo que acontece. Isto significa
ainda que, se recorremos por comodismo à noção de sistema (por
exemplo: sistema familiar), trata-se de um sistema flexível, variável,
móvel, caótico, difluente, não constituindo jamais um modelo repe­
titivo. É nisto, aliás, que os ritos e a referência aos mitos são ao
mesmo tempo úteis e não construídos — referentes mas não mimé-
ticos. A liturgia é própria de cada caso e, para cada caso é ao mesmo
tempo a mesma — variável ao infinito.
A mudança é tão importante quanto a repetição, pois assim a
culpa não pode ser apaziguada pelo já-visto, o já-conhecido, e, por
107
isto, o Idiota da Família pode novamente enfrentar outras rejeições
e livrar-se de novas provocações aparentemente incompreensíveis em
determinados lugares, em determinados momentos. Mesmo que todos
adivinhem de antemão o que vai acontecer, cada drama em si é
sempre uma revelação, pois se a criança aprende a ver o adulto
fazer as coisas e acredita de imediato no que vê, no final a dúvida
sempre substitui esta crença. Por sua vez, a dúvida faz parte do
jogo: a criança pensa saber que não é amada — pelo menos, não do
jeito que ela é — , e ela precisa então ao mesmo tempo verificar e
desmentir este pensamento. As tentativas anteriores não podem nunca
ser concludentes; elas só podem modificar a intensidade da situação
afetiva vivenciada, e jamais chegam a transformar a obrigação recí­
proca de culpa.
Justamente por causa da dúvida e do sentimento de culpa obriga­
tório, há um aspecto de voluntarismo na encenação e no funciona­
mento do sistema: é o mesmo que encontraremos mais tarde nas
atuações da toxicomania. É preciso ressaltar, aliás, que este volun­
tarismo aparente vai quase sempre ocultar todo o resto, e tornar a
cena escandalosa e imoral aos olhos de terceiros, pois, sem compre­
ender o mecanismo sutil que estamos tentando mostrar, ninguém é
capaz de, do lado de fora, imaginar a força e a energia vital reque­
ridas pela culpa obrigatória, nem a tortura que constitui a dúvida.
Ao contrário, o voluntarismo é a própria confissão da impotência,
da incapacidade de travar o mecanismo, como o são, em outras áreas,
a bulimia e a anorexia nervosa ou, melhor ainda, o exibicionismo.
O voluntarismo é uma tentativa da razão para cercar, racionalizar,
compreender e fazer entender justamente aquilo que é incompreen­
sível e definitivamente não cartesiano. Ele se esforça em jogar contra
a atmosfera, contra o vago (falamos em vacuidade da alma), o in­
definido, em um combate repetido e renovado no meio do qual
vai se construindo aos poucos a personalidade daquele que chama­
mos de Idiota da Família.
É uma contradição curiosa, porém operacional: por um lado temos
uma sucessão objetiva de traumatismos reais e quase monstruosos,
e por outro, estes conflitos só são negociáveis em termos de atmos­
fera, do impalpável, do imponderável, o que faz com que a criança
alucine o real, sobretudo em seu aspecto traumático, de maneira
excessiva (ex.: o estágio do excesso, no capítulo “A infância do
toxicômano”)- Progressivamente, ocorre uma transferência do que
é vivido no sistema familiar para o que é vivido na realidade extra-
familiar.
108
Por mais neutra que possa ser, a atmosfera desta realidade é
envenenada por esta alucinação e, inversamente, tudo que é fatal­
mente traumático na realidade extrafamiliar é reintroduzido nesta.
Como uma bola de pingue-pongue, a experiência frustrante de uma
situação remete à experiência frustrante da outra, e reforça o indi­
víduo no sentimento difuso de que existe uma maldição, algo inelu­
tável, uma derrota e um sofrimento.
Porém, esta contradição apresenta também alguns aspectos extre­
mamente benéficos, pois não permite jamais que a situação psico­
lógica se fixe, se cristalize em uma organização psicótica. Podemos
até considerar o sentimento de culpa obrigatório e a pressão exercida
pela dúvida como defesas eficazes contra a despersonalização. A
criança tem necessidade de lembrar e de verificar, no interior do
drama e do voluntarismo, no sofrimento consciente e na consciência
de seu sofrimento. Assim, ela pode fazer com que sua família viva,
sem que ela mesma seja inteiramente devorada, o que aprende ao
mesmo tempo como linguagem e como emoção — uma estando
indissoluvelmente ligada à outra — deixando assim um lugar, ao
acaso dos acontecimentos, para o aleatório, que gera a repetição e
a novidade.
Precisamos insistir um pouco sobre este acaso. Uma vez estabele­
cido o esquema, ele se desenvolve mais ou menos conforme des­
crevemos, mas não está inscrito de maneira irremediável: tal mãe
de um tal tipo, não estabelece obrigatoriamente tal sistema de rela­
ções com seu filho. Para tipos iguais, são precisos inúmeros ingre­
dientes e ocasiões até que as transferências relacionais de que
falamos fixem-se como átomos que se atraem. Pelo contrário, nada
é infinito e mesmo fora de qualquer âmbito terapêutico, outras
transferências podem se estabelecer em outros lugares e de outras
maneiras, instaurando outras formas de equilíbrio, mais benéficas,
pelo menos para aquele que vai então deixar de ser o Idiota da
Família.
À esta noção de “instantaneidade” ou de “momento fecundo”
convém acrescentar a noção de “mecanismo de economia de ener­
gia” tal como pode ser descrito, por exemplo, no comportamento
onírico, na alternância sonho-sono-vigília. O esquema só se desen­
volve enquanto permite, apesar de tudo, uma economia da energia
que seria gasta em maior quantidade em outras situações de crise.
Existe aqui um benefício que é diferente daquele proporcionado
pela fuga da angústia da morte, mas que também precisa ser
enfrentado para que possamos avaliar melhor o que está sendo
109
construído. É um benefício pertencente à mesma ordem de fenô­
menos e que cumpre a mesma função que o sonho tem para a
economia psíquica no decorrer do sono chamado paradoxal: facilita
a extinção e a evolução de toda a problemática familiar fora da
realidade do estado de vigília, mas também longe da inconsciência
do sono profundo. Plagiando a neurofisiologia, poderíamos falar
aqui em situação familiar paradoxal, já que este conjunto de situa­
ções, tão impossíveis de serem contidas quanto os sonhos, tende a
machucar as pessoas que supostamente amamos. É ao mesmo tempo
o resíduo arcaico de uma animalidade responsável pelo fato de
certas raças ainda devorarem seus filhotes ou pelo menos a placenta
nutritiva, e extremamente “moderno”, pois toda esta criminalidade
instintiva é sublimada em uma intersubjetividade afetiva de sofri­
mento, dor e prazer. Quando estudarmos a abordagem terapêutica
para tais situações, nas quais a autopunição convive com o poder
psicogênico da mãe, por exemplo, deveremos apreender e tornar
evidente — e impregnado de “íntima convicção” — justamente
este aspecto: o paradoxal, o não-lógico.
É fácil compreender que, estando longe da lógica, nos situamos
igualmente longe de uma terapia efetuada por intermédio de “inter­
pretações”, a qual efetivamente parece mais uma terapia intensiva
— ainda que indispensável —, dificilmente distinguível do charla­
tanismo. Com efeito, e paradoxalmente, o valor da abordagem tera­
pêutica só pode ser encontrado através da experiência, indepen­
dentemente da teoria (com a condição de ser também independente
do sofrimento ou do prazer do terapeuta), na dependência apenas
de uma ética — a libertação do homem que sofre. Mas antes
mesmo de conceber tal modo de aprendizagem relacional, é preciso
considerar com mais atenção como o sistema percebe e corrige a
realidade quando o confronto se torna inevitável: o mundo externo
não pode ficar constantemente na condição de cúmplice ou de
vítima do jogo e do paradoxo, a menos que queira ser integrado
ou intercambiado através de certos personagens cuja problemática
é parecida.
Seduções, provocações e verificações vão se colocar em funcio­
namento num determinado ritmo, para terminar invariavelmente
em situações bloqueadas e produzir um recuo sobre o sistema
familiar. Tudo se torna excepcional, mas apenas excepcionalmente
a situação deixa de se tornar ameaçadora. A realidade externa não
é negada, ela é vivenciada desmesuradamente (como já vimos no
capítulo “A infância do toxicômano”). Inicialmente há sedução e
110
erotização, que terminam em tomadas de consciência exagerada-
mente dolorosas e mortíferas. Cada vez mais, a experiência remete
o indivíduo para uma solidão reduzida ao silêncio, a menos que
este recorra à verificação, a qual é sempre acompanhada por uma
sanção — a frustração culpada. É difícil seguir passo a passo este
processo de deriva social e psicológica e suas sucessivas degrada­
ções de atmosfera e de relações, sua instabilidade situacional e
afetiva, quando anteriormente havíamos pensado encontrar aí justa­
mente a solução milagrosa, a solução de segurança (quando na
verdade tal solução encontrar-se-ia mais facilmente na situação pa­
radoxal descrita acima).
Mas — é bom repeti-lo — , se há exacerbação isto não significa
que haja total discordância: a realidade é apreendida, mas a decisão
de participar não está realmente incluída no jogo vital do indivíduo.
Este último utiliza com a realidade e seus representantes o mesmo
tipo de sistema de relações praticado em família, com a mesma
finalidade contraditória: operacional e não-operacional, sedutor e
rejeitado. E isto porque, com certa ingenuidade ou ao menos com
extraordinária boa fé, o indivíduo tem a sensação de que todos
os seus interlocutores estão familiarizados com os problemas e difi­
culdades que ele enfrenta, e que evidentemente são capazes, se
não de resolvê-los, pelo menos de demonstrar certa “compreensão”.
É evidente que uma tal idealização do interlocutor não é operacio­
nal e induz o mecanismo da rejeição (mais alucinado do que real).
E, este sim, é realmente operacional.
De qualquer modo, a interação Idiota da Família + Família
Realidade produz, no decorrer de suas múltiplas experiências, um
aprendizado tão destorcido quanto a interação Idiota da Família ±=>
Família. Cria leis que só têm valor para este tipo de funcionamento,
em equilíbrio sempre precário, entre o adaptativo e o inadaptado,
com modificações cinéticas ou lentas ou aceleradas (conforme já
foi dito), em função da instantaneidade dos eventos psíquicos. Para
o observador, assim como para o terapeuta, trata-se incontestavel­
mente de um funcionamento econômico original, que tem aspectos
parecidos (mas que são e só podem ser aspectos parciais) com
modelos psicopatológicos mais conhecidos — por exemplo, as psi­
coses ou estados limítrofes descritos por Jean Bergeret — , mas nos
quais vemos também aspectos diferentes que surgem alternadamente
e constituem na verdade a chave do problema operacional.
Porém, todas as correções que afetam a visão da realidade não
se situam no mesmo nível. Algumas reforçam o indivíduo em sua
111
certeza de não ter se enganado; outras, por diversos motivos, são
revisadas e o desvendamento de erros é capaz de mergulhar o indi­
víduo num desamparo total, podendo até mesmo levá-lo ao suicídio;
pois é aqui que se dá para o indivíduo a revelação da sua incapaci­
dade, não apenas intuitiva e afetiva, de fundamentar seu próprio
modo de viver e de fazer as coisas. E isto explica por que o jogo
ocupa uma parcela essencial na dramatização das situações, pois,
como já dissemos, o indivíduo está infelizmente convencido de que
todo e qualquer interlocutor é capaz de distinguir esta parte do
jogo e, como ele, de não se deixar iludir. Por conseguinte, a mais
ínfima expressão de dúvida por parte do interlocutor pode se tornar
mortal.
Na verdade, um desejo da contramão está por baixo de tudo
isto, e o indivíduo não se engana — ou apenas um pouco — na
escolha de seus interlocutores privilegiados: em algum ponto, ele
sabe que a caça pode transformar-se em caçador e que a provocação
não fica nunca sem resposta. Mas se a resposta existe, é na proibição
que ela se encontra. A Permutação costuma cometer erros, mas
nunca inteiramente. O fluxo do desejo, cuja característica é não
poder ser satisfeito, atravessa mil e uma censuras. E quando, na
realidade, o desejo é satisfeito, ele só pode levar a um deslocamento
para outro desejo, sempre em outro lugar. É uma situação ao mesmo
tempo maravilhosa e terrível, reencontrada com a droga no “high”
e no “down”. Uma situação “nietzscheana” na qual é preciso a um
só tempo sonhar e parar de sonhar, para poder perceber a impe­
riosa necessidade de continuar a sonhar, na tentativa de evitar o
sofrimento da morte. Situação esta que, inevitavelmente, desemboca
na solidão total ou na escolha da droga, do produto capaz de
‘"fusionar” tudo em uma momentaneidade totalitária.
De todo modo, o arranjo do desejo do indivíduo em sua economia
psíquica nunca pode se remeter ao exterior satisfatoriamente, sendo
imaginariamente muito operativo no início (procedendo quase sem­
pre como um amor à primeira vista), só lhe resta em seguida a
possibilidade de funcionar cada vez menos satisfatoriamente. A
excerbação, à qual já nos referimos anteriormente, é sua caracte­
rística. Mas tal incapacidade está longe de provocar a “depressão”:
ela é vivenciada quase que com alívio, como permissão para voltar
ao seio da família e ali, fora do alcance dos malvados, reconstituir
todos os antigos laços, mesmo que estes não sejam gratificantes
no sentido clássico do termo. Estes possibilitam ao indivíduo que
pelo menos ele se re-situe na frustração obrigatória em relação ao
112
desejo, pois, como diz Jean Bergeret, o indivíduo é um “bode-expia­
tório avantajado” que não vê nenhuma explicação lógica e só per­
cebe a experiência sensível (Bataille).
Mas ao fazer isto, ele entra novamente num “beco sem saída”,
onde o impossível domina, onde ele “é” quando só pode “não-ser”.
Na realidade é uma situação de não-liberdade, lembrando um. pouco
a posição do colonizado em relação ao colonizador (não se fala em
paternalismo colonialista?) onde, mais uma vez, o desejo não pode
se realizar. E após cada retorno vem nova degradação, pois apesar
de tudo, o confronto com a realidade traz sua parte de verdade
para o indivíduo, tornando a situação de sonho acordado cada vez
mais impossível. Efetivamente, a verificação da rejeição é pouco
a pouco substituída pela suspeita, que no início é legítima mas vai
se tornando sempre mais paranóica, englobando em círculos con­
cêntricos o sistema familiar, a realidade exterior ao sistema, e até
mesmo o que faz parte da intimidade afetiva, pois não existe ne­
nhuma resposta que seja adequada para o questionamento deste
desejo. Quando a suspeita se instalada a este nível, a única escapa­
tória é a megalomania, a loucura sob todas as formas, ou a morte.
Felizmente, o esquema descrito acima corresponde a uma forma
extrema, e as intermediárias de graus variáveis são as mais fre-
qüentes. Isto se dá por vários motivos: ou porque existem válvulas
de escape para fugir à rigidez do sistema, como elementos colaterais
sadios ou substitutos sólidos para as figuras de identificação ■ —
um tio, por exemplo — ou porque, como já dissemos, a “idiotia”
e mais ou menos dividida entre os filhos da família, que fazem
circular entre si o fardo do desejo insaciado, da verificação e da
rejeição. A “música” deste conjunto como um todo compõe então
a idiotia do sistema familiar, no interior da qual cada membro tem
sua parcela de atividade (inclusive onírica), estabelecendo assim
divisão comparável à que existe entre os elementos de uma orques­
tra. É evidente que para um terapeuta, a partitura neste caso é
mais difícil de ser lida, pois ele tem à sua frente um quadro que
é como uma orquestra se apresentando numa televisão sem som.
Estamos bem longe das terapias familiares que tratam de “para­
fusos a menos” dentro do “encanamento” familiar sistemático; no
nosso caso, lidamos com música, atmosfera, momentos psíquicos
fecundos, instantaneidade etc., no entanto devemos sempre ter
em mente que, nesta atividade global (assim como para cada ele­
mento considerado individualmente muitos inimigos são imaginários,
que entre as posturas adotadas inúmeras são defensivas, e que as
113
atividades não se desenrolam sempre em ordem fixa, com um de­
terminismo lógico absoluto, e devemos ser particularmente críticos
em relação ao conceito de “trauma psíquico ”, tão difundido na
literatura psicanalítica.
Aqui não é possível estabelecer nenhuma separação entre a his­
tória do indivíduo e a história da família, nem tampouco entre o
acaso psíquico e o evento que produz a idiotia. Tudo pode estar
presente, mas nada é fatal. Se analisarmos muito detalhada ou
rigidamente a história familiar, corremos o risco de atender um
paciente com um desequilíbrio ainda mais vertiginoso que o sofri­
mento apresentado na queixa anterior. O risco está em considerar
o sofrimento de um, como sendo o sofrimento da outra. Na ver­
dade, muitas vezes é uma questão de poder, sobretudo do poder
da mãe: esta exige uma compensação pela não-satisfação de seu
desejo canibal e protege o desejo do pai (e vice-versa!). E, assim,
corremosNo risco de tratar, por exemplo, apenas uma agressividade
secundária, enquanto a agressividade primária está oculta sob a
aparência da norma.
Ao terapeuta clínico só resta uma saída para este impasse: privi­
legiar a relação dual exclusiva que ele mantém com seu paciente.
Seu problema não é ser justo ou injusto frente à realidade do
sofrimento dos outros membros do clã; deve, isto sim, ser opera­
tivo com seu paciente, para poupá-lo das perdas reais que este
pode sofrer caso continue assumindo os “pecados de Israel” fami­
liares. Por mais doloroso que possa ser, e já que estamos racioci­
nando em termos de economia psíquica, sempre haverá perdedores
e vencedores nas rupturas familiares. Estas são inevitáveis e cada
um deve escolher o seu campo, até mesmo o terapeuta, tendo em
mente que caso não o faça, as perdas sofridas por seu paciente
podem tornar-se irremediáveis e infinitamente mais trágicas do que,
por exemplo, as perdas parentais, pois os pais tiveram a oportuni­
dade de negociar outros compromissos no tempo e no espaço, e
estes lhes servirão sempre de muletas. Quanto ao terapeuta, sua
função consiste em absorver seu paciente ao máximo, e libertá-lo,
através de uma série de exercícios psicoterápicos e institucionais,
destas pressões que são mais afetivas que estruturais, mas móveis
que imóveis. (Em todo caso, muito mais do que a clínica ortodoxa
consente em dizer, à medida em que tem o “sentimento” de não
compreender uma tal proposta). É que esta última procura apenas os
significados, quando na verdade o signo é suficiente e, na maioria
114
das vezes, naquele instante preciso, não existe significado de espé­
cie alguma.
É bom lembrar que nós insistimos na “dramatização” das situa­
ções e no papel do jogo no funcionamento da economia psíquica,
concordando neste ponto com Jean Piaget, o qual fala em “jogo
interior do cérebro”. A tarefa fundamental do terapeuta consiste
primeiro em apontar aquilo que é mais fraco no duplo sentido da
interação familiar, e, a partir daí, assegurar uma espécie de certeza
de si ao indivíduo. Não se trata apenas de reforçar as defesas, mas
de fazer um trabalho sobre a consciência através da modificação
do jogo de forças: mesmo que estas sejam inconscientes, o indi­
víduo aprende a reconhecê-las, como um radar descobre o foguete
em pleno voo.
Consideremos então, novamente, estas forças e seu jogo. De início,
é preciso insistir sobre a noção da desigualdade. Dissemos que a
parte de idiotia não é a mesma para todos os irmãos, como tam­
bém não é igual a parte do desejo canibal da mãe (ou do pai) em
relação aos filhos, dependendo terem sido eles procriados como
objetos desejados ou não, da posição que ocupam entre os irmãos,
se são ou não do mesmo sexo, se há ou não presença de morte no
interior do sistema. Mas esta desigualdade também se estabelece
na maneira como o indivíduo vive o “passe” do espelho, à medida
em que ele se sente inteiramente, ou apenas parcialmente, e ainda,
em que “imediatez” se encontra em relação a tal fato, qual é seu
estágio de dependência atual para com a mãe. Podemos até afirmar
que, para uma mesma mãe, o filho mais dependente, aquele que
permanece mesmo que minimamente “fusionado”, é infinitamente
mais sensível que os outros a todo tipo de rejeição, pois ele a
vive como ameaçando romper estes laços tão indispensáveis ao
que sente servir-lhe de identidade. Ele busca de maneira excessiva
se reassegurar, e vive a rejeição de modo exacerbado, abstraindo o
caráter objetivamente lógico de tal ou qual procedimento. Na reali­
dade, esta desigualdade original traduz-se primeiro em desigualdade
afetiva: uma desigualdade que se manifesta no sentimento de der­
rota do indivíduo, seja ele objetivamente talentoso ou não, sem
levar em conta as riquezas de suas possibilidades. Mas podemos
igualmente detectar sua presença no grau mais ou menos elevado
de ingenuidade apresentada pelo indivíduo (ingenuidade para a qual
não se encontrou até hoje nenhuma explicação convincente), e que
está presente também como uma desigualdade perante o humor e
u brincadeira, igualmente inexplicada.
