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PSICOLOGIA CIÊNCIA E PROFISSÃO, 2004, 24 (1), 74-81

Psicoterapia Psicanalítica e
Acompanhamento Terapêutico:
uma Aliança de Trabalho
Psychoanalytical psychotherapy and therapeutical accompaniment: a partnership

Resumo: O objetivo do artigo é refletir sobre a possibilidade de formação de uma aliança de trabalho entre
psicoterapia psicanalítica e outras práticas psicoterápicas no atendimento a pacientes com psicopatologias
Helga graves. Apresentamos o caso clínico de um adolescente borderline que, em função do surto psicótico, tem
de Souza seu tratamento reformulado, passando a contar com um acompanhante terapêutico. A aliança de trabalho
Machado formada busca envidar esforços clínicos na mesma direção: a promoção da qualidade de vida mental e
Quagliatto social do paciente. Por fim, desenvolvemos algumas considerações sobre os ganhos psicoterapêuticos de
uma postura inovadora e interdisciplinar, bem como sobre as particularidades de cada atendimento
clínico.
Psicóloga clínica, Palavras-Chave: Psicoterapia, acompanhamento terapêutico, psicopatologia, Psicanálise.
Mestre em Educação –
Magistério Superior pelo Abstract:The purpose of this paper is to take into account the possibility of developing a work partnership
Centro Universitário do between psychoanalytical psychotherapy and other psychotherapeutical procedures, aiming at the treatment
Triângulo (UNIT), diretora
of patients suffering from serious psychopathologies. A borderline teenager patient is presented as a case, in
de estudos do CEEPU
(Centro de Estudos e which a psychotic episode has led to a reformulation of the treatment, including therapeutic
Eventos Psicanalíticos accompaniment. The goal of this partnership is to combine clinical efforts that can bring more quality to the
de Uberlândia). patient’s mental and social life. Finally, we focus on the psychotherapeutical benefits resulting from an
innovative, interdisciplinary approach and some particularities of the clinical case.
Key Words: Psychotherapy, therapeutical accompaniment, psychopathologie,Psychoanalysis.
Ricardo
Gomides Santos

Psicólogo clínico,
acompanhante
terapêutico e
mestrando em
Psicologia Social pela
Universidade de São

Leonardo da Vinci
Paulo (USP).

Ao analisar o desenvolvimento da Psicanálise para internalizadas e, contemporaneamente, a interação


conceber e particularizar um método de entre distintas ciências e modalidades terapêuticas
investigação da psique humana, uma teoria sobre no atendimento a esses pacientes.
o seu funcionamento e uma técnica terapêutica, é
possível observar um aprimoramento clínico
Em nosso trabalho, iremos abordar, para um
relacionado ao atendimento e à compreensão das
psicopatologias graves. diálogo reflexivo, uma dessas possibilidades de
aliança, ou seja, a relação entre psicoterapia
Tal aprimoramento é fruto de décadas de trabalho, psicanalítica e acompanhamento terapêutico,
no qual se destaca, inicialmente, a valorização de como resultado de uma intervenção clínica
74 Klein (1982) ao desenvolvimento emocional organizada para auxiliar-nos em uma situação
primitivo, com ênfase nas relações objetais específica: a irrupção de um surto psicótico.
Psicoterapia Psicanalítica e Acompanhamento Terapêutico: uma Aliança de Trabalho

