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Teste de Atitude Alimentar

O documento analisa o comportamento alimentar de adolescentes de uma escola pública no Brasil utilizando o teste EAT-26. Os resultados mostraram que as meninas tinham maior tendência a comportamentos alimentares inadequados do que os meninos, com 8,3% das meninas apresentando comportamento alimentar inadequado segundo o EAT-26. Conclui-se que os adolescentes da escola pública apresentaram comportamentos alimentares que precisam de avaliação e intervenção mais detalhadas.

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Teste de Atitude Alimentar

O documento analisa o comportamento alimentar de adolescentes de uma escola pública no Brasil utilizando o teste EAT-26. Os resultados mostraram que as meninas tinham maior tendência a comportamentos alimentares inadequados do que os meninos, com 8,3% das meninas apresentando comportamento alimentar inadequado segundo o EAT-26. Conclui-se que os adolescentes da escola pública apresentaram comportamentos alimentares que precisam de avaliação e intervenção mais detalhadas.

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Saude_09.

book Page 53 Wednesday, September 3, 2003 10:20 AM

Comportamento Alimentar
de Adolescentes: aplicação
do EAT-26 em uma escola
pública
Adolescent Eating Behavior:
EAT-26 test in a public school

RESUMO – O comportamento alimentar tem sido alterado ao longo dos


anos e muito influenciado pelos padrões culturais e pela mídia. A socieda-
de, com sua cultura e suas tradições, estabelece os critérios que o jovem de-
verá suplantar para firmar a sua identidade. A imagem corporal é o centro
dessa identidade e, não raro, condiciona o comportamento alimentar. Este
trabalho objetivou analisar o comportamento alimentar de adolescentes de
uma escola pública de Rio Claro/SP. Para tanto, foi usado o Teste de Atitu-
des Alimentares (EAT-26), cuja finalidade é identificar indivíduos com pa-
drões alimentares anormais. Foram avaliados 250 alunos (106 do sexo
masculino e 144 do sexo feminino), com idade entre 14 e 16 anos. O resul-
tado mostrou que as meninas apresentam maior tendência aos comporta-
mentos alimentares inadequados. Tomando como referência os padrões
americanos, houve uma elevada percentagem de meninas (8,3%) apre-
sentando, segundo o EAT-26, comportamento alimentar inadequado.
Concluiu-se que os adolescentes dessa escola pública apresentaram com-
portamentos alimentares inadequados, os quais devem ser alvo de avalia-
ção mais detalhada e de intervenção.
Palavras-chave: IMAGEM CORPORAL – COMPORTAMENTO ALIMENTAR –
TRANSTORNO ALIMENTAR.

ABSTRACT – The eating behavior has been changed throughout the years,
and largely influenced by the cultural patterns and media. Society, with its
culture and tradition, establishes the criteria for adolescents to build their
identity. Body shape is the center of this identity and often regulates the ea-
ting behavior. This work aimed at analyzing the eating behavior of adoles-
JULIANA SOAVE CHIODINI cents from a public school in Rio Claro/SP. To do so, researchers used the
Curso de Especialização em Nutrição
Clínica Preventiva - Faculdade de Eating Attitudes Test (EAT-26), whose finality is to identify individuals with
Ciências da Saúde (UNIMEP/SP) abnormal eating standards. Two hundred and fifty students were evaluated
MARIA RITA MARQUES DE (106 boys and 144 girls), with ages between 14 and 16. Results showed
OLIVEIRA* that girls present a higher tendency of inadequate eating behavior. Based on
Curso de Nutrição – Faculdade de
Ciências da Saúde (UNIMEP/SP) American standards, a high percentage of girls (8,3%) showed inadequate
*Correspondências:
eating behavior, according to EAT-26. We conclude that these public school
Rod. do Açúcar, Km 156 – FACIS, adolescents present inadequate eating behavior, which should be the aim of
13400-911, Piracicaba/SP
more detailed evaluation and intervention.
E-mail: mrmolive@unimep.br Keywords: BODY SHAPE – EATING BEHAVIOR – EATING DISORDER.

