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conhecimento e cidadania 6

tecnologia social e
Articulação comunidade-escola
Volume 2

instituto de tecnologia social dezembro 2008


Apresentação 05

Introdução 09

sumário
Pedagogia Griô: Associação e Ponto de Cultura 19
Grãos de Luz e Griô
Entrevista com Líllian Pacheco

Comunidades de Aprendizagem 35
Experiência Interativa em São Carlos

Considerações finais 47

Referências bibliográficas 51
apresentação A educação é prioridade permanente nas ações do Instituto de Tecnologia Social 5
(ITS Brasil) e está presente em cada atividade que promove, em cada projeto que
elabora, em cada publicação que edita. Desde sua fundação, quando seu Conselho De-

apresentação
liberativo tinha como membro o doutor Jorge Nagle, professor, pesquisador em edu-
cação, sempre esteve claro para nós o lugar central que a educação tem no desenvolvi-
mento socioeconômico, sobretudo quando este é encarado como um caminho para o
rompimento com as estruturas que perenizam as desigualdades e injustiças sociais.
Em seguida, quando organizamos em 2004 os seminários que reuniram mais de
oitenta organizações para construir o debate e elaborar coletivamente o conceito de tec-
nologia social, discutimos uma série de experiências desenvolvidas no campo da edu-
cação, além de outras nos campos da agricultura familiar, desenvolvimento local parti-
cipativo e tecnologia assistiva. Estes seminários evidenciaram novamente que a educa-
ção não é apenas um campo de conhecimento ou área de atividade, mas uma dimensão
transversal não só à tecnologia social, mas à vida de cada pessoa, de cada cidadão.
Vivemos aprendendo, aprendemos porque vivemos, nos transformamos pelo
aprendizado enquanto enfrentamos as dificuldades e problemas que estão postos
em nossa realidade. A educação, portanto, entendida não como absorção de conhe-
cimentos prontos e vindos de fora, mas como a invenção e reelaboração constante do
mundo e de si mesmo que cada um empreende durante toda a sua vida, é a mais ativa
e mais presente das dimensões que constituem a tecnologia social.
É por isso que entender o mundo já é transformá-lo – e também participar um
pouco mais dele. Entender o mundo significa apropriar-se dele, sentir-se dentro dele,
mais próximo das coisas e das pessoas. Significa também respeitar o mundo e as pes-
soas, admirar-se de sua grandeza e mistério, não para cultuá-lo, mas para amá-lo e
construir nele uma existência íntegra, feliz e sustentável.
A série de cadernos que inicialmente resultou dos seminários, e que prossegue
com a publicação deste volume, recebeu então o nome de “Conhecimento e Cidada-
nia”. Os dois conceitos estão imbricados: não há cidadania sem conhecimento, sem a
construção de uma compreensão da realidade que permita atuar de modo consciente
6 e autônomo no espaço público da sociedade; e o exercício da cidadania gera sempre ensinar são conteúdos que não lhes dizem respeito? Ou talvez estes conteúdos até 7
novos conhecimentos, que são construídos coletivamente e compartilhados. lhes digam respeito, mas são sentidos como coisas totalmente desligadas de suas
Todas as ações promovidas pelo ITS Brasil abarcam atividades de formação, em realidades. Será que isso não ocorre justamente porque ao invés de pontes o que se
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que se criam situações de intenso aprendizado. A título de exemplo, citamos aqui a constrói são muros?
metodologia de pesquisa popular para implantação de projetos de desenvolvimento As crianças, como quaisquer pessoas, só aprendem em contexto. O conhecimento
local participativo, realizada nos bairros Cidade Ipava (São Paulo, SP), São Sebastião, só faz sentido quando inserido num contexto e confrontado com ele. Esta é uma das
Itapuã e Mestre D’Armas (Brasília, DF), incluindo a própria formação em meio am- razões da importância central da articulação entre comunidade e escola, tema deste
biente que integrou as ações desses projetos; o amplo processo educativo que ocorre caderno. Que a escola deixe de ser um lugar de segregação e submissão para ser um
no projeto Pão Sol, em parceria com a prefeitura de Osasco (SP), uma padaria modelo lugar de referência na geração de esperança e alegrias para a comunidade, que a comu-
que funciona como um espaço de aprendizado e exercício da profissão da confeitaria nidade se encontre na escola e que esta seja, de fato, parte da comunidade.
e panificação e gera oportunidades de trabalho e renda, estimulando também a dinâ­ Este caderno, portanto, representa mais um passo entre tantos que precisam ser
mica de economia solidária; o curso à distância sobre Direitos Humanos e Mediação dados na construção de uma educação pública de qualidade no Brasil. Recolhemos
de Conflitos, em parceria com a Secretaria Especial de Direitos Humanos do governo e apresentamos tecnologias sociais de organização e gestão destinadas à articulação
federal; ou ainda as várias ações ligadas à tecnologia assistiva, extensão universitária, comunidade-escola. No primeiro volume, fizemos este levantamento a partir de
entre tantas outras. uma perspectiva territorial – os sistemas de educação formal dos municípios de So-
Assim, quando falamos sobre tecnologia social, surge com toda força a noção rocaba e Belo Horizonte e aquilo que se poderia chamar de a “comunidade escolar”
de uma educação sistêmica, transversal, presente em cada momento, seja de modo da Zona Leste de São Paulo. Neste segundo volume a articulação comunidade-escola
explícito em atividades de educação formal, não-formal e informal, seja implicita- é vista por meio de iniciativas que tecem suas redes a partir das unidades escolares,
mente nos aprendizados que acontecem a cada interação humana. Há muito que a sem necessariamente afetar todo o sistema de um município – são os casos da orga-
ideia de uma única matriz de conhecimento (a acadêmica) tornou-se obsoleta, mas nização Grãos de Luz e Griô, sediada em Lençóis (BA), e do projeto Comunidades
ideologicamente continua-se a preterir as diversas formas de conhecimento pre- de Aprendizagem, desenvolvido pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar),
sentes na sociedade e que muitas vezes apresentam as portas de saída para impasses em São Carlos (SP).
encontrados pela academia. Estamos prontos a ouvir os comentários, críticas, opiniões e sugestões que pos-
Uma educação sistêmica significa também a eliminação de certas segmentações sam surgir de sua apreensão desse texto.
e fronteiras artificiais que em geral apenas fazem a manutenção de velhas estrutu-
ras de poder. Por que razão não deveria a escola dialogar com a comunidade de seu Boa leitura!
entorno? Por que a escola deve ter “muros”? Não estará aí uma das razões de a escola
brasileira ser tão pouco eficaz na educação de nossas crianças e jovens – o fato de Irma R. Passoni, gerente-executiva do ITS Brasil
que ela perdeu o vínculo com a realidade vivida dessas pessoas e o que se procura
introdução E ste caderno Tecnologia Social e Educa- os de cultura escrita, e assim transforma a 9
ção: Articulação Comunidade-Escola vida de pessoas, comunidades e escolas,
Volume 2 completa o número anterior. Se estabelecendo novas conexões entre os

