A RELIGIÃO A palavra religião provém do verbo latino religare (ligar, juntar, unir), o que acentua uma das vertentes

fundamentais da religião: a união entre o homem e o divino. 2.A religião pressupõe a existência de duas dimensões do real: a profana e a sagrada. A primeira dimensão corresponde ao mundo em que vivemos ( terreno, material), e que é encarada como carecendo de sentido, de explicação. Porque é que existe o mundo e não o nada? Esta é umas das perguntas que permanece sem resposta. A segunda assenta na crença que existe um outro mundo povoado de seres imateriais que possuem a explicação que o nosso mundo e as nossas existências carecem. É por esta razão que estes seres tendem a ser considerados perfeitos e superiores aos humanos. 3. Cada religião não é apenas uma comunidade de crentes que se reúnem para prestar o culto às mesma divindades, mas é sobretudo um conjunto de "conhecimentos" que são assumidos pelos seus crentes como verdadeiros, e que lhes permitem por exemplo, saber qual o sentido do m undo, como se processa a relação entre o homem e o sagrado, a forma como este se manifesta no mundo e como podemos interpretar os seus sinais. 4.A religião tem pois o seu fundamento na noção de sagrado, isto é, naquilo que é de uma natureza sobrenatural, m isteriosa que inspira temor e respeito. A religião pode ser definida como um conjunto de crenças e práticas (ritos), relativos a certos sentimentos manifestados perante o divino por uma dada comunidade de crentes, obrigando -os a agir segundo uma lei divina para puderem ser salvos, libertos ou atingirem a perfeição. Cada religião defende um conjunto de valores cuja validade pretende ser universal.

1. Experiência Religiosa

As manifestações religiosas são tão antigas e estão de tal modo difundidas que nos é difícil imaginar o Homem sem Religião. Chega -se à religião de múltiplas maneiras, a mais frequente é através da família. Os homens sempre esperam das religiões respostas para os enigmas com que se deparam: O que é homem? Qual o sentido da sua exist ência? Qual a origem e o fim do sofrimento? Como podemos atingir a felicidade? O que é a morte? Existe uma justiça sobre-humana que castigue os que fizeram outros sofrer e recompense as suas vítimas? Não encontrando respostas na ciência para estas questões, buscam-nas com frequência na religião.

como os fenómenos sobrenaturais.Mas o sentimento religioso emerge também a partir da própria consciência que o Homem é um ser finito. Apresenta também uma dada explicação para o sentido do mundo e a existência do próprio h omem (vida. medo e reverência. podendo ou não ser escritas.Crenças Todas as religiões apresentam-se como um sistema de crenças e ritos. imperfeito. Sempre que o homem entra em contacto com o sagrado (o divino. . morte. e corresponde a uma realidade que é assumida como perfeita. Estas crenças definem uma concepção particular do sagrado. etc). É inerente ao próprio conceito de crença. o transcendente) estamos perante um tipo particular de experiência religiosa. do latim pro (diante de ) e fanum (espaço sagrado). 2. os seus poderes e virtudes. sendo apontada como banal e vista inferior em relação à sagrada (Profano. Todas as religiões assentam no pressuposto de que existem duas dimensões do real: a sagrada e a profana. na qual se anula na sua individualidade. deuses. que se descobre num mundo que não criou e cujo sentido desconhece. A profana identifica -se com o mundo em que vivemos. As crenças são representações sobre o sagrado elaborad as de forma mais ou menos complexa. anjos. etc. limitado. algo que não é do domínio da razão. Em cada religião o transcendente expressa -se sob diversas formas e assume diversas figuras: Deus. Cada religião privilegia certas formas de contacto com o sagrado em detrimento de outras. 3. Entre as crenças associadas ao aparecimento de manifestações religiosas podemos destacar as seguintes: . A experiência religiosa está igualmente associada a vivências particulares.Transcendente Cada experiência religiosa apresenta -se como uma ligação profunda e envolvente do homem com o sagrado. divina e dotada de poderes superiores aos humanos. Procurar uma explicação racional para a maioria das crenças revela -se quase sempre uma tarefa em vão. em geral codificada sobre a forma de um conjunto de ensinamentos doutrinais. que despertam os homens para outras dimensões da realidade. suscitando no homem respeito. A sagrada define-se por oposição à profana. espíritos.

