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Irresistível a Deus

Steve Gallagher

Digitalizado por Luis Carlos

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SEMEADORES DA PALAVRA e-books evangélicos


G158Í
Gallagher, Steve.
Irresistível a Deus /Steve Gallagher, traduzido por Flávia Bastos -Rio de Janeiro; Graça, 2005.
200 pp. 14x2 lcm.

ISBN 85-7343-720-0.

Tradução de: Irresistible to God Inclui bibliografia.

1. Vida cristã. 2. Humildade - Aspectos religiosos - Cristianismo. I. Título.


CDD-248.4

IRRESISTÍVEL A DEUS
® Steve Gallagher,2003

ORIGINAL: "Irresistible to God"


Pure Life Ministries
P.O. Box 410 Dry Ridge, KY 41035
(888) 293-8714 / (859) 824-4444

Tradução: Flávio. Bastos

Coordenação: Eber Cocareli

Revisão: Original Claudia Lins

Prova Magdalena Bezerra Soares

Final Célia Cândido

Supervisão Elaine Nascimento

Diagramação: Ilma Martins de Souza

Capa: Graça Editorial

Design Kleber Ribeiro

Reservados todos os direitos de publicação à


GRAÇA ARTES GRÁFICAS E EDITORA LTDA.
Rua Torres de Oliveira, 271 - Piedade
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AGRADECIMENTOS
Agradecimento especial para Brad Furges e Linus Minsk, por suas contribuições valiosas para este livro.

DEDICATÓRIA
Eis para quem olharei, declara Jeová, para o pobre e abatido de espírito e que treme diante da
minha palavra.

Esta obra é dedicada a Jeff e Rose Colon, santos irresistíveis que se têm humilhado perante Deus e
doado a própria vida para servir aos outros.
SUMÁRIO

INTRODUÇÃO..............................................................6

PARTE UM: DEUS RESISTE AO ORGULHOSO

1. A natureza e o domínio do orgulho.........................9


2. A formação e o desenvolvimento do orgulho.......17
3. As diferentes formas do orgulho ..........................22
4. As faces do orgulho...............................................30
5. Orgulho religioso..................................................39
6. A natureza destrutiva do orgulho..........................45

PARTE DOIS: AS BÊNÇÃOS DA HUMILDADE

7. Salvo pela humildade do Espírito.........................52


8. Submisso perante Deus.........................................59
9. Andando em humildade........................................66
10. Servindo aos outros.............................................72
11. Diminuir-se em humildade..................................78
12. Santos irresistíveis...............................................84

