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EXPOSIÇÃO DE MOTIVOS

SOBRE A DENOMINAÇÃO DA ESPECIALIDADE


“ODONTOLOGIA EM SAÚDE COLETIVA”

INTRODUÇÃO
Em 31/3/2011, a Diretoria da ABRASBUCO – Associação Brasileira de Saúde
Bucal Coletiva – entidade fundada em 11/8/1998, em Fortaleza, Ceará, quando se
realizavam o 14º ENATESPO (Encontro Nacional de Administradores e Técnicos do
Serviço Público Odontológico) e o 3º Congresso Brasileiro de Saúde Bucal Coletiva,
iniciou negociação com o Conselho Federal de Odontologia (CFO), com vistas a
tornar nula a Resolução CFO-108/2011, publicada no Diário Oficial da União em
3/3/2011, que alterou o nome da especialidade odontológica até então denominada
“Saúde Coletiva”.
Como parte desse processo, foi agendada nova reunião para o dia 5/5/2011.
Para esta reunião, a ABRASBUCO solicitou ao CFO que três cirurgiões dentistas (CD)
especialistas, reconhecidos e com inscrição no CFO, indicados por ela, pudessem
participar da atividade. A solicitação foi aceita pelo CFO.
Um desses especialistas convidados pela ABRASBUCO, o CD Paulo Capel
Narvai (CROSP nº 18155), também professor da Faculdade de Saúde Pública (FSP),
da Universidade de São Paulo (USP), considerou necessário preparar e apresentar,
na referida reunião, uma Exposição de Motivos para fundamentar posição contrária à
alteração da denominação da especialidade. Para elaborar o mencionado documento,
consultou colegas CD docentes dessa área (Saúde Coletiva) das universidades
públicas mantidas pelo Estado de São Paulo, a saber: USP, UNESP (Universidade
Estadual Paulista Julio de Mesquita Filho) e Unicamp (Universidade Estadual de
Campinas).
Desse processo de consultas resultou a presente Exposição de Motivos.
É expectativa dos signatários que seu conteúdo seja levado em consideração
nas próximas etapas do processo de negociação envolvendo a ABRASBUCO e o CFO.
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RESOLUÇÃO CFO-108/2011
A Resolução do CFO que alterou a denominação da especialidade, aprovada
em reunião plenária realizada pelo órgão em 25/2/2011, foi publicada no Diário
Oficial da União em 3/3/2011.
O documento está escrito nos seguintes termos:
“RESOLUÇÃO CFO-108/2011/Altera a denominação da especialidade de Saúde
Coletiva./O Presidente do Conselho Federal de Odontologia, no uso de suas
atribuições regimentais, cumprindo deliberação do Plenário, em reunião realizada no
dia 25 de fevereiro de 2011,/RESOLVE:/Art. 1º. A denominação da especialidade de
Saúde Coletiva passa a ser Saúde Coletiva e da Família./Art. 2°. Esta Resolução
entrará em vigor na data de sua publicação na Imprensa Oficial, revogadas as
disposições em contrário./Rio de Janeiro, 03 de março de 2011./JOSÉ MÁRIO
MORAIS MATEUS, CD SECRETÁRIO-GERAL/AILTON DIOGO MORILHAS RODRIGUES,
CD PRESIDENTE”.

ARGUMENTOS A FAVOR DA ALTERAÇÃO


Segundo informações transmitidas aos signatários deste documento pela
Diretoria da ABRASBUCO, com respeito à reunião de 31/3/2011, o CFO alega que a
alteração do nome da especialidade se deve, essencialmente, a três fatores:
1) edição da Portaria nº 3839, de 7/12/2010, do Ministério da Saúde;
2) solicitações de CD para serem reconhecidos como especialistas em Saúde
da Família;
3) exigências de gestores municipais da comprovação de especialidade na
área de Saúde da Família, em concursos públicos e processos seletivos.
Ainda segundo a ABRASBUCO a autarquia federal alega que “seria mais difícil
criar uma nova especialidade”, e que, “tendo em vista a similaridade dos campos de
atuação”, optou-se por agregar à denominação da especialidade Saúde Coletiva, a
expressão “e da família” passando desta forma a especialidade a se denominar
“Saúde Coletiva e da Família”.

