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História da América

Prof. Manoel José Fonseca Rocha


Prof. Anderson Nereu Galcowski

2011
Copyright © UNIASSELVI 2011

Elaboração:
Prof. Manoel José Fonseca Rocha
Prof. Anderson Nereu Galcowski

Revisão, Diagramação e Produção:


Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI

Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri


UNIASSELVI – Indaial.

980
R672h Rocha, Manoel José Fonseca
História da América / Manoel José Fonseca Rocha; Anderson
Nereu Galcowski. Indaial : UNIASSELVI, 2011.

192 p. : il.

Inclui bibliografia.
ISBN 978-85-7830-391-4

1. História da América; I. Centro Universitário Leonardo da Vinci.


Ensino a Distância. II. Título.

Impresso por:
Apresentação
Prezado(a) acadêmico(a)!

Você está começando o estudo da disciplina de História da América.

A partir desse momento, convidamos você a conhecer um pouco


sobre a história do continente em que vivemos, dos seus primórdios até
nossos dias. O conteúdo presente nesse caderno, e que você irá estudar,
foi elaborado com uma linguagem simples, objetiva e dialógica. Você irá
perceber que nossa preocupação será levá-lo a pensar e dialogar com os
textos apresentados.

Para melhor atingir os objetivos propostos, dividimos o caderno em


três unidades, as quais estão subdivididas em quatro tópicos.

A primeira unidade traz o processo que levou à colonização da América.


Nesse sentido, caracterizaremos os motivos que levaram o europeu a colonizar
o continente, bem como as civilizações que aqui viviam e, consequentemente,
as populações que para cá vieram. Por fim, descreveremos os diversos tipos
de colonização adotados pelo colonizador europeu. Nossa intenção, nessa
unidade, será fornecer condições para que você possa compreender e refletir
sobre o processo que levou à colonização da América.

Na segunda unidade, nosso objetivo é apresentar a independência


das colônias americanas, como sendo resultado de um processo norteado
por interesses internos e externos. Nesse sentido, apresentaremos o processo
que levou à independência da América inglesa e da América espanhola,
procurando, sempre que for possível, estabelecer uma reflexão com o
processo de independência do Brasil. Ainda nessa unidade, descreveremos e
refletiremos sobre uma das guerras mais marcantes da história da América -
a Guerra do Paraguai.

Na terceira unidade, será apresentada a História mais recente da


América. Aqui descreveremos e refletiremos sobre a Revolução Cubana, as
Ditaduras da América Latina e sobre os Blocos Econômicos, que nortearam a
economia americana nos séculos XX e XXI.

Sempre que você precisar esclarecer dúvidas sobre os conteúdos ou


sobre atividades presentes no seu caderno, entre em contato conosco! Não se
esqueça de fazer as atividades, elas são importantes para o seu aprendizado.

Um grande abraço.

Prof. Manoel José Fonseca Rocha


Prof. Anderson Nereu Galcowski
III
NOTA

Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para
você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há
novidades em nosso material.

Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é


o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um
formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura.

O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova
diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também
contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo.

Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente,


apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade
de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador.
 
Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para
apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto
em questão.

Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas
institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa
continuar seus estudos com um material de qualidade.

Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de


Desempenho de Estudantes – ENADE.
 
Bons estudos!

IV
V
VI
Sumário
UNIDADE 1 – A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS......................... 1

TÓPICO 1 – A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E O ACHAMENTO DE NOVAS TERRAS..... 3


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 3
2 O FEUDALISMO................................................................................................................................... 3
3 A CRISE DO FEUDALISMO............................................................................................................... 8
4 A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: UMA SAÍDA PARA A CRISE EUROPEIA..................... 10
5 A EUROPA ENTRE OS SÉCULOS XI-XIII....................................................................................... 11
6 A AMÉRICA COMO UMA ALTERNATIVA VIÁVEL................................................................... 14
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 15
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 16

TÓPICO 2 – A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS....................................................................... 17


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 17
2 OS PRIMÓRDIOS DA MESOAMÉRICA........................................................................................ 17
LEITURA COMPLEMENTAR 1............................................................................................................. 23
3 SOCIEDADES ANDINAS................................................................................................................... 24
LEITURA COMPLEMENTAR 2............................................................................................................. 29
4 OS NATIVOS DO BRASIL EM 1500................................................................................................. 31
4.1 O COTIDIANO E SOBREVIVÊNCIA DOS NATIVOS................................................................ 32
RESUMO DO TÓPICO 2........................................................................................................................ 36
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 37

TÓPICO 3 – AMÉRICA PORTUGUESA.............................................................................................. 39


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 39
2 AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES.......................................................................................................... 39
3 A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA........................................................................................ 41
4 OS MÉTODOS UTILIZADOS PARA A CONQUISTA................................................................. 45
RESUMO DO TÓPICO 3........................................................................................................................ 48
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 49

TÓPICO 4 – AMÉRICA ESPANHOLA................................................................................................. 51


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 51
2 A CONQUISTA DO NOVO MUNDO.............................................................................................. 51
3 ORGANIZAÇÃO POLÍTICA METROPOLITANA........................................................................ 52
4 ESTRUTURA SOCIAL E ECONÔMICA NA AMÉRICA ESPANHOLA................................... 53
4.1 CLASSES SOCIAIS E MÉTODOS DE TRABALHO NA COLÔNIA......................................... 54
5 A CRISE COLONIAL ESPANHOLA................................................................................................. 55
RESUMO DO TÓPICO 4........................................................................................................................ 58
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 59

TÓPICO 5 – AMÉRICA INGLESA........................................................................................................ 61


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 61
2 INGLESES NA AMÉRICA DO NORTE............................................................................................ 61

VII
3 A ESTRUTURA COLONIAL............................................................................................................... 63
4 DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO............................................................................................. 65
RESUMO DO TÓPICO 5........................................................................................................................ 66
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 67

TÓPICO 6 – A AMÉRICA FRANCESA................................................................................................ 69


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 69
2 A PRESENÇA FRANCESA NO BRASIL........................................................................................... 69
3 OS FRANCESES NA AMÉRICA DO NORTE................................................................................. 70
RESUMO DO TÓPICO 6........................................................................................................................ 71
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 72

UNIDADE 2 – DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL


À GUERRA DO PARAGUAI....................................................................................... 73

TÓPICO 1 – O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA INGLESA.......................... 75


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 75
2 AS INFLUÊNCIAS EXTERNAS.......................................................................................................... 75
3 AS ETAPAS DA INDEPENDÊNCIA.................................................................................................. 77
3.1 AS LEIS INTOLERÁVEIS ............................................................................................................... 77
3.2 O PRIMEIRO CONGRESSO CONTINENTAL DA FILADÉLFIA............................................. 78
3.3 O SEGUNDO CONGRESSO CONTINENTAL DA FILADÉLFIA............................................ 79
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 82
RESUMO DO TÓPICO 1........................................................................................................................ 87
AUTOATIVIDADE.................................................................................................................................. 88

TÓPICO 2 – O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA ESPANHOLA................... 89


1 INTRODUÇÃO...................................................................................................................................... 89
2 AS INFLUÊNCIAS EXTERNAS.......................................................................................................... 89
3 A INDEPENDÊNCIA GRADUAL E A FRAGMENTAÇÃO POLÍTICA.................................... 91
3.1 JOSÉ DE SAN MARTÍN ................................................................................................................. 92
3.2 SIMON BOLÍVAR............................................................................................................................. 93
4 A NECESSIDADE DE CONSOLIDAR A INDEPENDÊNCIA..................................................... 95
LEITURA COMPLEMENTAR................................................................................................................ 97
RESUMO DO TÓPICO 2...................................................................................................................... 101
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 102

TÓPICO 3 – OS ESTADOS UNIDOS: “OS GUARDIÃES DA AMÉRICA”............................... 103


1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 103
2 A DOUTRINA MONROE.................................................................................................................. 103
LEITURA COMPLEMENTAR.............................................................................................................. 106
3 O BIG STICK......................................................................................................................................... 108
RESUMO DO TÓPICO 3...................................................................................................................... 110
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 111

TÓPICO 4 – GUERRA DO PARAGUAI............................................................................................. 113


1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 113
2 AS CAUSAS DA GUERRA: ANTECEDENTES HISTÓRICOS................................................. 113
2.1 O PARAGUAI DEPOIS DA GUERRA......................................................................................... 119
LEITURA COMPLEMENTAR.............................................................................................................. 121
RESUMO DO TÓPICO 4......................................................................................................................125
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................126

VIII
UNIDADE 3 – A AMÉRICA NO SÉCULO XX.................................................................................. 127

TÓPICO 1 – A ARGENTINA E O PERONISMO............................................................................. 129


1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 129
2 ARGENTINA E BRASIL: UMA BREVE COMPARAÇÃO.......................................................... 129
3 A ASCENSÃO DO PERONISMO.................................................................................................... 132
3.1 A DÉCADA INFAME..................................................................................................................... 133
3.2 OS DOIS MANDATOS DE PERÓN............................................................................................. 134
4 A ARGENTINA LOGO APÓS PERÓN........................................................................................... 136
RESUMO DO TÓPICO 1...................................................................................................................... 138
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 139

TÓPICO 2 – A REVOLUÇÃO CUBANA............................................................................................ 141


1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 141
2 O QUADRO SOCIOECONÔMICO DE CUBA ANTES DA REVOLUÇÃO........................... 141
3 CUBA NO PERÍODO REVOLUCIONÁRIO.................................................................................. 144
3.1 A SIERRA MAESTRA E FIDEL.................................................................................................... 145
3.2 CUBA APÓS A REVOLUÇÃO..................................................................................................... 148
4 CUBA HOJE: UM BREVE RETRATO.............................................................................................. 151
LEITURA COMPLEMENTAR.............................................................................................................. 154
RESUMO DO TÓPICO 2...................................................................................................................... 158
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................ 159

TÓPICO 3 – AS DITADURAS DA AMÉRICA LATINA................................................................ 161


1 INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 161
2 CARACTERÍSTICAS.......................................................................................................................... 161
2.1 A ARGENTINA DE GALTIERI A ALFONSÍN........................................................................... 162
2.2 O CHILE DE PINOCHET.............................................................................................................. 164
LEITURA COMPLEMENTAR 1........................................................................................................... 169
2.3 O PARAGUAI DE STROESSNER................................................................................................. 171
LEITURA COMPLEMENTAR 2........................................................................................................... 173
RESUMO DO TÓPICO 3......................................................................................................................176
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................177

TÓPICO 4 – OS BLOCOS ECONÔMICOS AMERICANOS.........................................................179


1 INTRODUÇÃO....................................................................................................................................179
2 BLOCOS ECONÔMICOS..................................................................................................................180
2.1 O NASCIMENTO...........................................................................................................................180
2.2 OBJETIVOS......................................................................................................................................180
3 O MERCOSUL......................................................................................................................................182
3.1 O NASCIMENTO...........................................................................................................................182
3.2 OBJETIVOS......................................................................................................................................183
4 OUTROS BLOCOS ECONÔMICOS...............................................................................................183
LEITURA COMPLEMENTAR..............................................................................................................185
RESUMO DO TÓPICO 4......................................................................................................................187
AUTOATIVIDADE................................................................................................................................188
REFERÊNCIAS........................................................................................................................................189

IX
X
UNIDADE 1

A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS
PRIMEIROS TEMPOS

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir desta unidade, você será capaz de:

• identificar as razões que levaram à colonização do continente americano;

• compreender a estrutura colonial portuguesa, espanhola, inglesa, francesa


e holandesa;

• refletir, a partir do contexto colonial, sobre a situação atual do nativo


americano;

• conhecer e comparar as diferenças existentes entre o processo de coloniza-


ção inglesa, espanhola, francesa, holandesa e portuguesa e refletir sobre suas
influências na realidade atual.

PLANO DE ESTUDOS
Esta unidade está dividida em seis tópicos. Em cada um deles, você encontrará
atividades que contribuirão para a apropriação dos conteúdos.

TÓPICO 1 – A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E O ACHAMENTO


DE NOVAS TERRAS

TÓPICO 2 – A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

TÓPICO 3 – AMÉRICA PORTUGUESA

TÓPICO 4 – AMÉRICA ESPANHOLA

TÓPICO 5 – AMÉRICA INGLESA

TÓPICO 6 – A AMÉRICA FRANCESA

1
2
UNIDADE 1
TÓPICO 1

A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E O ACHAMENTO DE


NOVAS TERRAS

1 INTRODUÇÃO
A colonização da América está atrelada às transformações econômicas e
políticas ocorridas na Europa a partir do século XII. Neste sentido, consideramos
relevante analisar, mesmo que brevemente, tais transformações.

Esta análise deve proporcionar uma aproximação entre você, acadêmico


(a), e os fundamentos culturais recorrentes na Europa neste período.

Assim, consideramos elementar iniciar esta reflexão a partir das principais


características do feudalismo e, sobretudo, os motivos que ocasionaram a ruína
desse sistema. Nessas primeiras páginas, estudaremos sobre a constituição
do feudalismo, sua concepção e seus agentes predominantes. Em seguida,
será observado o período caracterizado pela crise do sistema feudal e suas
consequências que culminaram na “necessidade” da exploração de novos
territórios a fim de satisfazer as necessidades da economia europeia.

Portanto, através desta unidade, objetivamos compreender os motivos


que ocasionaram a vinda dos europeus para a América.

2 O FEUDALISMO
Considerando a crise do sistema feudal, fator preponderante para o
processo de expansão marítima e imperialista europeia no final da Idade Média,
nos parece coerente iniciar nossa leitura relembrando e até mesmo aprofundando
nossa reflexão acerca das principais características pertinentes ao feudalismo.

3
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

FIGURA 1 – EXEMPLO DE FEUDO

FONTE: Disponível em: <http://www.professoraclara.com/imagens/feudal/feudo-des.JPG>.


Acesso em: 27 out. 2010.

O sistema feudal emerge a partir do século X atingindo seu apogeu entre


fins do século XII e início do século XIII.

Assim,

Pelo século XIII, o feudalismo europeu já havia produzido uma


civilização unificada e desenvolvida, que registrava um enorme
avanço em relação às comunidades rudimentares e fragmentadas
da Idade Média. Eram muitos os índices deste avanço. O primeiro e
mais fundamental deles foi o grande salto para frente que produziu
o excedente agrícola no feudalismo. Isto porque as novas relações
de produção rural haviam permitido um impressionante aumento
na produtividade agrícola. As inovações técnicas que eram os
instrumentos materiais deste aumento foram basicamente o arado de
ferro para lavrar, os arreios firmes para tração equina, o moinho de
água para a força mecânica, o adubo calcário para a melhoria do solo e
o sistema de três campos para a rotação de semeaduras. (ANDERSON,
2004, p. 177-178).

4
TÓPICO 1 A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E O ACHAMENTO DE NOVAS TERRAS

FIGURA 2 – DIAGRAMA DE UM FEUDO

FONTE: Burns, 1993

E sobre isto Perry Anderson nos alerta para que de fato não foi o “simples”
advento de novas tecnologias voltadas à produção agrícola que estimularam
esse emergente sistema social. Somente após a consolidação do sistema feudal,
ou seja, as configurações das relações sociais de produção é que esses elementos
associados foram amplamente implementados.

5
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

FIGURA 3 – SÍNTESE DA SOCIEDADE FEUDAL

Clero

Nobreza

Camponeses e Servos

FONTE: Disponível em: <http://www.asdicas.com.br/wp-content/uploads/2010/03/feudalismo.


png>. Acesso em: 27 out. 2010.

Em suma, este autor defende a tese de que a simples invenção desses


implementos não foi suficiente para alavancar a constituição de um novo modelo
social, pelo contrário, ganhou significado a partir da consolidação das relações
sociais que caracterizaram o feudalismo como as concessões de posse da terra,
dependência entre servos e senhores entre outras.

Ao longo da conhecida Idade Média Ocidental, o feudalismo apresentou-


se como o resultado do processo de aculturação entre as sociedades romana e
bárbara, fato resultante da invasão desses ao território ocupado por aquela. Sua
estrutura baseava-se em alguns pilares dentre os quais: o social, o político, o
econômico e o religioso.

NOTA

Segundo o Dicionário Aurélio, aculturação é o “processo decorrente do contato


mais ou menos direto e contínuo entre dois ou mais grupos sociais, pelo qual cada um desses
grupos assimila, adota ou rejeita elementos da cultura do outro, seja de modo recíproco ou
unilateral, e podendo implicar, eventualmente, subordinação política”.

6
TÓPICO 1 A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E O ACHAMENTO DE NOVAS TERRAS

A seguir caracterizamos de maneira sucinta quatro desses pilares:

● Social: as relações de poder manifestavam-se através da posse da terra. O


poder em questão estava vinculado ao fato de ter ou não a posse desta. Aqueles
que dependiam de um senhor - proprietário de terras – encontravam-se em
uma situação de submissão.

● Político: representa um período em que o poder político estava descentralizado


com relação ao rei. Os reis, em virtude das práticas de susserania e vassalagem,
perderam parte considerável do poder político, agora nas mãos dos senhores,
figura mais próxima e presente no cotidiano da vila.

● Econômico: caracterizava-se pela autossuficiência econômica e pela ausência


quase total do comércio e de intercâmbios monetários. A produção era
predominantemente agropastoril, voltada para a subsistência, e as trocas eram
feitas com produtos, não com dinheiro.

● Religioso: a Igreja se tornou proprietária de uma grande quantidade de feudos,


e consequentemente, exerceu forte poder político e econômico na sociedade,
exercendo inclusive controle sobre a produção científica e cultural da época.

Estes quatro pilares, somados, foram fundamentais para que o feudalismo


mantivesse suas sólidas estruturas por basicamente mil anos. A sociedade
concentrava-se no âmbito rural e era no feudo que gravitava a vida social do
homem medieval. Num único feudo existiam campos cultiváveis, a capela
(para os habitantes dos feudos rezarem), os bosques (para os senhores feudais
promoverem suas caçadas), as vilas (onde camponeses moravam).

Aqui, o senhor feudal era realmente, nas palavras de Marx, ‘o manipulador


e controlador do processo de produção e de todo o processo da vida social’ –
ou seja, uma necessidade funcional do avanço agrícola. Naturalmente, este
avanço era obtido ao mesmo tempo para benefício do proprietário do moinho
e à custa do vilão. Outras banalités tinham caráter mais puramente confiscatório,
mas a maioria era derivada do uso coercitivo dos meios de produção superiores
controlados pela nobreza. As banalités foram profundamente odiadas durante toda
a Idade Média e eram sempre um dos primeiros objetivos de ataques populares
durante os levantes camponeses. O papel direto do senhor na administração
e supervisão do processo de produção naturalmente declinava, enquanto o
próprio excedente aumentava: desde cedo bailios e intendentes administravam
grandes propriedades para uma nobreza mais elevada que se havia tornado
economicamente parasitária.

7
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

NOTA

Significado de bailio: s. m. Nome dado em diversos países a magistrados com


várias atribuições e hierarquias. Comendador, nas antigas ordens militares. FONTE: Disponível
em:< http://www.dicionarioweb.com.br/bailio.html>.

[...] “O camponês típico devia proporcionar rendas em trabalho na


propriedade senhorial – muitas vezes até três dias por semana – e muitas obrigações
adicionais; no entanto, ele estava livre para tentar aumentar a produção em sua
própria faixa de terra no resto da semana”. (ANDERSON, 2004, p. 179).

3 A CRISE DO FEUDALISMO
É comum encontrarmos sites e até mesmo livros didáticos descreverem de
maneira pragmática as causas do esfacelamento do sistema feudal, porém vários
debates historiográficos já denunciaram as dificuldades de padronização desses
conceitos. Durante o período medieval, o sul da Europa ocidental apresentou
traços peculiares que diferenciavam essa região das áreas mais centrais e daquelas
situadas ao norte.

Neste sentido, concordamos com Hilário Franco Júnior (2006, p. 46),


quando afirma que “Importa-nos mais buscar o entendimento da essência da crise.
Sem dúvida, podemos afirmar que após uma fase A de crescimento econômico
(1200-1316), a Europa ocidental entrou numa fase B depressiva, que se estenderia
até fins do século XV no Sul e princípios do XVI no Centro e no Norte”.

Evidentemente que as limitações técnicas relativas à produção agrícola,


os baixos índices de reeinvestimentos pelos senhores de terra, o crescimento
populacional colaboraram para que “entre meados do século XIV a fins do
século XV, [Portugal conhecesse] 21 crises de subsistência. Ademais, verificaram-
se pelo menos cinco períodos de fome generalizada em quase todo o Ocidente,
cada um deles de anos” (FRANCO JÚNIOR, 2006, p. 47), denunciando assim a
precariedade e vulnerabilidade do setor primário.

O setor secundário observou uma retração muito provavelmente


ocasionada pela elevação dos preços dos alimentos. Assim, os recursos financeiros
disponíveis para consumir bens industriais eram diminutos.

8
TÓPICO 1 A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E O ACHAMENTO DE NOVAS TERRAS

Afetado pelos motivos anteriores, o setor terciário é atingido por uma


redução da margem de lucro tanto das atividades comerciais quanto das
financeiras. No caso dos bancos italianos, a lucratividade atingiu no começo do
século XIV cerca da metade ou um terço do que fora anteriormente. As dificuldades
econômicas das monarquias agravaram ainda mais o setor, sobretudo na França
e na Inglaterra, envolvidas na Guerra dos Cem Anos. Precisando de recursos
para a luta, os reis lançavam impostos extraordinários sobre o comércio, quando
não simplesmente confiscaram mercadorias e dinheiro. Ou então contraíam
empréstimos que não podiam saldar, como os que levaram à falência as casas
bancárias dos Bardi e dos Peruzzi em 1345 e dos Acciaiuoli em 1347. (FRANCO
JÚNIOR, 2006).

Esses fatos revelam o clima de insegurança que por sua vez propiciava
o desmantelamento de um sistema financeiro fragilizado pelas constantes
mutações monetárias impostas pelos soberanos. Sempre necessitados de
dinheiro, os monarcas diminuíam a proporção de metal precioso das moedas
e mantinham seu valor nominal, cunhando assim um maior número de peças
com a mesma quantidade de metal nobre. Mas dessa forma recebiam impostos
em moeda desvalorizada, o que os levava a efetuar nova desvalorização, e assim
sucessivamente. Para lembrar apenas o caso francês, entre 1330 e 1380, o Gros
perdeu 80% de seu valor real. (FRANCO JÚNIOR, 2006, p. 47).

Essas políticas monetárias eram ocasionadas pelos ônus das várias


guerras, retração comercial – e não sua total estagnação – escassez de metais
preciosos necessários à cunhagem de novas moedas e à diminuta circulação
monetária. “Por fim, o entesouramento: percebendo que tanto as moedas ricas em
metal precioso quanto as já manipuladas e desvalorizadas tinham o mesmo valor
nominal, os usuários usavam estas e guardavam aquelas, forçando, portanto
novas manipulações por parte do Estado”. (FRANCO JÚNIOR, 2006, p. 48).

Esse fato reforça os conceitos cristalizados, inclusive em livros didáticos,


acerca da necessidade de governos europeus encontrarem novas fontes de metais
preciosos. Desse período de crise e desestabilização socioeconômica irá emergir
a economia moderna.

9
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

4 A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: UMA SAÍDA PARA A


CRISE EUROPEIA
Na medida em que chegavam, apropriavam-se das terras por onde
passavam, portanto, especula-se que a vinda dos europeus para a América não foi
outra senão a necessidade de estabelecer novas relações comerciais e extrativistas
como nos lembra Jaime Pinsky (2007, p. 23), ao afirmar que:

A descoberta da América por Cristóvão Colombo faz parte do


processo de expansão do capitalismo europeu. O comércio, renascido
em fins da Idade Média e desenvolvido no interior da Europa entre
as cidades italianas e flamengas, foi deslocado, no século XIV, para o
litoral atlântico. A escassez de metais preciosos provocava a falta de
moeda em circulação, agravando os problemas já existentes. As nações
da costa atlântica (Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Holanda),
detentoras do comércio sobrevivente, eram as que mais sofriam com
a crise e, para superá-la, precisavam encontrar metais preciosos para
valorizar suas moedas. Por outro lado, dependiam das cidades italianas
para o fornecimento das mercadorias orientais trazidas pelos árabes,
que dominavam o comércio no Mediterrâneo. Assim, a busca de
novos caminhos para atingir o Oriente, terra encarada como fonte de
riquezas, passou a constituir uma questão de sobrevivência. Era preciso
enfrentar o Atlântico, explorá-lo, buscando saídas, e para financiar um
empreendimento desse porte era condição prévia a existência de Estados
Nacionais com poder político centralizado e recursos financeiros
volumosos. Portugal e Espanha formaram os primeiros Estados
Nacionais. Estavam, portanto, prontos para liderar o expansionismo
marítimo e, levados pela necessidade, assim o fizeram.

Ou seja, a crise europeia associada à decadência do sistema feudal e a


ascensão das relações pré-capitalistas de produção provocaram a necessidade,
por parte dos europeus, de dominar novas rotas marítimas com destino às Índias
ou regiões a partir das quais fosse viável a extração de algum tipo de riqueza.

Neste contexto, foram os países ibéricos – Portugal e Espanha – os


pioneiros em se aventurar por mares desconhecidos além de interagir com povos
e culturas diferentes daquelas observadas na Europa.

O contexto citado acima se refere ao período transitório entre Idade Média


e Idade Moderna.

Aproveitando a oportunidade convido você, a analisar o texto a seguir


de Pazzinato & Senise (2002, p. 72), pertinente às relações pré-capitalistas de
produção e suas origens.

10
TÓPICO 1 A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E O ACHAMENTO DE NOVAS TERRAS

No século XIII, com o predomínio das atividades comerciais sobre


o trabalho dos artesãos, iniciaram-se os choques entre a burguesia e os
trabalhadores. Isso provocou a desagregação das comunas como forma
de organização política que unificava todos os habitantes do burgo. Com
o declínio das comunas, o governo das cidades passou a ser exercido pelos
representantes dos grupos burgueses mais poderosos. Ao mesmo tempo, dois
outros processos contribuíam para o aparecimento de um novo grupo social.
Um deles foi o enfraquecimento das corporações, que já não podiam competir
com a produção em maior escala do trabalho em domicílio organizado pelos
mercadores. Com isso, muitos de seus oficiais, companheiros e aprendizes e até
mesmo mestres artesãos tornaram-se trabalhadores assalariados a serviço dos
grandes comerciantes.

Na Inglaterra essas mudanças foram acompanhadas pela expulsão


dos camponeses das terras em que trabalhavam. Obrigados a migrar para as
cidades, esses camponeses passaram a trabalhar em troca de um salário na
produção manufatureira. Esses dois contingentes de assalariados – camponeses
sem terra e antigos trabalhadores das corporações de ofício – dariam origem a
um novo grupo social ligado ao trabalho urbano.

Assim, apesar do feudalismo permanecer como sistema dominante no


interior da sociedade medieval, percebe-se, entre os séculos XI e XIII, o início do
desenvolvimento de uma nova configuração de ordem social.

5 A EUROPA ENTRE OS SÉCULOS XI-XIII


O aumento populacional observado desde meados do século X ocasionou
a divisão dos antigos mansos pertinentes à época carolíngia em lotes menores,
com cerca de 3 ou 4 hectares, denominados tenências.

Porém, de acordo com Hilário Franco Júnior (2006, p. 37),

não só os lotes camponeses viram sua área diminuir na Idade Média


Central. A reserva senhorial também se viu reduzida em razão de
vários fatores. Primeiro, a necessidade de criação de novas tenências
camponesas, o que apenas o desmembramento dos mansos não fazia
na quantidade desejada. Segundo, o progresso das técnicas agrícolas
permitia ao senhor obter maior produção com menos terra. Terceiro,
os rendimentos senhoriais vinham então bem mais do exercício dos
direitos de ‘ban’ do que da exploração direta do solo (daí as baixas
exigências feitas aos camponeses em troca de suas tenências). Quarto,
na nova ordem social que se implantava desde fins do século X – o
feudalismo – para estabelecer relações de vassalagem o senhor cedia
terras sob forma de feudo.

11
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

NOTA

Ban: no começo da Idade Média, este termo designava o poder de comando do


chefe militar. Depois, o conjunto de poderes regalianos (de rei) que a partir do século X foi
confiscado e explorado por grandes latifundiários: julgar, punir, tributar.

Essas alterações proporcionaram uma drástica diminuição do trabalho


escravo no norte europeu em decorrência do barateamento da mão de obra
ocasionada por sua vez pelo já mencionado aumento populacional.

Além disso, o aumento da produtividade agrícola e seu consequente


excedente oportunizaram o revigoramento do comércio. Como afirma Franco
Júnior (2006, p. 187), “a repercussão desse fato extrapolou a esfera econômica,
tendo como pontos de convergência as feiras, dentre as quais se destacam as
ocorridas na região de Champanhe”.

Outra transformação econômica denominada por Jean Gimpel como


Revolução Industrial Medieval é identificada durante a Idade Média Central,
assim:

Seu ponto de partida foi o crescimento demográfico e comercial,


fomentador do desenvolvimento urbano. Estimuladas pela chegada
de camponeses que conseguiam romper os laços servis, as cidades
localizadas próximas a rios ou estradas frequentadas por comerciantes
logo começaram a crescer. Noutros pontos, sem uma célula urbana
a desenvolver, surgiram cidades praticamente do nada: entre 1100 e
1300 apareceram cerca de 140 novas cidades no Ocidente. Algumas
eram de iniciativa senhorial (para poder taxá-las), outras nasciam de
um entreposto comercial ou de um mercado rural.
Todas elas, qualquer que fosse sua origem, precisavam oferecer ao
campo alguns bens em troca de alimentos e de matérias-primas. Dessa
maneira o artesanato urbano logo conheceu seu primeiro impulso,
prolongado pelas crescentes necessidades de uma população (rural
e urbana) em expansão e mais exigente em função do progresso
econômico. A partir dessa pressão do mercado consumidor e
aproveitando o avanço cultural que ocorria paralelamente, a
Cristandade ocidental criou e aperfeiçoou dezenas de técnicas.
(FRANCO JÚNIOR, 2006, p. 41- 42).

Esses fatores contribuem para uma acentuada monetarização da economia


europeia, avessa ao o que ocorrera nesta região num período anterior (séculos IV-
X), no qual o entesouramento era prática predominante.

Considerando nossa leitura até este ponto, podemos perceber uma


correlação entre os fatos apresentados e os motivos que ocasionaram a chegada
dos europeus ao Novo Mundo, posteriormente reconhecido como Continente
Americano.

12
TÓPICO 1 A CRISE DO SISTEMA FEUDAL E O ACHAMENTO DE NOVAS TERRAS

Aquilo que Jean Gimpel denominou de Revolução Industrial Medieval e a


consequente monetarização da economia provocou a busca por novos entrepostos
comerciais, mercados consumidores e metais preciosos, dentre eles ouro e prata
utilizados, sobretudo, na cunhagem de moedas.

Neste sentido,

[...] percebeu-se que as antigas espécies monetárias não satisfaziam


naquele contexto diferente. Um primeiro problema era a grande diversidade, a
existência de centenas de moedas senhoriais, cada uma delas circulando numa
área restrita. Um segundo problema era o baixo valor das espécies, resultado da
reforma monetária carolíngia do século VIII, que implantara o monometalismo
de prata: o denarius, moeda de pequeno valor, adequava-se melhor àquela
economia pouco produtiva e de lenta circulação.

De um lado, a solução veio do fortalecimento do poder monárquico que


então começava a ocorrer. Na França, por exemplo, as 300 oficinas de cunhagem
existentes no início do século XI foram sendo reduzidas, até restarem apenas
30 no início do século XIV. De outro, os metais preciosos que tinham sido
entesourados foram aos poucos reentrando em circulação. Graças à expansão
mercantil, entre início do século XII e meados do século XIII um afluxo de ouro
muçulmano contribuiu para alargar o estoque metálico ocidental. Graças às
novas técnicas de mineração, cresceu bastante a produção de prata da Europa
central. Enfim, respondendo melhor às condições da época, em meados do
século XIII reinstaurou-se o bimetalismo. Significativamente, as moedas de
ouro reapareceram nas cidades mercantis italianas e só depois no resto do
Ocidente cristão. (FRANCO JÚNIOR, 2006, p. 44).

Eis alguns fatos preponderantes vinculados à crise do sistema feudal:

● Decadência do feudalismo em decorrência do renascimento urbano e comercial.


Neste cenário, a posse da terra perde o significado mantido até então em
detrimento dos avanços das práticas mercantis.

● Escassez de metais preciosos para cunhar moedas e consequentemente


dinamizar as relações comerciais.

● Necessidade de expandir a fé católica em novas terras em resposta ao avanço


da religião protestante.

Portanto, o continente americano, objeto de nosso interesse neste Caderno de


Estudos, foi observado como fonte das mais diversas riquezas naturais, necessárias
à sustentação dos novos padrões econômicos emergentes no Velho Mundo.

É a partir deste contexto que podemos analisar o processo de colonização


da América e consequentemente toda a estrutura econômica, política e social
organizada estruturada nesta região.

13
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

6 A AMÉRICA COMO UMA ALTERNATIVA VIÁVEL


O achamento do então desconhecido Continente Americano pelos
europeus no final do século XV foi encarado como uma alternativa viável aos
já expostos problemas enfrentados na Europa, especialmente aqueles de caráter
econômico.

Neste sentido, é importante analisar os motivos pelos quais os habitantes


do Velho Mundo pressionados inclusive pelos seus governantes sentiram-se
obrigados a desbravar um mar tenebroso, desconhecido e extremamente perigoso
e posteriormente iniciar outro processo, este em terra firme, caracterizado pelo
reconhecimento de territórios e culturas diferentes.

A compreensão e utilização dos termos “achamento” e “culturas


diferentes” revelam nossas perspectivas em relação a este processo. Para tal,
consideramos as novas correntes historiográficas que posicionam o Continente
Americano, enquanto uma região autêntica em seus mais variados aspectos
sociais, culturais e ambientais. Assim, o nativo não é analisado como um indivíduo
inferior tampouco superior ao europeu ou qualquer outro povo.

Por outro lado, o próprio europeu deverá aqui ser analisado a partir da
sua concepção antropológica pertinente ao período em questão, sem vulgarizá-
lo, julgá-lo, desmerecê-lo ou enaltecido. Houve nesse período uma convergência
de culturas, de seres distintos e concepções a respeito da própria existência
completamente antagônicas.

14
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você viu que:

● Os motivos que ocasionaram o colapso do feudalismo, dentre eles, foi a


diminuta circulação monetária e a desvalorização da moeda como um dos
fatores preponderantes que ocasionaram a crise desse sistema.

● A concepção do europeu em relação ao novo Continente a partir da perspectiva


econômica, social e cultural.

● As necessidades europeias e viabilidade de ocupação do Novo Mundo com


vistas ao saneamento das questões econômicas.

15
AUTOATIVIDADE

1 Descreva os motivos pelos quais os governos europeus optaram por


desbravar novas terras com o intuito de encontrar metais preciosos em fins
da Idade Média e início da Idade Moderna, ou seja, durante o período de
crise do sistema feudal.

2 Discorra sobre a viabilidade de colonização da América por parte dos


europeus a partir do final do século XV.

16
UNIDADE 1
TÓPICO 2

A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

1 INTRODUÇÃO
Os países situados atualmente na América Latina e que foram colonizados
por espanhóis revelam suas origens nas civilizações pré-colombianas. Assim, a
proposta deste tópico é analisar as origens dos povos situados nesta região no
período anterior ao estabelecimento dos mexicas (astecas), em seguida verificar as
particularidades dos próprios mexicas, além de fazer uma observação da região
durante o período imediatamente anterior à chegada dos primeiros europeus.

Ressaltarmos a importância em se considerar as diversas culturas


localizadas neste Continente no período que antecedeu a chegada dos europeus.
O conjunto de povos citados neste texto, embora compreendam uma parcela
significativa desta diversidade, expressam suas lacunas oportunizadas pela
marginalização e exclusão de alguns. Não é novidade, que ao longo dos últimos
séculos, o europeu foi considerado superior e civilizado quando comparado com
o nativo americano, concepção que vem sendo combatida por algumas correntes
historiográficas recentes e que lentamente observam o resultado de suas pesquisas
serem publicadas inclusive em novos livros didáticos.

