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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA


INSTITUTO DE HUMANIDADES, ARTES E CIÊNCIAS
PROGRAMA MULTIDISCIPLINAR DE PÓS-GRADUAÇÃO EM
CULTURA E SOCIEDADE

CARTAS DE PRÍAPO: A CONSTRUÇÃO DA MASCULINIDADE VIA CORPO NA RE-


VISTA PLAYBOY

por

RAFAEL VÍCTOR DE JESUS ARAGÃO

Orientador: Prof. Dr. DJALMA THÜRLER

SALVADOR, 2012
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UNIVERSIDADE FEDERAL DA BAHIA


INSTITUTO DE HUMANIDADES, ARTES E CIÊNCIAS
PROGRAMA MULTIDISCIPLINAR DE PÓS-GRADUAÇÃO EM
CULTURA E SOCIEDADE

CARTAS DE PRÍAPO: A CONSTRUÇÃO DA MASCULINIDADE VIA CORPO NA RE-


VISTA PLAYBOY

por

RAFAEL VÍCTOR DE JESUS ARAGÃO

Orientador: Prof. Dr. DJALMA THÜRLER

Dissertação apresentada ao Programa Multidisci-


plinar de Pós-Graduação em Cultura e Sociedade
do Instituto de Humanidades, Artes e Ciências co-
mo parte dos requisitos para obtenção do grau de
Mestre.

SALVADOR
2012
2

Sistema de Bibliotecas - UFBA

Aragão, Rafael Victor de Jesus.


Cartas de Príapo : a construção da masculinidade via corpo na Revista Playboy / por Rafael
Victor de Jesus Aragão. - 2012.
145 f. : il.

Orientador: Prof. Dr. Djalma Thürler.


Dissertação (mestrado) - Universidade Federal da Bahia, Instituto de Humanidades, Artes e
Ciências Professor Milton Santos, Salvador, 2012.

1. Masculinidade. 2. Identidade de gênero. 3. Playboy (Revista). I. Thürler, Djalma.


II. Universidade Federal da Bahia. Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton
Santos. III. Título.

CDD - 305.32
CDU - 316.62-055.1
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AGRADECIMENTOS

Ao terminar esse texto não consigo deixar de confirmar o que tantos já sabem, mas
que só podemos sentir mesmo na pele: nada tem de definitivo. Por um lado, é um sentimento
especialmente oportuno, desde que defendo que somos produtores da vida cotidiana, trabalho
incessante. Por outro, significa também que cada vez que volto a estas páginas algo muda,
algo seria feito diferente. As minhas lentes, espero, não envelhecem somente, mas vêem sem-
pre algo mais do que podiam ver antes. Esse terminar é instável, é terminar e recomeçar, um
terreno que só pude alcançar aprendendo com tantos.
Assim, agradeço a Djalma Thürler, por acreditar em mim, às vezes mais que eu. Esse
texto foi possível com seu incentivo, parceria e generosidade. Também a Maria do Socorro
Carvalho, a quem agradeço as primeiras lentes e as lições de autonomia.
A minha família, por me suportar nos tempos de maior tensão. Obrigado por aposta-
rem em mim. Aos amigos, pelas palavras de apoio, pelos conselhos, pelos questionamentos
metodológicos, pelos momentos de escape e pela vida. Especialmente Tati e Rosa, de quem
ouço e aprendo.
Por fim, ao Pós Cultura, professores e amigos, por conseguirmos produzir conheci-
mento que me seguirá na vida. E aos integrantes do Cus e do Geni, pela ousadia de lembrar
que para toda norma deve haver alternativa.
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Sou casado com uma linda garota de 24 anos. Meu desejo sexual por ela é tão gran-
de que chego a devorá-la com os olhos só de vê-la de calcinha. Na maioria das vezes
tenho sonhos eróticos e sempre me masturbo quando acordo e a vejo pelada. Isso é
normal ou tenho algum problema?

Gaúcho, pare de procurar chifre em cabeça de cavalo e aproveite a vida. Se a sua


mulher é receptiva a todos os seus apelos, qual é o seu problema, tchê?!
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RESUMO

Este trabalho investiga a produção de masculinidades a partir das narrativas expressas


nas cartas que os leitores da edição brasileira da revista masculina Playboy enviam à redação.
O resultado destas narrativas é um tipo de vida masculina que se re/produz por efeito de téc-
nicas corporais e sexualidade. Ao falar de modos de vida masculinos é possível identificar
expectativas que constroem um terreno comum de reconhecimento ao passo que constrangem
e dificultam a experiência dos homens – ainda norteada pelo trinômio proteção-provisão-
potência. Assim, este trabalho fala em masculinidade precária, visto que o desempenho da
identidade masculina está sempre aquém do ideal, à beira da falta e da falha. Isso resulta em
angústias e dúvidas para os homens – embora o projeto hegemônico pretenda ser domínio de
segurança e certeza. A investigação é conduzida sob uma perspectiva que busca questionar a
masculinidade como unidade, e, portanto, questionar a obrigatoriedade da norma, apontando
para sua violência invisível. Partindo do marco dos estudos de cultura, identidade, gênero,
sexualidade, sociabilidade são, senão, resultados de um processo dinâmico de produção da
vida coletiva. Nesse sentido, a masculinidade é situada como conhecimento social, agente de
cultura e comunicação, produto de um trabalho histórico de masculinização dos corpos e dos
comportamentos.
PALAVRAS-CHAVE: Masculinidade, identidade, Playboy.
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ABSTRACT

This dissertation aims to investigate the production of masculinities from narratives


expressed in letters sent to the newsroom of the brazilian edition of the magazine Playboy by
its readers. The result of those narratives is a type of masculine life that re/produces itself
through body techniques and sexuality. Speaking of masculine ways of life, it is possible to
identify expectations that built a common ground of acknowledgment while they compel and
harden men’s experience – still guided by the trinomial protection-provision-potency. Thus,
this dissertation speaks of a precarious masculinity, since the exercise of the masculine identi-
ty usually does not measure up to the ideals, verges on failing and flawing. That may result in
anxiety and doubts for men – although the hegemonic project aims to be the domain of safety
and certainness. The investigation is conducted by a perspective that aspires to question mas-
culinity as unity, and, therefore, question the mandatoriness of the norm, designating its invis-
ible violence. From the milestone of the culture studies, identity, gender, sexuality, sociability
are, but, the outcome of a dynamic process of production of collective life. In this sense, mas-
culinity is designated as a social knowledge, culture agent and communication, product of a
historic work of masculinization of bodies and behaviors.
Key-words: masculinity, identity, Playboy.
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SUMÁRIO

INTRODUÇÃO
Diálogos com Príapo 9

CAPÍTULO 1
Brincando De Ser Homem 21
Ler com uma mão só 31

CAPÍTULO 2
Masculinidades 37
O produto ideal 45

CAPÍTULO 3
O Lugar Da Cesura 61
Falar de gênero no corpo 68
Um corpo masculino coletivo 74

CAPÍTULO 4
O Homem Priápico 80
Beleza e fronteira 85
Corpo ereto 91
Uma economia da sexualidade 97
Frente e verso 100
Corpo em trânsito 108

CAPÍTULO 5
Uma cara masculinidade 111
“Então Playboy é para você” (?) 115
Por uma masculinidade precária 124

CONSIDERAÇÕES FINAIS
As lentes 132

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 137


9

Introdução
Diálogos com Príapo

Homem: Ser humano do sexo masculino; varão [...] dotado das chamadas qualida-
de viris, como coragem, força, vigor sexual, etc.; macho.
Masculinidade: Qualidade de masculino ou de másculo; virilidade.
Masculino: varonil, enérgico, forte, másculo.

Dicionário Aurélio
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Como o ideal hegemônico de masculinidade é posto em operação no seio social, espe-


cialmente por meio do funcionamento dos meios de comunicação? Esta pergunta poderá, em
certa medida, traduzir o fio condutor para a realização da dissertação a seguir. A pergunta
nasce como efeito da observação de que ser homem é um exercício precário. Precário poderia
se referir apenas ao caráter da masculinidade como uma jornada rumo ao horizonte, que, co-
mo tal, se afasta a cada passo e, portanto, nos engaja em um exercício invisível de reconheci-
mento. Mas não é apenas isso: os modos hegemônicos propostos para composição de uma
vida masculina também têm caráter isolador, carregam seus desafios próprios e embora pro-
duzam poder, produzem também dominação.
Isso só pode ser dito se entendemos a masculinidade como conhecimento social, ela
mesma meio de comunicação entre os sujeitos. Quer dizer, a masculinidade é uma linguagem
possível para sociabilidade entre gêneros, ou melhor, entre sujeitos em seu exercício de gêne-
ro. Posta em operação nas nossas vidas, não é apenas um repertório pré-fabricado ao qual de-
vamos (cor)responder, mas está em produção e reprodução, aqui e agora, como organização
da e acesso à vida social. Certamente, vale observar que masculinidade é sempre o sedimento
cultural daquilo que arbitrariamente é nomeado masculino, portanto, tipo ideal e regional. Ou
seja, há tantas masculinidades quantos forem os diferentes pertencimentos culturais.
Da mesma maneira, àquilo que os estudos recentes das ciências humanas têm chamado
de masculinidade hegemônica é, senão, a resposta corrente aceita entre os grupos para com-
preender e classificar o gênero masculino. Um ideal regulatório. Portanto, devemos observar
que o invisível da masculinidade hegemônica são os exercícios marginais de masculinidade,
subordinados politicamente neste jogo.
Geralmente fala-se sobre o homem como aquele sujeito sobre o qual, com efeito, não
se fala: assumindo que dentro desta categoria estão todos aqueles sujeitos nascidos com o
sexo masculino – portadores inconfundíveis e inquestionáveis do pênis – eminentemente hete-
rossexuais e articuladores de uma dada performance social, retos, sóbrios, poderosos. Neste
retrato, em que se articula reconhecimento social, não tem sido perguntado se ser homem é de
fato isso e somente isso – sustentando, irrefletidamente, uma posição masculina, uma forma
tranquila de identidade, um último sujeito previsível contra as peripécias contemporâneas.
Dentro dos estudos de gênero é bastante recente investigações que se debruçam sobre
a produção de modos de vida de homens ou masculinidades em contextos específicos. Os
movimentos sociais de gênero, reivindicando equidade, e as ciências humanas, disputando o
discurso essencialista, desde o último meio século falam profusamente da multiplicidade de
gêneros, separando sexo e comportamento. Mas, em certa medida, isso é feito por meio de
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discursos que narram o homem em posição de sujeito da opressão, como se, ao contrário do
que os estudos de cultura vêm defendendo, a masculinidade pudesse ser um conhecimento
trans-histórico que produzisse, exclusivamente, o controle dos corpos alheios e desigualdades
que não lhes dizem respeito.
Contra esta cristalização incompatível com a própria concepção contemporânea de his-
tória, é importante considerar a perspectiva de um sujeito masculino que é produto e produtor
de subjetividades peculiares, considerar a masculinidade como um corpo histórico de comuni-
cação, em que os homens, também eles, estão necessariamente dominados – regulados por
expectativas à respeito de sua presença social, embora por estratégias peculiares.
Aqui parece válido questionar como os homens estão implicados nos problemas de
gênero, se estamos produzindo lentes de análise social em que eles sejam também questiona-
dos no fazer de suas biografias, se estes próprios sujeitos se questionam ou percebem um pro-
cesso produtivo que lhes demanda um dado exercício e vigilância. A partir desta indagação,
fazemos uma avaliação crítica de um processo de construção social de masculinidade por
meio de um produto midiático, que é a edição brasileira da revista Playboy.
De forma recorrente, tal proposta tem causado estranhamento. Falar sobre a produção
de um sujeito masculino, sobretudo por meio da leitura de um produto de comunicação como
Playboy, parece uma obviedade. Parece resolvido que, como segmento das revistas masculi-
nas, Playboy fala necessariamente do e para o homem – quando muito, podemos dizer que é
um homem brasileiro, bem educado, financeiramente abonado e que, certamente, fala a lin-
guagem do sexo. Estranhamento, portanto, porque esse panorama “já está evidente”. Por outro
lado, segue-se à primeira conclusão uma certa desconfiança sobre uma pesquisa sobre homens
numa revista que publica, a rigor, corpos femininos sensuais e nus – equiparando, portanto, a
condição própria de ser homem à heterossexualidade e a uma libido patente e permanente. Por
fim, em diversas ocasiões tem sido questionada alguma intencionalidade implícita do autor da
pesquisa, dentro dessa condição de ser homem. Não foram poucas as questões se não seria
mais produtivo (ou apropriado) pesquisar em outras revistas (não raramente seguindo suges-
tões dos títulos Men’s Health e G Magazine), onde o homem mesmo estaria publicado, assim
de forma evidente.
No entanto, o que fazemos aqui é investir sobre aquilo que se diz óbvio, que a seu
termo pode ser, também, uma estratégia de silenciamento social. O óbvio, sendo aquilo que
está posto diante dos nossos olhos, é fenômeno já produzido e reconhecido, “já está por si só
explicado”, corresponde a sua função fática. Portanto, é da ordem do óbvio não inspirar ques-
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tionamento imediato. A equação Playboy mais homem resulta em mulher nua, heterossexuali-
dade, sexo, cerveja, futebol, carro do ano, alta tecnologia etc.
Mas, como nem tudo se explica na superfície, falamos do homem, de Playboy e de
masculinidade como produtos de uma trama complexa de sentidos, história e poder. Falando
em masculinidade, tudo o que é óbvio tem trabalhado interessadamente na manutenção de um
exercício precário. Ser requerida como evidente significa, com efeito, assumir na masculini-
dade um conceito de segurança, de potência, de virilidade, um conjunto de sujeitos que não se
transforma, que pode ser reconhecido trans-historicamente. Posição seriamente questionável.
Assim, é importante situar desde este ponto que esta análise está assentada em uma
perspectiva desconstrutivista e também amparada pelos estudos culturais. O conceito de cultu-
ra que guia este texto implica em produção social de modos de vida, ao contrário de visões
essencialistas ou de que a cultura seja produto de uma dada posição civilizatória. Nesse senti-
do, um processo histórico deve ser reconhecido, e não apenas como processo criativo, mas
também como produtor de poder e dominação. Para pensar em masculinidades, só o podemos
fazer partindo de um receituário minimamente comum, ou seja, encarar a cultura como um
meio de comunicação, uma linguagem possível – o que não implica assumir na cultura a cris-
talização de tradições, mas a sua invenção contínua.
Ao mesmo tempo, trabalhamos com uma perspectiva de análise epistolar para compre-
ender como se trama os sentidos desse tipo de masculinidade. Falando de um produto que se
reconhece na difusão da figura feminina, buscamos o homem por meio de outras estratégias:
ou seja, o corpo masculino narrado nas cartas, em uma forma de sociabilidade à distância en-
tre o produtor (Playboy) e o leitor. Vale observar na prática epistolar (as cartas pessoais sendo
uma modalidade deste gênero de narrativa) uma forma de acesso à vida social, mas também
de acesso e produção de conhecimento.
Se encaramos a masculinidade como informação para uma identidade, então é impor-
tante marcar que partimos de uma perspectiva de identidade conforme os estudos culturais
trabalham, como possibilidades múltiplas de identificação. O terreno contemporâneo, sísmico
por excelência, desloca conhecimentos sedimentados historicamente, colocando-os face a face
com uma urgência social: o hegemônico não é o único modo de produzir, de saber. Novas
formas de pensar, novos agentes sociais, novas descobertas abalam o conhecimento hegemô-
nico. A identidade antes encarada como o traço elementar da constituição do sujeito, sofre
com a fragmentação do mundo e o próprio conceito é reformatado desde um ponto de vista
mais plural.
13

Stuart Hall (2006), um dos autores mais populares nestes estudos, salienta o caráter
provisório da identidade, qualificando-a como uma “celebração móvel”
formada e transformada continuamente em relação às formas pelas quais somos re-
presentados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam. É definida his-
toricamente, e não biologicamente. O sujeito assume identidades diferentes em dife-
rentes momentos, identidades que são unificadas ao redor de um ‘eu’ coerente. Den-
tro de nós há identidades contraditórias, empurrando em diferentes direções, de tal
modo que nossas identificações estão sendo continuamente deslocadas. Se sentimos
que temos uma identidade unificada desde o nascimento é porque construímos uma
cômoda estória sobre nós mesmos ou uma confortadora ‘narrativa do eu’. Ao invés
disso, à medida em que os sistemas de significação e representação cultural se mul-
tiplicam, somos confrontados por uma multiplicidade desconcertante e cambiante de
identidades possíveis, com cada uma das quais poderíamos nos identificar – ao me-
nos temporariamente (p.13).

Mas, como Hall faz notar, falar em identidade é uma insuficiência linguística. Se por
um lado, como conceito, buscamos implodir a unidade ficcional do vocábulo – que opera co-
letivamente como registro coerente e verossímil da individualidade do sujeito – por outro,
falar em identidades, tampouco, traduz a contento a experiência de múltiplas articulações da
informação social – se encarada como unidades que passam por um processo de aliança. Com
efeito, o sujeito está investido em uma trama profunda de interesses, tradições, novidades,
informações que são assimiladas em tempos e contextos diferentes. Portanto, coerência não é
demanda necessária ao falar de identidade. Em certa medida, pode ser mais operativo falar em
identificações ou, o que é especialmente relevante, diferenças. Diversos autores recorrem a
estas duas alternativas como implicações necessárias do conceito de identidade. Aqui, temos
buscado falar também em biografias, como sinônimo conceitual de identidade. Tal alternativa
tem a vantagem de 1) aludir à historicidade que erige o sujeito a partir de suas memórias e
experiências, 2) considerar conteúdos sempre complexos e “individuais” e 3) observar a inevi-
tabilidade de suas articulações futuras.
A compreensão da masculinidade contemporânea está implicada em uma série de
transformações sociais que desestabilizam a identidade masculina de forma implacável. Mas-
culinidade, como categoria cara numa moral tradicional enfraquecida, é uma informação em
disputa na reinvenção de seu repertório simbólico. Refere-se aos conhecimentos e hábitos
forjados em torno do papel social do homem heterossexual, ao mesmo tempo em que flerta
com a fragmentação do jogo social. Nesse meio, a posição masculina sofre importantes ruptu-
ras; a principal delas é seu desvinculamento como autoridade necessária na vida social. A
contemporaneidade é a era das disputas por espaço de representação, portanto era claramente
política para a questão das identidades. Uma representação ativa de diferentes grupos sociais,
que demandam reconhecimento em sua diferença, o relaxamento do papel de autoridade e
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flexibilização das relações de trabalho, entre outros fatores, demandam uma reconfiguração
simbólica do espaço e comportamento masculino.
Por isso, aqui, a masculinidade é compreendida como conhecimento social, produzida
e reproduzida coletivamente e, como tal, está em operação nas vidas de todos os sujeitos. No
caso dos homens, de modo específico, se produz no curso da história um conjunto de expecta-
tivas simbólicas e materiais que buscam articular a materialidade do corpo a demandas com-
portamentais, morais e um projeto de presença pública mandatárias. No entanto, embora “su-
jeito de direito” da masculinidade, o homem não é seu único produtor.
Sob uma perspectiva desconstrutivista, a masculinidade não é encarada como uma
verdade-resultado de sua forma ortodoxa de proteção-provisão-potência. Como produção de
modos de vida, podemos considerar uma hegemonia masculina; mas como qualquer proposta
de hegemonia, observa-se a existência de formas subalternas. A masculinidade hegemônica,
como produto coletivo, produz expectativa de correspondência ao seu projeto, mas por outro
lado, nem todos os homens – e devemos nos perguntar se, efetivamente, há algum – corres-
pondem inteiramente a tais demandas.
Sem dúvidas, o lugar da masculinidade em nossa sociedade mostra o quanto vivemos
o trânsito entre uma pedagogia mais tradicional e outra dita mais liberal. Por ser desestrutura-
dor, este não é um problema que vemos abertamente nas ruas, embora caro aos sujeitos que o
vivem. Vemos, ao contrário, uma série de incongruências, deslocamentos, contradições, fratu-
ras, que, tolhidos, não entram em discussão em casa, na escola, no trabalho ou nos bares e nos
jogos de futebol e em especial, para interesse deste estudo, nas revistas masculinas, que são
aqueles lugares ditos inconfundivelmente masculinos.
Para observar como se costura a relação entre projeto e resultado de masculinidade,
trabalhamos com a revista Playboy, editada no Brasil desde 1975, pela Editora Abril. Consi-
derando que é uma das principais publicações masculinas em circulação no país, Playboy as-
sume um lugar de fala privilegiado sobre esta identidade; por um lado, elege símbolos larga-
mente reconhecidos de uma masculinidade tradicional, ao mesmo tempo em que articula for-
mas de fazer para este exercício. Ou seja, a revista é encarada como artefato cultural cuja lin-
guagem produz uma pedagogia do gênero.
Aqui vale ressaltar o fato de que poucas pesquisas brasileiras já tomaram especifica-
mente Playboy como artefato cultural que organiza o gênero. Contudo, a perspectiva desta
pesquisa é qualitativamente diferente, na medida em que assume a análise de narrativas epis-
tolares como estratégia para questionar como o ideal de masculinidade contemporâneo se or-
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ganiza – ou seja, na correspondência entre leitor e revista é que encontramos um homem e um


corpo falados (criados e recriados).
De modo específico, a análise privilegia as narrativas sobre o corpo masculino e como
a expectativa do corpo articula a produção desta masculinidade. Convém lembrar que, embora
não esteja publicado como imagem (em um produto sustentado pelo elemento fotográfico), a
figura masculina é central na filosofia da Revista do Homem e por isso é possível trabalhar
com um corpo masculino, ainda que invisível ou interdito. As leituras destas cartas oportuni-
zam verificar como o savoir-faire corporal é um elemento chave para entender este repertório
requerido como masculino e legítimo.
É certo que, como conhecimento social, o projeto de masculinidade circula também
nos meios de comunicação midiáticos, que conquistaram posição privilegiada como formado-
res da vida coletiva. O produto midiático tornou-se combustível para uma sociedade espetacu-
lar, em que as respostas estéticas e o uso de imagens compõem e definem um conjunto simbó-
lico para referenciar os olhares sobre o mundo. Seu funcionamento baseado na produção de
imagens, como signos e aliadas ao valor de troca, deslocam a produção para a reprodução
através de simulações que abolem a distinção entre ficção e a realidade (FEATHERSTONE,
1995). O corpo masculino está implicado neste funcionamento, pois, na medida da produção
de um corpo-ideal, se transforma também no espelho do exercício social.
Dessa maneira, 24 edições da revista são investigadas, do número 387 ao 410 – o que
abarca os meses entre agosto de 2007 a julho de 2009. Com este acesso temporal, consegui-
mos trabalhar com uma apreciação bastante contemporânea sobre masculinidade, testemu-
nhando a disputa entre o que é sedimento da construção histórica na vida dos homens e o que
se impõe como novas experiências ou angústias próprias de uma era de questionamento das
identidades.
Para verificar tais narrativas sobre o corpo, nos debruçamos sobre PLAYBOY RES-
PONDE, que é uma seção de cartas do leitor, em que a redação se dispõe a elucidar questões
de qualquer temática. Na prática, percebemos cerca de 60% das cartas implicam em narrativas
sobre sexualidade e, dentro deste terreno, falam necessariamente de um corpo masculino em
ação. Com efeito, no período, as 24 edições de PLAYBOY RESPONDE publicaram 185 per-
guntas de leitores, das quais 113 servem como corpus melhor qualificado, por tratarem do
terreno do corpo.
É importante ressaltar que não apenas na voz da revista está disposta a centralidade do
corpo, mas também na voz do leitor. Duas características emergem por efeito destas vozes: a
necessidade de reconhecer um corpo e um exercício corporal para o homem, ou para o exercí-
16

cio heterossexual; e o papel de Playboy como símbolo autorizado de uma dada masculinidade
pública. É, portanto, do relacionamento entre revista e leitor que emerge um sistema simbóli-
co representativo deste exercício de corpo masculino ou uma masculinidade incorporada.
A respeito das cartas, embora enviadas pelo leitor, não é ignorada sua condição como
conteúdo selecionado. Elas passam por crivo editorial e, necessariamente, produzem uma lei-
tura minimamente regulada. Trabalhamos com a perspectiva de um material que ao ser publi-
cado reflete seu campo institucional – ou seja, consideramos a posição da revista na articula-
ção de tal sistema simbólico. Este é, com efeito, um elemento necessário da análise. Mas, ao
contrário, ainda que sob regulação, tais cartas não assumem função apenas como retalhos cos-
turados para reforçar uma masculinidade hegemônica; são, ao seu termo, virais e implodem a
segurança do projeto em questão – quer dizer, ainda que fruto da seleção, tais relatos falam
sobre uma vida masculina aquém do projeto hegemônico. Isso a revista não tem condições
definitivas de regular.
Como resultado, é interessante notar em uma seção de cartas sem tema instituído a
prevalência da sexualidade como temática central, levando a duas observações: a primeira, de
que ao por em circulação a nudez, Playboy produz, necessariamente, aproximações com o
conhecimento corrente sobre sexualidade (principalmente das técnica para sua operação) – ou
seja, tal masculinidade é construída sobre a base de uma sexualidade ativa; e a segunda, de
que a sexualidade é elemento distintivo e necessário da masculinidade hegemônica. É nesse
sentido que o funcionamento e a percepção do corpo estão implicados inevitavelmente no
exercício cotidiano de produção de modos de vida masculina.

Para falar da produção de um corpo masculino e de masculinidade em Playboy, faze-


mos um percurso em cinco capítulos, que além da análise mesma das cartas dos leitores da
revista, busca discutir gênero, masculinidades, corpo e a influência dos meios de comunicação
como produtores difusores de imagens para reconhecimento coletivo.
Em Brincando de ser homem, nos debruçamos sobre Playboy a guisa de apresentação,
situando sua estrutura narrativa interna e indicando sua função como produtora de um projeto
de masculinidade. Isso não é realizado por efeito descritivo exclusivamente; ao contrário,
buscamos produzir uma leitura da revista como instrumento produtivo que cria as bases ne-
cessárias de sua linguagem. É assim que percebemos a presença de uma mulher ordinária co-
17

mo desejo necessário, mas, sobretudo, como objeto da narrativa; um estilo de vida masculina
que articula comportamentos esperados a um mercado de bens simbólicos próprios para o
homem, mercado do qual Playboy é o bem primordial; e a emergência de uma qualidade re-
dacional, que tece discursos, produz imagens e ideal, todos integrados numa linguagem, que
não é apenas produto de competência técnica, mas dispositivo de acesso. Por este percurso
buscamos mostrar o efeito pedagógico próprio da revista.
Em seguida, problematizamos a construção das Masculinidades. Um primeiro passo é
reconhecer a masculinidade como saber coletivo, produzido e reproduzido em dinâmicas so-
ciais. Nesse sentido, importa notar que também é produzida por outros corpos que não aqueles
dos homens. A necessidade de se colocar tal discussão em pauta é, por um lado, mostrar que
não existe um modo de vida masculina inaugural, mas sim é construído conjuntural e contin-
gencialmente; mas também para notar a importância de implicar os desdobramentos de subje-
tividades masculinas nos problemas de gênero. A articulação entre masculinidade e hegemo-
nia também é tratada. Assim, foi importante também tratar do produto ideal desta masculini-
dade hegemônica e sobre quais elementos ela se sustenta.
O corpo será tratado como O Lugar Da Cesura, ou seja, como o material e orgânico
que é atravessado pela cultura – e necessariamente só nos faz sentido a partir de tal corte que
é o da linguagem. Aqui, a distinção entre sexo e gênero é fundamental para fazer desvincular
o destino masculino hegemônico de um dado tipo de corpo (quer dizer, portador do pênis). O
corpo é também sujeito afetado e, portanto, produz subjetividades diferentes como resultado
qualitativo de suas articulações com o mundo. Nesse sentido, defendemos que o natural ou
científico são efeitos produtivos e históricos. O natural, paradoxalmente, é aquilo produzido
pelo conhecimento humano. A esta altura esperamos conseguir estabelecer a posição de que
nada é inerente e que o masculino é narrativa histórica.
Finalmente podemos tratar das cartas que os leitores enviam à redação de Playboy e
analisar aquelas que são publicadas pela revista. São cartas dO Homem Priápico, que busca
compreender o exercício de sua masculinidade por efeito da realização de técnicas corporais
reconhecidas como masculinas. Como observado antes, a despeito de um exercício hegemôni-
co de masculinidade, nem todos os homens são capazes de corresponder aos ideais criados e
reproduzidos por eles mesmos e como sua avaliação da falta ou da falha produz angústia rela-
tiva à sua percepção quanto ao ser homem. As cartas não foram analisadas uma a uma, dado
que se aplicando a mais de uma experiência os problemas se mostrariam recorrentes. Portanto,
analisamos as cartas como conjuntos temáticos.
18

De modo geral, as cartas falam de sexualidade, conforme já dito. Apenas um grupo de


cartas diz respeito a temas não necessariamente sexuais, mas de técnicas corporais que permi-
tem realizar o corpo masculino na visão do outro. Essas cartas falam sobre produzir músculos,
criar e lidar com pelos, estética e cosmética, guarda-roupa, enfim, uma certa qualidade de
vaidade masculina. Embora também a masculinidade produza um ideal de beleza, ela está
vigiada por um ideal de fronteira.
Quanto às cartas referentes à sexualidade, veremos narrativas sobre ereção, disfunção
erétil, (a falta de) cuidado com a saúde masculina, técnicas sexuais, técnicas de sedução, idade
e geração, farmacologia, tratamentos cirúrgicos e, necessariamente, o pênis. Todos estes te-
mas estão cruzados por um ideal de desempenho, de que o homem é sempre ativo e responsi-
vo ao sexo – ideal que é fonte das angústias dos leitores.
Problematizamos tanto a fala da revista como a do leitor nestas análises, evitando criar
uma idéia de que apenas a revista produz esta experiência precária de masculinidade – ou se-
já, o homem comum está mergulhado nela e a reproduz. Para distinguir cada sujeito, as falas
dos leitores estão apresentadas sem formatação especial (apenas marcadas por aspas quando
no corpo do parágrafo), enquanto as falas da revista se distinguem pelo itálico. Quando neces-
sária alguma marcação nossa, esta se distingue com o sublinhado na passagem1.
Por fim, discutimos como estas cartas falam de Uma Cara Masculinidade, em seu du-
plo sentido: é importante como linguagem para estes leitores, é meio de comunicação e inclu-
são social; e ao mesmo tempo, é um exercício custoso e precário, o sujeito está sempre aquém
de algum ideal masculino. Ao mesmo tempo, falamos aqui sobre a “fetichização do meio de
comunicação” (BARBERO, 2004), quer dizer, o poder simbólico do produto de mídia como
via de acesso à vida social. Certamente não podemos deixar de observar que Playboy produz
um discurso que é intencional e ideológico e como dispositivo, transforma as dinâmicas cole-
tivas. Se por seu lado, Playboy é um meio de comunicação, produz linguagem e reconheci-
mento, nos perguntamos por que não produzir um tipo de reconhecimento de masculinidade
menos estóica.

1
Prezando pela coerência na formatação, em toda o texto as passagens que importam fazer maior atenção estão
marcadas também pelo sublinhado, indicando nossa intervenção. Fora do conjunto de cartas, no entanto, sempre
utilizaremos o itálico para distinguir palavras ou expressões de língua estrangeiras, nomes de produtos, títulos de
bibliografia utilizada. Playboy, com inicial maiúscula e itálico, refere-se à revista, enquanto playboy, minúscula e
itálico, se refere ao personagem masculino ideal da narrativa da revista.
19

Na mitologia clássica, Príapo representa a fertilidade, a proteção das culturas agríco-


las, dos jardins, do gado e das mulheres. É frequentemente considerado filho de Dionísio e
Afrodite – ele deus do excesso, do êxtase e do hedonismo, ela deusa do amor e da erótica. Em
outras narrativas de origem, o deus é dito filho de Adônis ou de Hermes e, assim, “tende a ser
o produto de uma masculinidade bela e adolescente” (WYLY, 1994). Dada sua descendência,
é ainda mais reconhecido por outra característica: seu pênis avantajado, que o associa também
à virilidade e à sexualidade. Tal condição é resultado da vingança de Hera, que por ciúmes de
Afrodite, ou afrontada por sua promiscuidade, faz seu filho nascer com genitais enormes. Por
ser disforme, sua mãe o abandona nas costas do Helesponto, em Lâmpsaco. Considerado o
último dos deuses, não gozava de um lugar especial no panteão..
A literatura latina consagra Príapo com um gênero especial, Priapeia ou Priapea: po-
emas de exaltação ao pênis místico, de castigo inferido aos invasores e de zombarias de fundo
obsceno. Nestes poemas, segundo Mora (2003), a aproximação entre a sexualidade e a metá-
fora bélica é constante, quando se equipara o falo às armas, se comemora venturas com ofe-
rendas de armas aos deuses ou ainda pelo fato de que o “o léxico erótico do latim numa pers-
pectiva geral adoptou ao longo da sua história muitas expressões do campo semântico da mi-
lícia”.
A peculiaridade do seu órgão sexual é central na narrativa reproduzida historicamente
e é importante observar o peso dado ao pênis como marca da história de Príapo. A extrava-
gância é frequentemente vista como marca da virilidade; a forma do pênis é distanciada de sua
história própria, associando o Deus diretamente à potência sexual. No entanto, não se conside-
ra que 1) por um lado, é produto da maldição de Hera, 2) por inadequação a uma informação
estética em voga é razão de infortúnio e de seu afastamento de Afrodite e 3) a propriedade do
falo é ao mesmo tempo fonte de angústia de castração.
Mas não apenas seu falo avantajado é requerido como símbolo de virilidade, como
concorre para isso o fato de que seu órgão está em permanente ereção. Embora produzisse
estranhamento para a época, devemos observar, por outro lado, que há uma demanda pela
ereção dentro de um modelo atual de masculinidade. A possibilidade de ereção parece ser
fundamental para descrever a masculinidade traduzida pelo corpo do homem.
A ereção de Príapo, contudo, não é necessariamente prestigiosa; “é sempre a mesma,
interminável, e sem conhecer nenhuma emissão seminal, nenhuma explosão sexual”. Tal ere-
ção fora considerada patológica pelo corpo médico na Antiguidade – até terrível, “involuntá-
ria e originária de alguma inflamação, é permanente e dolorosa, desprovida de ejaculação e de
20

modo algum geradora do prazer”. Assim, “se outros deuses ganham epítetos para ressaltar os
aspectos de sua Arete divina, como Apolo comosus, Hercules lacertosous, virgineus Bacchus
e flava Minerva, Príapo será o mentulatior deus” (MONTAGNER, 2004). Convém lembrar
que chamamos priaprismo a um distúrbio da ereção, que é potencialmente danosa à qualidade
sexual, levando até à impotência sexual. Portanto, podemos ler na figura de Príapo as duas
faces da mesma moeda: a dor e a delícia de uma masculinidade sexualizada.
Mas Príapo também é conhecido por sua função de protetor agropecuário. O Deus fer-
tiliza o solo e protege a lavoura, os jardins e os pomares, assim como é da imagem hegemôni-
ca da masculinidade tradicional prover e proteger a propriedade. Aos que desafiam os terrenos
sob sua vigilância, ameaça de fazer-lhes violência sexual. Seu falo representa, assim, não ape-
nas potência sexual, mas a ameaça viril que protege a propriedade e, por extensão, seus segui-
dores. Portanto, seu aporte à sexualidade não apenas é posto em operação como arte do prazer
– como é desde sua descendência, mas também como mecanismo de poder. De fato, apenas
por reputação o Deus intimida:
promete muito, mas age pouco. Diferentemente de outras divindades que interferem
nos domínios agrícolas como mediadoras entre o homem e o seu meio ambiente,
Priapo nada faz. Apenas participa desse universo como prática silenciosa de seus
usuários, como um amuleto, como um objeto funcional. [...] reconheciam-se nele
duas funções: uma profiláctica, outra apotropéica. De início, Priapo deve contaminar
o solo por meio da simpatia, graças à imagem hiperfecundante associada à sexuali-
dade excessiva; a seguir, sua imagem itifálica deve proteger as entradas dos jardins
contra as invasões dos malfeitores, mais por sua antifascinação que por suas amea-
ças que, embora verbais, são um programa de violências sexuais bem concretas de
castigos corporais cujo instrumento executante é seu agressivo falo. Descobre-se um
Priapo cujo signo obsceno garante uma eficácia mágica, mas um deus que raramente
interessa à teologia e à historiografia antiga (MONTAGNER, 2004, grifo nosso).

Independente, entretanto, de sua presença como talismã de boas colheitas, podemos conside-
rá-lo como deus da reprodução, pois ainda lhe é reservada a proteção das mulheres grávidas.
Virilidade, sexualidade, fertilidade, propriedade, reprodução, proteção. Algumas fun-
ções em que podemos desenvolver a inscrição de Príapo na Mitologia são as mesmas funções
mandatárias postas no projeto de masculinidade desenvolvido em Playboy. E mesmo em sua
condição de Deus, Príapo é uma divindade desventurada: não tem lugar próprio no panteão –
aparece designado como filho de Dioniso e Afrodite, ou como parte do cortejo dionisíaco; sua
imagem é talhada em madeira de figo, ao invés de mármore – a palavra fícus, do latim, tem
significações obscenas e sua madeira era material considerado inútil; sofria a angústia da cas-
tração; mau perdedor; era associado ao asno – animal símbolo de sensualidade por seu órgão
sexual, é acusado da perda da eterna juventude humana, quando põe a perder o precioso
phármakon confiado por Zeus. Por todas estas razões Príapo é frequentemente tido por uma
21

divindade de segunda categoria, divus minor, precarizado pelas contingências de sua existên-
cia.
22

1
Brincando de ser homem

Corre à boca pequena que é de autoria de Vinícius de Moraes a frase: “Enquanto


eu tiver língua e dedo, mulher nenhuma me mete medo”.

Edson Aran, editor de Playboy


23

A palavra playboy levanta pelo menos duas imagens da mente do interlocutor. A pri-
meira, das mulheres lindas, sensuais e nuas. Figuras loiras, morenas, negras, ruivas, jovens,
magras, voluptuosas, sedutoras, peles aveludadas, cabelos ao vento, lingeries e marcas de
biquínis. A segunda imagem fala de um hedonismo masculino de comportamento heterosse-
xual, um querer soberano e possível, um saber refinado e um circular seguro, macho e con-
temporâneo. As duas imagens são requisitadas nesta ordem mesma: “minhas mulheres”, “mi-
nha vida de playboy”. Ambas são horizontes de uma experiência masculina proposta pela
revista Playboy: erotizadas e distantes.
Playboy é uma das revistas dirigidas ao público masculino de maior sucesso no mundo
inteiro. Todo esse sucesso, no entanto, não pode ser explicado exclusivamente pela publicação
de corpos nus em suas páginas. Revistas de nudez explícita existiam mesmo antes da década
de 1950, quando a matriz da publicação é lançada nos Estados Unidos. O fato é que a revista
publica mais que corpos nus: introduz um estilo de vida masculino extraordinário para a épo-
ca (num contexto norte americano), ou seja, hedonista e casual, “afastado das moralidades” do
emprego, vida suburbana, mulher e filhos. Desse modo, o jovem ilustrador Hugh Hefner, apa-
rentemente preocupado com um estilo de vida que aliasse seu comportamento masculino com
entretenimento, bom gosto e erotismo, se propõe editar uma revista que atendesse aos verda-
deiros interesses da masculinidade. O primeiro editorial da revista, escrito por Hefner, inclu-
sive, é expressivo desta finalidade:
Se você é um homem, se você tem entre 18 e 80 anos, então Playboy é para você. Se
você gosta de se divertir, se você aprecia um pouco de humor, de refinamento e de
pimenta na sua vida, você irá fazer de Playboy sua mais fiel companheira.
Que fique claro desde o início: nós não somos uma revista familiar. Irmã, esposa ou
sogra, se você abriu este periódico por acaso, eu lhe peço, entregue-o ao homem de
sua vida e retorne ao seu Ladies Home Companion. (...)
Nós apreciamos nosso apartamento. Nós gostamos de preparar cocktails, escutar
música suave e convidar uma mulher para discutir tête-à-tête Picasso, Nietzsche,
jazz, sexo.
Nós pensamos preencher uma lacuna apenas menos importante que aquela da qual o
relatório de Kinsey já se ocupou.(...) Playboy dará prioridade aos prazeres da vida,
Os negócios de Estado não serão abordados. Nós não temos a pretensão de resolver
os problemas humanos, nem de revelar as verdades morais insuspeitáveis. Se nós vi-
ermos a provocar algumas gargalhadas a mais e fizermos esquecer as angústias da
Era Atômica, então nós teremos o sentimento de haver cumprido nossa missão (MI-
RA, 2001, p. 105-106).