O Manejo Clínico de Acreditamos que, no atendimento clínico aos


portadores de psicopatologias graves, tal processo
Pacientes com Patologias Graves passa pelo que Cassorla (1998) denominou
“impasse necessário”. Para esse autor, mesmo a
Várias contribuições geraram modificação no relação transferencial sendo estabelecida e
manejo da técnica psicoterápica de determinados interpretada, e por melhor que a psicoterapia seja
pacientes, em especial aqueles caracterizados por conduzida, haveria momentos em que o processo
Zimerman (1998) como portadores de patologias sofreria um impasse em função da violência e do
graves:” psicóticos, borderlines, transtornos uso de identificações projetivas maciças que
narcisistas, perversos, drogaditos, psicopatas, dificultam o pensar analítico. Esses momentos
melancólicos crônicos, pacientes impulsivos, os ocorreriam em todas as relações com tais pacientes,
marcadamente psicossomatizadores e os casos de caracterizando, então, como necessário, o impasse
neuroses que abrigam fortes e ativos núcleos surgido nessa modalidade clínica.
psicóticos “( p. 747).
A dificuldade no atendimento também foi
Os trabalhos desenvolvidos, especificamente com abordada por Winnicott (1982) quando destaca
psicóticos, demandaram a formulação de que, na relação analítica com pacientes psicóticos,
proposições teóricas capazes de lançar luzes sobre intervém a presença constante de um ódio
suas características de funcionamento mental, contratransferencial: “... ainda que o analista ame
angústias, fantasias inconscientes e mecanismos de seus pacientes, ele não pode evitar odiá-los e temê-
defesa, bem como sobre as peculiaridades do los e, quanto melhor ele souber disto, menos o
vínculo transferencial estabelecido. ódio e o temor determinarão suas ações sobre os
pacientes” (p. 342).
Tornou-se também importante o aprimoramento
da capacidade diagnóstica dos profissionais, pois O entendimento da dinâmica transferencial e
tal procedimento passou a ser vislumbrado, em contratransferencial, própria a esses casos, é um
Psicanálise, como a possibilidade de se estabelecer esteio fundamental na tolerância aos ataques feitos
uma primeira compreensão a respeito da estrutura ao vínculo e à pessoa real do psicoterapeuta, ainda
psíquica da pessoa entrevistada, não estando mais que isso possa levar a dupla a ingressar em um
o diagnóstico restrito à classificação nosográfica “impasse necessário” na medida em que este puder
das doenças mentais. ser visto como uma oportunidade de revitalização
dos potenciais de ambos para continuar
Hermann (1993) declara que o nosso objetivo não empreendendo a psicoterapia.
é fazer um diagnóstico psiquiátrico,
Sendo assim, o “impasse necessário” pode levar a
“... mesmo porque a maior parte das pessoas que uma interrupção da relação psicoterapêutica com
nos procuram, felizmente, não se enquadra em duração possível de minutos a meses, pois,
nenhum deles, sequer são neuróticos estruturados. segundo Cassorla (1998): “... a Psicanálise pode
Basta não deixar de fazê-lo quando este se impõe. não ser suficiente para controlar a explosão
No mais, contentamo-nos com o diagnóstico psicótica” (p. 730) e ainda obriga os profissionais a
transferencial. Cuidado, porém. O diagnóstico “... rever os procedimentos estandardizados da
transferencial deve pôr em evidência a absoluta Psicanálise, quando são compreendidos de forma
especificidade da vida do paciente, seu sentido rígida” (p. 724).
vivo” (p.57).
Diante do surto e do ingresso no “impasse
Sendo assim, deparamo-nos com uma amplitude necessário”, Cassorla (1998) propõe ainda uma
de variáveis presentes na avaliação e caracterização postura de maior autonomia por parte do
do que se conhece por pacientes com psicoterapeuta, que “... deve sentir-se livre para
psicopatologias graves e, dependendo dos critérios usar qualquer procedimento (mesmo não 1 Os critérios citados podem
1
adotados pelo profissional , diferentes ser os da psicopatologia
analítico), se sua experiência mostrar que isso lhe clássica, com o exame das
particularidades serão observadas no processo de é útil, mas ele deve saber nomear e conceituar o funções psíquicas, ou os da
formação do diagnóstico e prognóstico clínico, o que está fazendo”( p. 732). Psicanálise, com a observação
que levará à adoção de posturas técnicas da relação transferencial
estabelecida e das defesas
diferenciadas. Se a relação transferencial permite a formulação psíquicas postas em ação pelo
de um diagnóstico que é a apreensão viva do modo paciente.
A paulatina descoberta da “especificidade da vida” como cada pessoa se singularizou, tal como nos
do paciente deve ser acompanhada da atenção a diz Herrmann (1993), a postura humilde, criativa
uma série de fatores que dizem respeito às e metodologicamente orientada do psicoterapeuta
possibilidades do vínculo em formação vir a efetivar, possibilita o desenvolvimento de formas também 75
de fato, um processo psicoterapêutico. singulares de atendimento às demandas de seus
Helga de Souza Machado Quagliatto & Ricardo Gomides Santos

pacientes, o que é especialmente necessário e até que gera intenso sofrimento. A expressão da
mesmo exigido quando tais pacientes sofrem de violência torna-se uma forma de livrar-se dos
patologias graves. Tal especificidade explica-se pelo objetos internos maus e persecutórios, levando o
visto até agora: as características do vínculo paciente a atuações com vista à evacuação das
transferencial no qual se impõem sentimentos de intensas angústias, sentidas como angústias de
ódio, ataques à relação e o ingresso no “impasse aniquilamento: seja de sua condição mental, seja
necessário”. de seu próprio corpo.

