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Revista de Ciências Humanas UniAGES, Paripiranga, Bahia, Brasil.

v. 1, n. 1, p. 44-61, jun./dez. 2016.

CORPO, SEXUALIDADE E CONTEMPORANEIDADE

José Marcelo Domingos de Oliveira 1

Resumo: O presente texto procura discutir a percepção do corpo


e da sexualidade na contemporaneidade. Argumentação que
perpassa a relação entre corpo e modernidade e, em seguida
vasculha alguns dos pontos-chave da pesquisa de Michael Fou-
cault sobre a sexualidade e o poder. Soma-se a este esforço a
digressão preliminar sobre o corpo e a sexualidade no Brasil,
sem o compromisso de uma guisa histórica ou exaustiva, apenas
com a intenção de apontar alguns dos aspectos que podem servir
para clarear o debate sobre esta temática.

Palavras-chave: Corpo; sexualidade; contemporaneidade.

1 Doutor em Ciências Sociais, UFRN e-mail: m13oliveira@hotmail.com

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CORPO, SEXUALIDADE E CONTEMPORANEIDADE

BODY, SEXUALITY AND CONTEMPORARY

José Marcelo Domingos de Oliveira 2

Abstract: The present text seeks to discuss the perception of the


body and sexuality in contemporaneity. Argument that pervades
the relationship between body and modernity, and then digs
through the key points of Michael Foucault's research on sexua-
lity and power. Add to this effort the preliminal tour of the body
and sexuality in Brazil, without the compromise of a historical or
exhaustive way, only with the intention of pointing out some of
the aspects that may serve to clarify The debate on this subject.

Key-words: Body; sexuality; Contemporaneity

2 Doctor of Social Sciences, UFRN e-mail: m13oliveira@hotmail.com


Revista de Ciências Humanas UniAGES, Paripiranga, Bahia, Brasil.
v. 1, n. 1, p. 44-61, jun./dez. 2016.

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

O humano constitui uma entidade multidimensional - bio-


lógico, psíquico, social afetivo e racional (MORIN, 2004). Intrica-
do sistema que combina, cria, recria e tem a capacidade quase
infinita de se reinventar numa plêiade de limitações físicas, ape-
sar disso tornou-se o animal mais adaptado às condições de vida
na Terra nos últimos 150 mil anos. Adaptação que decorre de sua
capacidade de comunicar-se, enquanto fator essencial para a
conquista do status de humano, quando foi capaz de evoluir fisi-
camente, a ponto de utilizar a linguagem como um dos pilares
para a construção da cultura e da ação laborativa (trabalho), na
elaboração de estratégias de sobrevivência.
A composição biológica cedeu as pressões externas, as in-
terdições, num emaranhado de simbolismos e significados res-
ponsáveis por moldar através de interditos sagrados e profanos,
contornos e formas que aludem à estética desejável de uma épo-
ca e de um povo.
O processo de moldar e/ou esculpir o corpo está presente
em todas as sociedades ao longo da história humana. No achata-
mento do crânio entre os Maias , que consideravam esteticamen-
te belas as pessoas com testa achatada. Resultado alcançado com
a pressão do crânio do recém-nascido através de duas tábuas.
Esforço que tinha como meta deixar o casco parecido com o for-
mato da cabeça da espiga do milho – grão cultuado como um
deus (ARTE..., 2012).
Nota-se também prática desta natureza entre os chineses,
que por muito tempo mantiveram a tradição de considerar os
pés femininos em tamanho normal como feios. Para adequar ao
padrão de beleza as mães submetiam as meninas com idade de
três anos ao suplicio das faixas, em cuidados redobrados para
adquirirem pés em tamanho semelhantes a uma “flor de lótus” (7
a 10 cm). Este costume começou durante dinastia Sung (960-976
a.C.). Esta era a medida exata para a conquista do casamento,

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onde os “pés de lótus” assumia um papel erótico. Entretanto, em


