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SUBSÍDIOS PARA A ANÁLISE DA APROPRIAÇÃO DE INSTRUMENTOS

DO ESTATUTO DA CIDADE PELO MERCADO IMOBILIÁRIO: PROJETO


PAC ZEIS SANTA FELICIDADE – MARINGÁ –PR

Henrique Fornazin (PIC/UEM), Celene Tonella (Co-orientadora) e Ana Lúcia


Rodrigues (Orientadora) – alrodrigues@uem.br.

Universidade Estadual de Maringá/Centro de Ciências Humanas Letras e


Artes.

Palavras-chave: ex.: requalificação urbana, desigualdade socioespacial,


política urbana.

Resumo:

Essa é uma pesquisa de iniciação científica que faz uma análise da


implantação do Projeto de Requalificação Urbana e Social PAC ZEIS
SANTA FELICIDADE – MARINGÁ–PR, idealizado pela Prefeitura do
município com um orçamento de 25 milhões de reais. O centro da
intervenção é o bairro Santa Felicidade, caracterizado pela prefeitura como
violento e de baixa renda, foi criado em um processo de desfavelização no
final da década de 1970, área para onde foram remanejadas famílias de
áreas centrais de Maringá. Com o argumento da necessidade de rápida
tramitação de documentos e da iminência de repasses de recursos, o
governo municipal apresentou à comunidade um projeto pronto de
revitalização da área habitacional no qual consta a remoção de 1/3 das 246
residências. Nosso trabalho se propõe a levantar, mapear e analisar as
ações recentes que fazem parte do projeto de intervenção.

Introdução

Essa pesquisa compõe, através de algumas atividades, um projeto de


pesquisa mais amplo denominado “Uma análise da apropriação de
instrumentos do Estatuto da Cidade pelo mercado imobiliário: Projeto PAC
ZEIS Santa Felicidade – Maringá –PR.”, coordenado pela profa. Dra. Ana
Lúcia Rodrigues.
A regulamentação do Estatuto da Cidade tem como objetivo principal
garantir a função social da propriedade, desestimulando a prática
especulativa no trato com a propriedade do solo urbano, ao constituir-se
como o principal instrumento de política urbana.
Embora Maringá apresente aspectos singulares no processo de
ocupação urbana, oriundos do fato de ser uma cidade planejada, neste
particular não se diferencia da maioria das cidades de todo o Brasil. O
crescimento urbano se deu com a permissão, pelo poder público, da
ocorrência desses vazios e do financiamento do ônus decorrente deles. A
existência de espaços não ocupados no perímetro urbano se relaciona,
normalmente, à prática de favorecimentos políticos, de administrações
baseadas em benefício privado (próprio ou de terceiros), enfim, de
clientelismos de toda ordem.
O mercado imobiliário em Maringá - ao qual as baixas rendas não têm
acesso, pois o preço dos imóveis é muito alto - mantém-se economicamente
forte, congregando também forças políticas que se fazem representar em
todos os fóruns de decisão do município, o que tem possibilitado o
atendimento às suas demandas, desde a fundação da cidade. No extremo
oposto, historicamente mal representada politicamente, a população de
baixa renda que não consegue conquistar sequer o direito à moradia nos
domínios do município. Essa é a equação que resultou no processo de
segregação socioespacial em Maringá (RODRIGUES, 2004).
Em meados de 2007, o Executivo Municipal obteve recursos do PAC -
Programa de Aceleração do Crescimento, destinados a um investimento que
se insere na área “Saneamento e urbanização de favelas e áreas de risco
social” e busca a “remoção de moradias localizadas em beiras de córregos e
áreas de risco – Foz de Iguaçu, Londrina e Maringá” (PAC Paraná, home
page MCidades, consultada em fevereiro de 2008). Esses recursos servirão
à requalificação urbana e social do bairro Santa Felicidade e seu entorno
localizado em área muito próxima ao centro da cidade.

Materiais e Métodos

A metodologia adotada para o desenvolvimento deste trabalho é composta


por um levantamento bibliográfico, leitura e fichamento de material teórico
que discute as questões relativas à política urbana, instrumentos
urbanísticos e função social da cidade, ocupação urbana segregadora,
processos de gentrificação, desigualdade socioespacial etc., bem como da
legislação (federal e municipal) pertinente aos objetivos deste trabalho; pela
escolha e tabulação de algumas variáveis demográficas e de características
dos domicílios no Banco de Dados do Universo (IBGE, Censo Demográfico
de 2000) para a construção de um diagnóstico sócio-econômico dos
moradores do entorno das ZEIS.

