XIII ENCONTRO DA ASSOCIAÇÃO NACIONAL DE PÓS-GRADUAÇÃO E PESQUISA EM PLANEJAMENTO URBANO E REGIONAL 25 a 29 de maio de 2009 Florianópolis - Santa Catarina

- Brasil

PLANEJAMENTO URBANO E ESTRUTURA INTRA-URBANA: REFLEXÕES SOBRE A EXPERIÊNCIA BRASILEIRA

Helena Lúcia Zagury Tourinho (UNAMA/UFPE-MDU) - helenazt@uol.com.br
Arquiteta e urbanista, M. Sc. em Planejamento do Desenvolvimento, doutoranda em Desenvolvimento Urbano da Universidade Federal de Pernambuco, Professora e pesquisadora da Universidade da Amazônia

Planejamento Urbano e Estrutura Intra-urbana: reflexões sobre a experiência brasileira

Resumo:
Partindo do pressuposto de que a estrutura intra-urbana é uma dimensão fundamental do ordenamento territorial, o trabalho investiga e problematiza sobre como, historicamente, essa dimensão tem sido enfocada no processo de planejamento urbano brasileiro, tanto na fase em que prevaleceu o paradigma modernista de ordenamento territorial da cidade total, quanto no âmbito de novos paradigmas pós-modernos, que negam a possibilidade de apreensão do espaço urbano como uma totalidade. O trabalho está estruturado em três partes. Primeiramente é discutida a relação entre Estado, planejamento urbano e estrutura intra-urbana e são delimitados os campos conceituais considerados. Na segunda parte é apresentada uma leitura crítica sobre como as estruturas intra-urbanas têm se configurado e sido tratadas, historicamente, no processo de planejamento urbano no Brasil. Finalmente, na terceira parte, ao refletir sobre a relação entre estrutura intra-urbana e planejamento urbano no Brasil, formula algumas hipóteses explicativas para a tendência da perda da visão de totalidade espacial urbana verificada mais recentemente no processo de planejamento urbano e aponta alguns riscos dessa postura.

dentre outras razões. planejamento urbano e estrutura intra-urbana e delimitado os campos conceituais considerados. a estrutura intraurbana tem sido tratada no processo de planejamento urbano brasileiro. ao refletir sobre a relação estrutura intra-urbana e planejamento urbano no Brasil. Estado. em países do Terceiro Mundo. sobretudo. utilizando-se para isso de um método sistemático. planejamento urbano e estrutura intra-urbana Estado e planejamento Com o processo de urbanização acelerado se agravam os problemas urbanos referentes às desigualdades sociais e ao ordenamento territorial. o Estado tem atuado através de diferentes modalidades de planejamento e de gestão. o planejamento é uma atividade que . Finalmente. quanto no âmbito de novos paradigmas pós-modernos que negam a possibilidade de apreensão do espaço urbano como um todo. quanto o planejamento urbano alteraram suas formas e seus conteúdos ao longo do tempo. Objetos e histórias porque. Chamado a intervir. e procura mostrar as dificuldades de tratamento das estruturas intra-urbanas. tanto as estruturas intraurbanas. antes de tudo. Na segunda parte é apresentada uma leitura sobre como as estruturas intraurbanas têm sido tratadas. Segundo Souza e Rodrigues (2004). formula algumas hipóteses explicativas para a tendência a perda da visão de totalidade espacial verificada mais recentemente.Estrutura Intra-urbana e Planejamento Urbano: reflexões sobre a experiência brasileira Introdução O trabalho objetiva investigar e problematizar sobre como. projetar ações futuras. Planejar é. Parte do pressuposto de que a estrutura intra-urbana é uma dimensão fundamental do ordenamento territorial. na terceira parte. historicamente. historicamente. porque permite tratar o espaço urbano como um todo articulado. Primeiramente é discutida a relação entre Estado. Constitui-se num esforço de unir dois objetos e suas histórias que têm sido enfocados de forma divorciada por grande parte da literatura urbanística. tanto sob o paradigma modernista de ordenamento territorial da cidade total. O trabalho está estruturado em três partes. no qual a totalidade é mais do que a mera soma das partes. no processo de planejamento urbano no Brasil e como estas têm se configurado em termos de modelos gerais.

e por plano diretor . Daí decorre que o planejamento estatal e seus instrumentos. o Estado precisa se legitimar. um instrumento de gestão e. O Estado. “tendo o tema planejamento strictu sensu praticamente desaparecido da cena acadêmica brasileira”. tender a servir aos interesses capitalistas mais gerais. Apesar de ter um compromisso com o sistema capitalista como um todo. não são a priori nem conservadores. 2004). à regulação pelo livre mercado e ao desenvolvimento . O planejamento é. Para fins do presente trabalho. entendem o planejamento capitalista como instrumento utilizado pelas classes dominantes para atender aos seus interesses e reproduzir as desigualdades sociais. 2006.16). os seus prazos de elaboração/revisão e impulsionando reflexões sobre o planejamento urbano. definindo as situações de obrigatoriedade. enquanto que a gestão diz respeito ao presente. quando presente. RODRIGUES. nem progressistas. o planejamento estatal de caráter mais amplo tem sido duramente criticado. pois nem as forças do mercado são capazes de promover a justiça social. que será tanto maior quanto mais profunda for a crise de hegemonia e maior for o equilíbrio entre as forças sociais em luta.55). independente do modelo e do grau de complexidade material da sociedade” (SOUZA. A partir do final dos anos 1980 nota-se um silêncio consternado. entende-se por planejamento urbano a modalidade de planejamento estatal voltada para a organização do espaço intra-urbano. o que requer concessões e/ou partilhas de poder das classes dominantes com os segmentos sociais não hegemônicos. por forças políticas mais progressistas. mesmo em sociedades não-democráticas. Além disso. Nesse ambiente. adiciona à gestão um caráter antecipatório e preditivo. diversos trabalhos versavam sobre o planejamento urbano. refletem a correlação de forças sociais e políticas presentes em cada momento histórico e em cada lugar (SOUZA. quanto pelas parcelas da esquerda que. p. por isso. foram os debates sobre a reforma urbana e as disposições relativas à política urbana da Constituição Federal e do Estatuto da Cidade que trouxeram de volta a figura do Plano Diretor.46). p. por considerarem o Estado uma espécie de comitê executivo da burguesiaii.17) e a gestão é a ordenação de recursos e meios visando à “administração de situações dentro de uma conjuntura” (p. tanto pelos neoliberais. nas décadas de 1970 e 1980. e de. “Abrir mão do planejamento equivaleria saudar um caminho errático. Também não são neutros: eles são aquilo que a sociedade deles faz. nem o Estado capitalista é um bloco monolítico que atua exclusivamente a serviço das classes dominantes. o Estado pode ser ocupado. portanto. que vêem no Estado intervencionista um obstáculo às liberdades individuais. O planejamento é “a preparação de uma gestão futura” (p. incompatível com a vida social organizada. comprometidas com mudanças sociais. Essas duas leituras são reducionistas e simplistas. i à concorrência. daí decorrendo a sua natureza de classe. Como ressalta Lacerda et al. De um modo geral. portanto. dispõe de autonomia relativa.remete para o futuro. (2005. total ou parcialmente.

