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O homo cyber: projeção social, reificação e fetichismo digital

Benito Eduardo Araujo Maeso 1

Resumo Trata-se de analisar de que forma o advento da sociedade capitalista de informação (ou, usando a terminologia deleuziana, sociedade de controle) altera as formas de contato entre os indivíduos e de que forma o processo de fetichização ocorre neste cenário, observando de forma mais atenta o surgimento de uma nova dimensão do indivíduo e a localização de um elemento fetichista na relação deste com o que é externo a ele (com a alteridade) em dispositivos-chave desta nova conformação so-

cial: o contato humano via computador (redes de relacionamento, sites, blogs, foruns

e outros mecanismos similares), assim como observar de que forma este processo reproduz e perpetua a lógica do capital neste modelo social.

Palavras-chave: sociedade de controle, sociedade da informação, sociedade admi- nistrada, fetichismo, duplo, imagem, homo cyber, Adorno, Deleuze

O conceito de fetichismo tem origem no livro de Charles De Brosses “O

Culto dos Deuses-fetiche”, de 1760, onde ao analisar os códigos socio-religiosos de

tribos africanas, o autor lança mão da palavra “feitiço”, ou no português arcaico “fe-

tisso”, para significar o processo de atribuir poderes sobre ou supernaturais a ani-

mais ou objetos inanimados. De Brosses usa o conceito como um fator de clivagem

entre a sociedade europeia “esclarecida” e as sociedades “primitivas” da África, Ásia

ou America Latina. Deixando-se de lado o fato de que a transubstanciação na missa

é um processo no qual propriedades mágicas são atribuídas a seres inanimados, o

conceito de De Brosses encontrou rápido abrigo no pensamento ocidental a partir de

seu surgimento. Mais tarde, é invocado com o devido reposicionamento por Marx,

Freud e Adorno. Fetichismo passa a ser o posicionamento do objeto de fetiche em

um grau no qual ele transcende sua “materialidade” e passa a significar muito mais

do que é. A característica ”suprasensível” da mercadoria em Marx é um bom exem-

plo disso, assim como a análise freudiana do desejo voltado a partes específicas do

corpo (ou objetos) - quando o desejo pela parte oblitera a noção de Todo na sexuali-

dade - e a crítica adorniana ao surgimento da racionalidade voltada a fins (a razão

instrumental), ao “endeusamento” da técnica e ao movimento de pastichização das

manifestações culturais, incluindo-se aí a música, a linguagem e a comunicação. A

1 Aluno do programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade de São Paulo – PPGDF/FFLCH/USP

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semicultura, o saber de almanaque, o pensamento por imagens e a fragmentação promovidas pela Indústria Cultural também seguem, dentro desta perspectiva, a mesma dinâmica. Ao olharmos a contemporaneidade - e suas mutações na forma de apresentação e funcionamento dos dispositivos econômicos da sociedade e a consequente mudança nas superestruturas que as rodeiam - é possível localizar diversos elementos de fetiche na relação do indivíduo com o que é externo a ele (com a alteridade). Neste artigo, busca-se a localização deste processo em um dispositivo-chave desta nova conformação social: o contato humano via computador (redes de relacionamento, sites, blogs, foruns e outros mecanismos similares). Trata-se de analisar de que forma o advento da sociedade capitalista de informação (ou, usando a terminologia deleuziana, sociedade de controle) altera as formas de contato entre os indivíduos e de que forma o processo de fetichização ocorre neste cenário.

Mudanças estruturais, velhos e novos fetiches

O advento da sociedade da informação traz consigo uma mutação na forma de apresentação e funcionamento dos dispositivos econômicos da sociedade. Se, como observa Deleuze 2 , o capitalismo se tornou de sobreprodução e dirigido para o produto - tendo a fábrica cedido seu lugar à empresa - este novo capitalismo, dito cognitivo ou informacional e onde há a necessidade de circulação rápida dos valores pelos mercados mundiais, exige o desenvolvimento de um arsenal que permita este fluxo: as novas tecnologias de comunicação e informação, expressas na machina machinarum, o computador pessoal, presente hoje em tantas instâncias quanto possível em nossas vidas. Conforme DELEUZE,

