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LIVRO ALVORADA CRISTÃ

ESPÍRITO DE NEIO LÚCIO
PSICOGRAFIA DE FRANCISCO CÂNDIDO XAVIER.
ÍNDICE CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO CAPÍTULO 1 = Sigamos com Jesus 2 = Na direção do bem 3 = Pequena história 4 = Prêmio ao sacrifício 5 = O servo feliz 6 = Rebeldia 7 = O grande príncipe 8 = O juiz reto 9 = O ricaço distraído 10 = O burro de carga 11 = A lição inesquecível 12 = A arma infalível 13 = O servidor negligente 14 = O descuido impensado 15 = O poder da gentileza 16 = A trilogia bendita 17 = A conta da vida 18 = A amizade real 19 = O ensinamento vivo 20 = O elogio da abelha 21 = O carneiro revoltado 22 = O pior inimigo 23 = A decisão sábia 24 = O aprendiz desapontado 25 = A falsa mendiga 26 = O grito de cólera 27 = Carta paterna 28 = A pregação fundamental 29 = O barro desobediente 30 = Dá de ti mesmo 31 = A lenda do dinheiro 32 = A sentença cristã 33 = Viveremos sempre 34 = A galinha afetuosa 35 = Na sementeira do amor 36 = O maior pecado 37 = Apontamento 38 = O remédio imprevisto 39 = Dos animais aos meninos 40 = A lenda da árvore 41 = O exército poderoso 42 = O amigo sublime 43 = O peru pregador 44 = Somos chamados a servir 45 = O anjo da limpeza 46 = No passeio matinal

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O ensino da sementeira O Espírito da Maldade O Divino Servidor Oração dos jovens

ALVORADA CRISTÃ
As páginas de Neio Lúcio, consagradas à mente juvenil em todos os padrões da experiência física, são, em verdade, valioso curso de iluminação espiritual. Sementeira de princípios renovadores, aqui encontramos avançadas noções de justiça e bondade para a elevação da vida. E a luta terrestre, em seus fundamentos, ainda mesmo considerada no setor expiatório, resume-se na obra educativa para a eternidade. A instrução é, sem dúvida, a milagrosa alavanca do progresso. Sem ela, perseveraria a mente humana nos resvaladouros da Ignorância, confinada á miséria, à ociosidade, a indigência e ao infortúnio, através da delinqüência na praça publica e da correção na penitenciária. Mas não basta esclarecer a inteligência, repetiremos ainda e sempre. É imprescindível aperfeiçoar o coração nos caminhos do bem. Nero, o tirano, era discípulo de Sêneca, o filósofo. Tito, o príncipe admirável, que costumava dizer “perdi o meu dia”, quando a noite o alcançava sem algum gesto excepcional de bondade, mandou massacrar mais de dez mil Israelitas doentes, abatidos e mutilados, depois de arruinar Jerusalém. Marco Aurélio, o Imperador virtuoso e sábio, consentiu no morticínio de cristãos Indefesos. Inácio de Loiola, maravilhosamente bem-Intencionado, tinha o cérebro cheio de letras quando incentivou a perseguição religiosa. Marat, o demagogo sanguinário, era jornalista de mérito e intelectual de renome. Todos os fazedores de guerra, ditadores e revolucionários, antigos e modernos, foram Incubados no convívio de professores ilustres, de páginas científicas, de livros técnicos ou de universidades famosas. Razão sem luz pode transformar-Se em simples Cálculo Instrução e ciência são portas de acesso à educação e à sabedoria. Quem apenas conhece nem sempre sabe. A cultura do espírito vai mais longe: ajuda o homem a converter-se em santuário vivo, através do qual se irradia o Poder Soberano e Misericordioso. Necessário, pois, semear pensamentos enobrecedores e santificantes, amparando a mente que recomeça a lição de aprimoramento Individual. Esquecer a Infância e a juventude será desprezar o futuro. Regozijando-nos, assim, com a tarefa do amigo que nos doou estas páginas, cheias de sentimento paternal e de idealismo superior, saudamos, em companhia dele, a alvorada sublime de amor e paz, que resplandece, com Jesus, para a Terra de amanhã, regenerada e feliz. EMMANUEL Pedro Leopoldo, 21 de junho de 1948.

1 SIGAMOS COM JESUS
Maomé foi valoroso condutor de homens. Milhões de pessoas curvaram-se-lhe às ordens. Todavia, deixou o corpo como qualquer mortal e seus restos foram encerrados numa urna, que évisitada, anualmente, por milhares de curiosos e seguidores. Carlos 5º, poderoso imperador da Espanha, sonhou com o domínio de toda a Terra, dispôs de riquezas imensas, governou muitas regiões; entretanto, entregou, um dia, a coroa e o manto ao asilo de pó. Napoleão era um grande homem. Fez muitas guerras. Dominou milhões de criaturas. Deixou o nome inesquecível no livro das nações. Hoje, porém, seu túmulo é venerado em Paris... Muita gente faz peregrinação até lá, para visitar-lhe os ossos... Como acontece a Maomé, a Carlos 5º e a Napoleão, os maiores heróis do mundo são lembrados em monumentos que lhes guardam os despojos. Com Jesus, todavia, é diferente. No túmulo de Nosso Senhor, não há sinal de cinzas humanas. Nem pedrarias, nem mármores de preço, com frases que indiquem, ali, a presença da carne e do sangue. Quando os apóstolos visitaram o sepulcro, na gloriosa manhã da Ressurreição, não havia aí nem luto, nem tristeza. Lá encontraram um mensageiro do reino espiritual que lhes afirmou: “Não está aqui.” E o túmulo está aberto e vazio, há quase dois mil anos. Seguindo, pois, com Jesus, através da luta de cada dia, jamais encontraremos a angústia da morte e, sim, a vida incessante. No caminho de notáveis orientadores do mundo poderemos encontrar formosos espetáculos da glória passageira; contudo, é muito difícil não terminarmos a experiência em desilusão e poeira. Somente Jesus oferece estrada invariável para a Ressurreição Divina. Quem se desenvolve, portanto, com o exemplo e com a palavra do Mestre, trabalhando por revelar bondade e luz, em si mesmo, desde as lutas e ensinamentos do mundo, pode ser considerado cidadão celeste.

2 NA DIREÇÃO DO BEM
O Senhor tudo criou na direção do bem. Todas as criaturas, por isto, são chamadas a produzir proveitosamente. A erva tenra sustenta os animais. A fonte oculta socorre o inseto humilde. A árvore é abençoada companheira dos homens. A flor produzirá fruto. O fruto dar-nos-á mesa farta. O rio distribui as águas. A chuva lava o céu e sacia a terra sedenta. A pedra faz o alicerce de nossa casa. A boa palavra revela o bom caminho. Como desconhecer os santos propósitos da vida, se a natureza que a sustenta reflete os sábios desígnios da Providência?

Grande escola para o nosso espírito, a Terra éum livro gigantesco em que podemos ler a mensagem de amor universal que o Pai Celeste nos envia. Desde a gota de orvalho que alimenta o cacto espinhoso, à luz do Sol que brilha no alto para todos os seres, podemos sentir o apelo da Infinita Sabedoria ao serviço de cooperação na felicidade, na paz e na alegria dos semelhantes. Todo homem e toda mulher nascem no mundo para tarefas santificantes, segundo a Divina Lei. Com alegria, o bom administrador governa os interesses do povo. Com alegria, o bom lavrador ara o solo e protege a sementeira. O homem que semeia no chão, garantindo a subsistência das criaturas, é irmão daquele que dirige o pensamento das nações para o conhecimento divino. A mulher que recebe homenagens pelas suas virtudes públicas é irmã daquela que, na intimidade do lar, se sacrifica pela criancinha doente. Deus conhece as pessoas pelo que produzem, assim como nós conhecemos as árvores pelos frutos que nos estendem. Em razão disto, os homens bons são amados e respeitados. A presença deles atrai o carinho e a veneração dos semelhantes. Os maus, todavia, são portadores de ações e palavras indesejáveis e toda gente lhes evita o convívio, tanto quanto nos afastamos das plantas espinhosas e ingratas. O homem bom compreende que a vida lhe pede a bênção do serviço e levanta-se cada manhã, pensando: — “Que belo dia para trabalhar!” O mau, porém, ergue-se de mau humor. Não sabe sorrir para os que o cercam e costuma exclamar: — “Dia terrível! Que destino cruel! Detesto o trabalho e odeio a vida!” Um homem, qual esse, precisa de auxílio dos homens bons, porque em não se dedicando ao serviço digno será realmente muito infeliz.

3 PEQUENA HISTÓRIA
Um dia, a Gota dÁgua, o Raio de Luz, a Abelha e o Homem Preguiçoso chegaram ao Trono de Deus. O Todo-Poderoso recebeu-os, com bondade, e perguntou pelo que faziam. A Gota dÁgua avançou e disse: — Senhor, eu estive num terreno quase deserto, auxiliando uma raiz de laranjeira. vi muitas árvores sofrendo sede e diversos animais que passavam, aflitos, procurando mananciais. Fiz o que pude, mas venho pedir-te outras Gotas dÁgua que me ajudem a socorrer quantos necessitam de nós. O Pai sorriu, satisfeito, e exclamou: — Bem-aventurada sejas pelo entendimento de minhas obras. Dar-te-ei os recursos das chuvas e das fontes. Logo após, o Raio de Luz adiantou-se e falou: — Senhor, eu desci... desci... e encontrei o fundo de um abismo. Nesse antro, combati a sombra, quanto me foi possível, mas notei a presença de muitas criaturas suplicando claridade. Venho ao Céu rogar-te outros Raios de Luz que comigo cooperem na libertação de todos aqueles que, no mundo, ainda sofrem a pressão das trevas. O Pai, contente, respondeu: — Bem-aventurado sejas pelo serviço à Criação. Dar-te-ei o concurso do Sol, das lâmpadas, dos livros iluminados e das boas palavras que se encontram na Terra. Depois disso, a Abelha explicou-se: — Senhor, tenho fabricado todo o mel, ao alcance de minhas possibilidades. Mas vejo tantas crianças fracas e doentes que te venho implorar mais flores e mais Abelhas, a fim de aumentar a produção... O Pai, muito feliz, abençoou-a e replicou: — Bem-aventurada sejas pelos benefícios que prestaste. Conceder-te-ei novos jardins e novas companheiras. Em seguida, o Homem Preguiçoso foi chamado a falar. Fez uma cara desagradável e informou: — Senhor, nada consegui fazer. Por todos os lados, encontrei a inveja e a perseguição, o ódio e a maldade. Tive os braços atados pela ingratidão dos meus semelhantes. Tanta gente má permanecia em

Gastaste as mãos. Defendeu os humildes. trazidos pela servidora reconhecida. Escrevia cartas inúmeras. Prosseguiu colaborando com os sofredores. Bastou isto e. oferecia-lhes o sorriso de confiança na bondade celeste. o coração. de acordo com as próprias obras. porém. e prometeram cumprir as lições do Mestre. Cego. cada vez mais. Dividia o trabalho equitativamente e distribuía os lucros com justiça e bondade. mas tua boca sabe apenas queixar. O industrial e o juiz traziam grande bagagem. que poderia fazer um serviço de oração e começou a tarefa pela humilde mulher que lhe fazia a limpeza doméstica. Dava de si mesmo. Quando se reuniram. auxiliou os pobres e libertou muitos prisioneiros perseguidos pela maldade. Comentava os benefícios da dor. correto e digno. Retira-te! os filhos inúteis e ingratos não devem buscar-me a presença. Lembrou. expunha suas esperanças no Reino Divino. ajudando-os. com pequenas diferenças de tempo. O Homem Preguiçoso. que desprezaste os dons que te dei. O primeiro foi abençoado pelo conforto que espalhou com os necessitados e o segundo foi também louvado pela justiça que semeara sabiamente. O aposento singelo encheu-se de necessitados. dele saiu uma grande luz. porque deste de ti mesmo. mas. cristalina e bela. O Pai bondoso. em favor do próximo. Adormeceste na preguiça e nada fizeste. Quando o Anjo. retirou-se muito triste. O leito era a sua residência. Então. em breve. bem-aventurado. de tal modo se aplicou ao serviço que. porém. em breve. era o chefe da organização e adquiriu títulos de verdadeiro benfeitor do povo. que tudo envolveu numa coroa resplandecente. o Mensageiro falou-lhe. as forças. onde costumava escrever suas rogativas. Comia pouco e repousava menos. Morreram os três irmãos. como se a inteligência e as mãos que te confiei para nada valessem. em verdade. Regressa ao mundo e não voltes a procurar-me enquanto não aprenderes a servir. A Gota dÁgua regressou. A Abelha desceu zumbindo. porém. brilhando cada vez mais. veio um Anjo examinar-lhes as obras com uma balança. Convidou-a a orar e pediu para ela as bénçãos divinas. doentes e infortunados. não é muito difícil ajudar com o dinheiro e com a faina que se multiplicam facilmente no mundo. Orava em companhia de todos. Confortou-a com ternura de irmão. Tanto sofreu com as dores alheias que chegou a esquecer-se de si mesmo e tanto trabalhou que perdeu o dom da vista. era paralítico. através da oração. Ganhava dinheiro com imensa facilidade e socorria infortunados e sOfredores. gastando emoções e energias no santo serviço do bem. em verdade. A balança foi incapaz de medir-lhe a grandeza. Sê. O terceiro. consolando viúvas e órfãos. 4 PRÊMIO AO SACRIFÍCIO Três irmãos dedicados a Jesus leram no Evangelho que cada homem receberá sempre. insuflando-lhes paz e coragem. feliz: — Teus irmãos são benditos na Casa do Pai pelos recursos que distribuíram. O servidor da prece trazia apenas pequeno livro. os sentimentos e o tempo a benefício dos semelhantes e a Lei do Sacrifício . nada pude fazer. Dentro de vinte e cinco anos. os olhos. Tinha as pernas mirradas.meu caminho que. feliz. abriu o livro do ex-paralítico. O segundo estudou muito tempo e tornou-se juiz famoso. rico. Não poderia comandar uma fábrica. passou à condição de interessado nos lucros administrativos. no amor santificante. outros sofredores vinham rogar-lhe o concurso da prece. jamais olvidou os compromissos que assumira à frente do Evangelho. nem dominar um tribunal. Embora gozasse do respeito e da estima dos contemporâneos. contudo. em idade avançada. O primeiro colocou-se na indústria do fio de algodão e. Não podia usar a inteligência com facilidade. recheadas com o dinheiro e com as sentenças que haviam distribuído em benefício de muitos. Viu-a triste e lacrimosa e procurou conhecer-lhe as mágoas com discrição e fraternidade. exclamou:e — Infeliz de ti. com expressão de descontentamento. porém. feliz. não ficou sozinho. Viveu sempre honrado. De juiz tornou-se legislador e cooperou na confecção de leis benéficas e edificantes. contudo. que se constituía de várias bolsas. Os seres pequeninos e humildes alegraram meu Trono com o relatório de seus trabalhos. O Raio de Luz tornou aos abismos. na vida espiritual.

. Meu retrato figura na galeria dos dicionários terrestres. semeando. Meu nome figura em muitos documentos oficiais. Não aspiro a outra felicidade senão a de prosseguir aprendendo. de onde passou a exercer autoridade sobre muita gente. Soldados e adversários. a batata e o feijão. fui cultivador da terra. humilde: — Mensageiro de Nosso Pai. nas sementes. o Lavrador e falou. Regresse ao velho posto. no chão abençoado.. chegaram ao Céu um Marechal. Fui laureado por academias diversas. — Que pretende pelo que fez? — perguntou o Emissário. atenda às questões que lhe interessam a paz Íntima e volte depois. fui administrador dos interesses públicos. O Enviado. — Que deseja em troca de seus grandes serviços? — indagou o Enviado.. Dei às criaturas muita matéria de pensamento. Retorne ao seu gabinete. — Que pede em compensação? — perguntou o Missionário do Alto. O Anjo sorriu e disse: — Que prêmio deseja? O Lavrador pediu. a flor desabrochando por si mesma.. transformado em dadivosa espiga.. Ninguém me conhece. venci numerosos inimigos. em elevada esfera. chorando igualmente. plantei o milho. Verifique o que alegam de sua passagem pelo mundo e volte mais tarde. Se puder. nos raios do Sol. louvando e servindo!. a fim de ouvi-los. O Mensageiro Espiritual abraçou-o e exclamou. na chuva benfeitora. e falou: — Mensageiro do Comando Supremo. porque diante do Trono Celestial apenas comparece quem procura trabalhar e servir sem recompensa. — Quero entrar no Céu. nos frutos. O Marechal aproximou-se.. o pão a multiplicar-se!. A luz surgindo no firmamento em horas certas. desejaria voltar ao campo e continuar trabalhando. chorando de emoção: — Se Nosso Pai permitir. plantarei o solo novamente para ver a grandeza divina a revelar-se no grão.. Assinei várias leis que influenciaram meu tempo. . O povo mantém opiniões divergentes a seu respeito. Muitas mentes estão trabalhando com as idéias que você deixou no mundo e reclamam-lhe a presença. nas flores. de modo a saberem separar-lhe os caprichos pessoais da inspiração sublime. Conquistei muitas medalhas de mérito. O Filósofo acercou-se do preposto divino e — Anjo do Criador Eterno. não pode receber a dádiva. respondeu. 5 O SERVO FELIZ Certo dia. um Político e um Lavrador. um Filósofo.. — Por agora. Não transmitiste apenas os bens da vida: irradiaste os dons de Deus. firme: — Por enquanto. não pode ser atendido. venho da Terra distante. — Quero entrar no Céu.. mulheres e crianças chamam-no insistentemente da Terra. reverente. Um Emissário Divino recebeu-os. no entanto. recebi várias homenagens em monumentos que me honram o nome. O Político tomou a palavra e acentuou: — Ministro do Todo-Poderoso.. E o servidor humilde do povo foi conduzido a um céu mais elevado.determina que a tua moradia seja mais alta. Inúmeras pessoas pronunciam-lhe o nome com amargura e esses clamores chegam até aqui. Tenho saudades da contemplação dos milagres de cada dia. mas eu tive a glória de conhecer as bênçãos de Deus e recebê-las. solucione seus problemas e torne oportuna-mente. no amor e na ternura de meus filhinhos. — Quero entrar no Céu. Aproximou-se. O Anjo respondeu sem vacilar: — Por enquanto. não lhe cabe a concessão.. de júbilo: — Venha comigo! O Senhor deseja vê-lo e ouvi-lo.. venho do acanhado círculo dos homens. porém — respondeu o mensageiro sem titubear —. o arroz. então.

