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A INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS

Loraine Boettner

Benjamin B. Warfield
Copyright @ 2020, de Editora Monergismo
Publicado originalmente em inglês sob o título
The Inspiration of Scripture (Boettner) e
The Inspiration and Authority of the Bible (Warfield).

Todos os direitos em língua portuguesa reservados por


EDITORA MONERGISMO
SCRN 712/713, Bloco B, Loja 28 — Ed. Francisco Morato Brasília, DF, Brasil — CEP 70.760-620
www.editoramonergismo.com.br

1ª edição, 2020

Tradução (e adaptação): Valter Graciano Martins


Revisão: Felipe Sabino de Araújo
Sumário

A INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS


1. Natureza da inspiração das Escrituras
2. Os autores afirmam possuir inspiração
3. Natureza da influência pela qual a inspiração é alcançada
4. Os supostos erros das Escrituras
5. Fidedignidade da Bíblia
6. Posição inconsistente dos modernistas
Conclusão

CONCEITO BÍBLICO DE INSPIRAÇÃO


1. O significado dos termos
2. A ideia fundamental de inspiração
3. Passagens Importantes
4. O cumprimento indispensável das Escrituras
5. O testemunho de Cristo acerca da autoria divina
6. O testemunho dos apóstolos
7. A identificação de Deus com as Escrituras
8. Os oráculos de Deus
9. O elemento humano nas Escrituras
10. Os processos divinos para a elaboração das Escrituras
11. O problema da origem: a parte que Deus assumiu
12. O efeito das características humanas: preparação providencial
13. Inspiração: mais que providência
14. Inspiração e revelação
15. As Escrituras serão um livro divino-humano
16. As Escrituras que os escritores neotestamentários possuíam
17. O termo Escrituras abrange o Novo Testamento
A INSPIRAÇÃO DAS ESCRITURAS

Loraine Boettner
1. Natureza da inspiração das Escrituras

A resposta que damos à pergunta, “que é o cristianismo?”, em grande


medida depende de nosso conceito de “Escrituras”. Se crermos que a Bíblia é
a Palavra de Deus, e portanto infalível, teremos uma concepção do
cristianismo. Em contrapartida, se admitirmos que ela se trata apenas de uma
coleção de livros humanos, ainda que de valor consideravelmente acima do
normal, teremos uma concepção do cristianismo radicalmente diferente, se é
que de fato lhe podemos chamar legitimamente cristianismo. Assim, é difícil
dar importância demasiada a uma doutrina a respeito da inspiração das
Escrituras.
Em todas as questões de controvérsia entre os cristãos, as Escrituras
são reconhecidas como o supremo tribunal. Historicamente, elas têm sido a
autoridade comum do povo cristão. Cremos que elas contêm um sistema de
doutrina harmônico e suficientemente completo; que todas suas partes são
consistentes entre si, e que é nosso dever descobrir essa consistência, fazendo
uma investigação cuidadosa do significado de certas passagens. Entregamo-
nos a este Livro sem reservas. Não apelamos para uma igreja infalível, nem
para uma hierarquia eclesiástica, mas para a Bíblia, Livro digno de toda nossa
confiança, afirmamos que ela é a Palavra de Deus, e que seu cuidado
providencial a tem conservado pura, através dos séculos. Ela é, portanto, a
única regra de fé e prática, inspirada e infalível.
Vemos facilmente que a questão da inspiração é de vital importância
para a igreja cristã. Se ela possui um corpo de escrituras, definido e
autoritativo, ao qual possa recorrer, então a tarefa de formular suas doutrinas
se torna comparativamente fácil. Tudo quanto é necessário fazer é achar os
ensinos das Escrituras e incorporá-los num Credo. Mas, se as Escrituras não
são autoritativas, se necessitam de ser corrigidas, revistas, e se algumas de
suas partes têm de ser rejeitadas, evidentemente a igreja se vê diante de uma
tarefa muito mais difícil e as opiniões contraditórias não terão fim, tanto a
respeito dos propósitos da igreja como do corpo de doutrina que deverá
formular. E não é de espantar que hoje tamanha controvérsia se deflagre
quando o cristianismo sustenta uma luta de vida ou morte contra a
incredulidade.
Devemos notar que a igreja nunca defendeu nenhuma das outras
doutrinas com tanta tenacidade, nem as ensinou com tanta clareza como o
tem feito com a doutrina da inspiração. Por exemplo, há considerável
diferença de opinião entre as várias denominações sobre o ensino das
Escrituras acerca do batismo, da ceia do Senhor, da predestinação, da
incapacidade humana de o pecador praticar boas obras, da eleição, da
expiação, da graça, da preservação dos santos, etc.; mas descobrimos que a
doutrina da inspiração é ensinada com tal consistência e clareza, que todos os
ramos da igreja, seja protestante ou romana, têm concordado, instintivamente,
em que a Bíblia é verídica e que suas sentenças são finais.
Mas, ainda que esta doutrina tenha sido histórica, e embora permaneça
até o presente nos credos oficiais das igrejas, é notório, em toda parte, que a
incredulidade conseguiu abrir grandes brechas. Talvez não exista na história
da igreja, nos últimos tempos, nenhum outro fato tão espantoso como é este
do afastamento da fé na autoridade das Escrituras. Até mesmo o
protestantismo, que aceitou na Reforma, como princípio fundamental, a
autoridade Bíblia, em vez de uma igreja autoritária, tem revelado tendência
para negligenciar a Bíblia. Apesar de nos últimos tempos terem-se escritos
muitos livros e artigos sobre este assunto, temos de confessar que a maioria
procura negar ou enfraquecer as doutrinas que a igreja tem defendido desde
seu início.
A indiferença que ultimamente se tem manifestado para com a sã
doutrina das Escrituras, possivelmente seja a principal causa da incerteza e da
dissensão interna que a igreja ora enfrenta. A ignorância acerca da natureza
da inspiração e a pobreza de opiniões a esse respeito só podem resultar em
confusão. Atualmente, milhões de cristãos são como aqueles homens cujos
pés pisam areias movediças e cujas cabeças estão no meio do nevoeiro. Não
sabem o que creem a respeito da inspiração e da autoridade da Bíblia.
Grande parte desta incerteza se deve à investigação crítica que se
deflagrou no século passado; e com frequência ouvimos dizer que temos de
abandonar a pretensão que a igreja nutre a respeito da inspiração das
Escrituras. Daí, a questão premente que paira hoje: Podemos ter ainda
confiança na Bíblia como guia doutrinário, mestre autoritativo da verdade, ou
teremos de encontrar outra base para nossa doutrina e, portanto, criar um
sistema de doutrina completamente novo?
A maravilhosa unidade da Bíblia só pode ser explicada pelo fato de ser
ela de origem divina. Sem a menor sombra de dúvida, ela é um livro e no
entanto é composta de 66 livros diferentes, escritos por cerca de 40 autores,
durante um período aproximado de 1.600 anos. Os escritores eram de
diferentes categorias sociais. Alguns foram reis e sábios, com a melhor
educação de seu tempo; outros eram vaqueiros e pescadores, sem qualquer
cultura. É impossível ter havido acordo ente eles. No entanto, existe um único
tipo de doutrina e de moral. O espírito e as concepções messiânicas
perpassam de um ao outro lado do Antigo Testamento, aparecendo desde o
princípio do Gênesis, onde se diz que a semente da mulher haveria de ferir a
cabeça da serpente, continuando no ritual do sistema sacrificial, nos Salmos,
nos Profetas Maiores e Menores, até Malaquias que encerra o Cânon do
Antigo Testamento com a promessa de que “de repente virá a seu templo o
Senhor, a quem vós buscais”. E “Cristo crucificado” é o tema do Novo
Testamento. O maravilhoso sistema de verdade que começou com Moisés é
completado por João no livro do Apocalipse. Nada há, em qualquer outro
livro da história da humanidade, nada que se possa aproximar deste
fenômeno que encontramos na Bíblia.
A existência de um largo e intransponível abismo entre a Bíblia e os
demais livros é evidente até para o mais distraído dos leitores. “Santo, Santo,
Santo” parece estar escrito em todas suas páginas. Sua leitura nos fala com
autoridade e nos sentimos, instintivamente, sob a obrigação de atender a seus
avisos. Sem dúvida, ela exerce uma influência que nenhum outro livro
possui, e somos forçados a formular a pergunta: “De onde ela vem?”. E, por
ser tão única no poder que exerce, tão sublime nos princípios morais e
espirituais que expõe, e pelos quais ela reivindica continuamente sua origem
divina, não estaremos justificados ao acreditar que esta pretensão é
verdadeira e que de fato ela é a infalível Palavra de Deus?
As expressões inspiração plenária e inspiração verbal são aqui usadas
como sinônimos. Por inspiração plenária queremos dizer que a influência
completa e perfeita do Espírito Santo foi concedida a toda a Escritura,
tornando-a, desta maneira, a revelação autoritativa de Deus. E embora a
revelação chegue até nós através da mente e da cooperação de homens, ela é,
estritamente falando, a Palavra de Deus. Por inspiração verbal queremos
afirmar que a influência divina que envolveu os escritores sacros foi
concedida não apenas aos pensamentos gerais, mas igualmente às próprias
palavras usadas, de modo que os pensamentos que Deus intentou revelar-nos
foram transmitidos com exatidão infalível. Os escritores foram instrumentos
de Deus, e o que escreveram foi o que Deus lhes disse.

A INSPIRAÇÃO É NECESSÁRIA PARA GARANTIR A EXATIDÃO


Parece natural que esta inspiração se estenda até mesmo às próprias
palavras, visto que o objetivo da inspiração é conseguir o registro da verdade.
Pensamentos e palavras estão tão inseparavelmente ligados que, em geral,
uma mudança nas palavras significa uma mudança no pensamento.
Por exemplo, em assuntos humanos, o negociante dita suas cartas à
secretária, usando palavras suas, de modo que elas encerram aquilo que
pretende dizer. Ele não pensa que sua secretária possa exprimir problemas
importantes, delicados e complexos apresentados apenas em simples termos
gerais. Muito menos o Espírito Santo diria a seu calígrafo: “escreve com este
fim.” A Bíblia pretende falar acerca de um certo número de assuntos que está
absolutamente fora do alcance da sabedoria humana — a natureza e os
atributos de Deus, a origem e os desígnios do homem e do mundo em que
vivemos, a queda do homem no pecado e sua atual situação, sem esperança, o
plano da redenção, inclusive a vida e morte de nosso Senhor Jesus Cristo, as
glórias celestiais e os tormentos do inferno. É necessário mais do que uma
supervisão geral para que a verdade a respeito desses grandes e
transcendentes assuntos seja apresentada sem erros e sem preconceitos.
Infalibilidade pressupõe que Deus escolheu suas próprias palavras. Todos
quantos têm tentado falar acerca destas coisas tão profundas, sem uma
revelação sobrenatural, pouco mais têm feito do que mostrar sua ignorância.
Tateiam como cegos, especulam e põem-se a adivinhar, deixando-nos, em
geral, numa incerteza maior do que aquela em que estávamos antes. Na
verdade, estes fatos estão fora do alcance da sabedoria humana. Basta que
consideremos os sistemas pagãos ou as teorias arrogantes e especulativas dos
filósofos, para verificarmos que os limites de nossa sabedoria espiritual não
se podem comparar com os da Bíblia. Só Deus é capaz de falar com
autoridade acerca desses assuntos; e, entre todos os livros existentes no
mundo, concluiremos que só a Bíblia possui, por um lado, uma descrição
adequada da majestade de Deus; e, por outro lado, uma descrição aceitável da
condição pecaminosa do coração humano e o remédio satisfatório para essa
condição.
Uma mera exposição humana das coisas divinas conteria erros, em
escala maior ou menor, tanto no que diz respeito às palavras escolhidas para
expressar ideias, como na ênfase proporcional dada às diferentes partes da
revelação. Visto que determinados pensamentos estão ligados
inseparavelmente a determinadas palavras, as expressões têm de ser exatas,
ou, caso contrário, os pensamentos transmitidos serão defeituosos. Por
exemplo, se admitirmos que expressões tais como resgate, expiação,
ressurreição, imortalidade, etc., usadas nas Escrituras, não têm qualquer
autoridade ou significado definido para além delas, segue-se que as doutrinas
que nelas se baseiam, não têm também autoridade definida. Comparando as
Escrituras entre si, vemos a ênfase que elas dão às palavras que empregam,
porquanto o significado exato depende do uso de determinadas palavras; por
exemplo, quando nosso Senhor diz que “a Escritura não pode falhar” (Jo
10.35); ou quando ele responde aos saduceus, referindo-se às palavras de
Moisés junto da sarça ardente, em que todo o peso do argumento depende do
tempo do verbo “Eu sou o Deus de Abraão, e o Deus de Isaque, e o Deus de
Jacó” (Mc 12.26); ou quando Paulo dá grande ênfase ao fato de que na
promessa feita a Abraão a palavra empregada está no singular — semente,
“como de uma”, e não sementes, “como de muitas”: “e a tua semente, que é
Cristo” (Gl 3.16). Em cada um desses exemplos o argumento gira em torno
do uso de uma única palavra, e em cada caso a palavra é decisiva, pela
autoridade divina que tem por detrás de si. A mudança exata do significado
das palavras tem, frequentemente, imensa importância para a decisão dos
problemas de doutrina e de vida.

UM SISTEMA DEFINIDO DE TEOLOGIA


Para fazermos um estudo sério sobre as doutrinas cristãs, necessitamos,
acima de tudo, possuir a certeza da veracidade da Bíblia. Se ela é um guia de
autoridade absoluta e digno de toda nossa confiança, então aceitaremos as
doutrinas que apresenta. É possível que não possamos apreender plenamente
o significado de todas as coisas, ou que haja de fato muitas dificuldades em
nossas mentes, porém nunca duvidamos de sua veracidade. Reconhecemos
nossas limitações, mas cremos em todas as verdades que nos são reveladas. A
sorte do cristianismo de fato está ligada à doutrina da inspiração da Bíblia,
porque, a menos que esta permaneça, nada mais teremos de estável.
Se temos como guia Escrituras dignas de confiança, teremos um
sistema evangélico de teologia distinto de um sistema naturalista, humanista
ou unitariano; na verdade a Bíblia ensina, de forma clara, um sistema
evangélico. Mas se a Bíblia não for um guia digno de toda nossa confiança,
teremos de procurar outra base para nossa teologia, e é bem provável que
fiquemos com pouco mais que um mero sistema filosófico. Perder a
confiança na Bíblia, como livro inspirado, é fazer desaparecer a confiança em
todo o sistema cristão. Isto nos é lembrado, de forma bem dolorosa, quando
tentamos ler alguns dos recentes livros religiosos, ou até mesmo teologias
sistemáticas, em que os autores não apelam para as Escrituras, mas para os
ensinos dos vários filósofos, em defesa de seus argumentos. Até hoje temos
aceitado as doutrinas pertinentes ao sistema cristão, porque são ensinadas na
Bíblia. E fora da Bíblia não existe nenhuma outra norma autoritativa.
A menos que a Bíblia possa ser citada como sendo um Livro inspirado,
sua autoridade e utilidade na pregação, no conforto aos doentes e na morte e
instrução em todas as perplexidades, ela fica empobrecida de forma fatal. Seu
“Assim diz o Senhor” fica reduzido a mera suposição humana, não podendo
ser mais considerado como nossa regra de fé e prática. Atualmente, como em
todas as épocas, os críticos destrutivos, os céticos e os modernistas de toda
espécie concentram seus ataques sobre a Bíblia. Procuram ver-se livres de sua
autoridade porque, de outra forma, seus sistemas não serão mais que um
amontoado de disparates.
Evidentemente, a inspiração que defendemos é a das palavras originais,
hebraicas e gregas, escritas pelos profetas e pelos apóstolos. Cremos que, se
as compreendermos no sentido em que foram escritas — simples declarações
de fatos, figuras de retórica, idiomatismo e poesia —, então a Bíblia não tem
qualquer erro, do Gênesis ao Apocalipse. Embora não diga muita coisa,
todavia aquilo que diz é verdadeiro, no sentido que tem em vista. Não
reivindicamos infalibilidade para as várias versões e traduções, nem mesmo
para as traduções livres feitas por uma só pessoa e que ultimamente têm se
tornado tão comuns. As traduções variam, necessariamente, com cada
tradutor, e só podem ser consideradas como exatas apenas na medida em que
reproduzem os autógrafos originais. Além disso, algumas das palavras
hebraicas e gregas não têm um equivalente preciso nas línguas modernas, e às
vezes até os melhores eruditos divergem a respeito do significado de certas
palavras. Em contrapartida, temos de reconhecer que não possuímos nenhum
dos autógrafos originais, e que os Manuscritos mais antigos que possuímos
são cópias de cópias. No entanto, os mais abalizados eruditos das línguas
grega e hebraica afirmam que em cerca de noventa e nove por cento dos
casos temos as palavras originais, tal era a precisão com que os copistas as
reproduziam, e tão fielmente os tradutores fizeram seu trabalho. Sem dúvida,
temos razão para dar graças a Deus pela Bíblia que nos chegou às mãos de
forma tão pura.
Eis a posição histórica dos protestantes a respeito da autoridade das
Escrituras. Foi defendida por Lutero e Calvino, e ficou gravada nos credos
escritos no período imediato à Reforma. A doutrina luterana da inspiração foi
apresentada na Fórmula de Concórdia, como segue: “Cremos, confessamos e
ensinamos que a única regra e norma, de acordo com as quais todos os
dogmas e todos os mestres devem ser comparados e julgados, não é outra
senão os escritos proféticos e apostólicos do Antigo e do Novo Testamento.”
A doutrina da Igreja Reformada foi apresentada na Segunda
Convenção Helvética da seguinte maneira: “Cremos e confessamos que as
Escrituras canônicas dos santos profetas e apóstolos, de ambos os
Testamentos, são a verdadeira Palavra de Deus, e que possuem autoridade
suficiente e inerente, e não humana. Foi o próprio Deus quem falou aos pais,
aos profetas e aos apóstolos, e continua a falar pelas Sagradas Escrituras.”
Na Confissão de fé Westminster, a Igreja Presbiteriana declara:
“Agradou ao Senhor, em tempos vários e ocasiões diferentes, revelar-se a si
próprio e declarar sua vontade para com sua Igreja; e depois ... pôs a mesma,
completamente, por escrito”. “A autoridade das Sagradas Escrituras, pela
qual deve ser acreditada e obedecida, depende não de algum testemunho
humano ou de alguma igreja, e sim inteiramente de Deus, seu Autor, que é a
Verdade; portanto, deve ser recebida, visto ser a Palavra de Deus.” E ainda:
“que tanto o Antigo quanto o Novo Testamento foram inspirados por Deus, e
por seu cuidado e providência singulares foram conservados puros através
dos anos”. Mais recentemente foi defendida por Hodge, Warfield e Kuyper.
Estes homens foram luzeiros e ornamentos do mais elevado tipo de
cristianismo, reconhecido, praticamente, por todos os protestantes.
Afirmaram que a Bíblia não só contém a palavra de Deus, como uma pilha de
restolho pode conter algum trigo, mas que a Bíblia é a palavra de Deus, em
todas suas partes.
2. Os autores afirmam possuir inspiração

As razões principais para sustentar-se que a Bíblia é a inspirada Palavra


de Deus são que os próprios autores afirmam possuir tal inspiração, e que o
conteúdo de suas mensagens confirma essa pretensão. A uniformidade com
que os profetas insistem em que as mensagens que apresentam não eram suas,
mas do Senhor, que suas mensagens eram a Palavra de Deus pura e sem
misturas, que falavam como a recebiam — é um fenômeno notável das
Escrituras. “Assim diz o Senhor” era o tema constante do profeta ao povo, e
isto revela que as palavras que proferiam não eram suas, mas do Senhor.
Paulo e os demais apóstolos pretendiam falar, não usando palavras ensinadas
pela sabedoria de homens, mas ensinadas pelo Espírito (1Co 2.13). Era
considerada de origem divina não só a substância de seu ensino, mas também
a forma de expressão.
Embora a pretensão de que falavam com autoridade divina seja
característica dos escritores de toda a Bíblia, nunca basearam, nem sequer
uma vez, essa autoridade em sua própria sabedoria ou dignidade. Falavam
como mensageiros ou testemunhas de Deus, e o que diziam devia ser
obedecido, simplesmente porque a autoridade de Deus estava por detrás
deles. Aqueles que os ouviam, era a Deus que ouviam, e os que se recusavam
ouvi-los, recusavam-se ouvir a Deus (Ez 2.5; Mt 10.40; Jo 13.20).
E, visto que os escritores pretendiam, tão reiteradamente, ter
inspiração, é evidente que, ou estavam inspirados, ou agiam com presunção
fanática. E assim, ou concluímos que a Bíblia é a Palavra de Deus, ou ela não
passa de crassa mentira. No entanto, como era possível que uma falsidade
exercesse influência tão singularmente benéfica e moralmente enobrecedora
que a Bíblia tem produzido em toda parte onde tem chegado? Para formular-
se essa pergunta é preciso responder-lhe prontamente.
Notemos igualmente que os contemporâneos dos escritores
neotestamentários, assim como os chamados Pais da Igreja, homens que
estavam em melhor posição para julgar se essas pretensões eram ou não
autênticas — aceitaram tais pretensões sem discutir. Reconheciam a
existência de um grande abismo entre aqueles escritos e os seus. Do mesmo
modo que para o moribundo Walter Scott havia um único Livro, também para
aqueles Pais da Igreja havia uma única Palavra de Deus autoritativa.
Baseavam nela doutrinas e preceitos. Os Evangelhos e as Epístolas contêm
abundância de evidências internas provando que esperavam ser recebidas, e
de fato eram recebidas com reverência e humildade. Seguindo o curso da
história, através dos séculos, a evidência se torna cada vez mais abundante.
Os próprios hereges testificavam desse fato, ansiosos como estavam de se
verem livres dessa autoridade. Além disso, os próprios escritos não contêm
contradições nem inconsistências que porventura destruam tais pretensões.
Apresentam, com a mais perfeita harmonia, o mesmo plano de salvação e os
mesmos elevados princípios morais. Portanto, se em primeiro lugar autores
sóbrios e honestos pretendem que suas palavras foram inspiradas por Deus, e
em segundo lugar tais pretensões não só não foram desmentidas, mas antes
foram aceitas por seus contemporâneos; e se, em terceiro lugar, os próprios
escritos não contêm nenhuma evidência contraditória, então temos, sem
sombra dúvida, fenômeno que não se pode desprezar.
Às vezes dirigimos objeção contra os livros do Novo Testamento só
porque não foram escritos pelo próprio Jesus, mas somente por seus
discípulos, mesmo assim algum tempo depois de sua morte. No entanto não
era razoável esperar que Jesus desse um relato completo do plano da salvação
durante seu ministério terreno, pois o mesmo não teria sido compreendido
senão depois de sua morte e ressurreição. Na verdade podia tê-lo apresentado
em forma de profecia, mesmo nos dias de sua carne, e de fato anunciou aos
discípulos a natureza geral de seu plano. Mas tudo indica que até mesmo os
discípulos mais íntimos não puderam compreender a natureza de sua obra até
que fossem iluminados pelo Espírito Santo, no dia de Pentecostes. Vistas
assim todas as coisas, o método mais racional foi o que ele escolheu — a
consumação dos acontecimentos, e em seguida a explicação por meio de
escritos inspirados. Isto estava também de acordo com o modo de agir do
Senhor, através de todo o Antigo Testamento.