introdução
aquele procurou trazer ao debate experi- tempos, espaços e fluxos de vida.
ências de articulação comunidade-escola Ambas são tecnologias sociais de alta
que se desenvolvem a partir de um recorte densidade. Isto, evidentemente, não
territorial, este volume apresenta experi- se dá por acaso. Elas tocam no cerne da
ências em que esta articulação ocorre so- questão, no núcleo forte do qual decor-
bretudo a partir das unidades escolares, rem todas as características da tecnologia
ou outros focos de produção de cultura e social, que é a transformação das pesso-
educação. Em um caso, tal se dá por meio as para a sua autonomia, na assunção de
de uma ação de extensão universitária, no seus destinos e na visão clara da busca
outro, por meio de uma organização não- de solução de problemas efetivamente
governamental, que encontrou o apoio enfrentados. Se a educação é um aspecto
do Ministério da Cultura para ampliar o transversal a toda e qualquer ação no uni-
escopo de sua ação. verso da tecnologia social, metodologias
Assim, poderemos conhecer um pou- de educação que foquem a transforma-
co melhor como professores da Univer- ção social serão sempre essenciais no de-
sidade Federal de São Carlos estão co- senvolvimento de seus projetos. Antes
ordenando, nesta cidade do interior do de entrarmos numa apresentação deta-
estado de São Paulo, a implementação lhada destes dois projetos, nos capítulos
da metodologia das Comunidades de a seguir, vejamos em linhas gerais como
Aprendizagem, que já conta experiências a articulação comunidade-escola ativa as
em outros lugares do mundo, principal- dimensões da tecnologia social.
mente na Espanha. E também como edu-
cadores-artistas em Lençóis, na Chapada 1. Compromisso efetivo com a trans­
Diamantina, Bahia, desenvolveram uma formação social. O verdadeiro diálo-
metodologia que integra, como poucas go só pode acontecer quando ambas as
vezes se viu, saberes de cultura oral com partes envolvidas se expressam e, a seu
modo, são capazes de compreender-se as pessoas da comunidade muitas vezes passem a integrar o cotidiano da escola. do sistema educacional. Assim, surgem
uma à outra. Se isso é válido para um diá- veem a escola como um lugar que não A prática que tradicionalmente se con- questões de gestão importantes: as con-
logo entre duas pessoas, também é válido promove uma boa formação aos seus fi- solidou no Brasil é a inversa: nas assem- dições para que aconteça a produção lo-
para duas coletividades como a escola e a lhos e filhas. Percebe-se então que há na bleias das Associações de Pais e Mestres, cal de material, conteúdo e metodologia
comunidade em que está inserida. Logo raiz do problema uma profunda incom- discute-se principalmente as necessida- devem ser dadas pelo sistema educativo.
de início, é preciso reavivar a razão de ser preensão, que gera resistências e animo- des da escola, e essas reuniões se tornam Ou seja, os sistemas municipal e estadu-
da escola, relembrar o motivo de ela exis- sidades entre aqueles que deveriam ser um meio de se levantar recursos para al dos quais as escolas participam devem
tir, pois isso pode ter se perdido em meio parceiros na sua atuação. pequenos serviços necessários para a prever que os educadores disponham de
a tantas dificuldades que a escola enfren- A compreensão mútua começa sem manutenção da escola. Consolidou-se, tempo e condições materiais para isso.
ta para manter-se minimamente funcio- dúvida com a escuta. Se não formos capa- em muitos municípios, a tradição de se Trata-se de incluir essas atividades na
nando. Afinal, por que existe a escola? zes de ouvir aquele que está ao nosso lado, cobrar uma “taxa da APM”, muitas vezes grade de horários dos educadores. Uma
Se pensarmos bem, a sua razão de não poderemos atuar juntos, ainda mais vinculando o seu pagamento à partici- importante conquista, neste sentido, foi
existir só pode ser a própria comunida- em assuntos que dizem respeito a ambos. pação em atividades extracurriculares a recente lei do Piso Salarial Nacional,
de à qual ela está a serviço. A escola está Para ouvir o outro, é essencial reservarmos da escola, embora esta contribuição de- que garante que parte da carga horária
10 ali para formar os cidadãos de sua comu- o tempo necessário para que ele possa se vesse ser, na realidade, voluntária e não dos docentes seja destinada a atividades 11
nidade para lidar com os desafios que o expressar. Mas isso não basta. É necessá- vinculativa. O objetivo de se integrar a extraclasse, como as de planejamento,
mundo apresenta e torná-los capazes rio também garantirmos que ele ou ela escola e a comunidade num diálogo é, por exemplo. O desafio agora é assegurar
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introdução
de pensar e transformá-lo em algo mais tenha os instrumentos para se expressar sobretudo, o de sintonizar as necessida- que o Piso seja implementado sem alte-
próximo do mundo em que desejam vi- e, reciprocamente, que tenhamos os ins- des da escola com as da comunidade. Ou rações, o que não será realizado sem re-
ver. Estes cidadãos podem ser crianças e trumentos para compreender aquilo que seja, ganhar em transparência e partici- sistência política em várias instâncias.
jovens que estão pouco a pouco apren- ele ou ela quer transmitir. No sentido in- pação na gestão dos recursos e também A participação dos professores e co-
dendo a participar da sociedade e assu- verso, ocorre a mesma coisa, precisamos das práticas educativas que acontecem ordenadores pedagógicos na elaboração
mindo mais e mais responsabilidades, saber nos expressar e os nossos interlocu- no interior da escola. do conteúdo, programa e materiais nas
mas podem ser também adultos que, já tores precisam saber noscompreender. unidades escolares já é um passo im-
participando de pleno direito e respon- Tanto as Comunidades de Aprendi- portante. No entanto, como explicou
sabilidade da construção deste mundo, zagem quanto a Pedagogia Griô desen- A razão de existir da em entrevista ao ITS Brasil o professor
por alguma razão tiveram seus estudos volvem modos para que as vozes que escola só pode ser a da Faculdade de Educação da Universi-
interrompidos e agora veem a oportuni- constituem o “dentro” e o “fora” da esco- dade de São Paulo, Elie Ghanem, o cur-
dade de completar sua formação escolar. la possam ser ouvidas. E isso se dá rom-
comunidade à qual ela rículo escolar é algo que deve ser cons-
Se pensarmos então a escola tal como pendo-se a cisão, que nunca deveria ter está a serviço tantemente reelaborado por educandos
deveria ser, ela sem dúvida deveria se existido entre este dentro e fora. Escola e educadores em conjunto. A cada mo-
construir por meio de um diálogo cons- é parte da comunidade. Mas para chegar mento, a comunidade deve refletir e, a
tante e cotidiano com sua comunidade. a isso, é preciso que exista um canal para Um outro ponto de fundamental im- partir daquilo que está vivendo, defi-
Afinal, é a comunidade que faz a escola. que elas possam se manifestar, e ao mes- portância é que as necessidades educati- nir quais são as suas reais necessidades
Idealmente, seus professores deveriam mo tempo que a sua linguagem se incor- vas da comunidade sejam, de fato, estru- educativas. Isso significa que a educação
também ser dessa comunidade e sentir- pore no próprio dia a dia da escola. turantes da prática educativa realizada na será tratada como algo que diz respeito a
se parte dela. Mas na escola real, a esco- escola. Isso significa que o programa, o todos e sobre o qual todos podem e de-
la tal como é, nem sempre este sentido 2. O ponto de partida são as reais ne­ material didático e até a metodologia de vem opinar, e não como um assunto de
está claro. Não é raro que a comunidade cessidades e demandas da popula­ ensino devem ser formulados localmen- especialistas. E para tanto, a comunidade
seja vista, por parte dos profissionais da ção. Quando a escola se abre e busca o te, com intensa participação dos docen- também ganha se for capaz de se colocar
educação, como um problema na educa- diálogo com a comunidade, um cami- tes de cada unidade escolar, e nunca re- em processo de aprendizado e aprimo-
ção dos jovens. Em contraposição, agora nho quase natural é o de que as neces- produzidos na forma de cartilhas ou mé- rar-se na qualidade de sua participação
partindo de seu próprio ponto de vista, sidades e demandas dessa comunidade todos produzidos numa esfera central com formação e informação.
3. Relevância social. Uma vez que a a formação integral dos estudantes no as consequências de meus atos a partir de e autônomo, inovador e livre.
escola se coloca “em movimento” na longo prazo em suas vidas, o sentido de uma consciência daquilo que eu consu- Aprende-se constantemente com
busca por fazer corresponder os seus aprender aquilo pode surgir por diversas mo e dos resíduos que eu produzo é saber outras experiências, quanto a isso não há
objetivos educativos às necessidades de vias. Uma delas é a descoberta pelo pró- como eu me relaciono com a sociedade dúvidas, e a construção de uma rede de
formação da comunidade, ela cria mais prio prazer de conhecer e aprender, que como um todo e com o planeta. É ao mes- circulação de conhecimento entre as co-
condições para tornar-se um lugar de exige também uma sensibilidade do edu- mo tempo desenvolver uma consciência munidades e entre as unidades escolares
aprendizados que façam sentido para cador para com o educando. Outra é o di- de si e do mundo em que se vive, uma é extremamente saudável, para não dizer
os educandos. Em primeiro lugar, isto álogo a respeito dessa formação, ou seja, consciência plenamente embebida de indispensável. Mas, na hora de se aplicar
ocorre porque uma educação constru- que os educandos também sejam capazes respeito e cuidado. Na relação comuni- soluções apreendidas de outros contex-
ída numa parceria comunidade-escola de visar à sua própria formação em mais dade-escola a ecologia surge como tema tos, torna-se necessário recriá-las a partir
propicia uma ampliação do conceito de longo prazo, e assim colocar em perspec- transversal e traz à tona a responsabilida- do interior do novo contexto; em outras
educação para além das práticas formais tiva aquilo que num primeiro momento de de todos pelo planeta como algo a se palavras, mesmo a aplicação de uma so-
que ocorrem dentro da escola. Ou seja, não tenha um sentido direto. aprender prioritariamente. lução externa deve ser incorporada e to-
entende-se que comunidade e escola são O fundamental é que a questão do mada pelo “espírito da inovação”.
12 espaços tanto de convivência quanto de sentido de aprender e do que aprender 5. Inovação. Sem partir de soluções 13
educação, e que têm a possibilidade (e a mantenha-se viva no diálogo entre a co- prontas, e enfrentando diretamente os 6. Organização e sistematização. Se
oportunidade) de complementarem-se munidade e a escola, entre educandos e problemas que de fato existem no dia a por um lado é fundamental ser criativo
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introdução
na formação integral dos cidadãos. Ao educadores, entre coordenadores e pro- dia, comunidade e escola veem-se em e aberto ao novo, por outro, não há como
eliminar ou pelo menos atenuar a ruptu- fessores e assim por diante. situação de inovar, seja pela introdução haver uma real articulação comunidade-
ra ou contraste que há entre o “dentro” e naquela realidade de tecnologias de- escola consistente, duradoura e eficaz se
o “fora” da escola, os espaços e situações 4. Sustentabilidade ambiental. Tanto senvolvidas em outros contextos, seja não forem criados os ritos e rituais pró-
educativas se multiplicam, e os conteú­ a escola como a comunidade são espaços pela criação ou recriação de tecnologias prios para isso. Não há aí uma contradi-
dos programáticos que pareçam sem para aprender sobre a sustentabilidade no próprio processo. A primeira neces- ção. As estruturas que são criadas para dar
sentido vêm logo à tona. e a qualidade ambiental a partir de um sidade é a de criar os mecanismos para estabilidade e consistência ao processo
Além disso, quando esta articulação dia a dia pautado por práticas sustentá- que aconteça a própria interação. Isso in- são justamente aquelas pensadas para
comunidade-escola contempla a pos- veis. O aprendizado começa com o fazer. clui os seus ritos próprios, a construção acolher constantemente o surgimen-
sibilidade de que as situações vividas Como estão sendo usados os ­r ecursos de situações apropriadas e a formação to do novo, do inesperado, do singular.
no cotidiano dos educandos tornem-se naturais dentro da escola? E na comu- das pessoas. Às vezes é possível incluir Os mecanismos pelos quais a interação
temas ou conteúdos para serem discuti- nidade? E em cada casa? Essas pergun- também a criação de instrumentos de acontece devem integrar o programa
dos, pesquisados, investigados e apro- tas simples, que suscitam pequenas comunicação novos (pelo menos novos político-pedagógico (ou eco-político-
fundados na escola, o conhecimento pesquisas ­r ealizadas pelos educandos, naquele contexto). pedagógico, como quer o Instituto Pau-
passa a ser visto como algo que é pró- podem ser ­c anais de acesso para todo A inovação, enquanto princípio, lo Freire) da escola e ser apropriados por
prio da vida e não algo exclusivo de um um questionamento sobre a relação das ocorre a todo momento. É uma decor- toda a comunidade. Esta é uma tecnolo-
ambiente escolar. Em outras palavras, pessoas com o planeta e também entre si. rência da postura de base. Não se aplicam gia social ou o conjunto de tecnologias
o conhecimento tem a possibilidade de A consciência planetária a partir de pe- soluções prontas, mas são criadas solu- sociais central neste contexto.
ressoar diretamente o saber empírico da- quenos questionamentos e experiências ções para os problemas enfrentados. Do Desde a grade de horários dos pro-
quelas pessoas. práticas locais também é um fator que mesmo modo, o espírito inovador deve fissionais que trabalham na escola até a
Este “sentido” do aprendizado pode gera necessidades de aprendizados, e a permear constantemente a construção programação, a forma e o calendário das
também ser construído no próprio diá- necessidade é sempre o melhor tempero do conteúdo ou currículo escolar, o pla- assembleias e reuniões para a discussão
logo. Quando alguns tópicos do conhe- para dar sabor ao saber. nejamento e replanejamento etc. É vi- de questões pertinentes e a tomada de
cimento não dizem respeito a uma rea- A formação ambiental pela prática venciando a educação desta forma que o decisão coletiva, cada aspecto que possi-
lidade diretamente vivida, mas que nem ecológica é também, fundamentalmen- estudante pode encontrar vias para de- bilita, facilita, induz ou gera a interação
por isso deixam de ser importantes para te, uma questão ética. Saber até onde vão senvolver seu próprio caminho criativo deve ser construído de modo metódico
e incorporado numa visão de conjunto. A formação (Freire, 1982, p. 64). É quando a escola se
Esta visão de conjunto nada mais é do
ambiental pela prática (re)descobre como parte da comunidade
que a concepção de escola que se tem na- que ela muda sua postura de educadora
quela unidade específica. ecológica é também unidirecional, aquela que tem tudo a en-
A publicação periódica de material que uma questão ética sinar e nada a aprender. Se a escola assu-
sistematiza a experiência é também de me uma postura “aprendente”, muda-se
grande valia. Não seria excelente se cada o registro do relacionamento. E a comu-
unidade escolar produzisse suas próprias Quer dizer, a acessibilidade à escola co- nidade também se vê com a responsabi-
publicações consolidando seus debates e meça na comunidade. lidade de ser mais que um receptáculo de
suas práticas, publicações que poderiam Por outro lado, a escola pode se tornar informações para se tornar também ativa
circular em outras unidades escolares e um interessante fórum de debate para e presente no processo de educação.
em outros âmbitos da comunidade? Pois a plena inclusão de todas as pessoas na
publicar é um excelente meio de tomar vida em comunidade. Nesse sentido, to- 9. Diálogo entre saberes populares e
consciência dos processos que estão sen- mando ao contrário a frase que acabou de conhecimento científico. Este é um
14 do vividos cotidianamente. Além de tor- ser formulada, a inclusão na comunidade dos pontos mais ricos e também um dos
nar-se um instrumento de avaliação, en- também começa na escola. Em resumo, mais difíceis para ser trabalhado nessa
tre outras razões, por permitir uma com- há uma continuidade entre os dois âmbi- relação comunidade-escola. Histori-
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paração entre os números eventualmente tos: uma complementaridade e um estí- camente, em muitas situações, a escola
encontrados no decorrer do tempo. mulo recíproco à transformação. teve o perverso papel de introduzir a ig-
Desse modo, a apropriação compar- norância em comunidades que antes de
7. Acessibilidade e apropriação pela tilhada das tecnologias sociais envolvi- sua chegada eram muito ricas de sabe- Atividade durante uma Trilha Griô, na Chapada Diamantina
população. Dar visibilidade a todos os das neste processo pelos participantes res. Isso aconteceu e ainda acontece em
tipos de necessidades que existem numa (tanto os profissionais da escola quanto muitas das escolas porque a escola é toda
comunidade, mesmo aquelas que são os membros da comunidade) torna-se estruturada a partir da cultura escrita e
especiais e que são de um pequeno gru- um ponto central. Soma-se a isso, como de um conhecimento que se pretende
po ou quem sabe de uma única pessoa, é veremos adiante, os modos participati- universal. Neste contexto, os mestres
um importante aspecto do diálogo entre vos de planejamento, monitoramento e de tradição oral de uma comunidade, os
a comunidade e a escola. Um usuário de avaliação. “Apropriar-se” aqui, quer di- quais até então eram as suas principais
cadeira de rodas, por exemplo, só pode- zer, sobretudo, aprender; ou, mais ainda, referências de saber e sabedoria, são ta-
rá realmente ter o seu direito à educação manter-se em constante aprendizado e xados de analfabetos pela escola.
plenamente respeitado se a escola esti- questionamento sobre as coisas que di- A escola tradicional (ou seja, aquela
ver capacitada para recebê-lo e, mais que zem respeito à educação. escola que vem de um modelo herdado
isso, que todo o entorno se transforme do Iluminismo) não está preparada para
em função disso. Não apenas para que ele 8. Aprendizados gerados para todos lidar com a diversidade de saberes, ou
possa ter um acesso físico à escola: com os envolvidos. Paulo Freire, em texto aquilo que Boaventura de Souza Santos
calçadas, ônibus e semáforos adequados clássico que trata da alfabetização, escre- chamou de “diversidade epistemológi-
para vários tipos de pessoas e não so- veu que “é preciso que acreditemos [nos ca”. Muito tem se avançado neste senti-
mente este ser humano ideal para o qual educandos] e, em nossa prática com eles, do, pelo menos do ponto de vista da cir-
nossas cidades parecem ser construídas.1 nos tornemos seus educandos também” culação das ideias e do incentivo público
à inclusão. Só a existência de um órgão
como a Secretaria de Educação Continu-
1. Ideal no sentido de que não corresponde às pessoas reais, mas sim a um tipo médio que é adulto (mas não muito velho),
tem uma certa estatura (nem muito alta nem muito baixa), um certo tipo físico (não muito gordo), se locomove com suas ada, Alfabetização e Diversidade (Secad/
pernas, tem olhos e ouvidos “perfeitos” etc. Ou seja, ficam excluídos muitas crianças, idosos, pessoas com filhos pequenos MEC) dentro do Ministério da Educação
ou com parentes idosos, pessoas com dificuldades de locomoção ou de enxergar e/ou ouvir e assim por diante.
já indica um avanço importante do pon- patente comercial, que existe para res- A escola pode ser acompanhamento e avaliação, em que
to de vista da estrutura do poder executi- tringir o acesso e o uso do conhecimento
um espaço para a cada educador e cada educando possa
vo central. O mesmo se pode dizer da Lei desenvolvido e aplicado em tecnologias, compartilhar esse processo como sujei-
de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), o que muitas vezes causa grandes prejuí- formação da opressão, tos. Quer dizer, as práticas educativas
que tem a diversidade como um tema zos sociais. Veja o caso de medicamentos da submissão, devem ser participativas desde dentro.
transversal. Porém, é preciso avançar na para combater doenças que assolam uma
da não-criatividade; Neste sentido, a participação faz eco com
concretização disso na prática escolar, e população e que não podem tornar-se outro conceito, o da transparência. Ha-
neste momento a articulação com as co- políticas públicas porque determinados mas também pode ser vendo transparência, também as trocas
munidades é, sem dúvida, de fundamen- laboratórios controlam sua produção e um espaço para vivenciar de informações, impressões e projeções
tal importância. mantêm os preços muito altos. No caso
intensamente a liberdade, correm mais fluidamente, de um modo
É neste aspecto justamente que nas- das tecnologias sociais, elas são compar- que é acessível a todos.
ce a Pedagogia Griô, apresentada neste tilhadas e, mais que isso, buscam o seu a fraternidade e a
caderno. Trata-se de descobrir a imensa desenvolvimento em rede. inovação. 12. Fortalecimento do processo de­
liberdade que é poder ser quem se é den- A imagem que se tem da difusão pode mocrático. Em resumo, todo o proces-
16 tro da escola; em vez de impor um saber ser aquela de uma antena de rádio ou TV so de articulação comunidade-escola é 17
como correto, construir – sem limitações que de um ponto central procura atingir gunta que será complementada com ou- essencialmente um processo político-
a priori – vias de saber que digam respeito todos os pontos dentro de um determi- tras questões, e as respostas vão pouco a pedagógico. O processo democrático se
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introdução
diretamente às pessoas que, de fato, es- nado raio. Essa imagem não serve para a pouco sendo tecidas, numa rica troca de constrói com a participação, com a troca,
tão ali vivenciando o processo educativo, tecnologia social. No caso dela, a melhor ideias, dúvidas, soluções, inovações, me- com o respeito ao direito de cada um de
ou seja, com as suas tradições culturais, imagem para uma rede seria a deste poe- todologias sem fim. A tecnologia social é manifestar sua própria voz. E essa é uma
com os seus saberes ancestrais, com as ma de João Cabral de Mello Neto: esta luz que cresce pelo esforço e criativi- das razões por que o processo democrá-
suas famílias, e ao mesmo tempo com os dade de todos, um toldo onde todos ca- tico é, em si, pedagógico: ele envolve um
seus interesses de conhecer outros mun- Tecendo a manhã bem, e que é feito do conhecimento, com aprendizado constante, uma criatividade
dos e outras realidades, de desenvolver Um galo sozinho não tece uma manhã: seu “tecido aéreo”, mas que, “tecido, se permanentemente ativa e compartilha-
o saber crítico sem com isso cortar suas ele precisará sempre de outros galos. eleva por si”. da, de tal maneira que o seu próprio acon-
De um que apanhe esse grito que ele
raízes, sua identidade. Para retomar ou- tecer forma as pessoas para a democracia.
e o lance a outro: de um outro galo
tra expressão do Paulo Freire, significa 11. Processos participativos de plane­ Portanto, a escola pode ser um espaço
que apanhe o grito que um galo antes
abrir-se para “ser mais” e não diminuir- jamento, acompanhamento e avalia­ para a formação da opressão, da submis-
e o lance a outro; e de outros galos
se e submeter-se a um conhecimento ex- ção. Os processos participativos que per- são, da não-criatividade; mas também
que com muitos outros galos se cruzam
terno, que provavelmente serve a outros os fios de sol de seus gritos de galo
mitam a cada um, de algum modo, exercer pode ser um espaço para vivenciar inten-
grupos sociais, econômicos e políticos. para que a manhã, desde uma tela tênue, o seu direito de planejar, acompanhar e samente a liberdade, a fraternidade e a
se vá tecendo, entre todos os galos. avaliar ao mesmo tempo que ser acom- inovação. Na escola, por ser um local vol-
10. Difusão dos conhecimentos e E se encorpando em tela, entre todos, panhado e avaliado são múltiplos. Tradi- tado precisamente para a formação, esses
tec­n ologias desenvolvidos. Difun- se erguendo tenda, onde entrem todos, cionalmente, podem envolver desde as- processos são vividos de maneira extre-
dir é também uma forma de consolidar, no toldo sembleias, reuniões regulares e fóruns de mamente intensa. Daí a importância de
principalmente quando falamos de tec- (a manhã) que plana livre de armação. discussão e aprendizado até a promoção que ela se transforme numa tecnologia
nologias sociais. Quando mais pessoas A manhã, toldo de um tecido tão aéreo de eventos na escola e no seu entorno. social organizacional, à serviço das pes-
detêm o conhecimento e aplicam ou que, tecido, se eleva por si: luz balão. Mas a tecnologia social mais densa é soas que constituem a sua comunidade.
implementam as tecnologias sociais, aquela que leva a participação para o cen-
mais aumenta a rede que permite o seu Uma pessoa, enfrentando as dificul- tro de cada atividade que acontece dentro
aprimoramento, a sua recriação em di- dades, lança uma pergunta, outra pessoa do processo em questão. Assim, é preci-
ferentes contextos em que há diferentes dá uma resposta, ainda que incompleta; so que o próprio aprendizado se torne
necessidades. É uma visão oposta à da alguém complementa com outra per- uma prática constante de planejamento,
Pedagogia Griô: No diálogo com a tradição oral,
a educação se reinventa
vação da cultura. Este trabalho tem estimu-
lado a construção de atividades em que pro-
19