Certo dia. preferia o folhetim com aventuras desagradáveis ou criminosas. A policia não lhe conhecia o endereço e.. Dar-lhe-ei casa. — Filho — exclamava a senhora paciente —. gritando de dor selvagem. Ela tossiu e ia gritar por socorro. — Não fui à escola. meu. A senhora tem o pensamento preso a obrigações porque.. Alucinado. três. meu filho. . no outro dia: — Filho. com grande fortuna. Todo tempo é adequado à retificação dos nossos erros. de maneira a voltar muito rico ao convívio maternal. porque fosse difícil localizá-lo rapidamente. altas horas da noite. identificou a Mãezinha já morta e caiu de joelhos. iludido pela indisciplina. A pobre costureira pedia-lhe calma. notou que um homem embuçado lhe penetrava o aposento às escuras. progressivamente. roupa e bem-estar com fartura.. Avançando no vicio. o rapaz começou a às escondidas. dava ouvido. Na terceira noite em que aí se encontrava.. juízo e chorava. — Mas já deixaste a escola. homem de bem acomoda-se no serviço. E enquanto a genitora costurava. a costureira reconheceu a presença do filho e murmurou... e quando a Mãezinha. não perdeu a esperança de reencontrá-lo. Nos estertores da morte. cinco anos. nas cidades grandes. até tarde.. Vinha a devotada Mãe com o socorro de todos os instantes e rogava-lhe.. — Eu não! — replicava.. Estimava a leitura de episódios sensacionais. trazia sempre respostas negativas e rudes na ponta da língua. filho... a senhora tomou quarto num hotel. zombeteiro. Passou o tempo. — Não vou! não vou!. a fim de esperar. Engolfou-se em tantas histórias de gente má que. Ninguém mais soube dele. Ganharei com menor esforço. embora a palavra materna o convidasse ao trabalho digno. em direção a importante metrópole. debilmente — Meu. alimentando o propósito de furtar recursos alheios. vem atravessando vida miserável. a imprensa estampou nos jornais o retrato de um ladrão que se tornava famoso pela audácia e inteligência. mais tarde. pouco a pouco. não preciso de suas observações! Deixá-la-ei em paz e voltarei. contudo. aos conselhos perversos.. Atrevido e ingrato. É tempo de crescer e progredir nos deveres bem cumpridos. Chegava a casa. quatro. A Mãezinha. embriagado. e. o rapaz fez luz. o filho. lhe degradaram o caráter. — Vamos à oficina. Aproximou-se apressado para surripiar-lhe a bolsa. quando o ladrão. Tomava alcoólicos em excesso e entregava-se a companhias perigosas que. A desobediência conduzira-o. depois. Só fala em dever. Ausentara-se. Tenho inteligência. Assim dizendo. de modo a manter a casa modesta. Cale-se. onde sabia fácil o acesso ao dinheiro. resmungava: — A senhora não me entende. desde cedo. em que homens revoltados formam quadrilhas de malfeitores. A costureira reconheceu nele o filho e tocou para a cidade que o abrigava. dois. dever. muita vez conduzido por guardas policiais. em preces. vivia habitualmente na rua movimentada. gritou: — Mãe. já rapaz. fugiu para a via pública e não regressou ao lar.6 REBELDIA O pequeno rebelde amava a Mãezinha viúva com entranhado amor. lhe agarrou a garganta e estrangulou-a. a fim de escravizar-me. entretanto. tentou aconselhá-lo. O chefe prometeu ceder-te um lugar. ao crime e à loucura. trabalhemos dignamente. temendo as conseqüências. Assaltava instituições comerciais. dever. definitivamente. adivinhando-lhe as faltas. a qualquer página edificante. Um.

é o meu coração reconhecido pelo ensinamento que me deste. Nas cidades do Sul. exclamando. amado pai. enquanto o jovem soberano.. O rapaz côbrou novo ânimo e terminou: — Perdoa-me se entreguei teu dinheiro aos necessitados e desculpa-me se regresso à tua presença envolvido em extrema pobreza. ajoelhado. fui surpreendido por bandos de leprosos e dei-lhes conveniente asilo em teu nome. em viagens pelo reino. A única dádiva que te trago. delirando de júbilo. achando-se envelhecido e doente. Nas fronteiras.. tanto quanto o crente aguarda a felicidade da Proteção do Céu. o Eterno Senhor te abençoe para sempre! É a ti que compete o direito de governar. encontrei a febre devorando corpos mal abrigados e movimentei médicos e remédios. amargurados e doentes.. conheci inúmeros escravos de ombros feridos.. O velho monarca. contente — trago-te a coleção de tapetes mais ricos do mundo. Viajei pela terra que o Supremo Senhor te confiou. os jovens regressaram à casa paterna. Ao Norte. em pranto. Os dois mais velhos exibiam mantos riquíssimos e chegaram com enorme ruido de carruagens. . Comprei escravos vigorosos que te sirvam e reuni. permitindo-me contemplar o serviço que me cabe fazer. desceu do trono.. de perto. com a obrigação de voltarem. a fim de tecê-los. Findo o prazo estabelecido. alquebrado e mal vestido.7 O GRANDE PRÍNCIPE Um rei oriental. fez larga reverência. O rei bondoso abençoou-os discretamente e dispôs-se a ouvi-los. A multidão aplaudiu. a ignorância e a fome nos domínios que o Céu conferiu às tuas mãos benfeitoras. para revelares tua fortuna e poder!. Dezenas de pessoas perderam o dom da vista. O filho mais novo. a enfermidade. reuniu os três filhos. nas regiões pantanosas. vi a ignorância dominando milhares de meninos e jovens desamparados e instalei escolas em nome de tua administração justiceira. anunciando-lhes a magnanimidade de tua coroa!. arrimando-se a um bordão qual mendigo. O monarca expressou gratidão numa frase carinhosa e recomendou que o mais moço tomasse a palavra. não trouxe qualquer troféu para o teu trono venerável e glorioso. Dessa moradia resplandecente. solene: — Grande Príncipe: Deus. A comoção interrompeu-o.. então: — Amado pai.. perante compacta multidão. durante três meses. um admirável palácio. carregando essas preciosidades que te ofereço. e vi que os súditos esperam de teu governo a paz e o bem-estar. notei que centenas de mulheres e crianças são vilmente exploradas pela maldade humana e iniciei a construção de oficinas em que o trabalho edificante as recolha. mas o terceiro vinha cansado e ofegante. O primeiro aproximou-se. Nas montanhas. a miséria. O monarca pronunciou algumas palavras de agradecimento. abraçou demoradamente o filho esfarrapado. de Norte a Sul e de Leste a Oeste. onde teu nome será venerado para sempre. e notificou: — Meu pai e meu soberano.... para teu descanso. nesse castelo. muito trêmulo. ajoelhou-se e falou. e libertei-os. em favor dos sofredores.. enquanto viveres.. todas as maravilhas de nosso tempo. poderoso e sábio. ó augusto dirigente. retirou a coroa e colocou-a sobre a fronte —dele. forte e feliz. Não desejo descansar enquanto houver sofrimento neste reino. Aproxima-se da cidade uma caravana de vinte camelos.. viajei em todo o centro do País e adquiri. mostrou amoroso gesto de aprovação e mandou que o segundo filho se adiantasse: — Meu pai e meu rei! — exclamou. prata e pedras preciosas e determinou-lhes gastar esses tesouros. logo após. digno de ti. soluçava de emoção e reconhecimento. A Oeste. despertando a ironia e o assombro de muita gente. deu a cada um deles dois camelos carregados de ouro. poderás governar sempre honrado. a fim de que ele pudesse efetuar a escolha do príncipe que o sucederia no trono. por haver conhecido. Fez-se grande silêncio e viu-se que o velho soberano mostrava os olhos cheios de lágrimas. porque aprendi contigo que as necessidades dos filhos do povo são iguais às dos filhos do rei!..

para Jonatan. — Posso rogar-te recursos para semelhante missão? — Pede o que desejas. E. sendo recebido por um Anjo do Senhor. o vagabundo. com os dons da fortuna e da habilidade. furtou-te cinco peças de ouro. por tua vez. bateu forte com um martelo sobre a mesa. asseverando que valiam cinco mil. adormeceram no egoísmo e na ambição desmedida. juiz respeitável e sábio. que absorve para si uma padaria inteira. muito dinheiro. pois mo recusam sempre. Reclamei diretamente contra o mistificador. afinal. sob a vigilância de guardas robustos. de modo a não mais abusar dos humildes. muita vez passará por inteligente e sagaz. a simplicidade e a confiança do povo. Entretanto. O emissário estranhou o pedido e considerou: . enganei o meu próximo e sou criminoso. miserável mendigo. na via pública. 9 O RICAÇO DISTRAÍDO Existiu um homem devoto que chegou ao Céu e. descobrindo. calculadamente. Quem é mais nocivo à sociedade. chefe de uma família infeliz. ao lado de Jesus? — Faze o bem — informou o Anjo — e volta mais tarde. e Jonatan apanhou vinte. de modo a não mais explorar. mas quem acumula riquezas. — Quero dinheiro.. O magistrado. sem movimentálas no trabalho construtivo ou na prática do bem. timidamente —. em voz alta: — Jonatan ben Caiar. por cinco peças de ouro. reconheço haver transgredido os regulamentos que nos regem. chamando a atenção dos presentes. furioso — impingiu-me um logro de vastas proporções! Vendeume um colar de pérolas falsas. — Este homem — clamou o comerciante. a fim de abusar. recomendou que o acusado se pronunciasse por sua vez: — Grande juiz — disse ele. O negociante protestou. o mendigo. a pretexto de minha idade e de minha pobre apresentação. que cultuava a Justiça Suprema. com absoluta despreocupação pelas angústias dos pobres.. indefinidamente. valendo-te do infortúnio que o persegue. cinco bastonadas entre quatro paredes. mas este vagabundo já me gastou o rico dinheiro. Zorobabel tomou cinco bastonadas em sala de portas lacradas. vinte bastonadas. para aprender a sofrer sem roubar. para socorrer o meu próximo. perante Deus: o mísero esfomeado que rouba um pão. a fim de matar a fome dos filhos. no propósito de socorrer os filhos desventurados. a fim de que aprenda a sofrer honestamente. e esclareceu. tenho meus dois filhos estirados na cama e debalde procuro trabalho digno.8 O JUIZ RETO Ao tribunal de Eliaquim ben Jefté. em definitivo. no momento oportuno. sem escrúpulos. tu.. da alheia indigência? Quem furta por necessidade pode ser um louco. a miséria. O magistrado. aos olhos daqueles que. enlevado: — Mensageiro Divino. que devo fazer para vir morar. Realmente. mas prometo resgatar meu débito logo que puder. a justiça verdadeira não reside na Terra para examinar as aparências. porém. porém. e. o mercador. mas é malfeitor diante do Todo-Poderoso que nos julgará a todos. no mundo.. revoltado: — Que ouço? Sou vítima de um ladrão e devo pagar por faltas que não cometi? Iniqüidade! iniqüidade!. Zorobabel. na praça pública. que o preço delas é inferior a dois ovos cozidos. todavia. tentaste roubar dele. implorou. crendo haver realizado excelente negócio. sem assalto à bolsa dos semelhantes. ou o homem já atendido pela Bondade do Eterno. Comprei as jóias. compareceu o negociante Jonatan ben Caiar arrastando Zorobabel. O juiz meditou longamente e sentenciou: — Para Zorobabel. Exijo para ele as penas da justiça! É ladrão reles e condenável!. apoderando-te de um objeto que acreditaste valer cinco mil peças de ouro ao preço irrisório de cinco.

quando me ausentei de pastagem vizinha. veio a morte. Tuas possibilidades materiais serão multiplicadas. orgulhoso: — Triste sina a que recebeste! Não invejas minha posição nas corridas? Sou acariciado por mãos de princesas e elogiado pela palavra dos reis! — Pudera! exclamou um potro de fina origem inglesa — como conseguirá um burro entender o brilho das apostas e o gosto da caça? O infortunado animal recebia os sarcasmos. O mensageiro dignou-se baixar até ele e. mais exigia do Céu. entrega à circulação do bem todos os valores que recebeste do Tesouro Divino e que amontoaste em derredor de teus pós. É vergonhoso suportar-lhe a companhia.. quando retidas despropositadamente pelo homem. aproximou-se formoso cavalo árabe. declarando-se sem recursos para auxiliar os necessitados e esperava sempre mais. todavia. No entanto. porque toda alma reside onde coloca o pensamento. — Penso. a fim de distribuir algum pão com eles. em pranto —vem! Ajuda-me a partir. entrou no assunto e comentou: — Há dez anos. sem qualquer benefício para os irmãos de luta e experiencia. quanto mais o Céu lhe dava. de início... pedaços de ouro e prata e vastas pilhas de cédulas usadas serviam-lhe de leito. porque a fizeste rolar tão sômente em torno de ti. — E que devo fazer — implorou o infeliz —para retomar a paz e ganhar o paraíso? O Anjo pensou. à maneira do visco retentor de pássaro cativo. depois disso. Receando amigos e inimigos. Tinha fome e sede. — E não temes as tentações do caminho? — Não. sem ouro.. — Terás o que almejas — afirmou o mensageiro —. deitado no cofre grande. a ajudá-lo. e respondeu: Espalha com proveito as moedas que ajuntaste inutilmente. e quando envelheceu. — Santo Anjo! — gritou.. pensou. . queria a liberdade. Reconhecendo. como se o inferno estivesse morando em sua própria consciência. Deram-lhe casa e haveres. não olvides que as dádivas divinas. 10 O BURRO DE CARGA No tempo em que não havia automóveis. à vaidade. No entanto. acordou em espírito. Longe. Com surpresa. Objetos preciosos. Não nasceu senão para carga e pancadas. à avareza e àambição destrutiva e. as peças de roupa e os pratos de alimentação. implorou mais rebanhos e mais chácaras. em vista das pilhérias e remoques dos companheiros de apartamento. exclamou: — É muito tarde para súplicas! Estás sufocado pela corrente de facilidades materiais que o Senhor te confiou. carrancudo e arredio. em direção à Casa Celestial!. então. de praticar o bem. meu santo amigo. vem a mim para retomarmos o entendimento efetuado há sessenta anos. é muito difícil praticar a caridade. que se fizera detentor de muitos prêmios. É tão covarde que não chegava a reagir. De espontâneo e alegre que era. resignadamente. temendo agora a miséria. atendendo ao egoísmo. as fundas cicatrizes do lombo e a cabeça tristonha e humilde. considerava sempre escassos os dons que possuia e rogou mais casas e mais haveres. nem mesmo com um coice. contudo. porém. Trouxeram-lhe rebanhos e chá-caras. A lei determina sejamos escravos dos excessos a que nos entregarmos. Prometeu o homem exercer a caridade. Multiplicaram-lhe. de procedência húngara. separando-o da imensa fortuna. e disse.. Não cedia um quarto. nem dava uma sopa a ninguém. Os Anjos da Prosperidade começaram. mas o interessado em subir ao paraíso pela senda da caridade. o devoto já remediado suplicou mais roupas e mais alimentos. começou a gritar e blasfemar. contudo. escondia grandes somas em caixa forte. sem qualquer proveito para os semelhantes. desfaze-te da terra vasta que retiveste em vão. que. Reparando-lhe o pêlo maltratado. reparando-lhe o sofrimento. mas não podia servir-se das moedas. porém. servir extensamente e retornou ao mundo. passou a ser desconfiado.. mas não te esqueças de que o tesouro de cada homem permanece onde tem o coração. transformam-no em prisioneiro delas.— Nem sempre o ouro é o auxiliar mais eficiente para isso.. de todo. o homem que já não dispunha de um corpo de carne para semelhante serviço. as notas de banco pareciam agarrá-lo. vi este miserável sofrendo rudemente nas mãos de bruto amansador. Outro soberbo cavalo. na cocheira de famoso palácio real um burro de carga curtia imensa amargura.

É manhoso e não merece confiança. respondia. depois de quatro anos. servir e sofrer. acrescentando: Não zombes de ninguém. 11 A LIÇÃO INESQUECÍVEL Hilda.. entre os demais. ao jantar. — O jumento serviria? — insistiu o servidor atencioso. mandou ajaezá-lo com as armas resplandecentes de sua Casa e confiou-lhe o filho. É apenas um pastor de rebanho. menina abastada. reanimada. Entrementes. Assim também acontece na vida. sem qualquer educação.Nisto. não brinques com o destino. Em todas as ocasiões. A modesta menina se punha pálida e trêmula. sem cogitar de si mesmos. Aceito os deveres que me competem até o justo limite. bondosa: — Que doces tão perfeitos! Quem os fez assim tão lindos? A mocinha. Ignora o aprumo da dignidade pessoal e desconhece o amor próprio. por mais humilde. inútil. Decorridos alguns instantes de silêncio. é sempre respeitável e edificante. O próprio rei puxou-o carinhosamente para fora. A mãe devotada acolhia a pequena descalça e repetia à filha as advertências carinhosas da véspera. animal dócil e educado. de porta em porta. É animal desonrado. deixando o lar vazio. não — falou o soberano — é muito altivo e só serve para corridas em festejos oficiais sem maior importância. vinha ao encontro da pequena humilhada e dizia. minha filha! o trabalho. à noite. o soberano indagou: — Onde está o meu burro de carga? O chefe das cocheiras indicou-o. a dona da casa. no dia seguinte. o pai secundava os conselhos maternos.. A viúva recolheu-se ao leito extremamente abatida e. Não sabe viver senão sob pesadas disciplinas. recomendava à filha: Hilda. Nunca expulses o necessitado que nos procura. recuso-me à obediência. O paizinho de Hilda adoeceu e debalde os médicos procuraram salvá-lo. Morreu numa tarde calma. ainda criança. Por certo. pinoteio e sou capaz de matar. — Não deseja o húngaro? — Não. não. com as despesas enormes. É muito irrequieto e não vai além das extravagâncias da caça. Hilda. A menina resmungava e. dolorosas necessidades impelirão uma criança a vender doces. diariamente dirigia más palavras à pequena vendedora de doces que lhe batia humildemente à porta da casa. de conhecidos e companheiros. se me constrangem a ultrapassar as obrigações. — De maneira nenhuma. que mereça absoluta confiança.. o quadro da vida se modificara. quando o rei penetrou o recinto. para longa viagem. É bravio. admirável jumento espanhol acercou-se do grupo. em breve a pobreza e o . temos sempre grande número de amigos.. Majestade? Não. O empregado perguntou: — Não prefere o árabe. fraco. contente: — Foi a mamãe. fustigava a vendedora. As observações insultuosas não haviam terminado. — Que vergonha! De bandeja! de esquina a esquina! Vai-te daqui! — gritava. A generosa senhora comprava sempre alguma coisa e. sem razão. exclamando: Fora daqui! Bruxa! bruxa!. contudo. em companhia do chefe das cavalariças. em seguida. — Não quer o potro inglês? — De modo algum. mas somente nos prestam serviços de utilidade real aqueles que já aprenderam a suportar. tentando educar a filha. — Preciso de um animal para serviço de grande responsabilidade — informou o monarca —. e acentuou sem piedade: — Lastimo reconhecer neste burro um parente próximo. Correu o tempo e. Quem sabe o que sucederá amanhã? Aqueles que socorremos serão provavelmente os nossos benfeitores. mas.

