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UNIVERSIDADE DE PERNAMBUCO – UPE

CAMPUS SALGUEIRO

BACHARELADO EM ADMINISTRAÇÃO
FILOSOFIA E ÉTICA
1º PERÍODO

MATERIAL COMPLEMENTAR

FILOSOFIA

PROF.º MS. ADRIANO FÁBIO

SALGUEIRO
2013.1
Sumário

Fundamentos da Verdade ............................................................. 03


Filosofia & Psicologia..................................................................... 10
Filosofia & Ciência ......................................................................... 19
Filosofia & Ética ............................................................................. 31
Filosofia & Ser Humano ................................................................. 40
Ecologia Antropocêntrica ............................................................... 47
Conclusão ..................................................................................... 51
Glossário ....................................................................................... 56
FUNDAMENTOS DA VERDADE
 
Introdução

A Filosofia se move com base em certezas externas e tende a encontrar o


que se oculta por trás das aparências e da natureza concreta. O ponto inicial do
conhecimento é a matéria, o fato, e, a seguir, a mente se move em busca da origem
próxima e última dos fenômenos conhecidos e analisados.

Com o fato da globalização, as culturas construídas nos vários pontos do


planeta se aproximaram e os instrumentos da mídia começaram a revelar contrastes
entre elas, tornando possível verificar o relativismo de valores de tais culturas e até
mesmo das crenças ou convicções que se reputavam absolutas e intocáveis.

A relativização de valores deu espaço para uma liberdade individual de emitir


opiniões sem que se verifique se estas prestam ou não um serviço de utilidade à vida
humana. Mediante opiniões individuais será difícil, ou até impossível, construir um
diálogo que leve a uma uniformidade cultural e a uma estruturação social satisfatória
para viver.

A divergência das opiniões individuais não torna possível a convergência


intelectual, pois um critério de valor convencional desmorona nas aplicações quando
se pretende humanizar. Hoje, constata-se que o volume de leis baseadas em acordos
tende a paralisar a eficiência dos melhores e tapar furos de uma sociedade em
convulsão que se assemelha a uma represa que tende a se romper. O único valor que
torna possível a concordância é o homem.

Toda e qualquer estrutura e toda e qualquer ordem necessita estar centrada


no homem e, portanto, deve apoiar-se e respeitar o humanismo. Para isso, não é
suficiente apoiar-se no homem desta ou daquela civilização, mas necessitamos
entender o homem segundo a ordem da própria natureza, temos que encontrar
o homem filosoficamente essencial.

Faz-se necessário formalizar a identidade homem, o homem tal como


a natureza projetou; aquele homem que se antecipa ao superego, ao uso da língua,
que é anterior às memórias fixadas e aos complexos estruturados. Não podemos partir
daquele homem que se reduziu às influências histórico-culturais.

Por humano temos que entender aquela realidade radical que é seu ser, a
forma humana original que corresponde a um valor presente dentro do homem e que
apela por sua realização. Para construir um diálogo é necessário que os pólos do
diálogo tenham um ponto de referência comum e uniforme e que ambas as partes
respeitem e não lesionem tal valor. Esse valor, sendo idêntico em ambos, viabiliza a
convergência dialética das posições.

A tarefa básica da Filosofia Elementar é encontrar o modo de ser humano


para recolocar a consciência humana em contato com esse valor que corresponde à
vida, na qual é inerente um intelecto específico que decifra o que é útil e funcional para
toda a espécie e para construir o valor da identidade humana.
“Homem, conhece-te a ti mesmo” torna-se o caminho de solução para
formalizar uma nova ordem social que sustente a saúde, aponte coordenadas para o
crescimento, viabilize o convívio humano e dê espaço para o homem criativo e
intuitivo. Esse seria o saber a serviço do ser.

O Critério da Verdade

A Filosofia, considerada no passado a base para construir o saber verdadeiro,


foi o primeiro curso exigido para criar uma universidade, a partir da abertura da
Universidade de Bolonha.

Quando as opiniões, mesmo as infundadas, começaram a prevalecer em base


à autoridade de alguns, a Filosofia passou a ser vista como um acessório dispensável
ou secundário. Hoje, qualquer estudante universitário, preocupado com a própria
profissão e emprego é levado a ver que com a Filosofia não se aprende a fazer nada,
enquanto que com a Engenharia se fazem estradas e edifícios, com a Farmácia se
fazem medicamentos para a saúde etc. Constata-se, portanto, que o valor tecnológico
adquiriu preeminência sobre o valor humano.

Como ponto de partida do raciocínio estudantil pode-se aceitar que “com


Filosofia nada se faz”, no entanto, é possível inverter a questão e perguntar-nos: a
Filosofia não poderá fazer algo conosco? Sob esse aspecto pode nascer outra versão,
visto que a Filosofia pode aprimorar nossa razão, purificar as aderências de
informação que poluem a mente, tornar nossa mente mais coerente com os valores da
vida, aperfeiçoar o discernimento para melhorar o convívio humano na sociedade,
saber diferenciar as opiniões avulsas e distônicas do saber adequado à identidade
humana, abrir a consciência para entender o homem em sua natureza original etc.

O homem evolui na tecnologia construindo a ciência do mundo externo,


baseado na visão (85%) e na audição (11%), mas descuidou-se do mundo-davida1.
Esse mundo, no entanto, usa o corpo todo, e não apenas sua periferia, como um livro
para dar seus depoimentos; o mundo-da-vida se expressa em emoções, em
sentimentos, em reações, em sonhos, em variações contínuas para revelar a
sabedoria da alma humana e não se limita ao uso de alguns sentidos externos
apenas. Para compreender a essência do humano temos que decifrar o código das
linguagens descritas em todo o organismo.

Observando os frutos colhidos pela evolução tecnológica vemos que as


culturas se aproximaram e criaram-se inúmeras noviades e facilidades, mas não
podemos concluir que as melhorias no sentido da humanização foram grandes. Vemos
que os homens continuam expondo conflitos, defendem idéias absolutas e em base a
elas ainda se faz a guerra, alimenta-se o racismo, as divergências de crenças e, por
fim, sempre se pretende que os outros estão errados e são culpados. Quando se
contraria a religião admitida como única, verdadeira e intocável se é visto como um
condenado. Podemos concluir que o homem se mostra desconhecido para si mesmo,
é agressivo, doente e culpado sem querer admitir. Os animais e as plantas, porém,
são coerentes com a ordem de suas vidas e o fazem sem consciência. O homem, ao
invés disso, é disperso, confuso e mau, conforme vários livros escritos (Hobbes
afirmou que o homem é lobo para outro homem). Todos os fenômenos acima descritos
levaram Freud à descoberta do inconsciente. Ele salientou que dentro do homem
existem forças que nos conduzem de forma obscura na vida, e essas forças
condicionam o ser humano a fixar-se em idéias absolutas, embora improváveis e, em
base a elas, construir lógica para justificar conflitos e alimentar doenças, que são
ofensas ao valor da vida humana. As influências externas que oprimem a vida passam
a ser armazenadas num arquivo de memória esquecida, mas que controlam e
prevalecem sobre a ordem da vida e obscurecem o discernimento da consciência na
seleção do que é apropriado à vida humana e do que é impróprio. Com base na
memória das culturas impostas como verdades únicas e acolhidas com convicção, o
homem forma uma consciência que não mais representa a ordem da vida, mas a
desordem social. Os esquemas de valores sociais deterioram o convívio e constroem
a massa despersonalizada. A agressão, em vez de limitar-se à defesa necessária
referente ao amor pelo próprio valor de vida pessoal, transformou-se na emanação da
própria desordem interior. O sujeito projeta sobre o outro o desprezo daquele valor
humano que, primeiro, ele ofendeu em si próprio.

A psicanálise alertou para as estruturas fixadas no inconsciente e que


desvirtuam os valores do humanismo, construindo nossos males. A existência desse
banco de dados interiorizados que controla de modo inadequado a consciência do
homem ficou confirmada mediante experimentos práticos através de imagens
projetadas nos olhos. Podemos concluir que a alteração humana é um fruto da história
e não de sua natureza.

Uma frase de Marx pode servir de confirmação do acima exposto porque afirma
que a consciência do homem é um fruto da sociedade onde vive: “Não é a consciência
dos homens que determina seu ser, é, pelo contrário, seu ser social que lhes
determina sua consciência”. Na verdade, o homem torna-se mais efeito de como a
sociedade o plasma do que fruto de sua natureza; de fato, o homem nasce em base à
realidade da própria natureza, mas é formado pela sociedade. Os adultos envolvem a
criança, interferindo com a palavra, com os gestos, com o pensamento, com a emoção
e a moral que aprenderam dos antepassados, sem lhe dar ocasião de aprender a
moral em base à própria experiência. Por conseqüência é sempre a opinião alheia que
clona ou plasma a forma de ser, de ver, de decidir e de agir. Com base neste modelo
aprendido, o indivíduo caminha pela vida e pelo mundo continuamente preocupado
em responder segundo a expectativa dos outros e, quando contesta, busca unir-se a
um grupo que o aprova. Os adultos transmitem às crianças os modos da própria
consciência, e é por isso que se torna indispensável provocar o restabelecimento de
contato com as normas e a forma da própria natureza. Esse é o único caminho para
levar o ser humano a rever o modelo social vigente e, ao entendê-lo, poder reconstruir
uma sociedade mais humana. Sem entender o humano em sua essência, essa tarefa
torna-se impossível.

O resgate da dimensão pessoal autêntica pode libertar da esquematização das


massas e poderá fazer nascer uma sociedade mais humanizada.

Se a nossa consciência não se abrir para decifrar todas as linguagens


organísmicas e deixar de limitar-se apenas ao uso da visão e da audição, instrumentos
quase unicamente usados para elaborar a ciência atual, o saber (com uso limitado de
nosso ser) jamais representará o verdadeiro potencial de nosso ser. Se o
conhecimento consciente for mero reflexo de alguns sentidos externos e o homem não
buscar conhecer a si mesmo, a chance de construir o projeto humano previsto pela
própria natureza não será alcançado; o que ocorrerá é que a Filosofia será o
conhecimento sem o qual o homem viverá mal.

A consciência, quando alienada do fundamento que a humaniza, emite


opiniões que não mais refletem os valores apropriados à vida humana. As opiniões
sempre tendem a emitir modelos fixos que levam à perda de discernimento entre o
certo e o errado nas escolhas funcionais para construir a própria identidade pessoal. A
consciência clonada segundo os estereótipos de uma sociedade provisória e
transeunte perde a capacidade de criar novos modelos funcionais para bem-viver. A
convivência está abalada e a consciência incapacitada de resolver os problemas que
sempre mais se agravam.

Nossa língua tem origem em duas línguas-mãe: o grego e o latim. O grego deu
origem à palavra filosofia. O significado do termo salienta melhor o amor (filein) pelo
verdadeiro saber (sofia). Nesse sentido, a Filosofia corresponde ao saber que
fundamenta todo o conhecimento humano.

O termo latino sapientia (sabedoria) equivale ao termo filosofia, porém o termo


sapientia sublinha em seu sentido que, o saber verdadeiro deve coincidir com a ação
do ser. O saber, para ser verdadeiro, necessita projetar o reflexo do ser humano em
sua forma autêntica: sapere (ter inteligência, saborear) + ens, entis (ser) + actio (ação)
= o filósofo ou sábio é aquele que, através da própria inteligência, sabe ou saboreia a
ação do próprio ser, a revelação de seu intelecto vital.

Enquanto o saber for carente do princípio (ser) que fundamente a atividade


cognoscitiva não se pode falar em conhecimento verdadeiro. É indispensável o nexo
da consciência com esse princípio que projeta a evidência e que sustenta e legitima
todo edifício do conhecimento construído pelo homem. Geralmente se parte do
testemunho de alguém ou de pontos em que a fundamentação é subentendida e que
foi dada no passado e não mais se apela pela capacidade de rever e reproduzir o
fundamento. Por causa dessa deficiência se recorre à convenção de “cientistas”, à
autoridade reputada ou constituída, ou senão, fundamenta-se o saber nos dados
estatísticos da consciência da massa, sem mais revisar o valor e a autenticidade de
tais testemunhos. Por outro lado, não se sabe as origens das próprias convicções e
nem tampouco se sabe justificálas, mas a elas sempre se recorre como sustentáculo
do saber, embora o eu convencido seja fictício e irreal. O eu do filósofo não pode
apoiar-se em convenções, em cifras, crenças e convicções pré-concebidas para não
projetar opiniões que revelem memorizações fixadas. O eu não pode ser medido por
uma memória baseada em pressupostos internos desprovidos de evidência intelectual
imediata.

O eu do filósofo é simplesmente o sujeito de seu intelecto, visto que este é o


reflexo de seu ser ou essência. O eu necessita manter-se como pólo de infinitas
aparições, variações, experiências novas e criações e não ser mero robô de
repetições e imitações.

O filósofo é aquele que se mantém centrado em si mesmo e, quando discorre,


projeta a transparência dos valores próprios de seu tipo de inteligência, que especifica
a forma ou a identidade humana. Em base a esta luz, sua mente não se perturba e
nem polui a consciência alheia com opiniões infundadas. Em suas análises, ele não
se deixa envolver em opiniões e sugestões alheias porque seu pensar necessita
nascer do critério do próprio ser, fundamento que ilumina o saber humano e
humanizador. O ser humano, em sua essência, é um intelecto perfeito, exato,
coincidente ao próprio ser de onde o saber se origina, e o primeiro efeito de tal saber
gera a certeza inconteste.

A Filosofia distingue-se da ideologia, pois esta apresenta um esquema já


definido, visto que a ideologia corresponde a um conjunto de opiniões fechadas,
projetadas por pensadores condicionados mediante situações existenciais e históricas.
Da ideologia fazem parte os modelos de pensamento que um determinado grupo
sublinhou por reputar a melhor idéia e o grupo se mantém coeso por adesão de
vínculo afetivo. A verdade ideológica exprime apenas um modo de pensar oficialmente
aceito por convenção, mas que ao ser relativizado à função vital, necessita ser
modificado, porque não confirmado.

A Filosofia Elementar ou Perene tem como tarefa primordial esclarecer o ser e


seus modos, porque o ser é o princípio que unifica o todo, é o que está por trás, é o
que sustenta e justifica qualquer conhecimento e qualquer modelo ou comportamento.
Sem ele, o valor do conhecimento se esvai, porque é dele que parte a luz que
discrimina e diferencia qualquer coisa.

Quando o filósofo quer saber o que é a verdade, ele necessita compreender o


próprio intelecto, auscultar o íntimo da própria alma, porque a verdade só é possível
ao homem segundo a proporção de seu próprio ser, segundo a proporção do intelecto
humano. O ponto de referência, em base ao qual se discrimina o verdadeiro do falso, é
o intelecto, porque só ele vê e lê o próprio ser ou o mover-se da própria alma que se
exprime na consciência ou no organismo o que o intelecto sabe. A verdade é a
adequação ao intelecto porque é ele, e não a consciência, a medida do ser. Só a
consciência exata ou coincidente à luz do intelecto e às linguagens organísmicas
representará o conhecimento verdadeiro ou científico. A consciência necessita tornar-
se coincidente com a real identidade do ser humano, porque se ela representar
apenas os valores interiorizados do contexto social, ela coage o ser humano a uma
adaptação, com prejuízo da evolução e realização.

Ao filósofo compete primeiramente intuir a identidade da própria mente,


entender e respeitar os princípios e modos como se move a própria mente para
construir o saber, elucidar e seguir as regras do raciocínio correto e manter-se em
nexo com a medida do ser refletido no intelecto. A Filosofia é simplesmente o amor
pelo saber que nasce das evidências e das máximas propostas pelo próprio ser e é
com base nisto que a Filosofia indica os fundamentos e o critério para o conhecimento
verdadeiro ou científico. Ciência é o saber conforme o ser. A Filosofia diz o que é e
porque é, o cientista dirá como é.

A Filosofia Elementar é a rainha do saber, visto ser ela que estabelece o


critério e as bases para fazer ciência segundo a medida e a forma humana. Todo e
qualquer conhecimento, comportamento, raciocínio ou lógica devem estar em nexo
com a forma que especifica o humano ou com sua essência, porque qualquer
Filosofia Elementar opinião avulsa do real, que é a natureza, perde o nexo com o
critério da verdade. O real é necessariamente correlato do real.

A essência ou natureza de um homem “é uma unidade de ação, com uma


inteligência formal que se especifica em um universo de vida4”4. O ser é um princípio
que atua a essência, é a raiz que estrutura tudo, mas que em si é como o silêncio
porque impossível de ser objetivado; é um significante que se oculta por trás de todo o
significado. O Ser em si é ato que propõe, no Em Si ôntico, o endereço para uma
missão. A essência é Em Si ôntico, a forma ou modo humano de ser, é aquilo que,
como causa primeira, sustenta a existência, é a unidade de ação que estrutura a
constituição existencial.
A existência é a expressão histórica. O ser, ao aparecer, é a essência e o
intelecto é o leitor que opera no interior da essência. Ele intui a ação do ser, vê o modo
de vida e o diferencia de todos os outros modos de vida, especifica a si mesmo e
discrimina o que lhe é próprio ou impróprio. O intelecto, como faculdade refletindo a
variação da própria alma, diz o que lhe é útil e o que é inútil ou inadequado, indica o
que serve para crescer e o que faz regredir, aponta o que confirma e nega o que lhe é
funcional e o que gera disfunção. O intelecto, sendo o leitor da própria essência, faz-se
de critério para discernir quais os valores a selecionar para construir a própria missão
histórica na existência. O homem, sendo um princípio formal inteligente, necessita
traduzir em ação a ordem do próprio ser essencial na história de sua existência. O
intelecto, lendo a variação íntima atuada pelo próprio ser, não propõe opiniões, mas
reflete o real, a identidade humana que, ao variar, sempre traduz de modo real o
apropriado e o impróprio para essa forma de vida.

A consciência e a razão são fenômenos. A consciência é a faculdade que


representa, fotografa e sintetiza. A percepção pode partir da informação sensorial, das
aparências ou fenômenos externos, porque os sentidos colhem por presença externa,
mas a consciência necessita representar segundo a versão do intelecto que conhece
por presença interna. Se a consciência sintetiza de modo adequado à identidade do
ser humano, o saber lógico é igual ao real, a lógica é ontológica. Quando, ao invés, a
consciência reflete apenas segundo os valores externos, sem os relativizar à versão
do intelecto e os interpreta em base a versões memorizadas e desprovidas de
evidência presente, a consciência emite tão-somente opiniões, porque o critério que
sustenta o valor do ser está ausente.

Todas as interpretações que se baseiam tão-somente em pressupostos e


convicções, desprovidos de evidência intuitiva, não correspondem à ação efetuada
pelo intelecto. Se a leitura de ação do ser efetuada pelo intelecto passar desconhecida
pela consciência, o intelecto a escreve no inconsciente, no orgânico. O intelecto é a
mente onde a essência se vê e a consciência só é instrumento adequado enquanto
representa em coincidência com o intelecto. Essa consciência pode ser denominada
como consciência ôntica. O intelecto é a medida que estabelece a ordem na matéria, é
aquele que define os limites no orgânico, e a consciência só se torna medida
reguladora se for adequada ao critério do intelecto. A verdade só acontece na
representação ou espelho consciente quando é igual ao intelecto do homem e não
igual à opinião.

A consciência é instrumento que, mediante síntese, faz a mediação entre


externo e interno, e quando a mediação é exata, o ser humano administra a existência
em saúde e crescimento.

O homem é uma inteligência proporcional e somente sua inteligência


estabelece a medida e a proporção da ação funcional para a vida humana. O saber
consciente necessita adequar-se a esse modelo de inteligência, porque essa
inteligência estabelece as proporções e a medida condizente para tudo o que convém
à vida humana. A alma ou intelecto é o critério da função homem.

O intelecto, sendo intuitivo, lê o íntimo do ser e se faz idêntico a ele; nesse


caso, ser e saber são conversíveis. A razão é o intelecto quando entra em exercício,
quando opera e aplica o saber. A razão desdobra em detalhes o conhecimento,
organiza e analisa, porém, para proceder de modo correto, deve seguir os princípios
internos da mente. Quando a razão analisa, deve respeitar o princípio de não-
contradição e os raciocínios devem obedecer às regras do silogismo lógico.

A razão faz comparações e busca o igual na diversidade das coisas, ela


compõe juízos unindo ou separando conceitos, estabelece relações entre juízos
formando o discurso lógico, mas, além de elaborar o conhecimento lógico ou coerente,
necessita manter o nexo com a evidência do intelecto para que o ente lógico e o ente
real sejam conversíveis. A lógica deve manter-se em nexo com o ontológico.

Os juízos racionais sempre devem ser conformes aos objetos para distinguir as
diferenças e encontrar o ponto de igualdade que serve para resolver um problema em
muitos. A razão é a técnica de administrar os primeiros princípios da mente buscando
a integração e o nexo entre realidade externa e verdade interna. A razão é o
instrumento que estrutura o saber do intelecto.

Os erros sempre acontecem, primeiro, na consciência, quando esta, em seu


modo de pensar, é distônica à luz do intelecto e apóia-se em aparências ou
pressupostos e convicções infundadas. As opiniões desfiguram a certeza do
conhecimento. Quando falta o critério básico de verificação, que é a evidência interior,
a consciência não mais representa os valores verdadeiros. Se a razão partir de
opiniões infundadas, embora obedeça aos princípios da mente e à coerência lógica, o
conhecimento da verdade se mantém ausente porque a consciência não reflete o real
no ponto de partida.

A consciência, quando alienada do critério da verdade, necessita ser purificada


das aderências impróprias que assimilou e fixou e que lhe impedem a visão do real. A
psicoterapia tem a função de adequar a consciência à luz da verdade intelectual. A
correção de consciência passa pela leitura e compreensão de toda a linguagem
organísmica, porque a mente escreve no organismo tudo o que a consciência não
colhe da informação da alma. Se a consciência preocupa-se em salvar a cultura
aprendida e busca adaptar-se aos modelos ou estereótipos sociais, ela perde o
contato com a própria essência humana e, ao recorrer ao próprio eu como base para
emitir juízos, sempre se refere a um eu fictício. Enquanto o homem se mantém em
ignorância de si mesmo, a razão não poderá elaborar o verdadeiro conhecimento,
porque as opiniões incertas não sustentam a ciência verdadeira.