Associação e
Ele chega com música, cantoria e brinca- fessores e alunos interagem e descobrem

pedagogia griô
deira. Os moradores saem de suas casas, novas formas de vincular-se ao processo
as crianças correm para participar e um da educação, tendo como ponto de partida

Ponto de Cultura cortejo vai se formando. Na sala de aula,


dezenas de olhinhos saem das fileiras e
suas histórias de vida e identidades.
Até 2001, era apenas um projeto. Mas a

Grãos de Luz e Griô espremem-se entre as grades da janela,


buscando a melhor visão. Quem é este
homem, com suas roupas coloridas e to-
necessidade de autonomia jurídica e admi-
nistrativa levou à fundação, naquele ano, da
Associação Grãos de Luz e Griô. Nos anos
cando seu violão, cantando e brincando seguintes, a proposta de educação elabo-
com todos que encontra? Lá está o griô, rada pela ONG ganhou repercussão não
que conduz a brincadeira e encanta as apenas local, mas também no resto do país
pessoas, chamando-as a participar de e fora dele, com a participação em redes e
uma roda, ritmada por canções que os festivais dirigidos à cultura de tradição oral,
mais velhos aprenderam com seus an- a conquista de prêmios como o Itaú-Unicef
tepassados e hoje ensinam aos jovens. de Educação e Participação, em 2003, e a di-
Professores, coordenadores, alunos e vulgação pela imprensa nacional.
mestres de tradição oral reúnem-se para A sede da Associação fica no centro
brincar, cantar e contar histórias, mos- histórico de Lençóis e todos a reconhe-
trando o que são e o que sabem. O portão cem ao avistar seu grande portão colori-
da escola não intimida mais ninguém. do. A placa na entrada apresenta a “roda
Mas quando é que essa história come- de solidariedade” que apoia os projetos,
çou? Há onze anos, na cidade de Lençóis, incluindo ONGs nacionais e internacio-
na Chapada Diamantina, Bahia, um proje- nais, empresas locais, na maioria agências
to foi criado com o objetivo de aprofundar de ecoturismo e hotéis, e órgãos de gover-
a relação entre a escola e os conhecimentos no. Do lado de dentro, o galpão divide-se
populares, valorizando a tradição oral como em uma ampla área ao ar livre, uma cozi-
importante veículo de transmissão e preser- nha e sete salas, algumas delas erguidas
em mutirão e decoradas com painéis que “As pessoas do com as crianças, como resultado das
parecem saídos da África. costumam dizer: a oficinas e parte do caminho que a gente
Neste espaço acontecem, diariamen- estava criando em educação. Eram ex-
te, oficinas para 140 crianças e adoles-
escola é muito fechada. posições e aulas-espetáculos, com todos
centes, de 7 a 14 anos, em áreas como Mas tem o porteiro, os produtos educativos. Os professores
artes e artesanato, brincadeira, biodança, a merendeira, um [da rede pública] ficavam ligados, alguns
educação ambiental e audiovisual. São convidavam a gente para uma reunião de
meninos e, principalmente, meninas
professor ou um planejamento, as próprias crianças ques-
de famílias de baixa renda, com poucas administrador mais tionavam conteúdos na escola. E aconte-
oportunidades de acesso a uma forma- sensível, é possível ceu o que a gente queria: criar um diálogo
ção complementar à escola. É comum com a educação formal, a partir da base”,
passear pelas ruas de Lençóis e sermos
entrar pelas brechas conta Líllian Pacheco.
apresentados a um deles: “Esse aqui é e ir ocupando espaço” A experiência das Oficinas Grãos de
grão!”. O apelido vem da expressão “grão Luz chamou a atenção da Secretaria Mu-
20 de luz”, que remete ao mito dos garim- nicipal de Educação, que propôs uma
peiros locais para denominar o diamante primeiro passo para integrar os saberes de parceria para a capacitação de professo-
(ver PACHECO, 2006, p. 24 e 107). tradição oral nas atividades da ONG. Em res, em Lençóis e municípios vizinhos.
instituto de tecnologia social

