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CONHECIMENTO E CIDADANIA 1

TECNOLOGIA SOCIAL

INSTITUTO DE TECNOLOGIA SOCIAL FEVEREIRO 2007


Apresentação 06

Introdução 12

O que Ciência & Tecnologia têm a ver comigo? 18


C&T permeando a vida
C&T são socialmente construídas
A sociedade da informação
Tecnologia Social: um outro modo de pensar e agir

Tecnologia Social: o que isso envolve? 26


Breve histórico
A construção de um conceito de TS
Quem são os atores da Tecnologia Social?

sumário
Tecnologia Social e suas implicações
1. Tecnologia Social implica compromisso com a transformação social
2. Tecnologia Social implica a criação de um espaço de descoberta de
demandas e necessidades sociais
3. Tecnologia Social implica relevância e eficácia social
4. Tecnologia Social implica sustentabilidade socioambiental e econômica
5. Tecnologia Social implica inovação
6. Tecnologia Social implica organização e sistematização
7. Tecnologia Social implica acessibilidade e apropriação das tecnologias
8. Tecnologia Social implica um processo pedagógico
para todos os envolvidos
9. Tecnologia Social implica o diálogo entre diferentes saberes
10. Tecnologia Social implica difusão e ação educativa
11. Tecnologia Social implica processos participativos de planejamento,
acompanhamento e avaliação
12. Tecnologia Social implica a construção cidadã do processo democrático

Valores da Tecnologia Social

Referências bibliográficas 42
Bendita sejas,
poderosa matéria,
evolução irresistível,
realidade sempre nascendo,
que a cada momento fazes
em estilhaços nossos limites
e nos obrigas a procurar
cada vez mais profundamente a verdade.

Pierre Teilhard de Chardin (1881-1955)


A experiência internacional mostra, de maneira clara e inequívoca, que a cons-
trução de um Sistema de Ciência, Tecnologia e Inovação diversificado, denso
e com sensibilidade social é essencial para o desenvolvimento socioeconômico e
7

APRESENTAÇÃO

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humano de uma nação. Muitos dos países mais inovadores do ponto de vista tec-
nológico são também os que têm sido mais bem-sucedidos em dar solução aos
problemas vividos por suas populações. E isto está estreitamente ligado à capaci-
dade de produzir conhecimento e inteligência, de maneira autônoma e soberana.
Atualmente, o Brasil tem um sistema de pesquisa científico-tecnológica ro-
busto e dinâmico. São cerca de 500 mil cadastros na plataforma Lattes do Con-
selho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que cen-
traliza o registro de currículos acadêmicos no País, 100 mil pesquisadores atuan-
tes nas universidades e centros de pesquisa, sendo 10 mil deles contemplados
com a bolsa do CNPq por alta produtividade. Produzimos quase 2% da Ciência do
planeta; na América Latina, participamos com quase a metade do total de traba-
lhos científicos publicados. Além disso, a produção científica brasileira cresce a
uma taxa anual de aproximadamente 20%. Se compararmos estes percentuais
com a nossa participação no PIB, no comércio ou na população globais, concluí-
mos que a Ciência é um setor que se desenvolve com grande êxito no Brasil.
No entanto, ainda não conseguimos fazer que essa competência e produtivi-
dade acadêmica se revertam em desenvolvimento socioeconômico. O tema tem
polarizado o debate em torno de C&T nos últimos anos e há um esforço do gover-
no em que universidades e empresas interajam para o fortalecimento de um
Sistema Nacional de Inovação. Ou seja, que as pesquisas científicas saiam dos
laboratórios e promovam aprimoramentos e novidades no setor produtivo ou
cheguem à população como produtos e serviços. Estas ações são importantes e
representam um grande desafio para toda a nação.
Diversos atores de nossa sociedade, entretanto, vêm enfrentando outro desafio,
não desvinculado do primeiro: conferir à Ciência e à Tecnologia um papel decisivo
8 na inclusão social. Destaca-se o trabalho dos movimentos sociais e das organiza- dos com o programa Fome Zero –, o acesso e a produção de alimentos e a geração 9
ções da sociedade civil que – muitas vezes em parceria com universidades, gover- de trabalho e renda; o acesso à água e ao saneamento; a questão da violência urba-
nos e/ou empresas – buscam produzir e incorporar conhecimento altamente sofis- na e rural; o desemprego e as relações humanas, entre muitos outros.

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ticado para superar problemas que se perenizam na sociedade brasileira. A série CONHECIMENTO E CIDADANIA, que se inicia com este caderno, tem como
APRESENTAÇÃO

Uma particularidade dessas ações, metodologias, processos, produtos e servi- objetivo ampliar o debate sobre Ciência, Tecnologia, Inovação e Sociedade. Neste
ços é que são construídos num diálogo profícuo entre o saber acadêmico e uma primeiro número, procuramos explicitar os diversos aspectos envolvidos na
pluralidade de outros saberes, que geralmente reunimos, talvez de maneira sim- Tecnologia Social (TS), inspirando-nos em reflexões construídas em anos de par-
plista, sob a denominação de “saber popular”. As pesquisas são, nestes casos, in- ceria com organizações da sociedade civil brasileira; inspirando-nos também em
teiramente articuladas com a sociedade e se produzem pelo aprendizado mútuo práticas de TS desenvolvidas pelo Instituto de Tecnologia Social (ITS) ou por orga-
de especialistas e, na expressão de Ivan Rocha Neto, dos “protagonistas do dia a nizações parceiras. Nos próximos números, trataremos de temas como as estraté-
dia”. Assim, a inclusão já está presente no próprio reconhecimento do direito de gias de TS inseridas em processos de Desenvolvimento Local Participativo e Sus-
todo cidadão de obter e produzir conhecimento e de se autodeterminar. Nessa tentável, Agricultura Familiar, Educação e Ajudas Técnicas/Políticas Assistivas.
dinâmica, elaboram-se mecanismos poderosos para alavancar o processo de É assim que, articulando centenas de pessoas e dezenas de ONGs e com o
transformação social que o País tanto necessita e que pode representar um salto apoio do MCT, o ITS identifica, pesquisa e divulga experiências construídas no
qualitativo nas condições de vida da população. diálogo permanente entre comunidades organizadas e pesquisadores científi-
Ao longo da nossa história, o empenho do Estado brasileiro em adicionar o cos, lideranças populares e universidades. É na atitude dialógica do saber aca -
vetor “social” à produção de Ciência, Tecnologia e Inovação se deveu muito mais dêmico com o saber popular que os diferentes atores sociais aprendem a ser, a
a iniciativas pontuais do que a uma política integrada e continuada de desenvol- conhecer e a fazer, enfrentando os desafios da realidade. E, como diz Elen
vimento social e humano. Os esforços para criar uma infra-estrutura com este Geraldes, “não há retorno possível: ao experimentar um saber plural fecundado
objetivo são bastante recentes e ainda precisam ser ampliados e fortalecidos para pelo cotidiano, a universidade se humaniza... Que os clássicos sejam lidos e que
que correspondam às dimensões de nossas necessidades. Destacam-se a criação, a história seja vivida; sem hierarquias”.
em 2003, da Secis/MCT – Secretaria de Ciência e Tecnologia para a Inclusão Colocar C&T a serviço da vida, fazer acontecer o desenvolvimento social e
Social do Ministério de Ciência e Tecnologia e a sua atuação no apoio a organiza- humano, aproximar os problemas das soluções. Esse é o nosso propósito ao par-
ções da sociedade civil e na difusão de C&T no País. tilhar com vocês este registro de Tecnologia Social, que está aberto a contribui-
Nossa marcha para nos tornarmos capazes de criar um verdadeiro sistema ções, críticas e sugestões. Boa leitura!
de Inovação Social já começou. Precisaremos aceitar o grande desafio de ampliar
práticas e estratégias de C&T para lidar com problemas como: a exclusão social no Irma Passoni
acesso e produção do conhecimento; a fome – mesmo com os avanços consegui- Gerente-executiva do ITS
O Instituto de Tecnologia Social (ITS)
nasce de um desafio: buscar, por
meio de Ciência e Tecnologia (C&T),
soluções foi anterior à aproximação
com a C&T. Naquele momento, já havia
um esforço de compreensão da reali-
te forma: a partir do reconhecimento
de necessidades concretas, colhem-se
os dados sobre a realidade, geram-se
soluções às necessidades e demandas dade complexa que se vivia, mas ainda informações precisas (que são a estru-
da sociedade brasileira, de modo a tor- não se enxergava a centralidade que o turação desses dados de modo a confe-
ná-la mais justa e menos desigual. As conhecimento pode ter no processo de rir-lhes uma função no processo),
injustiças sociais que enfrentamos to- construção de soluções efetivas para os produz-se conhecimento (fazendo
dos os dias exigem ações urgentes e problemas. Alguns momentos impor- convergir as informações numa com-
eficazes para a inclusão social e a solu- tantes marcaram este percurso. Ini- preensão mais completa da realidade e
ção de problemas efetivamente en- cialmente, destaca-se o relatório final de suas possíveis transformações) e,
frentados pela população. É da neces- da Comissão Parlamentar Mista de finalmente, desenvolve-se a inteli-
sidade que procuramos extrair a força Inquérito (CPMI) “Causas e Dimen- gência necessária para alavancar as
de transformação, mas esta só se torna sões do Atraso Tecnológico no Brasil”, transformações. A inteligência é então
possível com o desenvolvimento de presidida pelo senador Mário Covas e compreendida como o conhecimento
uma inteligência que atue no foco dos relatada pela deputada federal Irma com potencial transformador; é ao
problemas e potencialize ao máximo Passoni, atual gerente-executiva do mesmo tempo saber e saber fazer. 13
os esforços de cada um de nós. ITS, em 1992. No ano seguinte, fun- A TS está cada vez mais em pauta,

INTRODUÇÃO Do ponto de vista dos movimentos dou-se o IIISis – Instituto Internacio- em virtude, principalmente, dos exce-

