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Quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Migalhas de
Peso

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migalha
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AMANHECIDAS Contato
APOIADORES O direito do preso de se prover
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alimentos
CATÁLOGO DE ESCRITÓRIOS

CENTRAL DO ASSINANTE

CIRCUS
Filipe Schmidt Sarmento Fialdini*
CONTATO

CORRESPONDENTES “O último dos criminosos tem o mais absoluto


dr. PINTASSILGO
direito a que com ele se observe a lei; e tanto mais
ESTAGIÁRIOS

EVENTOS
rigoroso há de ser, por parte dos seus executores, o
FOMENTADORES
empenho nessa observância, quanto mais excitada
FONTES se achar a sociedade contra o delinqüente entregue
FOTOMIGA

GRAMATIGALHAS
à proteção dos agentes da ordem.” Rui Barbosa1
INFORMATIVO MIGALHAS

INTERNACIONAL

LATINOAMÉRICA Duas das principais


LATINÓRIO preocupações dos
LAUDA LEGAL
redatores do projeto da
LEITORES
lei de execuções
MERCADO DE TRABALHO

MIGALAW ENGLISH
penais, promulgada em
MIGALHAS DE PESO 1984, foram a
MIGALHAS QUENTES legalidade e a
MIGALHAS SOCIAIS repressão ao abuso na
OLHO MÁGICO 2
POLÍTICA & ECONOMIA
privação da liberdade de locomoção . Fez-se
PORANDUBAS constar, expressamente, no artigo 3° da lei, o
PRODUTOS basilar princípio da estrita legalidade na execução
TOUR JURÍDICO penal, garantindo-se ao preso “todos os direitos não
TV MIGALHAS
atingidos pela sentença ou pela Lei”. Tal ideal foi
também reforçado no artigo 185 da mesma,
dispondo-se que “Haverá excesso ou desvio de
execução sempre que algum ato for praticado além
dos limites fixados na sentença, em normas legais
ou regulamentares”.

Com a promulgação da Constituição cidadã, em


1988, o princípio da estrita legalidade na execução
penal adquiriu status de cláusula pétrea,
reconhecendo-se ao preso, inclusive, o direito à
indenização pelo erro judiciário ou pela prisão
indevida, nos termos do inciso LXXV, do artigo 5°,
da mesma.

Assim, com razão, concluiu Mirabete que “se de um


lado se podem impor ao condenado as sanções
penais estabelecidas na legislação, observadas as
limitações constitucionais, de outro lado, não se
admite seja ele submetido a restrições não contidas
3
na lei” . E, vale anotar, se é verdade que tais
mandamentos devem ser observados com relação
aos condenados, com muito mais razão ainda, se
impõem para com os presos provisórios.

A realidade das coisas, contudo, vem se mostrando


bem diversa. Impera uma completa inversão de
valores na sociedade. Pretende-se que a lei seja

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cumprida, pela punição dos criminosos, porém, se


aceita e se aplaude a ilegalidade para com os presos
em geral.

Além das mazelas propiciadas pela total falência do


sistema carcerário nacional, sujeitando os
encarcerados, em sua maioria, à superlotação, à
violência sexual e a condições desumanas, apoiadas
muitas vezes pela mídia e pela opinião pública, as
autoridades violam, às claras, os mais básicos
direitos dos presos, por meio de coações físicas e
psicológicas, impondo-lhes o uso indiscriminado de
algemas, raspando seus cabelos, impedindo seu
acesso à cultura e à literatura, dentre muitos outros
constrangimentos abusivos. E ai daquele que, por
acaso, conseguir escapar a algum aviltamento!
Exige-se que todos, sem exceção, sejam sujeitados
à desgraça e à humilhação. A degradação é tamanha
que – arriscamo-nos a dizer – a resistência e a fuga
ao encarceramento, constituem, em muitos casos,
legítima defesa.