Voltaremos a refletir sobre estas questões no momento da apresentação


dos povos nativos que ocupavam o território que mais tarde se tornou colônia
portuguesa, ou seja, o Brasil.

2 OS PRIMÓRDIOS DA MESOAMÉRICA
Embora seja corrente, os testemunhos acerca da presença humana em
território ocupado pelo atual México a partir de 20.000 a.C. e até mesmo antes
disso, por volta de 35.000 a.C. chegando neste Continente através do estreito de
Bering, os fósseis encontrados no sítio arqueológico de Tepexpan, situado a cerca
de 40 quilômetros da Cidade do México, datam de no máximo 9.000 a.C.

Durante um longo período habitaram a terra apenas alguns bandos


de caçadores e coletores de alimentos. Seriam necessários mais três ou talvez
quatro milênios para que o homem da Mesoamérica iniciasse, por volta de
5.000 a.C, o processo que veio desembocar na agricultura. Achados em várias

17
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

cavernas de Sierra de Tamaulipas e em Cozcátlan (Puebla) mostram como


pouco a pouco os antigos coletores iniciaram o cultivo da abóbora, da pimenta
malagueta, do feijão e do milho. A produção cerâmica teve início muito mais
tarde, por volta de 2.300 a.C. Em várias partes do México central e meridional
e na América Central, começaram a proliferar aldeias de agricultores e artesãos
de cerâmica. Algumas dessas aldeias, situadas em ambientes provavelmente
mais adequados, como às margens de um curso d’água ou junto ao mar,
experimentaram muito cedo um crescimento populacional. Muitas vezes os
habitantes dessas aldeias espalhadas por um território tão vasto diferiam étnica
e linguisticamente. Dentre esses, cedo se destacou um grupo em particular.
Achados arqueológicos revelam que uma série de mudanças extraordinárias
começaram a surgir, a partir de mais ou menos 1.300 a. C., numa região próxima
ao Golfo do México, ao sul de Veracruz e no estado vizinho de Tabasco. Essa
região era conhecida desde os tempos pré-colombianos pelo nome de “Terra da
Borracha”, Olman, terra dos olmecas. (BETHELL, 2004, p. 27).

Acredita-se que foram os olmecas os primeiros povos situados na região da


Mesoamérica e construir grandes complexos voltados em sua maioria para práticas
religiosas. A existência de grandes praças públicas indica que determinados rituais
religiosos eram realizados ao ar livre.

FIGURA 4 – ESCULTURA OLMECA

FONTE: Disponível em: <http://static.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/04/olmecas-300x293.


jpg>. Acesso em: 27 out. 2010.

18
TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

“É possível supor algum tipo de divisão de trabalho. Enquanto muitos


indivíduos continuaram a trabalhar na agricultura e em outras atividades de
subsistência, outros se especializaram em artes e ofícios diferentes, em garantir
a defesa do grupo, em empreendimentos comerciais, no culto aos deuses e no
governo, que estava provavelmente nas mãos dos chefes religiosos”. (BETHELL,
2004, p. 28).

Há indícios que através das práticas comerciais e religiosos tenham


influenciado várias regiões próximas ao golfo do México e no Planalto Central,
regiões ocupadas pelos Maias além do oeste mexicano.

Por volta de 600 a.C., a influência da cultura olmeca começou a se fazer


sentir em locais como Tlatilco, Zacatenco e outros, nas proximidades
do que séculos mais tarde veio a ser Cidade do México. Processos
paralelos desenvolveram-se em outras regiões da Mesoamérica central
e meridional. A agricultura se expandiu e diversificou; entre outras
culturas, o algodão foi cultivado com sucesso. As aldeias cresceram,
dando lugar a centros maiores. (BETHEL, 2004, p. 29).

Esses avanços e sua notória influência na região da Mesoamérica


revelam a capacidade desses povos em transpor as dificuldades ocasionadas pelo
desconhecimento dos usos da roda, metalurgia e domesticação de animais.

No planalto central desenvolveu-se uma verdadeira “metrópole dos


deuses” na qual além das construções destinadas aos eventos religiosos
percebe-se o cuidado com o planejamento urbano. Esta cidade que contava com
bairros extensos, bem organizados e eficientes sistemas de drenagem chegou a
comportar em seu apogeu – entre os séculos V e VI d. C. – uma população de
aproximadamente 50 mil habitantes.

Paralelamente ao desenvolvimento de Teotihuacán, surgiu uma


civilização em outras sub-regiões da Mesoamérica. Um dos primeiros
exemplos foi Monte Albán, em Oaxaca central, cujo surgimento
remonta a cerca de 600 d. C. Nesse local, além do centro religioso
construído no topo de uma colina, a presença de numerosas
estruturas em suas encostas sugere a existência de um núcleo urbano
relativamente grande. (BETHELL, 2004, p. 30-31).

Os maias ocuparam as regiões de Guatemala e Belize, estendendo-se pela


península de Yucatán e pelas planícies e montanhas dos estados do atual México
denominados Tabasco e Chiapas além de porções de El Salvador e Honduras.

19
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

FIGURA 5 – OBSERVATÓRIO ASTRONÔMICO DE CHICHÉN ITZÁ, CIVILIZAÇÃO MAIA

FONTE: Disponível em: <http://static.blogstorage.hipi.com/spaceblog.com.br/t/tu/turma/images/


mn/1226679307.jpg>. Acesso em: 27 out. 2010.

Graças à arqueologia, sabemos da existência de mais de 50 centros


maias de importância considerável, que foram ocupados durante todo o
Período Clássico. Alguns dos mais famosos são Tikal, Uaxactún, Piedras
Negras e Ouiriguá na Guatemala; Copán em Honduras; Nakum em
Belize; Yaxchilám, Palenque e Bonampak em Chiapas; Dzibilchaltún,
Cobá, Labná, Kabah e os primórdios de Uxmal e Chichén-Itzá na
península de Yucatán. [...] Na sociedade maia clássica coexistiam
dois estratos sociais claramente distintos: o povo comum, ou plebeu
(devotados, em sua maioria, à agricultura e à execução de vários serviços
pessoais), e o grupo dominante, composto de governantes, sacerdotes e
guerreiros de alta posição. (BETHELL, 2004, p. 31).

Especula-se a respeito do desaparecimento dessas civilizações, porém o


fato é que este episódio ocorreu entre 650 e 950 d. C.

Os avanços culturais promovidos ao longo do Período Clássico (650 d.C.


– 950 d.C.) foram preservados pelas civilizações posteriores até a chegada dos
espanhóis em 1519.

Apesar de conhecerem metais preciosos como ouro e prata não se


destacaram na produção de ferramentas. Seus martelos, raspadores e facas,
por exemplo, eram feitos de pedra e os instrumentos para trabalhar o couro de
ossos. Manipulavam a madeira e posteriormente desenvolveram pertinentes à
metalurgia.

20
TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

As técnicas agrícolas eram variadas. Além do cultivo sazonal, no qual às


vezes empregavam algum tipo de fertilizante, as sociedades da Mesoamérica
fizeram uso de sistemas de irrigação, terraceamento e, principalmente na
região central, introduziram os famosos chinampas, descritos muitas vezes
como ‘jardins flutuantes’. Eram estruturas artificiais de junco, cobertas com
terra fértil, fundeadas nos leitos dos lagos por meio de estacas de madeira.
Nos chinampas eram plantados salgueiros para segurá-los no lugar. Sobre o
excelente solo dos chinampas, os mexicas cultivavam flores e legumes frescos
em abundância. (BETHELL, 2004, p. 53-54).

Em ocasião de sua chegada, o europeu demonstrou-se impressionado


pela estrutura comercial organizada pelos pochtecas em praças de mercado e
comércio.

“Além de comprar e vender, os comerciantes também lidavam com


vários tipos de contratos e empréstimos no sentido de viabilizar seus negócios”.
(BETHELL, 2004, p. 55).

Outro aspecto relevante da cultura presente em Tenochtitlán era a religião,


caracterizada pela diversidade de elementos oriundos de povos e civilizações
submetidas e antecessoras processadas arduamente pelos sacerdotes a fim de
melhor externar as visões de mundo dos mexicas.

FIGURA 6 – REPRESENTAÇÃO DE TENOCHTITLÁN

FONTE: Disponível em: <http://civilizacoesantigas.pbworks.com/f/tenochtitlan-2.jpg>. Acesso


em: 27 out. 2010.

21
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

No período imediatamente anterior à chegada dos espanhóis, percebe-se


que Tenochtitlán caracterizava-se como o centro de referências para os povos que
margeavam essa região, como ressalta Bethell (2004, p. 59): “às vésperas da invasão
espanhola, Tenochtitlán-México, a metrópole asteca, era o centro administrativo
de um vasto e complexo conglomerado político e socioeconômico. Vários autores,
ao descrever a natureza política dessa entidade, utilizaram termos como império,
reino ou confederação de senhoriais e mesmo tribos”.

[...] Não há registros de qualquer tentativa de expandir rumo ao


norte no período de Tenochtitlán-México. Foi deixada aos espanhóis
(acompanhados pelos tlaxcalanos e pelos mexicas) a conquista e a
colonização da vasta extensão de territórios para além da Mesoamérica.
Assim, um mosaico de povos, culturas e línguas possuíam a terra em
que Hernán Cortés e seus seiscentos homens logo iriam desembarcar.
O conquistador cedo ficaria sabendo da existência dos mexicas. Foram
feitas referências a eles pelos maias de Yucatán, pelos chontals de
Tabasco e pelos totonacas de Veracruz. Por intermédio dos últimos,
e particularmente dos tlaxcalanos, Cortés foi informado do poder e
da riqueza da metrópole asteca e de seus governantes, em especial de
Moteuczoma. Em seus escritos (e nos dos outros ‘cronistas soldados’),
podem-se encontrar inúmeras referências aos aspectos mais óbvios
da estrutura política, religiosa e socioeconômica que sustentavam a
grandeza dos mexicas. (PAZZINATO; SENISE, 2002, p. 72).

Prezado(a) acadêmico(a)! As informações acima pertinentes as


diversidades dos povos mesoamericanos, considerando o Período Clássico até
a chegada dos espanhóis, nos fornece subsídios teóricos para compreender
as estratégias utilizadas por Cortés com o intuito de desestabilizar os astecas.
Exercendo seu poder “imperialista” sobre os demais povos desta região, os
astecas não eram bem vistos pelos seus vizinhos, e Cortés soube articular essas
forças em benefício dos próprios europeus, fazendo com que os próprios nativos
se articulassem contra os poderosos mexicas (astecas), facilitando o propósito de
dominação daqueles.

22
TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

LEITURA COMPLEMENTAR 1

A VISÃO ASTECA DA CONQUISTA

O primeiro traço fundamental da visão asteca da Conquista é o que se


poderia descrever como o quadro mágico no qual esta haveria de desenvolver-se.
Os astecas afirmam que, alguns anos antes da chegada dos homens de Castela,
houve uma série de prodígios e presságios anunciando o que haveria de acontecer.
No pensamento do senhor Motecuhzoma, a espiga de fogo que apareceu no céu,
o templo que se incendiou por si mesmo, a água que ferveu no meio do lago, a
voz de uma mulher que gritava noite adentro, as visões de homens que vinham
atropeladamente montados numa espécie de veados, tudo isso parecia avisar que
era chegado o momento, anunciado nos códices, do regresso de Quetzalcóatl e
dos deuses.

Mas, quando chegaram as primeiras notícias procedentes das margens


do Golfo sobre a presença de seres estranhos, chegados em barcas grandes
como montanhas, que montavam uma espécie de veados enormes, tinham cães
grandes e ferozes e possuíam instrumentos lançadores de fogo, Motecuhzoma
e seus conselheiros ficaram em dúvida. De lado, talvez Quetzalcóatl houvesse
regressado. Mas, de outro, não tinham certeza disso. No coração de Motecuhzoma
nasceu, então, a angústia. Enviou, por isso, mensageiros que suplicaram aos
forasteiros para que regressassem ao seu lugar de origem.

A dúvida a respeito da identidade dos homens de Castela subsistiu até


o momento em que, já hóspedes dos astecas em Tenochtitlán, perpetraram a
matança do templo maior. O povo em geral acreditava que os estrangeiros eram
deuses. Mas quando viram seu modo de comportar-se, sua cobiça e sua fúria,
forçados por esta realidade mudaram sua maneira de pensar: os estrangeiros não
eram deuses, mas popolocas, ou bárbaros, que tinham vindo destruir sua cidade e
seu antigo modo de vida.

As lutas posteriores da Conquista, registradas pelos historiadores


indígenas, testemunham o heroísmo da defesa. Mas a derrota final, ao ser
narrada nos textos astecas, já é depoimento de um trauma profundo. A visão
final é dramática e trágica. Pode-se ver isto claramente no seguinte “canto triste”
ou icnocuícatl:

Nos caminhos jazem dardos quebrados.


Os cabelos estão espalhados.
Destelhadas estão as casas,
Incandescentes estão seus muros.
Vermes abundam por ruas e praças,
E as paredes estão manchadas de miolos arrebentados.

23
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

Vermelhas estão as águas, como se alguém as tivesse tingido,


E se as bebíamos, era água de salitre.
Golpeávamos os muros de abobe em nossa ansiedade
E nos restava por herança uma rede de buracos.
Nos escudos esteve nosso resguardo,
Mas os escudos não detêm a desolação...

As palavras anteriores encontram novo eco na resposta dos sábios aos


doze franciscanos chegados em 1524:

Deixem-nos, pois, morrer,


Deixem-nos perecer,
Pois nossos deuses já estão mortos!

Muitas outras citações poderiam acumular-se para mostrar o que foi o


trauma da Conquista para a alma indígena. (...) a experiência do povo que, após
resistir com armas desiguais, viu-se a si mesmo vencido. Não se deve esquecer
que os astecas eram seguidores do deus da guerra, Huitzilopochtli; que se
consideravam escolhidos do sol e que, até então, sempre creram ter uma missão
cósmica e divina de submeter a todos os povos dos quatro cantos do universo.
Quem se considera invencível, o povo do sol, o mais poderoso da Mesoamérica,
teve de aceitar sua derrota. Mortos os deuses, perdidos o governo e o mando, a
fama e a glória, a experiência da Conquista significou algo mais que tragédia:
ficou cravada na alma e sua recordação passou a ser um trauma.

OBS.: “Manuscrito Anônimo de Tratelolco” (1528), edição fac-símile de


E. Mengin, Copenhague, 1945, fl. 33.

O “Libro de los Coloquios de los Doce” não foi integralmente traduzido


para o castelhano. Existe apenas um resumo dele em espanhol, preparado pelo
Frei Bernardinho de Sahagún. A tradução dada aqui foi preparada pelo autor do
texto.

FONTE: León-Portilla, Miguel. A conquista da América Latina vista pelos índios. Petrópolis:
Vozes, 1984. p. 16-18.

3 SOCIEDADES ANDINAS
Há indícios que revelam o interesse e incursões de europeus estabelecidos
na mesoamérica à região Andina anos antes da chegada de Pizarro no início do
século XVI. Nesta ocasião, este território era descrito como rico, próspero e assim
sendo, atendia aos interesses dos invasores espanhóis. Porém, esses relatos, como
outros concernentes ao período são fragmentados e não encontram na arqueologia
contemporânea o suporte necessário para serem analisados e interpretados em
sua totalidade.

24
TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

Considerando as dificuldades em compreender determinados aspectos


das sociedades Andinas, assim como ocorre, por exemplo, com os astecas, não
podemos descartar cartas, relatos e outros documentos produzidos por aqueles
que estiveram na região em ocasião do contato desses povos com os europeus,
pois foi através desses que construímos o conhecimento atual sobre as populações
Andinas.

Em linhas gerais, a antiga civilização inca ocupou os territórios do atual


Peru, Bolívia, Chile e Equador.

Cuzco, considerada sagrada, foi fundada durante o século XIII perdurando


até o domínio espanhol ocorrido em 1532.

FIGURA 7 – IMPÉRIO ANDINO


Caribbean
Sca Atlantic
Ocean

Amazon R.
Tumbes
Cajamarca

Lima Cuzco

Titicaca Valley

Pacific
Ocean

The Inca Empire


1463-1532

FONTE: Disponível em: <http://static.infoescola.com/wp-content/uploads/2010/02/mapa-incas-


262x300.gif>. Acesso em: 27 out. 2010.

Assim como os faraós, o imperador inca, denominado Sapa era reconhecido


como um deus. A organização social apresentava estratificação, ou seja, classes
determinadas nas quais os nobres compreendiam governantes, guerreiros e
sacerdotes. Os funcionários públicos, como por exemplo, os cobradores de
impostos, além de trabalhadores especializados em determinadas funções
formavam uma classe intermediária. E por fim, na base da pirâmide social inca,
encontramos artesãos e camponeses, submetidos à cobrança de tributos.

25
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

Destacaram-se na arquitetura por construírem edificações a partir de


blocos de pedras encaixadas. A cidade de Machu Picchu foi descoberta em 1911 e
revelou a concepção urbana presente na sociedade inca.

FIGURA 8 – MACHU PICCHU

FONTE: Disponível em: <http://img.wallpaperstock.net:81/the-lost-city-of-incas-


wallpapers_3682_1600.jpg>. Acesso em: 27 out. 2010.

A agricultura, embora enfrentasse condições climáticas desfavoráveis, era


extremamente eficiente. Os terraços, construídos nas encostas das montanhas,
possibilitavam o cultivo e aproveitamento das águas das chuvas, além disso,
construíram canais de irrigação. Dentre as culturas mais comuns destacam-se as
de feijão, milho e batata.

Conforme já destacamos, o seu desenvolvimento e domínio de técnicas de


exploração e manipulação de metais preciosos foram externados na arte, através
da qual se observa a produção de joias, instrumentos e outros objetos decorativos.

A domesticação da lhama possibilitou a sua utilização como meio de


transporte, fonte de lã, carne e leite. Cabe ressaltar que as fezes desse animal eram
utilizadas para alimentar fogueiras. As alpacas e vicunhas também faziam parte do
rol de animais utilizados pelos incas.

A religião, prática recorrente entre eles, destacava o deus Sol como sua
principal figura divina. Outros animais como o condor e o jaguar também eram
considerados sagrados e consequentemente cultuados.

Desenvolveram um sistema de registro denominado quipo, que era


caracterizado por cordões que podiam ou não ser coloridos e nos quais se davam
nós para registrar determinadas informações.

26
TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

Em ocasião da chegada dos europeus, constataram em primeiro lugar que:

[...] a paisagem não se assemelhava a nada que já houvessem visto antes


ou do que tivessem ouvido falar, embora alguns fossem soldados que haviam
lutado na Itália, no México, na Guatemala, Flandres ou na África do Norte.
Nos Andes, as montanhas eram mais altas, as noites mais frias e os dias mais
quentes, os vales mais profundos, os desertos mais secos, as distâncias maiores
do que as palavras poderiam descrever.

Em segundo lugar, o país era rico e não apenas em termos do que


podia ser levado embora. Havia riqueza na quantidade de pessoas e em
suas habilidades, nas maravilhas tecnológicas observáveis na edificação, na
metalurgia, na construção de estradas, na irrigação ou nos produtos têxteis
(‘depois que os cristãos levaram tudo o que queriam, ainda parecia que nada
havia sido tocado’).

Em terceiro lugar, o domínio estava sob o controle de um príncipe


havia pouco tempo, cerca de três ou quatro gerações antes de 1532. E desde os
primeiros dias após a vitória espanhola em Cajamarca, pessoas mais atentas
se perguntavam como havia ruído com tanta facilidade essa autoridade que
governava tantos povos distintos por sua geografia particular. (BETHELL,
2004, p. 65-66).

Mesmo enfrentando condições das mais adversas, desde o início do século


XVI, observa-se uma maior concentração populacional na região do alto planalto
ao redor do lago Titicaca do que em qualquer outra lugar da região andina.

Essas regiões, que aguçam a curiosidade de estudiosos comprometidos com


a compreensão de suas origens e por motivos pelos quais esses povos escolheram
essa área para se estabeleceram, formam pradarias tropicais, situadas na altitude e de
clima frio, são cultiváveis há muito tempo, “talvez antes mesmo que todas as árvores
fossem cortadas. Durante milênios, a maioria dos povos andinos viveram nesse local.
Não apenas os incas, porém as mais antigas estruturas políticas (Tihuanaco, Huari)
surgiram na puna – savana do Peru”. (BETHELL, 2004, p. 67).

Embora tenha despertado o interesse de agrônomos recentemente, a


agricultura andina é caracterizada por culturas resistentes às condições locais
além da adaptação de variedades europeias e africanas como a cevada, cana-de-
açúcar, uva e banana. É difícil precisar quantas dessas variedades eram cultivadas
no início do século XVI.

Quando se estudam os muitos tubérculos (dos quais a batata é apenas


o mais famoso) ou o tarwi (um tremoço rico em gorduras) ou a kinuwa
(um cereal cultivado em grandes altitudes e rico em proteínas) ou a
folha de coca que sacia a sede, percebe-se o quão autóctone e quão
antigo era o complexo agrícola andino. (BETHELL, 2004, p. 67).

27
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

O cultivo do milho e da batata-doce eram verificados em todo o continente,


embora no Sul nenhuma delas fosse produzida em quantidades expressivas.
Além das diversidades e adversidades geográficas, a agricultura andina teve que
enfrentar ainda as drásticas variações climáticas ocorridas num intervalo de 24
horas.

No âmbito de tais adaptações e transformações do ambiente, as


dimensões das comunidades políticas andinas variavam de algumas
centenas de famílias a 25 ou 30 mil, com totais populacionais que
chegavam talvez a 150 mil; quando reunidas num Estado como a
Tahuantinsuyo dos incas, seu total podia alcançar cinco milhões ou
mais. Aumentos nas dimensões da comunidade política causavam
mudanças na localização e nas funções das colônias espalhadas.
No vale de Huallaga, no que hoje é o Peru central, as primeiras
investigações europeias identificaram vários grupos étnicos, o maior
dos quais, o Chupaycho, alegava ter quatro mil famílias no sistema
inca de contagem decimal. (BETHELL, 2004, p. 68).

28
TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

LEITURA COMPLEMENTAR 2

INCAS: QUEM MANDA, QUEM OBEDECE

O caráter despótico da dominação está bastante claro nas seguintes


palavras que o inca Atahualpa dirigiu ao conquistador Pizarro: “No meu reino,
nenhum pássaro voa nem folha alguma se move, se esta não for minha vontade”.

Nos postos mais elevados da hierarquia social e política, encontramos uma


autocracia teocrática hereditária. O Inca, soberano supremo, é ao mesmo tempo
uma divindade e transmite o poder a seus filhos. Na presença dele humilham-se
até os mais altos e nobres dignatários, obrigados a apresentarem-se descalços,
curvados e carregando um peso nas costas. Os direitos de vida e morte sobre seus
súditos são absolutos, qualquer que seja o nível social deles.

O mito dessa divindade foi habilmente construído e melhor ainda


difundido entre o povo. Historiadores oficiais, escolhidos pelo Inca, escreviam
duas histórias diferentes: uma para a nobreza e a hierarquia, outra para o povo.
Esta última, cuidadosamente elaborada, excluía tudo o que pudesse diminuir o
respeito e a fidelidade ao soberano. Contadores de história e cantadores populares
(hoje seriam enquadrados na categoria de meios de comunicação de massa) eram
instruídos convenientemente sobre os temas de suas histórias e canções e sobre o
tratamento que devia ser dado a elas. A derrota do Inca Urco frente aos chancas
foi totalmente ignorada pela história oficial. Assim, religião, mitos, lendas e
história foram deliberadamente fabricadas por especialistas, visando a divinizar
o Inca, fazendo que sua vontade – e seus excessos – aparecesse como a vontade
de um deus.

Abaixo do soberano vinha uma complexa burocracia administrativa e


militar que chegou a constituir, por seu caráter hereditário, de fato, uma casta.
Os descendentes dessa casta recebiam uma educação adequada para o mando e a
administração. Era uma educação complexa e bastante rigorosa, que compreendia
o estudo intensivo da versão oficial da história, tal qual havia sido escrita para
esses nobres. Dado o caráter guerreiro dos incas, o preparo físico para a milícia
era privilegiado; era o que hoje chamaríamos de ciência militar: a arte da defesa
e do ataque, das fortificações e cercos, a espionagem e a diplomacia, a correta
disposição e utilização dos soldados etc.

Os escolhidos para mandar adoravam deuses que não eram os do povo


ou povos dominados. Estes conservavam a liberdade de adorar suas antigas e
originais divindades, ainda que tivessem de aceitar como divindade suprema o
Sol, o deus dos que mandavam, e o Inca, representante do Sol na terra. Havia,
pois, uma religião dos dominadores e múltiplas religiões dos dominados.
Existem, ademais, boas razões para crer que além do deus Sol, o Inca e seus nobres
adoravam uma divindade mais transcendental e definitiva chamada Viracocha
ou Pachacamac, senhor supremo da criação e criador do próprio Sol.

29
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

A faustosa corte do Inca, com seus milhares de servidores, e a hierarquia


civil e religiosa viviam dos tributos que milhões de seres humanos de todo o
império entregavam ao Inca. Este recompensava seus dignatários de acordo
com méritos militares, religiosos e administrativos, sendo que as recompensas
consistiam em terras, rebanho de lhama, objetos de arte, mulheres, roupas
de luxo e o direito de viajar em liteiras conduzidas por carregadores, exibir
certos ornamentos e ocupar lugares privilegiados nas grandes cerimônias. A
propriedade privada dos dignatários podia ser transmitida por herança não a
herdeiros determinados pelo proprietário antes de sua morte, mas todo conjunto
de seus descendentes. Considerava-se, assim, que os méritos acumulados antes da
morte deveriam ser socializados. Dessa maneira, todos os parentes interessavam-
se para que, enquanto o dignatário fosse vivo, servisse ao Inca da melhor forma
possível, porque dele dependiam a riqueza e as honras de todos.

O clero, da mesma maneira que a burocracia civil estava diretamente


subordinado ao Inca. Mais ainda, era costume que o supremo sacerdote fosse um
irmão ou primo do próprio soberano, designado em assembleia de notáveis. Essa
espécie de papa era chamada Villac Umu e, logo abaixo, na hierarquia, havia dez
prelados que poderíamos comparar ao que se tem hoje por bispos. O Villac Umu
designava essas dez personagens e essas, por sua vez, escolhiam o clero para
os escalões inferiores. Faziam parte do aparato sacerdotal: feiticeiros, oráculos,
adivinhos, sacrificadores, intérpretes de sonhos, curandeiros etc. Era uma imensa
e intrincada rede que assegurava o culto ao Sol e a seu representante vivo, o Inca.

Os dominados

O camponês comum, aquele que no império era chamado Llacta Runa,


tinha obrigações, poucos direitos e muitos deveres. Abaixo dele, existia uma
categoria social chamada de Yanaconas, formada por membros de uma sublevação
da cidade de Yanacu, quando foram derrotadas pelas tropas do Inca e condenados
à servidão ou à escravidão que se tornava extensivos a seus descendentes.

De certa maneira, poderíamos dizer que viviam fora dos quadros sociais,
que não dependiam, como os Llacta Runa, dos funcionários ou clérigos e que
eram simplesmente propriedade de determinadas pessoas. Não eram escravos
ou servidores para a produção, mas servidores domésticos. Não durou muito
tempo e muitos deixaram essa condição, passando a fazer parte das famílias às
quais serviam. Excepcionalmente, alguns alcançavam méritos ou mostravam
condições que os elevaram a altas posições. Não faziam parte dos censos, talvez
por serem considerados menos humanos, no entanto, ao que tudo indica, seu
destino foi menos árduo que o dos escravos nos impérios espanhol e português.

FONTE: Adaptado de: POMER, Léon. Os incas. In: História da América hispano-indígena. São
Paulo: Global, 1983. p. 32-34.

30
TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

4 OS NATIVOS DO BRASIL EM 1500


Na época da chegada dos primeiros portugueses ao território, no qual hoje
se encontra o Brasil, depararam-se com grupos humanos organizados socialmente,
porém com hábitos considerados por aqueles como primitivos. Interessa-nos aqui
revelar alguns aspectos das sociedades nativas que interagiram com português
e salientar a visão preconceituosa perpetuada ao longo dos séculos desde o
ocorrido. Esses nativos, tratados como uma massa homogênea através da qual suas
diversidades culturais são ignoradas não dominavam nenhuma técnica de escrita
e assim sendo, os relatos que nos foram transmitidos são originados de viajantes
europeus que estiveram presentes nas primeiras expedições ao Novo Mundo.

Antes de examinar com maiores detalhes o que se conhece sobre


os índios brasileiros às vésperas da invasão europeia, é importante
observar alguns problemas históricos. Naturalmente, os índios
desconheciam a escrita e qualquer sistema de numeração. Suas lendas
e tradições orais, apesar de ricas em criatividade, são quase inúteis
como testemunhos históricos. Eram artesãos de grande habilidade,
mas construíam, decoravam e pintavam quase que somente sobre
materiais perecíveis. (BETHELL, 2004, p. 104).

Considerando as palavras de Leslie Bethell expostas acima, cremos ser


relevante uma reflexão sobre as diversidades concernentes a cada segmento ou
grupo nativo estabelecido no atual território brasileiro, embora o mesmo possa
ser feito acerca dos demais povos nativos da América. Por exemplo, os índios
carijós, apresentam características peculiares como costumes, tradições e rituais
que os diferenciam de todas as outras nações indígenas.

Evidentemente, há características semelhantes e até mesmo comuns entre


essas nações, porém devemos atentar para os conceitos generalistas.

Acredita-se que o povoamento da América do Sul teve início por volta de


20.000 a. C., com os vestígios de presença humana no Brasil variando de 16.000
a.C. a 12.800 a.C aproximadamente. Os sítios arqueológicos espalhados pelo
Brasil como os de Ibicuí (RS) e Lagoa Santa (MG) nos fornecem informações a
respeito da propagação desses grupos humanos pelo território brasileiro a partir
de 9.000 a. C.

Pesquisas recentes indicam que o surgimento dos dois troncos indígenas


Macro-Tupi e Macro-Jê tenha ocorrido justamente durante esse processo
de dispersão dessas populações primitivas a partir de 9.000 a. C. Entre os
séculos VIII e IX as nações Tupi e Guarani originaram-se do tronco Macro-
Tupi, transformando-se posteriormente nos dois grupos indígenas que mais se
destacaram nos primeiros séculos após a colonização do Brasil.

Em ocasião da chegada dos primeiros colonizadores portugueses ao Brasil,


estima-se que a população indígena era composta de aproximadamente cinco
milhões de pessoas. As duas nações originárias do tronco Macro-Tupi, os tupis e os

31
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

guaranis estavam dispostos no território nacional da seguinte forma: Os guaranis


localizavam-se basicamente no litoral Sul da colônia e a região interiorana próxima
à bacia dos rios Paraguai e Paraná. Por sua vez, os tupis, estabeleceram-se na costa
entre o Ceará e a Cananeia, atual estado de São Paulo. As demais tribos dispersas
pelo território da então colônia eram denominadas tapuias, assim conhecidos pelos
tupis por serem aqueles que não falam a língua tupi.

Os tupi-guaranis estavam estabelecidos ao longo da maior parte da


costa atlântica. É possível que tenham provindo dos contrafortes dos Andes
ou do planalto do médio Paraguai e Paraná e tenham seguido um processo
de gradativa invasão da costa brasileira rumo ao norte. Outras tribos de fala
tupi ocupavam a margem sul do rio Amazonas e se deslocaram pelos afluentes
sul até perto de sua foz e rio acima ao longo do Amazonas até quase a atual
fronteira com o Peru. Os jês ocupavam o vasto e relativamente aberto planalto
central do Brasil. Descendem talvez dos habitantes originais do Brasil – os
fósseis humanos mais antigos, encontrados em Lagoa Santa, Minas Gerais,
que datam de mais de dez mil anos, correspondem fisicamente aos tipos jês
atuais. Essas tribos centrais de fala jê se distribuem por amplo arco de terras
do Maranhão ao alto Paraguai. Outras tribos de fala jê viviam nas montanhas
do interior a partir da costa sudeste e em alguns locais desceram até o próprio
oceano. É possível que tenham sido remanescentes de tribos deslocadas pela
invasão tupi, embora mostrassem pouca afinidade com o mar. (BETHELL,
2004, p. 101).

Embora separadas geograficamente, as nações tupi e guarani apresentavam


semelhanças quando comparadas através das perspectivas culturais e linguísticas.
Os laços de parentesco mantinham os grupos unidos.

4.1 O COTIDIANO E SOBREVIVÊNCIA DOS NATIVOS


Embora praticassem a agricultura, esta não foi suficiente para fixar os
nativos a um mesmo território. Habitaram áreas próximas aos rios, ou seja,
seus vales, conhecidos como regiões férteis. Estima-se que a permanência
desses grupos em uma mesma região não excedia quatro anos. Assim, podem
ser classificados como semissedentários, pois após o esgotamento dos recursos
naturais migravam para outras regiões. Além da agricultura, a caça, o extrativismo
e a pesca compreendiam as atividades praticadas com o intuito de sobreviverem.

Era comum encontrar aldeias nas quais se concentravam cerca de


700 habitantes. Os chefes, pessoas que gozavam de certo prestígio entre os
membros do grupo, determinavam os locais nos quais seriam instaladas as
aldeias, considerando para tal os próprios recursos naturais, necessários ao
desenvolvimento e sustentabilidade do grupo além de condições de segurança,
fundamental para a proteção da aldeia.

32
TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

As aldeias eram constituídas por cabanas, ou ocas, moradias coletivas


que podiam apresentar formas e dimensões diversas. Cada oca podia abrir algo
em torno de 85 a 150 moradores. Cipós trançando (fixando) as madeiras que
eram utilizadas na construção das paredes além do sapé, utilizado inclusive nas
coberturas.

Os nativos desenvolveram eficientes meios de integração entre as mais


diversas aldeias. Havia trilhas que conectavam regiões litorâneas ao interior.
Neste sentido, podemos citar a trilha que interligava a região onde atualmente se
encontra a cidade de Assunção, no Paraguai até o planalto de Piratininga, atual
São Paulo.

Pesquisas arqueológicas revelaram o contato entre povos tupis-guaranis


e incas após terem sido encontrados objetos produzidos nos Andes em sítios
arqueológicos no Sul e Sudeste do Brasil. Este fato corrobora a organização social
e cultural, eficácia nas vias de comunicação e a produção manufatureira além do
representar as perspectivas comerciais de ambas.

Manipulavam fibras vegetais produzindo redes, cestos, cordas e uma


gama extensa de utensílios. A alimentação era baseada no consumo de farinha de
mandioca, peixes e carnes, além de dominarem técnicas de fabricação de bebidas,
inclusive alcoólicas.

Com o barro, moldavam objetos utilizados para armazenar alimentos como


potes e vasos.

Percebe-se entre os nativos que ocupavam o território hoje pertencente ao


Brasil uma rígida divisão sexual do trabalho. Neste sentido, tarefas consideradas
perigosas como a caça e a guerra além daquelas em que um maior esforço físico
fazia-se necessário, eram designadas aos homens. Por outro lado, os típicos
trabalhos domésticos de preparar os alimentos, tecer, plantar, colher e zelar pelas
crianças eram atribuídos às mulheres.

Neste sentido, Leslie Bethell corrobora quando expõe que:

sendo o pai responsável pela caça e pesca, pelo combate e, se


necessário, pela limpeza da floresta para o plantio. As mulheres
plantavam e colhiam mandioca e outras plantas cultivadas por
esses povos do litoral – especialmente amendoim, algodão, algumas
frutas e castanhas. As mulheres também preparavam os alimentos e
cuidavam das crianças. Ambos os sexos confeccionavam seus próprios
pertences pessoais: cestos, redes, arcos e flechas, ornamentos de penas
e de contas, ferramentas simples, utensílios e armadilhas, canos e,
naturalmente, as próprias cabanas de sapé. (BETHELL, 2004, p. 107).

33
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

Outro aspecto interessante estava atrelado à configuração das uniões


conjugais. Estas estabeleciam alianças entre as aldeias além de criar laços de
parentesco entre os grupos.