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sociais e do terceiro setor, as discussões nal de Integração de Sistemas, que de- lentes resultados que vêm demons-
em torno de conceitos como desenvol- finia sua missão da seguinte maneira: trando os projetos de desenvolvimen-
vimento sustentável, desenvolvimento “A qualquer um, em qualquer tempo, to que a incorporam em suas metodo-
local participativo e Tecnologia Social, em qualquer lugar, a informação”. Por logias de atuação e também por sua
que vêm ganhando terreno desde o pro- fim, houve a fundação do ITS, em 2001. capacidade de gerar novas soluções em
cesso de redemocratização do Brasil e Simultaneamente, muitas outras orga- contextos diferentes daquele para o
sobretudo na última década, represen- nizações da sociedade civil brasileira qual foi originalmente concebida. No
tam um amadurecimento. Anterior- realizam suas trajetórias próprias, em- entanto, uma de suas características
mente, o foco das ações estava na pres- penhando-se com sua inserção no pro- principais é a diversidade de aborda-
são popular, ou seja, na organização da cesso de produção, desenvolvimento e gens, que enriquece o debate e ali-
população para, coletivamente, exigir disseminação de C&T para a transfor- menta de idéias e experiências os seus
soluções do Estado. Hoje, os movimen- mação social. A partir de 2001, inicia- múltiplos atores. Assim, é com o intui-
tos continuam reconhecendo a impor- se um processo de formulação coletiva to de fortalecer este debate que apre-
tância e fazendo uso da pressão popular, do conceito de TS. sentamos, neste caderno, a abordagem
mas são, além disso, muito mais propo- Atualmente, entendemos que o que o ITS vem dando ao tema. O que
sitivos. Assim, buscam participar dire- ponto principal está em construir temos em mente quando falamos em
tamente da elaboração e implantação “pontes” que aproximem os proble- Tecnologia Social? O que a TS tem de
das soluções aos seus problemas. mas de suas soluções. Essas pontes se especial e como se diferencia da cha-
Nós do ITS também reconhecemos fazem, tijolo a tijolo, num percurso mada “tecnologia convencional”? Que
algumas de nossas raízes em movi- que vai da observação da realidade – tipo de “desenvolvimento socioeconô-
mentos sociais que, na década de 1970, não uma “observação fria”, mas mobi- mico” queremos e o que ele implica?
contestavam a ditadura que se instala- lizada pela necessidade vivida – até o Estas questões nortearam a elaboração
ra no Brasil e sua política econômica desenvolvimento da capacidade de deste texto.
geradora de exclusão. O enfrentamen- produzir soluções. A arquitetura deste A Ciência – que envolve o estudo e
to de fortes necessidades e a busca de percurso pode ser traduzida da seguin- descrição dos fenômenos – diz respeito
da comunicação por gestos e sons… à compreensão que temos das coisas tal e a construção do processo demo- …dos hieróglifos ao alfabeto…
naturais e humanas; a Tecnologia – que crático. Trabalhamos com estes obje-
envolve técnicas e métodos, produtos e tivos imediatos e urgentes, sem pos-
processos – diz respeito à aplicação do tergá-los a um futuro hipotético que,
conhecimento na transformação do afinal, nunca chega.
mundo e do próprio homem. Se pen- Se o modelo atual de desenvolvi-
sarmos que estamos lidando com a mento nos faz enxergar um futuro de
compreensão e a transformação do caos social e destruição do meio am-
mundo, a criação e o aprimoramento biente, com recursos escassos, clima
de técnicas, métodos, produtos e pro- descontrolado, pobreza e miséria,
cessos que facilitam nossas vidas e nos nós nos opomos a este modelo e nos
tornam capazes de fazer mais e melhor colocamos ao lado daqueles que,
do que antes, então é desde tempos re- desde já, trabalham na construção do
motos que as vidas humanas são per- cenário contrário: um mundo justo e
meadas pela C&T (em sentido amplo). democrático, em equilíbrio com o
A particularidade de nosso tempo é que meio ambiente, que permita vislum-
sistemas tecnológicos muito elabora- brar um futuro de bem-estar durável.
dos participam de nosso cotidiano, fa- Esta é a razão de ser do ITS, que está
zendo que o poder de interferir e presente em cada uma de suas ações e
transformar o mundo dependa cada vez na formulação de seus métodos de
menos da força e de recursos físicos e trabalho. Queremos, afinal, conhecer
cada vez mais de capacidade intelec- o mundo onde vivemos – em todas as
tual. Por isso mesmo, a falta de acesso suas dimensões – para poder trans-
ao conhecimento e aos benefícios que formá-lo num outro mundo, num
ele traz, aliada ao não-reconhecimento mundo melhor para todos. E dar a
do direito de todos de serem produto- nossa contribuição para que o Brasil
res de conhecimento, tende a ser um seja uma nação capaz de refletir, pen-
dos principais fatores de exclusão. Se sar e gerar inteligência, tendo sempre
não enfrentarmos essas desigualdades em mãos o que há de mais eficaz para
imediatamente, corremos o risco de a transformação.
que elas aumentem de modo progres- É por isso que a inclusão social é
sivo, num ritmo que pode tornar o pro- uma condição imperativa para o de-
cesso praticamente irreversível. senvolvimento. Estamos acostumados
Dentro do campo da C&T, a especi- a associar diretamente “desenvolvi-
ficidade da Tecnologia Social é a de ter mento” a “crescimento econômico”,
como objetivos a se buscar, direta e como se fossem a mesma coisa. De
imediatamente, aquilo que outras ma- fato, o aumento na produção de rique-
neiras de pensar e agir muitas vezes zas (o crescimento) é fundamental,
tratam como “externalidades”, como mas não é o suficiente. Pois não há
conseqüências “naturais” do processo garantia de que o crescimento se re-
ou até mesmo como fatores limitantes verta em melhorias para a sociedade,
do “desenvolvimento”: a inclusão so- pelo menos se a considerarmos em sua
cial, a sustentabilidade socioambien- totalidade. É certo que uma parte dela
…ao registro de desenhos em cavernas… …e à reprodução de textos pela imprensa…
…da transmissão por telégrafos à televisão… sempre será beneficiada, mas, da ma- que se vê na pobreza é uma das mais cioeconômico com Tecnologia Social
neira como este crescimento tem sido graves de nossa sociedade, mas não é a e como esta maneira de pensar e agir
conduzido hoje, ele engendra concen- única. Há vários tipos de exclusão. A pode auxiliar na transformação do
tração de renda e exclusão. TS não é feita só para pessoas de baixa nosso mundo.
O desenvolvimento socioeconômi- renda, mas para todos os cidadãos.
co sustentável, entendido como um Um exemplo claro disso é o da Tecno-
processo multidimensional, do qual logia Assistiva, que auxilia na inclusão
participam vários fatores, dentre os de pessoas que têm sua acessibilidade
quais o aumento real do bem-estar e limitada pela sociedade.
da inclusão, pode desempenhar um Muitos de nossos espaços e equipa-
papel importante na construção do mentos foram concebidos e confeccio-
processo democrático participativo. nados tendo em vista um certo padrão
Lembremos que a democracia não é de ser humano, sem contemplar toda a
algo acabado, que se possa criar por diversidade que compõe a sociedade.
decreto, mas um processo de promo- Muitas calçadas, por exemplo, são fei-
ção da justiça social, que não esconde tas sem levar em conta uma pessoa que 17
seus conflitos internos e, sim, os traz à usa uma cadeira de rodas, assim como
tona para buscar o equilíbrio pelo os assentos de ônibus são feitos para

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confronto e pelo diálogo. uma pessoa de estatura mediana, que
A democracia não pode ser entendi- não seja, por exemplo, alta “demais”
da apenas como um sistema de repre- para o padrão. Com o envelhecimento
sentação política, ela é muito mais que da população brasileira, todos podem
isso. Na democracia, justiça e paz social ser diretamente beneficiados com tec-
são inseparáveis. Quando há verdadei- nologias que ampliem a autonomia e
ro respeito às diferenças (que não se tornem a vida em sociedade mais aces-
confundem com as desigualdades), sível. Sem esquecer, além disso, que
todos têm voz na sociedade, sem que uma calçada acessível a um usuário de
um grupo se arrogue o direito de falar cadeira de rodas também melhora o
pelo outro, ou calá-lo de forma violen- acesso para um carrinho de bebê ou
ta. Este rompimento do processo mesmo para qualquer carrinho de
democrático pode ser mais ou menos carga. Todos se beneficiam. Desta
explícito. Muitas vezes acontece por forma, entende-se que as pessoas com
mecanismos sutis, que consistem em deficiência, os mais idosos, os pais
desqualificar a voz do outro. E C&T não com bebês pequenos etc. não são
estão de forma alguma isentas deste “estados de exceção”, mas cidadãos
processo. Ao contrário, quando C&T com os mesmos direitos de acessibili-
são acessíveis e exercidas por todos, dade que quaisquer outros.
podem cumprir um papel central na Com essa introdução queremos
construção da democracia; no entanto, apenas preparar o leitor para as ques-
quando são postas a serviço de apenas tões principais que vai encontrar
alguns, podem fortalecer a exclusão. neste caderno. A partir de agora va- * Ilustrações inspiradas em quadro que
Salientemos ainda um último as- mos explicar, ponto por ponto, como apresenta a evolução dos meios de comunicação
desde a pré-história até os nossos dias, elabora-
pecto importante: a exclusão social o ITS enxerga o desenvolvimento so-
…e à teia mundial de comunicação.* do pelo Prof. Dr. João Antônio Zuffo (2003a).
C&T permeando a vida cessário conhecer as propriedades dos Há também áreas do conhecimento, as
materiais de que são feitos (assim chamadas Humanidades, que estudam

A Ciência e a Tecnologia estão pre-


sentes em cada momento de nos-
sas vidas. No alimento que comemos,
como de muitos outros materiais, para
que se escolhessem os melhores),
saber manipulá-los e desenvolver pro-
o próprio ser humano. Neste caso, são
estudadas as dimensões simbólicas, os
significados que os homens e mulheres
nas roupas e nas ferramentas que usa- cessos produtivos. Também foi preciso atribuem às suas coisas e às relações
mos, na energia utilizada para iluminar desenhar os formatos mais adequados que estabelecem entre si. Como exem-
ambientes ou para pôr em funciona- para cada componente (alongados ou plos, podemos citar a estrutura política
mento utensílios e máquinas. A origem curtos, curvos ou retos etc.), tipos de de uma sociedade, os métodos de ensi-
disso é longínqua, remonta aos pri- encaixe e conexões, materiais que no e aprendizagem, a experiência de
mórdios da humanidade: desde que “colam” uma peça à outra e que não se produção e apreciação estética, o fun-
homens e mulheres existem, transfor- dissolvem com a passagem da água. cionamento da psique humana, o com-
mam as coisas que encontram no mun- Além disso, para transportar a água de portamento em sociedade, a linguagem
do para torná-las úteis. Dessa maneira, uma represa até a nossa casa é preciso e muitas outras dimensões. Não se lida
passaram a poder fazer coisas que antes conhecer suas propriedades, a melhor com “materiais” naturais que podem
não podiam, de modo mais eficaz ou forma de distribuí-la com um gasto ser conhecidos e transformados. 19
O QUE mais fácil, e tornaram-se capazes de
produzir mais com um esforço menor.
pequeno de energia (senão ela seria
muito cara). Voltando ainda mais atrás,
Uma particularidade das Huma-
nidades com relação às chamadas

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CIÊNCIA & Neste processo, buscaram conhecer
cada vez melhor as coisas do mundo, às
vezes movidos pela curiosidade de
na própria construção da represa há a
aplicação de uma enorme cadeia de
conhecimentos, técnicas e produtos.
Ciências “duras” é que não é possível
tratar o homem como um “objeto de
estudo” no sentido estrito. Há sempre
TECNOLOGIA desvendar seus mistérios, mas princi-
palmente movidos pela necessidade e
Há tecnologia em todo o sistema de
abastecimento. Aliás, na própria água
uma relação de construção conjunta
entre “aquele que estuda” e “aquele