A consciência deveria ser fórmula sempre renovada segundo a ordem do


próprio ser, porque só assim poderá traduzir em ação a realização pessoal e dar as
bases para o verdadeiro saber. A razão, se apoiada numa consciência falsa ou num
eu fictício, pode construir um edifício coerente, mas que estará assentado sobre areia,
porque falta a consciência do critério inicial verdadeiro.

Conclusão
Se o conhecimento pretende ser um valor para ajudar a resolver os problemas
do homem no planeta, ele não pode ser reduzido a uma confusão entre opinião e
verdade como está acontecendo em escritos e aulas. Tornou-se indispensável
encontrar o núcleo ou raiz da própria essência humana para intuir aquele princípio
inteligente que formaliza o saber adequado para humanizar. Esse princípio ou causa
denomina-se alma, essência ou Em Si ôntico e sua luz ou faculdade é o intelecto,
porque o intelecto é quem vê e lê esse princípio e o diferencia e discrimina
selecionando o útil e funcional para sua identidade.

A crise sempre é um momento em que o homem é forçado a despertar para


rever novamente seu modo de pensar, esclarecer as próprias convicções e descobrir
se são verídicas ou infundadas. Através da crise, o homem é provocado a passar de
uma situação obscura para uma novidade do conhecimento. É pela crise que o
homem cai em si e revisa os estereótipos fixados. Com vistas a ampliar o raio de
conhecimento, ele acorda para as novas intuições e rompe a barreira dos esquemas
aprendidos. O homem sempre encontra a resposta dentro de si, de seu potencial
intelectual. É a inteligência a faculdade que ilumina o saber adequado para superar a
crise, resolver a situação e vencer na vida.

O saber verdadeiro é o único instrumento ao qual o homem e a humanidade


podem recorrer como solução, porque com ele se ganha, sem ele se perde; com ele
se vai em aumento e expansão, sem ele se regride, se envereda para a anulação. Não
há meio termo e nem estacionamento na vida: ou se avança ou se regride, ou se é, ou
não se é: “o ser é, o não-ser não é”.

O egoísmo vital corresponde ao amor pelo valor pessoal e humano e só esse


egoísmo estabelece a medida de apreço por si e pelo próximo. Só quem ama o próprio
projeto interior vencedor sabe ganhar em vantagem própria e, por extensão, em
benefício dos outros. Sem essa base, a caridade é utópica, porque ela se impregna do
medo de perder, o qual consome a eficiência e a existência. Quando o homem
reencontra o núcleo da própria essência inteligente ele intui o que é útil e funcional
para se construir, e a dúvida e o medo dão lugar ao sucesso e à realização. Toda
pessoa é exigida, a partir do íntimo, a centrar-se em si mesma e necessita libertar-se
do envolvimento em opiniões e sugestões alheias para conseguir nascer segundo sua
própria identidade, porque esse é o critério para aplicar na profissão o próprio projeto
inteligente.
FILOSOFIA E PSICOLOGIA

As Estruturas Psicológicas e a Psicoterapia

O critério da objetividade científica em uso, no âmbito das ciências naturais, foi


arbitrariamente transposto como critério de conhecimento na investigação das ciências
humanas e, mais especificadamente, da Psicologia. Porém, o homem não se reduz à
objetividade biológica ou corporal, porque, sendo ele um ente subjetivo, o cientista não
pode restringir-se apenas a uma descrição de fenômeno ou efeitos mensuráveis
externamente. Por esse caminho, não se conhece o modo como funciona a atividade
psíquica. A pretensa objetividade descuidou da tarefa de investigar a subjetividade que
é o sujeito egológico de seu conhecimento. Pretender reduzir os fenômenos biológicos
apenas a causas externas é, no mínimo, absolutizar causas que são parciais,
unilaterais e até secundárias.

As ciências humanas não podem apoiar-se apenas na precisão de um método


construído pela história do pensamento, e a psicologia, de modo específico, para ser
conhecida, necessita da percepção e compreensão integral do próprio cientista. Para
investigar o homem é preciso que o homem saiba usar-se por inteiro. Não é possível
pretender compreender o todo com o uso parcial de si mesmo.

Na introspecção, partindo da fenomenologia manifesta, pode-se verificar que


as primeiras experiências de aprendizagem fixam hábitos de aprender através de
alguns canais do corpo, por acentuada estimulação, como a visão e a audição, e os
demais se mantêm latentes. Nossa cultura, por exemplo, não estimula a aprender
através da degustação, e por isso, alguns, excepcionalmente, desenvolvem tal
percepção. Entre esses casos, conhecemos o enólogo, que classifica vinhos ou o
degustador de cafés, que esclarece o grau de torrefação dos grãos de café para
confirmar certa qualidade etc. Existem pessoas que, mediante o odor, conseguem
distinguir o ponto exato de cozimento de vários alimentos; além disto, através do odor,
reconhecem pessoas que sofrem de esquizofrenia manifesta e determinadas
neuroses.

Além do condicionamento “educativo e moral” que restringe a percepção


consciente a alguns setores orgânicos com a exclusão de outros, o eu do indivíduo,
quando condicionado, só considera como evidente o que ele vê ou ouve e, por
conseqüência, limita o campo da evidência a dois sentidos e, com base neles, reputa
que científico é apenas o que se apresenta com evidência aos olhos e aos ouvidos.

Freud já foi atacado e a validade científica de suas descobertas foi posta em


discussão. Ele, através de outros caminhos, salientou que as primeiras experiências
condicionam as subseqüentes. Tudo o que o indivíduo memorizou e fixou no passado,
mesmo depois de esquecido, especialmente valores impostos, convicções e crenças
intocáveis, levam o indivíduo a projetar na percepção e na leitura do presente o olhar
do passado, de tal modo que a novidade atual passa despercebida. Ora, o saber
nasce do perceber.

A falsificação do conhecimento acontece porque, no momento da observação


ou formulação de uma hipótese, o cientista sofre a influência de um esquema interno
memorizado, mas inconsciente, e por isso ele não se apóia na evidência, mas naquilo
que ele acredita que seja válido por convicção. Além disso, aceitar como evidente
apenas o que a visão e a audição percebem é pretender estabelecer como base
absoluta e única a periferia limitada do próprio organismo. Além do mais, a visão e a
audição estão restritas a perceber dentro dos limites da própria convicção e das regras
estipuladas pela cultura oficial. O indivíduo, no presente, desconhece as origens das
próprias convicções e não sabe justificá-las, embora as defenda como se fossem
valores intocáveis e que salvaguardam sua vida, e não tem coragem de revisar o
próprio eu; e a cultura estabelece critérios convencionais para amparar o eu fictício.

Para que a Psicologia possa tocar o horizonte da psique pura e saber como se
move a atividade psíquica em sua forma original, fora de condicionamentos e
esquemas absorvidos no decurso da história, um pesquisador ou cientista não pode
contentar-se em compreender todos os comportamentos dos homens que se verificam
na experiência do mundo e descrevê-los cientificamente, eventualmente com a ajuda
de experimentos. Segundo Husserl, todos os fenômenos que se mostram, tanto os
que aparecem na língua comum, no agir, no sofrer humano ou em qualquer ato
pertinente à tipologia empírica, ainda que sejam determinados em parte pela
causalidade psicofísica, “não tocam a psique na sua interioridade autêntica que, para
ser atingida, requer a redução fenomenológica”.

A redução fenomenológica consiste em não presumir que o próprio eu


individual seja verdadeiro, mas em permitir uma revisão do próprio eu, porque o
próprio eu individual é um mero ponto de referência construído pela sociedade na qual
o indivíduo nasceu e cresceu, e nunca se formou baseado no critério de valor da
própria natureza. Esse processo de redução, denominado por Husserl de epoché,
consiste em colocar entre parênteses todos os fenômenos para encontrar a psique na
sua realidade original e originária. Esse processo permite reencontrar o eu
transcendental onde se situa a identidade do intelecto humano universal. Só com base
no acesso a esse intelecto verdadeiro será possível uma Psicologia e uma ciência
humanizadora.

O caminho que nos leva à evidência da atividade psíquica original requer uma
consciência que perceba e decifre todas as linguagens organísmicas. Acima de
métodos e acordos convencionais, o cientista da psique necessita de uma consciência
exata ou coincidente à identidade do ser humano e este se auto-revela através das
variações e linguagens do próprio corpo, que é o livro da mente. A objetividade só é
possível se soubermos perceber e decifrar tudo o que o objeto-corpo traduz e informa.
Necessitamos saber o que a vida íntima pretende ensinar com as doenças físicas e
psíquicas, que informação a mente pretende dar com os sonhos e até com toda a
fenomenologia parapsíquica, e isso não se consegue saber apenas por informações
externas verbais ou por uma educação que nos adaptou à cultura aprendida através
de livros e instruções externas.

A situação presente, referente aos eus individuais, está a exigir um processo


de purificação da consciência para desfazer-nos de aderências que são antitéticas à
identidade da natureza do homem. Enquanto um cientista estiver preso à cultura
aprendida ou comprometido com determinada ideologia, e defender convicções a que
aderiu afetivamente, sem saber qual é o fundamento, ele não tem condições de emitir
juízos sobre a natureza humana e nem tampouco orientá-la adequadamente. Ao
contrário, é a natureza que julga e acusa os limites de erros involuntários do cientista
através de disfunções orgânicas, sonhos, pulsões anômalas, paixões incontidas e
incompreendidas, fantasias absurdas etc. Se o cientista, para explicar, busca o refúgio
do mistério incompreendido da vida, renunciando ao conhecimento, ele simplesmente
impede o aperfeiçoamento do saber consciente e decreta a falência do crescimento
humano.
O ser humano, desde o início de sua vida, mesmo antes do uso da razão, é
estimulado de modo repetitivo a adaptar-se segundo a imposição dos modelos sociais
ou familiares preestabelecidos; com base neles, fixa uma memória de estereótipos
rígidos que estruturam um esquema inconsciente, segundo tais exigências impostas,
esse esquema, denominado complexo por Jung, forma hábitos que modelam o
caráter. É com base nessas influências que o ser humano perde o contato com o
mundo-da-vida. Uma vez adaptado aos modelos sociais, o eu consciente passa a
administrar a própria existência em base a fórmulas repetitivas e não distingue se tais
fórmulas são próprias ou impróprias à sua vida e saúde. Os valores interiorizados do
ambiente onde o indivíduo nasce e cresce, com a moral exigida pela sociedade
através de “educação e violência legal” formam o esquema inconsciente que se
sedimenta, em grande parte, antes do desabrochar do eu consciente. Quando o eu se
mostra, o sujeito já se adaptou à língua do grupo etc. Essa esquematização imposta
obscurece o eu consciente para efetuar o contato da consciência com a luz de sua
inteligência vital.

No trabalho clínico desenvolvido por diversas escolas de psicologia e,


sobretudo, pelas novidades da escola ontopsicológica, foi possível verificar a
divergência entre os depoimentos conscientes feitos pelo cliente e a comunicação e a
informação dada pela variação fisionômica, mímica e emotiva de sua vida. Foi no
exercício clínico que se descobriu a necessidade da psicoterapia, visto que ela é o
instrumento para autenticar o eu consciente.

A atenta percepção às variações que acontecem no organismo do terapeuta,


enquanto está na presença do cliente, levou Meneghetti a descobrir o veículo que
media as passagens de informação da atividade psíquica. Uma vez tendo decifrado
tais informações transacionadas diretamente de um organismo no outro, foi possível
conhecer a linguagem primária da vida com a vida. A partir dessa descoberta tornou-
se fácil ver que esse veículo de comunicação psíquica une e estabelece continuidade
entre a atividade psíquica de um indivíduo e dos outros. A psique é una e as
percepções emotivas, extra-sensoriais ou intelectivas são propriedades da mesma
atividade psíquica em comunhão com as individuações. O campo semântico, termo
usado por Meneghetti para descrever este veículo de informações, é o código de base
usado pela vida para a comunicação entre as individuações. Conhecendo essa
comunicação se restabelece a unidade psíquica. Conhecer significa de fato retornar ao
uno anterior que quis dividir-se em dois. O conhecimento torna-se possível enquanto
há, na aparente divisão, uma continuidade que funda a unidade de interação.

Um cientista que pretenda perceber e decifrar todas as mensagens da


atividade psíquica deve primeiramente ter um organismo sadio, ser exato como
proporção emotiva e deve ter exatas todas as percepções da rede sensorial do próprio
corpo, porque o corpo é o livro onde a psique escreve suas informações. A
objetividade primária, portanto, corresponde a uma subjetividade exata porque
somente tal subjetividade terá condições de ler e interpretar corretamente tudo o que o
objeto-corpo traduz. Essa subjetividade denomina-se subjetividade objetiva e
distingue-se do subjetivismo. O subjetivismo é tendencioso porque enfatiza aspectos
conscientes opinativos, baseado em ideologias, convicções e complexos
inconscientes.

Um cientista atento percebe que num diálogo é impossível evitar a auto-


revelação de quem fala porque a fisionomia, a mímica, o tom de voz, a carga emotiva
já espelham o íntimo do falante. As interferências de complexos latentes não se
exprimem apenas em “lapsos, atos falhos e chistes” como percebeu Freud, mas
principalmente através de sonhos. A parte misteriosa ou inconsciente da vida humana
só terá acesso à consciência se for possível retirar o véu que esconde a interação
psíquica, trazendo à tona da consciência a forma primária de comunicação da
atividade psíquica: o campo semântico. Quando um cientista tem sua percepção
ajustada à própria sensorialidade organísmica, ele constata que uma pessoa emite
informações que fazem variar suas emoções e reações e que, se atento à novidade
que ocorre com a presença de outra pessoa, poderá ter uma intuição imediata. Essas
informações são transmitidas pelas células; cada pessoa recebe e transmite
informações que produzem variações de um organismo no outro. Através de tais
variações, um cientista experto e preparado percebe com evidência que a consciência
de quem lhe fala está alienada daquilo que seu organismo transmite. Quando essa
informação, atuada pelo organismo, passa a ser integrada na racionalidade consciente
de um cliente, mediante verbalização do psicólogo, acontece um trabalho de
autenticação. No entanto, o cliente necessita corrigir seus hábitos e comportamentos
que o prejudicam e que ele praticava por falta de autoconhecimento. O resgate da
saúde e do bem-estar exige uma readaptação às normas da própria natureza. A
solução de problemas pessoais e a cura são decorrentes da correta administração da
própria vida.

O íntimo da vida é dotado de ordem e uma vez restaurada a ordem, a própria


vida autenticada se encarrega da solução. As informações de campo semântico
produzidas pela atividade psíquica, quando agem de modo inconsciente, estruturam
imagens (como nos sonhos) e, pela repetição de tais informações inconscientes
descritas nos sonhos, formam uma memória que, mantendo-se como um arquivo
inconsciente, manipula o eu consciente e com o decorrer do tempo prepara a
formação da doença.

O trabalho básico da psicoterapia é o de ajustar o eu consciente ao eu real. O


terapeuta psicólogo não pode apoiar-se em critérios convencionais ou escritos, mas
deve ser um cientista que lê o modo como se move a alma humana; ele necessita
entender aonde a alma vai, onde ela está impedida e como auxiliar o seu percurso
condizente ao valor humano e, por fim, responsabilizar o eu consciente do interessado
a mudar em prol de sua vida e de seu eu pessoal, a mudar formas de pensar, mudar
atitudes, hábitos e comportamentos que são impróprios à sua identidade e valor
humano.

Enquanto um psicólogo clínico sofrer estruturas inconscientes, fixações afetivas


e sentir-se incapaz de perceber e intuir semânticas de seus clientes devido a
complexos pessoais não resolvidos, ele próprio necessita de psicoterapia de
autenticação para não perturbar os próprios clientes com opiniões pessoais
inadequadas. É fácil entender que as informações fornecidas ao cliente devem ser
aprendidas do próprio cliente.

A ciência psicológica é conhecimento de causa, é percepção e intuição da


atividade psíquica em antecipação a seus efeitos concretos externos. Todo ponto de
partida necessita das informações traduzidas pelo próprio organismo para intuir a
causa interior que formaliza qualquer fenômeno. O princípio inteligente sempre
formaliza no corpo seu depoimento porque esse princípio, denominado psique, é
inteligente. O corpo é imagem, a psique é sentido. O corpo é objeto, a psique é sujeito.
A psique é significante, e o corpo é significado.

A psicoterapia de autenticação é um instrumento para repor a consciência em


sintonia com a ordem da natureza e da identidade pessoal, porque a consciência,
tendo absorvido um excesso de informações sociais distônicas à ordem da vida,
necessita de revisão.
Fazer psicoterapia significa deixar-se discutir para restabelecer a autenticidade
do próprio eu consciente e aprender a funcionalidade orientada à autorealização. Para
o exercício do diálogo psicoterápico, o psicólogo clínico deve ser exato, e isso significa
que ele deve saber verbalizar as informações colhidas em sincronismo com seu eu
autêntico, em base a tudo o que apreendeu do cliente.

A psicoterapia é ciência e arte. É ciência enquanto sabe precisar a


intencionalidade de natureza daquele cliente e é arte pelo fato de saber ajudar o ser
humano a construir uma obra-prima do espírito, desde que o sujeito o queira.

Em seu sentido etimológico, a ação terápica significa vigiar o dom ou vigiar o


fluido vital; tratase de um serviço de atenção ou solicitude em relação aos valores
interiores de um outro. A psicoterapia, de modo específico, caracteriza-se por uma
atitude de busca respeitosa e restauradora referente à alma humana, que é o valor do
espírito. Esse trabalho é próximo do trabalho de um conselheiro espiritual ou de um
filósofo, no entanto, o conselheiro espiritual examina se o homem está em
conformidade com a lei divina; o filósofo, porém, interessa-se em saber se o homem
está em conformidade com sua natureza ou essência. O psicoterapeuta necessita
também da filosofia enquanto investiga qual é a estrutura essencial e autônoma do
homem, para adequar as decisões comportamentais do cliente a essa ordem e, assim,
retomar a funcionalidade da própria natureza, com vistas à realização pessoal.

O objeto específico da psicoterapia é a intencionalidade psíquica ou espiritual,


que é interior ao indivíduo, e o cientista experto a encontra nas modalidades de
fenomenologia expressas na situação existencial e na biografia, na fisionômica, na
mímica, no sonho e no campo semântico.

O método terápico é indutivo e intuitivo, porque se serve de todos os critérios e


modelos considerados científicos e racionais e dos processos intuitivos que dão
acesso às linguagens inconscientes traduzidas em variações de ondas registradas
pela sensorialidade organísmica auto-evidente.

O fim primário da psicoterapia é a autenticação do humano, que consiste numa


progressiva conscientização dos apelos da natureza e da identidade original. Essa
identidade não se confunde com a aculturação porque lhe é anterior e coincide com a
ordem da vida.

A cura, o bem-estar, o desenvolvimento social, o crescimento econômico


acontecem como efeito secundário, mas todos os efeitos dependem de uma variação
de comportamento que acontece por decisões morais do sujeito.

A intencionalidade psíquica é a motivação básica que permite ver e ler aonde a


ação-alma vai, onde ela está impedida, e como ajudar seu percurso, sem inserir nada
de estranho ou impróprio à sua verdadeira intenção. Toda individuação é unitária,
exigência do uno, visto que a real intencionalidade psíquica aspira o retorno à sua
origem. Tudo o que impede essa tendência determina a alienação e a regressão.

Um psicoterapeuta necessita, como dote, da intuição e, como preparação, da


experiência e do estudo. Sua cultura, o quanto possível, deve ser a mais próxima do
ilimitado. Sua mente necessita ser aberta ao novo e seu caráter amadurecido pela
vida.

O médico, como profissional, não está preparado para essa função, porque o
objeto da Medicina é a fenomenologia somática, seu método é experimental dedutivo
e demonstrativo, e a sua intervenção é instrumental, porque se utiliza de
medicamentos e instrumentos.

A psicoterapia, em sua atividade, não é demonstrável, ela o é apenas na


relação psicólogo-cliente, que posteriormente pode ser verificada nos efeitos que
produz; a intervenção é direta e sem uso de instrumentos. O diálogo não é causa
instrumental, mas causa ocasional, porque os instrumentos que causam a solução são
as ações do cliente. A causa agente são suas decisões e a finalidade a ser alcançada
é a funcionalidade vantajosa para sua vida: vantagem de saúde, afirmação e
realização.

Um psicoterapeuta necessita de uma compreensão dos processos lógicos de


como se move a alma ou a mente humana e uma compreensão do núcleo motivador
que define o endereço correto a seguir. Sem o constituinte do homem como pessoa, o
psicoterapeuta está sem o ponto de referência para corrigir e orientar as decisões e as
ações a serem tomadas e executadas pelo cliente.

Um psicoterapeuta necessita conhecer as estruturas inconscientes e saber


distingui-las de características inconscientes da intencionalidade psíquica original.
Tudo isso, ele aprende, primeiro, efetuando um trabalho em si mesmo e, mediante
metanóia, chega a conhecer a si mesmo. Depois, na relação com os clientes ele passa
a decodificar emoções, reduções afetivas, sonhos, conformações somáticas, pulsões
complexuais, caráter e instintos vitais.

A psicoterapia se resume na competência e na arte de saber indicar o caminho


para fazer-se pessoa, segundo critérios interiores da própria originalidade subjetiva.

Na psicoterapia, o homem é o único instrumento para investigar o próprio


homem, e, por isso, a sua responsabilidade é ser exato ou autêntico, porque a
exatidão dá condições de oferecer conhecimentos verdadeiros.