de calmo que era.. dorminhoco e paciente. no dia imediato. o sub-chefe da oficina e. 12 A ARMA INFALÍVEL Certo dia. a pretexto de enxergar uma pequena peça quebrada. com o propósito firme de seguir o conselho. descarregou na esposa o perigoso dardo intangível. Estava crescidinha. encaminhou-se para a empregada que se incumbia do serviço de calçados e desabafou. Era a senhora de um proprietário vizinho que. minha filha! vai trabalhar! Vende doces para auxiliar a mamãe!. tocado pela energia mortífera. e sonhou que ele vinha do Céu confortá-la. O pensamento foi vazado em forma de ameaças cruéis. e transferiu-lhe o veneno imponderável. O rapaz muito prestativo.. foi conduzida a certa farmácia.Sai daqui! Bruxa de bandeja!. deu-se pressa em transferir ao enfermeiro que a socorria a vibração amaldiçoada. Desse dia em diante. Gritou. Algumas pessoas generosas . ferida na coxa. colocou-o numa carta rude e malcriada e mandou-o para o chefe da oficina de que fora despedido. mas a jovem humilde fitou nela os grandes olhos. E quando o diretor do serviço leu as frases ingratas que o expressava. Ouviu-o dizer. um homem revoltado criou um poderoso e longo pensamento de ódio. acercouse de velho cão. Abrigou a projeção maléfica no sentimento. ninguém soubera remover. lacrimosa. — Estou farto! — bradou — a senhora é culpada dos aborrecimentos que me perseguem! Não suporto mais esta vida infeliz! Fuja de minha frente!.. Não podendo despejá-lo nos pratos e xícaras ao alcance de suas mãos. e tornou-se furioso sem saber porquê.. Foi a vez do sub-chefe tornar-se neurastênico. sem dar o motivo. bem vestida e bonita. anteriormente abastada. proferiu dezenas de palavras feias. certa noite Hilda chorou muitíssimo. no próprio coração. lembrando-se do papai. se enfureceu instantânea-mente. para a residência. Ajudou a mãezinha enferma a fazer muitos quadrinhos de doce de leite e. Revidou os golpes recebidos com observações àsperas e saiu. num pontapé de largas proporções. contente: Que doces tão perfeitos! Quem os fez assim tão lindos? A interpelada lembrou os ensinamentos maternos de anos passados e informou: Foi a mamãe. reconheceu-a. até ali. Em gritaria desesperada. Hilda esperou que ela a maltratasse por vingança. Sentia-se triste e desalentada. Ah! que surpresa! era a menina pobre que costumava vender cocadas noutro tempo. acolheu-o. A pobre senhora mal podia mover-se. quase de imediato. Despertou. quando bateu à porta de uma casa modesta. sentiu-se aliviado e a mulher passou a asilar no peito a odienta vibração. Repentinamente transtornada pelo raio que a ferira e que. colérico. Com palavras indesejáveis inoculou-lhe no coração o estilete invisível. O animal ganiu e disparou. converteu-se em fera verdadeira. Graciosa jovem atendeu.desconforto invadiram-lhe a residência. . ao invés de alimentar-se. em vista do enorme débito em dinheiro que seria compelida a aceitar. desprevenidamente. perfeitamente: Não desanimes. Dormiu. A menina. A experiência lhe dera inesquecível lição. era uma pobre menina quem detinha o tóxico mental. no instante do almoço. a menina vaidosa transformou-se para sempre. Privações chegaram em bando. possuída pela força maléfica. desfechou sobre ele a bomba mental que trazia consigo. Encontrou. não podia agora comprar nem mesmo um par de sapatos. permaneceu amuado várias horas e. logo após. saiu a vendê-los. em forma de cólera inexplicável. mordeu a primeira pessoa que encontrou na via pública. onde a velha e devotada mãezinha o esperava para a refeição da tarde. compreendeu-lhe a nova situação e exclamou. e. qual louco. Pronunciou nomes terríveis.. Chegou e descarregou sobre ela toda a ira de que era portador.. Aflita por resolver a angustiosa situação. Tão só por ver um sapato imperfeitamente engraxado. entretanto. Crivou-o de xingamentos e esbofeteou-lhe o rosto. para livrar-se desta. alucinado. Blasfemou. Agora. A ex-vendedora comprou quantos quadrinhos restavam na bandeja e abraçou-a com sincera amizade.

tomou-lhe as mãos e disse-lhe com naturalidade e brandura: — Venha cá. Tudo passa na Terra. pedindo-lhe desculpas.. em grande abatimento.. Metia pena reparar-lhe os instrumentos.. No entanto. O dirigente da oficina observou. Abraçou-o. Foi compelido a retirar-se. depois das saudações habituais. guardando a dura lição. Não valeram petitórios do moço necessitado. porém. . — Tem serviço com que me possa favorecer? — indagou o jovem. O diretor. dentro do lar humilde. Não nos esqueçamos do amor que o Mestre nos legou.. Pelas amostras. Quem aspira à companhia dos anjos. Houve então entre os dois uma explosão de íntimas alegrias. — Oh! por favor! — tornou o interessado — meus velhos pais necessitam de amparo. O martelo tinha cabo incompleto. tal a imperfeição que apresentavam seus gumes. longe de agastar-se. chegará a ser útil aos interesses alheios? quem não zela atentamente no “pouco” de que dispõe. diante da força infalível e sublime do amor. — Oh! porquê? — interrogou o rapaz. Aprenda a cuidar das coisas aparentemente sem importância. O alicate estava francamente desconjuntado. ali. cuide respeitosamente do corpo físico. à porta de várias oficinas. não é digno de receber o “muito”. Poeira espessa recobria todos os objetos. Jantaram felizes e oraram em sinal de reconhecimento a Deus.. muito calmo. à procura de emprego. E. atencioso. O diretor esclareceu. acentuou: — Trabalho não falta.. O diretor da instituição compareceu. para atendê-lo. desencantado: — Para o senhor. A enxó se achava deformada pela ferrugem grossa. e disse. respeitoso. meu filho! Você está cansado e doente! Sei a extensão de seus sacrifícios por mim e reconheço que tem razão para lamentar-se. enquanto o candidato mostrava um sorriso de esperança. — As tarefas são muitas — elucidou o chefe. O serrote mostrava vários dentes quebrados. em tom de súplica. Diversos formões não atenderiam a qualquer apelo de serviço. tenhamos bom ânimo! Lembremo-nos de Jesus!.A velhinha.. boas palavras e boas ações aos vizinhos. Parecia humilde e educado. Contentar-me-ei com salário reduzido e aceitarei o horário que desejar. 13 O SERVIDOR NEGLIGENTE À porta de grande carpintaria. Tenho batido. como preservará nossas máquinas? se é indiferente naquilo em que deve sentir-se honrado. não temos qualquer trabalho. Ninguém me socorre. chegou um rapaz. em vão. mostre boas maneiras. — Vejamo-las.. além da morte. O moço abriu a caixa que trazia.. observou. afinal. de caixa às costas. acrescentou: — Traz suas ferramentas em ordem? — Perfeitamente — respondeu o interpelado. comovida. Quem deseja o corpo iluminado e glorioso na espiritualidade. sem azedume: — Se o senhor não tem cuidado com as ferramentas que lhe pertencem. Assim também acontece no caminho comum. e afagou-lhe os cabelos! O filho demorou-se a contemplar-lhe os olhos serenos e reconheceu que havia no carinho materno tanto perdão e tanto entendimento que começou a chorar. Aproveite a experiência e volte mais tarde. grandes negócios se realizam neste mundo e o menosprezo para consigo é indesejável mostruário de sua indiferença perniciosa.. A projeção destrutiva do ódio morrera.

.Quem espera a colheita de alegrias no futuro. Invariàvelmente rodeada de novelos de linha. Os novelos que perdeu. em todos os circunstantes a boa vontade de trabalhar e servir para o bem. — Irmã Clara — dizia uma educadora —. Cumprimentou-a. Em todas as atividades. para o Céu. fazia por merecer as considerações de que era cercada. estimulava. devotada. como sempre. Sabia ser bondosa. homenagens e cânticos e sua alma subiu.. Nas horas da prece. Rolaram os anos. diligente. sob impressão de assombro. — Será compelida a voltar. mostrava-se a desvelada criatura qual anjo de bondade e paciência. todavia. o corpo da inesquecível benfeitora foi rodeado de flores e bênçãos. e chegou o dia em que a morte a conduziu para a vida espiritual. sorrindo. Amparava sem alarde. Ela. que era a costureira dedicada de todos. davam para costurar alguns milhares de vestidos para crianças desamparadas. Daquela boca educada não saíam más palavras. respirava entre a agulha e a máquina de costurar. Inclinava a conversa em favor da benevolência e da paz. respondia. gloriosamente. — Como assim? O anjo fitou-a. — Oh! Oh! Deus me perdoe! — exclamou a santa desencarnada — e como resgatarei a dívida? O anjo abraçou-a. porém. Irmã Clara era o ídolo de toda gente pelas virtudes que lhe adornavam o caráter. Além do mais. aconselhando: — Tenhamos compaixão. Transformara-se em admirável autoridade da vida cristã. na posição espiritual em que se encontrava não poderia cometer tão grande descuido. e respondeu: — A Irmã foi extremamente virtuosa. acima de tudo. Insuflava em quantos a ouviam o bom ânimo e o amor ao dever. tornava-se cada vez mais respeitada. Irmã Clara ouviu-o informar: — Lastimo não possa demorar-se conosco senão por três semanas. E quantos sonharem com o Céu tratem de fazer um caminho de elevação na Terra mesma. Se alguém comentava faltas alheias. Auxiliava sem preocupação de recompensa. à entrada. bondoso. — Irmã — intervinha uma das criadas —. Na Terra. demorava-se longamente contrita na oração. A peça ficará pronta. vinha solícita. e reconfortou-a dizendo: — Não tema. carinhoso e alegre. aproveite a hora presente. contente: — Trabalharemos até mais tarde. Em verdade. Era meiga. carinhoso. tenho necessidade do vestido para o sábado próximo. Reportou-se aos bens que ela espalhara.. Com a passagem do tempo. na sementeira do bem. tomando novo corpo de carne no mundo — esclareceu o mensageiro. Desperdiçou uma enormidade de fios de linha. mas a querida irmã recomeçará sua tarefa no mundo. Seus pareceres eram procurados com interesse. e o avental? — Amanhã será entregue — dizia Clara. — Oh! porquê? — interrogou a valorosa missionária. entretanto. por alhear-se à noção de aproveitamento. 14 O DESCUIDO IMPENSADO No orfanato em que trabalhava. Um anjo recebeu-a. impensadamente. Todos nós a ajudaremos. sem humilhar a ninguém com demonstrações de superioridade. plantando um algodoal.

dê suas ordens. — Mas. em toda parte. destinado à escola que pretendia estabelecer. conversando ambos em surdina. na oração silenciosa: — Meu Deus. doutor. à distância de dois quilômetros. onde centenas de crianças desamparadas cresciam sem o benefício das letras. O professor acompanhou-a. Ela indicou pequeno pátio e determinou-lhe a preparação de meio metro de lenha para o fogão. sete pessoas davam entrada no fidalgo domicílio. aproximou-se dele e tomando-o por servidor vulgar. em que se amontoavam mais de trinta quilos de verdura. como agir? Não receberemos um pouso para as criancinhas. Organize uma casa e autorizaremos a providência. Poderá ajudar-me no serviço geral? — Perfeitamente — respondeu o interpelado —. na casa modesta em que se hospedava e. atingiu o mercado e entrou. depois de ouvir-lhe o plano: — A lei e a bondade nem sempre podem estar juntas. Pôs-se a caminho. O exemplo é mais vigoroso que a argumentação. fêz um riso escarninho e acrescentou: — O senhor não pode intervir na administração. Colocou ele o fardo às costas e seguiu-a. da cabeça aos pés. a matrona recomendou: — Traga-me esta encomenda. As crianças usariam o patrimônio à vontade e o prefeito autorizaria a providência com satisfação. . Caminharam seguramente uns quinhentos metros e penetraram elegante vivenda. — considerou o benfeitor dos meninos desprotegidos. Domingo. atirou-se à limpeza de extenso recinto em que se efetuaria lauto almoço. A gentileza está revestida. a matrona distinta e autoritária. tive muito prazer em ser-lhe útil. Muitas compras. veio ao servo improvisado e pediu o preço dos trabalhos. o professor agradeceu e beijou-lhe as mãos. a dama da véspera procurou-o. Senhor? Absorvido na meditação. Findo o serviço. quanto ao novo conhecimento. rachou algumas toras. — Que fazer? —De qualquer modo. muito triste. Certa senhora. Nas primeiras horas da tarde. O professor.. que era a dona da casa.15 O PODER DA GENTILEZA Eminente professor negro. de apresentação distinta. pensando. recebeu ordem de buscar um peru assado. Empunhando o machado. onde a senhora voltou a solicitar: — Tenho visitas hoje. Logo após. Sujo de pó escuro. Ao fim do dia. retirou-se e passou a tarde e a noite daquele sábado. não dispomos de recursos. pensando. indagou da irmã. relacionava-se o prefeito que anotou a presença do visitante da véspera. Consertou-a com sacrifício da própria roupa. o educador. À frente dum saco enorme. Ia comentando. foi chamado para retificar a chaminé. A bondade dele vencera os impedimentos legais. venha cá. O movimento era enorme. Muita gente. com esforço. depois de rogar-lhe desculpas. foi recebido pelo prefeito da cidade que lhe disse imperativamente. apresentado ao seu gabinete por autoridades respeitáveis. No dia imediato.. saiu a passear. interessado em fundar uma escola num bairro pobre... — Não pense nisto — respondeu com sinceridade —. Entre elas. de glorioso poder. contudo. cabe-nos amparar os pequenos analfabetos. O prefeito reparou-lhe demoradamente a figura humilde. trazendo o grande prato em pouco tempo. de mãos desocupadas e cabeça vazia. com visível desapontamento. anunciou-lhe a concessão de amplo edifício. na direção de antigo mercado. sem vacilar. exclamou: — Meu velho. sob as grandes árvores. Deixando transparecer nos olhos húmidos a alegria e o reconhecimento que lhe reinavam nalma. muito cedo. Reservadamente. respeitoso.

O malfeitor.. sorriu e considerou: —A tua preparação para a felicidade ainda não se acha completa. no entanto. observou demoradamente os quadros da vida e recebeu a palma da ciência. caso não soubesse tolerar a tempestade? A firmeza interior. Certa vez... mas vejo a ingratidão e a discórdia. Realmente é possível auxiliar a todos. o conhecimento e a fortaleza são a trilogia bendita da felicidade e da paz. é preciso ser forte. é preciso discernir. feria e matava sem piedade. ninguém me respeitou! Fiz-me escárnio da rua. a pedrada e a dilaceração. quando o Cristo regressou e procurou-o. a idealizar com o plano superior. o Senhor vinha ao mundo frequentes vezes entender-se com as criaturas. Peregrinou através de muitos llvros. explicou-se: — Ai de mim. Tenho usado a compaixão e a generosidade. conferir-te-á o equilíbrio indispensável. Aprende a dizer adeus a tudo o que te prejudica na caminhada em direção da luz divina e distribuirás a bondade. extremamente abatido. Para bem ajudar. aproximou-se atraído pela luz dEle. respondeu em lágrimas: — Senhor. enfermo e sem forças. guardando o conhecimento sem surpresas amargas. Replicando ao Divino Amigo. bondoso. a dureza e a indiferença com mais clareza. entesourei a ciência e minhas dificuldades cresceram de vulto. Dessa vez.. foi achá-lo oculto numa choça. sofrerão a poda. não basta reter a bondade. Quando esse espírito selvagem viu o Senhor. Sê inquebrantável em tua fé e segue adiante! O aprendiz reergueu-se e nunca mais experimentou a desarmonia. Interpelado quanto à causa de tão lamentável transformação. Nunca observaste o pomicultor? Algumas árvores recebem dele irrigação e adubo. encontrou um homem irado e mau. novamente. segundo me ensinaste. abençoou-o e falou. — O teu lucro na eternidade não será pequeno com o sacrifício. Senhor! Depois que passei a ser bom. O Mestre. Depois de certa procura. É necessário saber distribuí-la. a benefício dos maus. encontrou-o no leito. a fim de serem convenientemente amparadas. a vida tornou-se-me um fardo insuportável. Acreditas que a árvore respeitável conseguiria viver e produzir. porque te entregaste assim à perversidade? Não temes a justiça do Pai? Não acreditas no Celeste Poder? A vida exige fraternidade e compreensão. a numerosos companheiros de jornada devemos esclarecimento enérgico. a chorar de arrependimento. dirigiu-lhe a palavra: — Meu filho. que a bondade. Senhor! Fui bom e recebi injustiças. O Senhor retirou-se e o aprendiz retomou luta para conquistar o conhecimento. que outra coisa não fazia senão atormentar os semelhantes. compreendendo. Entretanto. por isto mesmo. de hoje em diante serei um homem bom. Alguns anos passaram e Jesus voltou ao mesmo sítio. porém. para que se retifiquem.. Aprendi a amar e desejar em sã consciência. porém. enfim. que se mantinha prisioneiro da ignorância. O Cristo. Agora.. sem preocupações de recompensa. Sei aquilo que muita gente ignora e. Os anos correram apressados. mas em troca recebo apenas o ridículo. Estimularemos os bons a serem melhores e cooperaremos. Lembrou-se do infeliz a quem havia aconselhado e buscou-o. se a muita gente devemos ternura fraterna. diante das experiências da vida. Contudo. . O Mestre. outras. o mísero respondeu: — Ai de mim.16 A TRILOGIA BENDITA Em tempos remotos. Perseguia.

marcando a tua passagem pela Terra.000 litros de leite. Nada menos de 60. que fizeste de útil? Não restituiste ainda à Natureza a mínima parcela de teu débito imenso. em teu proveito. preocupada. preocupado. na manutenção do bom ânimo.. bebeste 3. converteu-se Levindo num homem honrado e útil. logo depois de arrebatado pelas asas do sono. 20 carneiros e 3. enviou-o à residência de um companheiro de muitos anos.. Enquanto o moço arregalava os olhos de assombro. suplicando a Jesus o encaminhasse à elevação moral. O rapaz deveria aprender com ele a distribuir gentilezas e bens. gastaste 7. Tens explorado farta-mente as famílias de seres do ar e das águas. Além disto. para sustentar-te a existência. a exibir largo documento na mão. das várias raízes e legumes.. Nessa noite. Não permitas que a ociosidade te paralise o coração e desfigure o espírito!. a Mâezinha recebeu-lhe os amigos. 2. eu vi a conta da vida. Acreditas. os recursos e doações de teu pai. O emissário fitou nele os grandes olhos e respondeu: — Meu amigo.000 ovos e comeste 10. ao qual destinava trezentos cruzeiros mensais. . Aprendera as primeiras letras. Lembra-te de que a própria erva se encontra em serviço divino. mais fervorosa. pocilgas e redis.. O moço. relacionando-se as do arroz. para o desfiladeiro do vício. sob forte espanto.000 peixes diversos. 50 suínos. com lágrimas. Levindo escapou da cama. — Oh! meu filho — disse a senhora num transporte de júbilo —. no Alto. que alegria! como estou contente!. do milho.. O filho. até à maioridade. Daí em diante. As orações da devotada criatura foram ouvi-das. acordou. do trigo. no entanto. correu até à genitora e exclamou: — Mãezinha. auxiliava diversos amigos pobres. na luta pela vida. não tolerava qualquer disciplina. O Sol de ouro como que cantava em toda parte um hino glorioso ao trabalho pacífico.17 A CONTA DA VIDA Quando Levindo completou vinte e um anos.000 aves. arranje-me serviço! arranje-me serviço!. Recusava bons conselhos e inclinava-se.. desperdiçando o tempo e negando-se ao trabalho. 10 bovinos. todavia. Em troca. que aconteceu? E o rapaz. a preço de muita dedicação materna. Amanhecera. Confiou-o ao Céu.000 vidas do reino vegetal foram consumidas pela tua.. Para começar. Intrigado.000 frutas. que o centro do mundo repousa em tuas necessidades individuais e que viverás sem conta nos domínios da Criação? Produze algo de bom. francamente. o mensageiro prosseguia: — Até hoje. Vivia ociosamente. espantado. morreram. venho trazer-te a conta dos seres sacrificados. 18 A AMIZADE REAL Um grande senhor que soubera amontoar sabedoria. do feijão. até agora.. passou a ver o desfile dos animais que havia devorado e. Sentindo-se mais velho. chamou o filho à cooperação. sonhou que era procurado por um mensageiro espiritual. o rapaz perguntou-lhe a que devia a surpresa de semelhante visita. os obséquios dos amigos e as atenções dos vários benfeitores que te rodeiam. a bondosa senhora estava triste. a abnegada Mãe orou. porventura. informou: — Nesta noite passada. O preço dos teus dias nas hortas e pomares vale por uma devastação. além da riqueza. festejou a data e solenizou o acontecimento com grande alegria. e lutava contra todos os planos de ação digna. aproximadamente. porque Levindo. não relacionamos aqui os sacrifícios maternos. de galinheiros e estábulos. No íntimo. Em média calculada. convencida de que o Mestre Divino lhe ampararia a vida Jovem.

