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SAMIZDAT

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8
setembro
2008

ficina

SELEÇÃO
BRASILEIRA
a concisão da obra de
Marcelo Spalding
SAMIZDAT 8
setembro de 2008

Edição, Capa e Diagramação: Obra Licenciada pela Atribuição-Uso Não-Comercial-Vedada


Henry Alfred Bugalho a Criação de Obras Derivadas 2.5 Brasil Creative Commons.
Todas as imagens publicadas são de domínio público ou
Autores royalty free.
Alian Moroz As idéias expressas e a revisão das obras são de inteira res-
Carlos Alberto Barros ponsabilidades de seus autores ou tradutores.
Giselle Natsu Sato
Guilherme Rodrigues
Henry Alfred Bugalho
Joaquim Bispo
José Espírito Santo
Marcia Szajnbok
Maria de Fátima Santos
Volmar Camargo Junior
Zulmar Lopes

Autores Convidados
Marcelo Spalding

Textos de:
Paulo Bomfim

Imagem da capa:
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Sumário
Por que Samizdat? 6
Henry Alfred Bugalho

ENTREVISTA
Laura Bacellar 8

MICROCONTOS
José Espírito Santo 14
Marcia Szajnbok 18
Volmar Camargo Junior 18

RECOMENDAÇÕES DE LEITURA
40 novelas de Luigi Pirandello 20
Marcia Szajnbok

AUTORES EM LÍNGUA PORTUGUESA


A Alma Paulistana de Paulo Bomfim 22

CONTOS
Encarna Val 26
Carlos Alberto Barros

O Imenso e o Infinito 28
Volmar Camargo Junior

A Ordem do Mundo 32
Henry Alfred Bugalho
O Alvo Simbiótico 34
José Espírito Santo
Saudades da Minha Terra 36
Joaquim Bispo
Histórias 38
Maria de Fátima Santos
Melodrama 40
Guilherme Rodrigues
Noite Estrelada 41
Guilherme Rodrigues
A Natureza do Escorpião ou Narrativa
Literário-futebolística em Quinhentas
Palavras 42
Zulmar Lopes
Giralua 44
Alian Moroz

AUTOR CONVIDADO
Seleção Brasileira 46
Marcelo Spalding

TEORIA LITERÁRIA
Pequena Poética do Miniconto 50
Volmar Camargo Junior
Enchendo Lingüística na SAMIZDAT: Writing
for Dummies 54
Volmar Camargo Junior

POESIA
Miopis 58
Carlos Alberto Barros
Sonetos 59
Guilherme Rodrigues

Laboratório Póetico - Poetrix 60


Volmar Camargo Junior
Poesia Concreta 61
Volmar Camargo Junior
Poetrix 62
José Espírito Santo
Brincando de faz de Conta 63
Giselle Natsu Sato
Folha 64
Marcia Szajnbok

To be and not to be 65
Marcia Szajnbok

SOBRE OS AUTORES DA SAMIZDAT 89

SEÇÃO DO LEITOR
Agora o leitor da SAMIZDAT também pode colaborar com a elaboração da revista.
Envie-nos suas sugestões, críticas e comentários.
Você também pode propor ou enviar textos para as seguintes seções da revista: Rese-
nha Literária, Teoria Literária, Autores em Língua Portuguesa, Tradução e Autor Convi-
dado.
Escreva-nos para:
revistasamizdat@hotmail.com
Por que Samizdat?
“Eu mesmo crio, edito, censuro, publico,
­distribuo e posso ser preso por causa disto”
Vladimir Bukovsky

Henry Alfred Bugalho Inclusão e Exclusão se converte em uma ditadu-


henrybugalho@hotmail.com ra como qualquer outra. É a
microfísica do poder.
Nas relações humanas,
sempre há uma dinâmica de Em reação, aqueles que
inclusão e exclusão. se acreditavam como livres-
pensadores, que não que-
O grupo dominante, pela
riam, ou não conseguiram,
própria natureza restritiva
fazer parte da máquina
do poder, costuma excluir ou
­administrativa - que esti-
ignorar tudo aquilo que não
pulava como deveria ser a
pertença a seu projeto, ou
cultura, a informação, a voz
que esteja contra seus prin-
do povo -, encontraram na
cípios.
autopublicação clandestina
Em regimes autoritários, um meio de expressão.
esta exclusão é muito eviden-
Datilografando, mimeo-
te, sob forma de perseguição,
grafando, ou simplesmente
censura, exílio. Qualquer um
manuscrevendo, tais autores
que se interponha no cami-
russos disseminavam suas
nho dos dirigentes é afastado
idéias. E ao leitor era incum-
e ostracizado.
bida a tarefa de continuar
As razões disto são muito esta cadeia, reproduzindo tais
simples de se compreender: obras e também as p ­ assando
o diferente, o dissidente é adiante. Este processo foi
perigoso, pois apresenta designado "samizdat", que
alternativas, às vezes, muito nada mais significa do que
melhores do que o estabe- "autopublicado", em oposição
lecido. Por isto, é necessário às publicações oficiais do
suprirmir, esconder, banir. regime soviético.

A União Soviética não


foi muito diferente de de-
mais regimes autocráticos.
­Origina-se como uma forma
de governo humanitária,
igualitária, mas
Foto: exenplo dum samizdat. Corte- logo
sia do Gulag Museum em Perm-36.

6 SAMIZDAT agosto de 2008


6
E por que Samizdat? revistas, jornais - onde ele des tiragens que substitua
possa divulgar seu trabalho. o prazer de ouvir o respal-
O único aspecto que conta é do de leitores sinceros, que
A indústria cultural - e o
o prazer que a obra causa no não estão atrás de grandes
mercado literário faz parte
leitor. autores populares, que não
dela - também realiza um
perseguem ansiosos os 10
processo de exclusão, base- Enquanto que este é um mais vendidos.
ado no que se julga não ter trabalho difícil, por outro
valor mercadológico. Inex- lado, concede ao criador uma Os autores que compõem
plicavelmente, estabeleceu-se liberdade e uma autonomia este projeto não fazem parte
que contos, poemas, autores total: ele é dono de sua pala- de nenhum ­movimento
desconhecidos não podem vra, é o responsável pelo que literário organizado, não
ser comercializados, que não diz, o culpado por seus erros, são modernistas, pós-
vale a pena investir neles, é quem recebe os louros por ­modernistas, vanguardistas
pois os gastos seriam maio- seus acertos. ou q­ ualquer outra definição
res do que o lucro. que vise rotular e definir a
E, com a internet, os au- orientação dum grupo. São
A indústria deseja o pro- tores possuem acesso direto apenas escritores ­interessados
duto pronto e com consumi- e imediato a seus leitores. A em trocar experiências e
dores. Não basta qualidade, repercussão do que escreve sofisticarem suas escritas. A
não basta competência; se (quando há) surge em ques- qualidade deles não é uma
houver quem compre, mes- tão de minutos. orientação de estilo, mas sim
mo o lixo possui prioridades
a heterogeneidade.
na hora de ser absorvido Ao serem obrigados a bur-
pelo mercado. larem a indústria cultural, os Enfim, “Samizdat” porque a
autores conquistaram algo internet é um meio de auto-
E a autopublicação, como que jamais conseguiriam de publicação, mas “Samizdat”
em qualquer regime exclu- outro modo, o contato qua- porque também é um modo
dente, torna-se a via para se pessoal com os leitores, de contornar um processo
produtores culturais atingi- o ­diálogo capaz de tornar a de exclusão e de atingir o
rem o público. obra melhor, a rede de conta- ­objetivo fundamental da
tos que, se não é tão influen- ­escrita: ser lido por alguém.
Este é um processo soli-
te quanto a da ­grande mídia,
tário e gradativo. O autor
faz do leitor um colaborador,
precisa conquistar leitor a
um co-autor da obra que lê.
leitor. Não há grandes apa-
Não há sucesso, não há gran-
ratos midiáticos - como TV,

SAMIZDAT é uma revista eletrônica


­ ensal, escrita, editada e publicada pelos
m
­integrantes da Oficina de Escritores e Teoria
Literária. Diariamente são incluídos novos
textos de autores consagrados e de jovens
­escritores amadores, entusiastas e profis-
sionais. Contos, crônicas, poemas, resenhas
literárias e muito mais.

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Entrevista

LAURA BACELLAR
Laura Bacellar trabalha em
editoras desde 1983. Começou
na Editora Paz e Terra como
estagiária e já ocupou todas as
funções editoriais – de produto-
ra na Hemus a editora chefe na
Brasiliense. Fundou e dirigiu o
primeiro selo editorial inteiramen-
te dedicado às minorias sexuais,
Edições GLS. Já foi editora em
casas pequenas, como a Mercuryo,
e enormes, como a Scipione.
Sua especialidade é não-ficção,
mas edita também paradidáticos,
literatura adulta, literatura infantil
e interesse geral. Escreveu três
livros como ghostwriter e um
com seu próprio nome, Escreva
seu livro – guia prático de edição
e publicação, pela Editora Mer-
curyo. Adaptou cinco clássicos do
inglês, Robinson Crusoé, Drácula,
Sherlock Holmes, Frankenstein e
Rei Artur, para a editora Scipione
e escreveu uma outra obra infan-
til, Mini Larousse da educação
no trânsito, para a Larousse do
Brasil em 2005. É co-autora, com SAMIZDAT: Laura, como meus colegas, a internet é
o índio cariri Tkainã, do juvenil você percebe a relação vista como algo sem muitos
Mãe d’água pela Scipione. Dá das editoras com a lite- critérios de qualidade, sem
cursos regularmente para autores
ratura que tem surgido seleção prévia. Assim, ficar
e editores em instituições como a
na internet? Os editores lendo textos na rede che-
Universidade do Livro, ligada à
têm prestado atenção no ga a ser pior do que ler os
Unesp. Mantém o site www.escre-
vaseulivro.com.br, que é bastante que ocorre no mundo originais que chegam sem
utilizado por editores para instruir virtual ou ainda preferem ser solicitados às editoras,
autores que os procuram. Atual- os métodos tradicionais porque pelo menos para
mente trabalha como free-lancer para selecionarem autores enviar um texto para análi-
para várias grandes editoras e é inéditos? se o autor tem um trabalho
responsável pela Editora Mala- mínimo, enquanto que para
gueta, a primeira editora dirigida a colocar alguma coisa na in-
lésbicas do Brasil. Laura Bacellar: Claro que só ternet parece muitas vezes
posso falar sobre os edito- não haver nenhum esforço
res que conheço, certo? Mas ou custo.
entre esses profissionais

8 SAMIZDAT agosto
julho de
de2008
2008
8
Os editores usam tudo o
Pessoalmente, as poucas Diante de um país como que sabem – experiência,
vezes em que naveguei em o Brasil, onde a leitura prêmios, tendências no ex-
sites de textos de ficção, está longe de ser algo que terior, gosto pessoal, conver-
fiquei um tanto escandali- realmente faça parte da sas com o público, atenção
zada com a falta de respeito cultura cotidiana, como da mídia – para apostar nos
pela língua portuguesa e fica o interesse das edi- autores que lhes pareçam
pelas convenções mais bási- toras em lançar novos mais interessantes.
cas sobre como contar uma escritores?
história. Há uma quantida- E o quanto investem em
de imensa de textos ruins possíveis novos talentos
online, ainda L.B.: Olhe, é
impossível depende das editoras em
que mistura- Publicar é um que trabalham, da margem
da a muita generalizar
negócio de risco, a atitude que têm para puro risco, do
coisa boa,
o que desa-
e um escritor das editoras, perfil de aventura ou tradi-
ção cultivado pela casa.
nima quem desconhecido de porque elas
queira fazer ficção é o maior risco são muitas.
uma seleção. que existe. Há desde Nos EUA e Europa, os
editoras que agentes literários repre-
caçam ape- sentam um papel impor-
Por outro nas um pos- tante no mercado, servin-
lado, há os sível sucesso do de ponte entre autores
blogs de pessoas inteligen- comercial até aquelas que e editoras. Este modelo
tes, há sites bem escritos, há são projetos de vida, dedi- poderia ser reproduzido
revistas interessantes que cadas a publicar talentos eficazmente no Brasil?
permitem aos editores loca- raros. E no meio também Quais seriam as vantagens
lizar especialistas articula- tem de tudo, passando pelas desta intermediação para
dos em determinadas áreas, que publicam os amigos, as um autor inédito?
há discussões em fóruns e que são cooperativas de au-
toda uma gama de ativida- tores para se auto-publicar,
des intelectuais que podem as que arriscam algo dife- L.B.: Sim, esse modelo ajuda-
servir de vitrine para escri- rente de vez em quando, as ria bastante nosso mercado.
tores. que só publicam clássicos, O problema principal das
as que só olham para os editoras é justamente triar
estrangeiros premiados fora o que tem certa qualidade
Assim, para responder à do país, etc, etc. e depois trabalhar com o
sua pergunta, eu diria que autor de forma a chegar
editores ainda preferem num texto publicável, já
escolher autores de ficção Publicar é um negócio de que a grande maioria dos
que existam fora da rede, risco, e um escritor desco- autores não sabe como
mas usam a internet para nhecido de ficção é o maior produzir um texto acabado.
verificar a abrangência de risco que existe. Dali pode Os agentes fazem isso lá
opiniões daquela pessoa, o brotar um sucesso sensa- fora, mas a um custo. E eles
que existe sobre ela, se ela cional ou uma reputação existem num mercado que
tem contos ou artigos já pu- prestigiosa, mas também têm muito mais intermedi-
blicados em algum lugar, se pode não acontecer abso- ários do que aqui. Qualquer
já fez parceria com alguém lutamente nada. Há autores universidade merreca lá
e todo tipo de informação que não vendem nem dez tem cursos e mais cursos
que é útil ter sobre um exemplares por ano! de escrita criativa, de fan-
autor. tasia, de roteiro, de criação

