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UNIPERIFERIAS - IMJA 2021 - Lu Ain-Zaila

Sankofia: epistemologias Negras em Foco


(Txt – Grupo de Estudos Baixada fluminense)

ENTRE O FILOSOFAR E SER UMA PESSOA NEGRA PESQUISADORA


por Lu Ain-Zaila1 (maio/2021)
O coração ib, também haty, na língua egípcia foi concebido como a sede de
pensamentos e emoções. A palavra para coração também significa “mente”,
“compreensão” e “inteligência”. Razão, emoção, espírito, mente e corpo não
foram concebidos como entidades antitéticas separadas. Matéria e espírito
não eram opostos em conflito. Assim, em suas investigações, os filósofos
podem recorrer a todos os recursos de seu ser, incluindo a razão e o
sentimento. Desta forma, eles podem esperar alcançar a realização.2

Essas são palavras do pesquisador Théophile Obenga3, fruto de suas


investigações sobre o significado da Filosofia Africana e como ela faz parte de
nossa trajetória, mesmo que não saibamos. Acho que essa é uma das grandes
questões colocadas na jornada de uma pessoa negra quando se dispõe a
observar e aprender sobre si. O que é filosofar a si, africanamente? Nos termos
de seus ancestrais e contemporâneos, de Amenemope4 (Amen-em-ope) à Sueli
Carneiro5?
Ao buscar respostas para essas perguntas e mergulhar nos antecedentes,
na ante-palavra, no que já estava lá antes de ser pronunciado, me deparei com
uma verdade: apesar do racismo e suas ramificações não deixamos, num todo,
de ser africanos6 e pensar como, apenas saímos da jornada e é possível voltar.

1
- Pedagoga. Escritora Afrofuturista. Pesquisadora. Orientadora de Pesquisa temporária CCBJ/Ceará. Site:
https://brasil2408.com.br/
2
- Egito: História Antiga da Filosofia Africana, de Théophile Obenga. Disponível em < https://filosofia-
africana.weebly.com/uploads/1/3/2/1/13213792/obengat._egito_hist%C3%B3ria_antiga_da_filosofia_a
fricana_2004.pdf >.
3
- Théophile Obenga - discípulo e amigo de Cheikh Anta Diop, Obenga tem defendido uma perspectiva
da história africana reorientada para as preocupações dos investigadores e intelectuais africanos.
Egiptólogo, filosofo, historiador, etc. Atualmente, Obenga é professor na San Francisco State University,
na Califórnia/EUA, onde dirige também o Departamento de Estudos Africanos. É ainda o Diretor da revista
ANKH – Revista é Egiptologia e das Civilizações Africanas. Obenga está indiscutivelmente entre os grandes
intelectuais africanos contemporâneos.
4
- Amenemope, o Escriba, filho de Kanakht, escreve um dos mais simples exemplos da filosofia ética
egípcia antiga. As Instruções, ou Seboyet, frequentemente referidas como Sabedoria, foram escritas
durante o século 10a.C. e representam a culminação de muitas ideias filosóficas e humanísticas.
5
- Aparecida Sueli Carneiro é uma filósofa, escritora e ativista antirracismo do movimento social negro
brasileiro. Sueli Carneiro é fundadora e atual diretora do Geledés — Instituto da Mulher Negra e
considerada uma das principais autoras do feminismo negro no Brasil
6
No âmbito dos estudos Africana e da afrocentricidade, o termo “africano” se refere aos
afrodescendentes e a seu legado amplo no continente e na diáspora em qualquer parte do mundo. Nessa
concepção não entra o entendimento de estar deslocado ou centrado.

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Sankofia: epistemologias Negras em Foco
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Nossa base existencial é diferente da eurocêntrica, nos envolvemos, não