Uma das possibilidades técnicas de intervenção, Enquanto o psicoterapeuta tem possibilidade de


com a finalidade de superar o impasse necessário, acompanhar, observar e investigar as oscilações e
provendo os cuidados essenciais à saúde mental os fenômenos mentais advindos da personalidade
e, muitas vezes, saúde física do paciente, poderia psicótica, é possível tocar em um universo na
ser a formação de parcerias com outros ramos do presença do outro, tendo a transferência e a
saber e com outras modalidades de trabalho. contratransferência como aliados.
Para ilustrar tais idéias, apresentaremos o caso
Entretanto, ocorrem momentos em que um desses
clínico de um adolescente borderline, em que a
universos se apossa da personalidade do indivíduo,
irrupção de um surto psicótico suscitou a vivência
seja por fatores externos, em comunhão com
de um impasse no trabalho, uma vez que os
fatores internos, conhecidos ou desconhecidos,
intensos ataques ao vínculo transferencial
processo esse que pode estar ou não vinculado à
demandaram a reformulação técnica de seu
psicoterapia. Nessas circunstâncias, a conjunção
tratamento.
de fatores externos e internos mediados pela parte
psicótica da personalidade pode levar o paciente
Discussão clínica a se defrontar com situações mobilizadoras de
intensa ansiedade, levando-o a sentir-se ameaçado
Antes de passarmos diretamente à apresentação em sua integridade física e mental. Nesses
clínica do caso, faremos uma breve explanação momentos, irrompe a “crise psicótica” e a vida real
teórica sobre o ingresso de um paciente em um fica em perigo, pois um universo não mais protege
estado de crise psicótica, caracterizando as o outro.
peculiaridades de seu acompanhamento.
Renato é um jovem que, na ocasião, estava em
Estar com um paciente em estado psicótico é
psicoterapia há cerca de 01 ano e apresentava
acompanhar uma relativa adaptação ao mundo
externo, pois entramos em contato com um uma evolução no sentido de maior contato entre
universo de emoções e fantasias arcaicas que mundo interno e mundo externo. Durante um fim
oscilam da total fragilidade e dependência à de semana, dificuldades nas relações bipessoais e
extrema arrogância e triunfo. Nesse estado, é como triangulares colocaram Renato frente a situações
se esses dois universos não se reconhecessem, de humilhação, incompreensão, desproteção,
impedindo a integração do mundo mental e, acompanhadas de castigos. A autoridade
justamente por ser um estado, vale lembrar que o prevalecia por meio da violência e imposição
surto psicótico é passageiro e o paciente pode se rígidas. Não suportando a realidade por demais
recuperar. frustrante e não encontrando acolhimento para
suas angústias, tenta matar-se como forma de livrar-
Nesse estado, o paciente vive uma desorganização se dos maus objetos.
de suas funções egóicas, dentre as quais sua
capacidade de percepção da realidade, tanto O perigo posto à vida real do paciente demonstra
interna quanto externa. Nos dizeres de Bion
a falência de seus recursos mentais mínimos de
(1988), passam a ocorrer “ataques ao aparelho de
continência às ansiedades e ao sentimento de
pensar”, impedindo o sujeito, sob o domínio da
desamparo vividos no estado de crise. Esse terror
parte psicótica da personalidade, de entrar em 2
2 O terror sem nome é um conceito contato com uma realidade considerada sem nome ganha corpo por encontrar justamente
de Bion e diz respeito ... A fortes insuportável. Decorre desse ataque o ingresso do no próprio corpo a via expressiva da potência
angústias desconhecidas (pelo destrutiva que a mente do paciente não pode mais
menos, não ‘reconhecidas’ pelo paciente em um estado de confusão mental em
paciente) e que, se não forem que os vínculos interpessoais se esgarçam e as conter. Seja voltada para ele próprio (tentativas de
devidamente nomeadas, serão pessoas significativas, bem como os objetos da suicídio), seja voltada para os outros (figuras
atuadas. (Zimerman, 1999, p. realidade, passam a ser investidos de conteúdos depositárias de identificações projetivas), a crise
393).
fantasísticos geralmente de caráter persecutório e psicótica, com todo seu terror, ameaça e faz eclodir
ameaçador. a violência das fantasias persecutórias e de morte
próprias ao mundo mental do paciente, colocando
76 Podem surgir, então, comportamentos de violência em risco sua vida e a sobrevivência dos vínculos
direcionada às pessoas próximas e a ele mesmo, o interpessoais.
Psicoterapia Psicanalítica e Acompanhamento Terapêutico: uma Aliança de Trabalho