BIBLIOGRAFIA............................................................91
INTRODUÇÃO
Na história, existem poucas ocorrências de quando o véu da escuridão que encobre o Poderoso
tenha-se tornado fino o suficiente para que os mortais pudessem olhar de relance para a assombrosa
realidade de Sua abundante presença.
Isso aconteceu, por exemplo, quando os israelitas receberam os Dez Mandamentos. Com
extrema seriedade, Moisés advertiu o povo para que se preparasse para encontrar-se com o Senhor.
Assim, aproximadamente 3 milhões de hebreus - homens, mulheres e crianças - ficaram de pé no
anfiteatro natural de pedras na base do monte Sinai, observando, nervosamente, seus rochedos. Ao
redor deles, no cume do morro, estavam enfileiradas miríades de carros de Deus invisíveis (Sl
68.17).
De repente, a tranqüilidade foi interrompida pela atividade ruidosa do grande e temível Senhor
aparecendo no cimo da rocha. Luzes e trovões iluminaram o céu escuro, e o som ensurdecedor de
uma trombeta foi ouvido (Hb 12.18,19). O monte ardia em fogo até ao meio dos céus, e havia trevas,
e nuvens, e escuridão (Dt 4.11b). As pessoas gritavam e ficavam paralisadas pelo terror, suplicando
para que Moisés se colocasse entre eles e o terrível Deus do Sinai. Desce, protesta ao povo, disse
Jeová a Moisés, que não traspasse o termo para ver o SENHOR, a fim de muitos deles não
perecerem (Ex 19.21).
Outra ocasião em que o homem pôde "ver" o Altíssimo aconteceu alguns milhares de anos
depois, quando o profeta Isaías, no ano em que morreu o rei Uzias, viu o Senhor assentado sobre um
alto e sublime trono [...], e os serafins estavam acima dele [...] e clamavam uns para os outros,
dizendo: Santo, Santo, Santo é o SENHOR dos Exércitos; toda a terra está cheia da sua glória. E os
umbrais das portas se moveram com a voz do que clamava, e a casa se encheu de fumaça (Is 6.1-4).
Mais tarde, Isaías ouviu o Senhor bradar: O céu é o meu trono, e a terra, o escabelo dos meus
pés. Que casa me edificaríeis vós? E que lugar seria o do meu descanso? (Is 66.1). Sem dúvida, isso
o deixou aterrorizado e tremulo, como aconteceu com Moisés (Hb 12.21). Contudo, em uma santa,
ainda que paradoxal, maneira, este Ser aterrorizante parece abrandar Sua formalidade e termina Seu
discurso com um longo tom de pesar em Sua voz: Mas eis para quem olharei: para o pobre e
abatido de espírito e que treme diante da minha palavra (Is 66.2b).
Que declaração surpreendente! O Todo-Poderoso olhando para um ser humano! A palavra
hebraica para olhar (nabat) tem uma conotação muito mais forte do que sua similar em português.
Ela significa olhar de forma concentrada, com respeito e adoração, para um objeto. Imagine esse
Deus onipotente, cujo retorno à terra causará o escurecimento do sol, a queda das estrelas do
firmamento e o abalo dos poderes do céu (Mt 24.29), sendo considerado pó! Essa verdade é
simplesmente incompreensível, contudo, está gravada nas Sagradas Escrituras.
Isaías não foi o único a receber essa revelação sobre o Senhor. Muitos séculos antes, Davi teve
uma visão acerca dEle e registrou as seguintes palavras: Ainda que o SENHOR é excelso, atenta para
o humilde; mas ao soberbo, conhece-o de longe (Sl 138.6). Este verso reitera o que se encontra em
Isaías 66, mas acrescenta uma verdade contrastante. Enquanto o Onipotente considera o humilde, Ele
naturalmente repele - volta-se contra - o orgulhoso. Assim, o contato íntimo ou a verdadeira amizade
entre o Poderoso e aquele que tem coração altivo é impossível.
Tais declarações refletem uma lei espiritual, algo como plantar e colher, que trazem uma
verdade para os que crêem e também para os que não crêem. Claramente, pessoas pretensiosas, que
reduzem Deus à qualidade humana, estão em terreno extremamente perigoso, porque Ele é inimigo
do orgulhoso (Tg 4.4).
Infelizmente, a perspectiva de muitos crentes sobre a soberba é tão superficial, que os faz
ignorar que, na própria vida deles, esse sentimento esteja presente. Eles podem facilmente identificá-
lo em estrelas arrogantes de cinema, ricos esnobes, personalidades egoístas dos esportes, ou ainda em
colegas de trabalho verbalmente agressivos. Mas pergunte aos cristãos se eles têm lutado para não
serem orgulhosos, e a negação de muitos virá rapidamente: "Ah, não! Eu não!". Que pastor
atualmente tem recebido em seu gabinete um membro da igreja ansioso e lamentando estar lutando
contra a altivez?
Reconhecendo ou não essa presença odiosa, o orgulho, de fato, cria raízes dentro de todo
coração humano. E um agente corrosivo que irá espalhar-se em nossa natureza pecaminosa e corroer
nossa alma, se não for detectado. Certamente, há muita altivez que se levanta contra o conhecimento
de Deus (2 Co 10.5).
Este livro é um guia que mostra o árduo, mas recompensador, caminho para fora da semente da
soberba e para dentro dos verdes campos da humildade. Antes de se aproximar das regiões
abençoadas da simplicidade, o homem deve primeiro, corajosamente, fazer um exame de sua vida.
Ele precisa ter a garantia de estar com toda a dimensão do orgulho exposta e lidar com isso para
descobrir sua posição apropriada perante um Deus santo.
Mesmo difícil e doloroso, como poderá parecer muitas vezes, esse é o único caminho para as
bênçãos do Senhor. Essa é a peregrinação que todo santo de Deus tem feito. Apenas quando,
honestamente, concentra-se na soberba da própria vida é quando você está pronto para examinar a
humildade. Sendo assim, esta obra está dividida em duas partes: a primeira, intitulada Deus resiste
ao orgulhoso, e a segunda, As bênçãos da humildade.