Mais que se apropriar de corpos e publicá-los, Playboy pretende movimentar vidas,


criando narrativas de entretenimento e gozo e, certamente, alimentando desejos e aspirações
nos seus leitores. No centro de sua experiência mundana estão três pilares fundamentais: a
mulher ordinária, o estilo de vida e a qualidade redacional.
24

A mulher é a base da vida útil da revista. Pelo menos é o elemento mais aparente e –
lembrando que falamos de um homem heterossexual – contundente no sentido de estabelecer
o relacionamento com os leitores. É correto justificar a presença feminina como elementar do
ponto de vista comercial, dado que a circulação deve muito à nudez – que é, sem dúvidas,
marca da revista. No entanto, se reconhecendo como A Revista do Homem, Playboy tece uma
narrativa (parcial) dos gêneros e a presença da mulher é instrumental para estabelecer as dife-
renças em relação ao masculino. Sua presença como único par (e opositor) deste homem, im-
plica que a mulher assume uma posição crítica na validação da masculinidade. Com essa ca-
racterística, está claro que o seu corpo é arregimentado como um elemento simbólico no uni-
verso masculino.
A mulher não expõe apenas o traço de diferença de gênero no mapa da masculinidade;
é também, e, sobretudo, símbolo material de uma masculinidade hegemônica. Com sua pre-
sença, a experiência de ser homem justifica-se pelo desejo, erotismo e investimento no sexo.
Nas páginas da publicação a forma mais legítima – e inconteste – de experimentar a masculi-
nidade está na demanda pelo sexo oposto e nos comportamentos sexuais implicados nestas
relações. Portanto, à mulher não é apenas creditada a posição de objeto de desejo do homem;
ela orienta uma experiência masculina baseada no desejo heterossexual. Ela traduz as expecta-
tivas que Playboy pauta e reivindica, conduz às nuances do comportamento considerado pró-
prio para seu homem-publicado2.
Fica claro, então, que a mulher é coisificada; e é importante compreender sua função
como objeto articulador do universo masculino heterossexual. Ela constitui um conjunto de
marcas simbólicas e topográficas (conforme ficará claro mais à frente) e é objeto mistificado
para observância do comportamento sexual do homem. Portanto, seria mais adequado falar
em uma figura feminina (como estratégia discursiva da masculinidade hegemônica), dado que
ela nem ocupa um lugar de ação como sujeito na narrativa da revista.
É sintomática sua objetificação se observarmos que esta mulher não tem uma história,
mas uma teatralização da vida feminina em função dos desejos do seu par, o playboy. Ela exi-
be marcas que alimentam os fetiches deste macho, seja nas características de seus desejos
românticos e sexuais, seja na sua própria forma de apresentação na revista – nua ou não. To-

2
Aqui chamo homem-publicado a um modelo masculino construído pela estratégia pedagógica da revista para
forjar um dado comportamento alinhado à masculinidade hegemônica. Este modelo é inspirado em um homem-
médio da vida cotidiana, mas, ao mesmo tempo, plastificado por uma posição peculiar de exercício de masculi-
nidade proposta pela revista.
25

das estas propriedades, por assim dizer, são reivindicações da narrativa operada e se transfor-
mam em imagens de uma mulher sensualizada, ofertada e submissa.
No entanto, apesar da condição de objeto, vemos que a figura feminina é ao mesmo
tempo um dos vetores que infiltram problemáticas às biografias masculinas. Em primeiro lu-
gar, vale observar que este homem que se afirma heterossexual estabelece uma relação de
dependência com o corpo feminino: ele é tanto mais homem quanto mais corpos femininos
pode conquistar – e tanto menos, se não for competente para tal. Nesta relação, a prevalência
da autonomia como aspecto constitutivo da masculinidade já é ambígua. Fora dos limites da
revista – que é um ambiente plástico, milimetricamente administrado, por isso é necessário
estabelecer contrapontos com o ambiente social – como a mulher luta por oportunidades e
direitos equitativos, assume autoridade pelo seu corpo, este homem já não se encontra na po-
sição de quem se define no domínio da propriedade dos corpos alheios; agora, negocia sua
diferença de acordo com os interesses dela também. Claro que, na revista, a mulher (dócil)
não coloca obstáculos a uma autoridade masculina, pois os produtores têm o controle da teci-
tura de uma narrativa de masculinidade. Porém, sua presença interdiz o maior (des)equilíbrio
entre as posições de gênero.
Deste modo, a mulher-ordinária – também no sentido aplicado por Michel de Certeau
(1994) a um “homem-ordinário” – não pode ser exclusivamente objeto na revista. Ela é mani-
pulada e exibida como mercadoria, porém, como um ser no mundo, ela reinventa os modos de
fazer, introduz as fissuras da experiência contemporânea na vida do sujeito masculino. O pro-
blema posto é este: se o playboy “não pode” deixar de eleger a mulher como símbolo funda-
mental, ao mesmo tempo, não pode impedir que, subliminarmente, ela apresente/represente o
rearranjo caótico da experiência social neste espaço liminarmente masculino. Neste sentido, A
Revista do Homem tem, em termos, a autoridade de definir qual posição a mulher parece as-
sumir (em suas páginas), mas não pode impedir que sua presença implique na relação de de-
pendência, que apenas em superfície é disfarçada por todos os elementos de diversão mascu-
lina.
Embora a revista demande valores tradicionais da construção do homem, pois ao se
afastar deles se afasta de todo o sistema simbólico já reconhecido no exercício social, eles já
não se aplicam da mesma forma para traduzir a experiência masculina e a mulher é o primeiro
aspecto denunciador da necessidade de uma reflexão sobre uma masculinidade diferente. A
masculinidade contemporânea não se afirma exclusivamente pela relação de submissão à au-
toridade do homem e à fragilidade do sexo feminino. No caso de Playboy, ao coisificar a mu-
lher, não apenas está re-enquadrando um elemento distintivo dos interesses masculinos, mas
26

parece tentar a retomada de uma dada solidez nas relações de gênero – solidez que se traduz
por uma mulher submissa e sexualizada e um homem potente, fugindo às possíveis transfor-
mações na vida masculina contemporânea.
Ao mesmo tempo, como imagem objetivada e massificada, a presença feminina serve
como diversão (no sentido de divergir as atenções de um dado objeto) para a importância do
mercado de estilos de vida na mediação da posição masculina como exercício social.
Incluindo, portanto, a figura feminina, a seleção dos conteúdos em Playboy é bastante
peculiar, embora se pretenda comum. Mais que uma revista para homens entre “18 e 80 a-
nos”, Playboy é um veículo que requer e constrói elementos peculiares para a experiência
masculina. Jazz e cocktails são metáforas para um mercado de consumo que se desenvolve ao
largo da revista, mas apoiado por sua influência. Dado seu sucesso, a publicação tem o privi-
légio convergir produtos que representam seu projeto – alimentando nos leitores aspirações de
ter e ser. E a masculinidade proposta nela está pautada nestas aspirações.
Uma leitura interessante deste mercado masculinizante é feito por Beatriz Preciado em
Pornotopía (2010), uma análise reveladora de como, mais que um domínio da nudez, Playboy
é uma narrativa dos estilos de vida pelos quais um certo modelo masculino ganha força. Nesse
projeto, é a arquitetura que traduz a relação íntima do exercício masculino com sua apresenta-
ção social.
Preciado mostra como, na produção da experiência masculina a partir do legado ame-
ricano da revista, “o apartamento do solteiro” é montado sobre as influências de uma vivência
hedonística. É altamente erotizado, porque permite ao playboy desfrutar dos prazeres conquis-
tados por uma moral semi-nova de existência independente, que é aquela que a filosofia de
Playboy ensaia popularizar. Como a revista, o apartamento brinda a nudez com os ambientes
amplos divididos por limiares transparentes, ou com o aparato tecnológico que invade os cor-
pos que circulam nesse espaço “tecnificado e ultraconectado a redes de comunicação” (p. 90,
tradução nossa). Os corpos representam um novo nível de decoração, seja como presença, seja
pela imagem captada pelo aparato tecnológico ou ainda como mobiliário, que desafia a ordem
do comedimento e flerta com novo design, cor e materiais, mostrando seu ingresso em uma
nova era de desfrute. É o lugar em que o homem curte livremente o gozo como horizonte de
vida e valor pessoal.
Esse é um dos lugares que retratam como Playboy penetra o mercado de bens simbóli-
cos (masculinos) – e a revista é, com efeito, o bem primordial – alimentando desejos materi-
ais, em paralelo aos desejos eróticos, no esforço de congregar os leitores em um círculo de
27

saberes – construídos e que orientam o pensamento, os gostos e os comportamentos masculi-


nos.
Mas como este mercado é operado?
Da mesma forma como as mulheres estão publicadas na revista, Playboy revela um es-
tilo de vida distante, desnudando formas de consumo especializadas e refinadas. Estes produ-
tos são imagens de uma narrativa de vida improvável – os produtos estão quase tão distantes
quanto as estrelas da capa; e, da mesma forma, se insinuam para ganhar o leitor. É numa soci-
edade de consumo que segrega os produtos e os consumidores que o mercado de Playboy fun-
ciona. São produtos de alta tecnologia, automotivos, bebidas sofisticadas, espaços de sociabi-
lidade como bares, clubes e atividades esportivas que estão longe de ser triviais.
Esta experiência carrega os próprios produtos com atributos de gênero, separando
quais bens e para quem é legítimo seu uso. Certamente são operações arbitrárias de definição
das posições masculinas ou femininas, mas funcionam como escopo das atividades reconhe-
cidas nestas performances. Em última análise, o homem médio não consome os produtos –
com exceção da revista mesma – mas o sistema simbólico que define a experiência em ques-
tão. E esta experiência é valorizada no imaginário público, embora o leitor nem sempre tenha
acesso. Assim, este mercado resulta
na transformação da mercadoria num signo, no sentido de Saussure, cujo significado
é determinado arbitrariamente por sua posição num sistema auto-referenciado de
significantes. O consumo, portanto, não deve ser compreendido apenas como o con-
sumo de valores de uso, de utilidades materiais, mas primordialmente como o con-
sumo de signos (FEATHERSTONE, 1995, p. 122).

O sistema que referencia o mercado de Playboy credita ao homem os atributos da e-


nergia e potência muscular, ação e pró-atividade, pensamento crítico e vigor sexual. Não por
acaso, são as mesmas imagens incorporadas aos itens em exibição, quase como uma mitologia
editorial contemporânea, em que o homem consome não o conteúdo, mas o valor do produto,
para efeito de “acumulação de masculinidade”.
Assim, são publicados carros velozes nas ruas da cidade, e, em outros contextos, car-
ros que alcançam os obstáculos intransponíveis do terreno campestre, assim como ao playboy
é permitido circular entre diversos espaços de sua escolha soberana, não encontrando grandes
impasses aos desejos que te motiva. Esses modelos são qualificados em sua força e capacida-
de desbravadora dos terrenos, do mesmo modo como os seus “legítimos usuários”. Levam o
playboy ao bar, ao encontro de outros que, como ele, investem em bebidas que só se encon-
tram ali e mulheres que o playboy não teria dificuldade de conquistar, pelo seu charme, pela
sua conversa, até mesmo pela sua aparência (de quem já é consumidor da indústria estética,
28

cosmética e farmacológica), e em última instância porque é algo dado o seu magnetismo. Este
retrato do desbravador do mundo poderia ainda ser tecido em sua relação com os produtos de
tecnologia que são triviais para um leitor instruído e portador de conhecimentos especializa-
dos; da mesma forma com os produtos de moda, com os quais ele já não se compromete ao
conhecer, ou com os cosméticos, que só muita segurança de sua masculinidade pode assegurar
o uso.
De todo modo, não é tanto o produto que define a experiência masculina em Playboy,
mas uma associação simbólica a partir do dos produtos – já que a evidência material enrique-
cida por técnicas publicitárias não é uma especificidade da revista. O que está em jogo para
alinhar este mercado à vida masculina é uma discussão não expressa sobre “o que consumir?”
e “como consumir?” – assim como em toda sua extensão Playboy é um manual do certo e do
errado dirigido ao comportamento masculino heterossexual.
Segundo Featherstone (1995), o fundamento de uma cultura de consumo (pós moder-
na) é a expansão da produção de mercadorias e a consequente acumulação de cultura material.
A transformação básica neste cenário é o desenvolvimento de uma hegemonia do valor de
troca, que triunfa sobre o valor de uso transformando em quantidades as propriedades cultu-
rais. A engenharia de funcionamento do consumo é baseada na produção de imagens que,
enquanto signos e aliadas ao valor de troca, deslocam a
produção para a reprodução, para a reduplicação infinita de signos, imagens e simu-
lações por meio da mídia, abolindo a distinção entre a imagem e a realidade. Assim,
a sociedade de consumo torna-se essencialmente cultural, na medida em que a vida
social fica desregulada e as relações sociais tornam-se mais variáveis e menos estru-
turadas por normas estáveis. A superprodução de signos e a reprodução de imagens
e simulações resultam uma perda do significado estável e numa estetização da reali-
dade, na qual as massas ficam fascinadas pelo fluxo infinito de justaposições bizar-
ras que levam o espectador para além do sentido estável (p. 33-34).

Este valor de troca pode ser entendido como o capital conquistado pelo playboy ao acessar o
conjunto simbólico proposto. A revista expõe signos que iludem o acesso ao capital econômi-
co, capital intelectual e, sobretudo, ao capital masculino – pois a masculinidade, como conhe-
cimento social, é uma qualidade atribuída e, também, a ser conquistada.
É importante marcar, portanto, que este homem não se afirma apenas por um tipo de
acessibilidade aos produtos da revista – e à própria revista – mas porque ele é, pensa ser ou
quer ser conhecedor daqueles comportamentos que acionam o mercado simbólico. Embora
Playboy recrute atributos masculinos nos bens que publica, a relação fundamental a ser verifi-
cada aí não é exclusivamente de propriedade, mas de conhecimento. Ter e saber se hibridizam
em saber ter e ter saber.
29

Neste contexto o conhecimento se torna importante: conhecimento dos novos bens,


seu valor social e cultural, e como usá-los de maneira adequada. Esse é, especifica-
mente, o caso dos grupos aspirantes, que adotam uma atitude de aprendizes perante
o consumo e procuram desenvolver um estilo de vida. Para esses grupos, como as
novas classes médias, a nova classe trabalhadora e a nova classe rica ou alta, são
muito importantes as revistas, jornais, livros e programas de rádio e televisão associ-
ados à cultura de consumo, que enfatizam o aperfeiçoamento, desenvolvimento e
transformação pessoais, como administrar propriedades, relacionamentos e ambi-
ções, como construir um estilo de vida realizador (p. 38).

Playboy é o produto fundamental deste mercado, pois o leitor não adquire uma publi-
cação impressa, mas o retrato de vida que ela representa no imaginário social. Nesse sentido,
a revista é, em termos, uma filosofia irrefletida, uma alegoria de masculinidade, porque toda a
experiência proposta – sobretudo de acesso e desfrute de certos produtos e dos conhecimentos
especializados/refinados – não está ao alcance de todo leitor. Na verdade, é uma experiência
que congrega seus pares promovendo sua emergência por um estilo de vida distante – e que a
revista se ocupa de “aproximar”. Não implica dizer com isso que seja um modo falso de expe-
rimentar a masculinidade – mesmo porque se os créditos desta vida hedonista são pouco pro-
váveis ao homem médio, isso não significa que ele não os valorize; o que pode ser visto
quando os leitores se ocupam em usar a revista.
Ainda é importante considerar que toda a conjugação de signos sensualizados (da mu-
lher e do estilo de vida) só é capaz de conquistar o leitor por meio de uma ilusão retroalimen-
tada de que Playboy é a revista que compartilha dos verdadeiros significados do universo
masculino. Essa ilusão (não uma farsa, mas um simulacro das possibilidades de vida masculi-
nas) é articulada pelo discurso que defende uma masculinidade hegemônica, o hedonismo e a
experiência autônoma como elementares e se caracteriza pelo aspecto de excelência redacio-
nal que Playboy tanto requer como sua característica.
Qualidade redacional deve ser entendida não apenas como a competência técnica na
manipulação da língua, do vocabulário, mas a capacidade de articular a semântica, por assim
dizer, transformando e erigindo discurso, imagem e ideal. Amarra os elementos constitutivos
de uma fábula contemporânea sobre a masculinidade por meio do reforço ou rechaço de cer-
tos temas.
No centro da revista estão muito mais que os corpos femininos, mas os corpos mascu-
linos, ou as performances de vida masculina, cujas atitudes e atividades sofrem um processo
de normalização pelo discurso editorial. O homem para o qual a revista fala conjuga algumas
qualidades “bem definidas” e ignora outras: ele é socialmente ativo, seguro, independente,
bem sucedido, inteligente, persuasivo, notório, ousado, versátil, confiante, mas sobretudo se
define por seus desejos eróticos, por ser sexualmente ativo e ter bom desempenho sexual. Em
30

suma, Playboy cria uma masculinidade em que o homem é sempre viril sexualmente e ativo
socialmente.
No entanto, a despeito do projeto de um leitor crítico, os temas da revista são, via de
regra, recorrentes, o que de certa maneira denuncia um “repertório masculino” comprimido,
pouco solidário à diversidade. Se por um lado Playboy propõe ao seu leitor que exerça a sua
autonomia, defendendo sua experiência por meio da casualidade e do hedonismo, por outro,
sequestra dele a possibilidade de construir sua própria sensibilidade. Os temas que organizam
esse repertório escondem uma reação à dilatação da experiência do sujeito, que inseriu o pro-
blema das múltiplas possíveis articulações com o mundo.
Nesse sentido, é importante uma reflexão inicial sobre o que promoveria essa com-
pressão temática. Em primeiro lugar, deve estar patente uma motivação comercial: a pauta
deve gerar interesse e, ao contrário, não alimentar discrepância com o interesse do leitor. Afi-
nal, como todo produto de massa, a revista tem metas de circulação. Contudo, é importante
perceber que estas metas não são apenas financeiras (certo que a revista não se financia com
vendas domésticas, mas com publicidade), mas também, e sobretudo, dizem respeito à experi-
ência de marca. A presença no imaginário do consumidor é o que faz Playboy um império do
entretenimento pornotópico. Certo é, então, que a própria revista mecaniza temas de interesse
geral, para felicidade da nação masculinizada, evitando os temas que irão levantar alguns lei-
tores em desacordo.
Ao fazer esse tipo de recorte, a revista investe em uma posição institucional de cons-
trução social da masculinidade. Uma masculinidade que reitera o valor heterossexual como
constitutivo da vida do homem, jamais define qualquer indivíduo como seu representante,
requerendo amiúde evidências. Não por acaso, é um pensamento repleto de símbolos, materi-
ais e comportamentais, por vezes ambíguos e, sobretudo, nunca seguros: somente da imersão
neste domínio pode resultar (o que não é seguro) um sujeito masculino. Para enfrentar esse
terreno movediço, Playboy elege imagens de masculinidade e por meio de seu prestígio e dis-
curso de longa data os reforça publicamente. Em sua perenidade, a imagem não apenas impli-
ca o retrato da contemporaneidade, mas se transforma em um suporte intelectual e serve como
instrumento educativo.
Ela se tornou, com efeito, o meio fugidio, superficial e ilusório mediante o qual uma
sociedade individualista de coisas transitórias apresenta sua nostalgia de valores co-
muns. A produção e a venda destas imagens de permanência e de poder requerem
uma sofisticação considerável, porque é preciso conservar a continuidade e a estabi-
lidade da imagem enquanto se acentuam a adaptabilidade, flexibilidade e o dina-
mismo do objeto, material ou humano (HARVEY, 1989, p. 260).
31

Como produto de mídia, a revista é mergulhada em um misticismo duplo: do poder do


produto de comunicação de massa, como se houvesse uma imparcialidade em sua produção e
verdade absoluta em sua divulgação; e de ser um espelho legítimo da experiência masculina,
conforme o editor Edson Aran comenta: “Nós somos craques em qualquer assunto que inte-
ressa ao homem moderno. [...] Playboy sabe do que fala” (2009f, p. 10).
Vale observar que esse fenômeno deve também sua ocorrência a uma dita “crise da
masculinidade”. É certo que Playboy refuta qualquer crise na experiência de ser homem – o
editor chega a dizer, na edição de janeiro de 2007, que o “novo homem” é uma farsa industrial
(2007a, p. 45) – mas há temas delicados como o homoerotismo, a inapetência sexual, o casa-
mento ou a condição feminina, derivados de uma nova organização social e performance dos
sujeitos. É importante, no entanto, salientar que há uma narrativa nestes não-ditos e interditos;
o playboy se reconhece em determinados temas e se desestabiliza ao se afastar deles.
O discurso da revista valoriza a experiência confortável, estereotípica, a despeito de
sua aparente ilusão de liberalismo e inovação no mundo editorial. A esse respeito, é bastante
importante marcar que Playboy não é uma revista de discurso verdadeiramente libertário e
inovador. Como percebe-se com Pornotopía, o império de Hugh Hefner se constitui muito
mais por um sequestro dos corpos alheios e entretenimento irrefreado do que num projeto de
nova masculinidade. Preciado mostra que essa experiência é assentada em uma pós-
domesticidade, não para um homem inovador em questão de prazeres e moral, mas de um
homem que, lutando contra um contexto castrador, inventa espaços de sobrevivência como o
“apartamento do solteiro” e o “bordel multimídia”, expulsa a mulher da administração do es-
paço doméstico e a transforma em um objeto em trânsito (sexual). No entanto, os objetos de
seus prazeres continuam os mesmos, a forma de apropriação deles também.
A pergunta que segue sobre este encurtamento crítico do playboy é se, assim como a
pós-domesticidade é o reduto de uma “reenergização masculinizante”, significa que o mundo
masculino está evitando problematizar a sua própria experiência social? Parece que os temas
legítimos – na verdade, pacíficos – fazem sobreviver parcialmente o retrato de um homem
provedor-protetor-potente, zona de conforto que, de fato, é reproduzida como espelho da hete-
ronormatividade idealizada – e não o apenas pelos homens heterossexuais.
Em diversas ocasiões é possível identificar Playboy contornando o epicentro de um
novo entendimento sobre masculinidade, contra uma pluralidade contemporânea: flertando
com a mulher ordinária, atividade sísmica na vida do homem médio; ignorando/recrutando o
prazer dito homossexual; narrando a experiência de descobrimento do seu corpo no mundo;
ou a experiência de consumo da masculinidade hegemônica.
32

Firmada sobre estes três pilares Playboy é a revista masculina de maior sucesso no
Brasil. Neste caso, seria importante questionar quais motivos ancoram este sucesso. Está claro
que, na era do conteúdo virtual gratuito, o elemento fotográfico não é justificativa suficiente.
Talvez os homens em crise recorram ao discurso desta masculinidade para se proteger e pro-
tegê-la da ansiedade e de um mundo de diferenças.
É extremamente importante pensar nestes três pilares como mecanismos complemen-
tares, que concorrem para alcançar os objetivos comerciais e filiais da revista. E mais, é im-
portante pensar nas tramas que eles carregam, pois guardam um argumento fundamental: de
que é no estabelecimento de uma relação de compreensão “entre iguais” que Playboy constrói
seu privilégio em pautar uma posição de masculinidade. Assim, embora não esteja completa-
mente refletido no seu universo leitor, o ideal masculino que a revista propõe estabelece uma
forte relação de aspiração e autoridade.

Ler com uma mão só


Ao se organizar em torno da mulher ordinária, dos estilos de vida e da qualidade reda-
cional, Playboy se integra às vidas dos seus leitores por meio da produção de imagens. Isso
não significa exclusivamente a mulher nua, mas também uma vida masculina erotizada em
todos os seus segmentos, de um hedonismo levado a cabo. Assim, testemunhamos a circula-
ção de imagens como “a revista para ler com uma mão só”, “levar uma Playboy para o ba-
nho”, “leio Playboy por causa da entrevista”. Todas elas devem sua popularidade à forma
como esse discurso é posto em operação, buscando reforçar a posição de Playboy na vida do
homem brasileiro como produto midiático que, por excelência, compreende das questões
masculinas.
Como produto exemplar da sociedade do consumo, a revista se transforma em retórica
de uma moral da autoridade masculina, reproduzindo por meio de sua proposta editorial um
ambiente aparentemente comum para tal experiência, sem, contudo, se preocupar em explorar
um universo na qual a experiência de um homem-médio é possível. As imagens que acompa-
nham e constituem a revista são importantes não apenas para elaborar um quadro referencial
na mente do leitor, mas também uma forma de exercício dos prazeres no consumo. A revista
para ler com uma mão só significa que uma mão busca a resposta do corpo ao apelo hetero-
erótico, este corpo imediatamente ativo, sexualmente disponível, certamente um instrumento
integrado à leitura; e, por outro lado, a segunda mão está livre para tatear o mundo material
construído por Hugh Hefner.
33

Desse modo, pode-se perceber em Playboy dois percursos básicos de leitura: uma “lei-
tura excitada” e uma “leitura incitada”. Ambas concorrem para qualificar comportamentos,
enunciando traços distintos, mas complementares, de uma experiência compartilhada. A pri-
meira é aquela que sempre elege a figura feminina como horizonte da masculinidade. O leitor
que abre a edição mecanicamente segue até o pôster central, somente depois contemplando
todo o ensaio da estrela de capa; depois passa a apreciar também os ensaios do entorno. É
leitura excitada, pois a revista usa estratégias de erotização dos objetos (mulheres) para rei-
vindicar um corpo que responda ao estímulo que o verifica como masculino. É a nudez, e a
resposta do leitor a esta nudez, que está no centro do jogo. No entanto, a “leitura incitada” não
é menos importante, pois sua função é mais sutil na pedagogização da experiência masculina:
neste percurso se pretendem legítimos os produtos, os temas, as discussões. De modo que
ambas as formas de leitura estão mediadas por expectativas sociais. Vale sublinhar que a figu-
ra feminina, embora fundamental, concorre com uma série de atributos comportamentais,
cosméticos, estéticos etc. para orientar um retrato de homem; enquanto ela é explícita como
tema da masculinidade, há uma gramática implícita para normatizar o masculino.
Assim, vê-se uma publicação que requer como elementos de distinção a ilustração e
sensualidade explícitas, estabelecendo na mulher o objeto aparente e fundamental para a cons-
trução da masculinidade. Por outro lado, há a influência da comunidade masculina, na posição
de sujeitos que exercem comportamentos e gostos compartilhados. As expectativas sociais
hegemônicas para o homem e a mulher estão dispostas antes da revista, são construções cultu-
rais que buscam assentar qualidades diferentes para cada sujeito. O autoconhecimento se esta-
belece no reconhecimento do outro, da diferença que separa suas experiências e, sobretudo,
nas disputas em que estas posições de gênero estão investidas. Nesse sentido, Playboy repro-
duz a narrativa de um “sexo forte” contra um “sexo frágil”. No jogo com estes pares, a revista
tende a construir em suas edições um ideal que, embora não possa ser inteiramente refletido
no universo leitor, é autorizado e compartilhado.
Se o pôster de três páginas no centro da revista é o ápice da experiência sensual, então,
está mais que marcada a condição da mulher como objeto nesta experiência masculina. Para a
revista, isso significa que ela é o signo topográfico, que organiza toda a edição e orienta a
leitura – e a estratégia comercial. Para o leitor, significa que há um elemento fundamental,
que, por oposição, lhe define em todas as instâncias de sua sociabilidade.
O pôster é, assim, o início de uma experiência de relacionamento com as imagens da
revista que se desenvolve a partir do ato de desdobrar estas três páginas. Ele é fundamental
mesmo antes de a revista ser aberta e folheada, tem uma “vida própria” na mente do leitor,
34

cria expectativas dos seus prazeres eróticos. Como conteúdo, o pôster integra uma série de
Ensaios fotográficos de mulheres nuas; em toda edição, Playboy publica três deles, que não
somente explicitam mulheres para todos os gostos, mas organizam os temas do mundo mascu-
lino.
Os Ensaios orientam a missão e o mapa da revista. Representam 1) o conceito editori-
al, de ser uma revista masculina que define como um dos seus pilares a exposição fotográfica
do corpo feminino; 2) o investimento comercial, pois os corpos publicados são aqueles cobi-
çados pelo leitor e o que converte a revista em sucesso editorial (prestígio, volume e arrecada-
ção); e, sobretudo, 3) a relação dos gêneros, a representação social das bipolaridades homem x
mulher, dominador x dominado, forte x fraco, produtor x produto.
Como parte do percurso de leitura excitado, a disposição dos Ensaios reflete uma me-
táfora gastronômica. Em primeiro lugar é apresentado um ensaio curto com uma modelo des-
conhecida; é o que poderíamos chamar de prato de entrada, que vai anteceder a exibição da
esperada “estrela do mês”. A estrela do ensaio (prato) principal é marcada em sua condição de
figura especial, cobiçada pelo imaginário do leitor antes mesmo de estar nas bancas de revis-
tas. Para fechar a edição, há sempre uma sobremesa, com gostos diferentes e a presença de
muitas modelos estrangeiras. Fica claro o esforço em apresentar diferentes temperos ao leitor.
Uma ligação com o paladar, aliás, não é traço isolado. Indica uma relação de poder en-
tre homem e mulher e explicita uma experiência erótica que também se traduz através da sen-
sação oral – como no caso brasileiro em que o verbo comer, diferente das qualidades ligadas
exclusivamente ao paladar, tem um uso erótico (CHAUÍ, 1985, p. 34-35). A relação entre
mulher e comida é mais que uma curiosidade linguística própria de Playboy; mas, como indi-
ca o antropólogo Roberto da Matta (1984), é um traço cultural. No uso brasileiro do paladar, o
homem come enquanto a mulher cozinha e dá comida.
Não é, pois, por acaso que muitas figuras de nosso panteão mitológico são mulheres
cozinheiras ou que sabiam usar as artes da culinária para conseguir uma posição so-
cial importante. Gabriela e Dona Flor são cozinheiras de rara capacidade e estilo;
também Xica da Silva [...] foi genial articuladora de temperos [...]. São segredos que
permitem uma inversão do mundo, fazendo com que a cabeça seja trocada pelo es-
tômago e pelo sexo (onde todos os homens se igualam e se deleitam...) (p. 61).

Esta relação ganha maior peso se a percebermos no conhecido dito popular “homem se pega
pelo estômago”. À medida que esta mulher está disponível para “ser comida”, a revista quer
sustentar a posição do homem como principal sujeito de poder da relação entre gêneros: “a
comida, como a mulher, desaparece dentro do comedor” (p. 61). A existência feminina está
subordinada às necessidades masculinas e, desta maneira, a mulher que está publicada nas
fotos é mais que um objeto a ser cobiçado pela visão, é também apreciado pelo paladar. Por
35

isso ela é a “sambista deliciosa” (2009b, p. 127), “delícia de loira” (2009e, p. 1), “saborosa e
suculenta” (2008f, p. 124), “doce como cajuína” (2008i, p. 4), ela “mostra o seu fruto”
(2009c, p. 151), tem “jeitinho deliciosamente distraído” (2009d, p. 147) e “gostinho de quero
mais” (2007f, p. 131). Sem contar que as mulheres de Playboy são sempre “gostosas”. Portan-
to, “Saboreie” (2008h, p. 156).
Na medida em que têm o privilégio da apresentação da figura feminina, os ensaios
guiam a pauta da revista. De modo que todo o conteúdo faz parte de uma experiência de leitu-
ra que tem na mulher nua seu organizador. O primeiro ensaio é antecedido pelo editorial, En-
tre Nós, e as seções Caro Playboy, PLAYBOY digital, Happy Hour, PLAYBOY Responde,
Gatas e coelhinhas, Neurônios e Entrevista. Nestas primeiras páginas, o conteúdo se caracte-
riza por pequenas notas sobre os entretenimentos caros ao playboy – o corpo feminino, sexo,
bebidas, automóveis etc. As primeiras matérias aparecem nas páginas que separam o primeiro
ensaio e as fotos da estrela de capa. A coluna do jornalista Ivan Lessa, Sobre isso e aquilo,
também é publicada neste espaço. Geralmente, duas reportagens são publicadas após o ensaio
de capa, seguidas por guias de exploração (destinos, bebidas, esportes etc.). Por fim, mais um
ensaio separa as seções Estilo, 20P, Mundo de PLAYBOY, Click, As piadas de PLAYBOY, que
fecham a edição.
PLAYBOY digital, Gatas e coelhinhas, Mundo de PLAYBOY, Click e As piadas de
PLAYBOY exploram a sensualidade da mulher de modo mais explícito – embora não sejam
seções de ensaios fotográficos. Em Playboy digital, a revista mostra que todo o conteúdo que
interessa ao leitor também pode ser acessado pela internet ou telefone, ou seja, todas as mu-
lheres de Playboy estão à distancia de um link. Claro que há notas sobre outros conteúdos,
mas a mulher é aí também produto prestigiado. Gatas e coelhinhas apresenta breves perfis de
três mulheres, explorando seus corpos e atividades e gostos sexuais. As perfiladas têm foto-
grafias publicadas em trajes sensuais, geralmente biquíni ou lingerie; não estão tecnicamente
nuas, mas insinuam o corpo. O Mundo de PLAYBOY apresenta as festas de lançamento das
edições da revista, com foco na estrela da edição e convidadas da festa. Click é uma seção de
flagrantes fotográficos de mulheres, geralmente famosas, em momentos de lazer, poucas rou-
pas e pouco cuidado.
Reservada ao humor, As piadas de Playboy recebe material enviado à redação pelos
leitores. A figura da mulher-objeto marca presença na seção e, de modo geral, as piadas têm
relação com o universo das práticas sexuais. A novidade fica por conta da presença evidente
de uma figura masculina mais elástica: tanto do playboy, pró-ativo, viril e esperto, como tam-
bém um homem que não se encaixa perfeitamente neste perfil, desvia do ideal masculino, é
36

enganado ou ridicularizado em alguma situação social. Neste momento, pode-se perceber um


outro homem emergir das fissuras da revista.
Um fato importante a ser reforçado é que a revista desde sua idealização é um espaço
de saberes, da criação de um código comportamental e uma disciplina que tenta estandardizar
uma sociabilidade para homens. Por isso mesmo, toda a experiência proposta não pode se
assentar exclusivamente na função que a figura feminina desempenha, mas também nas narra-
tivas de coalizão de um saber masculinizado, que está alinhado com o ideal dominante do
homem objetivo, conquistador, autônomo. Essa coalizão é simbólica, própria daquela que
chamamos “leitura incitada,” realizada por meio do conteúdo selecionado para traduzir mas-
culinidade, ao mesmo tempo que apresenta o perfil do playboy, que é um sujeito que exercita
sua masculinidade por meio de certas imagens.
Retrato deste compromisso assumido de ser A Revista do Homem, a seção Happy
Hour é criada à imagem e semelhança de uma boa conversa entre amigos, em que assuntos
diversos são postos à mesa, discutidos sem (grandes) polêmicas – como não é uma seção de
cartas, fica por conta da redação publicar ou não uma eventual discordância do leitor à respei-
to do conteúdo. É certo que todo material assume uma posição editorial, que é mais ou menos
inofensiva, mas há sempre os casos em que o leitor irá se opor a esta opinião, mostrando que
o retrato de vida masculina de Playboy não é compartilhada por todos. Em pequenas notas
fala-se de tudo: mulheres, política, economia, gastronomia, sexo, cultura etc. Esse formato vai
se repetir em Neurônios, quando a revista apresenta/opina sobre produtos da TV, cinema, mú-
sica, literatura e games. Vale observar que, nesta seção, está colocada a questão do bom gosto,
do bom produto cultural, afinal toda seleção obedece a um critério de seu produtor e, nesse
caso, os produtores oferecem as suas histórias de vida para dar vida ao playboy. Assim fala-
mos de um homem com um gosto apurado, ampliado e crítico, conhecedor e adorador do en-
tretenimento com conteúdo. Ou seja, a revista valoriza um capital intelectual, por assim dizer,
e aposta no mercado de consumo como espaço para operar distinções. Como Neurônios, a
seção Estilo propõe ao leitor uma experiência de consumo orientada pela ideia de bom gosto.
Nesse caso, é o universo da moda que está em questão.
De certa maneira, há uma linearidade entre Neurônios e Estilo, por serem as duas edi-
torias-guia de bom gosto. Há, entretanto, duas características básicas que ajudam a distingui-
las: a primeira é o fato de os produtos apresentados em Neurônios, ainda que sejam exempla-
res selecionados, são mais ou menos acessíveis a uma faixa de público mais extensa. É claro
que os produtos são acompanhados de julgamento de qualidade, que se traduz em um perfil de
consumo, mas há de se perceber que no caso do cinema, música, games, livros, há uma flexi-
37

bilidade de acesso, tanto no que diz respeito à possibilidade de aquisição – já que a curva de
preços dos produtos será, comparativamente, mais baixa – como em relação à flexibilidade de
uso – uma vez que um único exemplar de livro ou DVD podem ser consumido por mais de
uma pessoa. Os produtos de Estilo são mais distintivos: o seu acesso é dispendioso, portanto
aponta para um grupo de poder aquisitivo mais elevado.
Por fim, a Entrevista de Playboy, amplamente reconhecida por sua qualidade e perso-
nagens, dá privilegio a figuras que se transformam em exemplares de conduta e história de
vida masculina. É incomum que o personagem da Entrevista seja uma mulher – na série de
revistas estudadas, nenhum personagem foi feminino. Os entrevistados têm alguma notorie-
dade por seu desempenho profissional, uma certa dose de magnetismo, pró-atividade e são
sempre personagens fortes. Não são homens necessariamente famosos (no circuito artístico da
mídia), mas também poderosos ou influentes. Estes exemplares oferecem ao playboy um am-
plo leque de expressão da masculinidade, sempre segura, decidida. Nesse caso, todos os en-
trevistados são “machos-alpha” (2007a, p. 44), e resultam sempre em modelos marcantes,
bem sucedidos, ativos, evidentes e inteligentes. A seção 20P (20 perguntas), por outro lado, é
uma forma de entrevista breve, com uma celebridade evidente – incluindo mulheres desta vez.
Os assuntos são mais amenos, mas há uma tendência de questionar sobre a vida íntima do
entrevistado.
A articulação de todo este conteúdo supostamente expressa os interesses do homem e,
mais importante, é tecido como um mapa de masculinidade. Que este homem se interesse
pelas fotos, pelos textos, pelas entrevistas ou pela publicidade, em toda sua extensão Playboy
encerra os recursos (que julga) necessários para o exercício da experiência masculina e para
sua afirmação. Por isso, o homem pode tomar qualquer caminho dentro da revista, e ele sem-
pre deverá se perceber masculino, sempre compartilhador deste universo e, ao final, a revista
conseguirá transportá-lo daquilo que ele procura para aquilo que ele “precisa saber”, em um
tour que, com tantos caminhos, quer afirmar que são poucos os sinais fundamentais para a sua
existência e a “emergência” de adequação ao seu modelo.
38

2
Masculinidades

O homem que diz “dou” não dá, porque quem dá mesmo não diz/ O homem que diz
“vou”não vai, porque quando foi já não quis/ O homem que diz “sou”não é, porque
quem é mesmo é “não sou”/O homem que diz “to”não tá, porque ninguém tá quan-
do quer
Toquinho, Canto de Ossanha
39

Os estudos sobre masculinidades datam bastante recentes. Porque os homens tinham


sido tomados exclusivamente como agentes da opressão de gênero, os movimentos de liberta-
ção sexual lhes reservaram o papel de algoz, teorizando a opressão como um investimento
propriamente masculino, ou seja, assinalando os homens como causa exclusiva das desigual-
dades. Assim, os debates sobre desigualdade sexual se desenvolveram tendo na figura do ho-
mem o inimigo. Por outro lado, esta política adiou a produção de conhecimento mais crítico
sobre a posição social dos homens. Resulta também um investimento indireto na sedimenta-
ção da masculinidade como posição socialmente privilegiada, dado que os homens nem sem-
pre foram implicados nos problemas de gênero como sujeitos produtores de subjetividades
peculiares.
No mundo, os movimentos feministas e de gays e lésbicas se aproximaram de uma
perspectiva pós-estruturalista para guiar o debate, perspectiva essa que, inspirada largamente
nos estudos de Michel Foucault, tende para a desestabilização das verdades absolutas (cientí-
ficas, religiosas, morais) e articula um saber sociocultural que é condutor das formações e
transformações nos sujeitos. O afastamento dos homens, ou melhor, da produção de subjetivi-
dades masculinas, do epicentro das discussões de gênero, inevitavelmente, interdizia um do-
mínio em que os modos de vida dos homens seriam bem resolvidos e definidos, porque base-
ados no seu poder de opressão. Ao mesmo tempo, esta distância produz a possibilidade de
uma zona de conforto, dado que estes modos de vida não estavam colocados em cheque.
Isso não significa que não houve homens interessados em compartilhar das mesmas
discussões. Como Karen Giffin (2005) comenta, “sua aproximação às discussões em peque-
nos grupos e seminários, no entanto, foi vetada naquele momento por nós, mulheres. Exercer
este poder de veto foi visto como necessário, ao menos num primeiro momento, dada nossa
experiência cotidiana com a dominação masculina” (p. 48). Para Vigoya (2007) esta defesa
resulta como reação a visões misóginas de teólogos, filósofos e cientistas, mas, sobretudo,
porque a humanidade era pensada e explicada em relação aos homens, ignorando que o mas-
culino é um gênero específico, que está mergulhado em ideários culturais que os constrói,
disposições psicológicas e instituições levantadas a serviço de seus interesses.
Em parte, Giffin debita a esta política o sedimento das análises de características bina-
ristas – não que elas não sejam importantes para revelar desigualdades, mas pelo fato de re-
produzir o binarismo na própria representação homens poderosos versus mulheres oprimidas.
Do mesmo modo, afastar os homens do centro da discussão tomava como justificativa o con-
trole de um poder específico – nesse caso, reivindicando autoridade sobre um domínio de
40

produção intelectual, o que representa um tipo de exclusão análoga àquela sofrida pelas mu-
lheres no plano social.
No entanto, são as perspectivas que nascem no seio do próprio feminismo que oportu-
nizam olhar para a diversidade masculina. Ao observar que as mulheres não constituíam um
grupo socialmente homogêneo e, portanto, suas demandas também variavam, o movimento
inspira novas formas de encarar os estudos sobre os homens – que, de modo análogo, não são
estritamente os mesmos. Nos Estados Unidos são as negras que rompem com uma visão uni-
versal das necessidades das mulheres, observando que, em seu contexto, a condição feminina
não se desvincula das opressões de raça ou de classe social. De modo amplo, elas oportuniza-
ram pensar dentro do próprio movimento que a hierarquia das diferenças sociais e que as de-
mandas das mulheres brancas dos subúrbios americanos eram qualitativamente diferentes das
suas. Também a partir desta perspectiva colocaram o problema dos homens negros de suas
comunidades, que enfrentavam dificuldades em acessar o direito a uma masculinidade não
estigmatizada.
Do mesmo modo, na America Latina, o movimento das mulheres aponta para uma co-
lonização no seio do feminismo central, pois
ao considerar as mulheres do Terceiro Mundo como oprimidas, convertemos às mu-
lheres do Primeiro Mundo em sujeitos de uma história na qual as mulheres terceiro-
mundistas só têm o status de objeto. Isso implica uma forma de colonização e de a-
propriação da pluralidade das mulheres em diferentes classes sociais e étnicas. [...] O
universalismo etnocêntrico feminista tende a julgar as estruturas econômicas legais,
familiares e religiosas dos países no ocidente com base em parâmetros ocidentais
que definem estas estruturas como subdesenvolvidas ou ‘em via de desenvolvimen-
to’, como se o único desenvolvimento possível fosse aquele do Primeiro Mundo e
como se todas as experiências de resistência fossem senão marginais3 (VIGOYA,
2007, p. 25, tradução nossa).