115
Escolhemos estes exemplos com a finalidade de reforçar ainda
mais a intenção deste texto em utilizar o arranjo seqüencial dos
fenômenos psíquicos e seu significado, apenas como sendo partes
de um todo infinitamente mais amplo, onde a emoção e o afeto
tocam um instrumento na orquestra, ao mesmo tempo em que
esta é dirigida por um maestro determinista. Não é apenas um
abandonar-se às possibilidades impostas. O fato psíquico não é um
fato científico, as possibilidades impostas têm sua participação, tal­
vez até majoritária, porém a enzima que produz a catálise está
ligada em parte ao acaso e ao imponderável. Acrescente-se a isto
uma correção essencial, que determina que o momento sócio-cultural
manipula em determinados períodos mais acasos fecundos do que
em outros. A desigualdade deve-se ainda ao fato de que este acaso
e este imponderável existem, e efetivamente não podem ser conhe­
cidos nem apontados pelos membros do sistema, os quais, mesmo
se o quisessem, não teriam meios de se proteger contra eles ante­
cipadamente, pois aqui não há verdadeiramente nenhuma causa.
Aqui, o indivíduo está perante sua própria solidão reforçada. O que
explica o surgimento — e com que exagero! — de uma verdadeira
patologia da falta e da necessidade. Exagero (seria mais um ex­
cesso), porque à história pessoal do indivíduo, que já é vivenciada
como uma terrível injustiça, vem somar-se esta incompreensão do
porquê do acaso e do imponderável. A vivência desta nova carência
vem reabrir a ferida nunca cicatrizada de todas as faltas sentidas
anteriormente. Neste estágio, a verificação e a frustração são subs­
tituídas pela busca de satisfação da necessidade, do preenchimento
da falta. O indivíduo tem a consciência urgente da existência de
um objeto capaz de satisfazê-lo. Para consegui-lo, pode então adotar
uma forma “perversa” de sexualidade ou fazer uso de entorpe­
centes.
A necessidade, que até então coexistia de maneira ambígua com
a falta, corre o risco de ser substituída por esta. É neste momento
que se dá a passagem do “normal” para o patológico, ou mais
exatamente, de algo quase fisiológico para algo que assinala uma
deficiência.
Mais uma vez, aqui, as coisas não são tão simples, pois a passagem
da necessidade para a falta é oculta pelo prazer — ou pode sê-lo.
É certo que há muita rejeição no processo constitutivo de uma
idiotia familiar, mas é de uma ordem arcaica, pré-genital. Em todo
caso, esta rejeição não é uma vivência totalitária, não é jamais
inteiramente satisfatória (talvez porque as minitransgressões efetua-
116
das não fossem suficientemente punidas), porém, quanto maior a
falta, mais o indivíduo pode ter — ainda que só por um instante — ,
através destas novas transgressões, um sentimento enorme do prazer
inteiro, totalitário, que não somente apaga tudo, mas ainda cria a
identidade, a unidade de si consigo mesmo, de indivíduo indiviso.
Uma instantaneidade destas é formidável, fantástica. O tempo vi­
vido é então incalculável, incontável. Graças à sua faceta de "arga­
massa passível de gerar satisfação”, o prazer, bem como a falta,
deixam de ser apenas um fenômeno passivo para tornarem-se
constitutivo. Passa a constituir sozinho um novo dado fundamental
da personalidade do indivíduo e invade sua memória desmesura­
damente.
É precisamente, neste ponto, que deparamos com a contradição
fundamental que, se não está presente na vida de todo idiota da
família, marca com certeza a existência de todo toxicômano: por um
lado, temos o aprofundamento de uma deficiência grave e ativa — a
falta —, e, por outro, a constituição de uma unidade totalitária
possível no interior da carência e através desta.
Para que uma "descompensação” desta natureza se produza é
preciso que, além dos fatos e dos objetos externos (como por exem­
plo, a droga), as forças em ação se organizem e se desorganizem.
)á citamos a relação com a lei. É preciso voltar a esta noção, pois
a adaptação à lei familiar, real, simbólica e imaginária passa por
várias fases, com muitas idas e vindas, até que se esgotem as refe­
rências capazes de manter o statu quo ante. Como a regra do jogo
c constituída pela demanda de amor e pela rejeição, o primeiro in-
Icrdito a ser transgredido é aquele que proíbe a agressividade. A
enorme agressividade expressa por estas crianças é assustadora, pois
cias são dotadas de outras características que as fazem extremamente
doces e passivas. Na verdade, é uma artimanha defensiva usada para
combater o terror inspirado pelo desejo canibal da mãe, e a própria
angústia de morte.
Seja como for, a criança aprende a ampliar as possibilidades de
busca de sua identidade através do excesso. Na realidade, quanto
mais ela se empenha nesta busca, menos ela acha e mais perdida
fica, pois a quantidade e a importância dos seus inimigos vão aumen-
iando. Às frustrações impingidas pela mãe precocemente vêm somar-
.r àquelas ligadas ao pai e aos irmãos (que acabam recuando frente
a uma exigência de amor grande demais). Aqui também, no decorrer
da evolução constitutiva, e à medida que vão se produzindo os acasos
Irruiidos e outros eventos psíquicos e/ou sociais, assistimos a uma
117
vivência das dificuldades inteiramente desproporcional. A lei é vivida
como sendo descomunal ou, ao contrário, como ridícula e devendo
ser ultrapassada — daí, como resposta, surgem os esforços exage­
rados despendidos para transgredi-la.
Pouco a pouco, a transgressão torna-se o modelo de atuação pre­
valecente. Em contrapartida, para os outros membros do grupo fami­
liar, ela elimina toda e qualquer tentativa de reorganização do siste­
ma de relacionamento com a criança — a não ser aquele constitutivo
da idiotia. A família está sempre com uma guerra de atraso, o que,
para alguns de seus componentes, constitui um conforto para sua
rejeição sádica. Por outro lado, com a transgressão, a "objetividade”
da lei real e das intervenções externas (marcadas sobretudo a nível
simbólico — professores, pais de amigos, polícia etc.) passa a inter­
ferir de maneira crescente no campo restrito do sistema familiar, até
então dominado pela subjetividade. Mesmo se o acaso fizesse com
que um desses elementos intervenientes fosse realmente "bom”, esta
"bondade” seria transgredida em um sentido sexual, pois o indivíduo
não pode conceber a existência de uma bondade ingênua, e sempre
acaba descobrindo, com perspicácia e agilidade dignas de um ourives,
a falha contida no desejo do outro.
Assim, o Idiota da Família, incessantemente, de experiência em
experiência, como o inseto contra uma vidraça iluminada, vem cho-
car-se às possibilidades entrepercebidas e à constante desestabili-
zação destas possibilidades, na tentativa de se constituir uma iden­
tidade no interior da norma. Em vez de ser tranqüilizadora e de
diminuir a angústia, a relação com a lei reativa todas as frustrações
adquiridas no sistema familiar. Caso seja tentado a refugiar-se na
legalidade, o indivíduo logo se dá conta de que isto é impossível:
a soma de tudo que já existia antes da intervenção destes elementos
externos não lhe permite recuar até o statu quo ante que, por mais
insatisfatório que tenha sido, agora lhe parece praticamente para­
disíaco. Ele está condenado a fugir para a frente.
Novamente, estamos perante àquela dimensão cinética desmesura­
da (tanto na aceleração quanto na lentidão) que a nosso ver é uma
das principais características constitutivas da nossa clínica. Esta di­
mensão produz eventos psíquicos ininteligíveis por dedução lógica,
pois são criados pelo embate de afetos e de eventos contraditórios,
muitas vezes de uma maneira que nos parece no limite do possível.
Isto gera tamanha angústia, que o indivíduo não tem outra saída a
não ser o "acting-out”, quando sua capacidade normativa está peri­
gosamente desvalorizada e ele não consegue mais reconhecer a fun-
118
ção real das coisas e das pessoas. Em outras palavras, quando ele
está praticamente destituído de sua capacidade de orientação.
Seja qual for a força considerada, voltamos sempre àquela mes­
ma dificuldade de ser ele mesmo, que é a verdadeira característica
do nosso indivíduo e acaba se tornando não em uma forma clínica
e sim, na sua forma de vida. Precisamos compreender que esta forma
de vida não é quantificável, que se trata da passagem de uma situa­
ção moral para uma situação amoral, de uma ordem lógica das coisas
para uma ordem alógica, do consciente para o inconsciente. E que,
invariavelmente, esta situação é vivida como cruel, gerando constan­
temente o desejo de outro desejo, buscando a qualquer preço alguma
ordem, alguma lei.
É por esta razão que, ao observar na vida cotidiana o comporta­
mento de tais indivíduos e suas respostas aos estímulos mais banais,
ficamos sempre muito chocados com o aspecto exagerado de suas
reações e com o esforço enorme que despendem para atingir seus
objetivos. Por outro lado, chama-nos a atenção o fato de que os
resultados obtidos têm quase sempre um caráter de derrota, mesmo
quando as motivações são importantes. Isto se deve à extrema com­
plexidade do jogo interno do psiquismo, contraditório e dividido
entre desejos e proibições. Mas o que é mais impressionante ainda é
a inadequação da linguagem para expressar tais situações, caracte­
rizadas por uma grande mobilidade afetiva e muitas contradições
culturais. O jogo da linguagem (inclusive do terapeuta) tende a
aplainar ou anular as dificuldades relacionadas com a cinética pró­
pria dos eventos psíquicos. A linguagem necessita de uma situação
de não-dúvida, e não é exatamente o que ocorre: aqui, a existência
às vezes fulgurante dos eventos psíquicos não pode ser provada nem
demonstrada.
A função da linguagem é, por sua vez, sentida como desmesura­
damente restritiva e vivida como uma armadilha; e o indivíduo tenta
eliminá-la no sistema familiar. É o famoso: “Eu não tenho diálogo
com meu pai, não nos compreendemos.. . ”
Qualquer tentativa de expressão através da linguagem remete sem­
pre um pouco mais a uma angústia solitária e estanque, marginali­
zada. E a linguagem, por não ser tranqüilizadora, transforma-se no
motor objetivo da perseguição.
Temos então à nossa frente um indivíduo que, perante os inúme­
ros acontecimentos de sua vida, adota posições particularmente mó­
veis, na maioria das vezes imprevistas, cada vez mais marginalizado-
ras em relação às normas concêntricas da família, da escola, da
119
sociedade. Suas possibilidades de levar a vida adiante são poucas
e fracas, e uma delas (que mencionamos no capítulo “A Infância
do toxicômano”), consiste em alucinar a realidade através do jogo.
Este jogo vai se tornando cada vez mais erotizado, e o indivíduo
elege particularmente um ou uma colega em quem busca a comple-
mentação de sua identidade — o que constitui o primeiro passo
para a solução andrógina da identidade, que veremos mais adiante.
Mas, na medida em que o próprio jogo envolve parceiros que se
relacionam com suas próprias leis, as possibilidades de reconstrução
de uma identidade também se esgotam, ou, em todo caso, não
podem durar o bastante para que se estabeleça um statu quo.
Por todas as razões descritas acima, o indivíduo finalmente não
se dá o direito de amar e ser amado sem acionar um sistema exage­
rado de verificações, impossível de ser vivido por qualquer parceiro,
pois acaba tendo, em relação a este último, uma função rejeitadora.
Ora, nesta fase é preciso que o indivíduo não possa renunciar à utili­
zação de seus sistemas: ele não conhece outros, ou pelo menos nunca
os vivenciou como sendo operacionais e contendo a sua “ íntima
convicção”. Isto explica a enorme importância concedida ao imagi­
nário, o qual é totalmente desproporcional tanto em seus aspectos
bons quanto em seus aspectos ruins. É um imaginário paranóico
que só enxerga elementos destrutivos no outro, e um imaginário
infantil, ingênuo, onde o indivíduo é sempre o rei, o Deus, num con­
texto de melodrama romântico no qual muitas vezes lhe fazem
justiça no decorrer de reconciliações grandiosas, apologéticas e mag­
nânimas.
Este imaginário, porém, é vergonhoso e transforma-se em segredo
guardado ferozmente, pois o indivíduo aprende à custa de suas veri­
ficações com os outros, que nem toda verdade vale a pena ser dita.
Ele então “enche a cabeça” com um monte de coisas que vêm refor­
çar ainda mais seu sistema de excesso: por um lado, o aspecto de
imensidão das derrotas e decepções gera uma auto-imagem extrema­
mente desvalorizada e, por outro, o indivíduo tem uma concepção
de si inteiramente megalomaníaca — apesar de pueril e ingênua — ,
desgatada pela dúvida, e que conseqüentemente precisa ser reativada
à medida que o sonho acordado deixa de ser operacional (notemos
aqui a importância da droga como instrumento desta reativação,
caso o indivíduo a encontre em seu caminho).
Assim, se o indivíduo sabe que suas exigências são excessos, ele
sabe também que é inteiramente incapaz de abandoná-las. O que
explica a obrigatoriedade que tem, para ele, o ‘'tudo, já”, pois tama-
120
nha negação da realidade só pode ser fulgurante, e nisto está a
razão do caráter impulsivo ou impulsivo-compulsivo de suas atua­
ções, aparentemente incoerentes ou desproporcionais. Mas, até mes­
mo fora destas atuações, que se situam em verdadeiros “passes”
onde os retornos à realidade alternam com o entrepercebido perdido
de um paraíso triunfante, o indivíduo, como diz o senso comum,
vive no “mundo da lua”, “voando”.
Para situar o excesso deste “outro mundo” podemos dizer que ele
não se contenta em alucinar a realidade, ele também super alucina o
imaginário. E, ao fazê-lo, perde boa parte da flexibilidade adaptativa
que possui todo ser vivo em relação ao meio ambiente. Este fato
contribui para reforçar o verdadeiro círculo vicioso da rejeição e da
ferida sofrida por esta criança: para ela, qualquer evento bruto da
realidade significa uma eventração exagerada do seu casulo prote­
tor, e ela acredita que todos, sabendo disto, vão julgar que não
passa de uma “infantilidade” malsã e desprezível.
Uma tal negação do imaginário, ou melhor, de seu valor, é crimi­
nosa para o futuro do indivíduo, para os compromissos que ele pode­
ria estabelecer, se este tipo de ferida não existisse, se a “infantili­
dade” não se reconhecesse como tal, fosse apenas o imaginário alu­
cinado como real, possibilitando a transcendência do real sem anes­
tesia de qualquer tipo: química ou espiritual, botânica ou ideológica!
Mas o destino desta criança só autoriza a seriedade do excesso
e da descontinuidade. Os intervalos entre as situações que se suce­
dem são grandes demais para que um compromisso qualquer de
estabilidade, um certo statu quo, possa se instalar. Aqui, não há
espaço para transcender a realidade tranqüilamente, a criança não
pode brincar de se assustar, pois essas reviravoltas constantes das
situações realmente a assustam. Reviravoltas estas que deixam muito
pouco espaço para que o desejo possa se expressar como elemento
dominante — mesmo que este desejo se traduza por fulgurâncias — ,
que transformam sua vida numa monstruosa corrida de obstáculos.
Esta pouco de desejo, a amputação deste elemento essencial à condi­
ção humana, torna-se um componente semiológico fundamental da
ontologia do indivíduo. Como diz Chateaubriand em “René”: “Somos
desenganados antes de gozar. . . ”
Isto configura uma enorme diferença em comparação com o des­
tino dos outros adolescentes: para estes, a invasão de desejo é o
motor da passagem da infância para a idade adulta. Aqui, a interde­
pendência não se dá apenas entre o fisiológico e o psicológico, mas
também entre a falta e o fisiopsicológico. E é interessante observar
121
que a importância atribuída a esta falta coloca em questão a própria
noção psicanalítica de período de latência.
Como já dissemos, este tipo de identificação não permite a forma­
ção de uma personalidade sólida, mesmo de uma personalidade pato­
lógica, pois o espaço que corresponde ao simbólico fica extremamente
diminuído pela extensão dos eventos, da instantaneidade do tempo
vivido no momento fecundo, ao mesmo tempo em que, paradoxal­
mente, este espaço reservado ao simbólico é exacerbado num registro
único: o da vítima expiatória do sistema familiar (e dentro deste).
Se há alguma irrupção súbita no decorrer da chamada crise da
adolescência, não é uma irrupção dos desejos e sim da tomada de
consciência desta posição: o que explica o fracasso evidente dos
simulacros miméticos de relações amorosas experimentados por todos
os adolescentes nesta fase. Podemos relacionar este tipo de evento
com o segundo trauma afetivo mencionado por Jean Bergeret, ressal­
vando que este trauma não é apenas desorganizador, ele é também
organizador de "outra coisa”, assim como, segundo Henri Atlan, o
ruído é organizador de ordem.
A partir deste momento, as coisas já não podem se passar como
antes, ou seja, como uma sucessão mais ou menos adaptada de con­
flitos intrafamiliares: como a escolha adaptativa não foi capaz de
se estruturar enquanto psicose, e como, sem ajuda, ela não pode evo­
luir em direção da ruptura, o indivíduo, sem poder evitá-lo, entra
numa fase em que a ação torna-se um instrumento para evitar a
angústia, a qual deve absolutamente ser negada. Pouco a pouco, com
a ausência do simbólico e o progressivo desaparecimento do aspecto
operacional do Imaginário, só resta explorar os caminhos da reali­
dade, com uma necessidade enorme de incorporá-la carnivoramente.
Sabemos da importância atribuída a Outro enquanto objeto sexual a
ser incorporado, não apenas para trazer satisfação mas sobretudo
para se chegar à Unidade — tentativa que veremos no capítulo sobre
androginia. Mas aqui também torna-se evidente o como e o porquê
da decepção inevitável. É que o Outro é outro, e não parte de si
mesmo. E, excluindo-se a fulgurância da paixão, não pode restar a
mínima dúvida a este respeito, ainda mais que o Outro será sempre
apenas um elemento isolado no amplo sistema do qual participa o
Idiota da Família, e no interior do qual ele não será jamais admitido.
Quantas mães abusivas deste tipo conhecemos, que primeiro fingem
acolher muito bem o(a) amigo(a) do(a) filho(a), para em seguida
transformar a relação de maneira carnívora e responsabilizar este
ou esta por uma rejeição inevitável?
122
O indivíduo que descobre a dúvida nas possibilidades de um obje­
to de desejo, capaz de saciar a falta, está descobrindo também a
piedade da melancolia. Ele sabe que não será jamais como os outros,
mas só pode sabê-lo em segredo, pois as aparências estão salvas —
o que não acontece no caso da loucura.
Toda palavra, todo discurso é em vão. A primeira vai para o sen­
timento, que se traduz por uma impossibilidade de ser no mundo,
relativa não apenas à angústia de morte, mas também ao mimetismo
tão indispensável nesta idade para que o indivíduo possa ter acesso
aos rituais que marcam a passagem da infância e da adolescência
para a pós-adolescência. Na melhor das hipóteses, tudo fica suspen­
so, na longa espera de um não sei o quê. E, na pior das hipóteses, a
consciência é invadida pela tentação do suicídio, até que o indivíduo
comece a atuar de várias maneiras. Suas atuações não têm prazo
nem justificativas plausíveis, seu sentido escapa a todo se até mesmo
a ele, e nelas não podemos nem mesmo detectar aquela imensa an­
gústia do despedaçamento que constitui uma explicação para os qua­
dros psicóticos.
Na maioria das vezes, e isto assusta ainda mais o indivíduo, a
busca organiza-se em uma perversidade do jogo sexual, vivenciada
como a única maneira de tornar sensível a possibilidade de obter
satisfação e, logo, de existir (este tema foi ilustrado de forma terri­
ficante e maravilhosa no “Saio” de Pasolini). Mas é preciso ainda
que o indivíduo tenha meios de afirmar seu sadismo e/ou masoquis­
mo, pois, na verdade, tal construção de vida leva ao estabelecimento
de uma censura chamada "timidez mórbida”.
Seja como for, sempre uma surpresa para o clínico descobrir o
aspecto bissexual das atuações desses indivíduos: o sentido habitual
da homo e da heterossexualidade não cabe aqui, pois não se trata
inteiramente da satisfação de um desejo e sim, da busca de uma iden­
tidade e de uma unidade e, portanto, da supressão da dúvida melan­
cólica. Mas o engano também se manifesta. E isto explica a conduta
de evitação que consiste em multiplicar os parceiros, pois toda satis­
fação é logo esgotada e todo sentimento é sentido como falso, ou
como uma porta abrindo-se mais uma vez sobre o insuportável sofri­
mento da falta!
Assim, de uma maneira extrema, o indivíduo é e não é, vive e
não vive. Transfere a vida para mais tarde e, como compensação,
exige sensações que sejam imensas. É em seu corpo e através deste
que vai tentar consegui-las primeiro. E é verdade que o corpo é o
único obstáculo para o desespero. Este corpo, porém, costuma tor­
123
nar-se objeto e, às vezes, até venal: após ter sido instrumento de
vida e de prazer, passa a ser um obstáculo, pois não é capaz de
gerar a plenitude (esta idéia será desenvolvida no capítulo sobre
Androginia). As sensações enfraquecem, são sentidas e vivenciadas
como incompletas, frustrantes e insatisfatórias; sem, no entanto, ser
completamente desvalorizado, o corpo transforma-se em algo secun­
dário, e neste estágio o amor físico não tem mais a enorme impor­
tância que costumava ter, mesmo se, aparentemente, a atuação não
é muito problemática. É quando, na verdade, são muito freqüentes
a impotência, as ejaculações precoces, a frigidez e o medo da pene­
tração.