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de personagens. O escritor L.B.: Acho que elas cum- de serviços já prestados a
americano e canadense e prem a função de atender outros autores a empresa
europeu tem muito mais ao autor que quer ser pu- pode dar?
oportunidades de apren- blicado por razões pessoais,
der e refinar sua escrita de que não envolvem neces-
maneira calma, num am- sariamente uma interação E, como com todo serviço, é
biente profissional, do que o com um público que não o bom olhar em volta e com-
brasileiro. conheça previamente. Mas parar preços.
para lançar autores no mer-
cado, pelo A chamada
Aqui os cursos são pou-
cos e conheço apenas uma
que tenho ...nossos escritores “literatura
visto esses
agente que trabalha com iniciantes são espírita”
prestadores
autores iniciantes. de serviço realmente iniciantes, é um seg-
mento que
não funcio- não entendem nada tem parte
Assim, nossos escritores nam. do processo editorial, considerável
iniciantes são realmente em geral não do mercado
iniciantes, não entendem literário.
Estão criando conseguem separar
nada do processo editorial, um ambien- A maioria
em geral não conseguem uma crítica ao texto das obras é
te perigoso,
separar uma crítica ao texto aliás, de de uma crítica publicada
de uma crítica pessoal, contar lin- pessoal... por editoras
não têm noção de público das histórias, especializa-
e adequação de estilo, são prometer das e têm
super inseguros, de modo várias coisas bem vagas e o lucro revertido para o
geral super ansiosos e difí- extrair quantias respeitáveis movimento ou entidades
ceis de lidar. dos autores. relacionadas - as chama-
das obras básicas, por
exemplo, são editadas
Se houvesse uma batelada Eu não vou me estender pela própria Federação
de agentes explicando para aqui sobre isso porque é Espírita. Outros autores,
essas pessoas o que é o quê, um assunto enorme, mas bem menos proselitistas,
sem dúvida cumpririam a vou dar uma dica: se a seguem a mesma linha,
missão de funcionar como editora pede que o autor estando, em geral, entre os
interface entre eles e os “contribua”, “arque com os mais vendidos.
editores. Facilitaria bem o custos de produção”, “invis-
trâmite e é provável que ta na divulgação” ou qual-
aos poucos venha a aconte- quer outra frase bonita que Um escritor que iniciou a
cer, já que os editores têm subentenda colocar a mão carreira vendendo obras
cada vez menos tempo para no bolso e pagar alguma quase como “manuais de
essa educação do autor, mas coisa, não se trata de uma prática mágica” é Paulo
o mercado está super ativo. editora, mas de um pres- Coelho. Seus livros sem-
tador de serviço. Se é um pre foram grandes su-
prestador de serviço, então cessos e, até hoje, ainda
O que você pensa das edi- vendem muito.
toras que trabalham sob o autor deve com todo o
demanda? Qual a impor- cuidado avaliar a relação
tância delas no mercado custo-benefício. Quais são Qual sua opinião sobre
literário? os serviços que serão pres- esse fenômeno? Como
tados exatamente? Qual a você o explicaria?
garantia? Que exemplos

10 SAMIZDAT agosto
julho de
de2008
2008
10
L.B.: Ora, as pessoas gostam ao entrar numa livraria, vários tipos de problemas
de ler obras que expliquem compra o primeiro título com a escrita. Os muito au-
os mistérios do mundo. que lembra aquilo que está tocríticos tendem a querer
Se o autor é convincente e sendo tão comentado, sem se certificar demais de que
passa credibilidade, encon- se dar conta que sequer é está tudo certo e aí empa-
tra leitores. a obra original. O Quem cam no mesmo texto para
mexeu no meu queijo sempre. Os muito autocon-
gerou uma série de cópias fiantes acham que qualquer
Qual é “o segredo” da semelhantes e várias delas coisa que produzam está
Rhonda Byrne? tiveram vendas bem razoá- ótima e nem precisa de re-
veis. Mas claro que isso só leitura. Os muito sonhado-
O Jornal O Povo, em pode ser praticado por uma res ficam imaginando tudo
sua versão online de grande editora, que tenha que receberão de prestígio
31/07/07, publicou a no- um bom relacionamento e dinheiro antes mesmo de
tícia “O Segredo é novo com as redes de livraria. tocar um dedo numa tecla.
fenômeno editorial”, onde Uma cópia por uma editora Os preguiçosos só falam
se encontra o seguinte pequena sem expressivida- sobre suas histórias. E por
trecho: de de distribuição não sai aí vai. A autora que cito
do depósito. deu muitos daqueles cursos
de escrita tão numerosos lá
Versão impressa do do- nos EUA e portanto tem ex-
cumentário homônimo Mas O segredo está mais periência com uma série de
filmado em 2006, a pu- para Paulo Coelho do que bloqueios comuns de escri-
blicação criou uma es- para cópia... ta, mas não são os únicos.
pécie de “segredomania’’
nacional, dando origem No site “Escreva seu livro”,
a outros lançamentos na Eu não diria que ser metó-
você reproduz algumas dico e disciplinado é o úni-
mesma linha. Recheada dicas de Jean Bryant sobre
de frases e histórias que co caminho para a escrita,
o que o aspirante a escri- mas que sem dúvida a pes-
demonstram que o pen- tor não deve fazer. Entre
samento é o responsável soa precisa dar uma olhada
elas, estão “faça muita para seus próprios hábitos
por tudo o que ocorre pesquisa antes”, “espe-
de bom ou ruim na vida e localizar o bloqueio caso
re até estar inspirado” e deseje escrever e não esteja
das pessoas, a publicação “deixe para depois” - ou
mostra como a força do conseguindo.
seja, algumas das descul-
pensamento pode modifi- pas comumente utilizadas
car a vida de todos. para postergar a escrita. Há quem diga que, para se
Você acha que esse é tornar um escritor profis-
Essa estratégia de pegar a um mal do escritor ini- sional, é preciso suportar,
mesma onda dos títulos ciante, o fato de encarar pelo menos, 15 anos de
que estão fazendo muito a escrita como uma arte rejeição. Tomando isso
sucesso não é novidade. que depende apenas da como verdade, como esse
Com sua experiência, inspiração, esquecendo-se tempo poderia ser dimi-
acha que funciona? do fato de que é preciso nuído?
também transpiração, ou
seja, trabalho metódico e
L.B.: Em parte, sim. Tem disciplinado? L.B.: Virginia Woolf dizia
muita gente que ouve falar que ninguém devia ser
de alguma coisa mas não publicado antes dos trinta
sabe bem o que é. Assim, L.B.: Há vários tipos de anos de idade, hehehe.
personalidade, o que leva a

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escrever feito um maníaco, determinado prazo, dentro
Eu não acho que ninguém apesar de este ter sido o ca- de condições específicas e
deva se preparar para a minho de escritores ótimos oferecem a possibilidade de
rejeição, mas acho muito como Jack London, mas sim um prêmio – muitas vezes
útil abrir os olhos. Se você a dedicação de entender o nada simbólico – como
der uma olhada nos comen- que está acontecendo em incentivo. Mais ainda, dão
tários postados no meu site, volta. a certeza de que a obra será
vai encontrar uma reclama- lida por pareceristas aten-
ção repetida por vários: eu tos.
Porque as pessoas gostam
sou dura, furo o balão dos de tal obra? O que esse
sonhos, jogo baldes de água escritor está dizendo que Nenhuma escolha é isenta
fria. atrai os de vieses,
leitores? Por A escrita, como claro, mas
Eu sempre abro as mãos e que as edito- qualquer carreira, sei de vá-
olho para cima em perple- ras publicam depende de uma rios casos
esse tipo de em que os
xidade quando leio algum conjunção de vários
desses comentários. Então a autor? O que prêmios de
essa autora fatores, incluindo fato abriram
pessoa prefere sonhos sem
base na realidade? Prefere diz que tanto talento, dedicação e caminho
embarcar em lindas his- seduz seu sorte. para que es-
tórias de prestadores de público? critores até
serviço que lhe arrancarão então inédi-
o preço de um carro novo? tos fossem
Já vi várias publicados
Prefere achar que vai ga- ocasiões em
nhar o prêmio Nobel de e recebidos com simpatia
que o autor finalmente teve pelo mercado.
Literatura do ano que vem? um momento aha! e adap-
tou a sua obra, sendo publi-
O quanto antes o escritor cado em seguida. Claro que nada disso vale
novato se livrar desses delí- quando o prêmio é um jogo
rios, tanto melhor para sua dentro de uma panelinha...
Ou seja, entender o lado de
carreira. O quanto antes se trabalho, o lado de constru-
livrar da noção de que a ção das obras, o lado não Ainda no site “Escreva seu
literatura é produzida num romântico da escrita. Não livro”, há várias dicas de
vácuo, que não depende em há nada de errado com a como um escritor pode
nada do mundo ao redor, inspiração, mas sem os pés facilitar a publicação
tanto melhor. na realidade a carreira a de seu livro e como a
meu ver não decola. utilização realista e fun-
A escrita, como qualquer damentada das políticas
carreira, depende de uma editoriais contribui para
Qual sua opinião sobre o possível sucesso dele.
conjunção de vários fatores, concursos literários?
incluindo talento, dedicação Diante disso, o que você
Acredita na eficácia e pode nos falar de sua
e sorte. Todos podem ser valor deles no incentivo à obra “Escreva seu Livro –
cultivados (quem sabe lendo produção literária?
O segredo você muda sua guia prática de edição e
sorte, hehehe), mas não há publicação”? Ela foi plane-
dúvida de que a dedicação L.B.: Sim quando são sérios. jada segundo as próprias
rende bons frutos. E não Eles incentivam as pessoas dicas dadas? Esta aborda-
quero dizer a dedicação de a escrever e entregar num gem funcionou?

12 SAMIZDAT agosto
julho de
de2008
2008
12
L.B.: Sim, eu escrevi o livro
com base nas necessidades
que sentia nos autores, com
base em minha experiência
de vários anos como edito-
ra. Note que deixei de lado
reminiscências, causos e
outros assuntos que pode-
riam ser divertidos para
mim mas não iriam auxi-
liar em nada meu público
potencial, além de poderem
tornar a obra grande e cara.

De certa forma errei ao


publicá-lo em uma editora
genérica como a Mercuryo
e não em uma especializa-
da em comunicação. Meu
raciocínio foi o de que toda
editora, afinal, trata com
autores, este é um assun-
to básico para qualquer
casa editorial, mas não fui
esperta. Meu assunto era
comunicação e eu deveria
ter tido a paciência de en-
contrar uma editora focada.
Qualquer hora corrijo isso
publicando outra obra sobre
editoras...

A equipe editorial da SA- Coordenador da entrevista:


MIZDAT agradece muito Carlos Alberto Barros
sua participação e deseja
todo sucesso em seu tra-
balho! Perguntas feitas por:
Alian Moroz
Carlos Alberto Barros
Henry Alfred Bugalho
Marcia Szajnbok
Volmar Camargo Junior
Zulmar Lopes

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Microcontos

Contos Mínimos:
Série Cupido

http://www.flickr.com/photos/56832361@N00/2769166229/sizes/l/

14 SAMIZDAT agosto de 2008


14
Má pontaria
José Espírito Santo

E então ele acertou em Narciso. Duas vezes.

Par
José Espírito Santo

E quando o professor pediu para definirem número


par, o aluno respondeu: A quantidade de setas...

Paradoxo
José Espírito Santo

Inexplicável para ele, o amor era em


maior quantidade que as setas...

Alvo
José Espírito Santo
Naquele dia, iria treinar com “D.Juan”, o seu alvo
preferido...

Miopia
José Espírito Santo

Aconteciam as coisas mais extraordi-


nárias desde que tinha ficado míope...

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Microcontos

Contos Mínimos: Série


Idiotas

Confusão
José Espírito Santo

- Olha, o gajo está a rir.


- Corre, idiota. Não vês que isso que vem atrás de
nós é um T-Rex...

Interpretação
José Espírito Santo

O urso chegou e comeu o esquimó. Ficou sobrando a


mulher. Seria gay?

16 SAMIZDAT agosto de 2008


16
Eclipse
José Espírito Santo

Quando soube, congratulou-se. Iria fi-


nalmente poder ver o Sol sem o auxilio
de óculos escuros.

Troca
José Espírito Santo
Faziam sempre amor no guarda-fato. Um dia, o ma-
rido dela chegou mais cedo. Aníbal correu a escon-
der-se na cama.

Difícil
José Espírito Santo

.princípio o para fim do textos os Es-


crevia. ler de difícil autor um Era

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Microcontos
Coisas de Mulher
Marcia Szajnbok

VII.
Dor, emoção, expectativa. Luz. Frio. A voz do médico:
- Vamos lá, agora uma força comprida, só mais uma!
Respirou. Empurrou. Um choro encheu a sala e esvaziou a barriga.
Compreendeu, naquele instante, porque nem a deus é possível fazer não aconte-
cer o que já aconteceu. Estava comprovada a irreversibilidade do tempo.