As discussões dos movimentos sexuais minoritários contribuíram bastante para a cons-


trução de um terreno comum em que se podem discutir as relações e as posições de gênero –
até mesmo contribuindo para inaugurar um olhar desmistificador sobre a masculinidade em
suas investidas. A despeito da alienação inicial, os estudos sobre os homens e as masculinida-
des se desenvolveram graças ao mesmo intento de questionar os padrões e opressões de gêne-
ro. Estes estudos contribuíram para uma nova perspectiva de análise cultural ao introduzir

3
No original: “al considerar a las mujeres del Tercer Mundo como oprimidas, convertimos a las mujeres del
Primer Mundo en sujetos de una historia en la cual las mujeres tercermundistas sólo tienen el estatus de objeto.
Esto implica una forma de colonización y de apropiación de la pluralidad de las mujeres situadas en diferentes
clases sociales y étnicas. [...] El universalismo etnocéntrico feminista tiende a juzgar las estructuras económicas,
legales, familiares y religiosas de los países no occidentales con base en parámetros occidentales que definen
estas estructuras como subdesarrolladas o ‘en vias de desarrollo’, como si el único desarrollo posible fuera el del
Primer Mundo y como si todas las experiencias de resistencia no fueran sino marginales”.
41

perspectivas em que há flexibilidade, em que se reconhece um trânsito dos sujeitos e que,


consequentemente, não há rigidez própria no gênero, senão uma coerção social para a norma.
Com esta perspectiva, os estudos sobre as masculinidades puderam se desenvolver observan-
do que não há modo de vida exclusivo para se fazer homens e, certamente, investigando uma
produção de masculinidades contingentes.
O quadro ideal de masculinidade articula a imagem de um sujeito central que deve se
distinguir socialmente por uma série evidências biológicas e culturais. No entanto, transcende
a figura do homem per se. Conforme Raewin Connel (2005b) aponta, masculinidade não é
propriedade exclusiva dos homens, senão as configurações de prática social realizadas em
exercício cotidiano; portanto tem história e pode diferir de acordo com o contexto das rela-
ções em que tais sujeitos estão integrados. Nesse sentido, ao falar de masculinidade não fala-
mos apenas de personagens ou características individuais, mas de toda uma organização de
práticas sociais e instituições formadoras que contribuem na construção e sedimentação de
certos registros compartilhados sobre gêneros.
Com efeito, a partir de uma perspectiva pós-estruturalista, a masculinidade construída
no seio de um grupo social faz sentido não apenas para e entre o gênero masculino, mas para
todos os gêneros – os registros de masculinidade (ou de feminilidade, ou de trasvestilidade
etc.) são parte de um e o mesmo conhecimento e existem apenas dentro de um processo rela-
cional.
Na esteira dessa perspectiva, é válido perguntar, então, se é possível falar em masculi-
nidade sem homens? A resposta é certamente afirmativa, já que, como conhecimento, todo o
corpo social compartilha masculinidade, seja para reconhecê-la no outro, seja para refutar-lhe.
Quer dizer, embora a tendência hegemônica seja de reconhecer o sujeito de masculinidade no
homem, nossa interação social está repleta de “escapes” a essa redução. Fala-se das mulheres
masculinizadas, aponta-se a firmeza das mulheres em posições de autoridade, preocupa-se
com as meninas menos interessadas em atividades femininas etc. Ou seja, há nestes exemplos
uma cisão que mostra um “padrão masculino” operando em corpos de mulheres. Se “ser uma
mulher masculina, não fere seu lado feminino”, podemos perceber com mais clareza a emer-
gência de uma masculinidade sem corpo.
Nesse sentido, é interessante notar que há pesquisas que se debruçam sobre a experi-
ência de mulheres que incorporam registros hegemonicamente categorizados como masculi-
nos ou para homens. Mostram, portanto, que a masculinidade transborda o corpo e a vida dos
homens e ao mesmo tempo denuncia os efeitos de poder na vinculação da masculinidade ex-
clusivamente a um dado indivíduo.
42

Um nome interessante desta literatura é Judith “Jack” Halberstam (2008) que avalia,
em Masculinidade Feminina, histórias de mulheres não alinhadas com a norma da feminilida-
de – seria melhor dizer, uma análise de como também as mulheres produzem diferentes for-
mas de masculinidade. Sua incursão opera apresentar como a masculinidade é construída e
articulada no corpo e experiência de uma mulher, mostrando as fraturas das taxonomias nor-
mativas, quando as expectativas postas em jogo para os homens são correspondidas por sujei-
tos/corpos negados o “direito” à masculinidade.
Às vezes masculinidade feminina coincide com os excessos da supremacia viril, e às
vezes codifica uma forma única de rebelião social; frequentemente a masculinidade
feminina é o sintoma de uma alteridade sexual, mas às vezes marca uma variação
heterossexual; às vezes a masculinidade feminina aponta o lugar de uma patologia, e
de vez em quando é interpretada como uma alternativa saudável ao que se conside-
ram modalidades das feminilidades convencionais4 (p. 31, tradução nossa).

Não apenas Halberstam fala de uma masculinidade produzida por mulheres, como a-
firma que a masculinidade se torna inteligível no momento em que deixa o domínio hegemô-
nico, denunciando formas que estão aquém e além do recorte branco-classe-média, recorte
responsável pelo apagamento das demais masculinidades. Em outras palavras, uma “masculi-
nidade épica” depende da precariedade das “masculinidades minoritárias”, experiências alter-
nativas que oferecem pistas sobre como se constitui o ideal. Assim, “a masculinidade femini-
na é considerada as sobras desapreciadas de masculinidade dominante, com o objetivo de que
a masculinidade dos homens possa aparecer como o verdadeiro”5 (p. 23, tradução nossa).
Já que a realidade social é considerada subjetiva e interessada, o lugar da masculinida-
de como uma verdade definitiva para todos (e apenas) os homens cai por terra. Connel
(2005a) lembra que o fato de os conceitos de masculino e feminino serem de difícil definição
reside no caráter histórico – e, portanto, mutável – e político do gênero. Para a autora a vida
social nunca foi um escape, senão arena de políticas de gênero. Connel, vale lembrar, é uma
mulher transexual, sua resposta ulterior de que o gênero se constrói e faz parte de uma política
cotidiana. É nesse sentido que podemos encarar a masculinidade como um sistema de distin-
ção que, como tal, produz um enquadramento econômico, cultural, político e moral sob a
forma de um conhecimento social comum. A história e diversas incursões etnográficas apre-

4
No original: “A veces la masculinidad feminina coincide con los excessos de la supremacia viril, y a veces
codifica una forma única de rebelión social; a menudo la masculinidad feminina es el sintoma de una alteridad
sexual, pero a veces marca una variación heterosexual; a veces la masculinidad feminina señala el lugar de una
patologia, y de vez en cuando se la interpreta como una alternativa saludable a lo que se consideran modalidades
excessivas de las femininidades convencionales”.
5
No original: “la masculinidad feminina se consideran las sobras despreciables de la masculinidad dominante,
con el fin de que la masculinidad de los hombres pueda aparecer como lo verdadeiro”.
43

sentam registros que ajudam a reconhecer a multiplicidade de modos de vida masculinos em


diversas sociedades – e mesmo considerando os registros de uma sociedade ocidental ideal as
vidas dos homens são qualitativamente diferentes.
A masculinidade é um conhecimento social, construído e sedimentado historicamente,
que estabelece saberes sobre as posições individuais e uma organização dos relacionamentos,
baseado no lugar do homem como único depositário de um poder regulador dos corpos e dos
espaços. Contudo, não é um conhecimento que orienta apenas as vidas dos homens – é cara de
modo especial aos homens, uma vez que deles são esperadas as evidências materiais e com-
portamentais do exercício masculino.
É, assim, como sistema de distinção, que a masculinidade se constitui como domínio
da autoridade e exercício de poder, visto que o seu personagem central é depositário do poder
do patriarcado, tendo a prerrogativa – ou assim percebe – de exercer controle sobre o funcio-
namento social e o domínio dos corpos alheios. Certamente, esta autoridade patriarcal está em
desgaste mais visceral desde o último século, exatamente em função dos movimentos pela
equidade de gênero. No entanto, a despeito dos questionamentos à figura do homem, não apa-
ga-se totalmente o quadro referencial do masculino como sujeito de autoridade, energia, sexu-
alidade, segurança, atividade etc.
Este efeito está intimamente vinculado ao que Connel (2005a; 2005b) chama de “mas-
culinidade hegemônica”, um conceito frutífero que tem sido utilizado em diversos estudos nos
últimos vinte anos. Ao empregar o conceito gramsciano de “hegemonia”, Connel imprime a
ideia de que as práticas chamadas masculinas podem assumir múltiplas formas de organiza-
ção, cada uma interessada de forma diferente. Estando em disputa, um certo tipo de organiza-
ção logra subordinar as outras; neste caso, um tipo de masculinidade íntima ao patriarcado.
Com efeito, hegemonia é uma relação de poder que envolve a mobilização de diferen-
tes posições políticas. Nas palavras da autora, pode-se definir o conceito de masculinidade
hegemônica como “a configuração de gênero que incorpora a resposta atualmente aceita para
o problema da legitimidade do patriarcado, o que garante (ou assume-se garantir) posição
dominante dos homens e da subordinação” 6 (2005a, p. 77, tradução nossa).
Como já afirmamos, uma posição hegemônica de masculinidade implica diretamente a
existência de masculinidades marginalizadas. E, paradoxalmente, isso não significa que o

6
No original: “the configuration of gender practice which embodies the currently accepted answer to the prob-
lem of the legitimacy of patriarchy, which guarantees (or is taken to guarantee) the dominant position of men and
the subordination”.
44

modelo ideal seja estatisticamente o mais volumoso, dado que nem todos os homens efetiva-
mente correspondem.
Assim, masculinidades hegemônicas podem ser construídas e não corresponder in-
timamente às vidas de qualquer homem. Mas esses modelos expressam, de várias
maneiras, ideais difundidos, fantasias, e desejos. Eles promovem modelos de rela-
ções com as mulheres e soluções para problemas de gênero. Além disso, eles se arti-
culam livremente com a constituição prática das masculinidades como meios de vida
em circunstâncias cotidianas locais. Eles ainda contribuem para a hegemonia numa
ordem social de gênero7 (2005b, p. 838, tradução nossa).

A conquista da posição hegemônica é resultado de uma disputa de poder e seu proces-


so de manutenção dos privilégios integra uma expectativa de normalidade conjugada a um
sistema de prestígios. Como conhecimento central e compartilhado, mas questionável, os su-
jeitos podem se comprometer e se engajar para corresponder ao padrão central; propor, por
meio de micropolíticas, uma revisão desta expectativa, oportunizando um conceito mais soli-
dário; ou ainda rechaçar completamente o ideal.
Quando fala de uma organização de práticas sociais, Connel quer dar ênfase à experi-
ência cotidiana dos indivíduos, se opondo, portanto, a uma teoria de papéis sexuais, que insti-
tui desempenhos opostos e definidos para os sujeitos na dinâmica social. O problema desse
tipo de perspectiva é que ela reforça a idéia de que os gêneros se confirmam em uma dada
estrutura – e assim, representam mecanicamente seu papel no escopo social, integrando e po-
sitivando a noção de normalidade.
A teoria dos papéis em geral é vaga. O mesmo termo é usado para descrever uma
ocupação, um status político, uma transação eventual, um hobby, um estágio na vida
e um gênero. Em função das bases cambiantes em que os ‘papéis’ são definidos, a
teoria leva a grande incoerência na análise da vida social. A teoria dos papeis exage-
ra o nível em que o comportamento é prescrito. Mas, ao mesmo tempo, ao assumir
que estas prescrições são recíprocas, minimiza desigualdade social e poder. Por to-
das estas razões ‘papel’ tem se provado pouco prático como quadro geral para a aná-
lise.
Na teoria dos papéis, a ação (o papel encenado) está conectada com a estrutura defi-
nida pela diferença biológica, a dicotomia macho e fêmea – não por uma estrutura
definida pelas relações sociais. O que leva à categorização, redução do gênero a duas
categorias homogêneas, traídas pela persistente indefinição das diferenças de gêne-
ro8 (2005a, p 26, tradução nossa).

7
No original: “Thus, hegemonic masculinities can be constructed that do not correspond closely to the lives of
any actual men. Yet these models do, in various ways, express widespread ideals, fantasies, and desires. They
provide models of relations with women and solutions to problems of gender relations. Furthermore, they articu-
late loosely with the practical constitution of masculinities as ways of living in everyday local circumstances. To
the extent they do this, they contribute to hegemony in the society-wide gender order as a whole”.
8
No original: “Role theory in general is logically vague. The same term is used to describe an occupation, a
political status, a momentary transaction, a hobby, a stage in life and a gender. Because of the shifting bases on
which ‘roles’ are defined, role theory leads to major incoherence in the analysis of social life. Role theory exag-
gerates the degree to which people’s social behavior is prescribed. But, at the same time, by assuming that the
prescriptions are reciprocal, it underplays social inequality and power. For all these reasons ‘role’ has proved
unworkable as a general framework for social analysis. […]
45

Não se pode negar que a vida social é regida por uma “etiqueta” compartilhada, mas
isso não implica em inércia no processo de sociabilidade. Fosse assim, com efeito, não pode-
ríamos falar em dinâmica social e testemunhado mudanças que tencionam de modo muito
mais flagrante a desigualdade entre os gêneros.
Nesse sentido, é importante nos aproximar da noção de habitus, um corpo de conhe-
cimento social que
não designa os hábitos metafísicos, a ‘memória’ misteriosa, temas de volumosas ou
curtas e famosas teses. Esses ‘hábitos’ variam não simplesmente com os indivíduos
e suas imitações, variam sobretudo com as sociedades, as educações, as conveniên-
cias e as modas, os prestígios. É necessário ver técnicas e a obra da razão prática co-
letiva e individual, lá onde geralmente se vê apenas a alma e suas faculdades de re-
petição (MAUSS, 2003, p. 404).

Reproduzido não exclusivamente por sujeito dominante, portanto, mas por todos os sujeitos
envolvidos nestas disputas, o habitus é a mentalidade da vida social que todos produ-
zem/compartilham, seja como forma de experiência de vida, seja como sua resistência. Mas é
importante lembrar, como o sociólogo francês Pierre Bourdieu (2010) alerta, o habitus não é
um corpo de conhecimento a-histótico. É um princípio gerador e durável, mas não imutável:
“é um conhecimento adquirido e também um haver” (p. 61), portanto é construído nas e pelas
relações sociais. Quer dizer, da mesma forma como o ideal masculino é construído e sedimen-
tado historicamente, os grupos sociais podem transformá-lo em suas interações e produzir
novas formas de ser masculino.
É preciso reconhecer, a despeito do fato de a história clássica ser baseada em lugares
hegemônicos, que, frente a poderes centralizadores, existe criatividade no seio da dinâmica
social. Com efeito, são táticas de sobrevivência, conforme aquela imagem de práticas alterna-
tivas que Michel de Certeau (1994) constrói em sua Invenção do cotidiano. Para o autor, que
reconhece os saberes e fazeres cotidianos, esses modos de vida
muito longe de ser controlados ou eliminados pela administração panóptica, se re-
forçaram em uma proliferação ilegitimada, desenvolvidos e insinuados nas redes de
vigilância, combinados segundo táticas ilegíveis, mas estáveis a tal ponto que consti-
tuem regulações cotidianas e criatividades sub-reptícias que se ocultam somente
graças aos dispositivos e aos discursos, hoje atravancados, da organização observa-
dora. (p. 175)

Uma perspectiva semelhante é tomada pelo filosofo francês Edgar Morin (2010), para
quem é capital desmistificar a ideia da existência de um fluxo pré-determinado da vida em

In sex role theory, action (the role enactment) is linked to a structure defined by biological difference, the di-
chotomy of male and female – not to a structure defined by social relations. This leads to categoricalism, the
reduction of gender to two homogeneous categories, betrayed by the persistent blurring of sex differences with
sex roles”.
46

sociedade, ou seja, que a narrativa social possa consistir em papéis, ciclos ou etapas bem de-
marcadas e sempre reconhecíveis em todos os grupos – o que constitui um pensamento sim-
plista, de que os saberes são determinados e finitos. É nesse sentido que os valores e compor-
tamentos caros à masculinidade, um jeito hegemônico de pensar o homem, são insuficientes,
excludentes e até ambíguos. Como Morin sublinha, a realidade é multidimensional, portanto,
são as transformações qualitativas e criatividades que articulam a realidade.
O que aqui ainda, e sobretudo, é necessário, para conceber o vir a ser histórico, é
substituir por uma concepção complexa a concepção simplista. A concepção sim-
plista acredita que o passado e presente são conhecidos, que os fatores da evolução
são conhecidos, que a causalidade é linear, e, por conseguinte, que o futuro pode ser
predito (p. 11).

Portanto, quando Connel se afasta de uma perspectiva em que há um papel masculino correto
a ser desempenhado, o faz exatamente porque esta perspectiva ignora que, em função e a des-
peito das contingências, o indivíduo é também produtor de sua biografia.
Nesse sentido, a masculinidade hegemônica não é um modelo transhistórico, pois “tal
uso viola a historicidade do gênero e ignora a evidência massiva da mudança social das defi-
nições de masculinidade”9 (2005b, p. 838, tradução nossa). Porque cada grupo social produz
uma posição dominante de masculinidade e precisamente por dever ser encarada como orga-
nização das práticas sociais dos indivíduos implicados em relações de gênero é importante
considerar uma variedade de representações de uma vida masculina dominante, evitando o
risco de se falar no conceito de modo enviesado, como se masculinidade hegemônica fosse
associada exclusivamente com características negativas, como a violência ou a opressão.

O produto ideal
A masculinidade é tecida socialmente em oposição à feminilidade. A dependência dos
dois conceitos é mútua: uma só pode ser classificada como tal a partir de um conjunto simbó-
lico que seja seu oposto. “Uma cultura que não trate mulheres e homens como portadores de
características individuais polarizadas, não tem uma concepção de masculinidade no senso
moderno ocidental”10 (CONNEL, 2005a, p. 68, tradução nossa). Se a masculinidade é o do-
mínio da propriedade, então a feminilidade é o domínio da ausência.

9
No original: “this usage violates the historicity of gender and ignores the massive evidence of change in social
definitions of masculinity”.
10
No original: “A culture which does not treat women and men as bearers of polarized characther types, at least
in principle, does not have a concept of masculinity in the sense of modern European/American culture”.
47

Onde a masculinidade é força, a feminilidade é sensibilidade. Onde um é agressivida-


de, o outro é reserva. Certamente estas bipolaridades são operações arbitrárias e disciplinares,
que têm por objetivo organizar a dinâmica social, instituir nos corpos e nos espaços uma gra-
mática de reconhecimento e relacionamento social. Historicamente esta organização tem sido
tecida em privilégio dos homens.
A masculinidade assentada em um conjunto discursivo nos permite acessar coletiva-
mente essas diferenças. Esse conjunto está inserido em um palco maior, envolvendo não ape-
nas problemas biológicos, mas também políticos, biográficos, institucionais, éticos, jurídicos
e outros. Para fazer sentido dentro de uma mentalidade esquematicamente polarizada, é ne-
cessária uma posição de alteridade, que no plano conceitual é a feminilidade – no campo polí-
tico é a execução das diferenças qualitativas, conforme creditadas/esperada socialmente a
cada um destes sujeitos.
Arbitrária em estado isolado, a divisão das coisas e das atividades (sexuais e outras)
segundo a oposição entre o masculino e o feminino recebe sua necessidade objetiva
e subjetiva de sua inserção em um sistema de oposições homólogas, alto/baixo, em
cima/embaixo, na frente/atrás, direita/esquerda, reto/curvo (e falso), seco/úmido, du-
ro/mole, temperado/insosso, claro/escuro, fora (público)/dentro (privado), etc. que,
para alguns, correspondem a movimentos do corpo (alto/baixo//subir/descer, fo-
ra/dentro//sair/entrar). Semelhantes na diferença, tais oposições são suficientemente
concordes para se sustentarem mutuamente, no jogo e pelo jogo inesgotável de
transferências práticas e metáforas; e também suficientemente divergentes para con-
ferir, a cada uma, uma espécie de espessura semântica, nascida na sobredetermina-
ção pelas harmonias, conotações e correspondências (BOURDIEU, 2009, p. 16).

Por serem análogas ao sistema de diferenças que o nosso saber reconhece, estas dife-
renças são encaradas como parte de uma objetividade já existente – como se fossem inatas.
Deste modo, “as previsões que elas engendram são incessantemente confirmadas pelo curso
do mundo” (p. 16). No entanto, é importante reforçar que é o sistema intelectual/conceitual
que permite adotar estas diferenças como posições exclusivas. Se um corpo é muscular e ou-
tro esguio, isso não justifica sua classificação como masculino ou feminino. Por outro lado, o
requisito do corpo muscular para a masculinidade e o corpo esguio para a feminilidade, está
apropriado pelo simbólico, que trama as relações (de poder).
Com sua transformação em saber dominante, estas diferenças qualitativas são silenci-
adas socialmente, mas não porque não sirvam ao sistema organizacional em voga; ao contrá-
rio, porque elas funcionam neste sistema, as pistas de que tanto a masculinidade como a femi-
nilidade são narrativas sociais passam por um processo de apagamento, sendo integradas ao
corpo do conhecimento comum. Ambas as categorias não são questionadas em seu valor cria-
tivo, acabam sendo incorporadas a um receituário que se acessa automaticamente, não preci-
sam ser formuladas cada vez que são requeridas.
48

No entanto, ser homem não é exclusivamente um exercício avesso ao ser mulher. Ao


mesmo tempo em que este sujeito é construído como imagem da liderança e força opostas às
imagens da submissão e fragilidade, o ideal masculino é reforçado em uma relação de exem-
plaridade que toma no conjunto de indivíduos do sexo masculino comportamentos, gestos,
decisões, formas de fazer, estratégias que importam para reforçar a masculinidade como um
saber perene e pretensamente coerente. Assim, as histórias de vida dos homens que comparti-
lham dos mesmos círculos sociais (na família, entre os amigos, nos ambientes profissionais
etc.) e, de modo amplo, os exemplares masculinos na vida cotidiana ou na história, reprodu-
zem um registro hegemônico desta masculinidade – possivelmente até reproduzam este con-
junto semântico sem serem inteiramente capazes de realizá-lo.
Neste sentido, é interessante observar o exercício feito por Sócrates Nolasco (2001),
em De Tarzan a Homer Simpson, buscando resgatar em personagens populares na sociedade
ocidental “contornos da representação social masculina”, ou seja, como eles servem de “bons”
exemplos masculinos. Das mitologias clássicas – Hércules, Teseu, Aquiles, Ulisses – passan-
do por uma literatura moderna – Fausto, Dom Quixote, Don Juan, Robinson Crusoé – estas
imagens compartilham sentidos sobre o ser homem e é também na sua re-leitura que se refor-
ça o modelo hegemônico.
Os personagens gregos revisitados por Nolasco carregam a marca do herói, que requer
o músculo, a pró-atividade, o destemor, a astúcia etc. como insígnias sociais. Aos heróis clás-
sicos são impostas tarefas a cumprir; sua realização resulta na cessão dos males (monstros,
profecias e outros inimigos) e/ou solução/proteção da comunidade próxima. Hércules é pro-
vavelmente o personagem mais popular, tendo sido amplamente reproduzido por linguagens
midiáticas que reforçam o seu valor potente, viril e protetor. No entanto, é o retrato de Ulisses
o que parece mais panorâmico: “diferindo de Hércules, Aquiles e Teseu, Ulisses define-se
como um homem prático, determinado, cheio de malícia, habilidoso, sábio, inteligente e cora-
joso” (p. 233) ao mesmo tempo em que oferece os registros de um casamento e um lar (donde
espera-se a provisão e proteção do chefe de família), assim como aventuras fora do casamento
e filhos em cada porto (a marca de uma masculinidade fortemente sexualizada).
Passando aos personagens modernos, se por um lado o Fausto é motivado por riqueza,
gozo e conhecimento (propriedade), o Don Juan opera outros registros especialmente caros à
masculinidade hegemônica: a conquista dos corpos femininos e a depreciação da honra dos
outros homens. Nesse sentido, ele é audacioso, um homem que vive no limiar do risco, desa-
fiando o interesse alheio a despeito do seu próprio. Os próximos personagens que completam
o retrato de representação de Nolasco, Dom Quixote e Robinson Crusoé, valorizam a narrati-
49

va de obtenção de prestígio e visibilidade, dentro das normas sociais da época (o cavalheiris-


mo), para o primeiro; e a importância do trabalho, do projeto econômico em proveito próprio,
um método para atingir objetivos previamente traçados, no último caso.
A distância temporal que separa os mitos clássicos dos personagens modernos de-
monstra como uma série de atributos considerados masculinos mudam qualitativamente, sem
necessariamente ter sobrepujado uma masculinidade épica. Estas imagens “cumprem nas dife-
rentes culturas um papel importante para a coesão e a organização social na medida em que
organiza a experiência nomeando sujeito e conferindo à sua vida um sentido que emerge e se
organiza do próprio corpo” (p. 245).
Nestes retratos, importa reconhecer como a experiência de exercício de poder e o cará-
ter de notoriedade em cada personagem são capitais para produzir e reproduzir um domínio
simbólico de masculinidade. Também importa reconhecer que, mais que o próprio persona-
gem, é a narrativa que o qualifica como sujeito de ação – operando saberes valorizados em
uma sociedade para homens e, consequentemente, assumindo um exercício de poder – que é
cara em seu valor instrumental – de fato poucos são os que conhecem propriamente as histó-
rias de cada personagem, senão os seus feitos mais privilegiados do ponto de vista desta mas-
culinidade.
Esse conhecimento conquista o lugar hegemônico como efeito de sua reprodução atra-
vés da história e estes personagens funcionam como modelos pedagógicos. Da mesma manei-
ra, compartilhadas entre homens, de pai para filho, entre irmãos, entre companheiros de traba-
lho, amigos ou até desafetos, essas histórias 11 logram manter-se vivas e fortes no imaginário
social, socialmente prestigiados.
Embora partindo deste terreno elementar – a operação polarizada masculino-feminino
e a relação de exemplaridade masculino-masculino – ainda assim é insuficiente a tentativa de
definir a masculinidade, pois para mapear as configurações de práticas sociais cotidianas es-
barramos na inegável pluralidade de experiências de vidas masculinas.

11
A esse respeito, vale observar que o mesmo mecanismo é publicado em Playboy, não apenas de uma forma
interdita, subliminar ao conteúdo, mas, de fato, reivindicando personagens masculinos magnéticos, num domínio
em que o produto fotográfico é a mulher e não o homem. Esse é o caso, sobretudo, das entrevistas, que ganharam
notoriedade ao longo da história da publicação. Mas não apenas por sua qualidade redacional ou pelo caráter
informativo/biográfico. A seção Entrevistas geralmente perfila homens notórios na sociedade brasileira (políti-
cos, artistas, atletas etc.), reconhecidos por suas conquistas (positivas e negativas) pessoais, profissionais, român-
ticas, eróticas. Enfim, estes personagens – pois eles são mais que meros homens que revelam a sua vida, são
modelos masculinos – fazem jus a uma expectativa social de uma masculinidade forte, assertiva, bem sucedida,
marcante.
50

Com a desestabilidade que inaugura um interesse de investigação sobre este campo,


Connel (2005a) relata algumas estratégias teóricas que buscaram resolver o problema de e-
nunciação das masculinidades. Em primeiro lugar, as definições essencialistas se ocupam em
selecionar características que possam traduzir irrefutavelmente o fundamento do masculino,
vinculando-o à vida do homem. As facetas do essencialismo se estendem desde uma apropria-
ção biológica, anatômica, recorrendo a um dado natural “inquestionável”, até uma abordagem
cultural, com generalização de práticas locais, como assumir riscos, responsabilidade x irres-
ponsabilidade, energia mítica etc. No entanto, o essencialismo têm se provado pouco razoável
para tal tarefa, porque a eleição de quaisquer características é sempre arbitrária; e mesmo no
caso dos argumentos biológicos o desenvolvimento da ciência médica não encontra diferenças
genéticas fundamentais entre homens e mulheres, além de redesenhar corpos e promover tera-
pias hormonais.
Por sua vez, as definições positivistas tentam encontrar os fatos que apontam o que os
homens realmente são. Como essa perspectiva se baseia em escalas do que é masculino e fe-
minino, Connel questiona que não há descrição sem ponto de vista, ou seja, as noções de
masculino e feminino já estão traçadas previamente, portanto, os fatos não são independentes.
A terceira estratégia se refere às definições normativas e se orienta por aquilo que os
homens devem ser. No entanto, é claro o problema neste tipo de proposta, já que não são to-
dos os homens que correspondem aos padrões de masculinidade. Embora a norma exista, ela
pode não ser satisfeita ou seguida. Há um fracasso patente numa normativa que poucos ho-
mens correspondem – ou talvez aconteça o contrário, é a impossibilidade de corresponder às
normativas que faz da masculinidade um exercício permanente.
Por fim, há uma abordagem semiótica, que define a masculinidade a partir de um sis-
tema de diferença simbólica, ou seja, uma perspectiva relacional. Para efeito de análise cultu-
ral, é a estratégia mais adequada – efetivamente se emparelha com a proposta de leitura de
masculinidade da qual partimos. No entanto, segundo Connel, teria o problema de realizar
análises fora do campo cultural. Em suma, é uma perspectiva inegavelmente pós-
estruturalista.
De modo geral, podemos entender que em todas estas estratégias a reivindicação de
uma “verdade” sobre a masculinidade está implicada em um sistema de expectativas para a
vida social dos homens – sendo algumas delas transversais. E, com Foucault (1979), vale ob-
servar que “a verdade é deste mundo; ela é produzida nele graças a múltiplas coerções e nele
se produz efeitos regulamentados de poder” (p. 12). O filósofo completa:
51

A verdade tem cinco características importantes: a ‘verdade’ é centrada na forma do


discurso cientifico e nas instituições que o produzem; está submetida a uma constan-
te incitação econômica e política (necessidade de verdade tanto para a produção e-
conômica quanto para o poder político); é objeto, de várias formas, de uma imensa
difusão e de um imenso consumo (circula nos aparelhos de educação ou de informa-
ção, cuja extensão no corpo social é relativamente grande, não obstante algumas li-
mitações rigorosas); é produzida e transmitida sob o controle, não exclusivo, mas
dominante, de alguns grandes aparelhos políticos ou econômicos (universidade, e-
xército, escritura, meios de comunicação); enfim é objeto de debate político e de
confronto social (as lutas ‘ideológicas’) (p. 13).

Com efeito, no campo de estudos recentes, podemos apontar pelo menos três “verda-
des” cativas que permitem conhecer e reconhecer a masculinidade hegemônica: autoridade,
sexualidade e violência.
Estes elementos se aproximam da matriz de expectativas forçosas para a ação social
do homem pensada pelo pesquisador mexicano Javier Gómez Flores (2005), que privilegia o
exercício de violência como produto/produtor de masculinidade. A este conjunto ele chamou
de “delírios da ultramasculinidade”. Ele organiza quatro aspectos fundamentais em que a ul-
tramasculinidade se trama: o delírio da importância, o delírio do egocentrismo, o delírio da
exacerbação da libido e o delírio do guerreiro. Cada um destes desencadeia uma forma de
desigualdade:
a construção social da sexualidade em um âmbito de desigualdade genérica contem
elementos que situam as mulheres como objetos de prazer sexual (exacerbação da
libido como princípio da ultramasculindiade), e/ou como corpos reprodutores para a
descendência, por trás do que se concentram os valores relacionados à potência se-
xual e reprodutiva (princípio do egocentrismo). Por sua vez, o delírio de importância
como delírio da ultramasculindiade se expressa na interação social através da divisão
o sexual do trabalho12 (2010, p. 128-129, tradução nossa).

A imagem do homem como a autoridade se vincula, de modo mais direto, tanto com o
delírio da importância como o delírio do egocentrismo. Instrumento de poder numa moral
feita por e para homens, essa autoridade se reproduz desde a organização social na Antiguida-
de: mulheres, crianças e escravos estavam fora da categoria de cidadãos nas sociedades helê-
nicas, sendo os homens os personagens centrais da vida pública, como também dos postos
institucionais.
A construção do sujeito masculino permitiu ao longo da história reforçar a ideia de
homem como chefe de grupo, o dono das decisões, o provedor da família. Da mesma maneira,
como mostra Flores, as mitologias judaico-cristãs, bem como os estudos naturalistas do século
12
No original: “la construcción social de la sexualidad en un âmbito de desigualdad genérica contiene elementos
que sitúan las mujeres como objetos de placer sexual (exarcebación de la líbido como principio de la ultramascu-
linidad), y/o bien como cuerpos reproductores para la descendência, detrás de lo qual se concentran los valores
relacionados a la potencia sexual e reprodutiva (principio de egocentrismo). A su vez, el delirio de importância
como delirio de la ultramasculinidade se expressa en la interacción social a través de la division sexual del traba-
jo”.
52

XIX, impulsionam esta doxa respaldadas “por uma larga história que tem localizado homens e
mulheres em espaços diferentes: os espaços públicos e privados e em atividades desiguais: a
provisão e a segurança, por um lado, e a procriação por outro”13 (p. 123, tradução nossa). Esta
mentalidade patriarcal ainda é muito presente no nosso imaginário social, mesmo consideran-
do a luta pela equidade entre gêneros.
Assumindo este lugar de autoridade, a masculinidade atravessa a sociabilidade ociden-
tal, desenhando expectativas tanto para os homens como para as mulheres: deles, que tenham
competência para executar o projeto; delas que se reservem ao exercício da submissão. Por
isso, com efeito, a masculinidade se configura como um saber de dominação dos corpos e dos
espaços:
As masculinidades são dominantes em dois sentidos. O primeiro, a hombridade é
medida por sua intensidade de uso do poder, tanto sobre outros homens como sobre
as mulheres. Em segundo, as masculinidades dominantes o são em quanto predomi-
nam na cena social, apesar da existência de importantes diferencias culturais14 (i-
dem).

Esta posição “garante” uma percepção de direitos e privilégios sociais, dos quais os
sujeitos subalternos estariam alienados por premissa patriarcal. Na perspectiva de Michael
Kaufman (1999), que faz contribuições relevantes aos estudos de masculinidades, o fato de
ser depositário de um poder patriarcal induz o homem à percepção de direitos exclusivos que,
ao seu termo, é suportada socialmente. Os costumes sociais, as leis e sua aplicação, a educa-
ção e a formação religiosa – que são conhecimentos generificados, sem dúvida – privilegiam
o sujeito masculino, de modo que, a despeito das violências realizadas e dos efeitos nas víti-
mas mais claras, os homens estão assegurados pelo código social. Apenas recentemente, por
exemplo, pudemos ver mudanças significativas nas leis brasileiras quanto aos direitos das
mulheres em relação aos homens, por exemplo – o que não significa que o habitus acompanhe
à risca as mudanças burocráticas. Isso porque “os grupos humanos criam formas autoperpetu-
adoras de organização social e ideologias que explicam, dão significado e alimentam estas
realidades criadas”15 (p. 1, tradução nossa).

13
No original: “por una larga história que ha ubicado a hombres e mujeres em espacios diferentes: los espacios
públicos y privados y en actividades desiguales: el abasto y la securidad, por um lado, y la procreación y crianza
por el outro”.
14
No original: “las masculinidades dominantes lo son em dos sentidos. Em el primero, la hombria se mide por
sua intensidad en el uso del poder, tanto sobre otros hombres como sobre las mujeres. Em el segundo, las mascu-
linidades dominantes lo son en cuanto predominan en la escena social, a pesar de la existencia de importantes
diferencias culturales”.
15
No original: “los grupos humanos crean formas auto-perpetuadoras de organización social e ideologías que
explican, dan significado, justifican y alimentan estas realidades creadas”.
53

Depositário desta autoridade, o indivíduo assume a premissa de controle como se fosse


uma herança que transcende a própria existência do grupo social. Como decisor, ele é mais
homem quanto mais corresponde à expectativa de propriedade. Nesse contexto, o arranjo fa-
miliar tradicional inaugurado com a burguesia teve uma função importante na disciplina soci-
al e na assunção de que ele pode representar (e determinar) as vidas alheias. O lar, constituído
historicamente como o espaço legítimo de seu poder, provendo e protegendo a família – ou
seja, mulher e filhos, indivíduos mais fracos – é o espaço por excelência de reprodução deste
ideal pela educação. Ao ocupar o lugar de chefe, o homem “conquista” um voto de proprieda-
de pelas pessoas do núcleo, decidir sobre suas vidas. Esse esquema se reproduz de modo aná-
logo nos espaços de poder mais verticalizados.
Este poder passa a ser desestabilizado no último século, principalmente com uma nova
mentalidade que se fortalece na década de 1960 e com os movimentos por equidade entre os
gêneros. Com respeito à família, o desarranjo do núcleo familiar tradicional é outro golpe,
pois com tantos novos arranjos familiares o lugar do homem é deslocado. Some-se a isso um
mercado de trabalho cada vez mais misto, posições de autoridade assumidas por sujeitos que
transgridem o “normal”.
Mas ao falar desta a posição de autoridade, vale observar, ao mesmo tempo, que é
produzida uma série de responsabilidades sociais bastante específicas, como investir na posi-
ção de provedor, ou assumir a segurança do outro, por exemplo. São responsabilidades man-
datárias e, por meio de seu código, em muitas culturas, o homem que falha no seu cumpri-
mento tem sua masculinidade fraturada.
Portanto, quando falamos em uma sociedade patriarcal é importante observar que es-
te esquema chefe versus subordinado produz desigualdades que não se encerram nas relações
entre homens e mulheres – ou entre os heterossexuais e os homossexuais, importa lembrar. O
delírio de importância ou o delírio de egocentrismo, ambos produzem as hierarquias homens
versus mulheres, homens versus homens, eu versus eu.
Com efeito, Roberto da Matta (2010) mostra como esta hierarquia de poder social ba-
seada em uma desigualdade entre masculinidade e feminilidade se produzia no ideário com-
partilhado, relatando a construção da masculinidade em sua juventude em Minas Gerais na
década de 1950. Segundo o antropólogo, que o mundo era
lido como feito de uma gradação que ia do mais extremado nível de masculinidade
— digamos, do ‘machão’ — passando pelos ‘homens comuns’, transbordando numa
fronteira habitada pelos “mordidos de cobra” ou ‘inrustidos’, atingindo a zona dos
homossexuais ativos, passando para os passivos, chegando aos ‘mulherzinhas’ e aos
‘efeminados’ e terminando nas mulheres ou no território do feminino propriamente
dito que, para nós, era algo imanente (p. 144).
54

A percepção de privilégio é, segundo Kaufman, exatamente o fator que conduz a do-


minação masculina por meio do uso da força. Conforme assinala, a violência não é apenas
reproduzida e esperada dos homens, portanto permitida; também é recompensada. Não estão
isentadas aí, a rigor, as experiências passadas de outros homens que servem como modelos
para a formação de meninos e jovens. Como Connel (2005b) lembra, “são as relações imedia-
tas de homens e meninos com as imagens coletivas ou modelos de masculinidades, em vez
dos simples reflexos delas, que são centrais para entender consequências na violência, saúde,
e educação”16 (p. 841, tradução nossa).
A vinculação da agressividade à masculinidade e à vida dos homens está relativamente
clara aos nossos olhos, desde a infância. Para não ir tão longe, podemos resgatar narrativas de
nossa própria cultura, em que os meninos em idade escolar são descritos como mais ativos
que as meninas. Para Miriam Pillar Grossi,
isto é um problema na escola infantil; os meninos são vistos como hiperativos, hipe-
ragressivos e parece que este não é um problema das meninas. Evidentemente que as
professoras (e os pais) acreditam seriamente que aqueles meninos são hiperativos
porque nasceram assim, que isto é uma característica natural (inata) do sexo mascu-
lino e não que se trata de um comportamento esperado e estimulado de meninos, que
devem deste a tenra infância se comportar como pequenos homens (1995, p. 6-7).

Essa é uma característica a ser realçada, o fato de que dos meninos são esperadas brincadeiras
mais agressivas, como se houvesse uma predisposição imediata por sua condição masculina –
quer dizer, essa atitude agressiva está socialmente assentada.
Em diversos estudos etnográficos, o binômio violência-masculinidade é fundamental
para marcar a passagem ritual da infância para a vida adulta e, sobretudo, evidenciar que a
masculinidade se liberta das entranhas e transforma meninos em homens ou guerreiros. No
caso brasileiro, um ritual relativamente bem conhecido é aquele dos saterés-maués, da Ama-
zônia, em que os jovens provam sua masculinidade após passar pelo teste do ataque das for-
migas tucandeiras. Neste caso, as formigas são colocadas dentro de uma luva, de forma que o
corpo do inseto fica completamente paralisado, exceto os ferrões. O teste consiste em deixar a
mão na luva enquanto se desenvolvem as danças rituais. As picadas são ditas extremamente
dolorosas. Com o rito, o jovem ingressa na vida adulta mais forte – corpo e espírito.
Em diversas sociedades os ritos de passagem para a idade adulta requerem a completa
desvinculação com os laços maternais e a entrada no universo masculino e seus segredos se
faz por meio de violência física e/ou simbólica. Na sociedade Sambia, da Nova Guiné, o me-

16
No original: “it is men’s and boys’ practical relationships to collective images or models of masculinity, rather
than simple reflections of them, that is central to understanding gendered consequences in violence, health, and
education”.
55

nino é separado da mãe aos 10 anos, para ser surrado na selva até sangrar e se livrar da con-
taminação feminina. Aqueles que sobrevivem confirmam jornadas de prov(oc)ações pela
masculinidade, que está sempre no horizonte.
Na Etiópia, por exemplo, jovens são forçados a se engajar em competições sangren-
tas de chicoteamento, para mostrar sua masculinidade. Do mesmo modo, na Melané-
sia, meninos passam por rituais antes de serem reconhecidos pela tribo como ho-
mens. Eles também são separados de suas mães e forçados a passar por uma série de
rituais brutais, que incluem chicoteamento, sangramento e espancamento – rituais
que os garotos devem suportar impassivelmente a fim se tornarem homens de verda-
de. Os índios norte-americanos Tewa também acreditam que os meninos devem ser
feitos homens. Eles são igualmente tirados de suas casas para purificação e chicote-
ados sem piedade pelos espíritos Kachina (seus pais disfarçados). Cada garoto é fe-
rido nas costas por um chicote de mandioca crua que o faz sangrar, deixando cicatri-
zes permanentes. Depois deste ritual os mais velhos dizem aos meninos: “você foi
feito homem” (NOLASCO, 2001, p. 98).

A violência produz uma série de desigualdades entre os sujeitos. Em questão de gêne-


ro, a princípio, a vítima mais clara da opressão masculina seria a mulher, historicamente cons-
truída como o outro frágil e subordinado. Quer dizer, a mulher foi tradicionalmente construída
como o sujeito que deveria suportar a agressão física como hábito social. Kaufman lembra
que “a raiz histórica das sociedades patriarcais é o uso da violência como meio chave para
resolver disputas e violências, seja entre indivíduos, grupos de homens ou, mais tarde, na-
ções”17. No entanto, “as sociedades dominadas por homens não se baseiam exclusivamente
em uma hierarquia de homens sobre as mulheres, senão de alguns homens sobre outros”18 (p.
1-2, tradução nossa).
Como os relatos de rituais etnográficos mostram, a violência opera estabelecer uma
hierarquia – todos os que passam pelas agressões são considerados homens e podem, então,
conhecer os segredos da masculinidade; no entanto alguns perdem suas vidas no percurso ou,
se sobrevivem sem cumprir os rituais, se transformam em sujeitos de segunda categoria. En-
tão, está na formação de tais homens assumir a violência como instrumento para a sua experi-
ência social, já que é apresentada como “segredo” desta masculinidade. Mas para isso não
precisamos resgatar exemplos mais distantes, apenas perguntar como e porque aos meninos é
permitida e incentivada a agressividade ainda na escola – em muitas narrativas de infância,
um menino não pode voltar para casa sem revidar a violência de outro.
Ou seja, a dominação se apresenta contra as mulheres e contra outros homens – na ta-
refa de constituição de uma hierarquia masculina. Como resultado, e essa é a faceta mais apa-

17
No original: “la raíz histórica misma de las sociedades patriarcales es el uso de la violência como un medio
clave para resolver disputas y diferencias, ya sea entre individuos, grupos de hombres o, más tarde, naciones”.
18
No original: “las sociedades dominadas por hombres no se basan solamente en una jerarquía de hombres sobre
las mujeres, sino de algunos hombres sobre otros hombres”.
56

gada, esta dominação se designa contra o próprio produtor da violência/opressão, já que ele
corresponde a uma expectativa social, ao usufruir dos privilégios da masculinidade. Resultan-
do, assim, o paradoxo da experiência masculina:
As formas em que nós homens temos construído nosso poder social e individual são,
paradoxalmente, a fonte de uma forte dose de temos, isolamento e dor. Se o poder se
constitui como uma capacidade para dominar e controlar, se a capacidade de atuar
em formas ‘poderosas’ requer a construção de uma armadura pessoal e uma distan-
cia temerosa em relação aos outros, se o mundo do poder e dos privilégios nos sepa-
ra do mundo da criação infantil e do sustento emocional, então estamos criando ho-
mens cuja própria experiência de poder está marcada por problemas incapacitantes19
(KAUFMAN, 1999a, p. 2-3, tradução nossa).