Quanto ao amor, ele é mais suspeito ainda: não somente porque
é autorizado pelo sistema familiar, mas também por ser decantado
aos quatro ventos e porque as mães, em coro (os pais costumam ser
mais reticentes), proclamam que nele está a solução para todos os
seus problemas, julgando que as crises — sempre mais freqüentes
— constituem a prova, na prática, daquilo que elas sempre afirmam:
o caráter "mau” de seus rebentos. As mães presenteiam-se com um
festival de auto-satisfação dolorosa, com benefícios secundários em
todos os níveis: a um só tempo, elas estão verificando e provando que
os companheiros ou as companheiras dos filhos não podem suplantá-
las. E como, mais uma vez, não é a felicidade do Idiota da Família
o que está em pauta, a frustração imposta pela mãe recrudesce, apre­
sentando agora exigências mais sutis, e, a partir do momento em que
o vazio do projeto familiar novamente se impõe, só resta lugar para
o consumo. Qualquer tipo de consumo serve, contanto que preencha
o eterno negativismo manifestado pela falta. Negativismo que é, de
fato, apenas uma espécie de nostalgia por parte do indivíduo que
não pode ser aquele que faz um filho com a própria mãe; filho este
que seria, desde já, imortal e nunca nascido — é aí que reside a
única possibilidade mítica de atingir a Unidade. É este o sentido
que devemos atribuir ao mito da queda e da degradação, presente
em tantas religiões.
O consumo, porém, não se situa no campo mítico; ele nos remete
ao início da nossa história e suscita, por sua vez, a excreção. A
criança bode-expiatório remete ao sistema familiar e a seu monte
de lixo: ao pai desvirilizado, ela devolve sua homossexualidade; à
mãe canibal, ela desvenda sua androginia; e mais do que tudo isto,
naquelas horas em que as pessoas acreditam tê-la domado, numa de
suas reviravoltas costumeiras, ela cria o escândalo e fere o sistema
no que este tem de mais vulnerável, fazendo explodir as aparências.
124
O lixo pode tornar-se social e escapar ao não-dito, por exemplo
quando ocorrem prisões, hospitalizações ou nas idas a prostíbulos. O
consumo é teatral e transforma-se em teatro: já que o desejo não
é satisfeito, convém fazer acreditar a fundo que é isto que se quer
e que se escolheu. Trata-se na verdade de um miserável simulacro
de escolha, sob o qual se esconde uma carência digna de pena, en­
trecortada por momentos de implacável lucidez que constituem as
portas de acesso à melancolia que mencionamos acima. A experiência
adquirida reforça de novo o indivíduo no sentimento de que é im­
possível salvar-se.
Notemos que se a experiência adquirida é a causa desta certeza
atual, ela não a fundamenta de maneira alguma. Seu fundamento
continua sendo a falta — e a certeza em questão é ao mesmo tempo
antiga e atual. Esta Falta, que está ao mesmo tempo aqui e no ponto
mais extremo, não pode ser comunicada nem dividida; isto explica
a solidão melancólica e a ausência da imagem de Deus que podemos
observar nesses indivíduos: atormentados por esta certeza da falta,
são incapazes de mobilizar um imaginário ausente para preenchê-la.
Isto só é possível através de intervenções externas (como drogas, te­
rapia etc.), que podem acalmar as manifestações dolorosas da falta e
até mesmo, em certos casos, permitir a formação de um compromisso
viável, aceitável. Mas mesmo sabendo que seria desejável rejeitar a
antiga realidade, a exclusão desta não é nunca inteiramente pos­
sível. No entanto, e isto é fundamental, uma terapia bem feita modi­
fica radicalmente a atmosfera, a música das vivências anteriores tão
dramáticas. E, a longo prazo, nos casos de pacientes mais relaxados
e menos desconfiados, ela acaba favorecendo uma reorganização
das defesas e a possibilidade de um confronto com a realidade me­
nos paranóico.
Seja como for, o sofrimento do invidíduo situa-se na ordem do
desenvolvimento fenomenológico, com uma cinética própria, de even­
tos repetidos, sem possibilidade de organização de sua economia
psíquica, pois ele é obrigado a enfrentar choques sucessivos e desor­
denados. Nesta fase, uma abordagem psicanalítica agravaria ainda
mais a situação, pois consideraria dogmaticamente como já adquirida,
uma organização que na verdade não está conseguindo nem mesmo
se esboçar. Não há melancolia, e sim fulgurâncias melancólicas segui­
das por fases de normalidade ou aparentemente dissociativas. O so­
frimento é duro, porque é lábil; é extrovertido, porque fundamental­
mente móvel e também porque busca apenas soluções locais (e só
pode proceder desta forma). Trata-se aqui mais de uma semiologia
125
das pluralidades do que de uma clínica da organização. A organiza­
ção é um engodo, transitório e temporário, e o sofrimento intermi­
tente é substituído pela crueldade ou pelo fazer-ver. O sentimento
se situa na intensidade, e não na duração. A dimensão essencial é o
tempo vivido, e não o interdito ou o reprimido. A organização é o
longínquo, e como diz Michel Serres: “O longínquo não é necessá­
rio, mas é difícil e em vão”.
A criança faz ver à família algo marcado por fortes dores e arre­
pendimentos brutais, mas invariavelmente a incomunicabilidade é
a regra (quantas fisionomias fechadas podemos observar no consul­
tório na presença dos pais!). Porém, a cada vez, ninguém joga
para prorrogação, pois, como já dissemos, este “cada vez” se esgota
tão depressa!
A organização do “Eu” só existe enquanto estatuto parcelado e
móvel, o pré-genital coexiste ou sucede, precede ou coexiste com
outra coisa, com elementos do édipo ou genitais, mas também com
algo inominado e “magmaforme”. Este inominado, este magma não
se constitui só arcaicamente; ele se cria permanentemente, agora e
hoje, lama e massa permitindo todas as modelagens e, logo, todas
as pseudo-identidades que o indivíduo vai usar para preencher a
falta e curar suas feridas narcísicas. O que de fato ele não consegue
atingir jamais, já que a falta é extrema. Invertendo o raciocínio, a
falta é o “tudo, já”, e o sistema familiar não passa de um espelho
que reflete esta falta, ao mesmo tempo em que a desvenda, apesar
das aparências exigirem sempre normalidade e conformismo.
É esta aparência e esta revelação que vão gerar a doença moral: a
experiência, apesar de ser sempre mais necessária, não acrescenta
nada para confirmar a ferida “presente, horrenda e recusando a
razão” (Gorges Bataille).
Bode-expiatório indispensável, a criança só pode esperar da famí­
lia a necessidade de repetição ou a repetição da necessidade, segundo
a expressão de Lagache. Um arranjo deste tipo pode ser observado
naturalmente no toxicômano, e a experiência se encarrega de con­
firmá-lo. Porém, se considerarmos o aspecto biológico, nada é defi­
nitivo e as necessidades corporais criam novas tensões que são ao
mesmo tempo benéficas enquanto fontes de prazer (já vimos a enor­
me importância atribuída à masturbação), e negativas pois são in­
capazes de tender para aquele extremo passível de anular toda e
qualquer ruptura.
A verdade é que a descoberta do prazer, se comparada com os
abismos que o precedem, confere-lhe um valor que é igualmente des-
126
mesurado e pode criar a ilusão de que, através dele, o indivíduo tem
a possibilidade de, finalmente, encontrar a finitude e a unidade tão
desejadas. Concomitantemente, o prazer vai se tornando o inimigo
da família, que vai empregar todos os artifícios da doença moral para
combatê-lo (sobretudo no seu clímax, que é quando o indivíduo se
“droga”), invocando um gigantesco ideal de ego e culpabilizando o
indivíduo por não se conformar a ele. Podemos observar ainda ten­
tativas mais sutis de incorporar o(a) companheiro(a) dentro do sis­
tema e de devorá-lo(a) da maneira mais canibal possível. Estas ten­
tativas costumam dar certo, pois o indivíduo encontra aí novas veri­
ficações de sua irremediável condição, podendo às vezes até renun­
ciar (o que é sempre extremamente gratificante para a mãe!).
Longe de ser protetora, a família reclama o que lhe é devido. Não
o faz por sadismo — ou então seria bem ingênua —, e sim porque
o que lhe é devido constitui a perequação capaz de manter o siste­
ma vivo, assim como seus membros. Em troca, ela assume seu papel
de pára-raios perante a sociedade, incluindo a marginalidade do
filho em uma relação torturada e torturante, sempre se fazendo e
se desfazendo, em conturbações infinitas.
Não existe direção certa para este tipo de relação; ela pode ser
insolúvel: até o casamento, pela escolha do parceiro, não passa da
reprodução pálida e consentida daquele duo, ao mesmo tempo tão
indissociável, tão dolorosamente delicioso e tão inviável. Uma vida
assim é desde o início destituída de esperança, e as sublimações so­
ciais usuais (ser padre, escolher profissões de autoridade etc.) cum­
prem sua função mas não proporcionam ao indivíduo nenhuma har­
monia interior. Para ser suportável, a compensação exige o máximo
em excesso, e se quer se satisfazer, o indivíduo nem sempre tem à
sua disposição alguma guerra ou algum jardim dos suplícios. A guer­
ra vai ser então psicológica, e tão intensa que nem sempre as apa­
rências conseguem disfarçá-la: isto explica a longa duração das atua­
ções, mesmo quando tudo parece estar entrando nos eixos.
A morte também costuma estar presente, e algumas vezes nos é
dado assistir — quando o indivíduo tem a coragem de efetuar a
primeira atuação suicida — a uma verdadeira toxicomania de atua­
ções suicidas repetidas. Na maioria das vezes, porém, esta negação
da vida se expressa através do esvaziamento incompreensível de pro­
jetos de vida que, aos olhos de qualquer outra pessoa, pareceriam
muito desejáveis.
Mencionamos o termo “duo”. A compensação só pode ser dual, é
preciso um cimento para preencher a brecha, e outro para dar —
127
ainda que fugazmente — a Unidade. Se o indivíduo tem na memória
pelo menos a lembrança desta possibilidade, a vida torna-se supor­
tável, pois surge então a possibilidade de repetição. Sabemos que no
caso do toxicômano, este constrói seu duo indissolúvel com a droga,
que é uma amante, cheia de exigências (seria interessante refletir a
respeito do conteúdo sexual imaginário do “planeta”). Há também
duos formados com a dor; ou com o luto, no caso daqueles que só
podem viver através da morte do sistema familiar; ou, ainda, os
duos com a loucura, no caso daqueles que são incapazes de trair os
pais, mesmo que isto lhes custe um celibato monstruoso. E, final­
mente, para alguns, o caminho é diferente, feito de inúmeras buscas
e tentativas: ideológicas, supervalorizadas, como por exemplo a ade­
são mística apaixonada a determinadas seitas e, sobretudo, a busca
de uma identidade em uma nova visão da sexualidade. Já vimos a
parcela de bissexualidade ou de homossexualidade que cabe à ten­
tativa de achar aquilo que falta em um duo formado com a própria
imagem. No próximo capítulo discutiremos a parcela que cabe à
construção andrógina na tentativa do indivíduo para restabelecer,
transcendendo-a, a sua unidade — tentativa esta que o faz parecer-se
com um demiurgo. Mas, nunca é demais insistir: a criança é em sua
família, que é sua sociedade, sua pátria. A família divide com ela o
todo, assim como as particularidades, e as responsabilidades são
duais. Não há autarcia, isto não é possível nem biológica e nem so­
cialmente. Mas existe uma tendência à assintota autárcica afetiva.
Mesmo que a vida desconecte a criança do sistema, o afeto mantém-
na vinculada indefinidamente, em todos os prolongamentos que por­
ventura tenha tentado constituir em sua tentativa de fuga.
Até agora, referimo-nos a casos extremos, exagerados. Graças a
Deus, as situações não costumam ser tão totalitárias quanto as des­
critas; como já dissemos, existem várias posições intermediárias,
muitas rupturas menos radicais e, conseqüentemente, inúmeros com­
promissos suportáveis são possíveis. Mas o que consideramos verda­
deiramente fundamental é que os terapeutas não deixem escapar esta
dimensão, pois sabemos que estão pouco acostumados a trabalhar
pelo e no interior do movimento, e por demais inclinados a ignorar
ou menosprezar a fenomenologia da instantaneidade em benefício do
fator de organização.
O que temos aqui não são duas posições, e sim uma posição para­
lela, cujas bases teóricas ainda balbuciantes estamos tentando estabe­
lecer. Percebemos porém que, em torno da estrutura e no interior
desta, nós tendemos a reduzi-la a uma linearidade exagerada, e que
128
deveríamos considerar muito mais a assimetria, o ruído e o furor
que ela contém, em seu incessante movimento organizador e desor-
ganizador. Considerando estes dados, mesmo nos casos mais difíceis,
a terapia possibilita que a música se faça melodia mais suave, su­
cessão em cascata de pequenos compromissos possíveis. Nos referi­
mos aqui à música, no sentido próprio e figurado: é fácil perceber
como é extremamente importante para esses indivíduos ouvir música.
São estes compromissos que fazem com que ele se “imagine” como
sendo outra pessoa, em outro lugar.
Esta difícil construção de um outro imaginário, menos exagerado,
é o que vai pouco a pouco lhe permitir aceitar o confronto com a
realidade. A não ser que, sendo ou santo ou toxicômano, ele prati­
que a política do êxtase. . .
Se é verdade que a vida do Idiota da Família (nos casos típicos)
está repleta de impossíveis, ela é também um campo de evasão e de
banalidade para o homem comum, normalizado. Por isto precisamos
respeitá-la em sua marginalidade, a não ser que o indivíduo peça-
nos, com seus gritos de dor e sofrimento, algum projeto terapêutico.
E devemos então honestamente reconhecer que este projeto será
sempre, em algum ponto, extremamente empobrecedor, pois, segun­
do Georges Bataille, “viver é ter conhecido, não conhecer mais”.

129
4
Androginia

A androginia é certamente um mito, mas ela é ao mesmo tempo,


e de maneira muito profunda, desejo: tanto assim que, no coração
da catedral de Nantes a Católica e também em Madurai, na índia,
encontra-se uma estátua cuja frente representa uma mulher e cuja
parte traseira representa um homem. Em Nantes, como em Madurai,
ela reproduz a sabedoria e a virtude. Nas religiões encontramos
com freqüência a nostalgia do “ich” e do “icha” hebraicos, que
são as partes masculina e feminina de todo indivíduo. Isto não
costuma ocorrer apenas no campo das religiões e, concordando com
Platão, Freud ousou formular a hipótese segundo a qual “a subs­
tância viva una e indivisível, antes de ter recebido o princípio
de vida, seria dividida. . . em partículas que desde então procuram
se reunir de novo sob a pressão das tendências sexuais”.
Para nós que estamos em pleno despedaçamento, em plena lem­
brança arcaica de uma plenitude deslocada — mas não inteiramente
—, o que há não apenas uma urgência narcísica em se reencontrar
Uno enquanto Uno. Há também uma necessidade quase vital de
se encontrar uma saída para a falta, que continua em atividade:
daí o aspecto voluntário que marca o procedimento do toxicômano
(futuro ou atual) em sua busca de uma identidade dupla, em
espelho. Uma identidade capaz de lhe proporcionar certos reen­
contros que ele vai efitão tentar achar mais ou menos ativamente
em uma co-presença bissexual.
Esta co-presença, de alguma maneira, tem o mandato de tentar
neutralizar por todos os meios o lado irredutível da falha. Este
“mandato por todos os meios” implica evidentemente ;i transgres­
são de tudo que seja dado a priori como limite (e não será este o
caso do sexo dos homens, salvo a honrosa exceção do:, hermafro­
ditas?). Esta transgressão imperiosa vale a pena, já que ria propor­
ciona o entreperceber. Mas é ao mesmo tempo frustrante. pois fora
da construção do imaginário ela não incorpora realmentc (e neste
sentido ela apenas prepara o terreno para todas as outra-* transgres-
131
soes) a transgressão do estatuto formal da homossexualidade e/ou
da toxicomania.
Porém, ao se permitir imperiosamente tal transgressão, o homem,
à imagem das divindades, está na verdade adquirindo uma face
dupla. Ao invés de conseguir atingir a unidade, ele apenas com­
plica ainda mais a sua falta. De certo modo, ele a torna dupla, e
assim duplica também seu sofrimento e revive a amarga experiência
do impossível: possuído e possuidor, penetrado e penetrador até
o nível mais profundo de toda aventura sexual e imaginária, ele
encontra o objeto, transforma-se no objeto, é incorporado, incor­
pora, mas só se torna Uno no espaço fulgurante do orgasmo — e
isto quando consegue tê-lo. Mais uma vez, como sempre, o que
sucede ao clímax é apenas um, sem o outro: desta vez, o feminino
e o masculino frente às suas respectivas faltas.
O indivíduo conserva, então, na margem do seu drama, o papel
da criança que foi, e sua incompletude forçada. Para ele, não é
mais impossível não viver sua tentação andrógina do que vivê-la,
mas — a não ser que ouse ou que já possa fazer face a outra
transgressão —, ele não tem escolha: a androginia é para ele uma
realidade clínica que o submerge. Mesmo a nível do seu corpo, não
pode ter dúvidas quanto à ambigüidade, se não de sua aparência,
pelo menos de seu desejo.
Nada pode fazer com esta pulsão que, inocente na infância e
mais tarde tão reprimida, o leva a travestir-se: o rapaz usa maqui-
lagem, saltos altos, coloca seios falsos e goza com o sexo entre as
pernas e uma régua enfiada no reto; e a moça se cobre de trapos
ambíguos, extravagantes e ridículos, ç também goza com um objeto
enfiado no reto. Isto para, mais tarde, com fingida inocência e a
mesma semi-satisfação, ambos passarem sem culpa e sem desgosto
aparente de um parceiro do mesmo sexo para outro do sexo oposto.
Nenhuma razão é capaz de vencer esta mixidade do desejo que,
ao menos no que concerne o rapaz, não pode ser dissimulada
fisiologicamente. É preciso insistir aqui sobre esta noção de mixi­
dade do desejo, que é diferente da homossexualidade: não há
supressão unilateral do investimento libidinal, e nem desejo do
sexo do outro. Há outra coisa que hoje conhecemos bem: trata-se
da não-percepção do próprio sexo enquanto realidade unissex signi­
ficativa e, por conseguinte, de uma não-completude no próprio sexo
e na própria identidade. O complemento tão almejado não está
unicamente na heterossexualidade, como também não está na ho­
mossexualidade.
132
Podemos acrescentar ainda que o indivíduo, quando se encontra
nessas situações dinâmicas de carência, e em função de sua própria
posição dentro desta, sobretudo no sistema familiar, vai optar entre
uma ou outra solução. E ele não o faz em função de algum “defeito”
de construção estrutural ou de alguma predisposição arcaica com
recuo defensivo, uma vez que a “mixidade” não é constitucional e
sim,, dinâmica.
A tentativa-tentação andrógina é uma das soluções consideradas
para sair do impasse no qual ele se vê colocado a partir do estágio
do espelho quebrado. Ela se torna uma espécie de dança em frente
ao espelho, como se com cada parceiro o indivíduo pudesse se
permitir nova verificação, e afirmar: “Eu encontrei minha com-
pletude”.
É evidente que ele não a encontra; poderia no máximo aproxi­
mar-se dela se ficasse “grávido” (Groddeck afirma que “a mulher
grávida é a aproximação mais exata do andrógino”). Ou melhor,
se de acordo com o desejo que atribuímos ao toxicômano, ele fosse
aquele que fecunda a própria mãe, dando-lhe um filho que não
nasceria nunca e seria sempre imortal, pois é na totalidade, no
“tudo, já e agora”, que ele poderia ser Um. Na melhor das hipó­
teses, a androginia não passa de uma duplicação: não é um todo,
pois a metade masculina e a feminina remetem à própria falta, que
não é nunca substituída pelo desejo; e o prazer obtido com um
tipo de parceiro deixa intacto o vazio que outro poderia ocupar.
Aqui há apenas clivagem; não pode haver desejo ao mesmo tempo,
já que ele ou ela sabe que existe em outro lugar um outro tipo de
desejo, e que esta forma de experiência tampouco pode fazê-los
passar do âmbito local para o âmbito global. No máximo, pode
levar o indivíduo a explorar a questão do “será possível aqui e
agora?”, e, através do gozo fulgurante, permitir-lhe que recobre
aquele “todo” entrepercebido e memorizado na instantarieidade da
ruptura do espelho. Apenas visto ê já perdido, evaporado: o que
permanece é sempre a necessidade, de ir até o fim, pois o indivíduo
não é ignorante, e a tentação andrógina vem ampliar o campo de
sua experiência. Ele conhece a possibilidade do todo; entre ele, suas
experiências e o todo, existe algo irredutível que ele precisa preen­
cher não por causa de alguma angústia metafísica, e sim porque
ele se encontra em sofrimento, porque não conseguiu constituir para
si nenhuma estrutura sólida, só podendo viver através da ação.