As relações de poder podem ser observadas através da manutenção de


um sistema em que o líder exercia suas prerrogativas sobre as famílias e os chefes
sobre as aldeias. Percebemos uma estrutura hierárquica atrelado ao poder nas
sociais nativas residentes na América do Sul, especialmente no atual Brasil.

Os xamãs ou pajés eram líderes religiosos e exerciam forte influência sobre


a vida da comunidade. Os rituais religiosos estavam relacionados às atividades
consideradas elementares para o sucesso e desenvolvimento das tribos. Eram
comuns rituais e festejos em agradecimento à colheita expressiva ou ao sucesso
em uma guerra.

Quanto à organização social, variou consideravelmente de tribo para


tribo. Entre os tupinambás, as moças tinham de passar por provas e segregação
na puberdade, após o que lhes era permitida uma considerável liberdade
sexual. Um rapaz, antes de ser considerado suficientemente valente para o
casamento, tinha de provar-se em combate ou na matança de prisioneiros.
Tinha de servir a seu futuro sogro e garantir-lhe o sustento. Depois de casados,
ambos os parceiros permaneciam fiéis um ao outro. Em geral, o casamento era
matrilocal, mudando-se o marido para a casa da mãe da esposa, a menos que
fosse suficientemente poderoso para estabelecer uma família própria. Qualquer
excesso de mulheres era resolvido com a poligamia por parte dos chefes e
guerreiros famosos, e as esposas aceitavam-no prontamente, em parte pelo
orgulho de estar associada a um homem importante e em parte pela satisfação
de partilhar o trabalho de cuidá-lo. Os homens se casavam por volta dos 25
anos de idade e aos quarenta faziam parte do conselho dos mais velhos. Esse
conselho se reunia regularmente para decidir sobre as atividades da tribo. Cada
maloca, com seu complemento de famílias muitas vezes inter-relacionadas,
eram governados por um chefe, da mesma forma que a própria tribo. Os
chefes conquistavam sua posição por bravura em combate, pela prosperidade
decorrente da posse de muitos parentes ou filhos, por poderes mágicos ou dons
oratórios. Mas possuíam pouco poder na sociedade tribal igualitária: escreveu
Michel de Montaigne, um filósofo do século XVI, ter ouvido de um chefe que
governava várias aldeias que seu único privilégio era conduzir seus homens à
batalha. (BETHELL, 2004, p. 111-112).

A religiosidade dos tupis-guaranis era balizada por seres transcendentes,


considerados supremos. Havia aqueles vinculados à origem do universo,
considerados entidades criadoras e Tupã, associado ao caos e à destruição. A
crença na vida após a morte também era recorrente entre os nativos e a partir
desta, acreditavam que o espírito do morto se encontraria com seus ancestrais.

34
TÓPICO 2 | A AMÉRICA ANTES DOS EUROPEUS

Evidentemente que por se apresentarem em menor número num período


inicial, os europeus trataram de conquistar a confiança dos grupos nativos com
os quais mantiveram contato, pelo menos aparentemente, não demonstraram
intenção de agredir e tomar os espaços ocupados pelos nativos.

Essa relação amistosa favoreceu as trocas comerciais oportunizando


dentre outras atividades a extração da famosa madeira denominada pau-brasil. O
período inicial em que a passividade se fez presente perdurou pelas três primeiras
décadas, a partir da chegada dos colonizadores que procuraram se integrar com
os nativos.

Superada essa fase e atendendo aos interesses da Coroa Portuguesa se


fez necessária a adoção de práticas mais agressivas em relação à interferência
ao território recém encontrado. Assim, os nativos passaram a revelar seu viés
bélico, pouco amistoso, contrário àquilo que havia sido idealizado e divulgado
na própria Europa nas três primeiras décadas. Estes resistiram à ocupação do seu
espaço, defendendo o seu território com as armas e técnicas vinculantes entre as
culturas nativas.

Com a necessidade de transformar o Novo Mundo em polo produtor


de produtos agrícolas apreciados e valiosos na Europa, o índio passou a ser
considerado um entrave nesta tarefa de substituir a prática de extração do
pau-brasil pela agricultura. Evidentemente que para isso era necessária ocupar
literalmente os espaços antes conferidos apenas aos nativos, derrubando a
madeira e impondo os métodos europeus de ocupação e colonização. Ocupar
os espaços significou expulsar os nativos e nesse cenário, o já descrito confronto
entre essas duas culturas foi inevitável.

35
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você viu:

● A caracterização das sociedades mesoamericanas no período anterior à


chegada dos primeiros conquistadores europeus. As origens e particularidades
dos mexicas, seu império, riqueza e desenvolvimento social.

● As estratégias utilizadas pelos espanhóis com o intuito de dominar os povos


residentes na região de Tenochtitlán.

● As peculiaridades dos povos que habitavam as regiões andinas. Sua organização


social e econômica. Relações com os europeus.

● A diferenciação entre os povos nativos que habitavam e habitam o território


do atual Brasil. Sua organização social e modo de interação com os recursos
naturais. Cotidiano e práticas que visavam sua sustentabilidade.

36
AUTOATIVIDADE

1 De acordo com Bethell (2004), como era vista Tenochtitlán tanto pelo
conquistador europeu quanto pelos povos que se localizavam às margens
de seu território?

2 Descreva algumas características vinculadas ao cotidiano dos nativos


estabelecidos no Brasil em ocasião da chegada dos primeiros conquistadores
europeus.

37
38
UNIDADE 1
TÓPICO 3

AMÉRICA PORTUGUESA

1 INTRODUÇÃO
Prezado(a) acadêmico(a)! Nos dois primeiros tópicos, analisamos
respectivamente as conjecturas políticas, sociais e econômicas na Europa que
propiciaram à busca por novos mercados consumidores e fornecedores e as
características dos povos nativos do Continente batizado posteriormente de
América.

Neste tópico, apresentaremos em linhas gerais as formas pelas quais os


europeus estabeleceram um contato inicial com os nativos brasileiros, além das
estratégias de interação, integração e dominação.

Esta metodologia justifica-se pela existência e oferta da disciplina e seu


respectivo Caderno de Estudos de História do Brasil Colonial, disciplina em que
os conteúdos propostos neste tópico convergem para os objetivos da referida
disciplina.

2 AS PRIMEIRAS IMPRESSÕES
Pero Vaz de Caminha, ao concluir sua célebre carta em 1º de maio de 1500,
expressava sua satisfação em relação às terras recém encontradas. Considerada
por Capistrano de Abreu como “a certidão de nascimento do Brasil”, tornou-se
pública em 1790.

39
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

FIGURA 9 – CHEGADA AO BRASIL DA ESQUADRA COMANDADA POR PEDRO ÁLVARES CABRAL

FONTE: Disponível em: <http://www.cebezerrademenezes.com/pt/images/stories/


Descobrimento%20do%20Brasil.jpg>. Acesso em: 27 out. 2010.

Esta narrativa, além de minúcias acerca da viagem, propõe a exaltar


as maravilhas encontradas nesta terra exótica. Caminha escreve ao seu rei
informando-o que esta terra “em tal maneira é graciosa que querendo-a
aproveitar dar-se-á nela tudo”.

Ao tomar conhecimento da carta, D. Manoel referiu-se aos povos nativos


como desnudos, inocentes e pacíficos além de aparentemente ter minimizado a
“descoberta” em detrimento do sucesso das viagens às Índias, inicialmente muito
mais lucrativas.

Esse aparente desmerecimento pode ser analisado através da perspectiva


econômica do reino de Portugal que, nesta ocasião, encontrava-se determinado
em desbravar rotas lucrativas à Coroa. Assim, uma terra de pessoas desnudas,
que ocupavam o interior da floresta e sem traços de civilidade não se mostrava
interessante aos propósitos em questão.

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TÓPICO 3 | AMÉRICA PORTUGUESA

3 A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA


Prezado(a) acadêmico(a)! Em seguida disponibilizamos alguns recortes
concernentes à carta de Pero Vaz de Caminha na qual relata a Sua Alteza às
peculiaridades da terra achada, seu povo e a possibilidade de convertê-lo
facilmente ao catolicismo.

Senhor,
posto que o Capitão-mor desta Vossa frota, e assim os outros capitães
escrevam a Vossa Alteza a notícia do achamento desta Vossa terra nova, que se
agora nesta navegação achou, não deixarei de também dar disso minha conta a
Vossa Alteza, assim como eu melhor puder, ainda que – para o bem contar e falar
– o saiba pior que todos fazer!
Todavia tome Vossa Alteza minha ignorância por boa vontade, a qual
bem certo creia que, para aformosentar nem afear, aqui não há de pôr mais do
que aquilo que vi e me pareceu.

[...]

E assim seguimos nosso caminho, por este mar de longo, até que terça-
feira das Oitavas de Páscoa, que foram 21 dias de abril, topamos alguns sinais de
terra, estando da dita Ilha - segundo os pilotos diziam, obra de 660 ou 670 léguas -
os quais eram muita quantidade de ervas compridas, a que os mareantes chamam
botelho, e assim mesmo outras a que dão o nome de rabo-de-asno. E quarta-feira
seguinte, pela manhã, topamos aves a que chamam furabuchos.

Neste mesmo dia, a horas de véspera, houvemos vista de terra! A saber,


primeiramente de um grande monte, muito alto e redondo; e de outras serras
mais baixas ao sul dele; e de terra chã, com grandes arvoredos; ao qual monte alto
o capitão pôs o nome de O Monte Pascoal e à terra A Terra de Vera Cruz!

[...]

E dali avistamos homens que andavam pela praia, uns sete ou oito,
segundo disseram os navios pequenos que chegaram primeiro.

Então lançamos fora os batéis e esquifes. E logo vieram todos os capitães


das naus a esta nau do Capitão-mor. E ali falaram. E o Capitão mandou em terra
a Nicolau Coelho para ver aquele rio. E tanto que ele começou a ir-se para lá,
acudiram pela praia homens aos dois e aos três, de maneira que, quando o batel
chegou à boca do rio, já lá estavam dezoito ou vinte.

Pardos, nus, sem coisa alguma que lhes cobrisse suas vergonhas. Traziam
arcos nas mãos, e suas setas. Vinham todos rijamente em direção ao batel. E
Nicolau Coelho lhes fez sinal que pousassem os arcos. E eles os depuseram. Mas
não pôde deles haver fala nem entendimento que aproveitasse pôr o mar quebrar

41
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

na costa. Somente arremessou-lhe um barrete vermelho e uma carapuça de linho


que levava na cabeça, e um sombreiro preto. E um deles lhe arremessou um
sombreiro de penas de ave, compridas, com uma copazinha de penas vermelhas e
pardas, como de papagaio. E outro lhe deu um ramal grande de continhas brancas,
miúdas que querem parecer de aljôfar, as quais peças creio que o Capitão manda
a Vossa Alteza. E com isto se volveu às naus por ser tarde e não poder haver deles
mais fala, por causa do mar.

[...]

A feição deles é serem pardos, um tanto avermelhados, de bons rostos e


bons narizes, bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Nem fazem mais
caso de encobrir ou deixar de encobrir suas vergonhas do que de mostrar a cara.
Acerca disso são de grande inocência. Ambos traziam o beiço de baixo furado
e metido nele um osso verdadeiro, de comprimento de uma mão travessa, e da
grossura de um fuso de algodão, agudo na ponta como um furador. Metem-nos
pela parte de dentro do beiço; e a parte que lhes fica entre o beiço e os dentes é
feita a modo de roque de xadrez. E trazem-no ali encaixado de sorte que não os
magoa, nem lhes põe estorvo no falar, nem no comer e beber.

Os cabelos deles são corredios. E andavam tosquiados, de tosquia alta


antes do que sobre-pente, de boa grandeza, rapados, todavia por cima das
orelhas. E um deles trazia por baixo da solapa, de fonte a fonte, na parte detrás,
uma espécie de cabeleira, de penas de ave amarela, que seria do comprimento de
um coto, mui basta e mui cerrada, que lhe cobria o toutiço e as orelhas. E andava
pegada aos cabelos, pena por pena, com uma confeição branda como, de maneira
tal que a cabeleira era mui redonda e mui basta, e mui igual, e não fazia míngua
mais lavagem para a levantar.

O Capitão, quando eles vieram, estava sentado em uma cadeira, aos pés
uma alcatifa por estrado; e bem vestido, com um colar de ouro, mui grande, ao
pescoço. E Sancho de Tovar, e Simão de Miranda, e Nicolau Coelho, e Aires Corrêa,
e nós outros que aqui na nau com ele íamos, sentados no chão, nessa alcatifa.
Acenderam-se tochas. E eles entraram. Mas nem sinal de cortesia fizeram, nem
de falar ao Capitão; nem a alguém. Todavia um deles fitou o colar do Capitão, e
começou a fazer acenos com a mão em direção à terra, e depois para o colar, como
se quisesse dizer-nos que havia ouro na terra. E também olhou para um castiçal
de prata e assim mesmo acenava para a terra e novamente para o castiçal, como
se lá também houvesse prata!

Mostraram-lhes um papagaio pardo que o Capitão traz consigo; tomaram-


no logo na mão e acenaram para a terra, como se os houvesse ali.

Mostraram-lhes um carneiro; não fizeram caso dele.

42
TÓPICO 3 | AMÉRICA PORTUGUESA

Mostraram-lhes uma galinha; quase tiveram medo dela, e não lhe queriam
pôr a mão. Depois lhe pegaram, mas como espantados.

Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, confeitos, fartéis, mel, figos
passados. Não quiseram comer daquilo quase nada; e se provavam alguma coisa,
logo a lançavam fora.

Trouxeram-lhes vinho em uma taça; mal lhe puseram a boca; não gostaram
dele nada, nem quiseram mais.

Trouxeram-lhes água em uma albarrada, provaram cada um o seu


bochecho, mas não beberam; apenas lavaram as bocas e lançaram-na fora.

[...]

Ao domingo de Páscoa pela manhã, determinou o Capitão ir ouvir missa


e sermão naquele ilhéu. E mandou a todos os capitães que se arranjassem nos
batéis e fossem com ele. E assim foi feito. Mandou armar um pavilhão naquele
ilhéu, e dentro levantar um altar mui bem arranjado. E ali com todos nós outro fez
dizer missa, a qual disse o padre frei Henrique, em voz entoada, e oficiada com
aquela mesma voz pelos outros padres e sacerdotes que todos assistiram, a qual
missa, segundo meu parecer, foi ouvida por todos com muito prazer e devoção.

Ali estava com o Capitão a bandeira de Cristo, com que saíra de Belém, a
qual esteve sempre bem alta, da parte do Evangelho.

Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós


todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação, da
história evangélica; e no fim tratou da nossa vida, e do achamento desta terra,
referindo-se à Cruz, sob cuja obediência viemos, que veio muito a propósito, e fez
muita devoção.

Enquanto assistimos à missa e ao sermão, estaria na praia outra tanta


gente, pouco mais ou menos, como a de ontem, com seus arcos e setas, e andava
folgando. E olhando-nos, sentaram. E depois de acabada a missa, quando nós
sentados atendíamos a pregação, levantaram-se muitos deles e tangeram corno
ou buzina e começaram a saltar e dançar um pedaço. E alguns deles se metiam
em almadias – duas ou três que lá tinham – as quais não são feitas como as que eu
vi; apenas são três traves, atadas juntas. E ali se metiam quatro ou cinco, ou esses
que queriam, não se afastando quase nada da terra, só até onde podiam tomar pé.

[...]

43
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

E bem creio que, se Vossa Alteza aqui mandar quem entre eles mais
devagar ande, que todos serão tornados e convertidos ao desejo de Vossa Alteza.
E por isso, se alguém vier, não deixe logo de vir clérigo para os batizar; porque
já então terão mais conhecimentos de nossa fé, pelos dois degredados que aqui
entre eles ficam, os quais hoje também comungaram.

Entre todos estes que hoje vieram não veio mais que uma mulher, moça,
a qual esteve sempre à missa, à qual deram um pano com que se cobrisse; e
puseram-lho em volta dela. Todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender
muito para se cobrir. Assim, Senhor, a inocência desta gente é tal que a de Adão
não seria maior -- com respeito ao pudor.

Ora veja Vossa Alteza quem em tal inocência vive se se convertera, ou


não, se lhe ensinarem o que pertence à sua salvação.

Acabado isto, fomos perante eles beijar a cruz. E despedimo-nos e fomos


comer.

Creio, Senhor, que, com estes dois degredados que aqui ficam, ficarão
mais dois grumetes, que esta noite se saíram em terra, desta nau, no esquife,
fugidos, os quais não vieram mais. E cremos que ficarão aqui porque de manhã,
prazendo a Deus fazemos nossa partida daqui.

Esta terra, Senhor, parece-me que, da ponta que mais contra o sul vimos,
até à outra ponta que contra o norte vem, de que nós deste porto houvemos vista,
será tamanha que haverá nela bem vinte ou vinte e cinco léguas de costa. Traz
ao longo do mar em algumas partes grandes barreiras, umas vermelhas, e outras
brancas; e a terra de cima toda chã e muito cheia de grandes arvoredos. De ponta
a ponta é toda praia... muito chã e muito formosa. Pelo sertão nos pareceu, vista
do mar, muito grande; porque a estender olhos, não podíamos ver senão terra e
arvoredos – terra que nos parecia muito extensa.

Até agora não pudemos saber se há ouro ou prata nela, ou outra coisa
de metal, ou ferro; nem lha vimos. Contudo a terra em si é de muito bons ares
frescos e temperados como os de Entre-Douro-e-Minho, porque neste tempo
d’agora assim os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infinitas. Em tal
maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo; por causa
das águas que tem!

Contudo, o melhor fruto que dela se pode tirar parece-me que será salvar
esta gente. E esta deve ser a principal semente que Vossa Alteza em ela deve
lançar. E que não houvesse mais do que ter Vossa Alteza aqui esta pousada para
essa navegação de Calicute bastava. Quanto mais, disposição para se nela cumprir
e fazer o que Vossa Alteza tanto deseja, a saber, acrescentamento da nossa fé!

44
TÓPICO 3 | AMÉRICA PORTUGUESA

E desta maneira dou aqui a Vossa Alteza conta do que nesta Vossa terra
vi. E se a um pouco alonguei, Ela me perdoe. Porque o desejo que tinha de Vos
tudo dizer, mo fez pôr assim pelo miúdo.

E pois que, Senhor, é certo que tanto neste cargo que levo como em outra
qualquer coisa que de Vosso serviço for, Vossa Alteza há de ser de mim muito
bem servida, a Ela peço que, por me fazer singular mercê, mande vir da ilha de
São Tomé a Jorge de Osório, meu genro – o que d’Ela receberei em muita mercê.

Beijo as mãos de Vossa Alteza.

Deste Porto Seguro, da Vossa Ilha de Vera Cruz, hoje, sexta-feira, primeiro
dia de maio de 1500.

Pero Vaz de Caminha.


FONTE: Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/voltaire/500br/carta_caminha.htm>.
Acesso em: 27 out. 2010.

4 OS MÉTODOS UTILIZADOS PARA A CONQUISTA


Em 1501, uma expedição enviada por D. Manuel, na qual Américo
Vespúcio fazia parte, percorreu o litoral mapeando os acidentes geográficos.
Nesta ocasião, a tripulação capitaneada por D. Nuno Manuel não encontrou
indícios dos almejados metais preciosos tampouco manufaturas produzidas na
região que pudessem gerar lucros expressivos aos europeus.

Corroborando os anseios econômicos portugueses em fins do século XV


e início do século XVI, a terra de Vera Cruz não despertou maiores interesses por
parte da coroa. Esta situação se justifica pela aparente inexistência de mercadorias
e metais preciosos na região.

O governo português limitou-se a arrendar as terras a um grupo liderado


por Fernão de Noronha que por sua vez comprometeram-se a guardar o litoral,
construir uma fortificação na região de Cabo Frio e fornecer 20.000 quintais em
pau-brasil.

Posteriormente, o rei D. João III promoveu a organização e doação


de capitanias hereditárias, sistema adotado a partir de 1534 através do qual
foi concedido a doze fidalgos quinze lotes que mediam de trinta a cem
léguas. Através desta prática, esperava-se que os donatários promovessem o
desenvolvimento das regiões, gerando lucros à coroa e guardando o território
sem custos ao governo português. Porém apenas as capitanias de Pernambuco e
São Vicente conseguiram alcançar os objetivos mínimos propostos, deflagrando
a descontinuidade do sistema.

45
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

FIGURA 10 – CAPITANIAS HEREDITÁRIAS

FONTE: Disponível em: <http://static.infoescola.com/wp-content/uploads/2009/08/capitanias-


hereditarias.jpg>. Acesso em: 27 out. 2010.

Em decorrência da ineficácia do modelo de capitanias hereditárias, D. João


III nomeou D. Tomé de Souza o primeiro governador-geral do atual Brasil em
1548. Preocupado com as constantes “visitas” de corsários provenientes de outras
nações, o rei português procurava através de esta nomeação ocupar e proteger
suas posses no Novo Mundo.

46
TÓPICO 3 | AMÉRICA PORTUGUESA

Dentre as várias incumbências atribuídas a Tomé de Souza, destaca-se a


fundação e organização da cidade de Salvador, criação de engenhos de cana-de-
açúcar, povoação, construção de fortes, fomentar as práticas religiosas (católicas),
gerir o comércio do pau-brasil e resguardar a costa da invasão de estrangeiros.

O fomento de práticas religiosas compreendia a catequização dos nativos


e amparar espiritualmente aqueles que já haviam se estabelecido na colônia.
Juntamente com outros integrantes da expedição de Tomé de Souza, o padre
Manuel da Nóbrega aportou na região do atual Estado da Bahia em 29 de março
de 1549 com a missão de chefiar os trabalhos dos demais padres jesuítas.

Após um período inicial de interação amistosa entre europeus e nativos


e com a implantação da cultura da cana-de-açúcar, estes começam a ser vistos
como mão de obra, inaugurando assim uma nova etapa conflituosa entre ambos.

Os levantes foram inevitáveis, porém em virtude da superioridade militar


europeia, tais rebeliões foram facilmente sufocadas. Além do poder bélico, outro
fator contribui para a dizimação das populações nativas: As doenças trazidas pelo
homem branco às quais os nativos não dispunham de anticorpos. Uma gripe, por
exemplo, era o suficiente para devastar uma quantidade expressiva de nativos em
poucos dias.

47
RESUMO DO TÓPICO 3
Neste tópico, você viu:

● A decepção inicial dos conquistadores portugueses ocasionada pela aparente


inexistência de metais preciosos ou qualquer outra manufatura produzida
pelos nativos que pudessem ser lucrativas.

● As impressões publicadas por Pero Vaz de Caminha em sua célebre carta, na


qual comunica à corte acerca das características na costa e hábitos pertinentes
aos nativos.

● Os métodos pelos quais os conquistadores portugueses se utilizaram para


povoar, colonizar e mais tarde, explorar as terras situadas no Novo Mundo.
Da concessão de direitos a Fernão de Noronha, passando pela implantação das
capitanias hereditárias até a fundação da cidade de Salvador, além da criação
dos primeiros engenhos de cana-de-açúcar e chegada dos jesuítas.

48
AUTOATIVIDADE

1 Discorra sobre os métodos de ocupação da Terra de Vera Cruz empregado


pelos portugueses nas cinco primeiras décadas de presença europeia.

49
50
UNIDADE 1
TÓPICO 4

AMÉRICA ESPANHOLA

1 INTRODUÇÃO
Prezado(a) acadêmico(a)! Neste tópico, objetivamos analisar os motivos
que ocasionaram o envio das primeiras frotas espanholas com destino às terras
localizadas na região da mesoamérica e mais tarde na região andina.

Observar a organização política e as estruturas sociais e econômicas tanto dos


conquistadores quanto dos conquistados e perceber o desenvolvimento dos nativos
em questão.

Por fim, em linhas gerais, perceber as causas e algumas consequências da


crise colonial espanhola.

2 A CONQUISTA DO NOVO MUNDO


Os espanhóis iniciaram o seu processo de conquista e dominação da
América a partir de fins do século XV, estimulada pelo próspero comércio italiano
e pelos avanços concernentes à expansão marítima portuguesa.

Seus objetivos iniciais encontram-se pautados nos mesmos princípios


mercantilistas adotados pelos recentes Estados Modernos, ou seja, transações
econômicas vantajosas (balança comercial favorável) e extração de metais
preciosos.

O ponto de partida para o processo de conquista espanhola concentra-se


na atual ilha de São Domingos e gradualmente avança em direção ao continente.
Neste sentido, expedições organizadas a partir do Panamá e México avançaram
em direção ao interior.

Semelhante aos portugueses, os espanhóis utilizaram-se das capitulações


para delegar a responsabilidade, incluídas aí os ônus, das expedições que
objetivavam a conquista do Novo Mundo. Esta medida é justificada pelos
entraves internos enfrentados pelo governo espanhol como a Guerra da Itália
e os avanços dos luteranos no Sacro Império. Através das capitulares, a coroa
espanhola concedia a particulares o direito de explorar a América.

51
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

Em 1519, Fernão Cortez foi encarregado de organizar e articular uma


expedição ao México com o intuito de conquistar a região. Contando com o apoio
de nativos que rivalizavam com os Astecas, de reforços bélicos provenientes da
Espanha e da varíola - que debilitou os nativos inimigos – isolaram os astecas em
sua capital, conquistando Tenochtitlán em 1521.

FIGURA 11 – FERNÃO CORTEZ

FONTE: Disponível em: <http://www.northernbelize.com/grc/hist_spanbrit04.gif>.


Acesso em: 27 out. 2010.

3 ORGANIZAÇÃO POLÍTICA METROPOLITANA


Utilizando-se inicialmente das capitulações, sistema através do qual a
coroa espanhola concedia direitos de explorar as terras coloniais no continente
recém encontrado, a coroa passa a centralizar essas ações, à medida que novas
fontes de riqueza passam a ser encontradas e com o agravo das disputas e conflitos
envolvendo os participantes do empreendimento de conquista.

52
TÓPICO 4 | AMÉRICA ESPANHOLA

Com o intuito de melhor controlar as mercadorias que transitavam entre


as novas colônias na América e a metrópole, o governo espanhol criou a Casa de
Contratação em 1503. Este órgão fiscalizava as transações comerciais e restringia
a apenas ao porto de Sevilha (metrópole) e Havana (colônia) o direito de realizar
importações e exportações. Posteriormente, os portos de Cartagena, Porto Belo e
Vera Cruz passaram a operar o mesmo sistema.

Foram criados ainda mecanismos e cargos que objetivavam melhor


gerir as decisões políticas junto às colônias e verificar possíveis irregularidades
administrativas.

Os cargos de Vice-Reis substituíram os poderes anteriormente exercidos


pelos adelantados. A divisão da colônia espanhola compreendeu inicialmente
quatro Vice-Reinos: Nova Granada, Peru, Rio da Prata e Nova Espanha.

Possuidores de autonomia administrativa junto às colônias, os Cabildos,


também conhecidos como ayuntamientos, eram compostos por membros da elite
colonial.

4 ESTRUTURA SOCIAL E ECONÔMICA NA AMÉRICA


ESPANHOLA
Embora já houvesse registros de ocupação anterior, é a partir do início da
exploração de minérios no México e Peru que o processo de ocupação da colônia
espanhola se concretiza. Essa atividade caracteriza-se pela base econômica nas
novas terras, sustentando o crescimento demográfico na região.

A exploração de metais preciosos e o expressivo aumento populacional


propiciaram o desenvolvimento de atividades econômicas complementares,
também conhecidas como secundárias. Gêneros alimentícios, vestuários,
ferramentas, comércio de animais, enfim, toda uma gama de atividades que
sustentassem a manutenção dos colonos na América espanhola.

53
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

4.1 CLASSES SOCIAIS E MÉTODOS DE TRABALHO NA


COLÔNIA
O trabalho indígena foi implementado através de duas modalidades
distintas: mita e encomienda.

● Encomienda: esse modelo desenvolvido pelos espanhóis caracterizava-se pela


concessão dos direitos de exploração de um grupo de nativos a um colono
pelas autoridades espanholas locais em troca de pagamentos de tributos e
cristianização dos indígenas explorados.

● Mita: de origem inca, essa modalidade de trabalho era baseada em sua origem
na utilização de alguns homens pertencentes a comunidades dominadas na
exploração das minas por aproximadamente quatro meses, após esse período,
recebiam seu pagamente e novos trabalhadores eram sorteados para uma
mesma jornada.

A dominação europeia promoveu a degradação da cultura local,


contribuindo para tal o processo de cristianização à qual os nativos foram
submetidos.

Vejamos agora algumas características das principais classes sociais


identificadas neste período.

● Indígenas/Nativos: através dos sistemas de encomienda e mita foram


submetidos a trabalhos forçados, também denominados por alguns
historiadores como trabalho escravo. Inicialmente, compunham a maioria da
população da colônia.

Escravos Africanos: também utilizados nas Antilhas, sobretudo para


trabalhos vinculados à agricultura.

Mestiços: produtos da interação entre brancos e índios, eram trabalhadores


livres, desprezados e explorados no campo e cidade.

Chapetones: ocupavam altos cargos da administração colonial. Nascidos


na Espanha, viviam na colônia gozando de prestígio social e defendendo os
interesses da metrópole.

Criollos: representavam a elite colonial, descendentes dos espanhóis


nascidos na América, possuíam grandes propriedades rurais, arrendavam minas,
e podiam ocupar cargos de menor expressão na administração e defesa pública.

54
TÓPICO 4 | AMÉRICA ESPANHOLA

5 A CRISE COLONIAL ESPANHOLA

Em sua obra intitulada “A economia latino-americana: formação


histórica e problemas contemporâneos”, Celso Furtado considera uma divisão
entre os três séculos de dominação espanhola em território americano, cada qual
compreendendo aproximadamente 150 anos.

Neste sentido:

[...] pode-se dizer que os primeiros 150 anos da presença espanhola


na América foram marcados por grandes êxitos econômicos para a Coroa e
para a minoria espanhola que participou diretamente da conquista, pela
destruição de grande parte da população indígena preexistente, pela piora
das condições de vida da população que sobreviveu à conquista e, finalmente,
pela articulação de vastas regiões em torno de polos dinâmicos, cuja principal
função era produzir um excedente sob a forma de metais preciosos, o qual se
transferia para a Espanha de forma quase unilateral. Os segundos 150 anos
se caracterizaram pelo declínio da produção mineira, pelo afrouxamento
da pressão sobre a população, que retomou o crescimento e melhorou suas
condições de vida, e pelo enfraquecimento dos vínculos entre as regiões, cuja
interdependência se reduziu. Na primeira fase, a classe dominante era formada
por homens diretamente ligados à Espanha, integrados ao aparelho do Estado
ou em posições de controle do sistema de produção de onde saía o excedente
transferido para a Metrópole. Na segunda fase, assumiu significação crescente
a classe de senhores da terra, desvinculados da Metrópole e com um horizonte
de interesses estritamente local. (FURTADO, 2007, p. 72).

Em suma, três acontecimentos – esgotamento das minas, hegemonia


comercial inglesa e a Guerra de Sucessão Espanhola - revelaram a situação
calamitosa e vulnerável na qual a Espanha, até então reconhecida como uma
grande potência encontrava-se a partir do século XVIII.

As guerras nas quais a Espanha envolveu-se na época consumiram boa


parte das riquezas minerais extraídas da colônia americana, principalmente
das minas localizadas na mesoamérica e região andina, aliás, essas minas já
apresentavam sinais de escassez desde o século XVII.

55
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

Segundo Furtado (2007, p. 60-61):

A ruptura formal do monopólio espanhol se inicia com o século


XVIII. Em 1701, ao iniciar-se a Guerra de Sucessão, uma companhia
francesa obtém por dez anos o privilégio de vender escravos nas
índias espanholas. Em 1713, pelo Tratado de Utrecht esse privilégio foi
transferido para os ingleses, e, explorá-lo, foi criada uma companhia
da qual eram sócios tanto o rei da Espanha como o da Inglaterra,
cabendo a cada um 25 por cento do capital. Essa companhia, a qual
cabia o direito de introduzir nas colônias espanholas 4800 escravos
africanos por ano (durante um período de trinta anos), estabeleceu
postos de venda nos principais portos entre Vera Cruz e Buenos Aires
e, logo em seguida, nas regiões interiores, alcançando as longínquas
minas do norte do México. Demais, estava autorizada a importar os
gêneros requeridos para manter os escravos enquanto estes estivessem
em suas mãos.

Ao direito concedido aos ingleses de fornecer escravos africanos


denominou-se asiento, enquanto que o permisso caracterizava-se pela
comercialização direta de manufaturados entre ingleses e as colônias espanholas.

NOTA

O Asiento era a permissão, cedida pela coroa, de comercializar escravos com as


colônias portuguesas. FONTE: Disponível em: <pt.wikipedia.org/wiki/Asiento>. Acesso em:
24 out. 2010.

56
TÓPICO 4 | AMÉRICA ESPANHOLA

As frotas anuais, instituídas em 1531, são caracterizadas pelo envio de


duas frotas espanholas anualmente com destinos definidos em Terra Firme
e Nova Espanha, foram dissolvidas no século XVIII proporcionando à colônia
espanhola a possibilidade de comercializar entre si através de seus portos e com
outras nações, sobretudo a Inglaterra.

Essas concessões proporcionadas pelo governo espanhol ocasionaram o


gradual desmantelamento da estrutura colonial e a inserção da corrente iluminista
em voga na Inglaterra. O desenvolvimento do liberalismo na colônia além do
afastamento das elites junto à metrópole contribuiu com o enfraquecimento do
colonialismo.

57
RESUMO DO TÓPICO 4
Neste tópico, você viu:

● Que analisamos as causas e as consequências do interesse espanhol pelas terras


localizadas na América.

● A organização política da metrópole espanhola.

● A estrutura social e econômica dos conquistadores e dos povos conquistados,


incluindo os mesoamericanos e os andinos.

● Os motivos que ocasionaram a crise colonial espanhola.

58
AUTOATIVIDADE

1 Discorra sobre os motivos que ocasionaram o interesse dos espanhóis pelas


terras americanas.

2 Explique o sistema de capitulações.

3 Descreva as principais características das modalidades de trabalho


implantadas nas colônias espanholas na América (Mita e Encomienda).

59
60
UNIDADE 1
TÓPICO 5

AMÉRICA INGLESA

1 INTRODUÇÃO
Prezado(a) acadêmico(a)! Neste tópico, nosso objetivo é analisar os
motivos pelos quais os ingleses manifestaram seu interesse pelas terras ao norte
do Continente Americano, bem como as características desses colonizadores e
os métodos utilizados no povoamento e colonização dessa região. Sem menos
importância, consideramos fundamental observar as relações entre ingleses e
nativos.

2 INGLESES NA AMÉRICA DO NORTE


Diferentemente do que ocorreu com espanhóis e portugueses em ocasião
das suas respectivas chegadas em terras americanas, a motivação resultante na
povoação e colonização da América do Norte, por parte dos ingleses, a partir do
século XVII, encontra-se vinculada a conflitos sociais e políticos internos.

Em decorrência dos conflitos sociais e políticos observados na Inglaterra


ao longo do século XVII, a vinda de ingleses para a América do Norte passou a
ser considerada uma alternativa viável tanto aqueles prejudicados pelas políticas
de cercamentos, que por sua vez ocasionaram um acentuado êxodo rural, quanto
aos perseguidos por questões religiosas.

A colonização inglesa na América do Norte, ao contrário da portuguesa,


ficou a cargo de particulares e de Companhias de Comércio. Portanto, o rei inglês
não se preocupou em controlar e tampouco definir o caráter colonizatório a ser
utilizado nas terras norte-americanas. Como já foi dito, as colônias inglesas foram
uma saída para os problemas políticos e sociais que grande parte da população
inglesa vivia.

No plano social, podemos destacar o crescimento progressivo de


camponeses sem-terra e também um número crescente de pequenos agricultores
que perdiam suas terras para os grandes proprietários. Essa realidade resultou
basicamente em dois fatores. Primeiro, a Lei do Cercamento, que implicou a
suspensão dos contratos de arrendamento e a expulsão dos camponeses instalados
nas terras em que a política foi adotada.