Ou seja, não apenas se espera do homem energia para controlar, mas também um distancia-
mento empático da experiência do outro e o apagamento, portanto, da experiência emocional.
O exercício de ser homem está impregnado, mesmo nos dias atuais, de um senso de
respeitabilidade, buscando “demonstrar competência e firmeza para defender ou conquistar o
respeito e a honra, elementos fundamentais para a garantia de uma digna inserção social mas-
culina” (OLIVEIRA, 2004, p. 25). Nesta passagem Oliveira se refere ao dispositivo medieval
que institui o duelo como forma de resolver o desafio à dignidade; no entanto, o valor da hon-
ra ainda é relevante nas experiências masculinas, arrastando a agressividade.
Miriam Pillar Grossi lembra que, no caso brasileiro, honra está intimamente vinculada
ao sentimento de possessividade, sobretudo sobre a mulher: “para nossa cultura, um homem
honrado é aquele que tem uma mulher de respeito, ou seja, uma mulher recatada, controlada,
pura, etc. É a mulher quem detém o poder de manter a honra do marido, pois se um homem
não tem uma mulher virtuosa ele perde a sua honra” (1995, p. 12). Leitura semelhante é feita
por Lia Zanotta Machado (2004), que investiga homens acusados de violência contra mulhe-
res. A pesquisa mostra como os agressores equivalem sua ação a um “mal necessário” para
obter respeito, defender seus pares ou para dar exemplo. Contudo, este modelo pode ser am-
pliado para observar que o que está em jogo na produção da honra não é a mulher em si, mas
o objeto da propriedade que não pode ser desafiada.
Com efeito, uma nova representação da honra aparece no jogo social. Embora não es-
teja estritamente ligada ao sangue, o homem deve ser capaz de sustentar uma respeitabilidade
no grupo. Ou seja, mudam as condições e situações elementares que a colocam em questão.

19
No original: “las formas en que los hombres hemos construído nuestro poder social e individual son, paradóji-
camente, la fuente de una fuerte dosis de temor, aislamiento y dolor para nosotros mismos. Si el poder se cons-
truye como una capacidad para dominar y controlar, si la capacidad de actuar en formas "poderosas" requiere de
la construcción de una armadura personal y de una temerosa distancia respecto de otros, si el mundo mismo del
poder y los privilegios nos aparta del mundo de la crianza infantil y el sustento emocional, entonces estamos
creando hombres cuya propia experiencia del poder está plagada de problemas incapacitantes”.
57

No entanto, a ferida à honra masculina ainda faz recurso à violência como estratégia de defesa
de sua masculinidade – melhor, honra e violência se arrastam mutuamente.
O terceiro domínio importante é o da sexualidade. Ao passo que o homem conquista a
validade social de ser independente, a ele é permitido ainda mais fazer uso dos seus desejos,
em especial os desejos sexuais. A figura feminina está protegida/interditada por uma tradição
que constrói o ideal de sexo atrelado ao compromisso. Por outro lado, o homem pode circular
sexualmente, suportado pelo argumento de que a libido masculina é mais pujante e de que o
sexo está apenas articulado com o prazer.
A sexualidade que se retrata dentro da masculinidade hegemônica é aquela de intera-
ção exclusiva entre sexos opostos. Enfrentada como natural e normal, a heterossexualidade é,
no entanto, um modelo de conduta sexual recente, constituída em oposição à homossexuali-
dade. Em A Invenção da Heterossexualidade, Johnathan Ned Katz (1996) afirma que é a ho-
mossexualidade que primeiro se constitui como um conceito (clínico), a partir do final do sé-
culo XVIII, e reforçada pelas novas hipóteses de constituição do sujeito propostas pela psica-
nálise. Com a constituição, e patologização, de um sujeito homossexual, o relacionamento
sexual entre corpos diferentes é nomeado e assumido como normal no ocidente.
Importa esclarecer que o que se reconhece recente na história são os conceitos de hete-
ro/homossexualidade e não os relacionamentos sexuais, em si. Foucault (1988) afirma que o
homossexual é uma invenção do século XIX e que seu aparecimento integra um cenário de
caça às sexualidades periféricas e provoca a incorporação de perversões e nova es-
pecificação dos indivíduos. A sodomia – a dos antigos direitos civil ou canônico –
era um ato interdito e o autor não passava de seu sujeito jurídico. O homossexual do
século XIX torna-se uma personagem: um passado, uma história, uma infância, um
caráter, uma forma de vida; é também uma morfologia, com uma anatomia indiscre-
ta e, talvez, uma fisiologia misteriosa. (...) O sodomita era um reincidente, agora o
homossexual é uma espécie (p. 50-51).

A constituição de um novo tipo de sujeito, com um corpo e uma experiência sexual desviada,
cria também a espécie em oposição, um corpo e exercício sexual defendido como saudável e
normal.
O aparecimento da heterossexualidade, por outro lado, também tem sua disciplina
própria no seio social. Uma economia da reprodução é forjada de modo que a sexualidade é
submetida ao relacionamento homem-mulher com objetivo geracional e, ao mesmo tempo,
busca impedir os prazeres paralelos – a curiosidade da criança, a masturbação do jovem etc.
Ou seja, a heterossexualidade é também um dispositivo que organiza e dociliza os corpos.
Toda essa atenção loquaz com que nos alvoroçamos em torno da sexualidade, há
dois ou três séculos, não estaria ordenada em função de uma preocupação elementar:
assegurar o povoamento, reproduzir a força de trabalho, reproduzir as forças das re-
58

lações sociais; em suma, proporcionar uma sexualidade economicamente útil e poli-


ticamente conservadora? (p. 43-44).

É preciso observar o próprio cenário em que esta invenção se assenta: o desenvolvi-


mento de uma sociedade que passa a dar cada vez mais importância à produção intelectual do
homem – e, em especial, às ciências naturais e práticas médicas para explicar os fenômenos
sociais. Esses conhecimentos “infalíveis” ofereciam argumentos de regulação para uma Igreja
conservadora e para uma Legislação moralista, acabando por legitimar o “natural” da heteros-
sexualidade e, seu oposto, a “transgressão” da homossexualidade. Assim, tanto a religião co-
mo a lei condenam a sexualidade periférica e o rompimento das leis do casamento – vale lem-
brar que a articulação destas instituições representa as formas de aliança de poder e controle,
já que no curso da história religião, legislação e ciência médica têm se revezado na posição de
discursos autorizados.
Resulta dessa articulação um cenário em que a própria heterossexualidade é apagada
como “argumento científico”, passando a integrar o corpo do conhecimento social sem ques-
tionamentos.
Evidentemente, o campo das práticas e dos prazeres sexuais continua a apontá-la
como sua regra interna. Mas fala-se cada vez menos; em todo caso, com crescente
sobriedade. Renuncia-se a acuá-la em seus segredos; não se lhe exige mais formular-
se a cada instante. O casal legítimo, com sua sexualidade regular, tem direito à mai-
or descrição, tende a funcionar como uma norma mais rigorosa talvez, porém mais
silenciosa (p. 45-46).

Quanto mais se pode falar de heterossexualidade, mais ela pode ser silenciada, mais ela se
fortalece como um conhecimento à prova de questionamentos – ou seja, o discurso de natura-
lidade é sedimentado.
Um aspecto importante apontado por Katz é o fato de as teorias em voga no século
XIX indicarem apenas um desejo sexual, vinculando imediatamente o biológico ao psicológi-
co. “Os sentimentos eram considerados femininos ou masculinos exatamente no mesmo sen-
tido que o pênis ou o clitóris: a anatomia era igual à fisiologia, a fisiologia do sexo determina-
va o sexo dos sentimentos” (1996, p. 62). Importa perceber que, mesmo considerando a exis-
tência de desejo para com o mesmo sexo, nesse esquema a condição final do desejo é polar;
quer dizer, o desejo é masculino ou feminino em si mesmo e está ligado ao sexo diferente.
Assim, um desejo feminino poderia residir num homem e o mesmo ocorrer com a mulher (ser
portadora de um desejo masculino). Esse pensamento é fundador da polaridade homossexua-
lidade/ heterossexualidade. Nesse sentido, Monique Wittig (2006) comenta que
A sociedade heterossexual está fundada sobre a necessidade do outro/diferente em
todos os níveis. Não pode funcionar sem este conceito nem econômica, nem simbó-
lica, nem linguística, nem politicamente. Esta necessidade do outro/diferente é uma
59

necessidade ontológica para todo o conglomerado das ciências e disciplinas que


chamo de pensamento heterossexual20 (p. 53, tradução nossa).

O pensamento heterossexual, do qual Wittig fala, institui e organiza diferenças sociais


e acaba por marcar e hierarquizar os sujeitos tendo por base seu desejo. Certamente esta é
uma operação em que se busca controlar a hegemonia da sociabilidade dócil: o normal é o
desejo de sexo diferente, o normal são gêneros polarizados e universais, portanto toda trans-
gressão é menos valorizada – para não dizer perseguida e estigmatizada. A própria ideia de a
heterossexualidade ser uma moral construída em favorecimento à posição masculina é sinal
não apenas da assimetria social, mas também da violência constitutiva deste ideal.
Neste projeto, não apenas o objeto de desejo e de contato sexual é significativo, mas,
sobretudo, uma economia da sexualidade é fundamental para reproduzir o ideal masculino: o
interesse e disponibilidade sexual, a potência, o desempenho, a narrativa, integram o conjunto
de imagens que qualifica a masculinidade e servem como instrumental para seu reconheci-
mento.
Como resultado, a masculinidade requer evidências de um bom desempenho – essa
expectativa reproduzida de modo geral no corpo social, atravessando os domínios da autori-
dade e da sexualidade. Cada ação do indivíduo é produto e produtor de masculinidade. Nesse
sentido, o desempenho é, efetivamente, um delírio de importância:
Sabemos que o habitus masculino se constrói e realiza em relação com o âmbito re-
servado para homens, onde se realizam os ‘jogos sérios de competência’. Estes jogos
se apresentam na vida cotidiana sob formas políticas, econômicas ou de qualquer ti-
po, e oferecem a libido dominante campos de ação possíveis. Como parte inerente
ao principio do privilegio masculino, se encontram sempre em estado latente os jo-
gos de honrar entre homens21 (FLORES, 2005, p. 140, tradução nossa).

A esse respeito é necessário considerar que sendo uma invenção sobre a vida de um
certo indivíduo e sua apresentação social, e não sendo um registro genético, inato, a masculi-
nidade é, portanto, uma insígnia, a ser conquistada cotidianamente jogos sociais. Ao mesmo
tempo, por ser um exercício incessante, não é uma marca vitalícia: pode ser creditada ou refu-
tada pelos pares. Assim, podemos falar de um capital masculino, nos termos propostos por

20
No original: “la sociedad heterosexual está fundada sobre la necesidad del otro/diferente en todos los niveles.
No puede funcionar sin este concepto ni económica, ni simbólica, ni lingüística, ni politicamente. Esta necesidad
del otro/diferente es uma necesidad ontológica para todo el conglomerado de ciências y de disciplinas que yo
llamo el pensamiento heterossexual”.
21
No original: “sabemos que el habitus masculino se construye y realiza em relación con el ámbito reservado
para hombres, donde se realizan los ‘juegos serios de la competência’. Estos juegos se presentan en la vida coti-
diana bajo formas políticas, económicas o de qualquier tipo, en tanto ofrecen a la líbido dominandi campos de
acción possibles. Como parte inherente al principio del privilegio masculino, se encuentran siempre en estado
latente los juegos de honor entre hombres”.
60

Pierre Bourdieu: produto de um exercício de conjugação de um conjunto simbólico e a com-


petência do sujeito em articular esse conjunto em seu cotidiano, gerando prestígio social.
Como capital, a masculinidade deve ser encarada não apenas como uma experiência
do ponto de vista do indivíduo, mas uma experiência coletiva. E é por esse mesmo motivo que
ela é mediada por dois dispositivos: o da disciplina e o da vigilância.
O dispositivo da disciplina requer do indivíduo que ele observe em seu comportamen-
to os modos de se apresentar socialmente, seus interesses, seus trânsitos, entretenimentos,
pares, o desejo erótico, o manejo do corpo, as conquistas materiais etc. A partir de um conhe-
cimento comum, o próprio sujeito sabe das práticas hegemônicas e percebe a si e aos outros
homens como sujeitos mais ou menos masculinos. Paralelamente, a vida do homem é monito-
rada pelo coletivo, que avalia o quanto há de masculino em cada situação em que o sujeito se
envolve. O resultado de suas ações são mais ou menos produtos de masculinidade porque o
coletivo se encarrega de comprová-las. Esse é a função do dispositivo de vigilância, que arti-
cula todo o corpo social, tecendo um veredito.
Por um lado o indivíduo pode policiar o seu comportamento buscando um aparecer
masculino, mas esta condição é verdadeiramente creditada pelo outro. O indivíduo pode ser
suficiente para dizer da masculinidade alheia, mas não da sua.
Assim, é importante observar este caráter ambíguo, que está no centro do ideal mascu-
lino: embora o senso prático funcione de modo a equivaler dois sexos a dois gêneros como
propriedades inerentes, a masculinidade não é uma propriedade do indivíduo do sexo mascu-
lino, é um conhecimento: organiza posições sociais, definindo os espaços e exercício de po-
der, é, portanto, uma política; mas, sobretudo, é uma forma de conhecimento e inserção no
mundo, que se faz hegemônica por meio de seus próprios mecanismos.
Para dizer que a masculinidade é um sistema de distinção construída no curso da histó-
ria, há um campo de estudos recente e crescente que tem se debruçado pelas práticas cotidia-
nas e experiências dos homens no projeto de uma biografia que se articula mais ou menos
com este sistema. É exatamente neste sentido que analisamos as narrativas sobre o uso do
corpo como insígnia de masculinidade, a partir das cartas que os leitores de Playboy enviam à
redação.
Por um lado, as discussões sobre sexo e gênero sempre investem em argumentações
em que (a forma d)o corpo é requerido como elemento central para que o indivíduo se reco-
nheça – não que esse corpo deva ter formas e narrativas definitivas, mas porque ele é artifício
da biografia do indivíduo. Por outro, os registros na própria revista apontam para o fato de
que este problema é central, que os homens se reconhecem e questionam a si mesmos a partir
61

da experiência que se inicia em seus corpos – certamente experiências mediadas pelo cenário
de constituição de uma masculinidade hegemônica, conforme posto anteriormente.
O que deste masculino histórico há e o que já está vencido na masculinidade contem-
porânea que Playboy publica? É certo as transformações sociais do último século – tecnológi-
cas, econômicas, políticas, culturais e, sobretudo, a forma como elas influenciam as relações
de gênero – desestruturam o saber dominante sobre qual exercício masculino é assentado,
como as novas tecnologias, as novas forças políticas operam rearranjos no savoir-vivre do
homem. O exemplar capital desta experiência da vida do homem é Hugh Hefner, idealizador
de Playboy, que não apenas criou um império editorial de algum modo perturbador (aos arran-
jos morais e estéticos de uma época), mas mistificou a experiência de vida masculina com os
excessos de um viver erotizado. Hefner, casado com quantas mulheres lhe aprouver, realizan-
do a revista de sua cama redonda na Mansão Playboy, quase o melhor trabalho do mundo, se
transformou no retrato de um realizador independente, que leva para a vida pública as vonta-
des íntimas de liberdade e autonomia.
O playboy é espelhado na narrativa da vida de Hefner. Ele conjuga os atributos sedi-
mentados deste conhecimento sobre o ser homem na sociedade ocidental: em síntese, ele é
ativo. Semi-decomposto, ele é independente, decisor e decidido, realizador, seguro, confiante
e convicto, amante do sexo oposto. Ou seja, ele é uma versão semi-renovada do “mito efetivo
da sociedade moderna” (OLIVEIRA, 2004, p. 20).
62

3
O Lugar Da Cesura

É claro que o eterno, na história, não pode ser senão o produto de um trabalho his-
tórico de eternização. O que significa que, para escapar totalmente do essencialis-
mo, o importante não é negar as constantes e invariáveis, que fazem parte, incontes-
tavelmente, da realidade histórica: é preciso reconstruir a história do trabalho his-
tórico de des-historicização.
Pierra Bourdieu, A dominação masculina
63

Quando David Le Breton diz que “o corpo ocidental é o lugar da cesura, o recinto ob-
jetivo da soberania do ego” (2003, p. 9) certamente sucede em traduzir a posição sociocultural
em que o corpo é investido. Nem apenas equipamento anatômico/fisiológico, tampouco ex-
clusivamente discurso ficcional. A materialidade do corpo é requerida pelo conhecimento
comum para mapear o dado biológico, no entanto, essa materialidade já está implicada em
uma trama semântica baseada na diferença (uma trama que também é generificada) e em uma
intencionalidade que é histórica.
Esse é um problema análogo àquele já proposto por Michel Foucault (1988). Como
podemos acessar a materialidade deste corpo senão por meio de um conhecimento que orga-
niza suas peculiaridades e que, inevitavelmente, é mediado por uma lei social?
Cesura, portanto, porque o orgânico é cortado pelo semântico e pelo cultural. Não po-
demos pensá-lo senão em um contexto em que o sujeito é móvel – espacial e biograficamente.
O corpo é o primeiro espaço em que se cria um projeto de individualidade, uma memória.
Como fator de individuação, não pode ser apenas o conjunto de todos os sistemas e órgãos
tampouco só o resultado biológico de sua articulação. O corpo age/reage sobre o domínio so-
cial na medida em que o sujeito transita historicamente.
No entanto, a ideia de corpo, forjado pela história, frequentemente falha em atravessar
as barreiras de um conhecimento comum que ainda se apoia muito no discurso médico-
científico. A popularização do discurso qualificado do cientista e do médico invizibiliza a
produção cultural em favor dos resultados do laboratório. Também em função deste discurso
autorizado pensamos, de modo geral, no corpo como um produto definitivo, com funções da-
das naturalmente – um corpo real e bem conhecido e que há uma verdade sua que pode ser
descoberta.
Mas, novamente, não é esse corpo real produto de disputas de poder e saber? O saber
sobre o corpo não é ele mesmo uma monopolização de sentidos, espécie de colonização do
equipamento? Assim, já que é investido da cultura para fazer sentido, o corpo é dúbio, pois é
ao mesmo tempo a encarnação do sujeito e seu excesso.
Máquina anatômica maravilhosa, artefato biológico bem executado – é um produto re-
cente da racionalidade moderna, com a ciência médica que se debruça sobre suas funcionali-
dades e o explica em termos de saúde, morbidade e mortalidade. No entanto, são estas mes-
mas razões que fazem do corpo uma “indignidade sem remédio”, conforme metáforas de Le
Breton. A tradição clássica suspeita do corpo, porque como veículo do sujeito “coloca a exis-
tência em perigo”, quer dizer, limita as possibilidades de existência no tempo. Nessa raciona-
lidade, o corpo é um instrumento imperfeito que não permite ao sujeito a plenitude de sua
64

experiência – ou pelo menos o que se projeta como potencial plenitude. A racionalidade ilu-
minista, por seu termo, já separava o indivíduo por uma oposição do tipo carne versus alma,
pois a expressão tipicamente humana do sujeito seria dada pelas suas faculdades conscientes.
Portanto, o corpo seria encarado como instrumento, suporte material da ideia de pessoa. Essa
leitura transforma um corpo morto em objeto de pesquisa, material científico – suprimindo
sua função subjetiva na construção biográfica.
Nesse sentido, segundo o autor, vivemos o corpo como excesso, buscando eliminá-lo
ou modificá-lo, estender a sua função de apoio material do sujeito. A ciência e a medicina
contemporâneas não reservam esforços em investigar e forjar novos limites para os corpos –
melhor seria dizer novos limites para o sujeito. Esse é um compromisso importante para o
saber tecnocientífico, reconstruir o corpo, eliminar sua perecibilidade e construir uma enge-
nharia biológica para a longevidade.
Esse imaginário tecnocientífico é um pensamento radical da suspeita; ele institui o
processo do corpo por meio da constatação da precariedade da carne, de sua durabi-
lidade, de sua imperfeição na apreensão sensorial do mundo, da doença e da dor que
o atingem do envelhecimento inelutável das funções e dos órgãos, da ausência da
confiabilidade de seus desempenhos e da morte que sempre o ameaça. Esse discurso
de descrédito censura o corpo por sua falta de domínio sobre o mundo e por sua vul-
nerabilidade, pela disparidade clara demais com uma vontade de dominação o tempo
todo desmentida pela condição eminente precária do homem (p. 16).

No entanto, podemos dizer que essa precariedade do corpo é contingente e inaugura novas
condições de produção, o desenvolvimento de uma tecnologia da vida social em que o ho-
mem, mesmo em desvantagem anatômica, sucede em adaptar-se e desafiar o ambiente. Nesse
sentido, é interessante observar duas leituras que apontam para um desejo de superação do
corpo.
O trabalho de Marchal McLuhan (2005) Os meios de comunicação com extensão do
homem desenvolve a perspectiva de que as tecnologias de comunicação são fatores relevantes
na transformação da dinâmica social e que são, senão, extensões do (corpo) humano, na me-
dida em que superam as limitações de interação social. Porém, ao contrário de limitar os mei-
os de comunicação como tecnologias elétricas (ou digitais), McLuhan traz na segunda parte
da obra uma visão mais ampliada destas extensões. “Todas as tecnologias são extensões de
nosso sistema físico e nervoso, tendo em vista o aumento de energia e velocidade” (p. 108-
109).
Com efeito, o autor pensa em tecnologias que permitem ao homem potencializar o ca-
ráter social de sua existência, colocando no conjunto das tecnologias de comunicação, certa-
mente, o desenvolvimento da linguagem, o alfabeto e a palavra escrita, o papiro e o papel, a
tipografia e a imprensa, mas também a invenção da estrada, da roda, do número, do vestuário,
65

do automóvel e do avião etc. Estes últimos, embora não sejam frequentemente encarados co-
mo meios de comunicação, num sentido mais qualificado das teorias deste campo, são tecno-
logias que desafiam a territorialização e agilidade das interações sociais, transformam o conta-
to cultural e potencializam ação do homem, ação que demanda que o aparato físico invista
sobre o ambiente.
Outro texto que mostra que um projeto de pós-corpo já opera em nossas sociedades é o
Manifesto Ciborgue, publicado por Donna Haraway na década de 1980. Importa salientar que
como feminista, Haraway pretende superar a concepção de um corpo essencial que determina,
via evidência anatômica, posições político-culturais para os gêneros. Portanto, seu manifesto
propõe uma ficção capaz de mudar o mundo, deitando por terra as explicações essencialistas
que investem o corpo e tentam normatizar as práticas sociais entre os gêneros.
O ciborgue é um organismo híbrido, máquina-humano, que nos obriga capitular de ex-
plicações de uma essência do gênero no corpo. “Argumento em favor do ciborgue como uma
ficção que mapeia nossa realidade social e corporal e como um recurso imaginativo que suge-
re alguns acoplamentos frutíferos”22 (HARAWAY, 1991, p. 150, tradução nossa). A metáfora
funcionaria como uma proposta formativa, intencionando acabar com as desigualdades de
gênero, já que o corpo ciborgue é evidentemente forjado – não sendo falso, mas também não
podendo ser requerido como naturalmente masculino ou feminino.
Com efeito, se pensarmos na ciência e na medicina, que procuram recuperar no corpo
o potencial de vida para o sujeito, nossos corpos são ciborgues. Quantos indivíduos sobrevi-
vem por meio de máquinas, internados em hospitais? E mais que isso, um sem-número indi-
víduos vive com o apoio de próteses para recuperar certas funções físicas ou para monito-
rar/viabilizar o funcionamento fisiológico, ortopédico, cardiológico etc. Outras experiências
mais invisíveis, como a vestimenta (que substitui os pelos na proteção do corpo), os óculos
(para corrigir desvios visuais) ou o aparelho auditivo (para contornar traumas acústicos) tam-
bém dão conta da metáfora do ciborgue como desejo de instrumentalização do pós-corpo.
Nesse sentido, os corpos que criam as estradas comunicativas de McLuhan são os
mesmos corpos ciborgues de Donna Haraway. O corpo que não pode alcançar o continente do
além-mar e tem uma extensão no navio, é um ciborgue há séculos. O império que precisa de-
safiar novos territórios com violência e conquistá-lo também é constituído de ciborgues arma-
dos, na medida em não conseguiria o mesmo efeito colonizador sem seu arsenal bélico.

22
No original: “I am making an argument for the cyborg as a fiction mapping our social and bodily reality and
as an imaginative resource suggesting some very fruitful couplings”.
66

Essas duas propostas teóricas, de campos/estudos absolutamente distintos, mostram o


quanto a materialidade do corpo transborda o domínio do natural – e não apenas nas socieda-
des contemporâneas, mas também nas mais primitivas, que já forjavam instrumentos de caça,
protegiam o corpo com peles de animais etc. Até mesmo o conhecimento científico que legis-
la pelo natural logra sua posição de conhecimento dominante por não se omitir no investimen-
to de um corpo manipulável.
Como consequência dos contextos que permitem pensar em um corpo estendido ou um
ciborgue, David Le Breton (2003) prevê um Adeus ao corpo, na medida em que o sujeito forja
novas formas de simbolizá-lo e, além disso, busca superar uma vivência que tem no corpo um
suporte exclusivo. Na sociedade contemporânea se “o consumo nervoso (estresse) substituiu o
consumo físico” (p. 20) e as técnicas corporais elementares são cada vez menos potencializa-
das, não podemos falar de um corpo como materialidade orgânica exclusivamente, sob pena
de não reconhecer que o discurso da naturalidade do corpo é contradito pelas mesmas técnicas
científicas que falsificam o natural, potencializando a existência do indivíduo.
Nesse sentido, contra uma dogmática do natural, vale considerar a discussão proposta
por Bruno Latour (2007), com algumas observações razoáveis para desestabilizar sua hege-
monia. De início, para o antropólogo francês o corpo é
um interface que vai ficando mais descritível quando aprende a ser afectado por
muitos mais elementos. O corpo é, portanto, não a morada provisória de algo de su-
perior – uma alma imortal, o universal, o pensamento – mas aquilo que deixa uma
trajectória dinâmica através da qual aprendemos a registar e a ser sensíveis àquilo de
que é feito o mundo (p. 40, grifo do autor).

Com esta proposição, Latour se recusa a encarar o corpo como uma materialidade que funcio-
na organicamente, mas é inerte socialmente. O corpo não é só substância, mas uma existência.
Com efeito, afirma que ter um corpo é aprender a ser afetado, ou seja, ele nunca é natural ao
ponto de independer do seu entorno.
Aprender a ser afetado significa que o corpo – como o sujeito, mas não separado dele;
ambos imbricados – está investido em uma trama dinâmica e formativa e é em sua vivência
que se descobre e articula o conhecimento do mundo. Latour pretende evitar constituir uma
mentalidade que separa o sujeito, o corpo, o mundo e os objetos, transformando toda relação
formativa em mediações sucessivas.
A ideia de articulação é cara para esta proposta. Se o corpo se desenvolve por ser afe-
tado pelo mundo, então, ele é tão mais articulado quanto mais investir e for investido por sua
experiência. Isso significa que os conhecimentos corporais são erigidos como parte da desco-
berta de novos conhecimentos, sejam eles físicos ou sociais. Para esclarecer essa posição,
67

Latour recorre ao exemplo do malettes à odeurs, um kit de fragrâncias distintas utilizado para
treinar pessoas a identificar odores sutilmente diferentes. “Tudo se passa como se pela prática
ela tivesse adquirido um órgão que define a sua capacidade de detectar diferenças químicas
ou outras: pelo treino, aprendeu a ter um nariz que lhe permite habitar num mundo odorífero
amplamente diferenciado” (p. 41, grifo do autor). Ou seja, o corpo é adquirido progressiva-
mente, face às contrapartidas do mundo. Com este exemplo podemos pensar em especialistas
capazes de diferenciar a qualidade de bebidas (vinho, cerveja, café) ou músicos que identifi-
cam notas indiferentes ao ouvido destreinado.
Fica mais claro, a essa altura, que o próprio sujeito constrói conhecimento a partir das
contingências do ambiente; portanto a ideia de articulação pode ser cara também para analisar
o trânsito do sujeito contemporâneo. “Um sujeito inarticulado é alguém que sente, faz e diz
sempre o mesmo, independentemente do que os outros disserem. Um sujeito articulado, pelo
contrário, é alguém que aprende a ser afectado pelos outros - não por si próprio” (p. 43, grifo
do autor). Articulação, portanto, significa uma capacidade de deglutir as diferenças e não ex-
clusivamente responder à autoridade. E é neste sentido que importa evitar a separação sujei-
to/corpo versus mundo/objetos, pois
o contexto local, material e artificial não pode ser construído como mero intermediá-
rio; nem, sobretudo, como simbolização arbitrária de um mundo ‘indiferente’ reali-
zada por um sujeito. Será antes construído como aquilo que, por causa da artificiali-
dade do instrumento, possibilita que as diferenças do mundo sejam acumuladas na-
quilo que, a princípio, pareciam ser conjuntos arbitrários de contrastes (p. 43-44, gri-
fo do autor).

Por meio de uma “epistemologia política normativa alternativa”, proposta por Isabelle
Stengers e Vinciane Despret, Latour também colabora em desmistificar a crença em um mé-
todo “imparcial” do conhecimento científico e, portanto, uma verdade natural absoluta no
processo de conhecimento. Para início da discussão, o autor aponta que “o sonho de uma me-
todologia científica genérica é uma falácia”, porém que os cientistas não capitulam totalmente
das pressões normativas da filosofia da ciência, “para garantir que alguns domínios de inves-
tigação sejam mais científicos que outros” (p. 48).
Latour quer realçar que o conhecimento científico não é esterilizado, pois qualquer ob-
jeto que logra ser analisado desperta o interesse de alguém. Portanto, “científico significa inte-
ressante” e nesse sentido o objeto só pode ser analisado como produto de um recorte, uma
escolha – ele é eleito para ser explicado.
A maior parte dos protocolos são científicos porque os cientistas se envolvem tão
pouco quanto possível nas interacções com entidades que se movem com a mínima
interferência possível desses mesmos cientistas. O ideal comum de ciência é então
composto por um cientista desinteressado que deixa entidades completamente mu-
das e não-interferidas percorrerem automaticamente seqüências de comportamento.
68

Mas, segundo S-D [Stengers e Despret], este arranjo do senso comum é receita certa
para o desastre: um cientista desinteressado que se abstém de interferir com entida-
des desinteressadas produzirá articulações totalmente desinteressantes, ou seja, re-
dundantes! O caminho para a ciência implica, pelo contrário, um ou uma cientista
apaixonadamente interessado/a, que proporciona ao seu objecto de estudo as oca-
siões necessárias para mostrar interesse, e para responder às questões que lhe co-
loca recorrendo às suas próprias categorias (p. 50, grifo do autor).

Isso não significa uma ciência absolutamente empática ou imprudentemente generosa. Uma
distância crítica é necessária, mas não com abolição dos laços entre o cientista e o objeto.
Significa que o interesse deve ser produtivo, oferecer ocasião para que o objeto seja observa-
do a partir de articulações mais ricas, propondo questões próprias, não apenas questões-
produto da empatia do cientista, nem somente aquelas pressupostas a partir do dispositivo
laboratorial.
Seguindo esta pista, podemos ver como o natural requerido como objeto que necessita
análise e que esconde uma verdade também falha em ser natural, pois sua explicação passa,
necessariamente, pelo artefato da ciência. Com efeito, o que há de ser expresso em termos de
naturalidade ou não passa por uma mediação científica. Para implicar nesta discussão a ideia
de um corpo não exclusivamente natural e a própria lei social que institui uma taxonomia dos
corpos, importa levar em consideração que o conhecimento científico busca aquilo que é re-
calcitrante em humanos e não-humanos, porém “este mandamento é, paradoxalmente, mais
difícil de aplicar a humanos que a não-humanos. Ao contrário destes últimos, os humanos,
quando confrontados com a autoridade científica, têm grande tendência a perder tudo o que
têm de recalcitrante, comportando-se como objectos obedientes” (p. 50). Nesse sentido, por
exemplo, o corpo dito masculino sucede em apresentar evidências desta categoria em função
de convenções de um conhecimento que previamente instituiu uma série de diferenças para
dizer-se masculino. De fato, o natural é produto de uma idealidade histórica que o conceitua e
o opõe a outra idealidade que é o não-natural.
Ao estudar a atividade científica, por meio dos princípios de falsificação de Stengers e
Despret, Latour busca mostrar como o método e os resultados da ciência natural são viruliza-
dos pelo lugar do cientista. Este é, em última instância, um argumento caro para falar de corpo
e uma normatividade intitucional-científica.
Com o contraponto da posição de Latour podemos buscar uma forma de falar sobre o
corpo que não seja tão pessimista como a de Le Breton, e também evitar a separação sujeito
versus corpo, pois ela, com efeito, não contribui para uma discussão sobre a construção dos
gêneros. Se separamos o corpo, é provável que este movimento o desloque para o domínio de
uma ciência médica como discurso inquestionável. Ao contrário, ao falarmos em um sujeito
69

generificado, temos uma biografia incorporada e este corpo exerce uma ação/posição nesta
biografia.
Ao contrário da leitura de Le Breton, podemos considerar que a sociedade contempo-
rânea busca controlar o corpo não por ressentimento de sua perenidade, mas por reconheci-
mento de seu privilégio para investir em experiência. Talvez um dia se supere a vida no cor-
po. Mas o esforço produtivo em tal tarefa não guarda a intenção de longevidade e, portanto, a
manutenção de um pós-corpo? Uma experiência de vida análoga a corporal, mas artefactual-
mente garantida?

Falar de gênero no corpo


Ao colocar o corpo nas discussões sobre gênero, então, não é possível abordá-lo ex-
clusivamente como artefato de uma vida orgânica, suas extensões ou potencialidades de bio-
engenharia. É necessário também posicioná-lo como instrumento biográfico e, nesse sentido,
as relações de poder implicadas no conceito de gênero exercem papel importante.
Como na disputa científico versus sociocultura, duas posições são recorrentes no deba-
te de gênero: a primeira vê o corpo como propriedade exclusiva da natureza, que produz sexo
e gênero mutuamente coerentes; e a segunda que defende a inserção do corpo em uma série de
operações formativas, como efeito de conhecimento social. Os dois modelos resultam, da
mesma forma, em uma apropriação distinta sobre masculinidade: natural, rígida, patriarcal ou
cultural, artefactual, contingente.
Se David Le Breton é crítico em relação à manipulação do corpo por uma tecnociên-
cia, ele não desconsidera aí, ao mesmo tempo, um projeto de reconhecimento investido no
corpo:
nas sociedades ocidentais, o corpo é o fator de individuação, estabelece a fronteira
da identidade pessoal. A igualdade do homem consigo mesmo, sua identidade pró-
pria, implica a igualdade com seu corpo. Tirar-lhe ou acrescentar-lhe algo coloca es-
se homem em posição intermediária, ambígua, rompe com as fronteiras simbólicas.
Aquele que pretende a humanidade de sua condição, sem oferecer suas aparências
comuns em virtude de suas mutilações, suas deformidades, suas ações imprevisíveis
ou sua dificuldade de comunicação, é fadado à suspeita – a ele está prometida uma
existência que desenvolve no palco, diante do ardor dos olhares sem indulgência dos
transeuntes ou das testemunhas da dessemelhanças (2003, p. 86).

A dificuldade de comunicação à qual se refere reside no afastamento da imagem do corpo de


um repertório comum e tradicionalmente cultivado. No que respeita a nossa perspectiva de
gênero, a masculinidade não é um destino necessário para o indivíduo que nasceu com o sexo
70

masculino. Quer dizer, nem os registros anatômicos, nem aqueles comportamentais, podem
garantir a masculinidade.
Embora pareça evidente, portanto, o corpo é inapreensível. Isso porque é sempre o re-
sultado de uma série de operações sócio-históricas e culturais de produção de sujeitos e suas
biografias. Faz parte de um processo discursivo e sua topografia e funcionamento são recruta-
dos pelo saber social, coletivo, para a construção de sentidos compartilhados.
As representações sociais atribuem ao corpo uma posição determinada no seio do
simbolismo geral da sociedade. Elas nomeiam as diferentes partes que o compõem,
penetram o interior invisível do corpo para aí registrar imagens precisas, elas se situ-
am seu lugar no seio do cosmos ou da ecologia da comunidade humana. Este saber
aplicado ao corpo é imediatamente cultural. Mesmo se é apreendido de um modo
rudimentar pelo sujeito, ele permite-lhe dar um sentido à espessura de sua carne, sa-
ber do que é feito, vincular suas doenças ou seus sofrimentos a causas precisas e
conformes à visão de mundo de sua sociedade, permite, enfim, conhecer sua posição
perante a natureza e os outros homens, a partir de um sistema de valor (2011, p. 17).

É no seio deste problema (da coerência entre sexo, gênero e corpo) que os movimentos
de libertação sexual têm trabalhado desde o último século. Uma separação entre os conceitos
de sexo e gênero se faz fundamental, para dar conta do corte sociocultural nas vidas dos sujei-
tos, construindo biografias de gênero. O sexo é uma categoria constituída por um conheci-
mento anatomorfofisiológico, ou seja, as evidências anatômicas e hormonais são critérios le-
gítimos e únicos para categorizar os sujeitos. Mas, como Weeks (1999) coloca, “embora estas
distinções anatômicas sejam geralmente dadas no nascimento, os significados a ela associados
são altamente históricos e sociais” (p. 43). Para Butler (1999),
como um efeito sedimentado de uma prática reiterativa ou ritual, o sexo adquire seu
efeito naturalizado e, contudo, é também, em virtude dessa reiteração, que fossos e
fissuras, são abertos, fossos e fissuras que podem ser vistos como as instabilidades
constitutivas destas construções, como aquilo que escapa ou excede a norma, como
aquilo que não pode ser totalmente definido ou fixado pelo trabalho repetitivo da-
quela norma (p. 163-164).

O gênero, por sua vez, é um conceito eminentemente cultural, pois, a despeito da evi-
dência biológica, os sujeitos escrevem histórias de vida no trato cotidiano, por meio de rela-
ções formativas com seus pares e instituições sociais – inclusive subvertendo o projeto domi-
nante implicado nos seus corpos. A urgência do conceito de gênero, inclusive, está intima-
mente ligada ao desenvolvimento do feminismo. A célebre frase de Simone de Beauvoir, “a
gente não nasce mulher, torna-se mulher”, é produto desta mentalidade, em que o sujeito mu-
lher (e homem, da mesma maneira) é resultado de um processo: “todo o ser humano do sexo
feminino não é, portanto, necessariamente mulher; cumpre-lhe participar dessa realidade mis-
teriosa e ameaçada que é a feminilidade” (2008, p. 10).
71

Tomando o desafio de Beauvoir, de que o indivíduo precisa participar dessa posição


de gênero, podemos nos perguntar quantos indivíduos nascidos com a evidência masculina no
corpo (majoritariamente, o pênis), sentem-se, ao contrário, engajados em uma subjetividade
feminina; ou, para não arriscar exemplo mais distante, quantos homens não se sentem sujeitos
de um exercício de masculinidade agressiva, exploradora, não-empática.
Segundo Butler (2010), tal coerência biográfica, baseada na vinculação sexo/gênero,
não é uma característica do indivíduo mesmo, mas integra normas de inteligibilidade social.
Os corpos que se enquadram nas expectativas masculino/feminino e realizam uma experiência
a rigor emparelhada com a norma binária, integram os gêneros inteligíveis,
aqueles que, em certo sentido, instituem e mantêm relações de coerência e continui-
dade entre sexo, gênero, prática sexual e desejo. Em outras palavras, os espectros de
descontinuidade e incoerência, são constantemente proibidos e produzidos pelas
próprias leis que buscam estabelecer linhas causais ou expressivas, entre o sexo bio-
lógico, o gênero culturalmente construído e a ‘expressão’ ou ‘efeito’ de ambos na
manifestação do desejo sexual por meio da prática sexual (p. 38).

Ou seja, a pretensa incoerência dos corpos que recusam a sua evidência biológica, “desrespei-
tando” a continuidade sexo-gênero-desejo-prática sexual, produzem gêneros ininteligíveis:
não fazem sentido, não poderiam existir coerentemente.
Importa observar que uma “matriz de inteligibilidade” concorre para a constituição de
biografias que articulam uma série de operações simbólicas relacionais em que é possível
construir histórias individuais que serão reconhecidas socialmente. “E dizer que existe uma
matriz de relações de gênero que institui e sustenta o sujeito não significa afirmar que existe
uma matriz singular que age de uma forma singular e determinista para produzir um sujeito
como seu efeito” (1999, p. 162).
Poderíamos ensaiar aplicar essa matriz de inteligibilidade não exclusivamente às fa-
lhas de continuidade mais radicais, mas utilizá-la também para pensar expectativas morais e
comportamentais e técnicas corporais que os indivíduos de dado gênero não conseguem satis-
fazer. Nestes casos, não trataríamos de gêneros absolutamente ininteligíveis, senão marginais
dentro da sua própria matriz de compreensão. Desta forma, podemos pensar as expectativas
de exercício do gênero não implica exclusivamente o resultado prática sexual-desejo, mas
também comportamento-moralidade-corporalidade.
Biografia não prescinde, certamente, do conhecimento comum e se estende ao corpo,
produzindo, com efeito, as expectativas de ser masculino ou feminino – por meio de uma série
características pretendidas suficientes para classificar os sujeitos. A sedimentação destas ca-
racterísticas opera um código compartilhado, permitindo erigir um mundo comum na medida
em que classificam os corpos e excluem outros estigmatizados em sua diferença.
72

A sociedade estabelece os meios de categorizar as pessoas e o total de atributos con-


siderados como comuns e naturais para os membros de cada uma dessas categorias.
Os ambientes sociais estabelecem as categorias de pessoas que têm probabilidade de
serem neles encontradas. As rotinas de relação social em ambientes estabelecidos
nos permitem um relacionamento com ‘outras pessoas’ previstas sem atenção ou re-
flexão particular. [...] Baseando-nos nessas preconcepções, nós as transformamos em
expectativas normativas, em exigências apresentadas de modo rigoroso (GOFF-
MAN, 1988, p. 12).