1949, a nova república chinesa proibiu tal prática.
Pode-se ainda incluir nesta lista de exemplos antigos acer-
ca da busca pelo corpo esteticamente construído, as “mulheres
girafas” da Tribo Padaung, natural da Birmânia, que colocam
colares de metal no pescoço como símbolo de beleza e sensuali-
dade, ou ainda, a circuncisão entre os judeus, ou a extirpação do
clitóris nos países mulçumanos. Práticas, em geral, naturais entre
os povos, como condição mínima de se afirmarem perante o gru-
po nas condições ideais para a sexualidade, apesar das marcas de
sofrimentos e a morte que dela resulta em muitos casos.
A estética antiga perpassou de geração a geração ao longo
do tempo e permanecem ativas no imaginário e, em muitas soci-
edades ainda em uso. Desvendá-las pode ser um importante fator
para a compreensão da autonomia ou não do indivíduo sobre seu
corpo e, como estas percepções e práticas sobre a sexualidade se
mantêm na contemporaneidade.

1. O CORPO E A MODERNIDADE

Inicialmente, a modernidade parecia possibilitar ao ho-


mem recuperar o seu poder sobre o corpo. Ao romper com os
ditames medievais revigoraria o frescor dos gregos e romanos
acerca do corpo e da sexualidade. Assim, ousaria retomar as ré-
deas do destino em uma nova reconfiguração, num contexto de
individuação, em que o corpo passaria a ser visto como fator de
diferenciação em relação ao outro. Apesar das possibilidades de
aventurar-se no terreno da sexualidade, a medicina e a psiquia-
tria iriam refrear este impulso liberalizante no século XVIII e XIX,
quando observou necessidade do regramento em prol de um
corpo sadio (FOUCAULT, 1997). Assim, a modernidade instalou
o discurso disciplinador que gera satisfação para aqueles que
conformam as suas orientações, ou seja, a cultura corporal assu-
mia assim o compromisso com a ética puritana com vistas o con-
sumo em massa (SANT’ANNA, 1995).
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No contexto de consumo em massa (BAUDRILLARD,


1995) a ideia que emerge é da saúde e do bem-estar, que retarda
o envelhecimento, que assume para a coletividade uma figura
estigmatizada. Ser disforme, com pele flácida, desengonçado
constitui um fator de estigmatização e exclusão social, especial-
mente para os jovens.
Isso fica evidente quando se analisa a frase do estilista francês
Yves-Saint- Laurent (1936-2008), ao afirmar que: “antigamente
uma filha queria se parecer com sua mãe. Atualmente é o contrá-
rio que acontece” (LIPOVETSKY, 2008, p. 121). Isso demonstra o
quanto os valores mudaram ao longo do último século, especial-
mente nas três últimas décadas quando a mulher conquistou
mais autonomia e redescobriu o corpo e, consequentemente a
sexualidade, que se encontrava presa a normas e tabus que as
impediam de manifestar o desejo.
A descoberta do corpo e sexualidade pela mulher impôs
ao homem moderno um redimensionamento do corpo masculi-
no. O macho precisa repensar as alterações, dentro de um novo
molde em que a plasticidade é um dos fatores mais importantes
na conquista de uma individualidade que lhe garantirá o prima-
do da identidade. Entretanto, deverá ser capaz de perceber que o
mesmo grau de certeza e segurança antes sedimentado ao longo
do tempo como consequência natural do amadurecimento, não
terá a mesma validade na contemporaneidade, ou seja, ser ho-
mem não é algo que se conquista, mas que se constrói ao longo
da existência. Assim, a identidade é construída no estrito respei-
to à corporalidade por onde as experiências se processam (LE
BRETON, 2008).
Ao ser edificado no contexto da identidade, o corpo mo-
derno é resultado de um processo de classificação e, esmerando
os valores de consumo, assume as características inerentes o
momento histórico e a posição social desejável. Assim, do corpo
ferramenta de Marcel Mauss (2003), ao corpo patrimônio de
David Le Breton (2008), nota-se que todo o investimento é ne-
cessário e válido para que se alcance o desempenho esperado
individualmente e coletivamente.