Quando completam 16 anos, esses discussões semanais de planejamento, “A gente não apresentou uma capacita-
meninos e meninas podem formar gru- realizadas com os educadores, um jeito ção já formatada. Porque uma parceria
pos cooperativos de jovens, que uti- diferente de ensinar ia sendo proposto, como esta cria uma expectativa: ‘como
lizam referências da cultura local para aplicado, avaliado e reeditado. Referên- fica o currículo pra gente trabalhar?’ e as-
desenvolver seus projetos e produtos. cias da educação biocêntrica, educação sim não dá, perde-se toda a vitalidade do
Atualmente, existem os grupos de arte- dialógica, arte-educação e psicologia co- processo”, afirma a educadora. A solução
sanato em retalhos e em papel reciclado, munitária, trazidas pela coordenadora, foi inverter a lógica: ir às comunidades,
música e tradição oral, e turismo de base foram incorporadas ao projeto. conhecer suas realidades e conviver com
comunitária. A vivência do trabalho e da Nas salas, nada de fileiras e rigidez mi- os professores para fazerem, juntos, o
gestão nos grupos cooperativos funcio- litar, mas sim o aprendizado pela vivên- processo de formação. Assim, em se-
na para eles como formação pré-profis- cia, com roda, brincadeira, movimento e tembro de 1999, começava o Projeto
sionalizante. Com a venda dos produ- música. A cada ano, escolhe-se um novo Griô, com financiamento da secretaria e
tos, os jovens complementam a renda tema gerador ligado à realidade dos alu- da Fundação Abrinq.
da família e começam a poupar para, no nos, que permite integrar as ciências da “As pessoas costumam dizer: a es-
futuro, financiar os estudos ou a casa vida e o saberes, símbolos, mitos e heróis cola é muito fechada. Mas tem o portei-
própria. Alguns jovens decidem entrar da cultura local. No centro desse processo, ro, a merendeira, um professor ou um
na faculdade sem passar pelos grupos a história de cada criança e a forma como administrador mais sensível, é possí- As comunidades se vestem em múltiplas cores
cooperativos, mas continuam ligados cada uma compreende, sente e comuni- vel entrar pelas brechas e ir ocupan- para receber o Griô, que chega com muita dança,
cantoria e brincadeira
à Associação, recebendo uma bolsa que ca seus saberes. Como expressão do que do espaço. O que não dá é para ocupar
ajuda a custear os estudos. foi aprendido, a invenção de produtos espaço pelas hierarquias, isso não tem
educativos - desenhos, bonecos, jogos, a ver com o processo que queremos in-
livros, cordéis. Registro criativo do que centivar. Porque, se você entra de cima
Das oficinas às escolas ficou, na memória, na afetividade, na ex- para baixo, de repente vê que esqueceu
A criação de um projeto pedagógico para periência que será levada adiante, na vida. a criança, perdeu o contato com quem
as Oficinas Grãos de Luz, em 1998, coorde- “A gente sempre mostrava para a co- está vivendo o processo da educação”,
nado pela educadora Líllian Pacheco, foi o munidade o que estava sendo produzi- argumenta Líllian.
Um jeito aprendiz tinuidade à cadeia da transmissão oral. pada Diamantina, Líllian percebeu que
“ Na tradição oral, todas as Quando a parceria com a Secretaria Muni- Podem ser músicos; “embaixadores” que o desafio passava por uma reinvenção da
ciências se transformam em histórias” cipal de Educação deslanchou, a figura do atuam na mediação de conflitos entre as linguagem.
Líllian Pacheco
Velho Griô tornou-se conhecida entre os famílias nobres; e poetas, historiadores Márcio Caires, também nascido na
Na Chapada Diamantina, os relatos sobre as aparições
do Nego D’Água são contados e recontados desde que os moradores da Chapada Diamantina. De ou genealogistas que percorrem os paí- Chapada Diamantina e casado com Líllian,
bisavós de hoje eram crianças. De corpo miúdo e atarracado, paletó e chapéu, enfeitados com fuxicos, ses para descobrir e contar as origens dos costumava visitar as comunidades rurais
o Nego d’Água é um excelente nadador que vive quieto nas fitas e bordados, ele caminha de povoado troncos familiares. da região e, nos caminhos que levam ao
profundezas dos rios. Quando perturbado, faz que sua força
em povoado, levando instrumentos de Pelo trabalho da ONG, a figura do griô Remanso, Tanquinho, Iuna, Capivara,
seja sentida por todos que navegam ou pescam na super-
fície ou descansam nas margens dos rios. Nas atividades da corda e percussão e um repertório de his- africano ganhou uma releitura à brasileira. entre outras, começou a fazer sua própria
Grãos de Luz e Griô, esse mito motivou uma bela história de tórias, versos, danças e cantigas, trocados Seu papel, aqui, é fazer a mediação entre a trilha. “Nessas caminhadas, havia uma li-
aprendizagem. Delvan Dias, um dos adolescentes que par- e recolhidos nos lugares onde passou. Sua educação formal e a não formal, entre as gação muito forte com os mestres e uma
ticipam das Oficinas Grãos de Luz, resgatou o que seus avós
escola foram os mestres de capoeira, dos disciplinas do currículo e os saberes e fa- aprendizagem com as festas, brincadeiras
contaram sobre a aparição do Nego D’Água na comunidade
quilombola do Remanso, onde nasceram. O que ele apren- reisados e do jarê (culto ligado ao candom- zeres cultivados pela tradição oral. “Logo e rituais de trabalho, cura, os reisados, os
deu com a tradição oral, recriou em uma música de capoeira, blé local), curandeiros, parteiras, garim- no início, vimos que o diálogo com as co- saberes de tradição oral. Era algo vivido”,
hoje cantada nas rodas de capoeiristas, em Lençóis, e apre- peiros, rezadeiras e cantadores da Chapada munidades entrava em questões étnico- conta. Essa forma participante de conhe-
sentações da banda Grãos de Luz.
Diamantina. O Velho Griô é um persona- raciais negativas e as pessoas importantes cer as comunidades e a convivência com
gem, criado pela Associação Grãos de Luz e de tradição oral se fixavam em conceitos os mestres de tradição oral forneceram
Griô e vivido pelo educador Márcio Caires, como ‘eu sou uma analfabeta’ ou ‘eu sou pistas para pensar sua inclusão no diálogo
Nego D’Água (Delvan Dias) que remete à tradição oral da África negra. sem instrução’. Esses lugares foram cons- com as escolas.
Ê, camará Mestres e griôs são figuras importantes tituídos pela relação com a escola. A co- “O que a gente propôs, então, foi che-
Não mexa com nego d’água
nas sociedades do noroeste africano, em munidade não assumia o lugar do saber, gar nas comunidades como o griô chega,
Ê, camará
Não mexa com nego d’água que a oralidade, e não a palavra escrita, é o não dizia por si mesma que ela sabia. Não de um jeito muito aprendiz, um jeito que
Ele é um nego forte principal meio de manutenção das cultu- dava para chegar lá entrevistando com entra numa relação de encantamento
Parece um toco baixo ras. Em vez do registro em livros e arquivos, gravador, com categorias teóricas defini- com a tradição oral. E se colocar nesse lu-
Mas tamanho não é documento
é a circulação do conhecimento que garante das”, pondera Líllian. gar para construir linguagem, construir
Tem uma força desgramada
Pescador não pesca nada que as culturas permaneçam vivas. pedagogia”, afirma Líllian Pacheco. “A
Ainda faz virar o barco De acordo com o malinês Amadou gente chega brincando e os professores
Dê valor a sua vida Hampâté Bá, um dos maiores estudio- “A afetividade entram na brincadeira, porque eles en-
Não mexa com o nego d’água
sos do tema, possui elementos de tendem; os diretores, alunos, pais, avós,
os brasileiros todos entendem essa lin-
A tradição oral é a grande escola da vida e dela
consciência, de valores, guagem. E é nela que vão nascendo os
recupera e relaciona todos os aspectos. Pode
parecer caótica àqueles que não lhe descor- de compromisso, processos de saber.”
tinam o segredo e desorientar a mentalidade de componentes
simbólicos”, diz Ruth
cartesiana acostumada a separar tudo em ca-
tegorias bem definidas. (...) Ela é ao mesmo A vivência da pedagogia
tempo religião, conhecimento, ciência natu- Cavalcante No centro da praça ou no pátio da escola,
ral, iniciação à arte, história, divertimento e na terra batida ou no chão de cimento, a
recreação, uma vez que todo pormenor sem- roda da comunidade está formada. O Ve-
pre nos permite remontar à Unidade primor-
Uma diferença “simples e sutil, com- lho Griô inicia um ritual regido por mú-
dial. (BÂ, 1982, p. 183)
plexa e elaborada” marcava essa relação sica, movimento, contação de histórias.
Segundo ele, os griôs (no francês, e, ao mesmo tempo, levantava questio- “Não é só fazer uma coletânea de cantigas
griots) são como trovadores ou menes- namentos sobre qual a “inclusão” que se e danças e dizer ‘vamos cantar’. Não é um
tréis, considerados agentes que dão con- buscava. Nascida em Jacobina, na Cha- espetáculo. Há um cuidado e um planeja-
mento, mas tudo é recriado na roda. É uma da roda da vida. “Foi a junção da tradição Uma rede nacional
vivência”, afirma Márcio Caires. oral africana, o griô que caminha, ensina, Em 2006, esse movimento local passou a
É também uma didática, que tem aprende e faz a rede de continuidade des- inspirar uma ação em rede, espalhada por
como objetivo fortalecer os vínculos de sa tradição, e a educação biocêntrica. Isso todo o país. A parceria entre a Associação
afetividade, considerados, na educação dá liga. Claro que muita coisa a gente faz, Grãos de Luz e Griô e a Secretaria de Pro-
biocêntrica, a base para um aprendizado avalia e volta pra fazer de novo, de outro gramas e Projetos Culturais do Ministé-
integral, justamente por agregar várias jeito. Os processos vão se reformulan- rio da Cultura originou o programa Ação
formas de inteligência. De acordo com a do”, comenta a autora. Griô Nacional. Seu objetivo é estimular a
educadora Ruth Cavalcante, Essa metodologia enfatizou, ainda, o criação de projetos pedagógicos que valo-
A afetividade possui elementos de consciência,
tema das relações étnico-raciais positivas rizam os saberes de mestres e griôs e vin-
de valores, de compromisso, de componentes para trabalhar a identidade e reservou um culam educadores, escolas e universida-
simbólicos, está vinculada à percepção e esti- momento especial, nas vivências, para o des às comunidades onde estão inseridos.
mula estruturas cognitivas, favorecendo a cons- uso da palavra – a contação de histórias, os O programa é dirigido, prioritariamente,
trução do conhecimento crítico, tendo como jogos de versos –, aproximando-a do sen- a pontos de cultura que têm propostas re-
base metodológica a problematização, o diálogo tido que tem na tradição oral [leia mais na lacionadas à tradição oral.
e a vivência. (CAVALCANTE, 2001, p. 8) entrevista na pág. 26]. São alguns exem- Atualmente, a Ação Griô Nacional
O que é invisível para uns é a escola da vida para plos de inovações em relação às práticas articula 150 pontos de cultura e entida-
outros. Nas capoeiras, candomblés, sambas- de educação biocêntrica, que reportam, a des, selecionados por meio de dois edi-
de-roda, torés, cirandas, nas escolas de samba, todo momento, à ligação do projeto com tais, lançados no final de 2006 e 2008.
nas caminhadas de reis, nas mãos de rendeiras o contexto local, fonte permanente de re- Os editais preveem bolsas de incentivo
e parteiras, no encontro com griôs... Vemo-nos flexão e criatividade. mensais para os mestres e griôs-apren-
em rodas, rituais, coros e cantos ancestrais cha- A série de encontros de formação de dizes no valor de R$ 380, pelo período
mando para responder... Cores e movimentos professores, realizada entre 1999 e 2005, de um ano.
fluidos, seguros, quentes e leves como a água, a permitiu que a vivência dessa pedagogia “A proposta é que cada escola e cada
terra, o fogo e o ar. As idades e os gêneros juntos
se recriasse também no ambiente das es- ponto de cultura faça do seu jeito, crian-
em caminhadas e conversas com todas as lingua-
colas, desta vez como parte dos plane- do sua linguagem e sua pedagogia para
gens artísticas e afetivas da corporeidade huma-
jamentos pedagógicos. “Trabalhamos integrar educação formal e tradição oral.
na. Contadores de histórias, heróis e mitos que
com os educadores a liberdade de criação Temos uma sistematização, mas não po-
dão sentido aos mistérios de cada idade da vida.
O grupo como colo, ninho, família, comunida-
dos processos de educação. São eles que demos capacitar duzentos griôs no Bra-
de e o princípio da partilha como economia. A fazem educação e política de educação. sil e eles aplicarem isso. Porque mata o
palavra como poder divino e o universo como Porque nunca pode ser pedagogia sem processo. Referência sim, multiplicação
expressão, fala, forma, música e dança – da vida uma política, sem uma visão de mundo, não”, afirma Líllian Pacheco.
em evolução. (PACHECO, 2006, p.83) sem uma opção de formação”, destaca
Líllian. Um dos resultados alcançados
Ao longo de 2002, as caminhadas do nesse processo foi o maior engajamen-
Velho Griô aconteceram em 15 comu- to dos professores na revitalização da
nidades da Chapada Diamantina. Essa educação local, dentro e fora das salas
experiência, assim como as pesquisas e de aula. Em Lençóis, eles criaram uma
práticas desenvolvidas nas oficinas Grãos associação municipal, reestruturaram o
de Luz, subsidiaram a criação de uma me- Conselho Municipal de Educação e luta-
todologia, a Pedagogia Griô, de autoria ram para a abertura de concursos públi- Toda cultura tradicional tem seu modo próprio
de ensinar e aprender; a Pedagogia Griô
de Líllian Pacheco, mais tarde registrada cos, entre outras ações. [veja entrevista
põe esses saberes em diálogo com a cultura
no livro Pedagogia griô – a reinvenção na pág. 26] desenvolvida na escola
“O griô é o pesquisador principal da gente. Se vo-
cê quer aprender a cantar, que chegue cantando.
Quer aprender as histórias da comunidade, che-
gue abrindo uma roda de contação de histórias e
conte uma história.”

26
Entrevista com ITS Brasil: No que consistia o Projeto Griô tradição oral e com outras referências, da tudaram a história do Brasil, geografia 27
e sua interação com as escolas municipais educação biocêntrica, educação para as e, pelas ladainhas, português. E tinham
lÍllian pacheco da cidade de Lençóis? relações étnico-raciais positivas, psico- aulas de capoeira dentro da escola, sem-
instituto de tecnologia social

pedagogia griô
Líllian Pacheco: A gente criava um plane- logia comunitária e educação dialógica pre fazendo processos vivenciais e bus-
Esta entrevista foi concedida por Líllian jamento pedagógico, nas Oficinas Grãos de Paulo Freire. cando referências na Pedagogia Griô, de
Pacheco em Lençóis, no dia 25 de outu- de Luz, que se integrava com os saberes A gente passava em todas as escolas, criar aulas abertas com rodas e incluir a
bro de 2008, a Juliana Lopes, mestran- da comunidade, em diversas linguagens: caminhando, brincando, fazendo surpre- expressão artística desse vivencial. Não
da em Bens Culturais e Projetos Soci- música, pintura, desenho, fotografia, sas e criando esse jeito de chegar à educa- a arte enquanto aula de arte. Mas a aula
ais no Programa de Pós-Graduação em brincadeiras, reciclagem, qualquer lin- ção formal. Depois disso, os educadores enquanto um momento de expressão
História, Política e Bens Culturais (CP- guagem artística ou artesanal. Cada ofi- se inscreviam na capacitação da Pedagogia do seu saber, do que você está vivendo
DOC) da Fundação Getúlio Vargas do cina estudava um tema importante para Griô. Disso saía o projeto pedagógico dos e aprendendo. A ideia era integrar es-
Rio de Janeiro. O título de seu projeto de a comunidade, como gênero, a água na professores, individualmente, em grupo sa expressão artística em todas as disci-
pesquisa é “Tecendo os fios entre cultura Chapada Diamantina, tradição oral, rela- ou todo mundo da escola, conforme cada plinas, nos conteúdos que se está apre-
e educação: o caso da Associação Grãos ções étnico-raciais e étnico-culturais. instituição ou professor queria. O pro- ndendo. Daí entravam vários assuntos.
de Luz e Griô”. Dentro daquele tema, a gente pesquisa- fessor trabalhava nas aulas esse projeto, As crianças estudaram a matemática da
va na comunidade e fazia o planejamento dialogando muito com as Oficinas Grãos feira, as unidades de medida formais e
pedagógico e as avaliações, em reuniões de Luz. No final do processo, todo mundo aquelas do povo da feira, para fazer com-
semanais e mensais. Daí saía um resulta- apresentava seus produtos coletivos para parações e cálculos. Porque o povo da
do do processo das oficinas, apresentado a comunidade. A gente fazia, ainda, uma feira faz medidas de braço, saco, bacia,
para a comunidade. premiação coletiva e cooperativa. Todo potinho. Então, as crianças faziam esse
Com as caminhadas do Velho Griô, mundo recebia um prêmio de incentivo levantamento. Quantos quilos tem um
as oficinas começaram a ir para as esco- por ter vivido todas as fases da capacitação saco de farinha? Porque o saco de farinha
las. O Velho Griô caminhava com aulas e ter apresentado seus resultados. não é uma medida, é um saco. Que negó-
vivenciais nas escolas, criando vínculo cio é esse de quantos quilos tem um sa-
através do encantamento e mobilizando ITS Brasil: De que forma se dava a integra- co de farinha? Aí iam aprender sobre as
a comunidade dentro de um tema gera- ção dos saberes de tradição oral ao ensino balanças também, aqueles litrinhos, que
dor e das oportunidades pesquisadas e formal da escola? ­geralmente não são litros. Como é que
vivenciadas nas oficinas. É uma aprendi- Líllian: Há vários exemplos. Quando as eles trabalham as unidades formais den-
zagem da própria comunidade com sua crianças estudaram a capoeira, junto es- tro da feira?
Outro exemplo é a integração de escola pode criar seu projeto político- Mas há 15% dos meninos que nunca iriam ser
mitos sobre a criação do universo com a pedagógico. Quando descobrimos isso atingidos e são estes que a gente mais atinge.
história do Big Bang, a questão das par- nos sentimos livres com os educadores, São processos de inclusão de pessoas que se