Se o masculino é o domínio da força, da energia, da coragem, da virilidade etc., o fe-


minino apresenta um espólio simbólico com atributos opostos. É o conhecimento social que
opera incorporar cada conjunto de símbolos a uma anatomia, que por sua vez inspira um pro-
jeto de vida, de exercício de gênero e de reconhecimento social.
Nesse sentido, o próprio aparato sexual mobiliza este repertório comum, que investe o
corpo nas categorias masculino/feminino. Com efeito, há uma diferença material em cada
corpo, mas esta diferença não é inerentemente de masculinidade ou feminilidade; ao contrá-
rio, estes últimos são saberes construídos pelo e investidos no corpo. “Não há como recorrer a
um corpo que já não tenha sido sempre interpretado por meio de significados culturais; con-
sequentemente, o sexo não poderia qualificar-se como uma facticidade anatômica pré-
discursiva” (BUTLER, 2010, p. 27). Da mesma forma, se falamos em um sexo masculino e
um sexo feminino também estamos falando em uma ficção. Isso porque ao investir o sexo e
os corpos nestas categorias, estamos operando novos valores culturais no sexo e no corpo.
A separação entre sexo e gênero no corpo implica poder denunciar que não há deter-
minação biológica segura de desejo, de práticas sexuais – e como proposto aqui nem das téc-
nicas corporais, nem do comportamento. Consegue, ao mesmo tempo, desestabilizar uma lei-
tura estritamente normativa nas categorias de homo e heterossexualidade, como se a proprie-
dade do pênis ou da vagina, per se, estabelecesse um desejo de sexo diferente. Todas as rela-
ções causais pressupostas por um conhecimento biológico são atravessadas pelo reconheci-
mento de que o cultural opera novas possibilidades formativas.
Se o gênero são os significados culturais assumidos pelo corpo sexuado, não se pode
dizer que ele decorra, de um sexo desta ou daquela maneira. Levada a seu limite ló-
gico, a distinção sexo/gênero sugere uma descontinuidade radical entre corpos sexu-
ados e gêneros culturalmente construídos. Supondo por um momento a estabilidade
do sexo binário, não decorre daí que a construção de ‘homens’ aplique-se exclusi-
vamente a corpos masculinos, ou que o termo ‘mulheres’ interprete somente corpos
femininos. Além, disso, mesmo que os sexos pareçam não problematicamente biná-
rios em sua morfologia e constituição, não há razão para supor que os gêneros tam-
bém devam permanecer em número de dois. A hipótese de um sistema dos gêneros
encerra implicitamente a crença numa relação mimética entre gênero e sexo, na qual
o gênero reflete o sexo ou é por ele restrito. Quando o status construído do gênero é
teorizado como radicalmente independente do sexo, o próprio gênero se torna um ar-
tifício flutuante, com a conseqüência de que homem e masculino podem, com igual
facilidade, significar tanto um corpo feminino como um masculino, e mulher e fe-
minino, tanto um corpo masculino como um feminino (p. 24-25).
73

Portanto, não é apenas a evidência do sexo no corpo que determina a biografia do sujeito.
Embora aparentemente “intratável em termos biológicos” (p. 24), a própria distinção bipolari-
zada entre sexos não é suficiente para falar de causalidade em termos sexuais se pensarmos,
por exemplo, que corpos intersexo não se enquadram nesta separação masculino/feminino,
porque apresentam ambas as evidências.
Para Butler, portanto, o sexo não é o fato ou a condição estática do corpo. O corpo é
materialmente regulado a partir dele, mas ao mesmo tempo o produz.
O fato de que essa reiteração seja necessária é um sinal de que a materialização não
é nunca totalmente completa, que os corpos não se conformam, nunca, completa-
mente, às normas pelas quais a sua materialização é imposta. Na verdade, são as ins-
tabilidades, as possibilidades de rematerialização, abertas por este processo, que
marcam um domínio no qual a força regulatória pode se voltar contra ela mesma pa-
ra gerar rearticulações que colocam em questão a força hegemônica daquela mesma
lei regulatória (1999, p.154).

Nesse sentido, o trabalho de Butler é reconhecido por investir na perspectiva de que o


gênero é performativo, ou seja, é uma prática que cria corpos como efeito produtivo de poder.
O conceito de performatividade deve ser entendido como “aquele poder reiterativo do
discurso para produzir os fenômenos que regula e constrange”. Desta perspectiva, resulta que
o sexo não é simples propriedade, senão “uma das normas pelas quais o ‘alguém’
simplesmente se torna viável, é aquilo que qualifica um corpo para a vida no interior do
domínio da inteligibilidade cultural” (p. 155); e o gênero, por seu lado, também não pode ser
simplesmente imposto: o gênero, como o corpo, é recalcitrante, age e reage às normas
regulatórias que o investem.
Na atualidade diversas histórias servem para afastar do corpo o destino masculino.
Como evidência, a princípio, poderia-se defender que o pênis tenha o privilégio da
masculinidade. Mas como situá-la no corpo se um homem tem o pênis amputado? De outro
modo, o homem que necessida de um implante peniano para corrigir disfunção erétil é menos
masculino por não corresponder às evidências da ereção? Alguns destes exemplos servem
para contra-argumentar o determinismo da evidência biológica.
A partir de perspectiva diferente, Connel (2005a) pontua que o discurso sociocultural
pode ser contraproducente se eleva o corpo a um estado de arte, como uma tela a ser
preenchida criativamente – quer dizer, se o corpo é colonizado dentro de uma idealidade
ocidental e hegemônica do que é ser masculino. A metáfora da superfície ignora uma ação do
corpo articulando o conhecimento generificado, mas também uma reação própria na
experiência corporal. Sua crítica não é que a cultura não seja um fator relevante na forma
74

como reconhecemos e classificamos o corpo, mas que explicá-lo como fenômeno de discurso
cultural, exclusivamente, o transforma em objeto simbólico, mas não em participante.
A autora lembra que o corpo, de fato, importa em sua materialidade 23 e faz-se
necessário investigar os investimentos que se faz dele: na dinâmica entre homens e mulheres,
entre homens e homens, no esporte, no trabalho, no sexo etc. Ou seja, identificar as condições
de desempenho corporal que correspondam às dinâmicas cotidianas dos indívidos
“reconhecidamente” homens.
Vale lembrar que reconhcer nos corpos a sua materialidade e importância também é
um dos pressupostos de Judith Butler. Os corpos que pesam impõem a sua condição de agente
da sociabilidade e construção da experiência de gênero, e por isso a sua materialidade
importa. No entanto, Butler parte de uma posição pós-estruturalista e defente os efeitos de
discurso no peso destes corpos.
O que eu proporia no lugar dessas concepções de construção é um retorno à noção
de matéria, não como local ou superfície, mas como um processo de materialização
que se estabiliza ao longo do tempo para produzir o efeito de fronteira, de fixidez, e
de superfície – daquilo que nós chamamos de matéria. O fato de que a matéria é
sempre materializada tem que ser pensado, na minha opinião, em relação aos efeitos
produtivos e, na verdade, materializadores do poder regulatório, no sentido foucaul-
tiano. Assim, a questão não é mais “como o gênero é constituído como – e através
de – uma certa interpretação do sexo” (uma questão que deixa de teorizar a “maté-
ria” do sexo), mas, em vez disso, “através de que normas regulatórias é o próprio se-
xo materializado?” E por que é que tratar a materialidade do sexo como um dado
pressupõe e consolida as condições normativas de sua própria emergência? (1999, p.
163, grifo da autora).

Certamente o próprio investimento do corpo importa, no entanto, qual seja a dinâmica


social, este corpo está submetido a um juízo de gênero. No esporte, por exemplo,
historicamente reinvindicado como domínio de habilidade masculina, o movimento ou a
performance cinética não correspondem especialmente a um ou outros gêneros. Ainda assim,
a construção da diferença requer força, habilidade, energia como atributos do corpo do
homem. É a contrapartida social e do ambiente em que esse corpo é investido que produz ele
masculino. Mas não porque as habilidades requeridas sejam propriamente de um corpo de
homem, mas porque há um conjunto social que constitui como saber que o corpo masculino
deve suceder melhor que o feminino: que seja mais energético, mais disciplinado, mais
muscular, invista com mais permissão e explore com mais segurança o espaço público etc.
Bourdieu lembra que
os símbolos são os instrumentos por excelência da ‘integração social’: enquanto ins-
trumentos de conhecimento e comunicação, eles tornam possível o consensus acerca

23
No texto original a autora joga com a ambiguidade da palavra da língua inglesa matter que pode se referir a
importância ou materialidade. O mesmo jogo é tratado na obra de Butler.
75

do sentido do mundo social que contribui fundamentalmente para a reprodução da


ordem social: a integração “lógica” é a condição da integração ‘moral’ (2010, p. 10).

É o conhecimento sobre gênero que constitui técnicas corporais distintas. Os corpos não são
superfícies em que se verificam expressamente certos valores; ao contrário, produzem/reagem
de acordo com um cenário interessado (a divisão do trabalho, a prática dos esportes, as
técnicas sexuais, a distância dos corpos etc.)
Por isso o gênero é diverso, porque é construído em práticas cotidianas, embates entre
o hegemônico e o marginal, investimentos, ações e reações do corpo. Se a masculinidade é
entendida como produto e produtor dos corpos dos homens 24, é imprescíndível observar como
lidam com o que há de produção corporal que os aproxima de uma visão dominante de
masculindiade em seu meio; ou o que é subalterno e os estigmatiza por ser uma realização
aquem do projeto hegemônico.

Um corpo masculino coletivo


Se a masculindade é um agente cultural e, portanto, uma linguagem que permite
comunicação, as formas pelas quais o corpo masculino é investido para fazer sentido comum
resultam de um processo vivo e ao mesmo tempo arbitrário. Embora traduzir um projeto de
vida central para os homens não seja feito somente a partir do espaço mais poderoso, como
cultura implica em alteridade, o processo mesmo é assimétrico. Assim, este corpo que parece
sempre apresentar evidências de potência, segurança e agressividade está mergulhado em um
processo histórico em que a política e o espaço públicos foram tomados por masculinos (e
mais precisamente para um dado tipo de homem), por falta de direitos extendidos a toda a
pluralidade social. Com efeito, não é porque sua topografia seja propriamente de um corpo
masculino, mas porque há um investimento que qualifica o corpo da masculinidade.
Podemos falar em um corpo masculino que se hegemoniza por meio da produção e
articulação de um sistema simbólico, que é, segundo Bourdieu (2010), instrumento de
conhecimento e comunicação estruturado (é informado historicamente) e estruturante
(influencia as práticas sociais em curso). Assim, as formas socialmente reconhecidas de corpo
masculino operam como retratos, registros de uma vida informada e re-produzem o ideal

24
Connel fala de uma perspectiva em que se privilegiam as experiências dos homens, embora já tenhamos apon-
tado a existência de estudos que defendem e mostram como a vinculação masculinidade-masculino-homem não
é necessária – sobretudo a partir do conceito de “masculinidades femininas” de Jack Halberstam.
76

dominante provedor-protetor-potente, que a despeito de ser correspondido em sua completude


não deixa de ser acreditado como um partilhamento das biografias masculinas.
Como as relações e diferenças de gênero são produtores de poder,
o corpo está também diretamente mergulhado num campo político; as relações de
poder têm alcance imediato sobre eles; elas o investem, o marcam, o dirigem, o su-
pliciam, sujeitam-no a trabalhos, obrigam-no a cerimônias, exigem-lhe sinais. Este
investimento político do corpo está ligado, segundo relações complexas e recíprocas,
a sua utilização econômica; é, numa boa proporção, como força de produção que o
corpo é investido por relações de poder e de dominação; mas em compensação sua
constituição como força de trabalho só é possível se ele está preso num sistema de
sujeição (onde a necessidade é também um instrumento político cuidadosamente or-
ganizado, calculado, utilizado); o corpo só se torna força útil se é ao mesmo tempo
corpo produtivo e corpo submisso (FOUCAULT, 2009, p. 29).

Com Foucault vemos como é exemplar o ideal do guerreiro para o projeto de


masculindiade do ocidente, transformando o indivíduo em instrumento de poder e autoridade
e servindo ao mesmo tempo para produzir uma tendência para a belicosidade e a proposta
panóptica de controle dos corpos alheios. A história do Ocidente, com efeito, é atravessada
por narrativas de deuses míticos, grandes imperadores, cavaleiros medievais e um corpo
militar moderno – que se tornam clássicos para a construção social da masculinidade,
permeando as experiências formativas de meninos e homens. Atualizado, o personagem ganha
vida no soldado, que sintetiza o ideal do corpo vinculado à masculinidade hegemônica.
O soldado é antes de tudo, alguém que se reconhece de longe; que leva os sinais na-
turais de seu vigor e coragem, as marcas também de seu orgulho: seu corpo é o bra-
são de sua força e de sua valentia: e se é verdade que deve aprender aos poucos o o-
fício das armas – essencialmente lutando – as manobras como a marcha, as atitudes
como o porte da cabeça se originam, em boa parte, de uma retórica corporal da hon-
ra” (p. 131).

Com a metáfora do guerreiro/soldado temos o exercício por excelência de disciplina


moral, comportamental e, sobretudo, corporal. A construção do físico blindado serve ao ata-
que e à defesa do patrimônio como também se articula ao ideal de beleza central do ocidente.
Importa lembrar que este saber opera no sentido de construir corpos dóceis, ou seja, um ins-
trumento submisso, manipulável, ajustado aos interesses centrais. Interesses que regem os
corpos dos homens: produzir um conhecimento de masculinidade que protege o sistema so-
cioeconômico e político do patriarcado.
Pedro Paulo de Oliveira (2004), que faz uma leitura sobre A Construção Social da
Masculinidade analisando a transição da Idade Média para a Idade Moderna, lembra que não
apenas os homens ocupavam uma posição central derivada do privilégio de uma sociedade
patriarcal, em que outros indivíduos não eram depositários de quaisquer direitos, como indica
que a constituição do novo Estado Nacional se serve destes corpos obedientes para sua prote-
77

ção por meio das Forças Armadas. Nacionalismo e militarização trabalham ombro à ombro
para reclamar uma masculinidade de força e agressividade para defesa da pátria.
A masculinidade estava diretamente ligada ao sacrifício, a uma ascese que levava à
purificação pessoal. A base disso era a conexão, a estreita imbricação entre ela e e-
levados ideais societários traduzidos como liberdade, soberania, capacidade de resis-
tência, potência, entre tantos outros, todos girando em torno de uma glorificação do
socius, identificado como pátria, a terra natal a nação (p. 31, grifo do autor).

O sacrifício militar envolvia disciplina dos corpos como caminho para o aperfeiçoa-
mento da virilidade e maturidade, docilização que chega ao ponto de aniquilamento (simbóli-
co e físico) do homem em nome da Pátria. Paradoxalmente, esta total entrega que representa
“uma ascese que leva à purificação pessoal”, constitui honra e torna o sujeito “mais homem”.
Este ideal imprimiu marcas importantes sobre como percebermos um corpo masculino coleti-
vo: é um corpo distante, pois articula as expectativas de não-submissão, que estão diretamente
ligadas com o cultivo de uma honra masculina; vigilante da propriedade e da moral institucio-
nalizada; emocionalmente alienado e instrumentalmente agressivo.
Mas não apenas o campo bélico é fonte deste tipo de inspiração. Nos esportes temos
outro domínio legitimado como masculino. O atleta grego já era modelo de perfeição,
“configuração de um homem vigoroso e vencedor” (p. 60). Tal configuração é bastante cara e
distintiva do fazer masculino. Além disso, importa situar o caráter de competitividade
implicado nos esportes, que é mais uma forma de inscrever novas hierarquias entre homens.
O projeto de atleta, de modo geral, como também o de soldado, implica uma disciplina
do corpo e do comportamento – além de um foco inabalável em busca de resultados. O corpo
tende a ser potencializado, instrumento diferencial para competitividade. Os iluministas,
inclusive, “pregavam a necessidade de submeter constantemente os meninos aos exercícios
físicos, com o objetivo de torná-los saudáveis e robustos, condição para a sapiência e a
sensatez” (p. 61). Impossível não notar como a percepção de construção corporal influiu não
apenas para um ideal de homem muscular, mas também para reforçar uma condição cognitiva
em vantagem em relação ao feminino (adicione-se a isso, inclusive, uma ciência basicamente
arbitrária que já explicava a inteligência como diferencial pelo dado sexual.).
Força física aliada a coragem e competitividade se torna, efetivamente, um indício
moral, e seu resultado ousa alçar-se a explicação de um modelo de beleza masculina. Essa
mesma articulação parece ser vinculada com uma produção e apresentação social de virilidade
– já que no corpo está posto um retrato de qual tipo de homem.
A disciplinarização do corpo masculino via esportes e treinamento físico, além de
ser útil aos ideais de conquista e defesa nacional, incorporava-se nos agentes que
passavam a reproduzi-la em hábitos e atitudes cotidianas. Fazia parte de um proces-
so social mais amplo, em que os métodos aplicados de forma constante permitiam o
78

controle minucioso das operações do corpo realizando a sujeição de suas forças e


impondo-lhes uma relação de docilidade e utilidade. Aqui, o processo de subjetiva-
ção quase se igualava ao processo de sujeição presente nas forças armadas, nas esco-
las, em conventos, em internatos, colégios, quartéis, presídios, fábricas, hospitais, a-
silos etc. (p. 63).

Por outro lado, Connel (2005a) ao fazer atenção à materialidade corporal do homem,
observa que as possíveis biografias masculinas são produzidas num domínio prático que é a
vida social. A perspectiva dessa materialidade é importante para evitar pensar, por exemplo,
no soldado ou no atleta exclusivamente como artificialidades. Com efeito, devemos pensar
que em um dado momento na história apareceram circunstâncias que demandaram dos
sujeitos certas formas de uso do corpo – inclusive como fator de subsistência, se podemos
colocar nestes termos. Nesse sentido, por exemplo, a força e energia do soldado são
potencializadas por efeito de sua implicação em um contexto bélico, como as técnicas
atléticas são aperfeiçoadas por efeito do investimento do corpo em uma disciplina contínua.
Inegavelmente, certos aspectos, embora contingenciais, apareceriam como propriedade dos
corpos masculinos, dado que não haviam corpos femininos retratados nesta história.
Desde a perspectiva de Connel, portanto, a performance corporal não é apenas
representação (no sentido de reproduto arbitrário), mas implica a possibilidade produzir
masculinidade ao passo em que se exerce o corpo. Por exemplo, operários que usam trabalho
físico como moeda econômica se suportam na possibilidade de execução do seus corpos, de
onde produzem e percebem suas inscrições de masculinidade. Como Connel observa,
em nossa cultura pelo menos, o senso físico da masculinidade e feminilidade é cen-
tral para interpretação cultural do gênero. O gênero masculino é (entre outras coisas)
um certo experimentar do corpo, certas formas e tensões musculares, certas posturas
e formas de movimento, certas possibilidades no sexo. A experiência corporal é ge-
ralmente central em memórias de nossas próprias vidas, e assim em nossa compre-
ensão de quem e o que somos25 (2010a, p. 52-53, tradução nossa).

É uma economia, portanto, vulnerável no sentido da percepção, se, por exemplo, uma
disfunção da performance corporal desordena o mecanismo de produção e reconhecimento
desta masculinidade. Exemplo mais sintomático são as disfunções eréteis ou a falta de libido
em exercícios de masculinidade que se configuram a partir da prática sexual. Nesse sentido, a
autora lembra que “os corpos são marcados pelo processo social e inscritos na história, sem
deixar de ser corpos”26 (p. 64, tradução nossa).

25
No original: “in our culture at least, the physical sense of maleness and femaleness is central to the cultural
interpretation of gender. Masculine gender is (among other things) a certain feel to the skin, certain muscular
shapes and tensions, certain postures and ways of moving, certain possibilities in sex. Bodily experience is often
central in memories of our own lives, and thus in our understanding of who and what we are”.
26
No original: “bodies are addressed by social process and drawn into history, without ceasing to be bodies”.
79

Podemos situar outro conjunto de imagens coletivas de corpo masculino na esfera


sexual – este mais caro à leitura das cartas de Playboy que fazemos aqui. A esse respeito, um
aspecto importante é o fato deste corpo ser sempre pensado como domicílio de virilidade, o
que vai se expessar mais categoricamente no investimento do pênis como símbolo por
excelência da masculinidade. Foucalt, em O cudiado de si (1985), sintetiza a posição política
que o pênis ocupa:
O membro viril aparece na encruzilhada de todos esses jogos do domínio: domínio
de si, posto que suas exigências correm o risco de subjugar-nos e nos deixar-nos co-
agir por ele; superioridade sobre os parceiros sexuais, já que é através dele que se
efetua a penetração; privilégios e status, posto que ele significa todo o campo do pa-
rentesco e da atividade social (p. 40).

A superioridade do pênis, no entanto, está inscrita em todo um exercício de sexualida-


de, do qual se postula uma disposição masculina permanente. Nesta predileção pelo sexo, o
homem, mais uma vez, deve conduzir; seu prazer implica a submissão sexual do outro. Reside
também neste domínio as construções do desejo e sua relação com a honra. Ao falar do amor
entre os rapazes na Antiguidade, Foucault sublinha que o desejo de sexo diferente não se im-
punha como norma, embora implicasse necessariamente no problema da credibilidade social,
por assim dizer.
O mundo grego não organizava a separação dos sexos como disposições exclusivas do
desejo, mas distinguia a questão do valor dado ao amor:
de acordo com as qualidades particulares que lhes pertencem: um comporta virtude,
amizade, pudor, franqueza estabilidade; outro comporta excesso, ódio, impudor, in-
fidelidade. De acordo com as maneiras de ser que o caracterizam: um é helênico e
viril, e outro efeminado e bárbaro. Enfim, segundo as condutas pelas quais eles se
manifestam: um cuida do amado, acompanha-o ao ginásio, à caça, ao combate; se-
gue-o na morte; e não é na noite nem na solidão que ele procura sua companhia; o
outro, em troca, foge do sol, procura a noite e a solidão, e evita ser visto com aquele
a quem ama (p. 191).

O que chamaríamos hoje de relação homossexual, não é, efetivamente, uma forma de


amor negado pelos gregos; ambas as formas de desejo, aquela que dirige um homem a uma
mulher ou a outro homem, co-existem e são exercidas na sociedade helênica, com partidários
e argumentos para cada forma. O que “depõe” contra o amor pelos rapazes não é a qualidade
do sexo do individuo, mas o que poderíamos chamar de o tabu da passividade. O verdadeiro
argumento que compromete o desejo pelo mesmo sexo – sublinhando isso exclusivamente às
relações entre homens, pois sobre as práticas de desejo feminino sobre o mesmo sexo pouco é
comentado por Foucault – é o do contato físico. A despeito disso, diversos filósofos defendi-
am o sexo entre homens e mantinham tinham relações homoeróticas com seus pupilos. Nas
discussões entabuladas sobre o assunto, fica claro que a relação sexual de um homem adulto
80

com um homem jovem implicaria menos problema para ambos (se o jovem fosse o passivo),
por se definir como uma relação de formação; por outro lado o contato sexual entre dois ho-
mens adultos era encarado com restrição (sobretudo prejudicial à reputação daquele compre-
endido como submisso). Um homem virtuoso, mesmo na Grécia Antiga, não deveria se dar ao
desfrute sexual do corpo, pois a passividade é a maior desonra.
O comportamento efeminado também é outro dos argumentos que condenam, desde o
período helênico, o retrato de um “verdadeiro” homem. Nos discursos dO cuidado de Si, tanto
no de Plutarco como no do pseudo-Luciano, pode-se perceber um modo “legítimo” de se vi-
ver a masculinidade, que, guardadas as devidas transformações, é semelhante ao comporta-
mento masculino requerido no mundo contemporâneo:
O quadro do rapaz que não se preocupa com nenhuma afetação: cedo, de manhã, ele
salta da cama, lava-se com água pura; não necessita de espelho nem usa pente, joga
sua clâmide sobre os ombros; apressa-se em ir à escola; e, na palestra, ele se exerce
com vigor, sua, toma banho rápido, e depois de ter ouvido as lições de sabedoria que
lhe são dadas ele rapidamente adormece sob o efeito das boas fadigas do dia (p.
221).

A passividade ainda é um tabu da sexualidade moderna, seja no sentido da submissão


de um corpo por outro, seja por representar ausência da atitude ativa socialmente. Tabu cujas
interdições estão ligadas diretamente ao corpo masculino, dado que, ligada ao corpo feminino,
a passividade é, por outro lado, permissão e norma. Este comportamento é central para cons-
trução dos conceitos de hetero e homossexualidade, conforme conhecidos hoje.
Tomado como evidência, portanto, o corpo é construído como uma prática; apenas por
meio da reinvindicação cultural técnicas corporais podem se qualificar em masculinidade e se
expressar desde a maneira do discurso da bipolaridade dos gêneros. Em termos de uma
masculinidade hegemônica, “a verdadeira masculinidade é quase sempre encarada como um
produto do corpo dos homens – de ser inerente a um corpo masculino ou expressar algo sobre
o corpo masculino”27 (CONNNEL, 2005a, p. 45, tradução nossa). No entanto, não há nada
inerente num corpo como produto do gênero masculino, senão como narrativa histórica.

27
No original em inglês: “true masculinity is almost always thought to proceed from men’s bodies – to be in-
herent in a male body or to express something about a male body”.
81

4
O Homem Priápico

Sexo contém tudo, corpos, almas, significados, provas, purezas, delicadezas, resul-
tados, promulgações, canções, comandos, saúde, orgulho, mistério maternal, leite
seminal, todas as esperanças, benefícios, doações e concessões, todas as paixões,
belezas, delícias da terra.

Rubem Fonseca, A Confraria dos Espadas


82

Reconhecer Playboy como um projeto de masculinidade hegemônica é uma obviedade


daquelas mais bem sucedidas, na medida em que o que está evidente, por vezes, opera não ser
questionado. No entanto é uma evidência a ser revisitada, ponto de partida para compeender
que só podemos falar em modos de vida em sua pluralidade, mas ao mesmo tempo em suas
dinâmicas articulações com o conhecimento comum. Por isso, vale lembrar que
masculinidade hegemônica não implica a existência de um modo de vida exclusivo para os
homens, mas que este modelo sucede em submeter outras masculinidades, que podemos ler
como marginais, na medida em que se afastam daquele conhecimento normalizado. O
conceito de hegemonia, conforme talhado por Antonio Gramsci, não significa total
apagamento do diferente, mas o sucesso de um grupo (ou mentalidade) em reivindicar e
manter uma posição de liderança e representação central (em termos de alcance e volume) no
corpo social. Mesmo Playboy não suprime o fato de que o exercício de ser homem pode ser e
é diverso – mas faz parte de sua pauta a posição de árbitro normalizador, publicando uma
pedagogia para se reconhecer homem.
É assim que o sistema simbólico articulado pela revista constitui uma figura virtual de
um homem decidido, bem sucedido e ativo. Como elemento fundamental para coalisão dos
diversos tipos de homens está a figura feminina e, tão importante quanto, o ideal
heterossexual: o desejo do homem está para a mulher. É patente a centralidade do corpo
feminino neste jogo. É como uma regra do próprio jogo, “uma regra clara”, o corpo feminino
move o homem.
Se o problema investigado aqui é como o corpo é tratado em Playboy, uma leitura
mais óbvia tenderia para averiguar aquele feminino, pois lá está ela, despida, num projeto
anunciado. Mas o corpo está no centro da revista de maneira dupla: em primeiro lugar, o da
imagem feminina, requerida como elemento fundador da masculinidade dominante sobre a
qual se faz escola. É a evidência levada a cabo: nua. E ela não está apenas despida do disfarce
têxtil, é despida de ação, objeto de adoração do homem – que também está ali, entre as
páginas. Esse é o segundo registro sobre o corpo no centro de Playboy – e não está evidente;
aquele do leitor que procura A Revista do Homem e lhe outorga a prerrogativa de afirmar
propriedade para falar do universo masculino, mesmo que este universo não seja
absolutamente refletido no mundo de um homem ordinário.
Na leitura da revista aqui proposta, o relevo está neste personagem, muito mais do que
na mulher, pois a investigação se pauta sobre e para qual homem se fala. Se se reconhece um
mapa que fala de um certo sujeito heterossexual, então seu corpo também está ali – ainda que
83

interdito. Vale lembrar que o corpo é encarado como o primeiro espaço em que o sujeito
escreve sua biografia, articula seu gênero e por meio do qual investe em sua sociabilidade.
O corpo masculino está publicado quase furtivamente. É aquele que deseja e conquista
o sexo feminino, testemunhando, desta forma, sua heterossexualidade; ou é aquele da
publicidade, comissionado por um retrato da beleza hegemônica, ditando estilos dentro de
uma indústria de moda, que vende um retrato de homem atualizado, mas que é sempre aquela
dominante, reta e sóbria. Mais comum, é o corpo que controla um esportivo off road ou
aquele que conhece os destinos, as melhores bebidas no mundo, que pratica esportes radicais
– ou seja, investe e explora os espaços do mundo. Retratos de um ideal de corpo ativo, que se
articula com a imagem dominante da masculinidade e não gera incertezas.
No entanto, escondido entre suas páginas, o corpo masculino assume novas formas
quando a redação e o leitor tocam – furtiva e talvez irrefletidamente – nas problemáticas de
um símbolo fundamental de masculinidade. Talvez irrefletidamente, pois o espaço em que
podemos encontrar (mais claramente) o corpo masculino em questão é a seção PLAYBOY
RESPONDE, que não manifesta um projeto especial para este tipo de problema. É uma seção
de cartas com uma proposta evidente de responder quaisquer perguntas propostas pelo leitor,
sem estabelecer, a príncípio, um domínio privilegiado 28. No entanto, vale notar que mais de
60% das questões publicadas29 arrasta o corpo como ferramenta do exercício cotidiado
requerido para ser homem.
Inicialmente, é importante assinalar uma certa ambiguidade entre a seção e o conjunto
da revista. O playboy é o personagem do hedonismo masculino de comportamento
heterossexual, de um querer soberano, de um saber refinado e um circular seguro, macho e
contemporâneo – conforme seja possível. Ele é modelo da propriedade: desfruta de todos os
prazeres impressos na revista, ou seja, tem acesso a eles: sejam as mulheres, seja o estilo ou o
mercado de bens simbólicos. Mas, sobretudo, é um homem muito seguro de seu desejo e
comportamento heterossexuais. Por isso mesmo, é algo curioso que uma seção de cartas acabe
se transfomando em manual de comportamento para um sujeito seguro de si.
Se a segurança, como valor, se estende a todos os âmbitos da vida masculina, o
problema a ser mirado também é o fato de que, quer seja lida como manual de
comportamento, quer como aconselhamento postal, PLAYBOY RESPONDE passa a falar de

28
Conforme palavras da revista: “as questões mais interessantes sobre qualquer assunto terreno – comida, bebi-
da, música, esporte, carros, sexo e dilemas de relacionamento – serão respondidas todos os meses”.
29
Estão sendo analisadas as cartas publicadas em 24 edições de Playboy, do número 387 a 410, entre agosto de
2007 e julho de 2009. Foram 185 perguntas no período, das quais 113 selecionadas para análise, pois implicam
diretamente em narrativas sobre o corpo masculino e seu uso.
84

um homem que, com efeito, não é absolutamente seguro. Se ele procura por aconselhamento
não sobre “qualquer assunto terreno” mas sobre problemas que o colocam em cheque no fazer
de sua masculinidade, então, nestas páginas se fala mais da sua fissura do que de sua lisura no
seio do projeto hegemônico.
Por outro lado, importa também observar que o projeto pedagógico da revista fica
mais claro em PLAYBOY RESPONDE, inclusive devido ao seu formato. Se se pode falar em
um tipo de carro, um tipo de roupa, de um tipo de bebida para homem de modo induzido, aqui
se fala das técnicas e se busca corrigir de modo assertivo as falhas no exercício de
masculinidade.
Nesse sentido, podemos aproximar a seção daquela imagem do confessionário,
remetendo ao poder investido neste dispositivo. Como Foucault revela em A vontade de saber
(1988), o dispositivo da confissão foi criado pela sociedade ocidental como modo de se
compartilhar os problemas locais e, como consequência, oportunizar o desencadeamento de
operações corretivas por parte da instituição hegemônica. É um espaço privilegiado onde se
produz conhecimento, normas e condições de comportamento. A Igreja Católica é, de fato, o
primeiro espaço institucional em que se opera este dispositivo na história ocidental, mas a
confissão se tornou em um método privilegiado não apenas para a vigilância religiosa – como
prática do fazer falar, está apropriado pela medicina, pela família, e em outros
relacionamentos sociais. Ou seja, deixa de ser um ritual de purificação da alma, somente, para
se tornar uma modalidade de interação social. Portanto, a confissão deve ser encarada como
efeito de um tipo de poder que nos requer falar para analisar – e possivelmente corrigir.
Podemos perceber que uma dinâmica semelhante se realiza nas cartas de Playboy – onde o
leitor compartilha seu “segredo” e a revista se encarrega de conduzi-lo ao caminho normal.
No entanto, no “confessionário contemporâneo”, que é este tipo de seção das
publicações midiáticas, a correção não apenas serve como conselho para o indíviduo que
propõe o problema, senão para todos os leitores que estão implicados ao mesmo tempo nesta
leitura didático-formativa. Desse modo, o dispositivo deixa de ser tópico, potencializando-se
seu efeito disciplinar.
Não se pode falar em corpo sem considerar que o seu manejo no domínio social
funciona como uma evidência estereotípica e estabelece uma imagem comum de tipos
individuais. Em questão de gênero, há um conhecimento que o recruta, estabelecendo
diferenças entre os indivíduos, diferenças que se referem mais às técnicas simbólicas do que
às evidências biológicas.
85

Nesse sentido, é importante recrutar o conceito talhado pelo sociólogo francês Marcel
Mauss (2003), sobre um conhecimento de uso do corpo, conforme aprendido coletivamente.
As “técnicas corporais” são formas a partir das quais o indivíduo aprende a se servir de seu
corpo, para realizar as atividades cotidianas – mas, ao mesmo tempo, para fazê-las dentro de
um projeto de reconhecimento social. Esse conhecimento varia com as sociedades e a
educação e, portanto, é fruto dos prestígios creditados a certos movimentos ou imagens do
corpo, em sua divisão para os sexos, idades, classes, produtividade etc.
As técnicas do corpo, texto inicialmente publicado em 1934, mostra uma série de
movimentos que se relacionam ao desenvolvimento do indivíduo, a atividades produtivas e
diferenças culturais. O conceito interessa para além do funcionamento orgânico/cinético: as
técnicas significam mais do que os movimentos articulados ou a manipulação. São, sobretudo,
imagens sobre outro, representam um conjunto de saberes sobre os investimentos no corpo e a
leitura sobre estes investimentos, como indicadores qualitativos de comportamento social.
Não por acaso, Mauss reconhece em seus exemplos diferenças qualitativas entre a marcha do
exercito francês e o inglês ou o modo peculiar no andar das jovens americanas disseminado
pelo cinema.
Assim, podemos falar em diversas técnicas para o corpo do homem dentro da
masculinidade hegemônica (no terreno cultural brasileiro): um passo mais seguro e reto, o
sentar de pernas abertas, a expansão do tórax, a gravidade da voz, o aceno breve com mão
aberta, a mão segura (o pulso que não “quebra”), o aperto de mão firme, o cabelo curto, o
corpo peludo, o semi-abraço seguido de palmadas firmes nas costas (de outro homem) e
outros. Ou seja, ações corporais que exprimem uma proposta de intensidade, objetividade e/ou
energia.
No entanto, como não está em análise a experiência própria destes sujeitos (leitores)
no dia-a-dia, mas suas narrativas sobre o corpo na interação com a revista, analisamos suas
cartas, selecionando aquelas em que há um problema referente à imagem ou ao uso do corpo
em seu aparecer ou imaginário social. As demandas dos leitores indicam formas de encará-lo
e um cuidado com as técnicas para sua apresentação social, de modo a alcançar, como efeito
de reconhecimento, a ideia de corpo masculino. Ao mesmo tempo, permitem observar a
produção e reprodução de um ideal que, com efeito, opera uma reinscrição da experiência
corporal deste homem no saber comum.
86

Beleza e fronteira
Para iniciar a leitura das cartas, selecionamos um conjunto de problemas que se
circunscrevem no campo do cuidado de si relacionado à beleza e aos limites de cultivo que o
comportamento masculino “permite”. São disposições interessantes, no entanto, não
majoritárias do tipo de narrativa do corpo que se verifica em PLAYBOY RESPONDE.
Embora a revista não trate com especial trato, a construção muscular é um exercício
importante para a figura masculina. O volume corporal é uma expectativa hegemônica que
permeia a imagem de masculinidade e serve como ferramenta para afirmação de autoridade,
hierarquia baseada em potência e uma consequente competição entre homens na intenção de
conquistar reconhecimento – ou uma posição simbólica central nesta hierarquia. Nesse
sentido, convém lembrar que os ideais do guerreiro, do soldado e do esportista sempre
estiveram relacionados com a realização masculina (CONNEL, 2005a; FOUCAULT, 1979;
NOLASCO, 2001; OLIVEIRA, 2004).
Implicados nessa expectativa de um “jeito de corpo” (MESSEDER, 2008) masculino,
os leitores exprimem sua “necessidade” de aumentar o volume para parecer melhor
construídos muscularmente. Nesse sentido, entram em jogo duas forças: uma valorização do
apelo à hipertrofia e uma rejeição à magreza ou aparência débil: “Tenho 29 anos e treino
musculação pela manhã e jiu jitsu à noite. Existe algum treino específico, para ganhar massa
com apenas uma hora por dia?” (PLAYBOY, 2009a, p. 29); “O problema é que sou magro
demais. Quero engordar. Por favor passem-me uma dieta saudável mas que surta efeito na
balança” (2009c, p. 32).
Vale lembrar que o modelo muscular se opõe à obesidade – e não exclusivamente por
uma demanda de saúde, mas também em função de um imaginário de beleza ocidental:
“Tenho 23 anos, sou magro, mas a cada dia que passa minha barriga de chope cresce. Gostaria
que me ajudassem a perder a barriga sem recorrer a academia e dietas malucas. Apenas com
redução alimentar e exercícios em casa, será possível?” (2009e, p. 46). No entanto, a respeito
do sobrepeso, importa situar outro problema, sua implicação na qualidade da vida sexual do
sujeito: “Quero emagrecer. Mas tenho medo de que meu pênis afine depôs da dieta. Isso pode
acontecer?” (2007f, p. 57); “Sou um homem um pouco obeso com vida sexual ativa. Acontece
que não estou gozando. O clímax simplesmente não vem durante a transa. Porém, quando me
masturbo, consigo ejacular normalmente. Isso é algum sinal de disfunção erétil, excesso de
peso, um pouco dos dois ou algo pior ainda?” (2009b, p. 27). Mais à frente ficará clara
importância do investimento sexual como parte da vida destes homens.
87

O ideal de beleza hegemônico não apenas funciona como saber coletivo latente, mas a
entrada dos meios de comunicação debatendo a construação do “corpo perfeito” reforça
maciçamente qual corpo “interessa”. Miriam Goldenberg (2011, p. 41-48) relata pesquisas
sobre a imagem do corpo em que ao perguntar aos entrevistados “O que você mais inveja em
um homem?” ou “Quais as principais qualidades de um homem?” as respostas (quando não se
relacionam aos presígios social e econômico) se organizam em torno da imagem corporal: ser
alto, ter um corpo malhado, ser atlético, ter mais força física que o outro etc.
Importa observar que as pesquisas de Goldenberg são conduzidas no Rio de Janeiro,
“cidade considerada a mais bela do mundo, onde as praias e a temperatura elevada durante
quase todo o ano favorecem o desnudamento”, portanto “a centralidade que a aparência física
assume na vida cotidiana é muito mais evidente” (p. 33). É também o centro de uma cultura
midiatizada, que exporta e investe os corpos “belos” e “saudáveis” das celebridades
brasileiras.
Na mesma direção aponta a análise inicial que Romeu Gomes fez da revista Men’s
Health (que também sendo publicada no Brasil pela Editora Abril compartilha da condução
editorial do ClubALFA – uma divisão de conteúdo para homens):
As imagens corporais masculinas veiculadas por Men’s Health podem – intencio-
nalmente ou não – tanto produzir como reproduzir a obsessão por um corpo muscu-
loso como ideal masculino, ao gerar discursos que podem ser vistos como um incen-
tivo ao cultivo da estética centrada nos corpos esculturais como estratégia de maxi-
mização da virilidade (2008, p. 131).

Embora seja necessário marcar que o homem de Men’s Health está mais interessado na
disciplina do exercício físico do que o playboy, (tomando por observação não apenas as
cartas, mas todo o conjunto das revistas), ambas as publicações investem neste corpo
resistente como tradução de masculinidade. O que reforça que a própria Playboy, portanto,
está investida numa posição (in)formadora para um estilo de beleza masculina, por meio das
imagens de modelos hegemônicos.
Além do volume muscular, vale observar os pelos corporais, que estão historicamente
associados com uma evidência corporal masculina, ao contrário do caso feminino em que
largamente é encorajado o cultivo o corpo liso como ideal de beleza. Nesse sentido, Roberto
da Matta (2010) lembra como ser homem é insuficiente para o reconhecimento social;
portanto, parecer masculino (em todos os momentos) é fundamental – e, significa articular as
marcas hegemônicas no corpo masculino coletivo. É nesse sentido que a barba é um indicador
importante:
a barba e, sobretudo, o bigode falavam muito alto, pois se as mulheres tinham rostos
macios, rosados e lisos (‘lisos como bunda de santo’, dizia-se à boca miúda entre
88

sorrisos), os homens deveriam tê-los ásperos e cinzentos. Pela mesma lógica, se os


lábios e as orelhas femininos eram emoldurados pelo batom e pelos brincos, os dos
homens eram vestidos por bigodes e cabelo (p. 140).

Da mesma maneira, há uma prevalência de modelos mais barbudos ou com algum pelo
corporal na publicidade da revista. A barba (mesmo que mal feita – marca de um estilo)
participa do universo masculino como elemento performático na composição do corpo.
Os pelos do corpo são indicadores de uma idade adulta em que o homem é mais
independente. Ser peludo pode se equiparar com a condição mesma de ser homem, o que
significa que uma experiência masculina implica saber lidar com eles. Isto simbolicamente
implica o desenvimento dos modos de fazer.
Tenho o corpo bem peludo (Tony Ramos é estagiário!), porém não quero me depilar
e ficar igual a uma lesma pelada. Qual é o método recomendado para aparar os pelos
dos braços e pinto?

Qual a melhor forma de eliminar os pelos dos testículos e do pênis? Já usei lâmina
de barbear e o resultado foi bom, mas tenho medo de que isso engrosse os pelos e in-
tensifique seu crescimento. Também tentei usar cera fria de farmácia, mas fiquei
muito machucado – saiu sangue, a pele ficou em carne viva e senti uma dor tremen-
da. Por favor me ajudem (2008j, p. 48).