os problemas identificados e de dinamizar as suas reconhecidas potencialidades. viários. ao que se acha estabelecido ou normatizado no Plano Diretor. estaduais. 2005. não devem ser considerados como ações de planejamento urbano. O que se observa. ou mesmo em sentido contrário. Ao invés disso. indicar os meios (instrumentos e as ações) capazes de enfrentar. é uma crítica generalizada. o seu caráter estratégico visa a garantir que as propostas se concentrem naqueles instrumentos e ações capazes de viabilizar os seus objetivos durante o horizonte de tempo preestabelecido. bem como à sua hierarquia” (LACERDA et al. uma vez que. outra fundamentada em planos ou projetos estratégicos. o seu conteúdo é associado ao modelo tão difundido de Barcelona. como se o plano não pudesse ter simultaneamente uma visão particularizada e abrangente do território. devem ser fundamentadas no reconhecimento dos limites e das possibilidades das intervenções e na definição de prioridades. Mais ainda. no qual a sociedade. transportes. 1999). edifícios. SANCHES. contudo. revitalização e/ou intervenção em espaços públicos. e. que as ações do chamado planejamento estratégico devem se operar a revelia. já que no segundo as ações estão mais voltadas para atrair investimentos. apontam duas vertentes predominantes nas práticas recentes de gestão urbana: uma baseada em planos diretores de caráter globalizante. necessariamente.urbano o documento ou lei. O Plano Diretor deve assumir um caráter estratégico na medida em que as suas propostas devem. num determinado horizonte de tempo. 55). que o Plano Diretor não deve ser estratégico e. Como alerta Villaça (2004). sistematiza e sintetiza suas intenções e propostas de ordenamento territorial para o futuro. etc. e aqui não o são. pode ou não ser fundamentada em processo de planejamento. a qualquer plano adjetivado de estratégico. de outro lado. de um lado.. muitos planos e projetos federais. dentre outros aspectos. por parte importante da academia. habitação. mas. gerar emprego e reordenar a base produtiva local. Contrapor os termos “planejamento estratégico” e “planejamento urbano” tende a fazer transparecer. no plano estratégico o ordenamento territorial é um objetivo secundário. p. Ao analisá-la alguns autores. equipamentos urbanos. a sua preocupação seletiva quanto às ações e aos instrumentos a serem indicados.) são frutos de processos de planejamento e promovem impactos na organização espacial intra-urbana. A gestão urbana. num dado momento. acorda. por não estarem diretamente comprometidos com o ordenamento territorial da cidade como um todo. . como Leal (2003) e Compans (2005). e mesmo municipais (de saneamento. não podem ser um mero rol de boas intenções ou das demandas e necessidades sociais. “Daí. Isso significa que as propostas do Plano Diretor. 1998. como vista anteriormente. de imediato. de modo a inserir e a alavancar a ‘venda’ a cidade nos fluxos globais da economia (LOPES. Enquanto no plano diretor o ordenamento territorial é um fim primordial.

assegurando que les guía um propósito y uma dirección común. como criticam alguns. Assim sendo. julga-se necessário recuperar o conceito de estrutura intra-urbana e verificar como este tem sido enfocado nos estudos urbanos e nos planos diretores no Brasil. Embora se reconheça a importância crescente que o modelo de empresariamento urbano tem assumido nas práticas atuais de gestão das cidades.do que dos modelos de cunho globalizante (HARVEY. Estrutura intra-urbana e planejamento urbano Entende-se estrutura como a organização. o que é feito a partir da sua decomposição em elementos estratégicos e suas relações. Com base na reflexão sobre esses elementos/relações e na análise das regras e dinâmicas que regem suas configurações e modificações.caracterizado pelo protagonismo do poder local. depende de suas leis de composição (ARAÚJO.Ademais. nas parcerias público-privadas e no planejamento estratégico . Para isso. 1971). as práticas de gestão urbana têm tendido a seguir mais em direção dos modelos de empresariamento urbano . Esses elementos: dependem das regras que regem a totalidade. inclusive. 2003). o que é. a disposição. ela própria estar sempre se configurando. Como está em transformação constante. (p. portanto. La utilización conjunta de ambos tipos de planificación ayuda a integrar actividades. A visão estrutural não é a-histórica. ela incorpora a idéia de transformação. Ela não subjaz aos elementos. Em termos metodológicos definir a estrutura implica (re)construir o objeto através de modelos (BASTIDE. 1996)iv. análises .126). seus processos de composição conferem à totalidade seu caráter de. 623) Por imposição da dinâmica do desenvolvimento capitalista em seu estágio de acumulação flexível. no sistema como um todo (ARAÚJO. a visão estruturalista acredita ser possível reconstruir o próprio objeto em sua totalidade. reconhecido por Güell (2007) um dos ideólogos do planejamento estratégico: un Plan Estratégico no debe entenderse como un substituto del planeamiento urbano tradicional sino más bien como um complemento que lo refuerza y lo dota de mayor legitimidad. p. se transformando. seu modo de relacionar-se. nem é a soma das partes. 2003. planos diretores e planos estratégicos não são excludentesiii. conseqüentemente. mas sim enfatizando o conjunto de mudanças que a alteração de um ou mais elemento(s)/relação(ções) provoca(m) nos demais elementos e relações e. como totalidade estruturada. não considerando a transformação de um elemento ou de uma relação estrutural per si. 2003). é preciso compreender como o planejamento urbano de caráter mais amplo tem contemplado o problema do ordenamento territorial do conjunto da cidade. o ordenamento dos elementos essenciais que compõem um corpo concreto ou abstrato (HOUAISS.