isto é. A crença numa ordem e justiça sobre -humana. transcendendo a sua condição profana. Estes seres que manifestam a sua vontade e designios no mundo em que vivemos. são assumidos como absolutos. . mas também esperar uma espécie de recompensa após a morte do seu corpo. Estes ritos devem ser executados com grande rigor. Ritos Os ritos são um conjunto de práticas simbólicas através das quais o Homem entra em contacto com o sagrado. caso contrário daí poderão advir funestas consequências. Os ritos evocam quase sempre acontecimentos sobrenaturais ligados à origem do mundo ou da própria religião. Repetem-se os mesmos gestos ou pronunciam-se as mesmas palavras que em tempos imemoriais uma personagem divina realizou. O mundo em que vivemos é encarado como uma mera ilusão.A crença na existência de forças superiores a o Homem. etc. . 5. também os sentimentos de pertença dos seus membros É em torno destas crenças e ritos que se estruturam as diversas comunidades de crentes. não compostos. transcendentes. incondicionados. Esta crença permite ao Homem suportar não apenas o sofrimento e as injustiças que experimenta no seu quotidiano. assumem os mesmos modelos de vida e evitam praticar aquilo que a religião condena. que ao praticá-los não apenas reforça a sua unidade. A salvação individual ou colectiva está dependente do cumprimento da lei divina. a cujo poder este estaria submetido.. Sozinhos ou em grupo constituem uma outra dimensão da realidade. os seus membros partilham as mesmas normas de conduta. divinos. 4. omniscientes. Os rituais são testemunhos públicos das crenças de uma dada comunidade. A sua repetição é vivida como uma actualização desses acontecimentos memoráveis. sonho. acabando por diferenciá -las entre si em termos culturais e sociais. Moral Religiosa As comunidades religiosas são igualmente comunidades morais. sendo frequentemente considerada como a única que é verdadeira.

primeiro é necessário responder. . num momento ou noutro. ou obrigam.. Essa verdade não valia a fogueira. a Terra ou o Sol. Julgo pois que o sentido da vida é o mais premente dos assuntos das interrogações. se o espírito tem nove ou doze categorias. que possuía uma verdade científica importante. logo que tal verdade pôs a sua vida em perigo. ao contemplar uma flor ou ao reflectir sobre si próprio e os outros seres humanos. Em contrapartida. Há mesmo quem. é-nos profundamente indiferente. ao olhar um céu nocturno. Fez bem. vejo que muitas pessoas morrem por considerarem que a vida não merece ser vivida. é um assunto fútil. São apenas jogos. é responder a uma questão fundamental da filosofia. Outros vejo que se fazem paradoxalmente matar pelas ideias ou pelas ilusões que lhes dão uma razão de viver (o que se chama uma razão de viver é ao mesmo tempo uma excelente razão de morrer). se o mundo tem três dimensões..) Se pergunto a mim próprio como decidir se determinada interrogação é mais premente do que outra qualquer. (. Julgar se a vida merece ou não ser vivida. como Albert Camus. Qual deles. Galileu.O problema do sentido da existência Quem é que. O resto. vem depois. A bem dizer. gira em redor do outro. concluo que a resposta depende das acções a que elas incitam. dela abjurou com a maior das facilidades deste mundo. vá ao ponto de afirmar que estas são as únicas questões verdadeiramente importantes: Só há um problema filosófico verdadeiramente sério: é o suicídio. não se interrogou já acerca da razão de ser disto tudo ou não se perguntou por que razão está aqui e como deve viver para que a sua vida tenha sentido? Estas são questões que têm intrigado os homens desde tempos imemoriais e são certamente algumas das perguntas mais importantes que o ser humano pode colocar sobre si próprio. em certo sentido. Nunca vi ninguém morrer pelo argumento ontológico.