TÊM A VER pelas possibilidades novas que as pró-


prias transformações foram revelando.
também: ela é tratada, passa por pro-
cessos de purificação. Isso não é sim-
que é estudado”, mesmo quando isso
não é dito. Não há propriamente um

COMIGO? Por exemplo, é provável que o controle


do fogo tenha sido necessário primeiro
para enfrentar a escuridão e o frio da
ples: como eliminar bactérias, sem
torná-la tóxica pela adição de produtos
químicos? Enfim, como fazer com que
sujeito e um objeto, mas uma interação
entre sujeitos. Dessa maneira, aquele
que estuda, para ser rigoroso e real-
noite. Depois, se percebeu que era pos- a água chegue, com qualidade, às casas mente compreender o que está aconte-
sível cozer alimentos, tratar madeiras, de milhões de pessoas e saia pela cendo, vê-se obrigado a estudar o seu
fundir metais, queimar barro, esquen- torneira como num “passe de mágica”? próprio envolvimento no processo.
tar a água, e assim por diante. Com muita C&T. E o ciclo não termina Assim, ao buscar um aprimora-
Para chegarmos mais próximos ao aí, pois, ao ir-se pelo ralo, a água flui mento das relações que se estabelecem
nosso cotidiano atual, tomemos um por encanamentos de esgotos e terá de entre as pessoas, também estamos li-
exemplo corriqueiro para quem vive ser novamente tratada, para ser reuti- dando com tecnologias. Pensando, por
em uma cidade: abrir a torneira e com a lizada ou para ser reconduzida a algum exemplo, num método pedagógico, o
água lavar as mãos. Para que este gesto depósito natural, como o mar. modo de se conceber as próprias rela-
simples seja possível, colocamos em Observando as coisas ao nosso re- ções entre pessoas numa sociedade se
operação uma imensa malha de conhe- dor, encontraremos mais e mais his- reflete diretamente nos livros e obje-
cimentos, técnicas, produtos e proces- tórias de C&T em cada objeto, em cada tos utilizados, na maneira como os es-
sos. A torneira, assim como a pia, o ralo produto. Mas C&T não estão apenas no paços são desenhados, na maneira es-
e o encanamento são todos produtos conhecimento e na transformação dos pecífica de se utilizar a linguagem. Po-
tecnológicos. Para produzi-los foi ne- materiais, na manufatura de produtos. demos encontrar inovações incríveis,
com grandes conseqüências para a vida piratórios. E se olhamos de nossa janela acessibilidade a toda a sociedade para emissão de gases do efeito estufa –
em comum, alterando-se apenas a por volta das 6h da tarde de um dia da que o benefício seja de fato com- principalmente o gás carbônico (CO2)
maneira de se utilizar as palavras. semana, vemos um engarrafamento partilhado por todos. – na atmosfera, a temperatura média
Ciências “duras” e Humanidades enorme, onde milhares de pessoas Decorre disso uma responsabilida- do planeta subirá de 1,8ºC a 4ºC até
são, portanto, igualmente importantes ficam paradas dentro de seus carros, de compartilhada entre os diferentes 2100, provocando um aumento do
na geração, desenvolvimento e aplica- sem usufruir da grande velocidade que atores envolvidos no processo de nível dos oceanos de 18 a 59 cm. Como
ção de tecnologias que promovem o eles poderiam desenvolver. Nesta hora, desenvolvimento de C&T – o Estado, as conseqüência, prevêem-se inun-
bem-estar social e exercem papéis fun- é possível que a pé se vá mais rápido, e empresas, as universidades, a socie- dações e ondas de calor mais freqüen-
damentais no desenvolvimento socio- tênis confortáveis sejam um produto dade civil –, no sentido de avaliar os tes, além de ciclones mais violentos
econômico. Há sujeitos agindo sobre tecnológico mais eficaz. Portanto, a seus impactos e riscos e escolher as por vários séculos.
objetos e sujeitos agindo mutuamente Tecnologia gera soluções e benefícios, melhores opções. Decorre disso tam- No final de outubro de 2006, o go-
entre si, produzindo coisas e se relacio- mas também resíduos e problemas, bém a necessidade de que os chamados verno do Reino Unido havia publicado
nando. Nos dois casos, conhecimentos diretos e indiretos, os quais não po- “cidadãos comuns”, e não apenas os uma pesquisa sobre os efeitos socio-
muito sofisticados podem estar presen- dem ser ignorados. técnicos, participem dos processos de econômicos do aquecimento global,
tes nas aplicações pertinentes, sempre Ao mesmo tempo, há outras solu- tomada de decisão sobre C&T, uma vez conhecida como “Relatório Stern”
tendo em vista suprir necessidades ou ções tecnológicas para um mesmo pro- que as conseqüências lhes dizem res- (divulgada na edição n.º 418 da revista 21
20 aprimorar nossas capacidades. blema, que geram outros impactos, peito diretamente. CartaCapital), em que são apresenta-
Podemos supor que as pesquisas positivos e negativos. O metrô, por das as “contas” do aquecimento global

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tecnológicas, ao buscar o aprimora- exemplo, leva um número enorme de C&T são socialmente construídas num futuro próximo. Estima-se que
CIÊNCIA & TECNOLOGIA

mento de técnicas, métodos, produtos e pessoas. Embora não tenha problema Ciência e Tecnologia têm sempre im- em dez anos os gastos mundiais che-
processos, visem em geral a trazer me- de congestionamento nas linhas, o pactos socioambientais. Atualmente, guem a pouco mais de US$ 7 trilhões, o
lhorias à sociedade. No entanto, é pre- metrô pode enfrentar superlotação nos está cada vez mais presente o esforço que resultaria em forte recessão glo-
ciso considerar que não existe tecnolo- chamados “horários de pico”. É muito pelo avanço da responsabilidade socio- bal. O relatório explicita que os países
gia que seja “100% boa”, isto é, que menos poluente que o carro; porém, ambiental de empresas, governos e da industrializados – como EUA e as
traga apenas benefícios para todas as consome muita energia – e então é pre- sociedade em geral. Isto não está acon- emergentes China e Índia, mas tam-
pessoas, sem efeitos negativos. As tec- ciso saber de onde vem e como essa tecendo por acaso. Vivemos um mo- bém países europeus – são os maiores
nologias trazem também efeitos que vão energia é produzida, para se averiguar mento em que não é mais possível ser- responsáveis pela emissão de carbono,
além dos previstos, ou que afetam o qual é o seu impacto. mos ingênuos. Se continuarmos como embora os maiores prejudicados com
mundo e as pessoas de uma maneira Assim, o fato de que o desenvolvi- estamos, vamos devastar nosso plane- o provável aumento dos níveis dos
que a análise simples de seus objetivos mento tecnológico sempre traz impac- ta, tornando-o inabitável. E também oceanos sejam países subdesenvolvi-
imediatos não mostra. Ela também gera tos socioambientais e, dependendo do vamos condenar uma parcela conside- dos, que não dispõem de recursos para
resíduos e impactos não benéficos. caso, pode determinar de maneira rável da população à miséria e à fome. socorrer as milhões de pessoas que
Um exemplo: o carro. O carro pode marcante toda a vida em sociedade é a Em 2 de fevereiro de 2007, o Grupo deverão ficar desabrigadas em virtude
facilitar a vida, ao transportar pessoas e primeira razão pela qual ele nunca é Intergovernamental para as Mudanças das catástrofes climáticas.
cargas com grande velocidade e razoá- neutro. Outra razão é que os próprios Climáticas (Intergovernmental Panel Estes relatórios mostram uma reali-
vel segurança. Só que, para exercer essa benefícios não são distribuídos e usu- on Climate Change – IPCC), da Orga- dade que confirma as teorias defendi-
função, o carro consome combustível – fruídos igualmente por toda a socie- nização das Nações Unidas (ONU), di- das pelo sociólogo alemão Ulrich Beck,
gasolina, por exemplo – e produz resí- dade. Um produto sempre nasce tendo vulgou relatório que atribui às ações da Universidade de Munique, em seu
duos. O ar poluído que respiramos no em vista um público, mesmo quando humanas a responsabilidade sobre as livro A Sociedade do Risco, lançado em
centro da cidade de São Paulo – onde isso não é explicitado. E, mesmo quan- mudanças climáticas observadas em 1986 com grande repercussão em todo
fica a sede do ITS –, é também conse- do se considera a hipótese de que o nosso planeta, conhecidas pelo nome o mundo. Em entrevista concedida ao
qüência da Tecnologia, e faz com que público poderia ser mais amplo, é pre- de “aquecimento global”. Segundo es- jornal francês Le Monde (publicada na
muitas pessoas tenham problemas res- ciso que existam reais condições de te relatório, a julgar pelos níveis de Folha de S.Paulo em 20 de novembro de
2001), Beck diz que, neste livro, desen- segundo critérios técnicos e objetivos. Efetivamente, nos ambientes polí- dade de incorporar tecnologias origi-
volveu “uma argumentação segundo a Acontece que as inovações técnicas ticos mais diversos bem como entre nalmente destinadas à guerra jamais
qual a ciência e a tecnologia são hoje a são produzidas e aplicadas num mun- especialistas em políticas públicas, servirá para justificar a indústria béli-
causa dos principais problemas da do em que diferentes sujeitos, com observa-se um crescente reconheci- ca. A engenharia militar só produz
sociedade industrial”. Segundo o autor, diferentes lugares e interesses soci- mento da importância da democracia, muitas tecnologias porque lhe são
“A produção e a distribuição dos ‘bens’, ais, vão se relacionar, buscando o não apenas como alicerce jurídico ins- dedicados investimentos descomu-
das riquezas, se baseiam num princípio equilíbrio dos conflitos. O direciona- titucional, mas também por seu poten- nais. Se estes mesmos recursos fossem
regulador de escassez. O problema vem mento que se dá à pesquisa tem, cial operativo. Ou seja, por sua capa- investidos para a produção da paz, não
do fato de que as instituições da so- então, conseqüências diretas na so- cidade de fazer com que a formulação, a há dúvida de que teríamos solucionado
ciedade industrial não foram pensadas ciedade. Os caminhos do desenvolvi- implementação e a abrangência das ou minimizado boa parte dos proble-
para tratar da produção e da dis- mento tecnológico são fruto de escol- políticas públicas se desenvolvam de mas sociais globais.
tribuição dos ‘males’, isto é, dos riscos e has feitas socialmente, dentro dos forma mais eficiente e sólida. É por todos estes fatores que defen-
acasos ligados à produção industrial”. mecanismos de representação e pres- Neste sentido, observa-se que a demos que as necessidades e deman-
A noção de responsabilidade socio- são social que historicamente se con- qualidade de vida e bem-estar da so- das sociais devem ser fontes priori-
ambiental aponta para a necessidade figuram. O desenvolvimento tecno- ciedade dependem em grande parte do tárias para as pesquisas científico-tec-
de se tratar em toda a sua complexi- lógico participa, portanto, das com- grau de cidadania ativa ou participativa. nológicas, no sentido de se buscarem 23
22 dade a gestão do desenvolvimento tec- posições de forças da sociedade, dos Conforme pontuou o economista as soluções mais eficazes para a
nológico, de maneira a minimizar os seus embates políticos. Amartya Sen, prêmio Nobel de Econo- inclusão dos diversos setores – atual-