Saúde em Revista 53
COMPORTAMENTO ALIMENTAR DE ADOLESCENTES: APLICAÇÃO DO EAT-26 EM UMA ESCOLA PÚBLICA
Saude_09.book Page 54 Wednesday, September 3, 2003 10:20 AM

INTRODUÇÃO pregado em estudos epidemiológicos para rastrear


indivíduos supostamente susceptíveis ao desenvolvi-

O
s distúrbios do comportamento alimentar mento de distúrbios de conduta alimentar, indican-
constituem uma área de crescente interesse do a presença de padrões alimentares anormais,
médico, nutricional e psicológico, compreen- quando as respostas, numa escala de 0 a 78 pontos,
dendo amplo espectro de alterações, desde as for- atingem um score igual ou superior a 21 (GARNER
mas subclínicas até a anorexia nervosa e a bulimia. et al., 1982).
Essas condutas alimentares vêm sendo compre- A evolução dos padrões de beleza mostra a ten-
endidas por meio de um modelo de etiologia multi- dência caquetizante da figura feminina e, segundo
determinada, que reconhece fatores de diversos estimativas, as mulheres apresentam maior tendên-
níveis, entre eles, os relacionados aos bens de consu- cia em apresentar distúrbios alimentares. Isso causa
mo, à família e à cultura (BRUCH, 1982). Atual- uma preocupação maior com o corpo, particular-
mente tem sido enfatizada a influência dos fatores mente com o peso, sendo esperado que mulheres
culturais (padrões de beleza, culto à magreza, men- apresentem mais padrões alimentares anormais. Já a
sagens midiáticas) na gênese dos problemas alimen- falta de dados sobre o comportamento alimentar do
tares, bem como no crescimento deles (NUNES et adolescente brasileiro e o aparente aumento do nú-
al., 1998). Estima-se que os distúrbios alimentares mero de casos clínicos de distúrbios alimentares
afetam 10 a 15% dos adolescentes, sendo 90% do (BRUCH, 1982) têm despertado o interesse dos
sexo feminino (BRUCH, 1982) e a anorexia nervo- profissionais e pesquisadores. Assim, o objetivo des-
sa acomete em torno de 5% das jovens americanas te trabalho foi avaliar o perfil das atitudes alimenta-
(HEINBERG et al., 1995). O reconhecimento pre- res de adolescentes, de ambos os sexos, de uma
coce dos transtornos da conduta alimentar permite escola pública estadual.
a prevenção de suas formas mais graves e um me-
lhor prognóstico.
O Teste de Atitudes Alimentares (EAT), compos- CASUÍSTICA E MÉTODO
to inicialmente de 40 itens, foi proposto por Garner
e Garfinkel (1979) para o diagnóstico da anorexia Foram avaliados 250 alunos (106 do sexo mas-
nervosa, bem como para o acompanhamento dos culino e 144 do sexo feminino), com idade entre 14
seus sintomas e evolução. Embora o teste não tenha e 16 anos, estudantes das 7.ª e 8.ª séries do ensino
se mostrado eficiente no diagnóstico da doença, ele fundamental e da 1.ª série do ensino médio matuti-
demonstrou eficácia na detecção de casos clínicos no da Escola Estadual Professor Marciano de Tole-
em populações de alto risco para a enfermidade e do Piza, em Rio Claro/SP. O índice de massa
também na identificação de indivíduos com preo- corporal (IMC) desses alunos mostrou-se bastante
cupações anormais com a alimentação e o peso variado, de 15 a 37 kg/m2. Não houve diferença de
(CORDÁS & NEVES, 1999). Mais tarde, por meio idade e de IMC na comparação entre os grupos de
da análise fatorial dos 40 itens do EAT, os seus auto- meninos e de meninas.
res propuseram uma versão resumida com 26 itens O número de alunos foi determinado segundo
(EAT-26), apresentando grande correlação com a es- Garner et al. (1982), cuja proposta é de que a quan-
cala original (r = 0,98) e alta confiabilidade (r = tidade de sujeitos da pesquisa deve ser, no mínimo,
0,90) para o grupo com anorexia nervosa. A nova dez vezes o número de itens do questionário aplica-
escala, além de bem menor, revelou-se mais simples do. Todos os alunos presentes à sala de aula respon-
e econômica na sua aplicação (CORDÁS & NE- deram o questionário anonimamente.
VES, 1999). As atitudes alimentares foram avaliadas median-
O EAT-26 é um instrumento de fácil manuseio e te a aplicação do EAT-26 (GARNER et al., 1982)
fornece um número de informações satisfatórias. Já adaptado ao idioma português por Cordás e Neves
foi utilizado em culturas ocidentais e orientais com (1999). De acordo com esses autores, o instrumento
diferentes níveis de desenvolvimento (EUA, Canadá, foi inicialmente traduzido para o português por tra-
Europa, Índia, Paquistão e China) e considerado dutores independentes, brasileiros e professores de
confiável, possibilitando comparações transcultu- inglês. Posteriormente, realizou-se uma versão para
rais em relação às condutas alimentares nas popula- o inglês (back-translation) e, com base em quatro
ções estudadas (GARNER et al., 1982). Assim, o versões independentes, comparou-se com o original
EAT-26 tornou-se um teste psicométrico muito em- em inglês, elaborando-se a tradução final.