Nos seus espaços de convivência, Renato não tratamento. Nesses casos, diz-nos novamente
tolera nenhum tipo de frustração e as tentativas de Winnicott (1982), o psicoterapeuta funcionaria
eliminar os objetos persecutórios, internos e como a mãe de um bebê não nascido ou recém-
externos, passam a ser freqüentes. nascido. A importância da adoção dessa postura
justifica-se pelo fato de que, provavelmente, o
Na psicoterapia, o mesmo movimento é vivido na psicoterapeuta seria “... a primeira pessoa na vida
relação transferencial. Caso ocorresse uma do paciente a fornecer certas coisas que são
possibilidade de frustração, mesmo fantasiada, o essenciais no meio ambiente” (p. 347).
objetivo era destruir o objeto perseguidor de forma
sádica e violenta. O vínculo anterior também não
era mais reconhecido, gerando terríveis angústias
contratransferenciais.

Nesses momentos, é preciso recorrer a outras “Que se ele


possibilidades para que o psicoterapeuta não se conseguisse me
sinta sem recursos ou acorrentado pelo “não- machucar, ficaria
mundo”, pela “não-vida”, “não-tempo”, “não- ainda mais assustado
linguagem simbólica”. Um psiquiatra foi indicado e que dessa forma
e o mesmo ministrou uma medicação, na busca não poderíamos estar
desse reencontro. mais juntos...
retomaríamos
Os sentimentos contratransferenciais nas sessões
somente quando
eram de medo, dor, ódio, desamparo e solidão.
pudéssemos ficar sem
Os ataques verbais e emocionais eram contínuos,
nos machucarmos”.
mesmo com a medicação.

Em uma sessão, a situação se concretiza. Renato


chega ao consultório e, ao entrar, recusa-se a ir
para sua sala de costume, dirigindo-se à sala de
atendimento de adultos. Deita-se no divã,
paralisado. É então questionado sobre o que queria
na sala de adultos. Com o olhar transfigurado, Em seu estado de confusão mental, sem o
sudorese e intensa salivação, diz que irá fazer com reconhecimento do vínculo anteriormente 3 No atendimento a psicóticos,
há situações em que se torna
a psicoterapeuta o que os adultos fazem com ele e estabelecido, Renato vem à sessão transtornado necessário tentar promover o
parte para agredi-la fisicamente. Sua força era por seus objetos internos persecutórios e atua de manejo adequado dos pacientes
imensa, e, em meio ao medo e a um profundo modo destrutivo seu drama pessoal de violência e fora das sessões, criando o
suporte para a realização do
sentimento de desproteção e solidão, com a voz o desrespeito. A intensidade com que o ódio foi trabalho psicoterapêutico. Segal
mais firme e no tom o mais alto que fora possível sentido objetivamente pela psicoterapeuta e sua (1982) nos chama a atenção
dentro daquela condição, interrompeu-se o reação a ele permitiram a Renato reconhecer a para esse fato: “... o paciente
atendimento, dizendo-se-lhe mais ou menos o força e a violência de seus atos. A psicoterapeuta tem que viver entre as sessões e
pelo menos suas necessidades
seguinte, de acordo com o que a memória ainda reagiu como ele próprio não consegue, mínimas têm que ser
permite registrar: “Que se ele conseguisse me protegendo-se dos ataques feitos à sua condição satisfeitas” (p. 181).
machucar, ficaria ainda mais assustado e que dessa física e mental e, para além dessa reação, conseguiu
4 Esse termo é proposto por
forma não poderíamos estar mais juntos... dar-lhe a medida dos sentimentos que provocava: François Roustang (1987) e
retomaríamos somente quando pudéssemos ficar ódio, desamparo e medo. De uma maneira refere-se ao processo de
sem nos machucarmos”. Livrando as mãos com objetiva, em meio à sua confusão, Renato foi pego expropriação-lastração
dificuldade, foi aberta a porta da sala de espera, de surpresa com o reconhecimento de sua própria engendrado na inter-relação
entre uma das figuras
comunicando à pessoa que o conduzira à sessão violência e das conseqüências que esta poderia parentais e a criança. Por meio
que os atendimentos estavam suspensos por tempo trazer: ferir quem lhe é tão importante. desse processo, a figura parental
indeterminado. Ele olha e parece que o seu olhar expropriante se apropriaria dos
atos, palavras e até dos
se diferencia, algo se havia rompido. Naquele O colapso das funções egóicas mais desenvolvidas pensamentos das crianças,
momento, sente-se que nada mais poderia ser dito, e a irrupção do estado de crise psicótica torna-se a fazendo com que estas
palavras pareciam sofisticadas demais frente a expressão da violência contida no universo mental passassem a relacionar-se não
com produções e pensamentos
angústias tão intensas e primitivas. do paciente e permite ao psicoterapeuta considerar próprios, mas com as lastrações
Eram angústias de morte, de aniquilamento. suas atuações como uma forma de comunicação advindas da expropriação
primitiva capaz de manifestar, ainda que por vias ocorrida.