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seus riscos e dar sustentabilidade a to- Embora muitas vezes se defenda mia de 1998, a existência de “grandes mente excluídos – na construção de-
CIÊNCIA & TECNOLOGIA

do o processo. Aponta-se então para uma solução como sendo a “única” fomes” para uma parte da sociedade, mocrática da sociedade. Mais que isso,
um fato: a Ciência não é neutra como possível, é freqüente que, depois que por um período determinado, explica- a própria pesquisa deve ser vista como
se acreditava até poucas décadas atrás. grupos prejudicados denunciem os se menos pela escassez ou diminuição um processo pedagógico de construção
Segundo López Cerezo (1998), profes- danos que sofreram ou que podem vir da produção de alimentos – justificati- da sociedade num diálogo envolvendo
sor da Universidade de Oviedo (Espa- a sofrer, outros cientistas se posicio- va que se poderia esperar de um econo- todos os seus atores sociais. É nesta
nha) e coordenador acadêmico da Re- nem apontando soluções diferentes. mista politicamente correto – do que necessária construção coletiva que os
de de Investigação Ciência, Tecnologia Isso ocorre porque, como diz Boaven- pela fragilidade da democracia. Isto é, conflitos sociais vão buscar, constan-
e Sociedade (Organização dos Estados tura de Souza Santos, “para problemas as fomes (de conhecimento, inclusive) temente, o seu equilíbrio.
Ibero-Americanos), acreditava-se que complexos, existe sempre mais de tendem a ser superadas ou mi- A razão pela qual este processo ainda
a Ciência geraria quase que automati- uma solução” (2004). O fato de não nimizadas nas sociedades em que há ocorre apenas de maneira periférica,
camente benefícios sociais, por um haver consenso quanto às pesquisas democracia e participação cidadã. apesar de sua extrema importância,
mecanismo simples que podia ser científicas e às soluções tecnológicas É certo também que as tecnologias reside em parte na própria estrutura so-
resumido na seguinte fórmula: mostra que não se pode confundir podem vir a ter usos e impactos posi- cial da educação e da pesquisa no Brasil.
objetividade com neutralidade. Pois tivos que não estavam necessariamen- Afinal, as melhores universidades – e,
+ ciência = + tecnologia as tomadas de decisão que se revestem te entre os objetivos das pesquisas que paradoxalmente, muitas delas são públi-
= + riqueza = + bem-estar social de um caráter de “pureza técnica” as geraram. Exemplos claros são os de cas – são freqüentadas majoritariamente
muitas vezes refletem interesses soci- algumas tecnologias de guerra, como o por membros das classes sociais mais
Era como se não fosse necessário ais que transcendem o campo de C&T. telefone celular (desenvolvido para altas, que não vivem na pele os problemas
buscar o bem-estar, ele seria uma Assim, o desenvolvimento econômico melhorar a comunicação em campo de mais graves que urgem por soluções. Por
conseqüência natural da pesquisa e o democrático devem vir juntos, um batalha) e o GPS (desenvolvido para outro lado, ainda sobrevive em muitos
científica. Se C&T fossem neutras, de não precede o outro. E o desenvolvi- guiar mísseis com precisão aos seus setores do meio acadêmico o mito de que
uma objetividade “absoluta”, como se mento tecnológico está totalmente alvos), que depois acabaram se rever- a Ciência deve ser “pura”, sem se deixar
pensava, haveria um único caminho inserido nesta dinâmica, não sendo de tendo em melhorias importantes para influenciar nem prestar contas à so-
“correto” para o desenvolvimento, modo algum algo que se possa isolar. a sociedade. No entanto, esta capaci- ciedade na qual está inserida.
Hoje em dia, já se aceita que as cação). A tal ponto que não ter acesso a as diferenças entre os países desen- Dentre as transformações que leva-
soluções tecnológicas precisam ser ava- computadores significa estar excluído volvidos e em desenvolvimento se rão à configuração de uma sociedade
liadas não apenas por sua sofisticação de muitos campos de interação social e, convertam num abismo insuperável” mais inclusiva, uma melhor distribui-
técnica e seu potencial mercadológico, do ponto de vista do mercado de trabal- (citado em IIISis, 2001). ção do capital intelectual tem uma po-
mas também pelo seu impacto socio- ho, estar em grande desvantagem. Daí a necessidade urgente de se sição central. Isso passa, por exemplo,
ambiental. Consideramos, no entanto, Hoje, muitos países ricos têm ampliarem e se criarem novos meca- por uma valorização de saberes que,
que isso deve ter um peso realmente transferido os setores produtivos e ad- nismos de inclusão social, que seja embora importantes, muitas vezes são
relevante. Assim, o pensamento e a ação ministrativos a países que oferecem uma inclusão pelo conhecimento. Sem menosprezados, como os conheci-
em TS implicam não apenas minimizar um custo menor, e realizam em seu ter- dúvida, o Estado tem um importante mentos de populações tradicionais –
os impactos socioambientais negativos, ritório apenas o trabalho de pesquisa e papel a exercer neste sentido, mas não indígenas, quilombolas, ribeirinhas
mas principalmente a busca direta e desenvolvimento, que é economica- só ele. As universidades, a sociedade etc. Muitos desses conhecimentos,
metódica de impactos positivos para o mente o mais valioso. Os exemplos civil e mesmo as empresas têm uma aliás, já têm sido incorporados em
conjunto da sociedade e tendo em vista mais notáveis de países que hoje absor- responsabilidade comum e podem pesquisas científicas, com grandes
a sustentabilidade a longo prazo, inclu- vem boa parte dos trabalhos menos beneficiar-se com a inclusão. Em to- vantagens econômicas.
sive para as futuras gerações. A trans- valorizados são a China, para a pro- das estas instâncias, há setores que
formação da sociedade e o amplo bene- dução industrial, e a Índia, para trabal- vêm aprofundando essa discussão. Tecnologia Social:
24 fício social não podem ser protelados a hos administrativos e de serviços. É bom que se diga, no entanto, que um outro modo de pensar e agir 25
um futuro hipotético, mas devem ser Algo similar ocorre internamente inclusão não quer dizer a absorção dos A seguir, procuraremos elucidar de ma-
buscados imediatamente como um no Brasil. Por um sistema gerador de excluídos pelos atuais incluídos. Sig- neira mais detida aquilo que chamamos

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CIÊNCIA & TECNOLOGIA

objetivo previsto em metodologia. De exclusão que vai desde a dificuldade nifica a construção conjunta, com a de Tecnologia Social. Compreenda-se
um ponto de vista mercadológico, não de acesso à educação de qualidade até democratização não só das informa- que, ao fazer aderir a palavra “social” à
se trata de ir contra o mercado, mas de a falta de acesso da grande maioria da ções mas do processo de produção de “tecnologia”, pretende-se trazer a
enxergar o próprio mercado em per- população ao mundo digital, ainda é conhecimento como um todo. E assim dimensão socioambiental, a construção
spectiva. A inclusão social representa, uma elite que produz e veicula co- também a produção de soluções às do processo democrático e o objetivo de
em grande medida, o desenvolvimento nhecimento acadêmico no país. Isso necessidades e demandas sociais. A solucionar as principais necessidades
de novos mercados. não significa que a população não pro- inclusão é mais que um dado técnico, da população para o centro do processo
duza uma diversidade enorme de con- é um fenômeno cultural amplo. É pre- de desenvolvimento tecnológico.
A sociedade da informação hecimentos e técnicas, mas estes con- ciso criar as condições para que as so- Assim, a TS busca recompor o código de
A tendência de nossa época é que os hecimentos têm maior dificuldade de luções sejam de fato elaboradas, aces- valores que orienta a pesquisa e o
trabalhos repetitivos não sejam mais sobreviver quando devem entrar em sadas e apropriadas por todos. Hoje, desenvolvimento de inovação, agindo
feitos pelas pessoas. Na chamada so- competição com outros, num mundo quem tem acesso ao conhecimento é em função dos interesses da sociedade
ciedade da informação, o bem mais marcado pela alta sofisticação técnica quem terá os melhores trabalhos, num sentido amplo e inclusivo.
valioso é o conhecimento e a capacida- aliada à exclusão social. mais bem remunerados e com mel-
de de lidar com ele e produzi-lo. O di- Conforme advertia, já em 1996, hores condições, pois estará mais
nheiro, o trabalho e os serviços são Pekka Tarjore (então secretário geral capacitado a lidar com um mundo em
pautados pela tecnologia da informa- da União Internacional das Telecomu- rápida transformação e poderá inter-
ção, que permite hoje uma fluidez que nicações), “se a comunidade mundial ferir de maneira mais eficaz na socie-
seria inimaginável tempos atrás, uma não intervir, existe o perigo real de que dade. É isso que Thomas Stewart cha-
circulação extremamente rápida de ca- a sociedade mundial da informação só ma de “capital intelectual”, o valor
pital e informações ao redor do mundo. seja mundial por sua dominação; de econômico que a capacidade de ad-
Cada vez mais nossas vidas serão per- que o mundo se divida em duas catego- quirir e produzir conhecimento rep-
meadas pelas chamadas NTICs (novas rias, a saber: os ‘ricos em informação’ resenta para uma pessoa, uma empre-
tecnologias de informação e comuni- e os ‘pobres em informação’; e de que sa, um país.
Breve histórico Na vertente em que a TS se insere,
ALGUMAS EXPERIÊNCIAS DO ITS
uma referência importante foi o que se DESENVOLVIMENTO LOCAL PARTICIPATIVO