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Figura 1. Score da somatória dos pontos por sexo, obtido mediante aplicação do EAT-26 em adolescentes de 14 a 16 anos de idade
(n = 250: 106 meninos e 144 meninas).

Score

O EAT contém 26 questões fechadas abordando maior prevalência entre as meninas nos scores mais
atitudes alimentares e as respostas assinaladas são: elevados. A partir do score 26 verificou-se poucos
sempre (5 pontos), muito freqüentemente (4 pon- adolescentes, porém, predominantemente meninas.
tos), freqüentemente (3 pontos), às vezes (2 pontos),
Muitas das questões do inquérito foram deixa-
raramente (1 ponto) e nunca (0 pontos). O score
das em branco pelos adolescentes, especialmente
igual ou superior a 20 pontos indica os indivíduos
pelos meninos. O número de questões respondidas
supostamente suscetíveis ao desenvolvimento de
pelas meninas foram da ordem de 70%; já pelos
distúrbios de conduta alimentar, além da presença
meninos, da ordem de 30%. Questões como “Vo-
de padrões alimentares anormais, não revelando,
mito após comer” e “Me sinto mal após comer do-
contudo, a possível psicopatologia subjacente ao
ces” não foram respondidas pelos meninos. As
comportamento manifesto (CORDÁS & NEVES,
questões “Gosto de experimentar novas comidas
1999). Esse ponto de corte, entretanto, ainda não
que engordam” e “Penso o tempo todo em comi-
foi validado no Brasil, o que o torna provisório até
da” foram as que tiveram maior número de res-
que se publiquem dados referentes à população bra-
postas.
sileira em número suficiente (CORDÁS & NEVES,
1999).
O teste foi explicado pela pesquisadora, em sala, DISCUSSÃO
no período de aula, e os alunos preencheram o
Os scores mais elevados foram predominante-
questionário durante 15 a 20 minutos. Após a apli-
mente encontrados entre as meninas, confirman-
cação, os pontos foram atribuídos, somados, tabula-
do o fato de as mulheres serem mais influenciadas
dos e avaliados. As diferenças em percentagem da
pela cultura e pela mídia, que pregam a magreza
pontuação atingida, em relação ao máximo possível
como sinônimo de beleza, aumentando a proba-
em cada pergunta para o total de alunos de cada se-
bilidade de atitudes alimentares anormais. Os
xo, foram comparadas pelo teste de Fisher.
questionários foram anônimos, não sendo possí-
vel, por essa razão, associar os seus resultados ao
RESULTADOS IMC. A preocupação com o peso, especialmente
entre obesos, tem desencadeado desordens do
A figura 1 mostra a distribuição por freqüência comportamento alimentar. Segundo Lowe et al.
da pontuação obtida em ambos os sexos. Entre os (2001), particularmente as mulheres, quando
adolescentes, 12 meninas (8,3%) e quatro meninos submetidas ao esforço crônico para controlar a
(3,7%) apresentaram padrão de comportamento dieta, tornam-se mais vulneráveis aos alimentos
alimentar divergente do aceitável, considerando-se supostamente proibidos e aos comportamentos
o score do EAT-26 a partir de 21. Constatou-se uma alimentares inadequados.