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CORPO, SEXUALIDADE E CONTEMPORANEIDADE

O corpo assume variados significados quando se fala de


sujeito. É neste contexto que diferentes signos transitam para dá
significados os mais variados. Pode ser o músculo saliente dos
bicípites, do abdômen definido, enfim que demarca sucesso ou
fracasso diante das escolhas. Imbuído do desejo de ajuste ao pa-
drão atual. O jovem esmera em se exercitar na academia, mas
não basta apenas praticar, é necessário esforço e superação de
suas forças e limites da força física, como percepção natural do
viés ideológico da própria modernidade.
A superação dos obstáculos nem sempre é fácil. O primei-
ro deles é a liberdade que o indivíduo tem para atuar, mas ao
mesmo tempo o deixa sem a possibilidade do reino das certezas.
Instaurado num ambiente sempre hostil, o grau de insegurança
sempre aumenta e a saída mais fácil é observar e seguir o padrão
em voga. Livres para construir a identidade, os jovens procuram
construir uma identidade a mais próxima de seus anseios, dife-
rente do momento anterior em que buscavam estas referências
em seus pais, tios e irmãos mais velhos.
Carente de referenciais simbólicos, mas bombardeados
de possibilidades, os jovens precisam definir o quanto antes um
modelo de corpo que desejam e o esforço necessário para adqui-
rirem, para alguns a solução advém dos anabolizantes (SABINO,
2007). Isso constitui um dos problemas morais mais sérios da
sociedade atual, em que a fragmentação dos pontos de referên-
cia, num contexto social em que tudo é provisório (LE BRETON,
2002).
O caráter de o corpo constituir-se em algo provisório é
uma condição da própria modernidade, que se caracteriza pelo
avanço do saber, baseado no processo de desvendamento, apesar
de Max Weber (2004), ser cético em relação ao processo de des-
cortinamento do mundo, ou seja, da promessa iluminista de que
o homem iria possuir as condições necessárias para ler e com-
preender todos os fenômenos naturais e sociais, ao contrário, o
longo processo de interação com a técnica tem demonstrado que
nos encontramos enjaulados numa “jaula de ferro”, sem entrada
ou saída.
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O corpo assume na modernidade a condição primária de


ser social e, nesta condição o sujeito precisa ter o seu controle
para que as relações sociais se processem. O medo decorre do
fato de que o sucesso neste mundo decorre da capacidade do seu
corpo em se adequar as situações e contextos. E, lutando para
construir este lugar no mundo, muitos jovens tem feito uso de
substancias moderno para alcançarem resultados rápidos, ou
mesmo se expondo a cirurgias plásticas (DEL PRIORE, 2000). No
fundo estamos diante de uma “ilusão corporal”, que se insere no
contexto de uma “nova religião do corpo” (ANDRIEU, 2004,
2012).
É Bernard Andrieu que reconhece que ultrapassamos os
limites da simples melhoria do corpo. Atualmente, observa-se
como um cartão que identifica o sujeito que não quer ser mais
apenas algo, mas aquilo que deseja aparecer (ANDRIEU, 2012).
Na concepção de David Le Breton (2008), o corpo tem
dois caminhos possíveis na contemporaneidade. O primeiro, o
corpo é reduzido a um sujeito e ao seu desenvolvimento genéti-
co. Isso permite, por exemplo, explorar a clonagem. No segundo,
operam-se as ambiguidades, ou seja, o sujeito precisa alcançar o
objetivo de moldar, construir, reconstruir, alterar o corpo para se
ajustar a uma reflexividade moderna. E essa percepção fica evi-
dente n obra de Joan Jacobs Brumberg (1997), quando analisa
que o grande guarda-chuva que ajudava as meninas a se torna-
rem mulheres desapareceu e, em seu lugar as expectativas sobre
a perfeição física aumento consideravelmente no século XX,
rompendo com o modelo anterior em que as brincadeiras e en-
volvimento materno ajudavam a menina em qualidades internas
que externas. Assim, o corpo tornou-se atualmente um projeto.
O corpo imperfeito pode ser retocado, ter peças substitu-
ídas, acrescidas, aumentadas, etc., e isso não significa que a iden-
tidade esteja completamente alterada, mas a parte maldita preci-
sa ser sublimada, substituída.
Este debate ainda precisa ser ampliado com as percep-
ções de Michael Foucault, que fez um esforço interpretativo de
reconstruir os paços dotados pelo ocidente moderno na domesti-