A familiaridade com seu próprio ódio faz com que destrutivas, os aspectos terroríficos de seu mundo
o psicoterapeuta seja capaz de conter o ódio de interno esparramados sobre a realidade via
seu paciente, sem atacá-lo ou esperar que ele identificação projetiva patológica. O uso maciço 77
reconheça o esforço dispendido em seu desse mecanismo de defesa termina por gerar o
Helga de Souza Machado Quagliatto & Ricardo Gomides Santos

que Bion (1988) denominou “objetos bizarros”, nunca mais vê-lo, pensamos em proteção, mas
que são os objetos com os quais o paciente também na solidão, no medo, na morte.
psicótico se relaciona nos momentos de crise e o Compreendemos que era assim que ele se sentia
impedem de reconhecer tanto os antigos vínculos frente aos objetos persecutórios reais e imaginados.
pessoais quanto seus ambientes de vida. Aspectos contratransferenciais de ódio norteavam
os pensamentos relacionados ao vínculo
Com a postura de autoridade e a imposição firme psicoterapêutico tão violentamente atacado e a
de um limite para o convívio seguro de ambos, intensidade de tais sentimentos impossibilitavam
Renato teve a oportunidade de se relacionar com sua interpretação ou mesmo a retomada do
um adulto que age de modo diferente daqueles convívio mútuo.
que compõem seu universo mental: a violência e
o ódio não foram retribuídos, mas contidos da Acompanhamos a família, estabelecendo dessa
única maneira possível àquele momento. Os forma um elo de ligação com o paciente, mesmo à
atendimentos foram interrompidos como forma distância. Percebemos que os pais também se
de se preservar o vínculo de maiores violências. encontravam desprotegidos frente às ameaças de
Renato não se sentiu atacado, mas protegido de morte, ficando impossibilitados de colaborar para
sua própria destrutividade. A psicoterapeuta deu- a qualidade mental do filho. Reavaliamos também,
lhe mostras concretas, não fantasiosas, de sua junto ao psiquiatra, a medicação.
violência e seus efeitos nocivos. Notar tais aspectos
talvez tenha permitido uma reorganização mínima Acreditamos que, frente às situações de “impasse”,
de Renato que, mesmo sem contar com os é necessária uma atitude realística para se examinar
atendimentos psicoterapêuticos, pôde retomar a situação transferencial e contratransferencial.
uma organização egóica capaz de protegê-lo dos Passaram-se mais de trinta dias de afastamento e
ataques contra si mesmo. recebíamos notícias, através dos familiares, de um
reconhecimento da perda do vínculo
psicoterapêutico pelo paciente.
“O problema, para o
terapeuta, é manter Sentíamos que não seria possível abandoná-lo,
o equilíbrio entre mas seria preciso criar alternativas que não fossem
aproximar-se rígidas ou onipotentes (teórica e pessoalmente) para
suficientemente do a condução de seu tratamento. Passamos a vê-lo, a
paciente para seu pedido, ocasionalmente. Foi então que
permanecer em pudemos perceber que a companhia da
contato – o que com psicoterapeuta era insuficiente naquele dado
crianças muito momento, frente as suas reais necessidades. No
perturbadas pode seu cotidiano, a família, transtornada, não
implicar séria conseguia apresentar atitudes realísticas e não
inquietação e retaliadoras às dificuldades de Renato. Ele precisava
preocupação, raiva de mais uma “companhia viva”, alguém que
e desespero – e ficar estivesse presente no seu dia a dia, que o
afastado o suficiente acompanhasse concretamente nos momentos
para ser capaz de domiciliares de desamparo e desproteção. Ele
pensar”. estava profundamente sozinho e a morte era a única
alternativa que se lhe apresentava como
3
companhia .