A Psicologia Preliminar e a Filosofia

O homem em existência se constata como corpo e mente de modo evidente,


porque logo, ao moverse, ele descobre que o real abrange em si a matéria e o espírito,
engloba o visível e o invisível aos sentidos. O invisível aos olhos é visível à mente. A
sua mente sempre encontra a convergência de um ponto que une uma multiplicidade
de efeitos ou fenômenos. Por exemplo: ao ver a matéria, ele analisa, constata
combinações de partes, e a mente, mediante combinações, produz a química, que, por
sua vez, leva a mente a ver que na base está a energia, a energia supõe ondas, as
ondas devem ser coordenadas por uma informação, e as informações têm origem num
intelecto ou mente. Desse modo, o ser humano toca o real, tanto em seu aspecto
visível como no invisível, porque ele próprio é o corpo e a mente. Ele verifica que o
visível tem origem no invisível, porque ao se examinar, vê que sua palavra tem origem
no significado dado pela sua mente que é invisível. O corpo é a palavra da mente
invisível. O visível percebido pelos sentidos se reduz a efeitos da causa invisível aos
sentidos. Eis a razão porque quando queremos resolver e administrar os efeitos que
aparecem no corpo temos que entender como se move a mente, a alma, porque todos
os seus depoimentos aparecem no corpo.
Os sentidos colhem o real por presença externa, porque no externo o homem é
corpo. Desde o momento em que somos forçados a interiorizar estímulos e
informações provenientes do externo, que têm origem no modo de pensar de adultos,
cada um de nós aprende a conformar a consciência, que é interna, com base nos
modelos impostos externamente, e conforme o pensamento interior de adultos. A
consciência, tornando-se o espelho interior da consciência de adultos, não mais
espelha o mundo-da-vida, pois sofreu uma identificação à consciência de adultos.
Perdendo o contato com o próprio intelecto, a consciência não vive conforme a
identidade da própria alma. Na alma se situa a mente invisível e original, aquela que
coincide com o mundo-da-vida.

A consciência, uma vez modelada segundo a forma de pensar coletiva, passa


a acreditar nos valores fixados pela cultura, os interioriza, os memoriza e faz desses
valores o ponto de referência interior (inconsciente e invisível). Mediante tais valores,
coage a própria vida a adaptar-se sem antes compreendê-la em sua identidade
original. Com base no critério interiorizado, passa a emitir opiniões avulsas ao real
mundo-da-vida. O homem assim formado apóia-se no que acredita e não mais na
evidência da luz provinda de sua alma. Como exemplo, basta lembrar que ninguém
aprende a moral com base na própria experiência, mas aprende através da informação
alheia, a qual segue as regras sociais de adaptação e não os valores da realização
pessoal e das necessidades originais da natureza.

Quando o ser humano é adaptado aos modelos sociais impostos, ele tende a
projetar formas rígidas de comportamento e sacrifica o próprio fluxo vital variável.
Quando se aprende a contrariar a forma de ser da vida humana se sublima o sacrifício
como meio de salvação. Porém, se o homem contraria seu modo de ser ou sua
natureza, ele não só constrói a doença em si mesmo, mas também projeta uma
ciência que, em vez de ser antropocêntrica, é sociocêntrica, visto que é baseada em
opiniões que impossibilitam cultivar os reais valores da vida em prol de salvar a
opinião social. Para constatar isso, basta estudar os códigos de leis elaborados.

O psicólogo não pode partir da presunção de ser exato em seu modo de


pensar e em seus conhecimentos, ele necessita do autoconhecimento porque só este
o recoloca em contato consciente com o real intelecto humano. O intelecto é o ato que
lê o ser, a verdade requer reversibilidade entre ser e saber e todo juízo emitido pelo
homem, que não coincidir com a luz do seu próprio ser, é opinião avulsa por estar
dissociada do valor humano e humanizador. A verdade é adequação ao intelecto, é
nele que ser e saber formam o uno. Quando a consciência reflete ou representa a luz
do intelecto o saber é igual ao ser. Para o exercício da psicologia clínica, o filósofo ou
psicólogo necessita de um processo de autenticação para verificar se a própria
consciência é exata. Desprovidos da própria autenticidade não se têm condições de
autenticar outrem; não se pode pretender ensinar o cliente em base à própria opinião,
porque a opinião do interlocutor inautêntico vale tanto quanto a própria. O filósofo ou
psicólogo clínicos dependem, para a eficiência do próprio trabalho, da recuperação da
própria verdade ôntica, visto ser esta o critério que unda qualquer verdade científica
para o homem. As informações transmitidas são válidas se tiverem origem no íntimo
de quem conhece como se move a atividade psíquica segundo a ordem da natureza
humana. Para o conhecimento verdadeiro se faz necessário o verdadeiro homem.

A verdadeira psicologia é a ciência elementar ou preliminar para compreender


as estruturas inconscientes e adequar a consciência ao critério que sustenta a verdade
segundo a medida humana. Tanto o filósofo como o psicólogo necessitam adequar-se
ao princípio inteligente que formaliza qualquer diretiva humanizadora. Somente uma
consciência que reflete e representa a informação do real intelecto humano projeta a
ciência e a Filosofia adequadas à natureza, em função de humanizar. O psicólogo,
caso pretenda formalizar a ciência do mover-se da atividade psíquica, deve entender
como orientar o ser humano para construir o próprio valor pessoal durante seu
percurso histórico. Só a luz do real intelecto humano pode iluminar o caminho. O
filósofo, caso pretenda elucidar os fundamentos do saber, não pode ignorar o critério
que lhe permite fazer. Filósofo é aquele que ama o saber que reflete o próprio ser,
mas isso só é possível em base à raiz inteligente do humano.

O filósofo sem o conhecimento das estruturas psicológicas inconscientes e sem


o contato com a própria alma, com o próprio Em Si ôntico é incompleto e inexato, e o
psicólogo sem o fundamento filosófico é navegador desorientado e sem bússola,
porque lhe falta a luz do fundamento. Toda construção do saber necessita ser uma
projeção antropocêntrica, para isso, é indispensável que a consciência represente em
seu reflexo a luz da informação emanada pelo ser.

O conhecimento científico ou filosófico quando projeta a luz do real intelecto


serve para resolver o homem no universo. Ao homem não compete resolver o
universo, mas sim sua vida dentro dele. Se o saber é reversível com o ser, quando
opera, torna-se reversível porque sua ação confirma sempre o ser em evolução.

A Filosofia, quando é projeção do espírito humano, sustenta valores que


promovem o humano, e a Psicologia, quando ilumina o que é útil e funcional na
construção da pessoa humana, presta um serviço de humanização. Tanto o psicólogo
como o filósofo necessitam apoiar-se no mesmo critério que projeta o saber que está a
serviço da vida.
FILOSOFIA E CIÊNCIA

A Objetividade e a Subjetividade

É possível conhecer a verdade? O ser humano está em condições de conhecer


a verdade? Trata-se, pois, de verificar se o ser humano pode ter acesso à verdade,
enquanto consoante ao seu modo de ser. Para resolver esse problema, o homem
sempre recorreu à sua consciência sem nunca se perguntar se sua consciência é
exata ou condizente ao seu modo de ser. Com base no seu modo de pensar
consciente elaborou várias exigências externas para sustentar o valor de seu
conhecimento científico. Partiu da observação visual e auditiva, exigiu a objetividade,
submeteu a experimentação e construiu um método, estabelecendo-o como intocável
e indispensável etc. As condições externas exigidas para a produção científica são
muitas, mas sempre se deixou de lado o problema da condição subjetiva do
observador, do cientista.

Quando se fala em objetividade se supõe que quem mede a verdade é o objeto


externo e o sujeito é passivamente medido pelo objeto. Mas o homem conhece o
objeto tal como o objeto é em si fora da relação com o homem? Ou o homem conhece
o objeto segundo uma tradução sua? Como explicar a diversidade de interpretação e
até as formas contraditórias de ver e descrever o mesmo fato ou o mesmo objeto por
pessoas diferentes? Será que tudo se justifica, apelando aos pontos de vista, sem
verificar a autenticidade do sujeito que descreve ou fala? O problema agora é o
seguinte: o observador, ao descrever a observação pode ou não interferir com
esquemas mentais e afetivos latentes a ponto de alterar a objetividade do
conhecimento? O pesquisador pode ou não ter uma predisposição seletiva em base a
condicionamentos sofridos? Não pode haver uma memória fixa ou um complexo
inconsciente que induz a perceber certos aspectos, com exclusão de outros? E quiçá
distorcer a objetividade?

Supondo que o sujeito possa projetar algo de subjetivo em sua versão, e tal
projeção não corresponda ao real, ele não está propondo a verdade, e sim emitindo
opiniões duvidosas ou falsas.

Se a consciência subjetiva ficou viciada por influências externas interiorizadas,


o sujeito perde o contato com a evidência do que se desenha em sua retina, e a
consciência projeta opiniões baseadas num banco de dados assimilados no passado
que não confirmam a verdade da observação presente. A verdade sempre apela por
uma igualdade entre saber e ser.

Quem dá ou apresenta a evidência ao saber humano? Quem distingue e


discrimina o objeto? Quem distingue o que é venenoso do que é nutritivo? Quem faz o
discernimento entre o que é adequado ou inadequado para o homem, a fim de que ele
possa construir um conhecimento verdadeiro? É o modo de pensar e interpretar da
consciência ou do organismo humano? Quem erra é a consciência ou o organismo? O
corpo sempre é exato no discernimento e na informação e aponta o que é próprio e
impróprio. Basta dar atenção ao corpo quando ingerimos uma maionese alterada, o
corpo logo registra o erro da decisão consciente e provoca disfunções orgânicas.

O objeto primário do conhecimento é o organismo. Basta observar que o


critério para distinguir o alimento certo do errado nos animais é o seu organismo. Todo
o conhecimento consciente nasce de um contato e de uma variação organísmica. A
vivência é anterior à consciência e ao pensar. O metro que mede a verdade para o
homem é seu organismo porque o homem conhece os objetos externos segundo o
modo como organismo traduz ou reflete. O corpo é imanente à mente do homem e eu
não conheço o objeto externo tal como ele é em si, eu o conheço conforme ele se dá
em mim, no modo como ele se relativiza ao organismo, eu conheço o que o organismo
registra, experimenta, varia etc. Nós conhecemos o mundo externo mediante a versão
do mundo-da-vida.

O mundo-da-vida é dotado de um corpo como tradutor e de um princípio


inteligente como informador. O princípio inteligente é o constituinte da essência ou da
natureza do ser humano, o corpo é a exposição da existência individual desse
princípio. O ser humano, em seu fundamento, é uma forma ou uma tipologia de
inteligência, e, mediante o organismo, essa inteligência pode refletir-se em
consciência. A consciência não é toda a inteligência, mas é um espelho que, por
condicionamento, é limitado, e, quando este espelho falha com a verdade, o intelecto
usa outros canais do organismo para informar, tais como a mímica, os sonhos etc. O
intelecto é exato porque lê o íntimo da ação do ser, ou do mover-se da própria alma.

O corpo conhece por presença externa; o intelecto conhece por presença


interna. O intelecto, ao ler o mover-se da alma ou ao ler a informação do ser, encontra
a convergência de sujeito e objeto. O intelecto é, portanto, o critério da natureza: em
base à sua luz se obtém o valor do saber.

A consciência, para se tornar exata, necessita coincidir com a informação do


intelecto traduzida na variação do corpo ou na intuição psíquica. A função da
consciência é representar ou fotografar o reflexo do ser para elaborar o verdadeiro
conhecimento humano. O intelecto como reflexo do ser expõe o saber através das
múltiplas linguagens do corpo e, quando a consciência é autêntica, ela se torna a
síntese convergente de todas as linguagens.

Se a consciência constrói opiniões e elucubrações dissociadas do critério da


natureza (intelecto encarnado) falta-lhe o suporte da evidência. A perda do critério da
natureza levou os cientistas a estabelecer critérios convencionais. O critério
convencional apóiase no consenso da maioria, na aprovação da autoridade ou do
testemunho, na convicção imposta pela cultura vigente. A convenção é uma projeção
exteriorizada para dar suporte à consciência por falta de evidência interna da mesma.

A convicção da maioria é um critério de opinião, é um critério de número, é um


critério democrático, mas ele não substitui a evidência necessária ao cientista para
fundar a verdade e a certeza científica. O critério democrático ou estatístico pode
esconder a causa real na ciência porque o que sabe é o limite imposto pela maioria.
Não parece adequado pretender a exatidão dos fatos baseando-se na medida de
compreensão da massa.

O critério de autoridade que corresponde a um critério de testemunho faz com


que o cientista elabore conhecimento apoiado na proposta de outro ou de um
referencial teórico e que ele usa para dar segurança à sua consciência. No entanto,
ele crê que o outro teve evidência para sustentar sua lógica, porém a crença e a fé
não são fundamentos de ciência verdadeira para um cientista.

O critério imposto pela cultura é um critério construído pela história e que pode
servir para exercitar conhecimento quando o objeto é adequado ao método
empregado. Porém, se arbitrariamente se universaliza o valor do método único,
simplesmente se impõem limites para o avanço científico, e tal procedimento bloqueia
a evolução humana, propriedade intrínseca da natureza do homem. O homem, em sua
essência, tende a crescer, criar, expandir-se e não apenas repetir e se fixar.

Nenhuma ciência pode ser autenticamente verdadeira enquanto for produto de


um homem que em sua consciência não reflete a identidade do homem verdadeiro. O
homem verdadeiro é aquele que sabe usar-se por inteiro, é aquele que em sua
consciência é espelho integral de seu ser.

Considera-se que mente e corpo, sendo imanentes, estão em continuidade. Se


for sadio, o corpo expressa e revela a mente com precisão. Como a doença altera
funções, ela limita e altera a exatidão do tradutor e perturba sua percepção. O corpo,
para traduzir de modo exato o objeto em conformidade com a informação da mente,
não pode ser deficiente ou doente. O cientista necessita de um corpo sadio.

A criança, durante a sua infância, sofre a influência, no seu modo de perceber,


de sua mãe ou da pessoa que lhe ofereceu a segurança inicial e aprende a perceber
segundo a versão emotiva e consciente dessa pessoa. Em base às primeiras relações
humanas, a criança fixa um modo de percepção seletiva que a predispõe a ver e a
sentir segundo a consciência da pessoa que a ama, isso compromete a objetividade
da percepção, porque ela aprende a usar a parte do corpo que foi estimulada,
excluindo outras partes; além disso, ela aprende a dar uma conotação de bom ou de
mau, de certo e errado, de gostoso ou insípido, segundo a opinião ou preferência da
pessoa que lhe dá segurança e afeto. Um erro de consciência sempre acontece com
base em uma percepção subjetiva condicionada e que não coincide com a versão de
utilidade e funcionalidade da natureza. A consciência necessita ser provocada a
perceber segundo a ordem da natureza.

Para o acesso à verdade o eu necessita tomar consciência de todos os canais


de informação do organismo. Não basta perceber apenas pelos canais da visão e da
audição, porque o conhecimento verdadeiro corresponde a uma projeção do mundo-
da-vida, onde se situa a subjetividade objetiva. A subjetividade objetiva é a simples
visão evidente do intelecto.

O acesso à verdade é dado a quem, antes de presumir que o próprio eu seja


exato, busca examiná-lo. Examinar significa verificar se o eu não é medido por uma
convenção, por uma cifra, por um código preestabelecido, por uma convicção não
justificada etc. O eu é o princípio da retidão e da certeza científica e, portanto, deve
estar amparado por uma evidência que sustente a sua certeza. Esse é o motivo
porque se torna indispensável esclarecer a subjetividade, pois o sujeito é quem
distingue, julga e mede o objeto. O eu é o árbitro, e o árbitro não pode pretender estar
certo se o próprio eu é impreciso e fictício. O eu é real se coincidir com o critério do ser
e, nesse caso, ser e saber tornam-se reversíveis. Só o eu real tem condições de ser
ordenador, mensurador, produtor de ciência exata. Antes de produzir ciência exata
deve ser exato a si mesmo. O eu é exato a si mesmo quando, no interior de suas
operações, age por evidência.

O eu original deve ser extraído de um conjunto. Para o nascimento do eu


concorrem três instâncias: a estrutura orgânica, a interação imediata corpo-ambiente e
a incidência da mentalidade social organizada.

A estrutura ou o complexo orgânico dá a individualidade diferenciada e esta,


para se manter em distinção, necessita defender-se e assimilar do ambiente o que é
adequado às suas necessidades e à sua evolução.
Na interação com o ambiente imediato, acontece que a influência ambiental
diferencia o organismo, de modo que aquele que cresce em países frios formaliza um
tipo de civilização diferente daquela que cresce num país quente. A criança que cresce
num clima de conflitos e vozes desafiantes será diferente daquela que cresce num
ambiente sereno.

Considerando que o organismo sempre nasce num contexto social altamente


organizado e que o organizado se impõe e estimula o dependente a adaptarse
segundo os interesses da sociedade, o eu fica coagido e o modelo social da
organização mental já existente prevalece sobre a vida do neonato. Quando a
consciência desperta, ele já sofreu uma acomodação à mentalidade social, já
assimilou uma língua, as formas de relacionamento e os modos de comportamento de
grupo. A consciência desperta mais em base à influência da mentalidade social do que
em base às necessidades originais do organismo. O tipo de cultura pode até induzir a
rejeitar apelos vitais necessários à manutenção da própria saúde, tudo em função de
respeitar os valores sociais. A forma de pensar do indivíduo é mais um produto da
mentalidade social e de grupos em conflito do que reflexo da identidade pessoal.

O eu, antes de ser visto e compreendido, é vivido, e não se conhece


adequadamente, a não ser através de sua atividade vivida. Considerando que o
indivíduo, em suas vivências iniciais, sentiu-se forçado a uma adaptação mental
preexistente, o eu cresce formando uma consciência em parte alienada da estrutura
orgânica e conformada ao modo de interpretar a si mesmo segundo a versão dada
pela sociedade. O eu, uma vez moldado segundo o paradigma social, não tem
condições de rever e aceitar o que aprendeu a censurar em si mesmo; em
conseqüência dessa situação, o eu não modifica sua forma de pensar por
demonstração. A rigidez do pensar só poderá ceder mediante conversão. A conversão
pode acontecer através da disponibilidade em aceitar pôr em discussão e revisão o
próprio eu. A ruptura dos esquemas do eu podem ocorrer se há um técnico que
compreende a ordem da própria natureza, que lhe ajude, esclarecendo.

Considerando que o eu é o princípio de realidade da própria conservação


orgânica, ele necessita recuperar a consciência orgânica, e isso significa integrar na
consciência os apelos da natureza manifestos nas várias linguagens organísmicas.
Um eu que desconhece a ordem dos próprios instintos não saberá administrar a
própria vida e a própria identidade no convívio com a sociedade e de forma apropriada
para si mesmo.

O eu é a base de toda a personalidade e, se for inautêntico, administrará a


própria vida sempre em compromisso exclusivo com os modelos sociais. Os erros não
são resultados da espontaneidade da natureza, mas eles acontecem porque o
indivíduo constrói sua sorte e sua desgraça segundo os esquemas e as fórmulas
aprovadas pela cultura onde nasce e cresce. O eu, uma vez esquematizado, não
pretende mudar a própria personalidade, mas pretende mudar a realidade dos fatos.
Ele sempre busca defender o modo de pensar aprendido, em prejuízo da própria vida.

Um eu que se presume verdadeiro, mas que em parte se mantém inconsciente,


não serve de base para fundar um conhecimento científico verdadeiro. Se penso ser o
que não sou, meu eu não serve de critério da verdade. A verdade só pode ser
projeção de um verdadeiro eu e não de um eu fictício. Husserl já concordava que as
idéias do eu construído pela história de vida podem ser falsas se o eu não for
verdadeiro.

Impor um método científico como único admissível para conhecer todo e


qualquer objeto nem sempre proporciona avanços significativos de conhecimento. A
obrigatoriedade de um método exime o cientista da responsabilidade por seus erros e
dispensa o mesmo de autenticar a própria consciência. O método imposto
corresponde a uma estrutura fixa que ampara os esquemas mentais enrijecidos.
Impondo um método obrigatório, mesmo que o cientista o manipule, ele considera que
se ele o respeitou, por conseqüência produziu algo de científico, embora não tenha a
certeza se o seu produto científico é verdadeiro ou não. Essa situação permite
confundir opinião com ciência. Os escritos de hoje produzem uma mescla de opinião
com ciência.

Não é o método que dá sustentação à validade do saber científico, mas sim a


exata percepção e a evidência intelectual do cientista. Através do contato, o objeto se
define em mim, na variação de qualquer sentido ou órgão do corpo, na variação de
minha sensorialidade, e quando integrado na unidade organísmica, o eu define o
objeto mediante a compreensão exata do depoimento organísmico. Se o modo de
interpretar ou pensar diverge da informação do próprio ser, o sonho ou a doença são
outras linguagens do intelecto para corrigir a consciência. Conhecer com objetividade
significa saber ler o real informante da verdade, e este é o próprio organismo humano.
A verdade se evidencia no sujeito, mas só a subjetividade autêntica sabe ler com
evidência.

A verdade científica é uma verdade de relação. Na relação do sujeito com o


objeto externo, o eu deve manter-se em atenção com a variação que acontece em seu
organismo, produzida pela ação do intelecto que lê o real através de si, do seu corpo;
se a consciência decifra a informação, ela representa a revelação do intelecto. O saber
verdadeiro sempre coincide com a ação do ser, porque é nele que o objeto e sujeito
estão unidos. O ser é sujeito e objeto ao mesmo tempo = essência e existência.

Conhecer o real significa conscientizar aquilo que nos age, ler em mim próprio
o modo como o real se faz na interação do contato. A exatidão está na percepção da
comunicação semântica. Antes de raciocinar se faz necessária a coincidência entre
consciência e organismo.

Todos os homens pensam, mas estão baseados em que consciência? Não


basta que a consciência dê apenas idéias ou uma moral, é necessário que na
consciência transpareça o íntimo que identifica o humano em sua essência para que o
conhecimento e a utilidade sejam funcionais à vida do homem. Todo processo
educativo consiste em adaptar o ser humano aos códigos preestabelecidos pelo
sistema, mas desse modo o sujeito aprende a pensar em conformidade a uma maioria
ou a um grupo e coloca em desuso ou em esquecimento parte de si mesmo. Jung já
dividiu a realidade em dois modos: “existe uma realidade introvertida e uma realidade
extrovertida e, portanto, uma objetividade extrovertida e uma objetividade introvertida”.