O indivíduo, por razões que descrevemos no capítulo sobre a
“Infância do toxicômano”, não constituiu para si nenhuma estru-
133
tura psíquica sólida; por isso, ele tem um patrimônio biogenético
bissexuado. Este fato não é um mito: o feto humano comporta
potencialmente os dois sexos, e a sobrevivência do segundo sexo
é evidente, por exemplo, nos casos de hermafroditismo. Ao se rom­
per, o espelho bloqueia a evolução psíquica da identidade. Esta
ruptura impede as sucessivas construções nas quais se assentaria
uma identidade que, aliás, é bem mais incerta do que gostaríamos,
e isto até mesmo no plano biológico. Desta forma, o espaço fica
liberado para um agir ao mesmo tempo fisiológico e psicológico,
mais desordenado e menos linear do que aquele que aprendemos
com a tradicional diferenciação dos sexos. Temos aqui novamente
— e isto será traduzido mais tarde por um agir social e sexual —
a “bagunça”, que constitui uma das linhas mestras deste volume:
todos os acasos “normais” dos eventos psíquicos são mais transtor­
nados ainda pelas falhas e pelas fragmentações. As vias de “facili-
tação” normais da infância e da adolescência fragmentam-se. Eviden­
temente, este agir psicológico repercute no agir biológico, o que
explica a freqüência com que são encontrados sinais femióides ou
virilóides perturbadores do quadro unissexual desses indivíduos. À
pressão psíquica vem somar-se (ainda que parceladamente) uma
pressão biológica que, por sua vez, repercute sobre o psiquismo,
contribuindo para esta dúbia identificação que é característica, e
perturbando um pouco mais o verdadeiro imperialismo das retidões
estruturais.
De fato, se nos aprofundarmos um pouco, veremos que, tanto no
agir quanto no que concerne o psiquismo, o desenvolvimento pro­
cessa-se por repentes e aproximações. E isto, mesmo que surjam —
a longo prazo e num plano mais global — , modelos “masculinos”
ou “femininos”, normais ou psicóticos, hétero ou homossexuais, ao
preço de enormes censuras familiares, sociais e culturais. Até mes­
mos a androginia, enquanto modelo “escandaloso”, empobrece
muito o incomparável movimento da realidade humana. Este é
ainda mais indefinido e móvel no caso do futuro toxicômano, que
nos faz viver constantemente em meio às mais absolutas contradi­
ções, sobretudo no que concerne à linguagem da falta. É que, para
ele, a afirmação freudiana, segundo a qual: “o ego é antes de tudo
uma entidade corporal, não apenas uma entidade toda eim.superfície,
e sim uma entidade que corresponde à projeção de uma superfície”,
é contestada através do próprio esfacelamento desta projeção, esfa­
celamento este que deixa subsistir entre as brechas alguns frag­
mentos desta projeção.
134
O corpo surge então como um objeto do Ego, ao mesmo tempo
interno e externo. Mas como neste caso o objeto é grosseiramente
bissexuado, ele tem o mesmo destino que esta bissexualização e que
este máximo de esfacelamento (do qual a bissexualidade é apenas
uma redução), e manifesta seu desejo em direção a um ou a outro
sexo. O corpo assim bipartido tenta apropriar-se do um ou da uma
externos, e expulsa-os alternativamente ao verificar que nem ele
nem ela podem preencher a falta. O corpo é aqui o substituto do
psiquismo, e serve-se dos meios que encontra na própria potencia­
lidade bissexual para tentar preencher aquilo que o psiquismo lhe
diz ser sua incompletude fragmentada — como se buscasse uma
passagem, um "passe” capaz de tirá-lo daquele eterno retorno ao
ponto de partida, da cadeia sem fim, onde tudo deve ser sempre
recomeçado. r
Nascido de um homem e de uma mulher com os quais tenta iden-
tificar-se e nos quais não consegue se reconhecer, dos quais não
pode diferenciar-se ou separar-se inteiramente, o indivíduo existe
e é cego em relação ao próprio ego, seja qual for a aventura na
qual esteja engajado: já que não pode ser o homem que o gerou e
nem a mulher que o carregou em seu ventre, já que não pode ser
nem mesmo a duplicata de um ou do outro, só lhe resta o frágil
poder de tentar ser um e outro — o que é melhor do que uma
fragmentação mais radical. Ele interverte um e outro a fim de tentar
confundir-se. Não é para resolver alguma tensão sexual (que na
verdade é bem moderada), e sim para "alucinar” uma entidade
que ele é incapaz de realizar sendo monossexuado.
Não se trata do desejo de se identificar com um ou outro sexo,
pois ambos lhe parecem estrangeiros. A finalidade sexual de sua
conduta implica que sua satisfação (esta sim, facilmente verificável)
apenas é incapaz de modificar sua verdade psíquica — a qual
consiste em sentir que tem, se não uma natureza diferente, pelo
menos um destino diferente — , e também não pode abolir o tempo
vivido psicologicamente com e no interior desta diferença. O desejo
está na busca de uma plenitude; se o indivíduo precisa ser outro,
é porque ele não é Um. Como já dissemos, a aventura não é mítica,
é uma necessidade quase biológica gerada no interior da ruptura.
Podemos até afirmar, de maneira extrema, que sua motivação não
provém do princípio de prazer; ele seria levado mais por um princí­
pio de sofrimento, situado na origem histórica do seu ego esfacelado:
é uma origem experimental que somente outras experiências, suces­
sivamente, podem tentar compensar. E há urgência em tentá-las,
135
caso contrário a morte surge por entre as brechas abertas em meio
aos cacos do espelho. Não há fuga possível: o despedaçamento que
agora constitui sua natureza já é o vazio, o nada. É uma fonte
absoluta de angústia para esses indivíduos, que vivem sem ter a
possibilidade de — a exemplo do que ocorre com o homem dito
“normal” — estabelecer o compromisso que é a edificação de uma
personalidade. Assim, a vivência passada da criança responde pela
sua vivência corporal presente, e é o ego partido que se incorpora
nas relações corporais, e não o inverso. As relações do ego com
seu próprio corpo constituem experiências que são tão variadas
quanto o número de rupturas que possa existir. Mas como, sem a
droga, o campo das experiências limita-se a um ou a outro sexo,
é a androginia que vai servir de modelo experimental, mas não de
modelo de identificação, pois como já dissemos — e voltamos a
insistir — a criança futura-toxicômana não tem nenhuma possibili­
dade de estabelecer qualquer modelo de identificação, em função
de sua própria história. O jogo experimental fundamenta-se apenas
sobre a falta, ele não é nem lógico nem razoável. Aliás, também
não é não-razoável. Ele não se deduz da cadeia estrutural, e sim
das transformações da vida emocional e afetiva do indivíduo, e a
atuação andrógina vai se marcando à medida que vão ocorrendo
as aventuras causadas pela falta.
Uma coisa é certa: a importância que lhe é atribuída no imagi­
nário do indivíduo interfere no agir andrógino, pois, uma vez que
este jogo não prova nada e que sabemos por que é jogado, podemos
nos perguntar qual a posição que ele ocupa (agora que as atuações
existem) no psiquismo do indivíduo. Existe alguma chance para que
a androginia não seja apenas uma tentativa de reparação, e sim
uma construção de imaginário que constitua em si mesma — por
mais imperfeita que possa ser — uma espécie de modelo temporário
de esperança de vida? A resposta a esta pergunta é ambígua: em
uma certa instantaneidade, a resposta é sim; a longo prazo, é não,
pois não há possibilidade de totalização.
O “sim” refere-se ao âmbito local, e o “não”, ao global. O local
é a fruição, aqui, agora e já. A fruição permite, de uma certa forma,
o angelismo, um “ser” não sexuado e conseqüentemente não sepa­
rado, vivendo no Nirvana. O imaginário recria o arcaico, da mesma
maneira que a heroína vai recriá-lo mais tarde. O arcaico é o
espaço e o tempo de antes da ruptura e de antes da obrigação
sexuada. Ele cria, e ao mesmo tempo ê aquele espaço ocluso, eférico
(a “bolha”, como dizem os toxicômanos), que lembra a situação
136
do feto no ventre da mãe. É o que o toxicômano procura em seu
“planeta” xaroposo e cálido. É esta a possibilidade desvendada
pela androginia, em uma ilusória visão de casamento dos contrários
e de suspensão do tempo vivido, ou seja, a androginia oferece uma
ilusão de conversão ao homogêneo, uma espécie de imortalidade,
já que o homem e a mulher estão por um momento confundidos,
criando na memória a lembrança de um coito ele mesmo acoplado
a outra fusão no intercâmbio dos sexos. São permutações sucessivas
na realidade, porém fusionadas na reconstituição que delas faz
o imaginário. E não importa se se trata ou não de uma criação
monstruosa, se é possível ou não, já que a alucinação ilusória tudo
permite, ultrapassando qualquer raciocínio dito científico. Aliás, já
podemos perceber nesta alucinação ilusória uma qualidade de eufo­
ria que o indivíduo mais tarde vai reencontrar (e procurar) de
forma mais acentuada, com a droga. O imaginário da androginia
transcende a não-finitude do próprio ato, e lhe traz um comple­
mento indispensável através da noção já mencionada de “clima”,
de “atmosfera” capaz de anular instantaneamente qualquer disso­
nância e qualquer incompletude. É um verdadeiro “devaneio dentro
do devaneio V como diz G. Bachelard (só que apenas no estado
presente), onde a solidão apaga toda solidão.
O onirismo andrógino dissolve os obstáculos e apaga neste ins­
tante local o sofrimento da ruptura, através da euforia momentânea
qi;e suscita, e de seu aspecto de irrealidade, não deixando, naquele
instante, espaço para nenhuma sensação incompatível com a uni­
dade presente, a qual pode ser confundida com uma unidade do
ego. Só isto, já justifica a necessidade de transgressão. A questão
de saber se ela é natural oü não nem chega a ser colocada: ela
é, e é benéfica. Se o indivíduo se fizesse perguntas a este respeito
imediatamente toda sua angústia voltaria, e ele não poderia manter
aquela extraordinária consciência tranqüila, ou melhor, aquele não-
sentimento de culpa com os quais costuma viver sua androginia. O
lado escondido não existe na homossexualidade vivida aqui (pelo
menos no início), só há uma afirmação de “normalidade”, pois
para o indivíduo, este acesso a um imaginário euforizante e tran-
qüilizador representa, naquele instante, sua única verdadeira chance
de poder escapar ao conjunto de relações traumáticas que mantém
com a família, o grupo etc., sem acordo possível, e logo, sem
possibilidade de recorrer. E, aqui, tudo isto é escondido pelo imagi­
nário andrógino, como a cortina esconde o palco: o tempo é imobi­
lizado, bem como o sentimento de morte, tão poderoso, na incom-
137
pletude, quando vem marcar exacerbadamente o homem que viveu
a ruptura. Por nascer de uma transgressão aparentemente bem suce­
dida, ele consegue conciliar as exigências do princípio de prazer
com as do princípio dé realidade.
Mas num âmbito global e no que concerne o tempo vivido, a
resposta é não. Tudo o que acabamos de ver é válido apenas no
tempo-limite dos efeitos da fruição e de sua lembrança. Existe a
possibilidade de repetição, porém o imaginário não detém todos os
poderes, nem perante o sofrimento, nem perante os laços profundos
da rede de relações a que nos referimos anteriormente.
Assim, os fatos se impõem inexoravelmente, e a realidade des­
mente o imaginário, remetendo à inacessibilidade do paradigma an­
drógino — que é, e só pode ser, experiência e aproximação. E a
decepção é tanto maior quanto mais fortes tenham sido o desejo
e a alucinação ilusória. É verdade que houve acessibilidade no
aqui e agora, e a lembrança vai desempenhar um papel fundamental
no agir do indivíduo. Porém, na totalidade, o objeto final do desejo
desaparece, acarretando uma volta à ruptura e gerando aquela
imensa dor frustrante que conhecemos bem e que constitui o único
elemento realmente motor da história do indivíduo. O princípio
de sofrimento transforma o devaneio andrógino em monstruosidade
pois ele duplica a falta. E o imaginário não é bastante forte nem
bastante estruturado para estabelecer com “verdadeiros” os modelos
experimentados pelo indivíduo na realidade. Na melhor das hipó­
teses estes últimos podem existir enquanto potencialidades — como
aspirações inscritas na memória e que podem tornar-se finalidades
para o agir do indivíduo, à semelhança de qualquer fantasma de
transgressão capaz de levá-lo em direção a uma identidade possível.
Uma tal aspiração manifesta-se freqüentemente através do traves-
tismo ou, num grau mais disfarçado, no grafismo, como, por exem­
plo, nas “obras de arte” que enfeitam os muros do hospital de
Marmottan.
Seja como for, a exemplo do que ocorre após o “high” propor­
cionado pela droga, o indivíduo reintegra o tempo e suas finitudes.
o espaço e a rede de suas relações. Seu próprio corpo torna-se nova
mente aquele objeto do ego fragmentado de que já falamos, e ele
só vai conseguir sentir-se enquanto amante ou amado, de uma
maneira muito incompleta e insatisfatória. Seu agir em direção ao
outro é o agir de um desejo que já se rompeu, e, ainda que exacer­
bada, sua genitalidade é incapaz de cumprir sua função organiza­
dora. Aos poucos, a androginia vivida pelo indivíduo vai perdendo
138
sua aparente ingenuidade para tornar-se inquieta. Transforma-se em
uma androginia que não pode deixar de se interrogar quanto à sua
identidade e à sua incongruência perante a questão da falta e da
identidade a ser resolvida pelo (futuro) toxicômano. Pouco a pouco,
ao começar a atuar, este acaba se violentando, pois o benefício que
a transgressão oferece torna-se-lhe cada vez menos evidente, e a
alucinação ilusória vem chocar-se com a realidade irrecusável de
sua experiência interna — a da ruptura, da falta. Na dinâmica da
vivência do indivíduo, até mesmo esta transgressão torna-se inútil,
pois o que o imaginário do andrógino deixa esperar — que o objeto
do desejo esteja permanentemente fusionado com o indivíduo dese-
jante, possibilitando a reiteração permanente do desejo —, revela-se
totalmente impossível. E esta impossibilidade é maior ainda pelo
fato da finalidade sexual deste tipo de desejo ser irrisória em relação
ao desejo de completude, e ter como corolário, o desespero e a
morte.
É a partir desta contradição entre o local e o global que o
mal-estar vai se acentuando. Ali onde havia subversão triunfante,
vai surgir o sentimento de outro tipo de anormalidade e de amora-
lidade, conjugado a um novo confronto conflitual com as normas e
a uma nova dimensão da angústia — se não da depressão — , a
qual comanda (a não ser que o indivíduo seja passivo) uma nova
fuga para a frente.
À coerção da obrigação de monossexualidade pode responder à
provocação e, em primeiro lugar, ao travestismo. Enquanto antes a
transgressão costumava situa-se fundamentalmente no domínio do
psicológico, ela agora pode tender a existir apenas no domínio
social-sexual e na teatralidade psicoafetiva. Ao interdito ontológico
vem então se opor à transgressão caricatural e à provocação paté­
tica: trata-se de um novo limite a ser ultrapassado, como se aí
residisse a possibilidade de passar para o outro lado do espelho.
Mas a própria maneira de estar travestido mostra ao indivíduo
quais são seus limites. Diferentemente dos verdadeiros transexuais
que reivindicam dolorosamente uma identidade que não é a sua,
aqui o indivíduo imita o sexo oposto, mas ao mesmo tempo preo­
cupa-se em não abdicar de nada que pertença a seu próprio sexo.
De alguma forma, entre o interdito e a transgressão, a “relação
íntima” da qual fala Georges Bataille transforma-se aqui em uma
relação externa, alardeada, a qual não passa de um tentativa de
solução, muito menos convincente, para o indivíduo, do que a aluci­
nação ilusória mencionada acima. Ou pelo menos — por constituir
139
um apelo tão instável e tão imperfeito — , não passa de um alar-
deamento destinado a mostrar a intensidade da imperfeição e da
dor sentida, ou seja, a tornar pública a realidade da ruptura.
Outra solução possível é a patologia mental, em suas modalidades
imperfeitas e dissociadas já mencionadas no capítulo sobre a " Infân­
cia do toxicômano” (conhecemos o delírio do Presidente Schreber,
que achava necessário transformar-se em mulher para salvar a
humanidade e gerar filhos de Deus). Nestes fragmentos de psico-
patologia muitas vezes são encontrados elementos de uma androginia
retalhada (como Bruno Bettelheim bem mostrou em seu trabalho
sobre as "Feridas Simbólicas”). O indivíduo pode chegar a extre­
mos insustentáveis como, por exemplo, as tentativas de autocastra-
ção, que não são raras. Ou as paródias de gravidez, ingenuamente
encontradas com maior freqüência em jovens do sexo masculino.
Em todos estes casos fica evidente que existe uma fantasia de
retorno muito forte: além do discurso sobre a diferenciação dos
sexos, há uma unidade entrepercebida — mas que tende a tornar-se
mítica, por ser irrealizável — em relação à qual, já que o imaginá­
rio andrógino deixa de ser beatificamente operativo, a diferenciação
marcada e manifesta dos órgãos genitais e dos caracteres sexuais
secundários, transforma-se em mais um obstáculo^ que tconvém anu­
lar ou transformar. À violência da ruptura, tende então a se opor
a violência contra si mesmo, cujo equivalenté^psíquico é a melan­
colia — causada pela fatalidade insuportável. Somente conseguem
escapar artificialmente a esta melancolia aqueles que passam por
toda a escala das formas de homossexualidade, adotando a "paquera”
contínua (em francês, "paquera” = drague, o que lingüisticamente
aproxima-se de "droga”), pois só a troca incessante de objetos
permite que o indivíduo não pare, desesperado de angústia, frente
à frustração dá incompletude (neste caso, sexual).
Aqui, a penetração de um homem por outro homem equivale, em
sua instantaneidade, àquele desejo monstruoso que tem o toxicômano
e que consiste, como já vimos, em fazer um filho com a própria
mãe, um filho que seria imortal e jamais nascido.
Mas, na verdade, o jogo homossexual é aqui insuficiente e impo­
tente, pois a ferida é mais profunda. É o que demonstra a inelutável
melancolia: tem-se medo de si mesmo, e da evidente virulência da
ruptura. Aquela que faz com que o "caminho da vida” pareça
ilusório. O Ego não pode (como nas neuroses ou nas psicoses) ser
libertado, já que esta libertação só pode dar-se fora dele, já que é
preciso criá-lo "na marra”, instalar uma espécie de "pace-maker”
140
psíquico que não se transforme também em nova fonte de catástro­
fes. Neste sentido, a tentação andrógina — no que ela tem de
constantemente reversível — ainda permite que se pague um preço
mínimo, apesar de seu aspecto social subversivo e dolorosamente
provocador, se comparada a inúmeros outros “pace-maker”. Excluin­
do-se a droga, é claro que tem a imensa vantagem de ser uma
substância inerte que preenche e faz mexer muita coisa, sem fazer
perguntas, e que não é, como o parceiro sexual, uma espécie de
espelho! Porém a droga, justamente, mesmo que torne possível a
fusão e a imissão, pode no máximo cimentar as brechas, nunca
será capaz de remontar até as origens da ruptura, enquanto a andro-
ginia aproxima-se ao máximo daquele tão falado desejo de reintegra­
ção-criação através do incesto monstruoso. Se a amalgama induzida
pela droga é adesivamente mais forte e mais calorosa e — pelo
menos de início — , menos problemática, ela no entanto não supre
o indivíduo em seu desejo de aproximar-se ao máximo, até a proxi­
midade quase total, daquilo de que foi separado, e que espera
reparar com essa aproximação. É preciso deixar bem claro que não
estamos nos referindo à tentativa de reparar o traumatismo inicial do
nascimento que, como em qualquer desejo incestuoso, é um desejo
de reabsorção em um continente protetor (é o que proporciona a
fase de "lua-de-mel” com a droga), e sim de uma tentativa-tentação,
na "cara ou coroa”, de coalescência com o duplo-ser-outro, sendo
o próprio indivíduo duplo-ser-outro para poder ser novamente Um.
Isto nos faz lembrar, por exemplo, a cena do parto, em público,
do homossexual do filme "A Pele”, e certas cenas de casamento
do filme "Saio”, de Pasolini. Certamente que há algumas semelhan­
ças com o desejo de ser mãe auto-engravidada, mas não há identi­
dade, pois até mesmo isto não seria ainda a completude, e, portanto,
não possibilitaria uma restauração plena. Uma tal restauração impli­
ca tanto na identidade da mãe quanto na do indivíduo — e não a
contradição da fusão, a qual seria apenas uma certeza magmaforme
anterior à ruptura. Certamente que há ainda a nostalgia da outra
Unidade, a original, e uma vem complicar a outra. Na extrema
confusão em que se encontra, e movido pela necessidade de preen­
cher a falta arcaica, o indivíduo pode então alimentar a ilusão de
encontrar em uma aquilo que ele procura na outra — ainda mais
que, na tentação incestuosa, é claramente a anulação da angústia
de morte que é postulada.
Assim, o investimento — tanto incestuoso quanto andrógino —
corresponde a um movimento visando a restabelecer uma ligação
141
(quão ambivalente!) com a mãe protetora e odiada, única capaz
de favorecer a reparação mas igualmente única a impedi-la, através
da repetição de situações frustrantes. Estas frustrações, no entanto,
são sempre suficientemente complexas para que o andrógino possa
ser visto ao mesmo tempo como uma conseqüência da agressividade
materna, e uma oportunidade de anular a rejeição da mãe através
da possibilidade “extraordinária” de se permitir um prazer que
desafie a regra do jogo ontogênico: sobretudo através da negação
de uma imagem única de si mesmo (conseqüentemente, fragmenta­
da), substituindo-a pela dupla imagem, com uma de suas faces sem­
pre disponível, enquanto a outra é sacrificada em favor da incom-
pletude da mutilação. Esta negação e esta disponibilidade geram
evidentemente um movimento que é próprio da atividade sexual
daquele indivíduo: a cada vez, apenas uma das duas imagens é
satisfeita, e não a outra. No interior do próprio prazer só há imper­
feição, e tudo está sempre por ser recomeçado, em busca do paraíso
perdido. A menos que, como Narciso, o indivíduo ame a si mesmo,
mas justamente no espelho da água, o que significa que ele se
expõe à repetição da ruptura e, conseqüentemente, só vai poder
encontrar saída na droga, ou então aceitar que se constitua um
ego-símbolo. . .