Mensário de Histórias Curtíssimas Sem


Pé Nem Cabeça
Volmar Camargo Junior

I
Então ele me perguntou: “Vai doer?”.

II
Depois de ter presenciado aquela cena, Ronald tomou sua decisão.

18 SAMIZDAT agosto de 2008


18
III
— Eu juro que só fiz isso para o seu bem.

IV
O cachorrinho voltou e quis de volta o que era seu.

V
Aguarde um momento que ela já vai atendê-los.

VI
— Tá, e daí?

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Recomendações de Leitura

40 novelas
de Luigi Pirandello
Marcia Szajnbok

40 Novelas de Luigi
­Pirandello

Tradução: Maurício Santa-


na Dias

Editora: Companhia das


Letras

20 SAMIZDAT agosto de 2008


20
Em 2006, por conta dos
150 anos do nascimento de
Sigmund Freud, várias insti-
tuições promoveram eventos
para comemorar a data. Uma
delas, a Oficina de Psicanálise
Lacaniana, realizou um ciclo
de debates que giravam em
torno do tema “Psicanálise e
Literatura”, do qual tive o pri-
vilégio de participar. O convite
muito me alegrou, já que te-
nho interesse nos dois campos.
A alegria, entretanto, cedeu
logo a uma forte apreensão.
Deveria falar sobre possíveis
relações entre Freud e Piran-
dello, e o meu companheiro
debatedor seria um professor
da FFCLH-USP, especialista no
autor. Socorro! pensei comi-
go. Meu conhecimento sobre
Pirandello se resumia, então, à
leitura de um ou dois contos e
à vaga memória de uma mon-
tagem de “Seis Personagens a
Procura de um Autor” da dé-
cada de 70, por algum grupo
amador... Tres meses depois, lá
estava eu, na Casa das Rosas, serviu de acesso à obra de um que estão dispostos ou, no que
em São Paulo, com um pouco autor que conhecia pouco, mas constitui um aspecto muito
mais de leituras e um texto que, desde então, não parei de interessante do livro, percorrer
preparado. Me perguntava que ler e reler. a gênese de um determinado
tipo de observações iria ouvir texto teatral a partir de um
do tal professor, que supunha Foi por esse caminho que
cheguei às “40 Novelas de núcleo de textos, ou de uma só
ser um senhor idoso, carran- narrativa.
cudo e muito formal, que se Luigi Pirandello” que a Com-
dirigiria a mim e à platéia panhia das Letras lançou há Este volume nos oferece
com um sotaque pedante e alguns meses, com textos uma deliciosa síntese da obra
empolado. traduzidos e organizados jus- de Pirandello. Para quem já é
tamente por Maurício Santana fã do autor, a oportunidade de
Foi preciso um evento Dias. Neste volume, encontra- ler uma tradução primorosa.
psicanalítico para que eu se uma antologia de narrativas Para os que o conhecem pou-
comprovasse, mais uma vez, a curtas, muitas delas publicadas co, um convite para mergulhar
genial sacada de Freud: entre esparsamente em jornais e neste desfile de personagens
a realidade objetiva e a reali- revistas italianos, e organiza- e situações que nos confron-
dade psíquica, abre-se muitas das por Pirandello a partir de tam, a cada página, com sua
vezes um abismo! O professor 1920 sob o título de “Novelas acurada apreensão da vida e
Maurício Santana Dias era um para um Ano”. Elas consti- da natureza humana traduzida
jovem, trajando calças jeans e tuem a matriz de tramas que em farsa trágica.
mangas de camisa, muito sim- reaparecem em romances e
pático e informal que nos deu, peças teatrais posteriores. Esta
a mim e ao público, uma aula edição está organizada de tal
magistral e apaixonada sobre modo, que é possível seguir os
a obra de Pirandello. Des- contos sucessivamente, segun-
se modo, aquele convite me do a ordem cronológica em

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Autor em Língua Portuguesa

A ALMA PAULISTANA
de PAULO BOMFIM

Paulo Bomfim nasceu em Outras obras: "Transfigu-


São Paulo no dia 30 de se- ração" (1951), "Relógio de
tembro de 1926.Iniciou suas Sol" (1952), "Armorial" (1954),
atividades jornalísticas em "Sonetos"(1959), "Colecio-
1945, no Correio Paulistano, nador de Minutos", "Ramo
indo a seguir para o Diário de Rumos" (1961), "Sonetos
de São Paulo. Foi diretor de da Vida e da Morte" (1963).
Relações Públicas da "Fun- "Tempo Reverso" (1964),
dação Cásper Líbero". Na TV, "Canções" (1966), "Calendá-
produziu "Universidade na rio" (1963), "Praia de Sonetos"
TV" no Canal 2, "Crônica da (1981),"Sonetos do Caminho"
Cidade" e "Mappin Movieto- (1983), "Súdito da Noite"
ne" no canal 4. Apresentou (1992). Suas obras foram
no Rádio Gazeta, "Hora do traduzidas para o alemão, o
Livro" e "Gazeta é Notícia". francês, o inglês, o italiano e
Seu livro de estréia foi o castelhano. Conquistou o
"Antônio Triste", publica- "Troféu Juca Pato" em 1981.
do em 1947 com prefácio É hoje o decano da Academia
de Guilherme de Almeida Paulista de Letras.
e ilustrações de Tarsila do
Amaral, premiado em 1948
pela Academia Brasileira de
Letras com o "Prêmio Olavo
Bilac".

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22 SAMIZDAT agosto de 2008


22
Antônio Triste

Esguio como um poste da Avenida


Cheio de fios e de pensamentos,
Antônio era triste como as árvores
Despidas pelo inverno,
Alegre, às vezes, como a passarada
Nos fins da madrugada.

Sozinho, como os bancos de uma praça


Em noites de neblina,
Antônio, protegido de retalhos
Com seu cigarro aceso,
Lembrava-me um balão que, multicor,
Se vê no firmamento:
Não se sabe donde veio
Não se sabe aonde vai.

Não era velho


Nem era moço,
Não tinha idade
Antônio Triste.

Quando as luzes cansadas se apagavam


E as trevas devoravam a cidade,
Antônio Triste chorava e cantava:
À luz de um cigarro, bailava e rodava
Pelas ruas desertas e molhadas.

Mas, certa noite um varredor de rua,


Viu muito lixo no chão:
Tanto trapo amontoado,
Quase um balão de São João!
Um resto de cigarro num canto da boca,
A mecha se apagara.
Antônio, o triste balão de retalhos,
Findara!

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Soneto I

Venho de longe, trago o pensamento


Banhado em velhos sais e maresias;
Arrasto velas rotas pelo vento
E mastros carregados de agonia.

Provenho desses mares esquecidos


Nos roteiros de há muito abandonados
E trago na retina diluídos
Os misteriosos portos não tocados.

Retenho dentro da alma, preso à quilha


Todo um mar de sargaços e de vozes,
E ainda procuro no horizonte a ilha

Onde sonham morrer os albatrozes...


Venho de longe a contornar a esmo,
O cabo das tormentas de mim mesmo.

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24 SAMIZDAT agosto de 2008


24
A Água

Despe, na solidão da tarde,


Tua roupagem manchada de quotidiano,
E deixa que a chuva molhe teus cabelos
E vista teu corpo de escamas de prata.
Pousa, em teus ombros, o manto dos lagos
E colhe no cântaro de tuas mãos
A música dos dias que adormeceram
No fundo de teu ser.
Mármores líquidos moldarão teu corpo.
Nuvem,
Penetrarás a carne da manhã.

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Contos

ENCARNA VAL
Carlos Alberto Barros
carloseducador@hotmail.com

26 SAMIZDAT agosto de 2008


26
Val era uma moça reca-
tada, tímida, só no seu can- “Encarna, Val”.
tinho. Todos a conheciam
e abominavam: “Essa daí é
doida. Não sai de casa pra Ela encarnou.
nada, parece até um bicho!”

Passados alguns dias, lá es-


De certa maneira, era qua- tava novamente: desplumada,
se isso. Val estava sempre na sem tintas, recatada, tímida...
sua toca gélida a se esconder só no seu cantinho.
da luz do Sol e dos fero-
zes predadores loucos para
devorá-la com suas línguas e
dentes afiados.

Acontece que em certa


época do ano, como em um
período de hibernação às
avessas, Val saía para alimen-
tar seu corpo.

Os que estavam à volta


não acreditavam. Mas era
ela, a Val. Não a presa, mas a
predadora. Com suas garras
e beiços pintados, suas plu-
mas de pavão intimidador a
bailarem em torno de si e o
corpo nu mostrando a força
de seus instintos primitivos.

Em seu novo visual Darwi-


niano, mostrando-se um dos
animais mais evoluídos que
jamais existiu, aguardava o
som entorpecente dos tam-
bores de batalha para saciar
seus desejos secretos, aqueles
trancados por muito tempo
que, quando libertos, saem
feito o mais santo e prazero-
so dos martírios.

E os tambores ressoaram.

Um alguém qualquer num


canto qualquer avistou Val
parada e rosnou com volú-
pia:

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Contos

O IMENSO E O INFINITO
Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com

http://www.flickr.com/photos/slimdandy/571849509/sizes/o/

28 SAMIZDAT agosto de 2008


28
“Sete de abril de 19..... embarcou. Lembra-se do
Peter, aquele moço canaden-
se que ficou alguns meses na
É impressionante, Gilda. casa da Doutora Nélia? Ele
Como eu gostaria que você mesmo. Eu o vi, até o cum-
pudesse ver isso tudo. O primentei, mas creio que ele
telegrafista disse-me que a não me reconheceu. Aliás, é
operação do instrumento uma coisa que tenho nota-
que ele usa é muito simples. do nas pessoas neste navio.
Mesmo assim, preferi apenas Logo que sobem a bordo,
ditar a ele a mensagem para parecem perdidos, apáticos, e
transmitir a você. Como não isso dura por vários dias. De
tenho muito tempo, e outras todo modo, estou aprovei-
pessoas também desejam tando bastante. O mar está
comunicar-se com o conti- calmo e tenho-me ocupado
nente, despeço-me dizendo em desvendar as alas des-
que estou muito bem. Seu. se gigante dos mares. Para
Sérgio.” minha satisfação, encontrei
algo que você iria adorar se
estivesse aqui: uma bibliote-
— Meu Deus, Gilda.
ca. Assim que possível, volto
— Sim. – Gilda enxugou a escrever-lhe.”
as lágrimas – Encontrei isso
hoje na minha caixa de
correio.
— Isso não pode ser sério. Gilda entregou o papel à
Ou poderia? irmã. Os caracteres eram im-
pressos como em um mime-
— Não sei, Gessi! Não Sei!
ógrafo à graxa, e não havia
Não acredito nessas coisas...
remetente no envelope.
Mas é uma carta, e é muito
parecida com o jeito que o — Você devia levar isso
Sérgio escrevia. Esse “despe- para a polícia. Alguém se
ço-me dizendo que” é muito passando por seu marido
a cara dele. está mandando “mensagens
telegrafadas”. Se o Sérgio ti-
— E como você sabe que
vesse morrido, vá lá, que cen-
isso não é falso? Sei lá, pode
tros espíritas há aos montes
ser alguém brincando, algu-
por aí recebendo chamadas
ma ex-namorada dele.
do além. Mas ele está em
— Não faço a menor idéia. coma! Você não acredita
Olha... deixa isso aí. Quer nisso tudo, acredita?
um café?
— Quer saber? Não sei em
— Aceito. que acreditar. Mas isso do
Peter me deixou intrigada.
“Dez de abril de 19....
— Consultório médico,
boa tarde.
Minha doce Gilda. Não
pude me comunicar nos — Alô. Boa tarde. É do
últimos dias porque aporta- consultório da Doutora
mos em uma ilha. Você não Nélia?
vai acreditar ao saber quem — Sim. Deseja marcar