61
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

O segundo fator foi a substituição da agricultura e do pastoreio de


subsistência por uma atividade agropastoril voltada para o comércio, o que exigiu
uma produção em alta escala. Portanto, quanto maior a quantidade de terras,
maior será a produção e, consequentemente, maior será o lucro do proprietário
de terras. Essa passou a ser a nova lógica de produção agrícola. A partir dessa
realidade, grande parte dos pequenos agricultores perdeu suas terras para os
grandes proprietários rurais.

Enfim, os dois fatores somados geraram uma grande massa de pessoas


desocupadas e sem perspectivas de trabalho. Parte dessa mão de obra abundante
passou a ser aproveitada, de forma barata, na atividade comercial, em ascensão, e
a outra passou a engrossar a camada de indigentes existente na sociedade inglesa,
fato que contribuiu para o crescimento do banditismo social.

No plano político-religioso, é preciso destacar o fato de que a Inglaterra


vivia o reinado de Henrique VIII, um monarca que usurpava seus súditos
com a cobrança de altos impostos, que nunca pareciam ser o bastante, pois,
constantemente, submetia a Inglaterra a guerras infrutíferas. Além disso,
mostrava-se um soberano despótico, o que contribuía para a formação de uma
legião de inimigos políticos.

No plano religioso, Henrique VIII promoveu uma reforma religiosa e


tornou-se chefe supremo do Estado e da Igreja. Tornou a Igreja Anglicana, a igreja
oficial da Inglaterra. Rompeu com o papado e passou a confiscar os bens da Igreja
Católica como forma de aumentar as riquezas do Estado. Agora, além de inimigos
políticos, Henrique VIII passou a contar também com inimigos religiosos.

Inicialmente, as duas Companhias privadas privilegiadas com concessões


à colonização das terras ao norte do Continente Americano foram a de Londres e
a Plymonth. A princípio concentrou seus esforços na região Norte enquanto que
a segunda estabeleceu-se ao Sul.

Virgínia é reconhecida como a primeira colônia inglesa, posteriormente


foi organizada Maryland (1632), Carolina do Sul e Carolina do Norte (1663) e
Geórgia (1733) ambas situadas ao sul e caracterizadas pela exploração do escravo
africano vinculada a uma produção agrícola com vistas à suplementação das
demandas metropolitanas.

Ao Norte, as colônias originaram-se da migração de ingleses puritanos


vinculados a práticas comerciais e ao desenvolvimento de culturas agrícolas
diversificadas, necessárias ao sustento dos próprios colonos. A primeira
colônia inglesa no Norte foi New Plymonth – atual Massachussets - em 1620,
posteriormente foram fundadas Rhode Island e Connecticut em 1636 e New
Hampshire em 1638.

62
TÓPICO 5 | AMÉRICA INGLESA

Ou seja, ao Sul, as colônias foram concebidas através da perspectiva de


exploração do trabalho escravo em terras nas quais se produzia produtos agrícolas
exportados para a metrópole, exercendo caráter suplementar.

No Norte, ao contrário, as colônias apresentavam características de


povoamento. Os ingleses estabelecidos nessas regiões transferiam além de suas
famílias todo o aparato cultural necessário a sua própria sobrevivência.

3 A ESTRUTURA COLONIAL
As treze colônias inglesas implantadas na América do Norte eram
independentes umas das outras, submetendo-se politicamente diretamente ao
governo inglês. Diferentemente do modelo adotado por portugueses e até mesmo
por espanhóis em terras americanas, as colônias foram concebidas a partir da
iniciativa privada, culminando no desenvolvimento de uma acentuada autonomia
até mesmo em relação à própria metrópole.

63
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

FIGURA 12 – TREZE COLÔNIAS

FONTE: Disponível em: <http://www.clickescolar.com.br/wp-content/uploads/2010/09/13-


Colonias-da-America-do-Norte-240x300.jpg>. Acesso em: 27 out. 2010.

64
TÓPICO 5 | AMÉRICA INGLESA

O governo metropolitano nomeava para cada colônia um governador


para que este representasse seus interesses na América, porém este poder político
era compartilhado com um Conselho formado pela elite colonial e fiscalizado
pela Assembleia Legislativa.

Conforme já exposto, a delegação de um governador com vistas à


representação dos interesses metropolitanos não conteve o desenvolvimento de
uma cultura autônoma em relação ao governo inglês.

As colônias concentradas ao norte apresentavam condições climáticas


muito semelhantes àquelas encontradas na própria Inglaterra diferentemente
daquelas localizadas ao Sul. Estes fatores propiciaram uma diferenciação entre
ambas, através das quais se estabeleceu ao Sul a exploração dos recursos bem
como o emprego da mão de obra escrava, sobretudo africana.

4 DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO
As características climáticas contribuíram para a definição do modelo
econômico de cada região, o clima tropical no sul e temperado no centro-norte,
no entanto, foi determinante o tipo de sociedade e de interesses existentes. Na
região Centro-norte a colonização foi efetuada por um grupo caracterizado por
homens que pretendiam permanecer na colônia (ideal de fixação), sendo alguns
burgueses com capitais para investir, outros trabalhadores braçais, livres,
caracterizando elementos do modelo capitalista, onde havia a preocupação do
sustento da própria colônia, uma vez que havia grande dificuldade em comprar
os produtos provenientes da Inglaterra.

A agricultura intensiva, a criação de gado e o comércio de peles,


madeira, e peixe salgado, foram as principais atividades econômicas, sendo
que desenvolveu-se ainda uma incipiente indústria de utensílios agrícolas e
de armas. Em várias cidades litorâneas o comércio externo se desenvolveu,
integrando-se às Antilhas, onde era obtido o rum, trocado posteriormente na
África por escravos, que por sua vez eram vendidos nas colônias do sul: assim
nasceu o “Comércio Triangular”, responsável pela formação de uma burguesia
colonial e pela acumulação capitalista.

FONTE: Disponível em: <www.historianet.com.br>. Acesso em: 14 fev. 2011.

65
RESUMO DO TÓPICO 5
Neste tópico, você viu que:

● A colonização inglesa na América do Norte, ao contrário da portuguesa, ficou


a cargo de particulares e de Companhias de Comércio.

● As colônias concentradas ao norte apresentavam condições climáticas muito


semelhantes àquelas encontradas na própria Inglaterra, diferentemente
daquelas localizadas ao sul. Estes fatores propiciaram uma diferenciação entre
ambas, através das quais se estabeleceu ao sul a exploração dos recursos, bem
como o emprego da mão de obra escrava, sobretudo africana.

● A agricultura intensiva, a criação de gado e o comércio de peles, madeira, e


peixe salgado foram as principais atividades econômicas nas colônias inglesas,
sendo que desenvolveu-se ainda uma incipiente indústria de utensílios
agrícolas e de armas.

66
AUTOATIVIDADE

1 Discorra sobre as principais características da estrutura colonial inglesa na


América do Norte.

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68
UNIDADE 1
TÓPICO 6

A AMÉRICA FRANCESA

1 INTRODUÇÃO
A colonização americana não se restringiu apenas a portugueses,
espanhóis, ingleses ou holandeses. Os franceses, assim como os demais,
promoveram a colonização da América disputando territórios e estabelecendo-se
principalmente ao norte das terras ocupadas pelos ingleses. Isso não significa sua
ausência nos demais territórios, pois foi costumeira a presença francesa na costa
do atual Brasil, assim como os holandeses, porém sua ocupação predominante
localizou-se no território do atual Canadá.

2 A PRESENÇA FRANCESA NO BRASIL


Os franceses iniciaram sua expansão marítima bem mais tarde que os
portugueses e espanhóis, e mesmo não tendo realizado grandes descobertas,
conseguiram chegar ao Oriente e também ao Ocidente. Fundaram colônias na
América com o intuito de explorá-las, mas assim como uma parcela considerável
de ingleses, vieram para o Novo Mundo motivados por questões religiosas.

A presença francesa no Brasil e a sua posterior expulsão podem ser


compreendidas através de duas perspectivas:

● Através da primeira invasão, em 1555, uma expedição comandada por Nicolau


Durand de Villegaignon estabeleceu uma colônia na ilha de Serigipe, na Baía
de Guanabara. Essa colônia recebeu o nome de França Antártica e foi destinada
a abrigar protestantes calvinistas fugidos das guerras religiosas na Europa.
Os franceses organizaram um arraial, construíram um forte e resistiram por
mais de dez anos às investidas portuguesas. Foram expulsos em 1565, pelo
governador-geral Mem de Sá. Porém, antes de serem definitivamente expulsos,
em 1567, fundaram a cidade do Rio de Janeiro.

● E ainda, em decorrência da segunda invasão ocorrida por volta de 1594 no


Maranhão. Neste sentido, os portugueses tiveram dificuldades para expulsá-
los, pois os franceses contavam com o apoio do governo francês para a criação
de uma colônia. A França desembarcou no Brasil centenas de colonos, construiu

69
UNIDADE 1 | A COLONIZAÇÃO DA AMÉRICA: OS PRIMEIROS TEMPOS

casas e igrejas e levantou o forte de São Luís, que deu origem à cidade de São
Luís do Maranhão. Quase 21 anos depois, os franceses foram atacados por
forças portuguesas saídas de Pernambuco, sob o comando de Jerônimo de
Albuquerque. Derrotados, os invasores deixaram o Maranhão em 1615.

Não vá pensar, caro(a) acadêmico(a), que os franceses abandonaram


definitivamente a costa brasileira. Ao contrário, continuaram até meados do
século XVIII, com menor ou maior ajuda do governo francês, assediando as terras
brasileiras. O alvo mais frequente foi o litoral nordestino. Mais tarde, dirigiram-
se para o norte da América do Sul e fundaram novas colônias na região que hoje
pertence à Guiana Francesa.

3 OS FRANCESES NA AMÉRICA DO NORTE


A presença do colonizador francês nas terras norte-americanas ocorreu
a partir de meados do século XVII, portanto dois séculos após as primeiras
investidas espanholas na América Central. As dificuldades para consolidar o
absolutismo foram responsáveis pelo atraso francês na expansão marítima do
século XV. Consolidado o absolutismo, a França procurou conquistar uma porção
das terras americanas.

Os franceses se preocuparam em colonizar as terras da região centro-sul,


pois as terras setentrionais por serem muito geladas e não oferecerem riquezas
naturais não despertaram a cobiça francesa. Um número reduzido de franceses
dirigiu-se às colônias, pois as peles de alguns animais eram o único atrativo
comercial na região. Portanto, o francês, no norte da América, limitou-se a ocupar
e povoar as terras para não perdê-las para os vizinhos ingleses.

Na América Central, nas Antilhas, os franceses implantaram colônias de


exploração, principalmente na região do Haiti. E na América do Sul, na Guiana,
montaram uma base de navios piratas para atacar os navios espanhóis que
levavam ouro e prata da América.

É possível perceber, que mesmo iniciando a colonização de forma tardia,


os franceses souberam tirar bom proveito das terras americanas. Consolidaram
seus domínios políticos nas três Américas, ou seja, no norte consolidaram seu
domínio territorial, no centro lucraram com a atividade açucareira e, no sul,
acumularam riquezas através de atos de pirataria.

70
RESUMO DO TÓPICO 6

Neste tópico você:

● Relembrou os motivos que levaram os franceses a invadirem o Brasil.

● Identificou as regiões da América em que os franceses estiveram presentes.

● Compreendeu o motivo que atrasou a expansão marítima francesa.

● Identificou os interesses econômicos franceses no norte da América e nas


Antilhas.

71
AUTOATIVIDADE

1 Qual a justificativa apresentada no texto para o atraso francês em relação a


suas conquistas ultramarinas?

72
UNIDADE 2

DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA
DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA
DO PARAGUAI

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
A partir desta unidade, você será capaz de:

• compreender que o processo de independência das colônias americanas


não foi constituído por fatos isolados, mas sim como resultados das trans-
formações políticas e econômicas que a Europa passava;

• identificar os fatores responsáveis pelo processo de independência das


treze colônias inglesas e espanholas;

• analisar os fatores que levaram à fragmentação da América espanhola em


vários países;

• conhecer os principais líderes das lutas pela independência da América


espanhola.

PLANO DE ESTUDOS
A presente unidade de ensino está dividida em quatro tópicos. No final de
cada um deles, você encontrará atividades que contribuirão para a apropriação
dos conteúdos.

TÓPICO 1 – O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA INGLESA

TÓPICO 2 – O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA


ESPANHOLA

TÓPICO 3 – OS ESTADOS UNIDOS: “OS GUARDIÃES DA AMÉRICA”

TÓPICO 4 – GUERRA DO PARAGUAI

73
74
UNIDADE 2
TÓPICO 1

O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA INGLESA

1 INTRODUÇÃO
Caro(a) acadêmico(a)! É comum, ainda hoje, os livros didáticos tratarem
a independência das colônias americanas como sendo resultado de atos heroicos
e isolados do contexto sócio-histórico universal. Atualmente, faz-se necessário
desmistificar essas afirmações, pois nenhum fato histórico encontra resposta,
ou razões em si mesmo. Nesse sentido, nosso objetivo, nesse tópico, será o de
apresentar a Independência das treze colônias inglesas como sendo resultado
de um processo que encontra reflexos nas transformações econômicas, sociais e
intelectuais que a Europa vivia.

Assim, convido você a conhecer como surgiu uma das maiores potências
econômicas, culturais e bélicas do mundo – os Estados Unidos da América.

2 AS INFLUÊNCIAS EXTERNAS
Conforme já mencionamos, a independência das treze colônias inglesas
na América do Norte foi resultado de um processo que encontra origens dentro e
fora da América. Em geral, os historiadores costumam justificar a independência
dos Estados Unidos a partir dos seguintes fatores externos:

 O Movimento Iluminista (século XVIII): movimento que colocou


progressivamente em cheque a figura política do rei, pois os iluministas
pregavam a liberdade, a igualdade e a fraternidade. Esses ideais romperam
as barreiras do Oceano Atlântico e chegaram às Américas. Assim, os colonos
americanos, envolvidos por esses ideais, começaram a propagar sentimentos
de repúdio à exploração metropolitana, que enriquecia graças à exploração
dos colonos.

 A Guerra dos Sete Anos (1756 a 1763): esse conflito ocorreu entre ingleses
e franceses, e encontra origens na disputa de terras no norte da América.
Ingleses e franceses discutiam questões de fronteiras territoriais. A Inglaterra,
embora vitoriosa, saiu falida do conflito, e como forma de engordar seus cofres,
resolveu apertar os laços mercantilistas com as treze colônias.

75
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

UNI

A política mercantilista tinha por objetivo atrelar as atividades desenvolvidas


na colônia aos interesses da metrópole. Em outras palavras, enriquecer a metrópole, por
intermédio de impostos, ou exploração de riquezas naturais.

Enfim, a ideia de liberdade pregada pelo Iluminismo gerou na sociedade


colonial americana um forte desejo de rompimento com os laços mercantilistas,
isto é, um desejo de rompimento com um Estado que oprimia e, ao mesmo tempo,
impedia o crescimento econômico.

DICAS

SUGESTÃO DE FILME

O Patriota (The Patriot)

Sinopse: Na emocionante aventura O Patriota, o vencedor do


Oscar Mel Gibson estreia como Benjamin Martin, um herói
do terrível conflito francês e indígena, que havia renunciado
lutar para criar sua família em paz. Mas quando os ingleses
chegam a seu lar e ameaçam seus sete filhos, Martin pega
em armas ao lado do filho idealista, Gabriel (Heath Ledger, de
10 Coisas que Eu Odeio em Você), e lidera uma brava milícia
numa batalha contra o incansável e esmagador exército
inglês. No processo, ele descobre que a única maneira de
proteger sua família é lutar pela liberdade de uma jovem
nação.

FONTE: Disponível em: <http://www.cinepop.com.br/


filmes/patriota.htm>. Acesso em: 16 nov. 2010.

Em relação ao filme “O Patriota”, é interessante analisar a forma pela qual


o inimigo inglês é caracterizado. Neste sentido, além de considerar a relevância
do fato para os norte-americanos merece atenção a origem do próprio filme, ou
seja, os EUA. O filme procura fomentar e enaltecer o orgulho pelo país reforçando
os estereótipos de crueldade, intolerância e o caráter abusivo vinculado aos
personagens identificados com os interesses metropolitanos.

As colônias já contavam com classes sociais, economicamente poderosas,


esperando o momento certo para reagirem contra a opressão metropolitana. No
próximo item, você verá que o arrocho mercantilista adotado pela metrópole em
relação à colônia não foi bem-sucedido.
76
TÓPICO 1 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA INGLESA

3 AS ETAPAS DA INDEPENDÊNCIA
Os Estados Unidos da América tornaram-se independentes em 4 de julho
de 1776. Neste sentido, convido você a conhecer os fatos que propiciaram a
independência deste país nesta data.

3.1 AS LEIS INTOLERÁVEIS


Ao final da Guerra dos Sete Anos, como já mencionado, a Inglaterra
encontrava-se falida e como forma de equilibrar suas finanças, resolveu apertar
os laços coloniais com as treze colônias, através das seguintes medidas:

● a partir de 1750, ficou proibida a fundição de ferro nas colônias;

● a partir de 1756, foi proibida a fabricação de tecidos, fato que atrasou e atrofiou
o processo de industrialização nas colônias do Centro-Norte;

● a partir de 1765, os soldados ingleses poderiam alojar-se nas colônias, fato que
evidenciou que a Inglaterra não estava disposta a perder o controle sobre as
riquezas da colônia;

● outras leis, como a Lei do Selo e a Lei do Açúcar, também foram sancionadas
pela metrópole. A primeira obrigava a selagem de todos os documentos oficiais,
jornais etc. que circulavam pela colônia. A segunda tinha por objetivo impedir
que os colonos americanos comercializassem seus produtos com outras regiões.

Um número considerável de historiadores atribui à aprovação da Lei


do Chá, que por sua vez prejudicava os comerciantes na América inglesa em
decorrência do monopólio concedido à Companhia Britânica das Índias Orientais,
como sendo o estopim do conflito entre metrópole e colônia.

Esse conjunto de leis não foi bem recebido pelos colonos americanos, pois,
além de limitar os lucros e aumentar os impostos, elas também subordinavam
radicalmente as colônias à política metropolitana. Muitos colonos se rebelaram e
boicotaram tais leis.

77
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

FIGURA 13 – PINTURA DA FESTA DO CHÁ DE BOSTON, RESULTADO DO ATO DO CHÁ QUE


FAVORECEU A COMPANHIA DAS ÍNDIAS ORIENTAIS E PUNIU CONCORRENTES

FONTE: Disponível em: <http://static.hsw.com.br/gif/east-india-company-influence-3.jpg>.


Acesso em: 16 nov. 2010.

A metrópole rapidamente decretou leis ainda mais repressoras, chamadas


pelos colonos de Leis Intoleráveis.

Caro(a) acadêmico(a)! Estava criada a situação que aquelas classes sociais


mais abastadas precisavam para dar o pontapé inicial da independência. É aqui
que tudo começa.

3.2 O PRIMEIRO CONGRESSO CONTINENTAL DA FILADÉLFIA


Diante desse quadro de conflito e de rígido controle metropolitano, os
colonos reuniram-se em um congresso com o objetivo de restabelecer a liberdade
das colônias. Foi o Primeiro Congresso Continental da Filadélfia e, cabe registrar
que, independentemente dos conflitos econômicos e ideológicos existentes entre
as colônias do Norte e do Sul, nesse momento elas estavam unidas em busca de
um mesmo objetivo.

O Primeiro Congresso Continental da Filadélfia não teve caráter


separatista, mas, caso as reivindicações dos colonos não fossem aceitas (maior
liberdade comercial, maior flexibilidade nos laços coloniais etc.), esse seria o
próximo passo.

78
TÓPICO 1 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA INGLESA

Caro(a) acadêmico(a)! Talvez você esteja imaginando a reação do Rei


Jorge III em relação às reivindicações dos colonos. Evidentemente, o monarca
não aceitou as propostas provenientes das suas colônias na América, e procurou
aumentar sua repressão.

Os conflitos foram vários, como foram várias as vítimas. A guerra pela


independência estava começando.

3.3 O SEGUNDO CONGRESSO CONTINENTAL DA


FILADÉLFIA
O Segundo Congresso Continental da Filadélfia teve um objetivo diferente
do Primeiro Congresso, pois o seu caráter foi exclusivamente separatista. George
Washington assume o comando das tropas americanas e encarrega Thomas
Jefferson de redigir a Declaração de Independência. O conflito entre colonos e
colonizadores se acirra.

FIGURA 14 – GEORGE WASHINGTON

FONTE: Disponível em: < http://www.historianet.com.br/imagens/indeeua2.jpg>.


Acesso em: 16 nov. 2010.

79
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

FIGURA 15 – THOMAS JEFFERSON

FONTE: Disponível em: <http://www.historianet.com.br/imagens/indeeua1.jpg>.


Acesso em: 16 nov. 2010.

No início de 1776, o iluminista Thomas Paine incita os americanos para a


urgência da independência. No dia 4 de julho do mesmo ano, foi promulgada a
Declaração de Independência, redigida por Thomas Jefferson.

FIGURA 16 – THOMAS PAINE

FONTE: Disponível em: < http://www.historiadomundo.com.br/imagens/Paine%20-%20


ALUNOS%20ONLINE.jpg>. Acesso em: 16 nov. 2010.

80
TÓPICO 1 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA INGLESA

Evidentemente, esse processo foi complexo e muitas articulações foram


realizadas para que se criasse o ambiente desejável. A Inglaterra não aceitou e o
conflito aumentou ainda mais a repressão. Graças à ajuda da França e da Espanha,
que queriam diminuir o poder britânico na América, os Estados Unidos tiveram
sua independência reconhecida pela Inglaterra em 1783.

3.4 DEPOIS DA INDEPENDÊNCIA


Os anos que se seguiram logo após a independência foram influenciados
pelos ideários iluministas de Montesquieu. Os Estados Unidos passaram a servir
de exemplo para o restante da América colonial, pois foram os primeiros a se
tornarem independentes de sua metrópole. Desta forma, as treze colônias Inglesas
organizam-se politicamente como uma República confederada.

A Constituição não contemplava, em seu bojo, uma liberdade política para


toda a nação. Ao contrário, grande parte dos trabalhadores foi alijada do processo
político, pois o voto era censitário. Índios, negros livres ou negros escravos não
foram levados em consideração e continuaram a levar suas vidas de acordo com
os interesses das elites nortistas e sulistas.

81
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

LEITURA COMPLEMENTAR

O MANIFESTO DA AMÉRICA

“Possa ela [a declaração] ser para o mundo o que acredito será - algumas
partes mais cedo, outras mais tarde, mas, finalmente, para todos - o sinal para o
despertar dos homens a fim de que rompam os grilhões, nos quais a ignorância
simiesca e a superstição os persuadiram a acorrentar-se, e colham as bênçãos e
segurança do autogoverno”. - Jefferson a A. R. C. Weightman, 24.06.1826.

Entre a submissão e a espada

Desde a rebelião generalizada que ocorreu a partir do porto de Boston em


1775, centro do descontentamento dos colonos americanos contra as medidas de
tirania tributária adotada pela Coroa inglesa, os representantes dos 13 estados-
colônias planejavam a redação de algum documento que desse respaldo a rejeição
deles em submeter-se à metrópole. Eles desejavam - como afirmou Jefferson em
carta a Henry Lee, em 1825, muito depois de o episódio ter ocorrido -, justificar-
se “perante o tribunal do mundo”. Não queriam aparecer aos olhos da Europa
como um bando de arruaceiros lá do outro lado do Atlântico amotinados contra
o rei. Para eles tratava-se de uma coisa maior: por em prática uma série de teorias
que incendiavam a imaginação dos burgueses e dos homens livres em geral, em
se ver libertos da tirania das monarquias e dos anacronismos feudais - do lixo
jurídico medieval - e de toda uma gama de regulamentos discriminatórios que
hierarquizavam e perpetuavam as enormes desigualdades sociais.

Desde o final da Guerra dos Sete Anos (1756-1763), um cenário de


crescente enfrentamento pairava sobre as colônias inglesas da América. De um
lado, os agentes da metrópole querendo aumentar as cargas aduaneiras e fixar
mais impostos, do outro, os colonos indignados por serem considerados como
súditos de segundas categorias, pois nenhum dos tributos exigidos contava com
a aquiescência deles. Daí seu grito “sem representação não há taxação”. Se eles
não podiam enviar deputados para o Parlamento em Londres, os funcionários da
Coroa não podiam inventar uma taxa atrás da outra para extorqui-los.

Repressão e resistência

O princípio do desentendimento entre americanos e ingleses dera-se onze


anos antes da Declaração, por ocasião do Stamp Act (a Lei do Selo) de 1765, que
obrigava todo o papel que circulasse nas 13 colônias ser selado com um timbre
da Coroa. Em repúdio a essa lei, fundou-se a associação secreta dos Sons of
Liberty, os Filhos da Liberdade, formada por mercadores, advogados, jornalistas
e artesãos para opor-se a à Lei do Selo, transformando-se gradativamente numa
entidade que iria congregar o espírito de resistência das colônias americanas. A
resistência foi acompanhada por uma política de boicote às mercadorias inglesas

82
TÓPICO 1 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA INGLESA

que causou um prejuízo ao comércio metropolitano avaliado em 7,3 milhões de


libras, enquanto a Lei do Selo contribuiu apenas com 3,5 mil libras para os cofres
do rei.

Eles é quem estavam por trás da manifestação de protesto contra a Lei


do Chá (Townshend act), ocorrida em Boston em 13 de dezembro de 1773,
que culminou com os colonos disfarçados de índios invadindo os barcos da
Companhia inglesa das Índias ancorados no porto, jogando todos os fardos de chá
no mar (no episódio jocosamente chamado The Boston Tea Party, a Festa do Chá
de Boston). Também militavam naquela organização de patriotas, Samuel Adams
e John Hancock, dois dos foragidos procurados pelas autoridades inglesas cuja
decretação de prisão por sedição deflagrou os violentos tiroteios entre os pelotões
ingleses e os “Minute Men”, as milícias dos colonos, nos lugarejos de Lexington
e Concord, no Massachusetts, em abril de 1775. Gravíssimo incidente que matou
273 soldados britânicos e 93 colonos, e que serviu como faísca para o rastilho
da Revolução Americana de 1776. Apesar de algumas tentativas conciliatórias, a
insurreição tomou corpo e ninguém mais pôde detê-la. Rejeitando a submissão,
aos colonos só lhes restou pegar suas espadas.

O grande redator

Se os incidentes de Lexington foram os sinais mais estrondosos para a


insurgência geral das 13 colônias, o mundo das ideias foi sacudido a partir de
10 de janeiro de 1776 por um panfleto de 47 páginas redigido por Thomas Paine,
chamado Common Sense, O Senso Comum, no qual ele advogava abertamente
a separação completa da Grã-Bretanha. Nada mais unia os colonos à metrópole
depois que o sangue fora derramado. Nenhuma razão plausível podia justificar a
submissão dos homens livres da América a um tirano que recebera sua coroa por
herança. E ainda mais, como lembrou Paine, era um contrassenso que uma ilha
(a Inglaterra) dominasse um continente (a América). Foi com este pano de fundo,
entre os clarões das explosões e dos tiros e as incendiárias palavras de Paine (o
panfleto teve um tiragem de 120 mil exemplares), que os delegados coloniais
reunidos no IIº Congresso Continental encarregaram Thomas Jefferson de redigir
uma declaração.

A formação de Thomas Jefferson

Aos 33 anos de idade, Jefferson, nascido na Virgínia em 1743, provavelmente


era o homem mais culto, senão da América do Norte, seguramente da sua geração.
Dominava o latim, o grego, e o francês com perfeição. Cervantes e Shakespeare
eram os seus autores de ficção favoritos, e, quando estudante, preparando-se para
cursar advocacia em Richmond, na Virgínia, ele promoveu um curso de estudos
para James Madison e James Monroe, que posteriormente, como ele, também se
tornaram presidentes dos Estados Unidos (o 3º foi Jefferson, entre 1801-1809; o 4º
foi Madison, entre 1809-1817; e o 5º foi Monroe, de 1817-1825). Até sua estatura,
mais de 1,90 m., colaborou para a sua grandeza. Seus traços fortes, marcados,
os olhos castanhos firmes, sua tez avermelhada pelo sol do campo, faziam dele

83
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

o protótipo do ianque. Foi um atento leitor do que havia de melhor no campo


filosófico e jurídico daquele século, o Século das Luzes, tornado-o íntimo de
Locke, de Sidney, de Hume, de Condorcet e de Montesquieu, e de tantos outros
mais. Enfim, o homem era um prodígio.

Um sincero democrata

Mas o mais excepcional nele, para alguém criado na elite sulista, dono
de terras e de escravos, refinado, quase um renascentista pela abrangência dos
seus interesses e conhecimentos, é que Jefferson era um sincero admirador da
democracia. Estranhavam que alguém que tinha todos os aparamentos para
ser um conservador empedernido, um esnobe, um bon vivan, inclinava-se com
todo o seu afeto e simpatia para o homem comum. Jefferson acreditava que a
democracia era o único regime que permitia fazer com que os homens andassem
permanentemente de cabeça erguida, sem ter que inclinar-se ou rastejar-se para
ninguém. De certa forma, ele era a revivescência do antigo tribuno da plebe dos
tempos dos romanos: um nobre patrício que aderia às causas populares. Que
tais sentimentos fossem expressos por um senhor de escravos (aliás, quando
ele redigiu a constituição da Virgínia, tentou colocar uma cláusula abolindo a
servidão) é uma das mais notórias contradições da vida de Jefferson.

A embaraçosa escravidão

Certamente foi a questão de manter-se ou não a escravidão nas colônias


que marchavam para a Independência o motivo da declaração ter demorado
mais alguns dias em ser aprovada. Saltava aos olhos da maioria dos presentes
no II Congresso na Filadélfia, de que era uma contradição gritante os delegados
clamarem por liberdade, pela sua libertação, enquanto mantinham escravos nas
suas propriedades. Porém, em consideração à Carolina do Sul e à Geórgia, notórias
regiões escravistas, os demais parlamentares concordaram - disse Jefferson - em
não colocar nenhuma cláusula que a condenasse. É possível que se os nortistas
insistissem naquela época em proclamar a escravidão, simultaneamente à
independência, a frente unida pró-republicana se dissolveria e a Grã-Bretanha,
além de vencer a guerra já começada, recuperaria sua autoridade sobre as
colônias rebeladas. Seja como for, a questão da escravidão foi apenas protelada,
explodindo 85 anos depois na terrível Guerra Civil de 1861-65.

A aprovação

Aprontada a sua redação, o documento (dividido em cinco partes:


introdução, preâmbulo, corpo do texto, subdividido em duas seções, e a
conclusão) foi discutido durante dois intensíssimos dias, cabendo a John Adams,
um eloquente polemista, defendê-lo perante o Congresso. Sentando ao lado de
Jefferson naquele momento de tensão estava Benjamin Franklin, o patriarca da
Independência que, para acalmá-lo, contava-lhe uma das suas saborosas histórias
do seu tempo de tipógrafo. Talvez viesse à lembrança de Jefferson aquela

84
TÓPICO 1 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA INGLESA

passagem de Shakespeare que dizia: “E agora, ei-lo que se encarrega de reformar


certos éditos e algumas leis rigorosas, que pesavam excessivamente sobre a
comunidade”.

A aprovação final do documento contou a ajuda de uma inesperada


invasão de moscas, pois era julho, mês do alto verão americano, e elas atacaram
com sofreguidão as pernas dos delegados. Encerrado o debate com seis acréscimos,
dezoito supressões e dez alterações, a redação final foi sancionada na tarde daquele
mesmo dia, o 4 de julho. Numa cerimônia simbólica, Jefferson, acompanhado de
mais quatro integrantes da comissão de redação (Benjamin Franklin da Pensilvânia,
John Adams de Massachusetts, Roger Sherman do Conecticute, e Robert Livingston
de Nova Iorque), entregou formalmente o documento a John Hancock, o presidente
do Congresso Continental. Em seguida, seguiram-se as assinaturas dos presentes.
Ao todo 56 deles assinaram a Declaração de Independência, cabendo a John
Hancock a honra de ser o primeiro a fazê-lo. No dia seguinte, 5 de julho, deram o
pergaminho a John Dunlop, responsável pelas publicações do Congresso, para que
ele o copiasse e a imprimisse, remetendo-a com a máxima urgência para as capitais
das colônias rebeladas e para os acampamentos do Exército Continental, que já
estava travando combates com os ingleses. George Washington, o comandante
supremo, recebeu o seu exemplar em Nova Iorque. Acredita-se que foram feitas
umas 500 cópias dela. De tantas, dois séculos depois, só restaram 25, sendo que
apenas 4 encontram-se em mãos privadas.

O significado da Declaração

Como o próprio Jefferson intuiu, a Declaração de Independência não


ficou circunscrita às coisas da América do Norte. A ideia de que os homens
nascem livres e iguais e que tinham todo o direito de repudiar um governo que os
oprimia, ganhou o mundo. Ao mesmo tempo em que o documento foi o Manifesto
da América, também se consagrou como uma das maiores conclamações da
história moderna para que os homens lutassem contra a tirania onde quer que
eles estivessem (por ironia das coisas, Ho Chi Minh, o líder comunista do Vietnã
do Norte, colocou o trecho inicial da Declaração no preâmbulo da constituição
vietnamita de 1947). Foi também o anúncio do surgimento de uma nova era -
a Era Republicana e Democrática, que gradualmente (por reforma ou por
revolução) substituiu no Ocidente os regimes monárquicos e aristocráticos que
até então dominavam o cenário político e social da Europa, e de boa parte do
mundo. Mais diretamente, ela foi à fonte de inspiração para que os franceses se
insurgissem em 1789 contra a monarquia absolutista de Luís XVI, estimulando-os
a que igualmente redigissem um documento tão sensacional - a Declaração dos
Direitos do Homem e do Cidadão, aprovada na Assembleia Nacional francesa em
4 de agosto de 1789, numa Paris rebelada.

A Declaração da Independência

“Quando no curso dos acontecimentos humanos, se torna necessário a um


povo dissolver laços políticos que o ligavam a outro, e assumir, entre os poderes

85
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

da terra, posição igual e separada, a que lhe dão direito as leis da natureza e as do
Deus da natureza, o respeito digno às opiniões dos homens exige que se declaram
as causas que os levaram a essa separação.

Consideramos estas verdades como evidentes de per si, que todos os


homens foram criados iguais, foram dotados pelo criador de certos direitos
inalienáveis, que, entre estes, estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade; que,
a fim de assegurar esses direitos, instituem-se entre os homens e os governos, que
derivam seus justos poderes do consentimento dos governados; que, sempre que
qualquer forma de governo se torne destrutiva de tais fins, cabe ao povo o direito
de alterá-la ou aboli-la e instituir novo governo, baseando-o em tais princípios e
organizando-lhes os poderes pela forma que lhe pareça mais conveniente para
realizar-lhe a segurança e a felicidade.

Na realidade, a prudência recomenda que não se mudem os governos


instituídos há muito tempo por motivos leves e passageiros e, assim sendo, toda
a experiência tem demonstrado que os homens estão mais dispostos a sofrer,
enquanto os males são suportáveis, do que a se desagravar, abolindo as formas
a que se acostumaram. Mas quando uma longa série de abusos e usurpações,
perseguindo invariavelmente o mesmo objeto, indica o desígnio de reduzi-los
ao despotismo absoluto, assiste-lhes o direito, bem como o dever, de abolir tais
governos e instituir novos guardas em prol da segurança futura. Tal tem sido
o sofrimento paciente destas colônias e tal agora a necessidade que as força a
alterar os sistemas anteriores de governo. A história do rei atual da Grã-Bretanha
compõe-se de repetidos danos e usurpações, tendo todos por objetivo direto
o estabelecimento de tirania absoluta sobre estes Estados. [seguem-se várias
denúncias sobre as ações e medidas tomadas pela Coroa Britânica contra os
colonos norte-americanos].