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CORPO, SEXUALIDADE E CONTEMPORANEIDADE

cação do corpo e da sexualidade, através do poder disciplinador


(médico e social).

2. MICHAEL FOUCAULT, O CORPO E A SEXUALIDADE

Entre os teóricos que se debruçaram sobre o tema da se-


xualidade destaca-se o filosofo Michael Foucault (1926-1984),
que, [...] através deste termo tento demarcar, em primeiro lugar,
um conjunto decididamente heterogêneo que engloba discursos,
instituições, organizações arquitetônicas, decisões regulamenta-
res, leis, medidas administrativas, enunciados científicos, propo-
sições filosóficas, morais, filantrópicas. Em suma, o dito e o não
dito são os elementos do dispositivo. O dispositivo é a rede que
se pode estabelecer entre estes elementos” (FOUCAULT, 2008, p.
244).
A sexualidade é para o filosofo uma produção cultural.
Assim, compreende que os ditames e interditos resultam da ação
dos grupos humanos no espaço-tempo, em que o discurso assu-
me um papel importante para a compreensão do poder sobre os
corpos (OLIVEIRA, 2012).
A ideia de Foucault (1997, p. 76) é desnudar “[...] o sexo,
razão de tudo”, numa teia argumentativa em que reconhece pelo
menos os seguintes traços característicos entre poder e sexo.
Primeiro, o poder sempre visualiza o sexo de forma negativa, ou
seja, “[...] rejeição, exclusão, recusa, barragem ou ainda, ocultação
e mascaramento [...]” (FOUCUALT, 1997, p. 81). Segundo, a ins-
tância da regra responsável por compreender o sexo no estrito
respeito ao esquema binário: lícito e ilícito, permitido e proibido,
além disso, prescreve ao sexo uma “ordem”, “[...] como forma de
inteligibilidade: o sexo se decifra a partir de sua relação com a lei
[...]” (FOUCAULT, 1997, p. 81). Terceiro, “o ciclo de interdição:
não se aproximes, não toques, não consumas, não tenhas prazer,
não fales, não apareças; em última instância não existirás, a não
ser na sombra e no segredo [...]” (FOUCAULT, 1997, p. 81). E,
Michael Foucault compreende com isso que, a repressão ao sexo
simboliza a possibilidade do sujeito ser suprimido. Quarto, nesta
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instância encontra-se censura que visa assegurar que um seja o