Eis para quem olharei, declara o Senhor, para o pobre e abatido de espírito e que treme diante da
minha palavra. Essa é a pessoa que se torna irresistível a Deus!
PARTE UM

DEUS RESISTE
AO ORGULHOSO

Quase não há página nas Escrituras onde não esteja claramente escrito sobre a resistência de Deus ao
orgulhoso e a graça derramada ao humilde.1
Agostinho

Imagine, irmão, o que não é para o pecado ter Deus como seu inimigo.2
Jerônimo

Tão grande é a maldade do pecado, que não há anjo ou qualquer virtude que se oponha a ele, mas o
próprio Deus como seu Adversário.3
John Cassian

UM
A NATUREZA E O DOMÍNIO DO ORGULHO
Embora o ministério de Isaías tenha surgido durante a grande mudança que aconteceu no
reinado de Uzias, o profeta não poderia estar preparado para a tragédia que seus jovens olhos
testemunhariam. O Senhor destruiu o velho rei com lepra, embora ele tenha lutado contra o mal da
terra. O que este homem honroso poderia ter feito para provocar tamanha execução do julgamento de
Deus?
Uzias tinha apenas 16 anos quando sucedeu seu pai como rei sobre Judá. Nós ouvimos que o
rapaz sincero deu-se a buscar a Deus nos dias de Zacarias [...], nos dias em que buscou o SENHOR,
Deus o fez prosperar (2 Cr 26.5). Certamente, parecia que tudo ia bem para ele, que restaurou o rico
comércio da nação, construindo o porto de Elate; subjugou os filisteus, amonitas e arábios; fortificou
as cidades de Judá e formou um exército poderoso. Seu renome foi espalhado até a entrada do Egito,
porque se fortificou altamente (2 Cr 26.8).
Contudo, no auge da fama, da prosperidade e do poder conquistados, Uzias se tornou vítima de
uma paixão humana que tem destruído muitas vidas:
Mas, havendo-se já fortificado, exaltou-se o seu coração até se corromper; e transgrediu
contra o SENHOR, seu Deus, porque entrou no templo do SENHOR para queimar incenso no altar
do incenso. Porém o sacerdote Azarias entrou após ele, e, com ele, oitenta sacerdotes do SENHOR,
varões valentes. E resistiram ao rei Uzias e lhe disseram: A ti, Uzias, não compete queimar incenso
perante o SENHOR, mas aos sacerdotes, filhos de Arão, que são consagrados para queimar
incenso; sai do santuário, porque transgrediste; e não será isso para honra tua da parte do
SENHOR Deus. Então, Uzias se indignou e tinha o incensário na sua mão para queimar incenso;
indignando-se ele, pois, contra os sacerdotes, a lepra lhe saiu a testa perante os sacerdotes, na Casa
do SENHOR, junto ao altar do incenso. Então, o sumo sacerdote Azarias olhou para ele, como
também todos os sacerdotes, e eis que já estava leproso na sua testa, e apressuradamente o
lançaram fora; e até ele mesmo se deu pressa a sair, visto que o SENHOR o ferira. Assim ficou
leproso o rei Uzias até ao dia da sua morte; e morou, por ser leproso, numa casa separada, porque
foi excluído da Casa do SENHOR; e Jotão, seu filho, tinha a seu cargo a casa do rei, julgando o
povo da terra. 2 Crônicas 26.16-21
O que poderia ter afetado aquele respeitoso rei que o tenha feito transgredir perante seu
Senhor? Que tipo de paixão poderia tê-lo incitado a agir de maneira tão presunçosa com os assuntos
sagrados do Altíssimo? O que poderia ter causado sua queda do alto da glória e do poder humanos
para ser forçado a viver o resto de seus dias como um idoso solitário e recluso em uma casa
separada? A resposta para cada uma dessas questões é orgulho.
A Bíblia não deixa dúvidas sobre a posição do Todo-Poderoso a respeito do orgulho. Salomão
disse que olhos altivos são uma abominação para o Senhor (Pv 6.17). Isaías escreveu que, quando o