pois permitem identificar elementos e relações estratégicos. ex. Modelos de estrutura intra-urbana não devem ser confundidos com formas espaciais: modelos tratam da representação esquemática de padrões espaciais. o trabalho de projeção de estruturas futuras parece ser bastante compatível com as técnicas mais avançadas de construção de cenários prospectivos. etc. como a econômica. por exemplo. A passagem do nível dos modelos . as características e o funcionamento deste todo (RAMOS. Nas cidades medievais. Os elementos intra-urbanos considerados como estruturais e suas localizações espaciais variam no tempo. das densidades populacionais e das áreas residenciais segregadasvi. Para Villaça (1998) é no estudo das localizações dos elementos estruturais intra-urbanos e das relações existentes entre elas que reside à especificidade dos estudos de estruturação intra-urbana. assim como o são para subsidiar as intervenções públicas no ordenamento territorial de caráter mais amplo. 1988). são insuficientes para a compreensão da estrutura intra-urbana. ou mesmo a analisa da estrutura social. não se verificam mais.estruturais são muito úteis para fins de planejamento. bem como avaliar o impacto que mudanças operadas nos elementos e/ou relações estruturais específicos podem provocar nos demais elementos e relações. 2002). determinando a natureza. das grandes áreas verdes. Normalmente são utilizadas na análise das estruturas intra-urbanas das cidades contemporâneas as localizações: dos núcleos de comércio e serviçosv. ela está articulada a outras estruturas não-territoriais. papéis esses que hoje. em muitas cidades originadas nessa época. capazes de provocar transformações desejadas na totalidade. É muito comum alguns autores reduzirem a análise intra-urbana a um ou a poucos dos seus elementos estruturantes. visto que desconsideram outros elementos/relações essenciais e suas capacidades transformadoras. cujas análises permitem compreender e explicar a sua configuração e o seu movimento. Nesse sentido. A estrutura intra-urbana não pode ser tratada isoladamente. dos inúmeros trabalhos que contemplam aspectos relativos à segregação sócioespacial. Esse é o caso. apesar de sua inércia relativa.). defendidas por Souza (2006) como adequadas para a realização de prognósticos em planos urbanos. formas referem-se a como um dado padrão espacial se manifesta em termos físicos numa realidade concreta. política e ideológica (VILLAÇA. terminais rodoviários. shopping centers. de grandes equipamentos atratores de fluxos (p. A análise da estrutura intra-urbana trata de como as partes essenciais da cidade e seus relacionamentos estão organizados dentro do todo urbano. e. Em que pese à importância de tais estudos para o mapeamento e a denúncia das desigualdades sócio-espaciais presentes internamente na cidade. as muralhas e as igrejas assumiam papéis estruturadores fundamentais. As maneiras pelas quais os elementos estruturadores intra-urbanos são distribuídos e se relacionam no espaço têm sido representadas através de modelos. do sistema viário básicovii. por exemplo. aliás. das áreas industriais.

Pouca ênfase. 1999). após a década de 1960. menos ainda. dos setores de Hoyt.quer seja visando a análises. progressivamente. foi atribuída por esses autores à dimensão geográfica dos processos sócio-espaciais. na esfera da geografia norte-americana e alemã. Se o paradigma neoclássico presente nesses modelos foi hegemônico no pensamento intraurbano até os anos 1950. Uma parte das críticas tem sido direcionada aos pressupostos teóricos e aos limites . emergiram novas abordagens. sob a perspectiva da dinâmica do modo de produção capitalista. as questões referentes aos padrões de uso e ocupação do solo passaram a ter como paradigma a competição de forças econômicas pelo controle do solo e da localização relativa. contudo. desenvolvidos no âmbito da Escola de Chicago para representar as estruturas intra-urbanas das cidades norte-americanasviii. pela influência que tiveram na análise das cidades. funções e processos e. Lipietz. mas. ainda. no caso do ambiente construído. usando-se modelos matemáticos cada vez mais complexos (EUFRÁSIO. os modelos de estrutura intra-urbana não têm passado incólumes à crítica. Recife. que. Lojkine. Harvey. Topalov e Gottidiener. os processos de produção e apropriação do espaço urbano capitalista e seus agentes. o modelo resultante da análise de seis metrópoles (Belo Horizonte. no âmbito da economia. Não é o objetivo deste ensaio discutí-los. Rio de Janeiro. quando começaram a ser formulados nos EUA. Vários são os modelos de estrutura intra-urbana desenvolvidos desde os anos 1920. Bartholomeu. pela grande repercussão que tiveram no pensamento urbano brasileiro. e dos núcleos múltiplos de Harris e Ullman. na década de 1990. sobretudo com as referentes às formas. No caso brasileiro. De um modo geral. a ascensão do funcionalismo nas Universidades norte-americanas e a ênfase dada aos estudos de realidades particulares. Lösch. Tais estudos resultaram na elaboração de vários modelos como: o de Kohl recuperado por Corrêa (1989). quer seja com fins de planejamento -. o de Griffin & Ford (1980). os trabalhos de Castells. em vez da construção de modelos generalizáveis. o de Ford (1996). A partir principalmente dos anos 1980. Após a II Guerra Mundial. o de Mayer e Bähr (Borsdorf. para retratar as estruturas intra-urbanas das cidades latinoamericanas e de países de capitalismo tardio. procuraram compreender. Salvador e São Paulo) construído por Flavio Villaça. esse papel foi progressivamente sendo ocupado pelas abordagens marxistas. se deslocando da sociologia urbana para outros ramos da ciência. e a emergência da economia espacial como campo disciplinar. cabe referenciar os modelos dos círculos concêntricos de Burgess. fizeram com que a temática da estrutura intra-urbana fosse. requer mediações que sejam capazes de compatibilizar a dimensão da estrutura com as das formas. sobretudo para a economia e a geografia. 2003). Dentre elas ressaltam. Isard e Alonso. As contribuições de Hurd. para o debate teórico das estruturas intra-urbanas deles resultantes. Porto Alegre.(abstrato/relacional) para o nível da realidade concreta (real) . vale citar. etc.

De um lado. Modelos. mas os agentes que atuam no espaço não o fazem de forma aleatória. desde a falência das utopias espaciais modernistas. . Além disso. pois essa transposição pressupõe o estabelecimento de critérios para o dimensionamento e distribuição espacial dos diversos tipos de “fixos e fluxos”. não representa sugerir que os embates entre os segmentos sociais que produzem. Em resposta a esse segundo argumento ressalta-se que. contraditórias. eliminados. embora não seja uma tarefa fácil. se apropriam e consomem o espaço sejam. aceitar que é possível estabelecer modelos normativos de estrutura intra-urbana. interfere na ação social. com objetivos e agendas diferentes e. como diria Milton Santos (2008). porque requer certo nível de conhecimento teórico e empírico acerca da cidade que a maioria das pessoas não tem.há que se fazer a transposição do modelo abstrato para a dimensão espacial concreta. escamoteando. é consenso que não se transforma uma sociedade pela mudança de seu espaço físico. em processos de planejamento democráticos. Da mesma forma. o conjunto de artefatos produzidos. não basta definir os modelos em termos de princípios. por ele. Definir o modelo de estrutura intra-urbana futura para uma cidade. não significa que os componentes representados no modelo se transmutem em agentes sociais. na relação sociedade-espaço. Subjacente as suas ações existem lógicas que repercutem em padrões espaciais.e possibilidades explicativas específicos de cada modelo. É evidente e inegável que a urbanização e suas manifestações espaciais devem ser vistas como resultante de processos sociais levados a cabo por uma ampla gama de atores. de modo que a estrutura intra-urbana acordada possa contemplar segmentos sociais mais amplos e com lógicas espaciais diversas. Objetos materiais e suas relações espaciais não são agentes sociais. Outra parte questiona a própria validade da sua elaboração e da sua capacidade preditiva. não raras vezes. técnicas e políticas. de outro lado porque pressupõe um equilíbrio relativamente grande de forças políticas. são mediações que ajudam a visualizar as dinâmicas espaciais dos diferentes agentes sociais e seus resultados. visando a apreender suas manifestações espaciais. nem que seja no momento subseqüente à sua produção. Mas é verdadeiro também que. diretrizes ou esquemas espaciais . O fato de procurar sistematizar tais padrões em modelos. que contemple interesses diversos e antagônicos. capazes de regular a ação diversos agentes sociais no espaço. as contradições de classes inerentes à atuação dos diferentes agentes sociais. portanto. O modelo de estrutura intra-urbana proposto em um plano diretor sintetiza. o pacto social sobre o ordenamento territorial. E aí emergem novas dificuldades operacionais. é uma necessidade. ou deveria sintetizar. por essa via. Argumenta esse segundo grupo que os modelos engessam a realidade social e/ou atribuem a objetos materiais a função de sujeitos no processo de transformação social. sem perder a visão da cidade enquanto uma totalidade. pacto esse necessário para que a função social da propriedade urbana venha a ser cumprida.