O que hoje concebemos como Tec-


nologia Social é o resultado de um
processo histórico de algumas décadas,
chamou de Tecnologia Apropriada
(TA), cujo berço seria reconhecido na
Índia do final do século XIX (Dagnino,
E SUSTENTÁVEL EM CIDADE IPAVA
Desde o final de 2004, a comunidade de Cidade Ipava,
bairro que fica na zona Sul de São Paulo, à beira da
represa Guarapiranga, se mobiliza para alavancar o
que vem envolvendo atores sociais de 2004, p.19). O exemplo da atuação de projeto Desenvolvimento Local Participativo e
diversos campos de atuação. É impor- Gandhi é bastante representativo: Sustentável com Tecnologia Social.
tante esclarecer que este modo de pen- O projeto tem criado oportunidades para que os
moradores participem da resolução dos problemas
sar e agir no campo de C&T se desen- Entre 1924 e 1927, Gandhi dedicou-
comuns e criem soluções adequadas à sua realidade,
volve em paralelo e em contraposição a se a construir programas, visando à identificando o potencial do bairro e as habilidades das
uma tendência que, no imediato pós- popularização da fiação manual rea- pessoas que nele vivem, e implementando ações com
Segunda Guerra, defendeu e imple- lizada em uma roca de fiar reconhe- Tecnologia Social para desenvolver este potencial. O
objetivo é gerar inclusão social e melhorar as
mentou a idéia de que a pesquisa cien- cida como o primeiro equipamento
condições de vida da população de forma sustentável.
tífica deveria ter total autonomia com apropriado, a Charkha, como forma Para pôr o projeto em marcha, o primeiro passo foi a cri-
relação às outras instâncias da socieda- de lutar contra as injustiças sociais e ação do Conselho de Desenvolvimento Local, grupo que
de, visão que predominou no meio aca- o sistema de castas que as perpetuava reúne lideranças comunitárias e moradores antigos no

TECNOLOGIA dêmico e de divulgação científica até o


final dos anos 1950. Acreditava-se ser
na Índia. Isso despertou a consciên-
cia política de milhões de habitantes
bairro, com histórico de lutas pela melhoria das
condições de vida na região. Para eles, a formação
deste Conselho significou superar o antigo “jeito de

SOCIAL: este o caminho para o desenvolvimen-


to e o bem-estar social.
Quando se começou a testemunhar a
das vilas daquele país sobre a neces-
sidade de autodeterminação do povo
e da renovação da indústria nativa
fazer” a luta popular, baseado sempre – e quase que
exclusivamente – na reivindicação ao Estado. Isso
porque o Conselho procura ir além, chamando para si a

O QUE ISSO eclosão de acidentes nucleares, vaza-


mentos de petróleo, tragédias pelo uso
hindu, o que pode ser avaliado pela
significativa frase por ele cunhada:
responsabilidade de articulador e condutor do processo
de desenvolvimento local. Participam dessa articulação
as associações da sociedade civil que realizam trabalho

ENVOLVE? indiscriminado de pesticidas, envene-


namento farmacêutico, a visão otimista
“Produção pelas massas, não produ-
ção em massa”. (Idem, ibid.)
no bairro, representantes da Igreja Católica e de escolas
públicas, os agentes de saúde e a subprefeitura do
M’Boi Mirim, responsável pela administração regional.
do “progresso” científico e tecnológico
também começou a se relativizar. Mes- Gandhi tinha uma clara proposta de PESQUISA POPULAR
mo porque este otimismo havia desem- emancipação política, social, cultural e Nas reuniões iniciais do projeto, a comunidade enxer-
gou a Pesquisa Popular como um instrumento impor-
bocado em mais e mais guerras, princi- econômica, compreendendo o papel
tante para conhecer a sua realidade (apontando não só
palmente as do Vietnã e da Coréia, no central da tecnologia. Sua ação, com os problemas, mas também as potencialidades) e iden-
contexto da Guerra Fria. López Cerezo uma profunda raiz cultural, tinha em tificar as necessidades e demandas da população.
situa o nascimento de uma “consciência vista a dominação de caráter sistêmico Conseguiu-se uma nova qualidade para este conjunto
de informações, ao juntar o conhecimento popular, da
global” junto com a efervescência do que a indústria têxtil britânica exercia
comunidade, com o conhecimento científico.
movimento contracultural e cita alguns naquele momento na Índia. Inspirado O estudo foi realizado por moradores capacitados pelo
marcos deste período. Como exemplo, nesta experiência, o economista ale- ITS em técnicas de entrevista, coleta e registro dos
podemos mencionar o lançamento do mão Schumacher reconheceu ali “uma dados, digitação das respostas e organização dos
dados em gráficos e tabelas. Além disso, contaram
livro Silent Spring, de Rachel Carson, tecnologia que, em função de seu baixo
com uma formação em desenvolvimento local, edu-
em 1962, em que a autora denuncia os custo de capital, pequena escala, sim- cação ambiental e cidadania. Eles entrevistaram 1.163
males causados pelo uso do pesticida plicidade e respeito à dimensão am- famílias (cerca de 25% do total) e todos os 144 pontos
DDT e, assim, questiona a fé cega no biental, seria mais adequada para os de comércio e serviços, aplicando um questionário que
também ajudaram a construir.
progresso científico e tecnológico. O países pobres” (Idem, p.20).

Desde o momento da formação e, logo depois, quando
livro é considerado por muitos o “fun- A evolução deste debate, que se pro- saíram às ruas, os pesquisadores populares e os mem-
dador” do movimento ecológico. longou até os anos 1960, fortaleceu a
bros do Conselho atuaram como agentes de transfor-
expressão Tecnologia Apropriada. Em- partido ou instituição. Trata-se, isso a Inclusão Social – Ministério de Ciên-
mação social, sensibilizando e envolvendo a população butidas nas várias concepções de tec- sim, de uma denominação que tem cia e Tecnologia (Secis/MCT), com o
no projeto. As pessoas se viram implicadas num nologia que surgem das pesquisas sido utilizada por diversas organiza- objetivo de “identificar, conhecer, sis-
processo de transformação do lugar onde vivem, o que neste sentido, estabeleceram-se carac- ções e movimentos que trabalham, tematizar e disseminar práticas de
afetou diretamente tanto a aceitação em responder à
pesquisa (os índices de recusa foram próximos a zero)
terísticas como: separadamente ou em conjunto, na Tecnologia Social”. O conceito de Tec-
e a própria qualidade e confiabilidade das respostas, criação, desenvolvimento e aplicação nologia Social foi então formulado nos
que foi bastante alta. a participação comunitária no proces- de tecnologias visando à satisfação de seguintes termos:
Com os dados já computados, os pesquisadores pude- so decisório de escolha tecnológica, o necessidades sociais e a melhoria da
ram construir uma visão diferente sobre o lugar onde
vivem e, nas discussões que se seguiram, partiram para
baixo custo dos produtos ou serviços qualidade de vida das populações. Conjunto de técnicas e metodologias
a formulação de projetos, com a assessoria do ITS. A finais e do investimento necessário transformadoras, desenvolvidas e/ou
Pesquisa Popular tornou-se, dessa forma, um instru- para produzi-los, a pequena ou média A construção de um conceito de TS aplicadas na interação com a popula-
mento importante para a comunidade definir as priori- escala, a simplicidade, os efeitos posi- Ao longo de 2004, o Instituto de Tec- ção e apropriadas por ela, que repre-
dades para melhorar sua condição de vida, desenhar as
estratégias e as ações do desenvolvimento local, na
tivos que sua utilização traria para a nologia Social se dedicou a identificar sentam soluções para inclusão social
forma de um Plano de Ações, e fazer as parcerias geração de renda, saúde, emprego, e reunir informações sobre uma série e melhoria das condições de vida.
necessárias para viabilizar as primeiras ações. produção de alimentos, nutrição, ha- de experiências de Tecnologia Social
O asfalto e o esgoto foram as principais reivindicações bitação, relações sociais e para o meio em curso no Brasil. Realizou uma ex- Esta definição não pretende ser uma
apontadas na pesquisa, o que favoreceu a intervenção
29
da subprefeitura, com as obras para ampliar o asfalto,
ambiente (com a utilização de recur- tensa pesquisa, chamada “Mapeamen- etiqueta que se possa colocar sobre um
e da Sabesp, com as obras de saneamento. sos renováveis). (Idem, ibid.) to Nacional de Tecnologias Sociais produto afirmando que ele é ou não é

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Produzidas e/ou Utilizadas por ONGs”, uma TS. Mas tem uma função opera-
TELECENTRO COMUNITÁRIO Os avanços que o movimento da TA a partir do qual foi possível selecionar cional importante. Ao evidenciar al-
AUTO-SUSTENTÁVEL
A Pesquisa Popular realizada em Cidade Ipava também
propôs são extremamente positivos e experiências bem-sucedidas nas áreas guns dos seus fundamentos – a trans-
revelou que a população queria ter oportunidade de se inspiram em muitos níveis as práticas de Desenvolvimento Local Participati- formação social, a participação direta
capacitar em informática. Esta demanda deu origem ao atuais relacionadas à Tecnologia So- vo e Sustentável, Educação e Agricul- da população e o sentido de inclusão
Telecentro Comunitário de Cidade Ipava, que se tornou cial – expressão que ganha força a par- tura Familiar. As organizações promo- social e de melhoria das condições de
auto-sustentável pelas mãos da comunidade. Cada
aluno paga R$ 15 por mês para aprender a linguagem
tir de meados da década de 1990. A TS toras destas experiências foram convi- vida –, ela facilita a comunicação entre
dos computadores e da internet, com a ajuda de moni- se diferencia sobretudo por superar a dadas a apresentá-las em seminários os diferentes atores da sociedade que
tores que também são pesquisadores populares. Até concepção de “transferência de tec- temáticos, com o objetivo de discutir e promovem, desenvolvem e/ou utilizam
dezembro de 2006, duas turmas tinham se formado e nologia” ainda presente na TA ao in- sistematizar conhecimentos sobre TSs em suas práticas.
recebido os certificados de conclusão do curso básico
em informática, no total de 158 alunos.
cluir, como elemento central das prá- Tecnologia Social, com um amplo con-
ticas que designa, a construção do junto de atores. Quem são os atores
processo democrático participativo e a Mais de oitenta instituições – entre da Tecnologia Social?
ênfase na dimensão pedagógica. ONGs, associações comunitárias, mo- A TS não é privilégio de alguns e diz
Assim, as populações, antes conside- vimentos sociais, cooperativas, univer- respeito a todos. Mas é preciso reco-
radas como “demandantes” de tecno- sidades, centros de pesquisa, poder nhecer o papel central daqueles que
logias, passam a ser atores diretos no público e órgãos financiadores de CT&I historicamente têm se dedicado à
processo de construção do desenvol- – participaram das atividades, que cul- produção de conhecimento e de so-
vimento tecnológico, sem se limitar minaram com a busca de uma formula- luções inovadoras para as necessida-
mais à “recepção” de tecnologias. ção para o conceito de Tecnologia So- des e demandas de nossa população.
Um esclarecimento é necessário. cial. Este esforço se realizou no âmbito São eles:
Como ficará claro na seqüência deste do projeto Centro Brasileiro de Refe-
capítulo, a TS não pode ser descrita rência em Tecnologia Social (CBRTS), • As associações civis;
como um movimento de organizações viabilizado pela parceria do ITS com a • As populações tradicionais e/ou
unidas em torno de uma bandeira, Secretaria de Ciência e Tecnologia para comunidades locais de povos
indígenas, quilombolas, ribeirinhos, mundo no sentido de torná-lo mais um “olhar que vê”, ou seja, que busca inclusão social e na melhoria das
caiçaras, extrativistas, pescadores, justo e menos desigual. As desigual- conhecer a realidade da maneira mais condições de vida. Ou seja, são tam-
agricultores familiares e catadores; dades estão aí, diante de nós, basta ter fiel possível, sem deixar de lado aqui- bém avaliadas por critérios sociais,
• Os assentados e reassentados nos olhos para ver. De um ponto de vista lo que é incômodo. Neste incômodo culturais, ambientais etc. É uma
Programas de Reforma Agrária; socioeconômico, isso significa saber estão em geral os pontos críticos, mudança no seu código de valores.
• As instituições de ensino superior ver nos desafios as oportunidades e então é preciso enxergar também Um carro que corra a 300 km/h não é
e tecnológico, especialmente a exten- reconhecer que onde há falta também “aquilo que não se quer ver”. As desi- melhor que um ônibus que vá a 80
são universitária; pode haver um enorme espaço para gualdades têm que ser muito bem km/h. Nada contra a velocidade em si,
• Os poderes públicos; crescer, um enorme mercado por se explicitadas para que possamos bus- mas para andar a 300 km/h é preciso
• As empresas, preferencialmente por desenvolver. Desde que se enxergue a car soluções que resultem num pro- usar mais combustível, acarretando
meio da responsabilidade social; realidade de modo menos imediatista cesso de inclusão. mais poluição e um custo muito alto
• Os sindicatos e centrais sindicais; e mais justo. Os que sentem na pele as necessi- para transportar uma ou duas pes-
• As cooperativas; O papel do Estado neste processo dades não precisam de muito esforço soas. Ele não resolve as dificuldades
• Os movimentos populares. é evidentemente da maior relevân- para enxergar problemas muito graves de transporte nem os danos provoca-
cia. Mas, para além da responsabili- que fazem parte de suas vidas. Muitas dos pela poluição, tanto nas cidades
Tecnologia Social dade estatal, há um papel a ser exer- vezes, porém, essas pessoas não são como nas estradas. Visto pelo ângulo 31
30 e suas implicações cido por cada ator social na transfor- ouvidas e assim suas demandas, que não do desempenho de velocidade,
Vamos discutir a seguir algumas mação de realidades que sabemos representam problemas centrais para mas da capacidade de solucionar pro-