Senhor aparece, a arrogância do homem é abatida, sua altivez, humilhada, e só o Onipotente é
exaltado (Is 2.17). Jesus declarou que quem a si mesmo se exaltar será humilhado (Mt 23.12a), e
Tiago afirmou que Deus resiste aos soberbos (Tg 4.6b). No livro de Salmos, o próprio Deus falou
que Ele não suportará aquele que tem olhar altivo e coração soberbo (Sl 101.5b).
Sem dúvida, orgulho é um dos assuntos mais proeminentes da Sagrada Escritura, a qual utiliza
pelo menos 17 palavras diferentes (e incontáveis derivações) para descrever essa doença espiritual. *
Contudo, não importa que termo é usado; há sempre uma conotação de altivez: algo superior,
crescente, exaltado, ou sendo elevado. Assim, uma pessoa orgulhosa possui uma alta admiração de si
mesma e se coloca acima das demais à sua volta. Esse conceito de auto-exaltação forma a base para a
nossa definição de orgulho: Ter um senso exagerado de sua própria importância e uma
preocupação egoísta com seus próprios direitos. É a atitude que diz: "Eu sou mais importante que
você e, se for necessário, vou promover minha causa e proteger meus direitos às suas custas".
Orgulho é o princípio de governo das trevas e a influência sobre o mundo não-remido. Ele
causa contenda nos lares, nos locais de trabalho, no cenário político e, sim, até na comunidade cristã
(Pv 13.10).
Orgulho estimula a competição acirrada entre pessoas de todas as esferas.
Ele motiva as garotas a aparentarem atraentes e tentadas a parecer mais arrumadas que as
outras em sua competição pela posição de "a mais charmosa de todas". Impossibilitadas de serem
consideradas medianas, elas fazem tudo dentro do seu alcance para se destacarem sobre suas rivais.
Homens pretensiosos competem entre si pelo seu físico, por sua bravura, suas habilidades e posses.
O orgulho acende as chamas do desejo que leva um pecador lascivo diretamente para a
degradação. Um Dom Juan sente uma auto-exaltação de excitamento quando acrescenta uma nova
fêmea às suas conquistas. Um estuprador alimenta seu ego monstruoso subjugando outros. Um
exibicionista enche-se de orgulho ao imaginar uma mulher vendo suas partes íntimas. Uma adúltera
sente-se a maioral ao pensar em roubar a afeição amorosa de um marido competitivo. Esse tipo de
sentimento está por trás também da maior parte da violência que atinge nosso mundo. Um ego
machucado leva um homem a matar sua esposa e seu amor. O orgulho étnico provoca um aumento
do discurso inflamado contra grupos de pessoas que leva à guerra. Membros de gangues de rua rivais
se envolvem em brigas e pegas de automóveis em retaliação a ataques prévios de seus oponentes.
Brigas de bares surgem de pequenas disputas. Muita hostilidade acontece simplesmente porque
as pessoas estão tentando ganhar o respeito dos outros e ser admiradas. Com certeza, o orgulho tem
causado mais problemas, conflitos, sofrimento e tristeza nesse mundo do que qualquer outra paixão
humana.
*
A propósito, em uma frase, Jeremias usa muitos termos para descrever Moabe: Ouvimos falar da soberba [ga'own] de Moabe, que de fato é
extremamente soberba [ge'eh], da sua arrogância [gobahh], do seu orgulho [ga'own], da sua sobranceria [ga'own] e da altivez [ruwn] do seu
coração Gr 48.29 -ARA).
Existe um denominador comum entre cada um desses cenários: as pessoas estão tentando
exaltar-se às custas de seus semelhantes ou estão fazendo o seu melhor para se proteger de outros
que se exaltam às custas delas. Cada pedacinho disso tem o cheiro horrível e egoísta da atitude de
preocupar-se em ser o primeiro.