Em resumo, estamos no meio de uma verdadeira confusão, uma
espécie de contradança de identidades, desejos, papéis e sofrimentos
dos quais o indivíduo tenta livrar-se através da pressão lúdica, fa­
zendo imitações. Mas ele é sempre prisioneiro de uma incerteza
sem fim, tomando as aparências por coisas concretas e chocando-se
sempre mais à dura realidade de sua própria evolução monossexua-
da, biológica e anatômica, e à rigidez das normas sociais e cultu­
rais. A transgressão é tão impossível quanto imperativa. É um
apelo ao outro, e ao mesmo tempo torna a atenção deste outro
impossível. O discurso andrógino é inaudível, ainda que, na prá­
tica, ele seja um fato. Fato este que mergulha o indivíduo um
pouco mais na “anormalidade”. Sua obrigação pulsional de abolir
a distância que se criou dentro dele, afasta-o ao mesmo tempo de
qualquer estabilidade afetiva dual.
Com isto, sua intenção — apesar de tudo — torna-se ilusória,
pois o princípio de realidade não é a dualidade e sim a ruptura,
e assim o princípio de prazer perde muito de seu peso (ainda que a
ruptura seja em si geradora de riqueza e possibilite um “extraor­
dinário” investimento da realidade prazerosa!). Mas, à medida em
que vive e não se suicida, este indivíduo vê-se obrigado a inventar
142
sua dinâmica de vida e, sobretudo, de sua vida sexual. Esta obri­
gação é impulsiva e compulsiva ao mesmo tempo, pois a urgência
implica uma incapacidade de interiorizar o catálogo dos interditos
(já mencionamos este fato a propósito por exemplo, do excesso na
repetição, e da masturbação prolongada). Ela é acompanhada pela
multiplicação dos “raptos” afetivos e das atuações de aparência
quase sempre incoerente e “amorais ”: o indivíduo precisa cons­
tantemente autorizar-se uma satisfação ou uma punição apropriada
àquilo que ele percebe do próprio desejo. Seu desejo é antes de
mais nada enfrentar a falta, permanente e obsessivamente, e quanto
maior esta falta — lembremos que existem inúmeras situações
intermediárias que vão desde minúsculas rupturas até o vazio quase
total, maior será, e instantaneamente, o prazer unitário. Igualmente
maior será a “descida” em direção à falta. Neste quadro, a demanda
andrógina, torna-se quase mítica, é quase uma chave do paraíso,
e a repetição da necessidade andrógina transforma-se num modo de
vida que ultrapassa a ambivalência sexual da adolescência mesmo
que, às vezes, para poder existir, ela se cubra com álibi da prosti­
tuição. Ao adotar uma conduta andrógina, ao tomar emprestados
ao travestismo alguns de seu traços, o indivíduo está, mais uma
vez, tentando anular o impossível.
No indivíduo reconhecidamente toxicômano, observamos o mesmo
fenômeno de cumulação de experiências, sobretudo em suas experi­
mentações comparativas de todas as drogas, visando a anular ao
máximo aquela falha, que persiste até no melhor dos “flashes” e no
“planeta” mais intenso. Em última instância, podemos afirmar que
o procedimento andrógino transcende a sexualidade do indivíduo;
que é utilizado para atingir um “alhures” capaz de lhe dar aquilo
que ele não foi — e que crê ter sido — , e o faz esperar constante­
mente e com uma ingenuidade surpreendente que alguma coisa real­
mente extraordinária aconteça.
É o eterno contraste entre a importância que tem a alucinação
ilusória do imaginário, e a pobreza da realidade: este estado de per­
seguição permanente caracteriza o indivíduo, cuja meta final é “este
todo completo” do qual fala Jean Lébis, e que procura fluir de si
mesmo a fim de verificar a realidade da autarcia umcaria, mas ao
mesmo tempo cuja referência só pode ser sexual, o que já constitui
uma prova da sua limitação. É verdade que, a cada vez, ocorre a
anulação das tensões e esboçam-se soluções, porém apenas no clímax
e ná instantaneidade, com uma distância em relação ao tempo insu­
ficiente para que um verdadeiro reconhecimento possa inscrever-se
143
na memória (no duplo sentido: de gratidão — o que possibilitaria
uma relação afetiva durai — , e de identificação). E isto não é o
bastante para anular o sofrimento, que não está ligado a esta ou
àquela transformação existencial, e sim inscrito na infância do indi­
víduo, muito mais do que no a priori ontológico de toda condição
humana, cujo fundamento é plural e cuja cura não pode depender
exclusivamente de uma dinâmica sexual ou da satisfação do desejo.
Comparada a todas as indeterminações que tem em si, sua determi­
nação sexual lhe parece irrisória. Não passa de um ponto de refe­
rência contestável, no meio de outras referências no tempo e no
espaço que também se mostram caóticas, incoerentes e contraditó­
rias: a realidade do prazer, no final das contas, não desemboca ja­
mais no prazer da realidade. Poderíamos até pensar que isto é banal,
se o princípio de insuficiência — que é comum a todos os homens — ,
não fosse aqui uma vivência tão exacerbada e tão ampliada. Não há
ambivalência do desejo, e sim incerteza do desejo, como se a deter­
minação sexual fixa escondesse alguma armadilha, algo que devesse
ser pago mais tarde a um preço extorsivo, assim como tudo que o
indivíduo tem ou terá que pagar em sua vida. A começar pela ambi­
valência da mãe superprotetora e rejeitadora, à qual vem somar-se a
ausência de proteção paterna, que é seu corolário.
O desejo não é apenas revestido com um sinal positivo em direção
ao tropismo do prazer: ele é desejo de cura ou de reparação. É o
lugar do desejo, mais que do prazer, que se inscreve no nosso con­
texto problemático. A atmosfera daquilo que chamamos (por falta
de algo melhor) de desejo, e que se situa mais exatamente entre o
desejo e a necessidade, é curiosa e aproxima-se ao máximo do afeti­
vo sexual (ou, se preferirmos, do sexual afetivo). Como já dissemos,
o elemento que predomina é o frenesi da busca, cujo sentido só po­
demos captar comparando-o à premência da busca de identidade.
Isto explica porque as modificações no ritmo e na melodia desta
busca são tão sutis, surgindo à medida que se dão as revivescências
da ruptura, ou os encontros com espelhos (por exemplo, o “ser
amado”) que refletem apenas uma imagem fragmentada.
Do objeto da “paixão” exige-se sempre mais e mais, até que o
impossível provoque a rejeição e reabra as fissuras. Responsabiliza-se
então o determinismo sexual por este fato, e a um grau mais elevado,
a sexualidade como um todo. É fácil percebê-lo, por exemplo, no
alívio demonstrado pelo toxicômano quando afirma que com o “pó”,
tudo isto não tem mais o mínimo interesse, pois mesmo sendo hipe-
144
rativo sexualmente, o indivíduo ainda é aquele que não coincide
consigo mesmo, um “si mesmo” que ele apenas entrepercebeu.
Em última instância, o desejo sexual pode até ser maravilhosa­
mente satisfeito sem que com isso desapareça a insatisfação arcaica
fundamental. E como a fruição prazerosa é apenas uma aproxima­
ção, um esboço da instantaneidade na qual se situa a identidade
entrepercebida, e que, devido à duplicidade andrógina, temos um
esboço que é duplo e onde um faz duvidar do outro, a situação
reforça-se ainda mais, e não oferece nenhuma solução global: o
melhor tornou-se assim inimigo do bem e a falsa unidade é uma
nova mentira! pois se é verdade que na prática este simulacro não
passa de um “à falta de algo melhor” capaz de assegurar certo
apoio à vida do indivíduo, e um compromisso com a adaptação às
normas, não deixa de ser verdade que este compromisso é particu­
larmente instável em função das constantes reviravoltas da dinâmica
psíquica do indivíduo, que não permite o estabelecimento de nenhu­
ma organização estrutural com base sólida. O Ego ilusório andrógino
tem também como função a de reativar a cada instante esta instabi­
lidade já que, por suas próprias forças, o equilíbrio é impossível —
menos o equilíbrio psicopatológico grave —, e o indivíduo, (o que
o diferencia do psicótico) tem plena consciência disto.
Assim, mesmo sendo uma farsa, o Ego andrógino é, contraditoria­
mente, funcional: ao nível do ideal do Ego, ele oferece a possibili­
dade de uma saída para o narcisismo libidinal; ao nível do corpo,
ele se aproxima da realidade psíquica através da associação bissexua-
da; e ao nível das vivências dinâmicas, a busca que ele induz impede
que se desespere frente a ausência de uma identidade básica e que
se consolide em alguma posição psiquiátrica; o fato de não haver
repressão das pulsões incômodas, serve de antídoto contra a angústia
e os conflitos internos do Ego. O álibi megalomaníaco que uma tal
visão e uma tal prática autorizam, torna-se por sua vez um escudo
protetor, nem que seja apenas pela velocidade das atuações, face ao
confronto com a morte que as falhas do espelho implicam. A labili-
dade estrutural, que para qualquer outro constituiria um grave peri­
go, torna-se aqui uma possibilidade de vida e adaptação, mesmo
que o preço a pagar em sintomas seja tão exagerado quanto espeta­
cular. Preço este, aliás, que talvez seja mais facilmente suportável
para o próprio indivíduo do que para os que convivem com ele,
pois ele encontra aí sua melhor possibilidade de adequação, mesmo
que a angústia de não-ser a torne infinitamente dolorosa. Notemos
que mesmo que se trate “in fine” da angústia de morte, parece que
145
esta é relativamente confortante, indicando de alguma maneira a
finalidade de uma existência. Enquanto isto, e confrontando-se com
esta, existe aquela outra angústia proteiforme de finitude inacabada,
de interrogação sem trégua, contínua, do ser, que impede Eros e
Thanatos de cumprirem suas funções, dissociando-os mais do que em
qualquer normalidade ou patologia mental. De certa forma, se o
indivíduo atingisse a angústia de morte, ele se sentiria aliviado: é
isto o que sente muitas vezes ao multiplicar, antes da droga ou após
a “lua-de-mel”, suas tentativas de suicídio em um crescendo de mo­
dalidades e Nde repetição. Como se através desta verdadeira toxico-
mania da tentativa, pudesse ao mesmo tempo acalmar o Deus da
angústia e surgir bem no auge desta.
O indivíduo comporta-se como se fosse assim, mesmo sabendo e
reconhecendo, entre duas tentativas, que se trata de outro tipo de
sofrimento, que ele é incapaz de realmente definir ou identificar, e
que ele está substituindo um pelo outro quase como se isto fosse
um critério de normalidade. Neste sentido, a pulsão de morte situa-se
aqui no mesmo nível, no mesmo lugar que a pulsão sexual: ambas
são indispensáveis, mas insuficientes para que se possa definir e criar
a completude, face a uma pulsão de vida toda-poderosa porém frag­
mentada, a qual, em função mesmo desta fragmentação, é a um só
tempo fonte e motor de um dinamismo próprio, e dirige o jogo.
Neste esquema, a alucinação ilusória andrógina tem o mérito, e
traz o benefício de indicar um “passe” que permite ao menos a
restauração de um estado anterior que se aproxima ao máximo da
instantaneidade da ruptura.
A ilusão reside no fato de se fazer crer que este estado é idêntico
ao outro e que é possível, por uma praxe, regredir e anular qualquer
traumatismo. Esta ilusão é mantida pelo desejo, mas — é bom repe­
ti-lo — é um engodo, pois a “pequena morte” do orgasmo não anula
completamente a falta, ainda mais porque a duplicidade andrógina
e sua repetição sempre deixam vazio um lugar do outro e porque
todo trabalho de sublimação (possível, por exemplo, através de uma
paixão) é tornado complicado e incompleto por esta dualidade do
objeto do desejo e da própria biface do indivíduo.
A vivência fenomenológica da androginia aproxima-se ao máximo
da compensação da insatisfação, porém, por sua reviravolta, acaba
criando uma insatisfação mais radical ainda. Assim, ao contrário do
desejo hétero ou homossexual, que por definição é estranho à vonta­
de ou à inteligibilidade do indivíduo, o desejo andrógino é, ao me­
nos, parcialmente voluntário: dá-se em uma transgressão organizada,
146
como mais tarde vai sê-lo o gesto de se fazer amor a si mesmo inje­
tando na própria veia o produto da seringa. Ele é desejo do desejo,
capaz de pôr um termo à angústia.
Como e fosse possível pôr um termo ao interminável! Como se a
vontade pudesse vencer o impossível! Quando na verdade um tal
deslocamento impõe evidentemente uma construção ortopédica lenta
e íntima, e quando sabemos, por exemplo, que a androginia não é
dos dois sexos ao mesmo tempo (o que seria um benefício definitivo),
que ela não é nem um nem outro, e logo, é inominada ou monstruo­
sa (autística ou hermafrodita!), e que isto vai totalmente de encontro
à finalidade que se propõe! O confronto com um objeto-outro duplo
nunca cria maior prazer fusionai e totalitário do que o confronto
com um só, e, conseqüentemente, a prática da androginia não pode
evitar a provação da falta e nem proporcionar a construção de uma
unidade. Cada satisfação pontual é conotada por uma insatisfação
tão pontual quanto, pois carrega em si seu próprio negativo.
É no .interior desta dialética do prazer e da falta, ou melhor neste
concubinato, que a prática do indivíduo cria uma sucessão de equilí­
brios relativamente satisfatórios e de depressões impressionantes.
Pois a prática andrógina, ao contrário da droga, não é um prazer
solitário. O bi-outro devolve ao indivíduo uma multiplicidade de exi­
gências e de imagens no espelho, que sempre vêm reavivar sua eterna
ferida. O desejo de ser desejado por todo outro, muito rapidamente
deixa aflorar a angústia do indivíduo: ele é incapaz de investir-se
totalmente numa tal demanda, pois esta pode amputá-lo dinamica­
mente de uma metade de si mesmo. O indivíduo está acostumado
demais — ainda que na própria família — com tal procedimento,
para não desconfiar do ódio e da violência que é capaz de gerar nele
mesmo. A revivescência da insegurança e da angústia se paga, aqui
também, pela depressão. Ou então pela fuga para a frente em uma
excitação aparentemente maníaca (já explicamos, em a “Infância do
toxicômano”, o aspecto necessariamente parcelado das manifestações
psiquiátricas do indivíduo). A praxe é o que, neste período da histó­
ria do indivíduo, ao mesmo tempo satisfaz melhor suas exigências e
permite desviar sua utopia de identidade. Por isso, ela será manti­
da. Mas é também o elemento que reforça sua angústia constitutiva,
qualquer que seja sua maneira de construir psiquicamente a alucina­
ção ilusória andrógina que deseja: pois a falta arcaica não se esgota,
e o objeto do desejo pode por sua vez tornar-se canibal e caverníco-
la, a exemplo do que é o sistema familiar para o Idiota da Família!
147
Esta delegação a uma prática da finalidade de assumir a totalida­
de de seu “ser”, por mais frustrante que seja, torna-se um modo
de ser-no-mundo que rouba um pouco dos direitos do imaginário.
Este último só é autorizado a funcionar no interior dos estreitos
limites compatíveis com as atuações sucessivas e a alucinação ilusó­
ria. Os espaços de atuação do imaginário não podem se ampliar ou
tornar-se partes constitutivas de um falso Ego: toda vida afetivo-
imaginária é submetida à rude prova pela sucessão dos eventos, os
quais só deixam de pé fragmentos megalomaníacos ou melancólicos
da memória do indivíduo. O aspecto narcísico do traumatismo inicial
é transposto para esta perseguição ao “tudo, já, agora para mim”,
que se transforma no motor da vida. É certo que não pode deixar
de ocorrer um esgotamento funcional, em tal prática pseudo-adapta-
tiva, incapaz de atingir sua meta. Mas, à medida em que perduram
as excitações corporais, um certo automatismo vai se instalar na re­
petição, a qual vai mostrar-se um pouco desiludida, pois a finalidade
sexual, mesmo quando atingida (o que, evidentemente, não é de
regra), não garante que o indivíduo vá obter a “íntima convicção”
quanto à sua identidade. De fato, a prática a qual nos referimos
não resolve esta questão pela fantasia da identificação com o outro,
como ocorre em qualquer relação amorosa, e nem permite que a
fantasia de incorporação do outro dure um tempo suficiente. Não
pode haver jamais reintegração de si unicamente através desta prá­
tica. E isto o indivíduo vai aprender mais tarde às próprias custas,
quando vai tornar-se toxicômano e lidar com a droga.
Assim, o aspecto trágico da ruptura sempre intervém e interfere
em tudo aquilo que poderia constituir uma aproximação mais íntima
da unidade. A tal ponto que o indivíduo pode chegar a elaborar,
como já vimos, uma prática de morte, surgindo então a morte como
única solução para o princípio de identidade, impossível de ser
atingido até mesmo pela imitação andrógina.
O desejo de morte do indivíduo origina-se na mesma ambigüidade
que o mito andrógino: recriar a unidade e/ou anular o sofrimento
causado pela ruptura. Porém, ao contrário do que ocorre com o
homem comum, este desejo de morte corresponde a uma condenação
radical da vida, ele desacredita até o erotismo e a sexualidade, que
o indivíduo acaba de registrar como derrotas, e até mesmo a mais
radical das transgressões, incapaz de transcender o princípio de reali­
dade do indivíduo. A fusão com o bi-outro, tentada pelo indivíduo
até o extremo limite, desemboca finalmente sobre o impossível, e o
148
desejo de morte não é desejo de unidade final e sim, constatação
dolorosa de uma derrota insuportável, invivível.
Como diz, depois de Lucrécio, Michel Serres: “O inferno é aqui
mesmo” e “O inferno, somos nós.” Neste sentido, a bissexualidade
não tem mais razão de ser que a multissexualidade, que muitas ve­
zes é objeto da fantasia do toxicômano. De nada adianta recuar os
limites no campo do prazer (daí a primazia atribuída por aqueles
que a conhecem à heroína, pois o prazer que ela proporciona é mais
um “a-prazer”, arcaico e xaroposo!”), pois ao traumatismo ontoló­
gico de seu nascimento — compefisado, como para todo ser humano,
pelo desenvolvimento físico e psíquico e pela liberação das pulsões
através do desejo sexual — vem somar-se a catástrofe do estágio
do espelho quebrado, a ruptura cujos resultantes fragmentos arcaicos
são tão espalhados, que os modos de reparação são sempre ou muito
empobrecedores ou muito refinados.
A partir de então, o namoro com Thanatos pode tornar-se o motor
daquelas práticas de aspecto ao mesmo tempo lúcido e desmesurado
que já tivemos a oportunidade de ver, e podemos observar andrógi­
nos e toxicômanos oscilando entre uma e outra, em uma mistura
complexa de atuações suicidas, com um abandono patético e delicio­
so, provocações imorais e apelos de amor terríveis e bulímicos. Assi­
nalemos rapidamente a obsessão de não engordar que têm as toxicô­
manas, como se um aumento de peso simbolizasse alguma gravidez
monstruosa, ou fosse o sinal da aceitação da condição de vida ma­
terna. O jogo com a morte, a partir do momento em que a promessa
andrógina também desaparece, transforma-se paradoxalmente na últi­
ma tentativa que o indivíduo faz para viver, no último esforço para
ser Um e não renunciar. E, em caso de derrota ou de irresolução,
só pode ser substituído pelo “sofrimento do indivíduo desintoxicado.”
Este sofrimento entra em cena quando iodas as tentativas exaspe­
radas de acabar com o ser, quando todos os enganos, são colocados
fora do jogo na lenta tomada de consciência do indivíduo e na acei­
tação mais ou menos resignada, com maior ou menor número de
sobressaltos, da insuficiência do ser dentro e através da falta — o
que talvez possa abrir um caminho para uma cicatrização através da
palavra. A tentativa andrógina é um avatar desmentido da eterna
tentativa-tentação do homem, o qual quer situar-se como demiurgo
quando seu próprio destino é aprisionado e maltratado na finitude
de seu não-finito. Mas estaríamos enganados se víssemos aí — como
no caso da própria droga — apenas uma transformação negativa ou
artificial. Todo ser humano tem em si uma organização e um sim-
149
bolismo bissexuais. O sofrimento do futuro toxicômano talvez só
faça com que ele seja um predecessor, a entre-abrir como pioneiro
a exploração de saídas que já foram mais ou menos reprimidas no
inconsciente coletivo e em seu próprio desenvolvimento ontofilogê-
nico. E isto é válido tanto para a toxicomania quanto para a andro-
ginia: talvez este encontro e esta utilização exagerada do sofrimento,
bem como estas explorações, transformem nosso indivíduo neste ser
patológico e monstruoso, hoje inaceitável; mas é este ser, porém,
que força um pouco o destino ainda embrionário do homem, criando
uma brecha no “Todo” estrutural aparentemente tão rígido, lem­
brando assim aqueles grandes mitos da humanidade cuja existência,
através da experiência clínica, aprendemos não ser gratuita.