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implicações da Tecnologia Social. Se injustas e desiguais. nossa sociedade, não são considera- blemas enfrentados pela sociedade, o
TECNOLOGIA SOCIAL

as TSs são “técnicas e metodologias”, Neste sentido, muitas ações de TS dos e/ou ficam sem solução. Percebe- ônibus é melhor que o carro. Por sua
“produtos e processos”, como quais- envolvem, logo de início, mobilização se a necessidade de se criarem meca- vez, um ônibus movido a biodiesel ou
quer tecnologias, elas também envol- e conscientização. O objetivo é des- nismos ou instâncias em que as dife- a gás natural é ainda melhor, em
vem de maneira intrínseca um modo pertar a democracia ativa e canalizar rentes vozes sociais possam ser ouvi- comparação com o ônibus a diesel
próprio de pensar e agir. Muitas ve- energias no sentido da busca de solu- das nos processos decisórios que convencional, pois é menos poluente
zes, é no modo de aplicação que uma ções e da garantia de direitos. Inicia- envolvem C&T. e seu combustível é renovável.
tecnologia torna-se social. Este “mo- se assim um processo pedagógico, Os diferentes atores sociais, seja É imprescindível, para que uma
do” é então compreendido como uma criando condições para que os grupos por suas capacidades e formações tecnologia tenha características de TS,
abordagem sistêmica que leva em envolvidos se apropriem dos seus próprias, seja pelos lugares que ocu- que ela seja capaz de resolver os pro-
conta todo um conjunto de fatores, direitos e partam ativamente em busca pam na sociedade, desenvolvem olha- blemas ou necessidades sociais para
desde o reconhecimento das necessi- de satisfação a suas necessidades. res distintos para uma mesma reali- os quais foi desenvolvida e, assim,
dades e da mobilização para a mudan- dade. Saber ouvir o que cada um tem a promover real melhoria nas condi-
ça, até os métodos de gestão e a eficá- 2. Tecnologia Social dizer é, portanto, fundamental para se ções ou na qualidade de vida do públi-
cia da solução tecnológica desenvol- implica a criação de um espaço compor uma visão mais completa dos co beneficiado. Esta melhoria passa
vida, passando pela avaliação de de descoberta de demandas fenômenos socioambientais. Uma so- pela inclusão social e/ou pelo fortale-
impactos socioambientais e a busca e necessidades sociais ciedade só será democrática quando cimento da autonomia, entendida
direta de impactos positivos para o O ponto de partida de qualquer ação todos os setores que a compõem tive- como o poder de decidir o próprio
conjunto da sociedade. em TS são as necessidades e deman- rem espaço para se manifestar. destino e de viver pelo próprio esfor-
das da população. Assim, como atitu- ço, sem depender da rede de assistên-
1. Tecnologia Social de básica, são necessários olhos e 3. Tecnologia Social cia social estatal.
implica compromisso ouvidos bem abertos para a realidade implica relevância e eficácia social É neste sentido que a TS deve ser
com a transformação social e para as diferentes maneiras de se As tecnologias passam a ser valoriza- reconhecida como um direito funda-
Para se desenvolver TS é preciso, an- sentir e observar o mundo. A trans- das não tanto pelo seu grau de sofisti- mental e estratégico para a sobrevi-
tes de tudo, querer transformar o formação só pode ocorrer a partir de cação técnica, mas por sua eficácia na vência e a garantia da qualidade de
vida de milhões de pessoas excluídas mano precisa dos recursos que pode ser conseguido, por exemplo,
das condições mínimas da existência encontra no meio ambiente, por isso por sua inserção no mercado. Tec- ALGUMAS EXPERIÊNCIAS DO ITS
INCUBAÇÃO DE EMPREENDIMENTOS
humana. A TS está estreitamente mesmo deve utilizá-los de maneira nologias de interesse público podem SOLIDÁRIOS COM TECNOLOGIA SOCIAL
ancorada no direito ao acesso e à pro- não-predatória. Mas o planeta Terra ainda ser integradas em políticas EM OSASCO
dução de conhecimento, à educação e à deixa de ser visto como um simples públicas, obtendo, assim, financia- A Incubação de Empreendimentos Solidários represen-
ta, para muitas pessoas de baixa renda na cidade de
autodeterminação. Por sua finalidade, fornecedor de insumos para ser con- mento estatal.
Osasco, uma alternativa para romper o ciclo da pobreza
vincula-se também aos direitos à vida, siderado como a nossa morada, com a e, pelo trabalho, alcançar uma condição de vida melhor.
à alimentação e à saúde. É assim que se qual devemos estar integrados. Daí a 5. Tecnologia Social Nesta cidade localizada na Região Metropolitana de
tem, no horizonte do pensamento e importância de se buscarem fontes de implica inovação São Paulo, a incubação e o fomento à Economia Popu-
lar e Solidária fazem parte da estratégia de Desen-
das ações com TS, a realização do ser matéria-prima e de energia renová- Considerando-se que sempre têm co-
volvimento, Trabalho e Inclusão da prefeitura. É uma
humano como um todo, aumentando veis, de se estabelecerem novos pa- mo ponto de partida necessidades e política pública, que leva o nome de programa Osasco
sua auto-estima e sua felicidade. drões de consumo e de se ter um cui- demandas sociais, as pesquisas em TS Solidária e pretende dar o “passo adiante” dos progra-
Tendo isto em vista, compreende-se dado especial com os resíduos desde a não podem existir desvinculadas de mas de transferência de renda – como o Bolsa Família
(federal), o Renda Cidadã (estadual) e o Renda Mínima
por que as necessidades e demandas produção até o consumo ou utilização seus resultados na sociedade. A me-
(municipal), entre outros –, ao promover a emancipa-
sociais devem ser fontes prioritárias de das tecnologias. lhoria efetiva das condições de vida é, ção das pessoas que estão na pobreza, com inclusão
questões para as investigações científi- Para se garantir que isso aconteça, afinal, um de seus objetivos primei- no trabalho.
32 cas. Uma vez que a produção de conhe- inclusive com monitoramento, as ros. Por essa razão, pode-se afirmar O papel de ONGs como o ITS, que presta assessoria
técnica ao projeto, é municiar os futuros empreende-
cimento e de inovações esteja compro- avaliações de riscos e impactos am- que as práticas que envolvem TS
dores com os conhecimentos necessários para a sus-
metida com a transformação da socie- bientais, sociais, econômicos e cultu- encontram-se em sintonia com a tentabilidade de seus negócios e sua inserção em um
TECNOLOGIA SOCIAL