Ignorava que o nosso amigo estivesse sob mais amplos compromissos. sim. estudou recursos de dar-lhe proveitoso ensinamento. sem entregar a dádiva. Perante um móvel qualquer. muita vez não encontrará senão silêncio e morte. surpreendida. o lar dele possui tanto conforto. após ouvi-lo calmamente. com rapidez e segurança. A senhora pediu a colaboração do engenheiro-chefe e passou a mostrar à filha os vários departamentos. e atende ao meu conselho para que nossa afeição constitua sementeira de amor para a eternidade. em todas as circunstâncias. cumpriu quanto lhe fora determinado. A gola foi extremamente malfeita e as mangas estão defeituosas. A Mãezinha. Percorreram algumas ruas e pararam diante do arranha-céu a levantar-se. O amigo verdadeiro. mas raros aprendem a acentuar a alegria dos entes amados. convidou a filha a visitar. Folgo bastante com a noticia — exclamou o velho. e. em torno de nossa porta e. Viajou seis quilômetros e encontrou a casa indicada. restituindo-lhe a importância de que fora emissário. Tal atitude de nossa parte representaria crueldade e dureza. Volta. . encontrava traços e ângulos para condenar. Foi assim que. exclamava sem-cerimônia: — O conjunto é tolerável. Ao que suponho. Reparando a tranquilidade e a fartura. contudo. imprimindo terna censura à voz conselheiral. quanto o nosso. E. semelhante regra não se aplica aos companheiros que Deus nos confiou. o portador regressou ao lar. O beneficiário de seu pai cumprimentou-o. Apresentou-lhe familiares e amigos que se envolviam. Ante um vestido das amigas. explicou ao velho pai. partícularizadamente. Flores perfumavam o ambiente e alvo linho vestia os móveis com beleza e decência. sem egoísmo e sem inveja no coração. não encontrou um pardieiro em ruínas. sob a atenciosa vigilância dos técnicos que orientavam os trabalhos. depois de inteligente palestra. tornando até aqui. Enquanto muitos servidores abriam acomodações para os alicerces. para que nosso concurso não seja orgulho vão. seguiu-a. se não é lícito dar remédio aos sãos e esmolas aos que não precisam delas. criar companheiros para sempre. Nunca desejei improvisar necessitados. preocupada. no chão duro. multiplicando-a para eles. O ancião. perdendo a melhor oportunidade de ser útil. rematava as observações irônicas com a frase: — Não poderiam fazer coisa melhor? E. pois. O domicílio. porém. suarentos e ágeis. entrega-lhe seiscentos cruzeiros. felizes. quanto vira. com alegria efusiva. veículos pesados transportavam terra daqui para ali. apesar de modesto. 19 O ENSINAMENTO VIVO Em observando qualquer edificação ou serviço. não se trata de pessoa em posição miserável. envolvido na sabedoria paterna. Toda gente no mundo pode consolar a miséria e partilhar as aflições. acrescentou: — Meu filho. pode exercer a piedade que humilha ao invés do amor que santifica. apenas nos dias de extremo infortúnio. Quem espera o dia do sofrimento para prestar o favor. Não devemos exigir que o irmão de jornada se converta em mendigo. — Mas. à frente de qualquer obra de arte. mostrava encanto e conforto. ao invés de trezentos. retirou mais dinheiro da bolsa. certa manhã. ali reinantes. que não podia adivinhar-lhe o plano. em sua companhia. Contrariando-lhe a expectativa. mensalmente. dobrou a quantia e considerou: — Fizeste bem. Volta à residência dele e.O jovem seguiu-lhe as instruções. Não parecia guardar problemas que merecessem compaixão e caridade. Maria Cármen não faltava à crítica. Pedreiros começavam a erguer paredes. A jovem. num halo enorme de saúde e contentamento. A sua nova situação reclama recursos duplicados. manobrando picaretas. meu pai — acentuou o moço —. Foi então que o rapaz. De volta. mandou trazer o café num serviço agradável e distinto. a construção de um edifício de vastas linhas. a fim de parecermos superiores a ele. mas as particularidades deixam muito a desejar. Estendamos-lhe nossas mãos e façamo-lo subir até nós. Certo. — Para quê? — confabulava consigo mesmo — aquele homem não era um pedinte. porém. de ora em diante. o genitor se enganara. compreendendo a sublime lição de amizade real. em meu nome. Quem socorre o amigo. sabe fazer isto.

. quando alguém me impede a execução do dever. abatendo alvenaria e madeirame. Bastará uma pessoa de martelo à mão para prejudicar a obra de milhares.. a própria vida. Qualquer construção reclama toda uma falange de servos dedicados. a mosca recuou e aquietou-se. A pequenina trabalhadora alada dirigiu-se para o campo e a mosca soberba passou a exibir-se. voando despreocupada. Logo após. Nesse instante. procurou ajudar a todos ao invés de macular. pintores. ainda. usando martelo de tamanho gigantesco.Caminhões e carroças traziam material de mais longe. vaidosa: — Onde surges. respondeu: — Quanta gente a pensar.. desdenhosa — tuas patas estão em lastimável estado. e necessária a muita gente. ao fim do ensinamento vivo que buscamos. sorrindo expressivamente —. em todas as ocasiões. apenas. que representa benefício geral. no estilo colonial. — Ah! não posso despender muito tempo em tal assunto — alegou a abelha criteriosa. — Sim — disse a abelha com desapontamento —. — Mas não podes viver com mais distinção e delicadeza? — tornou a mosca — porque ferretoar. Edificar é muito difícil. Requisitaremos. E limpando caprichosamente as asas. ali se encontrava. todos fogem. Minha defesa é. para velho bairro. Não sinto prazer em perturbar. — Sim — considerou o chefe. minha amiga — esclareceu a inter-locutora —... Um homem. a colaboração de centenas de trabalhadores especializados. mãe e filha apresentaram as despedidas. E. se polisses as asas para que brilhassem à claridade solar. A crítica destrutiva é um martelo que usamos criminosamente. ante o respeitável esforço alheio. qual se estivesse em observação. Pessoa alguma te recearia a intromissão. O diretor das obras. A produção de mel indispensável ao sustento de nossa colméia. daí em diante. gentil: — Seremos obrigados a inverter volumoso capital para resgatar as despesas. talvez não precisasses alarmar a ninguém. — Creio. estucadores. e falou. desencorajar e ferir. o trabalho e o sacrifício de muita gente. a torto e a direito? — Não. bombeiros e eletricistas virão completar-nos o serviço. conselheiramente: — Chegamos. filha. Toda a realização útil na Terra exige a paciência e o suor. deste modo. Compreendeu? A jovem fez um sinal afirmativo com a cabeça e. Viam-se-lhe as linhas nobres. Mas destruir e eliminar é sempre muito fácil. Carpinteiros. porém. creia que sofro muitíssimo quando sou obrigada a interferir.. não é bem assim. que se tivesses modos diferentes.. esclareceu. Carregadores corriam na execução do dever. a jovem observou: — Como é terrível arruinar. mostrando envaidecida as asas douradas pelo Sol. — Encontro-me em serviço — explicou-se a operária humildemente. — O serviço não me permite a apresentação exterior muito primorosa. duas senhoras e uma criança penetraram o recinto e. agora. notando a presença da abelha que buscava sair ao encontro de companheiras distantes. de minuto a minuto. por vezes. uma das matronas gritou. 20 O ELOGIO DA ABELHA Grande mosca verde-azul. revelando-se impressionada. Não te sentes indesejável? Teu aguilhão é terrível. quase sempre.. inquieto-me e sofro. também a minha morte. vidraceiros. A menina. nervosa: — Cuidado! cuidado com a abelha! Fere sem piedade!. se te vestisses em cores iguais às minhas. a cooperar e servir!. A mosca arrogante aproximou-se e falou. através das alas que ainda se achavam de pé. o esforço de tantos! A Mãezinha serena interveio. convidado pela matrona a pronunciar-se sobre a edificação. Vivo tão somente para o trabalho que Deus me confiou. Vararam algumas travessas e praças menos agradáveis e chegaram à frente de antiga casa em demolição. não me oferece ensejo a excessivos cuidados comigo mesma. perdendo. Ante a queda das paredes a ruirem com estrondo. então. penetrou uma sala e encontrou uma abelha humilde a carregar pequena provisão de recursos para elaborar o mel.. — Repara! — disse-lhe a mosca. encaminhando-Se. Não! não! — protestou a outra — isto émonturo e relaxamento. edificar é sempre muito difícil.

depois de seduzir-nos a atenção pela beleza da forma. em plena vida? Há criaturas simples. de maneira imperceptível. de tempos a tempos. encaminhando-se para a copa. A mosca preguiçosa planou. da maldade.. Acompanhou a criança. modifica-me. exclamando: — Meu Pai. encontraria sempre salteadores sem compaixão. não estou satisfeito com a minha pelagem. e que. da intriga.. e há muita gente de apresentação brilhante. ao Todo-Misericordioso e queixou-se: — Pai. e. desde então. Muito amargurado. as moscas deixaram-me em sangue! . quanto a mosca. A tosquia é um tormento. A rogativa foi satisfeita. 21 O CARNEIRO REVOLTADO Certo carneiro muito inteligente. O mísero voltou ao Altíssimo e implorou: — Pai. correu para o Altíssimo e implorou: — Meu Pai. O Todo-Poderoso indagou. a lastimar-se. várias pessoas ambiciosas atacaram-no sem piedade. de trato menos agradável.. e pousou-lhe na cabeça. deitando varejeiras na massa dos pastéis e em pratos diversos que se preparavam para o dia seguinte. sofrem sarcasmos e desapontamentos por bem cumprir a obrigação que lhes cabe. e. estou exausto... reparou os benefícios que a lã espalhava em toda parte. sobravam preocupações para toda a família. — Se era tão precioso — pensava —.. o carneiro respondeu: — Quero que a minha lã seja toda de ouro.. à primeira vista.— Que maravilha! — exclamou uma das senhoras. Contudo. O Criador satisfez o pedido. Arrancaram-lhe. Disse-lhe o Senhor: — Que desejas que eu faça? — A fim de não provocar os ladrões e nem ferir-me com porcelana quebrada. quero que a minha lã seja feita de mel. logo que o pobre se achou no redil. passando a revoltar-se contra a tosquia. detinha-se apenas no exame dos prejuízos que supunha sofrer. tocado pela mania de grandeza. assim que o orgulhoso ovino se mostrou cheio de pêlos preciosos. O nfeliz.. não evitou que elas lhe sugassem os fios adocicados. Todavia. Entretanto. despreocupado das ricas rações que recebia no redil. Modifica-me. logo que tornou ao vale.. dilacerando-lhe a carne. apareceu no céu enorme ventania. operosas e leais.. e. violentamente. em favor de todos.. O Sábio dos Sábios perguntou: — Que queres que eu faça? O animal. bandos de moscas asquerosas cobriram-no em cheio e. Senhor!. que lhe quebrou todos os fios. infeccionando certa região que se achava ligeiramente ferida. porque aceitar a humilhação daquela tesoura enorme? Experimentava intenso frio. com bondade: — Que desejas que eu faça? Vaidosamente. todos os fios. muda-me novamente! não posso exibir lã dourada. planou.. aflito.. dirigiu-se ao Criador. mas indisciplinado.. por mais corresse campo afora. — Parece uma jóia! — disse a outra. renova-me!. da revolta e do desespero no pensamento. julgou-se melhor que os outros seres da Criação. que. Quantas vezes sucede isto mesmo. penetrou o guarda-comida. Decorridas algumas horas.. à maneira da abelha.. A porcelana não resiste ao vento... A encantadora mosca verde-azul deixara imundície e enfermidade por onde passara. deixando-o em chagas. Assim foi feito. nos deixa apenas as larvas da calúnia. Regressou. suplicou: — Quero que a minha lã seja lavrada em porcelana primorosa.

a breve tempo. Vaidade. Insulava-se no trato da terra. A Ignorância começou a cogitar da perseguição.. Apareceu. Preguiça e Desânimo. Logo após. quase sôzinho. quando alguns cavalos lhe puseram os olhos. Nunca me deixaram em feridas e sempre me deram de comer e beber. Os eqüinos prenderam-no com os dentes e. vendo que ele se arrependera com sinceridade. observou: — Reanima-te. e. a vítima afirmou sem ódio: — A Calúnia estava enganada. dessa vez. então. respondeu.. tenho a luz do bem. O lavrador ativo recebeu as notícias do adversário que operava. incendiando-lhe o campo. ao término do inquérito vexatório.O Senhor indagou. gemeu. E trabalhou com dobrado valor moral. sorriu calmo e falou com sinceridade: — A Ignorância está desculpada. O Todo-Bondoso atendeu-lhe mais uma vez a vontade e o carneiro voltou à planície. Não pretendo a superioridade sobre meus irmãos. apresentando-o ao povo como mau observador das obrigações religiosas. Destruiu-lhe milharais enormes. Senhor!. que o atacou de mais perto. qual me fizeste. de novo. mas ergueu os olhos para o Céu e falou: — Meu Deus e meu Senhor. em lágrimas. no lugar que lhe compete e. Discórdia. O serviço policial tratou de minuciosas averiguações e. então. voltou para o vale. Provocações cercaram-no de todos os lados e. não conseguiu melhor sorte. A Discórdia será por mim esquecida. não suporto mais!. Quero ser simples e útil. O servo diligente. admirável pelas qualidades de trabalho e pelas formosas virtudes do caráter. nem respeitava os bons costumes. com inexaurível paciência: — Que queres que eu faça? Dessa vez. O carneiro correu na direção do Juiz Supremo. no entanto. aprende a dar. meu filho! que pedes agora? O infeliz replicou. entre familiares e companheiros. abocanharam-lhe o corpo. Como soluçasse longamente. Maldade. bondoso. 22 O PIOR INIMIGO Um homem. entre si. que meus desígnios são justos. o Todo-Compassivo. enfim. cheio de ambições desmedidas para enriquecer à custa do alheio suor. No entanto.. Surgiu. envergonhado. O Pai sorriu. O honrado trabalhador vivia feliz. carinhosamente. em pranto: — Pai. prejudicou-lhe a vinha. sofreu bastante. Principiou a ofensiva. irmãos e amigos da véspera relegaram-no ao abandono. quero voltar a ser um carneiro comum. Todavia. misturou-se com os outros e daí por diante foi muito feliz. mas satisfeito. a Vaidade que o procurou nos aposentos particulares. o carneiro pensou mais tempo e considerou: — Suponho que seria mais feliz se tivesse minha lã semelhante às folhas de alface. abençoou-o com ternura e falou: — Volta e segue teu caminho em paz. Calúnia.. veio a Maldade. foi visto pelos inimigos da Humanidade que conhecemos por Ignorância. Reconhecendo os perseguidores que haviam encontrado um espírito robusto na fé. de longe. Aquele homem vivia. Hoje sei que os meus tosquiadores de outro tempo são meus verdadeiros amigos. humilde: — Meu Pai. os quais tramaram. Então o carneiro. agir contra ele. se pretendes receber. estou só. para melhor comunicar-se com vasta quadrilha de ladrões. cultivando o campo e rendendo graças ao Senhor Supremo pelas alegrias que desfrutava no contentamento de ser útil. poluiu-lhe as fontes. Não tinha fé. depois de lhe comerem a lã. sereno: — Contra as sombras do mal. instruíram a Discórdia que passou a assediá-lo dentro da própria casa. afirmando-lhe: . o operário incansável. gotejando sangue das chagas profundas. reconstruindo para o futuro. continuarei agindo e servindo em Teu Nome. Compreendeste. conduzindo-o à derrota. como sempre fui... a Calúnia e denunciou-o às autoridades por espião de interesses estranhos. Cada criatura está colocada. na caprichosa alegria de parecer diferente. por minha Lei.

.. depois de instalar-se lá dentro. contudo. Vamos ao repouso! Já perdeste as melhores forças!. imperturbável: — Sou apenas um átomo que respira. começou a ouvir as interrogações do Desânimo..— És um grande herói. O trabalhador sincero repeliu-a. acariciando-lhe a fronte com mãos traiçoeiras.. nem de perto. que triunfara de muitos combates. Entrou no coração do operoso lavrador e. acaso. deitou-se e passou cem anos sem levantar-se. o interpelado replicou sem hesitar: — Meu dever é o de servir em benefício de todos.. não se lembra de que a morte destruirá tudo? O homem forte e valoroso. o Desânimo compareceu. nem lhe cochichou aos ouvidos.. Não se sentou na poltrona para conversar. Vigilante. até ao fim da luta. Toda glória pertence a Deus! Ausentando-se a Vaidade com desapontamento.. entrou a Preguiça e. afiançou: — Teus sacrifícios são excessivos. Venceste aflições e batalhas! Serás apontado à multidão na auréola dos justos e dos santos!. o objetivo da vida? tudo é inútil.. começou a perguntar-lhe: — Esforçar-se para quê? servir porquê? Não vê que o mundo está repleto de colaboradores mais competentes? que razão justifica tamanha luta? quem o mandou nascer neste corpo? não foi a determinação do próprio Deus? não será melhor deixar tudo por conta de Deus mesmo? que espera? sabe. .. Não atacou de longe.. Afastando-se a Preguiça vencida...