vemos pessoas como objetos e isso não é por acaso, tem a ver com nosso outro
lugar de ser. Somos ib, somos haty, somos coração e mente no mesmo lugar,
que nas tradições africanas significa respeito aos lugares que adentramos,
pessoas que nos aproximamos e a verdade que deve ser sempre nosso guia.
Por isso, quando conscientes não somos capazes de continuar no jogo, porque
é ferir a nossa própria verdade.
Entender isso é se dar conta de que há uma grande dimensão sobre quem
somos nas palavras negras do ontem e hoje, uma ancestralidade7 que vamos
aos poucos descobrindo e que vai nos revelando quem somos durante a
trajetória, pois como é bem-dito por aí, somos resultados de passos que vieram
de longe e ainda estão a nos guiar.
Esses pensamentos se tornaram mais fortes em mim nos últimos dois
anos quando me decidi pela intenção de fazer mestrado e o que fazer dele. E é
interessante como nossas investigações tendem a ser um projeto do que
aprendemos em coletivo para retornar a ele um dia. Há filosofias africanas8
nisso.
Tais pensamentos, acredito, começaram a me circundar há pelo menos
seis anos, quando decidi ser uma escritora em 2015, decisão que não foi tomada
depois de muito pensar, mas diante de uma lacuna e desafio que até hoje não
sei precisar o motivo de trilhar já que nenhuma pergunta foi feita ou resposta
dada. Só tive a certeza de que precisava me mover, dar o primeiro passo e não
parei desde então. E hoje... não me indago mais sobre o motivo do primeiro
passo, mas me pergunto sobre o que estava lá antes, no esteio dessa decisão,
de decidir observar o mundo e ensinar outros a fazê-lo por lentes negras?
Essa pergunta só consigo responder escrevendo literatura e aprendendo
com os seus desenvolvimentos, que me levaram a curiosidades e perguntas
mais profundas que me deram um próximo passo. Naquela época, ainda não

7
- No contexto de ser parte de um povo.
8
- Filosofias Africanas: no ensaio trato tanto da kemética, Dogon, kwaida, ubuntu. São inúmeras e as
reconhecemos na análise do cotidiano dos povos negros em África e diáspora.

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vislumbrado, mas que se mostrou necessário: o desejo de ser uma


pesquisadora... negra.
E o que isso significa?
Pois é. Ainda não tenho uma resposta satisfatória para essa pergunta
também, mas tenho certeza que ser uma escritora afrofuturista foi o meu gatilho
para pensar e propor possibilidades para vencer os obstáculos na minha
caminhada, frutos de passos ancestrais que reordenam minhas palavras
pensadas em escritas ficcionais e metafóricas com alguma ou muita verdade.
Mas não é da minha trajetória que se trata esse ensaio de apresentação
de nosso curso e sim de nossas trajetórias, todas, disparadas por um gatilho de
muitos passos dados antes, nossos e de outros e outras, onde cada palavra tem
uma perspectiva negra. O que me faz pensar... o que é Ser uma pessoa negra,
pesquisadora em nossa realidade brasileira? O que é ser uma pessoa negra,
dedicada ao ato de pesquisar, pensar questões com e para o mundo a partir de
perspectivas negras? Esse é um caminho profissional ou o início de uma missão
que consiste em abrir – ainda mais e/ou novas – portas para o pensamento negro
brasileiro aqui e para o mundo?
Quando tive contato com a Afrocentricidade (1980) de Molefi Keti Asante
no final de 2016 através do Afrofuturismo9, tudo o que aprendi até ali convergiu
enquanto lia suas palavras, funcionando como um reencontrar com uma
dimensão interior familiar10, de onde saem minhas escritas literárias, e também,
elaborações de conhecimento. E tudo isso me faz perguntar: Qual foi o gatilho
da sua dimensão familiar? Ou, de onde você sente que vem os elementos que
constroem/construirão a sua dimensão familiar?
Essa é uma pergunta interessante que em análise nos remete a muitas
possibilidades: se pensarmos pelo aspecto mitológico e essencial dos povos

9
- Afrofuturismo, movimento em vias de ser global. Tem início em 1960, mas se firma em 1990
inicialmente através da literatura especulativa negra. É um movimento estético-político e o primeiro
movimento pan-africanista deflagrado por pessoas negras em todos os continentes. É uma experiência
revolucionária que implica na arte de todas as formas e do pensamento negro por um olhar realmente
negro. É uma proposta de reordenação para as pessoas negras a partir de seus próprios meios. Seu
coração é a afrocentricidade. Primeiros aurores BR: Fábio Kabral, Lu Ain-Zaila, Waldson Souza.
10
- No contexto de autoconhecimento, onde que é faz sentido como um todo.