”É fácil fazer corresponder a cada sociedade certos tipos de máquina (…) porque elas exprimem as formas sociais capazes de lhes darem nascimento e utilizá-las. (…)as sociedades disciplinares re- centes tinham por equipamento máquinas energéticas, com o perigo passivo da entropia e o perigo ativo da sabotagem; as sociedades de controle operam por máquinas de uma terceira espécie, máquinas de informática e computadores, cujo perigo passivo é a interferência, e o ativo a pirataria e a introdução de vírus. Não é uma evolução tec-

2 Em Post-scriptum sobre as Sociedades de Controle, publicado em Conversações: 1972-1990. RJ, Ed 34, 1992

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nológica

capitalismo.” 3

sem

ser,

mais

profundamente,

uma

mutação

do

A mutação também se torna visível na mensagem das ferramentas de formação de consciências da Indústria Cultural, onde presenciamos o deslocamento do discurso do pertencimento, que refletia a massificação e uniformização da sociedade “administrada”, para a promoção de uma segmentação maior: da ideia de coletividade, passamos às demandas de grupos específicos e por fim à valorização exacerbada do individualismo. Apesar da mudança na forma do discurso, seu conteúdo e significado permanecem os mesmos. Não à toa, Adorno nos lembra que “para todos, algo está previsto; para que ninguém escape, as distorções são acentuadas e difundidas 4 ”. Hoje, esse discurso glorifica não mais a simples inclusão econômica no sistema, mas sim uma pretensa liberdade de ação e escolha. A liberdade é prometida (seja a de selecionar produtos, ideologias, informação ou acesso à tecnologia), mas ela só se dá na escolha de opções que já estão definidas previamente e que adquirem um caráter quase mágico para aquele que escolhe. O próprio conceito de democracia tecnológica on-line só pode ser experienciado pelo indivíduo que tenha o acesso ou posse da máquina que define esta sociedade e que funciona como uma franqueadora a uma nova realidade, dita virtual. A possibilidade de acesso às novas TICs é o que autoriza o ingresso neste novo sistema, e ambos são posicionados no espaço (o meio físico – a máquina), no trabalho (tangível – hardware - ou intangível – softwares) e no tempo, uma mercadoria comercializada de forma limitada ou contínua (pacotes de acesso, uso de lan houses, etc.): uma relação de capital. Ou como diria Adorno, "os reis não controlam a técnica mais do que os comerciantes: ela é tão democrática quanto o sistema econômico no qual se desenvolve" 5 . Para entender como este processo ocorre, é necessário o resgate do conceito marxiano do fetichismo da mercadoria, ou quando esta se mostra não como resultado da relação de produção e trabalho e sim como uma realidade autônoma, deificada e determinante da vida dos homens. Ao retirarmos da mercadoria seu valor

3 DELEUZE, op.cit, p. 252

4 ADORNO, T.W. Dialética do Esclarecimento, pág. 116

5 ADORNO, T. W. Dialética do Esclarecimento, pg. 20.

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de uso e a traduzirmos pelo valor de troca, desaparecem dela os traços do próprio trabalho humano envolvido em sua confecção. Mais do que isso, a mercadoria passa a ter um valor sígnico que transcende o objeto em si, que representa muito mais do que o valor de produção ou o valor de revenda. O fascínio que os produtos do avanço tecnológico exercem sobre as pessoas é considerado por Adorno como exemplo deste fato: nossa relação com tais produtos ganha até mesmo certa dimensão emocional - as filas antes do lançamento do novo telefone ou as brigas de cada usuário com seu computador em um momento de pane são exemplos interessantes deste contato. Do sítio de notícias ou de relacionamentos ao mais novo gadget, não se consomem produtos, mas sim estilos de vida cristalizados em tais objetos. Atribuir características humanas ou poderes sobrehumanos (ou até estilos de voda) a objetos inanimados é, por definição, o processo do fetichismo, perceptível nas mercadorias, bens de consumo, culturais ou tecnológicos. Mas a mudança trazida pela sociedade da informação permite ampliar esta operação para além da mercadoria e diagnosticá-la até mesmo na inter-relação humana.