a fim de ouvi-lo. Serviu-se. toda gente aprendeu. Tratava-se de largo tabuleiro forrado de veludo negro. a fim de que aprenda a utilizar sua capacidade intelectual em benefício de todos. a invenção de um súdito. porém. nem cria trabalho sério. A inteligência humana éuma luz cuja claridade deve ser consagrada à cooperação com o Supremo Senhor. a minha experiência o corrige. O próprio monarca seguiu a alegria geral. mesmo no cárcere. essas bolas rolavam na direção das cavidades naturais. na decisão sábia do grande soberano. sustentando regular coleção de bolas de madeira colorida. arrasta centenas de pessoas. Via-se o inventor cercado de abraços. o povo não bateu palmas. mostrou a obra que havia criado pacientemente. todavia. possivelmente muitos indivíduos. ao almoço. pão e frutos. o inventor se fizera muito pálido. Não se cansava o público de admirar o jogo efetuado. e aplaudia. contente. junto às grandes bandejas de carne. dando ensejo a um jogo de grande interesse pela expectação que provocava. À tardinha. se o meu poder o recompensa. Contendores variados disputaram partidas de vulto. conosco. quando o soberano recomeçou: . através de cálculos divertidos. porque. ainda hoje. O monarca fêz comprida pausa e a multidão prorrompeu em aplausos delirantes. entretanto. a perderem valioso tempo na expectativa inútil. não ajuda as sementes. não colabora com a educação.Devo acrescentar. menos afeitos às virtudes construtivas que todos devemos respeitar neste mundo. solenemente. Essa remuneração.23 A DECISÃO SÁBIA Em tempos recuados. grande massa popular rodeou o invento. Volte aos seus abençoados afazeres mentais. Quando o rei concluiu e desceu da tribuna. Sua invenção não melhora o campo. cujos instintos criminosos ainda se acham adormecidos. que ninguém deve menosprezar os tesouros da inteligência e do tempo sobre a Terra. O calculista. nem serve aos ideais do bem. cercado de pequenas cavidades. na Terra. quando esse ou aquele participante do novo e inocente jogo conseguia posição invejável perante os companheiros. se desviarão do delito provável e muitos caçadores ociosos deixarão em paz os animais amigos de nossas florestas. Despedindo-se. comendo e bebericando. existiu um rei poderoso e bom. o inventor aguardou o parecer do soberano. Dia inteiro. igualmente. não lhe visa sômente o valor pessoal. o rei levantou-se. encerrada a curiosidade geral. dando mostras de evidente satisfação. Além disto. em companhia dos amigos. que a sabedoria de meu cetro ordena que o senhor seja punido com cinquenta dias de prisão forçada. e dedique sua inteligência a criação de serviço e utilidades em proveito de todos. cuja cabeça era um prodígio na matemática. fêz-se visto de todos e falou ao vassalo inteligente: — Genial matemático: a autoridade de minha coroa determina que sua obra de raciocínio seja premiada com cem peças de ouro que os cofres reais levarão ao seu crédito. qual se verificou neste dia. nem conserva estradas. Convidado a verificar. com inexcedível orgulho. que se fizera notado pela sabedoria. em homenagem à sua paciência e habilidade. mas também certos benefícios que a sua máquina vem trazer a muitos homens e mulheres de meu reino. compareceu em trajes de honra à festa em que o novo aparelho seria apresentado. Enquanto jogarem suas bolas de madeira. . Aglomerou-se o povo. não protege fontes. Revestiu-se a festa de brilho indisfarçável. Acionadas por longos tacos de marfim. nem ampara os animais. orgulhoso.

aconselhavam: — Zezélia. em companhia de um burro. depressa. — Esmola pelo amor de Deus! — clamava o dia inteiro. No fim do dia. deixando a terra livre e agradável. aprende primeiramente a obedecer com o burro que soube receber a bênção da disciplina e o valor da educação. pessoas amigas. entretanto.. carregando estas pedras para o fosso vizinho? O menino respondeu: — Não posso. Em seguida. o segundo. permaneceu amuado. As árvores. havia muitos anos. o animal prontificou-se a transportar os calhaus. Em todas as medidas iniciais da lavoura. Se desejas encontrá-lo. ladeados por fios de água benfeitora. o pesado animal agia cuidadoso. Alucinado de júbilo. quando o emissário celeste se dirigiu ao burro. quando se encontrava no campo. ansioso: — Anjo querido. numa bonita manhã. No instante de mover o arado. a fim de auxiliar a Natureza que tanto nos dá. ajudou quanto pôde. o rapazinho desfez-se em palavras feias.. gritou. mas o menino recusava-se a contribuir. quero seguir contigo. em derredor. o rapazelho gritou: — Mensageiro de Jesus. Fixou o olhar mais docemente na criança e rogou: — Queres ajudar-me a limpar o chão. produzindo algo de útil. mas disposto a mudar de vida. fugindo à colaboração. Vendo o menino que o mensageiro se punha de volta. dirigindo-se aos transeuntes. O pequeno.24 O APRENDIZ DESAPONTADO Um menino que desejava ardentemente residir no Céu. O emissário divino respondeu. o anjo passou a dar ordens de serviço em voz alta. verificou-se o mesmo quadro: o pequeno repousava e o burro trabalhava. recebeu a visita de um anjo. contudo. sentada à porta de imundo telheiro. quero o paraíso! que fazer para chegar até lá?! O anjo respondeu com gentileza: — O primeiro caminho para o Céu é a obediência e. colaborando eficientemente com o lavrador celeste. agradecendo-lhe a contribuição. a um canto. quero ir para o Céu!. Todavia. O enviado de Deus então disse: — Venho a este campo. porém: — O paraíso não foi feito para gente preguiçosa. Reconheceu. o campo estava lindo. No momento de preparar a sementeira. 25 A FALSA MENDIGA Zezélia pedia esmolas. que não parecia muito diligente. De quando em quando. o jovem. A Lua apareceu espalhando intensa claridade. deixando o rapazinho desapontado. depois de lhe darem um níquel. ficou pensativo. é o trabalho. em silêncio. mas não se animava a enfrentar qualquer disciplina de serviço. pelo sorriso bondoso e pela veste resplandecente. cheio de saúde e leveza. enquanto o burro ia obedecendo. pacientemente. O anjo abraçou o obediente animal. O vento deslizava tão manso que mais se assemelhava a um sopro divino cantando nas campânulas do matagal. você não poderia plantar algum milho? . E assim esclarecendo subiu para as estrelas. O muar disciplinado. Não era tão doente que não pudesse trabalhar. choramingando sem saber porquê e acusando não se sabe a quem. Canteiros bem desenhados surgiam ao centro. pareciam orgulhosas de protegê-los. o emissário de Cima.

o papai.. . arrastando atenções de toda a casa. chorou e se queixou Zezélia que. quantos males foram atraidos por seu gesto de cólera!. Você foi simplesmente preguiçosa. Não agüento. Não posso. bondoso: — Zezélia. — Nem pensar nisto. O anjo. Ela acordou em meio dum campo muito escuro e muito frio. sentiria compaixão.. a fim de socorrêla.. vamos vender flores! — convidavam algumas jovens que se compadeciam dela.. — E o bordado.. A agulha é uma boa companheira. Voltou-lhe a dor-decabeça e o coração tornou a descompassar-se. minha senhora. minhas filhas!.. Cerrou-se-lhe aos olhos o horizonte de luz e.— Não posso. aflita... você pronunciou palavras feias em voz alta. não cuidou de flores. chegando ao serviço com grande atraso. sem ânimo. nada tem a colher. eu era mendiga.. um anjo apareceu e disse-lhe... em certa manhã... Ah! meu filho. Zezélia vivia prostrada. entretanto. — Zezélia. suspirando. Zezélia! — você não era mendiga. Quem não planta. em virtude da sua leviandade. foi encontrada morta e a caridade pública enterrou-lhe o corpo com muita piedade. Tanto pediu. não amparou crianças. dirigiram-se precipitadamente para o quarto. A velha começou a chorar e rogou em pranto: — Tenho sofrido muito!. As duas irmãs. Você não cavou a terra. a sofrer essa pena.. não costurou o pano. Quem o visse. às escuras. — Zezélia.. assim. — respondia logo. não teceu fios. quem sabe poderia você beneficiar alguns quilos de café? — Quem sou eu. compadecido. teimosa — e falta-me suficiente energia.. não cuidou de plantas. Afirmava sentir dores por toda parte do corpo. que não almoçara por não dispor de alimentação. pelo socorro de Deus. sem alegria. Depois de muito tempo. clamava que não bebia café por falta de açúcar.. Zezélia? — interrogava a vizinha. Quando aprender a trabalhar. não ajudou os animais. prestativa — você tem as mãos livres. foi compelido a esperar mais tempo em casa. a fim de renovar-se. E. meu filho? não tenho forças. — Mas.. muito contrariado. e duas terças partes do almoço ficaram inutilizadas. da tonteira e do resfriado com longas palavras que raras pessoas dispunham de tempo para ouvir. Além das lamentações contínuas. Zezélia voltou para a Terra.. — Não posso andar. não fêz pão. Seu chefe não estava disposto a tolerar-lhe a falta e recebeu-o com repreensão áspera. contudo. chame por nós e receberá o socorro celeste. 26 O GRITO DE CÓLERA Lembra-se do instante em que gritou fortemente.. — Não tenho os dedos seguros — informava. não tratou nem mesmo de sua saúde e de seu corpo. correu para o interior. Quem sabe poderá ajudar-nos? Receberá compensadora remuneração. replicou: — Não. Todos os vizinhos e conhecidos julgaram que a alma de Zezélia fora diretamente para o Céu. —exclamava. não foi assim. não varreu a casa. então: — Nada podia fazer. não lavou roupa.. muito aflita. erecto e digno. desrespeitando a paz doméstica. Dava notícias da tosse.. A Mamãe. muito vaidosa — já sou conhecida na Casa Celestial? — Há muito tempo — informou o emissário. que cuidavam da refeição. quero o amparo do Alto!. não fiou o algodão. antes do almoço? Por insignificante questão de vestuário.. ouça! — esclareceu o mensageiro —o auxílio divino é para quem trabalha. Como pretende receber as bênçãos de Cima? A infeliz observou. Em razão das circunstâncias provocadas por sua irreflexão.. Achava-se sem ninguém e gritou. que deseja você? — Ah! — observou. — Não desejaria lavar roupa e ganhar algum dinheiro? — indagavam damas bondosas.

mais vastos. através de laços que procedem dos desígnios divinos. quando o velho companheiro te pede alguns níqueis. Em muitas ocasiões. Como foste injusto!. Vi. meu filho. todavia. sacrifícios e lágrimas! Tudo porque você. Reclamas longos dias para examinar pequenina questão. proferiste palavras feias. inconscientemente. solucionando problemas dos outros. e não repita a Todos estamos unidos. O golpe do machado derruba a árvore de vez. quando o velhinho se aproximou para servir-te. referente ao teu bem-estar. desastradamente. observado na oficina qual se fora um menino vadio e imprudente. perfeitamente. exiges o automóvel para a viagem de dois quilômetros. émuito pior. Contudo. Forças superiores impelem-nos uns para os outros. É relaxado aos teus olhos. suportou as consequências de seu gesto impulsivo.. ameaçando o mundo inteiro. A cólera é força infernal que nos distancia da paz divina. Medicamentos de alto preço. o antigo servidor já vencera muitos invernos e servira a muita gente. e ele é um homem de bem. dificuldades e desgostos. quando se demora a movimentar-se a teu mando. ajudando-o a refletir. todavia. reciprocamente. se pôs a berrar. 27 CARTA PATERNA Meu filho. Pense na lição. Porque não aprende a falar e a calar.porque você não passa de um jovem necessitado de disciplina. no amor e no respeito mútuos. Nunca refletiste na neblina que lhe enevoa o olhar? Adquiriu-a trabalhando à noite.. O grito de cólera é um raio mortífero. A própria guerra. A Mãezinha piorou e o médico foi chamado. tem as mãos ílescuidadas e a roupa não muito limpa. por muito tempo. A ação impensada de um homem. ante as imperiosas determinações alheias. não lhe ofereces o ensinamento amigo e nem tempo para cogitar das próprias necessidades espirituais. Quando nasceste. Sabes porque traz ele as pernas trêmulas? Devorou muitas léguas a pé. Humilhado. por vários dias. Os resultados de sua gritaria foram. que extermina milhões de criaturas. e o papai não conseguiu pagar todas as contas de armazém. farmácia e aluguel de casa. Durante seis meses. A ventania destrói um ninho de momento para outro. incapaz de compreender a cooperação alheia. a benefício de todos? Ajude em vez de reclamar. indefinidamente. por sua ira infantil. Irritas-te. recusando a roupa que lhe não agradava. idoso e correto. Ninguém se reúne ao acaso. Entretanto. não tinhas razão em favor da cólera. nunca imaginaste que o apagado servidor jamais encontrou oportunidades iguais às que recebeste. que lhe feriram as fibras mais íntimas. queixas-te contra ele. Trazia um coração amoroso e atento que não soubeste compreender Deste uma ordem que o pobrezinho não ouviu tão bem. que já venceu muitas tempestades para amparar a família e defendê-la. porém. que penetra o círculo de pessoas em que foi pronunciado e aí se demora... despreocupado. trazidos à pressa. de modo a aprendermos a ciência da felicidade. porque novamente te perguntasse qualquer coisa. Cento e oitenta dias de preocupações e trabalhos árduos. provocando moléstias. quanto desejavas. Além disto. Repetiste-a e. mas não vacilas em despender . enfadado. Respondes. impuseram vertiginosa subida às despesas. não é senão a ira venenosa de alguns homens que se alastra. Enfraqueceram-se-lhe os ouvidos. não lhe consagras nem mesmo uma hora por semana. toda a sua família lutou e solidarizou-se para recompor a harmonia quebrada. enquanto dormias.

os processos de ganhar além do necessário e não conseguiu ensejo de ilustrar o raciocínio com o refinamento que caracteriza o teu. ainda. porém. animadamente. Ah! meu filho. esta é a pregação que me ofereces e que desejo continues fervorosamente. acima de nós ambos permanece o Pai Supremo. os movimentos impulsivos de sentimentos Perturbadores. chegado o instante do testemunho cala-te e espera. E pretendes. Tenho discursado em vários templos e comentado a Boa-Nova por onde passo. nesta hora. filho. contrariava-lhe as tendências religiosas. teu pai. Empregou-se sob as ordens de um orientador que lhe não agradou. em noitadas alegres. Classificaste-o de ignorante e cruel. Controlava-lhe as horas com rigor e observava-o com apontamentos acrimoniosos e rudes. ao redor de teus passos. através de teu exemplo? Tua humildade . Senhor? — replicou o jovem — ainda hoje abandonei um homem tirânico para melhor ensinar a tua palavra. um dia. recorda que o monstro da ira indesejável te bate à porta do coração. o rapaz explicou-se: — Quero ser livre para melhor servir a Jesus. atencioso. quando a impaciência te visita o espírito. Um tanto irônico.pequenas fortunas com amigos ociosos. Chego a desconhecer-te porque a fúria dos elementos interiores te alteram a Individualidade aos meus olhos e eu não sei se passas a condição de criança ou de demônio!. nem te insurjas Contra ninguém. olvidas que ele ignora o que sabes. Leu. ensinando a boa doutrina. em várias casas religiosas. acaso. se encolerizasse contra nós? 28 A PREGAÇÃO FUNDAMENTAL Um aprendiz de Nosso Senhor Jesus-Cristo entusiasmou-se com os ensinamentos do Evangelho e decidiu propagá-los. ingrato: que fizeste do dinheiro que te dei? Esqueces que o servo de fronte enrugada não dispôs de tempo e recurso para calcular. como queria ou quando pretendia. E quando a ele te entregas. gastando dias e noites nesse mister. porém. não mais podia agir e falar. respondeu. É provável que guardes alguma reclamação contra mim. porque se julgasse vítima das ordenações de sua chefia. Chegou. as semanas tabeladas e.. Apenas semeía desconfiança e temor. confiei ao teu espírito a pregação fundamental da verdade a um homem que administra os meus interesses na Terra e não soubeste executá-la. sentiu-se tão independente e tão satisfeito que discorreu. quanto lhe era possível. Reparou-lhe a beleza celeste e ajoelhou-se para beijar-lhe a túnica resplandecente. — Sim — exclamou o Mestre —. Tinha os minutos contados. estampava na fisionomia dolorosa e indisfarçável tristeza. porque te sentes amargurado? O Cristo. Era obrigado a consagrar largos dias a trabalhos difíceis que lhe consumiam todas as forças. e que seria de ti e de mim. se Deus. porém. com exatidão. O discípulo inquietou-se e interrogou: — Senhor. sobre a doutrina cristã. Nesse dia de folga absoluta. até depois de meia-noite. O proprietário que o empregara indagou do motivo que o levava a semelhante resolução. Se não podes conter. entretanto. alta madrugada sonhou que o Mestre vinha encontrá-lo. por isto. desconhecer que o orientador humano que te dei somente poderia abordar-me os ensinos. enquanto vivesse. o momento em que precisou pagar as próprias despesas e foi compelido a trabalhar. No entanto. a pregação que te confiei? — Como assim. Não posso. aceitar o cativeiro de sua casa. O pregador do Crucificado não mais se movimentava com a liberdade de outro tempo. meu filho. pois. Não ameaces com a voz.. Interrogas. Imprevidente tuas conquistas mais elevadas tremem nos alicerces. procurou o diretor do serviço e despediu-se. Repousando.. as lições do Mestre e começou a comentá-las por toda parte. Jesus. nas quais te mergulhas em fantasioso contentamento. todavia. Porque eu também sou ainda humano. melancôlicamente: — Porque desprezaste. feliz. A cólera nada edifica e nada restaura.. as oportunidades divididas. Esse diretor de serviço achava-se muito distante da fé e. Prosseguia.

.. intensamente feliz.. De manhã.. Despertarás o . entendendo que tudo devia fazer por não trair a confiança do Céu. mas. exclamando: — Entre! Estamos ao seu dispor. não me submetas!. o Cristo afastou-se num turbilhão de luminosa neblina. Anotou a boa vontade e o sincero desejo de servir de que o empregado dava agora vivo testemunho e passou a refletir na grandeza da doutrina que assim orientava os passos de um homem no aperfeiçoamento moral. que converta um só coração ao Infinito Bem. notou que o barro retrucava: — Oh! não. através de peregrinações pelos móveis de luxo. Comparecerás à mesa de meu lar. que determina sobre o tempo de duzentos homens. Ajudarás aos sedentos que se aproximarem de ti. em que a límpida água repouse. Contemplou-o. converter-te-ei. caso seja possível. Poderás ensinar o caminho celestial a cem mil ouvidos.. se faria melhor.. entretanto.. Acordou. transformar-te-ei numa caprichosa ânfora destinada a depósito de perfumes. modificar-lhe-ia o coração. enlevado. Ficarás conosco e serás companheiro de meus filhinhos. estabelece com mais presteza a redenção do mundo!. considerou: — Desejo dar-te forma por amor. às cenas de glutonaria em tua casa? não. procurou o diretor de quem se despedira e pediu humildemente: — Senhor. num pratO honrado e robusto. O aprendiz desejou perguntar alguma coisa. — Jamais! — bradou o barro. mais humano e mais nobre. não podemos servi-lo por intermédio da indisciplina ou do orgulho pessoal. por si mesmo. E ele. então. Transportar arroz cozido e agüentar caldos gordurosos na face? assistir. porém.. não por ódio. — Oh! nunca! nunca!. — exclamou o barro — isto não! Estaria exposto ao prazer dos inconscientes.. inerme. rogo-lhe desculpas pelo meu gesto impensado e. estaria preparado a caminhar.. que poderia prosseguir na propaganda verbal que desejava e na pregação básica do exemplo que Jesus esperava dele.. Entretanto. O diretor concordou sem vacilação. não me toques para semelhante fim! O oleiro. num laboratório. espantado. tolerando precipitações químicas? por favor. mas a pregação do exemplo. O analista alegrar-se-á com teu concurso valioso. Imensamente surpreendido. afinal. admirado. não quero! Eu.. compreendeu.. O trabalhador dedicado perdoou-lhe a ofensa e acrescentou: — Modificaremos o programa ainda uma vez. na indisciplina — isto seria pesada humilhação. e não mais dormiu naquela noite. Não estou inclinado a suportar essências. porque te recusas ao que proponho. Se lhe desses cinco anos consecutivos de demonstrações evangélicas. 29 O BARRO DESOBEDIENTE Houve um oleiro que chegou ao pátio de serviço e reparou com alegria em pequeno bloco de barro. indagou: — Quem te induziu a esta modificação? — Foi Jesus — respondeu o rapaz —.construtiva. Serás um vaso amigo. sem prejuízo da energia e da eficiência. no espírito de serviço.. sobressaltado. readmita-me nesta casa! aceitarei qualquer gênero de tarefa. ponderou: — Bem.. pôs-se a caminho do estabelecimento em que trabalhara. E o aprendiz do Evangelho que retomou o trabalho comum. Muita gente abençoar-te-á a cooperação.. Sofrerás o calor de forno para que te faças belo e útil. O dono do serviço meditou muito na desobediência da lama orgulhosa. O chefe. na direção do Reino Divino!. em face da cor viva com que se apresentava e falou: — Vamos! Farei de ti delicado pote de laboratório.