Alvarez (1994) diz o seguinte: Situações difíceis como a relatada, em que os


sentimentos são muitos e, por vezes, contraditórios,
têm ressonância por um longo tempo e remontam
“O problema, para o terapeuta, é manter o
à força emocional surgida no campo transferencial.
equilíbrio entre aproximar-se suficientemente do
Herrmann (2000), investigando a complexa
paciente para permanecer em contato – o que estrutura do processo analítico, distingue três
com crianças muito perturbadas pode implicar tempos simultâneos na análise, que não se esgotam
séria inquietação e preocupação, raiva e desespero ou se dão unicamente durante os atendimentos.
– e ficar afastado o suficiente para ser capaz de O “tempo curto” é o tempo da própria sessão,
pensar. Não conheço ninguém que consiga manter com as intervenções do psicoterapeuta e as falas
este equilíbrio no nível adequado durante todo o do paciente; o “tempo médio” é o tempo dos
tempo” (p.18) sentimentos transferenciais em que o
psicoterapeuta “... pega em suas mãos o sofrimento
78 No período de afastamento, pensamos muito no do paciente, ou, a rigor, o recebe no próprio
que foi sentido e vivido com Renato. Pensamos em coração, tempo que transcende o horário de
Psicoterapia Psicanalítica e Acompanhamento Terapêutico: uma Aliança de Trabalho