Resultados e Discussão

Para início do trabalho busquei o estudo de uma breve bibliografia sobre o


processo de apropriação e desenvolvimento das cidades ligado ao mercado
capitalista com base em Henry Lefebvre, e a urbanização no Brasil nas
obras de Ermínia Maricato, Luiz César de Queiroz Ribeiro e Tereza Pires do
Rio Caldeira.
A análise da intervenção do poder público no bairro Santa Felicidade
mostra uma série de incongruências em relação às políticas urbanas de
inspiração no Estatuto das Cidades. Preliminarmente se observa que as
decisões recentes do gestor público estão na contramão das tendências que
moldam as políticas urbanas a partir de seus instrumentos: de combate à
especulação imobiliária, de ser participativa e ser includente. No Estatuto da
Cidade, que trata dos instrumentos da política urbana, dispõe que “os
instrumentos previstos neste artigo que demandam dispêndio de recursos
por parte do Poder Público Municipal devem ser objeto de controle social,
garantida a participação da comunidade, movimentos e entidades da
sociedade civil”. O Plano Diretor do Município de Maringá, no artigo 69, reza
que são objetivos das ZEIS (inciso III), “garantir a melhoria da qualidade de
vida e equidade social entre ocupações urbanas”.
Para o dito processo de intervenção o Executivo Municipal usou da
criação de ZEIS - Zona Especial de Interesse Social, como forma de
possibilitar o uso de áreas públicas, antes reservadas à construção de
equipamentos urbanos e sociais, agora destinadas a edificação das novas
residências aos moradores remanejados pela intervenção. Um instrumento
do Estatuto da Cidade usado de forma contrária, buscando legitimar um
processo de revitalização urbana no qual a maioria da população local está
sendo removida do espaço onde reside há 30 anos e, portanto, não usufruirá
dos benefícios da intervenção.
Foram criados ainda mapas temáticos para caracterizar cada ZEIS e
associados aos dados demográficos, sociais e econômicos (Censo
Demográfico do IBGE de 2000) de cada setor censitário dos quais as ZEIS
fazem parte.

Conclusões

Todavia, a maioria da população local está sendo removida do espaço onde


reside há 30 anos e, portanto, não usufruirá dos benefícios da intervenção.

A pesquisa vem demonstrando e reafirmando até aqui a hipótese sobre a


qual o trabalho busca compreensão: intervenções dos órgãos públicos no
planejamento urbano utilizando de forma contrária os instrumentos que
visam democratizar o acesso à cidade, beneficiando o mercado imobiliário e
perpetuando uma falsa imagem da cidade como livre de pobreza. Uma
possível tentativa de dissolver o bairro Santa Felicidade ao invés de propiciar
uma melhoria para seus moradores no geral. Bairro que carrega um estigma
de violento (ARAÚJO, 2005), reforçado no texto de autoria do Executivo
Municipal: ZEIS Santa Felicidade - Projeto de Requalificação Urbana e
Social.
Relacionamos essa dissolução ainda à imagem que a cidade tenta
vender através de sua publicidade, escondendo suas desigualdades e
déficits sociais, dando visibilidade unicamente a região central. Retira-se
então 56% dos moradores de uma área construída há 30 anos pulverizando-
os para as franjas periféricas, muitas delas distantes de equipamentos
urbanos básicos, ocupando lotes públicos antes reservados à construção de
infra-estrutura necessária. Caracteriza-se até agora, nos termos de
Kowarick, como um caso de clara Espoliação Urbana.
Temos a percepção de um processo de gentrificação (BIDOU, 2006),
visto que o bairro Santa Felicidade, apesar do título do projeto “PAC – ZEIS
Santa Felicidade”, não foi instituído como ZEIS deixando-o fragilizado à
especulação imobiliária. A crescente aproximação da área central e
condomínios fechados construídos ao lado do bairro vêm valorizando seus
lotes. Diferentemente de quando fundou-se o bairro, vizinho a um
matadouro, sem infra-estrutura adequada e distante da região central,
mostra-se agora um interesse do poder público em uma requalificação do
espaço, associada a remoção de moradores.

Agradecimentos
Agradecimentos a Ana Lúcia Rodrigues, Celene Tonella, ao Observatório
das Metrópoles e a todos que auxiliaram na pesquisa.

Referências

ARAÚJO, Marivânia Conceição de. O Bairro Santa Felicidade por ele


mesmo. Espaço Urbano e Formas de Representações Sociais em Maringá,
Paraná. Tese de Doutorado, UNESP-Araraquara, 2005.
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