O ENSINO DAS ESCRITURAS SOBRE A INSPIRAÇÃO


A doutrina bíblica do verdadeiro objetivo e função dos profetas, bem
como de seu método de expor a mensagem, é apresentada, de forma clara,
nas palavras do Senhor a Moisés: “Eis que lhes suscitarei um profeta como
tu, do meio de seus irmãos, e porei minhas palavras em sua boca, e ele lhes
falará tudo o que eu lhe ordenar” (Dt 18.18). O Senhor podia falar tanto pelos
profetas quanto por seu intermédio. Eles tinham de falar precisamente as
palavras recebidas, e não outras. “Eis que ponho minhas palavras em tua
boca” — disse o Senhor a Jeremias, ao designá-lo profeta das nações. Do
mesmo modo foi dito a Isaías (51.16; 59.21). E a expressão “Assim diz o
Senhor” é reiterada no livro de Isaías cerca de 80 vezes. Até mesmo o falso
profeta Balaão só podia falar o que o Senhor lhe ordenou que falasse: “E
disse o anjo do Senhor a Balaão: Vai com estes homens; mas falarás somente
a palavra que eu falar-te” (Nm 22.35; 23.5, 12, 16).
Em muitas passagens do Antigo Testamento, o que se descreve é
simplesmente um processo de ditado, ainda que não se nos informe por qual
método se conseguiu tal ditado. Em outras, nos é dado a entender que o
Senhor falou por intermédio de homens que de antemão escolheu como seus
instrumentos, dirigindo-os de tal maneira que o que falaram ou escreveram
eram palavras de Deus, e de forma evidente um produto distintamente sobre-
humano. O ensino uniforme do Antigo Testamento é que os profetas falaram
quando a Palavra de Deus lhes era transmitida (Os 1.1; Am 1.3; Mq 1.1; Ml
1.1; etc.).
A palavra hebraica para profeta é nabhi, “porta-voz”, não só um porta-
voz em geral, mas em forma eminente, ou, seja, porta-voz de Deus. Em
nenhum caso o profeta pretende falar movido por sua própria autoridade. Ser
profeta, em primeiro lugar, não provém de sua própria escolha, e sim uma
resposta à vocação divina, frequentemente uma vocação respondida com
relutância; e se ele fala ou pretende falar, isso se dá somente quando o Senhor
lhe diz o que deve falar.
E, em contraste com esta alta vocação dos verdadeiros profetas,
deveríamos notar os fortes avisos e as denúncias contra os que pretendiam
falar sem uma vocação diretamente divina: “O profeta que presumir
soberbamente falar alguma palavra em meu nome, e tal palavra não se
cumprir, ou o que falar em nome de outro deus, esse profeta morrerá” (Dt
18.20). Era um caso sério para meros homens e de mãos impuras
pretenderem falar em nome do Deus Altíssimo! No entanto, como é comum
ouvir-se, os críticos destruidores de nossos dias negam esta afirmação da
Bíblia, ou dizem que necessitamos de uma Bíblia menor, ou, inclusive, de
uma nova Bíblia, composta de assuntos mais modernos! E o erro cometido
ainda por outros, que adicionam algo à Palavra de Deus, como fazem os
católicos com os apócrifos e a tradição; a ciência cristã, com a “ciência e
saúde”, e com a “chave para as Escrituras”; e os mórmons, com seu “livro de
mórmon”. Tudo isso é tão prejudicial quanto diabólico!

TESTEMUNHO DE JESUS RELATIVO AO ANTIGO TESTAMENTO


É absolutamente evidente que Jesus considerava o Antigo Testamento
como plenamente inspirado. Ele o cita como tal e baseou nele seu ensino.
Uma de suas afirmações mais claras a este respeito encontra-se em João
10.35, onde, numa controvérsia com os judeus, sua defesa toma a forma de
apelo às Escrituras, e, depois de citar uma declaração, acrescenta as
significativas palavras: “E a Escritura não pode ser anulada.” A razão pela
qual valia a pena para Jesus, e vale a pena para nós, apelar para as Escrituras,
é que elas “não podem ser anuladas”.
E a palavra que se traduz por “anulada” é a que se usa para a
transgressão da lei, que significa negar as Escrituras. Para ele, assim como
para os judeus, um apelo para as Escrituras equivalia um apelo para a
autoridade cujas determinações eram finais, até nos mínimos detalhes. Que
Jesus considerava toda a Escritura como sendo a Palavra de Deus, pode ver-
se, por exemplo, em Mateus 19.4. Quando alguns dos fariseus lhe fizeram
perguntas a respeito do divórcio, sua resposta foi: “Não tendes lido que
aquele que os fez no princípio, macho e fêmea os fez, e disse: Portanto,
deixará o homem pai e mãe, e se unirá a sua mulher, e serão dois numa só
carne? ... Portanto, o que Deus ajuntou não o separe o homem”. Aqui Jesus
declara explicitamente que Deus é o autor das palavras de Gênesis 2.24:
“aquele que os fez ... disse: Portanto, deixará o homem pai e mãe, e se unirá a
sua mulher ...”. E no entanto, lendo estas palavras no Antigo Testamento,
nada há que indique ter sido Deus quem as proferiu, pessoalmente, visto que
são apresentadas por Moisés, e só podem ser atribuídas a Deus como seu
Autor, na medida em que toda a Escritura é sua Palavra. Marcos 10.5-9 e 1
Coríntios 6.16 apresentam exemplos semelhantes. Onde quer que Cristo ou
os apóstolos citem as Escrituras, pensam delas como sendo a voz viva de
Deus, e portanto como que possuindo autoridade divina. Não têm a mínima
hesitação em atribuir a Deus as palavras de autores humanos, ou de atribuir a
autores humanos as palavras de Deus (Mt 15.7; Mc 7.6, 10; Rm 10.5, 19, 20).
Quando repreende fortemente os saduceus, ele lhes diz: “Errais não
conhecendo as Escrituras ...” (Mt 22.29), precisamente aquilo que Jesus lhes
aponta não é o erro deles de não terem seguido as Escrituras, e sim de as
terem rejeitado.
Aquele que acha sua doutrina e prática nas Escrituras não erra. Tão
comum era este uso, e tão indiscutível sua autoridade, que, em seu conflito
mais vibrante, Jesus não precisou de outra arma além da palavra “Está
escrito!” (Mt 4.4, 7; Lc 4.4, 8; 24.26). Suas últimas palavras, antes de sua
ascensão, continham uma repreensão a seus discípulos por não terem
compreendido que tudo quanto se encontrava escrito nas Escrituras “tinha de
ser cumprido” (Lc 24.44). Se estava escrito que Jesus havia de sofrer estas
coisas, então todas as dúvidas a seu respeito se tornavam absurdas. Os
discípulos deviam basear-se nesta palavra, como um fundamento seguro.
Assim, recebemos o Antigo Testamento com base na autoridade de Cristo.
Ele no-lo dá e nos informa ser ele a Palavra de Deus, que os profetas falaram
pelo Espírito Santo, e que as Escrituras não podem ser anuladas. Ele o
mistura com suas inúmeras citações e com o Novo Testamento, de tal forma
que hoje temos uma Bíblia unificada. Através dos dois Testamentos, ouve-se
uma só voz. Ou eles ficam de pé, ou caem juntos.

A MANEIRA COMO O NOVO TESTAMENTO CITA O ANTIGO


Se Jesus mantinha a opinião de que todo o Antigo Testamento era
infalível, a mesma ideia não deixa de ser apresentada, e de forma bem clara,
pelos apóstolos. A maneira familiar como citavam qualquer parte das
Escrituras, como sendo a Palavra de Deus, sem levarem em conta o fato de as
palavras originais lhe serem ou não atribuídas, mostra que pensavam que ele
falava por meio do Antigo Testamento. Em Hebreus 3.7, citam-se as palavras
do salmista como sendo palavras diretas do Espírito Santo: “Portanto, como
diz o Espírito Santo, se hoje ouvirdes sua voz, não endureçais vossos
corações, como na provocação”. Em Atos 13.35, as palavras de Davi (Sl
16.10) são apresentadas como sendo as palavras de Deus: “Pelo que também
em outro salmo, diz [Deus, que é o sujeito da oração]: Não permitirás que teu
santo veja a corrupção”. Em Romanos 15.11, atribuem-se a Deus as palavras
do salmista: “E outra vez [Deus] diz: Louvai ao Senhor, todos os gentios, e
celebrai-o, todos os povos”. Em Atos 4.24, 25, o apóstolo atribui a Deus as
palavras proferidas pela boca de Davi no segundo salmo: “Deus ... disseste
pela boca de Davi teu servo: Por que bramaram as nações, e os povos
pensaram coisas vã?”. Em Hebreus 1.7, 8 nos deparamos com o mesmo
ensino a respeito de dois salmos. Em Romanos 15.10, atribuem-se a Deus as
palavras de Moisés: “E outra vez [Deus] disse: Alegrai-vos, gentios, com seu
povo” (Dt 32.43).
Estas citações revelam, de forma bem evidente, que na mente de Cristo
e dos apóstolos havia uma identificação absoluta entre o texto do Antigo
Testamento e a voz do Deus vivo. E, evidentemente, pode-se inferir que a
inspiração do Novo Testamento não é inferior à do Antigo Testamento. De
fato, a tendência tem sido atribuir ao Novo Testamento uma posição inferior.
Se o Antigo Testamento é apresentado como sendo inspirado, não há dúvida
alguma também acerca do Novo Testamento.

ALEGAÇÕES DOS ESCRITORES DO NOVO TESTAMENTO A RESPEITO DE SEUS


ESCRITOS

Quando examinamos as reivindicações que os escritores do Novo


Testamento apresentam acerca de sua própria obra, verificamos que
reivindicam para elas inspiração absoluta, e as colocam no mesmo nível das
Escrituras veterotestamentárias. Todas as escolas de crítica bíblica,
atualmente existentes, reconhecem que esta pretensão é feita reiteradamente,
ainda que neguem possuir fundamento. Por exemplo, notamos que, quando os
apóstolos começaram seu ministério, receberam do próprio Cristo a promessa
de diretriz sobrenatural: “E, quando vos entregarem, não cuideis em como ou
o que haveis de falar, porque, naquela hora, vos será concedido o que haveis
de dizer, visto que não sois vós os que falais, mas o Espírito de nosso Pai é
quem fala em vós” (Mt 10.19, 20; Mc 13.11; Lc 12.11, 12). Esta mesma
promessa foi reiterada no fim de seu ministério (Lc 21.12-15). É possível que
a promessa mais importante se encontre no Evangelho de João: “quando vier,
porém, o Espírito da Verdade, ele vos guiará a toda a verdade” (Jo 16.13).
Mais tarde os apóstolos reivindicaram esta mesma diretriz. Não tinham a
menor dúvida a respeito da exatidão de suas palavras, tanto sobre questões
históricas, quanto doutrinais — fenômeno este bastante notável, se
considerarmos que os historiadores mais concretos e amantes da exatidão
possuem uma segurança menor e pouco elevada, ao apresentar-nos detalhes
dos acontecimentos. Paulo afirma que seu evangelho é tão autoritativo, que
declara estarem errados e serem malditos todos quantos ensinarem outra
doutrina, ainda que os tais fossem anjos vindos do céu. “Mas, ainda que nós
mesmos ou um anjo do céu vos anuncie outro evangelho além do que já vos
tenho anunciado, seja anátema ...” (Gl 1.6-9). Seus mandamentos são do
Senhor, e são apresentados com autoridade obrigatória: “... as coisas que vos
escrevo são mandamento do Senhor” (1Co 14.37; cf. 2Ts 3.6, 12).
Escrevendo aos coríntios, Paulo faz distinção entre os mandamentos que são
do Senhor e aqueles que ele, Paulo, dava; porém os coloca lado a lado com os
mandamentos de Cristo e com a mesma autoridade (1Co 7.10, 12, 40).
Afirma que o que ele pregava na verdade era a “Palavra de Deus” (1Ts 2.13).
E essas coisas deviam ser recebidas imediatamente e sem discussão.
Devemos notar sua maneira fácil de combinar o livro de Deuteronômio com
o Evangelho de Lucas sob a designação comum de Escritura, como se fosse a
coisa mais natural: “Porque diz a Escritura: Não ligarás a boca ao boi que
debulha. E, digno é o obreiro de seu salário” (1Tm 5.18). Este mesmo
costume era normal entre os Pais da Igreja.
Nas Epístolas de Pedro encontra-se a mesma elevada opinião a respeito
dos escritos do Novo Testamento. Ele afirma que “a profecia nunca foi
produzida por vontade de homem, mas homens [santos] de Deus falaram
inspirados pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21). Ele afirma que os apóstolos, “pelo
Espírito Santo enviado do céu ... pregaram o evangelho” (1Pe 1.12). E coloca
os escritos de Paulo no mesmo nível das “demais Escrituras”, ao dizer: “...
nosso amado irmão Paulo vos escreveu, segundo a sabedoria que lhe foi dada
... em todas suas epístolas ... que os indoutos e inconstantes torcem, bem
como as demais Escrituras ...” (2Pe 3.15, 16). Não é possível atribuir maior
dignidade, reverência e autoridade, do que esta, a nenhum outro escrito.
Lucas declara que, no dia de Pentecostes, os discípulos falaram
“conforme o Espírito Santo lhes concedia que falassem” (At 2.4). E João, o
discípulo amado, fala da maldição que virá sobre todo aquele que se atrever a
tirar ou a acrescentar alguma coisa àquilo que escreveu (Ap 22.19).
Semelhantes reivindicações, se fossem baseadas simplesmente na autoridade
humana, revelariam apenas a mais espantosa impudência. Sem dúvida, é
impossível desmentir os inúmeros textos que ensinam a inspiração plenária, e
a ideia de que poderiam ser desmentidos se baseia na estranha noção de que
esta doutrina só é ensinada, aqui e acolá, em textos isolados. É certo que
alguns textos a apresentam com clareza excepcional, textos esses dos quais os
céticos gostariam de se ver livres. Mas essas passagens são apenas o apogeu
de um testemunho progressivo sobre a origem divina e a infalibilidade desses
escritos, ensino igualmente forte em ambos os Testamentos.
3. Natureza da influência pela qual a inspiração é alcançada

As igrejas evangélicas jamais defenderam aquilo que foi estigmatizado


como “teoria mecânica da inspiração”, não obstante as acusações em
contrário, feitas frequentemente. Em vez de reduzirmos os autores das
Escrituras ao nível de computadores, onde inserimos o que bem desejamos,
temos insistido em que, embora escrevendo ou falando, movidos pelo
Espírito Santo, mesmo assim eram seres pensantes, com vontade própria,
conscientes, cujo estilo e maneirismos particulares são traçáveis, de forma
evidente, em seus escritos. Se seu idioma nativo era o hebraico, escreviam em
hebraico; se era o grego, escreviam em grego; se eram cultos, escreviam
como homens cultos; se não eram cultos, escreviam como fazem os iletrados.
Não separamos os elementos divino e humano, mas insistimos em que os dois
estão unidos numa perfeita harmonia, de tal forma que todas as palavras das
Escrituras são, simultaneamente, Palavra de Deus e palavras de homens. Os
próprios escritores afirmam explicitamente que, neste processo, a influência
divina é primária e a humana, secundária; de forma que não são a fonte
originária, mas apenas os receptores e arautos das mensagens. Assim, o que
escreveram ou disseram não deve ser considerado simplesmente algo de sua
própria produção, e sim como de fato a Palavra de Deus, pura, e por essa
razão deve ser recebida e obedecida implicitamente.
O fato de podermos traçar, tão facilmente, o estilo ou a forma de
expressão peculiares nos escritos de Paulo, de João ou de Moisés, revela que
as Escrituras foram dadas de tal forma que permitem personalidades
humanas. Se fosse de outra maneira, as Escrituras teriam se reduzido a um
nível morto, de monotonia, e realmente teríamos uma teoria mecânica de
inspiração, em que os autores pouco mais eram do que autômatos. Jaz na
própria ideia de inspiração o fato de que Deus usou os agentes que
conhecemos, de acordo com suas próprias naturezas. Um tipo de homem foi
escolhido para escrever história, outro tipo para escrever poesia, e ainda outro
para apresentar doutrina, se bem que estas funções sobrepujassem em alguns
escritores. E, acima de tudo, devemos ter em mente que, durante toda a vida
do profeta, o controle providencial de Deus o estava preparando por meio de
talentos particulares de educação e de experiência, necessárias para a
mensagem que ele tinha de apresentar. Esta preparação providencial dos
profetas, que lhes deu o fundo espiritual e físico necessários, de fato teve
início em seus antepassados mais remotos. Em resultado disso, os homens
necessários surgiram nos lugares precisos, na altura devida, e escreveram os
livros ou apresentaram as mensagens que lhes estavam designadas. Quando
Deus desejou dar a seu povo uma história a partir dos primórdios, preparou
Moisés para a escrever. Quando desejou dar-lhe a poesia, doce e convidativa
à adoração, como os Salmos, ele dotou Davi com imaginação poética. E,
visto que o cristianismo requer, por sua própria natureza, afirmações lógicas,
ele preparou Paulo, dando-lhe uma mente lógica e o fundo religioso
necessário de forma a capacitá-lo para as apresentar como ele o faz. Desta
forma natural, Deus preparou de tal maneira os vários autores das Escrituras
que, com a assistência adequada de seu Espírito, a dirigi-los e a iluminá-los,
eles escreveram livre e espontaneamente aquilo que ele quis, e no tempo por
ele designado. Assim, o profeta estava preparado para a mensagem e esta se
adequava ao profeta. E desta maneira também o estilo literário e particular de
cada escritor foi preservado, e cada um fez a obra que ninguém mais estava
preparado para fazer.
Em algumas ocasiões, a inspiração pouco mais era que um processo de
ditado. Deus falou e os homens registraram suas palavras (cf. Gn 22.15-22;
Êx 20.1-17; Is 43.1-28; etc.). Em outras ocasiões, os escritores agiram como
pensadores e compositores, com toda sua energia, laborando como
desejavam, relembrando e abrindo seu coração perante Deus, exercendo o
Espírito Santo uma supervisão geral, levando-os a escrever o que era
necessário que fosse escrito, e a manter seus escritos livres de qualquer erro,
como podemos ver, por exemplo, em Lucas 1.1-4; Romanos 1.1-32; Efésios
1.1-23; etc. Ao relatar simples fatos históricos ou ao copiar listas de nomes
ou de números, de fontes fidedignas, esta supervisão era minuciosa. É
possível que, em alguns casos, não tivessem sequer a consciência de que
estavam sendo influenciados diretamente pelo Espírito, naquilo que
escreviam.
Em geral, porém, podemos dizer que a palavra dos profetas exprimia
não só algo que eles pensavam, concluíam, esperavam ou temiam, mas
também aquilo que lhes era transmitido — às vezes uma mensagem
indesejada, a qual o Espírito revelador forçou a pronunciar. Naturalmente
fugiam de enunciar mensagens de destruição para o povo ou para a nação. No
entanto, não tinham a liberdade de dizer mais nem menos do que recebiam,
procediam portanto como quem possui a mensagem de um rei e não pode
alterá-la em coisa alguma, mas entregá-la exatamente como a recebeu. Isaías,
por exemplo, após sua visão gloriosa e vocação oficial, foi enviado a seus
compatriotas com uma mensagem indesejada, e foi inclusive avisado de que
o povo não o ouviria, e que o resultado de sua pregação seria a revolta e o
endurecimento de seus corações. Apesar disso, ele não podia mudar a
mensagem, mas apenas pergunta: “Até quando, Senhor?” (Is 6.9-13). Do
mesmo modo, Ezequiel foi enviado a um povo rebelde, sendo-lhe dito que
não o ouviriam (Ez 3.4-11). Mas, quer ouvissem quer não, tinham de saber
que entre eles houve um profeta do Senhor (Ez 2.5). Ainda que o profeta
preferisse falar de outra maneira, só podia enunciar a mensagem que
recebera. Se o povo não ouvisse o aviso, a responsabilidade era sua (Ez 33.1-
11). Mostra-se ainda a objetividade da mensagem no fato de que com
frequência os próprios profetas não compreendiam a revelação que era
enunciada por seu intermédio (Dn 12.8, 9; Ap 5.1-4).
Tampouco se deve considerar a obra do Espírito como sendo mais
misteriosa do que sua obra nas esferas da graça e da providência. Por
exemplo, o primeiro exercício da fé salvífica na alma regenerada é,
simultaneamente, uma obra induzida pelo Espírito Santo e um ato da escolha
espontânea do indivíduo. E em toda a Bíblia as leis da natureza, o curso da
história e os variados destinos dos indivíduos são sempre atribuídos ao
controle providencial de Deus. “O Senhor tem seu caminho na tormenta e nas
tempestades, e as nuvens são o pó de seus pés” (Na 1.3). “Porque ele faz
nascer seu sol sobre maus e bons, e vir chuva sobre justos e injustos” (Mt
5.45). “O Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens, e o dá a quem
quer, e até ao mais humilde dos homens constitui sobre eles” (Dn 4.17).
“Porque Deus é quem opera em vós tanto o querer como o realizar, segundo
sua boa vontade” (Fp 2.13). “Como o ribeiro das águas, assim é o coração do
rei na mão do Senhor; este, segundo seu querer, o inclina” (Pv 21.1).
A inspiração teria sido algo semelhante ao toque que o cavaleiro
imprime às rédeas do cavalo de corrida bem treinado. A preservação dos
estilos e maneirismos individuais indica isso. Sob este controle providencial,
os profetas eram governados de tal maneira que, embora sua humanidade não
fosse suprimida, suas palavras ao povo eram as palavras de Deus, e assim têm
sido recebidas pela igreja através dos séculos.
Que os autores das Escrituras usavam frequentemente outros
documentos e fontes, é evidente até para o leitor mais superficial. Por
exemplo, o capítulo 37 de Isaías e o capítulo 19 de 2 Reis são exatamente
iguais. Assim, Isaías e o autor de 2 Reis teriam recorrido às mesmas fontes.
Muitos dos relatos dos Evangelhos são narrados em linguagem quase
idêntica. Se pudéssemos provar, por exemplo, que o Pentateuco consiste de
várias partes que, por seu turno, se baseiam em documentos mais antigos,
nossa doutrina da inspiração podia aceitar tal ponto de vista. Ao lidar com
dados históricos ou legais, é provável que os autores das Escrituras
recorressem a fontes, com tanta naturalidade, como fazem os escritores
contemporâneos, com a seguinte diferença: que o Espírito Santo
superintendeu sua obra, de tal forma que selecionaram apenas o material que
Deus quis que fosse dado ao povo, e apresentaram esse material de modo que
o mesmo ficou livre de qualquer erro. Não estavam demasiadamente
interessados no método que usavam para escrever, como estavam no valor e
autoridade do produto final. Quanto mais naturalmente e menos
mecanicamente fosse realizado, melhor.
Não se deve esperar uma explicação perfeita da maneira como os
agentes divino e humano cooperaram na produção das Escrituras. Basta dizer
que, na maioria dos casos, era algo mais íntimo do que aquilo que é
conhecido como ditado. Nosso problema é que às vezes procuramos
explicações completas para coisas que em seu aspecto mais profundo
deveriam ser apenas recebidas como mistérios; por exemplo, a Trindade, a
expiação, a relação entre a soberania de Deus e a liberdade humana, e a
inspiração da Bíblia. Os modernistas, com sua base naturalista, resolvem
facilmente estes problemas, ignorando o divino, sem repararem na
superficialidade de seu raciocínio. Os evangélicos têm, sem dúvida, se
aferrado a estes problemas. Reconheceram não só o elemento divino, mas
também o humano, e trouxeram uma solução parcial, ao confessarem que a
mente humana não pode compreender, inteiramente, as coisas profundas de
Deus.
É claro que não devemos pensar que a inspiração tornava os profetas
oniscientes. A inspiração apenas abrangia o conteúdo de determinada
mensagem, dada através deles. Em questões de ciência, de filosofia ou de
história, fora de seu objetivo imediato, estavam no mesmo plano de seus
contemporâneos. Eram preservados do erro quando apresentavam a
mensagem de Deus, mas a inspiração, por si só, não os transformou nem em
astrônomos, nem em químicos, nem em agricultores, etc. Muitos deles
acreditavam, como seus contemporâneos, que o sol se movia ao redor da
terra, mas em parte alguma ensinaram tal coisa. Paulo não podia errar em seu
ensino, ainda que não se lembrasse de quantas pessoas batizara em Corinto
(1Co 1.16). Já vimos como Daniel e João não compreenderam inteiramente
toda a revelação dada por seu intermédio. Isaque deu, sem qualquer intenção,
a bênção profética a Jacó, em vez de a dar a Esaú, seu filho favorito; e,
quando mais tarde descobriu que fora enganado, não pôde, de forma alguma,
mudar o rumo das coisas.
A doutrina da inspiração não admite sequer que os autores estivessem
livres de erro, em sua conduta pessoal. Moisés escreveu bastante acerca da
história primitiva de Israel, e geralmente ele é conhecido como sendo o maior
profeta do Antigo Testamento; no entanto, junto às águas de Meribá, tomou
para si a glória do Senhor, e por causa dessa transgressão não lhe foi
permitido entrar na Terra Prometida (Nm 20.7-13). Balaão disse algumas
grandes verdades, e Saul esteve entre os profetas. Do mesmo modo, Pedro era
infalível como porta-voz do Senhor, e não obstante, pelo menos uma vez,
caiu em erro grave em sua conduta pessoal, e foi necessário que Paulo lhe
resistisse de frente, pois se tornara repreensível (Gl 2.11-14).
Além disso, vimos que a inspiração era bastante flexível para permitir
certos assuntos pessoais, como aconteceu quando Paulo pediu a Timóteo que
viesse ter com ele dentro de pouco tempo e lhe trouxesse a capa e alguns
pergaminhos que deixara em Trôades (2Tm 4.13). Inclui conselhos pessoais a
respeito da saúde de Timóteo (1Tm 5.23) e a preocupação pessoal em relação
ao tratamento do escravo (Fm 10-16).
Desse modo vemos que a doutrina cristã da inspiração não é um
processo mecânico, como certos críticos menos simpáticos comumente
querem fazer acreditar. Pelo contrário, necessita que toda a personalidade do
profeta entre em ação, dando pleno lugar ao estilo e a seus próprios
maneirismos literários, tendo em consideração a preparação dada ao profeta,
de modo que ele apresenta uma determinada mensagem, e permitindo o uso
de outros documentos ou fontes de informação, que necessitasse. Se
tivéssemos isto mais em mente, a doutrina da inspiração não seria posta de
parte, sumariamente, nem atacada sem razão por eruditos que são, em outros
assuntos, prudentes e reverentes.
4. Os supostos erros das Escrituras