sessão”; já o “tempo longo” é o tempo “... do o atendimento para todos os locais onde o
destino do paciente, que procede da história de “acontecer humano” pode dar-se, utilizando
sua infância, de seus pais, de sua gente” (p.433). recortes do cotidiano como ferramenta
psicoterapêutica.
Intervindo em meio ao “tempo médio”, a
psicoterapeuta buscou auxiliar a família durante Uma das justificativas para a inclusão dessa outra
o “impasse necessário” e, contratransferencial- prática psicoterapêutica relaciona-se à necessidade
mente, compreendeu como o paciente estaria de acompanhar o paciente em seus vários espaços
sentindo-se. Do mesmo modo, o paciente, pela de vida, especialmente nos momentos de crise,
transferência, deu mostras de ressentir-se da em que a família não mais tem recursos afetivos e
interrupção dos atendimentos durante o impasse. psíquicos para acolher e conter a desorganização
mental do paciente.
Renato necessitava de mais uma “companhia”, mas
não poderia ser qualquer “companhia”, teria que Dentre as funções desempenhadas pelo
ser alguém vivo, disponível, acessível e com quem acompanhante terapêutico, Mauer & Resnizky
Renato pudesse identificar-se, ou melhor, agarrar. (1987) destacam: a continência afetiva às angústias
Renato necessitava experenciar um outro modo do paciente, especialmente em momentos de crise,
de estar em contato com um adulto, uma pessoa a possibilidade de o AT ser tomado como modelo
que tivesse verdadeira disposição em estar a seu de identificação, o emprego das funções egóicas
4 do AT em atenção às dificuldades do paciente, o
lado, não repetindo as atitudes expropriantes
desenvolvimento das capacidades criativas do
características de seus vínculos familiares. Renato
paciente, respeitando suas peculiaridades, atenção
necessitava de uma pessoa capaz de ser criança
e respeito ao mundo objetivo, que passaria a ser
com ele para, em companhia de um outro ao seu
compartilhado pelo AT e pelo paciente,
lado, retomar o curso de sua adolescência,
representação do psicoterapeuta, sendo ele uma
enfrentando as já difíceis imposições psíquicas
outra pessoa em atenção à sua saúde mental,
desse período de vida.
atuação como agente ressocializador e auxílio nas
relações familiares, geralmente esgarçadas pela crise
Alvarez (1994) descreve que, para ocorrer o
psicótica.
desenvolvimento emocional e cognitivo, ”... o bebê
precisa ter a experiência de interagir com um
Em nosso caso, o acompanhamento terapêutico
cuidador humano consistente, um objeto animado,
surgiu como recurso técnico complementar
ou, na expressão de Trevarthen, uma companhia
àqueles já oferecidos ao paciente, vindo a somar
viva” ( p.88).
esforços clínicos em um momento muito específico
e delicado, uma vez que o surto psicótico toma de
Foi então que surgiu a idéia de um acompanhante
assalto tanto as condições psíquicas do paciente
terapêutico (AT), alguém que, em seu domicílio,
quanto as daqueles que o circundam, desde
pudesse auxiliá-lo em suas funções de ego,
familiares mais próximos até amigos e vizinhos. Com
promovendo um contato com o mundo de forma
tal consideração, passamos a notar a
menos arriscada.
complexidade do desafio imposto pelo surto
psicótico, pois este não tem efeitos somente na
O Acompanhamento Terapêutico “organização psíquica” do paciente, mas põe à
prova os recursos afetivos e mentais de todas as
O trabalho de acompanhamento terapêutico pessoas à sua volta, o que requer uma atenção
surgiu como forma complementar às intervenções clínica a aspectos ampliados da vida social e
psicoterapêuticas tradicionais de atendimento a mental do paciente e sua família.
pacientes psicóticos: psicoterapia, uso de
medicamentos psiquiátricos e, em alguns casos, Para abordar tais meandros da clínica das patologias
internação psiquiátrica. Mauer & Resnizky (1987) graves e a possibilidade, senão necessidade, de sua
propõem a inclusão do acompanhante organização em alianças de trabalho, passaremos
terapêutico (AT) como integrante de uma “equipe àquelas que só por força do hábito denominamos
terapêutica” que adote abordagens múltiplas no considerações finais, mas que, de fato, constituem-
atendimento a esses pacientes. se em considerações iniciais sobre um
aprimoramento clínico rumo à parceria e à
Carrozzo (2001) propõe a tese de que uma interdisciplinaridade.
abordagem isolada não sustenta o tratamento do
fragmentário da psicose, demandando a formação
de uma rede de atendimento na qual atuariam “...
Considerações Finais
o psiquiatra, o remédio, o psicanalista, os
terapeutas do hospital-dia e os acompanhantes O acompanhamento terapêutico e a psicoterapia 79
terapêuticos”( p. 12). Caberia aos últimos ampliar são dois trabalhos bem diferentes e, quando
Helga de Souza Machado Quagliatto & Ricardo Gomides Santos

agregados, geralmente constituem uma novidade, pessoas diferentes. Os atendimentos clínicos