Saúde em Revista 55
COMPORTAMENTO ALIMENTAR DE ADOLESCENTES: APLICAÇÃO DO EAT-26 EM UMA ESCOLA PÚBLICA
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Tabela 1. Pontuação obtida entre os sexos em cada item do EAT-26 aplicado em adolescentes de 14 a 16 anos.
PONTUAÇÃO (SOMATÓRIA)

ITENS TOTAL MENINOS MENINAS


(N = 250) (N = 106) (N = 144)
SCORE % SCORE % SCORE %
1. Costumo fazer dieta 69 6.9 4 0.8 65 9.0
2. Como alimentos dietéticos 63 6.3 7 1.3 56 7.8
3. Me sinto mal após comer doces 14 1.4 0 0.0 14 1.9
4. Gosto de experimentar novas comidas engordantes 318 31.8 159 30.0 159 22.1
5. Evito alimentos que contenham açúcar 27 2.7 8 1.5 19 2.6
6. Evito particularmente alimentos com alto teor de carboidratos 38 3.8 7 1.3 31 4.3
(pão, batata, arroz, macarrão)

7. Estou preocupado(a) com o desejo de ser mais magro(a) 176 17.6 46 8.7 130 18.1

8. Gosto de estar com o estômago vazio 56 5.6 14 2.6 42 5.8


9. Quando faço exercícios, penso em queimar calorias 306 30.6 91 17.2 215 29.9

10. Me sinto extremamente culpado(a) depois de comer 66 6.6 13 2.5 53 7.4

11. Fico apavorado(a) com o excesso de peso 156 15.6 45 8.5 111 15.4

12. Me preocupa a possibilidade de ter gordura no meu corpo 191 19.1 50 9.4 141 19.6

13. Sei quantas calorias têm os alimentos que como 63 6.3 14 2.6 49 6.8
14. Tenho vontade de vomitar após as refeições 4 0.4 0 0.0 4 0.6
15. Vomito depois de comer 0 0 0 0.0 0 0.0
16. Já passei por situações em que comi demais, achando que não 39 3.9 13 2.5 26 3.6
ia conseguir parar
17. Passo muito tempo pensando em comida 65 6.5 29 5.5 36 5.0
18. Me acho uma pessoa preocupada com a comida 81 8.1 28 5.3 53 7.4
19. Sinto que a comida controla a minha vida 78 7.8 25 4.7 53 7.4
20. Corto minha comida em pedaços pequenos 154 15.4 65 12.3 89 12.4
21. Levo mais tempo que os outros para comer 93 9.3 29 5.5 64 8.9

22. As outras pessoas acham que sou magro(a) demais 91 9.1 52 9.8 39 5.4

23. Sinto que os outros prefeririam que eu comesse mais 72 7.2 35 6.6 37 5.1

24. Sinto que os outros me pressionam a comer 44 4.4 23 4.3 21 2.9


25. Evito comer quando estou com fome 35 3.5 9 1.7 26 3.6
26. Demonstro auto-controle em relação à comida 117 11.7 69 13.0 48 6.7
% = percentagem da pontuação máxima possível, obtida pela somatória dos pontos de todos os questionários. P < 0,005 na compa-
ração realizada entre meninos e meninas pelo teste de Fisher.

Independentemente do peso corporal, as pes- ram gordas são magras e menos de 10% delas estão
quisas vêm mostrando desde os anos 80 que as mu- contentes com a sua aparência física (HEINBERG
lheres sobretudo apresentam um descompasso entre et al., 1995).
o sentir-se gorda e o estar acima do peso saudável. O descontentamento com a imagem corporal
Ao menos metade das adolescentes que se conside- está, na maioria das vezes, associado ao comporta-