Presentemente, um dos fatos mais desoladores nas igrejas é este:


enquanto antigamente se aceitava sem discutir o que a Bíblia dizia, e sem
admitir qualquer dúvida sobre aquilo que ela afirmava, hoje há grupos dentro
das igrejas discutindo sobre se aquilo que a Bíblia diz é ou não digno de
confiança. Há algum tempo, ouvimos um sermão pregado por um professor
de um seminário teológico, muito conhecido, em que declarava que a Bíblia
continha erros históricos, morais e literários. É uma acusação bem séria; e, se
isso pudesse ser provado, sem dúvida destruiria a doutrina cristã da
inspiração.
Geralmente se reconhece que a Bíblia contém algumas declarações
que, com o conhecimento que possuímos, não podemos explicar plenamente.
Nosso conhecimento de hebraico e de grego de modo algum é perfeito. Por
exemplo, há certo número de palavras e expressões idiomáticas que aparecem
uma vez ou outra nas Escrituras, e às vezes sucede que até os melhores
conhecedores desses idiomas não concordam inteiramente a respeito de seu
significado.
Não podemos, porém, deixar de sentir-nos satisfeitos ao sabermos que,
com o progresso das descobertas linguísticas e arqueológicas, a grande
maioria dos supostos erros bíblicos, tão confiantemente apresentados pelos
céticos e ateus há alguns anos, desapareceu. Hoje resta apenas uma pequena
parte da antiga lista. E maior alegria nutrimos nós porque, não obstante todos
os inclementes ataques feitos à Bíblia, e apesar de toda a terrível luz da
crítica, que há tanto tempo se tem projetado sobre suas páginas abertas, ainda
não se provou que houvesse um único erro em qualquer parte da Bíblia. Até
hoje, sem qualquer exceção, sempre que se tem chegado a conflito e tem sido
possível decidir do julgamento, tem-se provado que o cético está errado e a
Bíblia está certa. As pretensas discrepâncias que restam são apenas avisos,
depressa esquecidos, àqueles que, em sua ânsia de violentarem a doutrina da
infalibilidade das Escrituras, põem sua mente de sobreaviso a respeito da
história e da literatura. Estas dificuldades são tão triviais, que ninguém
deveria preocupar-se com elas. Quando possuirmos mais luz, desaparecerão
como sombras. Algumas, se não todas elas, não passam de erros de copistas
ou de tradutores; e sem dúvida ninguém tem o direito de afirmar que existem
erros na Bíblia, a não ser que possa mostrar, sem qualquer sombra de dúvida,
que se encontram nos manuscritos originais. Há plena razão para se admitir
que, com um conhecimento adicional, aquilo que para nós parece erro será
esclarecido. Não é exagero afirmar que, de um modo geral, estão na mesma
relação para com a Bíblia, como os grãos de areia aqui e acolá, do mármore
do Partenon, estão para este edifício. Perante as experiências pregressas, é
importante ter em mente que há fortes probabilidades de que esses erros não
sejam reais, probabilidades estas que poderão ser medidas pelo peso total da
evidência que possa ser apresentada para provar que a Bíblia é um guia,
absolutamente verídico, em questões morais e espirituais.
Quando nos lembramos que a Bíblia foi escrita em um período de cerca
de 1600 anos, e que uns 40 escritores diferentes, que viveram em períodos
distintos, possuindo pontos de vista diferentes, e com aptidões literárias
diversas, tiveram parte em sua produção; que a história religiosa e política do
país era verdadeiramente complexa, e que historiadores romanos, conhecidos
por sua precisão, caíram abertamente em erro, ao narrarem acontecimentos
seus contemporâneos, é de espantar que, havendo algumas coisas relatadas na
Bíblia, difíceis de entender, seu número seja tão reduzido.
Ainda que admitamos que a Bíblia contém algumas declarações
difíceis de se harmonizarem com o conhecimento atual, isso não deveria
fornecer quaisquer bases racionais para negar-se a teoria geral da
infalibilidade das Escrituras. Temos as palavras do próprio Cristo: “A
Escritura não pode ser anulada” (Jo 10.35); e não deveríamos pedir mais do
que isso. No universo material há evidências de características tão múltiplas,
diversas e maravilhosas, que deveríamos chegar à conclusão de que apontam
para um autor inteligente. E, no entanto, aqui e ali achamos monstruosidades.
O fato de que, em nosso atual estado de conhecimento, não somos capazes de
explicar por que foram criados cobras e mosquitos, ou o germe da malária,
não impede que acreditemos que o mundo teve um Criador, inteligente e
benévolo. Tampouco o cristão deveria perder sua fé na Bíblia só porque não é
capaz de harmonizar todos seus detalhes.
Possivelmente, nenhuma outra ciência, como a Arqueologia, tem feito
tanto para confirmar a Bíblia. A obra paciente de exploradores e escavadores
no Egito, em Babilônia, na Assíria e na Palestina, com suas pás e picaretas,
abriu-nos imensos volumes da história antiga, dando-nos narrações gráficas
da língua, da literatura, instituições e religiões dos povos que há muito teriam
sido esquecidos, exceto por menções ocasionais da Bíblia. Possuímos seu
registro gravado na rocha, no tijolo e registrado numa ou noutra forma em
monumentos, túmulos, edifícios, papiros e cerâmica. Estas descobertas
confirmam, sem exceção, a veracidade da Bíblia, e sempre têm provado que
as teorias e as conjeturas dos críticos destrutivos estão erradas. De fato, os
inimigos da Bíblia não têm maior adversário do que a Arqueologia. A
evidência apresentada por esta fonte de informação é tão imparcial, tão
impossível de impugnar e tão concludente, que obriga sua aceitação, tanto
pelos amigos como pelos inimigos.

EXEMPLOS DE ERROS PRETENSOS


Não nos é possível, por falta de espaço, dar uma lista circunstanciada
dos erros que se têm apontado nas Escrituras, e no entanto nossa discussão
ficaria incompleta se não apresentássemos alguns exemplos. À primeira vista
parece haver contradição entre Atos 9.7 e Atos 22.9, acerca da conversão de
Paulo. Na primeira passagem lemos que os homens que acompanhavam
Saulo ouviram a voz que lhe falou, enquanto na outra lemos que não ouviram
a voz. A dificuldade, porém, desaparece ao verificarmos que a palavra grega
traduzida por voz pode também significar som, e assim se pode traduzir Atos
9.7. Concluímos, pois, que os homens que viajaram com Saulo ouviram o
som, porém não entenderam as palavras.
Há relativamente pouco tempo, os críticos destrutivos escarneceram de
alguém que aceitasse a declaração de Lucas de que a Ilha de Chipre foi
governada por um procônsul (At 13.7), e que o tetrarca Lisânias foi
contemporâneo dos governantes herodianos (Lc 3.1). No entanto, o escárnio
depressa se desvaneceu, quando descobertas arqueológicas confirmaram as
afirmações bíblicas.
Na cura do servo do centurião, quer o próprio centurião se dirigisse a
Jesus e pedisse que seu servo fosse curado, como Mateus nos leva a crer
(8.5), ou lhe enviasse anciãos dos judeus, como nos diz Lucas (7.3), a questão
é a mesma, pela forma como nos conta a história. Em nossa linguagem
comum, atribuímos à pessoa aquilo que seus agentes ou servos fazem sob
suas ordens.
A acusação que Pilatos escreveu na cruz nos é dada pelos evangelistas
com pequenas variantes. No entanto, tudo indica que a explicação para esse
fato se encontra principalmente no fato de a acusação ser escrita em três
idiomas: latim, grego e hebraico, que havia variantes nos originais e que, pelo
menos um dos escritos, apresenta uma tradução livre, não havendo diferença
substancial, por exemplo, entre a declaração de Marcos, “o Rei dos Judeus”,
e a de Lucas, “Este é o Rei dos Judeus”.
Na manhã da ressurreição, quer a pedra do túmulo fosse retirada por
mãos humanas, como se refere na narrativa de Marcos, Lucas e João (ainda
que tenham o cuidado de não dizer que o fora por mãos humanas, mas apenas
que a pedra foi tirada), ou que um terremoto contribuiu para esse fim, como
Mateus nos informa mais especificamente (28.2), o fato não interessa perante
o ponto essencial de que Cristo, naquela manhã, ressurgiu e saiu do túmulo.
Mateus nos fornece um relato mais detalhado, neste ponto, nos dizendo que o
Senhor usou as forças da natureza para alcançar seu objetivo; enquanto os
outros evangelistas apenas registram a importante verdade religiosa de que o
túmulo estava aberto. Acontece amiúde que autores sacros, assim como os
seculares, descrevem acontecimentos de um prisma diferente, ou com ênfases
diferentes. Em tais casos, não há mais contradição entre as narrativas do que
há, por exemplo, entre quatro fotografias da mesma casa, uma tirada do
ocidente, outra do norte, outra do leste e outra do sul, ainda que apresentem
vistas diferentes.
Mateus 27.5 afirma que Judas entregou o dinheiro aos sacerdotes, e
depois saiu e foi enforcar-se; enquanto Atos 1.18 afirma que ele comprou um
campo com esse dinheiro. Mas, coordenando as duas narrativas, deduz-se que
o que realmente aconteceu foi que os sacerdotes rejeitaram o dinheiro que
Judas atirou para o templo. No entanto, depois de sua traição e suicídio, tal
desgraça se ligou a ele, de maneira que nenhum amigo ou parente veio cuidar
de seu corpo, e foi enterrado pelas autoridades. Os sacerdotes se lembraram
de que o dinheiro fora devolvido e que não poderia entrar nas ofertas do
templo por ser preço de sangue; e, necessitando o corpo de sepultura,
resolveram, muito a propósito, usar aquele dinheiro para comprar um terreno
onde o enterrassem, talvez o mesmo campo em que ele suicidara. Assim, diz-
se que ele comprou um campo com a recompensa recebida por sua iniquidade
— não que ele o tivesse adquirido pessoalmente, mas que foi comprado com
seu dinheiro, e que nele foi enterrado.
Muitos críticos afirmam que a referência de Jeremias que se faz em
Mateus 27.9 constitui um erro, e que deve ser, antes, a Zacarias 11.12, 13. No
entanto, tudo indica ser este um caso de menção subsequente, como acontece
também em Atos 20.35 e Judas 14. Mateus diz que Jeremias disse essas
palavras, e ninguém pode provar o contrário. Certamente, Jeremias as
pronunciara, Zacarias as escrevera, e Mateus, inspirado pelo Espírito Santo,
as citou aqui, atribuindo-as a Jeremias. É possível que Mateus tivesse fontes
seguras para atribuí-las a Jeremias, fontes essas que não conhecemos. O fato
de a citação de Mateus não ser exatamente como se encontra em Zacarias
pode ser tomado como indicação de que ele de fato possuía outros livros.
Às vezes afirma-se que Gênesis 36.31, ao referir-se a rei (ou reis) que
governaram sobre os filhos de Israel prova que o livro do Gênesis não foi
escrito por Moisés, mas por outra pessoa, que Moisés era profeta e que, muito
antes da promessa ser dada a Abraão de que haveria reis (Gn 17.6; 35.11),
predisse o aparecimento de reis em Israel (Dt 17.14-20), e que em Gênesis
36.31 ele apenas diz que havia reis reinando em Edom, muito antes de os
haver em Israel.
No que diz respeito a Êxodo 9.19, às vezes se pergunta como é que os
egípcios poderiam ter ainda gado para ser morto pela saraiva, que foi a sétima
praga, se em Êxodo 9.6 se declara que todo o gado perecera pela peste, que
foi a quinta praga. Pode-se explicar este fato, porquanto a quinta praga não
matou o gado que pertencia aos israelitas, e durante o tempo decorrido entre
as duas pragas sem dúvida os egípcios se apossaram desse gado.
O fato de os Dez Mandamentos, apresentados em Êxodo 20.17 e
Deuteronômio 5.7-21, mostrarem certas variantes na linguagem ou, em
alguns casos em que os escritores do Novo Testamento citam o Antigo
Testamento, não citarem as palavras exatas, mas apenas o significado em
geral, não é um argumento contra a inspiração verbal, a menos que se possa
provar que quiseram citar literalmente. O escritor ou orador está em seu
direito de repetir seus pensamentos de maneira relativamente diversa, e é isto
que o Espírito Santo fez. A linguagem humana, em sua forma mais elevada, é
demasiadamente imperfeita para expressar a plenitude da mente divina, e não
deveríamos limitar o Espírito Santo a uma forma estereotipada de falar. Os
escritores do Novo Testamento têm mais interesse em apresentar a verdade
básica, colocando-a em uma forma variada e rica, do que em seguir um
método rígido. Isto põe de lado um grande número de contradições que
alguns críticos afirmam encontrar na Bíblia. Além disso, se encontrarmos
uma passagem que permita duas interpretações, uma que se harmonize com o
restante das Escrituras e outra não, sem dúvida devemos aceitar a primeira.
Quer essa declaração se encontra nas Escrituras, em documentos históricos
ou em documentos legais, o princípio da interpretação comumente aceito é
que o significado que pressupõe o documento é auto-consistente e racional e
deve ser preferido ao que o torna inconsistente e irracional. Agir sobre outra
base é fazê-lo com preconceitos e pressupor o erro em vez de o provar. No
entanto, os críticos da Bíblia não se importam em descartar esta regra.
Muitas das chamadas “dificuldades morais” do Antigo Testamento
surgem apenas porque não se tomou em consideração a natureza progressiva
da revelação. Ainda mais, evidentemente, se espera de nós, que vivemos na
era cristã e que possuímos a luz do Novo Testamento. Também aqui existe
“primeiro a haste, depois a espiga, e por fim o grão maduro na espiga”.
Muitas vezes surgem mal-entendidos devido ao fracasso em distinguir entre o
que as Escrituras registram e o que elas sancionam.
Por exemplo, os problemas mais sérios surgem quando se trata da
destruição dos cananeus, dos salmos imprecatórios, da doutrina da expiação
substitutiva e da doutrina do castigo eterno. É possível que as dificuldades
relacionadas com estes problemas não possam ser resolvidas, mas a objeção
de que são moralmente errados surge da suposição de uma justiça retributiva
inexistente. É preciso ter em mente que, se Deus é bom e recompensa a
justiça, também é justo e pune, com toda certeza, o pecado, e que o castigo do
pecado é para ele obrigatório, refletindo sua glória, do mesmo modo que a
recompensa da justiça o faz. Este é o ensino do Novo Testamento, de forma
tão clara como é o do Antigo Testamento; e que está em sua base doutrinária
o fato de que o castigo de nossos pecados não poderia ser simplesmente
cancelado, mas tem de ser posto sobre Cristo, para nossa salvação. Além
disso, o Antigo Testamento mostra não apenas que certos indivíduos, mas
que até cidades inteiras eram tão depravadas, que vieram ser uma maldição
para a sociedade. Tais indivíduos, pois, eram indignos de viver. Até mesmo a
religião de alguns povos era corrupta, como, por exemplo, os que seguiam o
culto de Baal, culto que era acompanhado de ritos imorais, de sacrifícios de
crianças recém-nascidas atiradas ao fogo, e do ósculo lançado às imagens de
deuses pagãos.
A atitude do Antigo Testamento em relação à poligamia, o divórcio e
outros males semelhantes, é frequentemente ridicularizada pelos críticos
atuais; mas, analisada em seu próprio ambiente, é em si um argumento a
favor da autoridade divina da Bíblia. No que diz respeito a quase todas estas
questões, verificamos que o objetivo da Bíblia é apresentar princípios básicos
aplicáveis a todos os povos, a todas as nações, a todas as raças e em todas as
épocas, e não estabelecer leis específicas que, embora se adaptem a um tipo
de pessoas sob certas condições diferentes, podem não se aplicar a outros. A
criação de leis específicas, adaptáveis a certos problemas sociais ou políticos
e a condições locais, pertence aos corpos legislativos competentes. Portanto,
as leis da Bíblia não são tão específicas quanto muita gente gostaria que
fossem. A sabedoria que a Bíblia revela ao enfrentar tais males, numa época
primitiva, dando leis e princípios que os regulassem, de forma a destruí-los, é
em si uma forte evidência de que essas leis são de origem sobre-humana.