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uma consulta? sível cuja única imagem que dejá vu, do pior tipo deles:
— Na verdade, não. Aqui é tenho é uma silhueta negra os que dão certeza absoluta
a Gilda Menezes, fui vizinha que alguém disse “aquele de “já vivido”, mas nenhuma
da doutora. Eu poderia falar é o capitão do navio”, esse lembrança de “tempo” nem
com ela? É um assunto de Capitão anunciou estarmos “lugar”. Quando se aproxima-
família... retornando ao continente. va de casa, um homenzinho
O tempo piorou considera- exótico aguardava defronte
— Um momento, por favor. velmente depois disso. Sinto ao seu portão. Vestia-se com
[ ...ouve-se Pour Elise... ] muito sua falta. Espero que uma formalidade um tanto
esteja bem.” cômica, de terno cor-de-cane-
— Alô, Gilda?
la e sapatos pretos.
— Oi, Doutura.
— Estou começando a
— Minha secretária disse
ficar com medo dessas cartas, — Tenho uma mensagem
que era um assunto de famí-
Gilda. para a senhora. – disse o
lia. Aconteceu alguma coisa
— E eu, então. Sabe essa homemzinho entregando-lhe
com o Seu Clóvis?
cena do capitão? um envelope.
— Não, doutora, O papai
— Sim. O que tem? — Então é você que tem
está ótimo. Obrigada por
deixado essas cartas na mi-
perguntar. O caso é outro. A — Há muitos anos, a pri- nha casa! O que pensa que
senhora se lembra daquele meira vez que saímos juntos, está fazendo? Eu vou denun-
rapaz canadense que se hos- Sérgio me levou ao cinema, ciá-lo!
pedou em sua casa? para vermos “Era uma vez na
América”. Eu vi pela janeli- — Por favor, senhora. Não
— Sim, o coitado. Foi tão
nha da sala de projeção a me interprete mal. Esse é o
triste... como soube?
silhueta de um homem, e meu trabalho.
— Como soube de quê?
perguntei quem era. O Sérgio — Trabalho? É o seu traba-
— Peter sofreu um aciden- disse exatamente isso: “aquele lho importunar a família de
te de carro. Permaneceu em é o capitão do navio”. Isso é pessoas doentes?
coma por meses, mas acabou assustador. Mas sabe... não é — Não, de forma alguma.
falecendo. Eu lembro até a isso o que me assusta mais. Eu sou apenas um telegrafis-
data. Foi no dia dez de abril.
— Não? O que pode ser ta.
mais aterrorizante que isso? Tendo dito isso, o homem
“Dezoito de abril de 19.... — O quadro de saúde virou de costas e desceu
dele. O médico disse que a rua sem olhar para trás.
o Sérgio está piorando. O Gilda abriu o envelope ali
Estive uns dias sem comu-
organismo não reage mais mesmo.
nicar-me porque o telegra-
ao tratamento, e as chances
fista do navio se ausentou.
de óbito... Deus do céu... não
Não sei como, mas acredito “Vinte de junho de 19.....
gosto nem de pensar nisso.
que a tripulação deva ter seu
Ele estava se recuperando tão
próprio equipamento, já que
bem.
é um instrumento impor- Finalmente estamos retor-
tante em alto-mar. Mesmo nando à terra firme. É curio-
assim, com a paciente ajuda Gilda voltava do traba- so quando se está há algum
de Peter, imagine só, aprendi lho de ônibus. Em um sinal tempo em alto mar, sobre
a escrever em código Morse. vermelho, cinco meninos um oceano tão estável e que
Esta mensagem fui eu mes- atravessaram na faixa de inesperadamente está-se num
mo que redigi. E sabe que é pedestres. O menorzinho, turbilhão e uma tempestade
bem fácil? Ontem enfrenta- que andava mais à frente, de tão grandes proporções
mos nossa primeira situação fez uma graça como um que mesmo eu, que sempre
realmente tensa a bordo. O passo de dança. Abateu-se apreciei tanto o mar, quis
Capitão, um homem inaces- sobre Gilda um daqueles muito voltar ao continente.

30 SAMIZDAT agosto de 2008


30
Sei que essa será apenas uma plodiu, voando pelos ares. O
breve parada de emergên- mar de gente que caminhava
cia. Por isso mesmo, gostaria tornou-se num instante em
muito de revê-la. Venha até um mar furioso de gente que
o cais do porto, para que corria. E os prédios vizinhos
possamos nos despedir como à velha padaria explodiram
devem ser as despedidas. junto, assim como muitos
Sempre seu. Sérgio.” carros na rua, e até a motoci-
cleta que entrega botijões de
gás. E Gilda não pôde com as
Gilda nem entrou em ondas de gente que se sobre-
casa. Correu até a avenida e punham umas às outras.
tomou um táxi.
Então ela tropeçou.
— Hospital São Vicente.
Rápido. As ondas vieram sobre ela.
E a arrastaram, e tornaram
a submergi-la. E todo o peso
O trânsito, que era caótico do mar de gente caiu sobre
àquele horário, ficou ainda Gilda. E todo o mundo, e o
pior. Uma passeata inter- porto aonde ela queria che-
rompeu as ruas do centro gar, que era apenas o hospital
por três horas. Um mar de a trezentos metros de onde
gente vestida de branco, com estava, tudo foi ficando dis-
bandeiras e cartazes brancos, tante, e mais distante, e mais,
pedia “Paz”. A turba vinha na até sumir de vez.
direção contrária à de Gilda,
que desceu do táxi para per-
correr o restante do trajeto Gilda.
a pé. Quanto mais tentava
avançar, mais os caminhantes Gilda.
a empurravam de volta.
Muitos quarteirões à
frente, um fumante despre- Gilda abriu os olhos.
ocupado lançou o toco de Diante dela, o rosto tranqüilo
cigarro ainda aceso na dire- de seu esposo, emoldurado
ção de um edifício antigo. por um céu tão limpo e tão
A chama percorreu no ar o azul como os que só viu no
espaço da rua, do muro, do cinema. Sérgio sorriu.
pátio, da pequeníssima janela — Ouve, meu amor. É o
do porão da fábrica aban- mar. O navio partiu, mas nós
donada de pães e biscoitos, a resgatamos a tempo.
onde uma nuvem de farinha
E era mesmo o mar. O
e poeira levantou-se pela
mar imenso refletindo o céu
vibração de tantos milhares
infinito, esses que só pare-
de pessoas em marcha. E
cem azuis e que na verdade
poucos são os que sabem que
não são. Finalmente, e juntos,
uma nuvem de farinha, em
Gilda e Sérgio estavam fazen-
tal ambiente como aquele
do o tão adiado cruzeiro sem
porão, pode tornar-se uma
destino certo, mas que só
bomba se uma chama, tal
muito raramente retorna ao
como aquela do cigarro, cair
porto de origem.
no meio dela. E foi o que
aconteceu. O prédio todo ex-

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Contos

A Ordem do Mundo
Henry Alfred Bugalho
henrybugalho@gmail.com

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32 SAMIZDAT agosto de 2008


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“O mundo não tem or- Num destes sonhos, ele como se fossem fórmulas
dem”, o monge que movi- havia sido um sábio grego matemáticas, e escrevia frases
mentava os sessenta e quatro obcecado com o conceito de como se fossem linhas me-
discos de bronze refletiu. máxima generalidade, “o ser lódicas duma sinfonia, mas
O ritual era simples: no enquanto ser”; noutro, um atormentando pelos enredos
início dos tempos, quando matemático italiano, autor irrealizáveis que ele mesmo
o mundo havia sido criado, duma obra intitulada Liber se propunha.
todos os discos foram co- Abaci, ou “Livro de Cálculo”, E, na noite anterior, Vi-
locados na primeira de três na qual ele apresentava ao dyacharan havia sido um
hastes, os maiores na base, os mundo ocidental a impor- físico americano que tentava
menores no topo, uma torre tância de se adotar o sistema compreender o caos e buscar
cônica; sempre existiu um numérico arábico, incluindo ordem no aleatório. Foi então
monge com a tarefa única o algarismo zero, e também que a revelação — “o mundo
de movimentar os discos, o a seqüência numérica inspi- não tem ordem” — o assolou.
objetivo era transportar todos rada nas descobertas métri-
cas dos monges. Em outra Ele se sentou diante dos
eles para a terceira haste, discos de bronze e, com
porém nunca, mas nunca noite, Vidyacharan era um
pintor de afrescos, devastado mãos trêmulas, movimentou
mesmo, um disco menor po- um deles. Toda sua formação
deria ficar abaixo dum disco pelo fracasso e pela busca
da máxima perfeição e da o havia preparado para aque-
maior. la tarefa, mas as visões no-
mais precisa harmonia. Em
Por mais simples que outra ainda, um matemático turnas minavam sua crença.
isto pudesse parecer, jamais francês que resgatava algu- “Seriam vislumbres de vidas
alguém havia conseguido mas descobertas do “Livro de futuras?”, ele se indagava.
perfazer a tarefa. Segundo Cálculo” e que implementava Aterrorizado com quais
as profecias, no dia em que suas próprias conclusões e sonhos as noites vindouras
todos os sessenta e quatro uma nova seqüência, através trariam, Vidyacharan dei-
discos fossem alocados na da qual obtinha, manualmen- xou a esteira na qual tentava
terceira haste, o mundo aca- te, o maior número primo adormecer, adentrou o templo
baria. conhecido. e acariciou os discos. Depois
Estes mesmos monges Nas noites mais recen- atou-os a seu corpo e mer-
estudaram as relações en- tes, o monge havia sido um gulhou no rio sagrado, para
tre vogais breves e longas enxadrista cubano, à procura sonhar o último sonho no
nos versos e estabeleceram pelo adversário ideal para a colo de Brahma.
uma seqüência métrica para realização da partida perfeita; “O mundo não tem or-
composição, conhecida como numa bodega, conhece um dem”, pensou o monge,
mātrāmeru. marinheiro genovês que o fundeando nas águas turvas
Tanto o ritual quanto a desafia; após apenas poucos do rio. Fechou os olhos. E
métrica almejavam a perfei- movimentos de abertura, o constatou, para seu desespero,
ção, o supremo ideal, para os enxadrista se levanta, esten- que estava errado, havia sim
monges. de a mão e propõe empate. algum tipo de ordem, não
Aquele poderia ser o jogo compreensível, não mensu-
Certa manhã, Vidyacha-
perfeito, porém, um único rável, imprevisível, mas que
ran, após sonhos inquietos,
deslize, uma única distração unia todas as pontas disper-
chegou àquela conclusão: “o
por parte dos jogadores o sas, todas as perguntas sem
mundo não tem ordem”.
arruinaria. Para o enxadrista, respostas, todos os atos sem
Não raro ele tinha pesade- melhor era viver a possibili- sentidos, todos os futuros não
los com os discos brônzeos dade do jogo perfeito, do que realizados, e presente nos
e com o ato automático de a ruína desta possibilidade. astros, nos Vedas, nas paixões
movê-los rumo à completu- humanas e, até mesmo, nos
Ele também havia sido um
de. Nestes sonhos, Vidyacha- discos brônzeos que afoga-
músico húngaro e, o mais
ran vislumbrava o fim dos vam Vidyacharan.
inusitado, um autor portu-
tempos, mas também tudo
guês, que compunha livros
que ocorreria antes disto.

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Contos

O Alvo
Simbiótico José Espírito Santo
jjsanto@gmail.com

34 SAMIZDAT agosto de 2008


34
O meu nome é Zork e sou Observei-os e vi como táveis, solícitos. Aí a minha
batedor-explorador, guarda tratavam os “pequenos” com atenção, objectivos e prio-
avançado de primeira ca- amor e carinho nunca os ridades mudaram e obtive
tegoria, especializado em deixando sós e desprotegi- dados mais detalhados. E foi
observação de espécies com dos em momento algum. Vi então que surgiu um contra-
potencial. Minha função é de como falavam a toda a hora, tempo inesperado e todas as
extrema utilidade para a nos- constantemente, frequente- dificuldades inerentes. Afinal
sa raça pois há muito tempo mente, com eles. E quanto não iria ser assim tão fácil.
que desistimos de suportar falavam… que entusiasmo, Porque os “pequenos” eram
sozinhos a nossa própria aquilo quase parecia um compostos por várias subes-
subsistência e confortos e vício! E forneciam-lhes com pécies, todas elas incompatí-
caprichos. solicitude, sem reclamar, veis entre si.
toda a energia necessária. E
na presença da mais peque-
Aprendemos que é bem na sujidade, logo acorriam Resignado, coligi os nomes
mais simples e eficaz identi- e limpavam com extremo delas e coloquei-os no meu
ficar outros com o potencial cuidado. Vi como são preo- relatório
simbiótico adequado e trans- cupados. A certa altura um
formá-los (gradualmente) “pequeno” caiu e o seu servo
em nossos servos. De início, NOKIA
levou prontamente as mãos à
a vítima, tecnologicamente cabeça proferindo expressões
menos evoluída, não compre- para as quais não possuímos SIEMENS
ende o jogo latente que está ainda tradução - Ai meu
a decorrer. Depois... bem, Deus! E agora? – disse ele.
depois é tarde demais. Como Depois, curvou-se e tomou MOTOROLLA
mosca espantada e aturdida, rapidamente o “paciente” em
enredada na teia, quando suas mãos inspeccionando-o
percebe o que se passa, já SONY-ERIKSSON
com cuidado para verificar
nada pode fazer. Na verda- se estaria de boa saúde ou
de não existe aqui qualquer necessitaria de algum trata- SANSUNG
simbiose ou relação simbió- mento. Noutra destas obser-
tica. Apenas parasitismo. Isso vações constatei que além
mesmo, digo-o sem qualquer de preocupados também ...
pudor. Somos parasitas! sabem ser leais e obedientes.
O “pequeno” estava aos gritos
com sua voz fina irritada. E o
Naquela tarde preparava-
gigante só dizia - Sim senhor, Agora, a minha próxima
me para desempenhar o
querida, desculpa querida, eu tarefa vai ser analisar em
trabalho - as tarefas para as
sei amor. Tudo isto vi com o detalhe cada uma dessas
quais me treinaram. Ia ser
meu sistema de sensores. E vertentes raciais a fim de
fácil. O ponto de observa-
tudo isto me bastou. explorarmos todas as suas
ção no piso de cima ficava
mesmo junto ao enorme vulnerabilidades.
balaústre e era muito bom. Os “pequenos” eram sem
A visão era soberba, perfeita, dúvida os seres mais afor-
abrangia praticamente cento tunados de todo o universo.
e oitenta graus. Além disso Mas não por muito tempo!
era um recanto acolhedor e Tudo o que necessitávamos
agradável de modo que cer- era de um bom plano. Um
tamente permitiria iniciar o plano para os substituir gra-
relatório com todo o confor- dualmente por elementos da
to e descontracção. nossa espécie no domínio da-
queles servos gigantes pres-

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Contos

Saudades
da minha
Terra
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Joaquim Bispo

Sou camionista de longo passar o mês inteiro de férias A certa altura, senti-me leve,
curso. Passo os dias pelas a visitá-la, a conhecê-la, a solto, fluido. Acordei aéreo
estradas da Europa, rodeado amá-la. e atmosférico. Achei-me um
de carros, mas sozinho, a ver Assim que cheguei, fechei- pouco estranho mas, longe
desfilar cidades para lá das me em casa, cerrei as per- de me inquietar, aceitei-me e
estradas e serras para lá das sianas e ferrei-me a dormir, foi sob essa feição que parti
cidades, a trabalhar demasia- como se já não dormisse há finalmente a conhecer a Mi-
das horas por dia, a dormir semanas, o que não era com- nha Terra.
mal e pouco, a levantar cedo. pletamente mentira. Queria Iniciei a viagem muito len-
Este ano que passou foi parti- recuperar o vigor, nem que tamente, como leve aragem,
cularmente cansativo. Parecia para tanto gastasse dois ou percorrendo a sua superfície.
que o mês de Julho nunca três dias de férias. Durante Subi o Alentejo langorosa-
mais acabava. Ansiava por horas incontáveis, dormi pro- mente, acariciando a planície,
voltar para a Minha Terra, fundamente, pressentindo o a contra-pêlo. A Minha Terra
tão bela e tão mal amada. meu corpo a relaxar, a dis- parecia agradada. Mostrava-
Ah, quando chegasse, ia pôr tender-se, a ganhar as formas me, de vez em quando, o
o sono em dia e, depois, ia que a Natureza lhe quis dar. branco dos seus casarios.