ANTECEDENTES
A origem da especialidade em tela pode ser fixada em 1952, no contexto
histórico em que o Governo do Brasil organizou os primeiros programas de saúde
pública com componente odontológico. Esses programas pioneiros foram planejados
e executados pelo Serviço Especial de Saúde Pública (SESP), depois Fundação SESP,
atual FUNASA – Fundação Nacional de Saúde.
Criado 10 anos antes, em 1942, e mantido por um Acordo de Cooperação
Técnica entre os governos do Brasil e dos Estados Unidos, com apoio da Fundação
Rockefeller, o SESP implementou, inicialmente em Aimorés-MG e em seguida em
vários municípios do Norte, Nordeste e Sudeste, os primeiros programas de
odontologia escolar no Brasil.
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Tais programas eram denominados de “Odontologia Sanitária”, daí derivando


o primeiro nome da especialidade desses CD envolvidos com práticas de saúde no
setor público. Esses especialistas em “Odontologia Sanitária” eram sanitaristas e
integravam equipes multiprofissionais, as quais lidavam com saberes e fazeres
provenientes de diferentes disciplinas, necessários aos processos de trabalho de
saúde pública, dentro e fora do setor saúde.
Em 1960, Mário Chaves, o mais destacado dos CD sanitaristas brasileiros –
que chegou a dirigir a então Divisão Odontológica da Organização Mundial da Saúde
– publicou seu “Manual de Odontologia Sanitária”, obra que consolidaria a
especialidade no Brasil e que, por sua originalidade e qualidade excepcional, marcou
profundamente a teoria e a prática das intervenções de saúde pública no campo
odontológico no país, influenciou várias gerações, e, com sua edição em espanhol
em 1962, patrocinada pela Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS), estendeu
sua influência por toda a América Latina.
No referido livro, Chaves conceituou a Odontologia Sanitária como “a
disciplina da saúde pública responsável pelo diagnóstico e tratamento dos problemas
de saúde oral (....) da comunidade”, sendo esta entendida como “uma cidade ou
parte dela, um estado, região, país ou grupo de países (...). Em qualquer nível, o que
é importante é a visão de conjunto da comunidade, tanto mais complexa quanto
mais extensa geograficamente e maior a população (...). A ideia de que odontologia
sanitária é „prevenção‟ ou de que é „assistência ao indigente, à gestante, ao escolar,
ou a qualquer outro grupo‟, [grifos no original] não tem razão de ser. Odontologia
sanitária é trabalho organizado da comunidade, na comunidade e para a
comunidade, no sentido de obter as melhores condições médias possíveis de saúde
oral.”
Segundo Jairo Diniz, professor de “Odontologia Sanitária” da Universidade
Federal da Bahia, o “início do Curso de Especialização em Saúde Pública para
Dentistas, na Universidade de São Paulo”, em 1958, correspondeu a um esforço de
reflexão e sistematização das experiências brasileiras nessa área, sob a liderança
acadêmica de Mário Chaves e Alfredo Reis Viegas. Para Diniz, “a esses dois pioneiros
da Odontologia em Saúde Pública no Brasil podem ser creditados os fundamentos
teóricos que nortearam a formação de centenas de cirurgiões-dentistas sanitaristas
brasileiros e de outros países da América Latina.”
Cabe assinalar, por oportuno, que o surgimento e consolidação da
especialidade odontológica objeto da lacônica Resolução CFO-108/2011 é anterior à
criação do CFO, que viria a ocorrer apenas em 1964.
A segunda metade do século passado testemunhou o surgimento de várias
„odontologias‟ no Brasil (preventiva, social, preventiva e social, social e preventiva,
simplificada, integral, comunitária, dentre outras). No meio acadêmico, consagrou-se
a expressão “Odontologia Social e Preventiva” como lócus dessa profusão de
proposições. Não se tem notícia sobre essas diferentes „Odontologias‟ terem se
transformado em especialidades odontológicas.
Em maio de 1981 foi fundada, em São Paulo, em evento realizado na
Universidade de São Paulo, a ABOPREV – Associação Brasileira de Odontologia
Preventiva, impulsionando fortemente o desenvolvimento da Odontologia Preventiva
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no país. Em 1994 o nome da ABOPREV foi alterado para Associação Brasileira de