tanto para os pacientes quanto para os profissionais puderam ser retomados rotineiramente, em um
envolvidos na nova relação terapêutica formada – número menor de sessões semanais, dando
que deixa de ser dual e passa a configurar-se como oportunidade à dupla e, especialmente a Renato,
um trio composto pelo paciente, pelo de vivenciar a continência afetiva de sua
psicoterapeuta e pelo acompanhante terapêutico. psicoterapeuta – que não contra-atuou os ataques
por ele efetuados. Com essa retomada paulatina,
Os recursos técnicos são distintos, mas, em nosso foi possível a reconstrução de um vínculo que
caso, ambos os profissionais trabalham com o resistiu aos objetos maus e ao intenso ódio vivido
método psicanalítico. Diferenças como o uso do
pela dupla quando da crise psicótica.
setting, contato com familiares, horários etc. foram
assimiladas ao longo dos atendimentos e
Com os acompanhamentos terapêuticos, Renato
sustentaram-se por meio do vínculo transferencial
particular estabelecido com cada psicoterapeuta. pôde contar com a presença de uma companhia
Questões relativas às peculiaridades técnicas de disposta a estar com ele, mergulhando em seu
cada modo de intervenção e às posturas de cada universo mental e social, ocupando em parceria
profissional salientam um aspecto importante da os espaços do seu cotidiano. Acompanhá-lo nesses
formação de uma aliança de trabalho. Deve haver universos propiciou um contato protegido,
o respeito ao trabalho desempenhado pelo colega, mediado pelo AT, com os objetos constituintes de
pois, para a aliança consolidar-se como tal e sua vida, funcionando como uma espécie de ego
ultrapassar a condição de multidisciplinaridade, auxiliar – função essa que deve ser temporária,
efetivando-se como interdisciplinaridade, é perdurando somente até a recuperação das
necessário o compromisso com um projeto condições egóicas mínimas do paciente.
terapêutico capaz de assimilar e usufruir a diferença
constituída. Durante o tratamento de Renato, que contou com
reformulações em seu projeto terapêutico,
O projeto terapêutico de Renato foi sendo alterado notamos ter sido em meio à transferência que o
segundo as imposições de seu quadro clínico. O sentido vivo do paciente pôde ser apreendido e
ingresso da dupla analítica no “impasse necessário” em meio à turbulência do surto houve o ingresso
foi trabalhado como forma de potencializar os no impasse necessário. Tais movimentos, dados
recursos psicoterapêuticos necessários ao paciente sob o tempo médio do processo psicoterapêutico,
– naquele momento de ameaça de morte e falência
revelam uma postura clínica realista e inovadora,
dos cuidados familiares. O ingresso do AT e a
capaz de criar uma aliança de trabalho adequada
formação da aliança de trabalho tiveram como
às exigências daquele momento crítico, tanto para
ponto de apoio, para seu início e manutenção,
o paciente, quanto para a família e a
uma relação de colaboração dos profissionais
envolvidos. psicoterapeuta. Tal postura termina por reverberar
em efeitos terapêuticos visíveis no tempo longo do
Ao longo dos atendimentos, a aliança fortaleceu- processo, tempo de uma vida, tempo do destino
se junto a discussões contínuas sobre o andamento do paciente e sua família.
do paciente, o que nos fornecia uma visão
ampliada de sua condição psíquica, do seu Em meio à confusão e angústia provocadas pelo
ambiente familiar e da assimilação do trabalho em surto psicótico, oferecer um acolhimento singular
desenvolvimento. e extensivo ao sofrimento desse adolescente e ao
de sua família consistiu no cuidado sério e atento
Ainda que possamos explorar extensamente as a uma situação objetiva de perigo à integridade
questões relativas à constituição do projeto física e mental de Renato.
terapêutico de Renato e ao modo como foi
realizado o trabalho entre nós e também junto à De diferentes modos, em diferentes vínculos, o trio
família, retomaremos nosso objetivo inicial, a descobriu uma modalidade de relação capaz de
formação de uma aliança de trabalho entre superar o impasse necessário, de propiciar uma
psicoterapia psicanalítica e acompanhamento contenção afetiva e mental para o período de crise,
terapêutico. Esperamos que o tema acima possa dando margem à possibilidade de juntos buscarem
ser objeto de uma nova e vindoura comunicação. formas de dar corpo às fantasias, criando
Passaremos agora ao modo como nossa aliança brincadeiras e diálogos cujas regras e sentidos
teve efeito sobre quem dela mais necessitava, o fossem comunicados, pensados e não somente
paciente. atuados, somando assim, esforços clínicos na
mesma direção: a promoção da qualidade de
80 Notamos que Renato reconheceu diferentes saúde mental, fruto de uma aliança de trabalho
aspectos de sua vida sendo cuidados por duas proveitosa a nós, ao paciente e à sua família.
Psicoterapia Psicanalítica e Acompanhamento Terapêutico: uma Aliança de Trabalho

Helga de Souza Machado Quagliatto


Av. Amazonas, 2245 – Jardim Umuarama – Uberlândia –MG.
CEP: 38405.302 – Tel.:(034) 3232-0664 / 3232-9593.
E-mail: hquagliatto@bol.com.br
Ricardo Gomides Santos
R. Modesta Cândida Pereira, 64 – Jardim
Brasília – Uberlândia – MG.
CEP: 38401-380 – Tel. : (034) 3219-1404.
E-mail: ricardo_gomides@yahoo.com.br

Recebido 01/04/03 Aprovado 02/01/04

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