não tem qualquer significado e estas escolas filosóficas têm toda a razão ao recusarem dizer que a vida tem sentido. no entanto. com a missão de entregar uma mensagem de saudações. para uma galáxia distante. como dizia Aristóteles. ao mesmo tempo que sacia a nossa curiosidade. Se entendermos que a palavra «sentido» quer dizer isto. na Pequena Nuvem de Magalhães. Por conseguinte.Albert Camus. claro. Do ponto de vista dessas escolas. No livro As Sereias de Titã. Quando nos capítulos iniciais aprendeste a distinguir frases declarativas com sentido (que expressam proposições) de frases declarativas sem sentido ou absurdas (que não expressam proposições). E. Se. perguntarmos qual o sentido da vida humana. a questão é tudo menos clara. No entanto. Usemos um exemplo para tornar claro este ponto. entendem a palavra «sentido» no sentido de «significado linguístico». É o caso do positivismo lógico[3] e da escola da linguagem comum[4]. do seu desejo natural de saber. respectivamente. apenas as palavras e as frases têm sentido. Como a vida não é nem uma coisa nem outra. ter qualquer sentido e. a palavra «sentido» nesses casos estava a ser utilizada com o sentido de «significado linguístico». segundo elas. dizer que a vida tem sentido é incoerente. o que se quer exactamente dizer com isso? O que significa a expressão «sentido da existência»?[2] Algumas escolas filosóficas recusam-se a aceitar que se possa dizer que a existência tem sentido. Quando se pergunta qual o sentido da existência. narra como a história humana foi manipulada de modo a tornar os seres humanos capazes de fabricar uma pequena peça de metal para uma nave espacial que se dirige do planeta Tralfamadore. a maneira como cada um. que se desenvolveram na primeira metade do século XX em Viena e Oxford. Francisco Xavier empreendido a evangelização do Oriente se soubesse que Deus não existe ou. como é óbvio. aumenta o nosso deslumbramento. a palavra sentido não tem apenas o significado de «significado linguístico». um escritor americano de ficção científica. Somos seres inteligentes num universo que nos deixa constantemente perplexos e no qual cada nova descoberta. de forma mais ou menos consciente. então a vida. É natural. apesar deste grande interesse. que queiramos saber o que é o universo e que papel ² se é que algum ² nos está nele reservado. 13-14 Parte deste interesse pela questão do sentido da vida parece ser intelectual e resultar da curiosidade própria do ser humano. não tem qualquer propósito para o universo e para homem? É difícil imaginar que a resposta a estas questões fosse em ambos os casos afirmativa. portanto. e que se avariou ao passar pelo Sistema Solar. como quando perguntamos qual o sentido de uma frase ou dizemos que uma frase não tem sentido. Num caso estamos a perguntar qual o significado da frase e no outro a afirmar que ela não tem significado. ela não pode. O Mito de Sísifo. portanto. pp. Teriam Hitler ou Estaline mandado matar milhões de pessoas se soubessem que Deus tem um propósito para nós que requer um comportamento moral exemplar? E teria S. Estas escolas. Mas uma parte substancial do interesse resulta também da sua grande importância para a forma como vivemos a nossa vida. se existe. Kurt Vonnegut. a resposta terá forçosamente de ser «fabricar uma peça para permitir entregar . tendo a história de Vonnegut por referência. responde a esta questão determina o modo como encara a vida e influencia as decisões que toma.