reflexo do outro. Quinto nota-se uma unidade do dispositivo em
assegurar o poder de controle do sexo em todos os níveis. Por
fim, pode-se resumir observando que o poder reprime o sexo
com a finalidade de assegurar o limite, mas isso demonstra o
quanto este poder é limitado também ao se repetir sempre, ou
possui apenas a potência do “não”.
Ao abordar o tema poder, o filósofo também compreende
que este “[...] está em toda a parte; não porque englobe tudo e
sim porque provém de todos os lugares [...]” (FOUCULT, 1997, p.
89) e, nesta condição assume um papel estratégico no interior da
sociedade, pois a sexualidade assume diferentes feições e objeti-
vos mesmo dentro da relação entre homem e mulher, jovem e
idoso. Isso comprova que não existe uma estratégia única, global.
Assim, em relação a dominação, Foucault (1997), observa que a
partir do século XVIII passa a existir uma percepção sobre o sexo
que o conduzia a seguinte classificação: histerização do corpo da
mulher, pedagogização do sexo da criança, socialização das con-
dutas de procriação e, psiquiatrização do prazer perverso. Assim,
“[...] a sexualidade é o nome que se pode dar a um dispositivo
histórico: não à realidade subterrânea que se apreende com difi-
culdade, mas à grande rede da superfície em que a estimulação
dos corpos, a intensificação dos prazeres, a incitação o discurso,
a formação dos conhecimentos, o reforço dos controles e das
resistências, encadeiam-se uns aos outros, segundo algumas
grandes estratégias de saber e de poder” (FOUCAULT, 1997, p.
100). Isso o leva a compreender que a partir deste período as
sociedades ocidentais implementaram o “dispositivo de sexuali-
dade” alicerçado na aliança, que visava no fundo garantia patri-
moniais, de parentescos, etc., numa articulação com a economia.
Assim, a família desta época torna-se o lugar privilegiado de afe-
to, de sentimentos, de amor, onde sexualidade seja sua razão de
ser.
O estabelecimento da sexualidade a partir da família im-
pôs a assertiva do papel dos pais sobre o tema, que por outro
lado recebe o apoio de médicos e pedagogos. E na relação com a

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psiquiatria “[...] personagens novas: a mulher nervosa, a esposa


frígida, a mãe indiferente ou assediada por obsessões homicidas,
o marido impotente, sádico, perverso, a moça histérica ou neu-
rastênica, a criança precoce e já esgotada, o jovem homossexual
que recusa o casamento ou menospreza sua própria mulher [...]”
(FOUCAULT, 1997, p. 104). Para o filósofo estas seriam as mani-
festações da aliança desviada e da sexualidade anormal e, desta
constatação nasce justificativa para ajudar a família a resolver o
problema através da medicina. Entretanto, somente posterior-
mente a psicanálise iria aparecer para pensar o problema.
Nota-se ainda na argumentação de Foucault (1997), a sua
percepção sobre a periodização da sexualidade burguesa, ao as-
severar diferenças entre um século XVII em que eclodiram as
grandes proibições, com valorização da sexualidade adulta e ma-
trimônio contrasta com o afrouxamento destes no século XX, com
consequente eliminação de muitos dos tabus. Assim, a burguesia
buscava constituir certa “docilidade dos corpos”, ou seja, “[...] não
se trata de cuidar do corpo, em massa, grosso modo, como se
fosse uma unidade indissociável, mas de trabalhá-lo detalhada-
mente; de exercer sobre ele uma coerção sem folga, de mantê-lo
ao nível mesmo da mecânica - movimentos, gestos atitudes, rapi-
dez: poder infinitesimal sobre o corpo ativo [...]” (FOUCAULT,
2005, p. 118). Assim, o filósofo reconhece ainda que a ação sobre
os corpos termina por esquadrinhá-lo, desarticulá-lo e recompô-
lo no esquema prescrito pela sociedade burguesa, que no fundo
se traduz numa “anatomia política”, que tem como objetivo pro-
duzir corpos submissos, dóceis. Isso termina por produzir a dis-
tribuição dos indivíduos no espaço, com controle das atividades,
ou seja, define-se as práticas que o corpo precisa executar. Isso
somado a uma vigilância hierárquica, como processo de ades-
tramento, através de um “jogo do olhar”, caso algo saia do script,
adota-se as sanções que visam à normalização.
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3. DOS ESPARTILHOS AO FIO DENTAL: O REINO DOS EFÊMEROS