Nós, por consequência, representantes dos Estados Unidos da América,


reunidos em Congresso geral, apelamos para o Juiz Supremo do mundo pela
retidão das nossas intenções, em nome e por autoridade do bom povo destas
colônias, publicamos e declaramos solenemente: que estas colônias unidas são e
de direito têm de ser Estados livres e independentes; que estão desoneradas de
qualquer vassalagem para coma Coroa britânica, e que todo o vínculo político
entre elas e a Grã-Bretanha esta e deve ficar totalmente dissolvido; e que, como
Estados livres e independentes têm inteiro poder para declarar guerra, concluir
paz, contratar alianças, estabelecer comércio e praticar todos os atos e ações a que
têm direito os Estados independentes.

“E em apoio desta declaração, cheios de firme confiança na proteção da


divina providência, empenhamos mutuamente uns aos outros a vida, a fortuna e
a honra sagrada.”

FONTE: Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/independencia_eua.


htm>. Acesso em: 16 nov. 2010.

86
RESUMO DO TÓPICO 1
Neste tópico, você pôde:

● Compreender que a Independência das treze colônias americanas não foi um


fato isolado e tampouco resultado de um ato heroico.

● Identificar os fatores externos que influenciaram no processo de independência,


como as ideias iluministas e as Leis Intoleráveis.

● Perceber que a metrópole não aceitou facilmente a Declaração de Independência


do dia 4 de julho de 1776.

● Perceber que, após a independência, o quadro social e político dos Estados


Unidos não ficou diferente do que já era.

87
AUTOATIVIDADE

Com base no Tópico 1, responda:

1 Qual a influência da Guerra dos Sete Anos no processo de independência


dos Estados Unidos?

2 Explique a diferença entre o Primeiro e o Segundo Congresso Continental


da Filadélfia.

3 O que foram as Leis Intoleráveis?

88
UNIDADE 2 TÓPICO 2

O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA


ESPANHOLA

1 INTRODUÇÃO
Nesse tópico, o objetivo será de apresentar o processo que desencadeou
a independência das colônias espanholas na América. A partir desse momento,
você terá condições de perceber os fatores responsáveis pelo processo de
emancipação das colônias, o porquê da América Espanhola ter-se fragmentado
em diversos países e conhecer a atuação política dos principais líderes do
processo de independência.

2 AS INFLUÊNCIAS EXTERNAS
Os fatores que desencadearam o processo de independência das colônias
espanholas na América não foram muito distintos daqueles pertinentes às
treze colônias inglesas. As influências foram tanto internas quanto externas.
Em suma, as colônias espanholas, da mesma forma que as inglesas, viviam
insatisfeitas com a opressão metropolitana, porém um fator acirrava ainda mais
este descontentamento, ou seja, as rivalidades entre Chapetones e Crioulos. Os
Chapetones eram colonos espanhóis que viviam na América e recebiam tratamento
diferenciado, ocupando cargos administrativos e influindo politicamente;
já os Crioulos, espanhóis nascidos na América, eram discriminados social e
politicamente pela Espanha. A origem do conflito está no fato de ambos fazerem
parte da elite colonial espanhola.

“Além disso, à medida que a defesa do império passou a ser confiada cada
vez mais à milícia colonial, cujos oficiais, mioria [sic], eram criollos, a Espanha
inventava uma arma que no final se voltaria contra ela própria. Mesmo ante de
chegarmos a esse ponto, a milícia já criava problemas se segurança interna”.
(BETHELL, 2004b, p. 27-28).

89
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

NOTA

Prezado(a) acadêmico(a)! Você deve ter percebido na citação anterior a palavra


“mioria” seguida da expressão [sic]. Esta expressão significa, “assim mesmo”, ou seja, na ocasião
da transcrição do texto percebemos o equívoco na obra original, pois acreditamos que o
autor objetiva escrever “maioria”. Outro detalhe relacionado à citação em questão refere-se
ao “b” acrescentado ao final de 2004, ano de publicação da obra. Isso significa que neste
Caderno de Estudos utilizamos mais de uma obra de mesma autoria publicada no mesmo
ano, logo, para diferenciá-las, utilizamos letras ao final de cada ano de publicação. Não deixe
de verificar as referências bibliográficas ao final deste Caderno de Estudos!

Agora vamos conhecer alguns dos fatores externos que influenciaram


diretamente na independência:

● O desenvolvimento industrial inglês: a Inglaterra, desejosa de ampliar seus


mercados consumidores e fornecedores de matéria-prima, passou a defender
o fim do domínio comercial metropolitano sob suas colônias. Esse fato ganhou
simpatia entre a elite colonial, pois esta também desejava comerciar com o
mundo.

Corrobora Bethell (2004b, p. 23)

[...] se a América espanhola não conseguia encontrar na Espanha


um fornecedor de produtos industriais e um parceiro comercial,
sobrava-lhe uma alternativa. A economia inglesa passava, no século
XVIII, por mudanças revolucionárias. E, de 1780 a 1800, período
em que a Revolução Industrial se efetivou de verdade, a Inglaterra
experimentou um crescimento comercial inédito, com base, sobretudo
na produção fabril de tecidos. [...] Nesse momento, a Inglaterra não
tinha praticamente concorrentes. Uma parcela substancial – mais ou
menos um terço – do total da produção industrial da Inglaterra era
exportada para o ultramar. Por volta de 1805, a indústria algodoeira
exportava 66 por cento de seu produto final; a indústria de tecidos
de lã, 35 por cento; a indústria do ferro e do aço, 23,6 por cento. E, no
curso do século XVIII, o comércio inglês passou a depender cada vez
mais dos mercados coloniais.

● A independência dos Estados Unidos: conforme foi mencionado anteriormente,


a independência das treze colônias inglesas passou a servir de exemplo para o
mundo colonial americano, e a própria nação estadunidense passou a apoiar
a emancipação das colônias espanholas. Não se esqueça, caro(a) acadêmico(a),
que os Estados Unidos também necessitavam conquistar mercados; portanto,
para eles, a América independente significava o crescimento econômico das
elites dos Estados Unidos.

90
TÓPICO 2 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA ESPANHOLA

● As ideias iluministas: as ideias de liberdade, igualdade e fraternidade


estiveram presentes em todos os processos de independência da América. Na
verdade, elas representavam os desejos da burguesia europeia e americana que
ambicionavam igualdade política e liberdade de comércio.

ATENCAO

É comum ouvirmos pessoas relacionarem os americanos como sendo as


pessoas nascidas nos Estados Unidos, somente. É necessário reconsiderar este conceito, pois
americano é todo aquele que nasceu na América, assim como africano é aquele que nasceu
na África.

3 A INDEPENDÊNCIA GRADUAL E A FRAGMENTAÇÃO


POLÍTICA
Quando você abre o mapa político da América, imediatamente percebe
que a maior parte dos países do nosso continente foi, no passado, colônias
espanholas. Também percebe que a maior parte deles fala a língua espanhola. Por
que a independência das colônias espanholas não resultou numa única nação? É
extremamente importante que façamos essas perguntas, pois, afinal, o Brasil e as
colônias espanholas tornaram-se independentes no mesmo momento histórico,
só que uma fragmentou-se em diversos países e a outra não. Qual a explicação
para isso?

Lopes (1989) atribui à fragmentação política da América colonial hispânica


aos seguintes fatores:

● A influência inglesa, cuja hegemonia comercial seria mais facilmente exercida


numa América dividida e, consequentemente, enfraquecida. O que a Inglaterra
queria, de fato, era o mercado consumidor na América, e, para isso, dividir
para reinar era o seu principal interesse.

● O território estava representado por diversas divisões tribais e linguísticas, a


comunicação era difícil e as populações rarefeitas. Além disto, não havia uma
produção capitalista capaz de proporcionar a unificação política via integração
de mercados.

● A luta pela emancipação foi resultado da ação de diferentes grupos de uma


mesma oligarquia, organizada em locais diferentes e com interesses diferentes,
portanto incapaz de aglutinar interesses políticos que levassem a uma unidade
política.

91
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

É necessário destacar que a ausência da escravidão, como única base de


trabalho, também contribuiu para a não unidade política, pois, ao contrário do
Brasil, a luta pela manutenção da escravidão não foi um instrumento de união
entre as elites coloniais hispânicas.

Enfim, a fragmentação política das colônias espanholas foi resultado


de sua frágil organização econômica, uma vez que dependia de economias
externas, e, também, dos conflitos existentes entre uma elite geográfica, cultural
e economicamente distinta.

3.1 JOSÉ DE SAN MARTÍN


José de San Martín (25/2/1778-17/8/1850) nasceu na Argentina em 1778 e
graças à posição social abastada de sua família, recebeu uma ótima educação. Foi,
sem dúvida, uma das figuras mais expressivas no processo de independência da
América hispânica. No ano dez, do século XIX, em Londres, entra em contato com
os ideais revolucionários da América espanhola, fato que lhe incentiva a retornar
para a capital da Argentina, Buenos Aires. A partir de então, passa a engajar-se
nos movimentos pró-independência.

FIGURA 17 – JOSÉ DE SAN MARTÍN

FONTE: Disponível em: <http://www.biografiasyvidas.com/biografia/s/fotos/san_martin.jpg>.


Acesso em: 16 nov. 2010.

92
TÓPICO 2 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA ESPANHOLA

Em 1816, sai vitorioso de um combate contra as tropas espanholas que


tentavam consolidar as forças colonizadoras na América. Seu espírito de liderança
lhe confere a chefia de diversas tropas que passam a lutar a favor da libertação
das nações vizinhas. Com um exército pouco numeroso, atravessa os Andes com
o objetivo de auxiliar nas lutas pela independência do Chile, colaborando com
o líder Bernardo O´Higgins. Em 1820, marcha ao Peru, domina Lima e declara a
independência do país em 28 de julho de 1821.

Mas, caro(a) acadêmico(a), não vá pensar que os espanhóis aceitaram


facilmente a tomada do Peru, ao contrário, resistiram e muito, porém graças à ajuda
de Simón Bolívar, José de San Martín consolidou o processo de independência
ainda em 1821.

Vale registrar que, mesmo vitoriosos, os dois entraram em conflito, pois


não entraram em consenso quanto à forma de governo que deveria ser instalada
no Peru. Em 1822, San Martín abandonou a política e se exilou na Bélgica e depois
na França, onde morreu.

Enfim, José de San Martín foi um dos principais articuladores da


independência da Argentina, que, embora se tornando independente em 1810, só
foi reconhecida em 1816, no Congresso de Tucumã. Porém, suas atuações em busca
da independência transgrediram o território argentino, pois na região andina,
suas investidas foram extremamente significativas e decisivas para desenrolá-lo
da independência da região.

3.2 SIMON BOLÍVAR


Nasceu no dia 24 de julho de 1783, em Caracas. Oriundo de família rica
estudou na Europa, precisamente em Madrid, onde recebeu forte influência dos
teóricos iluministas. Invadiu a Colômbia e, em dezembro de 1819, foi votada uma
constituição que o nomeava presidente ditador militar da União dos Estados
Unidos da Colômbia. Atuou com sucesso na Venezuela e no Equador.

Simon Bolívar desejava uma América forte e unida e, no ano de 1826,


convocou o Congresso do Panamá, mas infelizmente, o sonho de ver uma América
forte não se realizou.

93
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

FIGURA 18 – SIMON BOLÍVAR

FONTE: Disponível em: <http://www.venezuelatuya.com/biografias/dic00/bolivar.jpg>.


Acesso em: 16 nov. 2010.

A maior parte dos historiadores associa o fracasso aos seguintes fatores:

● A hostilidade inglesa: a Inglaterra não desejava uma América unida e forte,


pois isso poderia significar o nascimento de uma grande potência econômica.
As relações comerciais entre elas se dariam de igual para igual.

● A fobia dos Estados Unidos: Os Estados Unidos já apresentavam um alto grau


de desenvolvimento econômico, pois já tinham vivido sua revolução industrial
e não estavam dispostos a perder seu mercado consumidor americano. Enfim,
não estavam dispostos a enfrentar concorrência.

● A existência de pólos econômicos locais: A existência de elites regionalizadas


já era uma realidade. Portanto, qualquer possibilidade de uma América forte e
unida poderia significar o fim da autonomia mercantil dessas elites.

NOTA

Caro(a) acadêmico(a)! Por que será que o sonho de Bolívar não se tornou
realidade? Será que fatores externos aos interesses americanos, mais precisamente a América
espanhola, fizeram-se outra vez mais fortes?

94
TÓPICO 2 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA ESPANHOLA

Os Estados Unidos, logo após a sua independência, começaram a influir


nas questões sociais, políticas e econômicas dos países em fase de independência.
Você já se perguntou por que os países latino-americanos até hoje possuem
uma economia essencialmente agrária? Será que sempre seremos economias
complementares das grandes economias globais? Essas são perguntas que todos
os latino-americanos deveriam fazer a si mesmos.

4 A NECESSIDADE DE CONSOLIDAR A INDEPENDÊNCIA


A consolidação das emancipações políticas coloniais americanas não
ocorreu do dia para a noite e elas tampouco foram facilmente aceitas pelas
metrópoles, em especial, a portuguesa, a espanhola e a inglesa. É preciso lembrar
que, após a Revolução Francesa, surgiu a Santa Aliança e o Congresso de Viena,
ambas com o objetivo de restaurar o absolutismo na Europa, fato que iria
despertar nas velhas dinastias o desejo de restaurar seus domínios políticos nas
antigas colônias.

Caro(a) acadêmico(a)! Você já dever ter percebido que o processo de


independência dos países que hoje compreendem a América Latina esteve
intimamente atrelado aos interesses econômicos de outras nações e, de certa
forma, deve compreender melhor o porquê dos países latino-americanos serem,
até hoje, dependentes das grandes economias globais. Você deve ter notado que
a Inglaterra esteve presente em todos os momentos decisivos de nossa história,
ora influenciando o processo de independência, ora o processo de abolição da
escravatura, mas sem perder de vista seus interesses econômicos nesses países.

UNI

Você não pode esquecer que as colônias foram, durante muito tempo, os
sustentáculos econômicos das monarquias europeias. Sem as colônias, os cofres das realezas
europeias ficariam vazios. Consegue imaginar então porque tanto desejo de retomar as
colônias.

95
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

Na verdade, a consolidação da emancipação da América Colonial contou


com o apoio e com o reconhecimento da Inglaterra e dos Estados Unidos.

Mas por que essas nações apoiaram essa emancipação?

Simples! Tanto a Inglaterra quanto os Estados Unidos desejavam ampliar


seus mercados na América. Para conseguirem isso, era preciso lutar contra as
políticas monopolistas europeias.

Para atingirem esses objetivos, a Inglaterra registrou pela Europa que


iria usar seus navios para impedir a chegada de expedições militares europeias
à América. Os Estados Unidos, consequentemente, criaram a Doutrina Monroe
para defender a América.

Os Estados Unidos e a Inglaterra foram os protetores da América? Essa


questão é para você refletir!

96
TÓPICO 2 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA ESPANHOLA

LEITURA COMPLEMENTAR

INDEPENDÊNCIA NA AMÉRICA ESPANHOLA

Érica Turci

Lutas europeias disseminaram ideal de liberdade

Quando Napoleão Bonaparte resolveu atacar a Espanha em 1808, a


maioria do povo da distante América espanhola não sabia que esse ato iria
interferir diretamente em seu destino. E não se trata de defender a teoria popular
do chamado efeito borboleta, segundo a qual o bater de asas de uma borboleta aqui
pode causar um tufão do outro lado do mundo.

Mas a verdade é que alguns acontecimentos do final do século XVIII que


repercutiam na Europa influenciaram diretamente as lutas pela independência
das colônias espanholas da América, em que pese o tempo que as informações
gastavam para se deslocar de um continente a outro.

Entre esses acontecimentos, devem ser lembrados especialmente a


Revolução Industrial na Inglaterra, a Independência das 13 Colônias Inglesas,
a Revolução Francesa, as Guerras Napoleônicas e, na América Central, a
Independência do Haiti: todos eles, a seu modo, movimentos deflagradores de
uma nova consciência social.

O contexto da luta

Os criollos eram a elite americana descendente de espanhóis, excluída dos


altos cargos dirigentes, embora constituíssem a classe dos grandes proprietários de
terras, dos arrendatários de minas, dos comerciantes e dos pecuaristas. Manifestavam
suas insatisfações desde meados do século 18 e, influenciados pelo Iluminismo,
iam forjando aos poucos um nacionalismo contrário ao domínio espanhol.

A Guerra de Independência dos Estados Unidos serviu de exemplo para os


colonos latino-americanos, pois, pela primeira vez, colônias da América lutaram
por sua independência e foram bem-sucedidas. Traduções de textos e transcrições
de discursos dos “pais da independência” dos EUA circulavam por toda a América
colonial, fomentando ainda mais a revolta dos criollos contra a coroa espanhola.

A posição da Espanha nesse conflito, a favor da independência dos colonos


ingleses, foi uma contradição inusitada, pois o apoio às ideias liberais dos colonos
da América do Norte chocava-se com a administração monopolista sustentada
nas colônias americanas.

97
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

O “imbróglio diplomático”

A Espanha, nessa época, vivia uma situação diplomática difícil. Desde


que a família Bourbon, de origem francesa, assumiu o trono espanhol em 1700,
as coroas dos dois países fizeram alianças, chamadas de Pactos de Famílias,
para garantir a concorrência de ambas diante do crescente poderio econômico
britânico. Tais alianças eram uma resposta à Inglaterra, que nessa época dava
início à Revolução Industrial, e buscava ampliar o mercado consumidor para seus
produtos.

Diante dessa situação, quando se iniciou a Guerra de


Independência dos Estados Unidos, França e Espanha viram-se obrigadas
a apoiar os colonos rebeldes, o que só fez aumentar a insatisfação
dos colonos latino-americanos, que não entendiam como a Espanha
podia, ao mesmo tempo, ser a favor e contra a liberdade colonial.

A Revolução Francesa também se tornou um marco no processo de


independência da América espanhola por vários fatores. Primeiro, por divulgar
a liberdade, a igualdade, o constitucionalismo, o republicanismo, ideais
fundamentais nos discursos dos líderes criollos. Mesmo que muitos deles vissem
no radicalismo dos jacobinos um exemplo perigoso, que poderia levar as massas
de trabalhadores - indígenas, mestiços, negros e mulatos - a lutarem também por
seus direitos.

Confirmando esse receio, quando ocorreram as guerras pela Independência


do Haiti, as elites coloniais conheceram quão poderosas eram as ideias de
liberdade e igualdade anunciadas pela Revolução Francesa, mas também o grau
de agressividade liberado numa rebelião de grupos explorados. Os criollos, que
temiam mais do que tudo as rebeliões populares, tiveram então de organizar sua
luta pela independência colonial, ao mesmo tempo em que submetiam as massas
populares, garantindo, assim, a manutenção dos seus privilégios.

Quando em 1791, o rei Luís XVI foi deposto pela Revolução


Francesa, a Espanha se uniu à Grã-Bretanha numa coalizão contra a
França, mas foi derrotada e obrigada a assinar, em 1795, o Tratado da
Basileia, abrindo caminho para uma nova aproximação entre espanhóis
e franceses, consolidada um ano depois pelo Tratado de Santo Ildefonso.

A aliança com a França foi uma catástrofe para os espanhóis. A derrota dos
franceses e seus aliados em Trafalgar, em 1805, aniquilou a marinha espanhola,
dificultando a comunicação entre a Espanha e suas colônias da América. Ao mesmo
tempo, a maciça presença de militares franceses em solo espanhol fragilizou a
coroa, a ponto de Napoleão Bonaparte forçar a abdicação do rei Carlos 4º e de seu
filho Fernando 7º, e impor seu irmão, José Bonaparte, como rei da Espanha.

98
TÓPICO 2 | O PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA ESPANHOLA

Em reação às exigências de Bonaparte e ao domínio francês, formaram-


se Juntas Governativas a favor de Fernando VII, que imediatamente
passaram a instigar os colonos hispano-americanos a fazerem o mesmo.
Essa estratégia foi eficaz, pois quando Napoleão enviou representantes
para a América, com o intuito de convencer os colonos a apoiarem
o novo governo, estes se mantiveram fiéis ao rei espanhol deposto.

Em guerra com a Inglaterra, a França não conseguia estabelecer controle


sobre a América. Percebendo isso, Napoleão mudou de estratégia, passando a
incentivar a independência hispano-americana.

1808 a 1814: as Juntas Governativas

As Juntas Governativas, formadas a partir dos cabildos (assembleias)


americanos, apesar de jurarem fidelidade a Fernando VII, na prática constituíam
governos autônomos. Em muitas colônias americanas a rivalidade entre criollos e
chapetones se ampliou, ocasionando inúmeras rebeliões. Os criollos, então, foram se
organizando aos poucos, para poderem governar os cabildos e expulsar os espanhóis
de seus territórios, ao mesmo tempo em que submetiam as rebeliões populares.

Sem a fiscalização metropolitana, o contrabando aumentou e os navios


ingleses e estadunidenses passaram a suprir os mercados coloniais. Os criollos,
conscientes de sua autonomia política e econômica, além de fortemente
inspirados pela Declaração de Independência dos Estados Unidos e pela
Declaração dos Direitos do Homem, iniciaram suas lutas pela liberdade, até que,
em 1810, a Venezuela, a Argentina, a Colômbia, o México e o Chile se declararam
independentes.

A restauração dos Bourbons e a reação americana

Em 1813, ao recuperar o trono espanhol, Fernando VII buscou restabelecer


a ordem absolutista espanhola e revogou toda e qualquer lei promulgada pelas
Juntas Governativas. Essa orientação passou a valer tanto na Espanha, com a
revogação da Constituinte Cortes de Cádis, quanto na América, e deu início a
um processo de perseguição aos liberais que restabeleceu, inclusive, a Inquisição.

Na América, a política de perseguição de Fernando VII só fez inflamar ainda


mais as revoltas, que a essa altura já aconteciam em diferentes pontos do continente.
Os colonos, entretanto, não agiam de forma conjunta, inclusive porque as
elites criollas tinham interesse em se manter senhoras de suas próprias regiões.
A imensidão do território americano, o isolamento dos povoados e suas
características geográficas distintas contribuíram para que cada colônia adotasse
estratégia diferente na guerra contra os espanhóis.

99
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

Não perdurou muito essa situação, e a partir de 1825, com o apoio da


Inglaterra e dos Estados Unidos, interessados que estavam na abertura de novos
mercados, grande parte da América já era composta por países independentes.

*Érica Turci é historiadora e professora de história formada pela USP.

FONTE: Disponível em: <http://educacao.uol.com.br/historia/independencia-america-


espanhola.jhtm>. Acesso em: 16 nov. 2010.

100
RESUMO DO TÓPICO 2
Neste tópico, você pôde:

● Perceber que o processo de independência das colônias hispano-americanas


recebeu influências externas.

● Conhecer os motivos que levaram a América espanhola a uma fragmentação


política.

● Conhecer a atuação política dos principais líderes do processo de independência


na América espanhola.

● Identificar a participação inglesa e estadunidense na consolidação da


independência das colônias espanholas.

101
AUTOATIVIDADE

Com base no Tópico 2, responda:

1 Sobre a independência das colônias espanholas marque as alternativas


corretas e some os números correspondentes:

01) Foram influenciadas pelas ideias de independência dos Estados Unidos.


02) As ideias de liberdade, igualdade e fraternidade promovidas no movimento
iluminista.
04) Foram motivadas por razões exclusivamente ligadas às elites americanas.
08) As rivalidades entre chapetones e crioulos.
16) Foram motivadas pela Independência do Brasil, proclamada em 1822.
Soma:___________

2 Cite e explique dois fatores que justificam o fracasso da ideia de Simon


Bolívar de unir a América.

3 Explique por que, para a Inglaterra, era mais vantajoso uma América
espanhola dividida do que unida.

4 Assinale a alternativa CORRETA:

a ( ) A consolidação da emancipação da América Colonial contou com o


apoio e com o reconhecimento da Inglaterra e dos Estados Unidos.
b ( ) Os Estados Unidos, logo após a sua independência, começaram a influir
nas questões sociais, políticas e econômicas dos países em fase de
independência.
c ( ) Na Colômbia, em dezembro de 1819, foi votada uma constituição que
nomeava Simon Bolívar presidente, em regime democrático, da União
dos Estados Unidos da Colômbia.

102
UNIDADE 2 TÓPICO 3

OS ESTADOS UNIDOS: “OS GUARDIÃES DA AMÉRICA”

1 INTRODUÇÃO
Inicialmente, gostaríamos de observar que quando utilizamos a expressão
“Guardiães da América” é para caracterizar a atitude dos Estados Unidos de
salvaguardar a América para os seus interesses econômicos.

Portanto, não vá pensar que o fato dos Estados Unidos defenderem a


independência política das antigas colônias americanas significava, também,
defender a autonomia econômica dessas regiões. Veremos, a seguir, o que ocorre
o contrário.

Nesse tópico, gostaríamos de apresentar a você a Doutrina Monroe e o Big


Stick, duas políticas econômicas que proporcionaram aos Estados Unidos lançar
os alicerces de uma hegemonia política, econômica e cultural que persiste até os
nossos dias.

2 A DOUTRINA MONROE
Em algum momento de sua vida escolar, você deve ter ouvido a expressão
“A América para os americanos”. Pois é, essa expressão está diretamente associada
à Doutrina Monroe.

UNI

Mas o que é essa Doutrina Monroe?

103
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

Foi uma política proclamada pelos Estados Unidos em 1823, quando este
país afirmava que não toleraria medidas recolonizadoras do Velho Mundo nas
antigas colônias.
[...] a suspeita de que a França pudesse estar pensando numa intervenção
militar na América espanhola; a certeza de que a Inglaterra se opunha a
tal intervenção; e as pretensões destas e de outras potências europeias
de decretar o destino da América espanhola – que deram origem a
determinados trechos da mensagem presidencial de dezembro de 1823
ao Congresso dos Estados Unidos, que ficou conhecida como Doutrina
Monroe. Esta enfatizou a diferença entre o sistema político europeu
e o da América e declarou que qualquer interferência europeia com
o objetivo de oprimir ou controlar os governos independentes no
hemisfério ocidental podia ser considerada a expressão de uma atitude
inamistosa para com os Estados Unidos. (BETHELL, 2004b, p. 251).

Tal atitude arrebanhou uma série de simpatizantes à Doutrina Monroe,


pois juntamente com a poderosa frota naval inglesa, os Estados Unidos passaram
a patrulhar o Atlântico. Estava assegurado o mercado consumidor americano para
as poderosas indústrias inglesas e, ao mesmo tempo, para a incipiente indústria
estadunidense.

UNI

E aí, caro(a) acadêmico(a), eles foram ou posaram de protetores?Já refletiu


sobre isso?

Porém esse posicionamento favorável às diretrizes concernentes à


Doutrina Monroe não foi unânime, pelo contrário,

As potências europeias não reagiram muito bem ao fato de serem


advertidas pelos Estados Unidos a manter as mãos longe do
continente americano. Além disso, a enunciação da Doutrina Monroe
parecia harmonizar-se, suspeitamente, com a determinação inglesa
de agir com relação à América espanhola de modo independente das
potências do continente. (BETHELL, 2004b, p. 251).

É importante registrar também que nessa época os Estados Unidos


estavam longe de ser uma potência econômica, pois sua indústria estava em fase
inicial e seu mercado consumidor era bastante reduzido.

104
TÓPICO 3 | OS ESTADOS UNIDOS: “OS GUARDIÃES DA AMÉRICA”

FIGURA 19 – MURAL DA BATALHA DA INDEPENDÊNCIA EQUATORIANA. DOUTRINA MONROE


DEFENDIA NAÇÕES INDEPENDENTES

FONTE: Disponível em: <http://www.klickeducacao.com.br/Klick_Portal/Enciclopedia/images/


Mo/12632/4453.jpg>. Acesso em: 16 nov. 2010.

Lopes (1986) descreve a Doutrina Monroe como uma grande fanfarronice


política, muito eficiente em termos de relações internacionais, ou seja, por
intermédio dessa doutrina os Estados Unidos ampliaram seus domínios políticos
e expandiram suas relações econômicas.

105
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

LEITURA COMPLEMENTAR

ESTADOS UNIDOS

A Doutrina Monroe, 1823

Em meio aos tumultos que explodiam por toda a América Latina a partir
de 1810 - ocasionados pelas insurreições nativistas que buscavam a independência
das suas regiões do domínio do império espanhol e do português -, surgiu um
documento, aprovado pelo Congresso norte-americano em 1823, que fez história
- a Doutrina Monroe. Ela tornou-se o pilar das relações dos Estados Unidos para
com o mundo daquela época e para com os seus vizinhos. Mas, com o passar do
tempo, ela serviu como pretexto para os mais variados intervencionismos norte-
americanos no continente e áreas contíguas.

Contra a Santa Aliança

Em abril de 1823, cem mil soldados - “os filhos de S. Luís” - ocuparam a


Espanha em nome da coligação legitimista dos soberanos europeus, a Santa Aliança.
O monarca espanhol Fernando VII, ameaçado por um levante liberal, tratou de
socorrer junto à aliança reacionária estabelecida em 1815 pelos imperadores da
Rússia, Prússia, Áustria e pelo rei da França, quando asseguraram que as questões
do Legitimismo (as prerrogativas das dinastias soberanas da Europa) estavam
acima dos Direitos dos Povos (princípio defendido pela Revolução Francesa
de 1789). Em outubro, Fernando VII recuperou seu trono e o poder graças às
forças enviadas do exterior em seu amparo. A euforia reacionária ensejou que a
Espanha fosse estimulada a retomar suas colônias americanas, então em franca
rebelião contra a metrópole. Foi nesse clima pesado, de ameaça da retomada de
uma política de recolonização forçada e de brutais represálias contra os líderes
crioulos do Novo Mundo que o então presidente dos Estados Unidos, James
Monroe, enviou ao Congresso americano uma mensagem que se consagrou como
a Doutrina Monroe. Claramente, ela opunha-se à coligação ultraconservadora,
engendrada pelos monarcas europeus no Congresso de Viena de 1815, e que
formava uma nuvem escura de ameaças sobre a América convulsionada, lutando
pela emancipação política.

Os princípios gerais da doutrina

Os princípios enumerados nela eram basicamente defensivos. Os Estados


Unidos se colocavam como protetores das nações latino-americanas recém-
emancipadas, repudiando qualquer intervenção armada programada pela Santa
Aliança. A mensagem era uma advertência às potências europeias no sentido
de que não tentassem reativar o domínio colonial sobre o continente, nem

106
TÓPICO 3 | OS ESTADOS UNIDOS: “OS GUARDIÃES DA AMÉRICA”

interferissem nos princípios republicanos imanentes ao processo de emancipação:


o Novo Mundo estava fechado a toda futura subordinação à Europa. Em síntese,
a teoria contida na mensagem se baseia em três princípios gerais:

a) o continente americano não pode ser objeto de recolonização;


b) é inadmissível a intervenção de qualquer país europeu nos negócios internos
ou externos de países americanos, e, finalmente;
c) os Estados Unidos, em troca, se absterão de intervir nos negócios pertinentes
aos países europeus.

O propósito norte-americano

Na mensagem ao Congresso, James Monroe foi enfático em assegurar que:

“Com a existência de colônias ou dependências outras pertencentes a


qualquer poder europeu nós não interferimos e seguiremos não interferindo.
Mas no caso de um governo que já declarou sua independência e conseguiu
sustentá-la e aqueles outros que já a conseguiram conquistar a sua independência
anteriormente, com grande consideração e dentro de justos princípios,
reconhecidos, nós não podemos aceitar nenhuma interposição com o propósito
de oprimi-lo, ou controlá-lo de qualquer outra maneira o destino deles, por
qualquer poder europeu, ou qualquer outro que assim o fizer, será visto como
uma manifestação de uma disposição hostil em relação aos Estados Unidos.

Na guerra entre estes novos Governos e a Espanha nós declaramos a nossa


neutralidade ao tempo em que ainda não atingiram o seu reconhecimento, e a
isso nós nos apegamos e continuaremos nos apegando, e não alteraremos a nossa
posição senão de acordo com o julgamento das autoridades competentes deste
Governo (dos EUA), só havendo uma mudança da parte dos Estados Unidos se
for indispensável a sua segurança.”

Uma determinação a ser seguida

A Doutrina Monroe teve um impacto histórico de longa duração, mas no


momento de sua aprovação, os Estados Unidos, em verdade, bem pouca coisa
poderiam fazer para a sua efetivação. Pouco mais de dez anos antes de sua
aprovação, na guerra anglo-americana de 1812-14, um exército britânico chegara
a ocupar e incendiar a capital do país, Washington, enquanto a esquadra inglesa
era senhora absoluta dos mares. Em 1825, uma força franco-britânica bloqueara
o Rio da Prata; em 1833, os britânicos ocuparam as Ilhas Malvinas, expulsando
os argentinos delas, e, em 1840, a Lei Britânica imperou sobre todo o território
de Belize na América Central, tudo isso sem que os Estados Unidos pudesse
fazer algo de prático para evitá-lo. Em 1862, os Estados Unidos, dilacerados pela
Guerra Civil, tiveram de assistir impotentes ao México passar momentaneamente

107
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

para a órbita de Napoleão III e seu preposto, o imperador Maximiliano. Foi


somente ao fim da Guerra da Secessão, em 1865, com a vitória do Norte seguida
de um impressionante crescimento do poderio econômico dos Estados Unidos
que a doutrina foi sendo posta em prática, mudando seu conteúdo à medida que
se concretizava. De nítida inspiração progressista, passou a ser utilizada como
justificativa intervencionista - como um disfarce para a subordinação de parte
da América Latina, especialmente da região do Caribe e da América Central aos
interesses econômicos e estratégicos de Washington.

FONTE: Disponível em: <http://educaterra.terra.com.br/voltaire/mundo/eua_monroe.htm >.


Acesso em: 16 nov. 2010.

3 O BIG STICK
Essa conduta política deve ser analisada a partir do contexto expansionista
dos Estados Unidos e da Doutrina Monroe.

Seus alicerces estão fundamentados em dois princípios básicos:

● Corolário Onley (1825): seu objetivo era afirmar que Washington não toleraria
nenhuma intervenção europeia na América, sem ser previamente consultado.

● Corolário Roosevelt (1904): iniciada na fase do presidente Roosevelt, em


seu primeiro mandato (1933), expressava claramente a política imperialista
estadunidense. Por intermédio desse princípio, os Estados Unidos tinham
o direito de intervir nos assuntos dos países latino-americanos sempre que
instabilidades internas se fizessem presentes.

Em nome da ordem interna, mas, sobretudo, em nome do capital, os


Estados Unidos irão promover, a partir da década de 30, uma política fortemente
imperialista. Suas intervenções pela América Latina serão registradas em países
como o México e Cuba.

108
TÓPICO 3 | OS ESTADOS UNIDOS: “OS GUARDIÃES DA AMÉRICA”

FIGURA 20 – ILUSTRAÇÃO ACERCA DA POLÍTICA DO BIG STICK


América não é dos americanos?
Claro que é, mas vocês são sulamericanos!

FONTE: Disponível em: <http://www.historianet.com.br/imagens/thebigsticklaw.jpg>.


Acesso em: 16 nov. 2010.

Lopes (1986, p.108) reproduz o depoimento do general Smedley D. Butler


(datado de 1935), que por muito tempo esteve a serviço do Big Stick:

Passei 33 anos e 4 meses no serviço ativo, como membro da mais ágil


força militar de meu país – o Corpo dos Fuzileiros Navais. Servi em
todos os postos, de segundo-tenente a general. Durante tal período,
passei a maior parte do meu tempo como guarda-costas de alta classe
para os homens de negócios, para Wall Street e para os banqueiros. Em
resumo, fui um quadrilheiro para o capitalismo. Foi assim que ajudei
a transformar o México, especialmente Tampico, em lugar seguro para
os interesses petrolíferos, em 1914. Ajudei a fazer de Cuba e Haiti um
lugar decente para que os rapazes do National City Bank pudessem
recolher os lucros... ajudei a purificar a Nicarágua para os interesses
de uma casa bancária dos irmãos Brown, em 1909-1912. Trouxe à luz a
República Dominicana para os interesses açucareiros norte-americanos,
em 1916. Ajudei a fazer de Honduras um lugar “adequado” para as
companhias frutíferas americanas, em 1903. Na China, ajudei a fazer
com que a Standard Oil continuasse a agir sem ser molestada. Durante
todos esses anos, eu tinha, como diriam os rapazes do gatilho, uma boa
quadrilha. Fui recompensado com honrarias, medalhas, promoções.
Voltando os olhos ao passado, acho que poderia dar a Al Capone
algumas sugestões. O melhor que ele podia fazer era operar em três
distritos urbanos. Nós, os fuzileiros, operávamos em três continentes.
Com o depoimento acima, ficam claros os verdadeiros interesses da
política do Big Stick e sua importância para a consolidação da Doutrina
Monroe.
109
RESUMO DO TÓPICO 3
No Tópico 3, você pôde:

● Identificar e refletir sobre o desejo dos Estados Unidos em desenvolver políticas


para a América Latina.

● Conhecer a Doutrina Monroe.

● Conhecer a política do Big Stick.

● Identificar alguns aspectos que levam os Estados Unidos a influírem, ainda


hoje, nas questões relativas à América Latina.

110
AUTOATIVIDADE

Com base no Tópico 3, responda e reflita:

1 O fato de os Estados Unidos defenderem a independência política das


antigas colônias americanas significava, também, defender a autonomia
econômica dessas regiões? Explique sua resposta.

2 Como você analisa a expressão “América para os americanos”?

3 O que foi a política do Big Stick? Você acha que os Estados Unidos, hoje,
fazem uso de políticas como essa? Explique.

111
112
UNIDADE 2
TÓPICO 4

GUERRA DO PARAGUAI

1 INTRODUÇÃO
Até aqui estudamos o processo de independência das colônias americanas
e o surgimento de políticas que atrelaram à América Latina aos interesses
econômicos e políticos da Inglaterra e dos Estados Unidos. Nesse tópico,
iremos estudar a Guerra do Paraguai. Pode parecer um retorno, do ponto de
vista cronológico da História, se comparada às políticas imperialistas inglesas
e estadunidenses tratadas anteriormente, mas na verdade nosso interesse será
caracterizar a guerra a partir desses interesses.

2 AS CAUSAS DA GUERRA: ANTECEDENTES HISTÓRICOS


A Guerra do Paraguai ocorreu entre os anos de 1864 e 1870 e envolveu
diretamente o Brasil, Uruguai e Argentina (Tríplice Aliança) e indiretamente
a Inglaterra. Portanto, podemos atribuir à guerra motivos internos e motivos
externos.

Vejamos os motivos internos:

● A Bacia do Rio da Prata era uma região disputada pelos governos, sobretudo
brasileiros e argentinos, porém passou também a ser disputada pelos paraguaios.
O rio, além de ser de boa navegação, permitia o intercâmbio econômico entre
esses países, fortalecendo suas economias.

113
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

FIGURA 21 – BACIA DO RIO DA PRATA

FONTE: Disponível em: <http://www.scipione.com.br/ap/ggb/img/atividades/imagens/2_5_


M28_i.jpg>. Acesso em: 16 nov. 2010.

E
IMPORTANT

Caro(a) acadêmico(a)! Chegou a hora de entrar em contato com a maior guerra


travada em toda a América Latina. Portanto, fique atento(a), aqui você terá condições de
compreender o Paraguai de hoje a partir do Paraguai de ontem.

114
TÓPICO 4 | GUERRA DO PARAGUAI

● Outro fato que acirrou a guerra foi a pilhagem promovida por proprietários
rurais uruguaios em fazendas e estâncias na fronteira gaúcha, situação
que levou o Brasil a invadir o Uruguai em 1851 para derrubar o governo
de Manuel Oribe e, em 1852, invadir o território argentino para destituir o
ditador Manuel Rosas.

FIGURA 22 – RETRATO DE MANUEL ORIBE

FONTE: Disponível em: < http://www.portaluruguaycultural.gub.uy/wp-content/


uploads/2009/12/Untitled-22.jpg >. Acesso em: 16 nov. 2010.

FIGURA 23 – JUAN MANUEL DE ROSAS

FONTE: Disponível em: < http://www.historiabrasileira.com/files/2009/12/Juan-Manuel-de-


Rosas-217x300.jpg >. Acesso em: 16 nov. 2010.

115
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

Em 1862, morreu Carlos Antonio Lopez, e seu filho mais velho,


Francisco Solano Lopez, ascendeu à presidência da República. A
política isolacionista paraguaia até 1840, sob o governo de José Gaspar
de Francia, contribuíra para manter a independência do país em relação
a Buenos Aires e permitira ao Estado acumular riquezas na forma de
produtos agrícolas e terras. Carlos Antonio López, por sua vez, colocou
o aparelho estatal a serviço da nascente burguesia rural e restabeleceu
os contatos de seu país com o exterior, importando da Europa, em
especial da Inglaterra, maquinaria e técnicos, que promoveriam
uma modernização voltada, sobretudo para o fortalecimento militar
do Paraguai. A continuidade dessa modernização, porém, exigia a
integração do país no comércio mundial e resultou na alteração da
política externa paraguaia já sob a presidência de Solano López, no
sentido de ter uma maior presença no Prata, de modo a obter um porto
marítimo, o de Montevidéu. (DORATIOTO, 2002, p. 473).

FIGURA 24 – CARLOS ANTONIO LOPEZ

FONTE: Disponível em: <http://www.evp.edu.py/images/28-ar-38.png>.


Acesso em: 16 nov. 2010.

Em 1864, o governo brasileiro volta a invadir o Uruguai, nesse momento


comandado por Atanásio Aguirre.

O comandante do governo paraguaio, Francisco Solano López, passou


a apoiar Aguirre e a reivindicar os mesmos direitos dos países vizinhos na
Bacia do Rio da Prata, fato que descontentou o governo brasileiro, que queria
a hegemonia da região. O conflito se acirrou quando Solano Lopez, em 1864,
mandou apreender o navio brasileiro Marquês de Olinda, que transitava pelo
rio Paraguai. Em dezembro do mesmo ano, declara guerra ao Brasil e invade a
província do Mato Grosso.

116
TÓPICO 4 | GUERRA DO PARAGUAI

FIGURA 25 – FRANCISCO SOLANO LÓPEZ

FONTE: Almanaque Abril, 2002

“Envolvido por uma guerra inesperada, o Império do Brasil foi


surpreendido com o Exército despreparado a ponto de, seis meses depois de
iniciada a luta, não ter conseguido tomar a ofensiva. Mato Grosso era a província
mais isolada e indefesa do Brasil e tornou-se alvo fácil para a invasão paraguaia”.
(DORATIOTO, 2002, p. 97).

Solano Lopes desejava expandir o território paraguaio, afinal vivia um


momento de prosperidade econômica, o que exigia a expansão de seu mercado
consumidor. Essa expansão implicava a invasão de terras do Uruguai, Argentina
e Brasil, daí o porquê da formação da Tríplice Aliança. Em outras palavras, a
confortável situação econômica paraguaia foi também a razão da sua desgraça.

Os ataques paraguaios a Mato Grosso e Corrientes viabilizaram a


formação da aliança argentino-brasileira, à qual aderiu o Uruguai
governado por Venâncio Flores. A aliança contra o Paraguai era parte
de uma aliança maior, planejada por Mitre antes desses ataques, pela
qual Argentina e Brasil estabeleceriam uma política de cooperação no
Prata, exercendo uma hegemonia compartilhada em substituição às
rivalidades e disputas que predominaram nas relações entre os dois
países. Em 1 de maio de 1865, foi assinado, em Buenos Aires, o Tratado
da Tríplice Aliança, contra Solano López, que estabelecia as condições
da paz e também deveria servir de base para ‘que façamos [Argentina
e Brasil] uma aliança perpétua, baseada na justiça e na razão, que será
abençoada por nossos filhos. (DORATIOTO, 2002, p. 157).

117
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

UNI

Mas você deve estar se perguntando: onde entra o Paraguai nessa história?

Quando ouvimos falar no Paraguai, de que nos lembramos? Geralmente,


lembramos do Paraguai como sendo um país com grandes problemas sociais
(miséria e fome). Mas o Paraguai nem sempre foi assim.

FIGURA 26 – CASA DO PRESIDENTE DO PARAGUAI SOLANO LÓPEZ EM HUMAITÁ

FONTE: Almanaque Abril, 2002

Vejamos algumas características que faziam do Paraguai um país bem


diferente dos seus vizinhos:

● Em 1823, realizou o primeiro esboço de Reforma Agrária, quando muitas


famílias foram autorizadas a utilizarem as terras do Estado.

● Quase todas as crianças iam à escola, onde as melhores iam estudar, por conta
do governo paraguaio, em escolas europeias. Muitos voltavam engenheiros,
químicos, professores etc.

● Era o único país da América Latina que não se encontrava sob a égide do capital
inglês, isto é, não tinha dívidas com a Inglaterra.

● Estava em franca expansão industrial, portanto, não era um país calcado numa
economia essencialmente agrícola, diferente de seus vizinhos. A escravidão e o
latifúndio não faziam parte do cenário socioeconômico do Paraguai.

118
TÓPICO 4 | GUERRA DO PARAGUAI

Essa característica, além de ameaçar o mercado consumidor inglês na


América, ameaçava também os interesses econômicos de uma elite que vivia
atrelada à escravidão e ao latifúndio.

UNI

Caro(a) acadêmico(a)! Você consegue imaginar por que o Paraguai não era bem
visto pelos seus vizinhos e pela Inglaterra?

2.1 O PARAGUAI DEPOIS DA GUERRA


A guerra foi um verdadeiro genocídio. Um número expressivo de adultos
foram mortos, pois as tropas da Tríplice Aliança não faziam prisioneiros, a ordem
era matar todos os paraguaios. Cabe registrar, aqui, que o Patrono do Exército
brasileiro – Duque de Caxias – foi quem comandou as tropas da Tríplice Aliança.

FIGURA 27 – DUQUE DE CAXIAS

FONTE: Disponível em: <http://www.portalsaofrancisco.com.br/alfa/guerra-do-paraguai/


imagens/guerra-do-paraguai-3.jpg >. Acesso em: 16 nov. 2010.

119
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

Como ficou o Paraguai? Arrasado!

Vejamos algumas características do Paraguai pós-guerra:

● Cerca de 40% do seu território foi dominado pela Argentina e pelo Brasil.

● A política fundiária retornou aos tempos do latifúndio.

● O Paraguai teve que pagar uma grande dívida de guerra, que no caso do Brasil
foi perdoada no Estado Novo de Getúlio Vargas.

● O Paraguai passou a contrair dívidas com bancos ingleses.

Enfim, não exageramos quando falamos que a difícil situação do Paraguai


hoje é uma herança desse período.

120
TÓPICO 4 | GUERRA DO PARAGUAI

LEITURA COMPLEMENTAR

GUERRA DO PARAGUAI

Tríplice Aliança entre Argentina, Brasil e Uruguai

Renato Cancian

Durante o período monárquico, o Brasil se envolveu em três conflitos


internacionais com países fronteiriços situados ao sul, na região Platina. A Guerra
do Paraguai, porém, foi o mais longo e violento. Começou em 1864 e terminou em
1870, com a derrota do Paraguai para os países que formaram a chamada Tríplice
Aliança: o Brasil, a Argentina e o Uruguai.

A principal causa da guerra está relacionada às tentativas do governo do


ditador paraguaio, Francisco Solano López, de colocar em prática uma política
expansionista, com o objetivo de ampliar o território do seu país, apossando-se de
terras dos países vizinhos e ter acesso ao mar pelo porto de Montevidéu.

Solano López pretendia formar o Grande Paraguai, a partir da invasão e


anexação do Uruguai, de partes do território argentino e das províncias brasileiras
do Rio Grande do Sul e Mato Grosso. Não obstante, uma vez iniciado o conflito
armado, os países que formaram a Tríplice Aliança procuraram defender seus
respectivos interesses e se impor como potências regionais.

O Grande Paraguai

Estudos historiográficos contemporâneos têm contribuído para melhor


compreensão do conflito armado, de modo a refutar algumas hipóteses e teses
acadêmicas e desmistificar as versões oficiais construídas pelos Estados soberanos
envolvidos. Na verdade, todos os Estados envolvidos tinham informações parciais
e até mesmo falsas sobre a capacidade e força militar do inimigo e avaliaram
equivocadamente que o conflito armado seria um método rápido e, de certo
modo, pouco custoso para solução do litígio regional.

O Paraguai, país que saiu derrotado do conflito, não tinha condições


sociais, econômicas e militares para sustentar uma guerra de longa duração
contra os países platinos. Portanto, podemos afirmar que foi um erro estratégico
da elite política paraguaia partir para a solução armada.

Dados referentes à situação social do Paraguai indicam que a sociedade


paraguaia era mais tradicional e rural do que urbana e moderna, era arcaica e
extremamente desigual, com altos índices de analfabetismo.

121
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

A população paraguaia era composta de cerca de 650 mil habitantes, no


máximo (sendo que cerca de 25 mil eram escravos), a do Brasil era de cerca de
9.100.000 habitantes, a da Argentina, cerca de 1.737.000 habitantes, e a do Uruguai,
perto de 250.000 habitantes.

A economia do Paraguai era extremamente fraca, o país importava


a maioria dos produtos manufaturados de que necessitava. Comparando as
estatísticas referentes ao comércio exterior dos países da Região Platina (um
importante indicador do dinamismo da economia), o comércio exterior do Paraguai
chegava a 560.392 libras esterlinas (moeda britânica da época) e os indicadores
da arrecadação de impostos, cuja estrutura era considerada deficiente, apontam
para a cifra de 314.420 libras esterlinas.

A título de comparação: no Brasil, a arrecadação de impostos atingia


4.392.226 libras esterlinas; na Argentina, cerca de 1.710.324 libras esterlinas; e no
Uruguai, 870.714 libras esterlinas.

Em termos militares, o Paraguai não possuía grande efetivo militar, nem


mesmo organização militar moderna. Os soldados eram mal preparados, os
armamentos eram arcaicos. A estrutura logística do exército era extremamente
deficiente, pois carecia de atendimento hospitalar e adequado fornecimento de
provisões, alimentos e munições.

O estopim do conflito

Desde sua independência, os governantes paraguaios afastaram o país


dos conflitos armados na região Platina. A política isolacionista paraguaia, porém,
chegou ao fim com o governo do ditador Francisco Solano López.

Em 1864, o Brasil estava envolvido num conflito armado com o Uruguai.


Havia organizado tropas, invadido e deposto o governo uruguaio do ditador
Aguirre, que era líder do Partido Blanco e aliado de Solano López. O ditador
paraguaio se opôs à invasão brasileira do Uruguai, porque contrariava seus
interesses.

Como retaliação, o governo paraguaio aprisionou no porto de Assunção


o navio brasileiro Marquês de Olinda e, em seguida, atacou Dourados, na então
província de Mato Grosso. Foi o estopim da guerra. Em maio de 1865, o Paraguai
também fez várias incursões armadas em território argentino, com objetivo de
conquistar o Rio Grande do Sul. Contra as pretensões do governo paraguaio, o
Brasil, a Argentina e o Uruguai reagiram, firmando o acordo militar chamado de
Tríplice Aliança.

122
TÓPICO 4 | GUERRA DO PARAGUAI

As batalhas da Guerra do Paraguai

A guerra do Paraguai durou seis anos, período durante o qual se travaram


várias batalhas. As forças militares brasileiras, chefiadas pelo almirante Barroso,
venceram a batalha do Riachuelo, libertando o Rio Grande do Sul. Em maio de
1866, ocorreu a batalha de Tuiuti, que deixou um saldo de 10 mil mortos, com
nova vitória das tropas brasileiras.

Em setembro, porém, os paraguaios derrotam as tropas brasileiras


na batalha de Curupaiti. Desentendimentos entre os comandantes militares
argentinos e brasileiros levaram o imperador Dom Pedro II a nomear Luís Alves
de Lima e Silva, o Duque de Caxias, para o comando geral das tropas brasileiras.
Ainda assim, em 1867, a Argentina e o Uruguai se retiram da guerra. Ao lado de
Caxias, outro militar brasileiro que se destacou na campanha do Paraguai foi o
general Manuel Luís Osório.

Sob o comando supremo de Caxias, o exército brasileiro foi reorganizado,


inclusive com a obtenção de armamentos e suprimentos, o que aumentou
a eficiência das operações militares. Fortalecido e sob inteiro comando de
Caxias, as tropas brasileiras venceram sucessivas batalhas, decisivas para a
derrota do Paraguai. Destacam-se as de Humaitá, Itororó, Avaí, Angostura e
Lomas Valentinas.

Vitória brasileira

No início de 1869, o exército brasileiro tomou Assunção, capital do Paraguai.


A guerra chegou ao fim em março 1870, com a Campanha das Cordilheiras. Foi
travada a batalha de Cerro Corá, ocasião em que o ditador Solano López foi
perseguido e morto.

Vale lembrar que, a essa altura, Caxias considerava a continuidade da


ofensiva brasileira uma carnificina e demitiu-se do comando do exército, que
passou ao conde d’Eu, marido da princesa Isabel. A ele coube conduzir as últimas
operações.

Consequências da guerra

Para o Paraguai, a derrota na guerra foi desastrosa. O conflito havia


levado à morte cerca de 80% da população do país, na sua maioria homens. A
indústria nascente foi arrasada e, com isso, o país voltou a dedicar-se quase que
exclusivamente à produção agrícola.

123
UNIDADE 2 | DO PROCESSO DE INDEPENDÊNCIA DA AMÉRICA COLONIAL À GUERRA DO PARAGUAI

A guerra também gerou um custoso endividamento do Paraguai com o


Brasil. Essa dívida foi perdoada por Getúlio Vargas. Mas os encargos da guerra e
as necessidades de recursos financeiros levaram o país à dependência de capitais
estrangeiros.

A Guerra do Paraguai também afetou o Brasil. Economicamente, o conflito


gerou muitos encargos e dívidas que só puderam ser sanados com empréstimos
estrangeiros, o que fez aumentar nossa dependência em relação às grandes
potências da época (principalmente a Inglaterra) e a dívida externa. Não obstante,
o conflito armado provocou a modernização e o fortalecimento institucional do
Exército brasileiro.

Com a maioria de seus oficiais comandantes provenientes da classe média


urbana, e seus soldados recrutados entre a população pobre e os escravos, o exército
brasileiro tornou-se uma força política importante, apoiando os movimentos
republicanos e abolicionistas que levaram ao fim do regime monárquico no Brasil.

Observação - O estudo historiográfico mais recente e abalizado sobre a


Guerra do Paraguai é “Maldita Guerra”, de Francisco Doratioto (Companhia das
Letras, São Paulo, 2002). A obra “O Genocídio Americano”, de Júlio Chiavenatto,
que marcou época nos estudos sobre a questão, atualmente é considerada
ideológica e ultrapassada, em especial porque se fundamenta numa interpretação
que não se comprova com os fatos. Por exemplo, Chiavenatto afirma que o Brasil
agiu como defensor dos interesses imperialistas ingleses no continente. Na época
do início da guerra, o Brasil estava com relações diplomáticas rompidas com a
Inglaterra, em função da Questão Christie.

Renato Cancian é cientista social, mestre em sociologia-política e


doutorando em Ciências Sociais, é autor do livro “Comissão Justiça e Paz de São
Paulo: Gênese e Atuação Política - 1972-1985” (Edufscar).

FONTE: Disponível em: <http://educacao.uol.com.br/historia-brasil/ult1689u43.jhtm>.


Acesso em: 16 nov. 2010.

124
RESUMO DO TÓPICO 4
No Tópico 4, você pôde:

● Identificar as razões que levaram à Guerra do Paraguai.

● Perceber que o Paraguai era uma grande potência no século XIX, e que
representava uma ameaça aos interesses imperialistas dos Estados Unidos e
da Inglaterra.

● Conhecer a estrutura social e econômica do Paraguai antes da guerra.

● Identificar os problemas vividos pelo Paraguai no período imediatamente


posterior à guerra.

● Refletir sobre a situação do Paraguai hoje a partir da guerra.

125
AUTOATIVIDADE

Com base no Tópico 4, responda:

1 Quais são as causas fundamentais da Guerra do Paraguai?

2 Explique por que o Paraguai não era um bom exemplo para seus países
vizinhos.

3 É correto afirmar que o Paraguai representava uma ameaça aos interesses


ingleses na América Latina? Explique sua resposta.

126
UNIDADE 3

A AMÉRICA NO SÉCULO XX

OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM

A partir desta unidade, você será capaz de:

• refletir sobre o governo de Perón e, consequentemente, compreender o


porquê de sua popularidade até os dias de hoje;

• compreender as razões que levaram Cuba à Revolução Socialista de 1959;

• perceber que a Revolução Cubana passou a ser uma ameaça ao Bloco


Capitalista na América durante os anos de Guerra Fria;

• identificar e refletir sobre as razões que levaram alguns países latino-ame-


ricanos a viverem o terror das ditaduras militares;

• analisar as razões que motivaram o surgimento de blocos econômicos na


América e, a partir disso, refletir sobre sua real importância para o fortale-
cimento econômico da América Latina.

PLANO DE ESTUDOS
A presente unidade de ensino está dividida em quatro tópicos. Em cada um
deles, você encontrará atividades que contribuirão para a apropriação dos
conteúdos.

TÓPICO 1 – A ARGENTINA E O PERONISMO

TÓPICO 2 – A REVOLUÇÃO CUBANA

TÓPICO 3 – AS DITADURAS DA AMÉRICA LATINA

TÓPICO 4 – OS BLOCOS ECONÔMICOS AMERICANOS

127
128
UNIDADE 3
TÓPICO 1

A ARGENTINA E O PERONISMO

1 INTRODUÇÃO
Embora nosso objetivo aqui seja o de mostrar a Argentina nos tempos do
peronismo, acreditamos que não seria correto deixar de levar até você, caro(a)
acadêmico(a), uma breve comparação, em nível econômico e político, entre Juan
Domingo Perón e Getúlio Vargas, dois estadistas que influenciaram e influenciam
até hoje a história da América Latina.

Inicialmente, descreveremos um pouco sobre a situação econômica dos


dois países, na tentativa de justificar o surgimento político de Juan Perón e Getúlio
Vargas. Posteriormente, iremos caracterizar um período que ficou conhecido na
história da Argentina como “Década Infame”.

Por fim, iremos nos deter exclusivamente à vida política de Juan Perón,
descrevendo o período que compreende o seu primeiro mandato até a sua queda.

Vamos lá?

2 ARGENTINA E BRASIL: UMA BREVE COMPARAÇÃO


Historicamente, Brasil e a Argentina apresentam uma economia na qual
a exportação de produtos agrícolas representa uma parcela considerável na
economia desses países. Essa característica não diverge muito da função atribuída
a eles ao longo do período colonial.

Nas primeiras três décadas do século XX, o cenário econômico era


basicamente o mesmo, porém ambos os países começavam a mostrar sinais de
desenvolvimento industrial. Os investimentos provinham de recursos de gêneros
agrícolas de exportação.

No caso da Argentina, os produtos mais exportados eram trigo, carne


e couro. Por outro lado, no Brasil, os recursos investidos no setor industrial
provinham do excedente de capital da produção de café, principal produto de
exportação.

129
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

A crise de 1929, nos Estados Unidos, e a consequente quebra da Bolsa


de valores de Nova York, afetaram a economia em âmbito mundial, inclusive
as mais frágeis, como era o caso das economias latino-americanas. Uma grande
quantidade de pequenas fábricas e agricultores dependentes do mercado externo,
sobretudo dos Estados Unidos, entrou em falência. O Brasil e a Argentina não
foram exceções.

Acredita-se, que a economia argentina sentiu menos os efeitos da crise do


que a economia brasileira.

Mesmo frente às dificuldades do mercado internacional, tanto o Brasil


quanto a Argentina já contavam com um contingente operariado bastante
expressivo.

O primeiro surto industrial do século XX ocorreu no período


correspondente à Primeira Guerra Mundial. Em decorrência da impossibilidade
de países europeus envolvidos direta ou indiretamente no conflito, fornecerem
seus produtos industrializados, agora seus antigos consumidores, viram-se
obrigados a fomentar a produção daquelas mercadorias.

Portanto, esse fato contribuiu inclusive para o processo de industrialização


de países como o Brasil e Argentina, constituindo-se de uma camada operária
significativa.

A Argentina exportava trigo e artigos pecuários, cuja necessidade


assegurava a receptividade no mercado, diferentemente do café, produzido no
Brasil cujo consumo não era prioritário.

Por outro lado, o trigo é uma cultura anual e a pecuária, embora não
tendo ciclo tão rápido como o trigo, igualmente não é uma cultura
perene. Em resumo, nos momentos de retração do mercado externo,
a Argentina sempre teve a vantagem de poder, mais facilmente que o
Brasil, planificar a oferta de seus produtos exportáveis. (LOPES, 1986,
p. 144).

O Brasil, ao contrário, possuía uma economia exportadora, baseada


exclusivamente no café.

NOTA

Pense bem! Em tempos de crise, se você tivesse que optar entre o café, o trigo
e a carne, qual produto que você deixaria de consumir?

130
TÓPICO 1 | A ARGENTINA E O PERONISMO

NOTA

Vale destacar que o operariado argentino era mais politizado que o operariado
brasileiro.

Para Lopes (1986), isso se deve ao fato de os imigrantes que foram para a
Argentina possuírem origem urbana, ao contrário das populações de imigrantes
que vieram para o Brasil, que em sua maioria eram oriundos de regiões agrícolas.

Durante os anos de 1910 e 1920, o operariado argentino, organizado em


sindicatos e partidos políticos, obteve grandes avanços trabalhistas, como redução
nas jornadas de trabalho, melhores condições nas fábricas, salário mínimo e
direito de se organizarem em sindicatos.

Cabe registrar que grande parte das conquistas sociais do operariado


argentino foi resultado de um esforço do próprio Estado, preocupado em
investir na classe operária. Infelizmente, o rápido avanço nas questões sociais
iria retroceder rapidamente nos anos 30, na chamada “Década Infame”, fato que
contribuirá para a ascensão do peronismo. Mas, isso é assunto para mais adiante.

No Brasil, pelo fato da indústria ser ainda muito incipiente, não apresentava
um operariado muito expressivo e tampouco organizado em sindicatos ou
associações.

Durante as primeiras três décadas do século XX, o Brasil ainda era uma
República de Coronéis e as leis que regulamentavam o trabalho nas fábricas ainda
estavam longe de serem implementadas.

Com a Revolução de 30 e a ascensão de Vargas ao poder, o processo de


industrialização avançou e as regulamentações das leis do trabalho tornaram-se
prioridades no governo.

Não vá pensar que o operariado brasileiro era totalmente desprovido


de sentimento político. Afinal, as ideias marxistas também já eram conhecidas e
praticadas por alguns segmentos sociais no Brasil.

Enfim, Juan Perón e Getúlio Vargas surgiram no cenário político num


momento histórico em que tanto a Argentina quanto o Brasil estavam deixando
para trás a tradicional e arcaica economia agrícola exportadora, para se lançarem
no processo de modernização de suas economias, ou seja, se lançarem rumo à
industrialização.

131
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

Em outras palavras, o momento era propício para o surgimento


de governantes que rompessem com as velhas oligarquias, em nome da
modernização.

DICAS

Caro(a) acadêmico(a)! Para você compreender melhor a queda das oligarquias,


em especial no Brasil, sugiro como leitura complementar o clássico “A Revolução de 1930”,
de Boris Fausto. São Paulo: Brasiliense, 1970.

3 A ASCENSÃO DO PERONISMO
Nossa preocupação até aqui foi mostrar rapidamente o cenário que
contribuiu para o surgimento de Perón e Vargas. Agora trataremos exclusivamente
do período da história política de Perón, de sua ascensão à sua queda.

FIGURA 28 – PERÓN

FONTE: Disponível em: <http://blogs.estadao.com.br/ariel-palacios/files/2010/02/


blogperonbrazos.jpg>. Acesso em: 19 nov. 2010.

Vamos começar pela já mencionada “Década Infame”.

132
TÓPICO 1 | A ARGENTINA E O PERONISMO

3.1 A DÉCADA INFAME


Infame significa algo desonroso, vil ou desprezível. É assim mesmo que
podemos classificar a década de 30 do século XX na Argentina: um período de
total retrocesso, tanto nas questões políticas como nas conquistas sociais. Fique
atento(a) ao que vem por aí, caro(a) acadêmico(a). Você terá a sensação de que a
Argentina estará voltando aos tempos coloniais.

Após Irigóyen, presidente argentino que contribuiu para o progresso das


conquistas sociais, a Argentina passou a ser governada por políticos preocupados
em eliminar as conquistas sociais e torná-lo um país dependente do mercado
externo.

Já no início dos anos 30, a Argentina assinou um pacto com a Inglaterra


denominado de Roca-Runcíman. Por esse pacto, assinado no governo de Uriburu,
os britânicos obtiveram grandes vantagens em terreno argentino, sobretudo no
setor de transporte de tarifas aduaneiras. O único compromisso assumido pela
Inglaterra foi a importação da carne, claro que respeitando suas demandas no
mercado interno.

Mais lamentável ainda foram as medidas retrógradas adotadas por


Uriburu, que acabou com o salário mínimo e ainda desmobilizou o movimento
operário, ordenando o fechamento dos sindicatos. Enfim, a Argentina, ao contrário
de seus vizinhos, vivia um retrocesso político bastante acentuado.

Através dessas medidas, o país tornava-se lenta e progressivamente


dependente dos governos ingleses, fato que descontentava diversos segmentos
nacionalistas na Argentina.

Diante dessa infame situação, os militares da ala mais nacionalista,


pertencentes ao GOU (Grupo de Oficiais Unidos), assumiram o poder em
1943. O compromisso dos militares era devolver a moralização, desenvolver a
modernização e restaurar a democracia no país.

É nesse cenário que aparece para o povo um jovem oficial do GOU


chamado Juan Domingo Perón, no momento Secretário do Trabalho.

De posse da Secretaria do Trabalho, Perón tratou de devolver as antigas


conquistas sociais. Devolveu as leis trabalhistas conquistadas antes do governo
infame de Uriburu e aumentou salários.

133
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

FIGURA 29 – JOSE FELIX URIBURU

FONTE: Disponível em: <http://todo-argentina.net/biografias/Personajes/imagenes/uriburu.jpg>.


Acesso em: 19 nov. 2010.

A partir daí, seu carisma junto às massas aumentou expressivamente, fato


que desagradou à junta militar que governava a Argentina. Perón foi destituído
e preso em 1945. O operariado mobilizado por Evita Perón organizou uma
manifestação em frente à Casa Rosada e Perón acabou solto.

Seu carisma crescia a cada dia e a consequência dessa popularidade não


poderia ser outra. Perón foi eleito presidente em 1946. Começaria o seu primeiro
mandato. Mas isso é o que veremos a seguir.

3.2 OS DOIS MANDATOS DE PERÓN


Veja a seguir, como foram os dois mandatos de Perón.

ATENCAO

Até aqui você já deve ter percebido uma grande semelhança entre os objetivos
políticos de Perón e de certa forma deve lembrar-se de Getúlio Vargas. Por isso, fizemos
questão de registrar, no início desse tópico, a semelhança social, econômica e política de
dois países em transformação. A partir de agora, nossa intenção é a de descrever como se
sucederam os dois mandatos exercidos por Perón.

134
TÓPICO 1 | A ARGENTINA E O PERONISMO

O primeiro mandato (1946-1950) pode ser caracterizado como um período


em que a Argentina vivia uma tranquilidade econômica bastante expressiva. O país
possuía divisas acumuladas e as exportações de gêneros agrícolas encontravam
farto mercado consumidor.

As conquistas sociais foram mantidas e ainda ampliadas, o que garantia a


solidez e a legitimidade de seu governo.

UNI

Caro(a) acadêmico(a)! Você lembra o que marcou o século XX, no final da


década de 30 até meados da de 40?

Pois bem, o mundo vivia a Segunda Grande Guerra (1939-1945) e a Europa,


durante o conflito, ficou economicamente destruída e, portanto, necessitava
importar produtos de primeira necessidade de outras regiões do mundo. Foi aí
que a Argentina e outros países entraram. Perón, aproveitando-se da situação,
taxou as exportações, o que lhe permitiu acumular recursos para investir nas
obras de infraestrutura, necessárias para o desenvolvimento do Parque Industrial
Argentino.

Está explicado por que a economia Argentina ia bem? Cabe registrar que
as exportações brasileiras de gêneros primários também cresceram nesse período
(o Brasil vivia o Estado Novo de Vargas – o processo de industrialização estava a
todo vapor).

No seu segundo mandato (1951-1955), Perón não teve um governo


tranquilo e de grandes realizações.

Lopes (1986) associou o desgaste político de Perón aos seguintes fatores:

● o descontentamento dos latifundiários com a taxação das exportações;

● a imposição do clero e do imperialismo, inseguros diante da retórica socialista


do regime;

● a excessiva ingerência dos sindicatos nas instâncias do poder. E o Exército


devidamente imbuído do anticomunismo ideológico em tempos de Guerra Fria.

135
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

Juan Domingo Perón desafiou os interesses da oligarquia de terras da


Argentina, quando impôs o estatuto do peão e o cumprimento do salário-mínimo
rural. Em 1914, a Sociedade Rural afirmava:

Na fixação dos salários é primordial determinar o padrão de vida do


peão comum. São, às vezes, tão limitadas suas necessidades materiais que
um resíduo tem destinos socialmente pouco interessantes”. A Sociedade
Rural continua falando dos peões como se fossem animais, e a profunda
meditação a propósito das curtas necessidades de consumo dos trabalhadores
oferece, involuntariamente, uma boa chave para compreender as limitações
do desenvolvimento industrial argentino: o mercado interno não se estende
nem se aprofunda na medida suficiente. A política de desenvolvimento
econômico que impulsionou o próprio Perón não rompeu nunca a estrutura
de subdesenvolvimento agropecuário. Em junho de 1952, num discurso que
pronunciou do Teatro Colón, Perón desmentiu que tivesse o propósito de
realizar uma reforma agrária, e a Sociedade Rural comentou oficialmente: “Foi
uma boa dissertação”. (GALEANO, 1990, p. 92).

FONTE: Disponível em: <http://copyfight.noblogs.org/gallery/5220/Veias_Abertas_da_


Am%C3%83%C2%A9rica_Latina(EduardoGaleano).pdf>.Acesso em: 14 fev. 2011.

Lembra a Guerra Fria, mencionada anteriormente?

Enfim, a tentativa de levar adiante suas ideias nacionalistas levou Perón


a entrar em conflito político com os setores mais conservadores da sociedade
argentina, fato que culminou num golpe militar (1955) que derrubaria o peronismo
do poder. Ao contrário de Vargas, que preferiu “deixar a vida e entrar para a
história”, Perón preferiu deixar a Argentina e refugiar-se no Paraguai.

Cabe registrar que, mesmo afastado do poder, as ideias peronistas


permaneceram muito vivas naquele momento histórico, em especial.

4 A ARGENTINA LOGO APÓS PERÓN


Após Perón, a Argentina passou a ser governada, interinamente, pelo
general Aramburu, que não mediu esforços para afastar definitivamente as ideias
peronistas do país. Claro que não conseguiu!

Arturo Frondizi foi o presidente eleito logo após a queda de Perón. Sua
política desagradou profundamente os nacionalistas, pois abriu a Argentina
para o capital estrangeiro. Se comparado ao Brasil, pode-se dizer que adotou
uma política muito semelhante à do seu conterrâneo Juscelino Kubitschek, isto
é, permitiu a ampla instalação de empresas estrangeiras na Argentina, sobretudo
empresas especializadas na exploração de petróleo.

136
TÓPICO 1 | A ARGENTINA E O PERONISMO

FIGURA 30 – ARTURO FRONDIZI

FONTE: Disponível em: <http://www.kalipedia.com/kalipediamedia/historia/media/200806/11/


hisargentina/20080611klphishar_25_Ies_SCO.jpg>. Acesso em: 19 nov. 2010.