colecciona pêlos púbicos de jovens donzelas. finalidade ou desígnio. Coleccionar pêlos púbicos pode fornecer uma finalidade à vida. parece não ser verdade. algo que lhe dê valor e que a faça merecer a pena ser vivida. pelo menos em certos contextos. Se fosse. que seja de alguma forma importante. olhando para o passado e perguntando a ti mesmo se a tua vida teve sentido (ou. então. como. visto que esse objectivo não tem ele próprio qualquer valor. então a tua vida teve sentido. dado o estado actual do mundo. pelo contrário. querer dizer propósito. Se a tua resposta a estas perguntas for em ambos os casos afirmativa. Recordações da Casa Amarela. É mesmo com este sentido. No filme de João César Monteiro. mesmo que isso torne a pessoa que o faz imensamente feliz. o personagem principal. mas. João de Deus. se preferires. Talvez a melhor forma de entenderes isto seja imaginares-te no fim da vida. É também necessário que esse propósito tenha valor. Perguntar. Nesta acepção. É impossível não ter a impressão de que se a finalidade da vida humana é produzir uma peça insignificante para permitir levar uma mensagem. mas é também evidente que não tem qualquer valor. mas de saber qual o objectivo da vida. Já não se trata de dizer que a vida tem significado. Isto sugere que para que a vida tenha sentido não basta que tenha um propósito ou finalidade. imaginares-te agora a perguntares a ti mesmo como deves viver a tua vida para que.uma mensagem numa galáxia distante». por exemplo. perguntamos «Qual o sentido de fazer sofrer um animal indefeso?». inalcançável. no entanto. Alguns pensadores afirmam que para que a vida tenha sentido é não apenas necessário que tenha um objectivo com valor como que esse objectivo possa ser alcançado. a pergunta está longe de não ter sentido e de ser incoerente. Procuramos também uma justificação para a nossa existência. possas dizer que ela teve sentido). Chegarás facilmente à conclusão de que há apenas duas coisas que interessam para responder a essa questão: 1) saber se a tua vida teve um ou mais objectivos. Isto. nenhuma das tuas respostas ou se apenas uma foi afirmativa. ao tentar atingir esse objectivo. A razão está em que quando nos interrogamos acerca do sentido da vida não queremos apenas saber qual o objectivo que ela pode ter. Além . como quando. essa pessoa tivesse contribuído de forma significativa para que os animais fossem melhor tratados. por exemplo. mesmo que. Por conseguinte. mas é difícil imaginar que possa fazer com que mereça a pena vivê-la. então a tua vida não teve sentido. e 2) saber se esse objectivo ou objectivos têm valor. não teria sentido. às portas da morte. Se. acabar com a exploração dos animais pelo homem. A história de Vonnegut contém ainda uma outra implicação. uma vez velhinho. qual o sentido da vida implica perguntar como devemos viver para que a nossa vida mereça a pena ser vivida. a pergunta sobre o sentido da vida pode também significar «Qual o propósito ou a finalidade da vida?». Esta resposta sugere que a palavra «sentido». já muito idoso. além de ter o significado que acabámos de ver. É evidente que a sua vida tem um objectivo. a vida de alguém que se dedicasse a um objectivo inquestionavelmente meritório. uma vez que o resultado é o mesmo. que a expressão «sentido da existência» é geralmente usada quando se fala do problema do sentido da vida. com o sentido de «objectivo» ou «finalidade». também pode. no sentido que o termo tem em linguística. a uma galáxia longínqua. a vida tem pouco que a faça merecer ser vivida. também ela insignificante.

porque era precisamente o acto de construir. portanto. 174 Este ponto de vista também não parece correcto. tenha objectivos e faça alguma coisa para os atingir). Actividades 1. o comportamento das pessoas parece constantemente mostrar que acreditam que são os objectivos que dão sentido à sua vida e não os processos pelos quais os alcançam. quer a ideia de que a vida tem sentido apenas quando alcançamos os nossos objectivos quer a ideia de que aquilo que dá sentido à vida é o que fazemos para atingir os nossos objectivos parecem estar erradas. The Meaning of Life. finalidades ou objectivos e que esse objectivo ou esses objectivos tenham valor. portanto. No entanto.» Richard Taylor. dado que a esmagadora maioria dos homens não consegue atingir os seus objectivos. a saber. se só aqueles que atingissem o seu objectivo pudessem ter uma vida com sentido.. as coisas não lhes pareceram assim na altura. A primeira porque implica que apenas um número muito limitado de pessoas tenha uma vida com sentido. nesse caso. Assim. que dava sentido à sua vida. Para que a vida tenha sentido. evidentemente. é suficiente que tenha uma finalidade? Justifica. ³The Meaning of Life´ in Klemke. a vida de praticamente toda e qualquer pessoa teria. e não o que acabou por ser construído. uma vez que viola duas fortes intuições dos seres humanos. «Se os construtores de uma grande e florescente civilização antiga pudessem de algum modo ver agora os arqueólogos desenterrar os insignificantes vestígios do que outrora realizaram com grande esforço ² ver os fragmentos de potes e vasos. D. se era naquilo que tudo se tinha transformado. . poderiam na verdade perguntar a si próprios qual o propósito de tudo isso. que a vida tenha um ou mais propósitos. se fossem os processos por intermédio dos quais atingimos os objectivos das nossas vidas que lhes dão sentido. Podemos. Outros pensadores têm uma perspectiva inversa e afirmam que não é o objectivo que dá sentido à vida. Por que razão algumas escolas filosóficas afirmam que a vida não pode ter sentido? 3. umas quantas estátuas partidas. então ter uma vida com sentido consistiria simplesmente em viver a vida e. o número das pessoas com uma existência com sentido seria certamente muito reduzido. e a segunda porque implica que toda a gente tem uma vida com sentido (desde que. A verdade deve estar algures no meio. mas o processo pelo qual se procura alcançar esse objectivo. Não deve ser preciso ser santo para ter uma vida com sentido e não se pode ser serial killer e ter uma vida com sentido.disso. e outros sinais de uma outra época e grandeza ². Em primeiro lugar. há apenas duas condições que são necessárias e suficientes para que a vida tenha sentido. 2. Em segundo lugar. E. Explica as razões do interesse pelo problema do sentido da existência. p. concluir que o objectivo poder ser alcançado não é uma condição para que a vida tenha sentido. sentido. Assim.