O REINO DE DEUS

Muito antes de Deus criar o homem, uma grande rebelião aconteceu no céu quando o querubim
Lúcifer disse a si mesmo: Eu subirei ao céu, e, acima das estrelas de Deus, exaltarei o meu trono, e,
no monte da congregação, me assentarei, da banda dos lados do Norte. Subirei acima das mais
altas nuvens e serei semelhante ao Altíssimo (Is 14.13,14).
A mesma atitude pretensiosa que expulsou do céu o rei do orgulho é a inclinação predominante
deste mundo caído. Como nos diz a Sagrada Escritura: Sabemos que somos de Deus e que todo o
mundo está no maligno (1 Jo 5.19). Satanás,
agora, utiliza o orgulho para provocar inveja, raiva, perversão e uma longa relação de outros
vícios comuns ao homem. Talvez, isso tenha motivado um
ministro a escrever:
O orgulho foi o pecado que transformou Satanás, um anjo abençoado, em um demônio
amaldiçoado. O diabo conhece melhor do que ninguém o condenável poder desse sentimento. Existe
alguma dúvida, então, que ele o use frequentemente para contaminar os santos? Seu propósito se
torna ainda mais fácil porque o coração do homem mostra uma tendência natural por ele.4
Quão espantosamente diferente é o Reino de Deus, o qual é governado pelo Cordeiro inocente
que Se permitiu ser sacrificado em favor dos outros! Ele é manso e humilde de coração (Mt 11.29).
A mentalidade que guia aqueles que fervorosamente O seguem é a despretensão. Indivíduos assim
preferem as necessidades e desejos de outros sobre os seus próprios.
Leva um certo tempo até que um novo convertido ao Senhor se acostume a esse pensamento
altruísta. Ao tentar viver pelos princípios do Reino dos céus, logo percebe que sua velha e egoísta
forma de pensar ainda está muito viva dentro de si. De fato, ele ainda tem uma natureza carnal que é
preenchida pelo orgulho; sendo assim, encontra-se dividido entre a mentalidade de autopromoção
desse mundo e os valores de auto-sacrifício do Reino celestial.
Certa vez, um amigo meu, lamentando sobre sua falta de habilidade para vencer essa serpente
venenosa, comparou sua luta com o lançamento de um explosivo na lateral de uma alta montanha.
Seu esforço pode produzir um barulho temporário, mas, uma vez que a fumaça seja dissipada, o
grande monte permanece no lugar tão formidável como sempre. Assim como meu companheiro,
Charles Spurgeon compartilhava a mesma desesperança sobre essa luta quando escreveu:
Orgulho é tão natural para homens caídos, que brota no coração como erva daninha em um
jardim regado ou mato na beira de um riacho. E um pecado que invade e cobre todas as coisas, como
a poeira das estradas ou farinha no moinho. Cada toque seu é malvado. Você pode caçar essa raposa
e pensar que a destruiu! Sua maior exultação é a soberba. Pessoa alguma tem mais orgulho do que
aqueles que imaginam que não o tem. O orgulho é um pecado com milhares de vidas; parece
impossível matá-lo.5
Se esse sentimento é tão invasivo e indomável no coração humano, muitos podem perguntar:
"Para que lutar?". Certamente, Deus entende que essa é uma batalha que não pode ser vencida. Para
que se envolver em um briga na qual já se sabe, de antemão, que vai perder? No entanto, apesar
dessa avaliação pessimista, devemos lutar contra o orgulho! A razão desse combate tão urgente é a
própria natureza demoníaca. Em cada maneira que ela toma conta do caráter de uma pessoa, aumenta
sua semelhança com Satanás, o anjo caído, aquele que provoca os cristãos a se promoverem,
exaltarem-se, envaidecerem-se e protegerem-se às custas dos outros. Boa parte das ações diabólicas
da soberba é tida como normal - como se isso aliviasse a responsabilidade dos cristãos em combater
sua influência maligna na vida de cada um deles.
Embora seja verdade que sempre existirá algum resquício de orgulho, a alternativa para
permitir-se permanecer em uma posição superior, com uma atitude mental que desafie Deus, é
inimaginável para qualquer cristão sincero. Embora uma pessoa não possa erradicar totalmente todos
os vestígios desse sentimento dentro de si, com certeza, ela pode avançar, admitindo e arrependendo-
se toda vez que ele se revelar.