Segundo Eduardo Galeano (1990, p. 115):

Arturo Frondizi desendaceou várias e agudas crises militares, nas três


armas, ao anunciar o chamado de licitação que oferecia todo o subsolo
do país às empresas interessadas em extrair petróleo: em agosto de
1959 a licitação foi declarada extinta. Ressuscitou em seguida e em
outubro de 1960 ficou sem efeito. Frondizi realizou várias concessões
em benefício das empresas norte-americanas do cartel, e os interesses
britânicos - decisivos na Marinha e no setor “colorado” do exército -
não foram alheios a sua queda em março de 1962. Arturo Illia anulou
as concessões e foi derrubado em 1966; no ano seguinte, Juan Carlos
Onganía promulgou a lei dos hidrocarbonetos, favorecendo os
interesses norte-americanos.

Na verdade, Frondizi foi na contramão da política peronista, pois enquanto


Perón preocupou-se em fortalecer a economia interna e diminuir a dependência
externa, Frondizi foi logo abrindo as portas da Argentina para o grande capital
estrangeiro.

Para atrair os investimentos estrangeiros, Frondizi foi obrigado a “achatar”


os salários dos trabalhadores, fato que desagradou as organizações sindicais e
contribuiu para a votação maciça em candidatos peronistas nas eleições de esferas
municipais e estaduais.

Por ironia do destino, Frondizi, assim como havia ocorrido com Perón, foi
derrubado com um golpe militar em 1963.

137
RESUMO DO TÓPICO 1

No Tópico 1, você pôde:

● Compreender e comparar o quadro econômico e social da Argentina e do


Brasil nas primeiras décadas do século XX.

● Conhecer como se deu a ascensão política de Juan Perón.

● Perceber que Juan Perón tinha projetos nacionalistas para a Argentina e que
procurou diminuir a influência do capital estrangeiro no país.

● Perceber que Juan Perón e Getúlio Vargas eram muito próximos politicamente,
pois possuíam sentimentos nacionalistas.

● Conhecer algumas ações que marcaram a ação política de Perón, tanto no


tempo em que foi Secretário do Trabalho quanto no seu primeiro mandato
presidencial.

● Identificar os fatores que geraram a queda de Perón por meio de um golpe


militar.

● Perceber que a Argentina após Perón tomou rumos políticos e econômicos que
contrariavam a época do peronismo.

138
AUTOATIVIDADE

Com base neste tópico, responda:

1 Nos anos de 1910 e 1920, o operariado argentino vivia uma situação


relativamente confortável em termos de conquistas sociais, fato que mudaria
nos anos de 1930. Explique essa afirmativa.

2 Relacione a “Década Infame” com a ascensão política de Juan Perón no


cenário político argentino.

3 Perón e Vargas foram duas personalidades políticas reconhecidas em toda


a América Latina e grande parte do mundo. Caro(a) acadêmico(a)! Convido
você a aprofundar a leitura no sentido de conhecer as principais ações
políticas de Perón e Vargas. Depois, desafio você a escrever um pequeno
texto apresentando ações políticas comuns em seus governos.

139
140
UNIDADE 3
TÓPICO 2

A REVOLUÇÃO CUBANA

1 INTRODUÇÃO
Nesse tópico, convido você a conhecer a Revolução Cubana, uma
significativa revolução ocorrida na América durante o século XX.

Nosso objetivo primeiro será apresentar a você o cenário político e


econômico de Cuba no período pré-revolucionário. A partir deste contexto,
vamos levá-lo a compreender os fatores responsáveis pela eclosão da revolução.

Posteriormente, descreveremos os avanços sociais conquistados pela


revolução e, por fim, estaremos apresentando um breve cenário de Cuba hoje.

Então! Vamos lá?

2 O QUADRO SOCIOECONÔMICO DE CUBA ANTES DA


REVOLUÇÃO
Cuba está localizada na América central e é a maior ilha mesoamericana.
Está situada a cerca de 150 km da Flórida, nos Estados Unidos.

Cuba tornou-se independente da Espanha em 1898, mas por meio da


Emenda Platt tornou-se dependente dos Estados Unidos, que a partir de então
passou a influir diretamente nos rumos políticos e sociais de Cuba.

141
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

UNI

Em que consiste a Emenda Platt?

FIGURA 31 – ILUSTRAÇÃO ACERCA DA EMENTA PLATT

FONTE: Disponível em: <http://1.bp.blogspot.com/_r9_JaGZQjA4/TMlvfFHpgaI/AAAAAAAAAZ8/


MMmFMNTJ66 g/s400/images.jpg>. Acesso em: 19 nov. 2010.

Por esse instrumento político, os Estados Unidos outorgava o direito


de intervir militarmente em Cuba para defender seus interesses econômicos.
Entre outras coisas, a Emenda Platt determinou a Cuba que cedesse parte de seu
território para a instalação da Base Naval de Guantânamo.

Além disso, havia interesses econômicos, pois não podemos esquecer que
a ilha possui um clima tropical, portanto capaz de produzir gêneros primários
não produzidos nos Estados Unidos.

142
TÓPICO 2 | A REVOLUÇÃO CUBANA

FIGURA 32 – JÂNIO QUADROS (À DIREITA) CONDECORA O MINISTRO CUBANO ERNESTO


CHE GUEVARA

FONTE: Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/folha/galeria/personagem/i_mundo_00001.


shtm>. Acesso em: 4 dez. 2007.

NOTA

Figura 32 – O presidente Jânio Quadros (à dir.) condecora o ministro cubano


Ernesto Che Guevara com a Grã-Cruz da Ordem Nacional do Cruzeiro do Sul, em Brasília (DF).

Para assegurar seus interesses econômicos, os Estados Unidos passaram


a influir também nos rumos políticos do país, colocando no poder governantes
que defendessem seus interesses. Sucessivamente, Cuba conviveu com governos
corruptos, que colocavam o país a serviço do capital estrangeiro. Um exemplo foi
o governo de Gerardo Machado transcorrido entre os anos de 1925 e 1933. Nesse
período, ocorreu um levante da população contra o governo, porém Machado,
com apoio da elite e de muitos homens armados, sufocou-a rapidamente.

Ainda nos anos 40, o sargento Fulgêncio Batista, aproveitando-se dos


levantes internos, tomou o poder de Cuba e permaneceu nele até a metade da
mesma d.écada. Em 1952, com receio de perder poder para adversários políticos,
deflagrou um golpe de estado, afastando o impopular presidente Prío Socarra,
tornando-se ditador de Cuba.

143
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

FIGURA 33 – FOTO OFICIAL DE FULGÊNCIO BATISTA

FONTE: Disponível em: <http://www.ciadaescola.com.br/zoom/imgs/252/image002.jpg>.


Acesso em: 19 nov. 2010.

3 CUBA NO PERÍODO REVOLUCIONÁRIO


Fulgêncio não fez outra coisa a não ser colocar Cuba a serviço do capital
estrangeiro, sobretudo dos Estados Unidos. Os setores açucareiros, turismo
e mineração, por exemplo, foram parcialmente privatizados, fato que gerou a
exploração da mão de obra local, contribuindo inclusive para o crescimento da
prostituição e do analfabetismo. A economia nesse período prosperou para os
investidores externos, porém para grande parte da população não.

Batista governou Cuba de 1940 a 1944 e de 1952 a 1959, e os dois mandatos


foram marcados pela corrupção e pelo autoritarismo e, em nenhum momento de
seu governo, manifestou preocupação em desenvolver políticas visando melhorar
as condições de vida da população. Essas características, somadas, levariam ao
ressurgimento de novos levantes populares já em 1953.

As agitações para derrubar o governo de Fulgêncio Batista tiveram início


em 1953. Os grupos de guerrilha já contavam com a liderança de Fidel Castro, que
na ocasião lutava ao lado de um grupo de jovens revolucionários, na sua maioria,
universitários. Na ocasião, tentaram tomar o quartel de Moncada e a fortaleza de
Bayamo. Não lograram sucesso, pois a tecnologia militar e as técnicas de guerra
do governo foram superiores.

144
TÓPICO 2 | A REVOLUÇÃO CUBANA

FIGURA 34 – FIDEL CASTRO

FONTE: Disponível em: <http://info-wars.org/wp-content/uploads/2010/08/Fidel-Castro1.jpg>.


Acesso em: 19 nov. 2010.

Em contrapartida, os números de baixas dos revolucionários foram


expressivos, assim como o número de presos, que além de ficarem submetidos a
terríveis torturas, recebiam penas que chegavam a 15 anos de reclusão.

A tentativa frustrada em Moncada e em Bayamo culminou num desgaste


político de Fidel Castro, que, na mira do governo e impedido de militar
politicamente, foi para o México, onde conheceu Ernesto Guevara de La Serna,
mais tarde chamado de “Che”.

No México, Fidel arquitetou, juntamente com Che Guevara, o retorno a


Cuba para depor o governo de Fulgêncio Batista. Fato que veremos a seguir.

3.1 A SIERRA MAESTRA E FIDEL


Nos anos de 1957 e 1958, Fidel Castro retorna a Cuba com o intuito de
derrubar o governo de Fulgêncio Batista. O plano de invasão, arquitetado no
México, recebeu o nome de 26 de Julho, homenagem ao ataque ao Quartel de
Moncada.

Organizados em Sierra Maestra, Fidel Castro passou a contar com o apoio


de outros líderes importantes desse período, como o seu irmão Raul Castro e seus
companheiros e amigos Camilo Cienfuegos e Ernesto Che Guevara.

Em Sierra Maestra, o grupo guerrilheiro contava com um número


expressivo de simpatizantes.

145
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

ATENCAO

Cabe registrar que o número de simpatizantes não se restringia exclusivamente


às regiões rurais, pois o número de descontentes urbanos com o governo Batista crescia a
todo o momento.

A organização em Sierra Maestra foi tão expressiva, sob o ponto de


vista de organização militar, que contribuiu para a criação da Rádio Rebelde,
instrumento de comunicação que permitiu Fidel Castro levar suas ideias a todo o
povo cubano, aumentando ainda mais o número de simpatizantes.

Apesar de resistir à pressão das massas populares e ao crescimento de


grupos guerrilheiros que apoiavam Castro, Fulgêncio não hesitou e fugiu para a
República Dominicana, em dezembro de 1958.

De acordo com Eduardo Galeano (1990, p. 51):

[...] Quando caiu Batista, Cuba vendia quase todo seu açúcar nos Estados
Unidos. Cinco anos antes, um jovem advogado havia profetizado corretamente,
ante aqueles que o julgavam pelo assalto ao quartel Moncada, que a história
o absolveria: havia dito em sua vibrante defesa: “Cuba continua sendo uma
feitoria de matéria-prima. Exporta-se açúcar para importar caramelos...”
Cuba comprava nos Estados Unidos não só automóveis e máquinas, produtos
químicos, papel e roupa, mas também arroz e feijão, alhos e cebolas, banha,
carne e algodão. Vinham sorvetes de Miami, pães de Atlanta e até jantares
de luxo de Paris. O país do açúcar importava cerca da metade das frutas e
verduras que consumia, embora só a terça parte de sua população ativa tivesse
trabalho permanente, e a metade das terras das centrais açucareiras fossem
extensões baldias onde as empresas não produziam nada. Treze engenhos
norte-americanos dispunham de mais de 47% da área açucareira total e
ganhavam por volta de 180 milhões de dólares em cada safra. A riqueza do
subsolo - níquel, ferro, cobre, manganês, cromo, tungstênio - formava parte das
reservas estratégicas dos Estados Unidos, cujas empresas apenas exploravam
os minerais de acordo com as variáveis exigências do exército e da indústria do
norte. Havia em Cuba, em 1958, mais prostitutas registradas do que operários
mineiros. Um milhão e meio de cubanos sofria o desemprego total ou parcial,
segundo as investigações de Seuret y Pino que cita Nuñez Jiménez.

FONTE: Disponível em: <http://catatau.blogsome.com/2008/02/25/a-transicao-segundo-o-


companheiro-fidel-o-passado-de-cuba-e-eduardo-galeano/>. Acesso em: 20 fev. 2011.

146
TÓPICO 2 | A REVOLUÇÃO CUBANA

Ainda sobre Cuba,

[...] tinha as pernas cortadas pelo estatuto da dependência e não


foi fácil andar por conta própria. A metade das crianças cubanas não ia
à escola em 1958, porém a ignorância era, como denunciara Fidel Castro
tantas vezes, muito mais vasta e muito mais grave do que o analfabetismo.
A grande campanha de 1961 mobilizou um exército de jovens voluntários
para ensinar ler e escrever a todos os cubanos e os resultados assombraram
o mundo: Cuba ostenta atualmente, segundo o Escritório Internacional
de Educação da UNESCO, a menor porcentagem de analfabetos. É a maior
porcentagem de população escolar, primária e secundária, da América Latina.
Todavia, a herança maldita da ignorância não se supera da noite para o dia
- nem em 20 anos. A falta de quadros técnicos eficazes, a incompetência da
administração e da desorganização do aparato produtivo, o burocrático
temor à imaginação criadora e à liberdade de decisão, continuam interpondo
obstáculos ao desenvolvimento do socialismo. Mas apesar de todo o sistema de
impotências, forjado pelos quatro séculos e meio de história da opressão, Cuba
está renascendo, com um incessante entusiasmo: mede suas forças, alegria e
desmesura, ante os obstáculos. (GALEANO, 1990, p. 52)

FONTE: Disponível em: <http://catatau.blogsome.com/2008/02/25/a-transicao-segundo-o-


companheiro-fidel-o-passado-de-cuba-e-eduardo-galeano/>. Acesso em: 20 fev. 2011.

Em 5 de janeiro de 1959, Fidel Castro, seu irmão Raul e seu amigo


Che Guevara chegaram a Havana, onde foram calorosamente recebidos pela
população.

FIGURA 35 – 5 DE JANEIRO DE 1959 – CUBA

FONTE: Disponível em: <http://1.bp.blogspot.com/_fMZSQH0TTpo/SVuVik2lZcI/


AAAAAAAAB3c/71Go9JnJh6g/s400/Revolu%C3%A7%C3%A3o+Cubana.jpg>.
Acesso em: 19 nov. 2010.

147
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

FIGURA 36 – REVOLUÇÃO CUBANA

FONTE: Disponível em: <http://3.bp.blogspot.com/_ubml6XAmlys/SxQmfHpAXvI/


AAAAAAAAAFo/Mx5VSxyWWdI/s320/Guilherme+E+Lucas.img.jpg>. Acesso em: 19 nov. 2010.

3.2 CUBA APÓS A REVOLUÇÃO


Caro(a) acadêmico(a)! Até o presente momento, nossa preocupação foi a
de levá-lo a compreender como se deu o processo que levou à Revolução Cubana.
Você deve ter compreendido que Cuba, imediatamente após a sua independência
junto à Espanha, tornou-se dependente econômica e politicamente dos Estados
Unidos.

Pois bem, agora chegou o momento de apresentarmos a importância da


revolução e o que mudou em Cuba a partir de Fidel Castro.

Entre as mudanças mais expressivas nos campos sociais, políticos e


econômicos estão:

● A erradicação do analfabetismo e a assistência médico-hospitalar a toda a


população.

● A expressiva redução da taxa de mortalidade infantil e o aumento na


expectativa de vida.

● Ocorreu o rompimento com a tradicional influência dos Estados Unidos, fato


que levou ao fim o comércio entre os dois países.

● A aproximação com a URSS (União das Repúblicas Socialistas Soviéticas) e


com o Leste Europeu.

● A nacionalização de empresas estrangeiras de grande porte, medida que fazia


parte do seu projeto de nacionalização da economia.

148
TÓPICO 2 | A REVOLUÇÃO CUBANA

E
IMPORTANT

A Guerra Fria foi uma guerra ideológica, econômica e tecnológica liderada


pelos Estados Unidos e União Soviética, entre as décadas de 50 e 80. Nesse período, as duas
superpotências procuraram influenciar a maior parte do mundo. Vários conflitos em nome
do socialismo ou do capitalismo ocorreram pelo mundo. A Guerra do Vietnã foi um exemplo.

E
IMPORTANT

Desde o início dos anos 60, Cuba passou a receber ajuda financeira, política
e econômica da URSS. Esta relação gerou um desconforto excessivo nos Estados Unidos,
pois Cuba, com a ajuda do Leste Europeu, passou a representar uma ameaça aos interesses
capitalistas estadunidenses nos países americanos.

NOTA

Você sabia que Cuba foi o primeiro Estado socialista da América Latina?

Caro(a) acadêmico(a)! Não pense que a ajuda da URSS era desprovida de


interesse! Não esqueça que eram anos de Guerra Fria e as duas superpotências,
EUA e URSS, disputavam influências ideológicas pelo mundo.

DICAS

Sugiro que você assista ao filme “Diários de Motocicleta”. Direção de Walter Salles
(EUA, 2004). O filme lhe possibilitará conhecer a pessoa de Ernesto Guevara e a origem da
sua simpatia pelas causas socialistas da América Latina. Bom filme!

149
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

O constante conflito com os Estados Unidos levou Cuba a pedir ajuda


militar à URSS. Mísseis nucleares soviéticos a serem instalados em Cuba, com
a aquiescência do governo de Fidel, foi fato que gerou uma reação imediata do
governo estadunidense, na época, liderado por Kennedy. Esse incidente ficou
conhecido como a Crise dos Mísseis em Cuba.

FIGURA 37 – ERNESTO CHE GUEVARA

FONTE: Almanaque Abril, 2002

Após ter ficado um tempo no governo cubano, Che retorna às suas raízes de
guerrilheiro e passa a defender a extensão das ideias revolucionárias pela América
Latina. Ao mesmo tempo, passa a condenar os rumos do socialismo cubano
e a interferência do socialismo russo em Cuba. Che acreditava que Cuba estava
progressivamente se tornando dependente da União Soviética. Estaria errado?

FIGURA 38 – CORPO DO LÍDER REVOLUCIONÁRIO ARGENTINO CHE GUEVARA

FONTE: Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/folha/galeria/personagem/i_mundo_00001.


shtml>. Acesso em: 4 dez. 2007.

150
TÓPICO 2 | A REVOLUÇÃO CUBANA

NOTA

Figura 38 – Corpo do líder revolucionário argentino Che Guevara em Vallegrande,


Bolívia. Che foi capturado pelo exército boliviano em 08 de outubro de 1967, com ajuda de
agentes da CIA e executado no dia 09 de outubro.

Cuba viu-se em situação difícil, pois o preço do seu principal produto - o


açúcar - despencou em todo o Leste Europeu. O país passou a enfrentar dificuldades
que ameaçavam as conquistas revolucionárias. Os embargos internacionais foram
muitos e Cuba ficou praticamente sem mercado internacional para exportar seus
principais produtos.

Algumas medidas macroeconômicas para salvaguardar a economia foram


adotadas por Fidel Castro. Vejamos algumas delas:

● Priorização do turismo com o objetivo de atrair moedas estrangeiras. O turismo


é hoje a maior fonte de divisas para o Estado Cubano, que recebe milhões de
turistas por ano.

● A abertura de investimento estrangeiro em pequenos negócios relacionados a


serviços.

● Legalização de transações com moedas estrangeiras, entre outras.

Apesar de todas as dificuldades vividas pelo país, Cuba tem mostrado


que sabe sobreviver às crises. Atualmente, 98% do povo cubano desfruta de
energia elétrica e de água potável, um sistema de educação gratuito e um
sistema de seguridade social singular, se comparável a muitos países ditos de
Primeiro Mundo.

Na área da saúde, Cuba desenvolveu o chamado sistema de Médico da


Família, também implantado em algumas localidades do Brasil.

4 CUBA HOJE: UM BREVE RETRATO


Conforme você deve ter percebido, Cuba, nos anos que se seguiram
à revolução, conseguiu um grande avanço nas questões sociais, políticas e
econômicas, e você deve ter percebido também que grande parte desses avanços
foi possível graças à parceria com a URSS. Porém, no início dos anos 90, essa
relação de parcerias econômicas e políticas com a URSS mudou.

151
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

A União Soviética, principal parceira econômica de Cuba, entrou em


dissolução logo no início dos anos 90.

Para ficar mais claro, vale registrar que em 1989 o então governante
soviético Mikhail Gorbatchev visitou Cuba com o intuito de alertar Fidel Castro
que eram tempos de abertura econômica, a chamada Perestroika, e que a União
Soviética vivia uma crise econômica interna bastante acentuada. Portanto, não
poderia continuar investindo os costumeiros milhões de dólares por ano (cerca
de 5 milhões). Gorbatchev sugeriu a Fidel que liberasse gradualmente o país ao
capital internacional, porém Fidel não se mostrou sensível às ideias reformistas.

Devido ao alto grau de avanço da medicina, Cuba tem registrado um dos


mais baixos índices de mortalidade infantil e uma expectativa de vida de 75 anos
para homens e 78 anos para mulheres.

NOTA

Portanto, caro(a) acadêmico(a), não pense que tudo “é um mar de rosas” em


Cuba. Não podemos esquecer que Cuba é um país pobre e que convive há quatro décadas
com um embargo econômico cruel. Por outro lado, não podemos deixar de lembrar que
Cuba um dia teve mais de 30% de analfabetos e grande parte de sua população não possuía
terras e tampouco expectativas de um dia tê-las. Cabe lembrar também que Cuba hoje é
referência no turismo, nos esportes, na medicina, nas artes e em outras áreas.

UNI

Você pode estar se perguntando, caro(a) acadêmico(a), como


ficaria Cuba após a morte de Fidel? É difícil ter uma resposta para essa pergunta. Talvez a
única certeza que possamos ter é a de que o povo cubano não será facilmente submetido
aos interesses econômicos, como ocorria antes da revolução.

152
TÓPICO 2 | A REVOLUÇÃO CUBANA

FIGURA 39 – FIDEL CASTRO

FONTE: Almanaque Abril, 2002

153
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

LEITURA COMPLEMENTAR

O AÇÚCAR ERA O PUNHAL E O IMPÉRIO O ASSASSINO

Eduardo Galeano

“Edificar sobre o açúcar é melhor do que edificar sobre a areia?”,


perguntava-se Jean-Paul Sartre em 1960, em Cuba.

No cais do porto de Guayabal, que exporta açúcar a granel, voam os


alcatrazes sobre um galpão gigantesco. Entro e contemplo, atônito, uma pirâmide
dourada de açúcar. À medida que as comportas se abrem, por baixo, para que
as canaletas conduzam o carregamento, sem ensacar, até os navios, a rachadura
do teto vai deixando cair novos jorros de ouro, açúcar recém-transportado dos
moinhos dos engenhos. A luz do sol filtra-se e lhes arranca faíscas. Vale uns
quatro milhões de dólares esta montanha macia que apalpo, e meu olhar não dá
para enquadrá-la inteira. Penso que aqui se resume todo o drama e euforia da
safra de 1970 que quis, mas não pôde, apesar do esforço sobre-humano, alcançar
as dez milhões de toneladas. E uma história muito mais longa resvala, com o
açúcar, ante o olhar. Penso no reino da Francisco Sugar Co., a empresa de Allen
Dulles, onde passei uma semana escutando as histórias do passado e assistindo
ao nascimento do futuro:

Josefina, filha de Claridad Rodríguez, que estuda numa sala onde seu pai
foi preso e torturado antes de morrer; Antonio Bastidas, o negro de setenta anos
que uma madrugada deste ano pendurou-se com ambos os punhos na alavanca
da sirena porque o engenho tinha ultrapassado a meta e gritava: “Caralho!
Cumprimos, caralho!”, e não houve quem tirasse a alavanca das mãos crispadas
enquanto a sirena, que havia despertado o povoado, estava despertando toda
Cuba; histórias de expulsões, de subornos, de assassinatos, a fome e os estranhos
ofícios que o desemprego obrigava: caçador de grilos nas semeaduras, por
exemplo. Penso que a desgraça tinha o ventre inchado, agora se sabe. Não
morreram em vão os que morreram: Amâncio Rodríguez, por exemplo, alvejado
a tiros pelos fura-greves numa assembleia, que havia rechaçado furioso um
cheque em branco da empresa e quando seus companheiros foram enterrá-lo
descobriram que não tinha cuecas nem meias para levar ao caixão; ou, por
exemplo, Pedro Plaza, que aos vinte anos foi detido e conduziu o caminhão dos
soldados às minas que ele mesmo tinha semeado e voou com o caminhão e os
soldados. E tantos outros nesta localidade e nas demais: “Aqui as famílias amam
os mártires - disse-me um velho canavieiro -, mas depois de mortos. Antes eram
puras queixas.” Penso não ser casual que Fidel Castro recrutasse as três quartas
partes de seus guerrilheiros entre os camponeses, homens do açúcar, nem que a
província do Oriente fosse, ao mesmo tempo, a maior fonte de açúcar e sublevações
de toda a história de Cuba. Explico-me o rancor acumulado: depois da grande

154
TÓPICO 2 | A REVOLUÇÃO CUBANA

safra de 1961, a Revolução optou por vingar-se do açúcar. O açúcar era a memória
viva da humilhação. Era também, o açúcar, um destino? Converteu-se depois em
penitência? Pode ser agora a alavanca, a catapulta do desenvolvimento econômico?
Sob a influência de uma justa impaciência, a Revolução abateu numerosos
canaviais e quis diversificar, num abrir e fechar de olhos, a produção agrícola:
não caiu no tradicional erro de dividir os latifúndios em minufúndios
improdutivos, porém cada fazenda socializada partiu de cara para culturas
excessivamente variadas. Era preciso realizar importações em grande escala para
industrializar o país, aumentar a produtividade agrícola e satisfazer muitas
necessidades de consumo que a Revolução, ao redistribuir a riqueza, acrescentou
enormemente. Sem as enormes grandes safras de açúcar, de onde obter as divisas
necessárias para essas importações? O desenvolvimento da mineração, sobretudo
do níquel, exige grande inversões, que estão sendo realizadas, e a produção
pesqueira multiplicou-se por oito, graças ao crescimento da frota, o que também
exigiu inversões gigantes; os grandes planos de produção de cítricos estão em
execução, porém os anos que separam a semeadura da colheita exigem paciência.
A Revolução descobriu, então, que havia confundido o punhal com o assassino.
O açúcar, que tinha sido o fator de subdesenvolvimento, converteu-se num
instrumento do desenvolvimento. Não houve mais remédio que utilizar os frutos
da monocultura e a dependência, nascidos da incorporação de Cuba ao mercado
mundial, para quebrar o espinhaço da monocultura e da dependência. Porque as
rendas que o açúcar proporcionava já não são utilizadas para consolidar uma
estrutura da submissão 34. As importações de maquinarias e de instalações
industriais cresceram em 40% desde 1958 excedente que o açúcar gera é mobilizado
para desenvolver as indústrias básicas e para que não fiquem ociosas as terras,
nem os trabalhadores condenados ao desemprego. Quando caiu a ditadura de
Batista, havia em Cuba cinco mil tratores e 300 mil automóveis. Hoje há 50 mil
tratores, embora boa parte seja desperdiçada pelas graves deficiências de
organização; daquela frota de automóveis, em sua maioria modelos de luxo, não
sobram senão alguns exemplares dignos do museu da sucata. A indústria de
cimento e as usinas de eletricidade ganharam um assombroso impulso; as grandes
fábricas de fertilizantes criadas pela Revolução possibilitaram que hoje se utilizem
cinco vezes mais adubos do que 1958,35 e avançaram com botas de sete léguas as
áreas de irrigação. Novos caminhos, abertos por toda Cuba, quebraram a
incomunicabilidade de muitas regiões que pareciam condenadas ao isolamento
eterno. Para aumentar a magra produção de leite do gado zebu, trouxeram para
Cuba touros da raça Holstein, com os quais, mediante a inseminação artificial,
fizeram nascer 800 mil vacas de cruza. Grandes progressos foram realizados na
mecanização do corte e levantamento da cana, em boa medida com base em
investigações cubanas, embora ainda sejam insuficientes. Um novo sistema de
trabalho se organiza, com dificuldades, para ocupar o lugar do velho sistema
desorganizado pelas mudanças que a Revolução traz consigo. Os macheteros
profissionais, presidiários do açúcar, são em Cuba uma espécie extinta: também
para eles a Revolução implicou a liberdade de eleger outras profissões menos
pesadas e, para seus filhos, a possibilidade de estudar, através de bolsas, nas

155
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

cidades. A redenção dos trabalhadores da cana provocou, em consequência -


preço inevitável - severos transtornos para a economia da ilha. Em 197O, Cuba
teve de utilizar o triplo de trabalhadores para a safra, em sua maioria voluntários,
soldados ou trabalhadores de outros setores, ficando prejudicadas as demais
atividades do campo e da cidade: as colheitas de outros produtos, o ritmo de
trabalho nas fábricas. E é preciso levar em conta que, neste sentido, em uma
sociedade socialista, ao contrário da sociedade capitalista, os trabalhadores já não
atuam tangidos pelo medo ao desemprego nem pela cobiça. Outros motores - a
solidariedade, a responsabilidade coletiva, a tomada de consciência dos deveres
e direitos que colocam os homens além do egoísmo - devem ser colocados em
funcionamento. E não se muda a consciência de um povo inteiro num instante.
Quando a Revolução conquistou o poder, segundo Fidel Castro, a maioria dos
cubanos não era sequer antimperialista. Os cubanos foram-se radicalizando junto
com sua Revolução, na medida em que se sucediam os desafios e as respostas, os
golpes e os contragolpes entre Havana e Washington, e na medida em que a
Revolução ia convertendo em fatos concretos suas promessas de justiça social.
Construíram-se 170 novos hospitais e outras tantas policlínicas, e a assistência
médica tomou-se gratuita; multiplicou-se por três a quantidade de estudantes
matriculados em todos os níveis, e também a educação se fez gratuita; as bolsas
de estudos beneficiaram mais de 300 mil crianças e jovens, e multiplicaram-se os
internatos e creches infantis. Grande parte da população não paga aluguel e já são
gratuitos os serviços de água, luz, telefone, funerais e espetáculos esportivos. Os
gastos em serviços sociais cresce, em cinco vezes em poucos anos. Porém, agora
que todos têm educação e sapatos, as necessidades vão-se multiplicando
geometricamente e a produção só pode crescer aritmeticamente. A pressão do
consumo, que é agora consumo de todos e não de uns poucos, também obriga
Cuba a um aumento rápido das exportações, e o açúcar continua sendo a maior
fonte de recursos. Na verdade, a Revolução está vivendo tempos duros, difíceis,
de transição e sacrifício. Os próprios cubanos acabaram de confirmar que o
socialismo se constrói com os dentes cerrados e que a Revolução não é nenhum
passeio. Afinal, o futuro não seria desta terra, se chegasse como um presente. Há
escassez, é certo, de diversos produtos: em 1970, faltam frutas e geladeiras, roupa;
as filas, muito frequentes, não só resultam da desorganização da distribuição. A
causa essencial da escassez é a nova abundância de consumidores: agora o país
pertence a todos. Trata-se, portanto, de uma escassez de sinal invertido a que
padecem os demais países latino-americanos. No mesmo sentido, operam os
gastos com a defesa. A Revolução é obrigada a dormir com os olhos abertos, e isto
também custa, em termos econômicos, muito caro. Esta Revolução acossada, que
teve de suportar invasões e sabotagens sem trégua, não cai porque - estranha
ditadura! - defende-a o povo em armas. Os expropriadores expropriados não se
conformam. Em abril de 1961, a brigada que desembarcou em Playa Girón não
estava formada somente pelos velhos militares e policiais de Batista, mas também
pelos donos de mais de 370 mil hectares de terra, quase dez mil imóveis, setenta
fábricas, dez centrais açucareiras, três bancos, cinco minas e doze cabarés. O
ditador da Guatemala, Miguel Ydígoras, cedeu campos de treinamento aos

156
TÓPICO 2 | A REVOLUÇÃO CUBANA

expedicionários em troca de promessas que os norte-americanos formularam,


segundo ele mesmo confessou mais tarde: dinheiro sonante e cantante, que nunca
lhe pagaram, e um aumento da quota guatemalteca de açúcar no mercado dos
Estados Unidos. Em 1965, outro país açucareiro, a República Dominicana, sofreu
a invasão de uns 40 mil marines dispostos a permanecerem “indefinidamente
neste país, em vista da confusão reinante”, segundo declarou seu comandante, o
general-Bruce Palmer. A queda vertical dos preços do açúcar foi um dos fatores
que fizeram explodir a indignação popular; o povo levantou-se contra a ditadura
militar e as tropas norte-americanas não demoraram em restabelecer a ordem.
Deixaram quatro mil mortos nos combates que os patriotas sustentaram, corpo a
corpo, entre rio Ozama e o Caribe, num bairro encurralado na cidade de Santo
Domingo. A Organização dos Estados Americanos - que tem a memória da mula,
pois não esquece nunca onde come - benzeu a invasão e a estimulou com novas
forças. Era preciso matar o germe de outra Cuba.

FONTE: GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1990. p. 52-55.

157
RESUMO DO TÓPICO 2

No Tópico 2, você pôde:

● Compreender o quadro social, econômico e político de Cuba antes da revolução.

● Identificar os principais líderes da revolução.

● Compreender os interesses econômicos dos Estados Unidos em Cuba.

● Conhecer os avanços sociais e econômicos alcançados no período pós-


revolucionário.

● Conhecer alguns aspectos que caracterizam Cuba hoje.

158
AUTOATIVIDADE

Com base no Tópico 2, responda:

1 Descreva os motivos que levaram à revolução de 1959 e à consequente queda


do governo de Fulgêncio Batista.

2 Após assistir ao filme Diários de Motocicleta, sugerido nesse tópico, faça um


pequeno texto descrevendo os motivos que levaram Ernesto Che Guevara a
se tornar um revolucionário socialista pela América Latina.

3 Fidel Castro assumiu o poder em 1959. Sua bandeira de luta era a justiça
social e política. No entanto, desde a revolução, Fidel não deixou o poder e,
nos anos de Guerra Fria, mesmo com a abertura do mundo soviético, não
abriu o socialismo cubano. A doença que assolou recentemente Fidel Castro
tem levado Cuba às manchetes de revistas e jornais do mundo. Baseado
nessas notícias e no que você leu até aqui, responda:

a) Nesses anos de governo de Fidel, Cuba viveu uma democracia ou uma


ditadura?

b) Como está a qualidade de vida do povo cubano nesses primeiros anos do


século XXI? A saúde e a educação são ainda acessíveis a todos? Pesquise
sobre isso.

c) Considerando a cultura política cubana, quais as perspectivas, orientações e


tendências dos próximos governos desse país?

159
160
UNIDADE 3
TÓPICO 3

AS DITADURAS DA AMÉRICA LATINA

1 INTRODUÇÃO
Caro(a) acadêmico(a), o assunto que trataremos aqui talvez possa lhe
trazer lembranças desagradáveis, ou até mesmo um certo sentimento de angústia,
pois afinal iremos descrever um pouco as características de algumas ditaduras
que se instalaram pela América Latina. Para muitos, esse período não deve
ser lembrado, pois faz parte das páginas negras de nossa história. Porém, não
podemos nos furtar de conhecer esse momento.

Este tópico está dividido em quatro partes. Na primeira estudaremos


sobre como se instala uma ditadura, na segunda, sobre a ditadura na Argentina,
depois a ditadura no Chile e, por último, a ditadura no Paraguai. Poderíamos
falar das ditaduras de outros países, mas infelizmente nosso tempo não permite
que nos estendamos demais.

2 CARACTERÍSTICAS
Não deve ser novidade para você que toda ditadura se estabelece em
nome “da Ordem Nacional”. A Ordem Nacional, na verdade, é uma desculpa
para manter as instituições democráticas livres das ameaças de “totalitarismos
de esquerda”.

E
IMPORTANT

Você lembra o golpe militar deflagrado em 1964 no Brasil e que levou à queda
de João Goulart? Pois bem, golpe foi uma articulação com o intuito de garantir a “ordem
nacional”. Lembra também o que foi preciso para garantir essa ordem?

161
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

NOTA

Amigo(a) acadêmico(a)! Sugiro a você a leitura do livro “Brasil Nunca Mais”.


Prefácio de D. Paulo Evaristo Arns. Petrópolis: Vozes, 1990. O livro faz um relato histórico dos
terrores que ocorreram no Brasil nos tempos da ditadura. No restante da América Latina, o
cenário não foi muito distinto. Por isso, sugiro a leitura.

São características de países que vivem uma ditadura:

● ausência de liberdade de expressão;

● censura à imprensa falada, escrita e televisada;

● os partidos de esquerda caem na clandestinidade e geralmente o pluripartidarismo


é extinto.