bradando: — Não aceito sacrifício. 30 DÁ DE TI MESMO Declaraste não possuir dinheiro para auxiliar. a lama vaidosa foi retirada e — ó surpresa! — não era pote de laboratório. Sem sacrifício e sem disciplina. sem qualquer significação. nem disciplina. jamais te lembraste de agradecer aos gênios espirituais que te proporcionam venturoso descanso. através dos fios brilhantes da amizade fiel. cada noite. em bafejos amigos. recusou a advertência. ninguém se eleva aos planos da vida superior.. não! — protestou a argila — não quero! Seria condenar-me a tempo indefinido nas cantoneiras poeirentas ou nas salas escuras de pessoas desclassificadas. feio pedaço de terra requeimada e morta. Decorrido algum tempo. Antes que pudesse prosseguir. te visita o quarto pela manhã? O oxigênio cobra-te imposto? Quanto te custa a ternura materna? As aves cantam gratuitamente. poupa-me! poupame!. Acreditas que um pouco de papel ou um tanto de níquel te substituem o coração? Esqueces-te. em toda parte.. todavia. Habitualmente sonhas. sem pedir vintém.. Muito acima do dinheiro. nem prato de refeição. meu filho. comunica-te com o próximo. companheiro de teu companheiro. nem vaso para água e. Na ciência de amar. Quanto pagas pelo ar fresco que. pairam as tuas mãos amigas e fraternais. Estende os braços. passou o enfornador arrebanhando a argila pronta. Que importa se alguém te não entende o gesto de amor? Que seria de nós. amigo de teu amigo. quando a bondade não nasce dos cofres fortes. sim. Por favor. aonde fores. alonga o coração. A bênção divina. A árvore abre-te os braços acolhedores. O oleiro cuidadoso considerou. repletos de flor e fruto. A estrela brilha sem pagamento. depois de levadas pela experiência ao forno da morte. preocupado: — Que será de ti quando te conduzirem ao forno? Não passarás de matéria endurecida e informe. mais doce? Tens a fisionomia seca e ensombrada por faltar-te dinheiro excessivo e reclamas recursos materiais para ser bom. O Sol não espera salário. sendo imediatamente atirada ao pântano. Sê irmão de teu irmão. por temer-nos a rudeza e a maldade? Dá de ti mesmo. A fonte que te oferece o banho reconfortador não exige mensalidade. . conduz o teu pensamento a bendito repouso no sono e não fazes retribuição de espécie alguma. nem ânfora de perfume. sem qualquer utilidade ou beleza.. de que podes sorrir para o doente e estender a mão ao necessitado? A flor não traz consigo uma bolsa de ouro e entretanto espalha perfume no firmamento. se a mão do Senhor se recolhesse a distância. Assim acontece a muitas criaturas no mundo. meu filho. e o barro desobediente foi também conduzido ao forno em brasa. colhendo rosas em formoso jardim. Revoltam-se contra a vontade soberana do Senhor que as convida ao trabalho de aperfeiçoamento. mas. junto de companheiros felizes.. O barro. resplandece a sabedoria de dar. necessitando de longo tempo para retornarem às bênçãos da vida mais nobre.. — Não. mais comunicativo. Mostra um semblante sereno e otimista.contentamento e a gratidão nas criaturas!. Porque não aprenderes com a Natureza em torno? Porque não te fazeres mais alegre. se transformam em verdadeiros fantasmas de desilusão e sofrimento. no entanto.

máquinas. Apareceram candidatos a toda espécie de serviços. respondiam: — “para quê ?“ E comiam frutos silvestres. Terra solta amontoava-se aqui e ali. então.31 A LENDA DO DINHEIRO Conta-se que. de modo a colaborar no aperfeiçoamento do vestuário. incentivando-se a produção de benefícios gerais e de valores imaginativos. a maioria das criaturas passou a trabalhar por dedicação ao dinheiro. Vendo. Certo trabalhador suplicou recursos para aproveitamento de grandes áreas na exploração de cereais. Minerais variados estendiam-se ao léu. adivinhando que as criaturas. considerou. Tão logo surgiu o dinheiro. Ninguém se animava a trabalhar. Reterão provisoriamente os recursos que me pertencem e. estradas foram traçadas de norte a sul. mas. em vista da deficiência que. Após refletir muito. Os homens. no anseio de posse. Águas estagnadas apareciam em toda parte. perseguiam animais para devorá-los e dormiam sob as grandes árvores. todavia. Este decreto divino funcionará para cada pessoa. Esta é a minha Lei de Empréstimo que permanecerá assentada no Céu. Outro. Desde então. O Senhor a todos atendeu com alegria. . individualmente. agasalho. presas da ignorância.. improvisarão todos os produtos e materiais de que o aprimoramento do mundo necessita. porque a Morte conduzi-los-á. que é de propriedade exclusiva do Senhor. calçados e inúmeras invenções de conforto. Em breve. as pedras aproveitadas e os rios canalizados convenientemente para a irrigação. cada beneficiário apresentar-me-ácontas do que houver despendido. em particular. produzindo tijolos. assim. de acordo com as exigências do aproveitamento comum. com a sensação da propriedade. O primeiro deles pediu ao Senhor permissão para fundar uma grande olaria. um a um. implorou empréstimo para produzir fios. alimento abundante. livres do grilhão que a posse institui. os frutos foram guardados em conserva preciosa. o Senhor que os homens produziam vantagens e prosperidade. o Senhor entrou em dificuldades no desenvolvimento da obra terrestre. por enquanto. óleos.. desenvolvendo progresso amplo na inteligência e nas coisas. olarias e lavouras. se não sabiam agir por amor. da aplicação do qual cada homem e cada mulher prestarão contas a Ele mais tarde. porque os homens se entregaram a excessivo repouso. até que meus filhos. de maneira a transformá-los em utensílios. Cederei possibilidades a quantos mo pedirem. Outro requeveu meios de pesquisar os minérios pesados. O Divino Organizador pretendia erguer lares e templos. E assim aconteceu. ainda. satisfeito: — Meus filhos da Terra não puderam servir por amor. à minha presença. a comunidade fragmentou-se em pequenas e grandes facções. todavia. e. convidados ao suor da edificação por amor. a fim de se tornarem mais destacados e poderosos entre si. instrumentos agrícolas. a terra menos proveitosa foi removida. ansiosamente procurando o dinheiro. educandários e abrigos diversos. teares rústicos e oficinas rudimentares se improvisaram aqui e acolá. lhes assinala a posição. Toda gente perseguia o dinheiro e guerreava pela posse dele. tràbalhavam sem descanso. o dinheiro estabelera benéficas competições entre eles. em benefício da obra geral. operariam por ambição. Servidores de várias procedências vieram e solicitaram auxílio financeiro destinado à criação de remédios. fios. no princípio do mundo. aprendam a servir por amor à felicidade geral. o Celeste Governador criou o dinheiro. de leste a oeste e as águas receberam as primeiras embarcações. com que braços? Os homens e as mulheres da Terra.

Tantas sentenças condenatórias devia proferir diàriamente. porém. Do berço ao túmulo atravessamos apenas um ato do imenso drama de nossa evolução para Deus. e de mim mesmo. e que corrigenda aplicar ao preguiçoso? Está condenado a manejar a enxada ou a picareta. e perguntou. certa noite. Todos somos viajores da vida eterna. — E se o ladrão é um assassino? — Está condenado ao hospício. rigoroso nas aplicações da lei humana. 33 VIVEREMOS SEMPRE Filho. mas fiel no devotamento ao Evangelho. através da educação pelo amor paciente e construtivo — explicou Jesus. dali em diante. por doente da alma.32 A SENTENÇA CRISTÃ Um juiz cristão. Atormentado. surpreso. orou. não se sentindo bem com a própria consciência. Senhor? Está condenado a valer-se de nosso auxílio. endereçou ao Senhor suplicante olhar. conquistando o pão com o suor do rosto. não humilhes os ignorantes e os fracos. — Que farei da mulher pervertida? — interrogou o jurista. prosseguiu indagando: Como agir. fraternidade e educação. e respondeu: Sim. amar e perdoar. até que aprenda a libertar a própria alma. e disse. contudo. distribuir tarefas edificantes e bênçãos de luz renovadora. o senhor veste o traje pobre do operário humilde para conhecer-lhe as duras necessidades. onde se lhe cure a mente envenenada. Efetivamente. o juiz acordou em lágrimas e. seria outro homem. bondoso e calmo. O juiz considerou estranha a resposta. ainda uma vez. e que diretrizes adotar. sonhou que Jesus vinha desfazer-lhe as dúvidas aflitivas. Nesse momento. ante o delinqüente rude. — Mestre. ante um ladrão? — Está condenado à oficina e à escola. depois de longos instantes: — Mestre. — Senhor. O magistrado passou a meditar gravemente e lembrou-se de que deveria modificar todas as peças do tribunal. de posse da sublime lição que recebera. encontrando-se em meio duma sociedade corrompida e perversa. educar e construir. que normas adotar perante um homicida? Não estará lõgicamente incurso nas penas legais? O Cristo sorriu. e o operário humilde veste o suntuoso traje do senhor para conhecer-lhe as duras obrigações na tarefa administrativa. Por vezes. que farei? Jesus sorriu. ao Senhor. serviço. — Está condenada a beneficiar-se de nosso amparo fraterno. substituindo a discriminação de castigos diversos por remédio. . — E o fanático? — Está condenado a ser ouvido e interpretado com tolerância e caridade. sereno: — O cristão está condenado a compreender e ajudar. Ajoelhou-se aos pés do Amoroso Amigo e perguntou: Mestre. lhe esclarecesse o espírito angustiado. de leve. como julgar o ignorante? — Está condenado aos bons livros. Todavia. reconheceu que. Mestre. entre a confiança que consagrava ao Divino Mestre e as acusações que se acreditava compelido a formular. que se lhe endurecera o coração. implorando a presença de Jesus. onde estiver. sob vigilância benéfica. rogou. a fim de que se reerga para a elevação do trabalho e para a dignidade humana. o criminoso está condenado a receber remédio corretivo.

Semeia o bem. a fim de prosseguirmos. em dourado crepúsculo de verão. até que a indispensabilidade da vestimenta física se desvaneça com as encarnações sucessivas. porque o mal dispõe de recursos para surpreender-te.Quando um homem menospreza as oportunidades de tempo e dinheiro que o Céu lhe confia. É da Lei do Senhor que não avancemos sem os braços fraternos uns dos outros. volta ao mundo em outro corpo. Colheremos da sementeira que fizermos. dedicou-se ao filho com todas as forças. mas não obteve resposta. Se saia a buscar alimento. embora resolvida a viver só. Entretanto. com ternura. sobre as quais deslizava contente. garbosa: — “Será meu pintainho! será meu filho!” Em formosa manhã de céu claro. Assim como a flor se destina ao fruto que alimenta. desalentada por haver chocado um ovo que lhe não pertencia à família. viu-o fugir pelas águas de um lago. Quem chega através de um berço risonho. talvez com a perturbação e com a morte. com todos os cuidados. Ajuda e passa adiante. para que te sintas. ao velho poleiro. Quando não puderes louvar. para juntar-se aos escuros bandos de aves iguais a ele. Criou-o. voltava apressada. Ama a todos. Prepara. Ajudemo-los. cheia de instintos maternais. sem paz e sem luz. certo . encontrou um ovo de regular tamanho e espalmou as asas sobre ele. E pensava. repetiu a experiência. à margem de todas as estradas. experimentando a escassez de tudo. a colaboração de que necessitarás. O serviço de redenção assim o exige. o teu conhecimento deve produzir a bondade que constrói e santifica. A desventurada mãe sofreu muitíssiMo. na maioria dos casos é alguém que torna ao campo da carne. Recorreremos ao amparo de muitos. Tratava-se dum corvo esperto que a deixou em doloroso abatimento. robusto. O malfeitor e o vagabundo que se deixaram escravizar pelos demônios da preguiça são igualmente nossos irmãos. em paz. mas. tantas vezes quantas forem precisas. expandindo um coração compassivo para com todas as dores e cheio de amor e perdão para todas as ofensas. Não escarneças do aleijado. Auxilia indistintamente. desde agora. Não recolhas os bens que te não pertencem. No entanto. sem que possas acariciar o que é teu. foi surpreendida. A galinha. desde hoje. e o Senhor Supremo te abençoará. beijava-o. enternecida. voando a pleno céu. Chamou-o.. Nova criaturinha frágil veio à luz. 34 A GALINHA AFETUOSA Gentil galinha. porque a língua viciada na definição dos defeitos alheios regressa ao mundo em plena mudez. Filho meu. voltaremos ainda à Terra.. para que lhe não faltasse calor vitalizante. De quando em quando. montanha acima! Sê irmão de todos. Nem sempre o verdadeiro infortunado éaquele que se debate num leito de sofrimento. voltou muito triste. O bichinho era um pato arisco e fujão. como louca. Protegeu-a.. Teus braços são suscetíveis de caírem paralíticos. assim. Tua boca poderá cobrir-se de cicatrizes. na infância.. decorrido algum tempo e encontrando outro ovo. Não olvides o infeliz bem trajado que cruza as avenidas da ignorância. Lembra-te de que longo é o caminho e que necessitaremos trocar de corpo. em breve. a fim de restaurar-se e aprender. reparou que não era um pintainho qual fora. todavia. através de todos os meios ao nosso alcance. ela mesma. cala-te e espera. os menos felizes. notou que o filhotinho nascia. Não caminhes ao encontro do mal. na direção da vitória final. provisoriamente. aquecendo-o carinhosamente. Não desprezes. provàvelmente. muitas vezes. no centro da grande família humana.

fundamente cristalizados no mal. Recapítulou as esperanças maternas e chocou-o. O caminho humano estende-se. fugiu para uma torre muito alta e não mais voltou. mas sim na soma de benefícios gerais que virão depois dele. Durante o dia. com o transcurso de algumas semanas. convencidos de que Deus fará o resto. De outras vezes. amiga? não desespere. Dentro em pouco. A irmã experiente estampou no olhar linda expressão de complacência e considerou. com as quais assumiram inadiáveis compromissos. em nome do mesmo generoso Senhor que tudo te emprestou no mundo. A cada criatura pertence a claridade ou a sombra. Passou a mirá-la de alto a baixo. A abnegada mãe chorou amargamente. em breve. em sinal de protesto contra o destino. irmãos e parentes diversos que de modo algum se afinam com as nossas tendências e sentimentos. menosprezam as manifestações do bem. se não deste quanto possuis. no entanto. mas. mas permanecem ixnantados a outras pessoas e situações. Somente os espíritos em desequilíbrio extremo. Fez-se superior e desconheceu-a. encontrando outro ovo. repleto de dramas iguais a este. e nem fujas ao irmão desditoso que caiu nas malhas da justiça. nosso Pai. feliz. Amemos sem o egoísmo da posse e sem qualquer propósito de recompensa. 35 NA SEMENTEIRA DO AMOR Ajuda sempre. respiram noutros climas evolutivos. entretanto. Não abandones o enfermo. marrecos. Não podemos obrigar os outros a serem iguais a nós. Não nos aflijamos. Entretanto. filho meu. mais calma.dia. de delicada feição. dava mostras de perturbado e cego. “Terei dado para o bem? terei dado para o mal ?“ — interrogas a ti mesmo. sim. Continue chocando e ajudando em nome do Poder Criador. exalta-lhe a grandeza e intensifica-lhe os dons na Terra. Pensa no bem. Trazem consigo inibições e particularidades de outras vidas que não podemos eliminar de pronto. aqueceu-o e. o filho revelou crescimento descomunal. Em noite mais escura. quando grande galinha mais velha a abordou. em complicadas conjeturas. Sei que é difícil julgar o destino de uma dádiva e. ao grande parque avícola a que se filiava. O mais alto valor do concurso fraterno não está contido no socorro às necessidades materiais de ordem imediata e. Porém. findos trinta dias. observou que o filho já crescido persQguia ratos à sombra. porém. Mas. tanto quanto existem nossos próprios ovos. em tempo algum te negues à cooperação fraterna. Há ovos de gansos. o filhote surgia. se te posso pedir alguma coisa. tranquilamente. A mísera respondeu. A obra do mundo é de Deus. não poderás ajudar ao próximo. dessa vez. Estimaríamos que nos dessem compreensão e carinho. mas. em se fazendo a treva. A glória mais expressiva do perdão não reside tanto na superioridade daquele que o dispensa. A galinha ajudou-o como pôde. mesmo porque a escada para o Céu é infinita e os degraus são diferentes. não se prenda aos resultados do serviço que pertencem a Ele e não a nós. se apenas concedeste migalhas do tesouro que o Senhor te confiou. A galinha afagou-o. curiosa. resignou-se e voltou. por vezes. . Temos filhos. exibia olhos coruscantes que a amedrontavam. Era um pavãozinho orgulhoso que chegou mesmo a maltratá-la. inutilmente. Saiu do galinheiro gritando e dispunha-se a cair nas águas de rio próximo. de acordo com as nossas possibilidades. receando aborrecimentos. a alegria ou a tristeza do degrau em que se colocou. cacarejando: — Que é isto. Era uma coruja nova. sedenta de aventuras. buscou ampará-lo. historiando o próprio caso. temendo dissabores. mas é possível auxiliar a todos. andorinhas e até de sapos e serpentes. perus. Entendeu? A galinha sofredora aceitou o argumento. no estimulo à confiança e à fraternidade. teu pensamento se perde. a indagar dos motivos que a segregavam em tamanha dor. A carinhosa ave. desesperou em definitivo. Aninhou-se. a título precário? Claro que te não rogo favorecer o crime e a desordem visíveis ao nosso olhar. por outro ovo. veio à luz corpulento filhote.