teiras com a ciência das ervas e do parto, então, vamos trabalhar e fazer educação. excluem. Negam a escola porque ela não é o

nascimento e reprodução. Aí entram Foi isso que a gente fez e que os profes- espaço deles.

também questões políticas, do parto sores aprenderam, que eles podem criar. Outro indicador forte é o planeja-
humanizado e da industrialização do Eles podem inventar. mento. Os professores aprendem a cul-
parto. Discutiam essas questões tam- tura do planejamento: planejar, avaliar,
bém com suas mães. A história de Dom ITS Brasil: Vocês fizeram algum sistema de refletir, dialogar, compartilhar, fazer as
Obá mobilizou todas as escolas. Todo avaliação de resultados? exposições, querer criar junto. Construir
mundo estudou a história e a geografia Líllian: Nós nos interessamos mais pe- processos de educação junto com a co-
da África, recriou a história em cordéis los resultados de processo. O resultado munidade e as crianças. A gente trabalha
e, depois, virou uma música da banda de processo da gente é assim: educado- com a vivência. Então, o que fica de sen-
Grãos de Luz. A gente também estudou res que se conhecem, que ressignificam tido para o educador e para as crianças são
28 as brincadeiras do Boi e da Mulinha sua prática pedagógica e seu vínculo com os grandes resultados. São referenciais e 29
(bumba meu boi, boi de janeiro, boizi- as crianças. Isso é uma porcentagem mui- aprendizados de vida que se constroem e,
nho e outras), por meio do mapa do Bra- to alta. Educadores vinculados politica- dentro deles, têm conteúdos de história,
instituto de tecnologia social

pedagogia griô
sil, vendo como era a expressão do mito mente para criar uma associação, bata­lhar geografia, matemática, ciências...
em diferentes lugares. Então se estudava por um conselho, fiscalizar as contas, es-
desenhando, pintando, brincando. Nes- se é outro resultado forte. ITS Brasil: Quais são as principais referên-
se caso, juntava-se a história e a geografia A gente identifica claramente dois cias teóricas da Pedagogia Griô?
do Brasil com o mito do Boi. Esses são indicadores. Primeiro, muda completa- Líllian: Nós trabalhamos com a referên-
exemplos que dialogam com os saberes mente o interesse e envolvimento das cia da educação biocêntrica de Rolando
comunitários de tradição oral. crianças, nesses níveis que o educador Toro e Ruth Cavalcante, educação pa-
também muda, de vínculo com a escola, ra as relações étnico-raciais positivas de
ITS Brasil: No diálogo com a rede municipal consciência de grupo, paixão pelo grupo e Vanda Machado, psicologia comunitária
de educação de Lençóis houve uma altera- gosto por estudar. Por isso, um indicador de Cezar Wagner de Lima Góis e a relação
ção do currículo da escola? importante é esse: crianças que seriam dialógica de Paulo Freire. Na Pedagogia Griô, não existe cisão entre
Líllian: Os educadores fazem o currícu- as excluídas da escola [estão] mais apai- A educação biocêntrica surgiu da aprender e criar e as crianças traduzem isso
em suas criações
lo, fazem educação. No começo, nosso xonadas pela escola. São crianças que, biodança. Em sua técnica, a biodança uti-
projeto era formalizar um currículo dife­ geralmente, têm uma história forte com liza música, movimento, sentimento e o
rente na escola, uma lei curricular. Mas, a comunidade e a tradição oral, maior sentido da vida que nos rege. A educação
depois, vi que você vai criar um [currícu- do que os outros. E são excluídas, são as biocêntrica incorpora como referenciais
lo], criar outro e, por mais lindo e liberto “rueiras”. Elas podem não saber sobre Na- a vida e sua conexão com o universo, a
que seja, ele continua sendo um currícu- poleão Bonaparte ou Dom Pedro II. Mas, identidade humana e a vivência. O princí-
lo. Uma grade curricular. Então, o que a quando a gente vai trabalhar as ervas, os pio biocêntrico entende o universo como
gente queria criar não era isso. Uma grade. reisados, a capoeira, são elas que mais sa- sistema vivo. Por isso, eu volto às culturas
A gente descobriu que existe lei suficien- bem. Então, o vínculo dessas crianças com tradicionais no trabalho do Grãos de Luz
te no Brasil que dá ao educador a liber- a escola muda muito. Na verdade, nós não e Griô, porque nas culturas tradicionais
dade com o currículo da escola. A Con- trabalhamos indicadores de repetência ou também há esse entendimento, com a
stituição está lá. E a gente trabalhou isso evasão. Esses são os indicadores “altos” música e o movimento como uma coisa
com os educadores: liberdade. Liberdade que, em geral, os programas de educação só e parte do universo vivo e da própria
de criação de processos de educação. A trabalham e crescem a 70%, 80% ou mais. ciência da formação do universo.
Quando começamos a estudar mais a gente vê a complementaridade das contra- go, com o outro e com o grupo; o princí-
Griô aprendiz, griô educação para as relações étnico-raciais dições, aprende a olhar e escutar o outro, a pio da progressividade, de cuidar para que
e mestre de tradição oral positivas, a gente passou a ter um olhar e vincular de verdade para poder falar a pa- as pessoas entrem devagar no processo,
Os editais de concessão de bolsas de incentivo da Ação uma leitura mais aprofundados sobre os lavra que vem de dentro, que tem sentido, vinculando-se consigo e com o outro e
Griô Nacional fornecem orientações para as entidades pro-
mitos, principalmente de origem africa- a palavra geradora. Tudo isso é muito im- entregando-se à sua própria vivência, seu
ponentes identificarem o griô aprendiz, atuante na própria
entidade, assim como os griôs e mestres de tradição oral na. Essa leitura e a redescoberta da África, portante para a Pedagogia Griô: fazer uma próprio sentido; o princípio do respeito
que irão participar do projeto pedagógico. De acordo com seus símbolos e seu lugar histórico, cul- roda e as pessoas saberem dialogar, terem ao processo e ritmo do outro, a história co-
o edital de 2008, eles devem reunir o maior número de quali- tural e político, assim como a importância reverência para escutar um ao outro, dar o mo ele conta, sua verdade. Essas são algu-
dades dos perfis a seguir:
de vários grupos étnico-raciais, étnico- tempo para ouvir tudo do outro, ter escuta mas coisas que a gente vai reelaborando, no
n
Griô aprendiz culturais, que influenciam nossa história, e paciência. A paciência pedagógica. jeito de fazer a vivência. Substituindo, por
Pessoa com experiência e pesquisa em mobilização cul- foram passos essenciais para o nosso tra- Na psicologia comunitária, o grande exemplo, os exercícios de dança e as músi-
tural, diálogo e mediação política; líder e/ou participante balho. Tem um símbolo africano, o Cofa, referencial para nosso trabalho é entender cas da biodança pelas danças e cantos tradi-
de grupos artístico-culturais e associações locais que tra-
que é o pássaro que bica o rabo, no sentido o lugar da comunidade, como se dão as cionais e do próprio grupo, integrando as
balham com as tradições orais; pessoa com facilidade para
transmitir a sabedoria da tradição oral por meio da palavra de dizer que nunca é tarde para olhar relações, as forças políticas, organizacio- histórias de vida e a palavra na vivência. A
30(oral e escrita), como uma arte ou magia; pessoa com forma- para trás, buscar aquilo que deixou cair, nais e as lideranças na educação. Aprendi vivência é a força do ritual, o ritual da comu- 31
ção ou experiência em educação, letras, história, antropolo- sua ancestralidade. Essa leitura foi muito que o trabalhador é um arquétipo muito nidade, das culturas de tradição oral. Este é
gia, artes cênicas, jornalismo e outras áreas afins; educador
importante, não só para a Pedagogia Griô, importante. A gente logo olha para o tra- um dos princípios da Pedagogia Griô. Essa
comunitário iniciado em facilitação de vivências em grupo;
instituto de tecnologia social

pedagogia griô
participante de rituais e/ou atividades de iniciação com um mas para a minha vida e de cada educador balhador para entender as forças em torno linguagem e esses saberes são muito troca-
mestre de tradição oral de sua escolha; escolaridade míni- do Grãos de Luz e Griô, para cada criança dele e a economia do lugar. Por exemplo, dos. Trocar para todo mundo se apropriar
ma de ensino médio. e cada jovem. Saber que existiu o império na comunidade quilombola do Remanso, de seus rituais, mitos e histórias.
de Oyó, originado com um cara chamado o pescador é muito importante. Em torno O griô é o pesquisador principal da gen-
n Griôs de tradição oral
Xangô, e que Dom Obá, nascido aqui dele, mitos e histórias acontecem, ciên- te. Ele possibilita colocar a vivência como
Líder e/ou participante de grupos artístico-culturais e asso-
ciações locais que trabalham com as tradições orais e/ou (provavelmente em Lençóis), foi neto do cias e técnicas são produzidas. Então, lo- método principal. Um método vivencial.
animação popular de sua região; pessoa com facilidade último rei que manteve este império, isso calizar o trabalhador daquela comunidade Se você quer aprender a cantar, que chegue
para transmitir a sabedoria da tradição oral por meio da
muda tudo na vida de crianças, jovens e e sua produção é muito importante para cantando. Quer aprender as histórias da
palavra como uma arte ou magia; músico instrumentista e
animador de festas; pessoa com história de vida de tradição de todos nós. É uma mudança radical. E integrar os mitos com os cantos, danças, comunidade, chegue abrindo uma roda de
oral que se identifica com a figura do caminhante, viajante e acho que vale para qualquer brasileiro, festas, histórias e ciências da comunidade. contação de histórias e conte uma história.
contador de histórias; idade mínima de 40 anos. independente de que história ele venha. A gente aprendeu a olhar isso com muito Vamos fazer a vivência, porque na vivência
Porque Xangô é uma lenda na nossa ca- carinho e cuidado. tudo acontece, a onda da vida. O importan-
n Mestres de tradição oral
beça. E a história de Dom Obá era desco- te é que a gente saiba cantar música e contar
Pessoas reconhecidas em suas comunidades como líderes
espirituais com a sabedoria da cura ou da iniciação para a nhecida dos livros didáticos, das escolas ITS Brasil: Quais são os princípios seguidos história, com a memória da tradição oral, e
vida, buscados por pessoas de diversas regiões; conhece- e mesmo dos mestres de tradição oral de pela Associação Grãos de Luz e Griô para continue com a rede. Gravar no nosso cor-
dores e fazedores de conhecimentos, iniciados ou iniciad-
Lençóis. Aprofundar a história da África, criar a vivência, uma das práticas pedagó- po é o principal e cantar como o povo canta,
ores das artes e ofícios de tradição oral; pessoa com história
de vida de tradição oral que se identifica com a figura do sua relação com o Brasil e o mundo é es- gicas mais importantes do grupo? aprender a contar histórias junto com eles,
sábio e do mestre; idade mínima de 50 anos. sencial não só para a cultura negra nem só Líllian: São vários princípios que segui- como eles contam. E recriar dentro disso.
para a cultura brasileira. É essencial para o mos para criar uma vivência. Queríamos
desenvolvimento da humanidade. criar uma linguagem que se voltasse dire- ITS Brasil: As histórias de vida também são
Na educação dialógica a gente prioriza a tamente para as culturas tradicionais, de um dos pilares da Pedagogia Griô?
forma como o diálogo constrói uma relação onde, na verdade, a biodança bebeu. Fui Líllian: Sim. As histórias de vida integram
que não seja baseada somente em uma opo- criando um acúmulo de vivências a partir a identidade da pessoa por meio de um
sição, mas no princípio biocêntrico tam- dos princípios da biodança. Por exemplo, processo cultural, social, político, pe­
bém. É um diálogo que tem vínculo afetivo, o princípio de autorregulação do grupo, de dagógico e educacional. Tem você e sua
construído e vivenciado. Nesse diálogo, a trabalhar os três níveis de vínculo – comi- história, mas tem você e sua história den-
tro de seu contexto e cultura e a forma Isso possibilita a troca de práticas e refe­
como você relaciona tudo isso. Aí você rências com todo mundo e a aprendiza-
compreende muito mais a vida, o ser hu- gem. Realizamos encontros regionais de
mano, você mesmo. As referências ficam planejamento, avaliação e sistematiza-
mais diversas. Porque muita coisa não dá ção, um encontro anual e encontros pa-
para compreender, veio da cultura an- ra fazer as assessorias pedagógicas. Essas
cestral, do processo político e histórico assessorias auxiliam os pontos de cultura
do mundo. Os educadores do Grãos pes- no diálogo entre a tradição oral e a escola
quisam as histórias de vida das crianças e a integração do griô aprendiz como me-
e adolescentes para elaborar os projetos diador, avaliando e repensando as vivên-
político-pedagógicos das oficinas. Ho- cias e estratégias com cada grupo. Nesse
je, as crianças e jovens do Grãos olham processo, a relação com o educador é de
a história de vida com arquétipo, mito e vínculo e não para substituir seu lugar na
ciência, percebendo a integração com a escola. O objetivo é criar uma relação de
cultura local comunitária. interação com muitas trocas de saberes, 33
aprendizagens e vivências.
ITS Brasil: No que consiste o programa Ação