Odontologia de Promoção de Saúde.
Em 1989, Vitor Gomes Pinto lançou „Saúde Bucal: Odontologia Social e
Preventiva‟. O livro, que se tornaria rapidamente uma obra de referência da área,
organizou, sistematizou e atualizou as bases teóricas sobre as quais se deveriam
assentar o planejamento e a programação das ações de saúde pública na área
odontológica. Ao lado da segunda edição do livro de Mário Chaves, lançada em 1977
com o título alterado para „Odontologia Social‟ e ampla revisão dos principais
capítulos, o livro de Vitor Pinto correspondeu a uma expressiva contribuição, tanto ao
planejamento de serviços quanto à formação de recursos humanos. Em 2000 foi
publicada sua quarta edição, agora com novo título: „Saúde bucal coletiva‟.
Em 9/11/1990, o CFO aprovou a Resolução CFO-167/90, alterando a
denominação da especialidade “Odontologia Preventiva e Social” para “Odontologia
Social”, sendo muito criticado pelos especialistas, dada a frequente – e inadequada –
redução conceitual da “Odontologia Social” a uma odontologia para pobres, ou
“carentes”. Registre-se a propósito que, também naquela ocasião, o CFO tomou a
decisão de alterar a denominação sem qualquer consulta às lideranças acadêmicas
ou aos especialistas mais atuantes e organizados na área. Outras possibilidades de
denominação da especialidade, disponíveis na época, sequer foram cogitadas.
A propósito dessa alteração feita pela Resolução CFO-167/90, os docentes de
Odontologia Preventiva e Saúde Pública da USP afirmaram que “(...) o adjetivo
„social‟ foi, inexplicavelmente, mantido na denominação da especialidade
contrariando a expectativa da maioria dos CD que atuam nesse campo. (...) [ pois]
não é possível conceber práticas odontológicas que não sejam sociais. O qualificativo
„social‟ não definiria, portanto, rigorosamente nada, tendo o grande inconveniente
de, por causa da conotação que o termo „social‟ adquiriu no Brasil nos últimos anos,
propiciar associações de ideias com algo precário, sem qualidade, relativo e dirigido a
pobres: uma espécie de odontologia de segunda ou terceira classe voltada aos
problemas de subcidadãos ou, como querem alguns, uma odontologia para
„carentes‟.”
Dois anos após a edição da Resolução CFO-167/90, a denominação
“Odontologia em Saúde Coletiva” (OSC) foi aprovada na I ANEO – Assembléia
Nacional das Especialidades Odontológicas –, na manhã do dia 20/4/1992, no
Auditório do Hotel Glória, Rio de Janeiro, e viria substituir “Odontologia Social”.
Desde então, tem sido ressaltado em inúmeros trabalhos científicos, que a
especialidade “Odontologia em Saúde Coletiva”, por suas características e campo de
saberes e atuação, se constitui em dupla especialidade e disciplina: ela é, a um só
tempo, especialidade odontológica e, também especialidade da saúde pública, e
disciplina acadêmica que interessa tanto à Odontologia quanto à Saúde Pública.
Nessa condição, de parte da Saúde Pública, configura-se como um campo de
conhecimentos e práticas cujo objeto é mais amplo do que a própria Odontologia,
uma vez que é, necessariamente, compartilhado por outras ciências, saberes e
domínios não-odontológicos como, por exemplo, a bioestatística, a epidemiologia, a
sociologia, a antropologia, a psicologia, a pedagogia, o planejamento, a
administração, o direito, as engenharias, a história, a economia, dentre outros.
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Esta é uma das razões pelas quais não é possível formar esses especialistas