. — Peço esclarecimento sobre o maior obstáculo para a alma. inclusive os mortais. Erra. contudo. sem qualquer expectativa de remuneração? Não te esqueças de que o Mestre foi conduzido ao madeiro da angústia. Com efeito. na marcha para Deus. cria para si mesmo o hábito de auxiliar. Não é mais cristão aquele que serve por amor de servir. Entretanto. passou a elucidar: — Escuta e atende! Se o soberbo trabalhasse para o bem de todos. podemos reduzi-los àunidade. não olvides que é necessário plantar muito amor. E se o invejoso utilizasse a existência. 36 O MAIOR PECADO Um sacerdote sábio. não se escravizaria aos apetites devastadores que lhe arruinam o corpo e a alma. O emissário da Esfera Superior. por ajudar e amar sempre. não raro. em pouco tempo. aprende a esperar. não encontraria ensejo de cultivar o orgulho e a vaidade que o levam a acreditar-se ponto central do universo. desejando ensinar o caminho do Céu aos crentes que confiavam nele.. na ascensão para o Alto.. porque todos estamos sob o olhar da Vigilância Divina.. não gastaria tempo acompanhando maliciosamente as iniciativas do próximo. gula. Se o avarento conhecesse a vantagem do suor. por séculos numerosos. porque nossas faltas variam ao infinito. Se o homem inclinado à tentação dos prazeres fáceis aprendesse a despender as próprias forças em favor da elevação coletiva. O anjo sorriu e considerou: — A solução é simples. lhe fôsse revelado qual o maior impedimento contra a iluminação espiritual. rola o espírito no despenhadeiro infernal. aguardando-me a palavra!. Aquele. Como vê. não envenenariam a própria saúde com remorsos e angústias injustificáveis. desejaria explicações mais claras. Todavia. o maior dos pecados. inveja e preguiça. na Terra. É imprescindível cemear. porém. rogou a Jesus. Mensageiro de Deus! — clamou o sacerdote — venho rogar a verdade para as ovelhas humanas que me seguem... Será melhor assim. luxúria. Ouve! Estamos à frente do tempo infinito. avareza. quanto ao problema do mal. dormiu e sonhou que era conduzido à Porta Celestial. suplicou: — Oh! anjo amigo. atingindo sublimes virtudes. aclara-me o entendimento! Há muitos aprendizes. complicando o próprio destino. a endurecer o coração. Todos os pecados. Sob a influência de semelhantes monstros. curioso. na felicidade dos semelhantes. porém. Não adubes o vício e o crime. de mente limpa. — Que pretendes saber? — indagou a entidade angélica. não disporia de ocasião para prender-se às paixões aniquiladoras que o arrastam ao crime. Quais são os pecados a que te referes? O ministro da fé movimentou os dedos e respondeu: — Soberba. no trabalho digno.. O homem que ajuda por vaidade e ostentação. em calculista da piedade. Se o guloso vivesse atento à tarefa construtiva que lhe cabe no mundo. acrescentou: — No fundo. auxiliando. Se as pessoas facilmente irascíveis estivessem dispostas a servir de acordo com os designios divinos.. O sacerdote. não se entregaria à volúpia da posse que o obriga a acumular dinheiro inütilmente. procedem de uma fonte única.. quase sempre. que muito fiscaliza os beneficiados e raciocina com excesso quanto ao “dar” e ao “não dar” converte-se. . é a preguiça.Se tua bondade não for compreendida. O mensageiro. Sei que temos sete pecados mortais que aniquilam em nós a graça divina. sem qualquer presunção de superioridade. depois de longas meditações e sacrifícios. para que o amor nos favoreça. Deles nascem as demais imperfeições. ira. a causa primordial de todos os males..

O jovem que recusa a orientação acertada dos mais velhos que lhe desejam o bem. O soberano. procede qual lavrador leviano que reprova a boa Estimas as longas incursões no pomar. enquanto o companheiro estranho ao teu lar pode ser o amigo de alguns dias. o papai ser-te-á o amigo e benfeitor de muitos anos. não se afastarão do caminho justo. fêz convite público aos cientistas do País. Sem carinhosas mãos que as protejam. Recompensaria nababescamente a quem lhe curasse o filho. O tempo dará corpo aos princípios inferiores ou superiores que abraçares e. esparramado numa espreguiçadeira. vinha-lhe a dor nos braços. o povo reparou que o ministro modificara as pregações.Dá trabalho edificante às tuas ovelhas e convence-te de que. Ontem. as pernas se punham a doer. Acreditas. todavia. sofrem insistentes perseguições de detritos e vermes. os braços maternos. na ânsia incontida de aprovação aos teus caprichos juvenis. chegavam e saíam. Diz antigo provérbio: “com o tempo. Sobretudo. ante as observações paternas que te contrariaram os propósitos impensados. no entanto. edificado. preocupado. não te impressiones com a fantasiosa opinião de colegas da rua. intempestivo. Referiu-se teu pai às necessidades do espírito. do dia seguinte em diante. a folha da amoreira converte-se em veludoso cetim”. Perdera o gosto de colher os pêssegos saborosos do pomar. não estudava. O sacerdote não mais teve o que perguntar. na posse do serviço. Não te revoltes contra a sementeira de reflexão e bondade que o carinho paterno realiza em teu espírito. muitos dias de vigilância requerem do pomicultor antes de nos atenderem na chácara. Despertou. com acentuada tristeza. Reclamava tão sômente plena autoridade sobre o . não comia. que as árvores excelentes teriam crescido sem cuidado? admites que a vinha não necessitou de amparo em pequena? Todas as plantas. hoje pretendias uma excursão inconveniente. Não exigia pagamento. Os facultativos. 38 O REMÉDIO IMPREVISTO O pequeno príncipe Julião andava doente e abatido. Vivia tristonho e calado no quarto. injusto. buscaste. 37 APONTAMENTO Manifestaste Indisfarçável aborrecimento. longe de lhe entenderes a nobreza do gesto. o rei experimentava muitos médicos. sem resultados satisfatórios. Quando os braços melhoravam. quando as laranjeiras se cobrem de frutos e quando a parreira deita uvas doces. porém. abusaste da alimentação. Enquanto a mãezinha. Ignoras que o mesmo acontece no campo do coração? As más experiências de uma criança acompanham-na a vida inteira. porém. Não brincava. ser-lhes-ia impraticável o desenvolvimento e a frutificação. Foste. apareceu um velhinho humilde que propôs ao monarca diferente medicação. mormente as mais tenras. aflita. Depois de muitos médicos famosos ensaiarem. O menino sentia grande mal-estar. se desvelava junto dele. mas não podemos esquecer que também com o tempo as águas desamparadas e esquecidas se transformam em pântano. embalde. Esquecera a peteca e o cavalo. e. Quando se lhe aliviava a dor de cabeça.

O pai aceitou as condições e. tentou recompensar o velhinho. em companhia de outros jovens da mesma idade. Julião aprendeu a manejar os instrumentos menores de um pedreiro e alimentou-se ainda melhor. rondavam a terra. Veio o Sol. Julião era restituído à autoridade paternal. ao fim de algum tempo. em minutos breves. que sempre nos guiava. que os homens exigiam nossa carne e resignamonos. reconhecidamente. sem impaciência. por ignorância. noutro tempo. Você já notou o pastor. de que o esforço era viável e. O rei. na maioria das vezes.. Se você perseguir-nos. Julião deveria fazer o que lhe fôsse determinado. Ensina a glória do serviço aos teus filhos e tutelados e o teu reino será abençoado. Transcorridos dois meses. Às vezes. suplicando ajuda. . arrastando-nos espantados e semi-vivos à água fervente. até ao matadouro. esperando no Supremo Criador que tudo vê. conseguíamos escapar por momentos. Todavia. ataquem os grelos tenros da verdura e das árvores. muito satisfeito. brincava e passeava. para. contente. como a reparar onde estava o campo mais necessitado de chuva. em desejos de ser útil. devorando germens e flores. sem comiseração por nossas fraquezas. revoltámo-nos. através de currais. o maior salário de um homem reside na execução da Vontade de Deus. Compreendemos. que ele mesmo auxiliava o verdugo a enterrar-nos o cutelo pela garganta a dentro. Um pouco antes do meio-dia. A princípio. depois. gentis. O sábio anônimo conduziu-o a pequeno trato de terra e recomendou-lhe arrancasse a erva daninha que ameaçava um tomateiro. Descobrimos. quem lhe suprirá o lar de leite e ovos? Não temos paz em nossas furnas e ninhos.. Descobrira. terminada a última refeição.doentinho. No dia seguinte. Somos imensa classe de servidores da Natureza e criaturas igualmente de Deus. enxugou-lhe o suor copioso e levou-o a almoçar. obrigados que estamos a socorrer as necessidades dos homens. as nuvens. desiludidos. afinal. o orientador traçou-lhe novo programa. — Não posso! estou doente! — gritou o menino. Logo após. rosado. O jovem devorou a sopa e as frutas. Julião disse ao velho que sentia fome. conquistam-nos a amizade e a confiança. ansioso por fazer algo de bom. no dia imediato. nos decretarem a morte. agora. pocilgas e galinheiros. almoçava e repousava. Somos nós. o menino foi entregue ao ancião. passou o vento. o ancião esquivou-se. tomava livros e cadernos para estudar e. acrescentando: — Grande soberano. entregando-nos a impiedosos carrascos. à noitinha. Após ligeiro descanso. enfim. no alto. em seguida. forte e feliz. Dito isto. nem nos suponha seus adversários. que. garantimos o adubo às plantações e defendemo-las contra os companheiros daninhos. convenceu-o. o ancião levou o príncipe a servir na construção de pequena parede. 39 DOS ANIMAIS AOS MENINOS Meu pequeno amigo: Ouça. que o serviço para o bem é a mais rica fonte de saúde. Finda a primeira semana. através do trabalho digno. Levantava-se de manhã para o banho frio. desapareceu na multidão e ninguém mais o viu. robusto e feliz. antes do entardecer. e víamos. contudo. O velhinho. um protetor incondicional que nos salvava do perigo por amor e lambíamos-lhe as mãos. As donas de casa que comumente nos chamam. porém. obrigava-se a cavar a terra com uma enxada. gostosamente. orientando-nos cuidadosamente? Julgávamo-lo. Não nos faça mal. voltaram a trabalhar. Cuidamos da sementeira para que lhe não falte o pão. ainda que muitos de nossa família. O sábio humilde sorriu. ambos libertavam as plantas da erva invasora. Ardia. tornando até ele.

. as borboletas. de certo. quando os vários reinos da Natureza já se achavam apaziguados e enquanto o ouro e o ferro repousavam no sub-solo. O Todo-Misericordioso mandou anotar a referência do Homem e continuou a ouvir as outras criaturas. escrupulosamente.Não nos rebelamos. o globo terrestre é nossa gloriosa oficina. experimentamos falta de alguém que nos faça companhia. ainda não pode haver adquirido o gosto de matar.. Nas pastagens rasteiras. Você ainda é pequeno e. E o Supremo Senhor. esperando de seu coração aquele amor sublime que Jesus nos ensinou? 40 A LENDA DA ÁRVORE No princípio do mundo. Grande Rei. a fim de ouvi-los. estamos inseguros em toda parte. vagueio sem descanso durante as horas de sol. tudo é belo no mundo. contudo. sinto aflitivo calor cada dia. . todavia.. mas preciso de alguém que me ajude a conservar as águas. o homem. onde repousarei? Em último lugar... observando-nos. Grande é a minha fadiga e a resistência cada vez menor. não posso construir a casa. os padecimentos e humilhações. Minha esposa. colocarmo-nos de mãos postas. que se aproximou do Altíssimo e informou: — Meu Pai. Por que motivo.. os passarinhos. a fim de atendermos à refeição de alguém. entretanto. As árvores robustas e acolhedoras haviam surgido. bom amigo. Não terei a graça de um ser amigo que me proteja e defenda? Logo após. No dia imediato.. por isto mesmo. Não é justo. mas não tenho recursos para fazer meu ninho. em torno do lar. venho cumprindo os meus deveres na Terra. surgiu gracioso passarinho e suplicou: — Celeste Monarca. Aproximou-se a Corça e rogou: — Poderoso. Ignoramos se hoje mesmo seremos compelldos a abandonar nossos filhinhos em lágrimas ou a separar-nos dos pais queridos. Veio o Cavalo e reclamou: — Eu também. ante o seu olhar bondoso. De qualquer modo. todavia. notando que os serviços planetários se desdobravam regularmente. Veio o Boi e falou: — Senhor. os animais de grande porte. então. toda a Terra apareceu diferente. estou exposta à perseguição de toda gente. estou muito bem... apreciando-nos os sacrifícios. Ajude-nos a produzir para o bem. tanto quanto eu. assim. O Supremo Soberano ficou pensativo e prometeu providenciar. as ervas e as águas viviam na superfície da Terra. representando a sublime resposta de Deus. se lembrará você de apedrejar-nos sem piedade? Não nos maltrate. chegou o Rio e disse: — Grande Senhor. e nos auxilie a criar os filhinhos. recebi a bênção da vida. Sabemos que há um Pai bondoso e justo.. Adiantou-se a Borboleta e implorou: — Meu Deus. se sente muito feliz. chamou-os ao seu Trono de Luz. A importante audiência do Todo-Poderoso começou pelo Homem.

de cérebro a cérebro. Descreve-nos a inutilidade das guerras nascidas do ódio que devastaram o mundo. muito raramente lhes observamos os serviços. onde mora a sabedoria dos anjos. Descobre-nos ao olhar maravilhado as civilizações que passaram. o grande legislador. São emissários do carinho entre os filhos e as mães distantes. à nossa disposição. dos juizes. diante do porvir. Aprender a trabalhar com esses pequenos auxiliares da inteligência é buscar tesouros imperecíveis. Separam-se. aprendemos quanto sofreram nossos antepassados. ao seu toque espiritual. Quem os não conhece? Estão nos documentos mais importantes. Repete-nos o que Sócrates ensinou nas praças de Atenas. Esses soldadinhos humildes e prestimosos são as letras do alfabeto. . assim como quase nunca nos lembramos de louvar a água. quando não para a brutalidade. o vento e a planta. Revela-nos o passado e prepara-nos. 42 O AMIGO SUBLIME É sempre o amigo sublime. de onde se expandem. enriquecem a vida. Educa sem ferir-nos. dos médicos. sem qualquer remuneração.41 O EXÉRCITO PODEROSO O exército poderoso. Dão notícias de outras regiões e de outros climas. O Egito resplandecente dos faraós. Em companhia desses auxiliares pequeninos. Vivem no pensamento. cresceríamos para a sombra. Junto dele. Sem eles. para a redenção e felicidade do mundo. Sem a cooperação deles. entrelaçam-se e dominam o grande país das ideias. amparando-nos os interesses e as realizações. O castelo da cultura humana começa sobre a colaboração deles e vai até à pátria divina. Conta-nos o que realizou Moisés. e humildade no caminho da experiência. Nada reclamam pelo trabalho que nos prestam. Os maus se utilizam deles para fazer a guerra. Jamais se cansam. dos artistas. Alimentam as raízes dos valiosos conhecimentos dos administradores. Lembra-nos a palavra de Platão e Aristóteles. que representam gloriosas dádivas do Altíssimo. movimentam-Se. Contam as surpresas do Céu. Ajuda-nos no entendimento de nós mesmos e na compreensão de nossos vizinhos. porém. está constituído. No entanto. eles nos servem sem recompensa. desfilam ante a nossa imaginação. a Jerusalém dos hebreus. Diverte. Instrumentos das luzes espirituais que se transmitem. Aconselha-nos quanto à sementeira de tranqüilidade e alegria. Fornecem avisos preciosos. o mundo não seria tão belo e a vida não seria tão boa. Dá-nos coragem para o trabalho. penetramos os santuários da ciência e da arte. Raros recordam os benefícios imensos que todos devemos a esses ajudantes minúsculos. na atualidade. por vinte e três soldadinhos do progresso. Fazem as mensagens telegráficas e as receitas dos médicos. aperfeiçoando a vida. explicam alguma coisa das estrelas longínquas. na conquista do bem-estar de que gozamos presentemente. porque o acesso ao reino espiritual se tornaria extremamente difícil. os bons empregam-nos na edificação da paz e do conforto. edificando-nos o caráter. a Grécia dos filósofos e artistas.

Até mesmo a esposa do peru pregador foi também morta. a fim de ouvi-lo. De quando em quando. É. que deviam todos eles continuar. Não era. patinhos e perus. aprendeu a transmitir os ensinamentos de Jesus. ante o Sol rutilante do Natal. matando-os. merecendo a estima e o respeito universal. esclareceu aos companheiros que a ordem de matar não vinha de Jesus. desculpar os transviados e socorrê-los. As aves passaram a venerar o Evangelho. a esse amigo abençoado que devemos a coleção de notícias e ensinamentos de Jesus. comentando as bem-aventuranças prometidas pelo Divino Amigo aos que choram e padecem no mundo. e a lição preciosa dos homens mais velhos não chegaria aos ouvidos dos mais novos. amando o Senhor e servindo-o. aceitara a morte de sacrifício igual à delas. então. Tão versado ficou nas letras sagradas que passou a propagá-las entre as outras aves. acrescentando que lhes cabia perdoar setenta vezes sete. por fim. a indústria. não nos esqueçamos de que todo livro consagrado ao bem é um companheiro iluminado de nossa vida. depois de se referirem excessivamente ao amor que dedicavam a Jesus. ali mesmo. . ao cair da noite. assegurava que Jesus-Cristo era o Salvador do Mundo. bem como os patos. era visto a falar em sua estranha linguagem “glá-glé-gli-gló-glu”. mas interiormente são lobos devoradores”. porque as aves se recordaram de que o próprio Senhor. currais e. Até os pintainhos se aquietavam sob as asas maternas.Sem ele. laçaram frangos. As aves aflitas rodearam o doutrinador e crivaram-no de perguntas dolorosas. imenso reconforto na comunidade atormentada e aflita. mas os perseguidores. Esse inesquecível benfeitor do mundo é o livro edificante. O peru. eis que alguns homens vieram aos lagos. naturalmente. Achava-se igualmente cansado e oprimido. compreendido pelos homens. o peru recitou o capítulo cinco do mesmo evangelista. colocara o amor das criaturas umas para com as outras. que os homens degoladores estavam anunciados no versículo quinze do capítulo sete. então. que vêm até vós vestidos como ovelhas. entre os milênios que já se foram e o dia que vivemos agora. por isso mesmo. que preferira a morte no madeiro a ter de justiçar. que esclarece: — “Acautelai-vos. em pleno desconhecimento uns dos outros. todavia. muito confiante. Como louvar um Senhor que aceitava tantas manifestações de sangue na festa de seu natalício? como explicar tanta maldade por parte dos homens que se declaravam cristãos e operavam tanta matança? não cantavam eles hinos de homenagem ao Cristo? não se afirmavam discípulos dEle? precisavam. havia em toda parte enorme tristeza e irremediável angústia de coração. ante o assombro geral. galinheiros. para alcançar a Ressurreição Gloriosa. entendiam-no perfeitamente. Dizia que todos os seres. prometeu responder no dia seguinte. muito contrafeito. de tanta morte e tanta lágrima para reverenciarem o Senhor? O pastor alado. 43 O PERU PREGADOR Um belo peru. Por isto. as galinhas. a religião e a ciência provavelmente não surgiriam à luz da realidade. Mas os outros perus. Quando o silêncio se fez no terreiro. dos falsos profetas. que viera alumiar o caminho de todos e que. garantindo a fórmula de verdadeira felicidade na Terra. deveriam perdoar aos inimigos. Em seguida. perderíamos as mais belas notícias de nossos avós e a obra da vida não alcançaria a necessária significação. chegado o Natal do Mestre Divino. ainda. distribuíram pancadas e golpes à vontade. esperando-lhe também as divinas promessas. do Apóstolo Mateus. Na manhã imediata. porém. que renovam a Terra para o Reino Divino. entre os que ensinam e aprendem. após conviver largo tempo na intimidade duma família que dispunha de vastos conhecimentos evangélicos. Houve muitos gritos e lamentações. alegando a festa do Cristo. É o traço de união. por base de sua doutrina. os mais elevados ideais do espírito humano morreriam sem eco. o comércio e a navegação não possuiriam pontos de apoio. Começava o comentário das lições do Evangelho e o terreiro enchia-se logo. Explicou. passaríamos na Terra. Verificou-se. para viverem tranquilos e contentes. os gansos e os marrecos.

e. repetia: — “Senhor. sonhou. quero ser tua! quero servir-te!. a batata e o trigo. a cair-lhe dos ombros com graça e beleza. observando que o ideal da filha só merecia louvores. o leito é um santuário horizontal. Onde estivermos. o administrador ou o poeta não conseguem trabalhar. tanto quanto a pena. deixava-a em paz com os estudos e orações de cada dia. Ninguém suponha que. com a pena. concretizam os ideais superiores. nas mãos operosas ao oleiro. manejada pelo homem. O barro desprezível. são os lavradores quem lhes ofertam recurso ao jantar. segundo a Sua especialidade a benefício da Prosperidade comum. Para isso. cooperando na construção do lar. quando se não achava na escola em contacto com os livros. parecia de neve coroada de sol. em lágrimas. O arado arroteia o solo e traça linhas das quais transbordarão o milho. A janela é um poema silencioso a comunicar-nos com a natureza externa. A túnica luminosa. . a boa menina fez-se humilde e crente.44 SOMOS CHAMADOS A SERVIR O legislador. sem limpeza. 45 O ANJO DA LIMPEZA Adélia ouvira falar em Jesus e tomara-se de tamanha paixão pelo Céu que nutria um desejo único — ser anjo para servir ao Divino Mestre. de maneira diferente Cada trabalhador em seu campo seja honrado pela Cota de bem que produza e cada servo Permaneça Convencido de que a maior homenagem suscetível de ser prestada por nós ao Senhor é a correta execução do nosso dever. certa noite. Decorridos dois anos de rogativas. A plaina corrige a madeira bruta. a Divina Inteligência que dirige os serviços do mundo! Se cada árvore produz. em breve surge metamorfoseado em vaso precioso. suplicava ao Senhor a transformasse num anjo. Se os juizes se congregam nas mesas de paz e justiça. Louvemos. O escritor utiliza o mesmo instrumento e escreve livros que renovam o pensamento do mundo.” A Mãezinha. convidando ao descanso. enchendo os celeiros. e. as aspirações de serviço e os impulsos nobres da alma. O malho toma o ferro e transforma-o em utilidades preciosas. é o tecelão quem lhes agasalha o corpo.. lembremo-nos de que Somos todos chamados a servir na obra do Senhor. a arte e a beleza. Adélia sorria. embalde convidava-a aos serviços da casa. não é só a pena que. a fim de que a sementeira progrida. Quando os políticos orientam e governam. O moinho recebe os grãos e converte-os no milagre da farinha. Uma vassoura simples faz a alegria da limpeza e. traça decretos para reger o povo. O prato recolhe o alimento e nos sugere a Caridade. o arroz. A enxada grava sulcos abençoados no chão. dentro da vida. em que os artistas do pincel lembram a passagem do Cristo entre os homens. Cercava-se de lindas gravuras.. em franca luta doméstica. mantinha-se na câmara de dormir em preces fervorosas. os grandes homens sejam sômente aqueles que usam a autoridade intelectual manifestada. Mas. Meses correram sobre meses e a jovem prosseguia inalterável. abraçava-se a ela e reafirmava o propósito de preparar-se para a companhia do Divino Amigo. consegue expressar a sabedoria. que era visitada pelo Mestre Amoroso. Todos os instrumentos de trabalho no mundo. pois. Orando sempre. perante Deus. Jesus envolvia-se em vasta auréola de claridade sublime. A bondosa senhora.