Nós não podemos compreender o mundo-da-vida com uma consciência e uma


razão que excluem de seus critérios científicos informações vitais como variações
emotivas, mímica, sonhos etc. E isso acontece porque os métodos científicos em uso
não nos permitem. Quando nós nos conhecemos de modo errado, segundo a
educação e a interpretação coletiva, nós conhecemos de modo errado fora de nós.
O Processo Científico

A possibilidade de conhecer parte da experiência psicológica. Por experiência


psicológica entende-se tudo o que constitui o psiquismo em seus elementos tanto
conscientes quanto inconscientes, a cada momento; ou, melhor, a experiência se
refere a tudo o que acontece no organismo em qualquer momento e que é
potencialmente disponível à consciência. Os elementos conscientes são indicados
com o nome de percepções ou experiências simbolizadas e os elementos
experienciais que não têm acesso à consciência denominam-se experiências não
simbolizadas ou inconscientes. A consciência, quando está condicionada, não reflete a
real experiência organísmica; por exemplo, se a consciência lê e interpreta a
experiência apoiada em sentimentos afetivos e ensinamentos históricos, ela expõe
uma percepção reduzida e unilateral que compromete a percepção do real
organísmico. Enquanto a percepção da experiência sofre o filtro do condicionamento
afetivo e da adaptação aos modelos sociais e à moral preestabelecida, o
conhecimento fica reduzido a mera opinião.

Toda vez que a experiência psicológica é adaptada a uma percepção


consciente programada em base a convicções adquiridas por influência da educação
socializadora, a verdade não acontece para a consciência do homem porque ela se
mantém inconsciente. Na experiência psicológica, sempre transparece a informação
do real, e quando a consciência se tornar espelho exato, ela encontra a verdade. A
consciência só reflete o conhecimento verdadeiro caso se mantenha em contato com o
senso comum da própria natureza. É a norma da natureza manifesta na real
experiência organísmica que fundamenta a verdade científica, porque a vida não
conhece regras fora de si mesma.

O constituinte essencial da natureza humana é o espírito ou a mente e esta é a


inteligência intuitiva. Portanto, o verdadeiro saber se origina da luz do espírito ou da
mente que é o intelecto, e este saber só adquire forma científica se a consciência
representa ou fotografa a informação do intelecto. Quando a consciência não colhe ou
não capta a informação, o intelecto simplesmente registra no organismo e ali a
informação age de modo inconsciente, servindo-se de outros canais de informação ou
expressão corporais. O organismo é o objeto que expõe por primeiro o real externo e
interno. Quando o intelecto identifica que o organismo assimilou algo de adequado à
vida, ele expressa satisfação e saúde, e quando assimila o inadequado, gera reação
psicossomática imprópria.

Se a consciência for espelho exato do intelecto, ela resgata em conhecimento


tudo o que o organismo registra, porque o organismo sempre está em nexo com o
intelecto ou a mente do próprio ser, pelo fato da inerência. O saber não pode
contradizer e nem ofender a evidência revelada do ser, caso pretenda expor a
verdade. A ciência, em sua etimologia, é o saber que expressa a ação do ser. Verdade
e ser são conversíveis e, um conhecimento distônico ao ser é memória fixada sem
fundamento para fazer ciência nova: “Quem não for transparente para si mesmo, não
pode fazer ciência para outros2”. Portanto, é indispensável que a objetividade e a
subjetividade estejam unificadas pelo mesmo princípio que é o ser. A verdade só é
possível se o lógico não difere do ontológico. O ontológico é a lógica do ser. A verdade
é o modo do ôntico (= ser) refletir-se na mente ou no intelecto e na consciência.

Uma vez estabelecido o nexo entre ser e saber torna-se evidente que o
conhecimento humano verdadeiro é uma projeção antropocêntrica. O centro unitário
de onde emana o verdadeiro saber para o homem é sua identidade e, se
contrariarmos esse núcleo ou ofendermos essa raiz que nos dá a identidade, ela
produz desordem. Toda vez que nos posicionamos contra nossa identidade
percorremos o caminho de nossa anulação por enveredamos ao não-ser. Ao
mantermo-nos fiéis a esse núcleo quando agirmos, ele regulará a nossa ordem, a
nossa saúde e o nosso crescimento. O ponto de referência unitário que sustenta e
justifica o percurso do nosso saber é a identidade do nosso ser. Não contradizer o real
unitário torna-se a lei inviolável para que ele seja o ponto de partida no jogo dialético.
É no Em Si que nos identifica que encontramos a convergência de qualquer discussão
divergente. O princípio fundamental do pensamento lógico é o princípio ontológico da
identidade. A identidade aponta a convergência do meu modo de ser comigo mesmo.
Tudo que é distônico ou impróprio ao modo como sou constituído não reflete a
verdade para o homem e, portanto, é negação humana. A não-contradição é o
princípio que determina a não negar o valor humano quando se constrói saber, para
que o saber se torne serviço ao ser e humanize.

A ciência, quando pretende ser verdadeira, deve proceder em coerência com


os primeiros princípios da mente. A mente, em seu processo discursivo, é
intrinsecamente exigida a ser lógica, a ser coerente, a não se contradizer: se alguma
coisa é de um modo, não pode ser, ao mesmo tempo, negação daquele modo: o ser é,
o não-ser não é. Se o todo é maior que a parte, eu não posso afirmar que um homem
é toda a humanidade, porque isso fere o princípio de não-contradição. Em todo o
processo da elaboração científica os princípios de identidade e de não-contradição
devem ser respeitados para que haja coerência da verdade.

Se dois juízos são contraditórios entre si, eles não podem ser ambos
verdadeiros, e nem tampouco podem ser ambos falsos. Se um é falso, o outro é
necessariamente verdadeiro. Outro princípio que é determinante na mente é o
princípio da argumentação ou do silogismo: se duas coisas são iguais a uma terceira,
necessariamente são iguais entre si. Se A=C e B=C, A=B.

Quando nós pretendemos argumentar ou provar o valor ou a verdade de um


conhecimento novo, baseados na evidência de conhecimentos anteriores, nós
combinamos juízos entre si e raciocinamos. O raciocínio é o ato pelo qual a mente
progride no conhecimento por meio do que ela já conhece. Por exemplo: com base em
duas proposições ou juízos percebidos ou conhecidos como verdadeiros, se conclui
uma terceira proposição como conseqüência lógica das duas primeiras.

O nexo do raciocínio impõe que um enunciado resulte necessariamente do


outro. De um enunciado verdadeiro sempre resulta o verdadeiro e nunca o falso, de
modo que quando a proposição antecedente é verdadeira, a conseqüente é boa e não
falsa. A mente humana, ao raciocinar, ao formalizar ciência, tem regras implícitas tais
como: as proposições usadas no raciocínio só podem jogar com três termos – o termo
maior, o termo médio e o termo menor –, portanto, não se pode inserir um quarto
termo e nem subtender um segundo sentido no termo usado. Por exemplo: todos os
cães ladram. Ora, o vira-lata é um cão, logo, o vira-lata ladra. O termo médio nunca
entra na conclusão. Se o raciocínio ou silogismo se apóia em duas proposições
negativas, não se pode concluir nada e o mesmo vale para duas proposições
particulares.

As proposições ou juízos, quantitativamente universais, como por exemplo


“todos os homens são mortais”, incluem os juízos particulares ou singulares, porque
estes são implícitos e pré-contidos nos juízos universais, visto que eles simplesmente
restringem os juízos universais; portanto, alguns homens são mortais, bem como João
é mortal, e esses juízos estão contidos no juízo universal.
Existem dois gêneros de raciocínio ou argumentação: o argumento dedutivo e
o argumento indutivo. A nossa mente, ao construir o conhecimento, pode mover-se
partindo dos primeiros princípios conhecidos com evidência pelo intelecto e efetuar
deduções, tirando novas conclusões. Na dedução se procede sempre em coerência
com os primeiros princípios. Por exemplo: se o todo é maior que a parte, eu não posso
deduzir que o banheiro é toda a casa. As conclusões oriundas dos primeiros princípios
devem ser conformes aos objetos. Esse gênero dedutivo é também denominado
analítico porque desdobra em detalhes e em evidência interna os primeiros princípios
e tira novas conclusões, sempre segundo as normas da identidade, da não-
contradição e das regras do raciocínio ou silogismo.

O segundo gênero de argumentação é indutivo ou sintético. Nesse caso a


mente constrói o conhecimento subindo do plano sensível ao plano inteligível; a mente
descobre e formula um juízo universal do qual os dados singulares são partes. Essa
argumentação é também denominada síntese, porque a mente encontra um elemento
que é igual em todos os dados coletados. A mente sintetiza numa noção ou num
princípio descoberto e que pode ser aplicado em muitos casos concretos. Por
exemplo: se eu entendo o que é a diabetes e como resolvê-la, eu posso, mediante tal
conhecimento, resolver o problema em muitos indivíduos. Esse gênero de raciocínio
sobe das partes individuais à lei universal. Sendo corpo e intelecto, construímos o
saber segundo nosso modo de ser e nos movemos do sensível ao inteligível e do
inteligível ao sensível. É a identidade da natureza que sustenta o modo de proceder.

O ser humano, quando pretende formalizar conhecimento verdadeiro,


necessita, antes, conhecer tudo o que o condiciona e o impede: a família, o ensino, a
língua etc. e restabelecer o contato com a ordem da própria natureza. A verdade
resulta tanto pelo contato dos sentidos que conhecem por presença externa, e esse
conhecimento tem origem na variação de um setor do organismo (visão, paladar etc.),
mas que necessita ser integrado no organismo todo; quanto pelo intelecto que
conhece por presença interna. O intelecto é o leitor da variação organísmica, é ele que
revela a informação, porque ele formaliza em si próprio o saber. É o intelecto que
distingue e decifra o que é condizente e conveniente à identidade do homem. É o
intelecto que mede a adequação ou inadequação do objeto ao sujeito, por ser ele o
leitor do ser, da alma, do Em Si ôntico. O ser é o ponto de encontro do sujeito-objeto.
O saber, portanto, é conhecer aquele princípio unitário anterior e que quis expor-se em
dois.

O homem, em sua essência ou natureza, é um princípio cuja forma ou natureza


radical é a inteligência; a inteligência é, pois, a luz que formaliza o percurso histórico
da existência do homem no tempo.

O homem, quando pretende produzir conhecimento, necessita de três


passagens: a) a inteligência, que é a luz de sua alma, do seu ser ou de seu Em Si
ôntico; b) a consciência, que é o espelho que representa ou reflete a luz ou informação
do intelecto. Como a consciência não torna presente em seu espelho tudo o que o
organismo traduz da informação intelectual, a consciência não se torna exata, visto
que nela acontecem os erros. Esse é o motivo porque se tornou indispensável ajustar
a consciência ao real organísmico, o que significa fazer uma revisão do eu consciente,
antes de fazer ciência. Se a ciência busca a verdade, o cientista só tem condições de
revelá-la se for verdadeiro. Do falso não nasce a verdade; e, finalmente, c) a razão: A
razão ou racionalidade é a técnica de administrar aqueles princípios e fazer a
conexão, o nexo entre a realidade externa e a verdade interna, é o exercício que
administra as correlações entre os primeiros princípios e as percepções externas.
Se a razão fosse iluminada pelo intelecto que reflete o ser, o processo dedutivo
e indutivo do conhecimento seria verdadeiro, porque teria como ponto de partida o
fundamento do conhecimento, que é a identidade do intelecto humano. Porém, a razão
depende da consciência e esta não é o espelho da própria natureza porque ela
espelha o modo como cada um conhece a si mesmo e, sendo este incorreto, não tem
condições de projetar o certo. Projeta não segundo a medida do intelecto humano,
mas segundo o modo como foi ensinado e educado pelos outros, com base na cultura
oficial da sociedade, eis porque não se conhece segundo a ordem da natureza. O ser
humano nasce como projeção da natureza, mas se estrutura segundo a imposição
social.

Para verificar esse fenômeno basta observar como cada um administra os


próprios instintos. No intelecto o homem se reflete segundo a ordem da própria
natureza, e com base nessa ordem seleciona qualquer coisa em conformidade com
sua identidade humana. A consciência, porém, escolhe e decide em conformidade
com os estereótipos e modelos que apreendeu, os quais nem sempre sustentam sua
saúde e seu crescimento. A consciência reflete apenas os valores sociais, pois perdeu
o contato com os valores vitais. Nesse caso, o saber não mais tem a evidência
do próprio ser. Sem evidência e certeza, não mais se constrói saber verdadeiro.
Quase todos os seres humanos procuram apoiar-se no que “acham”, mas não
sabem com certeza se o que “acham” tem valor real ou condiz com a verdade. O
máximo critério da verdade é a evidência, porque só dela nasce a certeza.

A Estrutura da Ciência

O intelecto é ato que conhece e opera no interior do ser, é ele que intui e lê a
ação da alma, entende o que o ser é, e, a cada contato efetuado pelo ser, este se
deixa variar e o intelecto, lendo a variação, identifica a informação do real. O intelecto
primeiramente sabe que existe e sempre colhe por evidência interna o que sabe; por
conseqüência ele faz-se de critério da verdade, porque, ao ler as variações que
ocorrem no próprio ser, sabe qualquer outro que se revela em si próprio. É sempre no
interior de si próprio que ele encontra e conhece qualquer realidade.

A consciência é a faculdade que representa, que sintetiza ou fotografa, é, pois,


um dos instrumentos de informação do intelecto. A razão confronta, faz comparações,
julga e coloca os juízos em relação entre si. Razão e consciência são instrumentos
através dos quais o ser ou alma elabora o conhecimento e constrói a ciência. A
ciência nasce da coincidência entre intelecto, consciência e razão.

O erro acontece na consciência e sempre ocorre por interferência de causas


internas, como os preconceitos da infância, a formação imposta pela civilização, bem
como por causas externas, tais como, o raciocínio da razão desprovida de fundamento
ou o uso de argumentos para proteger a ideologia, ou justificar o instinto possessivo, a
pretensão de saber, ou até, a impaciência que gera análises superficiais etc. São os
condicionamentos sofridos e fixados que dão origem ao erro ou à opinião. O saber
requer adequação ao ser, ao leitor do ser, o intelecto e, para que a consciência tenha
acesso à verdade, ela precisa desfazer-se de qualquer idéia que repute absoluta e
abandonar e rever as fixações do passado, para estar disponível as variações
organísmicas que a cada momento o intelecto propõe como novas informações. O
intelecto acompanha e informa segundo o ritmo da vida e, a consciência, por hábitos,
recorre à memória do passado e não representa corretamente a informação presente
do intelecto. Para saber o real, eu devo acompanhar a dinâmica que reflete o variar
da vida, com suas mensagens sempre novas.

O objeto específico da ciência é representar mais objetos num significado,


numa teoria ou fórmula. O intelecto intui e lê o elemento que resume a
unidade explicativa dos fenômenos. Ele vê a causa que unifica a explicação dos
efeitos. A ciência, portanto, é conhecimento das coisas pelas causas.

Se, por um lado a filosofia busca a compreensão das últimas causas, a ciência,
em base a elas, procura elucidar as causas próximas. Se a filosofia tem a função de
esclarecer o ser, a verdade e o bem, a ciência versa sobre o aspecto verdadeiro de
um determinado ente (físico, biológico, matemático etc.). A ciência procura explicitar a
causa verdadeira de qualquer fenômeno físico, biológico, ou a verdadeira fórmula para
resolver o problema matemático. A filosofia procura definir a verdade e a ciência se
serve desse conhecimento para apontar a causa verdadeira dos fenômenos, ou
melhor, estuda como se revela a verdade na ciência, no respectivo objeto estudado.

A ciência tem a função de encontrar a síntese que formula um conhecimento


que consente intervir e aplicar em muitos. A ciência necessita ter valor
universal, portanto, é o saber que tem autoridade para todos. A ciência exige, no
entanto, demonstração, e a demonstração acontece se a causa conhecida,
quando aplicada, fica confirmada pelo efeito previsto na causa. O conhecimento
científico requer reversibilidade entre teoria e aplicação. O saber científico, quando
aplicado no concreto, é confirmado pelo resultado obtido. O ente lógico (da mente) e o
ente real (concreto) coincidem e estão em nexo. Quando se aplica o que se sabe,
o concreto responde segundo o previsto pela mente. O conhecimento lógico é mental,
mas este, por sua vez, deve ter origem no ôntico, no ser, porque se deixa de ser
projeção do ôntico perde o nexo com o real que fundamenta o encontro entre sujeito e
objeto. O saber necessita fundamentar-se em um ser (mente ou intelecto) que em si
(Em Si ôntico) distingue a identidade de sujeito e objeto. O ser é o uno que se
mostra em dois.

A ciência é o saber com o ser, o mesmo ser que uma vez é, e uma vez se vê.
O intelecto é aquele que repropõe o uno, porque ele, como ser, organiza a
matéria permanecendo fora (é transcendente) da matéria. Os sentidos escrevem, mas
o intelecto abstrai o sentido que se reflete nos sentidos. O intelecto, no momento em
que é, já se apresenta constituído em uma ordem, e é esta ordem inteligente que
evidencia a identidade do ser humano. O homem em seu interior é mente, é
inteligência e o corpo é a expressão desta ordem mental.

A relação entre mente e corpo corresponde à relação entre pensamento e


palavra. “A ciência é o conjunto de noções, conhecimentos, fórmulas, imagens que
representam a essencial realidade externa para a mente”. Como este conjunto de
noções tem que ser eficaz quando aplicado no real concreto, ele representa a
realidade prática.

Hoje o modelo científico mais em uso, no mundo acadêmico é o de aceitar


como base o testemunho de alguns autores. A elaboração de dissertações e
teses, quase sempre, deve ser fiel em confirmar o valor do referencial teórico em que
se apóiam. Este modelo pode condicionar o pesquisador ao limite das
descobertas, eventualmente, feitas no passado e, dificultar o avanço científico, com
novas criações e descobertas. Os esquemas externos impostos como aparente
garantia de cientificidade, levam a inferências e deduções que se radicam em uma
crença com base naquilo que os outros afirmam e permite confundir verdade com
opinião. Para resolver o valor do testemunho ou do autor em que o pesquisador apóia
seu trabalho, teria que examinar se ele tem competência sobre o tema, se ele partiu
da evidência, se teve como ver e entender o que propõe e se o fato descrito é
verdadeiro, porque o testemunho pode apresentar como científico o que
corresponde a uma versão acomodada às exigências de uma crença religiosa, ou
ajustada à moral aprovada ou condizendo à determinação de um partido, ou ainda a
uma situação histórica em função de defender as leis do estado onde vive, ou onde
vivem os testemunhos etc.

Por outro lado, na ciência se recorre com freqüência ao senso comum, mas
quando se apela à experiência de todos para fundamentar a ciência, é
necessário verificar se o consenso comum é constante e universal, ou seja, se ele
sempre existiu e é presente em todos os povos. Porque, se há um senso comum
presente só em certa crença religiosa, em certa raça ou só em certa nação, não se
sustenta a evidência da natureza humana. Além dessas exigências, torna-se
necessário examinar se aquilo que é considerado do senso comum não contradizos
princípios racionais da inteligência e se taisexperiências do senso comum concordam
com as regras da lógica universal.

O testemunho e o senso comum podem servir de base para a ciência desde


que ambos possam ser justificados através da evidência do intelecto, porque o
intelecto é o que vê e lê o mover-se da própria alma, onde se situa o princípio da
evidência e da certeza, bem como da ordem que projeta e organiza a ciência. O
critério que discrimina o verdadeiro do falso é o intelecto e não a consciência, quando
distônica ao intelecto. A filosofia é o fundamento da ciência porque dá os requisitos
primários do conhecimento humano verdadeiro. Usando as propriedades do intelecto
humano, pode-se analisar, discernir e intuir as bases para construir o conhecimento
científico. O conhecimento científico nasce como decorrência dos primeiros
princípios da mente (o intelecto). Esses princípios se antecipam em distinguir: o ser é,
o não-ser não é, distingue o verdadeiro do falso, o bem do mal, o maior do menor, o
certo do errado, o igual do desigual, a causa do efeito, o ponto que unifica a
multiplicidade e como o uno se aplica no múltiplo etc. Uma vez esclarecidos
esses princípios, a ciência serve para apontar a causa dos fenômenos, busca
entender os objetos através da causa, procura verificar de que modo a verdade dá o
poder de controle sobre os objetos ou mediante a análise dos fenômenos chega até a
causa explicativa. Organiza o saber segundo os princípios da lógica, da dedução e
da indução e confirma o valor científico através da aplicação do conhecimento no
concreto etc. A ciência demonstra como usar a base filosófica para construir
um conhecimento de valor que não se confunde com opiniões. Tudo isso significa
economia, porque a ciência, mediante o conhecimento da causa, pode evitar
efeitos prejudiciais e maléficos, antes que aconteçam. O ser humano necessita tornar
consciente o núcleo inteligente de sua própria vida, porque só esse núcleo dará a
medida e o critério para formalizar uma ciência que se torne um serviço à humanidade.
Toda projeção consciente que não se origina do núcleo inteligente da própria vida
contribuirá para a alienação humana e produzirá como efeito a regressão porque
o projeto de vida da humanidade fica comprometido e levado à anulação.

A ciência humana deve ter preeminência sobre a ciência tecnológica, para que
a técnica seja colocada a serviço do homem e não subjugar e escravizar o
homem pelo uso da técnica. A técnica é um produto do homem e não é justo que o
produto anule o seu criador, o homem. Isso é uma inversão de valores.

Hoje, entre os perigos que ameaçam a ordem da vida, o que mais se salienta
como corrosivo é a mídia, porque a mídia é um instrumento que toca diretamente a
vida humana. Quando a consciência não reflete a ordem que identifica a vida humana,
a mídia coloca o homem ao léu da última opinião e se transforma num instrumento de
manipulação, porque as opiniões são usadas para apontar endereços que nunca são
confirmados pelas imagens apresentadas. Há uma contradição entre o que se informa
como solução de problemas e o conteúdo das imagens, que repetitivamente,
repropõem a degradação. Já sabemos que, com base no inconsciente, os seres
humanos são conduzidos de um modo e se tornam conscientes de um outro. No
caso da mídia, temos o mesmo princípio em ação, porque se propõe uma informação
consciente em contradição ao estímulo inconsciente. Esse estímulo é dado
mediante a repetição de imagens ofensivas à vida humana.