PROBLEMA DE TODOS

Pessoas diferentes são assoladas por pecados distintos. Um homem pode sentir-se destruído
pelo desejo sexual, enquanto outro não sente uma forte tentação nessa área. Uma pessoa tem uma
inclinação natural para a fofoca; outra, um temperamento explosivo. Cada ser humano está propenso
a certos pecados, enquanto outros vícios não exercem atração alguma em sua vida. A variedade é,
aparentemente, sem fim. Porém, todos lutam contra o orgulho porque ele é uma parte inegável da
natureza caída.
O orgulho é tão sutil, que muitos, na realidade, pensam que têm pouco ou nada desse
sentimento dentro de si. A verdade é que ele possui a habilidade de disfarçar sua presença no coração
do homem. De fato, geralmente, é certo que, quanto mais a pessoa o tem dentro de si, menos ela sabe
disso. Como Spurgeon disse, "ninguém tem mais orgulho do que aqueles que imaginam que não têm
nenhum".
Assim como há diversas formas e incontáveis variações de pecado, o mesmo acontece com a
altivez. Durante a leitura desta primeira parte, aparecerão muitos tipos desse sentimento, mas, com o
intuito de ter um panorama geral, observaremos o caso de uma família fictícia.
Bill Johnson é extremamente satisfeito por ter construído, do nada, um ótimo empreendimento
sem a ajuda de pessoa alguma. Sua esposa, Nancy, alegra-se muito pelos quatro filhos e fala sobre
eles para quem quiser ouvir. A adolescente Gwen, de 17 anos, fica o tempo todo penteando seu
cabelo loiro e comprido em frente ao espelho. Logo depois dela, com 16 anos, vem Josh, que joga na
defesa no time de futebol e é conhecido por seus lances agressivos.
Ricky, 13 anos, é o comediante da classe e adora ser o centro das atenções. Suzy, extremamente
tímida mesmo para uma garota de 12 anos, já construiu barreiras em torno de si mesma onde pessoa
alguma consegue penetrar. Essa é a descrição de uma típica família americana.
Então, qual é o grande crime em apreciar a admiração dos outros ou ser um pouco protetor? O
orgulho, como qualquer outro pecado, nunca está satisfeito, e apenas uma fração dele já é muito. A
vaidade de Gwen pode parecer uma inofensiva característica adolescente, no entanto, se deixada de
lado, irá transformar-se em um monstro horrível de arrogância que se manifestará na vida dela de
várias maneiras. Caso Suzy não aprenda a se tornar vulnerável aos outros, ela irá fechar-se cada vez
mais em seu pequeno mundo, onde não haverá lugar para quem quer que seja além dela mesma.
Nessa família existe um fator comum entre o tipo de orgulho predominante em cada membro: a
promoção e a proteção do poderoso ego. Se, um dia, eles se tornassem crentes, iriam descobrir que o
ego é sua maior dificuldade para se tornarem como Cristo e que o principal responsável é o orgulho.
As ações, as palavras e os pensamentos gerados pelo orgulho não são crimes sem vítimas.
Quando uma pessoa é orgulhosa, automaticamente, ela se coloca acima às custas de outras.
Por exemplo, Bill não é consciente de quanto seu desdém por seus empregados os tem
machucado tantas vezes. Secretamente, ele se vangloria de ser temido pelos outros.
Nancy só quer falar sobre seus filhos, e sua notável falta de interesse acerca de outras crianças,
geralmente, tem ofendido suas amigas e colegas de trabalho.
Gwen quer ser adorada por todos os rapazes e tem pouca preocupação sobre outras garotas que
desejam receber atenção. Na verdade, já aconteceu de algumas moças menos bonitas ficarem sem
graça quando ela se gaba da atenção que recebe na frente delas.
A determinação de Josh para ganhar, a qualquer custo, tem-no tornado um competidor violento,
mesmo se isso significar machucar seriamente um outro jogador. O semblante de dor extrema de seu
adversário é rapidamente esquecido enquanto ele volta para o campo.
Ricky não está preocupado com o fato de que suas diárias performances humorísticas têm-se
transformado em uma fonte de constante tristeza para sua professora, a qual tem estado ocupada
demais tentando controlar um agitado grupo de adolescentes.
Mesmo a envergonhada Suzy, constantemente, tem machucado outras pessoas com a sua falta
de ação aos seus gestos de afeição. Sua silenciosa determinação de se proteger de ser magoada, não
importa como, tem mais importância do que seus sentimentos.

DEUS RESISTE AOS ORGULHOSOS

Antes de irmos mais adiante, é hora de encarar a realidade espiritual de que Deus Se mantém
veementemente contra toda forma de orgulho, sendo um santo ou um pecador.**
As Sagradas Escrituras mostram-nos que Pedro admoestou os cristãos da primeira igreja cristã:
Semelhantemente vós, jovens, sede sujeitos aos anciãos; e sede todos sujeitos uns aos outros
e revesti-vos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá graça aos humildes.
Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que, a seu tempo, vos exalte,
lançando sobre ele toda a vossa ansiedade, porque ele tem cuidado de vós. Sede sóbrios,
vigiai, porque o diabo, vosso adversário, anda em derredor, bramando como leão, buscando
a quem possa tragar; ao qual resisti firmes na fé.
1 Pedro 5.5-9ª