Ilustrando tal situação, após a imprensa relatar que


ex-prefeito de São Paulo e seu filho, presos
recentemente, estavam provendo a si próprios de
alimentos, a população se insurgiu indignada e,
imediatamente, as autoridades passaram a impedi-
los de tanto, como se os mesmos estivessem
usufruindo indevido privilégio, em razão de sua
situação financeira.

É bem verdade que, infelizmente, nem todos têm


acesso a uma alimentação regular e saudável,
especialmente a população carcerária, em geral
carente de recursos, não tendo a quem recorrer,
senão à assistência estatal para alimentar-se. Não
por outra razão, a lei de execuções penais garante
ao preso o direito a uma alimentação suficiente,
prestada pelo Estado (arts. 12 e 41, I).

Não consta de lei alguma, todavia, a obrigação do


preso em consumir, exclusivamente, a alimentação
fornecida pela administração pública; muito pelo
contrário, como dito, o auxílio estatal à subsistência
do preso é, antes de mais nada, um direito e,
jamais, um dever, muito menos, uma punição.

Aliás, o preso é obrigado a indenizar o Estado, na


medida de suas possibilidade, das despesas
realizadas com sua alimentação (art. 39, VIII, da
LEP). Dessa forma, aquele que decide prover a si
próprio, contribui, inclusive, com a desoneração do
poder público.

É importante lembrar, também, que, aquilo que se


come, reflete-se, inevitavelmente, na saúde física e
mental do ser humano. A restrição à liberdade do
preso em adquirir aquilo que deseje ingerir,
portanto, constitui inegável afronta a sua integridade
física e moral, bem como à dignidade humana, em
clara violação a importantes preceitos
constitucionais.

Percebe-se, por conseguinte, que o preso tem sim o

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direito de adquirir os alimentos que desejar e a


restrição a esta possibilidade constitui
constrangimento não autorizado em lei e, como tal,
crime de abuso de autoridade, nos termos da alínea
b, do artigo 4º, da Lei 4.898/65 (lei de abuso de
autoridade), o qual pode importar em detenção de
10 dias a 6 meses, perda do cargo,
inabilitação para qualquer função
pública pelo prazo de até três anos e
no dever de indenizar a vítima.

É preciso, urgentemente, se
repensar a questão carcerária do
país. Se o objetivo das autoridades é o combate à
ilegalidade e à corrupção, é imperioso que, antes de
qualquer coisa, sejam as primeiras a dar o exemplo,
cumprindo a lei, caso contrário, jamais se poderão
legitimar a persecução e a execução penal que
venham a desenvolver.

_______________________________
1
Ruy Barbosa, Criminologia e Direito Criminal: Seleções e
Dicionário de Pensamentos, Campinas : Romana, 2003, p. 317.
2
Salienta a exposição de motivos da lei de execução penal:
“19. O princípio da legalidade domina o corpo e o espírito do
Projeto, de forma a impedir que o excesso ou o desvio da
execução comprometam a dignidade e a humanidade do Direito
Penal. 20. É comum, no cumprimento das penas privativas de
liberdade, a privação ou a limitação de direitos inerentes ao
patrimônio jurídico do homem e não alcançados pela sentença
condenatória. Essa hipertrofia da punição não só viola medida
de proporcionalidade, como se transforma em poderoso fator
de reincidência, pela formação de focos criminógenos que
propicia”.
3
Julio Fabbrini Mirabete, Execução Penal, 11ª ed., São Paulo :
Atlas, 2004, p. 30.

_______________________

* Advogado do escritório Campos e


Antonioli Advogados Associados e Pós-
graduando em Crimes Econômicos e
Processo Penal pela FGV/SP.

__________________

Esta matéria foi colocada no ar originalmente em 19 de setembro de 2005.

Notícias de destaque

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TST - Cláusula que prorroga acordo coletivo por mais de dois anos é
inválida
A Seção Especializada em Dissídios Individuais (SDI-1) do TST concluiu que é
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Controvérsia sobre contribuição social de cooperativas de trabalho é


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9.876/99.

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