O fetichismo da imagem/informação do Eu/Outro A sociedade da informação é, em sua essência, um exemplo claro do que Debord chamou de espetacular: tudo se mostra de forma clara, sem nuances, e si- multaneamente. A velocidade, o volume e a facilidade de acesso a todo tipo de in- formação sobre empresas, governos e pessoas - características basilares deste sis- tema - modificam a percepção das pessoas em relação ao que é externo a elas. A ideia de privacidade sofre uma profunda modificação e passamos a julgar os outros - e estabelecer conceitos sobre os demais - de acordo com o que nos é mostrado ou está disponível para consulta. Da mesma forma, você é julgado pelo que mostra, não pelo que é. No mundo dos negócios, se diz que Imagem não é aquilo que se vê de uma empresa, e sim o que esta projeta ao público. Analogamente, a imagem de uma pessoa pode ser entendida como a forma pela qual ela se mostra ao outro. Esta mediação na relação do ser com o real afeta o indivíduo em três frentes: consigo mesmo, com o outro e com o espaço que o cerca. Ao mesmo tempo que a nossa sociedade se integra cada vez mais, ela gera tendências de

5

desagregação em seu tecido, abaixo da aparência de evolução. Adorno considera isto a "claustrofobia das pessoas no mundo administrado, um sentimento de encontrar-se enclausurado numa situação cada vez mais socializada, como uma rede densamente interconectada 6 ". O apaziguamento desta tendência de desagregação, antes que esta gere algum tipo de ameaça ao sistema vigente, se dá

por meio de uma virtualização, um "tornar-se abstrato em relação ao real" 7 , uma perda de conexão entre o ser e sua representação.

É interessante observar que o capitalismo informacional promove

também um rearranjo na disposição espaço-temporal e cognitiva dos mundos do trabalho e lazer na vida do individuo: cada vez mais as pessoas abdicam do espaço

público para exercer seu tempo de trabalho e usufruir seu tempo livre sem sair de casa, até mesmo simultaneamente, usando as ferramentas de conexão com o mundo exterior (TV, computador, programas de mensagens instantâneas, telefone). Ao mesmo tempo, estes meios permitem a geração de redes de relacionamento virtual onde as pessoas se aproximam por afinidade de interesses, mas fisicamente estão separadas por distâncias imensas.

O resultado é uma transformação nas formas de interação humana e

reconhecimento do outro: a experiência do contato físico com o externo é precedida, substituída ou complementada pelo contato virtual, um simulacro. Não vamos ao museu, visitamos seus sítios na Internet ou recebemos fotos das obras em arquivos por correio eletrônico. Por mensagens instantâneas, redes de relacionamento e universos paralelos, criamos, reproduzimos e substituímos a inter-relação pessoal. Este processo chama a atenção por operar simultaneamente nas esferas racional e pulsional. A reprodutibilidade e difusão da informação, além de modificar a relação da massa e do indivíduo frente a ela 8 , agora é aplicada na relação interpessoal, gerando (comparativamente) a perda da aura de cada indivíduo pela banalização da experiência emocional, ou a transformação das emoções em objetos seriais. Conforme VIRILIO,

6 ADORNO, T. W. Educação após Auschwitz, pág 122

7

O

d a

P a s s i v a .

K r i s i s .

D i s p .

e m

.

8 Um conceito emprestado da idéia de aura e reprodutibilidade em Walter Benjamin. A reprodução seriada da arte modifica a relação do espectador com a obra. Em vez da reverência e assombro que se sente perante a contemplação da obra de arte em si, temos uma banalização do objeto, que perde seu caráter único. A reprodução transcende o objeto reproduzido. Analoga- mente, a replicação via tecnologia das relações entre sujeitos hiper-reais (super-expostos) banaliza a relação real em si. Isso é possível ao aproximarmos arte e emoção como estímulos de informação.

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“A partir do século 19 assistimos à emergência de um fenômeno importante, que foi a padronização. Ocorreu a padronização dos objetos com a Revolução Industrial. Ocorreu uma padronização de opiniões, que falseia a democracia na medida em que a informação é apresentada de uma só maneira. Entramos agora no século 21 com algo bem mais agudo, bem mais grave, que é a "sincronização das emoções" 9