. bem entendido. Uma tradição imensamente influente é a da teoria dos mandamentos divinos. têm uma vida com sentido. o problema está precisamente aqui. Estes filósofos. Deste ponto de vista. nem sequer porque a maioria das pessoas pensa desse modo. fornecendo conforto espiritual a muitos milhões de pessoas. Indica as condições necessárias e suficientes para que a vida mereça a pena ser vivida. com o seu cortejo de cadáveres. estão em desacordo quanto à origem da objectividade dos valores. o único ponto de vista objectivo é o de Deus e. mas porque Deus o determinou. 5. Ora. pelo que não vamos voltar aqui a esse tema. Convém. até João de Deus. Tudo o que precisamos fazer é determinar qual o objectivo ou os objectivos que têm valor e dedicar a nossa vida à sua realização. Como só Deus é sumamente bom e omnisciente. portanto. Dado que a mensagem cristã tem sido de enorme importância nos últimos dois milénios. com a sua colecção de pêlos púbicos. portanto. ou um serial killer. no entanto. há os filósofos que pensam que existem valores objectivos. tem de derivar de Deus.4. Explica por que razão as ideias de que a vida tem sentido apenas quando alcançamos os nossos objectivos e de que aquilo que dá sentido à vida é o que fazemos para atingir os nossos objectivos estão erradas. o objectivo da nossa existência. Assim. parece que afinal o problema do sentido da vida é de fácil resolução. isso constitua para eles um objectivo a que dêem valor. De acordo com essa tradição. desde que. estão longe de concordar quanto a qual ou quais os objectivos que têm valor. Isto é válido tanto para as nossas acções como para os nossos objectivos: é o ponto de vista absoluto de Deus que determina quais os objectivos com valor. Matar alguém sem qualquer razão é errado ou combater a fome no mundo é correcto. Por um lado. qualquer que ele seja. temos de estudar esta resposta com detalhe e procurar determinar se constitui uma resposta efectiva ou uma resposta ilusória à questão do sentido da existência. pelo menos em parte. Os defensores destas ideias em geral pensam também que Deus estabeleceu efectivamente qual é a finalidade para a existência humana e a comunicou aos homens por intermédio da Bíblia e de outras formas de revelação. porque tem de ter valor e Deus é a origem de todo o valor. Por outro lado. é Deus que determina o que tem ou não tem valor. que tenhamos em conta as implicações dos diferentes pontos de vista sobre os valores para a questão do sentido da vida. Já estudámos anteriormente a questão dos critérios de valor. dá sentido à sua vida. só Deus sabe o que objectivamente tem valor. há os filósofos que julgam que os valores são subjectivos e que qualquer objectivo a que uma pessoa atribua valor tem valor para essa pessoa e. no entanto. dos seus pontos de vista sobre os valores. A resposta religiosa Chegados a este ponto. Embora os filósofos estejam em geral de acordo em que uma vida para ter sentido tem de ter um ou vários objectivos com valor. não porque alguém julga que isso é assim. Isso resulta.