tendo, no corpo docente dos cursos, apenas CD. Isto não faz sentido, uma vez que é
indispensável à formação, conforme referido, a participação de profissionais de
várias áreas – do historiador ao engenheiro, passando pelo filósofo, o bioquímico e o
sociólogo, p.ex. Todos são igualmente importantes ao processo formativo nesta área.
Não cabe, também, a propósito, em nosso entendimento, restringir a outorga do
título, somente a egressos de cursos de especialização coordenados por cirurgiões-
dentistas. Ainda que o CD egresso de cursos com essas denominações seja, sem
dúvida, um especialista em Saúde Coletiva, tais cursos são, na maioria das vezes,
estruturados para turmas multiprofissionais podendo ser coordenados por
profissional habilitado não CD. Há outros aspectos conflitantes que não cabem ser
aqui arrolados, entre as exigências para a obtenção do título acadêmico e os critérios
para a outorga do título profissional que, por falta de harmonização, acabam
prejudicando os egressos desses cursos.
As normas que o CFO mantém, sobre formação e inscrição de especialistas
nessa área, estão na base de frequentes atritos e incompreensões que vêm
marcando as relações da Autarquia Federal, com órgãos formadores, sobretudo a
Universidade Pública, e também com colegas CD. Quanto a estes, exigências
impertinentes – por não aplicáveis – para inscrição têm, por vezes, excluído do CFO
especialistas do mais alto gabarito, que honram e dignificam a profissão
Odontológica. Além disso, vêm, concretamente, prejudicando-os em ascensões em
carreiras de quadros de pessoal, com importantes implicações salariais. Ao invés de
ampará-los e apoiá-los, inscrevendo-os como especialistas, o CFO vem prejudicando-
os, em razão de exigências meramente cartoriais, relacionadas aos cursos dos quais
são egressos. Tal é o caso da exigência de que cursos nessa área, organizados por
universidades públicas, reconhecidaspelo MEC para esse fim, submetam suas
decisões de planejamento pedagógico ao CFO, a fim de solicitar credenciamento,
como condição para reconhecimento dos certificados que comprovam a
especialização. Ao fazer tais exigências a essas instituições, dentre as quais
informações sobre designação de coordenadores, definição de programas, opções
pedagógicas, critérios de avaliação, dentre outros, pretende o CFO tutelar,
pedagogicamente falando, instituições credenciadas pelo Ministério da Educação, o
que caracteriza evidente exorbitância de competências legais. Na raiz desse
equívoco, está a incompreensão das características essenciais da especialidade
“Odontologia em Saúde Coletiva”.
Parece-nos um erro grave que o CFO siga colocando à margem da
Odontologia centenas de especialistas dessa área, justamente num contexto histórico
de importante impulso da política nacional de saúde bucal e de consolidação da
assistência odontológica pública, tanto na atenção primária à saúde quanto nos
níveis de atenção de média e alta complexidade. É paradoxal que exatamente os
cirurgiões dentistas portadores de títulos acadêmicos nessa área, e cujo trabalho
cotidiano tem contribuído tanto para essas conquistas, sejam punidos pelo CFO com
a não outorga do título profissional, por não lhes reconhecer a formação atestada
por certificados emitidos por importantes universidades brasileiras. É nesse contexto
que o número de especialistas em Odontologia em Saúde Coletiva (925, segundo
informação da ABRASBUCO) deve ser analisado.
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ODONTOLOGIA EM SAÚDE COLETIVA