Para quem observa os resultados da influência da mídia torna-se óbvio que os


seres humanos coletivamente estão se movendo na direção apontada pelas imagens
(in + me + agit = o que age em mim, o que está determinando minha conduta) e não
seguem os conselhos, as sugestões e as propostas apontadas pelos apresentadores
de esporte, de notícias, de filmes etc. Assim como nós nos tornamos doentes se
assimilamos um alimento deteriorado, nós nos tornamos e nos movemos segundo as
imagens das quais nos nutrimos.

Para entender o que se afirma, basta analisar um filme, uma novela, um


noticiário etc. Esses instrumentos, à medida que propõem os problemas
sociais, agravam, através do estímulo repetitivo, o mal social (serviria um filme de
família ou outro qualquer). A ciência humana necessita ser abrangente e formular
de modo científico tudo o que nasce do homem (Cinelogia, Onirologia, Imagogia,
Cinésia etc.), para conhecer o homem integralmente.
FILOSOFIA E ÉTICA

A Ética da Opinião

As várias culturas, enquanto se mantiveram isoladas, fixaram hábitos de


comportamento com base em costumes e formas de pensar que surgiram de
situações ambientais diversificadas. As tradições estabeleceram regras e leis para
viver e conviver.

Com o evento da globalização, as culturas e costumes sociais aproximaram-se,


e, através dos meios de difusão, foi possível verificar o pluralismo relativista de
modelos. Por exemplo, no vestuário os costumes oscilam da nudez em tribos
indígenas às formas sofisticadas de vestes para esconder o corpo feminino, como a
“burca” entre os talibãs. As religiões mais difundidas, ainda que sejam monoteístas,
cultivam modelos comportamentais diferentes: entre os mulçumanos, por exemplo, a
poligamia é legal, já no ocidente temos a monogamia.

As normas éticas baseadas na fé, ainda que amparadas e ditadas pelo “único
Deus”, justificam guerras e desavenças. Por fim, cada grupo considera a própria fé a
correta e a melhor. A constituição de cada país, na qual está contida a lei pétrea, tem
como justificativa que todo poder emana do povo e, em geral, admite-se o dito
popular: “a voz do povo é a voz de Deus”. O que acontece de fato é que as normas
escritas são impostas pela maioria do grupo que assume o poder ou por um ditador
que assumiu o poder mediante a força. Os códigos elaborados variam de uma nação a
outra e muitas leis têm origens motivadas pelo medo e pela insegurança que as
condutas ostensivamente desumanas provocam.

Apesar das diferenças de comportamentos, de costumes e de leis de um país


para outro, as doenças são sempre as mesmas, e a delinqüência e a violência
imperam, em maior ou menor escala, em todas as nações, independentemente do
modelo ideológico, político e econômico adotados. Verifica-se até que, nos países com
maiores recursos econômicos, o suicídio é muito freqüente e que países ricos
investem mais em armamento do que em medidas para resolver a fome. À medida que
a tecnologia avança, o homem se sente mais ameaçado do que confortado.

Um fenômeno bastante comum é a preocupação em recuperar a situação dos


decadentes. Por decadentes entendemos os delinqüentes, os carentes, os doentes, ou
até mesmo os pecadores. Teremos sempre condições de prover as necessidades dos
decadentes no amanhã, se estes aumentarem? O assistencialismo ao carente de
recursos para viver e se nutrir é bastante valorizado, de modo que quem procede com
generosidade, fazendo doações ou dedicando-se com exclusividade a eles é exaltado
por agir em nome da caridade. Geralmente se pressupõe a inocência do carente e não
se examina se há ou não responsabilidade.

O aparato social, em seu aspecto mais empenhativo, é montado para


solucionar os delinqüentes, e para isso se faz necessário arregimentar policiais,
cadeias, advogados, juízes etc. No caso dos carentes, existem entidades
assistenciais, planos de governo, arrecadações da mídia etc. Isso tudo excluindo até
mesmo as crianças que necessitam, por serem impotentes.

Para atender os doentes, a sociedade necessita de hospitais, médicos,


bioquímicos, enfermeiros, psicólogos, aparato tecnológico etc., e hoje começa a
transparecer, através de leis e decisões, que o mais carente tem mais direitos do que
deveres perante os demais.

Não se examina aspectos de culpa ou não. Entre os animais, se observarmos o


comportamento, vemos que eles sempre dão primazia aos mais fortes, alimentam-se
primeiro os mais fortes, parecendo que lhes interessa garantir a robustez da espécie.
Quando adoecem, quase sempre se isolam e, no momento de morrer, preferem a
solidão afastando-se do bando. No caso da alimentação, chegam a abandonar os
mais fracos, deixando-os morrer para garantir a sobrevivência dos que têm mais vida.
Eles seguem o princípio: onde há mais vida, há mais direitos. Estamos envolvidos
numa sociedade que está mais empenhada em salvar a sobrevivência, esforçando-se
por oferecer as bases mínimas e tentando excluir a violência gratuita contra a vida
humana (violência da delinqüência, violência das doenças, violência da fome e das
guerras).

Após a descrição dessa fenomenologia comportamental, a questão que se


levanta é: esses fatos ou fenômenos decorrem de um erro da natureza ou há algo de
errado em nossa cultura? A nossa cultura está apoiada em valores de fé, em valores
afetivos que nos ensinaram no passado ou em valores de conhecimento da própria
natureza humana? O homem conhece a si mesmo? Quando se afirma que
determinados comportamentos são desumanos, o homem sabe o que é ser humano?
O homem administra a própria vida segundo a ordem de sua natureza ou segundo a
imposição de valores interiorizados e que se baseiam em opiniões ou mesmo na
ignorância do real valor humano? O que se constata é que os seres humanos não têm
ocasião de aprender a ética ou a moral em base à própria experiência, mas aprendem
o que é certo e o que é errado, o que é bom e o que é mau, com base no que lhes foi
ensinado. Bom significa coincidir com a opinião de um grupo social onde se nasceu e
cresceu.

Para a criança, o bem consiste numa aceitação gratificante por parte do


ambiente circunstante, enquanto o mal coincide com a rejeição do ambiente
circunstante. Quando se é criança, essa ética, embora imposta, serve, porque a
criança necessita de segurança externa, de acolhimento e amizade para crescer, e
não tem condições de selecionar o adequado. A ação de adaptação é providencial na
natureza, visto que o ser, quando pequeno, é indefeso e não tem condições de
distinguir adequadamente tudo. Para a criança, esta é uma solução oportuna, até que
ela se qualifique para poder resolver com autonomia. A moral é o modo de pensar e
de se comportar que melhor salvaguarda a individuação no ambiente, em cada
situação.

O valor do comportamento, entretanto, depende de decisões e atos que


qualifiquem sempre mais em nível de saúde, de competência, de crescimento e de
autoconhecimento. O modelo da cultura tem seu valor enquanto for eficaz à
funcionalidade do crescimento cotidiano do ser humano. O crescimento do homem
depende de boas ações; não boas por obediência, apenas, mas boas em relação ao
ganho e à evolução existencial. Ações boas são as que me fazem ser construtor
prático do meu bem-estar, do meu aperfeiçoamento. Ações más são as que levam à
falência da vida. Saber como se regular entre as exigências do ambiente e as
necessidades vitais requer inteligência, que é dote da natureza, e não apenas uma
consciência clonada por interiorização da opinião social.

No início da vida, não há outra alternativa, senão a de aceitar uma moral ou


ética que nos foi transmitida com convicção, e até com amor, e que tínhamos que
concordar para garantir nossa sobrevivência. Alguém com mais condições do que nós
impôs e, sentindo a necessidade de amparo, tínhamos que aceitar, depois essa
imposição foi ampliada através de leis e, por fim, dada a tais exigências a veste do
Deus soberano. Desse modo o homem aprendeu apenas a adaptar-se a tudo,
mantendo-se em ignorância de si mesmo. A moral é inerente a todas as ações do
homem, só que cada ação é praticada mais segundo o modo como os outros encaram
ou aceitam, do que segundo o critério da ordem vital: isto acontece desde a veste
usada ao modo de se alimentar e usar o banheiro etc.

Os indivíduos que lutam contra as regras impostas o fazem porque neles a


exigência de imposição é mais violenta do que a imposição da lei externa: é mera
reação proporcional ou desproporcional à ação sofrida. Tanto os que se adaptam à lei
como os que combatem a lei estão em referência a um modo de comportar-se que
revelam a ignorância do modo de ser humano. Não há delinqüência e nem doença que
não tenha origem no erro ético do sujeito. O erro sempre é contra a ordem da própria
vida. Cada um de nós pode colocar-se contra a sociedade ou contra a própria vida,
mas nenhum de nós pode mudar o modo de ser humano.

Colocar-se contra é anular o próprio projeto de vida a ser construído. É por isso
que para se resolver é necessário evoluir de modo inteligente a ponto de encontrar o
equilíbrio entre as exigências sociais e as próprias necessidades vitais. Nossa
inteligência é proporcional, e não absoluta. Se ataco a sociedade, posso ser eliminado
e privado da liberdade; se contrario a ordem da vida, posso adoecer e regredir até
morrer. Por ato ético bom ou por moral correta, entende-se que a decisão e a forma de
comportamento sejam as mais adequadas, na situação, para manter a vida íntegra do
sujeito e aperfeiçoá-la, segundo sua identidade pessoal.

O Critério Ético

O critério é o ponto que estabelece a diferença entre o que é bom e o que é


mau, entre o que é correto e o que é mais inadequado. Se, de um lado a
metafísica estuda o ser e seus modos, buscando elucidar a identidade e a essência do
ser humano, do outro, o conhecimento do homem, para ser verdadeiro, não pode
ser distônico ou alienado ao tipo de inteligência que define e defende a identidade do
que é humano e do que não é humano. O saber necessita respeitar e basear-se
no protótipo do meu ser. O intelecto humano, sendo o reflexo do próprio ser, dá a
forma de saber condizente e conveniente ao homem. O saber verdadeiro
requer compreensão do próprio ser. O saber alienado de tradução do próprio ser é
opinião avulsa. Se o homem conhece a si mesmo, surge o problema: que
decisão tomar, que comportamento adotar? Para essa solução, entra a decisão da
vontade. A ciência brota da inteligência e a ética tem origem na vontade. O ponto de
discernimento entre o que é bom e o que não é tem origem no intelecto, porque este lê
na vida o que é adequado, o que convém ou não à própria identidade do homem.
A decisão da vontade em agir para aperfeiçoar, melhorar e manter o próprio valor é
um ato bom, e quando se decide por um ato que diminui ou nega o próprio valor, é um
ato mau.

O critério fundamental para identificar o bem e distingui-lo do mal é constituído


pelo modo de ser humano, pela sua natureza, pelo modo como foi constituído em seu
ser e não apenas pelo modo de pensar. É por isso que o organismo diz a verdade
quando a consciência erra em seu modo de pensar. Se a vontade se adequa ao modo
de ser, é boa; quando se opõe, é má.

É bom tudo o que aperfeiçoa e aumenta a vida. O bem, para o homem, é a


decisão e o ato que promove a vida, sua funcionalidade e seu ser, tanto em relação ao
sujeito quanto em relação à sociedade. A mesma identidade do ser estabelece a
ordem do bem individual para o sujeito e do comum para a sociedade.

O critério é sempre de relação. Se esta relação é estabelecida entre a vontade


e a natureza, nós temos o critério ético do humano; se é da vontade com a fé,
temos um critério religioso; se é do comportamento com a lei, temos um critério
democrático ou de opinião. Nestes dois últimos casos, o indivíduo escolhe não por
como as coisas são para seu bem, mas por como a consciência da maioria ou da
crença compreende e estabelece. No critério ético do humano, necessita-
se autonomia de conhecimento.

Pelo critério da lei, o indivíduo é responsável ou deve responder por tudo o que
deveria saber. Pelo critério da religião, ele é responsável pelo que tem
consciência. Pelo critério da natureza ou da vida humana, o indivíduo é responsável
por como é a realidade. Diante da sociedade e da religião, pode-se admitir certa
inocência, mas o ser humano não pode inocentar-se diante da própria vida ou de seu
ser: ou ele se compreende e age conforme as normas de sua vida ou paga o
preço dos erros contra ela. A vida não desculpa e nem perdoa, ela exige exatidão de
conhecimento e correta administração, porque o erro contra ela acarreta dano
ou perda da mesma.

O objeto da ética é o ato voluntário. A decisão da vontade é um ato interno, é


uma ação que, quando exteriorizada, torna-se comportamento. O intelecto extrai o
conhecimento refletindo a tradução da vida e, através da cognição, vê o que é
adequado ao próprio ser ou ao apelo da natureza, e só então intervém à vontade, que
pode agir ou não. O intelecto vê os valores apropriados à vida. Se a vontade se guia
pelo intelecto, ela escolhe o que convém ao próprio ser, decide em conformidade ao
que é de vantagem segundo a verdade da própria vida e, por isso, através da decisão,
confirma o egoísmo vital, conseqüentemente decidindo pelo que é bom. O ser, a
verdade e o bem se fundem. O ser é o fundamento, o intelecto é o reflexo do
fundamento.

O intelecto, sendo reflexo da variação do ser, propõe a verdade, e a verdade


conforme o ser, se decidida pela vontade, é benéfica, útil e conveniente à própria
vida, ou seja, é boa. Toda vez que a decisão se conforma à verdade, a vida, o ser se
aperfeiçoa. O intelecto tende à verdade, a vontade tende ao bem; por decorrência, a
verdade e o bem sempre apelam pelo ser, pela vida como fundamento. Decidir sem
saber o que é verdadeiramente apropriado à vida é resolver a situação com base na
opinião injustificada ou com base na ignorância, e isso confirma a má decisão ou o
erro ético.

A decisão pode apoiar-se numa forma de interpretação da consciência quando


esta não espelha a visão do intelecto, mas sim um condicionamento do passado ou
uma influência afetiva, uma paixão que ofusca a inteligência e condiciona a
consciência. Desse modo a vontade decide mal e prejudica a própria vida e o próprio
crescimento. Ignorando a forma correta da solução presente, a vontade escolhe com
base em interpretações errôneas ou inconvenientes. Nesse caso, o indivíduo escolhe
por como entende e não por como as coisas são. A decisão da vontade sempre
formaliza o ato ético, quer se trate do bem ou do mal. O ato ético, em sua origem, é
uma escolha interna e, quando a escolha entra em exercício, acontece o
comportamento. O comportamento é o efeito do ato ético. A vontade, internamente,
pode ser livre diante do que é proposto pelo intelecto, do que é
verdadeiramente adequado escolher. Ela pode decidir querer ou não, porque a
liberdade é a faculdade que consente qualquer uma das decisões possíveis, e essas
decisões podem ser positivas ou negativas, parciais ou plenas e podem escolher tanto
o que lhe é benéfico quanto maléfico. Quando o sujeito é coerente com aquilo
que Filosofia Elementar 128 lhe é próprio e adequado, com aquilo que é bom, a
sua liberdade é relativa, porque é regida sempre pelo seu egoísmo vital e suas
escolhas são somente alternativas boas.

No caso do arbítrio em que o sujeito decide não necessariamente em prol de


um egoísmo vital, mas em prol de um egoísmo ligado a paixões patológicas, a
estados emocionais alterados etc., a decisão sempre se transforma em um ato ético
mau. O indivíduo decide pelo mais cômodo ou pelo condicionamento e não
pelo melhor e correto. Outro fato que interfere na liberdade, diminuindo ou impedindo a
decisão da vontade, é a coação ou a violência interna. Os estados emocionais
ativados por contágio ou complexo latente podem coagir a vontade e subtrair a
liberdade. Nesses casos acontece uma redução de responsabilidade ou uma anulação
do ato ético. A redução redunda em demérito, porque restringe o potencial da
exatidão, impedindo a melhor decisão e induzindo a uma conduta errônea. Outro
elemento que pode anular o ato ético é a violência física externa; tudo depende da
intensidade maior ou menor da violência para caracterizar o ato da vontade. Uma
forma de ato voluntário exclusivamente mau, decorrente do livre arbítrio, é o caso em
que o sujeito conhece perfeitamente o bem e conhece o mal, mas decide por não
acolher o bem, escolhendo o mal que é danoso à própria vida. O ser humano pode
saber que o objeto escolhido é impróprio e prejudicial, mas pode querê-lo. No caso do
arbítrio não é a verdade que guia a vontade, mas sim as opiniões, os
constrangimentos, as posições sociais etc. O indivíduo se guia pelo que “acha” e
pensa com base no que os outros aplaudem, mas não com base no que é certo. O
critério do bem e do mal se baseia em uma adequação à identidade da natureza
humana. O mal é sempre um parasita do bem, porque se aloja em um bem, mas reduz
o bem por uma imperfeição. O bem sempre exige integridade da causa, o mal
acontece por qualquer defeito. Um só ponto que não é eqüidistante do centro de um
círculo faz a circunferência ser má.

A Moral Social Segundo a Natureza

Vimos que há uma moral ou uma ética que estabelece os princípios da relação
da vontade com a própria vida, com o próprio valor individual a ser conservado e
desenvolvido. Todo ato ético bom beneficia o egoísmo vital, e todo o ato ético mau
ofende e prejudica a ordem da vida, causando doenças etc.

Há, porém, regras morais que se originam da relação com os outros. Essas
regras sempre implicam a vontade e as variáveis sociais. As variáveis sociais podem
regular e alterar o valor da decisão voluntária: por exemplo, um ato bom, em relação à
decisão do indivíduo, pode transformar-se em um ato mau devido a uma circunstância
social. Por exemplo, o sexo em praça pública realizado por duas pessoas que se
amam e são casadas assistido por crianças é inconveniente para ambas as partes,
devido ao possível escândalo e ao mau exemplo ocasionado em decorrência do
local inapropriado para tal ato.

Outra variável social que modifica uma ação que pode ser boa, mas que,
devido à intenção de quem a efetua se transforma em má pode ser percebida
no seguinte exemplo: fazer oferta aos doentes só para ser visto pelos outros equivale
a mentir para receber aplausos. A ação pode ser boa, mas a intenção é perversa. Uma
obra boa feita com a intenção de enganar torna-se má. Na relação com os outros,
sempre se deve olhar o que é conveniente para ambas as partes: eu e os outros. O
mal é ofensa à natureza e esta agrega muitos indivíduos, mas a natureza é uma
inteligência que em si é ordem e organiza a matéria sem ser matéria.

Nas relações sociais é indispensável ver qual é a intenção do sujeito que


pratica a ação, qual é o fim visado pelo sujeito que opera o ato. Outro requisito a ser
examinado é o fim intrínseco da obra ou da ação. Ex.: uma mentira para obter lucros.
A mentira é ação má, para obter vantagem, em si é ação boa, mas aqui o fim não
justifica o meio. Por fim, importa examinar se as circunstâncias são adequadas e boas
na relação com uma determinada ação boa. A natureza exige o equilíbrio inteligente
das partes. Esse equilíbrio está em um meio termo, e o meio termo do equilíbrio
foi denominado virtude. As virtudes básicas são: a justiça, a temperança, a fortaleza e
a prudência.

Os direitos e deveres são regidos por virtudes e estas são forças de


ponderação, exigências comedidas de relações equilibradas, porque elas não podem
ser injustas, violentas, ofensivas e destemperadas. O destempero acontece entre a
razão e a emoção, a fortaleza dá a coragem suficiente para enfrentar as
dificuldades sem a prática da violência. A justiça dá a justa medida entre tirania e
anarquia. A prudência dá o comedimento para não se exceder no atrevimento e nem
bancar o maluco.

O critério de base sempre é a natureza porque dela fazem parte todos os


indivíduos humanos. A natureza prevê a individualização que tende a manter-se sadia
e crescer à realização, porém, para isso, necessita inserir-se entre os outros. Isso faz
parte do bem pessoal. É a natureza que dá a medida humana para que a cultura e a
socialização preservem o humano e organizem o social para assegurar o bem comum.

Como nós somos mente e corpo em ambiente, necessariamente entramos em


relação com os outros, ampliando o ato ético e comporta a necessidade de encontrar o
equilíbrio entre as partes, pois existe um bem e um mal para o sujeito e um bem e um
mal para os outros. Apesar da diversificação, isso não implica em exclusão, mas em
complementação, porque a lei internada natureza confirma o que convém segundo
a identidade ôntica onde as almas se encontram na convergência em ser. A identidade
ôntica, ou da natureza, ou “a essência de um homem é a unidade de ação
que especifica uma forma de inteligência num universo de vida”. A natureza ou
essência sempre agrega uma pluralidade de indivíduos e, mediante sua forma de
inteligência, tem condições de formalizar regras de convívio sem ofender a identidade
de cada um, estabelecer limites apropriados de liberdade para construir
uma humanidade sempre mais perfeita.

A lei natural é ordem racional ao bem, e, mediante a forma da própria


inteligência, o homem formaliza a ordem racional ao bem comum, acarretando
a projeção de leis sociais. A lei interna sempre confirma a identidade humana e
discrimina o que convém para reforçar o humano e apontar o que é útil e benéfico
em cada relação. O mal sempre é ofensa à ordem da natureza porque diminuiu o ser
do sujeito e, por ampliação, prejudica o grupo de referência e o bem comum da
convenção social.

O homem, quando se empenha em conhecer a si mesmo, logo percebe e sente


que foi feito e que existe dentro de um contexto organizado. Esse contexto é regido
por uma ordem preexistente que é própria de toda a natureza; o homem é um
elemento dentro da ordem ou da lei universal. Quando ele se vê e se
conhece, constata que, no caso de se opor a essa ordem maior, se anula. No entanto,
basta que ele se compreenda para descobrir que, somente pelo fato de existir, já está
inserido dentro desta ordem, que é inerente em seu modo de ser. Quando ele conhece
e realiza a si mesmo, tudo prossegue em ordem, tudo se torna compreensível e ele
simplesmente entende tudo através do conhecimento de si mesmo. O bem, o justo e
o verdadeiro sempre amparam e promovem a existência individual quando sustentam
o bem comum. Partindo da compreensão do próprio corpo individual, ele
pode descobrir a melhor ordem para dar estrutura ao corpo social. Nosso corpo é uma
sociedade de células e nessa sociedade não existem células ociosas, cada uma
só existe enquanto contribui com sua tarefa para o bem do organismo e quando não
mais tem condições deixa seu lugar a outra. A lei intrínseca à natureza do homem dá
origem às leis formadas para garantir a ordem racional ao bem comum. “Uma lei em si
mesma é válida e pode fazer obrigação se tem ordenamento racional ao bem comum,
ao bem do grupo, daqueles que deverão observá-la”.

