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AS NARRATIVAS MÍTICAS

AS NARRATIVAS MÍTICAS

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Texto escrito originalmente no formato folhas com o intuito de ser publicado numa terceira edição do Livro Didático Público de Filosofia da Secretaria de Educação do Estado do Paraná. Juliano Orlandi é professor da rede estadual de ensino deste mesmo estado.
Texto escrito originalmente no formato folhas com o intuito de ser publicado numa terceira edição do Livro Didático Público de Filosofia da Secretaria de Educação do Estado do Paraná. Juliano Orlandi é professor da rede estadual de ensino deste mesmo estado.

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1 AS NARRATIVAS MÍTICAS – Juliano Orlandi (retirado de www.seed.pr.gov.

br/portals/folhas) Os povos da antiguidade tinham o hábito de elaborar histórias sobre deuses, heróis e criaturas fantásticas que eram repassadas de uma geração para outra nos rituais religiosos, nas festividades ou simplesmente nas conversas diárias. Essas histórias, comumente chamadas de mito, são consideradas hoje absurdas e fantasiosas, mas continuam fascinando tanto jovens quanto adultos. Em semelhança a esses povos, os gregos antigos também formularam histórias sobre deuses, heróis e criaturas fantásticas. O que ocorreu especificamente com este povo foi que, a partir do séc. VI a.C., o modo mítico de produzir discurso foi criticado e lentamente substituído por uma nova modalidade de discurso: a filosofia. Quais são, contudo, as características do mito que o tornam diferente dos discursos filosóficos? 1. O MITO GREGO Os mitos eram narrativas fantásticas transmitidas na Grécia antiga (séc. XX – VI a.C.) de forma oral pelos poetas e cantores da época: os rapsodos e os aedos. Neles eram relatadas as aventuras e lutas das divindades como Zeus, Apolo, Afrodite e dos heróis como Héracles, Teseu e Odisseu. As narrativas míticas explicavam os mais variados aspectos da realidade grega e constituíam, assim, a visão de mundo dominante entre os helenos. Os mitos remontam à época em que ainda não havia escrita na Grécia e, por essa razão, eram difundidos por meio da palavra falada. O vocábulo grego mýthos, do qual se origina o termo português “mito”, compartilha o mesmo radical do verbo grego mýtheomai, cujo significado é “dizer”. Assim, mito significa, em sua acepção mais primitiva, “palavra falada”, “o que foi dito”. Os grandes representantes desse tipo de narrativa, os poetas Homero e Hesíodo, viveram, na verdade, em seu período mais tardio; no qual a escrita é redescoberta pela cultura grega e permite, assim, o registro das antigas narrativas. As principais obras desses autores, a Ilíada e a Odisséia, no caso de Homero, e a Teogonia e Os Trabalhos e os Dias, no caso de Hesíodo; fornecem-nos o mais remoto testemunho da antiga cultura helênica. Ao longo da história, os mais diversos interesses, continuamente, voltaram seus olhos para as obras de Homero e Hesíodo na perspectiva de aprendizagem e conhecimento. Na perspectiva de compreender o surgimento da filosofia, entretanto, três características se destacam: a função de explicação e organização da realidade, o apelo ao divino ou sobrenatural e, finalmente, a revelação como modo hegemônico de acesso ao saber. Escutemos um mito grego e procuremos descobrir as características citadas acima. “Aborrecido com seus companheiros por não acreditarem em sua origem divina, Faetonte, seguindo o conselho da mãe mortal Climene, procurou o pai Apolo em seu palácio dourado em busca de um sinal pelo qual todos soubessem que pertencia à raça dos deuses. Embora Apolo tenha prometido, sob juramento pelo Estige, conceder qualquer pedido que Faetonte lhe fizesse, desgostoso ficou ao ouvir o desejo do filho imprudente: conduzir por um dia a carruagem do Sol. Alertou-o que a incumbência era excessiva para um mortal, visto que, entre os deuses do Olimpo, apenas ele próprio estava destinado a suportar tão penoso trabalho. O atrevido rapaz, no entanto, teimou em sua audaciosa pretensão e não se deixou convencer pelas súplicas paternas. Ao subir na obra-prima de Hefesto, o carro dourado salpicado de pedras preciosas e aliado aos corcéis de fogo, exaltou-se o rapaz com a felicidade de ser seu dono durante um dia. Tal euforia, entretanto, logo deu lugar ao sentimento de impotência diante da dificultosa tarefa, pois assim que os cavalos perceberam que suas rédeas estavam em mãos sem prática, passaram a escolher o caminho à revelia. Ao invés de se manter em seu trajeto habitual, o Sol se precipitava para baixo, destruindo a face amável da natureza e as obras do homem. A relva murchou, as searas foram queimadas e os bosques desfizeram-se em fogo e fumo. Nesse dia, um pedaço da terra transformou-se num deserto de areia, onde nem homens nem animais podem se desenvolver. Perturbado pela balbúrdia de Faetonte, Zeus-pai acordou de sua sesta e lançou um raio na descontrolada carruagem do Sol. Arrancado do carro, o jovem presunçoso se precipitou em direção ao solo com o cabelo em chamas, como uma estrela cadente, para ir apagar-se no rio Erídano. Os corcéis do Sol, sem condutor, procuraram sua cocheira no céu; e por uma vez caiu a noite sobre a Grécia em pleno meio-dia.”1
____________________ GLOSSÁRIO Apolo – filho de Zeus com Leto e irmão de Ártemis. Era o deus da luz e do Sol e era identificado com o arco e a flecha, a poesia, música e a verdade. Estige – é um dos rios do mundo mítico dos mortos, o Hades. Para os gregos, um juramento pelo Estige não pode ser desrespeitado nem pelos deuses. imprudente – irrefletido, precipitado. incumbência – missão,
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Adaptado de MONCRIEFF, A. R. H. Mitologia Clássica: Guia Ilustrado. Lisboa: Editorial Estampa, 1997.

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encargo. penoso – doloroso, fatigante. audaciosa – ousadia, atrevimento. súplica – oração, pedido, prece. salpicado – manchado, espalhado em partículas. euforia – bem-estar, felicidade. revelia – rebelde, esquivo. relva – terreno coberto de erva. seara - campo que tem cereais semeados. balbúrdia – confusão, desordem. Zeus – é o chefe dos deuses gregos, identificado ao raio e ao trovão. presunçoso – presumido, vaidoso. Erídano – é um dos rios do mundo mítico dos mortos, o Hades. cocheira – local onde se alojam cavalos e carruagens. corcéis – cavalos.

2. A FUNÇÃO DE EXPLICAÇÃO E ORGANIZAÇÃO DA REALIDADE A principal característica das narrativas míticas, que se apresenta a partir de uma breve leitura do Mito de Faetonte, é a função de explicar e organizar a realidade. Todos os mitos pretendem tornar inteligível um ou mais fenômenos que influenciam a vida humana. Assim, os eventos que ocorriam diariamente espantavam as pessoas e exigiam explicações. O mito é, nesse sentido, a primeira resposta que os gregos antigos ofereceram para as perguntas que surgiam de seu contato com os fenômenos da realidade. No mito de Faetonte, por exemplo, é possível perceber constantemente essa preocupação. Logo no início, o mito apresenta uma explicação para a natureza do fenômeno do Sol e para o seu movimento aparente. Segundo essa explicação, ele é uma carruagem de fogo puxada por cavalos flamejantes. Um pouco adiante, a narrativa de Faetonte explica a ocorrência de um incêndio que devastou as florestas e as plantações. Explicam-se também o fenômeno da estrela cadente, do raio e de um eclipse solar. A história de Faetonte nos mostra claramente a preocupação da narrativa mítica em oferecer explicações para os diversos fenômenos que ocorriam entre os homens gregos. Segundo Coulanges (2000, p. 127), nos primeiros tempos, “[...] os costumes da vida civilizada ainda não haviam estabelecido uma separação entre natureza e homem”. Os gregos primitivos estavam de tal modo submetidos à força da natureza que sentiam, constantemente, suas fraquezas e limitações diante de tudo aquilo que lhes cercava. Assim, esperavam ansiosamente pela chuva de que dependia sua colheita, receavam as tempestades e secas pelo seu poder de destruição, espantavam-se com o desaparecimento repentino do Sol no momento de um eclipse. “O homem experimentava em si, perpetuamente, um misto de veneração, de amor e de terror, perante a poderosa natureza” (Ibidem, p. 127-128). Julgando as forças naturais em semelhança consigo, o grego primitivo reconheceu-lhes o pensamento, a vontade, os sentimentos; “[...] e,

como as sentia poderosas e sofria seu predomínio, confessou a estas suas dependências; rezou-lhes e adorou-as; e dessas coisas construiu os deuses” (Ibidem, p. 128). Podemos chamar esse processo pelo nome de “deificação das forças da natureza”. Ele se caracteriza, basicamente, oferecer explicações místicas ou religiosas para os eventos que ocorrem entre os homens e para os quais não há outra explicação disponível. Ele não se esgota, contudo, na explicação dos fenômenos da natureza, mas pretende explicar e organizar fenômenos políticos ou sociais e, até mesmo, fenômenos psicológicos. É o que ocorre, por exemplo, com a guerra de Tróia, evento político-social ocorrido aproximadamente por volta de 1250 a.C. Segundo o relato homérico, ela aconteceu por causa de um concurso de beleza entre as deusas Afrodite, Atena e Hera, no qual o juiz troiano, Páris Alexandre, recebeu como suborno a capacidade de seduzir a mais bela das mulheres: Helena. Ela, no entanto, era casada com Menelau, rei de Esparta; que uma vez ultrajado, reuniu, com a ajuda de seu irmão Agaménon, os exércitos aqueus e partiu em direção à Tróia para recuperar sua esposa. Nesse caso, o fenômeno explicado pelo mito não é da ordem natural, mas pertence à ordem humana. Os mitos têm, portanto, a pretensão de oferecer explicações para toda a realidade humana, seja ela natural ou “artificial”. 3. O APELO AO DIVINO OU SOBRENATURAL A segunda característica que podemos perceber a partir da leitura do mito de Faetonte e que está intrinsecamente ligada à primeira é o apelo ao divino ou sobrenatural. Ela constitui a estrutura de explicação da realidade utilizada nas narrativas míticas e, por essa razão, repete-se nos diversos acontecimentos e personagens dos mitos antigos. Ela se manifesta, exemplarmente, na personagem central, Faetonte. Segundo a terminologia mitológica, ele é um semideus, isto é, ele é parcialmente divino e parcialmente humano, pois é filho do deus Apolo com uma mortal: Climene. Por sua ascendência divina, realiza ações que extrapolam a vida dos homens comuns. Nesse sentido, ele é divino. Por outro lado, em função de sua ascendência materna, ele não tem poder suficiente para realizar as ações que os deuses realizam. Portanto, ele é humano. Essa diferença entre humano e divino, mortal e imortal, natural e sobrenatural ou ordinário e extraordinário constitui o modo próprio através do qual os mitos gregos explicavam e organizavam os fenômenos da realidade. O jovem grego é capaz, segundo o mito, de realizar coisas que são absolutamente proibidas aos demais mortais. Ele

3 pode procurar o pai num palácio divino, assumir temporariamente as funções de um deus, utilizar-se de artefatos divinos, etc. Em todos os casos, Faetonte não leva uma vida comum e banal como os outros homens. Pelo contrário, sua vida é extraordinária. Se, entretanto, ele pode ir até o palácio paterno, por outro lado, esta não é a sua morada. Se ele pode ter um pedido concedido por um deus, ele é, no entanto, desencorajado a fazê-lo. Se ele assume uma função divina, ele não é, contudo, capaz de concluí-la. Faetonte personifica uma distinção e uma tensão entre o divino e o humano que constitui para os gregos antigos a estrutura de organização e explicação da realidade. Todos os eventos naturais, os fenômenos políticos e os estados psicológicos, e não apenas as personagens, estão, aos olhos dos gregos do mito, imbuídos dessa tensão entre o divino e o humano. Explicar os acontecimentos da realidade significa nesse contexto descobrir as causas sobrenaturais ou divinas dos fenômenos naturais ou humanos. No mito de Faetonte, por exemplo, todas explicações encontradas para os fenômenos supracitados são de ordem sobrenatural ou divina: o Sol é uma carruagem de fogo conduzida por um deus, o incêndio é causado pela aproximação da carruagem à terra, o raio é manifestação da vontade de Zeus, a estrela cadente é Faetonte caindo com cabelo em chamas e, finalmente, o eclipse solar é o retorno precoce da carruagem à cocheira. Todos esses casos organizam seus elementos sobre a mesma estrutura de sentido: a tensão entre o humano e o divino e, assim, expressam o modo específico de explicação da realidade das antigas narrativas míticas. ________________ Oculto retêm os deuses o vital para os homens; senão comodamente em um só dia trabalharias para teres por um ano, podendo em ócio ficar; [...] Mas Zeus encolerizado em suas entranhas ocultou, pois foi logrado por Prometeu de curvo-tramar; por isso para os homens tramou tristes pesares: ocultou o fogo. E de novo o bravo filho de Jápeto roubou-o do tramante Zeus para os homens mortais em oca férula, dissimulando-o de Zeus frui-raios. Então encolerizado disse o agrega-nuvens Zeus: “Filho de Jápeto, sobre todos hábil em suas tramas, apraz-te furtar o fogo fraudando-me as entranhas; grande praga para ti e para os homens vindouros! Para esses em lugar do fogo eu darei um mal e todos se alegrarão no ânimo, mimando muito esse mal”. Disse assim e gargalhou o pai dos homens e dos deuses; ordenou então ao ínclito Hefesto muito velozmente terra à água misturar e aí pôr humana voz e força, e assemelhar de rosto às deusas imortais esta bela e deleitável forma de virgem; e a Atena ensinar os trabalhos, o polidedáleo tecido tecer; e à áurea Afrodite à volta da cabeça verter graça, terrível desejo e preocupações devoradoras de membros. Aí pôr espírito de cão e dissimulada conduta determinou ele a Hermes Mensageiro Argifonte. Assim disse e obedeceram a Zeus Cronida Rei. [...] o arauto dos deuses aí pôs e a esta mulher chamou Pandora, porque todos os que têm olímpia morada deram-lhe um dom, um mal aos homens que comem pão. [...] (HESÍODO, 1996, p. 25-29).
____________________ GLOSSÁRIO Afrodite – deusa grega do amor e da beleza. Agrega-nuvens – que reúne as nuvens. Aprazer – agradar. Arauto – mensageiro. Argifonte – mensageiro rápido. Atena – deusa grega da sabedoria, inteligência e guerra. Áurea – de ouro, da cor de ouro. Cronida – filho de Cronos, um dos seis titãs. Curvotramar – astuto, de intenções ocultas. Deleitável – que dá prazer. Encolerizado – enfurecer. Férula – espécie de planta utilizada na conservação e transporte do fogo. Frui-raios – que está na posse do raio. Ínclito – famoso, ilustre. Jápeto – um dos seis titãs. Lograr – burlar. Olímpia – relativo ao monte Olimpo, morada dos deuses. Pandora – na mitologia grega, a primeira mulher. Polidedáleo – muito complexo, intrincado. Prometeu – filho do titã Jápeto. Titãs – divindades gregas anteriores aos deuses olímpicos.

4. A REVELAÇÃO COMO MODO HEGEMÔNICO DE ACESSO AO SABER Se as narrativas míticas relatam, referindo-se ao mundo dos deuses, o surgimento da realidade e dos diversos fenômenos humanos; então elas constituem a forma de “conhecimento” própria dos gregos arcaicos. A concepção de saber que lhe determina as características é, contudo, bastante particular e merece, por essa razão, um tratamento minucioso. No Proêmio ao poema Teogonia, diz Hesíodo (2001, p. 107): Elas [Musas] um dia a Hesíodo ensinaram belo canto quando pastoreava ovelhas ao pé do Hélicon divino. Esta palavra primeiro disseram-me as Deusas Musas olimpíades, virgens de Zeus porta-égide: 'Pastores agrestes, vis infâmias e ventres só, sabemos muitas mentiras dizer símeis aos fatos e sabemos, se queremos, dar a ouvir revelações'. Assim falaram as virgens do grande Zeus verídicas,

4 por cetro deram-me um ramo, a um loureiro viçoso30 colhendo-o admirável, e inspiraram-me um canto divino para que eu glorie o futuro e o passado, impeliram-me a hinear o ser dos venturosos sempre vivos e a elas primeiro e por último sempre cantar.
[...] ____________________ GLOSSÁRIO Musas – as nove divindades gregas que presidem todas as formas de manifestação espiritual. Hélicon – monte da Grécia Central. Olimpíades – relativo ao monte Olimpo. Porta-égide – que carrega o escudo, protetor, defensor. Símeis – semelhantes, iguais.

Assim como todos os poemas da Grécia arcaica, a Teogonia de Hesíodo se inicia com a estrutura da evocação das Musas. Elas são filhas de Zeus-pai com a deusa Mnemósine (Memória) e foram criadas para que louvassem todas divindades com o canto. Quando, porém, são evocadas no início de um poema grego, cumprem o importante papel de inspirar o poeta (“colhendo-o admirável, e inspiraram-me um canto / divino para que eu glorie o futuro e o passado”, v. 31-32). Essa inspiração promovida pelas Musas deve, entretanto, ser entendida num sentido mais forte do que o corriqueiro. Ela não constitui um mero entusiasmo que anima a atividade do poeta, mas expressa a concessão do poder divino de canto a Hesíodo. O cetro mencionado no verso 30 é, entre os gregos, símbolo de poder e competência, quer nas reuniões dos reis, quer nos círculos de ouvintes dos aedos. Nesse poema, o símbolo do poder concedido a Hesíodo é o loureiro, árvore relacionada ao deus Apolo, que junto às Musas preside as artes e a música. Ao oferecer o loureiro viçoso como cetro, as Musas “[...] lhe [Hesíodo] outorgam o poder que são elas próprias, – ou, dito de outro modo, mais usual e menos nítido, o poder de que elas são detentoras” (TORRANO, 2001, p. 27). As Musas não só concedem o poder de cantar ao poeta grego, mas também lhe ensinam qual canto deve ser celebrado (“Elas um dia a Hesíodo ensinaram belo canto” v. 22). O objeto dos seus versos, assim como de qualquer outro poema grego do período arcaico, é sempre o mesmo: as façanhas dos deuses imortais (“impeliram-me a hinear o ser dos venturosos sempre vivos” v. 33). No próprio título da obra já pode se perceber a natureza divina de seu tema: da união de “theós”, cujo significado é “deus”, e “génos”, que significa “nascimento”; resulta “teogonia”, “o nascimento dos deuses”. Esse conteúdo pertence, entretanto, à dimensão

sobrenatural ou divina, a qual o homem, em virtude de sua natureza mortal, não tem acesso. Para descobrir,portanto, as causas dos fenômenos naturais ou humanos; ele necessita de alguma forma de mediação com o sobrenatural. As Musas exercem, para os gregos do período mítico, esse papel e, assim, revelam aos limitados mortais o que ocorre no mundo dos deuses. Sem a evocação das Musas, portanto, as narrativas míticas perdem sua força argumentativa e a legitimidade característica dos discursos gregos arcaicos. A tensão entre uma realidade humana e outra realidade divina impõe a necessidade de uma mediação, que ocorre nos mitos gregos por força da concessão do poder das Musas aos aedos e rapsodos. Em função desta estrutura interna, o mito expressa a concepção mítica de que a sabedoria só é obtida por meio da revelação divina. 5. O ALCANCE DO MITO Os mitos constituíam, portanto, uma modalidade discursiva de explicação da realidade que predominou entre os gregos antigos até o séc. VI a.C. Seu modo próprio de entender os fenômenos estava fundado na tensão entre o divino e o humano e, assim, ele encontrava para todos os eventos naturais ou sociais causas divinas ou sobrenaturais. Por força dessa estrutura de explicação, as causas dos fenômenos ordinários estavam distantes dos homens comuns e o único modo de conhecê-las era através da mediação de uma divindade. Por isso, todos os poemas míticos se iniciavam com a estrutura de evocação das Musas. A partir do séc. VI a.C., no entanto, os gregos passaram a desenvolver uma nova forma de discurso que pretendeu, explicitamente, superar as antigas narrativas míticas. Embora o predomínio da poesia tenha sido enfraquecido em função dessa novidade e também em função das diversas mudanças sociais que lhe acompanharam, a estrutura mítica de explicação dos fenômenos jamais deixou de povoar e influenciar a relação intelectual dos homens com o mundo. Por essa razão, é possível percebê-la em épocas mais recentes da história. É possível inclusive perceber sua presença na época atual. Nesse sentido, a explicação mítica dos fenômenos não deve jamais ser considerada primitiva ou atrasada, porque ela ainda determina o modo como nós apreendemos a realidade.

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