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Desejo ≠ necessidade: o que os pais de crianças menores de seis

anos esperam de seus filhos1


Priscila Muniz Medeiros2

O artigo escolhido tem como tema Alfabetização Precoce, neste a autora Rosely
Sayão apresenta a angustia de alguns pais desejosos que seus filhos menores de seis
anos sejam alfabetizados e vivenciem conteúdos escolares. A escolha deste se deu, pois
percebemos a compreensão, de que neste momento da vida, as crianças necessitam
vivenciar algumas atividades de construção do seu desenvolvimento. O embasamento
teórico deste artigo será Wenri Wallon, discutido por Vitor da Fonseca, 2008.
Roseli escreve “O pai de um garoto de dois anos conta que o filho já sabe o
nome de quase todas as cores e também contar até doze, tudo ensinado por ele e pela
mãe. O próximo passo será ensiná-lo a escrever o nome.”
Percebemos que a família está condicionada a oferecer a esse menino situações
que oportunizem ao menino a escrita do nome, porém os pais estão desconsiderando
alguns pontos essências do desenvolvimento psicomotor de uma criança com essa
idade.
A história do ser humano está relacionada com o movimento, o gesto precede a
palavra. Wallon compreende que a formação da inteligência se produz com base na
experiência motriz da criança. Desta forma, a criança acima está passando pelo processo

1
Artigo produzido para a disciplina de Psicomotricidade, do Curso de Pós Graduação lato sensu em
Psicopedagogia, UNAES/ANHANGUERA EDUCACIONAL/2010, sob a orientação da professora Kelly
Glay da Silva Sena Sakihama.

2
Graduada em Pedagogia pela UFMS.

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e autoconhecimento e o objeto assume uma relação pessoal e a manipulação deste
desperta sensações agradáveis.
No período que compreende o Estádio sensório-motor (dos 12 aos 24 meses), a
criança está vivenciando a autodescoberta. A criança começa a diferenciar ela do
mundo. Nesta fase “a percepção torna-se mais precisa, e o movimento conseguido tende
a ser repetido, o que vai permitir a eficiência e a inteligência do gesto” (FONSECA,
2008, p.27).
Mesmo essa criança apresentando plena condição de aprender, isso não será uma
regra, as crianças podem e irão aprender. Porém cabe aos pais conhecer cada momento
da vida de seus filhos e oportunizar situações de estímulo das capacidades em
desenvolvimento. Neste momento da vida os brinquedos, blocos, encaixe serão o
motivo de prazer para seus filhos.
Já no período que compreende o e Estádio projetivo (dos 2 aos 3 anos),” a ação
passa a ser fonte de estímulos para a atividade mental” (FONSECA, 2008, p. 31). Este
momento é o prelúdio da consciência, é a passagem da ação para o pensamento.
É no Estádio personalístico (dos 3 aos 4 anos), que acontece o enriquecimento
do eu na criança. Sua personalidade está ligada a sua motricidade que é exploratória,
dinâmica e relacional. Neste período a motricidade deixa de ser uma ação motora.
A inteligência, neste estádio, manifesta-se pela motricidade e pela
afetividade, que se transforma, por via de sua expressão, em uma fonte de
conhecimento, na medida em que se edifica com base em duas componentes
psíquicas, a ideação e a execução. (FONSECA, 2008, p.33)

Por esses motivos, compreendemos que “ensinar a escrever o nome” não deveria
ser o foco da preocupação desses familiares, porém isso não quer dizer que a criança
não pode ter acesso ao mundo letrado. Consideramos que esses pais, porventura,
oportunizam diversas situações de aprendizado ao seu filho.
Porém, ao escolher este artigo percebemos um grande interesse de “ensinar” as
crianças menores de seis anos a ler e escrever, nosso temor está na pequena valorização
do brincar e principalmente do desenvolvimento das funções psicomotoras. Ao
considerar que essas crianças tenham a necessidade de serem admiradas, podem agir
pelo desejo de agradar e corre o perigo de deixar os jogos e os brinquedos.
Sendo assim, consideramos que tal conhecimento deveria ser socializado entre
pais e professores, pois de certa forma o trecho abaixo desconsidera a importância das
ações da psicomotricidade.
A mãe de uma menina de quatro anos está aflita porque teve de matricular a
filha em uma escola mais em conta neste ano, que não pede lição de casa
nem ensina a ler e a escrever algumas palavras, como a anterior. Ela acredita
que a filha irá regredir nos estudos.

Alguns pais dizem: “meu filho não vai à escola, para ficar apenas brincando”, de
certa forma o conhecimento desta mãe é restrito.Uma criança de apenas quatro anos não
irá regredir, a menos que a escola deixe a menina sem nenhum estímulo, como
aconteceu com a menina Genie.
O pai de Genie, ao descobrir que a menina tem atraso psicomotor, deixou-a em
um quarto fechado, dentro de um berço com telas na parte superior, sem contato com o
mundo e com estímulos motores e visuais. Como resultado nossa protagonista não
desenvolveu suas capacidades motoras de andar, mastigar, pegar, ver. Enfim, a menina
regrediu. (Ofício do Professor-2003)
Essa história é extrema, porém ilustra nossa opinião. É de fundamental
importância oportunizar as crianças um maior contato com o mundo natural e o meio
social. Uma preocupação centrada apenas nas capacidades intelectuais pode
“patologizar” o desenvolvimento psicomotor, pois segundo Wallon a inteligência
sucede após o motor.
Segundo Wallon, a motricidade é de natureza social. Desta forma, a relação com
o outro mais experiente define a ação corporal e, por conseguinte a inteligência. Como
já foi dito, o ato motor não pode se dissociar do psiquismo, sendo assim para Wallon a
psicomotricidade foi introduzida, pois apenas o ser humano é capaz de relacionar uma
idéia a uma ação e uma ação a uma idéia.

REFERÊNCIAS

SAYÃO. Rosely. Alfabetização precoce. Observatório infância. Artigos 2009.


Disponível em:< www.observatoriodainfancia.com.br>

FONSECA. Vitor da. Desenvolvimento psicomotor e aprendizagem. Porto Alegre,


RS: Ed. Artmed, 2008.