Devemos lembrar como sobretudo entre os adolescentes os indícios de pelos


funcionam como uma faca de dois gumes: para aqueles que os têm em grande volume é um
emblema de sua “maturidade” servindo ao seu dono como motivo de orgulho e auto-
enaltecimento; para os que não os têm, ou falham em apresentá-los com consistência, pode ser
um embaraço entre os pares. Para os homens mais jovens, a inconsistência de pelos, sobretudo
os do rosto, é motivo de incômodo: “Sou um rapaz de 23 anos que só tem bigode e
cavanhaque, mas nada de barba. Isso é normal?” (2007f, p. 57).
Da mesma forma como sua manutenção implica um ritual ligado à beleza e à idade
adulta, se livrar dos pelos (do rosto, sobretudo) é um outro exercício da aparência masculina.
O desenvolvimento de um saber sobre as práticas dos modos de vida do homem concorre para
qualificar o próprio sujeito no domínio das expectativas em que ele está envolvido. Como
emblemas, precisamente por serem parte de sua vida, é necessário não apenas cultivar, mas
saber lidar com os pelos – saber sobre os modos de lidar são tão esperados quanto a
apresentação emblemas em si, são consequências de sua “conquista”. Barbear, por exemplo, é
uma prática corrente, integra um largo conjunto de saberes masculinos. E como prova de que
o corpo não é uma propriedade íntima (ou pelo menos exclusiva), mas um
espaço/conhecimento público, a forma de fazer a barba é um saber que aparece em algumas
edições de Playboy, porque, embora os homens se vejam implicados em tal prática por efeito
de sua própria experiência, muitos desconhecem processos mais eficientes – porque se
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cortam, ou porque irritam a pele, ou porque desenvolvem erupções etc. Daí a viabilidade de
uma ferramenta como a revista ou especialistas para orientá-los (e a esse respeito, uma série
de desinformações formará um edifício de angústias sobre o exercício masculino, o que ficará
cada vez mais claro com a análise das cartas). Segue-se que sobre a maneira correta de fazer a
barba a revista ensina:
‘Os caroços devem ser fruto de uma inflamação no folículo piloso, local por onde
sai o pêlo’, explica o médico --, presidente da Sociedade Brasileira para Estudo do
Cabelo. Ele sugere que você deixe o creme de barbear agir na pele por três minutos
antes de usar a lâmina. Depois, use um hidratante na região. “Se o problema per-
sistir, vá ao médico para que ele prescreva um antiinflamatório”, diz -- (2008a, p.
32).

Embora Playboy não pareça ter um discurso de defesa especial para a vaidade
masculina, neste quesito não é (ou não pode ser) uma publicação anacrônica. Talvez a vaidade
ainda seja um terreno sísmico em que a própria revista tenta o equilíbrio – seguida de perto do
seu leitor, que não qualifica certas práticas como vaidade e as defenda como procedimentos
de higiene, pedido da namorada etc.
Wilton Garcia (2004) observa que uma mudança no comportamento masculino em
relação ao trato com a beleza e o cuidado de si não necessariamente afasta sua masculinidade.
Nesse sentido, aparece na sociedade ocidental, sobretudo como efeito de uma vida
metropolitana e integração ao mercado de consumo, o metrossexual que
define-se por uma masculinidade narcísica, egocêntrica, vaidosa, urbana e saturada
pela exploração na mídia. Diz que é um homem com H (maiúsculo), que geralmente
vive em cidades grandes. Alguns não se assumem como tal, e se dizem simplesmen-
te ‘vaidosos’. Outros até disfarçam essa vaidade, temendo o preconceito por parte
dos ditos ‘machões’ (p. 205).

No entanto, porque a masculinidade hegemônica é tão cultivada como domínio avesso a estas
predileções, o homem contemporâneo vive um certo embate entre ser macho e ser
metrossexual. Este melindre fica mais claro quando Garcia (2010) mostra que, em função das
transformações qualitativas nas vidas dos homens, há um esforço em classificar novas
experiências naquilo que elas têm de fronteiriço com a contemporaneidade: retrossexuais,
überssexuais, tecnossexuais.
Não seriam estas classificações, no entanto, produtos de uma nova percepção de
masculinidade que se impõe contra um olhar “tradicional”? Como implicaria em prejuízo da
masculinidade o fato de um homem ter especial atenção pelo estilo retrô ou por uma moda
inspirada na tecnologia? – algo que demandaria uma classificação especial por congregar
masculinidade e novos interesses? O aparecimento destas novas categorias apontam para dois
cenários: primeiro, reconhece uma transformação no pretenso conjunto coerente da
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masculinidade; depois, parece funcionar como justificativa que protege um “núcleo


primordial” da masculinidade – como se se entendesse, por exemplo, um ego consumista e
um homem, separadamente. Ou seja, “marca-se o aparecimento do termo metrossexual como
uma designação fashion-mercadológica” sem “assumir, necessariamente, uma postura
feminina” (2004, p. 205). Como discurso, parece que a emergência do metrossexual protege
uma “verdade” da masculinidade. Assim, não há, de fato, uma liberação da masculinidade
com estas classificações; ao contrário elas mostram o que há de sísmico em questionar tal
conhecimento. A este respeito, é curiosa uma declaração do editor de Playboy quando discute
o “novo homem”:
O metrossexual não é um homo sapiens evoluído que, ao descer das árvores, resol-
veu depilar o corpo inteiro e depois passar creminho. O surgimento dessa criatura
híbrida segue critérios mais mercantilistas que darwinianos. Funciona assim: por
maior que possa ser a penteadeira de uma mulher, o número de cremes, géis e po-
madas que ela pode adquirir é finito. Resta, portanto, ampliar o mercado para a par-
cela masculina da espécie (2007a, p. 45).

Ou seja, ainda há um melindre entre ser e não ser um homem vaidoso – problema “resolvido”
pela determinação de um “Deus Mercado”, contra o qual o sujeito é impotente. Mas dado o
arranjo atual e as liberdades individuais, entregue as influências mercantis, o próprio leitor,
embora ciente do novo problema, levanta sua veia vaidosa: “Sei que esta pergunta é
metrossexual, mas quanto está saindo, em média, uma cirurgia para orelha de abano?” (2008a,
p. 33); “Como eu posso resolver o problema de olheiras?” (2007f, p. 58); “Não sou careca
nem calvo, mas tenho a testa grande e os cabelos ondulados. Qual o corte de cabelo mais
adequado para o meu caso?” (2008l, p. 50).
Uma outra série de demandas sobre a aparência ideal, sai do guarda roupa masculino:
O que vestir? – “Tenho as pernas finas e os ombros largos e quase nenhuma bunda. Qual
calça jeans mais indicado para minimizar esse trapézio-de-ponta-cabeça” (2008i, p. 42); Quais
cores são permitidas? – “Que mal poderia haver nisso, --? Se a sunga fosse rosa, até
entenderíamos a pergunta” (2007b, p. 39); Quais regras de guarda-roupa existem? – “Você
acha bacana usar aquelas botas tipo trekking na cidade?” (2007b, p. 50); “É correto usar
óculos escuros no interior de ambientes fechados, como supermercados e shoppings centers?”
(2009f, p. 39).
De certo modo, o cuidado de si nesse sentido é um limiar “perigoso” na vida do
homem. É possível se ocupar da aparência em uma certa medida – que deve ser dada pelo
próprio corpo social. O modelo metrossexual, por exemplo, talvez não pareça tão caro para a
experiência que se revela nas cartas de PLAYBOY RESPONDE, embora ao avançar na
leitura da revista, nos deparemos com uma seção como Estilo, que fala exatamente sobre
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moda masculina, por qual motivo seja – a revista é também impotente contra o Mercado, o
leitor tem razão e ela tem de oferecer conteúdo demandado, ela parcialmente compreende
uma masculinidade elástica.
No entanto, apesar de uma nova configuração que insere o tema da beleza na vida do
homem, a revista se certifica de que ainda existem certos limites e normas para o exercício da
vaidade:
É comum entre os jovens o uso de correntes de prata e ouro branco. Entretanto, nun-
ca gostei muito delas, pois são, na maioria das vezes, muito espessas e chamativas.
Por isso, prefiro as correntes de ouro amarelo, mais discretas. Existe algum impedi-
mento para usá-las? E quando do uso, qual é melhor forma de portar o acessório? E
as pulseiras?
A regra ‘menos é mais’ deve ser aplicada na relação do homem com as jóias. [...]
saiba que o melhor mesmo seria que você deixasse as correntes e pulseiras para uso
exclusivo de sua namorada (2009d, p. 35, grifo nosso).

Gosto de passar base nas unhas por considerar que isso transmite higiene e elegân-
cia. Mas um amigo me disse que é brega. Ele tem razão?
Criatura, em que espécie de mundo dos horrores você vive? Unhas pintadas são o
que há de mais feio e cafona num homem. ‘Todo cuidado de higiene é importante.
Mas basta cortar as unhas. Deixá-las brilhantes não é nada bonito’, explica --, edi-
tor contribuinte de estilo da Playboy (2008e, p. 50).

Por fim, em matéria de beleza, parece importante observar que alguns problemas de
pele, sobretudo com acne, também são recorrentes na revista. A este respeito, é importante
lembrar, junto com David Le Breton (2011), que “o rosto é a parte do corpo mais
individualizada, a mais singularizada. O rosto é a cifra da pessoa. Donde seu uso social em
uma sociedade na qual o indivíduo começa lentamente a se afirmar” (p. 66).
Na adolescência, a acne foi minha inimiga. Hoje tenho 28 anos, sou vaidoso assumi-
do e tenho uma pele razoavelmente bacana. Acredito que a beleza da cútis conta
muito na hora da paquera e quero cuidar bem da minha. Uso alguns produtos contra
acne (sabonete, adstringentes etc.), mas tenho dúvidas sobre o que realmente é efici-
ente no combate e prevenção de cravos e espinhas (2009f, p. 39).

Talvez seja importante sublinhar o depoimento deste leitor, pois é sintomático: um homem
que afirma sua vaidade, se importa com o cuidado da pele (tema que estaria ligado aos
cuidados das mulheres) e, portanto, aponta de modo mais categórico na direção dos exercícios
alternativos à masculinidade hegemônica. Se por um lado, o editor da revista sente a
necessidade de criticar que o homem “passe creminho” como opção/preocupação – ele estaria,
no entanto, justificado por usar os cosméticos na condição de consumidor – é inevitável que o
homem contemporâneo esteja integrado a um novo estilo de vida que articula saberes
construídos historicamente como masculinos, mas também aqueles ditos femininos, sem por
isso, prejudicar sua masculinidade. Mas é igualmente importante sublinhar uma
“epistemologia do armário” às avessas, funcionando em nome da defesa do parecer
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heterossexual: a necessidade deste leitor em atestar ser “vaidoso assumido”, como se isso o
afastasse dos outros homens e o fato dele estar “assumindo” mostrasse uma ousadia no caráter
e um desafio, características que só um homem seguro de si poderia ter.

Corpo ereto
Se, por um lado, as técnicas forjadas para falar de uma vida masculina heterossexual
atravessam todas as instâncias do cotidiano (o que/como se veste, do que/como se fala, o que
se tem, onde se frequenta, com quem se relaciona etc.), são as técnicas relativas à sexualidade
do homem que marcam a experiência em pauta na revista com grande importância. Se, desde
a primeira página, projeta-se ativar o universo masculino tendo como principal motivo o
desejo, é uma resposta interessante que o corpo masculino se delineie a partir do uso da sua
sexualidade.
Por isso, um dos temas transversais em pauta é o desempenho – este é um valor capital
para os problemas levantados nas cartas pelos leitores. É importante registrar que faz parte do
projeto do playboy prezar pelo desempenho, como indicador de sua masculinidade. De certo
modo, é uma preocupação que remonta ao personagem de Hugh Hefner, idealizador/criador
da revista, que construiu uma experiência masculina heterossexual alegórica (por ser atípica
para o momento e não por ser irreal): aquela do homem solteiro, cujo único compromisso é
com o gozo de uma existência independente: profissionalmente bem sucedido,
financeiramente assegurado, intelectualmente esclarecido e sexualmente ativo. Ou seja,
desempenho significa para este homem ter sucesso nos desafios profissionais e eróticos.
No que diz respeito às narrativas sobre o corpo, este homem é tanto mais seguro de si,
tanto mais confiante no seu desempenho, quando o desempenho sexual corresponde ao “bom”
uso do sexo: ter ereção, ser capaz de desempenhar o ato sexual (envolvendo performance e
duração), ser capaz de repeti-lo diversas vezes, controlar ejaculação, ter conhecimento técnico
(do seu corpo e especialmente seu órgão sexual, do corpo feminino, das regiões sensíveis, das
posições sexuais), ser capaz de oferecer prazer etc. Ou seja, o sexo e o desempenho sexual são
fundamentais, são temas que introduzem questões sobre o bom exercício da masculinidade.
Vale lembrar que estamos tratando de um conhecimento social sobre homens que
assinala como fundamental a sua condição de desejo pelo sexo oposto. Contudo, não é
suficiente que se tome apenas a posição assumida do sujeito. Ser heterossexual é uma
expectativa social e todos os indivíduos que são socialmente investidos desta classificação
devem comprovar porque foram assim titulados. O desejo pelo sexo oposto arrasta uma série
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de saberes que dão suporte a uma aparência de heterossexualidade. E são estes registros que
ficam desestabilizados nas interações entre leitor e revista.
É importante sublinhar que, sendo uma “superfície de inscrições dos acontecimentos”
como afirma Foucault (1979, p. 22), é a história que modela a diferença inscrita no corpo e é
de se esperar que o corpo masculino seja mais que um espaço em que se verifica o
desempenho sexual. No entanto, o que se percebe em PLAYBOY RESPONDE é que as
propriedades do e os comportamentos para com o corpo que geram mais questões sobre a
masculinidade estão ligadas de modo recorrente a um corpo-sexualizado. Nesse sentido,
Playboy fala de um “homem priápico” e de um “corpo ereto”.
Assim, as cartas dos leitores podem ser entendidas como denúncias sobre o cuidado
com o corpo, ou melhor, à cobrança para com o corpo, que parece ser a imagem da
masculinidade sexualizada.
Como é palavra de ordem no projeto masculino, quando aliado à sexualidade, o
desempenho gera uma série de experiências negativas quando não é possível corresponder ao
ato sexual. Como é esperado que o homem esteja sempre interessado e disponível para o sexo,
perder ereção gera uma desconfiança automática no próprio sujeito.
Tive uma relação passageira com uma menina aqui da cidade. Na primeira vez, tudo
normal; na segunda vez, mesmo sabendo que não estava no dia para rolar química,
arrisquei e brochei! De lá para cá, tive mais três oportunidades com meninas diferen-
tes e brochei também. O que está acontecendo? Acredito que seja algo relacionado
ao emocional, porque acabo me cobrando uma ereção perfeita antes de levá-las para
a cama. Veja bem, não me cobro intencionalmente. Mas na hora, acaba me vindo à
cabeça a frase ‘Não posso brochar’ (2008k, p. 32).

A ansiedade fundamental do leitor acima reside na possibilidade de executar o ato sexual à


contento. Perder a ereção durante o ato sexual, brochar, pode ser explicado por uma série de
razões; no entanto, o acontecido é sempre um grande problema. Para este sujeito, que recorre
ao desempenho sexual como registro fundamental da sua afirmação como homem, há poucas
justificativas que confortem. Ao tratar a revista como confidente, ele busca a solução contra a
perda de ereção e não tanto as justificativas que o levaram a tal estado. Com efeito, as
respostas operam resolver os dois objetivos, embora para o leitor a questão é de prioridade:
seu interesse está sobretudo nos fins (corrigir a ereção) e não nos meios (as possíveis causas
de disfunção). Quando ele mesmo já começa a investigar motivos para ter brochado e
soluções para combater “o mal”, fica claro que está menos preocupado em confirmar a razão,
procurando evidências que justifiquem a falta de libido – de modo geral, o próprio leitor já
indica as possíveis razões; ele está preocupado em encontrar o antídoto. Aliás, o “emocional”
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é de longe um destes males que atingem o masculino, que historicamente foi construído como
domínio da razão e da ação.
‘O mecanismo de ereção peniana também é controlado pelo fator emocional. Uma
grande ansiedade pode gerar a perda da ereção’ explica o médico --, Chefe do De-
partamento de Andrologia da Sociedade Brasileira de Urologia. Isso acontece por-
que a ansiedade faz com que o organismo produza mais adrenalina. Essa substân-
cia compromete o processo de ereção do músculo peniano. Pior é que, quanto mais
você falha na hora do vamos ver, mais inseguro você fica na relação seguinte
(2008d, p. 48).

Em diversas oportunidades a revista busca orientar o leitor atestando, com o “diagnóstico” de


um médico, de que os fatores emocionais colaboram muito na perda da ereção; no entanto,
nada surpreendente dado sua centralidade na experiência masculina, a questão não desparece
da pauta.
Todo este discurso de masculinidade está permeado pela ideia de normalidade. Isso
implica que, a partir desta visão, existe um comportamento comum, dominante, sobre o que é
o comportamento masculino e sobre o que se espera do corpo masculino no momento do sexo
(duas questões distintas que se suplementam); e, deste modo, existiria um comportamento
desviante – ou seja, não é normal brochar, não é normal não ser capaz de demonstrar estes
atributos da masculinidade que são a ereção e a performance sexual.
A ereção é tomada por sinônimo da masculinidade. E o que seria a “ereção perfeita” se
não a manifestação simbólica de que o homem é capaz de responder com seu corpo ao ideal
de masculinidade que se levanta e se consuma no ato sexual? É sintomática a fala seguinte,
para quem a falta de ereção significa estar “sem sinal de vida”:
Estou com um problema bem complicado. Quando vou para a cama com uma mu-
lher, meu pênis tem ereção total antes mesmo de ela tirar a roupa. Conforme a moça
tira as peças, vou perdendo a ereção até ele ficar zerado, sem sinal de vida. Às vezes
isso acontece antes mesmo de ela ficar nua. Porém, quando estou sozinho, tenho e-
reção sempre que quero. Só tenho 26 anos. O que está acontecendo comigo? (2008l,
p. 48).

No que está posto até esse momento vale observar que ao mesmo tempo em que o
desejo pelo sexo oposto é caráter eliminatório – como se homem, masculino, masculinidade,
heterossexualidade, fossem sempre propriedades legitímas de apenas um certo sujeito – não é
caráter suficiente para que este homem experimente sem problemas o projeto de
masculinidade. Pois vejamos, o leitor acima apresenta o desejo de sexo diferente, é movido
pela iminência do ato sexual, está disponível, mas não consegue ereção. Apenas este último
fator é suficiente para desestabilizar sua confiança e o faz perguntar “O que está acontecendo
comigo”, como se houvesse um problema de intenção.
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Vejamos: na primeira carta o sujeito “arrisca” o sexo sabendo “que não estava no dia
para rolar”. Na última, não se conforma como é possível brochar aos 26 anos. O que nos diz
estes cenários? Em primeiro lugar, há uma expectativa individual, que responde à expectativa
social, de que o homem não nega sexo – e, neste caso, acaba sendo constrangido (uma
cobrança dele próprio) a fazê-lo sem estar preparado. Ele estaria arriscando a frustração de
que sua parceira conheça sua ausência eventual de libido – ou outro problema, como se
estivesse negando necessariamente a sua masculinidade. O problema da ereção parece ainda
maior se o homem é jovem. Ao sublinhar seus 26 anos, está postulando que nesta idade a
ereção não deveria ser incômodo na vida masculina.
Com efeito, a juventude parece ser a data do estilo de vida de Playboy, em que o sexo
teria mais frequência e qualidade. Por isso o problema idade versus desempenho também é
levantado por alguns leitores. Lembrando que o público alvo da revista tem um perfil jovem –
50% dos leitores têm entre 20 e 34 anos; 22% tem entre 35 e 44 anos (PUBLIABRIL, 2010) –
é possível compreender a centralidade do sexo em suas narrativas de masculinidade.
No entanto, há ainda um número de leitores fora desta curva estatística, homens mais
jovens que começam a vida sexual e procuram na revista, exatamente, o conhecimento que
faz o “percurso de conquista da masculinidade”: “Menino --, não nos crie problemas. Esta
revista não pode ser lida por menores de 18 anos” (2008a, p. 32). Não se pode ignorar que a
revista é lida por homens mais jovens, adolescentes e até meninos, ou seja, sujeitos em
desenvolvimento, que imersos em um mundo de normalidades, buscam também desenvolver
os mesmos saberes que os torna iguais aos playboys.
Uma assunção geral de que o homem deve e começa a vida sexual mais cedo acaba
por criar entre os jovens a angústia pela primeira relação sexual. Quanto mais tarde a primeira
vez, mais incomodado fica o jovem.
Amigo --, veja bem: você precisa resolver logo esse problema da virgindade. O con-
selho do psicólogo clínico -- é que você faça sexo com a primeira moça que se mos-
trar disposta a transar. Não espere pela mulher dos seus sonhos, não escolha, sim-
plesmente faça sexo, entendido? ‘O sujeito virgem aos 21 anos já carrega essa pres-
são há pelo menos cinco. Ele tem que quebrar esse tabu’, explica --. Na segunda
vez, sabendo que conseguiu transar com uma mulher antes, você estará mis tranqüi-
lo (2008j, p. 50).

Se, efetivamente, é possível ou não afirmar uma data própria para que um sujeito inicie sua
vida sexual está fora de questão nesta análise; o que não se pode negar é que no caso
masculino há uma pressão social, pois o homem precisa ser iniciado sexualmente ainda
jovem. Esta pressão se desenvolve em uma tensão individual, em que o sujeito quer o sexo,
acredita que precisa o quanto antes, mas exatamente por essa angústia não consegue.
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Como acontece no exemplo acima, com o próprio discurso autorizado, reproduz-se


uma ideia de atraso sexual do leitor. Ainda neste caso interessa verificar que a solução da
revista, com aval do especialista, é “faça sexo com a primeira moça”, um conselho que faz
total sentido (mas que é um abuso sem precedentes) dentro do panorama que estamos
investigando: o sexo para o homem não está ligado ao afeto; o romantismo é um traço
feminino e feminilizante; o homem deve estar disposto e preparado.
Quanto mais se prolonga a primeira relação sexual, mais é esperado do sujeito que se
ocupe com esta falta como se fosse um tabu – o fato é que se por um lado o sujeito encara sua
falta como angústia, ele já a experimenta desta forma porque todo seu arranjo social o
pressiona neste sentido. É inevitável levantar o fato de que, ao contrário dos homens, das
mulheres espera-se ou aceita-se uma vida sexual mais tardia. Também por este contraponto se
institui uma condição de exercício masculino: o sexo como ritual de passagem para a idade
adulta e para a masculinidade, se opondo à feminilização.
Se é na juventude que o homem pode viver melhor essa masculinidade, o avanço da
idade já aponta como questionamento: “Quais são os fatores que determinam a pressão da
ejaculação? Percebo a diminuição ao longo do tempo. Hoje estou com 34 anos”. Mas a revista
é categórica ao responder que “aos 34 anos, ainda não é caso de se preocupar com a idade”
(2009a, p. 28). Discurso que é, com efeito, paradoxo: primeiro, porque podemos ver como um
número crescente de homens jovens estão colocando problemas de ordem sexual; depois
porque se a própria revista assume a posição de orientadora e seu público é jovem, portanto há
tantas razões para se pré-ocupar quantas demandas de exercício da masculinidade existirem.
Este último problema relativo à idade arrasta o suporte que a revista busca no discurso
autorizado – sobretudo o da medicina – e sua apropriação instrumental. Embora em todas as
edições de PLAYBOY RESPONDE a opinião especializada sirva para forjar uma noção de
imparcialidade, a solução é sempre fruto da linguagem típica da revista; portanto, de alguma
forma manipulada. Isso implica que, toda resposta, mesmo em questão de saúde, está
subordinada ao ideal que se escreve ali – e não inteiramente a um sentido de saúde pública.
Como pode o leitor desenvolver a percepção de um direito de não-cuidado quando o discurso
de saúde contemporâneo é o da prevenção e não do remédio?
Neste caso, vale lembrar que o cuidado com a saúde pessoal tem sido historicamente
um tema externo ao domínio da masculinidade. Acontece que um ideal de invulnerabilidade
atravessa o corpo e o comportamento masculinos, resultando em uma dispensa quanto a
atenção à saúde. Na narrativa hegemônica, neste quesito, os homens são muito mais
dependentes das mulheres para procurar ajuda clínica, pois administrar o indício de doença e a
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prevenção demostram comportamentos associados com a fragilidade feminina – o próprio


corpo feminino sendo considerado frágil.
A socialização dos homens estaria mais associada a invulnerabilidade, força e virili-
dade, características incompatíveis com a demonstração de sinais de fraqueza, medo,
ansiedade e insegurança, representada pela procura por serviços de saúde, que colo-
caria em risco a masculinidade e aproximaria o homem das representações de femi-
nilidade (GOMES, 2008, p. 53-54).

Nesse sentido, prevenção pode não ser problema para o homem. O problema de saúde está
mais relacionado, inclusive em grande parte das cartas de PLAYBOY RESPONDE, à própria
doença/distúrbio do que com a prevenção. Por isso vê-se muito mais os episódios de correção
após o não funcionamento correto/esperado do corpo, do que de saberes sobre seus limites e
peculiaridades.
Este projeto de invulnerabilidade é rizomático. Podemos confirmar que não apenas a
revista é contraditória no trato dos possíveis problemas de saúde que aparecem e ainda
administrar a figura de um indivíduo blindado, mas o próprio leitor apresenta sua relação
culural de afastamento do cuidado médico, mesmo sob pena da angústia pessoal: “tenho 18
anos, comecei a transar com 16 e tenho ejaculação precoce, mas fico constrangido de ir a um
médico. O que devo fazer para melhorar meu desempenho?” (2009e, p. 38, grifo nosso);
“Confesso que não vou ao médico especializado porque tenho vergonha” (2008a, p. 32, grifo
nosso).
Por outro lado, vale observar que quando saúde implica a qualidade do desempenho
sexual, aí, sim, “há motivos” para atenção. “A hérnia inguinal, que se desenvolve na região da
virilha, pode provocar alguma dificuldade de ereção peniana enquanto não for operada? Se eu
fizer a cirurgia, enquanto tempo posso voltar a manter relações sexuais?” (2007c, p. 38);
“Quando transo com a minha namorada, sinto dor de cabeça perto de atingir o orgasmo. O
que está acontecendo comigo?” (2008d, p. 48); “Meu pênis tem uns filamentos brancos na
parte de trás da glande. Isso é normal?” (2008h, p. 48).
Ao construir um homem destemido, cria-se o problema do sujeito que não se ocupa
com a saúde, mesmo neste caso específico em que o corpo é um instrumento de sexualidade.
Embora a sexualidade implique diretamente no exercício da masculinidade, nota-se o
paradoxo de um ideal de invulnerabilidade que afasta o sujeito de administrar seu potencial
vulnerável – mais precisamente, ser sexualmente ativo, se isso implica ajuda clínica. A
imagem do sexo forte, em muitos casos, cria uma barreira para que o homem se sinta à
vontade para procurar ajuda apropriada, se colocando em uma posição duplamente frágil.
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Uma economia da sexualidade


Técnica sexual e desempenho se emparelham de modo que toda falha do corpo
masculino é encarada com desconfiança. No entanto esta desconfiança está menos associada
com um sintoma do corpo em si, pois como vimos esses homens se ocupam menos com
prevenção, do que com as expectativas sociais para um modo de vida públicamente associado
e reconhecível. Se o playboy é um homem priápico, isso não significa, no entanto, que as suas
angústias terminam com a solução da disfunção erétil.
Os problemas que vêm a tona com a revista são resultados, senão, de uma economia
da sexualidade. Aqui estamos associando o conceito de economia à dinâmica das trocas
simbólicas e, portanto, no seu potencial de produção, transmissão e consumo de formas
simbólicas, que afinal promovem o resultado de tais experiências de masculindiades.
Economia: uma organização interna das fomas simbólicas que permite operar dado
sentido à categoria sexualidade em seu potencial de troca (interação) cultural. Mesmo em
termos sócioculturais, economia ainda se aplica ao resultado de uma acumulação de capital –
se seguirmos à visão a partir da qual que Bourdieu enfrenta o conceito de capital: condição ou
posição de prestígio social (que só é viável a partir de uma lugar de fala). Uma economia da
sexualidade produz e organiza socialmente as formas de apresentação e troca sexual, se
estendendo, certamente, à produção de sentido sobre gênero, aos corpos e aos
comportamentos individuais. Ou seja, implica a instalação de distinções associadas a dadas
formas simbólicas.
Com as cartas de Playboy podemos observar mais claramente uma economia sexual
que privilegia uma imagem hegemônica de masculinidade, mas não podemos deixar de
reconhecer que há mais de uma forma das trocas simbólicas. Tal conceito pode ser posto aqui
não apenas como testemunho de uma organização discursiva, mas no seu caráter prático de
integração às vidas relatadas nas cartas; quer dizer, a respeito da vida sexual, existe uma série
de práticas em que os leitores se ocupam em investigar ou falsificar como efeito crítico de sua
articulação individual. Com efeito, as cartas anteriores quando situam a ereção versus
disfunção erétil, juventude, virgindade e vida sexual etc. já apontam para tal economia. Os
próximos exemplos, no entanto, chegam a ser mais sintómáticos da ideia econômica.
Voltando à ejaculação, há uma característica também recorrente nas cartas que
levantam o tema: a “inabilidade” em controlar a expulsão do sêmen; em outras palavras, a
ejaculação precoce: “O que faço para aumentar o tempo de penetração durante uma relação
sexual? Normalmente, depois de um bom tempo nas preliminares, penetro e não passo mais
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do que três minutos nessa situação. Isso realmente me atrapalha. O que esta acontecendo?”
(2009c, p 32, grifo nosso).
Nos casos referentes à ejaculação precoce, embora seja importante a orientação
clínica, e em alguns casos psicológica, muitos leitores indicam evitar uma visita ao urologista.
A despeito de ser disturbio fisiológico ou emocional, o que mais marca o problema é o fato do
sujeito não poder, efetivamente, corresponder ao/estender o momento sexual: “Para que seja
considerada um ato sexual, qual é o tempo mínimo da transa?” (2009g, p. 40, grifo nosso);
“Como faço para demorar mais a ejacular? Sou jovem e cheio de fogo, mas depois da
penetração eu ejaculo em menos de cinco minutos. Ajudem-me!” (2008c, p. 36, grifo nosso).
Portanto, a competência sexual é relevante na percepção de valor masculino,
envolvendo quantidade, técnica e duração: “Pintou uma curiosidade: quantas calorias tem um
jorro?” (2008f, p. 53, grifo nosso); “Já tentei de tudo, mas minha namorada só goza uma vez
em mil. Deem-me uma dica para melhorar esse índice” (2008b, p. 32, grifo nosso), “Tenho 35
anos e sou casado há dez, minha esposa tem 28 anos e é bem conservada. Minha vida sexual é
muito boa. Faço sexo em casa de três a quatro vezes por semana. Dou meus pulos fora de casa
e me masturbo frequentemente” (2009f, p. 38, grifo nosso).
No que diz respeito às técnicas desenvolvidas nestas experiências de masculindiades,
há de todo tipo desenvolvimento: “Descobri que, se tomar de meio a um litro de água antes de
transar, consigo segurar a ereção pelo tempo que quiser, sem ejacular. Isso faz mal?” (2007c,
p. 38); “Consigo gozar sem ejacular, mas apenas durante a masturbação. É arriscado tentar
essa prática com uma parceira?” (2008g, p. 46); “Como tirar a camiseta rapidamente de modo
a não perder tempo na hora do sexo?” (2008h, p. 50).
É possível pensar na experiência sexual como um esquema fechado? Em parte, as
soluções procuradas pelos leitores envolvem conhecer uma gramática e uma matemática para
otimizar seu desempenho. Quanto tempo devem durar as preliminares? A penetração? O que
fazer após a ejaculação? Com este tipo de ansiedade, o sexo fica todo marcado por modos
fixados de fazer e reconhecer, deixa de ser sobretudo experiência e prazer, para ser também
representação e cumprimento. Nesse sentido, a disfunção em si parece ter menos peso do que
(a apresenação d)o desempenho que é comprometido.
É assim que, quando publica cartas que demandam por técnicas específicas de
administração, a revista está trazendo à tona procedimentos para o sexo.
No seu caso, o recomendável é que siga algumas dicas:
- Quando perceber que vai gozar, diminua o ritmo ou tire o pênis da vagina (ou de
onde quer que ele esteja). Aguarde um tempo antes de começar novamente. Durante
o treinamento, evite posições em que a retirada do pênis exige maiores contorcio-
nismos, como quando ela está por cima.
100

- Ao retirar-se da moça, aperte a região do freio bálano prepucial, que fica abaixo
da glande, na parte de baixo do pênis
- Se nada disso resolver ou o tempo de penetração diminuir, procure um médico
(2009c, p. 32).

Quando me masturbo, interrompo na hora H para melhorar meu controle de orgas-


mo. Às vezes é difícil segurar, então aperto o pênis, impedindo a saída do esperma.
Isso pode me trazer algum problema?
Não, muito pelo contrário. Saiba, inclusive, que os médicos recomendam a prática
para curar a ejaculação precoce. Trata-se de um método com nome próprio - sque-
eze, ou ‘apertar’ – que há mais de 40 anos é receitado por profissionais da saúde.
‘É uma terapia comportamental em que o controle do orgasmo ou dos instantes que
o precedem são memorizados e treinados, o que facilita o controle da ejaculação’,
afirma o médico --, membro do departamento de andrologia da Sociedade Brasilei-
ra de Urologia. Mas ele alerta: você deve apertar a glande como um todo, e não
apenas a uretra (2009g, p. 40).

A revista logra ocupar um espaço privilegiado de difusão de conhecimento sobre as


técnicas para o sexo tanto como efeito do seu poder institucional, como pelo fato de ser
realizada majoritariamente por homens, ou seja, pares que estão incluídos no desenvolvimento
destas técnicas – não por acaso, algumas vezes os leitores se referem aos “Amigos de
Playboy”.
Ao que as cartas indicam, como a relação sexual é um exercício que constói a
masculinidade, seus “segredos” estão intimamente ligados aos segredos da masculinidade. É
como efeito de um processo formativo que estes procedimentos são compartilhados. Não
deve-se entender, no entanto, que o desenvolvimento de uma técnica sexual aniquile a
possibilidade do prazer “genuíno”. Podemos lembrar que Foucault faz atenção ao
desenvolvimento de um dispositivo de sexualidade na sociedade ocidental que erige uma
scientia sexualis, ou seja, mecanismos de produção de procedimentos sobre o sexo. Verdade
que só pode ser criada e acessada por meio da produção de um saber coletivo. Para Foucault,
tal projeto de ciência procura ser regulamento da sexualidade, mas, por outro lado, talvez, não
inviabilize o prazer, sendo uma nova erótica inventada, que produz os seus próprios prazeres,
“processos que o disseminam [o sexo] na superfície das coisas e dos corpos, que o excitam,
manifestam-no, fazem-no falar, implantam-no no real” (1988, p. 82).
Vale observar que as vozes legítimas nas respostas são, principalmente, a revista ou o
corpo médico – o urologista, o sexólogo, o psicológo e outros. Em apenas dois casos é
possível ver o empoderamento de uma voz diferente para o projeto de uma ciência sexual:
Quem ensina é V.O., ex-ator pornô. Ele antecipa: concentração e prática são as pa-
lavras chave.
- Respire fundo ao sentir que vai gozar.
- Se a mulher estiver de quatro, na sua frente, e você com os dois joelhos apoiados
no chão, levante um deles e apóie no pé.
- Quando estiver quase lá, pense no zagueiro do time adversário ou, se preferir, di-
minua o ritmo da penetração.
101

-Em casa, como treino, masturbe-se e pare pouco antes de gozar. Repita e, na ter-
ceira vez, permita-se chegar lá (2009e, p. 46).

A segunda voz é de uma escritora e ex-garota de programa, ou seja, ambos profissionais do


sexo.
Também há casos em que as técnicas envolvem potencialização farmacológica. Mas
uma preocupação adjacente ocorre nestes casos: quais problemas podem ser desenvolvidos se
o homem busca auxílio em medicamentos, sem haver especial necessidade?
Tomo o medicamento -- e ele só me faz bem, pois retarda em muito a ejaculação. E
isso é muito bom. Gostaria saber quais são os perigos disso com o passar do tempo.
Se você estiver usando o medicamento sob orientação médica, fique sossegado. ‘A --
é um medicamento utilizado principalmente para o tratamento de ansiedade e de-
pressão, mas também tem sido usada para aumenta a chamada latência ejaculatória
nos pacientes com ejaculação precoce’, explica o médico --, coordenador do Depar-
tamento de Andrologia da Sociedade Brasileira de Urologia. A -- já está no merca-
do há bastante tempo e é tida pelos médicos como uma substância segura e confiá-
vel. Um cuidado que você deve ter é de não interromper o uso do medicamento por
conta própria. Os efeitos dessa medida podem ser nervosismo, insônia, tristeza sem
causa aparente – além de ejaculação precoce. Pensando bem, a tristeza não seria
tão sem causa assim... (2008j, p. 50).

Com o último comentário da revista é de se questionar se estes homens não se


preocupam “com razão”. Ao afirmar “pensando bem, a tristeza não seria tão sem causa
assim”, a revista confirma que o leitor deve encarar o problema com angústia, ao memso
tempo em que, indiretamente, o encoraja a usar o medicamento.

Frente e verso
Por fim, mas com certeza, não menos importante – vale até dizer que este é um fator
capital para o playboy – é importante situar o pênis no centro deste projeto de experiência
masculina. Deve-se salientar que, na proposta de investigar por meio de quais narrativas o
leitor de Playboy reflete sobre o seu corpo para construir masculinidade, não há uma excessão
nas 24 edições analisadas em que o pênis apareça como objeto privilegiado da narrativa
masculina. Seja porque a diferença dominante entre os gêneros seja contrastada pela
propriedade de um dado aparato orgânico – pênis versus vagina, e o pênis ocupe, por sua vez,
a posição de “superfície de contato” do homem com o mundo; seja, por outro lado, porque
este mesmo órgão falha em representar a contento o sujeito que o exibe; o pênis domina a
condição de motivador das questões/preocupações relativas à masculinidade.
Mais que símbolo, o pênis é empoderado de tal modo que assume, de fato, posição de
sujeito. Não é acaso que em várias destas cartas seja é tratado por “amigo” ou “amigão”, tanto
102

por parte do leitor como por parte da revista – o que resolve quaisquer dúvidas sobre sua
importância e centralidade neste projeto.
Roberto da Matta (2010) observa que o pênis é um ator social que explicita a
masculinidade como traço distintivo e a partir dele se produz uma permanente consciência da
posição masculina. Por isso, como metáfora fundadora de uma masculinidade poderosa, a
representação capital do órgão é aquela da atividade, da dominação (pela penetração) e da
produtividade (produz prazer e descendência). O antropólogo comenta como as narrativas
sobre o pênis em sua juventude envolviam “um instrumento poderoso, incontrolável” e
“idealizado e lido como o pau, a pica, a espada, o mastro, a marreta, o canhão, o porrete, a
pistola etc. Todo e qualquer objeto de agressão poderia ser usado como metáfora para o órgão
masculino” (p. 140).
A articulação de imagens de agressão e potência não é ocasional. Devemos também ler
o pênis como o símbolo de uma hierarquia que atinge os seus efeitos de poder por meio de um
certo sentimento de falta. Como vivemos em uma sociedade patriarcal em que a
masculinidade é encarada em relação, sobretudo, à sexualidade, o pênis diferencia não apenas
aqueles que o possui, mas é metafora de uma sociedade para aqueles que são depositários do
direito institucionalizado e seus efeitos.
Convém lembrar que, com Freud, a psicanálise estabeleceu uma base de leitura de um
eu por meio da percepção de propriedade deste órgão distintivo – o mecanismo psicanálitico
para explicar a formação do eu centraliza e empodera o pênis/falo. Com o Complexo de
Édipo, a formação do indivíduo está intimamente relacionada com a identificação do pênis:
este é o instrumento que, por excelência, possibilitaria o menino possuir a mãe – o que seria
apenas impedido pela presença do (falo do) pai. A menina, por sua vez, tem seu eu formado a
partir da percepção da ausência do pênis. Esta ausência inauguraria o desejo pela propriedade
do pênis, o que eventualmente resultaria em desejo heterossexual – Freud é menos conclusivo
sobre a formação da heterossexualidade feminina do que a masculina. O menino, por medo da
castração, abre mão do desejo pelo domínio da mãe em privilêgio da manutenção do órgão –
ele irá, portanto, buscar outra figura feminina que poderá ser dominada em função da
presença do pênis.
Por outro lado, Lacan busca reposicionar esse esquema, mostrando que falo e pênis
não são o mesmo e, de fato, o falo é uma relação de poder, que se expressa pela metáfora da
propriedade do pênis. Portanto o falo não pode ser propriedade, senão efeito de uma relação.
É seguindo a premissa lacaniana que Butler (2010) argumenta que embora o masculino
desenvolva a percepção de propriedade do falo (no pênis), é possível pensar no falo como
103

uma posição feminina – mais precisamente, é uma outorga feita pela posição de ausência.
“‘Ser’ o Falo é ser o ‘significante’ do desejo do Outro e apresentar-se como esse significante.
Em outras palavras, é ser o objeto, o Outro de um desejo masculino (heterossexualizado), mas
também é representar ou refletir esse desejo” (p. 74, grifo da autora). Ou seja, sendo uma
relação de poder, é sempre prerrogativa do outro reconhecer e confirmar.
Como no conhecimento comum falo e pênis se equivalem – e de todo modo o último é
sempre efeito do primeiro – é possível que a partir desta dinâmica surja a necessidade
masculina de evocar o pênis e se angustiar caso ele esteja em posição de falta. Importa
sublinhar, portanto, que o privilégio do pênis institui uma hierarquia entre aqueles que o
possui e aqueles em que há, senão, sua ausência – ou sua falha.
Assim, também nas cartas de Playboy, os leitores se preocupam com a forma e
disposição deste órgão. Já falamos antes das angústias levantadas com os problemas de
disfunção erétil, agora importa observar o problema assentado na mítica do comprimento:
“meu pênis tem 17 centímetros de comprimento e 13 cm de diâmetro. O tamanho é bom?
Minha namorada diz que está ótimo, mas eu gostaria de outra opinião” (2009g, p. 41). Vê-se
aqui que, ao contrário da sabedoria popular, para os homens tamanho é documento:
Ter o pênis grande era sinal de orgulho e marca de masculinidade, embora todos co-
nhecem o ditado (que soava como um embuste) segundo o qual "tamanho não é do-
cumento" — entendido por todos como uma espécie de prêmio de consolação e co-
mo a expressão do bom-senso que tudo equilibrava (DA MATTA, 2010, 142-143).

Convém observar o preço da “opinião” de um outro homem em relação ao tamanho do


pênis – considerando no caso das cartas, em que se pressupõe homens heterossexuais, que a
opinião feminina não é suficiente. Este tipo de sociabilidade é exemplar e mostra o papel
fundamental dos pares no reconhecimento do pênis como símbolo de masculinidade.
Qualquer prestígio ou constrangimento apenas toma corpo a partir da visão do outro – do
mesmo modo, se o sujeito se autoprestigia é em função de uma projeção social. Com as
cartas, podemos perceber que toda angústia relacionada ao pênis nasce em função de sua
“aparição”, quer dizer, em função das oportunidades em que o órgão enfrenta a crítica do
outro.
Como efeito, com frequência ouve-se falar de ocasiões em que comparar o tamanho do
órgão é central, sobretudo na infância ou na adolescência. Relatar como a parceira se satisfaz
por efeito de seu tamanho é outro discurso de tal empoderamento. É neste sentido que se
produz indicadores hierárquicos entre os homens. Não é acaso que exista um código de se
falar sobre o pênis,
104

cujo tamanho (e funcionamento adequado) era uma fonte permanente de preocupa-


ção. Como algo visível e obviamente comparável, ele era o foco implícito do corpo
nos vestiários e um ator importante nas anedotas e nas histórias que constituíam os
recursos básicos de nossa pedagogia sexual. Não era estranho ouvir relatos de con-
cursos nos quais a rapaziada media seus pênis, estabelecendo uma hierarquia entre
seus donos (p. 140).