² são igualmente necessários para que o homem seja feliz e. Em princípio. essa felicidade não pode ser plenamente alcançada nesta vida. devido ao facto de a vida terrena ser limitada e incompleta. A finalidade da vida humana é a felicidade. é dilacerado por muitos impulsos.A ideia fundamental da resposta religiosa é a de que é Deus que dá sentido à existência. . só aqueles que se dedicam exclusivamente à via espiritual possam ser felizes. só os santos. Isto não significa que. na qual a prática do bem e a adoração a Deus têm um papel essencial. mas só aqueles que fizerem da imitação de Jesus Cristo um objectivo da sua vida e a dedicarem à oração e à prática da virtude. muitos deles mundanos e imediatos. Qual é a resposta religiosa para o problema do sentido da existência? 3. Porque quem vive para os bens terrenos está prisioneiro dos seus desejos. O Cristianismo não rejeita a santidade ² há mesmo várias ordens religiosas católicas que a têm como regra de vida ². dedicada à obtenção e fruição de bem exteriores. este objectivo está ao alcance de todos os homens. sem que a espiritualidade e a moralidade tenham aí qualquer papel. por essa razão. O que eles recusam é que a felicidade nesta vida possa consistir apenas na fruição desses tipos de bens. pode ter uma existência com sentido. Ela só pode ser alcançada numa vida depois desta vida. Assim. incluem-nos na sua concepção de vida. Argumentos a favor da resposta religiosa Que razões têm os cristãos para pensar que a vida com valor é a vida religiosa? Em primeiro lugar. e. de conduzir à felicidade e dar sentido à vida. E isto por várias razões: 1. Para poder alcançá-la. o homem tem de viver neste mundo uma vida moral e religiosa plena. uma vez que Deus os fez à sua imagem e semelhança. riqueza. estão condenados à infelicidade eterna no Inferno. A felicidade é precisamente esta comunhão eterna com Deus. pelo que o Cristão. etc. «(« ) o objectivo da nossa existência. qualquer que ele seja. amigos. embora o objectivo último da vida só possa ser encontrado numa vida para além desta. esse objectivo projecta-se nesta vida e dá-lhe significado e valor. Uma perspectiva subjectivista a respeito dos valores. permite responder satisfatoriamente ao problema do sentido da vida? Porquê? 2. A felicidade eterna. não é livre nem pode ter paz. em que a alma imortal vive eternamente no reino de Deus. porque tem de ter valor e é Deus a origem de todo o valor. claro. mas também não faz dela a única condição necessária para ser feliz. poderão aspirar à vida eterna. Os outros. para o Cristianismo.» Concordas? Justifica. tem de derivar de Deus. de uma maneira geral. a incapacidade da forma de vida alternativa. não é algo a que se possa aspirar sem contrapartidas. Actividades 1. Muitos cristãos admitem que alguns bens terrenos ² saúde. bons livros e boa música. mesmo neste mundo. mas. portanto.

é indiferente. nada do que façamos tem um sentido último. nada tem valor. pois. sem olhar a deveres ou a consequências. é preciso também que Deus exista. etc. não há padrões objectivos de certo e errado. Mas não basta que a alma seja imortal para que a vida humana tenha sentido. o que quer que façamos não fará qualquer diferença. tudo o que façamos tem apenas um sentido relativo. Se Deus não existe. têm também somente um sentido relativo e. Ele pensa que se Deus não existir e se a alma humana não for imortal. Por um lado. portanto. 4. Tanto faz que sejamos como Estaline ou a Madre Teresa de Calcutá. Se o sentido da vida estivesse nestes tipos de felicidade.2. ou subprodutos da evolução socio-biológica e da cultura. nem a nossa vida nem a totalidade do universo. se as pessoas deixam de existir quando morrem. Por conseguinte. Além disso. Se a alma não é imortal. muitas pessoas que tiveram fé e que depois a perderam ou que têm apenas uma fé superficial («Eu sou católico não praticante». meios para outros fins. pelo que a sua felicidade pode a qualquer momento transformar-se em infelicidade. têm qualquer sentido. não tem nem pode aceder. porque se a alma não for imortal. Porque as concepções de felicidade que se baseiam neste tipo de bens pressupõem um estatuto privilegiado para aquele que é feliz. Esta ideia tem defensores tanto entre os apoiantes da resposta religiosa como entre uma parte dos seus opositores. elas próprias. então nada do que façamos ² todas aquelas pequenas coisas com que preenchemos o nosso dia-a-dia e as grandes coisas que podemos eventualmente fazer ² tem qualquer sentido. Em segundo lugar. é impossível condenar mesmo os actos . a vida humana não tem qualquer sentido. E se nada tem sentido último. 3. o que devemos fazer é agir exclusivamente de acordo com os nossos interesses. e são relativos. porque se Deus não existir e a alma não for imortal.). Sem Deus. por múltiplas razões. nada tem sentido. O mero facto de viver para sempre não dá sentido à existência. não são bens últimos. o resultado é o mesmo. então a maior parte dos seres humanos não teria qualquer possibilidade de ser feliz. Portanto. se a alma não é imortal. valor ou propósito. se Deus não existir e a alma não for imortal. bens instrumentais. isto é. E se não existem valores. Mas talvez a razão mais importante a favor da vida religiosa é a de que só Deus e a imortalidade podem dar sentido à existência humana. na melhor das hipóteses. se Deus não existe. Se tudo acaba na sepultura. cujo valor depende daquilo para que servem e que podem ser bem ou mal usados. mesmo que seja uma vida imortal. Em primeiro lugar. Porque quem procura a felicidade nos bens externos procura-a em coisas de natureza precária. é apenas um meio para outras coisas que. agem exactamente deste modo. que a maior parte dos seres humanos. Entre os apoiantes da resposta religiosa. Porque os bens externos não têm valor em si mesmos. uma vez que dependem de capacidades e de circunstâncias excepcionais. nada. a nossa vida. William Lane Craig é talvez quem na actualidade apresenta a melhor defesa desta tese. Na verdade. os valores morais ou são a expressão do gosto pessoal. sobre as quais não tem qualquer domínio. é apenas uma vida infinita sem qualquer sentido. no fim. como se tornará mais claro na próxima secção. e são subjectivos. são.