às vezes. Nessa época. os brancos pobres. o planejamento urbano no Brasil se caracterizou pelos planos urbanísticos de melhoramentos e/ou de embelezamento urbano. o caminho mais fácil seja mesmo fugir dessa definição. apesar de colaborarem para incipientes diferenciações sócio-espaciais. as intervenções do Estado no espaço intra-urbano eram limitadas e pontuais. 2003). não eram capazes de alterar expressivamente esse modelo de estruturação intra-urbana. em alguns casos às fortificações. O planejamento renascentista europeu de formas urbanas monumentais que ressaltava a burguesia. enfrentando problemas decorrentes de prognósticos sócio-econômicos e demográficos ambiciosos e/ou que não se efetivam. Por todos esses motivos. principalmente esses dois últimos. em Paris. contornando e/ou adaptando-se aos acidentes do sítio e. se instalavam. reformas e ampliação de portos) e . foram os marcos referenciais para os planos e as intervenções estatais nas cidades brasileiras neste período (LEME. considerando o espaço construído existente. Do final do século XIX até a década de 1930. 1999). o movimento norte-americano city beautiful e as modas urbanísticas européias do século XIX (reformas de Haussmann. com todas as implicações que essa desistência traz para o ordenamento territorial. Embora no caso brasileiro essa afirmativa precise ser relativizada. abertura ou alargamento de vias. se caracterizou por tender a apresentar um modelo concêntrico (BORSDORF. parte expressiva acaba partindo de diagnósticos imprecisos ou incompletos da realidade.existentes na cidade. a classe média (comerciantes e artesãos). a estrutura intra-urbana das cidades latino-americanas. 2003). tendo suas formulações de estrutura intra-urbana comprometidas por outras normas e legislações urbanísticas. As principais ações previstas consistiam em obras de infraestrutura (saneamento. Daí porque. em Barcelona. A partir dela. Normalmente elaborados por arquitetos e/ou engenheiros ocupantes de cargos públicos na administração municipal. uma malha onde se localizava. Não é fácil construir critérios técnicos e políticos para a projeção da quantidade de áreas demandas por tipo de uso e por segmento de renda e para a distribuição no espaço geográfico dessas áreas e de seus elementos articuladores. os planos eram apresentados e debatidos abertamente pela burguesia (VILLAÇA. de forma compacta. a dinâmica do mercado imobiliário e o papel do Estado na mesma. Estrutura intra-urbana e planejamento urbano no Brasil Originada no período colonial. e do Ringstrasse de Viena). e provavelmente por muitos outros mais. 2004). até praticamente o final do século XVIII. dos planos diretores que assumem o desafio de discutir a estrutura intra-urbana. os índios e os mestiços (BORSDORF. sucessivamente: a aristocracia. é claramente observada nas cidades de origem hispano-americanas onde a praça ou área central era o core das atividades urbanas. de Cerdá.

quando o foram: redefiniram o sistema viário básico. mas. c) A ampliação das funções do centro. LEME. através de diversos mecanismos. 2003. com a construção de grandes avenidas. e. e. Nem todas as propostas contidas nesses planos foram implantadas (LEME. 1999). com o crescimento das atividades comerciais. surge o conceito de planejamento global. destinados. Assim sendo. que eram responsáveis pela conexão da cidade com o restante do país (BORDORF. voltado para obras de remodelamento e embelezamento de áreas da cidade. 1999). d) A ocupação dos espaços deixados pelas camadas de maior renda por bairros de trabalhadores de baixa renda. na mesma direção do movimento das camadas de maior renda.. Como ressalta Villaça (2004) ao analisar esse período: a cidade de consumo é substituída pela cidade da produção. passam a privilegiar a constituição das condições gerais de produção e reprodução do capital. ampliando a segregação sócio-espacial intra-urbana. antes direcionadas para o consumo conspícuo das elites. com o processo de industrialização brasileiro intensifica-se o processo de urbanização. os planos de embelezamento demolidores de casebres tiveram que ser abandonados. teatros. como praças. as grandes obras urbanas. Segundo Borsdorf (2003). as intervenções estatais nas cidades que foram baseadas nas propostas contidas em tais planos provocaram mudanças substanciais na estrutura intra-urbana. Embora a estruturação intra-urbana não fosse um problema teórico nem um objetivo empírico colocado pelos planos urbanísticos dessa época. implantaram equipamentos públicos de grande porte. em grande medida. no lugar do planejamento antigo. refletindo preocupações de cunho sanitarista e estético. e) O aparecimento das primeiras indústrias próximas das linhas ferroviárias. fundamentado no conhecimento técnico-científico. data dessa época a passagem do modelo dos círculos concêntricos para o modelo setorial. que busca contemplar não apenas todos os espaços da . Se começa a difundir idéia de que os problemas urbanos decorriam da falta de planejamento de caráter mais amplo. ao consumo das elites urbanas. expulsaram. de ascensão das camadas operárias urbanas e da burguesia industrial. a cidade bela cede lugar à cidade eficiente. São características do modelo setorial nessa fase: a) A expansão dos setores de alta renda ao longo de um vetor principal (boulevard principal). e. A partir dos anos 1930. o embelezamento urbano é trocado pelas grandes obras de infra-estrutura urbana. a população de baixa renda para áreas cada vez mais periféricas da cidade. Num contexto sócio-político novo. etc.projetos urbanísticos de remodelamento de áreas centrais e seus entornos. b) A tendência ao crescimento do centro. sobretudo de saneamento e transportes. promoveram a demolição de grande quantidade de domicílios.

