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Do Diário de Etty Hillesum:

 Imagino que há pessoas que rezam com os olhos apontados ao céu. Essas
procuram Deus fora de si. Há igualmente pessoas que curvam profundamente a
cabeça e a escondem nas mãos, penso que essas procuram Deus dentro de si.

 Meu Deus, agradeço-Te por me teres criado como eu sou. Agradeço-Te por às
vezes poder estar cheia de vastidão, essa vastidão não é senão o estar repleta de
Ti.

 Ó Senhor, torna-me mais simples.

 Soa quase paradoxal: por causa de excluírem a morte da vida, as pessoas não
vivem uma vida completa e ao acolher a morte dentro da vida, ela fica mais rica
e mais ampla.

 Na realidade é um livro extremamente interessante, a Bíblia, violento e terno,


ingénuo e sábio. Não só interessante pelo que lá vem dito, mas também para
conhecer aqueles que o dizem.

 Sobre as coisas derradeiras e sérias desta vida só se deve falar realmente quando
as palavras brotam de ti tão simples e naturais como se fossem água de uma
fonte.

 Nunca me preocupo com o dia seguinte, sei por exemplo que dentro em breve
vou ter de sair daqui e não faço a menor ideia onde irei parar, e o ganha-pão vai
extremamente mal, mas nunca me preocupo comigo mesma, sei que alguma
coisa há-de acontecer. Se uma pessoa sobrecarrega antecipadamente as coisas
que hão-de-vir, elas não vão poder desenvolver-se organicamente. Há uma
confiança enorme em mim. Não uma confiança em que as coisas me hão-de
correr sempre bem exteriormente, mas sim uma confiança em que também nos
períodos em que as coisas me corram menos bem, eu aceito, gosto desta vida.

 Dizem-me: “Alguém como tu tem o dever de se pôr em segurança. Ainda tens


tanto a fazer mais tarde na vida, ainda tens tanto a oferecer.” O que eu tenho ou
não a oferecer hei-de conseguir dá-lo onde quer que esteja, seja aqui num círculo
de amigos ou algures num campo de concentração. E é de uma rara
sobrestimação pessoal achar-se demasiado precioso para não compartilhar um
“destino colectivo”. E se Deus achar que ainda tenho muito a fazer, então ainda
o hei-de fazer depois de ter passado por tudo o que os outros também passam. E
se sou uma pessoa com valor, isso só poderá ser confirmado através do
comportamento que irei mostrar nas circunstâncias alteradas. E mesmo que não
sobreviva, então o modo como hei-de morrer será determinante para saber quem
eu sou. Já não se trata de escapar a uma certa situação custe o que custar, mas,
sim, de como uma pessoa se comporta e continua a sua vida em qualquer
situação. As coisas que são razoáveis em fazer, faço-as.

 Não sei, acho extremamente infantil uma pessoa rezar por si mesma. Rezar por
um outro, para que a vida lhe corra bem, também acho infantil. A única coisa
por que se pode rezar é para a outra pessoa ter força suficiente para também
carregar com as suas dificuldades. E quando se reza por alguém, envia-se-lhe um
pouco da nossa força.

 São muito insondáveis os Teus caminhos, meu Deus.

 O sentido da vida não é só a vida.

 E no entanto, sempre a mesma coisa, constantemente: a vida é tão «interessante»


através de tudo. Sempre presente em mim está uma coisa que constantemente
vem ao de cima: uma examinação quase demoníaca de tudo o que acontece. Um
querer ver e ouvir e estar presente, um querer sacar todos os segredos da vida,
um observar friamente as expressões nos rostos das pessoas em estertor. E de
repente, encontrar-me face a face comigo mesma e aprender muito do
espectáculo que a própria alma oferece nestes tempos que correm, e mais tarde
encontrar palavras para tal.

 Com o que resta dos mortos, que vive eternamente, continuarei a viver a minha
vida, e hei-de despertar para a vida aquilo que está morto dentro dos vivos; e
desse modo não haverá senão vida, uma grande vida, meu Deus.

 As ferramentas para abrir nos outros o caminho para Ti são ainda muito
limitadas. No entanto existem algumas ferramentas e eu hei-de melhorá-las
devagarinho e com paciência. E agradeço-Te por me teres dado o dom de
conseguir decifrar e de achar o caminho nos outros. Para mim as pessoas são
muitas vezes como casas com as portas abertas. E eu entro e vou deambulando
pelos corredores e pelos quartos, e cada casa tem por sua vez uma decoração um
pouco diferente e no entanto todas elas são parecidas. E cada casa deveria
transformar-se numa morada sagrada para Ti, meu Deus. E prometo-Te,
prometo-Te procurar no maior número de casas possível morada e acolhimento
para Ti, meu Deus.

 Muitas pessoas são ainda hieróglifos para mim, mas vou aprendendo
devagarinho a decifrá-las. É a coisa mais linda que conheço: ler a vida das
pessoas.
 “Não tenho saudades, afinal de contas estou em casa.” Aprendi muita coisa
nessa ocasião. Está-se “em casa”. Sob o céu, uma pessoa está em casa. Em cada
lugar deste mundo está-se “em casa”, quando uma pessoa traz tudo consigo.
Uma pessoa deve ser a sua própria pátria.

 Uma pessoa deve viver consigo própria como se vivesse com uma multidão
inteira. E, interiormente, uma pessoa aprende então a conhecer todas as boas e as
más características da humanidade. E uma pessoa deve aprender a perdoar os
seus próprios defeitos, se é que quer perdoar aos outros. Provavelmente para
uma pessoa isto é o mais difícil de aprender: perdoar a si próprio os erros e
deslizes cometidos. Para tal é preciso em primeiro lugar aceitar, aceitar
prodigamente, que uma pessoa comete erros e deslizes. Gostava muito de viver
como os lírios do campo.

 Às vezes pergunto-me, num momento difícil, como o desta noite, quais são os
planos que tens para mim, Tu Deus. E se calhar dependem das minhas intenções
para contigo, não?

 Dá-me um pequeno verso por dia, meu Deus. E se eu nem sempre o puder copiar
por não haver papel ou luz, então hei-de declamá-lo baixinho para o Teu grande
céu, à noite, mas dá-me um pequeno verso de vez em quando.

 [Mt. 6, 34 – não nos preocupemos com o dia de amanhã]. As coisas que têm de
ser feitas devem fazer-se e de resto uma pessoa não deve deixar-se infectar pelos
muitos medinhos e preocupaçõezinhas que são outras tantas moções de
desconfiança contra Deus.

 Na realidade, esta é a nossa única obrigação moral: desbravar dentro de nós


grande planícies de tranquilidade, cada vez mais tranquilidade, para a poder
irradiar sobre os outros. E quanto mais tranquilidade houver nas pessoas, mais
tranquilidade haverá também neste mundo agitado.

 Ser fiel a tudo o que uma pessoa iniciou num momento espontâneo,
demasiadamente espontâneo por vezes. Ser fiel a cada sentimento, cada
pensamento que começou a germinar. Fiel no sentido mais lato da palavra. Fiel a
si mesmo, a Deus, fiel aos seus próprios melhores momentos. E onde uma
pessoa está, ser totalmente, cem por cento ser. O meu “fazer” consistirá em
“ser”. Este é um ponto onde a minha fidelidade ainda necessita de aumentar e
onde eu mais falho.

 Vou igualmente ter de aprender ainda esta lição e vai ser a mais difícil, meu
Deus: suportar o sofrimento que me impões e não aquele que eu própria
procurei.