36 SAMIZDAT agosto de 2008


36
apressado que na subida, fiz maré-vazia. Iludindo. Insinu-
ondular a cabeleira das flo- ando Setúbal e apontando a
restas, deambulei por entre Lisboa. Fluo e refluo. Engros-
os troncos majestosos. Soprei so. Em maré viva, franqueio a
sobre as gargantas, os riachos barra do Tejo, transponho a
e os açudes. Desci às grutas. Ponte 25 de Abril e espraio-
Brinquei com a água das me em plenitude pelo Mar
fontes e das lagoas, deixei-me da Palha. E refluo, e volto
arrastar pelos caudais dos com mais vivacidade. Uma e
rios. Humedeci, liquefiz-me. outra vez. Venço a resistên-
Agora eu era mar. As cia da Ponte Vasco da Gama,
minhas ondas batiam nas encho esteiros e valados
arribas, lambiam as rochas e alcanço Vila Franca. E,
de baixo para cima e estas fecundador, inundo a lezíria.
ficavam a escorrer, lascivas. Avassalador, imenso, cósmico.
As vagas do meu corpo recu- Durante muito tempo, o
avam e logo voltavam, altas meu espírito anda disperso
e empenhadas. No Algar- pelo éter. Flutuo num limbo,
ve, brincavam por entre as sem energia nem densidade.
rochas esburacadas, a fazer Onde estou, por onde andei?
cócegas à Minha Terra. E Lentamente, tomo consciên-
ela a provocar, a abrir ense- cia de mim. Estou alagado
adas, a elevar promontórios, em suores, humores, fluidos.
a estender cabos, atiçando o Parece-me que a viagem de-
meu corpo líquido. As suas morou um mês inteiro, mas
areias a arder, a chamar pelo não durou mais que umas
meu afago refrescante. E eu horas. Foram o suficiente
fluía e refluía sobre as areias para que o meu corpo e o
da Minha Terra, uma e outra meu espírito se unissem pro-
vez, afagando-as numa dolên- fundamente à Minha Terra.
cia de amantes. No Minho a Dissolveram-se e voltaram a
arrepiá-las com as minhas condensar-se. Inteiros. Refei-
carícias geladas. E a entrar tos. Apaziguados.
atrevido no estuário de Via- Nunca pensei que as
na. A surpreender a Minha minhas saudades dela fossem
Terra com uma incursão tão grandes!
Avancei silencioso e morno. inesperada na foz do Douro.
Balancei-me, delicadamente, E depois, grosso e seguro, a
no sobe e desce das pequenas encher a Ria de Aveiro. E a
elevações e das suaves baixas. retirar-me maroto e sabido. E
Insinuei-me nos vales dos a deixar um gosto salgado e
maciços centrais, explorando sensual. Ao mesmo tempo, o
cada dobra, evaporando a meu corpo longo e ondeado
geada de uma várzea aqui, roçava-se nos extensos areais
ondulando o pasto de uma do Sul, toque aqui, toque ali.
encosta acolá. Subi as serras A costa alentejana, cheia de
atapetadas pelo mato, monte refegos, a resistir mal. E eu
a monte, envolvi os cumes a rebolar-me nos areais da
em névoa. Sussurrei segredos Comporta e de Tróia, guloso
às fragas. Do alto dos talefes, e lúbrico. A experimentar,
alarguei a atenção, a escolher obsceno, o estuário do Sado,
outras explorações. Entusias- crescendo demorado em va-
mado, desci os declives, mais gares maliciosos: Maré-cheia,

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Contos

HISTÓRIAS
Maria de Fátima Santos

Foi-se despindo, peça a aguardando este momento. unhas, pequenina. Abriu-a


peça. O fato e o camiseiro Deixou-se ficar nua por uns toda e pegou-a pelo meio.
de algodão atirou-os para instantes. Os raios de sol Colocou a ponta mais fina
cima da cama. Depois espa- espraiavam sombras de si sobre a pele do braço esquer-
lhou pelo chão cada uma das pelo soalho. Sentiu-se bela ao do. Pressionou com o dedo
meias, o soutiã e as calcinhas olhar o espelho. indicador onde lhe brilhava
de renda. Ficou nua. Escu- um verniz rosado. Formou-
Com lentidão, numa
recia. Sobrava um amarelo se uma pequena reentrância
expressão que, vendo, era de
ténue do que fora o dia que no local preciso de onde
quem reza, retirou um pe-
ela passara dando formação retirara, há nada, duas pul-
queno estojo de cima de uma
na empresa. Fizera um calor seiras de osso e um relógio
cómoda. Pegou uma tesoura.
intenso na sala sob o foco do caro. Pressionou um nadi-
Dessas tesouras de tratar as
projector de acetatos e ela nha. Persistiu na intenção

38 SAMIZDAT agosto de 2008


38
pele devagar, noutras dava Já a noite se desenrolara,
impulsos descolando-a numa já a lua galgara altura no
vasta área. céu, quando saiu.
Nua, de pé, no quarto mal
iluminado pela lua que nas-
Eram dezenas dançando.
cia gorda, nem escorria san-
gue mais que aquela gotinha
e depois mais outra em cada
incisão da tesoura. O ritual ..........
ansiado.
Observou-se um instante. dizem que voltava cada
Pulsante de vida, a beleza um ao seu trabalho ainda re-
remanescente do seu corpo cuperando a pele por debai-
descuidado da protecção da xo dos fatos.
pele. Sorriu-se.
dizem que são apenas
histórias...contados…
Hoje, decidira: ficaria
inteira, aplicaria a técnica
laboriosa que sua mãe lhe
ensinara para despir a parte
posterior do corpo. Uma arte
que ela praticava apenas uma
vez por ano. Hoje queria
sentir-se total. Sentir, depois,
o prazer de ser, ainda assim,
reconhecida. Reconhecida
pelas mãos, pelo cabelo, pela
singularidade da sua zona
púbica, pelo torneado dos
pés. Reconhecidos, dela, o
riso, o timbre da voz, a gar-
galhada, as lágrimas. O olhar.
Desfez o cabelo muito
negro e prendeu-o no alto
da cabeça. Enfeitou-o com
dois alfinetes de safiras. Foi
compondo pelo corpo ti-
de perfurar apenas a pele na ras estreitinhas de gaze que
superfície. Um toque muito tingira de um tom de ver-
certo, e ela movimentando de alface. Colocou nos pés
os lábios como se pedindo, chinelinhas de seda preta
como dizendo prece. Vaga- bordada a prateado. Cada
rosa e mole, escorreu uma uma das mãos calçou-a com
gota. Um pingo de sangue. luvas de renda muito branca.
Um só pingo. Reconheceu a Na direita, colocou, sobre a
dor igual às outras vezes – luva, um vistoso anel. Uma
intensa e subtil, doce. Puxou gema enorme.
a ponta de pele como se fora
Volteou-se mais uma vez
adesivo. Repetiu em zonas
em frente do espelho.
variadas. Numas puxava a

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MELODRAMA

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Guilherme Rodrigues Tarde alegre. Linda. Ensolarada. Passarinhos a cantar. Sen-
tados abraçados no banco da praça. Quero dormir aos seus
braços. Alguns beijos, uns apertões. Mais beijos. Eu te amo.
Também te amo, linda. É para sempre.
...
Acabou!
Fim de tarde triste, melancólico...
A visão se torna embaçada, meus olhos se enchem de água
e ela, cada vez mais distante, vai embora.
A lágrima que escorre pelo meu rosto é o grito de dor, o
desabafo do aperto que me sufoca. Um soluço, desprendi-
mento da angústia que se encontra em meu peito.
Ela passa do meu lado tão disforme pelo encharque que
meus olhos se encontram. Nem a me olhar. Um toque com a
ponta dos dedos, eu estremeço e ela se vai, perdida na névoa
obscura, desaparece.
Tudo escurece, os pensamentos se esvaíram, vertigem, vo-
zes distantes......
Querido, acorde. Acorde.
Ahn... que... que aconteceu?
Você desmaiou.
Ah... te amo.
Também te amo.
Me abraça.

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40
Contos

NOITE ESTRELADA

Guilherme Rodrigues Todas as noites, abria a janela do quarto e ficava por ho-
ras contemplando o céu estrelado. Tinha certeza de que lá
do outro lado havia uma pessoa a observá-lo também.

Acreditava que as estrelas eram pequenos animaizinhos


místicos: responsáveis pelos sonhos, diziam a verdade, con-
tavam o futuro e realizavam desejos. Se sonhar com aquilo
que desejou, o pedido se realizará. Escolhia a estrela mais
brilhante e desejava. E a Lua, a grande mãe de todas essas
criaturinhas.

Saiu voando pela cidade e uma sensação incrível lhe


enchia os pulmões. O ar fresco da noite. Sorria. Viu toda a
cidade iluminada, linda. E chegou a pensar que as estrelas
fossem uma grande cidade... Não.. Eram mesmo animaizi-
nhos místicos... Foi até a casa da garota que amava e ficou
ali da janela olhando-a dormir, uma rosa adormecida.

Algumas vezes, conseguia formar figuras ligando as es-


trelas. Uma rosa, um gato, um beija-flor... Certo dia, viu nas
estrelas a garota que amava, e ela piscou para ele. Sorriu,
todo feliz, deitou em sua cama e dormiu quentinho debaixo
da coberta. Sonhou...

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Contos

A Natureza do Escorpião
ou Narrativa Literário-
futebolística em
Quinhentas Palavras
Zulmar Lopes

42 SAMIZDAT agosto de 2008


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“Zagueiro bonzinho acaba como babá do A partida transcorreu nervosa como uma
filho do atacante”. Pensava assim o beque Ro- digna final de campeonato. Aos 35 minutos
berval até o dia em que vitimara Zeca com do primeiro tempo, o Botafogo fizera o seu
avassalador carrinho. O artilheiro flamen- gol e segurava a vantagem no marcador com
guista e ídolo da seleção brasileira ficou qua- um desempenho sólido de Roberval que,
se um ano no estaleiro com tíbia e perônio apesar de tomar alguns dribles de Dentinho,
fraturados. Em conseqüência, Zeca, perdeu a não deixava o atacante levar perigo à meta
Copa do Mundo e Roberval a paz de espírito botafoguense.
corroída pelo remorso. Acontece que, a natureza do escorpião
Viveu assim tempos difíceis o Roberval, revelou-se e ele picou a sua vítima.
beque conhecido pelo estilo viril aliado a Eram 44 minutos do segundo tempo. Em
certa malvadeza para com os adversários. um contra-ataque, a bola foi esticada para
Fora criticado por toda a imprensa futebolís- Dentinho que ganhou na corrida de um za-
tica, virando um bandido perante a opinião gueiro e rumou em direção ao gol. Roberval
pública que antes o endeusava por sua de- partiu para a cobertura e, temendo o empate
monstração de raça em campo. O zagueirão cruzeirense, atingiu barbaramente o joelho
só não capitulara porque Jesus entrou de sola direito de Dentinho.Um palmo fora da área.
em sua vida quando Bernardo, meio-campo O atacante saiu de maca direto para a mesa
e Atleta de Cristo, o presenteou com uma de cirurgia, Roberval foi expulso e o Botafo-
Bíblia mandando que ele a lesse. Em semanas go sagrou-se campeão.
Roberval largou as noitadas, carros impor-
tados, marias-chuteiras e tomou ojeriza pela Enquanto a festa alvinegra tomava a cida-
violência nos gramados. Virou um zagueiro de, Roberval isolou-se em um templo evan-
clássico, daqueles de tirar a bola dos adversá- gélico. Chorando, Bíblia remorsamente segura
rios como se houvessem pinças em seus pés. na mão direita, o zagueiro rogou a Deus para
Nas entrevistas após as partidas, parafraseava que perdoasse seus pecados.
Jesus ao justificar o sumiço de suas boti-
nadas: “Não faça com os outros o que não
quiser que façam com você”.
Brasil, celeiro de craques, viu nesta época
surgir nas Minas Gerais Dentinho, para os
especialistas da crônica esportiva, o novo
Pelé. Dentinho humilhava os marcadores
com sua técnica apurada e talento de ma-
labarista com a bola nos pés. Zagueiros
renomados perdiam o sono na véspera dos
jogos contra o Cruzeiro, temendo a vergonha
de serem entortados pela jovem revelação
mineira.
Quis o destino que Cruzeiro e Botafogo
decidissem o Campeonato Brasileiro em
jogo único no Maracanã. Rádios, jornais e a
televisão vomitaram durante toda a semana o
duelo entre o malvado arrebanhado por Jesus
e o novo deus da bola tupiniquim. Roberval
passou a noite em claro. Cristão antes de ser
zagueiro, tinha a obrigação moral de não
machucar aquele menino prodígio.
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Maracanã cheio, um clima de euforia


intoxicando o ar. Antes do jogo, Roberval fez
questão de presentear Dentinho com uma
Bíblia.