pedagogia griô
Griô Nacional, em parceria com o Ministé-
rio da Cultura (MinC), no âmbito do progra-
ma Cultura Viva?
Líllian: A Ação Griô Nacional tem como
referência o trabalho que nós realizamos
em Lençóis. Por meio da gestão compar-
tilhada entre a Associação Grãos de Luz
e Griô e a Secretaria de Programas e Pro-
jetos Culturais do MinC, lançamos dois
editais públicos e, por eles, contempla-
mos projetos de tradição oral em todo o
Brasil. Cada projeto apresentado indica
uma parceria com escolas ou universi-
dades públicas. Esta parceria é completa-
mente aberta, livre, com várias possibili-
dades de diálogo entre educação formal
e tradição oral, com a mediação do griô
aprendiz. Há um tripé entre o ponto de
cultura, a escola e a comunidade. Isso é
uma referência básica. Então, os proje-
tos pedagógicos devem dialogar com es-
ses universos. O conteúdo dos projetos,
a didática e a forma do diálogo são livres,
Pessoas de todas as idades se reconhecem como cada ponto de cultura elabora seu for-
participantes de um mesmo processo,
em que cada descoberta é uma forma de ligar
mato. A Ação Griô Nacional é vivida em
a ancestralidade com a invenção do novo uma rede de 150 pontos e sete regionais.
COMUNIDADES DE A proposta de transformação e de perspectiva coincide com o que indicam 35
desenvolvimento de uma escola autores como Ramón Flecha e Ulrich

APRENDIZAGEM
em uma Comunidade de Aprendizagem Beck sobre a realidade ampla que hoje

comunidades de aprendizagem
é decorrente de estudos sociológicos, vivemos mundialmente, e que se desdo-
antropológicos, psicológicos e educacio- bra da necessidade de estabelecimento de
nais, em busca de respostas ao contexto novos consensos dialogados e reflexivos,
atual de exclusão e das novas necessida- já que os consensos tácitos, decorrentes
des formativas geradas pela sociedade da das hierarquias das relações tradicional-
informação. Foi elaborada pelo Centro mente estabelecidas, não mais se susten-
Especial de Investigação em Teorias e Prá- tam com facilidade. Porém, estabelecer o
ticas Superadoras de Desigualdade (Crea), diálogo efetivo entre diferentes sujeitos,
da Universidade de Barcelona, na década instâncias, grupos e instituições não é
de 1980. No Brasil, os estudos, a difusão e tarefa fácil. Isso porque as práticas sociais
o acompanhamento sobre Comunidades nas quais fomos educadas e educados
de Aprendizagem têm sido realizados são hierárquicas e normativas; assim, ao
pelo Núcleo de Investigação e Ação Social transformar práticas sociais, temos, tam-
e Educativa (Niase), da Universidade Fe- bém, de nos educar para elas.
deral de São Carlos (UFSCar), desde 2002. Tratando-se da unidade escolar, dizer
A transformação da escola, nesta pro- de uma escola que se abra ao diálogo com as
posta, acompanha as reflexões a respeito famílias, seus estudantes e o entorno, e que
da necessidade de ampliar o diálogo e a com eles se proponha a fazer ação comuni-
comunicação entre profissionais e cole- cativa para modificar o contexto hierárqui-
tivos, que permitam o estabelecimento co e segregador no qual se estabeleceu – e
de instituições e espaços sociais melho- que ajudou a estabelecer – é algo que precisa
res para todas as pessoas. Reconhece-se, tanto de sonho como de ciência, como nos
neste sentido, que o diálogo é processo ensina Paulo Freire, em sua obra À sombra
de aprendizagem permanente e necessá- dessa mangueira. Comunidade de Apren-
rio para tal, nele se entrelaçando saberes dizagem é caminho metódico para apoiar a
especializados e saberes populares. Tal consecução de tal empreitada.
Atualmente, há na Espanha 64 escolas solidariedade e de conhecimento. Nesta Assim, a orientação geral decorrente
que se transformaram em Comunidades perspectiva, o conhecimento escolar e desses princípios não é a justificação da
de Aprendizagem. No Chile há duas. No o conhecimento profissional devem ser partilha desigual da aprendizagem esco-
Brasil, na cidade de São Carlos (SP), há três abertos ao conhecimento popular, para a lar, camuflada por discursos de respeito
escolas da rede municipal que são Comu- transformação das escolas em Comunida- às diferenças individuais ou grupais – é
nidades de Aprendizagem. des de Aprendizagem. preciso transformar os discursos dúbios
que produzem e mantêm acesso desigual à
escolaridade a diferentes grupos. Trata-se
A escola no contexto Princípios de uma Comunidade de transformar o contexto competitivo e
da sociedade da informação de Aprendizagem segregador das escolas, com a participação
A escola é, atualmente, na sociedade brasi- Comunidade de Aprendizagem é uma de toda a comunidade (profissionais, es-
leira, uma instituição que recebe a maioria transformação social e cultural de escolas tudantes, familiares, entorno). As apren-
da população. Pode-se dizer, neste sen- de educação infantil, ensino fundamen- dizagens instrumentais que queremos
tido, que é o espaço mais democrático tal, ensino médio ou educação de jovens para nossas filhas e filhos devem estar
36 desta sociedade. Assim sendo, na escola, e adultos e de seu entorno. Supõe a arti- ao alcance de todas as crianças e todos os
evidencia-se a rica diversidade de nosso culação de pessoas, processos e fontes de jovens, já que se trata de instrumentos de
país, mas também a extrema desigualdade conhecimento na construção de relações proteção social numa sociedade desigual.
instituto de tecnologia social

social nele produzida historicamente. respeitosas e que valorizem a diversidade, Para tanto, somente em interação
No atual contexto, o da sociedade da in- bem como que garantam aprendizagem comunicativa, famílias, profissionais da
formação, há demanda crescente de domí- dos conteúdos instrumentais necessários educação, o bairro e a sociedade podem
nio de habilidades para buscar, selecionar, à igualdade de proteção social na socieda- construir um projeto educativo útil. É
utilizar, criticar e produzir conhecimento. de da informação. preciso superar os enganos do currículo
Assim, a escolaridade põe-se, mais que Para buscar elementos efetivos de da competição (aquele que historica-
nunca, como instrumento de proteção práticas e teorias que garantam tais metas, mente defende que apenas alguns têm
social para cada sujeito. Se, por um lado, o pesquisadores do Crea dedicaram-se a capacidade de aprendizagem escolar) e Os cartazes da Comunidade de Aprendizagem
novo contexto traz possibilidade de geração estudos teóricos e empíricos (sobre ex- igualmente os enganos gerados pelo cur- EMEB “Prof.ª Dalila Galli” convidam: “Venha ­sonhar
a escola que queremos!”
de novas alternativas por parte de grupos, periências bem-sucedidas em diferentes rículo da felicidade (que com argumentos
sujeitos, governos, ele também traz riscos lugares do mundo). Destes estudos che- de aparência contrária ao currículo da
permanentes de agravamento da explora- garam a quatro princípios comuns, pre- competição justificam a oferta de escolas
ção e das desigualdades sociais, atingindo sentes nas práticas bem-sucedidas: e de resultados bastante desiguais quanto
mais diretamente os grupos historicamen- n a presença das famílias e da comunidade à aprendizagem escolar).
te marginalizados. É preciso, portanto, res- na escola é imprescindível: participação Comunidade de Aprendizagem não é
saltar-se a importância de uma escola que e responsabilidade dos professores e uma metodologia de ensino, mas um ca-
garanta aos grupos populares acesso efetivo professoras, familiares, estudantes e co- minho metódico para favorecer o estabe-
à língua escrita, à matemática, a outros idio- munidade; lecimento de relações dialógicas e comu-
mas, a novas tecnologias de informação e n práticas cooperativas e solidárias dentro nicativas na escola. Há um conceito central
comunicação, como instrumentos efetivos e fora da sala de aula: ampliação e diversi- em Comunidades de Aprendizagem, o
de emancipação e de criação. ficação de interações; de aprendizagem dialógica (conceito de
Qualidade de ensino, neste contexto, n fomento das expectativas positivas de Ramón Flecha, apresentado no seu livro
implica ampliação de meios e de intera- aprendizado de todos; Compartiendo palabras), cujos princípios
ções para diversificar fontes de aprendiza- n dedicação à aprendizagem escolar sem são orientadores das ações, relações, deci-
gem. Implica, igualmente, criar e estender discriminação de gênero, cultura ou sões e criações na escola, seja no âmbito da
redes de apoio lateral, enquanto redes de classe social. gestão, seja no âmbito pedagógico:
n Diálogo Igualitário: o diálogo é iguali- Com base nesses princípios da apren- dos por gestoras, professoras, familiares
tário quando considera as diferentes con- dizagem dialógica, escolas em diferentes e estudantes das duas escolas, no I Encon-
tribuições em função da validade de seus lugares vêm se transformando em Co- tro de Comunidades de Aprendizagem
argumentos, e não pela posição de poder munidades de Aprendizagem, a partir de realizado em São Carlos, em conjunto
de quem as realiza. diálogo entre profissionais, estudantes, pela SME e pelo Niase/UFSCar, outra es-
n Inteligência Cultural: todas as pessoas familiares, voluntariado, tomando suas cola assumiu o desafio de transformar-se
têm as mesmas capacidades para partici- práticas nas próprias mãos. em uma Comunidade de Aprendizagem:
par de um diálogo igualitário, mesmo que a EMEB Prof.ª Dalila Galli.
cada uma possa demonstrar essas capaci- No II Encontro de Comunidades de
dades em ambientes distintos. Comunidades de Aprendizagem Aprendizagem, ocorrido em São Carlos
n Transformação: aprendizagem dia- em São Carlos nos dias 7 e 8 de novembro de 2008, as
lógica transforma as relações entre as São Carlos foi a primeira cidade a acolher três escolas, juntamente com o Niase,
pessoas e o seu entorno. As pessoas que a proposta de Comunidades de Aprendi- mais uma vez divulgaram os frutos da
participam de processos como os de Co- zagem, estudada por Roseli Mello junto mudança, agora também sistematizados
munidades de Aprendizagem acabam ao Crea, em um estágio de pós-doutora- por meio de pesquisa financiada pela Fun- 39
por transformar o sentido de sua exis- do que ali realizou. Retornando ao Brasil, dação de Amparo à Pesquisa do Estado de
tência e, com isso, também transformam a professora criou o Núcleo de Investi- São Paulo (Fapesp) – Melhoria do Ensino