Na I ANEO aprovou-se que a especialidade tem como objetivo o estudo dos
fenômenos que interferem na saúde bucal coletiva, por meio de análise, organização,
planejamento, execução e avaliação de serviços, projetos ou programas de saúde
bucal, dirigidos a grupos populacionais, com ênfase nos aspectos preventivos.
Na ocasião foram identificadas as seguintes áreas de competência do
especialista:
a) análise sócio-epidemiológica dos problemas de saúde bucal da comunidade;
b) elaboração e execução de projetos, programas e/ou sistemas de ação
coletiva ou de saúde pública visando à promoção, ao restabelecimento e ao controle
da saúde bucal;
c) participação, em nível administrativo e operacional de equipe multiprofis-
sional, por intermédio de: (1) organização de serviços; (2) gerenciamento em
diferentes setores e níveis de administração em saúde pública; (3) vigilância
sanitária; (4) controle de doenças; (5) educação em saúde pública;
d) identificação e prevenção das doenças bucais oriundas exclusivamente da
atividade laboral.
A Resolução CFO 185/93, em seu art. 57, homologou as decisões da I ANEO.

SAÚDE COLETIVA
Em 27/12/2001, por meio da Resolução CFO-22/2001, uma vez mais sem que
se saibam as razões, e uma vez mais sem dialogar com os segmentos
representativos da especialidade, o CFO alterou a denominação de “Odontologia em
Saúde Coletiva” para, apenas “Saúde Coletiva”. Agiu como se palavras, a mais ou a
menos, não tivessem importância; como se não envolvessem referenciais teóricos
que devem ser respeitados. O termo “Odontologia” foi retirado do nome da
especialidade, segundo consta, como conseqüência da 2ª ANEO, realizada de 6 a
9/9/2001, em Manaus.
A decisão, descabida, revela apenas ignorância do que é a “Saúde Coletiva”.
Tomar uma pela outra, considerar a “Saúde Coletiva” sinônimo de “Odontologia em
Saúde Coletiva”, e vice-versa, é um despropósito.
Com efeito, compreende-se que, sendo cirurgiões dentistas, e sendo
especialistas em saúde pública (ou saúde coletiva), esses profissionais, experts num
campo de conhecimentos e práticas que extrapola a Odontologia, sejam, ao mesmo
tempo, especialistas da Odontologia e de outros campos (Planejamento,
Administração, Vigilância Sanitária, Epidemiologia, Sistemas de Informação,
Educação, dentre outros). Não obstante, sentem-se – e, de fato, o são –
profissionais da Odontologia. Nessa condição têm todo o direito de se vincular a
entidades odontológicas, como, p.ex., o CFO. Nada a estranhar, portanto, que o CFO
os acolha, por meio de uma especialidade odontológica que seja compatível com o
fato de serem, simultaneamente, cirurgiões dentistas e sanitaristas.
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Contudo, o alcance normativo e, portanto, fiscalizador do CFO não pode


ultrapassar a categoria profissional dos cirurgiões dentistas, nos termos das
atribuições legais, estabelecidas pela Lei 4.324, de 14/04/1964, regulamentada pelo
Decreto n° 68.704, de 03/06/1971. É, porém, o que ocorre quando o CFO retira
unilateral e indevidamente o termo “Odontologia” da denominação da especialidade,
uma vez que a “Saúde Coletiva” é campo não alcançado por suas atribuições legais.
Para maior clareza considere-se o conceito de “Saúde Coletiva” adotado pela
CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior, do
Ministério da Educação, para cursos de pós-graduação lato e stricto sensu na área:
“A Saúde Coletiva é um campo científico onde se produzem saberes e
conhecimentos acerca do objeto „saúde‟ e onde operam distintas disciplinas
(epidemiologia, ciências sociais em saúde, planejamento e gestão) que o
contemplam sob vários ângulos; e um âmbito de práticas, onde se realizam ações
em diferentes organizações e instituições por diversos agentes (especializados ou
não), dentro e fora do espaço convencionalmente reconhecido como „setor saúde‟.
Enquanto campo de conhecimento, a saúde coletiva contribui com o estudo do
fenômeno saúde-doença como processo social em populações; investiga a produção
e distribuição das doenças na sociedade entendidos como processos de produção e
reprodução social; analisa as práticas de saúde (processo de trabalho) na sua
articulação com as demais práticas sociais; procura compreender, enfim, as formas
pelas quais a sociedade identifica suas necessidades e problemas de saúde, busca
sua explicação e se organiza para enfrentá-los.”
Do exposto só se pode concluir que não pode o CFO se ocupar da “Saúde
Coletiva”, mas apenas e tão-somente da “Odontologia em Saúde Coletiva”, ou
denominação similar, sempre referida ao âmbito da Odontologia e dos seus
profissionais.
Uma alternativa que chegou a ser cogitada entre os CD especialistas em OSC
foi denominar essa especialidade de “Saúde Bucal Coletiva” (SBC), uma área do
campo da “Saúde Coletiva”. Contudo, surgiram argumentos de que a SBC é e não é
Odontologia. É também, mas não é apenas. Além disso, a SBC é um movimento
teórico-político com o qual muitos CD especialistas em OSC se identificam, mas não
todos. Desse modo, formou-se um consenso quanto ao fato de que cirurgiões
dentistas especialistas em Saúde Coletiva devem, em suas relações com o CFO,
serem inscritos e registrados como especialistas em “Odontologia em Saúde Coletiva”
e que essa especialidade, por sua natureza inter e multidisciplinar, abrange também
os profissionais com formações variadas, como, por exemplo, as diversas vertentes
da Odontologia Preventiva, da Odontologia Comunitária, da Odontologia do Trabalho,
da Epidemiologia Bucal, das áreas que se ocupam das relações Saúde e Sociedade,
dentre outras. Pode, também, incluir a denominada Saúde da Família como área de
ênfase de formação e núcleo preferencial de atividades profissionais. Porém, se
reconhece que, tendo em vista sua peculiar trajetória, os especialistas em
Odontologia do Trabalho optaram por constituir especialidade própria, sendo essa
opção ainda recente para que se possa avaliar as conseqüências da decisão. Do
mesmo modo, compreende-se a aspiração dos especialistas em Saúde da Família
quanto a constituírem especialidade própria.
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De qualquer modo, está bem claro, para os especialistas em OSC que é esta a
denominação mais adequada para a sua especialidade, não sendo necessário nem
retirar o termo “Odontologia”, nem acrescentar a expressão “e da Família” ao nome.
Em conseqüência, urge que o CFO corrija seu erro histórico, acentuado agora
com a recente decisão de alterar o nome da especialidade.