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Contos

O GIRALUA
Alian Moroz

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44
Helianthus annuus, ou Girassol, é uma
planta da família das compostas, originária
do Peru. Caracteriza-se por um porte avan-
tajado, chegando algumas a medir até cinco
metros de altura.
O Girassol recebeu esse nome porque suas
flores giram, seguindo o movimento do Sol,
num heliotropismo positivo. O maior pro-
dutor de Girassóis é a Rússia ao qual extrai
de suas sementes um salutar óleo comestível
e também viscoso, usado de várias maneiras
em máquinas e ferramentas. Por ser uma
planta anual é necessário destruir, ceifar as
flores todos os anos. Assim, no equinócio de
inverno todos os girassóis são mortos tendo
suas “cabeças decepadas, pois o sol não mais
estará por perto”.
Os ceifadores da Sérvia cantam uma can-
ção triste quando da colheita à imponente
flor adoradora do sol.
“Canta....canta, tua última canção. pois o
Sol está distante e não podes mais mover
sua fronte para adorá-lo. De suas sementes
faremos o óleo para saldar o senhor dos céus
que fará sua viagem à terra dos mortos mas
voltará na primavera para receber a adora-
ção de seus brotos filhos... Ó Girassol... Ó
Girassol...”
Quando do movimento solar em direção
ao hemisfério Sul dizem, os mais antigos, que
entre os campos de girassóis mortos cami-
nha uma entidade chamada Giralua, a qual
acompanha os movimentos do satélite em
questão.
Caminha entre os campos lamentando a
morte do sol e de seus irmãos. Diz a lenda
que ao se encontrar um Giralua em noites
claras de luar, o vivente é levado por ele. Eu
venho contar esta história porque tive um
amor.levado pelo Giralua.
Natasha desapareceu em uma noite enlu-
arada.
Hoje o Sol voltou para a alegria dos Giras-
sóis, só Natasha não veio...

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Autor Convidado

SELEÇÃO
BRASILEIRA
Marcelo Spalding
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46 SAMIZDAT agosto de 2008


46
1
Kléber, o goleiro. Defende-se como pode das investidas do Argentino. Desde que pediu
a grana pra pagar o pó – pediu o pó porque não conseguia pagar uma grana –, vive a se
defender. Fugindo, fingindo, roubando. Não pode abandonar morro e família, por isso acaba
voltando e apanhando e pagando um pouco. Dessa vez era um ultimato. Kléber, o goleiro,
tinha que pagar. El Argentino invadiu a casa, quatro homens armados ao redor dele. Não
tenho um pila, hermano, pode revirar tudo pra ver. O Argentino olhou, olhou a casa sem
mobília, as paredes sujas e a mulher grávida, grávida mais uma vez. Procurou um revólver
que fosse, um maço de cigarros. Tu es un mierda, grita, e o outro tremendo no canto da pa-
rede, barbudo, fedido. Eu disse que não tinha nada, hermano. Atirou sem dó. Kléber, reflexo
rápido, ainda tentou se defender. Morreu com um buraco na mão.

2
Juarez, ou melhor, Doutor Juarez Fonseca, o lateral direito, aquele que defende pela direita
e sempre pela direita. Nasceu em 1964, aprendeu a ler em sessenta e nove e muito cedo de-
cidiu-se pelo quartel. Ordens, horários, compromisso. Doutor virou e causas nobres defende.
Com a veemência dos justos. Defende proprietários de terras, jornais, bancos, mercados, lojas,
governos, ilhas, mansões, BMWs. Agora está em dúvida o Doutor Juarez: foi mucha plata o
que el Argentino ofereceu.

3
Gente como o João não devia andar armada. Homenzarrão, alto e forte como só um
zagueiro central pode ser. Um dia chegou em casa e a mulher estava sobre uma poça. Poça
vermelha de sangue. Nunca mais foi o mesmo, sabia que naquele morro só morria quem el
Argentino deixava. Pegou a arma – eu avisei que gente assim não devia andar armada –, e
subiu bufando até la casilla rosada. Os olhos turvos de raiva, a cabeça devagar de raiva, o
corpo explodindo de raiva. Chutou a porta e esvaziou o cartucho, oito tiros. Matou abuela e
tía.

4
Carlos é o quarto zagueiro, o que dá cobertura para o zagueiro central. Levou a sério de-
mais essa história de cobertura. Apaixonou-se por João e ao mesmo tempo, por óbvio, odiou
a loira dele. Conhecia bem o João, seus um e noventa de puro músculo, sua pele negra de
um negro chocolate. Sabia também que o negão mataria ele se soubesse dos olhares, dos sus-
piros no vestiário. Mas Carlos é zagueiro de cobertura, não desiste nunca. Yo puedo ajudarte,
ofereceu el Argentino em troca duns trocados. Foi mais fácil pagar do que sujar as mãos de
sangue.

5
Émerson, por orientações táticas, jogava exatamente entre a defesa esquerda e a direita,
protegendo ambas dos avanços dos adversários. Homem correto, íntegro, religioso, funcio-
nário modelo na fábrica, pai de um menino e uma menina. Amava sua esposa, nunca traiu,
nunca desconfiou dela, nunca forçou uma transa. Seria um legítimo representante da classe

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média não morasse no morro. E não fosse ele vizinho de la casilla rosada del Argentino. E
não fosse sua casa confundida com la casilla rosada del Argentino. Morreu de bala de polí-
cia sem ter tempo de pagar a última prestação da televisão.

6
Jerônimo, codinome Fonseca, irmão caçula do Juarez, nascido no dia exato do AI-5. É o la-
teral esquerdo e, pelo óbvio, defende sempre pela esquerda. Não pôde ser advogado nem ad-
ministrador nem contador e ganhar muito dinheiro, como sonhava a mãe e insistia o irmão.
Preferiu o jornalismo. E ali travou batalhas primeiro contra os professores, depois contra os
chefes de redação e mais tarde contra as mulheres e os amigos e os políticos. Espremia-se à
esquerda do mundo. Odiava carros, estrangeirismos, lanchonetes fastifud, internéti, roliúde,
televisão, detestava todo lixo produzido pela tal indústria cultural, livros, filmes, gibis, bostas,
tudo bosta. Largou também os Sem Terra e a União dos Estudantes. Procura causas novas,
talvez uma guerrilha armada em pleno centro urbano. Já pensava à sério na proposta del
Argentino.

7
Caio é pequeno e veloz, um legítimo segundo atacante, ou atacante de velocidade. Pon-
teiro, para os saudosistas. Investe na área adversária surpreendendo os zagueiros, servindo o
centroavante e às vezes ele mesmo fazendo uns golzinhos. Caio ganhou muito dinheiro com
isso. E investe tudo em ações, veloz é para comprar e vender, aposta nas opções, lança mão
de debêntures, tanto arrisca no curto prazo que já dobrara seu capital. Mas precisava mais,
e um dia Caio perdeu. Perdeu dinheiros e razão e mulher. Perdeu opções e poder e BMW.
Não ouviu o Kléber, esse dizia para não se meter com o submundo, ainda mais con el hom-
bre. Mas com rapidez se infiltrou na área inimiga, e com rapidez perdeu tudo. Sua última
aposta foi um suicídio sem surpresas.

8
Patrício é o segundo volante, sempre à serviço do craque do time, para quem deve en-
tregar a bola depois de desarmar. Trabalha na MR Comunicações desde os catorze, quando
o pai sumiu e a mãe enlouqueceu. Cresceu na empresa, funcionário modelo por dois anos
seguidos, jornada de catorze horas na maioria dos dias da semana e seis horas no Sábado.
Nunca ficou doente. Nunca reclamou. Dez anos de casa. Teria um sido um coitado feliz. Mas
um dia descobriu no que tinha se tornado su padre e foi morar en la casilla rosada.

9
Wilson Holmer é o centroavante, atacante mais enfiado, homem de finalização, famoso
por todos e desejado por todas. Quando acerta. Estava num dia ruim. Chegou na televisão
vinte minutos depois, pediu café, trouxeram com adoçante, atirou no chão café, bandeja,
script, paciência. Voltaram com um café fresco, e ele lá escolhendo as notícias para aquela
noite. Vibrava com cada ponto na audiência como se fosse o miléssimo gol. E de dia já esta-
va lendo impressos do mundo todo, envolto por um palacete bem decorado. Mas aquele era
um dia ruim. O jornal abria com notícia sobre um acidente: policial mata desempregado por

48 SAMIZDAT agosto de 2008


48
engano. O apresentador assiste de sua bancada conversando com a colega. Faltam quinze
segundos. O áudio do estúdio voltaria quando faltassem cinco. Erro do operador, erro grave:
voltou faltando oito. E o país todo ouviu Holmer dizer: tem mais é que matar esses vagabun-
dos.

10
Marcelo Reis é um craque, grande armador, responsável por lucros estupendos tanto da
agência onde trabalha quanto dos clientes que nele confiam. Formado num colégio de pa-
dres e sem interesse algum em qualquer faculdade, abriu o negócio confiando em seu talen-
to nato: MR Comunicações. Hoje atende proprietários de terras, jornais, bancos, mercados,
lojas, governos, ilhas, mansões, BMWs. Mas nunca tinha aparecido um cliente como esse: a
Polícia Civil. Precisamos melhorar nossa imagem nos morros, dizia o comandante. A popu-
lação não acredita mais em nós e, quer saber, nem eu, mas disseram que você faz milagre.
E fez. Marcelo Reis, craque, armador, descobriu el Argentino y su carisma, el Argentino y su
gana, el Argentino e o temor que causava em toda cidade e diagnosticou pra polícia: matem
esse cara numa batalha difícil, ao vivo. Se possível sacrifiquem dois ou três homens seus no
tiroteio. Mas façam barulho.

11
Ricardo é o elo entre o ataque e o resto. Por vezes um pouco à frente do dez, mas na
maioria das vezes ao seu lado e mesmo atrás. Homem versátil no campo e na vida. Na vida é
policial civil por profissão, segurança de boate para ganhar dinheiro. Fatura bem numa noite
indicando el Argentino. Mas um dia levou calote. Logo ele, o que fazia a ligação entre o sub-
mundo do adversário das leis e a própria lei, logo ele levou calote. Tinha que mostrar quem
manda. Aproveitou que naquele dia estaria fardado. Convenceu o colega e foram de viatura.
Subiram o morro sem alarde. Chegando em la casilla, pediram pra falar com el Argentino.
Mudou-se para a casa ao lado, avisou uma mulher. Pulou a cerca, arma destravada, pronta. A
intenção era dar um tiro na perna do caloteiro filho da puta. Tocou uma, duas vezes. Émer-
son, cansado do jogo, se levantou devagar para abrir. Ricardo não gosta de esperar. Grita
que é a polícia, conta mais três, quatro, cinco. No dia seguinte, os jornais estampam: policial
mata desempregado por engano.

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Teoria Literária

PEQUENA POÉTICA DO
MINICONTO
Marcelo Spalding

50 SAMIZDAT agosto de 2008


50
Você certamente já leu um miniconto e
possivelmente já escreveu um. Miniconto é
um tipo de conto muito pequeno, digamos que
com no máximo uma página, ou um parágrafo.
Alguns dizem que ele é o primo mais novo do
poema em prosa, outros apontam as fábulas
chinesas como origem, de certo é que desde
meados do século XX o conto tem experimen-
tado – com sucesso – formas extremamente
breves a partir de textos de gente como Cor-
tázar, Borges, Kafka, Arreola, Monterroso e
Trevisan.

Nos últimos anos este tipo de ficção ganhou


muito espaço na literatura de diversos paí-
ses. Nos Estados Unidos, antologias sucessivas
foram lançadas com textos cada vez menores
culminando na chamada “microfiction”, cuja
antologia inaugural reúne textos de até 300
palavras. A literatura latino-americana, respon-
sável pela difusão inicial do gênero, tem não
apenas apresentado antologias como também
estudos acadêmicos acerca do que eles chamam
de “microrelato”. É de um hispano-americano,
o guatemalteco Augusto Monterroso, o micro
mais famoso:

Quando acordou, o dinossauro ainda estava


lá.

E de outro latino-americano, o mexicano


Juan José Arreola, o meu preferido:

Conto de horror

A mulher que amei se transformou em fantas-


ma. Eu sou o lugar das aparições.