de zoneamento. e quando o eram. em grande parte das cidades brasileiras. do processo de planejamento para a esfera legislativa. as propostas de estrutura intra-urbana. pouco eram questionadas pelos grupos sociais. e as necessidades de legitimação dos grupos no poder. O debate político sobre o ordenamento territorial deslocou-se. deixa de ser assunto de arquitetos e engenheiros e torna-se multidisciplinar. Segundo Villaça (2004. diante da complexidade dos modelos apresentados e/ou do seu caráter idealista e utópico. de outro lado. Formuladas pela tecnocracia estatal e/ou pelos técnicos de consultoras contratadas para elaborar os planos diretores. apropriação e consumo do espaço urbano. da década de 1930 até 1990. econômicas e espaciais concretas que pretendiam modificar. se moldaram seguindo o jogo de forças sociais dominantes e seus interesses. “é o período do plano intelectual. Nesse contexto. que em última instância. semelhante ao modelo de Harris e Ullman. algumas vezes. foram os instrumentos reguladores da atuação dos agentes privados no espaço urbano. bem como os índices urbanísticos relativos ao uso e à ocupação do solo.cidade. os planos perderam sua capacidade de orientar as ações do poder público para os planos ou projetos setoriais. assume a responsabilidade de ordenar uma multiplicidade de aspectos da vida dos moradores da cidade. de um lado. Conforme Borsdorf (2003). face ao conjunto da população. O planejamento urbano. No âmbito da gestão urbana. e. mas também todas as dimensões da vida urbana.204). mais preocupados com demandas de caráter mais imediato e localizado. das densidades populacionais. que pretende impor-se e ser executado porque contém ‘boas idéias’. As estruturas intra-urbanas. nesse contexto. Desvinculadas das realidades sociais. onde eram aprovadas as leis de perímetro urbano. De um modo geral tais propostas contemplavam a definição do sistema de circulação (sobretudo de sistema viário). que eram comumente apresentadas nos capítulos do plano referentes ao ordenamento territorial. que tinha seus fins vinculados ao ordenamento territorial. e não raras vezes com um enorme viés idealista e utópico. o modelo dos núcleos múltiplos. p. Em prateleiras de bibliotecas ou engavetados nos órgãos públicos. é o que melhor representa a estrutura intra-urbana das cidades latino-americanas no período de 1920 a 1970. da distribuição espacial dos usos do solo. Num momento em que predominou a política de substituição de . então. o plano de melhoramentos e embelezamento é substituído pelo plano diretor de caráter globalizanteix. dos segmentos de renda da população. tem base científica e é correto tecnicamente”. as propostas de estrutura intra-urbana raramente eram submetidas a um debate com a sociedade. os planos diretores urbanos deixaram de ser a referência para a atuação do Estado nas cidades e se converteram em discursos ideológicos. sucumbiam face aos processos reais sócio-econômicos e de produção. pulularam propostas de estruturação intra-urbana.

abandonaram o centro da cidade. O surgimento de subcentros. arborizadas. com vias amplas. surgiram autopistas modernizadas e ampliadas. extensas e. quase sempre. caracterizada pela presença de novos padrões de fragmentação espacial. dispersos espacialmente. intensivo no fator terra cresceu alojandose. A implantação de bairros/conjuntos de moradias sociais patrocinados pelo poder público em áreas da periferia. predominantemente. As ferrovias e autopistas centrífugas.fruto de programas de renovação e/ou requalificação urbana movidos.7). assim como a tendência de redução de áreas de baixa renda nas áreas do centro ou de seu entorno imediato . ocupando nichos não-edificados. por la localización de centros comerciales en toda la ciudad. As áreas periféricas e periurbanas por elas acessadas se tornaram atrativas para as camadas de renda média e alta. A cidade agora é caracterizada: por la libre distribución de zonas industriales. rodovias ou autopistas e nas franjas da malha urbana. propiciando o aparecimento de estruturas em “nós” fragmentados no espaço urbano (JANOSCHKA. Bairros de baixa renda e grupos marginalizados se infiltraram no centro. A partir da década de 1970 as cidades entraram em uma fase de reestruturação intra-urbana. ao descrever o princípio da fragmentação urbana em curso nas cidades da América Latina. p. La polarización resultó del principio de estructuración espacial más importante seguido por otro principio subordinado: el del crecimiento celular fuera del perímetro urbano (BORSDORF. A consolidação de bairros marginais antigos. Borsdorf (2003). perderam importância relativa. também foi uma tendência marcante desse período. observa que o espaço urbano tende a deixar de ter grandes áreas ricas e pobres. ou se instalaram na periferia ou além dela mediante ocupações espontâneas. Agora. as tendências de crescimento setorial-linear e celular notadas nas fases anteriores assumiram formas diferenciadas. . shopping centers e de clubesx com áreas verdes de lazer na periferia concorreram ainda mais para o aparecimento de novos focos de bairros de luxo e/ou de prédios comerciais e de escritórios fora do centro tradicional. O uso do solo industrial. os processos de industrialização e de urbanização se aceleraram em várias cidades latino-americanas. El contraste entre una ciudad rica y una ciudad pobre se fue intensificando cada vez más. quer seja por pressões do mercado do solo. 2002). indo viver em bairros exclusivos. grandes zonas residenciais e industriais. aos poucos.importações. As camadas mais ricas. como antes. áreas insalubres ou de risco ambiental. p. orientados a las autopistas intraurbanas y aeropuertos y por la presencia de barrios cerrados en todo lo perímetro urbano y en la periferia extramuros (BORSDORF. não raras vezes protegidos por muros e cercas. 2003. 2003. passando ser constituído por múltiplos fragmentos segregados. onde o custo dos terrenos era menor. construídas anteriormente. ao longo das ferrovias. e o desenvolvimento “para dentro” com intensa participação do Estado na economia.9). de pequenas dimensões. a partir de ações urbanísticas neles realizadas.

têm “como foco de atenção muito mais a economia política do local do que do território”. Tais empreendimentos podem. p. mas. o Congresso Nacional remeteu ao plano diretor a função de definir a função social da cidade e . a construção de grandes aeroportos. como mostrou Harvey (1996. são outros fenômenos representados no modelo de cidade fragmentada. o Estado tendeu a direcionar suas ações para a oferta de infraestrutura e para empreendimentos de grande porte como. com ênfase em projetos pontuais e seletivamente localizados no território da cidade ou da metrópole. por exemplo. fortemente baseado em normas. Faliram também. e/ou para o embelezamento de áreas específicas da cidade que apresentavam potencialidades turísticas ou comerciais. leis e ações criadas pelo Estado para regularizar e normatizar os diferentes usos dos espaços da cidade” (SOUZA e RODRIGUES. Villaça (1998). contesta a tese da segregação fragmentada. algumas das quais. é claro. Para esse autor. 53). ressalte-se. o fortalecimento dos movimentos populares verificados a partir do final da década de 1970. É nesse contexto de agravamento da crise fiscal. que os investimentos do Estado brasileiro se retraíram e o planejamento de cunho globalizante perdeu espaço para os modelos de empresariamento urbano. as tentativas de planejamento e gestão metropolitanos levadas a cabo no regime autoritário. Por outro lado. eram frutos de planos de estruturação metropolitana que contemplavam uma visão de estrutura intra-urbana. Floresceu o ideário neoliberal e a prática do planejamento estratégico. sobraram pouco espaço e interesse no debate sobre a estrutura intra-urbana ou mesmo sobre o ordenamento territorial da cidade como um todo. Ao analisar as estruturas intra-urbanas das metrópoles brasileiras. a partir da década de 1970. Num quadro em que as ações estatais na cidade passaram a se fazer de modo a atender a interesses pulverizados e localizados. A partir dos anos 1980 e. inserindo a necessidade da participação popular nos mesmos. p. 2004.. portos. sobretudo nos anos 1990. centros esportivos ou de convenções para realização de grandes eventos. começaram um processo de suburbanização que se manifesta segundo setores de círculos. enfraqueceu “o antigo planejamento regulatório. Impossibilitados de chegar a um acordo sobre a Emenda popular da Reforma Urbana. e a mobilização em prol da reforma urbana com vistas à Constituinte nos anos 1980. Mais preocupado com a provisão de meios para aumentar a competitividade urbana. que por muito tempo ocuparam posições centrais. etc. as classes de maior renda. no caso brasileiro.quer seja como fruto de uma estratégia de valorização do “local” para fins de exploração turística –. deram início à politização do debate sobre os processos de planejamento e de gestão urbanos. num esforço de gerar empregos e aquecer a economia local. ser vistos como forma de gerar benefícios para populações urbanas. 51). mostrando que aqui os bairros da alta renda se aproximam uns dos outros. o processo de abertura política do país.