dade no sentido da promoção da justiça rais passam a ser elementos necessá- definição de “inovação” presente nas outro mercado possível, justo e solidário.
social, aumentam-se as chances de se rios integrados na produção e aplica- “Disposições preliminares” da Lei “Incubação” é o nome que se dá a todo este processo
educativo prático. Neste programa, significa oferecer
obter um desenvolvimento sustentável. ção de tecnologias e dos conhecimen- Federal 10.973/04: “introdução de
os meios e os instrumentos necessários para que os
Ressalte-se que muitos dos países mais tos científicos. E assim, trabalhar novidade ou aperfeiçoamento no grupos interessados em formar empreendimentos soli-
inovadores em termos de tecnologia para que as chamadas “externalida- ambiente produtivo ou social que dários se organizem e se desenvolvam, de forma sus-
são também aqueles que têm sido mais des” sejam cada vez mais “internali- resulte em novos produtos, processos tentável. É um processo que envolve a capacitação
técnica e em autogestão, o aprendizado pela prática e
bem-sucedidos em dar solução aos zadas”. Isso acontece, por exemplo, ou serviços”.
pela convivência, a assessoria de especialistas e o
seus problemas sociais, e isso se deve, quando se desconsidera um prejuízo No entanto, quando se fala em ino- suporte aos negócios formados, com a garantia de
entre outras razões, a que foram sensí- ambiental decorrente de um processo vação, no campo da TS, não se pensa acesso a tecnologias e instrumentos que permitam aos
veis a eles em suas pesquisas científi- produtivo, transferindo “para fora” necessariamente em tecnologia “de empreendedores “andar com as próprias pernas”,
como o microcrédito e as redes de produção, distribui-
co-tecnológicas. (ou para toda a sociedade) o custo que ponta”. Ela pode efetivamente repre-
ção, comercialização e consumo.
haveria em produzir de maneira sentar um avanço do ponto de vista das
4. Tecnologia Social implica ambientalmente correta. À medida fronteiras do conhecimento, mas isso OFICINA-ESCOLA TÊXTIL E PÃO SOL
sustentabilidade socioambiental que se eliminem as externalidades, não é um valor em si. O foco principal Desde o começo de 2006, no bairro Rochdale, periferia
da cidade, funciona a Oficina-Escola de confecção e
e econômica produtos ambientalmente muito no- está em sua eficácia e relevância social,
costura, montada pela prefeitura para oferecer capaci-
Sociedade e meio ambiente são partes civos tendem a tornar-se economica- de modo a representar uma inovação tação técnica e qualificação profissional para grupos
integradas de uma mesma totalidade. mente inviáveis. relativa ao grupo beneficiário. de mulheres que, até então, contavam com os progra-
A sociedade existe num meio ambien- A sustentabilidade econômica, por Acreditamos que a geração de ino- mas públicos de transferência de renda (Programas
Redistributivos) como única fonte de renda estável.
te e este só ganha sentido quando é sua vez, implica que a TS pode buscar vações sociais será tanto maior, quan-
Na oficina, essas mulheres aprendem técnicas de cos-
integrado no desenvolvimento social. a rentabilidade e a geração de riqueza. to mais as demandas e necessidades tura, ganham habilidade nas máquinas, incorporam
Assim, a questão da preservação am- Para que possa garantir a inclusão so- sociais se tornarem temas de pesqui- qualidade no produto que fazem e vão descobrindo, na
biental, que é um aspecto fundamen- cial e a melhoria das condições de sas científico-tecnológicas. Primei- convivência, na discussão, no trabalho, laços de
tal, passa a ser tratada a partir do con-
ceito de sustentabilidade. O ser hu-
vida, a TS pode precisar produzir suas
condições de sustentabilidade, o que
ramente porque, como se sabe, as
soluções para os problemas sociais
amizade e de solidariedade que poderão ser decisivos
para o desafio que irão enfrentar: o de montar 
não estão dadas. Porém, também as importante para que sejam incorpo-
empreendimentos de Economia Popular e Solidária em
soluções encontradas pelas próprias rados ao processo de desenvolvimen-
ALGUMAS EXPERIÊNCIAS DO ITS
Osasco. A prefeitura de Osasco, em parceria com a TECNOLOGIA ASSISTIVA
Associação Eremim, organizou-as para que confec- populações passarão a ser mais co- to e aplicação de TS. OU AJUDAS TÉCNICAS
cionassem uniformes escolares para 47 mil alunos do nhecidas, podendo gerar e inspirar A sistematização da experiência Até pouco tempo atrás, nossa sociedade estava pouco
ensino público fundamental, de modo a utilizar o poder ou nada preparada para lidar com a diversidade de
de compra do município para fortalecer a iniciativa e
novas soluções. O uso da inteligência como um todo é importante, não ape-
necessidades que as pessoas têm ou passam a ter no
potencializar os resultados dos investimentos públicos. pode e deve potencializar novas solu- nas por proporcionar rigor no acom- decurso de suas vidas. Em decorrência disso, ainda
Como contrapartida, as participantes do projeto rece- ções, que sejam acessíveis, eficazes e panhamento e na avaliação dos proje- hoje direitos fundamentais dos cidadãos brasileiros –
bem uma bolsa de R$ 450 por mês, mais vale-transporte. sustentáveis, construídas num pro- tos, como também para que possa direito de ir e vir, à informação, à escola, à cultura, ao
Os grupos que participam do Pão Sol, projeto que é lazer, ao trabalho, entre outros – não têm sido garanti-
fruto de parceria da prefeitura de Osasco com o ITS,
cesso democrático e inclusivo. gerar aprendizagens que sirvam de
dos para uma parcela significativa da população. As
trilham um caminho parecido. Aprendem técnicas de referência para novas experiências. pessoas com deficiências e os idosos já conquistaram
panificação e confeitaria nas aulas-laboratório, reali- 6. Tecnologia Social implica organi- Ao descrever os métodos, técnicas, muitos avanços, e a legislação exige que os equipa-
zadas em uma cozinha industrial, e também se dedi- zação e sistematização produtos e processos de uma TS, tor- mentos, serviços e espaços de uso público sejam aces-
cam à formação teórica e em cidadania. Em dezembro síveis a todos. Mas ainda há muito o que avançar em
de 2006, muitas alunas, mesmo antes de terminar a
A TS leva em conta um amplo conjun- namos esta tecnologia acessível a um
termos de soluções práticas e mudanças de cultura.
capacitação, já estavam levando o que aprenderam no to de fatores, compreendidos de ma- maior número de pessoas, aumentan- A Tecnologia Assistiva – ou ajudas técnicas – refere-se
projeto (novas receitas, técnicas de higienização e neira sistêmica, o que implica uma do sua capacidade de solucionar pro- às pesquisas e ações (produtos, instrumentos, estraté-
cuidados com a apresentação dos alimentos) para concepção sofisticada de tecnologia. A blemas sociais. gias, serviços e práticas) que vêm em auxílio principal-
incrementar seus pequenos negócios, montados, em mente de pessoas com deficiência e pessoas idosas,
geral, dentro de casa, na informalidade. Assim, acres-
elaboração de planos de desenvolvi-
para prevenir, compensar, reduzir ou neutralizar as difi-
centam ao seu ganha-pão um ingrediente que faltava: mento estruturados torna-se impres- 7. Tecnologia Social implica
culdades e obstáculos de acesso que a sociedade, tal
profissionalismo. Para ajudar a sustentação das cindível para que todos estes fatores acessibilidade e apropriação como ela se configura, coloca a elas, e assim melhorar
famílias, no período de formação, elas recebem uma sejam contemplados e possam intera- das tecnologias sua autonomia e qualidade de vida.
bolsa de R$ 180 mensais. A inclusão buscada pelas TSs, sem No Brasil, além de 24,6 milhões de portadores de defi-
gir organicamente. A clareza e a preci-
são nos métodos utilizados oferece acessibilidade, seria um contra- ciência identificados pelo Censo 2000, a população de
senso. O baixo custo e a facilidade de idosos ultrapassa os 16 milhões. Em 20 anos, deverá ser
grandes vantagens quando é neces- de 32 milhões, número que colocará o país como o
acesso são valores a serem buscados,
sário enxergar as múltiplas relações sexto em população idosa no mundo (IBGE).
pois podem ser essenciais para o seu Essas cifras dão a dimensão da demanda por Tec-
implicadas no desenvolvimento so-
sucesso. Tome-se o exemplo do “soro nologia Assistiva no Brasil. Seja porque não encontram
cioambiental e econômico. Assim, a caseiro”. Ele é constituído de água, sal as informações ou a orientação adequada sobre as
ação organizada e consciente torna-se e açúcar, coisas que a maioria de nós ajudas técnicas que procuram, seja pelo alto custo
um pressuposto das TSs. tem em casa. O custo é praticamente destas tecnologias (muitas vezes são produtos impor-
Há ainda uma especificidade que tados), o fato é que muitas pessoas com deficiência
zero e qualquer um pode aprender a
poderiam ser beneficiadas, mas não estão sendo.
merece atenção. A TS tem como ca- fazer. E a sua eficácia na prevenção da
racterística a conjugação de diferentes desidratação infantil é enorme. Trata- O ITS E A TECNOLOGIA ASSISTIVA
saberes num processo multidiscipli- se então de uma Tecnologia Social Ampliar o apoio à pesquisa e ao desenvolvimento de
nar. Alguns desses saberes – como altamente acessível. produtos pode ser um passo importante para que o
Brasil avance na produção de suas próprias soluções e
métodos tradicionais de cultivo, por Isso não quer dizer que toda TS o acesso à Tecnologia Assistiva se democratize. Com
exemplo – são desenvolvidos ao longo deva ser barata, mas apenas que o essa perspectiva, a Secretaria da C&T para a Inclusão
de muitos anos de experimentação, baixo custo facilita o acesso e deve ser Social do Ministério da Ciência e Tecnologia
sem que tenha havido a necessidade valorizado por isto. Há situações em (Secis/MCT) e o ITS deram início, no ano de 2005, à
Pesquisa Nacional de Tecnologia Assistiva. O levanta-
de uma sistematização em moldes que tecnologias de alto custo são utili- mento procurou identificar as instituições que estu-
científicos. É a experiência de gera- zadas em projetos cujas metodologias dam, produzem e disseminam Tecnologia Assistiva no
ções que permitiu o desenvolvimento têm características de TS. Para citar Brasil. O objetivo foi gerar informações capazes de
de métodos integrados a determina- um exemplo, veja-se o caso da ONG subsidiar políticas de apoio às iniciativas de CT&I que


promovam a inclusão social das pessoas com deficiên-
do ambiente e a determinada cultura. Pró-Batalha, que defende o rio Ba- cia e/ou idosos.
A sistematização destes saberes é talha (um afluente do Tietê). Em suas
ações, a Pró-Batalha utilizou-se de priaram dessa tecnologia que, ao fim e
Os resultados da primeira etapa da pesquisa foram TEMAS URGENTES
divulgados, em março de 2006, no Portal Nacional de serviços de geo-referenciamento por ao cabo, representaria um benefício PARA A TECNOLOGIA SOCIAL
Tecnologia Assistiva – www.assistiva.org.br. Tanto os sistema GPS (fazendo uso de satélite, enorme à saúde da população. Para que
resultados quanto o questionário da pesquisa conti- entre outros equipamentos), que são tivesse características de TS, seria pre- • Segurança alimentar
nuam disponíveis. • Geração de trabalho e renda
caros e foram disponibilizados pelo ciso que a vacinação fosse feita na
O portal foi desenvolvido e é gerido pelo ITS. A idéia • Economia solidária
dessa ferramenta é facilitar a troca de conhecimentos Centro de Tecnologia em Geopro- forma de uma campanha informativa e • Microcrédito produtivo
sobre as iniciativas existentes na área, interligando cessamento – CTGEO, de Lins. O GPS, democrática, ao invés de um decreto • Meio ambiente
quem pesquisa, quem produz, quem faz a gestão públi- neste caso, tornou-se uma TS. imposto de cima pra baixo. • Tecnologia assistiva
ca e quem usa Tecnologia Assistiva. Construído de • Agricultura familiar
Outro aspecto importante a se con-
acordo com as normas de acessibilidade do Governo • Agroecologia
Federal e os princípios do Desenho Universal, o portal siderar é que a acessibilidade será tanto 8. Tecnologia Social implica • Sementes crioulas
é acessível a qualquer pessoa. maior quanto mais a população envol- um processo pedagógico • Raças animais crioulas
Na segunda etapa de implantação do portal, será cons- vida se apropriar dos meios de produ- para todos os envolvidos • Reforma agrária
truído um Catálogo Brasileiro de Ajudas Técnicas, reu- • Saneamento básico
ção e reprodução das TSs, pois dessa A dimensão pedagógica é transversal
nindo informações sobre os produtos disponíveis no • Educação
País. Já a terceira fase deverá contemplar os serviços maneira se apodera do processo. a todas as ações que envolvem TS. • Desenvolvimento Local Participativo
existentes para o atendimento a esta população. Muitas vezes, esta apropriação não Não pensamos apenas nas atividades • Saúde pública
implica ser capaz de produzir a tecno- de capacitação e treinamento que • Moradia popular
36 logia. Também há apropriação no sempre estão presentes. Mas sim no • Promoção da igualdade em relação à raça,
ao gênero e às pessoas com deficiência
aprendizado, na compreensão do sen- fato de que a TS se constrói num
tido e das implicações sociais que uma espaço de aprendizagem em que
TECNOLOGIA SOCIAL