No Brasil, há uma grande quantidade de au-


tores publicando livros com ou exclusivamente
de minicontos: o pioneiro Ah, é?, de Dalton
Trevisan (1994), Contos Contidos, de Maria
Lúcia Simões (1996), O filantropo, de Rodrigo
Naves (1998), Pérolas no decote, de Pólita Gon-
çalves (1998), Passaporte, de Fernando Bonassi
(2001), Coração aos pulos, de Carlos Herculano

http://www.flickr.com/photos/wmshc_kiwitayro/2358007302/sizes/o/

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Lopes (2001), Eles eram muitos cavalos, de Luiz podem. Uma tosse às três da manhã pode ser a
Rufatto (2001), Mínimos Múltiplos Comuns, superfície de um miniconto; a insônia, não.
de João Gilberto Noll (2003), Os cem menores
contos brasileiros do século, organizado por
Marcelino Freire (2004), Ao homem que não
me quis, de Ivana Arruda Leite (2005), Tentando
entender Monterroso, de Luiz Arraes (2005), Narratividade
A milésima segunda noite, de Fausto Wolff
(2005), Contos de Bolso e Contos de Bolsa, da
Casa Verde (2005 e 2006), Curta-Metragem e Caiu da escada e foi para o andar de cima.
Expresso 600, de Edson Rossatto (2006), Entre
Duas Mortes, organizado por Frederico Alberti
(2006), entre tantos outros. Há inclusive um Adrienne Myrtes (Os cem menores..., 2004)
livro de minicontos juvenis, do competente e
criativo gaúcho Leonardo Brasiliense, Adeus
conto de fadas (2006), que ao testar esta estética
com outro público comprovou a flexibilidade Se a brevidade originada pela concisão
do miniconto e a possibilidade de o tratarmos diferencia o mini do conto tradicional, é a
como um gênero (da mesma forma que os poe- narratividade que primeiro diferencia o mini-
tas tratam como gênero o haicai). conto do haicai ou do poema em prosa (que
não necessariamente são narrativos, ainda que
possam sê-lo). Ser narrativo significa, por óbvio,
Devido ao seu formato enxuto e de rápida narrar algo, contar a passagem de uma perso-
leitura, o miniconto se tornou um gênero cul- nagem de um estado a outro, implicitamente
tivado não apenas pelos leitores como também (como no mini do Trevisan) ou explicitamente
pelos escritores das novas gerações, seduzidos (como neste exemplo da Adrienne). Sem essa
pela (aparente) facilidade de se escrever um narratividade, corre-se sempre o risco de fazer
bom miniconto. Só aparente. Aqui nesta pre- uma simples descrição de cena ao invés de um
tensiosa poética pretendo demonstrar como al- miniconto.
gumas regras são, se não fundamentais, bastan-
te indicadas para que um miniconto funcione.

Efeito
Concisão
TV NO QUARTO

A velha insônia tossiu três da manhã.


E os pais na sala, assistindo a um documentá-
rio sobre os dramas da adolescência.
Dalton Trevisan (Ah, É?, 1994)

Leonardo Brasiliense (Adeus conto de fadas,


2006)
Ser breve e ser conciso são coisas diferen-
tes. O miniconto precisa ser conciso, mais do
que breve. Nesse sentido não deveríamos falar
de um limite de número de letras, palavras ou O grande mestre do conto moderno, Edgar
páginas para o miniconto, e sim num limite Allan Poe, talvez tenha sido quem primeiro co-
conceitual. A história que ele conta precisa ca- locou o efeito pretendido no topo dos objetivos
ber exatamente naquele pequeno tamanho, não do escritor. Ainda hoje é considerado um bom
mais, não menos. Não pode-se atrofiar uma conto aquele que consegue provocar algo no
narrativa, tampouco espichá-la. Por isso nem leitor, seja medo, compaixão ou reflexão. Quan-
todos os temas e enfoques podem ser trans- do temos uma simples descrição, não chega a
formados em miniconto. Na verdade, raros o ocorrer no leitor este efeito, por menor que seja,

52 SAMIZDAT agosto de 2008


52
enquanto em uma narrativa como a do Leo- leitor seja aspecto fundamental do miniconto,
nardo Brasiliense o leitor não tem como não mas é importante que o autor seja suficien-
pensar na sua adolescência ou na sua atitude temente claro para criar o efeito desejado no
com os próprios filhos. leitor, e não seu oposto, sob o risco de não ser
compreendido. Para tanto a escolha de cada
palavra em cada posição é fundamental, quase
como em um poema, pois disso depende o su-
cesso ou não da narrativa. Se Cíntia Moscovich
Abertura escrevesse “Teria sido um ótimo escritor, mas o
tiro veio por trás” o texto perderia seu recurso
estético causado pela oposição frente/trás, vida/
Um vida inteira pela frente. O tiro veio por morte, comprometendo até o efeito semântico.
trás. Mesma coisa, e mais ainda, no texto “Aven-
tura”, do Dill. Não sei se existem outras duas
palavras que se casem tão bem para formar
Cíntia Moscovich (Os cem menores..., 2004) uma narrativa instigante, aberta e ao mesmo
tempo repleta de significados como esta. São
apenas duas palavras, quinze caracteres tão
bem dispostos que é difícil não sentirmos seu
Como pode um texto tão pequeno provocar efeito. E percebermos ali o cerne do conto e da
efeito em quem lê? A resposta está no próprio literatura.
agente da questão: o leitor. À Cíntia coube
contar a história de uma pessoa que morreu
assassinada numa representação contundente
da banalização da vida. Mas se a vítima é um
homem, uma mulher, gorda, magra, nova, velha,
se mora na cidade, no campo, noutro país, se
era bandido ou mocinho, amante ou amado,
casto ou tarado, nada disso está dito, cabe ao
leitor preencher as lacunas a partir de seus
conceitos e experiências. Muito possivelmente
um leitor urbano como nós verá aí uma ironia
com a insegurança que ceifa a vida de tantos
jovens. Mas talvez um trabalhador suburbano
veja a covardia de quem mata pelas costas, e
não o futuro perdido por quem morre. Essa
abertura é uma das riquezas do conto poten-
cializada no miniconto.

Exatidão

AVENTURA

Nasceu.

Luís Dill (Contos de Bolso, 2005)

Tudo bem que a abertura do texto para o

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Teoria Literária

Volmar Camargo Junior


v.camargo.junior@gmail.com

enchendo lingüística
na samizdat:
WRITING FOR DUMMIES
http://www.flickr.com/photos/0olong/479270001/sizes/l/

54 SAMIZDAT agosto de 2008


54
Dizem que só se aprende a escrever es- ver. Se você tem vergonha de dizer que não é
crevendo, do mesmo jeito que só se aprende um gênio literário, e que escreve somente sob
qualquer coisa tendo bastante prática. Às vezes intensa inspiração dos deuses, de sua musa, da
eu me pergunto se é só isso, e se existe isso que arte que o habita... leia e não conte a ninguém.
chamam talento. O Henry já falou sobre isso,
como eu tambéjm já falei, como muito se falou
em todos os grupos de escritores sobre “inspi- Além destes, recomendo também, vez por
ração e suação”. É muito provável que não haja outra, estudar o idioma em que escreve.
um manual.

De qualquer forma, encontrei uma lista Segue a listinha


bastante interessante para quem gosta de escre-

Bibliografia
Criação literária
CRESSOT, Marcel. O estilo e as suas técnicas. Edições 70, 1980.
FILHO, Domício Proença. A linguagem literária. Ática, 1999.
COSTA, Lígia Maura da, e REMÉDIOS, Maria Luiza Ritzel. A tragédia - Estrutura e histó-
ria. Ática, 1988.
CANDIDO, Antonio. Na sala de aula. Caderno de análise literária. Ática.
MESQUITA, Samira Nahid de. O enredo. Ática.
BRAIT, Beth. A personagem. Ática, 1998.
GOLDBERG, Natalie. Mente selvagem. Como se tornar um escritor. Gryphus, 1994.
ECO, Umberto. Interpretação e superinterpretação. Martins Fontes, 1993.
OSTROWER, Fayga. Criatividade e processos de criação. Vozes, 1987.
POUND, Ezra. ABC da literatura. Cultrix.
PERISSÉ, Gabriel. Ler, pensar e escrever. Arte & Ciência, 1998.
LEITE, Ligia Chiappini Moraes. O foco narrativo. Ática, 1999.
NUNES, Benedito. O tempo na narrativa. Ática, 1995.
LAPA, Manuel Rodrigues. Estilística da língua portuguesa. Martins Fontes, 1991.
MARTINS, Nilce Sant’Anna. Introdução à estilística. T. A. Queiroz, Editor, 1997.
MOISÉS, Massaud. A criação literária. Prosa I. Cultrix, 1997.
MOISÉS, Massaud. A criação literária. Prosa II. Cultrix, 1994.
GARDNER, John. A arte da ficção - orientação para futuros escritores. Civilização Brasi-
leira, 1997.
Ensaios de quatro autores. A personagem de ficção. Perspectiva, 1998.
MOISÉS, Massaud. A análise literária. Cultrix, 1996.
TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. Perspectiva, 1992.

www.samizdat-pt.blogspot.com 55
RODRIGUES, Selma Calasans. O fantástico. Ática, 1988.
CORTÁZAR, Julio. Valise de cronópio. Perspectiva, 1993.

Conto
MÁRQUEZ, Gabriel Garcia. Me alugo para sonhar. Casa Jorge Editorial, 1997.
GOTLIB, Nádia Battella. Teoria do conto. Ática.
MORICONI, Italo. Os cem melhores contos brasileiros do século. Objetiva, 2000.
MARIA, Luzia de. O que é conto. Brasiliense, 1992.
MÁRQUEZ, Gabriel Garcia. Como contar um conto. Casa Jorge Editorial, 1997.
GIARDINELLI, Mempo. Assim se escreve um conto. Mercardo Aberto, 1994. Cultura

Romance
DOURADO, Autran. Uma poética de romance. Matéria de Carpintaria. Rocco, 2000.
VIEIRA, Yara Frateschi. Níveis de significação no Romance. Ática.
NARCEJAC, Boileau. O romance policial. Ática.
RAY, Robert J. O escritor de fim de semana. Como escrever um romance com criatividade
em 52 fins de semana. Ática, 1998.
FORSTER, Edward Morgan. Aspectos do romance. Globo, 1998.
ZUCKERMAN, Albert. Como escrever um romance de sucesso. Mandarim, 1996.

Poesia
BOSI, Alfredo. O ser e o tempo da poesia. Cultrix, 1997.
MOISÉS, Massaud. A criação literária. Poesia. Cultrix, 1989.

Roteiro
COMPARATO, Doc. Da criação do roteiro. Rocco, 2000.
FIELD, Syd. Manual do Roteiro. Objetiva, 1982.
FIELD, Syd. Quatro roteiros. Objetiva, 1994.
FIELD, Syd. Os exercícios do roteirista. Editora Objetiva, 1996.
CHION, Michel. O roteiro de cinema. Martins Fontes.
MEADOWS, Eliane. Roteiro para TV cinema e vídeo. Quartet, 1997.
REY, Marcos. O roteirista profissional. Ática, 1997.
HOWARD, David. Teoria e prática do roteiro. Globo, 1996.
VOGLER, Christopher. A jornada do escritor. Ampersand, 1997.

Dramaturgia
PALLOTTINI, Renata. Introdução à dramaturgia. Ática, 1988.
PALLOTTINI, Renata. Dramaturgia. A construção do personagem. Ática, 1989.

Diversos

56 SAMIZDAT agosto de 2008


56
SANT’ANNA, Affonso Romano de. A sedução da palavra. Letraviva, 2000.
ANDRADE, Mario de, e SABINO, Fernando. Cartas a um jovem escritor. Editora Record,
1993.
SENNA, Homero. República das letras. Entrevista com 20 grandes escritores brasileiros.
Civilização Brasileira, 1996.
MOREIRA, Luiza Franco. As mulheres de branco. Edusp.
PAIXÃO, Floriceno. Entrevistas do Le Monde. Ática, 1990.
BORGES, Jorge Luis. Cinco visões pessoais. UNB, 1979.
PREGO, Omar. O fascínio das palavras. Entrevistas com Julio Cortázar. José Olympio,
1991.
JUNG, Carl G. e outros. O homem e seus símbolos. Nova Fronteira.
GARCIA, Othon Moacyr. Comunicação em prosa moderna. FGV, 1997.
BRAGA, Rubem. 200 crônicas escolhidas. Record.

Sugestões de Hermelindo de Oliveira, Josué do Prado Filho e Humberto dos Santos.

Ricardo Piglia é escritor argentino, autor de, entre outros, “Respiração Artificial” (Iluminuras) e
“Dinheiro Queimado (Companhia das Letras). O texto acima foi publicado originalmente em “O
Laboratório do Escritor” (Iluminuras).

Tradução de Josely Vianna Baptista


(http://www.portrasdasletras.com.br/pdtl2/sub.php?op=literatura/docs/comofazer )

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Poesia

MIOPIA
Carlos Alberto Barros
carloseducador@hotmail.com

Até quando, olhos,


Fingirão estar fechados?
Até quando chorará
O coração imaculado?

Até quando, olhos,


Usarão lentes escuras?
Até quando a ignorância
Passará longe das ruas?

Até quando, olhos,

http://www.flickr.com/photos/mscolly/69989549/sizes/o/
Só terão visões do alto?
Até quando a cegueira
Continuará em seus assaltos?

Até quando, olhos,


Brilharão com falsidade?
Até quando lágrimas
Cairão na insanidade?

Eis que vos deixo um recado,


Ao menos isto vai engolir:
O que os olhos fingem não ver,
O coração finge não sentir...