Se este mecanismo de falar sobre seu orgão sexual é tão importante gera como efeito o
empoderamento dos pares. Importa observar, portanto, que a instituição de uma hierarquia
entre os homens via tamanho do seu pênis opera, consequentemente, instalar o sentimento de
uma (in)dignidade social:
Estou em uma situação terrível. Numa brincadeira péssima, meus amigos espalha-
ram que eu tenho o pênis pequeno, que até mesmo faço bainha em camisinha. O bo-
ato já chegou aos ouvidos femininos. O que faço para reverter essa fama lascada e
ficar com boa reputação de garanhão? (PLAYBOY, 2009e, p. 46).

A questão do tamanho é de tal modo central que não opera simplesmente no


ato/momento do discurso. É um fenomeno que se estende na própria percepção pessoal,
institui um poder que integra o próprio saber da masculinidade, criando o sentimento de
vergonha: “Tenho o pênis muito fino. Isso me deixa constrangido quando tenho relação
sexual e mais ainda quando uso sunga de banho, pois quase não faz volume” (2007c, p. 39).
Quando Roberto da Matta equivale o ditado “tamanho não é documento” a um prêmio
de consolação, faz lembrar que em toda ocasião que o problema do tamanho do pênis aparece
nas cartas de Playboy é sempre resolvido com os mesmos argumentos: 1) existe um dado
científico que garante que um micro pênis mede menos de 8 cm; 2) a média do pênis do
brasileiro é de 14 cm; e 3) os primeiros 4 cm do canal vaginal são mais sensíveis ao toque do
que os seguintes.
Caro --, com todo respeito, quanta bobagem! ‘Você devia se considerar um homem
feliz, pois o seu pênis, quando ereto, apresenta dimensões dentro da normalidade’,
afirma o médico --, coordenador do Departamento de Andrologia da Sociedade
Brasileira de Urologia. De todo modo, para que você largue essa preocupação ab-
surda, aqui vai a explicação para o fenômeno: quando o pênis está flácido, o mús-
culo está contraído. Quando está ereto, o músculo relaxa. A contração do músculo
na região não é voluntária e ocorre em situações como estresse e frio. ‘O mesmo fe-
nômeno de contração atinge a bolsa testicular ou o escroto aumentando ou diminu-
indo a sua aparência. Na realidade, o tamanho dos testículos não se altera’, explica
--. A única forma de evitar esse, vamos dizer, constrangimento na praia é evitar o
uso de sungas muito apertadas. Que ademais são cafonas pra burro (2009b, p. 27).

No entanto, o fato de os leitores efetivamente já saberem a resposta para a sua ansiedade não a
elimina, porque o problema fundamental é a sombra de um pênis mítico, ou seja, o efeito de
poder que ideal do tamanho do pênis insere na sociabilidade masculina.
Segue-se a este desconforto, que diversos leitores procuram a revista para questionar
sobre tratamentos miraculosos, tanto para o aumento como para dar mais volume ao órgão.
105

Na falta de terapias e cirurgias confiáveis, a revista busca com especialistas a resposta que
confortará os leitores de sua condição e ansiedade. Mas essa resposta não existe. “Caro,
qualquer intervenção de ordem cosmética no pênis – para engrossar ou aumentar – é
condenada pelos médicos sérios. A aplicação de substâncias para engordar o amigo pode
deixá-lo torto, com calosidades e, pior, sem funcionar. Desista e conforme-se.” (2007c, p.
39). Certamente, nas próximas edições da revista uma nova demanda volta a endereçar a
tensão.
É importante observar como, neste caso, há um jogo de forças em ação. O discurso
científico defende a não existência de qualquer tratamento eficaz para o aumento do pênis e a
revista dá suporte. Este é o argumento padrão. No entanto, na edição 400 aparece uma fratura
peculiar: pela primeira vez, no conjunto das revistas estudadas, Playboy oferece o benefício
da dúvida a métodos alternativos:
Um dos tratamentos mais famosos, que usa um aparelho chamado Extensor, prome-
te aumentar 1 centímetro de pênis por mês. Mas, segundo médicos sérios, não au-
menta coisa nenhuma e provoca lesão no órgão. Outra intervenção consiste me cor-
tar o ligamento superior do seu amigo. Como o pênis fica solto, tem-se a impressão
de que ele está maior. Um detalhe é que este tipo de cirurgia pode resultar em per-
da da ereção (2008i, p. 42).

O que isso significa? A ciência diz que não há método eficaz, mas esconde quais são as
alternativas? Ou uma irresponsabilidade editorial falar destas alternativas?
Há de se observar como os tratamentos que prometem maior comprimento peniano
impactam em outro problema fundamental: a perda da ereção. Neste caso, uma ciência a favor
da masculinidade se encontra em uma encruzilhada: o pênis maior sem função erétil versus o
pênis menor pleno em funções sexuais. Qual opção articula melhor a masculinidade
hegemônica? Qual opção satisfaz melhor a experiência de masculinidade que os leitores
vivem? Neste caso, podemos arriscar dizer que, frente ao problema do tamanho, é mais
importante proteger a ereção. Como a própria revista comenta, “pior, sem funcionar” (2007c,
p. 39).
Um fato curioso é que, de modo geral, as perguntas sobre o tamanho do pênis ou sobre
novos tratamentos surgem a partir de sujeitos que estariam “na média”.
Mas tu é besta, hein? O seu pênis está 3 centímetro acima da média do brasileiro,
que é de 14 centímetros! Ou seja, confie em sua namorada. E ainda que você tives-
se, digamos, metade do tamanho, não haveria absolutamente nada a fazer senão
conformar-se. ‘Não existe métodos ou tratamentos confiáveis e seguros para au-
mentar o pênis. Muitos homens ponderam que, já que se tornam os seios das mulhe-
res maiores, é possível também aumentar o tamanho do órgão sexual masculino.
Entretanto, o pênis é um órgão especial, que tem funções no estado flácido e duran-
te a ereção. Por isso, uma modificação em sua estrutura pode levar a dificuldades
de ereção’, ensina o médico --, da comissão de comunicação da Sociedade Brasilei-
ra de Urologia (2009g, p. 41).
106

De modo que a fronteira entre o médio e o pequeno é uma das linhas que separam uma
hierarquia dos homens. Abaixo deles estariam aqueles casos em que além da posse de um
pênis pequeno o sujeito tem problemas de ereção.
Voltanto ao valor das comparações, é importante observar seu carater ambíguo: o
interesse de um homem por qualquer característica de um pênis que não seja o seu é motivo
de desconficança. Por esta razão, ao falar do tamanho, as cartas citam, majoritariamente, um
sentimento individual de inconformação, sem deixar claro que este sentimento só pode
aparecer por intermédio do mecanismo de comparação.
Fui numa sauna e lá encontrei o ex da minha namorada. Na hora do banho, ele foi o
único a tirar a roupa. Pô, não trem como não olhar, e eu sem querer vi que o cara
tem um treco que dá três no meu em grossura e tamanho. Quando minha namorada
esta fazendo oral, tenho vergonha dos meus 14 centímetros. Será que ela fica compa-
rando? Nunca tive problema com isso, mas agora começo a pensar numa maneira de
aumentar meu pênis. Existe um jeito seguro pra isso? (2008i, p. 42).

O caso acima é emblemático porque consegue conjugar uma rica porção das
ansiedades recorrentes trazidas pelos leitores: 1) o papel da parceira não é suficiente para
tranquilizar o sujeito; 2) o efeito da comparação é de uma violência massiva, já que estamos
imersos em um privilégio do “maior documento” – e, mais importante, considerando um
conhecimento heterossexual que reprime qualquer apreciação sobre o mesmo sexo; e 3) não é
possível olhar para o pênis alheio, senão sob certas circunstâncias – o que parece ser definido
como um encontro em que os envolvidos tem o objetivo patente de comparar.
Como este terceiro recurso patina entre o legítimo e o ilegítimo, vale observar que a
revista não se refuta uma manobra corretiva: “desencane, porque você não faz feio com seus
14 centímetros. Quanto à mania de frequentar saunas e olhar para o lado e para baixo
amigo, não existem casos cientificamente comprovados de cura” (2008i, p. 42, grifo nosso).
Neste momento é acionado um imaginário de que a sauna é um espaço homoerótico por
excelência, insinuando um desejo homossexual e assumindo um desejo saudável contra um
desejo doentio. Por todos estes desdobramentos, ditos e interditos, não surpreende que trate-se
de uma das diversas cartas anônimas na revista e que seja assinada por um “Leitor
desesperado”.
Se por um lado o pênis é flagrantemente evocado em toda narrativa de construção da
masculinidade, por outro, a bunda é “esquecida” como região no corpo do homem. Neste
caso, podemos estabelecer uma hipótese imediata: a bunda está sexualmente associada à
submissão, portanto interdidada ao fazer masculino – melhor, o prazer é impossível à sua
107

bunda. É importante marcar esta relação de frente e verso que se inaugura no corpo e se
exerce na vida social porque o apagamendo da bunda não é circunstancial.
Podemos perceber nas cartas, por um lado, que a bunda é um espaço relevante para o
desejo sexual do homem. Ela está, geralmente, inscrita em uma disputa do sexo anal:
predileção masculina contra negação feminina – que levanta diversos tipos de estratégias:
Minha namorada ouviu dizer que durante uma relação anal pode ocorrer uma con-
tração só desfeita com injeção de relaxante muscular. Segundo ela, isso ocorreria
porque a musculatura anal é lisa e, portanto, sujeita a esse tipo de reação. Desde que
ouviu esse boato, recusa-se a fazer essa gostosa brincadeira comigo. A história tem
algum fundo de verdade? (2008f, p. 53).

Sendo interesse sexual, se a bunda é colocada em pauta, portanto, identificamos os


leitores a buscar na revista soluções para convencer as suas parceiras a aceitarem fazer o sexo
anal ou melhorar a técnica. “Convenci minha namorada a iniciar-se nas artes do sexo anal. No
entanto, a atividade, embora prazerosa, não se mostrou muito higiênica. Percebo que nas
películas especializadas em cópula explícita os astros não lidam com esse inconveniente.
Gostaria de saber como dedicar-me a esse ramo do amor de forma asséptica” (2008h, p. 50).
Por isso, se fala em bunda quando ela é aquela feminina. E exatamente por existir um
grande número de mulheres não adeptas ao sexo anal, quando uma carta revela o contrário, a
própria revista felicita a “sorte” leitor:
Criatura, aproveite a vida. Muitos homens dariam tudo para estar com uma garota
dessas. Orgasmos anais, exclusivamente, são uma raridade, mas não há nada de er-
rado com eles. Ademais, em sexualidade não existem conceitos de anormalidade.
Dentro dos limites previstos por lei, tudo é permitido. Portanto, fazemos nossas as
palavras da ministra Ma..., ops, do ginecologista --: ‘O mais importante, sempre
que possível, é relaxar e gozar’ (2008c, p. 36).

Como Beatriz Preciado afirma, “junto com as técnicas de incitação à confissão da


verdade do sexo [...] existem também outro conjunto de técnicas de produção do silêncio” 30
(2000, p. 152, tradução nossa). Portanto, partindo da quase ausência de cartas que dêem
atenção à bunda masculina, a exceção acaba por revelar a interdição que implica não apenas o
corpo mas se estende ao discurso. É assim, que em dezenas de cartas apenas uma é publicada
com a bunda masculina como “protagonista”: “Sou heterossexual. Gosto mesmo é de mulher.
Mesmo assim já deixei minha namorada usar o vibrador em mim algumas vezes e gostei. Isso
é normal ou tenho tendências homossexuais?” (2009a, p. 28)
O privilêgio do gozo sexual masculino está no uso do pênis como zona erógena
privilegiada e na completa interdição do ânus. O homem heterossexual não pode demonstrar
excitação anal, isso porque a sensibilidade na região é associada a uma posição feminina ou

30
No original: “junto con las técnicas de incitación a la confessión de la verdad del sexo[...] existen también otro
conjunto de técnicas de productión de silencio”.
108

efeminada. No caso masculino brasileiro, o discurso sobre o prazer anal é o limiar entre a
heterossexualidade e a homosessuxalidade.
Talvez mais que qualquer outro corpo, o masculino é um espaço especialmente
interditado, tanto por motivo de honra quanto àqueles sexuais. Este corpo não pode ser
invadido. Como Grossi lembra, na cultura brasileira o que constitui a distinção homem versus
gay é a penetração anal: “um homem que é homem, deve inclusive comer uns ‘veados’, pois o
que o faz ser considerado homem é a posição de atividade sexual, de penetração” (1995, p. 6).
E como a homossexualidade acaba sendo encarada como o desvio, é possível compreender
porque o leitor acha necessário sublinhar – ele, efetivamente, inicia a carta com a afirmação –
sua heterossexualidade e engendrando em sua narrativa a presença do sexo oposto para dar
mais “credibilidade” à sua posição e, de certo modo, se desresponsabilizar pela iniciativa da
curiosidade anal.
Na mesma direção aponta Roberto da Matta, quando afirma que socialmente a bunda é
encarada como o
o inverso da masculinidade. O seu lado obscuro, interior e oculto. A dimensão reve-
ladora de tendências insuspeitadas como a feminilidade, a impotência e a covardia:
quem é que queria ser um ‘bundão’, ou um ‘brocha’? O seu plano frágil, dependente
e marginal: quem é que queria ser um ‘bunda-suja’? O ângulo que de certo modo
dotava o corpo do homem de um pedaço antimasculino — uma parte macia e semia-
berta, que o inferiorizava e o igualava às mulheres. E para complicar ainda mais as
coisas, dizia-se que bunda não tinha sexo, o que acentuava a homossexualidade pas-
siva como a única forma estigmatizada de viadagem e situava o encontro homosse-
xual ativo como socialmente aprovado (2010, p. 143.)

Interessante notar como o autor põe à luz uma semântica em que ser “bundão” ou “bunda
suja” equivale a uma posição de inferioridade.
Preciado lembra que a interdição do ânus (para o homem) no regime heterossexual se
relaciona intimamente com o desenvolvimento de uma hierarquia entre os corpos e a
possibilidade da autoridade sobre eles. “No homem heterossexual, o ânus, entendido como
unicamente orifício excretor, não é um orgão. É a cicatriz deixada no corpo pela castração. O
ânus interditado é o preço que o corpo paga ao regime heterossexual pelo privilégio de sua
masculindiade”31 (p. 136, tradução nossa). Seu ponto de partida é que a interdição anal institui
uma distinção no homem, originando uma demanda de experiência de vida heterossexual e

31
No original: “En el hombre heterosexual, el ano, entendido únicamente como orificio excretor, no es un órga-
no. Es la cicatriz que deja en el cuerpo la castracíon. El ano cerrado es el precio que el cuerpo paga al régimen
heterosexual por el privilegio de su masculinidad”.
109

proprietária: “Fecha o ânus e serás proprietário, terás mulher, filhos, objetos, terás pátria. A
partir de agora será o senhor de sua identidade32 (p. 136).
Se a interdição provoca tais expectativas compulsórias, o faz produzindo uma
precarização simbólica do ânus e de sua possível sensibilidade sexual, no sentido de que os
indivíduos cujos “corpos permenaceram abertos” serão hierarquicamente inferiores. O terror
anal – em certa medida, podemos dizer que é aquilo que impele o leitor em questão a
introduzir sua heterossexualidade para somente depois falar de um prazer ininteligível –
perpassa exatamente pela possibilidade de transgressão dos privilégios que a interdição
oferece ao masculino. Se ser homem e ter uma masculinidade hegemônica significa o
apagamento do ânus, então a carta acima revela o conhecimento que busca distanciar a bunda
do corpo masculino. Revela que o “corpo do homem” não implica uma bunda, como ao
contrário implica um pênis – ou ainda como o corpo da mulher implica, sim, bunda e vagina e
seios.
Preciado tenta problematizar ainda mais o terror anal, questionando o fato de o ânus
ser, com efeito, uma zona erógena em que não se distingue com rigor o corpo masculino ou
feminino. Neste caso, o ânus é o antissistema biopolítico, espaço em que as distinções de
gênero não se aplicam por meio da evidência/presença, mas por meio da castração. Portanto, o
espaço de tensão da normativa de gênero. O terror anal significa, por fim, não exclusivamente
o ânus, mas o desestabilizar das relações de poder que se instituem como qualidade da
diferença que implica em colocar uma superioridade heterossexual e a norma no topo da
pirâmide em prejuízo das diferenças.

Corpo em trânsito
Ao eleger as cartas em que os leitores de Playboy falam sobre as questões de
masculinidade que vivenciam em função da propriedade de um corpo mais ou menos
masculino, não podemos deixar de fazer atenção ao fato de uma vida sexual que
majoritariamente se desvincula do amor ou da intimidade. A experiência da sexualidade é
fugaz: não implica o relacionamento, não estabelece uma conexão afetiva necessária com a
parceira.
Com isso, queremos apontar para um número de cartas em que reforçam o imaginário
coletivo de homem como garanhão, conquistador de várias parceiras ao mesmo tempo.
Mesmo quando em “relacionamentos sérios”, as narrativas apontam para o desejo por outras

32
No original: “Cierra el ano y serás proprietario, tendrás mujer, hijos, objetos, tendrás patria. A partir de ahora
serás el amo de su identidad”.
110

mulheres – o que não deixa de ser estratégia de publicização do desejo heterossexual. Embora
já tenhamos considerado que a heterossexualidade, se transformando em norma, passa por um
processo de apagamento social, em que os indivíduos não precisem afirmar seu desejo – ao
contrário do desejo homossexual, coagido pela epistemologia do armário – isso não significa
que socialmente não tenham sido produzidos hábitos de expressão deste desejo, como
mecanismo de um discurso planificador:
Minha namorada atual tem uma amiga muito gostosa. Uma vez, fiquei sozinho com
a gata e ela deixou escapar que faria qualquer coisa pelo homem de quem gostava.
Perguntei: ‘Até perder a amiga?’ Ela respondeu: ‘Sim, se não precisasse matá-la’.
Agora estou achando que ela pode ter dado uma indireta. Ou será apenas um truque
feminino para nos enganar? E tem mais: minha namorada já me falou que me colo-
caria em um site que denuncia as traições dos homens, caso eu sujasse com ela. E
agora? O que faço? (PLAYBOY, 2008j, p. 48).

Namorei durante cinco anos e há três estou solteiro. Sempre saio para baladas com
amigos e muita mulher. Pego geral! Mas não me interesso realmente por elas. Só
quero as mulheres dos meus amigos, que não me dão bola. Parece praga da falecida
(PLAYBOY, 2009d, p. 34).

Assim, uma pretensa autossuficiência masculina se expressa na forma como estes


leitores narram suas experiências no domínio da sexualidade; ou seja, o envolvimento sexual
é característico na tecitura de sua biografia não apenas como modelo de desejo de sexo
oposto, mas na urgência do sexo, per se, para este indíviduo – o que é condição simbólica e
contingência biográfica.
Mas este pode ser encarado apenas como aspecto derivado, como experiência
reveladora do espiríto do tempo, das transformações da posição masculina na nossa
sociedade. Não apenas como espelho de Hefner, mas como efeito do deslocamento do homem
da posição de autoridade no domínio social, estes leitores articulam com cada vez mais a
casualidade como valor; sua individualidade passa a contar cada vez mais como elemento de
peso no reconhecimento da masculinidade. Nesse caso, há um potencial no exercício sexual,
pois o indíviduo consegue articular indepêndencia e virilidade, em paralelo à condição
contemporânea. “O garanhão atual não é alguém que cultiva o prazer sensual, mas uma
pessoa que busca emoções em um mundo de oportunidades sexuais abertas” (GIDDENS,
1993, p. 97).
Ao contrário, no entanto, de serem narrativas exclusivas da execução sexual – embora
o fato do ato/técnica sexual seja sempre privilegiado, não queremos dizer que o
relacionamento não faz parte das narrativas masculinas. É importante considerar que, nas
cartas, a economia da sexualidade implica também em um aprendizado sobre as regras da
conquista e do relacionamento, na medida em que, diante da presença do outro, é necessário
111

envolvê-lo no seu projeto de viabilidade sexual. Contudo, a forma de encarar o


relacionamento é qualitativamente diferente: sexo e amor não se equivalem na experiência
masculina.
Aqui podemos, portanto, compreender a importância de um cuidado de si – apesar de
expresso apenas em situação de prejuízo já experimentado – já que o corpo é condição da
experiência masculina. Não apenas se produz reconhecimento para um corpo de homem, mas
em PLAYBOY RESPONDE, onde esta experiência é relevantemente sexualizada, a condição
do corpo é ainda mais requisitada. Coletivamente podemos falar de uma construção
institucional da masculinidade (como dos outros gêneros), mas importa observar como este
conhecimento está incorporado, quer dizer, nenhuma biografia prescinde do corpo para
produzir história. Se há algum problema, podemos afirmar que reside no projeto de
isolamento do ideal masculino, produzindo um corpo bélico, que não pode descansar em
produzir masculinidade e não pode produzir outra coisa senão o projeto hegêmonico. Não
poder, portanto, significa o cerne das angústias masculinas, aquilo que leva o leitor a procurar
em Playboy resultado para os seus problemas, pouco ou nada consciente do fato de que a
função da revista é, senão, alimentar a delícia e a dor de (querer) ser idealizado.
112

5
Uma Cara Masculinidade

Tudo que você tem não é seu/ Tudo que você guardar/ Pertence ao tempo que tudo
transformará/ Só é seu aquilo que você dá/ Tudo aquilo que você não percebeu/ Tu-
do que não quis olhar/ É como o tempo que você deixou passar/ Tudo aquilo que
você escondeu/ Tudo que não quis mostrar/ Deixe que o tempo com tempo vai reve-
lar
Lampirônicos, Pop Zen
113

Com A História da Sexualidade, de Michel Foucault, os estudos no campo de gênero e


sexualidade ganharam uma perspectiva diferente para tratar da sexualidade humana. A princi-
pal contribuição do filósofo é a desmistificação de um “segredo do sexo”, ao qual vai chamar
de “hipótese repressiva”. Segundo esta hipótese, falar sobre o sexo seria um tabu necessário à
sociabilidade burguesa. Um segredo do sexo estaria exclusivamente vinculado à reprodução e
a uma moral e costumes burgueses que se esforçam em se afastar dos costumes hedonísticos
de uma aristocracia em falência.
Ocorre que a interdição sobre falar em sexo, ao contrário, produz discursos sobre o se-
xo, embora como forma de disciplina e respeito à norma. Por isso aquele “discurso sobre a
repressão do sexo se sustenta. Sem dúvida porque é fácil de ser dominado” (1988, p. 11).
Como efeito dos segredos nascidos com uma economia sexual burguesa, uma “verda-
de” que tem sido replicada no curso da nossa história recente é aquela da energia sexual mas-
culina. De um lado, ao se reproduzir o projeto de um indivíduo virilmente mítico, há muito
nosso imaginário comum deixou de questionar – se isso já foi seriamente questionado – se há
formas de exercício de masculinidade que não encontrem na virilidade uma condição necessá-
ria. Ao contrário, nosso conhecimento comum questiona as razões do ímpeto sexual não se
manifestar no corpo masculino, como se esta ausência implicasse em uma anomalia no gêne-
ro. Não por acaso, os leitores de Playboy se preocupam com (uma economia d)o sexo; pode-
mos defender que tal atitude não se apoia exclusivamente numa vontade de prazer, mas noutra
vontade de com/a/parecer.
Por outro lado, o aparente apagamento de tal pergunta – há equivalência necessária en-
tre libido e masculinidade? – recai como peso sobre as vidas masculinas, que não ousam se
questionar, muito menos levantar publicamente tal problema. Daí o fato de uma seção de car-
tas em Playboy ser viável a despeito de sua premissa ambígua 33: terapeutas, sexólogos, urolo-
gistas e toda sorte de especialistas representam dispositivos minimamente públicos para lidar
com o campo da masculinidade. O confessionário postal da revista, no entanto, permite relati-
va anonímia entre milhares de leitores (que não se resumem às estatísticas de banca de revis-
tas e assinaturas).
Ou seja, com um contrato social – historicamente selado – de que a masculinidade é
um domínio inquestionável, PLAYBOY RESPONDE é, efetivamente, um dispositivo móvel
pelo qual a vontade de saber se expressa.
Se a repressão foi, desde a época clássica, o modo fundamental de ligação en-
tre poder, saber e sexualidade, só se pode liberar a um preço considerável: se-

33
Ver Capitulo 4, página 82-83.
114

ria necessário nada menos que uma transgressão das leis, uma suspensão das
interdições, uma irrupção das palavras, uma restituição do prazer ao real, e
toda uma nova economia dos mecanismos de poder; pois a menor eclosão de
verdade é condicionada politicamente (FOUCAULT, 1988, p. 11).

Talvez sem a devida consciência, Playboy pode ser o veículo de re/produção de uma masculi-
nidade hegemônica, ao mesmo tempo em que revela (de modo não intencional) as fraturas dos
modos de vida masculinos.

Com as cartas de PLAYBOY RESPONDE podemos identificar um tipo experiência


masculina que expressa e espera no corpo as mesmas expectativas de produtividade que estão
postas para o homem desde uma esfera de comportamento. Nesta investigação, quando foi
requisitado como espaço relevante para a produção de masculinidades, a hipótese de que um
corpo masculino potencialmente apresentaria diversas facetas mostrou imediatamente que a
mais proeminente é aquela da sexualidade. Agora podemos considerar que as formas como as
narrativas revelam as masculinidades se vinculam necessariamente a um ideal hegemônico
que serve como horizonte, embora raramente como algo finito.
Ser um corpo que se torna inteligível, majoritariamente, na medida de seu investimen-
to sexual revela muito, se concordamos que a masculinidade hegemônica se impõe “por meio
da performance profissional, da aquisição de bens, da demonstração de força física e da inten-
sa atividade sexual” (NOLASCO, 2001, p. 84). Só o fato de que estas cartas são endereçadas
a uma revista masculina que privilegia o conteúdo erótico é suficiente para garantir encontrar
uma masculinidade de intensa (narrativa sobre a) atividade sexual, o que não significa que
nestes mesmos discursos não possamos encontrar as demais formas de experiência masculina
dominante citadas.
Quando situamos, a respeito da predominância de um corpo sexualizado nas cartas, a
centralidade do desempenho para estes homens, de fato estávamos identificando uma forma
de desempenho que já parecia imperativa – aquele sexual. No entanto, como dissemos, este é
um valor que atravessa a vida masculina. Quando é demandado o cumprimento do ato sexual
à contento; quando floresce a angústia quanto ao corpo sem músculos cultivados; quando a-
centua-se a sismicidade no terreno do cuidado de si; aí opera a mesma expectativa de desem-
penho que posiciona o homem historicamente como produtor, provedor e potente, porque
estas expectativas são historicamente estruturadas e (se espera que sejam) estruturantes.
115

Podemos ver que toda gramática de masculinidade que orienta estes sujeitos num mo-
do de vida socialmente reconhecível não é suficiente para afastá-los das situações em que a
realização da norma não é possível. A primeira destas falhas reside no fato de que estes ho-
mens mostrem fragilidade, dúvidas, angústias e inconsistências, quando, ao contrário, a mas-
culinidade hegemônica busca construir homens emocionalmente blindados e não-empáticos –
ou como Michael Kaufman diria, uma “masculinidade estóica”.
Muitas de nossas formas dominantes de masculinidade dependem da interiorização
de uma gama de emoções e sua transformação em ira. Não se trata somente de que a
linguagem das emoções dos homens seja frequentemente muda ou nossas antenas
emocionais e capacidade para a empatia estejam um tanto truncadas. Ocorre também
que muitas emoções naturais têm sido descartadas como fora de limite e inválidas34
(1999, p. 4, tradução nossa).

Portanto, uma masculinidade precária não é apenas viável, senão necessária para man-
ter outras masculinidades à margem, enquanto o ideal hegemônico se sedimenta por efeito do
distanciamento – quer dizer, incita todo corpo social por meio de coerções sucessivas, sem
estar acessível concretamente a qualquer homem.
A este respeito, ao falar das relações entre as posições hegemônicas e marginais há
uma tendência denuncista quanto a uma dada representação da vida, do modelo social, como
se representação fosse sempre um modelo artefactual, construído à parte do jogo social e im-
plantado como vírus no conhecimento que regula nossa sociabilidade. Assim, com uma mas-
culinidade hegemônica – e, sobretudo, posta em circulação pela mídia, muitas críticas à cate-
goria masculino e seu conjunto simbólico girariam em torno de uma representação como fic-
ção/irrealidade da vida do homem, com vistas ao controle. Aqui, ao contrário, partimos de um
problema diferente: representação não apenas como o artefato, que com efeito o é, mas tam-
bém como a re-apresentação do resultado do jogo social – considerando, certamente, que há
pesos e medidas bastante diferentes. E só podemos considerar esta diferença na medida em
que temos um sistema redação-recepção operante. Não podemos considerar de modo simplifi-
cado que os registros de exercício de masculinidade proposto na e pela revista estão absolu-
tamente deslocados de uma “vida real”, porque conseguimos verificar uma posição do leitor
na construção deste modo de vida – não apenas ele consome, mas levanta um significado he-
gemônico de ser homem e, a despeito de conseguir cumpri-lo permanentemente, o acompa-
nha. Vale adicionar que, sobretudo porque as narrativas que tratamos são sobre um corpo se-

34
No original: “Muchas de nuestras formas dominantes de masculinidad dependen de la interiorización de uma
gama de emociones y su transformación en ira. No se trata sólo de que el lenguaje de las emociones de los hom-
bres sea frecuentemente mudo o que nuestras antenas emocionales y nuestra capacidad para la empatía estén un
tanto truncadas. Ocurre también que numerosas emociones naturales han sido descartadas como fuera de límites
e inválidas”.
116

xualizado, o relevo das várias formas de encarar a virilidade e o corpo são, com efeito, produ-
tos da exposição/problematização deste modo de vida feito para, mas também pelos, homens.
Se potencialmente falamos da representação de uma masculinidade hegemônica não é
porque ela seja falsa, mas falamos de um processo de reprodução histórica, de um modelo
moral, cultural, comportamental, corporal. A representação, nessa perspectiva, deve ser pro-
blematizada não em função de não ser “verdadeira”, mas porque é parcial e trabalha em preju-
ízo de outros modelos – um modelo confortável e estável é a “pedra no meio do caminho”
para o exercício de outras individualidades. O que se re-apresenta do ideal masculino implica
uma violência implacável na vida dos homens que não correspondem ao ideal, de tal modo
que sua forma de lidar com este fenômeno implica o questionamento dos traços de sua própria
biografia. Se não fossem regidos por um ideal tão austero não se questionariam se os fazem
menos homem ter o menor pênis do vestiário ou se pintam os cabelos.
Vale sublinhar, então, que os modelos hegemônicos são tão construídos quanto os mo-
delos marginais. Ser real, neste caso, implica também considerar que o que se representa é
elevado à condição de objeto de aspiração, pois no jogo social implica um status privilegiado.
Mesmo sendo impossíveis como representações definitivas, os registros hegemônicos de vida
para estes homens são especialmente reais, na medida em que se almeja tal posição – e sofre-
se os efeitos de sua existência. Portanto, o centro da questão da representação, aqui, não é
descrédito porque seja irreal, mas questionamento porque a sua construção como realidade
única é uma violência. A representação é sempre política e está intimamente vinculada à nor-
ma e ao hegemônico.

“Então Playboy é para você”35 (?)


Certamente não podemos afastar desta discussão o fato peculiar que é a condição de
Playboy como tecnologia de comunicação. E tal observação deve servir como meio de evi-
denciar o que Barbero (2004) vai chamar de uma “fetichização do meio de comunicação”,
quer dizer, o valor mágico socialmente atribuído à comunicação massiva como espelho da e
via de acesso à vida social. Ao mesmo tempo, deve servir para observar por meio de qual pro-
cesso a revista pode construir um guia para orientar a forma como o leitor articula um saber
masculino em sua experiência cotidiana, transformando (e se transformando em) um ritual de

35
Extrato do primeiro editorial de Playboy, escrito por Hugh Heffner, em 1953.
117

como se pode ser e parecer homem. Por isso, a este respeito, é fundamental enfrentá-la como
um dispositivo cultural – especialmente sobre masculinidade.
Inicialmente, devemos fazer atenção a um fato fundamental e transversal à presente
discussão e que, no entanto, está geralmente invisível: comunicação, do latim communicati-
o, significa tornar comum. Assim, devemos tomar como ponto de partida a cultura e a lingua-
gem como meios de comunicação por excelência, antes mesmo de considerar a condição pró-
pria de Playboy como meio de comunicação, em um sentido mais aplicado da noção. Essa
posição implica reconhecer não apenas seu caráter conectivo, como também encará-la como
produção cultural.
A esta altura, já está marcado o exercício de poder implicado na arquitetura da revista.
E tal fator não deriva exclusivamente de uma posição ideológica, mas da própria condição da
língua. A linguagem, terreno elementar para a convivência num mesmo território cultural, é
necessariamente articulação e expressão de poder. Barbero lembra que as ciências da lingua-
gem desde sempre parcelam e dividem, “e esse parcelamento, que é exigência da ‘objetivida-
de’, é já uma forma de controle, de domesticação, de neutralização” (p. 70). Para o nosso ca-
so, portanto, a expressão de poder no projeto de masculinidade é articulada ao crivo editori-
al/midiático (que é ideológico), ao mesmo tempo que a um dado conhecimento de gênero –
que, implicando em interações, é decisivamente político.
Ao falar que Playboy intenciona uma métrica para a masculinidade, nos referimos em
nível embrionário à articulação de uma linguagem que inevitavelmente classifica e, sobretudo,
às transformações que as tecnologias mais modernas de comunicação – especialmente a partir
da imprensa – impõem à sociabilidade. Não por acaso, um dos pilares da existência de Play-
boy é o que chamamos anteriormente de “qualidade redacional”, ou seja, um tratamento obje-
tivo da língua, a possibilidade semântica de acessar os leitores e engajá-los em um projeto de
interação editorial e de masculinidade.
Intencionalidade, portanto, porque não há linguagem sem sujeito – o que devemos ne-
cessariamente estender para o meio de comunicação moderno. O desenvolvimento dos meios
de comunicação sempre esteve vinculado a interesses burgueses com visão prospectiva da
força da fabricação de imagens, manipulação via produção de discursos – informar, função
sempre requerida para as tecnologias do processo comunicativo, significa dar forma – e “de
que os meios iam possibilitar novas, sofisticadas e mais penetrantes formas de colonização,
mediante as quais a dominação deixa de ser sofrida como uma opressão para ser sentida como
uma aliança que converte o dominador em libertador.” (p. 53).
118

Por este motivo podemos falar em ideologia operando no processo comunicacional


como posição interessada – embora sublinhando seu caráter integrante de uma “dimensão
significativa de relações sociais”. O que há de ideológico na comunicação, em seu sentido
amplo, já está dado, ou melhor produzido, na organização semântica do social, na medida das
disputas, seleções, articulações, que resultam em uma organização do sentido. “Se a ideologia
habita a linguagem, é em sua forma mais ‘primária’ e fundamental: porque o processo de
simbolização, enquanto codificador originário, é já um processo de fetichização que nos tra-
balha ainda antes que haja ‘língua’” (p. 75).
Sem querer com isso, no entanto, produzir uma posição apocalíptica dos meios de co-
municação, é importante apontar para uma maquinaria semântica que tem objetivos de domi-
nação das pré-disposições individuais, o que irá se refletir no campo social e com especial
importância no campo econômico. Revelar que a pretensa unidade proposta no discurso do
veículo comunicação reflete um projeto de simplificação e colonização, nos permite não ape-
nas abrir os olhos para as formas correntes de fazer, mas também pensar novas formas de tra-
balhar o processo comunicativo dando oportunidade a novas possibilidades de interação a
partir dele para a vida social – enfatizar o caráter formador não no sentido da colonização,
mas da autonomia e da crítica.
Para Thompson (2011) o processo moderno de comunicação e os produtos de mídia
estão “inextricavelmente ligados às formas de ação e interação” (p. 10) e operam suas funções
mobilizando formas simbólicas e, portanto, forjando um terreno possível de comunicação.
Segundo o autor, embora seu funcionamento tenha sido historicamente estudado como mani-
festação secundária ou periférica da vida social – em parte por suspeita e em parte por um
entendimento da “comunicação de massa” como “uma esfera do superficial e do efêmero” –
convém observar que “o uso dos meios de comunicação transforma a organização espacial e
temporal da vida social, criando novas formas de ação e interação, e novas maneiras de exer-
cer o poder, que não está mais ligado ao compartilhamento local comum” (p. 27).
Não podemos deixar de reconhecer um caráter transformador no processo de comuni-
cação midiática – que é também um processo formador – embora isso não implique afirmar
um que as transformações produzidas sejam necessariamente “pacíficas”36. No caso de Play-

36
A despeito de uma distinção clara entre o ponto de partida de Barbero e Thompson – o primeiro observa um
processo de fetichização dos meios de comunicação e suas implicações sociais e políticas na América Latina; o
último parte de uma história (europeia/americana) do desenvolvimento das tecnologias que desterritorializam a
comunicação e transformam a interação – podemos observar em ambos os estudos aproximações, sobretudo no
que diz respeito ao caráter cultural do processo da comunicação. Tanto é inegável uma transformação da sociabi-
lidade (o que Barbero vai tratar na sua obra de uma posição pós-colonialista), quanto o é o fato de que esta trans-
119

boy, por exemplo, como já vimos, a construção/publicação de um estilo de vida cada vez mais
casual e erotizado pode ter sido um tanto escandaloso para um contexto de meados do século
XX – estamos falando do império hedonista de Hugh Heffner – mas vale lembrar que seu
projeto de vida masculina, como nos mostrou Preciado, é de uma pós-domesticidade que bus-
ca devolver ou assegurar ao homem as rédeas de sua vida – um novo sentido de autoridade,
baseado na independência.
A partir deste cenário, é importante fazer atenção a dois aspectos fundamentais. O
primeiro deles diz respeito ao que Thompson chama de “organização social do poder simbóli-
co” e certamente à produção e ao compartilhamento de uma rede simbólica que, com efeito,
opera transformações reais nas sociabilidades. Nesse sentido, entra em operação uma qualida-
de de poder37 que “nasce na atividade de produção, transmissão e recepção do significado das
formas simbólicas” (p. 40), um tipo de poder que é operado por meio de instituições culturais
– incluindo necessariamente os meios midiáticos.
O poder investido nos meios de comunicação – e devemos, necessariamente, envolver
o funcionamento de Playboy – resulta tanto em mercantilização como em produção de valor
social para os objetos ou narrativas que transmitem. Em parte, é produto deste aspecto uma
mentalidade do processo de comunicação midiática como um quarto poder que vigia e julga a
interação social. No entanto – e embora devamos observar que este processo comunicativo é
caracteristicamente assimétrico – não podemos encarar o processo de comunicação massivo
como se todo discurso fosse necessariamente fictício e toda a recepção não tivesse nenhuma
ação ou participação no processo.
A recepção deveria ser vista como uma atividade; não como algo passivo, mas o ti-
po de prática pelas quais os indivíduos percebem e trabalham o material simbólico
que recebe. No processo de recepção, indivíduos usam as formas simbólicas que re-
cebem para as suas próprias finalidades, em maneiras extremamente variadas e rela-
tivamente ocultadas, uma vez que estas práticas não estão circunscritas a lugares
particulares. Enquanto a produção ‘fixa’ o conteúdo simbólico em substratos materi-
ais, a recepção o ‘desprende’ e o liberta para os estragos do tempo (p. 66. Grifo do
autor).

Quer dizer, todo discurso midiático só pode fazer sentido se, e somente se, os indivíduos dis-
põem de recursos interpretativos comuns. Se, por um lado, comunicação “é também hoje si-
nônimo do que nos manipula e engana”, por outro, assinala as “transformações sociais que

formação também resulta em um projeto colonizador (o que fica posto quando Thompson evidencia a intimidade
entre mídia, procedimento e poder econômico.).
37
Thompson busca explicitar quatro tipos de poder – o que qualifica, num sentido geral, como “a capacidade de
intervir no curso dos acontecimentos e em suas conseqüências” (p. 38): o poder econômico, proveniente das
atividades de subsistência e transformação de bens e consumo; o poder político, que coordena indivíduos e regu-
lamenta padrões de sua interação; o poder coercitivo, que implica o uso ou ameaça da força física; e o poder
simbólico, que produz e transmite formas simbólicas.
120

nos fazem contemporâneos do futuro”; afinal, é “um âmbito chave de reconhecimento”


(BARBERO, 2004, p. 150). Tal cuidado deve ser tomado para não produzir uma visão envie-
sada – de uma indústria cultural francamente mal intencionada e uma “massa” incapaz de
crítica – sem reconhecer o caráter de interação, in/formação e transformação que as tecnologi-
as de comunicação possibilitam.
Nesse sentido, a despeito de reconhecermos um caráter hegemônico na masculinidade
sobre a qual Playboy fala, esse modelo não é assumido sem “disputa” em seu projeto simplis-
ta – embora não reconheçam como disputa, os leitores estão colocando em questão formas e
contingências de experimentar sua masculinidade que não são pacíficas desde um ideal domi-
nante. Estamos falando de um processo hermenêutico, ou seja, um processo de interpretação.
Esta masculinidade não adquire sentido apenas em função da revista, mas também pelas con-
dições reais para que os leitores articulem tal proposta. Um exemplo claro está no recorte do
estilo de vida médio de Playboy, que não consegue aglutinar os homens em torno de seu pro-
jeto do mesmo modo como acontece a partir do seu apelo de sexualidade e de heterossexuali-
dade.
Como já foi apontado, todo produto de mídia tem uma intencionalidade econômica e
seu projeto de sucesso se realiza na conversão de espectadores interessados – como Thomp-
son comenta, os produtores vêem o público como aqueles “a quem eles devem agradar, persu-
adir, entreter e informar, cuja atenção eles podem ganhar ou perder e cuja audiência é a con-
dição sine qua non da existência de suas atividades” (2011, p. 137). Quer dizer, para fazer
sentido e sucesso no seu destino, a revista tem de falar sua língua (linguagem aproximada ou
acessível) – o que não significa que inexistam objetivos próprios do processo de comunica-
ção, objetivos cujo sucesso passa pelo tratamento do discurso que irá promover o processo
hermenêutico. De todo modo, vale sublinhar que a idéia de uma masculinidade nos moldes
que constatamos está aquém e além da revista. Com a administração das formas simbólicas,
no entanto, a revista investe em uma produção que não é solidária nem libertária.
Correia (2002) sublinha que, no domínio da experiência, a “forma de sociabilidade que
prevalece é a intersubjectividade, a concepção do outro como semelhante” (p. 27) – no caso
de Playboy a premissa básica de semelhança é o desejo de sexo diferente. Se encarados como
tecnologias para um entendimento possível, os meios de comunicação – partindo por excelên-
cia da linguagem, mas também incluindo as tecnologias de mediação – não estão excluídos
desta dinâmica.
A linguagem e a comunicação desempenham um papel estruturante e fundamental
na construção da realidade social, já que se a realidade do mundo da vida quotidiana
se manifesta como presente num momento dado, isso deve-se à possibilidade de es-
121

tabelecimento de uma comunicação contínua de cada um dos actores sociais com a


alteridade dos restantes. A comunicação emerge como o meio através do qual na vi-
da quotidiana superamos a nossa experiência da transcendência dos outros (p. 28).