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africanos, onde dimensões fazem parte natural de quem somos, entre o visível
e o invisível, então estamos nos movendo em circularidade, onde presente
passado e futuro se esbarram construindo quem somos a cada passo desde
muito longe. Há filosofias africanas aqui.
E também é interessante ir percebendo como tudo parece convergir para
nos levar de volta à nossa essência de pessoa negra, a partir do momento em
nos vemos como uma pessoa entendendo a sua centralidade/localização, ou
melhor, a reconstituindo a partir de uma agência de pensamento11 que a nutri de
forma favorável.
Mas, algo que supera saber como tudo começou é saber quem se é
enquanto caminha e o que verá ao olhar para trás antes do último passo. Essa
é uma questão e exercício filosófico (Rekhet/Cardiografia12) sobre o que significa
filosofar a si e sua relação de observação e interação com tudo e todes ao redor.
E eu realmente me perco nesses pensamentos, como por exemplo... é
interessante pensar em como esquecemos do primeiro passo, mas dificilmente
da coletividade que ele carrega. Me lembro da estante de livros de autores
negros, dos que tive a honra de ouvir, das pessoas que conheci, dos eventos
onde apresentei pesquisa acadêmica, de homenagens, lançamentos, de toda a
espécie de encontros, mas não lembro claramente das conversas, o que não
significa que não tenha aprendido. Pelo contrário, sei e posso falar de muita
coisa, emaranhar esses conhecimentos de forma muito tranquila, mas
dificilmente seria capaz de cataloga-los de forma mecânica. E o que isso significa
para uma pessoa negra pesquisadora ou em caminhada a ser? Acredito que tem
a ver com o aprendizado sobre a natureza das coisas, como bem diz a filosofia
africana.
Tudo isso, novamente nos leva ao ato de pensar o que é ser um
pesquisador, pesquisadora se formando, entre o contato, a observação e a

11
- africana – significa estar centrado por perspectivas negras. Toda a sua elaboração e modo de ver o
mundo é reorientado pelo conhecimento africano, nos termos globais da palavra.
12
- Amenemope, o coração e a filosofia, ou a cardiografia (do pensamento), de Renato Noguera, revista
Semna – Estudos de Egiptologia II (2015). Disponível em: https://seshat.museunacional.ufrj.br/wp-
content/uploads/2019/12/Semna-%E2%80%93-Estudos-de-Egiptologia-II-2019_02_28-17_14_54-
UTC_compressed.pdf

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interação. Seria esse um ato filosófico? O que inicia um pensar se construindo


dentro da nossa perspectiva de pessoa, que não é só um ato da mente física,
mas da ancestral a se despertar, e também, do coração (ib, na filosofia kemética)
que leva à verdade de quem somos e ao que produziremos a partir desse lugar
mais cedo ou mais tarde?
Enfim, iniciar uma trajetória investigativa sendo uma pessoa negra é
entender a cada passo que sua trajetória será marcada por quem você é, uma
pessoa negra e ainda mais caso se decida pelo pensamento social negro como
forma de produzir conhecimento e ação. Isso é muito nosso, da nossa concepção
de pessoa negra, parte de uma aldeia maior que precisa partilhar, aquilombrar,
resistir e viver. Isso é muito do nosso modo de ver o mundo e estar nele. E penso
no quanto isso nos define em cada passo em direção à pesquisa: ser
pesquisador(a) e contribuir com a comunidade ao nosso redor.
A minha primeira intenção ao escrever essas palavras era falar da
importância dos conceitos, epistemologias, pessoas e métodos negros/es, mas
foi quando percebi que antes disso precisava falar do que é ser uma pessoa
negra pesquisadora, ao menos tentar e deixar perguntas no ar sobre o quanto
nos entender um ser filosófico em termos próprios é imprescindível a sustentar
o nosso desejo investigativo e o de compartilhar saberes. O que muito me
lembra, mais uma vez, os desafios mitológicos, normalmente colocados diante
de pessoas especiais (comuns) exatamente por serem fálicas e ao mesmo
tempo persistentes, escolhidas não por um chamado, mas pelo seu próprio
desejo de se aventurar entre desafios e trazer a mudança e o conhecimento
dessa jornada para os seus.
Acredito que esse seja o vislumbre do que é a essência (Ser) de uma
pessoa negra pesquisadora em jornada: um Ser que aprende com o coletivo e a
um coletivo devolve o que elabora para que o próximo em seus passos faça mais
que si e assim por diante. Por isso, ancestralidade é mais que família, amigos...
é um elo universal que pode ser reatado e é o que temos de melhor a oferecer
Então, concluo essa breve introdução de pensamento pedindo desculpas
pelo emaranhado de pensamentos que trago para o início de nossos trabalhos
no Grupo de Pesquisas Baixada, também, mas que acredito serem pertinentes
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para nossas trocas nesse primeiro encontro. E finalizo, convidando-os e as a


experimentar a prática de filosofar a si, que não tem a ver com o que
aprendemos, mas com o como nos atentamos a entender a natureza das
coisas...

Texto do curso Sankofia 2021 e Grupo de Estudos Baixada LaborAfro