Assim, a androginia reprimida e proibida pelo acordo entre a lei
social e o determinismo sexual (enquanto na biologia sua existência
raramente é contestada) surge aqui no sofrimento; e, justamente por
emergir, ela vem provar que existe uma instância dinâmica latente
no ser humano. Esta instância tem muita importância no atual con­
tato social onde, por inúmeras razões, a virilidade do homem é ques­
tionada, onde não raramente ele é visto como incapaz de dar prazer
à mãe, esquema este que é muito freqüente nos antecedentes fami­
liares do futuro toxicômano. É verdade que o futuro toxicômano a
vive de maneira exacerbada, porém não devemos ignorar a presença,
em todo homem, desta aspiração “arcaica” inquieta que é bem mais
motora do que geralmente suspeitamos na libido humana. Quanto
às suas possibilidades de modificar os limites da condição humana,
trata-se mais de uma ilusão ou do efeito de um pó inerte que, inje­
tado na veia, modifica todo o psiquismo e a realidade do prazer?
O toxicômano tem exigências totalitárias que* o tornam insupor­
tável, mas, sem dar-lhe necessariamente razão, não podemos deixar
de nos interrogar a respeito de tudo que ele indica e revela-nos, e
que está acima e além do “patológico” ou do “normal”.

150
5
Sofrimento do Indivíduo Desintoxicado

“Desistir de ser tudo é tudo colocar em causa.


Qualquer um, sorrateiramente, querendo evitar
o sofrimento, confunde-se com a totalidade do
Universo, julga cada coisa como se o fosse, assim
como no fundo imagina que não morrerá jamais.
Estas ilusões nebulosas, nós as recebemos junto
com a vida como um narcótico. . .
Mas o que acontece conosco quando, desintoxi­
cados, aprendemos o que somos?”

Georges Bataille,
em “A experiência interior”

É o destino do toxicômano que é questionado neste livro: antes


e depois do duo indissolúvel com a droga, antes e depois da “lua-
de-mel” que o autoriza a ser tudo. Este destino ultrapassa a miserá­
vel condição do indivíduo e sua própria aventura, pois diz respeito
aos fundamentos e às incógnitas da condição humana. Constitui
um material para a clínica, mas vai além, e conduz à uma reflexão
metafilosófica e metapsicológica. Seu sofrimento faz com que o
indivíduo embarque em uma aventura que o transcende. E esta
aventura fracassa, por inúmeras razões, as quais tentamos analisar
no presente volume.
Eis agora então este mesmo indivíduo, tentando reintegrar a
mísera condição humana, querendo transformar-se num homem co­
mum, sem memória, reivindicando o direito à normalidade. Trágica
ilusão, pois o fechamento deste destino “prometéico” consiste em
uma nova aventura: a mais dramática de todas, a mais censurada.
Uma aventura que faz com que todos aqueles que — não só em
nome da lei e da ordem, mas também em nome da tristeza e da
piedade — tenham tido a oportunidade de acompanhar o toxicô­
mano até a chamada desintoxicação, tenham ficado extenuados e
151
boquiabertos. Porém, não nos devemos deixar enganar: tal acom­
panhamento teria sido impossível se a ilusão química, a dupla —
da ilegalidade e da terapêutica — , ainda fosse operacional.
É a aventura do sofrimento se confessando do indivíduo desin­
toxicado. Nesta hora, o toxicômano é o mais nu dos homens, sem
outra existência que não aquela que se arrasta, sem outro recurso
que não a renúncia. Seu corpo e seu psiquismo gritam por socorro
numa desesperança infinita, e gritam também sua fome insaciável,
sua memória implacável.
Alternadamente, a memória do prazer é substituída pela memória
da falta e vice-versa, e, assim, cria-se o tempo do desintoxicado.
Um tempo que se resume à espera: ferida, afligida, esfolada, onde
o indivíduo não encontra em lugar nenhum e com ninguém o seu
espaço. Onde deseja apenas o apaziguamento deste sofrimento, o
fim desta espera, que representa para ele o único Nirvana possível.
Mas, além disto, existe também o terrível sentimento de ser ele o
culpado, e de que seu erro é a falta — e é neste ponto que seu
destino parece ser definitivamente irredutível ao do homem comum,
pelo menos enquanto o indivíduo sente que é dominado por aquela
sua profunda divisão interna ou tem a íntima convicção de que,
faça ele o que fizer, esta divisão permanecerá para sempre, ine­
lutável.
Na verdade, é o vazio do seu status social que faz com que
ele se transforme, quando seu psiquismo o designa como isolado,
estrangeiro àquilo que não é ele mesmo e que é apenas caos, lágri­
mas, dores, e arrependimento, pois, mais do que nunca, a partir
da desintoxicação, sua identidade foge e escapa-lhe, despedaçada
entre um vazio mais presente do que nunca, a memória do prazer
e da fusão, e o saber ansioso de que é impossível ir além.
A noite é o sinal e a marca deste sofrimento. É precedida pelo
anoitecer, um tempo pesado e morto constituído por aquelas horas
em que o indivíduo costumava iniciar o ritual compulsivo da pro­
cura da droga, e a relação sadomasoquista com o traficante, o
“dealer”. A noite do toxicômano desintoxicado é um pesadelo acor­
dado, um combate em vigília. Até mesmo quando, embrutecido
pelos calmantes, temos a ilusão de que está dormindo. Ele não sabe
mais o nome das coisas: cura, normalidade, sofrimento, desejo. . .
Mas estas coisas sem nome enfrentam os monstros da sua incom-
pletude, os terrores do despedaçamento, o preço a pagar pelo prazer.
Tudo o que aprendera na infância e que fora ocultado atrás da
máscara do duo indissolúvel “toxicômano-droga”, ressurge maciça­
152
mente, em bloco, com circunstâncias agravantes: o tempo vivido
continuou a passar, e o desenvolvimento biológico manteve seu
curso normal, com suas modificações patológicas. É a hora e o
lugar onde todos os mecanismos pseudo-adaptativos se desregulam,
e passam a ocupar todos os espaços, onde o discurso do indivíduo
torna-se patético, pois profere ao mesmo tempo um desejo de
normalidade e a impossibilidade desta.
Precisamos ter em mente que esta nova posição é tão específica
quanto a do toxicômano. Entre o estatuto do toxicômano e o do
desintoxicado há mais do que apenas uma fronteira: há criação de
uma nova especificidade. O indivíduo forma com seu sofrimento
um novo duo, tão indissolúvel quanto o precedente. A própria
percepção do seu estatuto, do seu passado e do seu futuro, é grave­
mente e constantemente afetada por esta'situação, sem que, vista de
fora, esta percepção possa ser hoje conceituada corretamente, não
somente por alguém que não seja toxicômano, mas também por
alguém que não tenha elaborado de forma suficiente os dados que
tentamos isolar, sobretudo aquelas noções de atmosfera, calor, velo­
cidade dos fenômenos psíquicos, intensidade das vivências.
Não se trata aqui apenas de uma experiência subjetiva, ou de
uma aproximação fenomenológica sutil. Trata-se de conceitualizar,
com a ajuda de instrumentos teóricos diferentes dos utilizados pela
clínica atual, uma série de interações complexas, destorcidas e con­
traditórias, sem referências lógicas e lineares verdadeiras (notada-
mente de causalidade), nas quais intervém em proporções que são
‘impossíveis de serem definidas, o voluntarismo, o imaginário, a emo­
ção, o luto, a memória, bem como inúmeras transformações neurogê-
nicas cuja natureza estamos começando a decifrar com a descoberta
dos receptores específicos e não-específicos das endorfinas.
Tudo se passa como se o indivíduo desintoxicado fosse obrigado
a redistribuir suas informações em um clima de guerra civil interior,
de grande reviravolta, onde a nova obediência às três dimensões
da lei — imaginária, simbólica e real — se parecesse mais com
uma tentativa de explicação por auto-sugestão ou com uma espécie
de autocrítica stalinista, do que com uma revelação íntima e uma
adesão afetiva. O indivíduo passa todo o tempo tentando descobrir
o sentido oculto desta escolha que lhe é apresentada como sendo a
única possível e razoável, e pela qual ele está pagando um preço
exorbitante em sofrimento. Sua busca titubeante e espantada engloba
sua finalidade de vida e seu destino. A presença contínua da dor
e do sofrimento e o desvendamento (até então escondido pela droga)
153
do que sofreu até então conduzem-no a aceitações masoquistas e
alienantes. Isto explica o sucesso fácil dos gurus, que vendem rela­
ções — de dependência para com eles mesmos — , em troca da
dependência para com a droga. Qualquer discurso ou qualquer
silêncio terapêuticos parecem assépticos, pasteurizados, incapazes
de atingir o indizível — indizível este que é enorme, vivenciado
como vergonhoso e em relação ao qual o indivíduo nutre um senti­
mento de culpa constante.
Assim, na relação do toxicômano com qualquer outra pessoa,
existe uma palavra e um afeto que são proibidos. Toda relação
torna-se, então, repleta de artifícios, pois entre os vários tipos de
sofrimento, este é o único proibido por uma conotação moralista.
Somente a atuação “suicida” ou de “recaída” pode sobreviver a
uma comunicação interrompida, pode ser o sinal-sintoma da perse­
guição da qual o indivíduo é vítima. Não podemos curar um toxi­
cômano se não enfrentarmos este obstáculo incontornável, se tentar­
mos trapacear com ele. É preciso aceitar esta redescida ao inferno
e aproveitá-la em alguma atividade legisladora, com o consenti­
mento de ambas as partes. Mas, antes disso, é preciso que o terapeuta
tenha vontade de abandonar sua onipotência terapêutica, e aceite
mostrar-se tão nu quanto o indivíduo face a este sofrimento. É o
único caminho para que se possa elaborar uma lei que significará
renúncia de ambas as partes. No caso do terapeuta, este deverá
renunciar ao seu desejo megalomaníaco de cura e de normalidade
em relação ao paciente, ao seu desejo de conferir racionalidade
transparente a um processo que de alguma maneira faz parte de
uma ascese renunciadora, que deixa “em algum lugar” um fundo
glauco, sem transparência nenhuma. Aceitando assim a coexistência
do sentido e da insensatez, do estável e do instável, do espelho e de
sua ruptura. £
Sem nenhuma artimanha, pois as forças que lutam para destruir
tais compromissos são imensas, e geralmente encontram no indivíduo
e no terapeuta — mas também, em qualquer outro lugar — inú­
meras cumplicidades. O conceito de normalidade, de similitude a
outrém, é o principal obstáculo, o qual, insensivelmente, penetra
em toda parte, remetendo o indivíduo a seu isolamento, pois este
encontra-se dividido entre a consciência de uma realidade externa
tumultuada e exigente, e uma realidade interna também tumultuada,
e mais dilacerante ainda, e porque, no tempo melancólico em que
vive, a consciência da morte lhe parece ser a única coisa capaz de
libertá-lo, sendo a desintoxicação vivida como uma agonia.
154
Face a este estado de coisas todos os meios empregados são insu­
ficientes ou esgotam-se, e o terapeuta não tem a coragem de con­
fessar que é tão desarmado quanto o paciente no que concerne o
conhecimento do desconhecido.
A tentação é grande, para ambos, de substituir isto pelo único
equivalente capaz ainda de manter acesos os sentidos: o sadomaso-
quismo, a obrigação da dor, que vai se transformar em caricatura
do prazer. Então, a noite já não é aquela horrível ferida do pensa­
mento, e sim o merecido repouso do escravo, e o corpo, que tinha
se transformado em espírito demoníaco, não procura mais as repre­
sentações nem do bem e nem do mal, bastando-lhe ser apaziguado
pelas exigências do senhor, e dentro destas. O olho torna-se inútil
para a visão, já que se vê por ele. Finalmente, já não há mais vazio,
pois há nova dependência, dependência esta que é mais ativa ainda
do que com a droga.
Uma coisa é clara: o indivíduo desintoxicado sofre de falta de
dependência. Este homem que não depende mais de nada teme a
causa desta ausência! Exatamente ao contrário da exigência de
qualquer terapeuta, que quer que seja pessoa, ele, face ao vazio e
ao despedaçamento, só pode querer-se objeto.
É um trágico engano, e no entanto é o que é mais explorado por
charlatães e donos de “centros” para toxicômanos! Mas é justa­
mente esta fragilidade que é preciosa e apaixonante, porque autên­
tica. E é sobre esta autenticidade que pode e deve construir-se uma
lei. O espaço da terapia é assim deslocado: não se trata de desfazer
os nós do indizível, trata-se de penetrar no domínio da “opinião”
— domínio até então considerado não-científico pela maioria dos
profissionais. Opinião, na medida em que, como diz Michel-Pierre
Edmond, "esta representa o que no sentido escapa ao sentido”, e
onde vai ser preciso trabalhar sobre aquilo que escapa inelutavel-
mente à razão e ao método, e que, no entanto, é ao mesmo tempo
mediador e limite, pertence ao mundo e leva em conta a Ordem e
a desordem do Mundo. Opinião que vai estar ligada ao imaginário
sem confundir-se com este, pois é emitida em outro lugar que não
o sistema familiar gerador da ruptura e da incorporação do desejo
da mãe no corpo do indivíduo (que, então, era fragmentado). A
opinião sobre a qual o terapeuta trabalha está aqui e alhures, dentro
do sistema e fora de qualquer sistema, pode até estar em desequi­
líbrio, porém "soa bem”. Ela tem a ver com a lei porque precisa
conter a íntima convicção do duo paciente-terapeuta. É por isso que
só esta opinião é capaz de gerar o compromisso quase sempre
155
indispensável, mesmo que se trate apenas de uma situação instável
e transitória, com a perversidade que é, em dado momento de sua
existência, o único modo de ser no mundo acessível ao toxicômano.
Em relação a esta finalidade, para a qual o processo é encaminha­
do a passos extremamente lentos, o modo pelo qual o indivíduo de­
sintoxicado expressa seu sofrimento surpreende, provoca, irrita: tudo
remete ao estágio do excesso — que já mencionamos no capítulo
sobre a “Infância do toxicômano” — , a um discurso louco, perverti­
do, a uma prática do cotidiano que desafia a melhor boa vontade,
sem se possa perceber claramente seus propósitos (tão espalhados
quanto os pedaços do espelho) e onde só a escuta e o olhar atentos
do terapeuta são capazes de descobrir referências matricidas, patri­
cidas, fratricidas ou incestuosas, que levam o indivíduo ao desespero,
aterrorizando-o com a inexorabilidade do seu destino.
Mas não poderia o sofrimento ser um caso de figura, como aquele
descrito por Wittgenstein: “Um cão poderia aprender a correr para
N quando fosse feito o chamado “N ”, e para M quando o chamado
fosse “M”, mas teria ele então condição de saber como se chamam
estas pessoas?” Isto é, tanto quanto a revificação dos destroços e das
feridas de sua própria ontogênese, ocorre um processo de desinden-
tificação absurdo, parcelado, em “flash-back”, que lhe é próprio e
que ele não consegue entender, gerador de imenso ódio contra si
mesmo, fazendo do indivíduo um homem que não agüenta mais ser
(o que explica as três saídas mais freqüentes neste estágio: suicídio,
decadência e dependência masoquista), e que não encontra mais ne­
nhum descanso. Sua luta entre o desejo consciente de fazer o que
deve ser feito, e o desejo inconsciente de deixar-se levar por todos
os fantasmas de um imaginário que ele soube tão bem manipular —
ontem, numa dimensão prazerosa, e hoje, na dimensão da dor — ,
não tem trégua. Somente a opinião pode dirigir-se a este duplo
aspecto, o consciente e o inconsciente, sem recuar perante tantas
contradições e significados aparentes.
Obviamente, não se trata de injetar opinião dentro de opinião:
haveria então, na melhor das hipóteses, apenas uma adesão momen­
tânea a idéias, como se um saber pudesse pôr fim a um sofrimento!
Trata-se mais, em um determinado momento da história do indiví­
duo, de abrir um buraco nas portas fechadas pela incomunicabili-
dade dos verdadeiros motivos do sofrimento (censurados ao mesmo
tempo pelo indivíduo e por toda organização terapêutica), para que
possam irromper dentro e através de uma relação pervertida (e neste
ponto talvez devessemos falar em psicoterapia perversa), por um la-
156
do, o ser do sendo, e por outro, o significante do significado; e para
que uma relação terapêutica muito mais “a distância” possa se impor
aos poucos.
A arte do terapeuta, que na verdade não pode ser comunicada por
escrito, consiste de alguma maneira em fornecer uma imunização
contra a intensidade do próprio afeto doloroso, intensidade esta que
engendra o medo quase animal sentido pelo indivíduo: medo de tudo
e de todos, face a tudo e a todos, e que o incita à recaída ou ao
suicídio; medo que faz com que procure dar medo aos outros, para
poder livrar-se do seu próprio; medo que se situa no presente, po­
rém com uma enorme participação retroativa que o indivíduo chega
a entreperceber sem conseguir identificá-la, cuja origem é a ruptura
e cujo sentido de origem, e conseqüentemente cuja solução, ele pres­
sente poder lhe escapar para sempre, justamente no momento em
que dar sentido à própria existência, constitui para ele uma necessi­
dade vital.
Para poder solucionar os problemas assim colocados no campo da
realidade, do simbólico e no imaginário, e dominar o medo (ou a
intensidade deste) e logo, para renunciar às relações de dependência
(únicas barreiras eficazes contra o medo e a dor), o indivíduo preci­
sa dividir, e não apenas compreender, e dividir sobretudo seus fan­
tasmas. Mais uma vez, isto foi captado por certos "donos” de cen­
tros terapêuticos, os quais fingem dividir com os pacientes seus
fantasmas só para explorá-los mais, quando na realidade trata-se
simplesmente de um estágio no qual se pode, repartindo-o com al­
guém, transformar o conteúdo fantasmático aterrorizante em um con­
teúdo simbólico mais aceitável para a realidade, e assim permitir
que o indivíduo enfrente as pressões insuportáveis exercidas pelo seu
inconsciente. Em lugar da dependência ao sofrimento, este repartir
baseado em um meio-consentimento abre novas dimensões para o
imaginário em ação do toxicômano, mesmo que se trate tão somente
da descoberta da possibilidade de seduzir o terapeuta. A forma e a
estrutura da relação lhe oferecem não a supressão da dependência,
mas sua semi-supressão progressiva.
O maior obstáculo para a execução de um tal programa continua
sendo a insaciabilidade do indivíduo, sua exacerbada intolerância em
relação à passagem do tempo. O indivíduo pode estar ciente de
todos os limites e, no entanto, nada é capaz de tranqüilizá-lo. Ele
não sabe esperar, pois ignora essencialmente a sua natureza íntima,
o que lhe pertence de fato, o que ele mesmo é, e não possui a este
respeito nenhuma experiência própria capaz de incitá-lo a ter pa-
157
ciência. De fato, o sofrimento não pode ser inteiramente anulado
enquanto subsistir este verdadeiro terceiro excluído, ou pelo menos
enquanto este for negado ou o indivíduo persistir fingindo ser pos­
sível reconstituí-lo tal qual existia originalmente. Só é possível, e
legítimo, oferecer um outro “espelho”. Gerar uma substituição de
espelhos, para que se constitua uma espécie de “máscara” aceitável,
vivível — e num primeiro momento, através da perversidade da re­
lação, trata-se de introduzir um terceiro que substitua a droga, ou
seja, que ocupe o lugar do terceiro excluído. Este programa, porém,
tem um potencial intrínseco de elementos nocivos, os quais, no jogo
ambíguo destes pseudodesvendamentos, destes sucedâneos, vão reati­
var, em dolorosos instantes de lucidez, um sofrimento total. E é
preciso ter em mente que este jogo perigoso, se não for bem condu­
zido, pode levar ao suicídio. Contudo, não existe outra escolha fren­
te a uma personalidade tão gravemente prejudicada, e que, obrigada /
a lidar com um fantástico caos interior, é vista por todo observador
como capaz de reagir em um único domínio: o do imprevisível, dei­
xando todo o espaço à casualidade dos eventos (sociais ou psíquicos).
Este espaço, este acaso do evento, que o indivíduo manipulou com
a droga na fase de “lua-de-mel”, bem como no período em que
reinava a falta, deixa de ser tão manipulável — ao término daquilo
que chamamos de desintoxicação, sucede o estágio das interrogações
limitadas e limitadpras que vêm aumentar ainda mais a perplexida­
de. A questão, por exemplo, do: “Vou ou não recomeçar?” ou “Se
eu recomeçar, o que fiz e tudo por que passei terá servido para
alguma coisa?”. A angústia está presente na incerteza perante a
necessidade e o desejo, tal como a designou Patrick Petit. O que
muda no indivíduo desintoxicado é o lugar do voluntarismo psíquico,
o qual, de impulsivo, passa a ser dominantemente compulsivo, com
angústia antes da atuação, seguida por um alívio, que é finalmente
substituído por um sentimento de culpa.