Por essa razão, quem programa as leis necessita de um conhecimento mais


exato de si mesmo como ser humano, de uma compreensão de como é constituída a
natureza, porque esse é o critério e o ponto de referência para projetar leis que
sustentem a ordem social, pré-contida no intelecto de nossa natureza humana. A
consciência necessita estar adequada ao próprio intelecto.

Se a consciência estiver comprometida com ideologias, com opiniões que


desconhecem o valor humano radical, projetará leis em base ao arbítrio, o que de fato
resulta em prevaricação de poder, porque as leis deixam de garantir a funcionalidade
pública.

As leis feitas tão-somente por ocasiões de horrores praticados por alguns,


bloqueiam males, mas é preciso levar em conta que elas adquirem poder sobre todos
e podem causar desequilíbrio entre direitos e deveres, além de aumentar a opressão
sobre cidadãos corretos. O ponto que funda a ordem da relação é o valor humano e a
lei deve ter como guia o valor humano e, para isso, ela não pode apenas bloquear o
erro de alguns, porque pela generalização da lei, o humano é oprimido e prejudicado
na autodefesa e no crescimento.

As variáveis sociais podem dificultar a reta compreensão do critério integral da


natureza e a consciência, sendo falha na forma de compreender a própria existência,
não estará apta a formular leis que sejam de valor nas relações sociais. O acúmulo de
leis pode provocar paralisação evolutiva e a evolução é uma propriedade da natureza.

Compreender a própria natureza humana, tal como ela se mostra, e entender o


dote intuitivo da própria inteligência é o único modo de agir com vantagem dentro das
leis do universo e, se queremos aplicar e adequar esse critério nas relações múltiplas
dos indivíduos entre si, somos exigidos a nos basear numa racionalidade exata.

O ser, o saber e o fazer estão em continuidade. Quem compreende a própria


alma tem acesso ao princípio que move com ordem a natureza individual, e esse
mesmo princípio rege a funcionalidade biológica, psicológica e transcendente. A
funcionalidade biológica é a que estabelece a exatidão das exigências e
ações corporais para garantir a saúde. Ser sadio é saber viver em consonância com
as necessidades da própria natureza; a regra é não quebrar a hierarquia da
ordem expressa nas proporções inerentes à natureza.

No plano psicológico, a natureza apela a funções que resolvam os próprios


problemas vitais, como a economia de auto-sustento, o trabalho, a segurança legal
etc. A economia torna eficiente a possibilidade de livre evolução pessoal. Uma vez
dada a resposta a tais exigências, a natureza se abre para funções superiores que
visam aprimorar o quântico de inteligência a ser ulteriormente aperfeiçoado. Esse
paradigma que regula o bem-estar da pessoa fica ampliado na sociedade.
As bases mínimas de uma sociedade são a sobrevivência e a possibilidade de
excluir a violência física irracional. A base média preocupa-se em manter a sanidade
social nas relações, que exige segurança, escola, proteção familiar e economia
suficiente. A educação necessita de um processo de personalização e não apenas de
aculturação e adaptação. A base ideal seria uma sociedade perfeita: essa consente
crescimento em quantidade e qualidade a todos os que respeitam a lei.

A Dupla Moral

A lei tem por finalidade o bem do próprio corpo social. Para esse bem é
indispensável estabelecer a medida na distribuição de valores e até de honras. A
necessidade da aquisição da alimentação própria e das necessidades pessoais
sempre deve preceder a procriação. A educação não pode restringir-se à aquisição da
cultura para o exercício da profissão, mas, além da tecnologia, a educação deve
abranger o trabalho de humanização, em que cada um necessita
responsabilizarse pela própria evolução pessoal, com a finalidade de oferecer um
contributo de melhoria social.

Enquanto na sociedade as leis são formuladas com base na convergência de


opiniões, o excesso de leis aumenta obrigações e restringe de modo acentuado
as liberdades individuais. Revisar as leis para torná-las mais flexíveis e menos
ofensivas ao cidadão torna-se uma necessidade da educação.

Para nós cidadãos, a prudência nos ensina que não convém propor ideologias
de combate ao sistema vigente, porque pretender combater e reformar a
sociedade, antes de revisar a própria consciência para torná-la mais exata é uma
pretensão infundada. As ideologias antagônicas sempre reciclaram a sociedade em
conflitos e esse não é o princípio do equilíbrio da inteligência humana.

Antes de qualquer nova ideologia temos que resolver uma equação: Salvar o
valor pessoal sem agredir e desmontar os valores sociais. A sociedade é
uma constante incubadora de valores fixos, mas é também um útero aberto de
vitalidade. Para resolver a socialização sem impedir a construção do valor pessoal,
cada um de nós necessita de uma evolução de consciência, de uma capacidade crítica
de inteligência para descobrir como se resolver, salvando o valor da subjetividade da
própria pessoa e conviver com o social independentemente de como ele é. Trata-se de
adotar uma dupla moral, já prognosticada há tempo pelo filósofo Bergson. A dupla
moral tem função de resolver a pessoa no ambiente. A pessoa, resolvendo o próprio
valor, consente uma melhoria na ordem social. São os indivíduos que evoluem em
inteligência, que contribuem para uma eficiência social e reforçam a evolução
natural. O indivíduo se radica na sociedade e a sociedade é feita de indivíduos.

A sociedade sempre é um útero e tudo depende do modo de metabolizar o


contexto social para saber como contribuir com a própria possibilidade e realizar o
próprio valor pessoal. Descobrir como se posicionar e se resolver dentro do complexo
contexto social é o único modo de se firmar como pessoa. Quando o indivíduo culpa
sempre os outros e a sociedade pelo próprio insucesso, ele se exclui como
protagonista, e isso torna impossível a solução da situação em que ele se encontra.

A pessoa inteligente deve saber que a lei não pode ser perfeita nem justa, e
nem mesmo poderá ser o protótipo do bem, mas quando é sustentada pelo poder do
grupo que a aprova, convém respeitá-la, ainda que, no próprio íntimo, não se faça por
convicção. Simplesmente trata-se de adaptar-se dentro da medida exigida, com
diplomacia, mesmo que se faça fingindo em adotá-la como solução única.
A dupla moral leva a distinguir entre a exigência da lei externa e o valor interior
da própria natureza individual. Saber como equacionar com equilíbrio esses dois
valores é a solução para conviver e se construir. A inteligência intui o que se faz
necessário selecionar da sociedade para investir em benefício próprio e assim cultivar
os dotes que a natureza nos deu. Isso é possível sem ofender as leis e sem atacar a
sociedade. O respeito provisório da lei redunda em solução melhor para viver. O
indivíduo que melhor se resolve no contexto social em cada nova situação, oferecerá
elementos de melhoria futura para a sociedade. Saber viver e conviver é o melhor
modo para crescer.
FILOSOFIA E SER HUMANO

O Contexto da Vida Humana

Ao nascermos nos é dada uma vida humana com a tarefa de nos construirmos
como pessoas. Na essência, o ser humano é mente e é princípio formal inteligente
porque é dotado de uma capacidade de definir a si próprio. A pessoa se define
conforme o ente histórico acontece. Nascemos segundo a natureza, mas podemos
nos construir fora do endereço da natureza.

Na história existem três momentos que interagem em nossa pessoa: o


momento cultural, o momento social e o momento individual. O indivíduo pode tornar-
se mais fruto da influência cultural e social do que resultado de sua identidade
pessoal.

Por cultura, pode-se entender o modo de viver do homem, ou mais


especificadamente, podemos dizer que cultura é o conjunto dos modos ou modelos
que o homem programou para dar uma resposta aos problemas e aos interesses de
sua existência. Para esses programas concorrem a ciência, a moral, a fé, as
tradições, a arte etc.

A esfera cultural nos investe psicologicamente e pré-orienta nossa pessoa na


interioridade. Cada um de nós assimila costumes, modelos de
relacionamento, crenças transmitidas, instruções dadas, educação recebida e leis que
nos impuserem.

Uma vez conformados à cultura, aprendemos a resolver situações


problemáticas à luz dos modelos do passado. Isso pode levar a uma acomodação
pessoal. A falta de empenho em investir em novidades de solução nos esquematiza e
nos fixa na cultura assimilada. À medida que sacralizamos o passado e nos
transformamos em passivos integrados, sacrificamos os anseios de crescimento de
nossa própria pessoa. Sempre que nos posicionamos em defesa e rigidez de
manutenção da cultura oficializada, procedemos como um filho conservador que
necessita proteger a velha mãe a quem cada um se ligou quando indefeso. O modelo
de comportamento do conservador facilmente entra em conflito com o inquieto e
nervoso, porque este, sendo dotado de maior sensibilidade, adverte que o
contexto cultural, com seus modelos fixos, é insuficiente para viver bem e, em muitos
casos, os modelos sufocam a aspiração de autenticidade. O nervoso facilmente
se transforma num contestador porque não suporta a imposição dos modelos quando
estes cerceiam sua liberdade. Ele, embora não encontre a solução dos conflitos entre
as exigências culturais e a autenticidade pessoal, alerta e revela a crise. Quando o
contestador não vê perspectiva de solução, facilmente lidera movimentos de revolta
generalizada ou se associa a ideologias radicais de oposição à cultura e à ordem
social.

Há um terceiro tipo que podemos denominar de inovador. Este, sendo mais


criativo, cria com sua inteligência novas respostas aos problemas, procura ampliar a
cultura e, quando acerta, presta um serviço de valor à sociedade. Esse tipo propõe
novidades nem sempre aceitas por todos e sofre a oposição dos integrados e
conservadores. O inovador sempre tenta arriscar com suas propostas a salvar a
autenticidade pessoal.
Em uma simples comparação, poderíamos equipará-los ao enfrentarem uma
batalha: na situação de combate, o nervoso vai na linha de frente; o
conservador sempre se mantém na retaguarda e espera que morram os outros; o
inovador planeja novas estratégias para vencer. Cada um de nós diante de nossa
cultura adota um dos três tipos ou um pouco de cada um.

A esfera social corresponde à distribuição dos indivíduos em determinadas


posições ordenadas a um fim preestabelecido. Os diversos setores de
atividade necessitam de uma diversidade de tarefas, de profissões, de posições
sociais, de desempenho de papéis e funções para obter o bem comum.

A sociedade nos enquadra exteriormente. Nela nós temos que desempenhar


funções e ocupamos posições na relação de uns com os outros. Por exemplo, um é
gerente, outro é empregado, um é marido, outra é esposa, um é pai, outro é filho, um é
advogado, outro é cliente, um é juiz, outro é réu etc. Essas funções exigem de nós o
desempenho de tarefas estabelecidas por regras de conduta, por costumes, por ética
profissional etc.

As diferentes funções condicionam a pessoa, e o indivíduo facilmente se


mascara por trás das funções ou da posição que ocupa, da profissão que exerce ou do
“status social” que exerce. Por exemplo, é inconcebível que um papa conte piadas de
sexo. Um marido se sente impedido de falar à esposa que se sentiu atraído por outra
mulher. A mãe procurará esconder o fato de ter rejeitado um filho que nasceu. O
namorado se sente inibido em contar suas aventuras à namorada etc. Há uma
tendência nas relações humanas, denominada diplomacia, em que se mascara a
própria autenticidade por trás da função ou da posição que se ocupa em relação aos
outros.

Nós nascemos por generosidade da natureza, mas somos modelados segundo


os esquemas da cultura e da sociedade na qual crescemos. Essa situação faz com
que a maioria tenha uma personalidade-esquema, ou seja, tenha apenas uma
personalidade moldada pela história. A personalidade-esquema se constitui a partir da
memorização dos modelos culturais e sociais interiorizados. Os modelos tornam-se
tão arraigados que a própria pessoa não mais se dá conta que, ao emitir uma opinião,
sempre recorre àquilo que aprendeu no passado.

Enquanto as pessoas não aceitam o novo e pretendem enfrentar o presente e


o futuro somente com os olhos do passado, a evolução da capacidade intelectual fica
paralisada. Nós podemos nos transformar em bibliotecas ambulantes que só sabem
usar a memória e não mais conseguem criar nada de novo.

No convívio, em geral, há necessidade de adotar muitos esquemas, mas o


importante é despertar para perceber que nos tornamos apenas conformistas e
não construímos o valor irrepetível de nossa pessoa. É necessário zelar para que a
adaptação não se transforme em convicção de valor único e intocável. É a
conformação aos modelos fixos que impede ou anula a possibilidade de salvar a
autenticidade da própria pessoa. Cada um de nós é chamado a ser pessoa autêntica e
verdadeira, mas a situação atual não nos incentiva e nem nos dá espaço para que isso
aconteça. Hoje o homem é orientado a consumir e não a crescer como pessoa
autêntica. O filósofo grego Diógenes ousou dizer que “os homens vivem mal por causa
da própria estupidez1”. Não convém fazer da instrução uma imposição.
Natureza e Pessoa Autêntica

Por natureza entende-se tudo o que tem origem, tudo o que surge por
nascimento; significa tudo o que a ação da mente põe ou faz nascer e escorre ou
age por si. O termo é aplicável em escalas diferentes, por exemplo: natureza animal,
natureza vegetal, natureza humana etc. Ao usarmos o termo natureza nesse
texto, sempre a entendemos como natureza humana.

A natureza é a espécie que identifica uma pluralidade de indivíduos. A


natureza, portanto, se coloca antes de nós e é no interior dela que nós existimos.
A natureza dá forma humana e por natureza nós somos todos iguais. A natureza é a
essência através da qual acontece a presença da pessoa.

Como pessoa, cada um de nós é único, é distinto, é irrepetível, porque cada


um de nós é dotado de uma identidade peculiar. De fato, natureza e pessoa sempre
acontecem juntas e se mantêm inseparáveis.

Quando nossa natureza se relaciona, ela varia e informa, e se a nossa


consciência tem acesso a essa informação, a pessoa se constrói conforme a si
mesma, conforme a própria identidade. Se cada um de nós pretende fazer-se pessoa
autêntica ou verdadeira, não se pode perder o contato com a própria unidade de
ação da forma humana, porque é a unidade de ação que dá origem à unidade de
medida da verdade. Humano se nasce, mas pessoa se constrói em base à capacidade
de inteligência que é própria da natureza, mas é especificada em cada pessoa. A
pessoa se diferencia psicologicamente, uma da outra, pelo quântico de
inteligência própria. Pessoa significa existir de modo próprio, por si, e diverso de todo
o resto. A alma ou a mente, embora seja o constituinte básico do ser humano,
não torna o sujeito pessoa sem a individuação: “A pessoa constitui-se pelo ente
histórico individuado”. A pessoa é constituída de intelecto e orgânico, de corpo e
alma, desse conjunto unitário e indivisível. É a existência, é a matéria que efetua a
divisão e faz a multiplicidade dentro da mesma natureza, porém a alma e o corpo
fazem um princípio único de ação histórica. O Ser sendo princípio universal, quando
acontece no mundo se torna fenômeno, se faz existente, se faz histórico.

Como o indivíduo nasce situado num ambiente, ele é sujeito responsável tanto
diante da lei social como pela sua vida pessoal; essa responsabilidade o
compromete a agir tanto em conformidade com a lei quanto em conformidade com
suas necessidades vitais. Ele é necessitado a responder tanto pelas normas
jurídicas quanto pela própria existência. Sabendo se resolver diante dessas exigências
ambivalentes, ele terá como resultado a saúde e o próprio crescimento.

O animal não é pessoa porque lhe falta essa tipologia de inteligência que
permite o uso da liberdade. A liberdade é uma possibilidade indefinida, o animal
se sente já definido em seu modo de agir. A pessoa necessita desenvolver a própria
inteligência e, para isso, precisa aprender como se mover diante da dupla
moral, mediante a qual o sujeito respeita as leis sem ofender a dignidade do valor
pessoal.

O processo de formação da pessoa autêntica deriva de uma relação


antropocêntrica. A pessoa necessita tomar consciência do que o núcleo da vida
humana informa ao variar e, portanto, deve ler em si mesmo a ação do real que a
constitui. No interior de cada nova relação nasce uma nova interação, e a pessoa,
refletindo ou lendo em si mesma a novidade de informação oriunda da relação, nasce
em novidade de saber. Eu me torno pessoa à medida que integro em mim a
novidade de cada nova relação, e essa novidade me faz crescer em saber e ser,
mediante projeção antropocêntrica. Quem lê o campo semântico conhece o real
em suas variáveis.

Basta uma diversidade de tempo, de espaço e de experiência para que se


forme uma nova personalidade original, com identidade própria. A clonação não é
um problema, porque a identidade pessoal não deriva tanto do aspecto biológico, mas
sim de sua especificidade de ação e esta é dada pela forma de identidade psíquica.
O valor real da pessoa é centrado na identidade psíquica. Ao fazer-se autêntico, o
indivíduo sempre contribui no processo de humanização. A evolução humana
depende da contribuição de pessoas autênticas.

No íntimo do ser humano manifesta-se um apelo à própria realização, esse


apelo não se reduz a um 157 Capítulo V – Ser Humano e Ser Pessoa estado fixo e,
portanto, só é resolvido se o indivíduo responder a cada nova situação, uma por uma,
mantendo- se em diplomacia diante de tudo o que é exigido socialmente, sem lesar o
valor pessoal.

Na verdade, nós não evoluímos pessoalmente se nos limitamos à instrução da


ideologia social. Temos que despertar para a necessidade de nos
responsabilizarmos pela construção de nosso valor pessoal. Para essa tarefa é
indispensável aprender o jogo externo do convívio social e nele descobrir as regras de
vantagem, porque estas se tornam instrumentos que atuam o próprio crescimento. A
cultura já formalizada não deve transformarse num modo de ocupar a nossa mente
como se fosse um valor absoluto, porém ela pode nos servir enquanto for instrumento
de valor para nosso crescimento.

A deficiência de discernimento mental e de capacidade crítica para saber como


se posicionar e responder aos apelos externos põe o ser humano ao léu da primeira
informação. Esse é o modo em que o ser humano responde tão somente como objeto
diante da solicitação da mídia. Se o indivíduo transforma-se num repetidor de
detalhes de imposições sociais, ele não resguarda a dignidade da própria pessoa
porque não avança em autonomia. A autonomia possibilita escolhas de valor que
sejam úteis e funcionais à própria pessoa e desenvolve a capacidade de administrá-
las em prol da própria realização. Uma pessoa necessita adquirir uma consciência
madura das próprias necessidades, e uma vez atendidas as necessidades
biológicas, o indivíduo deve ir além da delimitação de seu ambiente e da história para
se sentir disponível à radicalidade do ser. O egoísmo da natureza evidencia o valor da
própria identidade e torna o indivíduo fator de progresso. Sem egoísmo vital nós nos
tornamos pessoas-esquemas, pessoas em série, em que uma desconfia da outra e o
encontro humano se transforma em frustração.

Só contribui para o bem dos outros aquele que constrói bem a si mesmo.
Aquele que constrói bem a própria pessoa realiza em si um primado de perfeição e se
torna instrumento de evolução a todos os que a ele se relacionam. Portanto, quem
persegue esse caminho contribui para o bem de toda a humanidade.

A pessoa autêntica é voltada ao progresso e ao aperfeiçoamento. Ela aprende


a discutir as estruturas em função de proteger e alimentar os valores
humanos, impedindo que as estruturas prevaleçam sobre o homem. A autenticidade é
o ponto que funda o significado do próprio existir diante de qualquer contexto.

A educação deve ser, antes de tudo, um serviço ao valor da pessoa e,


portanto, não pode ser dada como imposição, mas como vantagem a fim de que a
pessoa adquira condições de vencer na vida. Socializar não significa anular o valor da
pessoa para uniformizar a forma de pensar, mas deve tornar-se um meio de evoluir na
compreensão para descobrir o modo de se construir e de se situar no ambiente social.
Não há necessidade de atacar o sistema social, mas torna-se indispensável aprendê-
lo, porque no momento de assumir o poder, quem o compreende, saberá como
aperfeiçoá-lo.

A intencionalidade da natureza tem como meta a auto-realização e a afirmação


como pessoa. Ser pessoa é um destino metafísico. Por natureza nós não
somos destinados nem a ser pai, nem a ser mãe, estes fatores são opcionais, mas ser
pessoa é uma exigência da natureza.

Em um processo de adaptação aos modelos soFilosofia Elementar 160 ciais,


para que o indivíduo tenha espaço e possa tornar- se fenomenologia do espírito, não
deve prevalecer a força da letra da lei. O espírito sempre se manifesta através de
critérios interiores de antropologia funcional e, portanto, são esses critérios que dão o
endereço para fazer-se pessoa.

Um educador que pretende oferecer um serviço funcional à educação


necessita saber provocar a construção de uma pessoa. Para estar preparado nessa
tarefa, ele deve entender as estruturas dinâmicas da intencionalidade psíquica. Ele
deve saber como se move a atividade psíquica: se o seu endereço é de
aperfeiçoamento ou de regressão por interferência de complexos. Educar é
essencialmente personalizar, auxiliar na construção da autonomia para que o ser
humano saiba resolver-se através de si próprio. O educador deve respeitar o endereço
indicado pela natureza do educando, sem pretender acrescentar opiniões
próprias. Personalizar é alimentar a vida e abrir os espaços exigidos para que ela
possa desabrochar sem se alterar.

A Pessoa e a Sociedade

Se construirmos bem a própria pessoa, a sociedade tenderá a melhorar. O


problema é como viabilizar uma reciprocidade de valor funcional entre pessoa e
sociedade. Trata-se de encontrar o equilíbrio no interior da pessoa para saber como
conviver com a sociedade, independentemente de como ela seja, e de que modo
a pessoa poderá contribuir para melhorar a sociedade. A sociedade é feita de
indivíduos e a pessoa não pode existir sem a sociedade.

O grau de maturidade de um indivíduo depende do seu modo de metabolizar a


sociedade. Metabolizar aqui, tem o sentido de compreender sempre mais como
resolver-se nela, sem a necessidade de culpar os outros, porque a sociedade também
é o produto da nossa alienação e ela nos prejudica simplesmente pelo acúmulo de
erros que nela inserimos.