E DA INSANIDADE

O mundo ocidental ousou olhar para o horizonte no pós-


1945 como se as relações homem-mulher estivessem inaltera-
das. Era um tempo de esperança, de descobertas científicas, a
exemplo da pílula anticoncepcional, do cinema que espalhava
pelo mundo o beijo mais profundo e personagens femininos mais
livres das guaras do machismo, dançavam embalados pelo rock
and roll.
É um universo novo em que os corpos agora começam a
ganhar formas mais visíveis, numa espécie de mistura, de malicia
e ingenuidade, num contexto social marcado pela família muito
presa aos valores cristãos.
Época em que a mulher que um dia sentiu os arrochos
dos espartilhos que esmagavam costelas em busca de culotes e
cinturas metricamente definidas, ousou romper com o pudor do
corpo, expondo-o em suas formas naturais, a exemplo de Leila
Diniz (1945-1972) fotografada gravida na praia, em agosto de
1971 (CASTRO, 1999).
Da ousadia de Leila Diniz podem-se visualizar novos ares
sobre a sociedade brasileira que ocupou as praias e discotecas na
década de 1970 e 1980. Espaços cosmopolitas que espelhavam a
rebeldia e a liberdade dos jovens que ousaram alargar ainda
mais a percepção sobre o corpo através de pílulas “mágicas”,
para aumentar nádegas, dietas e exercícios físicos.
O corpo escondido e moldado através de tecidos aflorou
depois dos 1950. Desnudo terminou apontando pequenas e
grandes deformações. Percepção que imprimiu cuidados. Para
alguns produtos de estética, cortes menos ousados nos vestuá-
rios solucionam o impacto visual de estias, varizes, mas para
outras as gorduras localizadas serviu de justificativa para aulas
de ginástica e musculação, ou a radicalização com as interven-
ções cirúrgicas, em que a lipoaspiração constitui uma das moda-
lidades mais recorrentes.

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CORPO, SEXUALIDADE E CONTEMPORANEIDADE

A febre da busca do corpo perfeito não encontrou barrei-


ras culturais ou mesmo corporal. Em nome do corpo perfeito,
capaz de exibir os modelos desfilados nas passarelas de Milão,
Paris, Nova Iorque e São Paulo, modelos magérrimas, quase pele
e osso deslizavam como pássaros de pernas longas, roupas ousa-
das, a desenhar seios, barrigas. Universo do desnudo, da joviali-
dade simboliza uma fronteira entre o corpo sexualmente atraen-
te, esteticamente bonito, apreciado daqueles disformes, incapaz
de usar um fio dental, uma sunga box, que complementa as cur-
vas dos músculos da barriguinha tanquinho.
O corpo que um dia enfrentou o espatilho (feminino), ou
pesados casacos (masculino) em pleno século XXI ver-se obriga-
do a ajustar o corpo aos moldes de uma simetria disposta pela
“ditadura da beleza” através do culto ao corpo.
Aqueles que se aventuram sobre a reflexão acerca do
corpo necessita pontuar aspectos relativos à representação soci-
al, especialmente no que tange a capacidade da modernidade de
apontar as fragilidades deste e criar condições para modelar e
refazer imperfeiçoes, num jogo de recriar a aparência em busca
da juventude. É neste contexto que aparece um mercado preocu-
pado em atender as novas demandas por produtos estéticos, por
aulas de ginástica, tratamento de emagrecimento etc. (BRETON,
2011).
O homem que busca retocar o corpo, ou reinventá-lo é
aquele que experimenta os dessabores da individualidade, do
medo, da angustia que marca a busca incessante pela beleza num
mundo competitivo, em que o ser busca tornar o corpo mais efi-
ciente.
O homem que busca retocar o corpo pela para a disciplina que o
impede de ingerir certos alimentos ou bebidas; realização de
exercícios específicos que moldam, que livelam e impõe a quebra
de limites. Mas, a única certeza é que não é possível ter seu pró-
prio corpo, pois quanto mais se busca, mais se convence da in-
completude envolta numa ilusão.
Este apego desenfreado ao eu é uma consequência do in-
dividualismo na cultura ocidental e que tem se espalhado pelo
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mundo como uma febre. Assim, o corpo rascunho, como assevera