A cena psíquica, qualquer que seja a manipulação, é invadida
pela culpa. O indivíduo perde a “ingenuidade” do período bom ou
mau no qual vivia com a droga, antes de qualquer tentativa de
desintoxicação. Ele entra numa fase de não-amor consigo mesmo,
mas um não-amor que pouco tem a ver com aquele que sentia antes
de seu encontro com a droga. Perdeu a ilusão de encontrar uma so­
lução, e o sentimento de seu ser desconhecido acentua-se. Ele agora
sabe que o acaso do evento só pode se situar dentro de tais limites,
e passa a acolher com um ceticismo doloroso e pessimista as produ­
ções que seu imaginário ainda tenta enviar-lhe como substitutos.
158
Produções estas que nunca mais poderão preencher a distância exis­
tente entre o que se faz e se diz, e o que se sente. Em uma única
palavra, ele sabe que não vai se “curar”, como as pessoas se “curam”
de uma doença qualquer. Mais uma vez, a posição que lhe é designa­
da pelos outros não lhe convém, não coincide com o que sente a
respeito de si mesmo: doente ele está — só seu sofrimento já é
prova disto — , mas ele não é apenas isso, pois está voltando de uma
verdadeira viagem, cuja realidade e cujo valor são contestados, e
cujo calor, cujo prazer são totalmente ignorados.
No seu caso particular, tudo se passa como se todos lhe negassem
a mínima competência, não sobre seu destino, mas sim sobre sua
posição e sua experiência. Como se ele não possuísse nenhuma legi­
timidade. Ele só tem direito à censura e ao parecer, o que reforça
seu sofrimento, e na medida em que se quer evitar a rejeição total,
vê-se obrigado a adotar certa duplicidade. Duplicidade esta, porém,
que é também em relação a ele mesmo, pois se não mentisse, sua
situação seria insuportável. Ele mente para si mesmo e tem plena
consciência disto, o que só faz aumentar a incoerência desta situa­
ção e conseqüentemente seu sofrimento e seu não-amor próprio: daí
sua permanente tendência para desfiar um rosário de lembranças de
ex-combatente, falando sem cessar da droga, em uma evocação que
vai do exorcismo até o ritual, em interrogações dolorosas, tentando
lembrar-se se foi mesmo verdade ou se tudo não passou de miragem
do imaginário, sem conseguir encontrar jamais alguma conclusão
feliz, recomeçando infinitas vezes sua busca ilusória do paraíso per­
dido. O agir do toxicômano tende então a metamorfosear a realidade
má em uma “realidade imaginária” capaz de tudo apagar. Ou então,
numa espécie de jogo de cara ou coroa, ele tende a radicalizar seu
sofrimento, pois agora já tem a prova objetiva de que não vai poder
recomeçar, não vai poder voltar ao “tudo, já, agora”. Afora estas
tentativas de anulação-verificação, tudo lhe é incompreensível não
somente a nível racional, mas, também, o que lhe é mais penoso
ainda, no nível da intuição. Ele vive sob um controle em “feedback”,
como em um mau filme de ficção onde o real torna-se (mal) imagi­
nário e vice-versa. Até mesmo seu modo diferente de pensar, a visão
cinética da vida psíquica que tinha com a droga, deixaram de ser
operativos — a memória do prazer, englobando tudo, é substituída,
por concorrência, pela memória do estado de sofrimento, do não-ser,
da lentidão com que sobrevém qualquer solução aceitável. Em lugar
da saciedade (por mínima que fosse) instala-se — e não ilusoria­
mente — toda uma carência, alimentada tanto pela carência primi­
159
tiva quanto pelo armazenamento global de todos os estados de falta
física e psicológica pelos quais passou e ainda passa.
Assim como seu encontro com a droga o transformou em uma
espécie de mutante, ele agora está dando à luz a um outro tipo de
mutação, acessível apenas através da sua experiência, e no interior
desta. Somente ele está em posição de saber, copi todas as reservas
que mencionamos acima. E ele sabe de algo que a opinião geral
ignora: aliás, esta é sua única saída e sua única chance de vida —
a aceitação destas duas mutações, e a organização de uma vida psí­
quica e social em torno delas. Mas esta emergência de um novo
saber psíquico, verdadeiro parto efetuado em meio ao sofrimento,
não pode ser verificada nem controlada com ninguém, pois para isso
seria necessário abandonar a duplicidade que o torna capaz de sobre­
viver. Daí o papel insubstituível de um terapeuta cuja visão não
esteja obscurecida por preconceitos normativos e/ou científicos. Com
ele, esta pressão auto-imposta pode, em parte, através da relação e
dentro desta, ao menos ser colocada entre parênteses, sem que se
corra o risco de uma sanção (mesmo terapêutica). O terapeuta pre­
cisa perceber que ele não pode, com seu saber e sua técnica, com­
pensar aquilo que tende a considerar como sendo uma deficiência
grave. Ao contrário, ele precisa aceitar que a cinética de uma relação
meio-cúmplice e meio-perversa possa fazer com que o indivíduo
construa de alguma forma um novo edifício psíquico mais ou menos
sólido. É preciso ter a coragem de dizê-lo: existe algo de mágico, de
charlatanesco, em todo caso, de não-científico em uma relação deste
tipo. Mágica esta que tenta substituir aquela criada pela droga, e
onde o imaginário da relação, apesar de empobrecedor, ocupa em
parte o espaço que pertencia ao sonho acordado induzido pela droga.
Mágica que permite ao mesmo tempo que ele se afaste da realidade
e estreite o contato com esta, que comece a aprender a ter um certo
domínio sobre o real e, logo, uma certa segurança, por ele mesmo e
por aquilo que ele é, considerando a divisão caótica de sua memória
e de sua cinética psíquica.
As ordens impostas pela relação com um terapeuta são desta forma
atenuadas e tornadas mais aceitáveis através da atmosfera e da me­
lodia deste tipo de relação. Estas possibilitam que os maus aspectos
sejam sublimados e, conseqüentemente, que a crueldade da relação
com a realidade seja pouco a pouco aceita — a crueldade do ódio
sentido pelo indivíduo para com ele mesmo e para com os outros.
Estas pequenas vitórias sucessivas permitem-lhe ter esperança de um
dia sair vitorioso deste combate. . . e a esperança faz viver! Isto em
160
si não passaria de escroqueria se — sem que os principais interessa­
dos (paciente e terapeuta) percebam — não ocorresse um fenômeno
mais ou menos insidioso e acelerado de inclusão da realidade e de
exclusão do mito “droga” no psiquismo do indivíduo. Penetramos
efetivamente em uma nova etapa do processo: de caótico e desespe­
rado, o sofrimento do indivíduo desintoxicado de alguma maneira
está se institucionalizando. Ele participa da nova situação do toxi­
cômano, porém não mais como um todo exclusivo. Assim como
ocorre com a droga, também o sofrimento perde sua exclusividade,
sua onipotência. A força deste processo ultrapassa qualquer alterna­
tiva. É inelutável tão logo o indivíduo renuncie a própria morte.
Mas, em razão mesmo do prazer que o indivíduo retira do sofrimen­
to (único universo capaz de fazê-lo existir um pouco), ele, em um
movimento de recuo, vai utilizar toda a duplicidade para consigo
mesmo na tentativa de impedir e de anular o duplo mecanismo de
inclusão e de exclusão que o ameaça. Outros conflitos nascem no
psiquismo, incoercíveis e causadores de atuações sem fim, que os
tornam mais insuperáveis ainda. Conflitos que incluem e excluem
em um perigoso desarranjo os diversos componentes do jogo psíqui­
co: memória do prazer e da morte, junção das atuações e dos perío­
dos de hibernação, prazer da dor e dor do desejo, “divinização” da
necessidade e quebra da necessidade de repetição, interrogação a res­
peito da evanescência da fumaça e da solidez do cristal. . . Conflitos
que agora medem-se segundo as medidas da relação terapêutica, con­
trapeso real porém transcendido na indivisão do todo psíquico que
hesita entre um imaginário onipotente e desbaratado, e um simbólico
insatisfeito. O indivíduo pouco a pouco adquire o poder de construir
o seu mundo, que não é aquele, asséptico, de uma pretensa normali­
dade que renegaria todo seu passado e suas aquisições, e sim um
mundo que para ele deixou de ser suspeito.
Como tudo que diz respeito ao artesanato (e mesmo à arte), este
surgimento de uma existência possível, no sofrimento e levando em
conta a dor, implica um procedimento específico onde tudo está “na
maneira”. Maneira que deve seduzir e instruir, induzir à depen­
dência e incitar a se livrar da mesma.
É preciso encontrar termos que toquem o sofrimento, que o desnu­
dem, que lhe dêem o máximo de significado sem, no entanto, tirar-
lhe a parte mágica que permite que o indivíduo harmonize suas sen­
sações, seus sentimentos e percepções com o mundo externo. Uma
maneira que permita, sem interromper bruscamente o processo, não
ser submergido pela demanda bulímica do indivíduo, o qual pode
161
mostrar-se canibal em relação a seu terapeuta, visando a incorporá-
lo em lugar da droga. Uma maneira, enfim, que permita — sem
muitos prejuízos — que o indivíduo exteriorize até mesmo os aspec­
tos perversos dos seus processos internos, para que possa tentar, se
não dominá-los, pelo menos desviá-los do seu curso para que não des­
truam (sem negá-los) todo encaminhamento para uma nova posição.
Sem na verdade poder definir o porquê e o como do que está se
passando com ele, de que participam uma certa saciedade, um ex­
cesso de sofrimento e um consenso mais ou menos resignado à certa
“mediocridade”, o indivíduo, não podendo ser tudo nem na Divin­
dade e na falta, nem na consciência de si, prefere então uma inter­
pretação de sua identidade a uma destruição total pela loucura ou
pela morte.
Este desconhecimento “aceito” de si mesmo é uma redução admi­
tida pelo indivíduo na medida em que alivia um pouco seu sofrimento.
Nesta fase, o alívio ainda existe apenas por substituição: a mobili­
zação de toda a energia psíquica pelo processo terapêutico é obtida
pela exploração quase sistemática de todas as vias acessíveis ao en­
tendimento. Trata-se de uma guerra de movimento que nada tem a
ver com a lentidão temporal de uma cura analítica: é preciso desalo­
jar o obstáculo, contornar a resistência, seduzir, tranqüilizar, matra­
quear, fazer mal, dividir, rejeitar, zombar. Isto é, deixar o menor
espaço possível para a angústia e para a memória das atuações per­
versas, e inverter a relação do passado com o futuro. Trata-se tam­
bém de um jogo, com aquela dose de falta de responsabilidade que
o jogo implica — o que de alguma forma torna a angústia menos an­
gustiante —, jogo este que se transforma em desejo e vida, reintro-
duzindo o riso, ainda que tenso. Esta postura irônica também favo­
rece a transformação da angústia de não-ser em uma forma de vida.
Ocorre aqui um trabalho, como se diz do trabalho de parto, mesmo
que para o indivíduo, quer ele saiba, que não, não exista outro pro­
jeto a não ser o compromisso mencionado acima. Dificilmente esta
experiência pode ser descrita ou quantificada, e muito menos pre­
vista. Em seu contrário, ela pode reforçar o sofrimento do indivíduo,
o qual não compreende muito bem aonde está indo, tem dúvidas e
se deixa invadir pela revolta, adotando as vezes atitudes de aban­
dono, por não poder nutrir o sentimento de estar sendo enganado.
É possível introduzir elementos de moral social ou de ética de vida
neste tipo de trabalho, o qual seria então transformado em uma es­
pécie de projeto parcial aceitável para o indivíduo? Podemos adi­
vinhar as reticências que um terapeuta possa ter perante tamanha
162
intrusão, a qual pode ser apenas a intrusão sádica das próprias con­
tas que tem para acertar. Mas ao mesmo tempo, “obrigar” o indiví­
duo a se situar em relação a alguma moral pode ser útil enquanto
fantasma de emancipação perante o sofrimento, uma vez que não se
trata de substituir uma dependência por outro e nem de utilizar
nenhuma das técnicas de “reforçamento55 que os métodos comporta-
mentais costumam aplicar sem reflexão ética. Uma tal utilização, com
todas as reservas que impõe, pode fazer com que o indivíduo aban­
done um pouco mais o sofrimento, que deixaria de ser inocente e
passaria a ser vivido como “egoísta”, precisando, então, de um exu-
tório. Uma nova compensação de ordem simbólica lhe é oferecida
e todas as suas carências e imperfeições podem investir-se em um
imaginário alternativo àquele utilizado até então. É uma possibilida­
de que investe o “saber” de um poder sobre o somático e o psicoafe-
tivo um pouco artificial, mas que, ao mesmo tempo, como já foi dito,
remete a um não-saber todos os problemas da não-identidade e do
porquê da ruptura e, conseqüentemente, do sofrimento. Este sofri­
mento torna-se então tão intelectual quanto instintivo; à falta de
curar-se ou de tornar-se “acabado”, o indivíduo encontra nas armas
culturais do seu tempo (a psicanálise?) os meios para enfrentar um
combate que se lhe tornou possível. Não podendo ser Deus, não
podendo morrer, ele pode, em lugar de prazer, encontrar aí alguma
satisfação.
A um sofrimento selvagem e informulável substitui-se um sofri­
mento de alguma forma domesticado; à angústia revoltada de um
não-eu responde pouco a pouco um eu “culturalizado”, acessível
através da inteligência, o que possibilita a renúncia ou, ao menos,
certa renúncia a uma identidade fusionai e totalitária, àquele des­
conhecido entrepercebido no instante da ruptura do espelho e tão
procurado no excesso e através deste.
Nestas condições, nunca mais haverá buscar do extremo, e a in­
terioridade dominante é substituída por compromissos com a reali­
dade, em detrimento do imaginário e até mesmo do simbólico. O
sofrimento enfoca a inutilidade de todas as coisas, o próprio futuro
torna-se enfraquecido, no sentido de que dele não se espera muita
coisa, a não ser o não-retorno a um limiar de sofrimento insuportá­
vel. Para os que são estrangeiros a esta experiência, parece ser uma
vida pobre, uma vida mesquinha, mas na verdade o significado desta
insignificância constitui, apesar de tudo, uma vitória sobre a morte
e sobre a loucura, capaz de afastar a angústia e o desespero mais
resistentes. Podemos até ir mais longe e afirmar que, pela primeira
163
vez em sua vida, o indivíduo não é mais aquele eterno prisioneiro
que não dispõe de outra alternativa a não ser a de buscar-se e defi­
nir-se no interior do sistema que originalmente o feriu, e onde todas
as suas tentativas sempre desembocaram em um acúmulo de carên­
cias e uma falta ainda maior.
Uma vez que a magia fornecida pela droga transformara-se em
magia negra, em fonte de terrores e pesadelos indescritíveis, o afron­
tamento com a realidade, mesmo não sendo exaltante e não atingindo
jamais as alturas da “lua-de-mel” com a droga, traz, no entanto, uma
segurança insubstituível, pois reduz o medo e a angústia. E esta
noção de segurança torna-se um parâmetro indispensável para a vida
e o confronto do indivíduo. Mesmo sabendo (e admitindo) tratar-se
de uma “solução” inacabada e inacabável, e ser ele portador de uma
“defasagem” perpétua em relação aos outros, o indivíduo precisa
desta distância neutralizante em relação a seus problemas, e esta
necessidade é mais forte que todas as formas do desejo. Ao menos
no plano do imaginário, pois esta “desinvasão” do campo da cons­
ciência abre todo o espaço para o desejo sexual com, nesta área
também, uma redução na escolha hétero ou homossexual do objeto.
E isto ele não podia fazer enquanto, ultrapassando o desejo, a esco­
lha do objeto sexual continuasse sendo ditada pela busca da unidade
identificatória, por Narciso buscando-se em um espelho perdido.
Entretanto, este caminho tão árduo e que a tantos infelizes parece
tão invejável, deixa um rastro de amargura: depois de mil aventuras,
de mil mortes, tudo é nulo, e doravante resta apenas espaço para a
repetição da banalidade. Acabaram-se os clímax, os voos, as subidas
e descidas, os cantos divinatórios e as passagens para o outro lado
do espelho e da memória. O sofrimento está na renúncia, a aventura
frustra-se e dá razão aos psicopatologistas. Ser homem é algo estimá­
vel, ser anão torna-se uma mutilação.
Não há co-habitação possível entre o passado e o presente, e o
prazer contido na memória precisa ser evacuado para evitar e para
afastar qualquer tentação catastrófica. A amargura está presente em
cada medida de tempo, que é preciso reaprender a contar. Quando
ontem ainda, em um segundo, o indivíduo via-se transportado atra­
vés de espaços intersiderais, e em um século, era capaz de recons­
tituir um passado de recém-nascido! Não há monotonia feliz, qual­
quer que seja a necessidade inadiável. O drama reside na serenidade
obrigatória, na medida imposta pela qual o indivíduo é forçado a
passar, na ordem após o caos.
164
A amargura acompanha a ambivalência e a confusão. Agora são
novos contrários que coexistem dentro dele, mas continuam sendo
contrários, mesmo que, a título mais ou menos definitivo, o volun-
tarismo tenha traçado um caminho. Seria tolo acreditar um instante
sequer que a incrível mistura das contradições tivesse desaparecido
como em um passe de mágica. Simplesmente, o reforço ortopédico
do ego faz com que o indivíduo possa escolher e convença-se de
que o resto pertence a um passado que não volta mais. Mas a música
de fundo afetiva, o fundo harmônico continua e continuará sendo a
amargura e a ambivalência, e a importância do não-dito. Um não-
dito que de alguma forma lembra o não-dito dos deportados dos
campos de concentração nazistas: como se toda experiência fosse
incomunicável. É verdade que a nostalgia pela perda de um ego
que nunca existira verdadeiramente, que em sua relação com o
mundo externo só se manifestara através de um desafio permanente,
amoral e exacerbado, e do qual só se podia perceber um sofrimento
de conduta, é dificilmente compreensível.
Para qualquer outra pessoa, a perda deste ego parece constituir
uma aquisição positiva, a possibilidade para o indivíduo aproximar-
se dos outros seres humanos, que se tornam finalmente seus seme­
lhantes. Para o indivíduo, esta perda será sempre, o que quer que
faça, um drama que lhe é proibido objetivar. A ruptura não está
mais apenas entre ele e ele mesmo, ela agora está entre ele e os
outros. A amargura não está na falta, está na mentira por omissão
permanente, sem possibilidade de sublimação.
Jamais, na aventura humana, a obrigação da ruptura foi tão tota­
litária; até mesmo a adesão a um misticismo reconhecido qualquer,
provém de uma motivação íntima, de um acordo de si consigo mes­
mo, qualquer que seja a suspeita neopatológica com a qual podemos
considerá-la.
Sem nenhuma conclusão feliz assegurada, desejos e instintos pre­
cisam ser censurados impiedosamente, para que não ocorra nova­
mente nenhuma invasão de sofrimento e, portanto, de desintegração.
É preciso abrir espaço para a construção cultural de que já falamos,
para uma verdadeira aprendizagem de democracia psíquica e social,
cujo valor está justamente na dificuldade com que é adquirida. O
equilíbrio é obtido não na busca de um objeto, e sim na procura di­
nâmica, permanentemente instável, desta democracia psíquica, sem
artifícios nem trapaças para com seus aspectos negativos, suas sau­
dades dos paraísos perdidos. O movimento desta democracia, por
mais doloroso que possa ser às vezes, é, no entanto, um movimento,
165
ou seja, o oposto da morte. Ele traz — e isto não é nada negligen-
ciável — uma gratificação quanto ao ideal de Ego.
O movimento em questão possibilita que se integre, que se faça
uma triagem e, se preciso for, que se afastem as ambivalências nostál­
gicas que acabamos de mencionar. Não se trata de uma integração
impossível para uma personalidade unificada — esta não existe — ,
e sim de um compromisso flexível capaz de suprir qualquer novo
despedaçamento, e ao mesmo tempo de uma escolha voluntária. Na
verdade, esta escolha é facilitada pelo trabalho ortopédico efetuado
pela terapia, o qual despeja o medo e a dramatização no fluxo da
relação. Este movimento não é isento de contradições e de subter­
fúgios, porém, no sentido escolhido, ele consegue fazer com que os
outros movimentos psíquicos fiquem tão difusos quanto possível,
particularmente o universo pulsional em todo seu excesso, tal como
prevalecia anteriormente. Uma tal incompatibilidade desejada não
se constrói em segundos, e podemos avaliar a extensão do combate
empreendido, que é incessante, pois o diálogo interior (esquematica­
mente: entre o id, o ego e o superego) é durante longo tempo des­
torcido pelo interdito de um não-dito exteriorizado, quando precisa­
mente neste estágio, a aquisição de uma palavra verdadeira e inde­
pendente poderia ser extremamente útil.
A lembrança dos efeitos da droga pode então ser utilizada e meta-
bolizada de outra forma; enquanto fazia uso desta, o indivíduo ia
apreendendo o aspecto transitório e artificial derivado de seus efei­
tos — eles apareciam t desapareciam. Por mais que o desejasse, nunca
chegou a incorporá-los inteiramente à sua personalidade. Agora,
apoiando-se não mais na lembrança do prazer e da fusão, e sim na
memória deste aspecto artificial e interrompido dos efeitos da droga,
torna-se mais fácil para ele admitir a impossibilidade de integrar as
tendências contraditórias que são inerentes ao seu psiquismo. O
mundo pulsional torna-se relativo, comparável em importância aos
efeitos da droga, assim como também o são de maneira mais ou me­
nos acentuada as atmosferas e as melodias de angústia e de sofri­
mento. É possível esperar de seu impacto compulsivo que se abran­
de, que diminua. Passa-se a um convívio, sem urgência, fora de
qualquer urgência psíquica. Ali, onde havia clímax e perfeição, rein-
troduz-se o tempo, encontra-se uma nova maneira de explorar o espa­
ço psíquico. O mundo psíquico afetivo e pulsional cede lugar a
quem vem tomá-lo, não sem fluxos e refluxos, nem sem turbulên­
cias. Nada é linear, mesmo numa democracia, e os equilíbrios insti­
tuídos são particularmente instáveis, daí a necessidade de uma sus-
166
tentação institucional e psicoterápica, que deve ser um modelo de
prática "democrática” em espelho, e não apenas uma relação de for­
ças dominador-dominado. Este espelho favorece a polêmica intrapsí-
quica, transforma-se em referência, não é mais um mero apoio. Mas
isto só é possível quando, no terreno de sua própria democracia, a
harmonia e a música são felizes e capazes de dar ao indivíduo um
sentimento de prazer, o oposto daquilo que pode oferecer um discur­
so seco ou um método moralista e culpabilizador. Em outras pala­
vras, a maneira de agir é tão importante quanto o fundamento de
todo o trabalho dito terapêutico.
Coloca-se então a questão fundamental do poder deste trabalho
sobre a imensa' combinação da desestruturação do ego psíquico,
biológico, bioquímico e neurofisiológico, desde a ruptura até o final
da ingestão de drogas: como repercute, por exemplo, tal intervenção
sobre o sofrimento gerado pela demanda dos receptores específicos
ou não-específicos da morfina? Esta abordagem teórica e esta prática
não seriam na verdade álibis para a ignorância e a impotência?
É verdade que no estágio atual dos nossos conhecimentos, mal
tocamos nos mecanismos revelados por uma toxicomania e, sobretu­
do, que o funcionamento do cérebro é infinitamente mais complicado
do que nossos esquemas empobrecedores querem fazer crer. Mas não
deixa de ser verdade também que entre o domínio do biológico, da
relação e do psíquico, existe uma rede associativa na qual a mensa­
gem psíquica e a parte voluntária desempenham um papel funda­
mental (cf. "A aprendizagem da escrita e da leitura”), e que a ação
terapêutica nesta área não só é possível, como é verificável todos os
dias. No que concerne às drogas, ninguém pode negar uma evidên­
cia gritante: que produtos químicos inertes produzem imaginário e
prazer, e que esta produção não é jamais redutível a algum processo
físico-químico, por mais complexo que possa ser.
Sem querer superestimar a importância de tal conteúdo, somos
forçados a admitir que ele encerra uma criatividade de poesia, filo­
sofia, mística, entre outras, e também de erotismo em imagens que
pertence especificamente à espécie humana, e que nenhuma ciência
conseguiu até hoje evidenciar nas espécies animais, mesmo que, tanto
no que concerne à primeira quanto no que diz respeito às segundas,
alguns processos mais ou menos complexos possam ser subtendidos
por processos de natureza biológica, simples ou complexos.
Uma terapêutica biomolecular, como podemos vê-lo através do
exemplo dos neurolépticos em psiquiatria, pode anestesiar momen­
taneamente os efeitos dolorosos destes processos; mas ela não tem o
167
poder de evitar sua evolução, nem um possível deslocamento do sin­
toma. Isto é válido também para toda terapêutica comportamental.
Não existe antídoto para, de um lado, a memória da ruptura, nem
para, de outro lado, a do prazer proporcionado pela droga. A não
ser a construção desta democracia psíquica que acabamos de mencio­
nar, e que tem mais coisas em comum com a bomba de sódio que
rege os movimentos intracelulares do que poderíamos pensar. Mais
uma vez aí, trata-se de um processo ativo e móvel de sucessão de
equilíbrios instáveis, responsáveis pela vida e pela atividade da cé­
lula! Somente a aprendizagem íntima de um tal processo é capaz de
gerar a aquisição de um “saber” que possa competir com o sofri­
mento e a memória do prazer. Mas não devemos exigir mais do que
ele tem para oferecer: o poder conferido pelo “saber” é um poder
empobrecedor, como já vimos, e, na pior das hipóteses, é unicamente
lingíiístico. Desenvolve suas próprias normas e seus próprios inter­
ditos — o não-dito poderá ser formulado, mas nem por isso dei­
xará de ser indecente e ilegítimo. A liberdade será verbal, não
desembocará em uma prática. Há uma ruptura em relação à comu­
nidade de destino com os outros toxicômanos mas, o que quer que
o indivíduo possa dizer a este respeito, ele sempre vivenciará isto
como uma traição. Não haverá mais nada que estabeleça uma comu­
nicação entre os dois mundos, a não ser um olhar .furtivo, um eco
musical às escondidas, disfarçado.
Ora, o indivíduo tem sede destas comunicações turvas, tem sau­
dades dos tempos fortes onde ele era ao mesmo tempo penetrador e
penetrado, lascivo e assexuado, das violências perpetradas contra si
mesmo e contra
• os outros.
#
São saudades ambíguas, é verdade, pois ele sabe que atingiu o
ponto de não-retorno; mas quem, medidas as devidas proporções,
nunca sentiu o desejo louco de forçar todas as portas, aconteça o
que acontecer? O toxicômano, que esteve tão próximo tanto do in­
ferno quanto do paraíso tem, mais que todos nós, a imperiosa pulsão
de querer novamente ter acesso ao extremo. E toda vez que tenta
consegui-lo, vê-se obrigado a renunciar, o que explica a atmosfera de
nostalgia presente a todo instante, a qual pode ser difusa, como
também pode assumir tonalidades francamente melancólicas caso a
miséria do indivíduo seja desvendada com muita brutalidade, redu­
zindo-o então àquilo que Bataille chama de “um espelho da morte”.
Podemos e devemos temer uma evolução deste tipo, a qual só
se diferencia do que pode sentir qualquer simples mortal, pela sua
exacerbação. Mas como na toxicomania muitas vezes lidamos com
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atmosferas e dimensões afetivas, o antídoto possível reside justa­
mente na atmosfera mágica da relação, a despeito do risco de con­
tinuidade da dependência que ela encerra. Por mais complexa que
possa ser a dosagem de mágica e de realidade, de desejo e de
necessidade, de ambivalência e de voluntariedade, é desta mistura
que a sorte do indivíduo vai depender durante algum tempo. Toda
terapia deve afetar os diversos aspectos da personalidade do toxicô­
mano, com a condição de que as coisas sejam ditas: inclusive o
apelo à mágica, e sua coexistência com um querer racionalizado.
Podemos avaliar melhor a dificuldade que representa um procedi­
mento destes se nos lembrarmos o quanto o imaginário do indivíduo
foi pressionado antes de seu encontro com a droga e, sobretudo, no
decorrer deste encontro!
fá dissemos que a magia apela menos aos fantasmas ou à aluci­
nação da realidade do que à atmosfera, àquilo que certos pacientes
chamam, por exemplo (exemplo empobrecedor), de “vibrações”.
Um desenvolvimento falho desta relação privilegia o sofrimento e a
nostalgia em detrimento da democracia psíquica, privando a perso­
nalidade como um todo de suas possibilidades de luta: neste caso,
a nostalgia mobiliza-se contra o sofrimento, e ocorre a recaída, ou a
melancolia, ou ainda a impaciência, pois a lentidão de todas as coisas
vem dificultar o já penoso processo — em toda parte e todo tempo,
estamos em equilíbrio instável (o qual pode ser mascarado, se for
este o método adotado, pela repetição do cerimonial psicanalítico!),
tentamos apreender a um só tempo aquilo que vai deixar de ser,
e aquilo que não deixa de não-ser.
O paciente e seu terapeuta vêm bater contra esta impossibilidade,
que eles só podem contornar objetivando as coisas e, assim, a “trans­
ferência” analítica é transformada em um valor em si, como a falta
ou a dependência etc. É sempre preciso um esforço, uma tensão per­
manente para aderir a esta objetivação, a qual só deixa para o indiví­
duo uma ilusão de repouso, correspondente à anestesia em relação
ao sono natural. Um tal esforço faz com que qualquer tentativa de
satisfação de desejo se torne inútil, e chega mesmo a tornar a
necessidade asséptica.
Todo e qualquer risco é esterilizado e, portanto, corre-se o risco
de esterilizar o indivíduo, a não ser que se possa valorizá-lo por sua
escolha consentida pela democracia (como um padre que realmente
consegue renunciar à sua sexualidade).
O indivíduo desintoxicado jamais chegará a ser apaziguado.
Homem nenhum tem o poder de apaziguá-lo, a não ser talvez no
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breve instante do ato de amor, ou na ilusão do êxtase amoroso, que
talvez seja mais freqüente, mas é também mais ilusório para ele.
Estes instantes porém morrerão depressa. À nostalgia vem somar-se
uma espécie de decepção — a terra prometida era só isso? Mas
ocorre ainda uma grande surpresa: apesar de tudo que acabamos
de descrever, o indivíduo vive, a cada dia, sem ser confrontado
em demasia com a necessidade compulsiva de repetição ou com a
repetição impulsiva da necessidade. Ele vive a experiência da não-
dependência — nos primeiros longos tempos, com a sensação de
que esta está apenas suspensa — , e não pode mais se referir à
falta da mesma maneira, pois, em alguma parte, falta-lhe a falta.
Aquilo que lhe era mais íntimo, seu mais antigo companheiro,
tornou-se por sua vez algo objetivado, um não-saber, que agora
se parece com não-saberes banais, não redutíveis na verdade, po­
rém infinitamente menos dolorosos e sobretudo menos indizíveis e,
portanto, mais familiares para o terapeuta, o qual, situando-se
melhor, consegue uma maior comunicação com o paciente.
O indivíduo que se desnuda desta forma tem direito a um imenso
respeito, pois está cumprindo um trabalho gigantesco frente ao
qual qualquer simples mortal recuaria (que talvez não tome drogas
por medo de ver-se acuado a fornecer um tal esforço!), trabalho
este que atinge o limite da capacidade humana: tudo o que era
anterior e que o atraía para o excesso e o caos físico e psíquico
era vivido e sentido até a mais ínfima célula como sendo a única
possibilidade, e todos estes estados tão próximos pareciam-lhe im­
possíveis de serem questionados, pois temia uma nova ruptura, temia
que o pseudo-espelho mais ou menos reconstituído, cujos pedaços
em todo caso estavam suficientemente aproximados pela droga ou
pela lembrança desta, pudesse romper-se novamente, jogando-o
mais ainda no abismo, sem nenhum imaginário, junto ao buraco
negro de uma carência insuprível, fazendo-o ingressar numa angústia
infindável, uma espécie de noite sem amanhecer.
O indivíduo não ignora nada dos riscos que correu — riscos
estes que são simplesmente inimagináveis para qualquer um de
nós — , e os resultados que ele obtém, apesar de toda decepção e
nostalgia, são para ele inestimáveis. Ele se tornou, a seus próprios
olhos, um novo “iniciado”. E esta iniciação, que aceita a trapaça
contida no processo bem como o não-apaziguamento, ele pode vivê-la
ao mesmo tempo como aquilo que está mais afastado do possível
e como uma vitória de dimensões humanas. Ele já não é Deus, e não
o será mais, mas também nunca mais estará no inferno. Ele se
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aceita como um homem que sabe o que “homem" pode significar,
o que muitas vezes não está ao alcance do homem comum!
Novamente, a experiência que está vivendo coloca-o numa situa­
ção especial: percebe a própria vida como se tivesse vários espelhos
à sua disposição, sem deixar-se enganar pelo fato de que se trata
realmente de espelhos, e não dele mesmo.
Mas ele não é um mero espectador, ele escolhe, voluntariamente,
seu espelho preferido, procura e opta: já não tem aquele irrefreável
pós-desejo de ver o que está se escondendo. E aqui o simbólico
aproxima-se da realidade, pois já é capaz de aceitar a noite. Uma
noite que não é o lugar onde, na solidão e no fantasma, oferece-se
a cada vez, na angústia da punição e da morte, a alteração do
espelho! A noite deixa de ser aquele monstro que ele freqüenta
desde a mais tenra idade. Agora ele já pode absorver-se nela, mes­
mo que a lembrança do que foi faça com que, inúmeras vezes, ele
retarde a hora de nela mergulhar. Já pode aceitar a idéia de que ela
não é nada, não precisa mais esperar amanhecer para poder vaga­
mente ressuscitar. Ao aceitar a noite, ele está aceitando o “entre-
tempo”, a contigüidade pode substituir a continuidade quase fusio­
nai que lhe permitia sobreviver. Quer no prazer, quer no terror,
não é mais o “tudo, já, agora” que comanda; o indivíduo já é
capaz de obter algumas satisfações, até mesmo afetivas, na espera
e no adiamento. Enfrenta outra dimensão do tempo, que não é mais
somente a instantaneidade explosiva do tempo vivido. Aprendendo
a esperar, ele aprende igualmente a lei, logo ele que sempre fora um
fora-da-lei e que agora não pode mais tocar o instrumento inteira­
mente gasto do seu imaginário.
A base sólida e real deste estágio continua sendo a relação tera­
pêutica, que resiste como uma rocha a todas as tempestades desen­
cadeadas pelo indivíduo, e que agora lhe torna possível a exploração
de outras áreas da realidade, através de sucessivas associações segui­
das por verificações de que tais processos não são geradores nem
de uma dor excessiva nem de uma angústia insuportável: a lei social,
por exemplo, não é mais rejeitada nem superestimada, e sim tornada
relativa àquilo que o indivíduo pode ser e fazer. Ele se familiariza
com ela ao mesmo tempo em que a domestica. Não nutre nenhuma
esperança imaginária de poder anulá-la, mas descobre que ela já não
é mais impossível de ser vivida, e que pode até assumir a função
de um espelho: um destes espelhos alternativos que ele está apren­
dendo a utilizar, cuja multiplicidade bem ou mal substitui o espelho
inicial, permitindo que uma certa identidade tome corpo e com­
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pensando de alguma forma a fragmentação do espelho original —
ou pelo menos permitindo que se estabeleça uma referência “racio­
nar’ a esta fragmentação. Surge daí a possibilidade, mesmo não
sendo ainda ele mesmo, de construir um “equivalente” que possa
lhe servir, capaz de resistir aos choques, tanto subjetivos quanto
objetivos, pois para ele não há esperança de tempos futuros me­
lhores, nem temor de tempos piores do que aqueles pelos quais já
passou.
Ao tempo da ambivalência nostálgica sucede o da ambivalência
construtiva. A ambivalência permanece e permanecerá; prolongan­
do-se, ela perpetua a ilusão de uma liberdade possível e abranda um
pouco o sentimento de ter sido enganado. Porém, ao construir esta
espécie de unidade, o indivíduo forjou-se um “querer-viver” que é
fonte de desejos mais prosaicamente humanos, como o de ter um
filho, por exemplo, ou seja, de reproduzir-se e assim viver-se en­
quanto ser que existe e cuja existência é verificada pela procriação.
Ao doloroso hedonismo narcísico pode suceder o querer-viver
através e no interior da espécie, vivenciando como uma lúcida
vitória sobre o instinto de morte — aquela morte onipresente desde
a infância a ponto de transformar-se em desejo, tão monstruoso,
tão incestuoso, tão ilegal e ao mesmo tempo tão inelutável, que o
toxicômano via-se obrigado a mascará-lo, primeiro na “lua-de-mel”
com a droga e depois através da falta e da dependência.
Como a partir de então tudo se torna relativo, objetivo, o toxicô­
mano tem a possibilidade de viver com um desejo de morte relativo
e com um medo da morte objetivo, pois seu discurso não nega seu
próprio valor, ele participa da elaboração deste equivalente de
identidade e desenvolve uma lógica própria de autonominação. Con­
tribui para outra codificação do indivíduo. O processo torna-se
patente assim que o indivíduo começa sua psicanálise (às vezes de
maneira prematura e/ou exagerada), mas igualmente para os outros,
quando entre o “terminou, quero me libertar“ do apelo de oferta
inicial, e o “Eu sei que não quero mais me drogar”, há a enorme
importância do “eu sei”, que é uma condensação de todo este
trabalho que acabamos de mencionar: este “eu sei” pode revelar-se
falso em determinadas circunstâncias, mas desde já tem o significado
obrigatório de que “isto” agora é conhecido, reconhecido pelo indi­
víduo e que, a partir deste ponto, ele não pode voltar atrás. Ele
está definitivamente em um certo estado, que é diferente daquele
do indivíduo intoxicado.
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Ao dizer: “eu sei", ele diz “isto é" e adere a isto, pois assim
consegue no mínimo uma certa segurança, ou ao menos uma dire­
ção de vida que está começando a tornar-se funcional, e que lhe
permite suportar as provas e tomar decisões. Simbolizando desta
forma seu desejo de terminar com a droga, atribui um significado
positivo àquilo que até então só tinha um valor negativo (notada-
mente em relação ao estado de sofrimento). Mesmo que não esteja
livre de suas angústias, ele vive na possibilidade de uma “vitória”,
e a angústia, ela também objetivada, transforma-se em medo de um
“castigo”, caso recomeçasse a drogar-se. Dentro do processo do que­
rer salvar-se, ela passa a ocupar um lugar novo. Ao oferecer a alterna­
tiva do “castigo” tornar-se, à sua maneira, construtiva, transcen­
dendo-se e transformando-se em proteção para o indivíduo.
Este indivíduo que foge ao se encontrar, que ouvimos sem real­
mente escutá-lo, será capaz de achar e de aceitar aquilo que nada
mais é senão ele mesmo, exteriormente igual a todos nós, mas em
seu interior habitado por tão pesado segredo? Dissemos que para
se desintoxicar não existe outro caminho, outra imperiosa necessi­
dade que não a substituição da dependência em relação à droga,
pela dependência para com a relação terapêutica, num primeiro
momento, e pela aprendizagem da democracia psíquica em um
segundo momento, única defesa contra as tempestades desencadea­
das pela ruptura original, constantemente reativadas pelo ciclo
“verificação-rejeição”, e que constitui, além de tudo, a única possi­
bilidade de se libertar através do resgate da liberdade e da digni­
dade, da escravidão que representa toda e qualquer dependência.
Mesmo que o sofrimento e a angústia tenham sido insuportáveis,
mesmo que o toxicômano tenha entrado no inferno por todas as
suas portas, é-lhe extremamente difícil e deprimente, tendo levado
a própria existência e o imaginário até o extremo limite, em con­
dições de loucura, associabilidade, ódio contra si próprio, megalo­
mania e prazer onipotente, renunciar e transformar-se em homem
“comum”, deixar de recusar a humanidade inteira e ter de admitir
que os próprios pais não são aqueles monstros todo-poderosos,
canibais e/ou rejeitadores, e sim um homem e uma mulher nascidos,
eles também, de um pai e de uma mãe.
Por isto não devemos nos surpreender quando vemos que certo
número de toxicômanos renuncia, opta pela morte, ou, em um
abandono total, deixa-se submergir em um deserto solitário ou na
mais infame miséria; outros ainda param no meio do caminho e
aceitam um compromisso com as exigências familiares e sociais tor­
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nando-se adeptos dependentes de personagens carismáticos ou de
gurus mais ou menos pitorescos que detêm a arte de manipular o
sadomasoquismo e a erotização à distância, insultando desta forma
a dignidade à qual todo homem tem direito, e cometendo uma falta
profissional e moral, já que não oferecem nenhuma solução e, até
pelo contrário, acabam jogando novamente na rua aqueles miserá­
veis que ousam revoltar-se.
No caminho a ser percorrido só existe uma alternativa: e esta é
humana, relativa, modesta. O toxicômano é obrigado a abandonar
muito de si mesmo, principalmente deixar de ser tudo. Mas ganha
muito com isso, pois seu espírito deixa de ser seu próprio escravo
e sua vida não é mais uma servidão total e nem apenas uma máquina
de consumo. Não há aí vitória de critérios normativos sobre os
valores do prazer, do hedonismo e do encontro com Deus; nem
alguma vingança da mediocridade sobre aquele que ousou.
O toxicômano está morto porque chegou ao final de sua viagem.
Esta viagem — e é este o ponto que deve ser questionado — , ele
não a empreendeu de forma solitária nem voluntariamente. Ele a fez
no interior de uma história: do momento sócio-cultural no qual
ele vive; do sistema familiar pelo qual foi fabricado e por cujas
interações é condicionado e manipulado; da droga. A ingestão de
drogas não é nem ascese, nem filosofia e nem santidade. Funde-se
com os dados desta história. E esta história condiciona a relação
do indivíduo com a realidade.
Ao terapeuta não cabe dizer a lei, não cabe dizer se a ingestão
de drogas é boa ou má. Ele sabe que tudo depende do ponto de
vista do qual nos colocamos. Cabe a ele — e isto constitui sua
honra e sua glória — encarregar-se das situações de sofrimento,
quaisquer que sejam, deixando ao indivíduo que nele deposita sua
confiança o direito de livre escolha da própria vida. Seu encontro
com a toxicomania e com o toxicômano arrasta-o para mais longe
e para mais alto do que gostaria; não é raro alguns terapeutas
engajarem-se neste caminho com avareza. Expõem-se desta forma a
não encontrarem a si próprios, o que não é tão grave, mas também
a recusar aos seus pacientes o direito ao não-sofrimento, e isto sim
é escandaloso.
Mas não estaria o escândalo no fato de, como no tempo de
Galileu, alguns ainda se recusarem a admitir que Terra gira?

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