Por outro lado, a maturidade da pessoa a levará a ver que, se alguma coisa
não está certa, de nada adianta culpar os outros. Culpar os outros sempre
corresponde a eximir-se da responsabilidade de ajudar a resolver a situação. Tudo o
que acontece no externo surge de nossa interioridade e todos somos agentes desse
interior. Sempre que a pessoa se põe a criticar os outros, ela permanece cega e
incapaz de descobrir a origem da alienação histórica que nos faz sofrer.

Quando o indivíduo recorre a uma adaptação fictícia aos modelos sociais, ele
terá ocasião de aprender tudo e, com isso, progredir, fazendo-se continuamente.
A nossa sociedade supervaloriza a prodigalidade ou a “caridade”, mas não
percebe que, ao repetir a generosidade sem responsabilizar o dependente capaz, ela
colabora de um certo modo para anular o crescimento pessoal de adultos que repetem
sempre os mesmos erros contra si mesmos.

Hoje, na sociedade, sabemos que impera a opinião daqueles que detêm o


poder por delegação da massa, mas de nada serve atacá-los, porque isso
significaria o mesmo que um indivíduo pretender derrotar um exército. Primeiramente,
devemos calcular de modo inteligente os erros presentes nas informações dadas
pelos meios de difusão. Por exemplo, inocentar sempre o pobre por sua pobreza pode
ser um modo de encobrir, como se esconde uma culpa na pobreza; geralmente a
pobreza está acompanhada de uma atitude de desleixo em exercitar a própria
inteligência.

A mídia pode impor uma visão dos fatos que não é verdadeira: por exemplo, eu
posso ser humano em relação ao necessitado, mas não posso prostituir-me e ser
cúmplice de seus erros. Não é possível aceitar que o não trabalho produza
evolução. A mídia, sem que seus agentes queiram, pode atrofiar o progresso. Um
exemplo está no caso do excesso de propaganda, pois esta rouba o equilíbrio
da interioridade da pessoa, que se deixa investir por um vazio de conteúdo sem
vantagem de vida.

A sociedade de hoje, denominada consumista, caracteriza-se por uma


civilização em que as pessoas se dedicam a objetos, a “bens” sem função, a bens
que não se finalizam em nutrir o crescimento. As pessoas são estimuladas tão-
somente a servir os objetos. Todas as ações e coisas são finalizadas a instrumentar
as pessoas. O que importa é o objeto: o telefone de terceira geração, por exemplo. A
dignidade de pessoa autônoma não interessa, a pessoa deve ser condicionada, deve
sacrificar a si mesma para acompanhar o ritmo do consumo.

Mais recentemente se recorre ao terrorismo psicológico do aquecimento global


para coagir as pessoas a comprar novos produtos e acelerar o consumo porque, em
pouco tempo, os novos produtos perdem seu valor.

A manipulação das pessoas não toca a liberdade física, mas as táticas usadas,
desde os modos de montar uma vitrine até as formas mais sofisticadas para aguçar a
curiosidade, visam construir escravos interiores. Trata-se de um investimento que visa
ao consumismo da personalidade. A rede sofisticada já agrega todos os meios para
adaptar as pessoas àquilo que na sociedade se reputa de valor em ser.

Só quem toma consciência da manipulação poderá salvar a própria dignidade e


o valor único pessoal a ser construído. Basta dar atenção ao modo de se vestir, de
falar, de usar certos objetos ou figuras no corpo. Percebe-se que sempre se adota um
modelo preestabe lecido pelo sistema social. Tudo passa a ser usado como um modo
de se distinguir no caos. A moda, mesmo em seu melhor estilo, não ostenta a beleza e
a dignidade da pessoa que a veste e mais se parece a um novo uniforme provisório
que a sociedade sugere ou impõe.

A música leva as pessoas a viverem em seu íntimo emoções, esperanças,


sexo, protagonismo. Independente do tipo em uso, é sempre considerada uma arte
inocente. Nunca se suspeita e nem se examina se determinadas músicas despertam
ou alimentam patologia, em vez de gerar crescimento. Por exemplo, quando certa
música explora de modo repetitivo determinada emoção pesada, é possível que
incentive a obsessão e roube a serenidade interior.
A juventude não se permite um espaço mental para deixar-se discutir, porque
se ela não pensar como os outros, não se considera internacional. É difícil
tomar consciência da manipulação de tantas situações que consideramos vencedoras,
embora não o sejam.

Aqueles que não crescem psicologicamente tendem a ter gastos excessivos,


muitas vezes para comprar futilidades e a seguir angustiar-se sem entender o porquê.
Parece que nos movemos em direção a uma inversão de valores em que o ser e a
dignidade da pessoa devem sofrer e se conformar em função do ter, sem qualquer
critério para bem-viver.

As máquinas já subordinam e atemorizam o homem, porque através delas será


possível uniformizar a todos e, se isto acontecer, nos restará a função de
robôs obedientes.

A situação do poder social sobre o indivíduo só é possível romper,


progressivamente, a partir do íntimo de cada um, a partir de uma evolução de
consciência, através da qual o ser humano, buscando conhecer a si mesmo,
descobrindo seu próprio valor e distinguindo o que lhe faz crescer, aprende a usar a
multiplicidade de estereótipos sociais em benefício da própria pessoa. O uso da
própria inteligência torna-se o único meio de se qualificar e construir a própria
identidade pessoal.
ECOLOGIA ANTROPOCENTRICA

Introdução:

O Homem e a Terra

O homem é um filho desta terra, dela ele se alimenta e em seu corpo reproduz,
de modo sintético, a ordem deste planeta. Há uma continuidade complementar entre o
homem e o planeta. O homem é o “humus” da terra, por ser a mente capaz de
responsabilizar- se pelo cultivo e organização do planeta. Esta organização está em
função de aperfeiçoar o ambiente para efetuar seu próprio crescimento. A medida
que regula a ordem adequada ao ambiente, é seu próprio organismo.

No corpo o homem reflete a terra, nele ele encontra as proporções de água


equivalente àquela que existe na terra, à temperatura média de seu corpo
corresponde à temperatura da terra em sua relação com o sol. Suas veias escorrem a
modo dos rios da terra. Seu corpo assimila o oxigênio e devolve o carbono às plantas,
seus ossos são análogos à estrutura das pedras formadas pela terra. O homem repete
em seu próprio organismo as formas da vida vegetativa e sensitiva existentes na terra
e mediante sua inteligência reflete a ordem do ambiente que seu próprio
organismo registra.

Se o homem desconhece a si mesmo, não administra a própria vida com saúde


e não aperfeiçoa e realiza o próprio projeto, ele não cumpre a dignidade de ser
superior e ofende o próprio valor. Todo o erro praticado contra si mesmo repercute na
ordem do ambiente onde ele vive. Qualquer alteração na ordem da própria natureza,
quando ampliada na coletividade, aumenta as proporções de influência no ambiente.
O homem degrada o ambiente pelo quanto que erra contra si mesmo. O ambiente é
extensão do corpo humano e reflete a ordem e a desordem de quem é
responsável por zelar e regular-se pelas leis imanentes na própria natureza. Se o
homem não resolve suas doenças e conflitos, fará o ambiente adoecer e, o ambiente
devolverá ao homem as agressões que sofre por erros humanos.

Ecologia Antropocêntrica

Ecologia é um termo de origem grega (oikos = casa, moradia + logos = estudo,


ciência). A ecologia estuda a morada do homem e dos seres vivos. Trata-se de
compreender as relações entre o homem e seu ambiente ou meio social, físico, moral,
econômico etc. O estudo visa um melhor equilíbrio entre o homem e seu meio natural:
proteger este meio significa organizá-lo segundo a forma da vida humana nele
inserida. O conhecimento é uma propriedade do homem e portanto, a ele compete
conhecer-se e conhecer seu meio para regulá-lo e administrá-lo segundo a ordem de
ambas as naturezas: a humana e a mundana.

Com a globalização começou-se a dar atenção ao planeta todo, como morada


da coletividade humana. Com esta observação pode-se constatar que a ordem social
está degradada e que o homem reelabora esta degradação na sua moradia coletiva.
Quem não resolve o próprio conflito social, necessita refazê-Io entre o homem e a
natureza externa. O centro que irradia a desordem é o homem, é ele que projeta e
amplifica no meio a desordem da própria vida individual e coletiva. Dele parte o medo
da catástrofe, os anúncios que reforçam a angústia e as previsões menos animadoras.
A agressão da dimensão não realizada em si próprio não lhe permite ver o próprio
ambiente como sua extensão. O seu modo de ler o ambiente é projeção de um
limite de autoconhecimento. Ao invés do homem cultivar o conhecimento de si mesmo
para resolver seus males, ele insiste em forçar a adaptação social e então apela pela
salvação da desordem que ele próprio insemina no ambiente, mediante o coletivo em
desordem.

A consciência percebe os fatos externos, mas desconhece que tais fatos


proveem de um interior inconsciente que estrutura o externo à imagem e
semelhança do interior humano não compreendido e não resolvido. A cultura e a
ciência que o homem formalizou em base a uma consciência educada a olhar somente
para fora, para o mundo externo, propiciou o avanço tecnológico, mas a insistência em
adaptar o homem ao social estabelecido manteve o homem em ignorância de si
mesmo.

A ignorância de si mesmo é um fato que se revela através de depoimentos da


própria alma humana. Aquilo que a consciência não compreende, a alma expõe em
sonhos, em doenças, em conflitos insolúveis, em paixões descabidas, em horrores
incompreendidos, em instintos, em desequilíbrio e desordem... Estes clamores e estas
linguagens de nossa alma, sãoo o apelo para que o homem decifre e compreenda seu
interior desconhecido para se resolver. Platão já afirmava que “desde que o homem
inventou o alfabeto e a linguagem falada, ele esqueceu de sua própria alma”. O centro
de solução gravita em torno do eixo humano, de uma revisão de sua consciência!

O avanço tecnológico deu possibilidade ao homem de intervir no externo, até


mesmo em seu próprio corpo, tanto para aperfeiçoá-lo como para destruí-lo. Se o
homem não souber dobrar-se sobre si mesmo, para ler a parte inconsciente, sua
incapacidade não permitirá que ele veja o modo de adequar a ordem do mundo à
ordem de sua própria natureza.

Quando falamos em ambiente, termo de origem latina (ambitus + entis),


significa o âmbito em que vivem os entes. É o espaço que rodeia ou envolve os entes
vivos e o homem. O ambiente e o espaço de interação do homem com seu meio. Esta
interação pode reforçar ou desagregar a vida humana, bem como sua relações. Há um
ambiente mediato. O ambiente imediato ou mais próximo podemos denominá- lo
útero. O ser humano sempre vive dentro de um útero e sua dependência do ambiente
imediato é relativa ao grau de conhecimento e autonomia alcançados. Quanto menor o
autoconhecimento, maior é a dependência e, por conseqüência, maior o predomínio
da ambiente sobre o homem.

Na origem da vida o ambiente prevalece totalmente sobre o sujeito, porque a


maior organização do ambiente se impõe com suas influências sobre a vida em
formação. O primeiro ambiente do ser humano é o útero materno, ali o ser humano
convive a modo de uma colônia, na dependência da situação materna.

O feto depende da mãe tanto para se nutrir de oxigênio e alimento, como para
manter a temperatura adequada a seu desenvolvimento. Sua vida depende da vida e
da situação da mãe. As situações de saúde ou de insanidade da mãe afetam o bebê.
As variações emotivas da mãe provocam variações ou reações no feto.
A própria vida íntima da figura materna repassa informações que, assimiladas
pelas células, estruturam modelos reativos e comportamentais no futuro homem. As
primeiras informações assimiladas pré-orientam as subsequentes e o reforço molda o
próprio caráter. Em base a isto sabe-se que a primeira pessoa que proporciona à
criança segurança e amparo induz a uma identificação por incapacidade de
autonomia. A criança para corresponder afetivamente começa a copiar tudo o que o
adulto aprova, exige ou subentende.

O eu do indivíduo desabrocha condicionado por estas experiências iniciais que


fixou como paradigma da própria personalidade. O ser humano aprende os modos de
relacionamento aceitos ou necessários ao adulto, o modelo afetivo, o comportamento
moral da opinião vigente, a língua a ser falada... Tudo sob a influência do ambiente
mais imediato.

Do útero materno a criança passa ao útero familiar. Ali sua adaptação é


reforçada porque sua situação não permite um espaço de dependência.
Neste ambiente ela deve assimilar um modo de pensar, de interpretar o que lhe é
transmitido pela consciência dos adultos a quem ela deve adaptar-se para
garantir sua sobrevivência. Tudo se aprende do externo e por estímulos que afetam
preponderantemente o ouvido e a vista. Isto corresponde a uma formação de
consciência, sem nenhuma necessidade de autoconhecimento.

O eu não deve ser identificado à consciência, porque o eu implica um conjunto


de funções e a consciência se forma e se desenvolve em base a um conjunto de
influências. O eu necessita ser extraído da potencialidade do conjunto e não apenas
do condicionamento externo.

A consciência desperta mais por meio de um processo social do que por um


processo de compreensão orgânica. O eu sofre a coação do tipo de
organização mental preexistente na família, é isto que faz com que a consciência se
torne mais um produto da sociedade, da qual a família é intérprete e tradutora.

A diretiva do social prevalecerá sobre o indivíduo, no entanto o eu é


determinado e formado em base a três instâncias e a primeira, em importância para
o sujeito, é a estrutura ou índole orgânica; segue a esta a interação imediata do corpo-
ambiente e a incidência diretiva do social.

O social no entanto predomina por ser o elemento organizado e especializado


e por isto tende a adaptar a si o que ainda é neutro. Como a energia organísmica do
neonato é disponível e está em processo de plasmagem, passa a ser estimulada e
provocada segundo os interesses do ambiente especializado. O problema surge
porque o social desconhece as exigências internas da estrutura orgânica e impõe uma
rendição aos valores externos.

A estrutura orgânica já sendo distinta e individual não pode recolher o ambiente


independente de como ele é sem ofender valores vitais, mas o assimila segundo um
modo que lhe é próprio ou um modo que coincide com suas exigências. Portanto, o
organismo, para se manter e se desenvolver em sua identidade própria necessita
selecionar de modo temático, segundo a própria lei, ou segundo o que o distingue de
seu ambiente. Porém, o eu ainda não se tornou ato, ainda não desabrochou, embora a
energia vital seja maleável, e ficando exposta a imposição externa do ambiente mais
próximo sofre o condicionamento: o organismo fica impedido em sua forma original,
quando inibido. E como o ser humano não pode modificar seu modo de ser, ele
aprende a contrariar o que é original e projeta alterações orgânicas ou
comportamentos reativos para sobreviver.
O eu desabrocha quando a criança começa a distinguir-se e a afirmar-se. No
início ela expressa seu desejo de autonomia: quer manobrar os instrumentos para se
alimentar, tenta manusear os objetos e coordena os movimentos do próprio corpo e se
nega a aceitar que os outros façam em seu lugar. No máximo, aceita amparo.

Na interação imediata do próprio corpo com o ambiente, o ambiente interage e


pela interação diferencia o organismo. Por exemplo, se a criança ouve vozes calmas,
ela terá um sentimento expansivo. Se o ambiente é impregnado de vozes desafiadoras
e conflitivas, a criança cresce nervosa. Com o decurso do tempo pode-se constatar
que o homem que vive em países frios constrói um tipo de civilização diferente
daquele que cresce em países quentes. Isto dá origem a culturas diversificadas.

O problema é que o ser humano pode plasmar o próprio eu, mantendo- se em


ignorância das próprias exigências orgânicas originais. Toda aquela dimensão
vital desconhecida não deixa de ser ativa e tende a desafogar- se em formas
distorcidas. Os instintos humanos não compreendidos em sua forma original e inibidos
pela adaptação social, aparecem alterados e em formas aberrantes. A ignorância dos
próprios valores individuais não construídos se mostram em agressões e
alterações orgânicas. consciência, forçada a uma identificação com valores e regras
de outra pessoa ou grupo, não sabe mais investir de modo exato no que realiza a
própria pessoa. O eu alienado da própria identidade e plasmado pela influência alheia,
necessita de um processo de autenticação e para isto se faz necessário aprender a
auscultar as experiências internas que nascem por ação do mundo-da-vida. O mundo-
da-vida projeta em sonhos, em emoções, em variações orgânicas, em
problemas psicossomáticos, a parte desconhecida pela consciência, embora seja algo
pertencente ao eu. A cultura ensinada ao ser humano perdeu o código de
interpretação das mensagens da fantasia e do sonho etc. Isto acarreta a ignorância de
si mesmo. Tudo o que não é integrado no eu consciente construído, passa a ser
projetado fora para desintegrar a natureza humana e mundana.

Aquela energia ou parte de vida desconhecida e não construída em benefício


próprio, projeta-se fora em desordem e de modo impróprio.

O eu é vivido antes de ser visto ou compreendido e não é adequadamente


conhecido senão através de sua atividade vivida. O eu, portanto, se faz
nascendo junto ao que conhece. Os mecanismos de defesa aparecem para confirmar
um eu fictício, mas defendido pelo próprio sujeito, porque aceito pelos outros. O eu
real é a estrutura cuja função é mediar realidade externa ao organismo, enquanto o
organismo se move em expansão. O eu nasce no momento que o organismo
seleciona a si o que lhe é adequado. Ora, isto exige conhecimento de si e do
ambiente, para que o saber esteja em função do crescimento do próprio ser. Enquanto
o eu se mantém em ignorância e alienado do que lhe é próprio, o conhecimento do
homem não está em função de servir a vida humana.

Nosso saber não necessita salvar e nem construir um novo planeta, mas
precisa garantir um ambiente no planeta que não ofenda e destrua a nossa vida.
Sem compreender as regras da própria vida, sem saber ler todas as mensagens e
depoimentos do próprio organismo, escritos por nossa alma inteligente, não
saberemos organizar o ambiente sem que este ofenda a ordem de nosso corpo. O
ambiente é extensão do corpo, é a morada do homem e este útero, para ser
organizado segundo as exigências evolutivas do habitante, exige que o
homem conheça a ordem ou a organização da própria vida, da própria identidade
psico-orgânica. Um eu cego no que se refere ao autoconhecimento, não pode
pretender resolver o ambiente enquanto a consciência não reflete a identidade do
próprio ser. No sonho e na fantasia passam informações que nossa razão perdeu o
código de interpretação. O fato é que nós somos pelo quanto refletimos e isto em
âmbito de pensamento, de fantasia ou sonho, porque a fantasia e os sonhos são
configurações que expõem informações que são necessárias para compreender nosso
modo de ser e agir.

Só a compreensão da relação homem-ambiente poderá restituir a solução de


eventual desequilíbrio vigente. O ambiente deve ser resposta às exigências da vida
sadia, portanto, o progresso tecnológico deve ser acompanhado de uma ciência
humana mais evoluída. A natureza é una, embora esteja dividida em duas: homem-
ambiente. O conhecimento sempre é um enconFilosofia Elementar 184 tro unitário
com o real. A objetividade só é alcançada na síntese compreensiva que anula a
aparente separação entre sujeito e objeto, entre corpo individual e corpo ambiental,
entre matéria e inteligência.

O critério ou ponto de referência em base ao qual se julga o valor adequado do


ambiente é o organismo humano, porque ao homem não compete criar o mundo, mas
sim aprimorá-lo e adequá-Io para que ele próprio possa viver. O projeto é o homem e
a projeção do saber deve estar em função de ser. O homem necessita projetar na
natureza externa a forma exigida por sua própria natureza e portanto, não se trata
de projetar crenças, ideologias fixas, modos de pensar não confirmados pela auto-
compreensão que corresponde ao próprio modo de ser.

O homem só altera a ordem da natureza ambiental, porque primeiro alterou a


ordem da natureza humana, e desta alteração decorre a desordem, o conflito com seu
ambiente. Depois a alteração do ambiente repercute na vida humana, de tal modo que
se instaura uma agressão recíproca. O ambiente só é resposta às exigências da vida,
se o homem compreender a ordem da própria vida e ter condições de organizar o
ambiente em função dele próprio viver. Para isto o autoconhecimento é indispensável.

Homem e ambiente estão em continuidade e o conhecimento do homem não


pode ser distônico a seu modo de ser, porque é a compreensão de si que
poderá projetar no ambiente a ordem do próprio ser em crescimento. A ignorância e a
deformação da própria ordem acarretam a perturbação recíproca.

“Cada um é pelo quanto e pelo como percebe.” Tudo o que o próprio


organismo registra ou reflete e o eu não percebe e desconhece, perde em ser, e pelo
tanto que perde de se compreender, não saberá como organizar o ambiente para
crescer. Se o indivíduo percebe e compreende tão somente como lhe ensinaram,
como a cultura condicionou, conforme os óculos que lhe deram, seu saber não reflete
a ordem do próprio ser, mas apenas o limite da estrutura construída
pela “educação” recebida. Se a percepção fica restrita aos aspectos que tocam alguns
sentidos externos, a experiência se restringe ao externo e o indivíduo limita seu
conhecimento ao mundo externo, e as experiências oriundas do mundo-da-vida, que
são interiores, como sonhos, fantasias, emoções etc. e até doenças, tornam-se
linguagens sem percepção e sem sentido. É deste modo que as mensagens mais
importantes da alma transcritas no corpo deixam de ser integradas no eu consciente e
o eu é forçado a se manter em êxodo do próprio real inteligente. Esta parte ignorada
não nos permite ler a ordem da natureza humana que por decorrência não nos permite
uma integração harmônica entre homem e ambiente. A natureza é una e contínua: o
corpo não só resume a natureza mundana em si, mas é nele que a alma descreve o
que sabe, e aquele tanto que o corpo informa e a consciência não percebe, interage e
produz desordem.
Sabe-se, através da história e outros meios, que o aquecimento do planeta já
aconteceu como efeito dos inúmeros vulcões em atividade no passado, e o
planeta Terra se recompõe sem o auxílio do homem.

Hoje, ainda há quem afirme que os poucos vulcões existentes poluem num ano
o equivalente à poluição efetuada pelo homem durante dez anos. São
dados estatísticos, em muitos casos suspeitos, mas deixam entender que não é
apenas o homem que interfere no planeta e que o poder de regeneração deve ser
grande.

