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A FACE HUMANA DO ERRO

“No seguimento de Jesus, o fracasso é um sacramento que nos ensina a


lutar com mais coragem” (Patrício Sciadini)
“Os erros do homem são aquilo que o tornam particularmente digno de amor”
(Goethe

A experiência humana é um aprendizado através dos erros, insucessos,


fracassos, perdas...
Cometemos erros, e mesmo as pessoas mais experientes e sábias não deixam
de cair neles. Neste contexto, a busca da perfeição é a tentativa errada de
quem quer viver sem errar.
Enquanto a perfeição encontra no erro um obstáculo no caminho, a consciência do limite considera o
erro como possibilidade de desenvolvimento do potencial humano.
A pior coisa não é fracassar na vida. Muito pior que fracassar é não encontrar sentido e valor no fracasso.
O fracasso faz parte da pedagogia do ser humano que luta.

A tendência de exceder em tudo, de se superar a todo custo, de se sobrepor


constantemente aos outros, de aproximar-se da perfeição... impede o indivíduo
de se ver e compreender-se em termos “humanos”, isto é, em toda a gama de
seus limites.
Como consequência, tal atitude comporta um desperdício de energia e um
desgaste diante daquilo que se quer evitar: o erro. Deste modo, a procura da
perfeição impede o aprendizado da vida, e não serve nem mesmo nas relações
interpessoais, pois se não reconheço e não aceito para mim mesmo o direito de
errar, não o farei também para os outros.
A busca da perfeição separa o ser humano da dimensão cotidiana da vida. O
erro, no entanto, abre sua consciência para a dimensão transcendente da vida.
O erro oferece ao homem um “caminho de saída” frente à intolerância, ao rigor, à incompreensão, ao
legalismo, ao moralismo... A partir do erro, novas condições de abertura se tornam acessíveis à pessoa.
É à força do erro que descobrimos a verdade; é à força de cair que descobrimos o milagre de estarmos de
pé. “Tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus”, dizia S. Paulo; “inclusive o
pecado”, acrescentou S. Agostinho. De agora em diante, o ser humano não é mais constrangido a viver
na defensi-
va diante dos próprios erros e fracassos. Ele é um ser inacabado, e por isso aberto à possibilidade do erro.

O erro comporta uma estranha maneira de amadurecer para a vida.


Depois do erro, a consciência pode captar e absorver dimensões novas e mais
vastas da própria natureza humana. Aos olhos de quem cometeu um engano, sua
condição humana se torna mais real.
O erro abre espaço ao processo de “humanização”. Este processo não se
manifesta quando o ser humano se considera perfeito, excelente, sublime,
magnifico: um ser superior. A humanidade do homem não começa com a
procura da perfeição, mas no encontro com a própria fragilidade.
O humano se revela fora do mundo do perfeito.
Na sua oração pascal, a Igreja chega mesmo a exultar pela queda de Adão:
“Ó feliz culpa que nos mereceu um tal Redentor!
A maturidade humana não pode chegar sem erros, tropeços, fracassos,
frustrações ou faltas. O processo de humanização não está isento de experiências
em si mesmas negativas.
Seja como for, a vida humana começa depois do erro. Reconhecer e aceitar os
próprios erros é a maneira de orientar-se novamente para si mesmo. É a maneira
de amar-se com responsabilidade.
A consciência do limite utiliza o insucesso e os erros para dar continuidade ao
processo de crescimento, que passa necessariamente pela aceitação de si
mesmo. Como o filho pródigo, o fracasso não representa uma ameaça para o
amor a si mesmo.
Texto bíblico: Jo. 8,1-11

Jesus é o homem que se movimenta rumo à


recuperação e reconstrução da pessoa. Aos
seus olhos, o erro não é jamais, em nenhu-
ma de suas versões, um obstáculo definitivo.
De um passado de erros pode nascer um novo modo de viver.
Não existe aspecto negativo que não possa passar por uma profunda transformação.
Na oração: Como “trabalho” os erros? Sou capaz de integrá-los e ver neles uma
oportunidade de crescimento?
Ou eles diminuem minha auto-estima? Como fica minha auto-imagem
após o fracasso?