SAÚDE COLETIVA E DA FAMÍLIA


Ainda que a RESOLUÇÃO CFO-108/2011 não defina a especialidade
denominada “Saúde Coletiva e da Família”, nem identifique as áreas de competência
do especialista criado pelo documento, a definição e as áreas de competência
aparecem na “Consolidação das Normas para Procedimentos nos Conselhos de
Odontologia”, atualizada em 25/3/2011.
Na seção XIX, o art. 85, afirma que “Saúde Coletiva e da Família é a
especialidade que tem como objetivo o estudo dos fenômenos que interferem na
Saúde Coletiva e da Família, por meio de análise, organização, planejamento,
execução e avaliação de sistemas de saúde, dirigidos a grupos populacionais, com
ênfase na promoção de saúde.” Ainda na mesma seção, encontram-se as áreas de
competência (art. 86): “As áreas de competência para atuação do especialista em
Saúde Coletiva e da Família incluem: a) análise sócio-epidemiológica dos problemas
de saúde bucal da comunidade; b) elaboração e execução de projetos, programas
e/ou sistemas de ação coletiva ou de saúde pública visando à promoção, ao
restabelecimento e ao controle da saúde bucal; c) participação, em nível
administrativo e operacional de equipe multiprofissional, por intermédio de: 1.
organização de serviços; 2. gerenciamento em diferentes setores e níveis de
administração em saúde pública; 3. vigilância sanitária; 4. controle das doenças; 5.
educação em saúde pública; e, d) identificação e prevenção das doenças bucais
oriundas exclusivamente da atividade laboral.”

OS PROBLEMAS DA RESOLUÇÃO CFO-108/2011


O documento normativo aprovado pelo CFO em fevereiro de 2011,
complementado pelos artigos 85 e 86 da “Consolidação das Normas para
Procedimentos nos Conselhos de Odontologia” (versão de 25/3/2011), contém
deficiências e insuficiências, dentre as quais cabe destacar:
1) compete ao CFO fixar normas que se refiram ao exercício profissional de
cirurgiões dentistas que se dediquem à Saúde Pública/Coletiva, mas não compete ao
CFO fixar normas sobre “Saúde Coletiva”;
2) compete ao CFO fixar normas que se refiram ao exercício profissional de
cirurgiões dentistas que se dediquem à Saúde da Família, mas não compete ao CFO
fixar normas sobre “Saúde da Família”, lato sensu;
3) com a criação da especialidade “Odontologia do Trabalho” a área de
competência “identificação e prevenção das doenças bucais oriundas exclusivamente
da atividade laboral” (alínea „d‟ do art. 86 da “Consolidação das Normas para
Procedimentos nos Conselhos de Odontologia”) deveria ter sido atribuída a esse
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especialista. Como se encontra, resulta em competência concomitante de duas