46 NO PASSEIO MATINAL Dionísio. Nimbado de luz. e disse-lhe brandamente: — Abençoada sejas. ouvi tuas súplicas e venho ao teu encontro. que a verdadeira ventura reside em colaborar com o Senhor. Aí se concentra perigoso foco de moléstias. davam a ideia de jóias espalhadas no chão. brilhante. meu filho —esclareceu o moleiro. satisfeito —. Estarei contigo. em toda parte. se o horizonte inflamado de luz. o moleiro. de leve. nosso Pai e Senhor. Vai. aqui e ali. convencida de que o Salvador a conduziria naquele mesmo instante para o Céu. que é a Terra. O Cristo sorriu. guardando. inflamada de comoção jubilosa. Ansiosa de pôr-se a caminho do paraíso. Acordou sobressaltada. Desejas realmente servir-me? — Sim. mas o Mestre afastou-se. as árvores e as flores. Estimo tuas preces e teus pensamentos de amor. o pequeno guiado pela mão paterna. reverente: — Dize. Senhor! estou pronta!. feliz: — Papai. ao regressar da escola. filho — tornou o genitor paciente —. assemelhavam-se a caprichoso tecido verde. em casa.Estendendo-lhe a destra compassiva. — Ouve! — tornou o Mestre. Professoras e colegas comemoraram festivamente o acontecimento. armou-se de enxada e vassoura pediu a contribuição materna. Adélia despertou. cada vez mais. no trabalho. Reinaldo. enfeitado de pérolas. não longe de tua casa. o ar. agradeçote os serviços que me prestas diàriamente. Temos enorme serviço neste mundo mesmo. a pequena distância do teu lar. à passagem do vento. abraçou-a. despertavam. Era dia. tudo. o diretor do grupo escolar lhe conferiu o título de Anjo da Limpeza. e considerou: Não. minha filha! Ajuda-me a salvá-los da morte. compreendendo. muito grandes. docemente. As folhas da erva. punha-se a colaborar com a Mamãe. filha minha! agora. a jovem replicou. o orvalho noturno. Leva-me contigo. nos trabalhos do bem. muito cedo partiu em companhia do filhinho. tudo.. Em dado momento. Chegada a noite. quanto ela mesma. mães devotadas e crianças incautas. a amar-nos uns aos . — Escola? — Sim. auxiliando-te nessa meritória tarefa. Senhor! — respondeu a pequena. Vestiu-se à pressa e procurou a zona indicada. A discípula obediente. — Para que tudo isto? — continuou o petiz contente. Em lágrimas de alegria intensa. A manhã se fizera linda. perguntou. Flores vermelhas. de quem é todo este mundo? — Tudo pertence ao Criador. ameaçando trabalhadores desprevenidos. Meninos Cruéis prejudicaram a rede de esgoto... certo dia.. é obra dEle. mas preciso de alguém que me ajude a retirar o lixo e os detritos que se amontoam. à beira da estrada. aqui devemos aprender. que os próprios homens te reconhecem por benfeitora. zelando também quanto lhe era Possível pela higiene das vias públicas e ensinando outras crianças a serem tão Cuidadosas. de novo. Corajosa muniu-se de desinfetantes. com ternura. o Sol. Os montes próximos pareciam vestidos em gaze esvoaçante. ainda. serás Anjo de Luz no Paraíso. Tanto trabalhou e se esforçou que. na direção de grande milharal. Adélia.. bondoso. revestindo a paisagem numa coroa resplandecente. Anjo da Limpeza na Terra. as águas. As árvores. Nosso Pai não te colocou inutilmente na Terra. A menina preocupada quis fazer perguntas. o Cristo observou-lhe: — Adélia. dormiu contente e sonhou que Jesus vinha encontrá-la. Diariamente. não parou mais. O Sol aparecia. — A fim de recebermos esta escola divina. seguia num deslumbramento. e o foco infeccioso foi extinto.. de leve. sinto-me aflita para comparecer entre os que retêm a glória de servir-te no plano celestial!. feliz. Não sabia o que mais admirar: se o lençol de neblina muito alva. todavia.

desde as margens do caminho até a montanha distante. Surpreso. sacudindo as asas molhadas sobre as chamas devoradoras. o que significava “aprimorar sentimentos”. Repetia a operação. de pronto. já por muitas vezes. Apareceram-lhe feridas por todo o corpo. transformando colinas. agora sôzinho. muito rico. chamou o filho de quinze anos e disse-lhe: — Filho meu. daí. respondeu. Em vão. gritou por socorro. Reconhecendo que ninguém lhe escutava as súplicas. ausentou-se da cidade a que se acolhera e transformou-se em mendigo. mas negava-se a atender. O moleiro fêz uma pausa e interrogou o filho: — Não acredita você que podemos imitar semelhante exemplo? Se todos procedêssemos como a andorinha operosa e vigilante. quanto devemos aperfeiçoar o solo que pisamos. dera-se ao vício de jogar e beber. falecendo em seguida. muito carinhosamente alojou minúsculo cajueiro em local não distante da estrada que llgava o vilarejo próximo à propriedade paternal. contemplando a beleza do quadro matinal. Os anos se desdobraram uns sobre os outros. voltou a indagar: — Então. acumulou as dádivas que recebia dos familiares e. gozando os prazeres inúteis. acredita combater um incêndio tão grande com algumas gotas dágua?“ A avezinha prestativa. em virtude das perseguições de poderosos inimigos na luta comercial. O fogo consumia plantas e ninhos. somos obrigados a trabalhar tanto assim? Como será possível modificar este mundo tão grande? O moleiro pensou alguns instantes e observou: — Meu filho. Reparando que vários mendigos por ali passavam. pomares. a vida lhe impôs amargurosas surpresas. que o equilíbrio do corpo tem limites e sua saúde se alterou de maneira lamentável. contudo. calma: — “É provável que eu não possa fazer a obra toda. Peregrinou pôr muitos lugares e por muitos . papai. em verdade. quando completou vinte anos. Nunca mais cogitou de semear o bem. pôs-se rápida para o córrego não distante. Não podia alimentar-se regularmente. revoltou-se contra as idéias nobres e partiu mundo afora. porém. no dia imediato. todo homem apenas colherá daquilo que plante. envergonhado. indagando-lhe com ironia: — “Você. Sua Mãezinha morreu num desastre e o Pai. planícies e pedras em cidades. Trabalhou. quando se aproximou um gavião preguiçoso. Perdeu a fortuna que possuia. Logo após. porém. Decorrida uma semana. sou imensamente feliz cumprindo o meu dever. ganhou enorme fortuna e gastou-a. edificou reconfortante albergue para asilar viajores sem recursos. aos quais recompensou generosamente. Reinaldo não entendeu. prometeu a si mesmo que procuraria cumprir no mundo todas as obrigações que lhe coubessem na obra sublime do Infinito Bem. empobreceu ràpidamente. fazendas. entendendo a extensão do ensinamento e. ao relento. O rapaz. Duas irmãs mais velhas casaram-se e tomaram diferentes rumos. foi relegado ao abandono. o Espírito de seu pai se aproximava. para que sejas feliz. Acontece. Queria sômente comer à vontade e beber nas casas ruidosas. Os amigos das noitadas alegres fugiram dele. até à madrugada. Muita vez. voltava para a zona incendiada. estábulos. milharais e jardins. embora jamais esquecesse os conselhos paternos. aprimorando sentimentos. sabia perfeitamente o que vinha a ser a remoção dum monte empedrado. Cuida de fazer bem a todos. quando notou que um incêndio lavrava em seu campo predileto. procurando apagá-las. 47 O ENSINO DA SEMENTEIRA Certo fazendeiro. foi àvila e protegeu pequena fonte natural. no íntimo. O filho registravalhe os apelos em forma de pensamentos. rogando-lhe cuidado e arrependimento. em pouco tempo toda a Terra estaria transformada num paraíso. tendo recebido das mãos paternas um presente em dinheiro.outros. entretanto. construindo-lhe conveniente abrigo com a cooperação de alguns poucos trabalhadores. já ouvi dizer que uma andorinha vagueava só. O menino calou-se. Entregue à idade madura. Como não fizera afeições. Branquejaram-se-lhe os cabelos. mergulhando as pequenas asas na água fria e límpida. através de viagens e tratamentos caros. O rapaz ouviu o conselho e.

O cajueiro que plantara convertera-se em árvore dadivosa. tiveste sede e a fonte te saciou. necessitavas de asilo e te acolheste ao lar que edificaste em favor dos que passam com destino incerto. e dormiu. projetou destruir as pobres aves. não encontrou meios de dominar a cabeça de João. filha de Dona Carlota. Abraçando-o. Dirigiu-se. no entanto. como o Espírito da Maldade sômente pode arruinar as pessoas insinuando-se pelo pensamento. a observar se o Quincas. A mãezinha alada. Em sonho. de repente. O gênio sombrio tomara-lhe as mãos e. pensou consigo. Acordou. exclamando: — Aprendeste a lição. Quem sabe algum menino poderia obedecê-lo? Foi a casa de Joãozinho. até que. constrangido. sob as ordens do papai. filho dele. Marquinhos não escutou em forma de voz. o gênio do mal lembrou-se de Marquinhos. a pedradas criminosas. viu-lhe os frutos tentadores. conduziu-o. sob a orientação materna.. Marquinhos era muito mimado pela mãe. afagou-lhe a boca ressequida. numa blusa de tricô. sem que ele o percebesse. no mundo. Correu à residência de Zelinha. O Espírito da Maldade. à procura de alimento. mas Joãozinho estava muito ocupado na assistência ao irmão menor. a meditar na bondade da chuva e nas laranjas do futuro. acrescentou: — Porque deixaste de semear o bem? O interpelado nada pôde responder. desceu a noite e sentiu frio. muito atenciosa. Aquela ação exigia mãos humanas. e. que promove aflições para muita gente. acariciava os filhotinhos. Aproveitou-os para matar a própria fome e seguiu para a vila. Transcorridos muitos dias. obediente. até à árvore em que o ninho feliz recebia as carícias do vento. chegou. um ninho de pássaros felizes. muito contente. com um desejo incontrolável de encontrar avezinhas para a matança. mantinhase. ao sítio de outro tempo. viu o Espírito do pai. Somente mais tarde é que Marquinhos compreendeu que o Espírito da Maldade sômente pode agir. extenuado. aniquilou pai. 48 O ESPÍRITO DA MALDADE O Espírito da Maldade. não conseguiu transmitir-lhe o propósito infeliz. em vista de achar-lhe o cérebro tão cheio das idéias de agulha. à porta de um botequim. um dia. Saiu.. — “Vamos matar passarinhos?” — disse o espírito horrível aos ouvidos do preguiçoso. após o assassínio das aves. Preciso recomeçar a ser útil. por intermédio de meninos vadios ou de homens e mulheres votados à preguiça e ao mal. quando o encarregado do abrigo lhe perguntou o que desejava. Encontrou a menina trabalhando. A corrente cristalina. O Espírito da Maldade notou aquela imensa alegria e exasperou-se. Começou. Tinha doze anos bem feitos e vivia de casa em casa a reinar na preguiça. Ninguém o reconheceu. a buscar a companhia das crianças. à chácara do senhor Vitalino. plantando várias mudas de laranjeiras e tão alegre se encontrava. informou simplesmente: — Preciso tão somente de uma enxada. que nem de leve percebeu as idéias venenosas que o Espírito da Maldade lhe soprava na cabeça. Encantado. na garganta.climas. porque seu nome estava gravado na parede com palavras de louvor e bênção. O menino. então. Quando entrou no recinto. vendo. justamente nessa hora. então. Mataria todos os passarinhos.. o filho de Dona Conceição. fàcilmente. junto a ele. Tinha sede e buscou a fonte. muito tempo depois. Dois homens caridosos ofereceram-lhe os braços e conduziram-no ao velho asilo que ele mesmo construíra. Mas Quincas. As mãos dele estavam desocupadas e a cabeça vaga. Para isto. e. com enorme cigarro à boca. e. necessitava de alguém que o auxiliasse.. com o rosto lavado em pranto. . As lágrimas embargavam-lhe a voz. Fez longa excursão a pé. estava em condições de servi-lo. tão abatido estava. por muitos e muitos anos. de qualquer modo. mãe e filhotinhos. O Espírito da Maldade procurou-o e encontrou-o. sentiu imensas saudades do antigo lar e voltou ao pequeno burgo que o vira crescer. mas ouviu em forma de idéia. derramou muitas lágrimas. Deitou-se. levou-o a cometer muitas faltas que lhe prejudicaram a vida. Em breve. que não o deixava trabalhar e lhe protegia a vadiagem. meu filho? Sentiste fome e o cajueiro te alimentou. fios de lã e peça por acabar. Reconhecendo a impossibilidade de absorvê-lo. bem protegida. com ternura. em determinada manhã. filho de Dona Laura. enquanto o papai voava.

Tinha deveres para com o serrote. o menino desocupado é invariàvelmente um vagabundo. nos domínios da experiência material. assumindo a forma duma criança. as prisões infernais. que não precisava de qualquer amparo humano. Eis porque o jovem mantido à solta. Corrige-nos o entusiasmo. em que possa ser útil ao bem geral. desde os anos mais tenros. modificou o mundo inteiro. o maior embaixador do Céu para a Terra foi igualmente criança. até o verme que se arrasta sob nossos pés. fêz ainda muito mais. E o vagabundo aspira ao titulo de malfeitor. de modo a nos curvarmos. Ensina-nos a obedecer na extensão do bem. com seus exemplos e lições. a fim de santificar os homens e iluminar os caminhos do mundo. nos grandes impérios. nosso Pai Celestial. distanciando-nos das trevas do Dia Perdido. era visto diariamente a trabalhar numa carpintaria modesta. felizes. aproximou as criaturas entre si. sem ocupações definidas. Senhor. abrindo a estrada celeste à felicidade de cada um de nós. Milhões de mundos estão governados por suas mãos. Filho de pais ricos ou pobres. dando ensejo à fundação de hospitais e escolas. Em verdade. Viveu num lar humilde e pobre. a fim de que não nos convertamos em simples joguetes da maldade e da indisciplina. templos e instituições. para que saibamos administrar para a glória da vida. Nunca se sentiu superior aos pequenos que o cercavam e jamais se dedicou à humilhação dos semelhantes. ao respeito pela dignidade humana e pela redenção da vida. pouca gente lhe conhecia a missão sublime. Entretanto. Possuiu companheiros carinhosos e brincou junto deles. Auxilia-nos a gastar o Tesouro das Horas. deram lugar à bondade salvadora. Inspira-nos a coragem. para que a ociosidade não nos domine. emissário dEle na Terra. em todas as circunstâncias . A princípio. o martelo e os livros. exemplificou o serviço ao próximo. atender e respeitar. porém. para que a nossa força não seja mobilizada pelo mal. ante as sugestões da Experiência e da . O Supremo Senhor que no-lo enviou é o Dono de Todas as Coisas. e Jesus.Ainda que não possua orientadores esclarecidos no ambiente em que respira. e. não se movia à vontade. permanece em grande perigo.49 O DIVINO SERVIDOR Quando Jesus nasceu. No entanto. a sentença de morte indiscriminada a quantos não pensassem de acordo com os mais poderosos. Orienta-nos a defesa do Bem. afastando-nos do prazer vicioso. tanto quanto ocorre a milhões de meninos. pois se o próprio Jesus. vinha Ele. Depois de sua vinda. a escravidão do homem pelo homem. Influenciou. Vivia com disciplina. convertendo-se em Mestre Divino das almas. obrigando príncipes e administradores. pouco a pouco. da parte de Deus. Ilumina-nos o entendimento. a modificarem programas de governo. Ensinando e amando. sustando-nos a queda nos perigos da precipitação. na Terra. Dirige-nos os impulsos. que não devemos fazer a fim de aproveitar o tempo que nos é concedido na Terra? 50 ORAÇÃO DOS JOVENS Mestre Amado! Aceita-nos o coração em teu serviço. egoístas e maus. espalhou as sementes da compaixão fraternal. a fim de que a paixão inferior não nos destrua. Modera-nos a alegria. não nos deixes sem a tua lição. Jesus. Por representar o Supremo Poder. sem obrigações de servir. desde o Sol distante. do Direito e da Justiça. Retifica-nos o descanso. o jovem deve procurar o trabalho edificante. indicando a manjedoura. Provou ao homem a possibilidade de construir o Reino da Paz. Seu poder tudo abrange. dentro do próprio coração. uma estrela mais brilhante que as outras luzia. Além dessas gigantescas obras. consagrados à elevação da Humanidade. a pleno céu. mas não passou a infância despreocupadamente.

tanto quanto estás conosco! Assim seja. Senhor Jesus.Sabedoria. Fim . nosso Valoroso Mestre. ajuda-nos a estar contigo. a fim de que a humildade nos preserve contra as sombras do orgulho.

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