³The Absurdity of Life Without God´ in Klemke. Não um sentido. Aqui tudo se passa como se Craig perguntasse «O que é necessário para que o homem seja feliz?» e respondesse que é necessário que a . nada do que fizermos tem sentido. podemos ser felizes. nada tem um propósito. Como William Craig diz: De acordo com a visão cristã do mundo. O Cristianismo Bíblico. se a vida tem sentido. no fim de contas. do acaso e do tempo. portanto. Para que o homem seja feliz. Kant pergunta o que é necessário que um homem acredite para que aja moralmente. A sua resposta é os postulados da razão prática: livrearbítrio. podemos viver de forma consistente e feliz. fornece as duas condições necessárias para uma vida humana com sentido. sem Deus essa vida não tem qualquer propósito. essa vida não tem qualquer objectivo e é inútil e nem o universo nem o homem têm qualquer objectivo ou propósito. No corpo ressuscitado o homem pode fruir de vida eterna e da companhia de Deus. valor e propósito. 53 Willaim Craig sabe que não provou que a resposta religiosa ao problema do sentido da vida é verdadeira e que tudo o que fez foi apresentar as alternativas ² a resposta não religiosa e a religiosa ² e mostrar por que razões a segunda é preferível à primeira. só Deus pode garantir um sentido. Este argumento tem estranhas semelhanças com o argumento moral de Kant. D. se Deus e a alma não for imortal. o seguinte: Primeira premissa: Ou Deus não existe e a vida é fútil ou Deus existe e a vida tem sentido. Mas qual o problema de a vida e o universo serem absurdos? O problema é que se a vida e o universo são absurdos. porque nesse caso o universo é apenas o resultado do acaso. The Meaning of Life. Mas mesmo que a vida humana seja imortal. tanto a vida como o universo têm de ter sentido. Ora. de um acidente cósmico. que vive uma vida ela própria sem propósito. sem nenhuma razão para que tenha ocorrido. Num universo sem Deus. o bem e o mal não existem. E o mesmo é verdade do homem. O seu argumento é. No argumento moral. William Lane Craig. no essencial.mais hediondos. se Deus não existe e a alma não é imortal. valor e propósito objectivos. imortalidade da alma e Deus. valor e propósito. Deus existe e a vida humana não acaba no túmulo. Conclusão: Portanto. p. E. se a vida acaba com a morte. mas um sentido. é racional pensar que Deus existe. valor e propósito objectivos. Existe apenas o facto da existência sem ninguém que diga o que está certo e errado. Daí a superioridade da resposta religiosa. equivalem à ausência de sentido. uma aberração da natureza num universo sem propósito. um mero produto da matéria. Em resumo. É fácil perceber que este argumento não prova a conclusão. Porque. Devido a isto. Em terceiro lugar. Segunda premissa: Ora. valor e propósito subjectivos ou relativos. uma vez que não é possível deduzi-la das premissas. o homem não pode ser feliz. porque esses. valor ou propósito e tanto o universo como a vida humana são absurdos. valor e propósito: Deus e a imortalidade.

também o argumento de William Craig não prova que Deus exista e a alma seja imortal. isto é. Ora. e Lane Craig sabe-o. da mesma maneira que o argumento moral de Kant ² como o próprio Kant sabia ² não prova que o homem tenha livre-arbítrio. que a alma seja imortal e que Deus exista.vida tenha sentido. Contudo. Mas será que é? . isso é razão suficiente para postular que a alma é imortal e que Deus existe. dado que essa é a única forma de o homem ser feliz. isto é. nem que a alma seja imortal ou que Deus exista. ele pensa que dadas as circunstâncias.

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