especialidades odontológicas, o que constitui contrassenso. Ou essa competência
permanece como competência dos especialistas em OSC e se extingue a
especialidade Odontologia do Trabalho, ou essa competência deve ser retirada das
competências do especialista em OSC;
4) as alterações feitas pelo CFO na definição da especialidade “Odontologia
em Saúde Coletiva”, produzida democraticamente na I ANEO, introduziu limitações e
erros na definição que, agora, aparece também na definição da especialidade “Saúde
Coletiva e da Família”. É o que se depreende da mudança do objeto da
especialidade. Para a I ANEO o objeto da especialidade é a „saúde bucal coletiva‟, ou
seja, a saúde bucal de populações e grupos populacionais. Ao modificar o objeto da
especialidade, anteriormente, para „saúde coletiva‟ o CFO exorbitou de suas
atribuições e trouxe para o campo da Odontologia toda a Saúde Coletiva, objeto do
qual, dada sua complexidade, não pode dar conta, per se, nem a Odontologia nem o
CD especialista. Tal erro foi agora ampliado para uma suposta „saúde coletiva e da
família‟ – disparate semântico criado pela norma em vigor. O mesmo se pode
afirmar, quanto à exorbitância, da anterior competência sobre “serviços, projetos ou
programas de saúde bucal”, definida adequadamente na I ANEO, para “sistemas de
saúde” – uma generalidade imprópria e exagerada para a atuação, específica, de um
especialista da odontologia. Questionável também a menção, na definição da
especialidade, à “Promoção da Saúde”, uma vez que tais ações são necessariamente
compartilhadas pelo especialista da Odontologia com profissionais de outras áreas,
da saúde e de fora da saúde. Melhor seria ter mantido a “ênfase nos aspectos
preventivos” relacionados com a saúde bucal coletiva, referida na definição da I
ANEO, uma vez que estes aspectos sim são específicos do CD especialista dessa
área;
5) a manutenção ipsis litteris das competências do especialista em
Odontologia em Saúde Coletiva, definidas na I ANEO, como competências do
especialista em “Saúde Coletiva e da Família”, como faz a Resolução CFO-108/2011,
dá ensejo a que egressos de cursos de especialização em Saúde da Família se
envolvam com afazeres tão díspares quanto ações de vigilância sanitária, questões
relacionadas com análise sócio-epidemiológica, e planejamento e gestão em saúde,
para as quais podem não ter nem aptidão, nem a devida formação, nem interesse
profissional.
A respeito do argumento de que haveria “similaridade dos campos de
atuação” da “Saúde Coletiva” e da “Saúde da Família” não encontra justificativa na
Resolução CFO-108/2011, nem na “Consolidação das Normas para Procedimentos
nos Conselhos de Odontologia” (versão de 25/3/2011). Essas especialidades se
referem, aliás, a objetos completamente distintos. É tão despropositado uni-las em
uma especialidade, segundo suposta similaridade de campos de atuação, quanto
seria unir “Periodontia e Saúde do Trabalhador”, ou “Endodontia e Ortodontia”, para
ficar em apenas dois exemplos exóticos.
Por fim, especialidades odontológicas deveriam decorrer do desenvolvimento
de conhecimentos e práticas, com implicações científicas e tecnológicas no plano do
saber e do fazer desses profissionais de saúde, e não derivar apenas de planos de
cargos e salários de um ou outro governo, por mais importantes que sejam em
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determinadas conjunturas. Contudo, deve-se reconhecer que não há, em princípio,