O aquecimento global às vezes é um pretexto de intimidação, sustentado para


garantir certo sucesso econômico em algumas áreas tecnológicas de nosso tempo.
Não vejo a Terra próxima de um abismo, e sim como uma mãe generosa que me
sustenta, me oferece tudo o que necessito, desde que eu trabalhe segundo a ordem
de vida que eu e ela temos.
Conclusão

A filosofia elementar corresponde ao modelo preliminar da racionalidade. Ela


propõe os princípios do proceder científico, a base para raciocinar, fundamentar a
ética, fazer dialética ou construir um conhecimento de valor humano. Através dela
explicitam-se as primeiras evidências da mente humana. O objetivo do texto, portanto,
é o de despertar para a necessidade de resgatar a compreensão da
identidade homem, porque só este valor proporcionará um conhecimento e um
diálogo que respeite a dignidade humana.

O conteúdo proposto permite compreender que há necessidade de substituir os


critérios convencionais e de autoridade, no fazer ciência, pelo critério da natureza. O
critério da natureza pode ser resgatado quando cada um de nós busca recuperar o
sentido das experiências internas que brotam do próprio mundoda- vida: tais como os
sonhos, as fantasias, as variações organísmicas, os problemas existenciais e
psicossomáticos etc. No sonho e na fantasia passam informações que nossa razão
perdeu o código de interpretação.

Ao cientista é exigido um trabalho de extrema humildade e auto-conhecimento


porque o ser humano, antes de pretender conhecer a verdade, necessita rever se o
próprio eu, que sempre é base de referencia pessoal, é verdadeiro, ou se o eu é
apenas o resultado de uma adaptação ou reação ao modelo social onde o individuo
nasceu e cresceu.

Autenticar o próprio eu é um pressuposto para ter como ponto de referência,


uma base confiável das próprias proposições e afirmações. Só o eu verdadeiro poderá
sê-lo. Não basta que o eu seja sincero. Enquanto o ponto de referência próprio não
for verdadeiro, o eu não serve de critério para propor a verdade do saber científico e
do sucesso na liderança. Rogers já afirmava que, muitas vezes, penso ser quem não
sou, e em geral desconheço quem sou!

Há um conhecimento para ser e um conhecimento para fazer ciência. O


conhecimento do próprio ser torna-se indispensável para ter condições de
elaborar conhecimento para os outros, porque é dele que brota o saber verdadeiro
quando se faz ciência. O saber do sujeito deve ser conforme o objeto, mas se o
sujeito, em seu saber, não reflete em conformidade à tradução de identidade própria,
seu saber torna-se projeção de consciência alienada, porque não contata o ser onde
se dá o encontro de sujeito e objeto. Isto acontece porque a consciência não mais lê e
nem vê segundo o critério da vida ou do ser humano, mas interpreta segundo
o condicionamento assimilado pelo contexto educacional e cultural aceito
socialmente.

O homem necessita ajustar a consciência ao intelecto da própria vida e para


isto é indispensável recuperar em conhecimento todas as linguagens do
próprio organísmico.

Toda vez que as decisões e as ações forem distônicas ao próprio modo de ser
humano, o procedimento redundará em desvantagem no processo de construir
o próprio valor pessoal. O ser, o saber e o agir necessitam estar em nexo e coerência
para não ofender o valor humano estabelecido pela natureza. A moral é sempre um
procedimento que se torna função adequada à realização do próprio valor pessoal,
sem a necessidade de ofender o bem comum.
A pessoa não pode tornar-se apenas um esquema dos valores sociais, mas
necessita resgatar a própria autenticidade mediante uma evolução de inteligência ou
mudança de consciência, através da qual se aprende a encontrar o equilíbrio entre os
valores sociais, os valores vitais e individuais. O núcleo da pessoa autêntica é o eu
Verdadeiro. Hoje com a confusão entre saber verdadeiro e opinião, se faz necessária
uma ciência e uma ética fundamentada no valor da pessoa autêntica. Sem esta base,
ou sem a purificação das aderências impróprias da consciência, o resgate do
conhecimento humano fica comprometido! Não basta raciocinar com lógica para fazer
ciência, é necessário fundamentar o saber na identidade do próprio ser humano.

Quando os latinos formularam a frase: Res clamat ad Dominum (a coisa ou o


objeto invoca ou apela pelo senhor ou pela pessoa), eles entendiam que a coisa ou
objeto só existe enquanto o senhor a sustenta. Não entendiam o senhor como alguém
que deve prevalecer como um tirano, mas entendiam o senhor como a pessoa que
sabe dar valor e significado à coisa, aos objetos, aos outros. A coisa só se justifica se
em relação natural ao Dominus. A res ou coisa não pode mudar, o Dominus, a pessoa
se diferencia pelo livre arbítrio, pode autocompreender-se e mudar. A pessoa
variando a si mesma varia as posições das coisas: encontrar o lugar adequado a cada
coisa e faz com que a correta posição da coisa seja funcional segundo a definição
do senhor. É a causa psíquica que constrói a ordem na diversidade material.

Um líder é o Dominus na sua empresa, na sua administração, na organização


do seu ambiente, na estruturação da casa da própria empresa, na formulação de leis
funcionais, na escolha dos colaboradores, na distribuição de funções, no objetivo a ser
alcançado etc. Se o líder não for o Dominus que compreende e intui, identificando o
que é próprio a cada um das múltiplas res, a correlação entre Res et Dominus
não coincide com as características de cada parte. A res é a forma que se origina da
coisa e o líder deve saber ler para administrar coisas em beneficio do todo. Neste caso
o líder é um rei que sabe fazer do sucesso da coisa, a realização pessoal.

O líder não pode prevaricar, não pode ser subjugado por opiniões, por
gratificações afetivas porque o líder só é líder se for um condutor de sucesso. Quando
o líder erra a res prevalece e o Dominus entra em caos.

Se o homem não se torna verdadeiro em sua capacidade superior de


inteligência, o homem sofre a inferioridade. A realidade máxima é a inteligência
humana e se esta não for resgatada através da exatidão de consciência, o caos social
prevalecerá.

Hoje já existe um método em psicologia, o método ontopsicológico, que tem


condições de recuperar a consciência exata para o cientista, para os
operadores sociais, para os líderes. A consciência exata ou coincidente com a ordem
da própria natureza tornouse um instrumento indispensável para o exercício
da liderança, tanto em empresas, como em política, em ciência, em ambiente, e em
economia etc. Em base à consciência exata cada um pode exercer sua liderança em
qualquer ramo de atividade. Quando um líder falha em sua intuição, evidência e
certeza, sujeito e objeto (res et dominus) não se correlacionam em forma
complementar, e a res ou objeto prevalece sobre o sujeito, transformando o líder em
objeto de manipulação.

Hoje, na política a res publica prevalece sobre os líderes políticos dos poderes
constituídos. A massa da população se impõe na exigência e na violência, em base a
impulsos sem ordem ao bem comum.
O líder ou Dominus é o maior não por imposição ou agressão, mas é o maior
por saber providenciar a ordem comum para si e para ou outros. Ele se salienta pela
competência em saber construir o bem de modo humano. Portanto ele é o primeiro a
ter que esmerar-se em conhecer o núcleo que identifica o humano para organizar um
clima de bom relacionamento e cooperação, ou melhor, uma sociedade que cultive
o humanismo.

Os latinos usavam uma frase: ubi maior, minor cessat (na presença do grande,
o menor cala), já que entendiam como maior aquele que por superioridade de saber,
intuição e competência não recorre a imposição, mas sabe ser com habilidade,
providencia para muitos. Esta frase é complementada por outra: Suaviter in modo,
fortiter in re (o maior e suave em seu modo de ser, mas é forte no saber e no decidir
organizar).

O menor em competência, quando tende a prevalecer, impõe a violência. A


massa popular e de grupos “organizados” não tem condições de ditar
regras funcionais para humanizar. Onde impera a ignorância e a violência, o Dominus
é anulado em suas funções. Só o maior em inteligência poderá ser providência
para recompor a ordem entre os muitos, caso contrário a res objetifica o Dominus.

A massa indiscriminada duma população onde a lei reputa igualdade apenas


pela configuração humana terá condições de escolher o Dominus superior?

Sabemos que Platão e Aristóteles consideravam normais três formas de


governo: a Monarquia, por representar a necessidade unitária que fundamenta o
poder público: A Aristocracia, por reconhecer o merito dos melhores e a Democracia,
por satisfazer o princípio da igualdade; porém iguais, com direito de voto, são os que
colaboram para o bem comum. Platão preferia a Aristocracia e Aristóteles, a
Democracia. Três modelos são degenerativos: A Tirania, por ofender a dignidade
humana; a Oligarquia, por governar segundo o interesse de um grupo apenas e a
Demagogia, por olhar apenas as vantagens dos governantes e dar espaço à ambição
e à corrupção.

Hoje, talvez precisaríamos repensar o direito do voto e a qualificação dos


candidatos adequados ao processo de humanização. Nossa democracia tem como
medida a massa popular, a força numérica se sobrepõe à qualidade de inteligência. A
Respublica, sem condições transforma o Dominus em objeto subordinado para seu
uso e consumo.

Comumente, os pensadores e políticos pretendem salvar o modo de pensar e


fazer com que a ideologia prevaleça sobre o ser, com isto se ensina a esquecer que é
o ser que sustenta o pensar e o saber. Enquanto não identificarmos o saber ao ser, o
modelo social será inadequado para recompor a ordem degenerada.

A relação entre o homem e seu ambiente equivale à relação entre Dominus et


Res. Para que o homem se torne o verdadeiro Dominus ou senhor de seus atos, ele
necessita evoluir no sentido de um autoconhecimento exato, de uma inteligência
capaz de organizar o ambiente segundo a ordem imanente da própria vida orgânica.
Glossário

As definições do vocabulário empregado auxiliam para entender o sentido


adequado das palavras usadas no texto. O sentido das palavras deriva da
etimologia greco-latina, visto que o grego e o latim são as duas línguas-mãe de nossa
língua. Já encontramos o sentido destas palavras na Filosofia Perene. A exatidão de
sentido é imprescindível para a compreensão do texto e evita possíveis distorções de
interpretação. Definimos apenas os vocábulos que sustentam a base de significado do
texto.

ATIVIDADE PSÍQUICA: é a potência formalizadora do humano. Em parte, expressa-


se na consciência e, em parte, de modo inconsciente. A alma ou Em Si ôntico é a raiz
ou núcleo da atividade psíquica. Este núcleo é invisível em si, não pode ser objetivado,
mas é visível em seus efeitos.

CIÊNCIA: é o saber que reflete a ação do ser na representação consciente. A ciência


reflete a verdade segundo a espécie humana. O homem não sabe a coisa em si, mas
a entende enquanto relativa à medida do intelecto ou alma humana.

COMPLEXO: é uma realidade psíquica que se formou em base a exigências sociais e


que censuram formas vitais, impedindo a compreensão consciente. O eu consciente,
quando não compreende o complexo, é induzido a pensar e decidir segundo sua
influência.

COMPORTAMENTO: é como eu me conduzo. É o conjunto de expressões, reações e


atitudes através das quais o indivíduo especifica a si mesmo entre os outros.

CONHECIMENTO: conhecer é vir a saber. O conhecimento verdadeiro acontece


quando a mente reflete a ação do real. O ente lógico e o ente real coincidem, isto
equivale ao conhecimento científico.

CONSCIÊNCIA: é o saber conforme ao que é. É conhecer conforme a ação. A


consciência é exata quando espelha em coincidência com a luz do intelecto. O
espelho consciente (= apresenta novamente) em coincidência com o critério
da verdade que é o intelecto. A consciência é mera opinião e é falsa quando conhece
tão-somente segundo a pré-disposição do complexo inconsciente. Quando a
consciência é um instrumento que não representa o reflexo do intelecto, o
intelecto registra sua informação no organismo, de onde deriva
a psicossomática.

CRITÉRIO: é o ponto de referência em base ao qual se distingue o verdadeiro do


falso. É o princípio que constitui o que é conforme ou não a uma coisa, a uma ação ou
a uma idéia consciente.

DIÁLOGO: é uma interação entre duas ou mais pessoas através do conhecimento,


afeto e movimento. O diálogo, além da compreensão verbal, por parte do receptor,
exige compreensão empática e compreensão dinâmica inconsciente. No diálogo se
comunica não só o conhecimento verbalizado, mas também a situação existencial do
falante.

EM SI ÔNTICO: é o núcleo ou raiz constituinte do ser. Este princípio é dinâmico


inteligente porque organiza todas as possíveis dinâmicas inconscientes e do
organismo. É o projeto- base de natureza do ser. Alma ou intelecto são sinônimos de
Em Si ôntico. Alma, no entanto, exprime de modo adequado a ação semovente e
intelecto exprime melhor o reflexo da ação semovente.

EPOCHÉ: é um processo redutivo mediante o qual se coloca entre parênteses tudo o


que se presume como válido, mas que não serve como ponto de partida para construir
o verdadeiro saber. Deve-se abstrair ou deixar de lado os preconceitos, as convicções,
as ideologias e até o que é contingente; não se pressupõe que o conhecimento é
idêntico à existência do mundo e se coloca entre parênteses até mesmo os atos
de consciência e o próprio eu individual, para poder encontrar a essência dos
fenômenos, a consciência geral ou transcendental, a pura intencionalidade. Através da
epoché se busca entrar em contato com aquilo que é imediatamente evidente. Este
ponto de partida imediatamente evidente é o mundo imanente da vida de onde deriva
todo o real sentido.

ESSÊNCIA: é aquilo que especifica e define um modo ou forma de ser. É aquilo pelo
qual algo tem ser. O ser é o ato e a essência é a forma.

ESTEREÓTIPO: é o que torna estável e rígido um modelo de comportamento


aprendido do externo. Denomina-se também meme. ÉTICA: é o termo grego que, em
sua etimologia, significa costume, uso ou modo de ser. A ética adquiriu, através do
uso, mais a conotação de comportamento individual e profissional. EU: é o ser agente.
É quem faz. É o ente do fazer. O Eu real ou verdadeiro é aquele que opera em
coincidência com o critério de realidade: é o eu que através da consciência reflete o
saber do intelecto ou alma. Ser e saber coincidem no Eu real. O Eu fictício é
inautêntico, é o eu estruturado segundo a projeção de outros, é o Eu condicionado
pelo complexo. É o Eu feito segundo a imagem e semelhança da sociedade onde
cresce.

FENÔMENO: é o que se mostra; o que é perceptível em base a critérios sensíveis e


racionais. É a aparência de onde se parte para detectar o princípio oculto. A
consciência e a razão são fenômenos que revelam o intelecto. IDENTIDADE: é a
forma que especifica em si o indivíduo e o distingue de qualquer outro. É aquilo que o
ser é aqui, agora e assim.

IDEOLOGIA: é a projeção de opiniões sistematizadas logica205 Glossário mente, mas


comprometidas com condicionamentos existenciais e históricos. A ideologia também é
a projeção de sublimação de um grupo que se mantém coeso por vínculo afetivo. A
idéia só é válida quando a solução é funcional à situação.

INCONSCIENTE: é uma realidade no homem que age e ele não conhece. É o


quântico existencial ativo, não percebido pelo conhecimento, tanto em seu aspecto
psíquico quanto somático. É o quântico de vida e inteligência através do qual existimos
e vivemos, mas desconhecemos. A essência do inconsciente corresponde ao Em Si
ôntico.

INTELECTO: a inteligência é a faculdade que vê e lê o íntimo da ação do ser. O


intelecto lê dentro a ação. O intelecto identifica as formas essenciais de qualquer coisa
ou fato e é o critério do saber verdadeiro, porque o saber é idêntico ao ser.

INTENCIONALIDADE: é o vetor ou a direção íntima da ação psíquica. Na imagem,


pode-se ver como a ação psíquica está agindo em mim, em que direção a atividade
está indo, se a atividade se move em direção do complexo ou segundo a natureza; é
possível ver se a alma vai no sentido da frustração ou da realização.
INTUIÇÃO: intuir significa ir ao íntimo da ação; saber antes dos efeitos. O intelecto é
intuitivo porque vê e lê a variação do próprio ser ou essência e, portanto, reflete o
íntimo da ação da própria alma.

LIBERDADE E ARBÍTRIO: liberdade é a faculdade psíquica que consente qualquer


um dos modos possíveis no contexto ou situação: o sujeito pode agir ou não agir,
escolher de um modo ou de outro. Quando o sujeito é coerente com aquilo que ele
conhece do bem, daquilo que lhe é próprio e adequado à vida, a sua liberdade é
relativa, porque sempre decorre de um egoísmo vital. O arbítrio, em vez disso, é uma
decisão não necessariamente ligada ao egoísmo vital, podendo estar ligada a um
feeling patológico, a paixões, a ignorância ou hábitos impróprios etc.

METANÓIA: é a mudança mental. Pela metanóia se reorganizam os modelos


conscientes e os comportamentos para que o Eu histórico possa construir de modo
adequado e funcional o próprio valor pessoal.

MORAL: é o termo latino que, etimologicamente, significa costume, vontade, principio.


A moral é a conformidade do comportamento ao princípio previsto em lei ou baseado
no costume. Moral ou ética significam o comportamento segundo o uso. A moral tende
mais a significar o aspecto da conduta social, legal e dos costumes grupais. A moral e
a ética têm por objeto específico a vontade e, neste caso, significam a conformidade
das decisões e das ações ao princípio positivo da vida, ao modo de ser humano.
Existem, portanto, duas morais ou éticas: a moral que busca entender as
necessidades da própria vida e respeitá-las, a moral do bem e, quando não se
conformar a elas, a moral do mal. A moral social é mais a conformidade do
comportamento às leis e a moral da religião, além das leis, buscam-se a conformidade
à própria consciência baseada na fé.

MUNDO-DA-VIDA: o mundo-da-vida é a sede do intelecto humano, é a essência


constituinte do ser humano, é o mundo da subjetividade objetiva atuante. Esta
subjetividade objetiva corresponde a um intelecto que especifica a forma humana em
sua natureza.

NATUREZA: tem o mesmo sentido de essência, no entanto, a natureza determina o


modo de ser em ordem à sua atividade. A natureza define um modo de agir específico
(humano, animal etc.).

ONTOLÓGICO: é o estudo do critério referente ao ser ou ao real. É a lógica do ser e


seus modos: ser, uno, verdade e bem.

OPINIÃO: é um pensamento em que o sujeito acredita haver reversibilidade entre a


idéia e o objeto. Na opinião falta a evidência do nexo com o ser, com o critério de
saber, que é a leitura do intelecto. Na opinião o sujeito adere a uma parte que reputa a
melhor, com medo de outra posição, por estar carente de certeza.

ORGANÍSMICO: é o conjunto onde as funções materiais e psíquicas convergem em


uma unidade de ação. É o holístico dinâmico psicofísico.

PESSOA: é o ser por si, é constituído de inteligência e organismo, não é nem alma,
nem corpo, e sim o conjunto. Alma é essência, mas não pessoa, porque a pessoa se
constituiu mediante o ente histórico individualizado. A pessoa é o ente indiviso em si e
distinto de todo o resto e, por ser inteligente, é responsável por seus atos.

PSIQUE ou ALMA: é o uno dinâmico que se dá todo reunido, é indiviso e sem partes
e independe de tempo e espaço. A ação psíquica age através da intencionalidade, do
pensamento, da razão, da vontade, bem como da imaginação, dos sonhos, emoções
etc.

RAZÃO: é a faculdade que faz comparações, emite juízos e estabelece relação entre
os juízos. A razão verifica o igual e mediante dedução e indução faz lógica. Razão e
consciência são instrumentos do intelecto.

RESPONSABILIDADE: é a situação em que o sujeito é necessitado a responder


existencialmente, moralmente ou juridicamente. A responsabilidade consiste em
ponderar cada situação a fim de responder de modo hábil pelos próprios atos segundo
as exigências legais, pessoais e reais.

SER ou ENTE: significa a substância da realidade. O ser é aquilo que é portanto é o


dado primordial da racionalidade e da experiência. É o modelo elementar para fazer
conhecimento ou ciência.

SUBJETIVIDADE: é o princípio interno posto na base do sujeito. É o princípio que


está sob, como causador ou emanante de todo o manifesto do corpo. É a realidade
psíquica do ser humano. O subjetivismo, ao contrário, é tendencioso, enfatiza
aspectos conscientes opinativos, baseados em convicções, complexos inconscientes,
ideologias etc.

VALOR: significa força, vigor. É a capacidade de satisfazer necessidades que guiem


a ação humana à perfeição e plenitude. São ações que significam e especificam
soluções oportunas para resolver problemas intransferíveis em função de qualificar- se
sempre mais. O modelo escolhido é válido se conserva eficácia à funcionalidade
evolutiva individual e social. O valor sempre está intimamente ligado ao bem.

VERDADE: é a adequação da coisa ao intelecto. A verdade acontece quando a coisa,


o juízo, a lógica é igual ao intelecto do homem, não à sua opinião. A verdade do real é
a verdade da relação, é saber como as coisas são em relação a mim e no modo das
coisas entre elas. A verdade psicológica é como o sujeito vê, interpreta ou sabe.

VIRTUDE: virtus = força do espírito, denodo. A virtude é o ato racional do espírito que
regula a ordem dos impulsos naturais. Mediante esta ordem se estabelece o meio
termo (virtus in medio) ou a justa medida entre o excesso e a deficiência. A justiça é o
meio termo ou a justa medida entre direitos e deveres. Na sociedade, o meio termo
que estabelece o justo é a lei, na vida é a identidade do ser. Aristóteles considera
a justiça como a virtude política, porque ela é o meio termo ou a medida justa entre a
tirania e a anarquia. A justiça equilibra riqueza e pobreza, culpa e castigo, proveitos e
perdas etc. A fortaleza é o justo meio entre a insensibilidade e a devassidão, entre a
emoção e a razão. A prudência é a virtude da precação e do comedimento porque
segue a medida da mente. A prudência dá a justa medida entre o atrevimento e a
maluquice. No caso da riqueza, a prudência é o meio termo entre a prodigalidade e a
avareza etc. O homem prudente é moderado, precavido, comedido.