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58
sonetos Guilherme Rodrigues

A Face

Teus olhos profundos, negros,


Tua face fatigada
Mostra rugas de tristeza,
Nem sorris pra não florar
Teus dentes apodrecidos,
Teu hálito cadavérico.

Deite-se no teu caixão,


Pois você já está morta.
Darei um buquê de rosas.
Uma vez lacrado o túmulo,
E tua agressividade
Emudecerá pra sempre!

http://www.flickr.
com/photos/20986960@
N04/2388045935/sizes/o/
Eu sou flor que flora à tua presença,
alegre, contente, muito feliz.
Sou a flor que definha à tua ausência,
triste, implora por água, Flor-de-Lis.

Sou a flor, não ouço o que você diz.


Ficar ao teu lado, o que sempre quis.
Beija-Flor – com você quero ficar,
Porque – agora – só quero te amar.

Às tardes – vinha você me beijar,


Nós – abraçadinhos – em paciência...
Ande p´lo jardim reencontre a flor

bela, que tem um cheiroso sabor


e que não liga pro que você pensa.
Volte a me reencontrar, meu amor!

www.samizdat-pt.blogspot.com 59
Poesia

LABORATÓRIO POÉTICO
Poetrix O eco dos homens
Volmar Camargo Junior
v.camargo.junior@gmail.com

Grande é a imundície que há; e há, e


como há.
Imunda é a gente má; e há, e como é má.

Gentis, já vi, há. Aqui? Não. Nem lá.

“Canção” de quê?
“Minha terra tem palmeiras...
onde canta o...”
Como era o nome mesmo?

O fim do mar
Há tanto tempo no mar
Que mar não haverá mais
Quando o tempo, enfim, acabar.

Previdência
Guarda essa vida, depressa.
Que outra assim, igual a essa
Só se vê depois que passa.

Das profundezas
http://www.flickr.com/photos/pensiero/302897854/sizes/o/

Fiz, bem no fundo, no chão, um furo.


Lá, bem no fundo, onde é tudo preto.
E fui, bem no fundo, feliz por um tempo.

60 SAMIZDAT agosto de 2008


60
Poesia
concreta Volmar Camargo Junior

Muito de tudo

É tarde para decidir sobre essas coisas,


Essas que ficam em nós impregnadas,
As sobras do mundo nas estradas,
A poeira acumulada nos sapatos.

É inútil a incerteza dos destinos —


As coisas estariam explicadas
Haveria menos de nada
E tudo seria limitado.

Há muito de tudo,
Há, às toneladas
E é tão pesado.

Por outro lado,


Nessa vida
O que há

É pó.

www.samizdat-pt.blogspot.com 61
Poesia

Poetrix
José Espírito Santo

In finito Companhia
Chegado ao infinito, Acompanhas-me para todo o lado,
perguntou: suave constante ausência
E agora, onde vou?

Expressão Desencontro Relatividade


Entre dois movimentos Tudo passa Espaço de mim
e o depois de tudo Nada fica Distância
Mundo em vez de mudo Desencontro... Relativo tempo de ti

Ordem Por do Sol


Dividam-se os ensejos Poente em Sol menor
Cumpram-se enfim, desejos Inconsistente a voz
De vida mente empacotados Constante distância de nós

Trabalho Planeta Definição


Fez-se enfim, a tarde Plano planeta Definir-te
Labor, mais um... É choro de proveta Partir só
Dia comprado Global em pobre cimento Viagem sem regresso

Ardor Casa
Língua de fogo Á porta, ficou por ali a Berta,
não sabe a nada. já nela fechada e de morada no olhar frio,
Mais arde a pimenta em só de si, o esquecimento ou vazio!

62 SAMIZDAT agosto de 2008


62
BRINCANDO DE
FAZ DE CONTA
Giselle Natsu Sato

Pique-bandeira , amarelinha , queimada... Hipopótamos submersos e ursos sonolentos


Esconde-esconde, bolinha-de-gude e bafo Cobras perigosas e tigres selvagens
bafo
Peteca, boneca, bicicleta e patinete
Quem é quem? Vai e vem, correria na calça- Um momento, que tal visitar o museu?
da Tem carruagem Imperial, espadas, escudos,
Pipas, papagaios, pião, campeonato de botão lanças.
Escorrega, balanço e gangorra na pracinha. Esqueletos e fósseis, ossos de dinossauro e
armaduras
O Parque de diversões promete fortes emo- Pinturas e estátuas, grande animais empalha-
ções, dos.
montanha-russa, trem-fantasma e roda-gigan- Mil tesouros espalhados em grandes salões
te espelhados.
Barca viking e carrinho de bate-bate
Picolé, algodão doce, pipoca e carrossel A aventura não tem fim,
Cachorro quente, churros, amendoim torra- seja na praia
do... no shopping ou jardim.

Oba! O circo já chegou! Qualquer lugar é perfeito


Trouxe palhaços, equilibristas, bailarinas e no mundo do faz de conta
muitos mágicos Não é preciso muito
Banda de música e pulgas amestradas para ter um dia feliz
Piratas e marujos, princesas e fadas
Balões coloridos e muitas gargalhadas E será sempre uma doce lembrança
Apenas atenção,
cuidado e carinho
Jardim Zoológico é sempre interessante, Partilhar...
zebras, jacarés , girafas e elefantes... E voltar a ser criança.....
Macacos engraçados e todo tipo de aves

www.samizdat-pt.blogspot.com 63
Poesia

Folha
Marcia Szajnbok
marciasz@hotmail.com

O vento conduz a folha


Ou é a folha que se abandona ao vento?

Sopro leve de vento quente


Vai alta a folha, alegremente.

Sopro forte de ar gelado


Despenca a folha no chão molhado.

Quando o vento acalma, sonolento,


Ao ar ou à folha é que falta movimento?

Mas se o vento volta, prazenteiro,


Aos rodopios vai a folha, percorre o mundo inteiro...

Sou folha...
Que venha o vento!
Que não me deixe sem sopro,
No esquecimento.

64 SAMIZDAT agosto de 2008


64
to be and
not to be
Marcia Szajnbok
marciasz@hotmail.com

http://www.stratfordfestival.ca/imagegallery/production_images/hamlet09.jpg
Sou
Mas não sou muito
Não sou sempre
Nem sou bem isso
Sou ao meio
O que penso que seria
E o resto
Que não sou
Não sendo
Me acomete
http://www.flickr.com/photos/lf-photodesign/1565041545/sizes/o/

E desmascara
Ou subverte
O que dentro da luva havia
Sem que a mão lá supusesse
Ter sido recheio um dia.

www.samizdat-pt.blogspot.com 65
66 SAMIZDAT agosto de 2008
66
IZ
E SA OS
M
BR
SO
B R E O S AU TO R E S D A
S O

SAMIZDAT
SOBRE OS AUT
ORES DA

SAMIZDAT
Alian Moroz
SOBRE OS AUTORES DA Formado em Matemática pela

SAMIZDAT
UFPR,lecionou durante 20 anos. For-
mado ainda pela Faculdade de Belas
Artes do Paraná em Licenciatura em
Desenho,trabalhou junto a Estúdios de pro-
paganda e no setor editorial. Historiador e
Filósofo amador, venceu em 2006 o Prèmio
‘Destaque cultural’ promovido pela secre-
taria de Cultura de Curitiba com o livro ‘
Desvendando a História e os mitos Bíblicos’.
SOBRE Lançou em 2007 a primeira edição de ‘ O Manuscrito XXXII’,
seu primeiro
OS AU romance , pela Editora Corifeu. Poeta e músico nas horas vagas,
têm como
TORES
principais influências,Umberto Eco e Luis Fernando Veríssimo.

SAMIZ DA alian.moroz@hotmail.com

Carlos Alb
Paulistano
ta de s d e s e m p
,
r
DAT
erto Barro
fi l h o
e, artista
d

u
e

a
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nordestino

vida p
plástico f
r o fi s
s, desenhi

s i o
o r m a
nal como
d o ,

-
s-

Com e ç o u s ou seu ras


escritor.
e s d e e n t ã o, já deix t u r a i s ,
, d s Cu l
educador e E s c o l a s e Centro a g ó g i -
G’ s , e p e d
tro por ON b a l h o s artísticos ê n c i a
t r a in fl u
através de têm forte
– e x p e r i ências que e n t e , organiza
cos i t o s . Atualm studa
sobre seus
e s c r
o p a r a c rianças, e
ilustraç ã screve
oficinas de i s t ó r i a d a Arte e e
ção em H
pós-gradua ternet.
a p u b l i c a ções na in
par
il.com
ador@hotma
carloseduc t.com
p : / / d e s n o me.blogspo
htt

www.samizdat-pt.blogspot.com 67
67
Giselle Sato
Giselle se autodefine apenas como uma contadora de his-
tórias carioca. Estudou Belas Artes e foi comissária de bordo
— cargo em que não fez muita arte, esperamos. Adora viajar
(felizmente!) e fala alguns idiomas.
Atualmente se diverte com a literatura, participando de
concursos e escrevendo para diversos sites pela net. Gosta de
retratar a realidade, dedicando-se a textos fortes que chegam
a chocar pelos detalhes, funcionando como um eficiente pa-
norama da sociedade em que vivemos, principalmente daquilo que é
comumente jogado
para baixo do tapete pelos veículos de comunicação.
gisellesato@superig.com.br
http://www.trilhasdaimensidao.prosaeverso.net/

Guilherme Rodrigues
Estudante Letras na
Universidade do Sagrado
Coração, em Bauru, onde
sempre morou. Nutre
grande paixão por Línguas,
Literatura e Lingüística,
áreas em que se dedica
cada vez mais.

o
Henry Alfred Bugalh
a pela UFPR, com
É formado em Filosofi ra e
pecialista em Literatu
ênfase em Estética. Es as
atro romances e de du
História. Autor de qu
.
coletâneas de contos
Nova York, com sua
Mora, atualmente, em
sua cachorrinha.
esposa Denise e Bia,
.com
henrybugalho@gmail
www.maosdevaca.com

Joaquim Bispo
Ex-técnico de televisão,
xadrezista e pintor amador,
licenciado recente em His-
tória da Arte, experimenta
agora o prazer da escrita,
em Lisboa.

José Espírito Santo


ra e pós
http://bonfireblaze.files.wordpress.com/2007/12/grafiti_wall.jpg

Informático com licenciatu


de Ciências da
graduação na Faculdade
bo a, tra balha há largos
Universidade de Lis
sultoria, sendo
anos em formação e con
Dados, Sistemas
especialista em Bases de
e Middleware de
de Gestão Transaccional
la escrita surgiu
“Messaging ”. A paixão pe
ano de 2007
recentemente, tendo no
ços” (contos) e
produzido os livros “Esbo
praia” (poesia). Vive
e termina estaagosto um pouco a norte de
68 “Ond SAMIZDAT Po rtu gal deAlv
em 2008
erca, uma pequena cidade
em
68 com a família
Lisboa. jjsanto@gmail.com
.blogspot.com/
http://www.riodeescrita
Maria de Fátima Santos
Nasceu em Lagos, Algarve, mas tem Angola, onde
viveu a adolescência, como a sua mãe-terra. Licencia-
da em Física tem sido professora de Física e Química.
Com poemas em vários livros, em co-autoria, é às pe-
quenas histórias, que lhe voam no teclado, que chama
“meus contos”. O blog Repensando (www.intervalos.
blogspot.com ) tem sido seu parceiro e motivador na
escrita dos últimos anos. Escreve pelo gosto de deixar
que as palavras vão fazendo vida. Escreve pelo gozo.

Marcia Szajnbok
Médica formada pela Facul-
dade de Medicina da Univer-
sidade de São Paulo, trabalha
como psiquiatra e psicanalista.
Apaixonada por literatura e lín-
guas estrangeiras, lê sempre que
pode e brinca de escrever de vez
em quando. Paulistana convicta,
lo.
vive desde sempre em São Pau

marciasz@hotmail.com

Volmar Camargo Ju
nior é gaúcho. Form
em Letras pela Unive ado
rsidade de Cruz Alta,
leciona por sua próp nã o
ria vontade. Entrou na
em 2004, e desde en ECT
tão já morou em meia
de “Pereirópolis” pelo dúzia
Rio Grande. Atualm
vive com a esposa Na en te
tascha em Canela, na
Gaúcha. Dividem o ap Serra
artamento com Marie,
uma gata voluntario
sa e cínica.

v.camargo.junior@gm
http://recantodasletra ail.com
s.uol.com.br/autores/v
cj

Zulmar Lopes -
ca. Formado em jorna
Zulmar Lopes é cario tra ba lh a
de Gama Filho,
lismo pela Universida ciana e
prensa. Alma provin
como assessor de im en-
contra-se provisoriam
coração suburbano, en irro
olita Copacabana, ba
te exilado na cosmop sit ua ções
personagens e
fonte de inspiração de fu gir
ntos. Escreve para
que compõem seus co
do marasmo.www.samizdat-pt.blogspot.com 69
Também nesta edição,
textos de

Alian Moroz Marcelo Spalding

Carlos Alberto Barros Marcia Szajnbok

Giselle Natsu Sato Maria de Fátima Santos

Guilherme Rodrigues Paulo Bomfim

Henry Alfred Bugalho Volmar Camargo Junior

Joaquim Bispo Zulmar Lopes

José Espírito Santo

70 SAMIZDAT agosto de 2008


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