tenham sido mais fruto da partilha dos pedaços da cidade entre os diversos agentes do que de um projeto espacial integrado e de cunho globalizante. o Estatuto da Cidade (Lei Federal 10. especialmente nas áreas mais pobres. incluiu neles: os objetivos. “reforçando o papel do Estado e imaginando a cidade conduzida por planos diretores competentes” (p. nos processos de elaboração dos planos diretores. temas prioritários e estratégias para o desenvolvimento da cidade e reorganização territorial do município. a regulamentação do uso. Ainda não se tem uma avaliação nacional consolidada das experiências dos planos diretores participativos. plano diretor com plano de desenvolvimento municipal. portadores de distintas lógicas espaciais.357) e vinha de encontro às práticas de gestão urbana. os instrumentos de gestão democrática do Sistema de Acompanhamento e Controle Social. 2005) que estabeleceu os conteúdos mínimos dos planos diretores.257/2001) regulamentou as condições de obrigatoriedade do plano diretor participativoxi juntamente com a aplicação de outros instrumentos de política urbana. que se disseminavam nas cidades brasileiras. plano de ordenamento territorial com plano de desenvolvimento sócio-econômico. . não implicam necessariamente na necessidade de acordar uma proposta de estrutura intra-urbana. e conseqüentemente das estruturas intra-urbanas. acabou obliterado pelas discussões sobre as políticas setoriais. essa lei federal não faz referência direta à necessidade de considerar as estruturas intra-urbanas nos planos diretores. notadamente no que concerne aos avanços e dificuldades enfrentadas na formulação das propostas de ordenamento territorial. parece ter predominado a visão de que o ordenamento territorial intra-urbano se faz a partir da fragmentação do espaço da cidade em pedaços e da sua partilha entre diferentes agentes sociais. por todas as dificuldades já expostas. A Resolução 34 de 01/07/2005 do Conselho das Cidades/Ministério das Cidades (BRASIL. Diante da falta de consenso sobre o escopo do plano diretor e face às enormes carências de equipamentos e serviços urbanos e comunitários. a definição da localização. Confunde-se planejamento urbano com planejamento municipal. Só treze anos após a Constituição Federal. quando discutidas com a sociedade.da propriedade urbana. Dito de outra forma. Esses elementos. que são as que são mais facilmente percebidas pelos agentes e movimentos sociais. Embora tenha destacado a dimensão do ordenamento territorial urbano. Mas. é de se supor que as tais propostas. e. da ocupação e do mecanismo de regularização fundiária das ZEIS. Para Rolnik (1993) o modelo de planejamento urbano que emergiu na Constituição Federal de 1988 foi o mesmo modelo conservador. só para citar alguns dos matizes que o debate e a prática do planejamento urbano têm enfrentado no Brasil desde o Estatuto da Cidade. e por outras mais que não foi possível aqui desenvolver. o debate sobre o ordenamento territorial. baseadas no empreendedorismo. em grande número de cidades.

as análises urbanas tendiam a abandonar a dimensão do espaço geográfico em favor de uma perspectiva que privilegiava aspectos de natureza eminentemente econômica. que passou a advogar ou a legitimar com seu discurso e/ou com suas práticas. . p. A ideologia de que é impossível regular a cidade total invadiu. se sob a influência dos marxistas. seduziu e reverberou em parte expressiva do mundo técnico e acadêmico. nenhum princípio de racionalidade que a faça inteligível” (SECCHI. A matriz marxista tornou-se hegemônica. Assim. O salto mortal veio quando a idéia de pensar o ordenamento territorial a partir da definição da estrutura intra-urbana foi vinculada às concepções modernistas de cidade-total. A concepção de estrutura intra-urbana. de base neoclássica. ruísse também a idéia de pensar a cidade estruturalmente. no qual não é possível reconhecer nenhuma regra de ordem.formando manchas mais ou menos articuladas por redes de infra-estrutura. A idéia da cidade como conjunto de fragmentos se tornou hegemônica. integrado e contraditório. e em especial após os anos sessenta. social e política. intervenções pontuais e localizadas na cidade. p. Cidade total x cidade dos fragmentos Procurar entender. 1987. negligenciou o papel do espaço e da dimensão da estrutura intra-urbana. 88). que. fosse substituída por uma idéia de cidade de fragmentos não é tão fácil como parece à primeira vista. a indeterminação e a intensa desconfiança de todos os discursos universais ou (para usar um termo favorito) “totalizantes” são o marco do pensamento pós-moderno (PRECIS. que formulou modelos de estrutura intra-urbana e analisou diversas cidades a partir deles. aproximando-se. o que fez com que. no que concerne ao ordenamento territorial. sob a influência pós-moderna. 1993. 2006. foi associada às metanarrativas e metateoriasxii. no bojo da crítica pós-moderna. a cidade deixou de ser vista como uma totalidade e passou a ser encarada “como um confuso amálgama de fragmentos heterogêneos. e a matriz gerada a partir da escola de sociologia urbana francesa de influência marxista. junto com os pressupostos e modelos de inspiração neoclássica. apud HARVEY. se chocam duas as matrizes teóricas na análise do espaço intra-urbano: a matriz gerada a partir da Escola de Chicago. A partir da década de 50. Aqui apenas algumas hipóteses são arroladas na busca de compreender esse processo. pelo menos no início. 19)xiii. A fragmentação. o que fez com que a visão da cidade como um todo. reforçando amplamente a descrença nas possibilidades do planejamento urbano estatal conduzir um processo de ordenamento territorial de cunho totalizante. nos meios acadêmicos e políticos. do ponto de vista teórico. sobretudo de circulação.