O processo de comunicação herda poder fundamental não porque é também domínio


de discursos e intencionalidades, mas, em primeiro lugar, porque possibilita a cone-
xão/entendimento. É também seu caráter de conhecimento cultural que promove uma lingua-
gem comum e acessível, articula saberes já em circulação no seio social, saberes que aproxi-
mam – ou repelem – os sujeitos numa mentalidade comum. Dado que “a comunicação coloca
ao dispor dos indivíduos um instrumento de relação com a alteridade”, então “não é difícil
inferir a partir daí que os media influem decisivamente nos ‘processos pelos quais qualquer
corpo de conhecimentos chega a ser estabelecido como realidade’” (p. 28).
Um segundo aspecto a ser observado, a partir da leitura de Thompson, deriva da pró-
pria intencionalidade como tais formas simbólicas são trabalhadas pelo produto midiático: o
problema da in/visibilidade. Duas transformações importantes com a disposição moderna dos
meios de comunicação: a primeira, o fato de promover a existência de um dado fenôme-
no/narrativa/fato, a despeito de um compartilhamento espaçotemporal – e podemos adicionar,
com efeito, a despeito de um acesso estrito às formas simbólicas; a segunda, necessariamente
derivada, o poder (mágico) de “dar vida à verdade”, promover a existência de algo.
Antes do advento da imprensa, a noção de evento/acontecimento estava intimamente
relacionada à sua realização imediata, no tempo e no espaço. Os fatos existiam na medida da
sua possibilidade de ser público – seja pelo testemunho imediato seja pela narração via viajan-
tes. Ou seja, o caráter face-a-face da interação e o testemunho tinham o privilégio na constitu-
ição da história (ao menos num domínio doméstico, de indivíduos sem acesso ao poder insti-
tucional), por assim dizer. Com a imprensa, os acontecimentos deixam essa prerrogativa; os
meios de comunicação assumem posição relevante na reorganização tempo-espacial. Não há
demanda de copresença para que diversos eventos existam e os meios não apenas os relatam,
mas fazem deles “verdades” a ser narradas. Com esta transformação, é possível evidenciar os
meios de comunicação como formas de ação. “Proferir uma expressão é executar uma ação e
não apenas relatar ou descrever um estado de coisas” (p. 36-37).
Conforme observado por Marilena Chauí, sob influencia dos meios midiáticos, no en-
tanto, a verdade é um detalhe “irrelevante”, substituída pelas noções de credibilidade, plausi-
bilidade e confiabilidade. Com efeito, com Foucault (1979) já vimos que a verdade é senão
um tipo de discurso acolhido socialmente como um conjunto de procedimentos regulados.
Mas a respeito da transformação da visibilidade inaugurada com técnicas modernas de comu-
122

nicação, vale levar em consideração – ao menos ao nível da crítica – o fato de que, hoje, em
parte, “para que algo seja aceito como real basta que apareça como crível ou plausível, ou
como oferecido por alguém confiável” (CHAUÍ, 2006, p. 8). Nesse sentido, Playboy conquis-
tou o local de fala crível e confiável, que reifica uma masculinidade precária, única e necessá-
ria.
Isso não significa a rigor a invenção do fato/verdade, mas, o que é diferente, detectar,
selecionar, dramatizar e produzir. “Os fatos, eis aí o grande disfarce com o qual a imprensa
dissimula a forma-mercadoria de seu discurso” (BARBERO, 2004, p. 80).
Na história, a distinção entre o público e o privado implicava o entendimento de um
poder político institucionalizado, por um lado, e o domínio das produções pessoais, por outro.
Apenas nos últimos séculos um novo sentido de público e privado se estabelece:
‘público’ significa ‘aberto’ ou ‘acessível ao público’. Público neste sentido é o que é
visível ou observável, o que é realizado na frente dos espectadores, o que está aberto
para que todos ou muitos vejam ou ouçam. Privado é, ao contrário, o que se esconde
da vista dos outros, o que é dito ou feito em privacidade ou segredo ou entre um cír-
culo restrito de pessoas. Nesse sentido, a dicotomia tem a ver com publicidade ver-
sus privacidade, com abertura versus segredo, com visibilidade versus invisibilida-
de. (THOMPSON, 2011, p. 65, grifo do autor)

Nesse caso, portanto, importa sublinhar que, ao produzir visibilidades, a ação do processo
comunicativo é, certamente, intencional.
Ao eleger uma forma discursiva e uma porção simbólica, todo produto de mídia reali-
za um projeto de reificação de dados modelos, buscando submeter ou excluir a diferença. É
possível entender um recorte nos objetivos de cada mídia; no entanto, como resultado, temos
difundidas novas polarizações baseadas no próprio sentido de normalidade, do senso comum.
Assim, a diferença não é apenas contingência no processo de hegemonização, senão condição
de sua normalidade.
Ver nunca é ‘visão pura’; ver está sempre moldado por um conjunto mais amplo de
premissas e arcabouços culturais e pelas deixas faladas ou escritas que geralmente
acompanham a imagem visual e dão forma à maneira pela qual as imagens são vistas
e compreendidas. (p. 13)

Com isso, queremos fazer observar que a visibilidade, muito mais do que derivada da menta-
lidade do normal, é um processo interessado.
Se o produto de mídia trabalha no sentido da (re)construção social da realidade, o faz,
portanto, acessando um conhecimento/senso comum. Nesse sentido, “há, com efeito, uma
ideia de senso comum que percorre a atitude natural e que se retrata de forma admirável numa
certa atracção dos media pelo ‘mainstream’, pelo pensamento socialmente aceite e pela tipifi-
cação do mundo-elementos fundamentais da constituição da sociabilidade” (CORREIA, 2002,
123

p. 33). O trabalho em questão é o de se ocupar em produzir ou mesmo reapresentar uma taxo-


nomia familiar, de fácil identificação. Ou seja, este projeto faz parte “das antecipações e pla-
neamentos que empreendemos na vida quotidiana porque implicam um certo estilo que S-
chutz classifica de ‘pensar como sempre’. As tipificações dependem de dois tipos de idealiza-
ções ; a ‘a de que assim foi, assim será’ e a de que ‘posso fazer isso de novo’” (p. 37).
Bourdieu (2010), de modo semelhante, pontua que as relações de comunicação são
“relações de poder que dependem, na forma e no conteúdo, do poder material ou simbólico
acumulado pelos agentes (e instituições) envolvidos nestas relações e que, como dom ou o
potlatch, podem permitir acumular o poder simbólico” (p. 11). Se bem o sociólogo fala de
comunicação em seu sentido amplo, como agente de cultura, podemos estender a mesma
compreensão para os produtos de mídia, já que são, no mundo contemporâneo, meios privile-
giados de formação e influência do indivíduo.
Assim, podemos testemunhar que Playboy trabalha num projeto de masculinidade ar-
ticulando, pelo menos, duas importantes instâncias de poder: 1) uma moral masculina (patri-
arcal), como domínio normativo e privilegiado – incorporado como habitus no seio social; e
2) o âmbito da produção midiática – que sendo produção simbólica, impõe um sistema de
classificação sob a aparência concepção/isenção editorial. Assim, se legitima no domínio do
exercício do poder simbólico, ou seja,
como poder de construir o dado pela enunciação, de fazer ver e fazer crer, de confi-
gurar ou de transformar a visão do mundo e, deste modo, a ação sobre o mundo, por-
tanto o mundo; poder quase mágico que permite obter o equivalente daquilo que é
obtido pela força (física ou econômica), graças ao efeito de mobilização, só se exer-
ce se for reconhecido, quer dizer, ignorado como arbitrário (p. 14, grifo do autor).

A possibilidade de exercício desse poder simbólico, no caso das masculinidades, reside no


fato de que o conhecimento ideal masculino é estruturado (sedimentado através da história,
investido historicamente e interessado) e ao mesmo tempo estruturante (como parte da norma,
regula de modo panorâmico a vida das pessoas). É, inclusive, por este mesmo motivo que
vemos na revista um projeto de masculinidade que deve ser reafirmado e reproduzido e corri-
gido a cada carta.
O poder que se realiza com o processo de comunicação é, com efeito, ideológico – e
nesse sentido, vale sublinhar novamente que o ideológico é sempre interessado. O que não
implica dizer, necessariamente, que como projeto ideológico, o projeto de Playboy seja auto-
suficiente e impassível de uma produção contrária ou de contra-expressões. Vale lembrar que
quando falamos em masculinidade hegemônica, implicamos necessariamente a emergência de
masculinidades marginais, vistas de forma clara naquelas dificuldades de ser o homem da
124

hegemonia que as cartas “denunciam” – e que esta marginalidade não significa uma forma
menos valorosa, embora menos valorizada porque diferente.
É por isso que, aqui, consideramos como produção mais importante na revista não
propriamente seu conteúdo fotográfico, a relevância conteudística, nem tanto seus meios de
acesso ao mercado de consumo, per se; mas efetivamente como estas bases se articulam para
representar uma forma de vida masculina – e, portanto, qual resultado e efeitos.
Outro problema a ser implicado neste jogo de influências exercidas como efeito do a-
cesso ao produto de mídia é aquele da relevância. Apoiado em Schutz, Correia (2002) afirma
que o sujeito se relaciona com os saberes propostos socialmente na medida de sua relevância;
quer dizer, há um elemento de interesse que move o sujeito em relação a tais saberes moti-
vando a pensar, projetar e agir – devendo considerar que o próprio sujeito é socialmente in-
formado. Assim, esse interesse “é despertado num contexto de economia da atenção no qual
os media que utilizamos desempenham um papel fundamental, na medida em que introduzem,
amplificam e tornam generalizáveis as tipificações em que se fundam o sistema de relevân-
cias, ou sejam os interesses relativos das pessoas” (p. 29). Em termos de masculinidades, de-
vemos considerar o fato do exercício de austeridade contra o desprivilégio derivado da trans-
gressão à norma, como elementos que pesam na balança das relevâncias.
É aqui que o problema da distribuição social do conhecimento se torna extremamen-
te importante para um plano de trabalho sobre a investigação sobre os media, na e-
xacta medida em que estes possuem uma importância decisiva na transformação das
nossas zonas de relevância, desempenhando um papel fundamental na selecção dos
temas sobre os quais é importante ter opinião. [...] o papel dos media no despertar do
interesse – em especial para aquelas relevâncias que são objecto de escolha ou até na
definição de novas zonas de relevância obrigatórias para determinadas zonas de ac-
tividade (ver por exemplo o papel que as modas e as preferências podem ter na pró-
pria actividade científica) – ganhou um peso acrescido. Assim, os media podem pro-
ceder a uma distribuição social do conhecimento, proporcionando informação dife-
renciada que altera os respectivos sistemas de relevância. [...] As escolhas que os
media fizerem será, deste modo, decisiva para a construção do sistema de relevân-
cias temáticas do homem médio” (p. 31-32).

Finalmente há uma última pergunta que deve ser feita em função da mediação exercida
por Playboy no sentido de um projeto de vida para o homem. No seu primeiro editorial Hugh
Heffner inaugura a masculinidade pornotópica afirmando, articulando as formas simbólicas
que “fazem justiça” ao fazer masculino. E com apelo aos potenciais privilégios da masculini-
dade, afirma “Então Playboy é para você”. Paradoxalmente, a afirmação de Hefner é ao
mesmo tempo interrogação.
Tendo nas cartas o produto do que pode ser a masculinidade – e dado que esse poder
ser é bombardeado com as histórias que ficam aquém da possibilidade, só podemos nos com-
prometer com o desafio posto por Barbero – não reduzir sua história a discurso, mas ler o dis-
125

curso como acontecimento do poder. E nesse sentido, é importante lembrar que se o narrado é
potencialmente masculino, da mesma forma, o é aquilo que não está dito.
Uma última análise que consiste em pôr o que fala no discurso contra o que se diz. O
que nele fala – isto é, os conflitos sociais, políticos, econômicos, libidinais – contra
o que se diz [...]. Opor o que fala o discurso da massmidiação ao que se diz é desco-
brir o que ele censura e nega, que o impede de nomear, mas contra o qual não existe
mais remédio de que a ação (2004, p. 67, grifo do autor).

Por uma masculinidade precária


Rubem Fonseca publicou em 1998, em livro homônimo, o conto A confraria dos es-
padas, em que relata a constituição de um coletivo que não tem a ver com a adoração ao vi-
nho (talvez a Baco e seus excessos), mas à fidelidade quanto a um certo comportamento dito
do sexo masculino. Neste conto, vemos a literatura, mais uma vez, flertar com a realidade,
colocando diante dos nossos olhos aquela que certamente é a imagem dominante do ser e fa-
zer do homem e de sua masculinidade, expressões desta posição social que estão apenas im-
plícitas no cotidiano de uma forma falsamente definitiva, mas que por meio de um contrato
social define uma norma e uma distância. Assim, o coletivo do conto de Fonseca precisa de
“título e objetivos dignos”, claros, que não sucumbam à crise, a desgraça ou ao desuso. Para o
título respeitável, espada simboliza um estilo de vida nobre e distinto, por assim dizer, o poder
de proteção e submissão do outro, além de remeter paralelamente ao pênis mistificado, duro e
decidido.
NA confraria dos espadas é possível perceber o retrato social de uma masculinidade
que se define pela adoração às mulheres, ao desejo heterossexual, ao desfrute, mas também ao
controle – expectativas que se impõem ao exercício masculino. O objetivo dos companheiros
é se enveredar pelas delícias do orgasmo sem ejaculação, o desenvolvimento de um sexo um
tanto quanto esotérico, somente possível por meio do conhecimento do corpo e controle do
gozo. Tal controle implica um prazer estendido. Se no horizonte deste exercício dos espadas
for possível alcançar um gozo permanente por meio do orgasmo dominado, então o sexo exis-
tirá para além dos limites de um tempo de sexo trivial, sem no entanto deixar de integrar uma
economia da sexualidade. Assim, uma masculinidade que se orienta pelo exercício sexual
permanente e sem falha será, da mesma forma, permanente e sem falha.
Deixando em suspenso o questionamento sobre a forma como a confraria encara a
produção de seus prazeres, importa questionar tal produção da masculinidade. Como vimos,
ser homem, mais que um modelo ontológico, é um exercício, um crédito ao respeito à norma;
126

e a masculinidade, por sua vez, é um processo a ser sempre falsificado, processo interminável
no decorrer da vida de um indivíduo do sexo masculino, podendo ser outorgada ou refutada
socialmente. Interessa olhar para tal gozo sem ejaculação apenas como estratégia mantenedo-
ra da condição masculina.

Por que enunciar a precariedade viável e necessária de um conhecimento que regula


transversalmente as relações de gênero, se impõe no âmbito institucional e determina ao indi-
víduo do sexo masculino rigor e disciplina peculiares? Exatamente porque no fazer desta
masculinidade há aqueles indivíduos que não se enquadram fielmente e, como consequência,
sofrem sanções implícitas e explícitas, quanto à forma como lida com a sua biografia. Por
outro lado, conforme PLAYBOY RESPONDE, não corresponder ao ideal não significa ne-
cessariamente não pactuar com o seu projeto; e é neste ponto em que a masculinidade assenta
um mecanismo sofisticado de reprodução. A este respeito, apesar de ter sido possível perceber
que todos os problemas que nascem das cartas são orientados por um conhecimento hegemô-
nico, podemos ao mesmo tempo ver um esforço destes homens em corresponder à masculini-
dade, a busca por uma resposta que confirme seu emparelhamento com a norma, ou, em caso
negativo, encontrar as alternativas para correção.
Embora estudos etnográficos mostrem que em grande parte das sociedades (das mais
elementares às mais sofisticadas) há uma divisão sexual que produz uma hierarquia entre seus
integrantes, ao mesmo tempo mostram que a masculinidade é um ideal de difícil acesso. “As-
sim, para todo homem de verdade existem muitos que não poderão sê-lo. Para todo macho
existe uma bicha; para o bem sucedido há o fracassado; diante do forte se coloca um fraco”
(NOLASCO, 2001, p. 84).
Esta precariedade se desenvolve por meio de uma vida informada – quer dizer, os su-
jeitos estão implicados em certas dinâmicas culturais cujas expectativas sobre suas vidas se
impõem desde cedo – e também porque a masculinidade é, como conhecimento, fortemente
relacional, sendo constituída por meio de um mapa de diferenças.
Em termos mais concretos a aquisição de masculinidade hegemônica (e da maior
parte daquelas subordinadas) é um processo pelo qual os homens devem suprimir
uma gama de emoções, necessidades e possibilidades, como criação, receptividade,
empatia, e compaixão, que são experimentadas como inconsistentes com o poder
masculino. Estas emoções e necessidades não desaparecem; simplesmente são sus-
pensas ou impedidas de aparecer como característica em nossas vidas. Suprimimos
tais habilidades e emoções porque elas podem restringir nossa capacidade e desejo
de controle próprio ou dominar os outros a quem dependemos do amor e amizade.
127

Suprimimos porque elas vêm associadas com a feminilidade que temos rejeitado
como parte de nossa busca pela masculinidade38 (KAUFMAN, 1999b, p. 65, tradu-
ção nossa).

Assim, a questão do masculino não se resume a um ser, senão a um fazer e parecer masculi-
nos, porque os pares são informantes necessários para falar em masculinidade, para apontar
falhas, para prescrever fórmulas, para desenvolver todo um processo formativo.
Nesse sentido, não podemos deixar de observar que ao mesmo tempo em que uma
masculinidade hegemônica outorga um dado status ao sujeito, ela também requer dele disci-
plina e policiamento incessantes. Kaufman vai observar neste desdobramento um paradoxo do
poder investido nos homens, pois as formas que constituem poder masculino também impli-
cam em isolamento. Na mesma direção, Nolasco questiona por quê em diferentes culturas
“para adquirir a masculinidade ‘oficial’ o sujeito necessita de esforço, investimento e de pas-
sar por vários desafios?” (2001, p. 96).
O maior paradoxo da biografia masculina é o fato de sempre ser menos uma proprie-
dade do que uma aspiração, jornada que nunca se confirma totalmente, mas também não per-
mite descanso no exercício social. O indivíduo é tanto mais homem quanto mais reivindica
para si as atribuições do masculino e tem o poder de convencer sobre a conquista de tais e
quais atributos. E ao mesmo tempo, nenhum homem é depositário do poder que enuncia sua
própria masculinidade; quando muito, faz parte de uma sociedade que reconhece a masculini-
dade (do outro), um corpo simbólico que só pode ser concedido e refutado. A masculinidade
não apenas produz a atitude masculina, mas “provoca sua própria verificação e faz acontecer
o que ela prognostica” (BOURDIEU, 2009, p. 44).
Diferente da feminilidade, que é instituída como domínio do flexível – embora de mo-
do pejorativo, a masculinidade é um conhecimento hostil e rígido em seus princípios, pouco
tolerante com o comportamento diferente. Embora seja inevitável uma transformação na for-
ma como encaramos a vida masculina – em função de uma era contemporânea sem lógicas
centralizadas – este exercício ainda não está absolutamente desprendido de seus laços com as
tradições e com uma memória coletiva de privilégios, que faz acreditar em um estado de
comportamento necessário e definitivo.

38
No original: “In more concrete terms the acquisition of hegemonic (and most subordinate) masculinities is a
process through which men come to suppress a range of emotions, needs, and possibilities, such as nurturing,
receptivity, empathy, and compassion, which are experienced as inconsistent with the power of manhood. These
emotions and needs don’t disappear; they are simply held in check or not allowed to play as full a role in our
lives as would be healthy for ourselves and those around us. We dampen these abilities and emotions because
they might restrict our capacity and desire to control ourselves or dominate the human beings around us upon
whom we depend for love and friendship. We suppress them because they come to be associated with the femi-
ninity we have rejected as part of our quest for masculinity”.
128

Assim, vemos em PLAYBOY RESPONDE como são expostas angústias de experiên-


cia masculina, com tentativas de posicionamento como homens contemporâneos, mas reivin-
dicando o elemento memorial que conduz à masculinidade por um delírio de libido ou de im-
portância. A este respeito, há uma última carta que é exemplar sobre dois aspectos fundamen-
tais deste projeto: uma projeção dominante do playboy, por um lado, e a precariedade viável
para a masculinidade, por outro.
Transo com duas filiais e a matriz mais de dez anos e tenho pique para as três. São,
em média, oito relações por semana sem estimulantes, remédios ou chás. Sou aman-
te de esportes e não fumo. Só bebo vinhos e destilados, faço academia às cinco horas
da manhã e jogo futebol de salão duas vezes por semana. Tenho 49 anos e minha
dúvida é: sou um homem normal ou estou muito acima da média? (PLAYBOY,
2007b, p. 50).

Interessa aqui o retrato de masculinidade que está desenhado: sexualmente ativo, esse leitor
tem disponibilidade, energia e potência para uma variedade de parceiras sexuais. Aos 49 anos
ainda é jovem e o sexo é frequente. Sua libido não é farmacologicamente otimizada, nem seu
corpo é intensamente abusado pelo uso de álcool; ao contrário, é mantido ativo por meio de
exercícios físicos. O que pode parecer arrogante ou divertido, pode também ser lido de uma
terceira maneira: esta é a carta de um potencial homem-modelo que executa exatamente aqui-
lo que na revista se produz sobre a experiência masculina (aquilo que é proposto aos outros
leitores).
Mas, lembrando que a masculinidade é uma posição negociada e negociável, só pode-
mos entender a pergunta central deste leitor – “sou um homem normal ou estou muito acima
da média?” – porque sua resposta só é possível por uma posição de alteridade. Em parte, ele já
antecipa um veredicto, baseado nas suas suposições do julgo do outro. Onde pode estar o pro-
blema, então? Exatamente porque, contraditoriamente, também na realização do ideal sua
masculinidade é questionada:
Senhor Perfeito, você já parou para pensar se é realmente feliz? De acordo com o
urologista --, a necessidade de contar para todo mundo as tantas façanhas sexuais
com parceiras diferentes é comum em pessoas que despejam no sexo (e no esporte)
toda sua insegurança. Será esse o seu caso? (2007b, p. 50).

Ou seja, quando consegue afirmar todas as “qualidades” esperadas, ele é inseguro. Mais uma
prova de como a masculinidade implica uma insuficiência – e não porque o sujeito deixa de
ser masculino, mas porque tal insuficiência é o que o mantém em exercício.
Por isso convém marcar a masculinidade como um operador de cultura que intenta co-
lonizar não apenas o outro (sempre um sujeito diferente do homem médio heterossexual), mas
que domina em primeira instância o próprio sujeito privilegiado de sua experiência. A princí-
pio, é evidente a dominação do pensamento masculino e heterossexual em relação às mulhe-
129

res – dominação cuja existência os movimentos sociais têm combatido. Mas é importante per-
ceber que, por meio da mesma violência simbólica, a dominação masculina institui um habi-
tus das relações gênero e impõe sua agenda sobre os indivíduos do sexo masculino – domina-
ção que, ao seu termo, é especialmente perigosa, pois se efetua de modo soturno, conseguindo
fazer crer que os homens são apenas opressores, mas não sofrem efeitos do mesmo regime.
O sucesso deste tipo de dominação está em se tornar perene sem levantar suspeitas que
o homem é o primeiro dominado deste ideal, pois sem o retrato do “verdadeiro homem” não
há exemplo zero para defender e diferenciar. Como Pierre Bourdieu comenta, “a visão andro-
cêntrica é assim legitimada pelas próprias práticas que ela determina” (2009, p. 44). Quer di-
zer, as formas de construção do masculino são produtos da própria dominação que lhe dá ori-
gem e “quando seus pensamentos e suas percepções são estruturados em conformidade com
as estruturas mesmas da relação de dominação que lhes é imposta, seus atos de conhecimento
são, inevitavelmente, atos de reconhecimento, de submissão” (p. 22).
Sem pretender com isso construir um discurso de vitimização, o fato de a masculini-
dade ser reconhecida por homens e mulheres como conhecimento imanente no nosso trato
social, produz uma forma de violência simbólica, que
se institui por intermédio da adesão que o dominado não pode deixar de conceder ao
dominante (e, portanto, à dominação) quando ele não dispõe, para pensá-la e para se
pensar, ou melhor, para pensar sua relação com ele, mais que de instrumentos de co-
nhecimento que ambos têm em comum e que, não sendo mais que a forma incorpo-
rada da relação de dominação fazem esta serem vista como natural (BOURDIEU,
2009, p. 47).

É importante dar atenção ao fato do apagamento deste tipo de violência, já que a des-
peito das defesas por possíveis e novas biografias masculinas – não mandatárias – continua-
mos a testemunhar sujeitos que sofrem a aparente precarização de sua masculinidade e ainda
recorrem ao ideal hegemônico que lhes desprestigia e estigmatiza. Desde esta observação,
voltemos a Barbero (2004) para questionar que, se há cumplicidade na relação de dominação,
“quais são as contradições postas em jogo para que a dominação seja também atividade e não
só passividade resignada do dominado?” (p. 112). Ou melhor, o que há de “sedutor” na domi-
nação masculina?
Na tentativa de resposta, devemos inicialmente voltar ao fato de que a vida social é
possível a partir de uma linguagem comum, uma forma de coalizão que permita a comunica-
ção. Esse é o papel da cultura. Masculinidade, por seu turno, e como defendemos, articula o
socius, faz organizar os corpos, ensaia reconhecimentos. Se estes homens ainda escrevem para
Playboy buscando corrigir falhas ou informar melhor seu exercício de masculinidade, isso
ocorre porque o modo aprendido de se fazer masculino é aquele de um ideal unitário. Se a
130

única forma conhecida de biografia masculina é a do músculo, a da potência, da libido e do


desempenho, então pode-se compreender que estes homens tentem alcançar este modelo.
Com isso, voltamos a marcar que os homens reproduzem as formas hegemônicas de
reconhecimento masculino não porque elas sejam imanentes, mas porque elas fazem parte da
sua formação cultural. Deve ser salientado, ao mesmo tempo, que, culturalmente, como sujei-
to depositário dos poderes do patriarcado, os homens gozam de certos privilégios, que ao pro-
duzir poder e distinção implicam numa percepção de direitos exclusivos, mesmo quando de
forma não reflexiva.
A partir deste modo de vida, conhecemos nossa experiência de poder como uma ca-
pacidade de exercício de controle. Os homens aprendem a aceitar e exercer poder
desta maneira porque nos permite privilégios e vantagens que as mulheres ou as cri-
anças geralmente não compartilham ou, simplesmente, porque é uma ferramenta
disponível que nos permite sentir capazes e potentes39 (KAUFMAN, 1999b, p. 63,
tradução nossa).

As masculinidades como conhecimento social investido de gênero não se desvinculam do


poder; ao contrário, produzem-se e produzem-no. Se o modo de vida hegemônico, além de ser
apreendido como efeito da educação, cria privilégios e juízos morais a favor dos homens, há
aí mais um laço que pesa para a manutenção de certas práticas. É sempre importante lembrar,
no entanto, que este exercício se opera não de forma crítica, quer dizer consciente, mas por
meio de uma vida informada.
Mas não é apenas a possibilidade de poder no meio social que faz uma masculinidade
atraente. Nesse sentido, um fato a ser observado é que, certas faltas à norma produzem uma
violência mais clara: a estigmatização, que é, “na realidade, um tipo especial de relação entre
atributo e estereotipo” (GOFFMAN, 1988, p. 13). Uma noção de normalidade também é he-
gemônica, no sentido de que todos estes sujeitos que falham, que são anormalizados, são in-
formados com apenas uma possibilidade de experiência, uma perspectiva de moralidade. O
sofrimento em relação ao descrédito dos pares experimentado pelos sujeitos estigmatizados
opera a busca por correção – melhor, pelo sentimento de semelhança e aceitação.
Kaufman compartilha desta posição: não apenas um desejo pelo exercício de poder,
mas um sistema “prejudicial” impele os homens para reproduzir modos de vida culturalmente
hegemônicos. Ou seja, esta masculinidade não é só uma forma de experiência de poder, mas
também fonte de receio e sofrimento: receio da falha, receio do nível de correspondência.

39
No original: “Born into such a life, we learn to experience our power as a capacity to exercise control. Men
learn to accept and exercise power this way because it gives us privileges and advantages that women or children
do not usually enjoy or, simply, because it is an available tool that allows us to feel capable and strong”.
131

A dor inspira medo pelo que significa não ser homem, quer dizer, numa sociedade
que confunde gênero e sexo, não ser masculino. Isso significa a perda de poder e o
deslocamento de nossas personalidades. Esse medo pode ser autonegado como in-
consistente com as masculinidades dominantes40 (KAUFMAN, 1999b, p. 66, tradu-
ção nossa).

Com um quadro como este, convém observar como uma forma hegemônica de ser
homem implica um projeto de tornar o sujeito dócil – o que, contraditoriamente, implica a
criação de um projeto de vida independente, potente e agressivo. Os meios de alcançar a con-
dição masculina não são possíveis, senão (sub-repticiamente) mandatários. Como Foucault
lembra, é uma forma de microfísica do poder – neste caso da masculinidade. “Essa tecnologia
é difusa, claro, raramente formulada em discursos contínuos e sistemáticos; compõe-se muitas
vezes de peças ou de pedaços, utiliza um material e processos sem relação entre si” (2009, p.
23).
Com Playboy, percebemos que as formas de produção de masculinidade, efetivamen-
te, não produzem o homem ideal, senão seu projeto. Quer dizer, a forma como a vida mascu-
lina é informada, os rituais aos quais os sujeitos masculinos devem ser integrados, as práticas
que são esperadas e avaliadas pelo corpo social, são todas elas formas de produção de mascu-
linidade, embora nenhuma tenha prerrogativa permanente de outorga. Assim, a masculinidade
rege a vidas destes homens como projeto a ser continuamente realizado – e eles, por seu lado,
se envolvem na sua realização. Mas, notoriamente, os resultados conquistados não são sufici-
entes.
E, estando sempre no horizonte, a masculinidade opera um mecanismo de aspiração
que é retroalimentado: quanto mais se falha neste exercício, mais há trabalho de produção;
quanto mais se corresponde, mais há trabalho de manutenção. Aspiração, portanto, porque se
pretende não somente se afirmar como um “homem de verdade”, mas conseguir ser reconhe-
cido como tal.
Situando a masculinidade como um conhecimento que exerce sua dominação sobre
todos, não significa posicionar os homens exclusivamente como vítimas de suas próprias a-
ções, nem isentá-los dos efeitos e responsabilidades das suas atitudes – isentar as violências,
físicas e/ou simbólicas, frutos de suas ações. A submissão das mulheres, o prejuízo sobre o
desejo homossexual, a agressividade contra certas dinâmicas homossociais são fenômenos
reais e deixam suas marcas, não são eventualidades de uma forma de dominação corrente.

40
No original: “Whatever it is, the pain inspires fear for it means not being a man, which means, in a society that
confuses gender and sex, not being a male. This means losing power and ungluing basic building blocks of our
personalities. This fear must be suppressed for it itself is inconsistent with dominant masculinities”.
132

Mas importa fazer observar que, por exemplo, os leitores de Playboy são também influencia-
dos por um agente cultural que sedimenta um projeto inexequível, sofrendo eles mesmos os
efeitos do projeto que defendem. Ou seja, como habitus, a masculinidade não apenas se a-
prende ou adquire, mas se reproduz.
Resta perguntar, então, o que há de hegemônico em uma masculinidade que não pode
ser plenamente correspondida? Melhor, existe o homem modelo desta masculinidade hege-
mônica? Partindo das cartas dos leitores de Playboy podemos testemunhar o sistema simbóli-
co que institui um modo ideal de masculinidade e, simultaneamente, sua derrocada: um desejo
de sexo diferente, mas angustiado com a disfunção erétil; uma juventude sexualizada, mas
marcada pela inexperiência técnica; uma disponibilidade sexual, mas que recorre à farmaco-
logia; uma heterossexualidade “assumida”, mas um prazer anal misterioso; uma segurança de
si que esbarra no gosto “duvidoso”; um corpo que não se satisfaz se não é muscular; um pênis
que não se qualifica senão em oposição ao outro.
Se há uma comunicação que institui a vida comum e há contingências e contradições
que ainda reproduzem no corpo social uma masculinidade precária, então devemos aspirar
uma posição mais ativa de um sujeito que reconheça o seu exercício de masculinidade como
alternativa para vida masculina e não como submissão necessária às expectativas. Porque se
há cumplicidade na dominação, “a libertação é problema do oprimido, que é nele que se en-
contram as chaves de sua dominação” (BARBERO, 2004, p. 112).
Talvez o grande problema da masculinidade seja o fato de que neste ideal não há al-
ternativas à norma, apenas desvios. E, nesse sentido, ser homem seria sempre reivindicar uma
forma precária de biografia, pois qualquer passo falso é uma fratura. Sem uma proposta de
biografia masculina mais arrojada, que possa ser exercida sem constrangimentos, a sociedade
continua a reafirmar virilidade em indivíduos que só podem tentar se alinhar com as posições
inteligíveis – e até que eles sejam questionados. Até lá, A Confraria dos Espadas só poderá
confirmar o desfecho imaginado por Rubem Fonseca: desestabilizados diante de novas opor-
tunidades de experimentar a si mesmos e ao seu o prazer, questionados porque eles são “dife-
rentes, estranhos, capazes de gozar com infinita energia sem derramamento de sêmen”.
133

Considerações finais
As lentes

O “olho” é um produto da história reproduzido pela educação.


Pierre Bourdieu, A Distinção
134

As produções de masculinidade ocupam, necessariamente, espaços diversos, embora


recorram a instrumentais comuns como forma de acessibilidade cultural. Observada a partir
das cartas do leitor de Playboy e publicadas mensalmente no produto final, a masculinidade é,
com efeito, um terreno de comunicação em seu sentido lato. Quer dizer, as narrativas postas
em operação tanto pela revista como pelo leitor tornam comum um ideal masculino, se conec-
tam por efeito de falar de algo semelhante, a partir de arranjos sociais sedimentados histori-
camente e, portanto, hegemônicos.
Estas narrativas, como vimos, falam de um modo de vida que é masculina na medida
de seu conhecimento e experiência a respeito do sexo. Podemos afirmar, para efeito do que
lemos na revista, que masculinidade equivale a um exercício regulado de sexualidade. Mas a
revista em si é uma ferramenta interessada; fala de um tipo de masculinidade que se quer fa-
zer modalidade única e normativa. Os leitores têm acesso a um sistema simbólico que em
nada difere da rede pedagógica construída, por exemplo, nas revistas femininas. E quanto
mais mergulhado neste sistema, maior poder é produzido na sustentação da estratégia comu-
nicativa – tornar comum uma vida masculina – e também da estratégia econômica – produzir
um mercado de troca simbólica (incluindo bens simbólicos e materiais) e privilégios de dis-
tinção.
É importante lembrar que o consumo do produto de mídia produz uma percepção de
identidade como efeito destas estratégias. O produto (a revista) desenvolve intencionalmente
linguagem e sistema de trocas para aproximar e produzir reconhecimento. Nesse sentido, ao
trabalhar com Playboy, é necessário levar em conta que há um dado mítico sobre a revista: ao
longo de sua história brasileira, conquistou identidade com a própria posição de ser homem.
Nesse caso, devemos apontar que não apenas o leitor estrito – aquele que tem assinatura,
compra nas bancas ou por algum meio de acesso lê seu conteúdo além da fotografia – está
implicado numa produção cultural que coloca a revista como exercício equivalente de mascu-
linidade. A esse respeito, vemos que a própria revista está assentada no esforço de se manter
como sinônimo de acesso à vida masculina:
Eis nossos interessadíssimos conselhos:
 Reforce que, mais do que ver mulheres peladas, você está interessado no conte-
údo da revista. Afirme que um homem precisa estar bem informado e, caso não
leia as entrevistas de Playboy, fará feio no trabalho. Para ser mais convincente,
diga que o presidente Lula, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e o Be-
atle John Lennon não teriam entrevistas para a revista caso ela não fosse, de fa-
to, imprescindível.
 Explique que a Playboy celebra a beleza feminina, e o seu interesse em ver as
mulheres desnudas só mostra o quanto você admira figuras como ela, a sua na-
morada.
 Depois disso, --, tenha noção. Ao ler a revista perto dela, evite ficar horas ba-
lançando diante do pôster central. Jamais faça comentários como “Que gosto-
135

sa!” ou observações do tipo “A luz do ensaio é incrível”. Se tiver de comentar


algo, fale das reportagens.
 Também não cometa o absurdo de dizer que as mulheres da revista são feias e
que nenhuma delas chega aos pés da sua namorada. Em vez de lisonjeada, a
moça vai achar que você a está fazendo de trouxa. (2008k, p. 38, grifo nosso).

Esse tipo de esforço é sempre parcial, sobretudo considerando que elegemos filiações infini-
tas. Se, por um lado, o ser homem proposto pela revista implica no regime heterossexual, por
exemplo, podemos argumentar, por efeito da análise das cartas de PLAYBOY RESPONDE,
que a experiência desse regime é deglutida de modos diferentes.
O modelo hegemônico realizado no mundo ocidental, e que opera nestas cartas, se
define por um modo e expectativa de vida em que a inteligibilidade de gênero é coerente – o
sujeito é homem, masculino e heterossexual exclusivo; assume o projeto de ser provedor, pro-
tetor e potente como único meio possível de aparecer social; se beneficia dos proventos de um
patriarcado que está, inclusive, impregnado nas instituições sociais, legislação, costumes, a-
lém das organizações privadas; e realiza o projeto de desempenho (comportamental, profis-
sional, sexual etc.) a contento. Mas esse modelo é sofrivelmente correspondido pelos sujeitos,
como vimos. É certo que nenhum sujeito deixa de ser homem na falta e na falha; no entanto, é
exatamente por efeito da falta e da falha que se produz um sistema hierárquico masculino.
É nesse sentido que podemos e devemos nos questionar por que seria inviável uma
masculinidade assexuada ou um homem não viril ou um heterossexual andrógino ou uma
masculinidade bissexual ou uma mulher masculinizada etc? O fato que viemos defendendo é
que estas formas de produzir masculinidade podem ser tão comuns quanto o projeto hegemô-
nico; no entanto, causam estranhamento, quando não são largamente rechaçadas. Se propo-
mos uma forma subalterna de encarar a masculinidade – como produto e criatividade históri-
ca, como experiência e possibilidade de construção de modos de vida – não é com vista a jus-
tificar as faltas cometidas dentro de um projeto de reconhecimento masculino, mas, ao contrá-
rio, para defender o sujeito ante este tipo de tipo de dominação, valorizar a perspectiva da
experiência e liberdade de articulação do sujeito com o mundo. Dizer que os modos de viver a
masculinidade como unidade opera certas violências contra o próprio sujeito, implica reforçar
o caráter narrativo do ideal de masculinidade e que, uma vez questionada a rigidez da norma,
observar modos marginais de se fazer masculino não implica em modos de vida prejudiciais,
nem mesmo especialmente desprivilegiados. O privilégio, com efeito, habita o cerne da norma
– posto de outro modo, sugere um crédito à constituição e reprodução dos corpos e compor-
tamentos dóceis.
136

No entanto, não implica propor necessariamente – embora sem esquivar a possibilida-


de contrária aos sujeitos que assim poderiam preferir – capitular da masculinidade, mas, sim,
apoiar e respeitar outras possibilidades menos prejudiciais de ser homem. E mais: criar espaço
para reflexão sobre possíveis masculinidades contra-hegemônicas. Afinal, é importante obser-
var que “se a realidade é como é não é porque tem ser assim – porque dispõe de uma qualquer
propriedade ontológica, como diriam os filósofos, mas sim graças a um consenso que se esta-
belece na vida quotidiana” (CORREIA, 2002, p. 46). Em termos de consenso, precisamos
chegar a um estágio de debate em que seja possível falar em masculino de forma plural e de
maneira efetiva – não como recurso de cortesia.
Como a cultura é e deve ser dinâmica, o perigo na reificação dos conhecimentos cons-
truídos coletivamente é, portanto, “a tendência a objectificar o que é dinâmico”. Reificação
“consiste em atribuir ilegitimamente uma facticidade, uma fixidez, uma externalidade, uma
objectividade, uma impersonalidade, uma naturalidade, em suma, uma ‘coisidade’ ontológica
julgada inapropriada a certos elementos da experiência” (p. 47). Ou seja, o repertório cultural
cristalizado no conhecimento da masculinidade como mecanismo de comunicação se trans-
forma também em regulação da experiência.
Fugir desta armadilha de reificação em uma era de trânsito significa trazer as subjeti-
vidades produzidas por homens para o conjunto de questionamentos nos estudos de gênero e
também criticar um aparato institucional que é expectativa de um dado produto de masculini-
dade. Para além disso, devemos também nos perguntar quem pode ter masculinidade? Essa
questão parece fundamental, considerando que em uma sociedade normativa, masculinidade
não é produto apenas dos homens, mas conhecimento que atravessa nossa sociabilidade, pro-
duzindo expectativa, exercício, permissão e reconhecimento. Quem pode produzir masculini-
dade a partir de uma vida coletiva em que o homem deve ser educado pela mãe? Quem pode
produzir masculinidade em um jogo de pares? Quem pode ter masculinidade quando a expec-
tativa da propriedade não pode ser verificada?
A questão aqui, e isso importa estar claro, não é vitimizar gratuitamente aqueles que
produzem masculinidade conforme a norma que lhes orienta, mas, exatamente, observar que
dentro desta norma tal sujeito é um dominado invisível – inclusive aos seus olhos. O proble-
ma da norma não está tanto em produzir um esquema de exercício e reconhecimento, mas o
fato de ser exclusiva e produzir, também, estigma e constrangimento. Os leitores de Playboy
dificilmente percebem-se como subordinados a um sistema de dominação, mas também não
conseguem perceber que a propriedade do pênis menos avantajado não os faria, necessaria-
mente, piores homens. Nesse caso, se falamos em precariedade, convém sempre lembrar que a
137

revista assume os mecanismos de manutenção dessa precariedade. Com efeito, uma aborda-
gem bastante rica para novas análises com base neste tipo de produção seria observar o rastro
significativo naquilo que o editorial deixa de publicar.
Se encararmos masculinidade como narrativa, podemos então questionar seus modos
de produção e seus resultados e as consequências das ações produzidas em seu nome. Com a
contemporaneidade e as transformações qualitativas nas vidas dos homens, nos contatos soci-
ais, nos gostos e vaidades, parece que é tempo de produzir novas lentes para leitura do mundo,
sem implicar no desprivilegio deste ou daquele sujeito. Tais lentes devem ser as novas tecno-
logias de educação, operando onde o vício do olho ocidental convencionou dizer que para ser
homem é preciso endurecer.
138

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