A BÍBLIA COMO CIÊNCIA


É evidente que a Bíblia não foi escrita do prisma científico. Aquele que
procurar usá-la como sendo um livro-texto, ficará verdadeiramente
desapontado. Foi escrita muitos anos antes do aparecimento da ciência
moderna e tendo em mente não cientistas e intelectuais, e sim o povo comum.
Sua linguagem é a do povo e sua matéria é, acima de tudo, religiosa e
espiritual. Se tivesse sido escrita na linguagem científica ou filosófica, teria
sido ininteligível ao povo das épocas primitivas, e na realidade não seria
compreendida pelas massas de nossa própria época. Além disso, embora não
pretendamos rebaixar as realizações científicas modernas, e sim, antes,
aceitá-las e usá-las ao máximo, devemos dizer que os livros-texto científicos
têm de ser reescritos, pelo menos uma vez em cada geração; e, ao
progredirmos como sucede hoje nas investigações científicas, dentro de dez
anos a maioria dos livros científicos ora em uso será obsoleta. Mas a Bíblia é
um livro que não sofreu qualquer revisão durante milhares de anos, e que
atualmente apela para o coração e para a inteligência do homem, com tanta
força como o fez no passado. Aqueles que buscam na Bíblia inspiração
espiritual e intelectual, encontram-na tão fresca e inspiradora, como se tivesse
sido escrita ainda ontem.
Uma das coisas mais maravilhosas a respeito da Bíblia é que, embora
escrita em épocas de ignorância e de superstição, ela não contém os erros e
falácias populares de seu tempo. Moisés, como príncipe herdeiro do Egito,
frequentou as melhores escolas e “foi instruído em toda a sabedoria dos
egípcios”, cuja maior parte seria considerada hoje patética, porém não a usou
na Bíblia. As teorias inverossímeis e fantásticas defendidas pelos egípcios a
respeito da origem do mundo e do homem são completamente ignoradas; e
no primeiro capítulo do Gênesis, em linguagem majestosa nunca ultrapassada
até hoje, ele nos fornece um relato da criação do mundo e do homem que não
pode ser desmentido pela ciência moderna. Os outros profetas que não
tiveram contato com a ciência de seu tempo, na Caldéia e em Babilônia,
procederam da mesma maneira; e, embora pessoalmente cressem em muitas
coisas errôneas, só escreveram o que estava de acordo com a verdade.
É provável que alguns dos profetas admitissem que o mundo era plano.
No entanto, em parte alguma de seus escritos ensinaram tal coisa. Quando
falam do nascer e do pôr-do-sol, dos quatro cantos da terra ou dos confins da
terra, não devemos tomar ao pé da letra o que eles dizem. Atualmente,
usamos as mesmas expressões, porém não queremos com isso afirmar que o
sol gira em torno da terra, ou que a terra seja plana ou retangular. Em nossa
linguagem corrente, com frequência descrevemos as coisas como nos
parecem e não como bem sabemos são na realidade. E embora os céticos,
como um grupo, estejam sempre prontos a afirmar que a Bíblia ensina que a
terra é plana, quase não podemos encontrar um que seja suficientemente
honesto para citar um determinado versículo em que a Bíblia faça tal
declaração a respeito da forma da terra. Ao descrever a grandeza e a
majestade de Deus, Isaías diz que “ele está assentado sobre a redondeza da
terra” (40.22). A palavra hebraica que se traduz por redondeza ou globo
literalmente significa redondo. Tampouco os céticos gostariam de citar as
palavras de Jó: “Estende o norte sobre o vazio; suspende a terra sobre o nada”
(Jó 26.7).
Em 1861, a Academia Francesa de Ciências publicou uma lista de 51
fatos, denominados científicos, cada um dos quais, dizia-se, refutava uma
afirmação da Bíblia. Hoje, a Bíblia permanece como então era, porém
nenhum desses supostos fatos é defendido pelos atuais homens de ciência.
Devíamos fazer sempre distinção entre especulação científica e fatos
demonstrados de forma inegável. As especulações científicas são como as
correntes movediças do oceano; enquanto as Escrituras, qual rochedo de
Gibraltar, lhes resistem há muito mais de dois mil anos. Ainda não foi
possível demonstrar que há contradições entre a Bíblia e fatos científicos
comprovados; pelo contrário, a narrativa do mundo, em contraste com aquilo
que se encontra nos livros antigos, está de acordo com as descobertas da
ciência moderna, de maneira tão extraordinária que se torna maravilhoso. O
conflito que algumas pessoas supõem existir entre a Bíblia e a Ciência na
realidade não existe.
É possível que a principal razão por que há tanta confusão acerca das
relações entre a ciência e a religião seja o fracasso, por parte de muita gente,
em distinguir entre fatos e opiniões. A verdadeira ciência lida com fatos
comprovados; as opiniões podem variar, com a pessoa que as formula. A
evolução orgânica, por exemplo, como tem sido apresentada, em geral não
admite o sobrenatural e está em contradição com a Bíblia. Devemos, porém,
lembrar-nos de que a evolução não é um fato científico, mas apenas uma
teoria, uma hipótese. Nem um só dos argumentos normalmente apresentados
para a sustentar é válido; e muitos cientistas de valor não acreditam na teoria
da evolução, mas na criação, como é apresentada na Bíblia. Se um pastor não
estudou ciências, não tem o direito de invadir o domínio da ciência e falar
com autoridade a seu respeito. Tampouco um cientista que não teve qualquer
experiência do poder regenerador do Espírito Santo tem qualquer direito de
invadir o campo da religião e falar livremente a seu respeito. Atualmente,
certos cientistas de renome, mas sem experiência religiosa, presunçosamente
têm escrito ou falado, emitindo sua opinião acerca de assuntos religiosos. Sua
opinião, porém, a respeito desses assuntos não tem mais valor que a de
qualquer outra pessoa, pela simples razão de que falam a respeito de coisas
que estão muito além de seu conhecimento. O simples fato de um homem ser
uma sumidade dentro de um campo, não lhe confere o direito de falar, com
autoridade, sobre questões fora desse campo de conhecimento. A verdadeira
religião e a verdadeira ciência nunca se contradizem; mas ministros e
cientistas podem discordar, pessoalmente. Na verdade, a ciência tem feito
coisas maravilhosas. Mas seu domínio está estritamente limitado à parte
material da vida. Não tem autoridade para falar acerca de coisas espirituais.
Quando a ciência se torna um substituto da religião, em geral se transforma
em um falso Messias.
A relação entre a Bíblia e a ciência foi apresentada, de forma bem
clara, pelo Dr. Samuel G. Craig, da seguinte maneira:
Uma coisa é dizer que as Escrituras contêm declarações contrárias
aos ensinos da ciência e da filosofia modernas, e outra coisa
totalmente diferente é dizer que contêm erros comprovados.
Estritamente falando, não existem ciência e filosofia modernas —
existem apenas cientistas e filósofos modernos que divergem
entre si. É apenas na suposição de que as vozes discordantes dos
cientistas e filósofos modernos devem identificar-se com as vozes
da ciência e da filosofia, que alguém se justifica dizendo que a
Bíblia contém erros e isto em virtude de seus ensinos nem sempre
estarem de acordo com os ensinos desses cientistas e filósofos.
Porventura alguém admite que a ciência e a filosofia já atingiram
sua forma final? Não seria melhor afirmar que estão longe de a
atingir e que, se os ensinos da Bíblia estivessem em perfeita
harmonia com a ciência e a filosofia modernas, é quase certo que
estariam em desacordo com a ciência e filosofia do futuro? Por
exemplo, se o anti-sobrenatural da ciência e da filosofia
dominantes de hoje for a característica das mesmas em sua forma
definitiva, então a Bíblia conteria, sem dúvida, muitos erros. No
entanto, quem possui competência suficiente para afirmar que é
esse o caso? E, a menos que se prove que a ciência e a filosofia do
futuro sejam essencialmente iguais à filosofia e ciência do
presente, estamos fora da evidência existente, quando afirmamos
que a Bíblia contém erros comprovados, apenas porque seu
ensino está em contradição com os ensinos de cientistas e
filósofos modernos.
5. Fidedignidade da Bíblia

Depois de um breve estudo sobre os pretensos erros e discrepâncias,


incluindo não só os que mencionamos, mas também muitos outros,
afirmamos, sem receio de sermos desmentidos, que nenhum deles é autêntico.
Como cristãos, damos ao livro de Deus o título: “Bíblia Sagrada”. Caso se
tratasse apenas de um livro relativamente bem escrito, apresentando verdades
morais e espirituais valiosas, mas, ao mesmo tempo, contendo muitas coisas
duvidosas, não poderíamos aplicar-lhe o adjetivo “Sagrado”. Neste caso, ele
estaria no mesmo nível de outros livros, e a única diferença seria não em
qualidade mas em grau.
No entanto, quão diferente é nossa atitude quando nos aproximamos da
Bíblia e a consideramos como sendo a Palavra de Deus, única regra de fé e
prática, inspirada e infalível! Quão prontamente aceitamos suas declarações e
nos curvamos perante a enumeração de nosso dever! Quão indistintamente
trememos perante suas ameaças da mesma forma que descansamos em suas
promessas!
Ao proclamarmos a Palavra da Vida, no púlpito ou em aula; ao
tentarmos dar conforto junto de um leito de dor ou em um lar enlutado; ao
vermos nossos companheiros lutando contra a tentação, ou preocupados com
problemas, e lhes injetamos coragem e esperança, para este mundo e para o
vindouro, quão gratos somos por uma Bíblia absolutamente fidedigna! Em
tais casos, queremos salientar que possuímos não algo simplesmente provável
ou plausível, mas seguro e concreto.
Aquilo a que se dá o nome de “Lei de Documentos Antigos”, em geral
aceitos pelos estudiosos dos livros religiosos e seculares, consiste em supor
que “documentos aparentemente antigos, que não tragam em si marcas de
falsificação e encontrados sob guarda conveniente, são verdadeiros até que
existam provas, suficientemente fortes, em contrário”. Ora, nós afirmamos
que, julgados por este princípio, os livros do Antigo e do Novo Testamento
são aquilo que dizem ser, e como tais deverão ser aceitos. Estamos certos de
que, quando os críticos forem vencidos, quando a batalha terminar e a fumaça
desaparecer, os livros da Bíblia, se pudessem falar, diriam o que Paulo disse
ao carcereiro de Filipos: “Não te faças nenhum mal, que todos aqui estamos”.
A princípio parece muito difícil compreender por que tantas pessoas se
preocupam em apontar erros na Bíblia. Mas, ao examinarmos o fato mais
detalhadamente, verificamos que a razão está em que a Bíblia julga os
homens e aponta o pecado de seus corações. E os homens não-convertidos
não gostam disso e preferem ler um jornal ou um romance. A descrição de
um julgamento, no jornal, interessa-lhes muito mais do que um capítulo do
Novo Testamento. E já que não gostam que a Bíblia diga a verdade a seu
respeito e a respeito do mundo em que vivem, tentam descobrir erros no
Livro Santo. A razão por que não podem deixar o Livro em paz é que ele de
fato não os deixa em paz. Em todas as épocas e em todas as classes sociais,
os incrédulos têm tentado tudo quanto lhes é possível para encontrar erros
que condenem a Bíblia como falsa. Não têm prazer em apontar erros em
Virgílio, em Cícero, em Shakespeare, mas não podem suportar a Bíblia. E,
infelizmente, os inimigos figadais da Palavra não se encontram apenas entre
as pessoas incultas, mas também entre pessoas educadas e cultas. Realmente,
muitos nada têm em comum, e no entanto se unem em sua acirrada oposição
à Bíblia.

TESTEMUNHOS SÁBIOS
Evidentemente, atualmente há muitos sábios que, por várias razões,
tentam lançar o descrédito sobre a Palavra de Deus. Em geral começam
atacando o Antigo Testamento, e levam esse ataque até o Novo Testamento.
Temos, porém, a alegria de dizer que há muitos sábios, de sabedoria pelo
menos igual, que declaram ser a Bíblia absolutamente digna de confiança. O
falecido Dr. Benjamin B. Warfield, professor de Teologia Sistemática em
Princeton durante 35 anos, cremos que o maior teólogo e estudante de grego
que jamais houve na América, depois de examinar a evidência com base na
qual todos os críticos baseavam suas conclusões, não teve qualquer escrúpulo
em declarar que essa evidência era destituída de qualquer valor, e disse que a
Bíblia, do Gênesis ao Apocalipse, é aquilo que pretende ser: a Palavra de
Deus. Seu livro, Revelação e inspiração, sem dúvida é o melhor livro sobre o
assunto. A revista “Sunday School Times” tem absoluta razão em afirmar que
ele “constitui a defesa mais erudita, exaustiva e convincente da inspiração da
Bíblia jamais escrita, nos últimos tempos”.
Em relação ao Antigo Testamento, nos sentimos em terreno seguro
afirmando que não surgiu até hoje maior autoridade do que Robert Dick
Wilson. Conhecendo perfeitamente 45 línguas e dialetos, e conhecendo mais
acerca do Antigo Testamento do que qualquer homem atual, apresentou suas
conclusões nos seguintes termos:
Dediquei-me constantemente, há quarenta e cinco anos, ao estudo
do Antigo Testamento em todas as línguas, em toda sua
arqueologia, em todas suas traduções e, tanto quanto possível, em
tudo quanto diz respeito a seu texto e a sua história ... A evidência
que possuímos me convence de que Deus falou muitas vezes e de
muitas maneiras pelos profetas e pelo Filho (Hb 1.1), e de que o
Antigo Testamento em hebraico, sendo inspirado diretamente por
Deus, foi conservado puro por sua providência e cuidado.
O mundo continua esperando por uma teoria que forneça um relato
adequado da origem e da autoridade da Bíblia, baseado em outras hipóteses
que não tenham sua origem em Deus. Uma após outra, as teorias
apresentadas caem automaticamente ou são desmentidas por outros esquemas
igualmente destrutivos. Até hoje nenhuma outra hipótese, com exceção
daquela da origem divina, conseguiu manter-se mais de meio século. Isto, por
si só, é uma prova de que não se pode atribuir a origem do Livro a outros
meios além dos que nos foram apresentados pelos próprios profetas.
Tampouco temos razão para admitir que apareça, no futuro, outra teoria com
possibilidade de êxito. Assim, o único curso racional a seguir é aceitando
aquilo que a Bíblia afirma ser, até que possamos mudar de opinião.
É interessante demonstrar que através dos séculos a fé cristã ortodoxa
tem se desenvolvido e se defendido mediante esforços reverentes e ansiosos
de Orígenes, de Agostinho, de Erasmo, de Lutero, de Calvino, de Hodge e de
Warfield, os quais acreditavam na plena inspiração da Bíblia, e não pelos
pelagianos, socinianos, wellhausens[1] e fosdicks[2] com suas dúvidas sobre
se Moisés, Paulo, ou até mesmo Cristo, acreditavam naquilo que disseram.
Nosso desejo é que não haja oportunidade para se dizer de nós o que se disse
daqueles que viveram em épocas passadas: “que recebemos a Palavra de
Deus, tal como foi anunciada pelos anjos, e não a guardamos”.

RAZÕES PARA NOSSA FÉ DE QUE A BÍBLIA É INFALÍVEL


Quando afirmamos que a Bíblia é absolutamente fidedigna quanto a
sua apresentação de fatos doutrinários ou éticos, com isso não queremos dizer
que examinamos pessoalmente cada uma de suas declarações tão
cuidadosamente, que nos sentimos justificados em afirmar que são todas
verdadeiras, nem tampouco queremos dizer com isso que somos oniscientes.
Chegamos a esta conclusão, em primeiro lugar, notando as reivindicações
feitas na Bíblia acerca de sua própria inspiração e fidedignidade; e em
seguida comparamos essa reivindicação com os fatos fornecidos pela crítica e
pela exegese bíblica. Em virtude da muita evidência que consubstancia esta
reivindicação da Bíblia, como, por exemplo, o alto nível moral e espiritual
que existe ao longo de todo o Livro, a prometida diretriz do Espírito Santo, as
muitas profecias feitas em determinadas épocas, e que no devido tempo
tiveram seu cumprimento, até nos mais insignificantes pormenores, a inerente
unidade do Livro, a forma simples e sem preconceitos com que se descrevem
acontecimentos, etc., e, portanto, na ausência de quaisquer erros
comprovados, concluímos que a Bíblia é aquilo que pretende ser: um livro
inteiramente inspirado. Esta parece ser a única maneira lógica e
compreensível de encarar o problema. Se rejeitarmos este método para
chegarmos a uma conclusão, teremos de fazer um exame exaustivo de cada
parte das Escrituras, versículo por versículo, declaração por declaração, e
provar sua veracidade ou falsidade. Ao tentarmos este processo, logo
esbarraremos com coisas difíceis de serem discernidas, declarações sobre as
quais não temos informação adequada, e profecias ainda sem cumprimento.
Então descobriremos que estamos a lutar contra as Escrituras, para nossa
própria destruição espiritual.
A posição dos conservadores sobre este assunto foi apresentada, de
forma bem clara, pelo Dr. Samuel Craig. Depois de afirmar que “a Bíblia dá
testemunho acerca de sua própria veracidade”, acrescenta: “Se não fosse
assim, o máximo que poderíamos dizer é que a Bíblia não possui erros
comprovados. Tal fato é bem óbvio, se lembrarmos que as partes mais
recentes da Bíblia foram escritas há cerca de dois mil anos; que a Bíblia,
como um todo, trata de períodos de história dos quais, na melhor das
hipóteses, temos apenas informações incompletas; que relata as crenças e
experiências de muitos indivíduos acerca dos quais pouco sabemos, e que
contêm representações que se supõem foram reveladas de forma sobrenatural,
incluindo muitas predições ainda não cumpridas — para não enumerar outros
assuntos. Ninguém, nem mesmo os sábios mais famosos, possui o mínimo de
conhecimento que seria necessário para poder afirmar, com base apenas em
seu próprio conhecimento, que a Bíblia contém algum erro. Somos, porém,
de opinião que o problema é absolutamente diferente, se o testemunho de sua
veracidade absoluta é em si parte do fenômeno bíblico. Neste caso, o
caminho está aberto para afirmar sua completa veracidade, sem necessidade
de provar uma negativa universal. Evidentemente, não pretendemos que
sejamos julgados como se afirmássemos que o mero fato de a Bíblia
pretender possuir infalibilidade nos inibe da responsabilidade de examinar
suas passagens e afirmar que parte de seu conteúdo está de acordo com suas
reivindicações. No entanto, se a Bíblia apresenta tal reivindicação, e se o
exame mais cuidadoso nada revela que a faça contradizer-se, então é possível
que essa reivindicação seja válida. Se, ao examinarmos a Bíblia, verificamos
que todas suas declarações são verídicas, nos sentimos mais inclinados a crer
que as declarações impossíveis de averiguação são igualmente verídicas. Em
suma, nossa defesa, ao afirmarmos a infalibilidade da Bíblia, baseia-se: 1. Na
ausência de erros comprovados; e 2. No testemunho que a Bíblia apresenta de
sua plena fidedignidade. Nossa confiança na fidedignidade dos escritores
bíblicos é tal que nos sentimos absolutamente fundamentados ao aceitarmos
suas declarações como verdadeiras, mesmo quando não tenhamos
possibilidade de as averiguar”.
Em outro lugar: “Dependemos das Escrituras para nosso conhecimento
de todos os fatos e doutrinas distintos do cristianismo. Se não podemos
confiar nelas, quando falam de si mesmas, como poderemos confiar nelas
quando nos falam acerca da divindade de Cristo, da redenção por seu sangue,
da justificação mediante a fé, da regeneração efetuada pelo Espírito Santo, da
ressurreição dos mortos e da vida eterna?”.
Além disso, não podemos ver inteiramente a importância do
testemunho a respeito de sua própria veracidade, a menos que consideremos
o fato de que a fidedignidade de Cristo está também envolvida. Pelas
expressões: “A Escritura não pode ser anulada”, e “até que os céus e a terra
passem, nem um jota, nem um til se omitirá da lei, sem que tudo se cumpra”,
ele atribui plena autoridade ao Antigo Testamento, como um todo orgânico, e
faz dele a regra de vida. Nestes pontos não existe qualquer dúvida a respeito
da pureza do texto grego. Assim, a autoridade das Escrituras e a autoridade
de Cristo estão ambas ligadas inseparavelmente. Infelizmente há quem se
incline perante ele e se regozije nele, como o Mestre e Senhor, e
simultaneamente impute às Escrituras erros, não só históricos, mas também
morais. No entanto, não é possível manter uma atitude tão inconsistente.
Parece-nos absurdo que sejamos a um só tempo seus adoradores e seus
críticos. Só a ignorância ou a falta de reflexão torna possível que alguém
pense que pode continuar a ser ortodoxo em sua concepção acerca de Jesus,
aceitando, igualmente, muitos pontos de vista de críticos destrutivos. Quando
dizemos: “Jesus, ensina-me isto ou aquilo, mas a verdade é esta ou aquela”,
já não lhe prestamos culto como Senhor e Mestre. Deste modo, a pergunta
“Que pensais vós de Cristo; de quem é ele Filho?” é perfeitamente paralela à
pergunta: “Que pensais vós da Bíblia; de que fonte vem este Livro?”. A
investigação nos convence de que a Bíblia, e bem assim o Cristo por ela
apresentado, é verdadeiramente humana e verdadeiramente divina. Do
mesmo modo que ele era verdadeiro homem, tentado em tudo como nós o
somos, mas sem pecado, porquanto era divino, também a Bíblia na verdade é
um livro humano, escrito por homens como nós, porém sem erros, porquanto
é também divina.
Quando dizemos que a inspiração abrange todas as partes da Bíblia,
com isso não queremos dizer que todas suas partes são igualmente
importantes. Admite-se, de boa vontade, que Gênesis, Mateus ou Apocalipse,
por exemplo, têm muito mais significância do que 2 Crônicas, Ageu ou
Judas. Como Paulo diz: “Uma estrela difere, em glória, de outra estrela” — e
no entanto Deus a todas elas criou. No corpo humano, alguns órgãos têm
muito mais valor do que outros: os olhos, por exemplo, ou o coração, são
mais valiosos que os dedos ou o cabelo. De fato, quase podemos viver
prescindindo de certos órgãos, embora um corpo completo seja muito mais
desejável e saudável. O mesmo se pode dizer da Bíblia: nem todas suas
partes têm o mesmo valor, mas todas são igualmente verdadeiras.
Além disso, não pretendemos dizer que, se não houvesse inspiração,
não haveria cristianismo. De bom grado admitimos que, se os escritores
bíblicos dependessem apenas de suas faculdades, como se fossem
historiadores e mestres ordinários, a despeito disso poderiam fornecer-nos
relatos precisos das mensagens que tivessem recebido e dos acontecimentos
que ocorreram, e que o cristianismo assim mesmo teria prosseguido, ainda
que de uma forma muito mais pobre. Mesmo que a Bíblia, como livro, se
tivesse perdido por completo, as verdades essenciais a respeito do caminho
da salvação nos teriam sido transmitidas, relativamente puras. Mas, a quantas
incertezas, dúvidas e erros, gerando constantemente erros piores, estaríamos
expostos! Não se pode negar que assim teríamos somente uma forma de
cristianismo, muito fraca e pobre. Para podermos apreciar o que nos
aconteceria, basta-nos olhar para certos grupos, tais como a igreja romana, a
igreja ortodoxa, as igrejas nestoriana e copta, e para os modernistas de nossos
dias, com sua Bíblia indigna de confiança e sua confusão sem fronteiras. Nas
duas primeiras igrejas citadas, negou-se ao povo o acesso às Escrituras; as
outras duas possuem as Escrituras, porém mescladas com muito erro.
Portanto, sem a Bíblia talvez tivéssemos alguma forma de cristianismo,
porém quão pobre seria! Que privilégio é possuirmos um Livro, cada linha do
qual nos sendo transmitida por inspiração divina! Quem pode medir o valor
exato de um privilégio como este? Na verdade, a prática tem demonstrado
que o fator que mais solidamente tem contribuído para a conservação do
verdadeiro cristianismo, através dos séculos, tem sido uma Bíblia digna de
confiança nas mãos do povo.
Cremos que a Bíblia, tal como a conhecemos, está completa e nenhum
outro livro se lhe deve acrescentar. Cremos assim porque a Bíblia nos dá um
relato suficientemente claro da relação existente entre Deus e os homens, e do
plano divino de redenção, tal como foi realizado por Cristo, e que está sendo
aplicado agora a seu povo pelo Espírito Santo. É isto que a Confissão de fé
Westminster apresenta, quando diz: “Todo o conselho de Deus acerca das
coisas necessárias para sua própria glória, salvação, fé e vida do homem é
expressamente apresentado nas Escrituras, ou pode ser deduzido delas, como
consequência boa e necessária, à qual nada se pode acrescentar, em tempo
algum, seja por novas revelações do Espírito, ou por tradição do homem”.
Devemos ter em mente que a doutrina protestante da inspiração e
autoridade das Escrituras difere fundamentalmente da que é sustentada pela
igreja romana. O Concílio de Trento, que reuniu-se na cidade italiana do
mesmo nome, e cujas sessões terminaram em 1653, fixou as regras que a
Igreja Romana tem desde então defendido consistentemente. Afirmam a
inspiração divina e a autoridade das Escrituras, porém com algumas reservas.
Declaram que a Vulgata, tradução latina da Bíblia feita por Jerônimo,
terminada em 405, é o texto autêntico das Escrituras, e que “ninguém deve
atrever-se ou pretender rejeitá-lo sob qualquer pretexto”. Além disso, e o que
é mais importante, introduzem uma estimativa fundamentalmente diferente
do lugar das Escrituras na religião, e da religião em si, quando colocam,
juntamente com as Escrituras e como possuindo igual autoridade, certas
tradições da Igreja que em geral consistem de decretos papais e dos concílios
da Igreja, e declaram que se deve reconhecer unicamente a Igreja como o
único juiz do significado e interpretação das Sagradas Escrituras”. Isto coloca
a autoridade final da interpretação das Escrituras nas mãos de homens falíveis
e pecadores, e abre de par em par a porta a toda espécie de erro.
6. Posição inconsistente dos modernistas