sobremaneira. bem como dos instrumentos necessários para viabilizá-la. Embora apresente uma diversidade de formas de ocupação territorial e represente tempos históricos distintos. mas também existe o todoxiv. a cidade da acumulação flexível. associadas à dificuldade das pessoas comuns e de alguns quadros técnicos das Prefeituras realizarem uma leitura estrutural do espaço intraurbano. a soma dos interesses dos grupos envolvidos no processo de . portanto. com o apoio de parte da esquerda. da desregulamentação. deve contemplar ações em termos dos seus elementos estruturadores. essa hegemonia representa um retrocesso em termos de planejamento urbano. associado à ênfase conferida a práticas do empreendedorismo urbano. É sobejamente sabido que as propostas de intervenção urbana.ora das posturas e das estratégias neoliberais do Estado mínimo. as diversas áreas que integram o espaço urbano e o espaço metropolitano compõem um conjunto articulado e hierarquizado. mais adequado às novas necessidades do desenvolvimento capitalista. Como mencionado. capazes de agregar as suas diversas partes em um tecido único. desenvolvidas no âmbito do processo de planejamento urbano brasileiro. Conclusões O presente ensaio procurou destacar que um dos requisitos necessários para que o planejamento urbano possa promover ordenamento territorial da cidade é uma definição clara da estrutura intra-urbana futura desejada no plano diretor. além de ter como diretriz a valorização das especificidades dos lugares. do Estado empreendedor encontrou. Sem dúvida. têm contribuído. o modelo de tratamento e de intervenção urbana mais flexível e. qualquer proposta de ordenamento territorial.. baseada no urbanismo de projetos. Com a falência do debate sobre as estruturas intra-urbanas. O destaque conferido aos estudos de segregação. Mesmo que se observe a presença de espaços fragmentados e de descontinuidades espaciais. para que a visão estrutural da cidade torne-se cada vez menos considerada nos processos de planejamento urbano. 2005). os vários segmentos do espaço urbano fazem parte de um único território. do neoliberalismo. Entretanto. o que contribui para uma maior eqüidade social. plenamente justificado por argumentos de justiça social. econômica e espacial da coletividade (LACERDA et al. Mas. existem as partes. e suas formalizações nos planos diretores urbanos. os estudos sobre a estrutura intra-urbana vêm sendo negligenciados por grande parte daqueles que têm procurado entender a dinâmica urbana e intervir no ordenamento territorial intra-urbano através de plano diretor. refletem os interesses vitoriosos no âmbito da luta pela apropriação dos benefícios da urbanização. Assim. incluindo as redes de mobilidade e de serviços. ora do laissez faire urbano mesmo.

(Coord. ed. O grande desafio parece ser como costurar. p. O espaço urbano. da Universidade de São Paulo. A abordagem estruturalista das ciências humanas. CORRÊA. 3ª. São Paulo: Ed. 2005. 10. Roberto Lobato.86. 11 jul. Roger. Santiago. nem outro desses discursos é suficiente para o estabelecimento de uma relação consistente entre planejamento urbano. Referências ARAÚJO. Curitiba: Ed. não raras vezes. Diário Oficial [da] República Federativa do Brasil. Ed. ed. v. Hoje. 1971. Empreendedorismo urbano: entre o discurso e a prática. como se o conhecimento técnico e científico sobre a cidade não pudesse e/ou devesse contribuir para uma prática mais comprometida com princípios de justiça social e para a melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Introdução à filosofia da ciência. 1989. 3ª. Regulamenta os artigos 182 e 183 da Constituição Federal. CARNOY. expressa no conjunto de propostas de ordenamento territorial acordadas e cristalizadas nos planos. Martin. São Paulo: Editora UNESP. In. BORSDORF. nem sempre resulta numa visão estrutural coerente. . Hoje. quase sempre antagônicos. Cómo modelar el desarrollo y la dinámica de la ciudad latinoamericana. os interesses de grupos diversos. ____. n. Lei n. Inês Lacerda. A necessidade de conduzir um processo de definição da estrutura intra-urbana coloca em evidência a discussão sobre o papel das equipes técnicas das prefeituras no processo de planejamento urbano e de elaboração dos planos diretores. Herder. estruturação intraurbana e ordenamento espacial necessário às cidades brasileiras. Como se a responsabilidade social de buscar e apreender o conhecimento científico e técnico sobre o ordenamento territorial urbano fosse do cidadão comum ou. de 10 de julho de 2001. Brasília-DF. Houve um momento na história do planejamento urbano no Brasil que se adotou o primado do discurso competente. comprometida com princípios de equidade e justiça social. funções de meras espectadoras e sistematizadoras dos resultados dos debates políticos travados no seio da sociedade civil organizada. Estado e teoria política.37-49. do ponto de vista técnico e político.257. COMPANS. Rose. parecer que estamos vivendo o primado do discurso meramente político. a essas equipes. 119-143. estabelece diretrizes gerais da política urbana e dá outras providências.29. Campinas: Papirus.) Usos e sentidos do termo estrutura nas ciências humanas e sociais. Nem um. 1988. Axel. São Paulo: Ática. 2003. BASTIDE. 2003. têm sido atribuído. UFPR. 2001.planejamento. BRASIL. EURE. pior ainda. mai. p. de modo a configurar uma proposta estrutural integrada e consistente de cidade.

v. 1998. 142 p. 2ª ed. p.São Paulo: Núcleo de Estudos Regionais e Urbanos. 437-440.4. 39. Suely. Planejamento urbano nos anos 90. 2003. Mauad. São Paulo: Studio Nobel. Planos diretores municipais: aspectos legais e conceituais. dos (Orgs. A model of Latin American city structure. 1977. 4ª ed. Urbanismo no Brasil: 1895-1965. A natureza do espaço: técnica e tempo. FORD L. GÜELL. Milton. 2007. SANTOS. 2002. n. E. GRIFFIN. SOUZA. L. ROLNIK. L. 1977. p.). 154.11-20. n.1. São Paulo: Arte Nova. Estrutura. Ciudad y território: estúdios territoriales. Frederico Roman. JANOSCHKA. HARVEY. Rio de RAMOS. A condição pós-moderna. mai. n. David. Recife: Ed. 25 años de planificación estratégica de ciudades. O. razão e emoção. A cidade intencional: o planejamento estratégico de cidades. 86. 1999.55-72. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais. Raquel. Ano XVI n. n. Fetiche da participação popular: novas práticas de planejamento. 2008. v. FORD. 397-422.1. Rio de Janeiro: Bertrand do Brasil. 2006. RODRIGUES. globo. O caminho da servidão. Capitalismo e liberdade. 1994. Porto Alegre: Ed. FRIEDMAN. Políticas urbanas em renovação: uma leitura crítica dos modelos emergentes. p. 34. 28. Globalização. n. Marcelo Lopes. 2003 [CD-Rom].1.. 1999. Ed. gestão e governança democrática no Recife – Brasil. Estrutura urbana e ecologia humana: a escola sociológica de Chicago (19151940). LACERDA. In: RIBEIRO. FUPAM. XXXIX. LEME. v. Cidades: estratégias gerenciais.115-132. SANTOS. Santiago. Antônio. 2002. 1996. LEAL.48-64. FAUUSP. Fernanda. 1993 ______. v.. Maria Cristina da Silva. SANCHES. 2005. The Geographical Review. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo. HAYEK. A new and improved model of Latin American city structure. Rodrigo. 70. Espaço & debates: Revista de Estudos Regionais e Urbanos. p. EURE. Análise espacial de estruturas intra-urbanas: o caso de São Paulo. Revista Brasileira de Estudos Urbanos e Regionais. 4ª ed. 1996. Dissertação (Mestrado em Sensoriamento Remoto) – Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais do Ministério da Ciência e da Tecnologia. p. LOPES. The Geographical Review. Milton. São Paulo: Curso de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade de São Paulo. Michael. El nuevo modelo de la ciudad latinoamericana: fragmentación y privatización. . ______.EUFRÁSIO. Planejamento urbano e ativismos sociais. Glauco Bruce. do Autor.7. 351-360. n. José Miguel Fernandez. fragmentação e reforma urbana: o futuro das cidades brasileiras na crise. v. Mudar a cidade: uma introdução crítica ao planejamento e à gestão urbanos. São José dos Campos. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira. São Paulo: UNESP. 85. 3. p. Mário A. Janeiro: Ed. 1980. São Paulo: Ana Blume. HOUAISS. p. 1999. R. Dicionário eletrônico da língua portuguesa. Do gerenciamento ao empresariamento: a transformação da administração urbana no capitalismo tardio. v. Friedrich. 2004. Norma et al.