Em alguns casos, estabelece-se o bipartidarismo e em governos mais


radicais prevalece o unipartidarismo;

● repressão e perseguições políticas;

● fechamento de sindicatos e coibição de movimentos sociais.

Agora convido você a conhecer um pouco sobre as ditaduras na Argentina,


Chile e Paraguai.

2.1 A ARGENTINA DE GALTIERI A ALFONSÍN


A ditadura militar da Argentina (1976-1983) foi, sem dúvida, uma das
mais terríveis da história latino-americana. De acordo com dados oficiais, cerca
10.000 pessoas estão desaparecidas até hoje, provavelmente mortas em confrontos
com tropas militares ou vítimas de torturas.

Os perseguidos políticos eram geralmente estudantes, sindicalistas,


políticos de esquerda, artistas, entre outros. Note que o perfil dos perseguidos
políticos na Argentina não era muito diferente do perfil dos perseguidos políticos
no Brasil.

Estima-se também, segundo a literatura, que mais de cem bebês foram


roubados das mães, presas políticas, e, às escondidas, foram doadas como órfãos.
Outras atrocidades também eram cometidas, como queimar pessoas vivas.

162
TÓPICO 3 | AS DITADURAS DA AMÉRICA LATINA

A ditadura argentina de Leopoldo Galtieri, ou até mesmo do seu


antecessor Jorge Videla, não teve um caráter desenvolvimentista; ao contrário, o
país mergulhou numa crise econômica profunda. A economia foi orientada pela
exportação de matérias-primas. Os baixos salários e o desemprego passaram a
fazer parte da rotina dos argentinos.

Na tentativa de ampliar e ganhar simpatia popular, Galtieri ordenou a


invasão das Ilhas Malvinas (Falkland), que estavam sob o domínio dos ingleses.
A Inglaterra reagiu e impôs à Argentina uma humilhante derrota.

FIGURA 40 – LOCALIZAÇÃO DAS ILHAS MALVINAS – FALKLAND ISLANDS

FONTE: Disponível em: <http://dnota.com.br/wp-content/uploads/2010/03/Ilhas-Malvinas.jpg>.


Acesso em: 19 nov. 2010.

163
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

Enfim, a Guerra das Malvinas culminou no fim da ditadura Galtieri e na


convocação de eleições para 1983.

FIGURA 41 – PLACA NUMA ESTRADA DA PROVÍNCIA ARGENTINA DE ENTRE RÍOS COM OS DIZERES :
“AS MALVINAS SÃO ARGENTINAS ”. (A IMAGEM É DE 2005)

FONTE: Disponivel em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_das_Malvinas>.


Acesso em: 15 ago. 2007.

Raul Afonsín foi o presidente eleito em 1983 e, logo no início de seu


governo, tratou de apurar as irregularidades contra os direitos humanos, ocorridos
durante a ditadura. Muitos militares foram presos, inclusive os ex-presidentes
Jorge Videla e Leopoldo Galtieri.

Claro que tais apurações sacudiram as alas conservadoras do Exército,


sobretudo dos militares que participaram ativamente do regime.

Pressionado, Afonsín, em 1986, assinou a Lei do Ponto Final, fato que


encerrou as investigações, livrando muitos militares da cadeia. Os constantes
conflitos com os militares e a crescente crise econômica que assolavam o país
levaram Afonsín a deixar a presidência desgastado do ponto de vista político.

O novo presidente eleito foi o peronista Carlos Menem.

2.2 O CHILE DE PINOCHET


Embora considerado por alguns um herói nacional, Pinochet, na verdade,
é tido pela maioria do povo chileno como um dos ditadores mais cruéis e é
lembrado pelo terror que implantou no Chile durante o tempo em que esteve no
poder. Morreu no dia 10 de dezembro de 2006, aos 91 anos de idade, após sofrer
um ataque cardíaco.

164
TÓPICO 3 | AS DITADURAS DA AMÉRICA LATINA

FIGURA 42 – PINOCHET

FONTE: Disponível em: <http://api.ning.com/files/FN5g0M8DOvVitoVq1NcPsex76HzEC0fwv0


zk8y*b27PXDonH2TJqGlZsJtqFDl1*6JdWKFNfvYQyaJJ9CfhsJXE71xqhqaj/pinochet.jpg?width=
420&height=306>. Acesso em: 19 nov. 2010.

UNI

Mas, qual a origem da ditadura Pinochet?

Em 1970, foi eleito Salvador Allende primeiro presidente socialista a subir


ao poder eleito pelo voto. Seu programa de reformas sociais era bem amplo, e ele
foi colocado em prática, onde podemos citar:

● A nacionalização das minas de cobre.

● O aumento dos salários e a redução do analfabetismo.

● Dinamizou a reforma agrária.

● Estatizou bancos, entre outras coisas.

Essas medidas descontentaram as elites nacionais e estrangeiras, que


inteligentemente trataram de desorganizar seu governo. Os Estados Unidos, por
exemplo, bloquearam créditos externos e sabotaram a economia do país.

165
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

FIGURA 43 – SALVADOR ALLENDE

FONTE: Disponível em: < http://www.salvador-allende.cl/>. Acesso em: 12 abr. 2011.

A solução encontrada foi a de colocar no poder alguém que governasse


para o grande capital.

Em 1973, sob o comando de Augusto Pinochet, o Palácio de La Moneda foi


bombardeado e Allende morto.

FIGURA 44 – O PALÁCIO DE LA MONEDA FOI BOMBARDEADO E ALLENDE MORTO

FONTE: Disponível em:<historia.abril.com.br/politica/outros-11-setembro-434832.shtml>.


Acesso em: 12 abr. 2011.

166
TÓPICO 3 | AS DITADURAS DA AMÉRICA LATINA

O Governo de Pinochet (1973-1990) foi marcado por massacres a


milhares de oposicionistas, reverteu as reformas de Allende e permitiu a entrada
desenfreada de capital no país.

Existem inúmeros relatos, inclusive de ex-oficiais, sobre a Caravana


da Morte, o comando militar que executou 72 militantes esquerdistas
no norte do Chile em 1973, logo depois do golpe militar de Pinochet.
Sob a liderança do general Sérgio Arellano, o grupo deslocava-se num
helicóptero, de cidade em cidade, eliminando os inimigos políticos
do novo regime (Adaptado do artigo publicado na revista Isto É, de
29/04/1987, p. 60 – Citado por Pazzinato e Senise, 1994, p. 400).

FIGURA 45 – PINOCHET DESFILANDO EM CARRO ABERTO

FONTE: Disponível em: <http://upload.wikimedia.org/wikipedia/commons/5/51/


Pinochet_11-09-1982.JPG>. Acesso em: 4 dez. 2007.

Em 1987, os militares permitem uma reorganização no sistema partidário


chileno. Vários partidos retornam ao cenário político, com exceção dos partidos
marxistas. Não vá pensar que Pinochet estava disposto a entregar o poder.

Para Pazzinato e Senise (2002), o regime militar oprimiu o povo chileno


até 1988, quando Pinochet foi derrotado num plebiscito popular, convocado para
decidir sobre a permanência ou não do ditador por mais oito anos no poder.

Pinochet, derrotado pelo plebiscito, foi obrigado a convocar eleições e


entregar o poder ao presidente eleito, porém manteve sua condição de comandante
do Exército até 1998 e tornou-se senador vitalício.

167
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

O novo presidente eleito, o democrata Patrício Aylwin, assim como fez


Afonsín na Argentina, ordenou a investigação para apurar as violações contra os
direitos humanos nos tempos da ditadura Pinochet. Os efeitos das investigações,
da mesma forma que na Argentina, não atingiram a plenitude dos objetivos.

NOTA

O ex-ditador Augusto Pinochet morreu aos 91 anos, no dia 10 de dezembro de


2006. Sua morte ocorreu no Hospital Militar de Santiago do Chile, vítima de um enfarte do
miocárdio e um edema pulmonar.

168
TÓPICO 3 | AS DITADURAS DA AMÉRICA LATINA

LEITURA COMPLEMENTAR 1

AS VEIAS ABERTAS DA AMÉRICA LATINA

Eduardo Galeano

Em agosto de 76, Orlando Letelier publicou um artigo denunciando que


o terror da ditadura de Pinochet e a “liberdade econômica” de pequenos grupos
privilegiados, são as duas faces de uma mesma moeda. Letelier, que havia sido
ministro no governo de Salvador Allende, estava exilado nos Estados Unidos.
Foi lá que, pouco tempo depois, voou em pedaços. Em seu artigo, afirmava que é
absurdo falar em livre concorrência numa economia como a chilena, submetida aos
monopólios que jogam com os preços como querem, e que é ridículo mencionar
os direitos dos trabalhadores num país onde os sindicatos autênticos estão fora
da lei e os salários são fixados por decretos da junta militar.

Letelier descrevia o esmero com que se desmontavam as conquistas


realizadas pelo povo chileno durante o governo da Unidade Popular. Dos
monopólios e oligopólios industriais nacionalizados por Salvador Allende,
metade foi devolvida, pela ditadura, a seus antigos proprietários e a outra metade
foi posta à venda. A Firestone comprou a fábrica nacional de pneumáticos;
Parsons and Whittemore uma grande plantação para extração de polpa de papel.
A economia chilena, dizia Letelier, agora está mais concentrada e monopolizada
do que na véspera do governo de Allende.

Negócios livres como nunca, gente presa como nunca: na América Latina,
a liberdade empresarial e incompatível com as liberdades públicas. Liberdade
de mercado? Desde o princípio de 1975 o preço do leite, no Chile, é livre. O
resultado não se fez por esperar. Duas empresas dominam o mercado. O preço
do leite aumentou imediatamente (para os consumidores) em quarenta por cento,
enquanto o preço para os produtores baixava em vinte e dois por cento.
A mortalidade infantil, que havia sido bastante reduzida durante o
governo da Unidade Popular deu um salto dramático a partir de Pinochet. Quando
Letelier foi assassinado numa rua de Washington, um quarto da população do
Chile, não recebia nenhum salário e sobrevivia graças à caridade alheia ou à
própria obstinação e esperteza.

Na América Latina, o abismo que se abre entre o bem-estar de poucos e a


desgraça de muitos, é infinitamente maior que nos Estados Unidos ou na Europa.
São muito mais ferozes, portanto, os métodos necessários para salvaguardar esta
distância. O Brasil tem um exército enorme e muito bem equipado, mas destina
cinco por cento do orçamento nacional para gastos de educação. No Uruguai,
a metade do orçamento é absorvida, atualmente, pelas forças armadas e pela
polícia: um quinto da população ativa tem a função de vigiar, perseguir ou
castigar os quintos restantes.

169
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

Um dos fatos mais importantes destes anos da década de 70 foi, sem


dúvida, uma tragédia: a insurreição militar que em 11 de setembro de 1973
derrubou o governo democrático de Salvador Allende e mergulhou o Chile num
banho de sangue.

Pouco antes, em junho, um golpe de Estado no Uruguai, dissolveu o


Parlamento, pôs os sindicatos fora da lei e proibiu toda e qualquer atividade
política.

Em março de 1976, os generais argentinos voltaram ao poder: o governo


da viúva de Juan Domingo Perón, completamente putrefato, desabou sem consolo
nem glória.

Os três países do sul são agora uma chaga do mundo, uma má notícia
ininterrupta. Torturas, sequestros, assassinatos e exílios converteram-se em fatos
cotidianos. Estas ditaduras são tumores a serem extirpados de organismos sãos
ou são o pus que revela a infecção do sistema?

Creio que sempre existe uma relação íntima entre a intensidade da ameaça
e a brutalidade da resposta. Creio que não se pode entender o que ocorre hoje no
Brasil e na Bolívia sem se levar em conta a experiência dos regimes de Jango
Goulart e Juan José Torres. Antes de cair, estes governos haviam posto em prática
uma série de reformas sociais e haviam levado adiante uma política econômica
nacionalista, ao longo de um processo (interrompido) em 1964 no Brasil, e em
1971 na Bolívia.

Da mesma forma, bem que se poderia dizer que o Chile, a Argentina e o


Uruguai estão expiando o pecado da esperança. O ciclo de profundas modificações
durante o governo de Allende, as bandeiras de justiça que mobilizaram as massas
obreiras argentinas e drapearam alto durante o fugaz governo de Héctor Campora
em 1973 e a politização acelerada da juventude uruguaia, foram todos desafios
que um sistema impotente e em crise não podia suportar.

O violento oxigênio da liberdade foi fulminante para os espectros, e a


guarda pretoriana foi convocada para salvar a ordem. O plano de limpeza é um
plano de extermínio.

FONTE: GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1990. p. 189-191.

170
TÓPICO 3 | AS DITADURAS DA AMÉRICA LATINA

2.3 O PARAGUAI DE STROESSNER


A ditadura de Alfredo Stroessner foi a mais longa da América Latina. Sua
origem remonta ao início dos anos de Guerra Fria. Stroessner assumiu o poder
por meio de um golpe de Estado em 1954 e só caiu em fevereiro de 1989. Foram
35 anos governando o Paraguai com “mão de ferro”.

FIGURA 46 – O EX-DITADOR ALFREDO STROESSNER (À ESQUERDA) AO LADO DO EX-


DITADOR CHILENO AUGUSTO PINOCHET (1973-90)

FONTE: Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/folha/galeria/personagem/i_mundo_ 00001.


shtml>. Acesso em: 4 dez. 2007.

Os grandes latifundiários e os setores mais conservadores da sociedade


paraguaia apoiaram o seu regime, calcado na violência, na perseguição e na prisão
de seus opositores.

NOTA

Não é novidade para você que o Paraguai é um país atravessador de produtos


orientais, não é mesmo? Talvez não saiba é que foi na época de Stroessner que o Paraguai
começou a “gozar” desse perfil econômico nada agradável para os paraguaios.

Stroessner desenvolveu uma política voltada para a construção de um


Paraguai essencialmente agrícola e uma espécie de paraíso latino-americano do
contrabando.

Caro(a) acadêmico(a), para você ter uma ideia, já na metade da década de


80, 60% de todo o comércio externo do país era ilegal.

171
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

Vale destacar que no governo de Stroessner foi construída, em parceria


com o Brasil, a Usina Hidrelétrica de Itaipu. Na época, o Brasil vivia a ditadura
do general Ernesto Geisel.

Ao cair do poder em 1989, o general Stroessner pediu asilo político ao


Brasil. Que foi concedido. Ao que se sabe, inicialmente viveu em Brasília e, mais
tarde, de forma tranquila e muito confortável, foi viver no litoral paranaense.

Stroessner viveu o resto de sua vida no Brasil e morreu aos 93 anos de


idade no Hospital Santa Luzia, em Brasília, onde se encontrava internado. Seu
corpo foi velado em Brasília.

Os paraguaios receberam com indiferença a notícia de sua morte.

FIGURA 47 – ALFREDO STROESSNER EM BRASÍLIA, EM 2001

FONTE: Disponível em: <www1.folha.uol.com.br/folha/galeria/personagem/i_mundo_00001.


shtml>. Acesso em: 4 dez. 2007.

172
TÓPICO 3 | AS DITADURAS DA AMÉRICA LATINA

LEITURA COMPLEMENTAR 2

A GUERRA DA TRÍPLICE ALIANÇA CONTRA O PARAGUAI ANIQUILOU


A ÚNICA EXPERIÊNCIA, COM ÊXITO, DE DESENVOLVIMENTO
INDEPENDENTE

Eduardo Galeano

O partido Colorado, que hoje governa o Paraguai, especula alegremente


com a memória dos heróis, porém ostenta ao pé de sua ata de fundação a
assinatura de vinte e dois traidores do marechal Solano López, “legionários” a
serviço das tropas brasileiras de ocupação.

O ditador Alfredo Stroessner, que há vinte anos, converteu o Paraguai


num grande campo de concentração, fez sua especialização militar no Brasil, e os
generais brasileiros o devolveram a seu país com altas qualificações e calorosos
elogios: “É digno de grande futuro...”. Durante seu reinado, Stroessner deslocou
os interesses anglo-argentinos em beneficio do Brasil e dos norte-americanos.
Desde 1870, o Brasil e a Argentina, que libertaram o Paraguai para comê-lo com
duas bocas, se alternam no usufruto dos despojos do país derrotado, porém
sofrem, por seu turno, o imperialismo da grande potência do momento.

O Paraguai padece, ao mesmo tempo, o imperialismo e o subimperialismo.


Antes, o Império britânico constituía o elo maior da cadeia das dependências
sucessivas. Atualmente, os Estados Unidos, que não ignoram a importância
geopolítica deste país enervado no centro da América do Sul, mantêm em solo
paraguaio assessores inumeráveis, cozinham os planos econômicos, reestruturam
a universidade como querem, inventam um novo esquema político democrático
para o país e retribuem com empréstimos onerosos os bons serviços do regime.
Porém, o Paraguai é também colônia de colônias.

Utilizando a reforma agrária como pretexto, o governo de Stroessner


derrogou, fazendo-se de distraído, a disposição legal que proibia a venda a
estrangeiros de terras em zonas de fronteira seca, e hoje até os territórios fiscais
caíram em mãos de latifundiários brasileiros do café. A onda invasora atravessa
o rio Paraná com a cumplicidade do presidente, associado aos fazendeiros que
falam português.

Cheguei à movediça fronteira do nordeste do Paraguai com notas


que tinham estampado o rosto do vencido marechal Solano López, porém ali
descobri que só têm valor as que luzem a efígie do imperador vencedor Pedro. O
resultado da Guerra da Tríplice Aliança ganha, transcorrido um século, ardente
atualidade. Os guardas brasileiros exigem passaporte aos cidadãos paraguaios
para circularem em seu próprio país; são brasileiras as bandeiras e as igrejas. A
pirataria de terra abarca também os saltos do Guayrá, a maior fonte potencial de
energia de toda América Latina, que hoje se chamam, em português, Sete Quedas,
e a zona de Itaipu, onde o Brasil constrói a maior central hidrelétrica do mundo.
173
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

O subimperialismo, ou imperialismo de segundo grau, se expressa de


mil maneiras. Quando o presidente Johnson decidiu submergir em sangue os
dominicanos, em 1965, Stroessner enviou soldados paraguaios a São Domingos,
para que colaborassem na faina.

O batalhão se chamou, piada sinistra, “Marechal Solano López”. Os


paraguaios atuaram sob as ordens de um general brasileiro, porque foi o Brasil
quem recebeu as honras da traição: o general Panasco Alvim encabeçou as tropas
latino-americanas cúmplices da matança. Da mesma maneira, poder-se-iam citar
outros exemplos.

O Paraguai outorgou ao Brasil uma concessão petrolífera em seu território,


mas o negócio da distribuição de combustíveis e da petroquímica está no Brasil,
em mãos norte-americanas. A Missão Cultural Brasileira é dona da Faculdade
de Filosofia e Pedagogia da universidade paraguaia, porém os norte-americanos
influem na universidade do Brasil.

O Estado-Maior do exército paraguaio não só recebe assessoria dos


técnicos do Pentágono, mas também dos generais brasileiros, que por sua vez
estudaram em escolas militares nos EUA. Pela via aberta do contrabando, os
produtos industriais do Brasil invadem o mercado paraguaio, porém muitas das
fábricas que produzem em São Paulo são, desde a avalancha desnacionalizadora
destes últimos anos, multinacionais.

Stroessner se considera herdeiro dos López. O Paraguai de um século


atrás pode ser impunemente cotejado com o Paraguai de agora, empório do
contrabando na bacia do Prata e reino da corrupção institucionalizada? Num ato
político onde o partido do governo reivindicava ao mesmo tempo, entre vivas e
aplausos, a um e outro Paraguai, um rapazola vendia, bandeja no peito, cigarros
de contrabando: a fervorosa audiência pitava nervosamente Kent, MarIboro,
Camel e Benson & Hedges.

Em Assunção, a escassa classe média bebe uísque Ballantine’s em vez de


tomar cachaça paraguaia. Descobrem-se os últimos modelos dos mais luxuosos
automóveis fabricados nos Estados Unidos ou Europa, trazidos ao país de
contrabando ou pagamento prévio de minguados impostos, ao mesmo tempo em
que se veem, pelas ruas, carros puxados por bois que levam lentamente frutos ao
mercado; a terra é trabalhada com arados de madeira e os táxis são impalas.

Stroessner diz que o contrabando é “o preço da paz”. A indústria,


logicamente, agoniza antes de crescer. O Estado nem sequer cumpre o decreto
que manda preferir os produtos das fábricas nacionais nas aquisições públicas.
Os únicos triunfos que o governo exibe, orgulhoso, na matéria, são as fábricas de
Coca Cola, Crush e Pepsi Cola, instaladas desde fins de 1966 como contribuição
norte-americana ao progresso do povo paraguaio.

174
TÓPICO 3 | AS DITADURAS DA AMÉRICA LATINA

O Estado manifesta que só intervirá diretamente na criação de empresas


“quando o setor privado não demonstrar interesse”, e o Banco Central comunica
ao Fundo Monetário Internacional que decidiu implantar um regime de mercado
livre de moedas e abolir as restrições ao comércio e às transações de divisas; um
folheto editado pelo Ministério da Indústria e Comércio adverte os investidores
que o país outorga concessões especiais para o capital estrangeiro. Eximem-se
as empresas estrangeiras do pagamento de impostos e de direitos alfandegários,
para criar um clima propício para os investimentos. Um ano depois de se instalar
em Assunção, o National City Bank de Nova Iorque recupera integralmente o
capital investido.

O sistema bancário estrangeiro, dono da poupança interna, proporciona


ao Paraguai créditos externos que acentuam sua deformação econômica e
hipotecam ainda mais sua soberania. No campo, 1,5% dos proprietários dispõe de
90% das terras exploradas, e se cultiva menos dos 2% da superfície total do país.
O plano oficial de colonização no triângulo de Caaguazú oferece aos camponeses
famintos mais tumbas do que prosperidade. A pátria nega a seus filhos o direito
ao trabalho e ao pão de cada dia: os paraguaios emigram em massa.

FONTE: GALEANO, Eduardo. As veias abertas da América Latina. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1990. p. 137-139.

175
RESUMO DO TÓPICO 3

No Tópico 3, você pôde:

● Identificar as características políticas de um país marcado por um regime


militar.

● Conhecer as origens do regime militar na Argentina.

● Conheceras razões que levaram à queda de Salvador Allende no Chile e à


consequente ascensão política de Pinochet.

● Perceber
que a atual situação econômica do Paraguai encontra raízes no longo
governo de Alfredo Stroessner.

● Perceberque as ditaduras latino-americanas, incluindo a do Brasil, encontram


origens externas.

176
AUTOATIVIDADE

Com base no Tópico 3, responda às seguintes atividades:

1 A ditadura de Leopoldo Galtieri não teve caráter desenvolvimentista.


Explique essa afirmativa.

2 Qual a relação existente entre a política adotada por Salvador Allende e o


surgimento da ditadura Pinochet?

3 Existe alguma relação entre o governo de Alfredo Stroessner e a atual


situação econômica do Paraguai hoje? Explique sua resposta. Se necessário,
pesquise mais sobre o tema para melhor responder essa pergunta.

4 As Ilhas Malvinas foram ocupadas pela Grã-Bretanha em 1833 e, desde


então, são reivindicadas pelos argentinos. Você estudou nesse tópico que
Galtieri, na tentativa de ampliar seu respaldo popular, ordenou a invasão
das ilhas, o que resultou num total fracasso para o Exército Argentino.

Caro(a) acadêmico(a), convido você a pesquisar os motivos que levaram


a esse conflito, bem como conhecer o massacre promovido pelo exército
inglês contra os jovens soldados argentinos. Tenho certeza de que você vai se
emocionar ao realizar essa pesquisa. Bom trabalho!

177
178
UNIDADE 3
TÓPICO 4

OS BLOCOS ECONÔMICOS AMERICANOS

1 INTRODUÇÃO
Os blocos econômicos existentes atualmente traduzem uma tendência
crescente rumo à regionalização das economias. Na sua essência, os blocos
surgiram com a finalidade de atender às constantes transformações do sistema
capitalista, isto é, atender aos interesses econômicos correspondentes aos países-
membros dos blocos frente a uma economia globalizada e competitiva. O Mercado
Comum do Sul (MERCOSUL), o NAFTA, a União Europeia e a ALCA surgiram
com essa finalidade.

Nesse sentido, nossa intenção será a de levá-lo a conhecer, compreender


e refletir sobre as razões que levaram à criação do NAFTA, da ALCA e do
MERCOSUL e de outros blocos econômicos na América.

NOTA

Caro(a) acadêmico(a)! Para aprofundar os assuntos referentes à ALCA e ao


MERCOSUL, sugerimos que leia o livro “O projeto da ALCA: hemisfério americano e o
MERCOSUL na ótica do Brasil”, citado nas referências no final desse Caderno de Estudos.

Então, vamos conhecer um pouco sobre os blocos econômicos?

179
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

2 BLOCOS ECONÔMICOS

2.1 O NASCIMENTO
Você já deve ter ouvido falar do NAFTA (Acordo Norte-Americano de
Livre Comércio), ou North American Free Trade Agreement. Esse acordo de
livre comércio foi assinado antes da ALCA e seu objetivo era romper as barreiras
alfandegárias entre os países membros, nesse caso, o México, o Canadá e os
Estados Unidos.

O centro polarizador da economia desse bloco são os Estados Unidos e a


gradativa redução das barreiras está acontecendo entre os países membros.

NOTA

Lembra da Doutrina Monroe? “Uma América para os americanos”. Pois é, o Nafta


é uma espécie de retomada da Doutrina Monroe, porém integrando inicialmente os três
países da América do Norte.

A ALCA teve seu acordo assinado em 1994 e seus objetivos econômicos


transgridem as barreiras norte-americanas. A ALCA traz em seu bojo a criação de
uma área de livre comércio para toda a América, com exceção de Cuba.

As negociações para o funcionamento desse bloco foram realizadas em


Miami, em dezembro de 1994, e a previsão de sua implantação seria até dezembro
de 2006. Através da ALCA, os Estados Unidos pretendem reafirmar a sua
hegemonia econômica, política e cultural em todo o Continente americano.

2.2 OBJETIVOS
Como foi dito anteriormente, a ideia de criar a Área de Livre Comércio
das Américas surgiu em 1994, e entre os principais objetivos podemos citar:

● a eliminação das barreiras comerciais entre os 34 países americanos, exceto


Cuba;

● a circulação de produtos e serviços pelo continente sem restrições nem


impostos, baixando os preços internos, o que contribuiria para o crescimento
de economias frágeis, como a do Paraguai, que teriam a oportunidade de sair
da estagnação;
180
TÓPICO 4 | OS BLOCOS ECONÔMICOS AMERICANOS

● fazer
da ALCA um bloco com Produto Interno Bruto (PIB) de quase 11 trilhões
de dólares, e uma população de 823 milhões de habitantes. Tornar-se-ia maior
que a União Europeia (UE).

É claro que os Estados Unidos são o maior interessado no sucesso desse


bloco, pois seu parque industrial, além de ser diversificado, é altamente produtivo,
logo precisa de um farto mercado consumidor. Nesse caso, a América realizaria
este feito.

Mas o Brasil e os outros países latinos precisam ter cautela antes de


entrar de “cabeça” na ALCA. Afinal, ela pode representar uma ameaça para a
consolidação do MERCOSUL.

Para Magnoli e Araújo (2003, p. 40), “ALCA (Área de Livre Comércio


das Américas), liderada pelos Estados Unidos, numa perspectiva econômica,
pode representar a consolidação de uma nova forma de hegemonia dos Estados
Unidos sobre o continente, dada a imensa assimetria entre a potência americana
e o conjunto dos países da região”.

Observe o mapa a seguir:

FIGURA 48 – MAPA REPRESENTANDO OS PAÍSES MEMBROS DO NAFTA – MÉXICO , CANADÁ E


ESTADOS UNIDOS

FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/NAFTA#Pa.C3.ADses_Membros>.


Acesso em: 16 abr. 2007.

181
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

3 O MERCOSUL

3.1 O NASCIMENTO
Com frequência, ouvimos comentários negativos a respeito do
MERCOSUL: “Ah, esse bloco não vai dar certo... os países são muito fracos”,
ou “O MERCOSUL é uma criança que já nasceu morta!”. Na verdade, tais
comentários não estão, no seu todo, desprovidos de verdade, pois as economias
dos países-membros, pelo menos até o momento, não são suficientemente fortes
para fazerem do MERCOSUL um bloco sólido a ponto de competir por igual com
blocos mais hegemônicos.

O MERCOSUL vigora desde 1991, época do governo Collor no Brasil.


Lembra dele? Foi constituído em março do mesmo ano, através do Tratado de
Assunção. Seus países-membros eram Uruguai, Argentina, Brasil e Paraguai.

FIGURA 49 – MAPA DA ATUAL ESTRUTURA DO MERCOSUL

FONTE: Disponível em: <http://pt.wikipedia.org/wiki/Mercosul#Antecedentes>.


Acesso em: 16 abr. 2007.

Atualmente o MERCOSUL conta com cinco países associados: o Chile,


a Bolívia, o Peru, a Colômbia e o Equador. Possivelmente, no futuro, teremos o
ingresso do México, que no momento é apenas um observador no bloco.

182
TÓPICO 4 | OS BLOCOS ECONÔMICOS AMERICANOS

3.2 OBJETIVOS
Convido você a conhecer os objetivos que norteiam o MERCOSUL, e ao
mesmo tempo convido-o também a refletir sobre eles.

Entre os vários objetivos, podemos destacar:

● permitir a livre circulação de bens (serviços, produtos e mercadorias), bem


como de capitais e pessoas, através da eliminação das tarifas alfandegárias;

● desenvolver uma harmonia entre as legislações que vigoram entre os países-


membros e associados;

● estabelecer critérios que permitam uma adequada concorrência entre os países-


membros, evitando que alguns países vendam mais e outros menos;

● desenvolver um espírito de união entre os países-membros, sobretudo no


momento de tomadas de decisões junto a órgãos como a ONU, a ALCA, o
NAFTA e a ALADI.

ATENCAO

Você deve ter percebido que o MERCOSUL transcende as questões de ordem


puramente econômica, pois existe a preocupação com a harmonização das leis e com a livre
circulação de pessoas e, isso, em si, permite um processo de aculturação significativo, o que
de certa forma permite retomada dos valores culturais da América Latina. Talvez aí resida a
alma do MERCOSUL.

4 OUTROS BLOCOS ECONÔMICOS


O MERCOSUL, o NAFTA e a ALCA são os blocos econômicos americanos
mais comentados pela mídia, porém outros blocos econômicos já existiram ou
existem na América. Vamos conhecê-los?

● ALALC (Associação Latino-Americana de Livre Comércio): foi criada em 1960


pelo Tratado de Montevidéu. Seu objetivo era implantar num prazo máximo
de doze anos uma zona de livre comércio em toda a América Latina. O grande
desnível econômico entre os países membros levou o bloco a um progressivo
fracasso.

183
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

● Pacto Andino: bloco econômico criado em 1969 através do Acordo de Cartagena.


Não diferente dos demais blocos, o Pacto Andino tinha o objetivo de expandir
e consolidar a integração comercial, política e econômica entre seus membros.
Devido às pressões por parte dos Estados Unidos em implantar a ALCA, o
Pacto Andino perdeu força logo no seu início. Seus membros eram a Bolívia,
Colômbia, Equador, Peru, Venezuela e o Chile. O Panamá participava como
observador.

● ALADI (Associação Latino-americana de Desenvolvimento e Integração):


nasceu no início dos anos 80, como um novo Tratado de Montevidéu.
Apresentava objetivos menos pretensiosos que a ALALC, não determinando
prazos para a consolidação da integração regional. Não logrou sucesso,
pois viveu o período das ditaduras latino-americanas, quando os países,
preocupados em gerar divisas para saldar suas dívidas externas, relegaram a
integração regional a segundo plano.

184
TÓPICO 4 | OS BLOCOS ECONÔMICOS AMERICANOS

LEITURA COMPLEMENTAR

O NAFTA

Eduardo de Freitas

O NAFTA (North America Free Trade Agreement), ou Tratado Norte-


Americano de Livre Comércio, foi criado em 1993, teve início a partir de um
acordo estabelecido entre três países da América do Norte: Estados Unidos,
México e Canadá. A partir desse acordo foi implantado o livre comércio entre as
nações integrantes. Um dos principais motivos da criação desse bloco econômico
foi fazer frente à União Europeia, tendo em vista que essa tem alcançado um
grande êxito no cenário mundial.

O NAFTA é composto por apenas três países. Há um grande desnível entre


as economias de seus membros, tendo em vista que os Estados Unidos é a maior
economia mundial. O Canadá, mesmo aparecendo como um dos principais países
do mundo em economia, qualidade de vida, entre outros quesitos, é uma nação
que depende muito dos recursos financeiros oriundos dos Estados Unidos. Já o
México, considerado uma economia emergente, foi convidado para fazer parte
desse bloco econômico pelo fato de seus habitantes serem consumidores assíduos
dos produtos canadenses e norte-americanos. Desse modo, o México foi inserido
nesse bloco simplesmente porque possui um enorme mercado consumidor, é
detentor de uma grande jazida de petróleo, recurso indispensável para Estados
Unidos e Canadá, além de ser fornecedor de mão de obra barata.

Estados Unidos e México estabeleceram uma parceria, e os norte-


americanos realizaram investimentos em território mexicano almejando aumento
de postos de trabalho no país. A partir disso, pretende-se que a incidência de
entrada de mexicanos nos Estados Unidos de maneira ilegal diminua. Embora
pareça ser uma preocupação unicamente social, essa iniciativa visa também
produzir mercadorias em território mexicano com baixos custos, com o objetivo
de abastecer o mercado norte-americano, especialmente no setor têxtil.

Os Estados Unidos têm um grande desejo de expandir a atuação desse


bloco econômico e superar a União Europeia, diante disso, o Chile foi convidado
a fazer parte do NAFTA em 1994. Apesar da vontade de expandi-lo, existem
barreiras dentro do governo norte-americano e fora dele também. O Congresso
norte-americano teme que com a entrada de outros países, os Estados Unidos se
tornem “responsáveis” por eles em caso de uma crise, por exemplo.

O fluxo de mercadorias dentro do NAFTA teve um aumento superior a


150% na última década, fazendo com que o México elevasse o seu crescimento
econômico. Atualmente o país se encontra entre as quinze maiores economias do
planeta.

185
UNIDADE 3 | A AMÉRICA NO SÉCULO XX

As pretensões dos Estados Unidos são ainda maiores, na verdade, o que


essa potência mundial quer é a implantação de um megabloco, estabelecendo o
livre comércio entre os países da América do Norte, América Central e do Sul
(exceto Cuba), intitulado de ALCA – Área de Livre Comércio das Américas.
Porém, a criação desse bloco serviria preferencialmente os interesses norte-
americanos que possuem uma economia forte, principalmente em relação aos
países subdesenvolvidos e em desenvolvimento das outras Américas.

FONTE: Disponível em: <http://www.brasilescola.com/geografia/nafta.htm>.


Acesso em: 18 nov. 2010.

186
RESUMO DO TÓPICO 4

No Tópico 4, você pôde:

● Compreender o porquê da criação dos blocos regionais.

● Identificar as razões que levaram à criação do NAFTA e ALCA.

● Identificar as razões que levaram à criação do MERCOSUL.

● Refletir sobre os interesses econômicos dos Estados Unidos na América Latina,


bem como o desejo de implantá-los com urgência.

● Conhecer blocos econômicos criados na América Latina nos anos 60 e 80 e as


razões que levaram aos seus insucessos.

187
AUTOATIVIDADE

Considerando o que você estudou, somado à leitura complementar


sugerida no início desse tópico, elabore um texto que tenha como objetivo:

a) O Brasil deve se preocupar com a ALCA ou priorizar a consolidação do


MERCOSUL?

b) Reflita sobre a necessidade do fortalecimento do MERCOSUL como


mecanismo de desenvolvimento econômico, cultural e político da América
do Sul.

c) Aprofunde as causas que levaram ao insucesso da ALADI, ALALC e Pacto


Andino.

188
REFERÊNCIAS
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Brasiliense, 2004.

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FURTADO, Celso. A economia latino-americana: formação histórica e


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190
ANOTAÇÕES

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