antagonismo inconciliável entre uma coisa e outra. No presente episódio, em que
cirurgiões dentistas expressam seu interesse em serem reconhecidos como
especialistas em “Saúde da Família”, e órgãos governamentais declaram estar
interessados nesses especialistas, é cabível que o CFO avalie a conveniência de
instituir uma especialidade própria, a qual poderia ser denominada “Odontologia em
Saúde da Família”, ou “Odontologia em Atenção Primária em Saúde”, ou
“Odontologia em Saúde da Família e Comunidade”, ou ainda “Odontologia
Comunitária”. Seja como for, parece-nos altamente recomendável que para a
definição do objeto e a identificação do campo de competências, o CFO não tome
decisões sem ouvir os profissionais do ramo. Sobretudo, que não aplique a esses
especialistas, mecânica e burocraticamente, a definição do objeto e a identificação
do campo de competências da Odontologia em Saúde Coletiva, como fez nesse
episódio lamentável da Resolução CFO-108/2011.

CONCLUSÃO
Em vista do exposto nesta Exposição de Motivos permitimo-nos recomendar
ao CFO a imediata revogação da Resolução CFO-108/2011 e a realização de consulta
formal à ABRASCO – Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva –, à
ABRASBUCO e aos CD inscritos na Autarquia Federal como especialistas nessa área,
sobre a definição do objeto, a identificação do campo de atuação, e o nome mais
apropriado para a especialidade.

São Paulo, 5 de maio de 2011

Prof. Dr. Paulo Capel Narvai


CROSP 18155
FSP/USP

Profa. Dra. Ana Paula Dossi


CROSP 86908
FOA/UNESP

Prof. Dr. Antonio Carlos Pereira


CROSP 42718
FOP/UNICAMP

Prof. Dr. Carlos Botazzo


FOUSP/USP

Prof. Dr. Celso Zilbovicius


CROSP 30716
FUNDECTO/FOUSP
11

Profa. Dra. Cléa Adas Saliba Garbin


CROSP 46004
FOA/UNESP

Profa. Dra. Dagmar de Paula Queluz


CROSP 31760
FOP/UNICAMP

Prof. Dr. Edgard Michel Crosato


CROSP 61091
FOUSP/USP

Prof. Dr. Fábio Luiz Mialhe


CROSP 15169
FOP/UNICAMP

Prof. Dr. Jaime A. Cury


CROSP 10775
FOP/UNICAMP

Prof. Dr. José Roberto Magalhães Bastos


FOB/USP

Profa. Dra. Livia Tenuta


CROSP 65326
FOP/UNICAMP

Prof. Dr. Marcelo de Castro Meneghim


CROSP 41169
FOP-UNICAMP

Profa. Dra. Maria da Conceição-Saraiva


FORP/USP

Profa. Dra. Maria da Luz Rosário de Souza


CROSP 34084
FOP/UNICAMP

Profa. Dra. Maria Ercilia de Araújo


FOUSP/USP

Profa. Dra. Maria Gabriela Haye Biazevic


CROSP 66114
FOUSP/USP

Profa. Dra. Marlívia G. C. Watanabe


CROSP 34909
FORP/USP
12

Profa. Dra. Nemre Adas Saliba


CROSP 5181
FOA/UNESP

Profa. Dra. Nilce Emy Tomita


CROSP 32744
FOB/USP

Prof. Dr. Paulo Frazão


CROSP 31825
FSP/USP

Prof. Dr. Renato Moreira Arcieri


CROSP 13745
FOA/UNESP

Prof. Dr. Ronald Jeferson Martins


CROSP 49418
FOA/UNESP

Profa. Dra. Silvia Helena de Carvalho Sales Peres


CROSP 42979
FOB/USP

Prof. Dr. Silvio Rocha Corrêa da Silva


CROSP 34152
FOAr/UNESP

Profa. Dra. Simone Rennó Junqueira


CROSP 54377
FOUSP/USP

Profa. Dra. Suzely Adas Saliba Moimaz


CROSP 35857
FOA/UNESP

Profa. Dra.Tânia Saliba Rovida


CROSP 55039
FOA/UNESP