A acessibilidade é. mostra a dificuldade. essa é uma perspectiva reducionista baseada no Manifesto do Partido Comunista. Cabe destacar. forçando-o a desenvolver programas para gerar empregos no setor privado. Corrêa (1989) define áreas segregadas são aquelas que apresentam forte homogeneidade social interna e forte disparidade entre elas. água. Primeira lição de urbanismo. se sobrepôs a outras iniciativas de planejamento de caráter mais globalizante e democrático. utiliza a designação centro ou CBD (Central Business District). no caso das cidades. ao se tornar hegemônico no Rio de Janeiro. a acessibilidade. nos primeiros escritos de Marx e Engels e em algumas idéias de Lenin sobre o Estado capitalista. i Para os neoliberais a intervenção e o planejamento estatais devem ser mínimos. Espaço Intra-urbano no Brasil. contudo. limitados aos setores e segmentos que não interessam ao capital ou que obstaculizam a livre ação das forças do mercado (HAYEK. dentre os quais. Sobre a crítica a essa visão marxista do Estado capitalista ver Carnoy (1988). negociados caso a caso. São Paulo: Studio Nobel: FAPESP. 1977. é possível e necessário compatibilizar as ações do plano estratégico com os princípios e normas de ordenamento territorial do plano diretor urbano. normalmente. etc. tais como a associação à idéia de centro tradicional ou centro histórico da cidade ou à vinculação com as noções de centro expandido ou de cidade-pólo de uma área metropolitana. e por permitir maximizar e viabilizar oportunidades circunstanciais oferecidas pelo mercado através de operações específicas. São Paulo: editora da Universidade de São Paulo. seria mais compatível com as demandas de um urbanismo flexível. mostrando como o modelo empreendedor. sobretudo das primeiras. manteve-se a denominação originalmente atribuída nos trabalhos referenciados. submetendo as primeiras ao segundo. quando a cidade os dispõe. 1998. Seguindo o procedimento adotado por Villaça (1998). são majoritariamente representados pelo sistema viário e pelos eixos de circulação de trens e metrôs. energia. O processo de urbanização no Brasil.SECCHI. inclusive aqueles de natureza urbana como as infra-estruturas de transportes. esgoto. Nos estudos de estrutura intra-urbana a noção de segregação está. os quais. 1977). Para esse autor. Bernardo. ii iii A crise welfare state keneysiano teria forçado os governos locais a assumirem o papel de protagonistas do desenvolvimento econômico urbano.). inibindo o seu desenvolvimento. Segundo Lopes (1998). optou-se pela denominação “núcleo de comércio e serviços” em substituição a “centro urbano” visando a evitar a variedade de realidades relacionadas ao termo centro urbano. contudo. Lincoln Institute. VILLAÇA. 2006. 169-243. 2004. cabem ao setor privado todas as atividades e serviços passíveis de serem realizados sob a ótica do lucro. Csaba. In: DEÁK. Suely Ramos (Orgs. vinculada à de separação espacial da população segundo estratos de renda. por estar baseado em projetos específicos. FRIEDMAN. evitar que as elites hegemônicas controlem o processo de decisão sobre as ações estratégicas. Na referência a tais casos. a possibilidade de deslocamento de pessoas e mercadorias. e promoveu a alteração de índices e normas urbanísticas. SCHIFFER. Diante da crise fiscal e da escassez de recursos do poder público. vii vi v iv . ou seja. Flávio. Nesse sentido Compans (2005) ilustra. determinada pela presença de canais de deslocamento. onde os mecanismos de participação democrática ainda são frágeis. em uma sociedade como a brasileira. O planejamento estratégico. São Paulo: Perspectiva. que parte expressiva dos estudos intra-urbanos. Sob essa ótica. em grande medida. Uma contribuição para a história do planejamento urbano no Brasil. A localização intra-urbana dos elementos estruturadores da cidade é determinada por diversos fatores. do que os planos diretores tradicionais aprisionados em normas jurídicas e em programas de investimentos mais rígidos. Leal (2003). p. do ponto de vista do território. ______. etc. a saída encontrada foi a parceria entre os setores público e privado com vistas ao aumento da produtividade e da competitividade da cidade num mercado globalizado.

Essa associação da idéia planejamento urbano de cunho totalizante com a visão modernista fica clara quando Harvey (1993. dentre outros. um “palimpsesto” de formas passadas superpostas umas as outras e uma colagem de usos correntes. ajudam a difundir a idéia de prover a cidade com amplos espaços campestres. sustentados por uma arquitetura absolutamente despojada [. 19). O pós-modernismo cultiva. o segundo já colocando em primeiro plano as obras de infraestrutura. tecnologicamente racionais e eficientes. Villaça (1998) e Leme (1999) consideram como marcos dessa transição o Plano de Avenidas de Prestes Maia.viii Uma avaliação crítica detalhada da Escola de Chicago e desses modelos pode se encontrada. integrantes de regiões metropolitanas e de áreas de especial interesse turístico. e o Plano Agache. inseridas na área de influência de empreendimentos ou atividades com significativo impacto ambiental de âmbito regional ou nacional. p. viria decretar o fim das metanarrativas. retomando o pluralismo e a heterogeneidade dos estilos de vida (EAGLETON. Estes clubes. ao mesmo tempo em que criam amplos espaços de lazer para camadas de média e alta renda.]. da razão manipuladora e do fetiche da totalidade propalados pelo modernismo. xiii xii xi x ix O pós-modernismo. então. para o Rio de Janeiro.. para São Paulo. Com o Estatuto da Cidade foram obrigadas a elaborar Planos Diretores todas as cidades: com mais de vinte mil habitantes. muitos dos quais podem ser efêmeros”. em vez disso. 69) afirma que “o planejamento e o desenvolvimento urbanos modernistas se concentravam em planos urbanos de larga escala. de alcance metropolitano.. . em Eufrásio (1999). 1993. p. um conceito do tecido urbano como algo necessariamente fragmentado. O primeiro ainda preso às formulações de embelezamento urbano. 1984 apud HARVEY. principalmente de saneamento e transporte.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful