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Buscamos estabelecer as bases antropológicas do fenômeno religioso. Nós nos perguntamos:

Quem é esse ser humano que se confronta com as grandes questões da existência : sua
origem e seu destino ( o ͞onde͟ e o ͞para onde͟ do ser humano e do mundo), a superação do
sofrimento e da culpa, os padrões do viver e do agir, o sentido da vida e da morte? Quem é
esse que, pelas religiões, acolhe uma mensagem e proposta de salvação, uma visão da vida,
uma atitude perante a vida e uma norma para o bem-viver?

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Em cada momento histórico, o ser humano tentou se autocompreender. Com o Renascimento,


no entanto, a pergunta do ser humano por si mesmo se fez urgente e ele se colocou no centro
do universo. Cogito, ergo sum (penso, logo existo), afirmou Descartes, marcando a visão
antropológico-filosófica da modernidade.

Mas a pergunta ͞quem é o ser humano͟permaneceu. Hoje, a subjetividade moderna, marcada


pela racionalidade instrumental, é questionada.

Não teria ela valorizado unilateralmente a razão, em detrimento das outras dimensões
humanas?

Não teria reduzido a natureza a uma fonte de matérias-primas para atividades lucrativas,
porém predatórias

Não teria considerado o ser humano uma máquina, desconsiderando o lado não material da
existência humana?

O pretenso progresso material da humanidade e a pretensa missão salvadora das ciências-


consideradas ͞neutras͟ não teriam frustrado as expectativas por elas mesmas levantadas? Não
seriam sinais desse fracasso o aumento da pobreza e da violência , além da exacerbação da
dominação político-econômica de alguns povos sobre outros?

Esses e outros questionamentos forçam o nascimento de uma compreensão humana mais


complexa e integrada das múltiplas dimensões do ser humano, que não podem ser separadas:
corpo e mente, razão e emoção, masculino e feminino, natureza e cultura, trabalho e jogo,
matéria e espírito etc. Nossa tradição filosófica fez muitos esforços para demonstrar que o ser
humano é um ser racional. E é verdade que somos racionais, mas não apenas racionais. O ser
humano é ao mesmo tempo, na expressão de E. Morin, sapiens e demens., capaz de
racionalidade e amor, e ao mesmo tempo, de loucura, ódio, exclusão e destruição.

As produções culturais da humanidade sugerem também que os ser humano é caracterizado


pelo desejo. Desejo do que está ausente, desejo do alimento que não tem, desejo do que não
possui, desejo de beleza, de amor, de autorrealização e de justiça infinitos.

Estabelecendo um paralelo de ser humano como os animais, percebe-se que estes


praticamente não possuem uma história, tal como a entendemos, pois a sua vida se processa
em um mundo estruturalmente fechado: não há liberdade, mas em contrapartida não há
dúvidas ou as angustias da existência. As tartarugas, após um determinado período, rompem
o ovo e correm em direção ao mar, ou ao rio ʹ sem precisar freqüentar a escola e nem mesmo
o exemplo dos pais! Mas os seres humanos são diferentes.

Para Rubem Alves, os seres humanos são aqueles que

Se recusaram a ser aquilo que, à semelhança dos animais, o passado lhes propunha. Tornaram -se inventores de
mundos. E plantaram jardins, fizeram choupanas, casas e palácios, construíram tambores, flautas e harpas, fizeram
poemas, transformaram seus corpos, cobrindo-os de tintas, metais, marcas e tecidos, inventaram bandeiras,
construíram altares,, enterram seus mortos e os prepararam p ara viajar, na sua ausência, entoaram lamentos pelos
dias e pelas noites... ( ALVES, 1991, P.19).

Por um lado, é necessário afirmar que o ser humano tem em si um condicionamento biológico
e genético ao nascer: cor de pele, tipo de sangue, cor dos olhos, sexo etc. Há também os
condicionamentos sociais: a criança nasce em um país, e não em outro; em um contexto
sociofamiliar, e não em outro. Mas esses condicionamentos não determinam a criança ou
anulam sua capacidade de autodeterminação: O que ela será quando crescer? Como será ela?
Gostará de que tipo de música? Quais serão os seus ideais? Que realidades humanas. Por isso
é tão importante não manipular ou instrumentalizar pessoas. Ao contrário, respeitar as
diferenças e lutar pela igualdade de oportunidades, construindo caminhos de transformação e
justiça, para que as pessoas possam se realizar, junto com os outros, nesta nossa sociedade,
em harmonia com o ambiente.

O ser humano, então, necessita manter-se no nível biológico, mas vai além de seus
condicionamentos biológicos. Ele possui uma estrutura antropológica aberta, capaz de
construir uma cultura, uma linguagem e uma ética humanas. É um ser que constrói novos
caminhos históricos, novas realidades e que pode responsabilizar-se por um mundo onde
caibam. É um ser que simboliza sua busca constante de sentido e que, em sua abertura, é
também capaz de captar o sentido último da vida.

Sem essa abertura antropológica fundamental é impossível, numa perspectiva teológica,


compreender a fé, a experiência religiosa e o surgimento das religiões.

'%('") *'

ALVES, Rubens, Y   


São Paulo: Loyola, 1991.

BOFF, Leonardo.    


 In: Jornal do Brasil, 7/11/2003.

MORIN, Edgar. Y    


 


 6ed. São Paulo/Brasilia:
Cortez/Unesco, 2002.

±%('") *'

BOFF, Leonardo. ͞m    Acessado em:

http://www.youtube.com/watch?=CO5AUNHNI6By



*(+,"" (

Às vezes captamos melhor quem é o ser humano, em sua radical abertura, através de imagens
e símbolos. A parábola da águia e da galinho é um bom exemplo. Ela conta a história de uma
águia que foi criada em um galinheiro e que, como o tempo, passou a achar que era mesmo
galinha, até o dia em que algo inesperado lhe acontece. Animamos você a entrar no site
indicado na webliografia e ler essa parábola, tentando perceber os dois planos:

-o sentido literal, que é a história da águia criada no galinheiro;

-o sentido simbólico, que para nós é mais importante. Ela vai além do sentido literal, buscando
a mensagem da parábola para o ser humano. Ou seja, você deve ser perguntar: o que essa
parábola diz sobre o ser humano? O que, no ser humano, poderia constituir o seu ͞lado
galinha͟? E o seu ͞lado águia͟?

Prof. Antonio R. S. Mota S.J.

Universidade Católica de Pernambuco

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