Le Breton (2008), faz arte da criação do sujeito sobre si mesmo
e, neste sentido, o processo de hibridação é necessário para que
ele consiga existir neste mundo da efemeridade, caso contrário o
menino raquítico ficara disforme na atual cena pública, por isso
podemos então compreender o avanço do número de academias
de musculação por todos os cantos do país.
O corpo construído no interior da modernidade é com-
preendido por Le Breton (2008), como portador de uma “subje-
tividade lixo”, ou seja, capaz de se adaptar as diferentes situações
e, nesta condição abandona o velho princípio de ser-no-mundo,
como portador de uma essência humana, na perspectiva desen-
volvida pelo filósofo Merleau-Ponty (1999). Agindo assim, o ho-
mem verá o corpo de forma fragmentada e, em geral suas per-
cepções estarão ligadas aos momentos de dor, excessos, deficiên-
cias, etc. Isso ocorre porque as atividades são desenvolvidas no
automático.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O indivíduo moderno reserva considerável importância


ao trabalho do corpo (body business) e, neste caso, é natural que
haja sacrifícios físicos e subjetivos, como condição básica para a
felicidade, o bem-estar, o casamento dos sonhos, a conquista de
espaço em determinados círculos sociais. Aqui fica claro que o
corpo constitui um instrumento para o desenvolvimento das
relações sociais na sociedade contemporânea. Entretanto, um
indivíduo do século XX ou XXI tem muito mais autonomia sobre o
corpo do que aquele que experimentou as regras de normaliza-
ção no século XVIII ou as interdições médicas e policiais no sécu-
lo XIX ou mesmo até meados do século XX.
Ao trabalhar o corpo, quer seja numa academia, ou atra-
vés de produtos químicos ou cirurgia plástica, demonstra que
tem consciência que sua existência depende deste esforço, ape-
sar disso, nem sempre os resultados são os desejados e muitos

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CORPO, SEXUALIDADE E CONTEMPORANEIDADE

jovens têm sido atendidos anualmente nas unidades de emer-


gência vítimas de abuso de anabolizantes.
Nota-se que o trabalho de construção do corpo constitui
uma prática desenfreada no conjunto da sociedade moderna,
apesar dos indicativos da necessidade de se buscar se exercitar
de forma cautelosa e com a ajuda de um profissional devidamen-
te capacitado. A imagem que perpassa é do corpo como a chave
para se colocar adequadamente na atualidade, para se exercer a
sexualidade em sua plenitude.
A lição primária é que a sexualidade apesar de todos os
avanços e publicidade de adquiriu no contexto das três últimas
décadas, especialmente advinda da relação com a epidemia de
aids , ainda é um tema em aberto, com forte rejeição de setores
conservadores, a exemplo de segmentos religiosos que apregoa
um modelo fechado no esquema da complementariedade entre
os sexos visando exclusivamente a reprodução.
O desfio atual é localizar o papel de instituições e atores
que atuaram na repressão a sexualidade (pais, religiosos, profes-
sores, médicos) no interior de um debate que se amplia, apesar
dos tabus que ainda persistem e muitas inconsistências na argu-
mentação que teimam em rotular e enviesar o discurso por inte-
resse de segmentos que pouco compreendem o alcance do fenô-
meno da sexualidade, a exemplo da proibição da distribuição do
“kit contra a homofobia”, que constituiria um esforço interminis-
terial (Educação e Saúde), em prol da redução da violência con-
tra o segmento de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgê-
neros (LGBTs) na escola, que foi barrado pela bancada religiosa
(evangélica e católica) no Congresso Nacional, que fez com que a
Presidente Dilma Rousseff vetasse a campanha, em 2011.
É um debate que se mostra aberto e cheio de bifurcações,
onde correntes teóricas, a exemplo dos queer rivalizam com os
culturalistas em prol de uma síntese teórica capaz de explicar
atores, papéis, práticas e identidades em contextos múltiplos. A
tarefa está lançada, quando se visualiza cenários e eventos pouco
explorados, a exemplo da sexualidade de indivíduos da terceira
idade pouco explorados.
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REFERÊNCIAS

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