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mento alimentar inadequado. Tomando por base Todos temos o anseio de ser amados, reconheci-
dados americanos, o número de adolescentes, no dos e desejados. É no corpo que a cultura popular
presente estudo, que fazem dieta foi baixo, menos exerce o seu maior efeito, especialmente entre os
de 10%. Mas se considerarmos que, entre as adoles- adolescentes que desejam desesperadamente perten-
centes americanas, a incidência de anorexia nervosa cer e ser aceitos por ela. A imagem que temos de nós
é de 5% (HEINBERG et al., 1995), o resultado ob- mesmos é o centro da nossa identidade e reflete a
tido entre as meninas da escola pública de Rio Claro nossa conduta. Ela é fundamental para a consciência
no EAT-26 é elevado, uma vez sugere a necessidade de quem somos. As cobranças sociais, entre outros
de averiguação do transtorno em 8,3% delas. fatores, podem comprometer o processamento da
Analisando a pontuação por sexo, obtida em imagem corporal do adolescente, resultando em dis-
cada item do EAT-26 (tab. 1) deste estudo, observa- túrbios na imagem mental do corpo. Conseqüente-
mos que as meninas estavam mais preocupadas com mente, ele passa a ser percebido pelo adolescente
o corpo, em fazer dietas e exercícios para queimar como desproporcionado, estranho ou irreal, o que
calorias, evitando o excesso de peso, pois é o que acarreta ansiedade e frustração ao comparar-se à
exige a sociedade atual. Ainda há o medo de consu- imagem idealizada de si próprio (FLEITLICH,
mir os alimentos fontes de carboidratos, pela crença 1997).
em seu efeito sobre o ganho de peso. Nesta pesquisa, o número de não respostas cha-
Acredita-se que no período que antecede o de- ma a atenção e poderia ser indicativo de fuga do
senvolvimento da anorexia nervosa o indivíduo problema. No entanto, foram os meninos os que
pode ter sido exposto a fatores predisponentes. mais deixaram respostas em branco. Sendo conheci-
Muitos pacientes com transtorno alimentar apre-
da a menor prevalência desses problemas entre eles,
sentam histórico de transtornos afetivos (depressão),
parece que, nesse caso, a não resposta está mais as-
dinâmica familiar comprometida, problemas com o
peso corporal e vulnerabilidade a um contexto cul- sociada à falta de interesse dos meninos por ques-
tural que se excede na valorização da forma física tões relacionadas ao peso e à imagem corporal. De
(NUNES et al., 1998). qualquer modo, não podemos deixar de considerar
Entre as adolescentes americanas, 60% a 80% a possibilidade de ter havido, neste estudo, uma su-
controlam a ingestão de alimentos; já entre os jo- bestimativa do número de adolescentes com pa-
vens do sexo masculino, as cifras caem para 10% a drões inadequados de comportamento alimentar,
16% (HEINBERG et al., 1995; TROYSE, 1997). sobretudo entre as meninas que não responderam
Considerando que toda obsessão pelo controle de- as questões (30%).
semboca no descontrole, dietas restritas conduzem Vale ressaltar também que os questionários fo-
ao comer compulsivo e ao vômito (TROYSE, ram aplicados em uma escola pública, em que estu-
1997). O comportamento restritivo pode ainda in- dam adolescentes de mais baixo poder aquisitivo.
fluenciar o grupo, como foi observado por Hogan Sabe-se que os transtornos do comportamento ali-
et al. (1999), que verificaram aumento dos compor- mentar ocorrem com maior freqüência entre ado-
tamentos restritivos entre colegas de adolescentes lescentes de maior poder aquisitivo (NUNES et al.,
com anorexia nervosa. 1998), sendo provável que esses números revelem-
Na adolescência, a consciência de si intensifica- se maiores em escolas particulares. Considerando os
se muito por conta das mudanças radicais ocorridas, nossos resultados em relação aos padrões america-
de ordem hormonal, funcional, afetiva e social nos, torna-se muito preocupante essa questão, espe-
(MORETTI & ROVANI, 1995). Nessa época, há cialmente se levarmos em conta a possibilidade de
uma crescente introspecção e grande ênfase é colo- esses resultados terem sido subestimados. Assim,
cada nos pares. O adolescente revisa a própria ima- eles apontam a necessidade de uma avaliação mais
gem corporal, comparando-a a de seus colegas.
detalhada e de intervenção.
Além disso, ele descobre a imagem de seu corpo
graças às tendências libidinais dos outros dirigidas a Com base na utilização do EAT-26, concluímos
ele. Por sua vez, a sociedade, com sua cultura, esta- ter conseguido avaliar a tendência a padrões alimen-
belece pré-requisitos e critérios que o adolescente tares anormais entre adolescentes e confirmamos a
deverá suplantar para atingir o status de adulto predominância desses comportamentos entre as
(FLEITLICH, 1997). Para Moretti e Rovani (1995), meninas, cuja causa pode ser o culto à magreza, va-
a adolescência é o fenômeno influenciado pelo mo- lorizado e imposto pela sociedade e pela mídia nos
mento histórico da sociedade em questão. dias atuais.

Saúde em Revista 57
COMPORTAMENTO ALIMENTAR DE ADOLESCENTES: APLICAÇÃO DO EAT-26 EM UMA ESCOLA PÚBLICA
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Submetido: 17/maio/2002
Aprovado: 11/dez./2002

58 SAÚDE REV., Piracicaba, 5(9): 53-58, 2003

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