comunidades de aprendizagem
o seu entorno. gação e Ação Social e Educativa (Niase), Público – e pelo Conselho Nacional de
n Dimensão Instrumental: a aprendiza- vinculado à Universidade Federal de São Desenvolvimento Científico e Tecno-
gem instrumental de conhecimentos e Carlos (UFSCar). No Núcleo, junto de lógico (CNPq). A pesquisa é coordenada
habilidades é fundamental para a sobre- outros pesquisadores e pesquisadoras da pelo Niase e conta com a participação de 21
vivência no atual contexto social. “O dia- UFSCar, bem como estudantes de pós- professoras e um professor das três escolas
lógico não se opõe ao instrumental, senão graduação e de graduação, passou-se a em processos de investigação.
à colonização tecnocrática da aprendiza- estudar e a difundir sistematicamente os
gem” (ibid., p.33). processos de transformação de escolas
Os vários grupos que compõem a Comunidade n Criação de Sentido: A escola deve ser em Comunidades de Aprendizagem. Processo de transformação
de Aprendizagem se reúnem para dar voz um espaço para conversar e não para Neste percurso, a Prefeitura Munici- de uma escola em uma Comunidade
aos seus sonhos e preparar a transformação
calar. Isso porque o sentido só ressurge pal de São Carlos, através da Secretaria de Aprendizagem
quando as pessoas podem dirigir suas Municipal de Educação (SME), abraçou O processo de transformação de uma es-
próprias interações. a ideia divulgando semestralmente a cola em uma Comunidade de Aprendiza-
n Solidariedade: as práticas educativas proposta junto às unidades escolares do gem envolve duas grandes fases: ingresso
que se propõem igualitárias e dialógicas ensino fundamental. e consolidação da transformação. No
só podem fundamentar-se em concep- A Escola Municipal de Educação Bá- ingresso, há a sensibilização, tomada de
ções solidárias, pois acreditam que, no sica (EMEB) Antônio Stella Moruzzi foi decisão, sonhos, seleção de prioridades e
lugar do poder, podemos apostar na a primeira a manifestar o desejo de trans- planejamento. No processo de consolida-
força das redes de solidariedade e lutar formar-se em Comunidade de Apren- ção da transformação, é necessário que se
coletivamente por uma sociedade mais dizagem. No final de 2004, ao mudar de mantenha permanentemente a formação
justa e democrática. unidade escolar, a então diretora da EMEB dos diferentes agentes da Comunidade de
n Igualdade de Diferenças: a aprendiza- A. S. Moruzzi, como é conhecida a escola, Aprendizagem, avaliação dos processos
gem dialógica se orienta para a igualdade levou a ideia para a EMEB Prof.ª Janete implementados e alcance das metas tra-
de diferenças, pois a verdadeira igualdade Maria Martinelli Lia, que se transformou çadas entre todos e pesquisa dos impactos
inclui o mesmo direito que cada pessoa numa Comunidade de Aprendizagem em da transformação, de temas a estudar, de
tem de ser e viver de forma diferente. 2005. Após ver os resultados, apresenta- agentes a envolver nos processos.
A fase de sensibilização é o momento fase dos sonhos. A pergunta que guia os n oferta das séries finais na mesma escola; dialógicas em sala de aula e em oficinas
dedicado a informar as famílias, os pro- sonhos de todas as pessoas é: que escola n cursinho pré-vestibular na escola; extracurriculares.
fissionais das escolas, a administração desejo para meus filhos e filhas e que este- n aulas de reforço escolar; Por fim, na primeira grande fase de
central (prefeitura, diretorias de ensino ja ao alcance de todas as crianças e jovens? n aulas de alfabetização para familiares transformação da escola em Comuni-
etc.), estudantes, voluntariado e agentes A condição é que não seja colocado limite nos horários de aula de suas crianças; etc. dade de Aprendizagem, vêm o plane-
sociais sobre os princípios básicos das Co- no sonho de ninguém. Sonham profis- De posse dos sonhos, constitui-se uma jamento e a consecução das atividades.
munidades de Aprendizagem. Em trinta sionais da escola em reunião pedagógica; comissão mista, entre profissionais da Tal fase é permanente e implica uma
horas intensivas de trabalho, pesquisado- sonham estudantes durante suas aulas; escola, estudantes e familiares, para que a organização democrática das relações.
res e pesquisadoras além de uma equipe sonham familiares e pessoas do entorno seleção de prioridades seja feita. Nesta fase, Não é um modelo rígido. Está baseada na
de profissionais da escola se reúnem para em assembleias de sonho, oferecidas em os membros de tal comissão fazem uma participação, na gestão compartilhada
estudar e discutir as bases teóricas da diferentes horários e em vários dias. análise do contexto atual da escola e tam- das prioridades consensuadas por todos
proposta. Em seguida, em assembleias A título de exemplo, vale mencionar bém das potencialidades da instituição, em assembleia feita com tal finalidade.
de sensibilização, são apresentados os alguns dos sonhos das crianças e jovens do seu entorno e da cidade, contrastando Sabendo-se aonde se quer chegar (fase
mesmos conteúdos aos familiares dos que estudam nas três Comunidades de sonhos e realidade e sugerindo uma prio- dos sonhos) e quais são as prioridades a
40 estudantes e pessoas da comunidade, Aprendizagem de São Carlos. rização dos sonhos frente às necessidades atender (fase de priorização), há que se
buscando-se diversidade de horários e Sonhos de estudantes: mais urgentes e que tragam imediatamen- estabelecer um plano de transformação
dias para que todos possam conhecer a n mais pessoas ajudando em sala de aula; te melhoria na aprendizagem e na valori- da escola. Em assembleia, a comissão de
instituto de tecnologia social

proposta. Para essas assembleias, é feito n dormir na escola uma noite e fazer ex- zação da convivência na diversidade. Esta priorização apresenta suas sugestões,
um plano de divulgação no bairro – é cursões; comissão agrupa os sonhos por modalida- que são dialogadas e consensuadas por
fundamental que a comunidade do bairro n piscina; des e elabora propostas de sua consecução, todos. Compõem-se, então, comissões
esteja por dentro do que se passa e do que n mais computadores; considerando as potencialidades da escola mistas (profissionais, familiares e es-
se passará na escola. n quadra coberta para esportes; e do entorno. Coloca, porém, em ordem de tudantes) por temas ou metas e que se
De posse das informações necessárias n menos brigas entre os estudantes; prioridade, as metas a atingir, bem como basearão nas prioridades consensuadas,
e das implicações que a transformação da n mais livros na biblioteca; sugere prazos para alcançá-las. Exemplos tendo autonomia para encaminhar
escola pode trazer para aquela institui- n aulas de inglês e de espanhol etc. de priorização de sonhos que ocorreram ações, mas que devem sempre ser cor-
ção, entra-se, então, na fase de tomada de Sonhos de professoras e professores: nas três Comunidades de Aprendizagem roboradas pelo Conselho de Escola. Re-
decisão. Professoras e professores têm de n espaço de formação para familiares dos de São Carlos, estabelecendo-se rapida- presentantes de cada uma das comissões
buscar um consenso em torno da trans- estudantes; mente tais atividades: mistas, junto da direção da escola, com-
formação, dialogando sobre seus desejos, n melhoria na convivência entre estudantes n grupos interativos em sala de aula (partici- põem o que em Comunidade de Apren-
preocupações, receios. Os gestores da e também entre professoras e professores; pação de familiares e voluntários em ativi- dizagem se intitula Comissão Gestora.
escola têm de assumir publicamente que n mais voluntários na escola; dades de sala de aula, uma vez por semana); Cada comissão elabora uma série de
estão de acordo com a transformação. n maior participação de familiares na vida n biblioteca tutorada (aberta à noite, com propostas factíveis nos prazos que cada
O conselho de escola tem de aprovar da escola; a presença de familiares e voluntários para tema demanda, sendo apresentadas ao
formalmente a transformação. Nas as- n reforço escolar; ler com as crianças, contar-lhes histórias, Conselho de Escola, que as discute, faz
sembleias organizadas pela Associação n abertura da biblioteca escolar todas as acompanhar suas tarefas); sugestões e as aprova.
de Pais e Mestres (APM) e pelo Conselho noites etc. n aulas de informática para estudantes e Importante ter em conta que a partici-
de Escola, a maioria dos familiares tem de Sonhos de familiares de estudantes: para familiares; pação efetiva de familiares e de pessoas do
estar de acordo com a transformação. A n aulas de inglês e de espanhol também n aulas de inglês e de espanhol para estu- entorno na escola depende de alguns fato-
administração central tem igualmente de para familiares; dantes e para familiares; res revelados em estudos sobre o tema:
declarar apoio à transformação da escola n aulas de computação para familiares; n aulas de reforço de matemática e de portu- n a realização de reuniões em horários
numa Comunidade de Aprendizagem. n ampliação do horário da escola; guês com estudantes das universidades; adequados para aquela comunidade;
Tomada a decisão sobre a transforma- n abertura da biblioteca escolar todas as n tertúlia literária dialógica, tertúlia n pontualidade em dar início e em encer-
ção da escola, passa-se imediatamente à noites; musical dialógica e tertúlias plásticas rar as reuniões, que devem ter horário
previamente estabelecido e divulgado; dos e a aprendizagem de máxima qualida- experiência interativa 1
n garantia de que todas as pessoas tenham de (estabelecendo-se o mesmo ponto de em são carlos
chance de se expressar; chegada com base em altas expectativas)
n que as reuniões sejam produtivas, che- se estabeleçam. A formação de familiares,
gando-se a decisões e encaminhamentos em demandas que lhes são próprias para 1. grupo interativo em sala de aula
ao seu final; melhora nas suas condições de vida, de Pessoas da comunidade entram na sala de
n que os profissionais cuidem para se criação dos filhos e de trabalho tem de ser aula para apoiar os estudantes em peque-
comunicar com as pessoas não-profissio- preocupação constante. nos grupos, com atividades elaboradas
nais, explicando-lhes ou substituindo os Igualmente, nestas comissões, há pela professora ou pelo professor. Em
termos técnicos que usam. que se pensar formas de avaliar constan- interações diversas, reforçam e aprofun-
É preciso lembrar que dialogar não é temente processos implementados e dam seus conhecimentos. São quatro ou
impor, mas sim que envolve ouvir e ar- alcance das metas traçadas entre todos. cinco grupos com atividades diferentes
gumentar, buscando-se contemplar nas Redirecionar ações, promover novos e que recebem todos os estudantes em
decisões tomadas as diferentes preocu- momentos de sonhos, acompanhar a rodízio. Os grupos são formados pela
42 pações expressas nas reuniões. Também realização dos sonhos que já tinham sido professora, de maneira mais heterogênea 43
2
é importante que protagonismos com traçados fazem parte dos cuidados e do possível, já que quanto maior a diversida-
características competitivas sejam evi- fomento permanentes à Comunidade de de, maior a aprendizagem.
instituto de tecnologia social

comunidades de aprendizagem
tados nas comissões ou nas interações Aprendizagem.
numa Comunidade de Aprendizagem, já À avaliação e redirecionamentos dela 2. Biblioteca Tutorada
que o protagonismo rompe o sentimento decorrentes podem juntar processos de A biblioteca fica aberta o máximo de tem­
de solidariedade e cultiva as hierarquias pesquisa em dois sentidos: para aprofun- po possível, com a presença de voluntá-
entre as pessoas. Ao contrário disso, é dar e gerar conhecimentos sobre a realida- rios da comunidade que acompanham a
preciso fortalecer e respeitar cada pessoa de vivida e as transformações conseguidas, leitura das e dos estudantes, apoiam a rea-
na relação, educando-se, cada qual, para bem como sobre temas fundamentais para lização de tarefas e ajudam nas pesquisas.
a apreciação da diversidade e a garantia se continuar caminhando no sentido dese-
da igualdade de proteção social. Por fim, jado por aquela comunidade. 3. Tertúlia Literária Dialógica
numa Comunidade de Aprendizagem, Nesta fase, para além de apoios aca- São encontros semanais com duração de
busca-se superar a cultura da queixa e as- dêmicos (extensão universitária) e inte- uma a duas horas, com dia, horário e lo-
sumir a cultura da transformação – como gração de estudantes universitários na cal fixos. Nos encontros, são realizados
dizia Paulo Freire, há que se “transformar vida da Comunidade de Aprendizagem diálogos a partir de trechos de romances, 3
dificuldades em possibilidades”. (via estágios ou voluntariado, por exem- contos ou crônicas de literatura consagra-
No processo de consolidação da trans- plo), as universidades podem juntar-se da (obras de referência mundial, regional
formação, a comissão gestora e as comis- aos coletivos das escolas para realizar ou nacional), que o grupo decidiu ler.
sões mistas devem continuar seu trabalho, pesquisas sobre os impactos gerados nos Há uma pessoa moderadora que é a res-
animando e coordenando a construção da processos desenvolvidos, bem como ponsável por anotar as inscrições de fala e
Comunidade de Aprendizagem. outras que se mostrem necessárias para o garantir que todos escutem e tenham sua
A cada semestre, deve-se prever e fortalecimento daquela Comunidade de fala respeitada. Ela também estimula as
realizar formação de profissionais, fami- Aprendizagem. A comissão gestora pode pessoas participantes para que destaquem
liares e voluntariado nos princípios e nas ser o grupo responsável por encaminhar os parágrafos, trechos ou palavras, que
dinâmicas de funcionamento de Comu- a demanda às universidades. inspiraram ao leitor ou leitora lembranças
nidades de Aprendizagem, bem como da vida, relação com algo visto nos meios
em temas que se mostrarem importantes de comunicação ou vivenciados pela pró-
para que o convívio respeitoso entre to- pria pessoa, que lembram outras leituras,
4 que tenham causado espanto, indignação, compartilhada e dialogada, relacionando 6
admiração, ou outra reação. mundo da vida e a obra. A dinâmica é a
A pessoa que quer fazer o destaque, mesma da Tertúlia Literária Dialógica.
após ler o trecho em voz alta para o grupo,
explica o que o trecho lhe inspirou. 6. Comissão Gestora
O moderador ou moderadora indi- Reúnem-se familiares, estudantes, pro-
ca aos participantes que o importante fessores e professoras, gestoras, volun-
é a expressão do pensamento de cada tários e pessoas do entorno que querem
pessoa a partir de trecho, parágrafo ou apoiar a concretização da escola sonhada,
palavra que destaca para o grupo, com- todos representantes das comissões mis-
partilhando sua reflexão. As discordân- tas que cuidam da viabilização dos sonhos
cias, concordâncias, ou complementos permanentemente. Dialogam e consen-
devem se referir às ideias apresentadas e suam ações a encaminhar.
não à pessoa que as apresentou. Ao final,
44 o moderador da tertúlia literária dialógi- 7. Seleção de Prioridades 45
5 7
ca faz uma síntese dos temas tratados no Uma comissão mista (professoras, diretora,
dia, sem mencionar quem disse o quê. A familiares, voluntários e crianças) é mon-
intenção é compartilhar palavras e não
instituto de tecnologia social

comunidades de aprendizagem
tada para organizar os sonhos de todos,
alimentar protagonismos. agrupando-os por temática e elaborando
Originada na Espanha em salas de edu- uma sugestão de ordem de prioridade para
cação de pessoas adultas e centros cultu- serem alcançados. Importante indicar datas
rais e comunitários, no Brasil a Tertúlia Li- para a consecução de cada grupo de sonhos.
terária Dialógica vem sendo desenvolvida
também em salas de aula do ensino fun- 8. II Encontro de Comunidades
damental nas escolas que se transforma- de Aprendizagem
ram em Comunidades de Aprendizagem. O II Encontro de Comunidades de Apren-
dizagem foi realizado nos dias 7, 8 e 9 de
4. Tertúlia Musical Dialógica novembro de 2008. Nele reuniram-se
Variação da Tertúlia Literária Dialógica. profissionais, familiares, voluntários
Audição e cantoria (quando há letra) e estudantes das três Comunidades de 8
de músicas consagradas de vários estilos Aprendizagem de São Carlos, bem como
musicais. A apreciação se dá de maneira profissionais de outras escolas, pesquisa-
compartilhada e dialogada, relacionando dores e estudantes universitários. O En-
mundo da vida e música. contro contou ainda com a presença de
A dinâmica é a mesma da Tertúlia Lite- dois pesquisadores internacionais: Prof.ª
rária Dialógica. Dr.ª Rosa Valls (Universidade de Barcelo-
na, Espanha) e Prof. Dr. Donaldo Macedo
5. Tertúlia de Artes Plásticas Dialógica (Universidade de Boston, EUA)
É uma variação da Tertúlia Literária Dia- O encontro envolveu palestras, mesas
lógica. Envolve a apreciação de pinturas redondas, oficinas, apresentações de traba-
e esculturas consagradas internacional- lhos. Alguns resultados parciais de pesquisa
mente, regionalmente, nacionalmente, financiada pela Fapesp e pelo CNPq foram
localmente. A apreciação se dá de maneira apresentados e debatidos publicamente.
considerações C om a publicação do volume 2 do ca- No decorrer do trabalho, foi possível 47
derno Conhecimento e Cidadania acompanhar reflexões sobre os pontos

finais
6 – Tecnologia Social: Articulação Comu- que fazem com que as ações implemen-
nidade-Escola, o Instituto de Tecnologia

considerações finais
tadas, com foco na articulação comunida-
Social (ITS Brasil) realiza mais uma vez o de-escola, possam ser consideradas como
objetivo proposto desde sua fundação: ter exemplos densos de tecnologias sociais,
a educação como tema frequente em suas justamente porque se observa uma con-
ações. Na realidade, a educação é um item sonância de seus objetivos com as carac-
transversal em todas as iniciativas do ITS terísticas que definem a tecnologia social.
Brasil, o que torna ainda mais necessário Itens como “compromisso efetivo
que regularmente seja empreendida uma com a transformação social”; “necessida-
reflexão mais aprofundada sobre o sentido des e demandas reais da população local
que se quer construir nestes processos que como ponto de partida” e “relevância so-
são essencialmente pedagógicos. cial” foram detectados nos dois exemplos
A partir desta visão, neste trabalho o apresentados neste caderno. Temas como
ITS Brasil apresentou o programa da As- “sustentabilidade ambiental”; “inova-
sociação Grãos de Luz e Griô como exem- ção”; “organização e sistematização”;
plo de tecnologia social e educacional “acessibilidade no âmbito da escola”;
elaborada e vivenciada por educadores- “aprendizado gerado para todos os envol-
artistas da região da Chapada Diamanti- vidos”; “diálogo entre saberes populares
na, na cidade de Lençóis (BA), que unem e conhecimento científico”; “difusão dos
o saber oral ao escrito transformando o conhecimentos e tecnologias desenvolvi-
cotidiano tanto das comunidades quanto dos”; “processos participativos de plane-
das escolas ali localizadas. Outra experi- jamento, acompanhamento e avaliação”
ência relatada nesta publicação é a da in- e “fortalecimento do processo democrá-
trodução da metodologia de “Comunida- tico” também integram as iniciativas que
de de Aprendizagem”, ação coordenada formam o conteúdo da publicação.
por professores da Universidade Federal Se a tecnologia social tem como um de
de São Carlos (UFSCar). seus pontos fundamentais a transforma-
ção da realidade social, isso já aparece de reafirmar, também é uma das caracterís- responsabilidade da escola no ensino da Assim, com a reunião de teoria e exem-
forma clara na experiência da “Pedagogia ticas da tecnologia social. língua portuguesa escrita, da matemáti- plos práticos neste volume 2 do caderno
Griô” que, superando práticas tradicio- Tema do livro Pedagogia griô – a rein- ca e de outros idiomas, para que os jovens Conhecimento e Cidadania 6 – Tecnologia
nais de separação entre o mundo escolar e venção da roda da vida, ela surge ainda estejam bem preparados para utilizar os Social: Articulação Comunidade-Escola,
o mundo exterior, permite o diálogo entre como processo inovador de Tecnologia novos recursos que a tecnologia da infor- o Instituto de Tecnologia Social (ITS
membros da comunidade que participam Social ao permitir que os alunos desen- mação oferece. Brasil) traz mais uma contribuição efeti-
da escola e aqueles que, de uma forma ou volvam caminhos criativos e autônomos A partir da experiência adquirida em va para a divulgação de ações de sucesso
de outra, relacionam-se com a instituição de aprendizagem. Estes e outros pontos um estágio no Crea, na Universidade de que unem o saber popular ao acadêmico
de ensino, com a qual compartilham o aparecem na entrevista concedida ao ITS Barcelona, a Prof.ª Dr.ª Roseli Mello criou na busca por novas formas eficientes de
mesmo espaço geográfico. Brasil pela educadora e artista Líllian Pa- o Núcleo de Investigação e Ação Social e aprendizagem, conforme as demandas
Desenvolvida no Estado da Bahia, a checo. Na conversa, ela detalha sua ex- Educativa - Niase, vinculado à UFSCar, do Brasil neste início de século.
“Pedagogia Griô” destaca-se por abar- periência como coordenadora do projeto para difusão do processo de transfor-
car as solicitações da população local, na pedagógico para as “Oficinas Grãos de mação de escolas em “Comunidades de
busca por suprir determinadas necessi- Luz” que, a partir de 1999, originaram o Aprendizagem”, com o apoio da Prefei-
48 dades para além do âmbito escolar. Sendo “Projeto Griô”. tura Municipal de São Carlos, por meio 49
assim, vai ao encontro de mais uma das da Secretaria Municipal de Educação de
dimensões da tecnologia social, desta São Carlos.
instituto de tecnologia social

considerações finais
vez, com foco específico nas demandas Transformação da escola Este processo incluiu a participação
educativas locais. A segunda experiência relatada neste de três escolas municipais da cidade lo-
Assim, quando as necessidades e a re- caderno refere-se às “Comunidades de calizada no interior de São Paulo. Os re-
alidade locais – além de uma reflexão com Aprendizagem”, conceito desenvolvido sultados positivos da experiência foram
foco em um âmbito mais global – aden- inicialmente pelo Centro Especial de Inves- apresentados durante o “II Encontro de
tram os espaços de ensino/aprendiza- tigação em Teorias e Práticas Superadoras Comunidades de Aprendizagem”, em
gem escolares, ao mesmo tempo em que de Desigualdade (Crea), da Universidade 2008, e estimularam órgãos como a Fun-
as diversas formas de manifestação cul- de Barcelona, na Espanha, a partir da déca- dação de Amparo à Pesquisa do Estado
tural local são reconhecidas como modos da de 1980, tendo como um dos principais de São Paulo (Fapesp) e o Conselho Na-
relevantes e pertinentes de se aprender e autores o pesquisador em Ciências Sociais cional de Desenvolvimento Científico e
ensinar os mais diversos conteúdos, em da Universidade de Barcelona, Ramón Fle- Tecnológico (CNPq) a financiar a pesqui-
diálogo com os conhecimentos acadêmi- cha. No Brasil, desde 2002, as ações volta- sa “Melhoria do Ensino Público”.
cos, fica clara a relevância do trabalho da das a esta metodologia são realizadas pela O material reunido neste caderno pu-
“Associação Grãos de Luz e Griô” para a Universidade Federal de São Carlos (UFS- blicado pelo ITS Brasil traz não apenas
sociedade local. Este é mais um ponto que Car), por meio do Núcleo de Investigação e um rico detalhamento dos princípios
remete diretamente esta experiência ao Ação Social e Educativa (Niase). que norteiam a “Comunidade de Apren-
âmbito da tecnologia social. Tanto na “Pedagogia Griô” quanto no dizagem”, mas também o método que
A Lei de Diretrizes e Bases da Educa- conceito de “Comunidades de Aprendi- favorece o diálogo no âmbito das escolas.
ção Nacional (LDB) faz referência à ques- zagem”, o diálogo entre saberes de várias Denominada “aprendizagem dialógica”,
tão dos temas transversais e da interdis- origens está presente como algo essencial esta interação é embasada nos conceitos
ciplinaridade no processo educacional ao processo de aprender, o que está em de “dialogicidade”, de Paulo Freire, e de
brasileiro. Ao permitir a discussão dos perfeita consonância com o conceito de “ação comunicativa” de Jürgen Haber-
aspectos ambientais da comunidade que tecnologia social. mas. Em resumo, é a ideia central das “Co-
circunda a escola durante o processo edu- Estes novos modelos também devem munidades de Aprendizagem”, segundo
cacional, a “Pedagogia Griô” vai ao en- considerar o contexto da chamada “So- definição de Ramón Flecha em seu livro
contro da LDB. A transversalidade, vale ciedade da Informação”, que aumenta a Compartiendo palabras.
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Projeto de Comunicação do Instituto de Tecnologia Social apoiado pelo Ministério da Ciência
e Tecnologia – Secretaria da Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social

Ministério da Ciência e Tecnologia


Ministro da Ciência e Tecnologia Dr. Sérgio Machado Rezende
Secretaria da Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social
Secretário da Ciência e Tecnologia para a Inclusão Social Joe Valle

Instituto de Tecnologia Social


Conselho Deliberativo
Presidente Marisa Gazoti Cavalcante de Lima
Vice-presidente Maria Lúcia Barros Arruda
Membros Laércio Gomes Lage, Moysés Aron Pluciennik, Pascoalina J. Sinhoretto e Roberto Dolci
Conselho Fiscal Alfredo de Souza, José Maria de Sousa Ventura e Sandra Magalhães
Suplente do Conselho Fiscal Marli Aparecida de Godoy Lima
Gerente Executiva Irma R. Passoni

Equipe de Projetos
Coordenador de projetos Jesus Carlos Delgado Garcia
Equipe Adriana Vieira Zangrande, Edilene Luciana Oliveira, Edison Luís dos Santos, Emerson Lopes da Silva,
Flávia Torregrosa Hong, Gerson José da Silva Guimarães, Luiz Otávio de Alencar Miranda,
Marcelo Elias de Oliveira, Marcos Palhares, Maria Aparecida de Souza, Suely Ferreira e Vanessa Souza.

Conhecimento e Cidadania 6 - volume 2


Tecnologia Social e articulação comunidade-escola
Autores Irma R. Passoni e Jesus Carlos Delgado Garcia (coordenação geral), Maurício Ayer (coordenação editorial),
Beatriz Rangel (redação “Pedagogia Griô”), Juliana Lopes (entrevista), Roseli Mello (redação “Comunidades de
Aprendizagem”), Gerson José da Silva Guimarães e Emerson Lopes da Silva.
Revisão: Edison Luís dos Santos e Emerson Lopes da Silva
Projeto gráfico Lia Assumpção
Diagramação Marilia Ferrari
Fotografias Divulgação Grãos de Luz e Griô (pág 15, 21, 25, 26, 29 e 32); Divulgação Niase/UFSCar (pág 37, 38, 43, 44 e 45),

ITS Brasil Rua Rego Freitas, 454, cj. 73 | República | cep: 01220-010 | São Paulo | SP
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