Busca-se no contato com o semelhante a mesma coisa que se busca nos bens culturais e nos produtos do capital - estímulo 10 e sincronia 11 emocional. Se, por um lado, o estímulo para o consumo se dá pelo imperativo do gozo 12 , este se torna produto do mercado, pois é produzido ou estimulado artificialmente para que gere o consumo desejado. O direito ao prazer passa a estar diretamente relacionado ao dever de consumir.Analogamente, o produto-emoção precisa ser constantemente (re)produzido serialmente para satisfazer o que Adorno chama de “pseudo-individua- lização 13 ”: a homogeneidade sob uma impressão de diferença. Nisso, a seara do ciberespaço se mostra um campo fértil para esta tarefa: um terreno onde é possível agir de modo a satisfazer pulsões e instintos antes reprimidos. Para interagir nos ambientes virtuais, o indivíduo cria racionalmente uma identidade ou avatar, uma projeção de seu ideal de aparência, êxito econômico ou bagagem cultural – ou talvez a de seus desejos e conflitos rumo a um apaziguamento - e joga suas frustrações, as nega ou sublima no ideal que cria para si, uma persona gerada para interagir em um terreno inexplorado, sem substrato concreto mas com influência real e no real. Um package de dados como o de todos os que operam no meio, mas ao qual atribuímos significado único. Na esfera virtual todos os homens podem ser atléticos e todas as mulheres possuírem medidas corporais dignas de uma modelo,

9 VIRILIO, P. Entrevista à Folha de SP, 2003

10 Para nós

11 Em relação aos outros

12 "Lembremos que o discurso do capitalismo contemporâneo precisa da procura ao gozo que impulsiona a plasticidade infi- nita da produção das possibilidades de escolha no universo do consumo. Ele precisa da regulação do gozo no interior de um universo mercantil estruturado. Ou seja, não mais a repressão ao gozo, mas o gozo como imperativo". SAFATLE, V. Pós- modernidade: utopia do capitalismo. Trópico, 2007

13 ADORNO, T. W. Moda Intemporal – sobre o jazz. In Prismas: critica cultural e sociedade.

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ou pelo menos podem declarar isto para que os outros acreditem no que é dito, ao buscarem emoção e interação com o próximo 14 . A inserção do indivíduo no universo virtual-real se dá através de um processo complexo de criação de um duplo-perfeito, um alter-ego que corresponde simultaneamente ao ideal imaginado pelo indivíduo para si e ao que ele tenta permitir aos outros acreditar que corresponda a ele. Esta projeção é transportada conscientemente a um terreno (o universo paralelo/virtual) onde se transforma em real por reconhecimento. Desejamos ser vistos como permitimos aos outros nos verem e como desejamos ver o outro. Paradoxalmente, ao preencher ambas as categorias, este objeto virtual fracassa em atingir o objetivo inicial de seu criador, pois o receptor da mensagem também pode projetar emoções e características ideais para si sobre este objeto, que teoricamente representa o ideal de perfeição de outra pessoa. Assim, o objeto é visto como perfeito (mesmo em suas falhas) tanto para quem o cria como para quem o vê, pois se torna foco da projeção destes ideais de cada uma das partes envolvidas nessa relação. Entendendo a imagem como o que transmitimos ao outro, pode-se supor que o contato entre duas pessoas foi substituído neste terreno pelo contato entre duas imagens, mas simultaneamente o indivíduo tenta projetar a sua imagem e se relacionar com a projeção que faz sobre o que é a imagem do outro. Ou seja, a relação se dá entre o que o ser deseja projetar de si com aquilo que se projeta sobre o outro, o que gera uma terceira imagem dissociada de ambas, na qual se toma a projeção como realidade. Isto é, em si, uma operação na qual se atribuem características sobrenaturais (entendendo este termo, agora, como as expectativas irrealizáveis, idealizadas e projetadas sobre seu duplo/avatar ou sobre o de outrem) ou até mesmo humanas a este objeto que não é concreto, mas imaginário, imagético e real. O fetichismo na relação com o outro chega, ao limite, a uma relação de si consigo mesmo, pois toda a percepção da alteridade nesse caso passa por despir o outro de suas características reais (ou ao menos do que este outro busca comunicar: sua imagem) e substitui-las pelo que projetamos a respeito deste outro, criando um novo

14 Online Dating Survey, NetRatings, 2006: 33% dos entrevistados usam a web como meio para estabelecer e buscar relaci- onamentos emocionais. Na pesquisa, foram perguntados os motivos pelos quais a pessoa se dispõe a contatar a outra visando aprofundar a relação: os homens declararam terem gostado da foto da outra pessoa e as mulheres, a descrição pessoal. Basi- camente, estímulo visual e uma pressuposição de veracidade da fonte, o que lhe dá credibilidade: ambas experiências de impressão. Experiências virtuais.

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objeto imaginário a partir de nós mesmos, mas com um tipo de mediação externa, como um retorno da pulsão após ser direcionada ao mundo. Não nos relacionamos com o outro, e sim com aquilo que projetamos nesta imagem do outro, o que corresponde a uma ficção - um relacionar-se com o Eu sob a ilusão de um Outro que, para todos os efeitos, não existe. Ao abarcar ao mesmo tempo dois ideais de perfeição, o duplo assume as características projetadas por quem o manuseia. Simultaneamente, ele pode expressar os anseios tanto de seu criador como de seu receptor. Esta dualidade acaba por expor, inadvertidamente, o divórcio interno do sujeito, separado entre sua auto-imagem e sua imagem social, na busca desta interação com o outro 15 . Assim, concretiza-se a passagem do “ser” para o “parecer”: a individualidade passa a ser definida por referências externas voláteis e o homem sai da esfera pública de ação para “agir” em um campo onde se sente acolhido, tendo a ilusão de relevância. Agora as relações humanas são administradas e transformadas em um fetiche só alcançável a quem detiver seu objeto mágico.

O agir social e a falsa projeção A aglutinação crescente das pessoas/cidadãos/consumidores nas proto-sociedades e em redes de relacionamento - nas suas relações de trabalho, sociais ou culturais - se dá por interesses, visões e gostos semelhantes e cumpre uma dupla função: sua divisão em mercados-alvo e o apaziguamento da dimensão social do ser. A idéia de coletividade passa a ser virtual também, e este novo terreno proto-social embute em sua constituição a mesma relação capital-trabalho do antigo sistema, porém acrescida da manipulação da emoção em prol do capital e acaba por eliminar as interferências no fluxo de informação e mercadoria: a relação capital-consumidor se dá sem mediadores 16 ou regulação. A promessa de igualdade do capitalismo clássico se metamorfoseia na igualdade perante a @, uma "igualdade" financeira, informacional, cultural e também

15 “Estudo realizado nos Estados Unidos concluiu que 81% das pessoas que buscam parceiros em sites de namoros virtuais mentem sobre suas características. Os homens mentem mais sobre a sua altura, enquanto as mulheres preferem mentir sobre o peso. Já a idade real não motiva tanta mentira. A pesquisa indica que ‘os participantes tentam equilibrar a tensão entre parecer atraente e passar a impressão de honesto’. GAZETA DO POVO, pág 1. Edição 28.352. Data: 19/06/2007

16 Citando Lévy, um dos principais teóricos deste novo modelo integrado de sociedade, “O público poderá influenciar as

grandes empresas através de suas compras (

tários controlados pelo mercado virtual e regulamentados pelas leis de um governo mundial ciberdemocrático. As

As grandes empresas fornecerão uma espécie de serviços públicos plane-

que não conseguirem fazer isso desaparecerão.”

).

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emocional. Todos podem sentir as mesmas emoções “únicas”. Todos escolhem o que quiserem dentro de todo o caldo de informação. Todos podem e cada um pode chegar lá, desde que façam parte do sistema. A santa paz dos consumidores se desenha nos objetos-alvo do fetiche: a pulsão domesticada e a troca entre capital e informação, emoções, bens e serviços. Tudo isso sem interferências, através de uma cultura de consumo com sinais trocados: inclusão e singularidade, unidos pela onipresente e confiável democracia técnica 17 . Como as emoções se tornam produto do mercado – ou as necessidades emocionais são produzidas e trocadas livremente neste mercado social – a sua “sincronização” se assemelha a um comportamento tribal, onde o consumo do bem cultural ou físico serve como amálgama da identidade do grupo e tanto da igualdade como da singularidade de seus participantes. O próximo objeto de consumo necessariamente gera novas tribos. A nova febre de relacionamento necessariamente gera novas comunidades virtuais. Assim, a identidade (como idéia de unidade e estabilidade do ser) é substituída pela lógica da identificação ou referência em mutação constante. Esta busca de referencial é movida pela condição de desamparo em que se encontra o sujeito contemporâneo e pelos estímulos do mercado virtual-social. Cria-se, nesta relação entre estrutura, informação e psicologia, uma espécie de indiferença a si e ao outro: a indiferenciação, a pressão social por essa homogeneização de pensamento, a administração de massas fornecendo um simulacro de individualidade que no final é um individualismo, uma individuação. O homem desconectado/hiperconectado e coisificado não é sujeito da sua própria história. Não se reconhece como ser: “não se está mais diante do par massa-indivíduo. Os indivíduos tornaram-se dividuais, divisíveis, e as massas tornaram-se amostras, dados, mercados ou 'bancos” 18 . Da mesma forma, as reações do indivíduo dentro desta coletividade passam a seguir uma dinâmica semelhante à descrita anteriormente: se o Outro não possui mais atributos próprios e sim os que são a ele atribuídos pelo indivíduo, tendo

17 Paul Virilio diria que “A grande ameaça da Internet para a democracia é a sua aparência de idéia, um megacérebro onde

todo mundo está conectado com todo mundo e é suficiente fazer uma pergunta para obter uma resposta. (

da interatividade conduzem-nos a uma democracia cibernética que, deixando de ser representativa, se torna presentativa, de

demonstrativa se torna mostrativa, quer dizer alucinante, como a mídia”. Podemos expandir esta análise pegando emprestado um conceito da Semiótica: estaríamos no alvorecer da sociedade do índice, onde o sujeito e o objeto estão ligados por uma relação funcional que dá autenticidade ao significado. Se, comparativamente, devemos acreditar que o relógio indica corre- tamente as horas, pois esta é sua função, o estímulo de consumo, informação ou emoção enviado nada mais é que a expres- são autêntica de uma verdade inquestionável, pois a transmissão deste estímulo é apenas a função do meio eletrônico.

) As tecnologias

18 DELEUZE, Giles. Post-scriptum sobre as sociedades de Controle, Pág.3

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sido transformado em objeto, estes novos significados tem o potencial de justificar qualquer ação do indivíduo ou seu grupo em relação a este objeto. Se esta operação projetiva/fetichista é visível, por exemplo, na cópia ou na obsessão em relação aos atos das ditas celebridades - cujo comportamento esta sempre submetido ao escrutínio e julgamento de seus assim chamados fãs - pode ser detectada também em comportamentos totalitários ou de intolerância ao diferente, nos quais a ânsia de destruição do que lhe é estranho é o que dá coerência ao grupo. A análise de Adorno e Horkheimer sobre o anti-semitismo e a falsa projeção é certamente pedagógica para entendermos o que leva um sujeito a desenvolver uma conduta que se assujeite ao pensamento e à prática totalitária - ou assumi-la como sua individualidade:

“O anti-semitismo baseia-se numa falsa projeção. Ele é o reverso da mimese genuína, profundamente aparentada à mimese que foi recal- cada, talvez o traço caracterial patológico em que esta se sedimenta. Só a mimese se torna semelhante ao mundo ambiente, a falsa pro- jeção torna o mundo ambiente semelhante a ela” 19

A interdição do reconhecimento do outro via falsa projeção, ou “a estrutura paranóica do Eu moderno que projeta compulsivamente para fora de si sua própria infelicidade, sua própria impossibilidade de se reconhecer no que não se conforma à imagem de si 20 ” tem, como contrapartida, a ilusão de controle e de con- formação do mundo ao Eu, fazendo o indivíduo ignorar completamente as relações estruturais presentes no corpus social e produzir uma falsa segurança de si e para si. A negação da mimese e dos impulsos do id acaba por fazer o indivíduo projetá- los como características do objeto de seu ódio, atribuindo a este objeto o poder de ameaça à integridade do indivíduo. A confusão se forma pelo fato de que, a partir de um determinado ponto, é impossível determinar o que é projeção e o que é intrínse- co ao objeto.

A cólera é descarregada sobre os desamparados que chamam a atenção. E como as vítimas são intercambiáveis segundo a conjuntu- ra: vagabundos, judeus, protestantes, católicos, cada uma delas pode

19 ADORNO, T Dialética

do Esclarecimento, pg. 174

20 SAFATLE, V. Para introduzir a experiência intelectual de Theodor Adorno, publicado em ALMEIDA, Jorge e BADER, Wolfgang; Pensamento alemão contemporâneo, São Paulo: Cosac e Naify, 2009.

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tomar o lugar do assassino, na mesma volúpia cega do homicídio, tão logo se converta na norma e se sinta poderosa enquanto tal 21 .

De certa forma, isso permite o entendimento de fenômenos como o cyberbullying ou a dificuldade dos indivíduos em estabelecerem, nas redes sociais e foruns, chats que não desemboquem em insultos. Ao pensarmos no objeto a ser percebido dentro da dialética Eu/Outro, percebe-se a ausência de reflexão do Outro no Eu. Se a compreensão de si passa por compreender a alteridade, neste compor- tamento isto não ocorre: o Outro se torna apenas o objeto da projeção fetichista do Eu. Consequentemente há apenas a auto-referência e a falsa projeção do Eu sobre o mundo. O não-compreender a si impede até a tentativa de compreensão do que lhe é estranho. O ódio passa a ser a única possibilidade, pois o Eu projeta compulsi- vamente a sua própria infelicidade sobre o outro e assume o discurso de que a culpa por tal infelicidade é da vítima, justificando qualquer ação hostil: desde palavras até ataques. Adorno e Horkheimer chamarão este mecanismo, na Dialética do Esclare- cimento, de projeção patológica: o escape para impulsos agressivos do id como a única ”reação” possível ao “mal” que o mundo exterior ainda não conformado a si reserva ao indivíduo ou grupo. O outro é de certa forma endeusado, mas como um deus maligno: o inimigo e necessário para a própria afirmação do Eu, este protegido pela falsa sensação de anonimato e liberdade de ação da rede. A paranóia, ideia fixa que não encontra apoio no real e mesmo assim, de tão repetida assume valor de verdade, gerando a ânsia de destruição daquilo que denuncia o vazio da ideia, é a principal consequência do mecanismo de falsa projeção. Fala-se para si apenas, e mesmo aquele que em teoria concorda com o que o indivíduo fala ou escreve é visto como inimigo. Preso em sua própria mônada, o indivíduo que se forma a partir da interseção do mundo real com o virtual - o homo cyber - encontra-se acrítico, aliena- do e sem possibilidade de atuação no concreto, iludido pela falsa liberdade e igual- dade prometida no novo mundo onde “tudo é possível e nada é real” 22 , onde o Ou- tro, o objeto mais desejado, é também o foco de seu maior temor e ódio. Aparente- mente felizes e acomodados neste processo (seja por não crer na possibilidade de mudança como por não saber realmente como proceder), estes novos seres - ou novas capas sociais, não “percebem o quanto não são livres lá onde mais livres se

21 ADORNO, T. Dialética do Esclarecimento, pg. 160

22 LIVING COLOUR, "Type" Letra: Reid/Glover

12

sentem, porque a regra de tal ausência de liberdade foi abstraída delas” 23 . Tanto a

liberdade foi negada ao homem que sua inexistência, além de norma, passa a ser o

desejado, o reconhecido como certo, a despeito do discurso que a glorifica.

A subjetivação operada pelas novas tecnologias de comunicação traz um

movimento de "homogeneização universalizante e reducionista da subjetividade e

uma tendência heterogenética, quer dizer, um reforço da heterogeneidade e da sin-

gularização de seus componentes", o que nos leva a uma encruzilhada - a produção

cultural pode ir para "a criação, a invenção de novos Universos de referência" ou

para a "mass-midialização embrutecedora, à qual são condenados hoje em dia mi-

lhares de indivíduos 24 . Como subverter este processo, a partir de que fator é

possível realizar a crítica ao modelo vigente em uma sociedade onde “a felicidade e

satisfação pulsional são subordinadas à produtividade social 25 ” é uma pergunta

extremamente atual e cuja resposta é tarefa da Filosofia, com o resgate de sua tra-

dição critica e se debruçando sobre as articulações existentes entre o mundo e sua

problemática. Citando Deleuze, “não cabe temer ou esperar, mas buscar novas ar-

mas”.

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23 ADORNO, T. W. Tempo Livre, pág 108

24 GUATTARI, Felix. In FERES NETO, Alfredo, Produção de subjetividades: subjetivação e objetivação. Disp. Em

http://www.efdeportes.com/efd64/virtual.htm

25 MARCUSE, Herbert. Eros e Civilização. 2004. De acordo com Marcuse, uma das falácias da sociedade do capital está em atrelar a idéia de felicidade a um prêmio futuro pelo sacrifício do ser nesta vida, uma “recompensa irreal para o sofrimento real” que só pode ser atingida ao executarmos com perfeição os papéis predefinidos, nos quais até mesmo nossos impulsos são administrados. (p.115)

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