Já dissemos que os assim chamados modernistas ou liberais não têm


uma opinião consistente. Ou têm de abraçar deliberadamente o racionalismo
e negar a autoridade da revelação, ou então regressar ao conceito das
Escrituras, possuidoras de toda a autoridade. A história do protestantismo
liberal nos revela claramente sua imensa dificuldade em se manter na mesma
plataforma do deísmo, para não dizer do cristianismo. De fato sua tendência
tem sido em direção ao pleno repúdio de todos os fundamentos da fé cristã. O
modernista, se seguir logicamente na direção em que suas premissas o levam,
em primeiro lugar nega a inspiração das Escrituras, os milagres, a divindade
de Cristo, a expiação, a ressurreição; e, se for até o fim, acaba no completo
ceticismo. Por muito estranho que pareça, em alguns meios religiosos se ouve
falar hoje de ateísmo da teologia moderna. Infelizmente para alguns, há uma
inconsistência nos processos racionais que conduzem os vários sistemas
filosóficos e religiosos a suas conclusões lógicas.
Praticamente, todas as igrejas evangélicas exigem que aqueles que são
ordenados para o ministério, façam uma confissão pública de sua aceitação da
Bíblia como a Palavra de Deus. Por isso, ao modernista não lhe assiste o
mínimo direito de ser ministro, presbítero ou diácono de uma igreja
evangélica, porquanto não possui boa moral, como não tem, aliás, nenhuma
teologia. Confessar uma coisa quando se acredita o contrário não é indício de
se possuir o caráter de um homem honesto. Os votos de ordenação podem ser
profundamente evangélicos, porém o fato é que há muitas igrejas cujos
ministros negam ou omitem a verdade cristã da infalibilidade da Bíblia!
Os que defendem a inspiração de um ponto de vista inferior defrontam
problemas dos quais tentam fugir, afirmando que a Bíblia simplesmente
contém a Palavra de Deus. Esta fórmula difusa, porém, praticamente nada
afirma. Um rio da índia, que “corre por sobre areias douradas”, sem dúvida
contém ouro. Mas deve ser muito difícil calcular a proporção relativa entre a
areia e o ouro. Se a Bíblia apenas contém a Palavra de Deus, como até os
modernistas sem escrúpulos o afirmam, sem dúvida lhe falta muito para ser
infalível; e, nesse caso, ficamos à mercê da crítica ou de suas opiniões
pessoais, para determinar sobre quais serão os elementos que constituem a
Palavra de Deus e aqueles que são apenas a palavra de homem.
O Dr. Clarence E. Macartney disse recentemente: “Aqueles que se
afastaram da fé numa Bíblia infalível fazem esforços desesperados, porém
inteiramente vãos, para conseguir um substituto adequado e outro terreno em
que possam apoiar-se. Mas, com o decorrer do tempo, o patético desespero
desse esforço se torna cada vez mais evidente. A ‘revelação progressiva’, a
‘experiência pessoal’, a ‘devoção pela verdade’, etc. têm sido descartadas
uma após outra. O modernismo e o liberalismo, como seus próprios adeptos
confessam, estão em bancarrota e já não passam de ‘cisternas rotas’, nas
quais os homens lançam, em vão, seus baldes para conseguir a Água da Vida.
Não existe nenhum substituto possível para a Bíblia inspirada. Ninguém pode
pregar com o poder e a influência daquele que usa uma espada plena do céu,
e que vai para o púlpito fortalecido com o ‘assim diz o Senhor’. Quando
enfrentamos os fatos terríveis do pecado, da paixão, da dor, do luto, da morte
e do além-túmulo, as frases ocas e fáceis do modernismo não passam de uma
planta quebrada. Portanto, aquele que prega o cristianismo histórico e
defende a revelação divina tem, no meio da tempestade, da confusão e das
trevas da hora que passa, uma posição incomparável ... Já se avistam os sinais
de que os homens regressarão às Sagradas Escrituras para beber de novo a
Palavra da Vida, e que a igreja pródiga, farta das bolotas de um país remoto,
regressará à casa paterna”.
Os que rejeitam a doutrina da igreja a respeito da inspiração, em favor
de qualquer outra doutrina, jamais poderão estar de acordo entre si acerca das
partes da Bíblia que são inspiradas, e das que não o são, ou até que ponto elas
são inspiradas. Se a doutrina tão elevada da inspiração verbal for rejeitada,
pouco faltará para se dizer que os escritores sagrados foram tão inspirados
como Shakespeare, Milton ou Tennyson. De fato, partindo de suas premissas,
alguns dentre os críticos têm chegado a esta dolorosa conclusão. Afirmamos,
porém, que se os milagres registrados nas Escrituras são aceitos, não há razão
suficientemente forte para rejeitar o milagre da inspiração, porque a
inspiração não é mais que um milagre no reino da palavra ou da composição.
A maioria das objeções que hoje subsistem contra a doutrina pode ser
traçada, mais ou menos claramente, partindo da suposição de que o
sobrenatural é impossível.
CERTEZA DE QUE A BÍBLIA É A PALAVRA DE DEUS
Surge agora, naturalmente, a seguinte questão: Como podemos saber
que a Bíblia é a Palavra de Deus? Eis nossa resposta: Pelo testemunho do
Espírito Santo em nossos corações, ao examiná-la. Quando o crente lê a
Bíblia, instintivamente sente que Deus lhe está falando. O Espírito Santo
testifica com seu espírito que essas coisas são como dizem ser; as bases
primordiais para sua convicção são internas, e não externas. Aos que são
espirituais, a Palavra autentica-se a si própria. Na verdade, o crente encontra
muita segurança adicional ao verificar as muitas excelências das Escrituras,
como sejam as sublimes verdades espirituais e morais que ela apresenta; a
unidade das várias partes; a magnificência de seu estilo; sua influência
benéfica, onde quer que ela chegue; o apelo que faz tanto ao erudito quanto
ao camponês; suas declarações da verdade, em linguagem tão simples que até
uma criança pode entender seu significado; enquanto que, por outro lado, o
homem mais sábio não é capaz de esgotar sua profundidade, o cumprimento
detalhado de suas profecias, séculos depois de terem sido proferidas, etc. Eis,
na verdade, algumas provas que obrigam sua aceitação, e que podem ser
usadas, com êxito, para calar a boca dos opositores. A despeito de tudo, elas
não têm senão um valor relativo. Fora da iluminação do Espírito Santo,
jamais poderão convencer o incrédulo, por mais lógica e habilmente sejam
elas apresentadas.
Tentar provar a origem divina da Bíblia por meio de provas externas
equivale pretender provar a existência de Deus através do mundo exterior.
Podemos citar os argumentos ontológicos, teleológicos, cosmológicos ou
morais, o que bastará ao crente. Apesar disso, esses argumentos não são
demonstrativos e coercivos, e os incrédulos não se darão por convencidos. Se
consentirmos em fortalecer a autoridade da Bíblia por meios exteriores,
estaremos permitindo o combate no terreno do adversário, e nesse caso temos
de aproveitar ao máximo possível nossos argumentos. Em si, esses
argumentos são de tal natureza que suscitam dúvida na alma não-regenerada,
e não podem resolver o assunto definitivamente. Se sairmos ao combate
nesse terreno, faremos uma concessão ao racionalismo que pressupõe ser a
razão humana capaz de julgar e de apreciar todas as experiências humanas, e
nega a necessidade da revelação divina, não importa qual seja.
No íntimo de nosso ser, somos regenerados ou não-regenerados. Paulo
diz que “o homem natural não compreende as coisas do Espírito de Deus,
porque elas lhe parecem loucura; e não pode entendê-las, porque elas se
discernem espiritualmente” (1Co 2.14). E, em outro lugar, diz que o
evangelho de Cristo crucificado é “escândalo para os judeus e loucura para os
gregos; mas para os que são chamados, quer judeus, quer gregos, é o poder de
Deus e a sabedoria de Deus” para a salvação (1Co 1.24). Por conseguinte, o
homem não-regenerado tem uma atitude antagônica, e não se deixará
convencer mesmo que lhe seja apresentado todo o testemunho externo de que
se possa lançar mão. Todas as pessoas têm de escolher entre a voz de Deus e
a voz do mundo; e a decisão de sua escolha, do que para eles possui maior
autoridade, depende de serem ou não regenerados. É impossível à alma
humana, sem qualquer auxílio, compreender as coisas profundas do Espírito,
como é para o psicanalista comum dar explicação adequada do processo da
salvação. Todos os esforços que tendem a convencer a alma não-regenerada
da origem divina da Bíblia, por meio de provas eruditas ou históricas, só
podem resultar em fracasso e têm de ser abandonados, de forma tão
completa, como fez Jesus quando desistiu de convencer os membros do
Sinédrio de que ele não era culpado de blasfêmia, já que tinham resolvido,
em seu íntimo, o contrário. Foi este o princípio que fez com que a igreja
protestante resistisse, no tempo da Reforma, à igreja romana. Enquanto os
romanistas reconheciam a igreja como a fonte de autoridade, e os humanistas
admitiam a razão humana, o princípio protestante de que a Confissão de fé
Westminster é um princípio típico, era de que a voz de Deus, falando à alma,
é a fonte de autoridade. “A autoridade das Sagradas Escrituras, nas quais
devemos crer e às quais obedecer, não depende do testemunho de nenhum
homem, nem de nenhuma Igreja, mas sim inteiramente de Deus, que é a
Verdade e seu Autor; e portanto deve ser recebida, porquanto é a Palavra de
Deus ... Nossa convicção e segurança profundas na verdade infalível e em sua
autoridade divina está na razão da operação interior do Espírito Santo que dá
testemunho por meio da Palavra e com a Palavra em nossos corações” (I, IV,
V). Está fora de dúvida que alcançaríamos muito maior progresso nas
discussões, atualmente, se nos lembrássemos sempre deste princípio.
Em suma, a fé do crente não depende de provas externas, mas da
experiência interior. O crente vive pelas Escrituras e se deleita em sua luz.
Tem segurança consciente e íntima — chamem-lhe misticismo ou outro título
qualquer — de que é filho de Deus, e de que as Escrituras são a Palavra de
Deus. As provas externas servem para classificar e fortalecer sua fé, mas a
prova absoluta e infalível de que o sistema cristão é, sem dúvida, o
verdadeiro sistema procede do testemunho do Espírito Santo em seu coração,
quando as lê, e em sua experiência como crente. Mesmo que não possua o
conhecimento de todas as evidências eruditas e científicas, que lhe
permitiriam defrontar os críticos destrutivos em seu próprio terreno, o crente
repele todas suas dúvidas da mesma maneira como fez o cego curado pelo
Salvador, que replicava a todos os argumentos dos fariseus, com sua
convicção inabalável: “Se é pecador, não sei; de uma coisa eu sei: eu era
cego, e agora vejo”. O crente não pede autorização ao crítico para crer, da
mesma forma que não pede autorização ao médico para respirar, pois ambas
as coisas são para ele absolutamente naturais e espontâneas. Na verdade julga
que o estudo científico e erudito fornece uma diretriz mais clara da Palavra, e
que lhe permite sistematizá-la e compreendê-la melhor. Mas a autoridade
suprema de sua crença vem do coração e não do processo racional de sua
própria cabeça.
Isto não significa que ele menospreza a sabedoria e a ciência. Em parte
alguma se encontra o princípio da ciência sadia e de investigação científica
em condições mais puras do que entre os verdadeiros e leais crentes das
igrejas evangélicas. De fato, estamos convencidos de que, se não fora o
auxílio prestado pela sabedoria, a fé cristã estaria praticamente indefesa
perante os ataques do inimigo. Desejamos uma base sólida para nossa fé, e
nossa investigação mostra que a possuímos. Reconhecemos que as provas
externas, ao serem apresentadas ao incrédulo, de forma racional, apontam o
caminho para Deus e muitas vezes preparam o coração para a obra do
Espírito Santo. Desejamos, no entanto, mostrar que estas provas em que
alguns tanto confiam são destituídas de valor, a menos que sejam
suplementadas pelo Espírito Santo nos corações.
É possível que nossos adversários se queixem de que este método à
discussão seja um aspecto demasiadamente dogmático. Esquecem, porém,
que agem exatamente do mesmo modo: partem também de premissas que são
axiomáticas, ainda que pretendam que estão sujeitos, de forma absoluta, à
razão. Sua proposição é que a razão humana é competente para julgar todas
as coisas, até mesmo as coisas profundas de Deus. Ainda que reconheçamos
ser seu ponto de partida errado, não nos queixamos disso, pois eles não
podem fazer outra coisa: a mente que não é iluminada pelo Espírito Santo não
pode discernir as coisas do Espírito. Como disse Thornwall, e muito bem: “A
realidade da evidência é uma coisa; o poder para percebê-la é outra muito
diferente. Não é válida uma objeção contra o brilho do sol, se não pode dar
luz aos cegos”. Cada um de nós determina seus métodos. O mais que
podemos pedir é que esses princípios sejam postos à prova, e que se nos dê a
oportunidade de verificar qual deles se enquadra melhor nas realidades da
vida.
Conclusão

Concluindo, desejamos que o povo de Deus se radique e baseie


solidamente, de forma completa e absoluta, na grande doutrina da inspiração
plenária das Escrituras; e que, depois de haver examinado as evidências, se
convença de que a Bíblia é a Palavra de Deus. Visto que todas as outras
grandes doutrinas cristãs se derivam da Bíblia, e estão baseadas em sua
autoridade, esta doutrina é, por assim dizer, a mãe e a guardiã de todas as
demais. Cremos que as declarações que fizemos são fatos que resistirão à
prova da investigação científica e histórica, e que não poderão ser negadas
por uma pessoa bem informada e honesta.
Embora hoje a Bíblia seja negligenciada em muitas igrejas, cremos que
virá o tempo em que ela ocupará o devido lugar na igreja e nos negócios
humanos. Seja como for, temos a plena confiança de que, quando o tumulto
passar, quando a presente tempestade de incredulidade houver desaparecido,
de novo surgirão os picos, altos e sagrados, do Sinai e do Calvário, e que no
meio das ruínas de tronos, de nações desaparecidas e de princípios morais
que já não mais existem, a humanidade, provada por tantos desgostos,
purificada por tantos sofrimentos e tornada sábia por tantas e extraordinárias
experiências, de novo se curvará perante o Deus onipotente e misericordioso,
como ele mesmo se revela em uma Bíblia infalível.
CONCEITO BÍBLICO DE INSPIRAÇÃO
Benjamin B. Warfield
1. O significado dos termos

O termo inspirar, assim como seus derivados, parece ter sido sempre
usado com diversos significados, físicos e metafóricos, seculares e religiosos.
As palavras derivadas se multiplicaram, e sua aplicação foi se alargando com
o correr do tempo até alcançar um uso relativamente lato e variado.
Fundamental a seu uso, porém, existe a constante implicação de uma
influência exterior, que produz, em seu objeto, movimentos e resultados para
além de seu poder nativo, ou, pelo menos, normal.
O termo inspiração, ainda que já existisse antes do século 14, só no
encerramento do século 16 é que parece ter adquirido um significado não-
teológico. O significado especificamente teológico de todos esses termos,
evidentemente é orientado por seu uso na teologia latina; e esse uso se baseia,
em última análise, em seu emprego na Bíblia latina. Na Vulgata, o verbo
inspiro (Gn 2.7; Sabedoria 15.11; Eclesiástico 4.12; 2Tm 3.16; 2Pe 1.21), e o
substantivo inspiratio (2Sm 22.16; Jó 32.8; Sl 17.16; At 17.25) ocorrem
quatro ou cinco vezes, com aplicações diversas. No desenvolvimento de uma
terminologia teológica, porém, adquiriram (juntamente com outras aplicações
menos frequentes) um sentido técnico, no que se refere aos escritores e aos
livros da Bíblia.
Os livros bíblicos são tidos como inspirados por serem eles o produto,
divinamente determinado, de homens inspirados; os escritores bíblicos são
tidos como inspirados por terem eles recebido o sopro do Espírito Santo, de
maneira que o produto de suas atividades transcende a capacidade humana e
recebe autoridade divina. Portanto, a inspiração em geral é definida como
sendo uma influência sobrenatural exercida nos escritores sagrados, pelo
Espírito de Deus, em virtude da qual seus escritos recebem fidedignidade
divina.
2. A ideia fundamental de inspiração

“Toda a Escritura é inspirada por Deus e útil para o ensino, para a


repreensão, para a correção, para a educação na justiça” (2Tm 3.16). A
palavra grega usada nesta passagem, — theópneustos, de modo algum
significa “inspirado de Deus”. Ao contrário, esta frase é a tradução latina da
Vulgata, divinitus inspirata. A palavra grega nem sequer significa, como
Almeida a traduz, “divinamente inspirada”, ainda que esta tradução seja, por
assim dizer, uma paráfrase rude, embora não enganadora, do termo grego, na
linguagem teológica corrente daquele tempo. A expressão grega, porém, nada
diz a respeito de inspiração ou de inspirar; fala apenas de respirar ou de
respiração. Diz, sim, que é “exalado por Deus”, sendo, pois, o produto do
sopro criador de Deus, e não que seja “inspirado por Deus”, isto é, que seja o
produto da inspiração divina em seus autores humanos. Numa palavra, o que
se declara nesta passagem fundamental é simplesmente que as Escrituras são
um produto divino, sem qualquer indicação da maneira como Deus operou
para as produzir. Não se poderia escolher nenhuma outra expressão que
afirmasse, com maior saliência, a produção divina das Escrituras, como esta o
faz.
Nas Escrituras, o “sopro de Deus” é o símbolo de seu poder onipotente,
o portador de sua palavra criadora. Em Salmos 33.6, lemos que “pela palavra
do Senhor foram feitos os céus, e todo seu exército pelo espírito de sua
boca”. É precisamente onde as operações de Deus são ativas que esta
expressão hebraica, ruah, ou neshamah, é usada para designar essas
operações — o sopro de Deus é o fluxo irresistível de seu poder. Quando
Paulo declara que “toda a Escritura”, ou “cada Escritura”, é o produto do
sopro divino, é “exalada por Deus”, afirma, com toda a energia possível, que
as Escrituras são o produto de uma operação especificamente divina.
3. Passagens importantes

2 Timóteo 3.16, 17: Na passagem em que o apóstolo Paulo faz esta


afirmação tão enérgica da origem divina das Escrituras, ele está empenhado
em explicar a grandeza das vantagens que Timóteo desfrutava por haver
aprendido a verdade salvífica de Deus. Ele tivera bons mestres e se tornara,
desde sua infância, com seu conhecimento das Escrituras, sábio para a
salvação, pela fé em Jesus Cristo. A expressão “Sagradas Letras”, usada aqui
no versículo 15, é de caráter técnico, que não se encontra em qualquer outra
parte do Novo Testamento, mas que ocorre correntemente em Filo e em
Josefo para designar o conjunto de livros canônicos que constituíam a Lei
judaica. Aparece aqui desarticulada por estar posta em contraste com o ensino
oral que Timóteo recebera, como algo ainda melhor: não só tivera ele bons
mestres, mas tivera também, sempre, o que chamamos uma Bíblia aberta em
suas mãos. Para enaltecer ainda mais a grande vantagem da posse destas
Sagradas Letras, o apóstolo acrescenta ainda uma frase que demonstra,
vigorosamente, sua natureza. Elas têm origem divina, e portanto possuem um
valor extraordinário para todos os fins sacros.
Há lugar para certa divergência de opiniões, no que diz respeito à
construção exata desta declaração. Traduziremos toda a Escritura, ou todas as
Escrituras? Traduziremos “toda a Escritura é divinamente inspirada, e
portanto é proveitosa”, ou “toda a Escritura, visto ser divinamente inspirada,
é igualmente proveitosa”? Não há dúvida de que estes problemas são
interessantes, mas para o objetivo que ora temos em vista não interessam.
Pouco importa que Paulo, relembrando as “Sagradas Letras” que acabara de
mencionar, afirme o que segue, em relação a cada uma separadamente, ou
todas coletivamente; dizer que cada parte destas Sagradas Letras é inspirada
por Deus, e dizer que o todo é inspirado por Deus, afinal equivale a mesma
coisa. Tampouco é grande a diferença entre dizer que são, cada uma delas ou
todas elas, exaladas por Deus, e portanto proveitosas, ou dizer que são
igualmente proveitosas, em todas suas partes componentes, ou em toda sua
extensão, por serem inspiradas por Deus. Em ambos os casos se declara que
estas Sagradas Letras devem seu valor à origem divina; e em ambos os casos
se afirma, de forma enérgica, em relação ao todo, esta origem divina. Em
suma, a construção preferível parece ser: “cada Escritura, visto ser inspirada
por Deus, é igualmente proveitosa”. Neste caso, aquilo que o apóstolo afirma
é que as Sagradas Escrituras, em cada uma de suas passagens — pois é
somente “passagem das Escrituras” que significa Escritura neste uso
distributivo dessa palavra — é o produto do sopro criador de Deus, e por
causa desta sua origem divina possui um valor supremo para todos os fins
sacros.
Devemos notar que o apóstolo não pára aqui, nem mesmo para nos
dizer que livros fazem parte da coleção a que chama as “Sagradas Letras”,
nem para nos dizer por qual processo Deus os produziu. Nenhum destes
assuntos dizia respeito ao assunto de que ele tratava naquele momento. Era o
valor das Escrituras, e a causa desse valor, na proveniência divina das
mesmas, que naquele momento lhe interessava afirmar; e é isso que ele
afirma, deixando para outras ocasiões qualquer outro fato a seu respeito, que
fosse conveniente salientar. Devemos também observar que aqui o apóstolo
não nos informa que todas as coisas são essas para as quais as Escrituras se
tornam proveitosas, devido a sua procedência divina. Ele apenas fala do
problema que naquele momento estava tratando, e lembra a Timóteo o valor
que essas Escrituras possuem, por virtude de sua origem divina, para o
“homem de Deus”. Seu valor espiritual, visto serem elas exaladas por Deus,
é todo o motivo que ele tem aqui para mencionar. Qualquer outra qualidade
inerente, em razão de sua origem divina, deixaremos para tratar em ocasião
mais oportuna.
2 Pedro 1.19-21: O que Paulo diz supra a respeito da origem divina
das Escrituras é reforçado e ampliado numa passagem muito significativa na
Segunda Epístola de Pedro (1.19-21). Pedro está assegurando a seus leitores
que aquilo que lhes fizera saber da “virtude e vinda de nosso Senhor Jesus
Cristo”, não tinha como fundamento “fábulas engenhosamente compostas”.
Ele lhes oferece o depoimento de testemunhas oculares da glória de Cristo.
Diz ele: “Temos a palavra profética” (Almeida traduz “a palavra dos
profetas”), e isto, diz ele, é “mais sólido”, razão por que devem estar atentos.
Evidentemente, ele se refere às Escrituras. De que outra “palavra profética”
poderia ele falar, mais sólida do que o testemunho daqueles que viram a
“magnífica glória” de Cristo, que a “temos”, ou, seja, que está em nossas
mãos? E passa imediatamente a falar dela, abertamente, como “profecia das
Escrituras”.
“Fazeis bem”, diz ele, “em prestar atenção à palavra profética,
porquanto sabemos primeiramente isto: que nenhuma profecia da
Escritura...”. No entanto, há a possibilidade de dúvida se com esta frase ele
tem em mente a Escritura, como um todo, designada de acordo com seu
caráter, como profética, ou, seja, como tendo uma origem divina, ou apenas
as partes das Escrituras que consideramos como especialmente proféticas, as
revelações diretas que existem nas Escrituras. O primeiro ponto de vista é o
mais provável, visto que as Escrituras, como um todo, são consideradas, em
outro lugar, como sendo proféticas, e descritas como tais. Neste caso, o que
Pedro tem a dizer de “toda a profecia das Escrituras” — equivalente exato de
“toda a Escritura” de Paulo (2Tm 3.16) — se aplica a todas suas partes
componentes. O que ele tem a dizer é que elas não vêm de “particular
interpretação”, ou, seja, não são o resultado de investigação humana sobre a
natureza das coisas, o produto do pensamento pessoal do que a escreve.
Equivale dizer que são dadas por Deus. Por isso, ele prossegue
imediatamente a fim de tornar isto bem claro, numa oração de apoio que
contém tanto a afirmação positiva quanto a negativa: “Porque nunca jamais
qualquer profecia foi dada por vontade humana; entretanto, homens [santos]
falaram da parte de Deus, movidos pelo Espírito Santo”.
Há nesta afirmação várias coisas que devem ser consideradas
cuidadosamente, já que essa profecia é tão precisa e importante. Em primeiro
lugar há a negação positiva de que a profecia, ou, seja, segundo a hipótese
que aqui seguimos, a Escritura, deva sua origem à iniciativa humana: “jamais
qualquer profecia foi dada por vontade humana.” Em seguida há a afirmação,
igualmente positiva, de que sua origem está em Deus: de fato foi enunciada
por homens, mas esses homens “falaram da parte de Deus”. Há uma frase
realmente extraordinária inserida aqui na oração, de forma enfática, a qual
nos informa como é possível que homens, ao falarem, não fizeram isso com
base em sua própria autoridade, mas da parte de Deus: eles falaram “como
que movidos” (sendo esta a mesma palavra supra-traduzida por “foi trazida”,
e aqui podia ser assim traduzida), “pelo Espírito Santo”. Falando assim, sob a
influência determinativa do Espírito Santo, aquilo que eles falaram não se
originou deles, mas de Deus.
Aqui está uma afirmação da origem divina das Escrituras, tão direta
como a de 2 Timóteo 3.16. Há, porém, mais do que uma simples afirmação
da origem divina da Bíblia. Temos feito alguns progressos na compreensão
de como Deus produziu as Escrituras: foi por meio da instrumentalidade de
homens que falaram de sua parte. Mais especificamente, foi por meio de uma
operação do Espírito Santo nesses homens, a qual é descrita como movendo-
os. O termo movendo, aqui empregado, é bastante específico. Não se deve
confundir com guiando, ou dirigindo, ou controlando, ou mesmo
conduzindo, no sentido completo desta palavra. Ultrapassa todas estas
expressões, atribuir o efeito produzido, especificamente, ao agente ativo. O
que é movido é tomado pelo portador e transportado pelo poder do portador,
e não propriamente pelo seu, para o destino do portador, e não propriamente
o seu. Aqui se declara que os homens que falaram da parte de Deus foram
tomados pelo Espírito Santo e levados [movidos], por seu poder, rumo ao
alvo por ele designado. As palavras que eles disseram, sob esta operação do
Espírito Santo, eram deste, e não deles. E essa é a razão por que se afirma que
a “palavra profética” é tão sólida. Embora seja falada pela instrumentalidade
de homens, em virtude do fato de esses homens terem falado, “movidos pelo
Espírito Santo”, é uma palavra diretamente de Deus.
Devemos notar que aqui se enfatiza não o valor espiritual das
Escrituras (embora no fundo isso seja percebido), e sim a fidedignidade
divina das Escrituras. Como esta é a maneira como toda a profecia das
Escrituras “foi trazida”, fornece uma base mais sólida de confiança do que
mesmo o depoimento de testemunhas oculares humanas. Evidentemente, se
não entendermos que “palavra profética” aqui expressa a totalidade das
Escrituras descritas, de acordo com seu caráter, como revelação, mas apenas
aqueles elementos das Escrituras a que chamamos especificidade da profecia,
então apenas diretamente com referência a esses elementos das Escrituras é
que se fazem estas grandes declarações. Seja como for, elas são feitas em
relação a todo o elemento profético que se encontra nas Escrituras e a única
forma em que os leitores desta Epístola o possuíam, sendo isto o que se dá a
entender, especificamente, com a expressão “toda a profecia da Escritura”.
Portanto, estas declarações são feitas pelo menos em referência às grandes
porções das Escrituras; e se a totalidade delas for o que se entende com a
expressão “toda a palavra profética”, então são feitas em referência a toda a
Escritura.
João 10.34, 35. A extensão que atinge a fidelidade suprema das
Escrituras, assim declarada, nos é explicada por uma passagem, em um dos
discursos de nosso Senhor, a qual João registra (Jo 10.34, 35). Os judeus,
ofendidos por Jesus “fazer-se a si mesmo Deus”, iam apedrejá-lo, quando ele
se defendeu da seguinte maneira: “Não está escrito em vossa lei: Eu disse:
sois deuses? Se ele chamou deuses àqueles a quem a Palavra de Deus foi
dirigida, e a Escritura não pode falhar, então, daquele a quem o Pai santificou
e enviou ao mundo, vós dizeis: Tu blasfemas; porque declarei: Sou Filho de
Deus?”. Podemos concluir que esta defesa é insuficiente. Sem dúvida, ela é
incompleta: Jesus a si mesmo se fizera Deus (Jo 10.33) em um grau
muitíssimo mais elevado do que dizendo “vós sois deuses”, daqueles “a quem
a Palavra de Deus foi dirigida”: ele acabara de afirmar, em termos
inequívocos, “Eu e o Pai somos um”. Era suficiente, porém, para o fim
imediatamente em vista, rejeitar a acusação técnica de blasfêmia baseada no
fato de ele fazer-se Deus: não é blasfêmia afirmar que alguém é Deus em
qualquer sentido em que possa, apropriadamente, receber tal designação, e
sem dúvida, se não é blasfêmia dizer que homens, tais como aquele de quem
fala esta passagem, são, por assim dizer, deuses em virtude de suas funções
oficiais, então não pode ser blasfêmia afirmar ser Deus aquele a quem o Pai
consagrou e enviou ao mundo.
No entanto, o ponto que devemos salientar aqui é simplesmente que a
defesa de Jesus toma a forma de um apelo para as Escrituras; e é importante
observar a maneira como ele faz esse apelo. Em primeiro lugar, ele apresenta
as Escrituras como lei. Ele indaga: “Não está escrito em vossa lei?”. A
passagem das Escrituras que Jesus cita não está registrada na parte das
Escrituras designada, mais especificamente, a Lei, isto é, o Pentateuco; nem
em qualquer outra parte das Escrituras de conteúdo formalmente legal.
Encontra-se escrita no livro dos Salmos; e precisamente em um salmo cujas
características exteriores estão bem longe de ser as de determinações legais
(Sl 82.6).
Então, quando Jesus apresenta esta passagem, como estando escrita na
lei dos judeus, ele o faz não porque ela se encontra no referido salmo, mas
por ser parte das Escrituras, em geral. À luz de outras palavras, ele atribui
autoridade legal à totalidade das Escrituras de acordo com uma opinião
bastante comum entre os judeus (cf. Jo 12.34), e que encontra expressão,
ocasionalmente, no Novo Testamento, tanto nos lábios de Jesus, como nos
escritos dos apóstolos. Assim, posteriormente (cf. Jo 15.25), Jesus declara
que está escrito na lei dos Judeus: “Aborreceram-me sem causa”, expressão
essa que se encontra em Salmos 35.19. E Paulo apresenta passagens, tanto
dos Salmos como de Isaías, como pertencentes à lei (1Co 14.21; Rm 3.19), e
pôde escrever frases como esta: “Dizei-me, os que quereis estar debaixo da
lei, porventura não ouvis a lei? Porque está escrito ...”, citando o livro do
Gênesis. Já vimos que toda a Escritura é considerada como profecia; já
vimos também que toda a Escritura é considerada como lei: estas três
expressões, Lei, Profecia e Escritura na verdade eram materialmente
sinônimas, estritamente falando, como a passagem que estamos estudando
no-lo mostra, fazendo variar a fórmula de citação em versículos próximos, de
lei para escritura. E o que assim implica no versículo citado, lemos logo a
seguir, em linguagem mais explícita, porquanto forma um elemento essencial
na defesa de nosso Senhor. Talvez fosse deficiente dizer simplesmente, “não
está escrito em vossa lei?” Mas nosso Senhor, decidido a fazer com que seu
apelo para as Escrituras atingisse seu objetivo, aguça ao máximo o sentido e
alvo de seu argumento, acrescentando com ênfase máxima: “e a Escritura não
pode falhar”. Eis a razão por que vale a pena apelar para o que está “escrito
na lei”, porque “a Escritura não pode falhar”.
A expressão falhar, ou ser anulada, geralmente é usada em relação à
quebra da lei, ou de coisas semelhantes (cf. Jo 5.18; 7.23; Mt 5.19), e o
significado da declaração é que é impossível anular as Escrituras, resistir a
sua autoridade, ou negá-la. O avanço do pensamento tem em vista o efeito de
que é impossível resistir à Escritura — o termo é absolutamente geral e
testifica a respeito do caráter unitário das Escrituras (que, para o fim em vista,
forma um todo) — e por isso a Escritura citada aqui deve ser considerada
como de autoridade irrefutável. Portanto, o que temos aqui é a afirmação
mais forte a respeito da autoridade infalível das Escrituras; o que,
precisamente, é verdadeiro a respeito da Escritura é que ela “não pode ser
anulada”.
Então, qual é o problema especial na Bíblia, para cuja confirmação se
evoca assim a autoridade infalível das Escrituras? É uma das frases mais
casuais — mais do que isso, a própria forma de sua expressão —, é uma das
frases mais inesperadas. Isto significa, evidentemente, que na opinião do
Salvador a autoridade infalível das Escrituras está ligada inclusive à forma de
expressão de suas orações mais inesperadas. Uma das características mais
absolutas das Escrituras, até nos pormenores mais diminutos, é que ela possui
autoridade infalível. É verdade que às vezes há quem sugira que o argumento
de nosso Senhor, aqui, é um argumentum ad hominem, e que, portanto, suas
palavras não representam sua opinião pessoal a respeito da autoridade das
Escrituras, mas a de seus adversários judaicos. De fato não podemos negar
que, na defesa, o Senhor expressa uma certa nota satírica, ou, seja, que os
judeus consentiam com tanta facilidade que juízes corruptos fossem
chamados deuses, no entanto não podiam suportar que ele, a quem o Pai
consagrou e enviou ao mundo, se denominasse de Filho de Deus, era um fato
verdadeiramente pungente, para ser posto em relevo perante tão forte luz.
Não obstante, o argumento das Escrituras não é ad hominem, mas e concessu;
as Escrituras eram o terreno comum a Jesus e a seus adversários. Caso se
exijam provas para tão evidente fato, estas seriam o fato de esta não ser uma
passagem isolada, mas uma bem representativa.
O conceito de Escritura, aqui apresentado tão claramente, fornece a
base de todos os apelos para a Escritura, feitos não só por Jesus, mas também
por todos os escritores do Novo Testamento. Por toda parte, não só em
relação a ele, mas em relação a todos os outros, um apelo para as Escrituras
equivale a um apelo para uma autoridade infalível, cuja decisão é final; tanto
ele, como todos os escritores, fazem, indiferentemente, apelo a toda e
qualquer porção das Escrituras, e a cada elemento nelas, tanto a suas frases
mais casuais, como a seus princípios mais fundamentais, e até à própria
forma de sua expressão. Esta atitude para com as Escrituras como documento
autoritativo, na verdade já se deu a entender pela designação constante que
lhe é dada pelo título Escritura, Escrituras, ou, seja, o Documento por
excelência; bem como pela citação costumeira das Escrituras com a fórmula
despretensiosa “Está escrito”. O que está escrito neste documento admite tão
poucas dúvidas, que sua autoridade não necessita de ser asseverada, podendo
com confiança ter-se como aceito. Ambos os modos de expressão fazem
parte dos hábitos constantemente ilustrativos da maneira de falar de nosso
Senhor.
As primeiras palavras atribuídas a Cristo, proferidas após sua
manifestação a Israel, formam um apelo para a autoridade infalível das
Escrituras; a única arma de defesa que ele apresentou contra a tentação de
Satanás foi o decisivo “Está escrito” (cf. Mt 4.4, 7, 10; Lc 4.4, 8). E, entre as
últimas palavras que ele proferiu, ao falar com seus discípulos antes de sua
ascensão, se encontra uma repreensão, por não terem compreendido tudo o
“que estava escrito a seu respeito na Lei de Moisés, nos Profetas e nos
Salmos” — ou, seja, em toda a Escritura (v. 45) — “convinha [repare-se na
grande ênfase posta no verbo] que se cumprisse” (Lc 24.44). “Assim está
escrito”, disse ele (v. 46), como se isso tornasse absurda qualquer dúvida.
Pois, como ele explicara previamente, neste mesmo dia (cf. Lc 24.25-27),
apenas mostra que alguém é “néscio e tardo de coração”, se não “crê” [se sua
fé não tem por base, seguramente, como que num sólido fundamento] “tudo”
[sem limite de assunto] “o que os profetas” [que se explica no v. 27 como
sendo equivalente a “todas as Escrituras”] “disseram”.
4. O cumprimento indispensável das Escrituras

A necessidade do cumprimento de tudo o que está escrito nas


Escrituras, tão fortemente asseverado nestas últimas instruções a seus
discípulos, é frequentemente referido pelo Senhor. Ele explica, reiterada-
mente, fatos que aconteceram “para que se cumpram as Escrituras” (cf. Mc
14.49; Jo 13.18; 17.12). Portanto, baseado em declarações das Escrituras, ele
anuncia, com plena confiança, que ocorrerão determinados fatos, com toda
certeza: “Esta noite, todos vós vos escandalizareis em mim; porque está
escrito...” (Mt 26.31; Mc 14.27; Lc 20.17). Embora tivesse a seu alcance
todos os meios de fuga, ele aceita as calamidades que sobreviriam,
porquanto, indaga: “Como, pois, se cumpririam as Escrituras, que dizem que
assim convém que aconteça?” (Mt 26.54). Ele repreende não só aos dois
discípulos, com quem falou na estrada para Emaús (Lc 24.25), por não terem
confiado mais plenamente no ensino das Escrituras. “Examinais as
Escrituras”, disse ele aos judeus, na passagem clássica (Jo 5.39), “porque
pensais ter nelas a vida eterna; e são elas mesmas que testificam de mim; e
não quereis vir a mim, para terdes vida”.
Sem dúvida, o que provocou estas palavras foi mais tristeza do que
ironia: não implicam censura, quer por examinarem as Escrituras, quer por
julgarem que a vida eterna se encontra nelas; ao contrário, há aprovação. O
que ele censura nos judeus é que, ao lerem, o faziam com um véu cobrindo
seus corações, o qual ele desejava remover (2Co 3.15-18). “Examinais as
Escrituras” — o que está certo: e “vós mesmos” [enfático] “julgais ter nelas a
vida eterna” — o que também está certo. Mas, “são estas mesmas Escrituras,
que examinais com tanto cuidado [forte ênfase] “que estão testificando”
[processo contínuo] “de mim, e [o que é de espantar] não quereis vir a mim
para terdes vida” — para que possais ter, isto é, alcançar precisamente o
objetivo que tendes tão apropriadamente em vista ao examinardes as
Escrituras. A falha não está nas Escrituras, mas neles mesmos, pois as leem
com tão pouco proveito.
5. O testemunho de Cristo acerca da autoria divina

Do mesmo modo, com frequência nosso Senhor tinha ocasião de sentir-


se surpreso pelo efeito insignificante produzido pela leitura das Escrituras,
não porque foram examinadas com demasiada curiosidade, mas porque não
foram examinadas com suficiente solicitude e com uma confiança
suficientemente simples e forte, em cada declaração que elas contêm. “Ainda
não lestes sequer esta Escritura”? pergunta citando o salmo 118, a fim de
mostrar que a rejeição do Messias já fora predita nas Escrituras (cf. Mc
12.10; Mt 21.42 altera a expressão para o equivalente, e diz: “Nunca lestes
nas Escrituras?”). E quando os judeus, indignados, se chegaram a ele e se
queixaram dos hosanas com que as crianças no templo o aclamavam, e lhe
perguntaram: “Ouves o que estes dizem?”, Jesus apenas lhes replicou (Mt
21.16): “Sim, nunca lestes: Pela boca de pequeninos e crianças de peito
tiraste o perfeito louvor?”.
O pensamento em que estão baseadas as passagens supracitadas é
apresentado abertamente, quando ele dá a entender que a origem de todos os
erros a respeito das coisas divinas se radica justamente na ignorância das
Escrituras. Ele declarou a seus inquiridores, numa ocasião tão determinante:
“Errais não conhecendo as Escrituras” (Mt 22.29); ou, como se encontra,
possivelmente ainda com mais vigor, na forma interrogativa, na passagem
paralela, em outro Evangelho: “Porventura vosso erro não está justamente em
não conhecerdes as Escrituras?” (Mc 12.24). É evidente que, aquele que
conhece bem as Escrituras, não comete erro tão crasso.
A confiança com que Jesus se baseava nas Escrituras, em todas as
declarações que elas fazem, é ainda ilustrada na passagem de Mateus 19.4-6.
Alguns fariseus se aproximaram dele com indagação acerca do divórcio, e ele
replicou-lhes da seguinte maneira: “Não tendes lido que o Criador, desde o
princípio, os fez homem e mulher, e disse: Por esta causa deixará o homem
pai e mãe e se unirá a sua mulher, tornando-se os dois uma só carne? De
modo que já não são mais dois, porém uma só carne. Portanto, o que Deus
ajuntou não o separe o homem”. O ponto a salientar aqui é a referência
explicita a Gênesis 2.24, tendo Deus como seu autor. “Aquele que os fez ...
disse.” “Portanto, o que Deus ajuntou.” No entanto, esta passagem não nos
transmite uma sentença de Deus, registrada na Bíblia, mas apenas a palavra
da própria Escritura, e só pode ser tratada como uma declaração de Deus na
hipótese de que toda a Escritura seja uma declaração de Deus. A passagem
paralela em Marcos 10.5-9, do mesmo modo, ainda que não tão
explicitamente, apresenta esta passagem como sendo da autoria de Deus,
citando-a como lei autoritativa e falando de sua determinação como um ato
de Deus. É interessante notar, de passagem, que Paulo, tendo oportunidade de
citar a mesma Escritura (cf. 1Co 6.16), a cita também explicitamente como
palavra divina: “Porque, como se disse, serão os dois uma só carne” — aqui o
disse, de acordo com um uso que mais adiante veremos, se refere a Deus.
Portanto, é evidente que Jesus, citando ocasionalmente as Escrituras
como sendo um documento autoritativo, atribui a Deus sua autoria como base
de sua citação. Seu testemunho é que tudo quanto está escrito nas Escrituras é
Palavra de Deus. Tampouco podemos retirar deste testemunho sua força,
alegando que ele representa Jesus meramente nos dias de sua carne, quando
se poderia presumir que ele só refletia a opinião de seu tempo e de sua
geração. O ponto de vista que ele apresenta a respeito das Escrituras era
também, sem a menor sombra de dúvida, o ponto de vista de seu tempo e de
sua geração, além de ser igualmente o seu próprio. Mas não há nenhuma
razão para se duvidar que ele o mantinha, não por ser o ponto de vista
corrente, mas porque, em seu conhecimento divino-humano, bem sabia ser o
verdadeiro; pois, até mesmo em sua humilhação, ele é testemunha fiel e
verdadeira.
Em todo caso, devemos ter em mente que era este o ponto de vista do
Cristo redivivo e exaltado, como fora o do Cristo humilhado. Foi depois de
ele haver sofrido e ressuscitado, no poder de sua vida divina, é que declarou
“néscios e tardos de coração” àqueles que não crerem em tudo aquilo que está
escrito nas Escrituras (Lc 24.25); e que apresentou o simples “está escrito”
como base suficiente para uma fé confiante (Lc 24.46). Tampouco podemos
diminuir o testemunho de Jesus em relação à fidedignidade das Escrituras,
interpretando-o como sendo não propriamente o seu, mas o de seus
discípulos, que o colocaram em sua boca, ao relatarem suas palavras. Tudo
isso é não só constante, minucioso, íntimo e, em parte, incidental, e por isso
encoberto, por assim dizer, para admitir tal interpretação, mas de tal forma
penetra todas nossas fontes de informação a respeito dos ensinos de Jesus,
que comunica a certeza de que na verdade vem dele mesmo. Não só pertence
ao Jesus apresentado nos relatos evangélicos, como também ao Jesus das
fontes mais antigas, que concordam com os relatos evangélicos, como se
pode averiguar, observando os incidentes nos quais Jesus cita as Escrituras,
como divinamente autoritativas, registradas em mais de um Evangelho (p.ex.,
“Está escrito” — Mt 4.4, 7, 10; Lc 4.4, 8, 10; Mt 11.10; Lc 7.27; Mt 21.13;
Lc 19.46; Mc 11.17; Mt 26.31; Mc 14.21; “a Escritura” ou “as Escrituras”:
Mt 19.4; Mc 10.9; Mt 21.42; Mc 12.10; Lc 20.17; Mt 22.29; Mc 12.24; Lc
20.37; Mt 26.56; Mc 14.49; Lc 24.44). Estas passagens bastariam para pôr
em evidência o testemunho de Jesus acerca das Escrituras, como sendo em
todas suas partes e em tudo o que diz divinamente infalível.
6. O testemunho dos apóstolos

As tentativas para se atribuir o testemunho de Jesus a seus discípulos,


só tem em seu favor o fato inegável de que o testemunho dos escritores do
Novo Testamento tem precisamente o mesmo efeito que o testemunho dele.
Eles também falam rapidamente das Escrituras, usando esse tão significativo
título, e as citam com um simples “Está escrito”; significando que tudo
quanto se acha escrito nelas é divinamente autoritativo. Do mesmo modo que
a vida pública de Jesus começa com este “Está escrito” (Mt 4.4), também a
proclamação evangélica começa com um “Como está escrito” (Mc 1.12); e do
mesmo modo que Jesus procurou justificar sua obra com um solene “Assim
está escrito que o Cristo padecesse, e ao terceiro dia ressuscitasse” (Lc
24.46), também os apóstolos solenemente justificaram o evangelho que
pregavam, em todos seus pormenores, com um apelo às Escrituras, “Que
Cristo morreu por nossos pecados, segundo as Escrituras” e “Que ressuscitou
ao terceiro dia, segundo as Escrituras” (1Co 15.3, 4; cf. também At 8.35;
17.3; 26.22; Rm 1.17; 3.4, 10; 4.17; 11.26; 14.11; 1Co 1.19; 2.9; 3.19; 15.45;
Gl 3.10, 13; 4.22, 27).
Onde quer que levassem o evangelho, o que proclamavam era um
evangelho baseado nas Escrituras (At 17.2; 18.24, 28); e se animavam
reciprocamente a fim de provar a veracidade da mensagem com as Escrituras
(cf. At 17.11). A santidade de vida que inculcavam, a baseavam em
exigências das Escrituras (cf. 1Pe 1.16), e recomendavam a lei real do amor,
que ensinavam com sanção divina (Tg 2.8). Todos os detalhes do dever
cristão os sustentavam com um apelo para as Escrituras (cf. At 23.5; Rm
12.19). Vão buscar nas Escrituras a explicação de circunstâncias em suas
vidas e dos acontecimentos ao redor deles (cf. Rm 2.26; 8.36; 9.33; 11.8;
15.9, 21; 2Co 4.13). Do mesmo modo que o Senhor declarou que tudo quanto
estava escrito nas Escrituras havia de se cumprir (cf. Mt 26.54; Lc 22.37;
24.44), assim também seus discípulos explicavam um dos acontecimentos
mais espantosos que ocorreram em suas experiências pessoais, mostrando
que “convinha que se cumprisse a Escritura, que o Espírito Santo predisse
pela boca de Davi” (At 1.16).
Aqui se afirma, mui claramente, a razão para este constante apelo para
as Escrituras, de forma a ser suficiente que algo esteja contido nas Escrituras
(cf. 1Pe 2.6) para que o mesmo tenha autoridade infalível. A Escritura tem de
se cumprir, porquanto o que ela contém é a declaração exata feita pelo
Espírito Santo, através do autor humano. O que as Escrituras dizem, é Deus
quem o diz; e assim lemos afirmações tão notáveis como as seguintes:
“Porque diz a Escritura a faraó: Para isto mesmo te levantei” (Rm 9.17);
“Ora, tendo a Escritura previsto que Deus havia de justificar os gentios
mediante a fé, primeiramente anunciou o evangelho a Abraão, dizendo: Em ti
todas as nações serão benditas” (Gl 3.8). Estas citações não são apenas
exemplos da simples personificação das Escrituras, o que, aliás, em si é um
uso bastante notável (cf. Mc 15.28; Jo 7.38, 42; 19.37; Rm 4.3; 10.11; 11.2;
Gl 4.30; 1Tm 5.18; Tg 2.23; 4.5, 6), vocal, com a convicção expressa por
Tiago (4.5) de que a Escritura não pode falar em vão. Elas mostram certa
confusão, na linguagem corrente, entre Escritura e Deus, resultado de uma
convicção profundamente arraigada de que a palavra da Escritura é a Palavra
de Deus. Não foi a Escritura que falou a Faraó, ou transmitiu sua grande
promessa a Abraão, e sim Deus. No entanto, a Escritura e Deus estavam tão
intimamente ligados na mente dos escritores do Novo Testamento, que
podiam falar naturalmente da Escritura operando aquilo que ela mesma diz
ter sido Deus quem o operou. No entanto, para eles era ainda mais natural
falarem casualmente e atribuírem a Deus aquilo que as Escrituras dizem; e
assim encontramos formas de expressão como estas: “Portanto, como diz o
Espírito Santo, se ouvirdes hoje sua voz”, etc. (Hb 3.7, citando Sl 95.7); “Tu,
Soberano Senhor ... que disseste por intermédio do Espírito Santo, por boca
de Davi, teu servo: Por que se enfureceram os gentios, e os povos
imaginaram coisas vãs?” (At 4.25, 26, citando Sl 2.1). “E, que Deus o
ressuscitou dentre os mortos para que jamais voltasse à corrupção, desta
maneira o disse: E cumprirei a vosso favor as santas e fiéis promessas feitas a
Davi. Por isso diz também em outro salmo” (At 13.34, citando Is 55.3 e Sl
16.10), etc. As palavras postas na boca de Deus, nestes casos, não são
palavras de Deus registradas nas Escrituras, mas simplesmente palavras das
Escrituras. Quando comparamos as duas espécies de passagens, em uma das
quais lemos que a Escritura é Deus, enquanto na outra se fala de Deus como
se ele fosse a Escritura, podemos verificar quão íntima era a identificação de
ambas nas mentes dos escritores do Novo Testamento.
7. A identificação de Deus com as Escrituras

Por exemplo, é possível observar esta identificação de maneira notável


em certas cadeias de citações, em que se reúnem várias passagens das
Escrituras que são estreitamente ligadas umas às outras. O primeiro capítulo
da Epístola aos Hebreus nos fornece um exemplo disto. Podemos começar
com o versículo 5: “Porque, a qual dos anjos disse jamais” — sendo o sujeito
necessariamente Deus: “Tu és meu Filho, eu hoje te gerei?” — sendo uma
citação de Salmos 2.7, e bem na boca de Deus — “E, outra vez: Eu lhe serei
por Pai, e ele me será por Filho?” — de 2 Samuel 7.14; sendo esta também
uma declaração do próprio Deus — “E, outra vez, quando introduzir no
mundo o primogênito, diz: E todos os anjos de Deus o adorem” — de
Deuteronômio 32.43, versão Septuaginta, ou Salmos 97.7, em nenhuma das
quais é Deus quem fala — “E, quanto aos anjos, diz: O que de seus anjos faz
ventos, e de seus ministros labareda de fogo” — de Salmos 104.4, onde de
novo não é Deus quem fala, mas é referido na terceira pessoa — “Mas, do
Filho, diz: Ó Deus, teu trono”, etc. — de Salmos 45.6, 7, onde de novo não é
Deus quem fala, mas a pessoa a quem se fala — “E tu, ó Senhor, no
princípio”, etc. — de Salmos 102.25-27, onde novamente não é Deus quem
fala, mas a quem se dirige a palavra — “E a qual dos anjos disse jamais:
Assenta-te a minha direita até que eu ponha teus inimigos debaixo de teus
pés” — de Salmos 110.1, onde é Deus quem fala. Temos aqui passagens nas
quais Deus fala, e passagens nas quais não é Deus quem fala, mas aquele a
quem se fala ou de quem se fala, atribuídas indistintamente a Deus como
aquele que fala, porque todas têm em comum o serem palavras das Escrituras
e, como tais, são palavras de Deus.
Do mesmo modo, em Romanos 15.9-12, temos uma série de citações, a
primeira das quais é introduzida por “Como está escrito”, e as duas seguintes
por “E outra vez diz” e “Outra vez”, e a última por “E outra vez diz Isaías”,
sendo a primeira destas citações de Salmos 18.49, a segunda de
Deuteronômio 32.43, a terceira de Salmos 117.1 e a última de Isaías 11.10.
Só a última (aqui a única atribuída a seu autor humano) é uma palavra direta
de Deus, no texto do Antigo Testamento.
8. Os oráculos de Deus

Este aspecto das Escrituras, com uma massa compacta de palavras de


Deus, provocou a formação de uma designação pela qual seu caráter era
explicitamente expresso. Esta designação é conhecida como “oráculos
santos”, ou “oráculos de Deus”. Ocorre com extraordinária frequência em
Filo, que muitas vezes se refere às Escrituras como “oráculos sagrados” e cita
várias passagens, cada uma delas como um oráculo. Compartilhando da
concepção de Filo a respeito das Escrituras, como sendo, em sua totalidade, a
palavra de Deus, os escritores do Novo Testamento falam também delas da
mesma maneira. A passagem clássica é Romanos 3.2 (cf. também Hb 5.12 e
At 7.38). [Em todas elas Almeida traduz por palavras, em vez de oráculo.]
Aqui Paulo começa a enumerar as vantagens especiais pertinentes ao povo
eleito, que não foram dadas às demais nações; e, depois de declarar que essas
vantagens foram grandes e numerosas, coloca sobre todas o fato de
possuírem eles as Escrituras: “Então, qual é a vantagem do judeu? Ou qual a
utilidade da circuncisão? Muita, de todas as formas, porque primeiramente os
oráculos de Deus lhe foram confiados.” Que por “oráculos de Deus” ele tem
em mente precisamente as Escrituras em sua totalidade, consideradas como
revelação direita de Deus, e não apenas porções delas ou aqueles elementos
que nelas são considerados como sendo reveladores, é absolutamente claro
pelo amplo uso contemporâneo, feito por Filo, desta designação, com esse
sentido, e sem a menor sombra de dúvida, pela presença no Novo Testamento
de hábitos de expressão que se baseiam e se derivam do conceito da Escritura
incorporado nesta expressão.
Do ponto de vista desta designação, as Escrituras são consideradas
como sendo a viva voz de fórmulas, a saber: “Dito está”, “assim se diz”,
“fora dito”, e esta maneira de citar as Escrituras ocorre regularmente como
uma alternativa para o “está escrito” (cf. Lc 4.12, substituindo o “está escrito”
de Mateus; cf. Hb 3.15; Rm 4.18). É também devido a este ponto de vista que
as Escrituras são citadas, não como o que Deus ou o Espírito Santo disse, mas
como o que ele diz, o tempo presente dando realce à voz viva de Deus
falando ao indivíduo, através das Escrituras (cf. Hb 3.7; At 13.35; Hb 1.7, 8;
Rm 15.10). Há especialmente, em resultado disso, o uso incomum com que
as Escrituras são citadas, com um simples diz, sem sujeito expresso, pois se
subentende tão plenamente quem é o sujeito quando as Escrituras são citadas,
que é desnecessário fazer-lhe referência expressa; pois, quem poderia ditar as
palavras das Escrituras, senão unicamente Deus? (cf. Rm 15.10; 1Co 6.16;
2Co 6.2; Gl 3.16; Ef 4.8; 5.14). As analogias deste disse sem sujeito, tão
cheio de significado, estão muito espalhadas. Era com ele que os antigos
pitagoreanos e platonistas, assim como os aristotelianos medievais, citavam
os ensinos de seus respectivos mestres; era com ele que, em determinados
círculos, se citavam as sentenças do grande jurista de Adriano, Salvius
Julianus; certos estilistas africanos estavam inclusive habituados a referir-se
com ele a Sallust, seu grande modelo.
Transparece de vez em quando, no Antigo Testamento, a tendência de
omitir o nome de Deus, considerando-o supérfluo, quando, sendo ele o
grande sujeito lógico sempre presente, poderia subentender-se facilmente (cf.
Jó 20.23; 21.17; Sl 114.2; Lm 4.22). Da mesma forma também, quando os
escritores do Novo Testamento citavam as Escrituras, não era necessário
dizer de quem eram as palavras, pois isso estava fora de toda e qualquer
dúvida no pensamento de todos eles. E assim este uso constitui uma
advertência especialmente importante do sentido vivo que os escritores do
Novo Testamento possuíam da origem divina das Escrituras, e significa que,
ao citá-las, estavam vividamente cônscios de que citavam as próprias
palavras de Deus.
Que para eles as Escrituras eram absolutamente a Palavra do próprio
Deus, é possível perceber claramente na passagem aos Gálatas 3.16: “Não
diz: E aos descendentes, como se falando de muitos, mas como de um só: E a
teu descendente, que é Cristo.” Já vimos quando o Senhor faz um argumento
depender das palavras exatas das Escrituras (cf. Jo 10.34); em outro lugar,
seu raciocínio depende do tempo do verbo usado (cf. Mt 22.32); ou da
palavra empregada (Mt 22.43) nas Escrituras. Aqui, o argumento de Paulo se
baseia igualmente em uma forma gramatical. Não há dúvida de que o que está
em pauta é a forma gramatical da palavra, estando escrito que Deus falou a
Abraão. Paulo, porém, só conhece a forma gramatical usada por Deus, na
medida em que as Escrituras a transmitiram; e, como vimos, ao citar as
palavras de Deus e as palavras das Escrituras, ele não estava habituado a
fazer alguma distinção entre elas. Portanto, o que ele tem mente aqui
provavelmente seja a palavra da Escritura como tal, ainda que seja possível
que aquilo de que aqui testifica se refira mais à fidedignidade do relato das
Escrituras do que a sua origem divina direta, se é possível distinguir entre
duas coisas que aparentemente não estavam distintas na mente de Paulo.
Entretanto, podemos dizer, pelo menos sem exagero, que a designação
das Escrituras como Escritura, e sua citação com a fórmula “Está escrito”,
acima de tudo atesta sua autoridade infalível; a designação que ela recebe
como sendo um oráculo, e sua citação com a fórmula diz, acima de tudo
atesta sua divindade imediata. A autoridade dela se baseia na divindade dele,
e a divindade dela se expressa na fidedignidade dele; e os escritores do Novo
Testamento, sempre que fazem uso dela, a tratam como sendo aquilo que ela
declara ser — um documento soprado por Deus; e, por ser assim, como
absolutamente fidedigno em todas suas afirmações, autoritativa em todas suas
declarações, e nos mínimos detalhes a verdadeira Palavra de Deus, seus
oráculos.
9. O elemento humano nas Escrituras

Que as Escrituras são, em sua totalidade, um livro divino, criado pela


energia divina, e que fala, em todas suas partes, com autoridade divina,
diretamente aos corações dos leitores, constitui o fato fundamental a seu
respeito, testificado por Cristo e pelos escritores sacros a quem devemos o
Novo Testamento. Mas a força e a persistência com que testificam a respeito
deste fato primordial não impede que reconheçam, ao mesmo tempo, que as
Escrituras vieram à existência através da ação humana. Seria inexato dizer
que reconheciam um elemento humano nas Escrituras: eles não dividem as
Escrituras, atribuindo certas porções, ou elementos delas, respectivamente, a
Deus e ao homem. Em sua opinião, a totalidade das Escrituras, em todas suas
partes e elementos, até o mínimo detalhe, tanto no que diz respeito à forma de
expressão, quanto à substância de ensino, vem de Deus; Deus, porém, no-la
deu em sua totalidade, por meio da instrumentalidade humana.
Portanto, em sua opinião não há nas Escrituras nenhum elemento ou
ingrediente humano, e muito menos divisões ou seções das Escrituras que
sejam humanas, e sim um lado ou aspecto humano das Escrituras; e não
deixam de fornecer seu pleno reconhecimento a esta faceta ou aspecto
humano das Escrituras.
Numa das principais passagens que já consideramos, dá-se expressão
muito clara a sua concepção, ainda que de forma relativamente simples e
sucinta. Pedro nos escreve: “Porque nunca jamais qualquer profecia foi dada
por vontade humana; entretanto, homens [santos] falaram da parte de Deus,
movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21). Aqui se atribui a Deus toda a
iniciativa e um controle tal dos agentes humanos, que o produto resultante na
verdade é obra de Deus. Os homens que falam nesta “profecia da Escritura”
não falam da parte de si próprios, ou do produto de seus pensamentos, mas da
parte de Deus: só falam na medida em que são transportados pelo Espírito
Santo. Todavia, são eles mesmos que falam. As Escrituras são o produto de
homens, porém de homens que falavam da parte de Deus e sob um controle
tal do Espírito Santo, que naquilo que falavam eram levados [ou movidos] por
este. Obviamente, a ideia que subjaz é que as Escrituras nos foram dadas pela
instrumentalidade de homens; e esta ideia encontra expressão, reiterada e
incidentalmente, por toda parte do Novo Testamento.
É esta ideia que se acha expressa, por exemplo, quando o Senhor,
citando o Salmo 110, declara a respeito das palavras citadas, que “o próprio
Davi disse pelo Espírito Santo” (Mc 12.36). Há aqui um certo realce no fato
de as palavras serem de Davi, o que é necessário para o argumento que o
Senhor estava apresentando, mas que, ao mesmo tempo, não deixa de
representar o conceito do Senhor quanto a sua origem. Portanto, o que temos
no Salmo 110 são as palavras do próprio Davi, porém são palavras de Davi
que foram ditas não meramente por sua própria ação, mas “no Espírito
Santo”, ou, seja — não poderíamos parafraseá-lo melhor – “movido pelo
Espírito Santo”. Em outros termos, são palavras “sopradas por Deus”, sendo,
portanto, autoritativas num sentido em que nenhuma outra palavra de Davi,
falada sem ser pelo Espírito Santo, pode ser autoritativa.
Para generalizar, podemos dizer que as palavras das Escrituras são
consideradas por nosso Senhor, e pelos escritores neotestamentários, como
sendo palavras de seus autores humanos falando “no Espírito Santo”, ou,
seja, por sua iniciativa e sob sua diretriz controladora. É provável que esta
opinião encontre expressão, de forma ainda mais precisa, em declaração
como a que lemos em Atos 1.16. É Pedro quem fala, e aqui também temos
um Salmo sendo citado: “O Espírito Santo predisse por boca de Davi”. Aqui,
evidentemente, o Espírito Santo é apresentado como sendo o verdadeiro autor
do que foi dito (e daí a certeza de Pedro de que o que fora dito se cumpriria);
mas a boca de Davi é designada, expressamente, como o instrumento (aqui se
emprega a preposição instrumental) por meio do qual o Espírito Santo dita a
referida escritura. Ele não fala senão por intermédio da boca de Davi. Do
mesmo modo, lemos em Atos 4.24, 25 que “o Senhor, que fez a terra e o mar,
e tudo o que neles há, agindo através de seu Espírito Santo ditou outro Salmo
por boca de Davi seu servo”; e, em Mateus 13.35, cita-se ainda outro Salmo
como “o que fora dito pelo profeta” (cf. Mt 2.5). É na própria afirmação
categórica da autoria divina da Bíblia que se reconhece constantemente a
instrumentalidade humana, por meio da qual ela é transmitida.
Portanto, os escritores neotestamentários não têm nenhuma dificuldade
em designar as Escrituras através de seus autores humanos, nem em descobrir
nelas características que são devidas a essa autoria. Citam-nas livremente,
usando fórmulas simples, como: “Moisés disse” (Rm 10.19; Mt 22.24; Mc
7.10; At 3.22); “Moisés descreve” (Rm 10.5); “Moisés escreve” (Mc 12.19;
Lc 20.28); “Isaías diz” (Rm 10.20); “Isaías disse” (Jo 12.39); “Isaías
clamava” (Rm 9.27); “Como antes disse Isaías” (Rm 9.29); “Como disse o
profeta Isaías” (Jo 1.23); “Profetizou Isaías” (Mc 12.6; Mt 15.7); “Davi
disse” (Lc 20.42; At 2.25; Rm 11.9; Mc 12.36). Devemos notar que, quando
as Escrituras são citadas nesses termos, pelos nomes de seus autores
humanos, é totalmente indiferente se as palavras citadas são comentários
feitos pelos mesmos autores, ou são palavras diretas de Deus por eles
relatadas. Da mesma maneira como as palavras mais claras dos autores
humanos são citadas como sendo da autoria de Deus, assim as palavras
expressamente citadas que Deus disse, repetidas pelos escritores da Bíblia,
são designadas pelos nomes desses escritores humanos (Mt 15.7; Mc 7.6; Rm
10.5, 19, 20; cf. Mc 7.10, do Decálogo). Afirmar que Moisés ou Davi disse,
evidentemente é apenas uma maneira de dizer que “As Escrituras dizem”, o
que equivale dizer que “Deus diz”. Desse modo, estas formas de citar as
Escrituras pouco mais fazem do que ligar o nome, ou, talvez diríamos
melhor, a individualidade dos vários escritores com as porções das Escrituras
que foram dadas por seu intermédio.
No entanto, fica sem explicação, porém de forma implícita, a maneira
como ela foi dada por seu intermédio. Só podemos inferir com certeza, isto:
que a dádiva das Escrituras, através de seus autores humanos, ocorreu
mediante um processo muito mais íntimo do que se poderia expressar pela
palavra ditado, e que o controle do Espírito Santo era completo e empolgante
demais para permitir que as qualidades humanas dos autores condicionassem,
de algum modo, a pureza do produto, como palavra de Deus. Em outros
termos, os autores neotestamentários consideram as Escrituras, do início ao
fim, como sendo o Livro de Deus, que em toda parte expressa sua mente,
através de homens, e de tal forma que não violenta sua natureza como seres
humanos, e assim constituindo o Livro, tanto o livro de homens, quanto “o
Livro de Deus”, expressando também, em todas suas partes, o pensamento de
seus autores humanos.
10. Os processos divinos para a elaboração das Escrituras

Se tentarmos ir além desta simples afirmação, e procurarmos obter uma


ideia mais detalhada das atividades por meio das quais Deus elaborou as
Escrituras, nos limitaremos a fazer generalizações, sustentadas pela analogia
das formas pelas quais Deus opera em outras esferas de sua ação. É de grande
conveniência que nos desvencilhemos, logo de início, das influências
derivadas do uso corrente do termo inspiração, para designar tal processo.
Não é um termo bíblico, e suas implicações etimológicas não estão
perfeitamente de acordo com o conceito bíblico das formas da operação
divina para elaborar as Escrituras. Os escritores bíblicos não consideram as
Escrituras como sendo um produto humano que recebe inspiração do Espírito
Santo, e desse modo exaltado em suas qualidades ou dotado com novas
qualidades; e sim como um produto divino produzido por meio da
instrumentalidade de homens. Não consideram tais homens, por cuja
instrumentalidade as Escrituras foram produzidas, como que trabalhando por
sua própria iniciativa, ainda que fortalecidos por Deus para um maior esforço
e uma obra mais completa, mas como que movidos pela iniciativa divina e
levados pelo poder irresistível do Espírito de Deus, por meios que ele mesmo
escolheu com o objetivo de sua própria determinação.
É possível que a diferença entre estes dois pontos de vista não pareça
muito grande, quando observamos exclusivamente a natureza do produto
resultante. Mas constituem opiniões divergentes e consideram a produção das
Escrituras de dois prismas distintos — o humano e o divino —, e as atitudes
mentais complexas, em relação à origem das Escrituras, são muito diferentes.
O termo inspiração não pode ser substituído, visto estar estabelecido tão
solidamente, tanto no uso popular quanto no teológico, como designação
técnica da ação divina para elaborar as Escrituras; e deveríamos dar graças
pelo fato de suas implicações peculiares estarem tão próximas, como de fato
estão, do conceito bíblico. No entanto, podemos igualmente insistir que
receba sua definição das representações bíblicas, e não lhe seja permitido que
imponha sobre nosso pensamento ideias a respeito da origem das Escrituras
derivadas da análise de suas próprias implicações, tanto etimológicas quanto
históricas. O ponto de vista bíblico, da relação do Espírito divino com os
autores humanos, na produção das Escrituras, se exprime melhor pela figura
de mover do que pela de inspirar; e quando os autores bíblicos falam da ação
do Espírito de Deus nesta relação, como um sopro, representam isto como
uma exalação das Escrituras pelo Espírito e não uma inspiração nas
Escrituras pelo Espírito.
11. O problema da origem: a parte que Deus assumiu

No entanto, logo que tentamos formar um conceito claro, propriamente


nosso, da natureza precisa da ação divina nesta exalação das Escrituras —
este transporte dos escritores das Escrituras para o objetivo proposto de
produzir um livro com fidedignidade divina e autoridade indefectível,
pressentimos de forma penetrante outro problema que subjaz bem no fundo, e
é bem mais amplo, fora do qual o da inspiração, tecnicamente assim
chamado, não pode ser considerado com o devido proveito. É o problema
geral da origem das Escrituras e a parte de Deus em todo este complexo de
processos, por cuja combinação surgiram estes livros a que chamamos
Sagradas Escrituras, com todas suas particularidades e todas suas qualidades,
quaisquer que sejam. Porque, evidentemente, estes livros não foram produzi-
dos instantaneamente, mediante um ato miraculoso, e entregues, por assim
dizer, completos, descendo do céu, mas, como todos os demais produtos do
tempo, são o resultado final de vários processos, cooperando durante longos
períodos.
É preciso levar em conta certos fatores; por exemplo, a preparação do
material que forma o assunto básico destes livros, como se dá numa história
sagrada que se conta, ou no relato de uma experiência religiosa que sirva de
norma a registrar; ou numa elaboração 1ógica do conteúdo da revelação que
se possa colocar ao serviço do povo de Deus, ou, ainda, na revelação
progressiva da própria verdade divina, a qual fornece os elementos
culminantes da Bíblia. E é preciso levar em conta ainda a preparação dos
homens que haviam de escrever estes livros, uma preparação física,
intelectual e espiritual que os teria acompanhado durante a vida inteira, e que,
na verdade, teria partido de seus antepassados mais remotos, que teria o
efeito de colocar os homens apropriados nos lugares necessários e nas
ocasiões oportunas, com as qualidades, impulsos e conhecimentos adequados
para que escrevessem com precisão os livros que Deus lhes destinara.
Quando se acrescenta inspiração, tecnicamente assim designada, às
linhas de preparação como estas, então assume um aspecto totalmente
diferente daquilo que possui quando se pensa ser uma ação isolada do
Espírito Divino, operando sem qualquer relação com os processos históricos.
Com frequência se fazem representações como se Deus, planejando a
produção de livros sacros que incorporassem sua vontade — por exemplo,
uma série de epístolas como as de Paulo —, se viu obrigado a descer à terra
e a perscrutar exaustivamente os homens que ali encontrasse, buscando
solicitamente aquele que lhe parecesse, de modo geral, mais habilitado para o
fim em vista; e então forçasse violentamente o material que queria apresentar
por meio desse homem, contra suas próprias tendências e com o mínimo
possível de prejuízo em razão de suas características recalcitrantes.
Evidentemente, não foi isso o que aconteceu. Se ele quis dar a seu povo uma
série de epístolas como as de Paulo, o preparou para as escrever, e o Paulo
que ele suscitou para esta tarefa foi um Paulo que escreveu precisamente
essas epístolas, espontaneamente.
12. O efeito das características humanas: preparação
providencial

Se tivermos isto em mente, saberemos que valor havemos de dar à


representação vulgar, de maneira que as características humanas dos
escritores devem, e assim acontece, condicionar e qualificar os escritos por
ele produzidos; portanto, a implicação disto é que não podemos ter, de um
homem, a palavra pura de Deus. Do mesmo modo por que sabemos que a luz
que passa pelo vitral colorido da janela de uma catedral é a luz do céu, porém
colorida pelas cores do vitral pelo qual ela passa, assim a Palavra de Deus, ao
passar pela mente e alma de uma pessoa, tem de vir descolorida pela
personalidade através da qual nos é dada, e portanto, até certo ponto, deixa de
ser a palavra pura de Deus. Que diremos se essa personalidade foi formada
por Deus, de forma a ser a personalidade que é, com o objetivo único de
comunicar à palavra que profere o colorido que ela deve ter? Que diremos
também se as cores do vitral colorido foram pintadas pelo arquiteto com o
fim expresso de dar, à luz que inunda a catedral, precisamente a tonalidade e
a qualidade que recebe delas? E que diremos se a Palavra de Deus, que vem a
seu povo, é estruturada por Deus de forma a ser a Palavra de Deus que é,
precisamente por meio das qualidades dos homens formados por ele com esse
objetivo, e por intermédio dos quais a recebemos? Quando pensamos em
Deus, o Senhor, dando, mediante seu Santo Espírito, um corpo de Escrituras
autoritativas para seu povo, devemos lembrar que ele é o Deus da providência
e da graça, e não só da revelação e da inspiração, que segura todas as linhas
de preparação tão completamente sob sua diretriz, como o faz com a
operação específica a que podemos chamar, tecnicamente falando, no sentido
estrito, inspiração.
A produção das Escrituras de fato constitui um longo processo, em
cujo decurso entram atividades divinas, numerosas e mui variadas,
providenciais, graciosas, miraculosas, e é necessário levar em conta cada uma
delas em qualquer tentativa de explicar a relação de Deus com a produção das
Escrituras. Quando consideramos todos estes fatores, deixamos de ficar
admirados com o fato de que se fala das Escrituras que deles resultam como
sendo a Palavra de Deus, pura e verdadeira. Pelo contrário, ficamos
maravilhados ante a operação adicional de Deus — a que chamamos,
especificamente, inspiração, em seu sentido técnico, fosse considerada
necessária.
Consideremos, por exemplo, como foi escrita uma parte da história
sagrada — digamos, o livro de Crônicas, ou a grande obra histórica de Lucas
— o Evangelho com seu nome, e o Livro dos Atos dos Apóstolos. Antes de
tudo há a preparação da história a escrever: Deus, o Senhor, dirige a
sequência dos acontecimentos pelo desenvolvimento que ele determinou, de
forma que estes transmitam a seu povo as respectivas lições: existe um
caráter teleológico ou aeteológico inerente ao decorrer dos acontecimentos.
Depois, prepara um homem, em seu nascimento, treinamento, experiência,
dons e, se necessário, revelação, capazes de apreciar este desenvolvimento
histórico, e desejoso de o investigar, pulsando com todo seu ser pelas lições
apresentadas e decidindo torná-las claras e eficazes para outros. Portanto,
quando, por sua providência, Deus dá a este homem a tarefa de escrever essa
história, não escreveria ele, espontaneamente, a história que estava
divinamente destinada a ser escrita?
Ou consideremos como um salmista teria sido preparado a pôr em
verso dramático um fragmento de experiência religiosa normal: como ele
teria nascido precisamente com as qualidades devidas de sensibilidade
religiosa, de cujos pais receberia a necessária tendência hereditária, e
precisamente o exemplo e o treinamento religiosos devidos, em
circunstâncias de vida em que suas tendências religiosas deveriam ser
desenvolvidas exatamente na direção devida; como ele teria sido obrigado a
atravessar as experiências necessárias para despertar, precisamente, as
emoções que lhe seria requerido que exprimisse, e, finalmente, como seria
colocado precisamente dentro das circunstâncias que fariam surgir sua
expressão.
Ou consideremos a preparação providencial do escritor de uma
epístola didática, por meio da qual lhe seriam dadas a dimensão e a
perspicácia intelectuais. Seria treinado em hábitos de raciocínio e colocado
nas situações que provocariam, precisamente, a apresentação argumentativa
da verdade cristã que era necessário que ele apresentasse. Quando damos, em
nosso pensamento, o devido lugar à universalidade do governo providencial
de Deus, à minúcia e perfeição de domínio, assim como à eficácia imutável
desse governo, podemos sentir-nos levados a perguntar o que será necessário
além deste mero governo providencial para assegurar a produção dos Livros
Sagrados, que tinham que estar, em todos seus pormenores, em completo
acordo com a vontade divina.
13. Inspiração: mais que providência

Eis a solução: além da mera providência, nada mais é necessário para a


obtenção desses livros – desde que o objetivo divino não seja que esses livros
possuam qualidades acima das capacidades humanas para os produzir,
mesmo sob a mais plena diretriz divina. Na verdade, providência é diretriz; e
diretriz só pode conduzir aquele que é dirigido até onde suas capacidades o
possam levar. Se há cumes a serem escalados para além do alcance do poder
inato do homem, então é necessário algo mais do que mera diretriz, por mais
eficaz que esta seja. E esta é a razão para a adição, no final do longo processo
da produção das Escrituras, da operação divina suplementar, a que
chamamos, tecnicamente, inspiração. Por meio dela, o Espírito de Deus foi
muito além da obra dos homens, providencial e graciosamente determinada, e
produziu espontaneamente, sob a diretriz divina, os escritos que lhes foram
indicados, deu ao produto uma qualidade divina, impossível de ser alcançada
simplesmente com as capacidades humanas. Assim, estes livros não só se
tornam palavra de homens devotos, mas a palavra exata do próprio Deus,
enunciada diretamente, como tal, à mente e ao coração de cada leitor.
Portanto, a inspiração vem à existência com um duplo valor. Ela dá
aos livros escritos sob o impulso do Espírito uma qualidade que na verdade é
sobre-humana, uma fidedignidade, uma autoridade, um poder de
esquadrinhar, uma profundidade, um proveito que são inteiramente divinos.
E ela comunica esta Palavra divina diretamente ao coração e à consciência de
cada leitor, de maneira que estes não precisam buscar o caminho para Deus,
dolorosa e incertamente, por meio da palavra de seus servos, os instrumentos
humanos para a composição das Escrituras, mas podem ouvir a própria voz
de Deus diretamente, lhes falando pessoalmente nas Escrituras.
Torna-se claro que os próprios escritores neotestamentários eram de
opinião que as Escrituras foram assim produzidas, por diversas operações
divinas, através das diferentes dispensações e abrangendo grande número de
múltiplas atividades, se prestarmos atenção às referências ocasionais que eles
fazem a este ou àquele passo no processo total. Por exemplo, na superfície de
suas exposições fica em evidência o fato de que consideravam a história
bíblica como sendo teleológica. Não só afirmam que “tudo o que outrora foi
escrito, para nosso ensino foi escrito, para que, pela paciência e consolação
das Escrituras, tenhamos esperança” (Rm 15.4; cf. Rm 4.23, 24); falam
também do curso dos próprios acontecimentos históricos como sendo
dirigidos para nosso próprio benefício: “Ora, tudo isso lhes sobreveio como
figura” — de tal forma que, enquanto se realizavam, ficou impresso neles um
caráter típico, uma referência predicativa: em suma, significa que o curso da
História veio à concretização da forma como aconteceu para nos transmitir
uma mensagem — “e foram escritas para advertência nossa, de nós outros
sobre quem os fins dos séculos têm chegado” (1Co 10.11; cf. v. 6).
De acordo com isto, torna-se expressão corrente da exposição bíblica
que “a própria história da redenção é tipicamente progressiva” (Kuyper), e
“está impregnada, até certo ponto, com o elemento profético”, que forma
“parte de um grande plano que se estende desde a queda do homem até o
início da consumação de todas as coisas na glória; e até onde revela o
pensamento de Deus em relação ao homem, traz consigo um aspecto sobre o
futuro, não menos sobre o presente” (P. Fairbain).
É igualmente evidente, mediante as alusões ao assunto no Novo
Testamento, que seus autores compreendiam que a preparação humana para
se tornar o veículo da mensagem de Deus ao homem não é só de ontem, mas
teve seu início na própria origem de seu ser. Por exemplo, a vocação, pela
qual Paulo se tornou apóstolo de Jesus Cristo, foi repentina, e aparentemente
sem antecedentes; mas é precisamente o mesmo Paulo que considera esta
vocação como sendo apenas um passo em um longo processo, cujo início
antedata sua própria existência: “mas quando aprouve a Deus, que desde o
ventre de minha mãe me separou e me chamou por sua graça, revelar seu
Filho em mim” (Gl 1.15, 16; cf. Jr 1.5; Is 49.1, 5).
É a este ato final na produção das Escrituras que denominamos,
tecnicamente, inspiração; e a inspiração nos é apresentada como sendo, nas
mentes dos escritores neotestamentários, aquela operação específica de Deus,
na produção das Escrituras, que se realiza, precisamente, na ocasião de sua
redação — entendendo-se aqui a expressão redação como que englobando
todos os processos da composição das Escrituras, a investigação de
documentos, a coleção de fatos, a expressão de conclusões, a adaptação de
exortações como um meio para determinado fim, etc. — de forma que as
Escrituras resultantes recebessem um caráter especificamente sobrenatural e
formassem um livro, não só divino, mas também obviamente humano, sendo
que o modo de operação desta atividade divina, movendo-se na direção deste
objetivo, é concebida de pleno acordo com a analogia das operações divinas
em outras esferas de sua atividade, tanto na providência, como na graça,
como convergente com as atividades humanas, neste caso em operação; como
sendo, em uma palavra, da natureza daquilo que se tornou conhecido por
ação imanente.
Portanto, não há dúvida de que os escritores neotestamentários, ao
declararem que as Escrituras são o produto do sopro divino (o que explicam
no sentido de que seus autores só as escreveram na medida em que foram
movidos pelo Espírito Santo, e de tal modo que falaram, não de si mesmos,
mas “da parte de Deus”), consideram esta operação do Espírito apenas como
o ato final de Deus, na produção das Escrituras, acrescentando a uma longa
série de processos providenciais, grandiosos e miraculosos, pelos quais o
conteúdo das Escrituras foi preparado para ser escrito, os homens preparados
para o escreverem e, finalmente, a redação sendo concluída.
14. Inspiração e revelação

Dessa forma não podemos deixar de notar que a inspiração vem a ser
uma forma de revelação. Com freqüência somos exortados a distinguir,
cuidadosamente, entre inspiração e revelação; e a exortação está certa quando
considerarmos revelação em um de seus sentidos restritos; por exemplo, de
uma manifestação exterior de Deus, ou de uma comunicação direta da parte
de Deus, por meio de palavras. Mas inspiração não difere de revelação neste
sentido restrito, como um gênero de outro gênero, mas como uma espécie de
um gênero difere de outra. Esta operação divina a que chamamos inspiração,
ou, seja, a operação do Espírito de Deus por meio da qual ele move os
homens no processo da composição das Escrituras, de forma tal que eles
escrevem, não de si mesmos, mas “da parte de Deus”, é uma das formas pelas
quais Deus faz conhecido aos homens seu Ser, sua vontade, suas operações e
seus objetivos. É tão nitidamente uma forma de revelação, como qualquer
outra forma de revelação possa ser, e portanto tem a mesma função de
qualquer outra revelação, o que nas palavras de Paulo significa tornar os
homens sábios, tornando-os sábios para a salvação. Toda a revelação especial
ou sobrenatural (que é redentora em sua própria intenção e ocupa um lugar
como elemento substancial nos processos redentivos de Deus) tem
precisamente este objetivo; e as Escrituras, como forma da revelação
redentiva de Deus, encontram seu objetivo fundamental precisamente nisto:
se a inspiração, por meio da qual as Escrituras são produzidas, as torna
fidedignas e autoritativas para melhor servir, a fim de fazer os homens sábios
para a salvação.
As Escrituras são consideradas, do prisma dos escritores
neotestamentários, não apenas como o registro de revelações, mas como
sendo, por si mesmos, parte da revelação redentiva de Deus; não só como o
registro dos atos redentivos, com um papel próprio a desempenhar na grande
tarefa de estabelecer e erigir o reino de Deus, mas o que lhes dá um lugar
entre os atos redentivos de Deus é sua origem divina, em seu sentido mais
lato, considerada como a súmula de todas as operações divinas,
providenciais, graciosas, e expressamente sobrenaturais por meio das quais
foi eleito aquilo que realmente é um corpo de escritos com poder para fazer
os homens sábios para a salvação e proveitoso para aperfeiçoar o homem de
Deus. No entanto, o que lhes dá o lugar que ocupam entre todas as formas de
revelação é, especificamente, a ação culminante destas operações divinas, a
que chamamos inspiração, ou, seja, a ação do próprio Espírito de Deus em
mover de tal forma os autores humanos em sua obra de produzir as
Escrituras, de maneira que eles falam nas Escrituras, não de si mesmos, mas
“da parte de Deus”. Esta é a ação em virtude da qual podemos dizer que as
Escrituras podem ser, com propriedade, chamadas sopro divino.
15. As Escrituras serão um livro divino-humano

Em determinada escola de escritores, tornou-se costume falar das


Escrituras, por serem assim inspiradas, como sendo um livro divino-humano,
e apelar para a analogia da personalidade divino-humana de nosso Senhor
com o intuito de explicar as qualidades particulares desse livro como tal. A
expressão, em si, chama a atenção para um fato muito importante, e até certo
ponto a analogia está certa. Há nas Escrituras facetas humanas e divinas; e,
examinando-as superficialmente, podemos ver nelas, alternadamente,
características que pressupõem ora um, ora o outro fator de sua origem. No
entanto, podemos levar ao exagero a analogia com a personalidade divino-
humana do Senhor. Não existe nas Escrituras nenhuma união hipostática
entre o divino e o humano; e não podemos fazer um paralelo entre a
“inspiração das Escrituras” efetuada pelo Espírito Santo e a encarnação do
Filho de Deus. As Escrituras são o mero resultado de forças divinas e
humanas, operando em conjunto a fim de fornecer um produto em cuja
realização as forças humanas trabalham sob a iniciativa e diretriz
prevalecente das divinas: a pessoa de nosso Senhor reúne em si as naturezas
divina e humana, cada uma delas conservando sua própria distinção, só
operando uma em relação à outra.
Entre coisas tão diversas só pode existir uma analogia remota; e de fato
a analogia, no presente caso, não é mais que o fato de, em ambos os casos,
haver fatores divinos e humanos envolvidos, embora de forma muito
diferente. Em um dos casos, unem-se para constituir uma pessoa divino-
humana, e no outro cooperam para realizar uma obra divino-humana. Mas,
uma analogia tão remota pode fornecer-nos a possibilidade do seguinte
reconhecimento: do mesmo modo que, como no caso da pessoa de nosso
Senhor, a natureza humana permanece verdadeiramente humana, ainda que
nunca caia em pecado ou erro, porquanto nunca pode agir fora da relação
com a natureza divina, com a qual ficou em conjunção, assim também, no
caso da produção das Escrituras, pela ação conjunta de fatores divinos e
humanos, os fatores humanos agiram como tais e deixaram sua marca no
produto resultante, sem contudo cair no erro em que se diz ser humano cair,
porque não agiram independentemente dos fatores divinos, de iniciativa
própria, mas somente sob sua diretriz infalível.
16. As Escrituras que os escritores neotestamentários possuíam

O testemunho do Novo Testamento é favorável à origem e às


qualidades divinas das Escrituras; e, evidentemente, para os escritores
neotestamentários, as Escrituras eram o Antigo Testamento. Na passagem
mais importante em que lemos que toda ou cada uma das Escrituras é
soprada por Deus, uma referência direta às sagradas letras que Timóteo
conhecera desde sua infância, e naturalmente estas constituem os livros
sagrados dos judeus (cf. 2Tm 3.16). O que aqui está explícito, jaz implícito
em todas as alusões que o Novo ‘Testamento faz às Escrituras inspiradas. Do
mesmo modo, afirma-se com freqüência que todo nosso testemunho acerca
da inspiração das Escrituras se relaciona tão-somente com o Antigo
Testamento. No entanto, em vários sentidos isto constitui um exagerado.
No momento, o que nos interessa não é a extensão das Escrituras, mas
sua natureza. Não podemos apresentar aqui as considerações que justificam a
extensão, ao Novo Testamento, da inspiração atribuída por seus escritores, ao
Antigo Testamento. No entanto, não fica fora de propósito indicar
simplesmente que próprios os escritores neotestamentários obviamente
fizeram esta extensão. Como ministros de um novo pacto, não se julgaram na
posse do Espírito de Deus, em menor escala que a dos ministros do antigo
pacto; de fato reconheceram francamente que não tinham auto-suficiência,
mas sabiam que Deus os capacitara (cf. 2Cor. 3.5, 6). Portanto, prosseguiram
em sua tarefa de proclamar o evangelho, com plena confiança de que falavam
“pelo Espírito Santo” (1Pe 1.12), a quem atribuíam não só o conteúdo, mas
também a forma de seu ensino (1Co 2.3). Por isso em seu ensino falaram com
a máxima confiança (Gl 1.7, 8); e enunciavam mandamentos com a mais
plena autoridade (1Ts 4.2, 14; 2Ts 3.6, 12), de fato provando que possuíam o
Espírito, levando os ouvintes a reconhecerem como mandamento de Deus
aquilo que exigiam (1Co 14.37). Seria realmente estranho se estas tão
elevadas pretensões fossem feitas exclusivamente em prol de seu ensino e
mandamentos verbais. Na verdade foram feitas também, explicitamente, em
prol de suas ordenações escritas.
Era o reconhecimento das coisas que Paulo escrevia, como
mandamento do Senhor, que ele transforma na pedra de toque do homem
guiado pelo Espírito (1Co 14.37). É a obediência a sua “palavra, por meio
desta carta”, que ele transforma na condição essencial para a comunhão cristã
(2Ts 3.14). Parece estar envolvida nesta atitude para com seu próprio ensino,
oral e escrito, uma pretensão da parte dos escritores neotestamentários, algo
muito semelhante à inspiração que atribuíam aos escritores
veterotestamentários.
17. O termo Escrituras abrange o Novo Testamento

E todas as dúvidas desaparecem quando vemos os escritores


neotestamentários colocarem os escritos uns dos outros na mesma categoria
de Escrituras, lado a lado com os livros veterotestamentários. O mesmo
Paulo que em 2 Timóteo 3.16 declara que “toda a Escritura é soprada por
Deus”, escrevera em 1 Timóteo 5.18: “Pois a Escritura declara: Não
amordaces o boi quando pisa o grão. E ainda: O trabalhador é digno de seu
salário.” A primeira oração é tomada de Deuteronômio, e a segunda, do
Evangelho segundo Lucas, embora ambas sejam citadas como igualmente
constituindo, ou, melhor, formando parte das Escrituras que Paulo cita como
tendo tanta autoridade que sua simples citação era suficiente para pôr um
ponto final a toda contenda.
Quem dirá que na declaração da Epístola posterior toda e cada
Escritura é soprada por Deus, Paulo não teria Lucas, e, com Lucas, todo e
qualquer novo livro em mente, que ele classificava com os antigos como
Escritura, juntamente com livros antigos que Timóteo tivera em mãos, desde
sua juventude? E o próprio Pedro que declarou que “toda profecia da
Escritura” era o produto de homens, falando “da parte de Deus”, quando
“movidos pelo Espírito Santo” (2Pe 1.21), coloca, na mesma carta (3.16), as
epístolas de Paulo na categoria de Escritura, juntamente outros livros dignos
desse título. Porquanto ele diz que Paulo escreveu estas epístolas, não de sua
própria sabedoria, “mas pela sabedoria que lhe foi dada”, e embora haja nelas
coisas difíceis de entender, não só os “indoutos e inconstantes” torcem essas
passagens difíceis — como não se podia esperar outra coisa de homens que
torcem “igualmente as demais Escrituras” (aqui, obviamente, subentende-se o
Antigo Testamento) — “para sua própria destruição”. É possível afirmar-se
que Pedro não tivesse também essas epístolas de Paulo em mente, juntamente
com “as demais Escrituras”, quando diz a seus leitores que todas as
“profecias da Escritura” devem sua origem à prevalecente operação do
Espírito Santo.
O que devemos compreender, ao avaliar o testemunho dos escritores
neotestamentários, em relacão à inspiração das Escrituras, é que as Escrituras
estavam em suas mentes como o título de um corpo unitário de livros, todo
ele sendo dádiva de Deus, por meio de seu Espírito, a seu povo; mas que esse
conjunto de livros era, ao mesmo tempo, considerado como uma coletânea
em pleno crescimento, de modo que, aquilo que se diz deles se aplica também
àqueles livros que estavam para ser-lhe acrescentados, conforme o Espírito
Santo os ia dando, tão completa e perfeitamente como os velhos livros que
lhes tinham sido entregues no passado. É uma simples questão de pormenores
determinar, precisamente, que novos livros deveriam ser incluídos na
categoria de Escrituras. Eles próprios nos dizem quais são alguns deles. Os
que os receberam de suas mãos nos falam de outros. E quando unimos esses
dois testemunhos, verificamos que eles constituem precisamente nosso Novo
Testamento.
Portanto, não força o testemunho dos escritores neotestamentários, em
relação à inspiração das Escrituras, considerá-lo como abrangendo todo o
corpo das Escrituras, os novos livros que eles mesmos estavam
acrescentando a esta coleção, bem como os velhos livros que tinham recebido
de seus antepassados como Escrituras. Tudo aquilo que demanda, por direito
próprio, ser chamado Escrituras, como aqueles escritores empregaram o
termo, em seu significado proeminente, com igual justiça pode demandar a
atribuição de inspiração que estes dão a estas Escrituras.

[1] Referência a Julius Wellhausen (1844-1918), estudioso alemão famoso por suas investigações
críticas do Antigo Testamento. [N. do R.]
[2] Referência a Harry Emerson Fosdick (1878-1969), ministro batista liberal. [N. do R.]