tecnologia tem. Incluem-se aí o seu todos os envolvidos se vêem implica-


processo de produção e difusão, e tam- dos. Todos aprendem sobre uma rea-
bém o conhecimento de quem se bene- lidade específica – do ponto de vista
ficia ou quem se prejudica com ela. social, econômico, cultural e am-
Vejamos um exemplo histórico. No biental –, todos aprendem com a
início do século XX houve no Rio de interação e novos conhecimentos são
Janeiro um episódio que ficou conhe- gerados. Uma vez que essa dimensão
cido como Revolta da Vacina. Em 1904, pedagógica seja tomada como um
uma lei federal tornara obrigatória a elemento chave do processo e se
vacinação contra a varíola. Quando se cuide para que ela seja efetiva, gera-
espalhou a notícia de que a vacina era se permanentemente as condições
feita com o próprio vírus, muita gente favoráveis que tornaram possível a
pensou que o governo queria era con- elaboração das soluções, de forma a
taminar as pessoas e eliminar parte da aperfeiçoá-las e multiplicá-las.
população. E houve grande rebelião O objetivo final é que as populações
contra a vacina. O que aconteceu? O conquistem autonomia, o que só se
benefício social que a vacina pode tra- consegue num processo pedagógico e
zer não se discute. O problema foi a de redução das desigualdades sociais
maneira autoritária como ela foi trazi- que representam verdadeiras barreiras
da à população, sem que esta se sen- ao desenvolvimento socioambiental e
tisse incluída no processo. Mal infor- econômico. Trata-se de distribuir
madas e desconfiadas do governo jus- melhor o acesso ao capital intelectual. A
tamente por seu intervencionismo falta de acesso à educação formal é uma
autoritário, as pessoas não se apro- das graves exclusões que se busca com-
bater, dando àquele que não pôde fre- engenheiro pode ajudá-lo na reestru- Neste sentido, o papel das organiza- lo escolar ou universitário, participar
qüentar cursos qualificados e participar turação sanitária do bairro. E também ções não-governamentais tem sido de como atividades transversais que reú-
de pesquisas elaboradas a oportunidade que um ambientalista provavelmente grande importância, pois sua expe- nam várias disciplinas e também
de se aproximar desta realidade, quali- estará melhor preparado que o enge- riência em grande medida se produz acontecer em atividades complemen-
ficando-se também. Há assim transfe- nheiro para avaliar o impacto ambien- no contato entre os diferentes saberes. tares ou de extensão.
rência de tecnologias para os membros tal dessas transformações. Ou ainda E também os movimentos sociais, pois
das comunidades envolvidas. que um administrador pode vislum- somente com mobilização os “excluí- 11. Tecnologia Social implica
Considera-se que todos são essen- brar e estruturar mais claramente as dos” têm avançado em conquistas por processos participativos
cialmente capazes de produzir conhe- oportunidades de negócios que surjam seu espaço próprio na sociedade, de planejamento,
cimento e soluções aos seus proble- ali. Ao contemplar os diferentes pontos fazendo valer os seus direitos. acompanhamento e avaliação
mas, e são também capazes de efetuar de vista, pode-se chegar a projetos Uma parte importante do processo
escolhas para suas vidas. Está claro, melhor embasados para a redução das 10. Tecnologia Social implica pedagógico ocorre na forma de pro-
portanto, que as soluções devem ser incertezas e riscos inerentes a qualquer difusão e ação educativa cessos participativos de planejamen-
construídas sempre no diálogo, nunca projeto – por um planejamento mais As ações de desenvolvimento com TS to, acompanhamento e avaliação dos
impostas. Isto não é fácil, mas é desta completo e integrado. Potencializam- se consolidam e se fortalecem com a próprios projetos de TS. Há toda uma
maneira que se constrói um processo se os recursos investidos, seja por uma difusão. Ao se difundir a idéia de que a dimensão de aprendizado que se ad- 39
38 de aprendizado democrático. gestão melhor dos riscos e oportunida- tecnologia deve estar socialmente quire “pondo a mão na massa”, que
Daí a importância de se desenvol- des, seja porque todos se engajam no implicada, busca-se sensibilizar as pode e deve ser compartilhado por

INSTITUTO DE TECNOLOGIA SOCIAL


verem mecanismos de escuta e parti- processo, se apropriam dele e se sen- pessoas para que estejam atentas aos todos os envolvidos. A autonomia das
TECNOLOGIA SOCIAL

cipação nas instâncias locais, assim tem contemplados. riscos de efeitos danosos ao meio populações se constrói neste proces-
como nas regionais e nacionais. Num outro plano, é preciso supe- ambiente e à sociedade decorrentes so, em que se consolidam sua atuação
Quanto mais localizada for a ação, rar o desprezo que muitas vezes se tem de inovações tecnológicas. As campa- na esfera pública e o seu direito à
mais importante será a participação pelos saberes populares. Para citar um nhas informativas têm a capacidade autodeterminação. Caso seja necessá-
direta dos envolvidos. Mas mesmo nas exemplo, foi na luta por sua sobrevi- de envolver a sociedade nos proces- ria preparação específica para garan-
esferas mais altas, a democracia se vência, enxergando a possibilidade de sos, promovendo o debate público tir a qualidade da participação, deve-
beneficia. Alguém que tenha partici- gerar renda onde outros só viam qualificado, em todos os níveis. Neste se prover imediatamente os cursos e
pado de um processo decisório na detritos, que pessoas com pouco estu- sentido, o trabalho de divulgação – oficinas de capacitação pertinentes.
esfera local estará melhor preparado do desenvolveram diversas maneiras por publicações, pela internet, pela Outra vantagem é que todos aque-
para o aprendizado implicado nas de se reciclar lixo, sem qualquer imprensa e pelo “boca-a-boca”, entre les que participam das etapas de pla-
escolhas numa eleição ou num plebis- apoio, antes que isso fosse visto como outros – exerce um papel de primor- nejamento, acompanhamento e ava-
cito, por exemplo. algo fundamental à sobrevivência das dial importância na sociedade. liação se responsabilizam pelo êxito
grandes metrópoles. As pesquisas Além disso, é preciso que a TS faça do projeto. A chance de que as pes-
9. Tecnologia Social implica científicas sobre reciclagem podem e parte da formação dos futuros cida- soas envolvidas se empenhem é
o diálogo entre diferentes saberes devem ser realizadas, trazendo ganhos dãos, para que saibam compreendê-la maior, pois se percebem contempla-
Os diferentes atores de nossa socieda- enormes à sociedade. Mas essas pes- e talvez se tornem mais receptivos a dos e implicados.
de têm pontos de vista distintos que, quisas terão vantagens se souberem enfrentar as grandes dificuldades
juntos, podem gerar uma visão mais aprender com a experiência dos cata- encontradas quando se busca o pensa- 12. Tecnologia Social
completa de nossa realidade. Assim, dores de materiais recicláveis. mento e a ação sistêmicos e que con- implica a construção cidadã
um morador de uma favela, por exem- Todos têm a ganhar com essa inte- templam as várias vozes sociais. Essa do processo democrático
plo, tem um conhecimento de sua rea- ração, em que os diferentes atores se formação se dá em ações educativas Autonomia é o contrário de desigual-
lidade que não pode ser substituído por vêem participando na produção do diretas, que podem ocorrer desde o dade. Atores sociais são autônomos
nenhum estudo acadêmico ou visão de saber, no fortalecimento do bem ensino fundamental até a universida- quando estão em condições igualitá-
fora. Mas também quer dizer que um comum e na conquista de direitos. de. Podem ser parte direta do currícu- rias de decidir sobre seus próprios
destinos e de participar na construção
do destino coletivo. A adoção de for-
VALORES DA TECNOLOGIA SOCIAL
mas democráticas de tomada de deci-
são, a partir de estratégias especial- 01 Inclusão cidadã
mente dirigidas à mobilização e à par- 02 Participação
ticipação popular, é um caminho que
traz grandes vantagens, mas não é 03 Relevância social
fácil. Pois o processo democrático é
04 Eficácia e eficiência
construído a cada momento, por um
aprendizado continuado. 05 Acessibilidade
A participação da sociedade civil na
formulação de políticas públicas refe- 06 Sustentabilidade (econômica e ambiental)
rentes a C&T mostra-se, por isso 07 Organização e sistematização
mesmo, essencial. A interação virtuo-
sa das implicações apresentadas 08 Dimensão pedagógica
40 acima tende a fomentar o espírito
09 Promoção do bem-estar
democrático, que muitas vezes se
difunde “por contágio”. A experiência 10 Inovação
do ITS é a de que, na medida em que as
TECNOLOGIA SOCIAL

pessoas se envolvem, participam, se


sentem respeitadas e respeitando uns
aos outros e, finalmente, começam a
colher os frutos do seu esforço, o espí-
rito de cidadania se fortalece. Na ela-
boração e implementação de projetos
que nascem de necessidades e
demandas sociais, planejados, geridos
e avaliados de maneira participativa e
democrática, ambientalmente sus-
tentável e com diálogo entre diferen-
tes atores da sociedade, encontramos
reunidos os fatores necessários à
construção de um desenvolvimento
socioeconômico sustentável, partici-
pativo e democrático.
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Projeto de Comunicação do Instituto de Instituto de Tecnologia Social
Tecnologia Social apoiado pelo Conselho Deliberativo
Ministério da Ciência e Tecnologia – Presidente
Secretaria da Ciência e Tecnologia para a Uraci Cavalcante de Lima
Inclusão Social Vice-Presidente
Roberto Vilela de Moura Silva
Ministro da Ciência e Tecnologia Membros
Dr. Sérgio Machado Rezende Rogério Cezar de Cerqueira Leite
Moysés Aron Pluciennik
Diretor do Departamento de Popularização Maria Lúcia Barros Arruda
e Difusão da Ciência e Tecnologia João Antônio Zuffo
Dr. Ildeu de Castro Moreira Roberto Dolci
Conselho Fiscal
Caderno Tecnologia Social - José Maria de Sousa Ventura
Conhecimento e Cidadania 1 Sandra Magalhães
Coordenação Irma Passoni Suplente do Conselho Fiscal
Organização e textos Maurício Ayer Marli Aparecida de Godoy Lima
Textos Beatriz Rangel Alfredo de Souza
Análise e edição dos textos Jesus Carlos Gerente Executiva
Delgado Garcia, Gerson José Guimarães, Irma Passoni
Marcelo Elias de Oliveira, Philip Hiroshi Ueno
Equipe de Projetos
Projeto gráfico Lia Assumpção
Ilustrações Ohi Coordenador de Projetos
Jesus Carlos Delgado Garcia
Equipe
Beatriz Rangel
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