Há muitas verdades que podem ser aprendidas por meio da exortação desse sábio e velho
apóstolo. Para começar, essas palavras foram direcionadas para seus irmãos cristãos. Sim, o
Altíssimo resiste ao orgulho mesmo entre Seus filhos! A punição que Davi recebeu quando realizou
o censo do povo é um bom exemplo disso (2 Sm 24.13). Qualquer atitude orgulhosa, motivo ou
intenção nos coloca contra o Onipotente. Em outras palavras, quanto mais a pessoa tiver esse
sentimento em seu coração, mais ela experimentará a resistência de Deus.
Vamos encarar os fatos: nosso Criador insiste em ser o Mestre de Seu povo. Quando alguém
aceita Cristo, ele O recebe não apenas como seu Salvador, mas também como Senhor.*** Quando
esse novo crente, verdadeiramente, rende sua vida e se entrega à vontade do Todo-Poderoso, a
opressão se torna luz, e ele se enche de alegria e paz. Contudo, seu caminho se torna mais difícil
quando o homem insiste em controlar o próprio destino (Pv 13.15). Quando ele determina que vai
controlar a própria vida, encontra-se em discordância com todo o Reino dos céus. Certa vez, alguém
disse: "Pense em ter tudo de Deus, Seus propósitos, Suas leis, Sua providência, sim, e Seu amor,
voltados contra nós".6
O fato de sabermos que Ele resiste firmemente ao orgulhoso mostra quão prejudicial é o pecado
do orgulho.
Pedro também mencionou o cuidado de Deus pelo Seu povo. É importante lembrar que Ele
quer purificar-nos de tudo aquilo que nos machuca ou impede Seu relacionamento conosco. Por
exemplo, muitos cristãos não entendem que suas orações continuam sem respostas, porque eles se

**
Sua oposição ao orgulho de um cristão é muito diferente da oposição aos que não são salvos. Aqueles que não conhecem Deus não têm nada
que fique entre eles e o julgamento.
***
A expressão Senhor é usada 7.750 vezes nas Escrituras, enquanto o vocábulo Salvador é empregado apenas 37 vezes. Isso mostra o peso
extremo que a Palavra de Deus coloca sobre o senhorio de Cristo.
aproximam do trono do Pai com atitude arrogante, presunçosa e insistente. Em seu orgulho insano,
tentam dar ordens para o Poderoso como se Ele fosse seu ajudante! O Criador Se volta contra esse
tipo de atitude.
Um ministro do Evangelho explica a oposição de Deus ao Seu próprio povo quando este é
presunçoso:
Está fora do cuidado amoroso para conosco; é porque orgulho significa rebelião, e rebelião é a
essência do pecado; e pecado significa miséria, ruína e morte.7
É interessante notar também como a linha de raciocínio de Pedro o levou do tema do orgulho
diretamente para a guerra espiritual. Houve inúmeras ocasiões em que Satanás destruiu crentes por
meio do próprio orgulho deles; muitas estão registradas nas Escrituras para orientar-nos, como, por
exemplo, a transgressão de Davi: Então, Satanás se levantou contra Israel e incitou Davi a numerar
a Israel (1 Cr 21.1). O demônio é mestre em persuadir uma pessoa a realizar a vontade diabólica,
apenas apelando para o orgulho dele.
Por isso, o apóstolo Pedro avisou o povo para ser vigilante contra os ataques malignos. O
adversário é a besta maldosa que anda sobre a terra, procurando almas para se tornarem suas presas.
Não há dúvida de que o orgulho é uma doença horrível da alma que traz somente miséria e
destruição. Todo cristão deveria sentir-se na obrigação de se livrar do seu veneno maligno. Vamos
considerar as seguintes palavras motivantes do The pulpit commentary (O comentário do púlpito):
O que temos nós para nos orgulharmos? Possui o pecador alguma razão para se envaidecer? Ele
está caminhando em derredor para levar à destruição.
Não é um caminho, nem um projeto, certamente, para se vangloriar! Tem o santo alguma razão
para demonstrar soberba? Claro que não. E pela graça de Deus que ele é o que é. Não vem das obras,
para que ninguém se glorie [...] Fora, então, com esse sentimento, a vaidade das riquezas, do poder,
da sabedoria e da beleza do rosto de argila! Fora com a altivez de todo coração cristão e a soberba da
casa de Deus e de todos os departamentos de trabalho cristão! Fora com o orgulho contra nossos
irmãos! Vamos seguir os passos dAquele que foi manso e humilde de coração.8

Senhor, eu quero essa paixão contra o orgulho em meu coração. Dá-me um desejo ardente de me
livrar das poderosas amarras da soberba. Eu quero o olhar manso de
Jesus reinando em minha vida.
Que assim seja, querido Senhor.
Amém.
O orgulho leva a todos os outros vícios: é a completa forma contra Deus [...] a soberba de cada
indivíduo compete com a de todas as pessoas.1
CS. Lewis

Pense no poder que transformou um inocente garoto de bochechas rosadas em um Nero ou um


Himmler.2
A. W. Tozer

DOIS
A FORMAÇÃO E O DESENVOLVIMENTO DO ORGULHO
A cultura americana está cheia do orgulho da vida: a beleza feminina é glorificada de costa a
costa; a capacidade física nos esportes está recebendo reconhecimentos sem precedentes; a
engenhosidade humana na ciência e na tecnologia é exaltada; a ânsia corporativa é estimulada com
sólidos investimentos; os políticos são homenageados não pela sua integridade, mas por seu
pragmatismo. Não resta dúvidas de que estamos sob a maldição darwiniana da sobrevivência do mais
forte.
Poucos dias após o ataque terrorista ao "World Trade Center, o governador da Flórida, Jeb
Bush, insuflado pelo orgulho nacional, expressou o sentimento de muitos americanos quando disse:
"Eles tentaram humilhar-nos, mas nós somos uma nação orgulhosa e nunca iremos rebaixar-nos
somos um país forte!". *
A unidade nacional foi bombardeada com declarações como: "Temos orgulho de sermos
americanos!".
Quase tudo em nossa cultura leva e incita ao orgulho do homem: o entretenimento, a propa-
ganda, a mídia, o meio acadêmico, os negócios e a vida doméstica.
Agora, mais do que nunca, tudo é voltado para a imagem e as conquistas pessoais.
Isso, por sua vez, criou uma forte pressão para derrotar o semelhante - ser mais inteligente,
forte, capaz, atraente e saudável.

PRIMEIRAS LIÇÕES

Em um ambiente como esse, que exalta e glorifica a conquista, a força e a beleza, não demora
muito a que as crianças aprendam que é prazeroso ser reconhecido e desagradável ser criticado ou
não ser notado. Elas são ensinadas a se sentirem orgulhosas de quem são e das habilidades que
possuem. Essa mentalidade é reforçada a cada estágio do desenvolvimento e durante a vida adulta.
Vejamos na escola, por exemplo.
*
Escrito de memória por um amigo. Isso não quer dizer que existe algo errado em expressar patriotismo sobre o nosso país.
Como forma de motivação, a primeira coisa que os professores despertam em uma criança é o
seu orgulho, transmitindo a mensagem de que, se ela quiser ser recompensada pelo sistema, terá de
lutar para ser a melhor, precisará derrotar os outros e mostrar um espírito competitivo. Sob a
perspectiva bíblica, cada um desses termos é uma manifestação demoníaca do orgulho.
Cedo na vida, a ambição e a vanglória se instalam nas crianças e são consideradas motivos
aceitáveis para dar o melhor de si.** Os professores tentam despertar e estimular o orgulho que já
está dentro de cada criança. Em vez de ser instruída acerca dos princípios divinos que promoverão a
importância dos outros, ela aprende que seu valor vem de superar o dos demais. A competição se
torna a maneira de induzir os jovens a fazerem o melhor que podem. Eles são encorajados a se
colocarem na posição de receber os aplausos dos homens, não importa a que custo.

Nosso país é uma nação de vencedores. Perdedores são renegados como cidadãos de segunda
classe.*** Consequentemente, o valor de uma pessoa é determinado pelas suas conquistas, em vez de
ser por seu caráter moral.
Se um jovem demonstra interesse por uma profissão, ele é estimulado a se inspirar em pessoas
bem-sucedidas nesse campo: estudar sua vida, imitar suas práticas e seguir seus passos. As
recompensas do sucesso - prazer, posses e poder estão sempre em primeiro lugar na sua mente. Não
deveria ser surpresa que o mundo tenha promovido esses objetos como presentes vitais. João disse:
Porque tudo o que há no mundo, a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba
da vida, não é do Pai, mas do mundo (1 Jo 2.16). Este pensamento mundial o força e o compele a
trabalhar mais. Sobre tudo isso, essa determinação em ser o melhor em sua área deve vir
acompanhada de uma atitude mental positiva.
Que coisa maravilhosa esperar por aqueles que se recusam a aceitar o segundo lugar!
Inacreditavelmente, essa mesma mentalidade é vista também entre aqueles que estão estudando
para serem ministros. As características divinas, tais como amor, humildade e bondade, tendem a ser
impacientemente deixadas de lado em favor dos sinais aparentes de sucesso. É comum os mais
talentosos pregadores serem colocados em pedestais. Consequentemente, nossos jovens almejam
imitar aqueles que lideram igrejas maiores, com os programas de rádio mais populares, os que
vendem mais livros e aqueles que têm maior posição de prestígio. Os alunos da escola bíblica,
rapidamente, aprendem que o sistema evangélico americano é recompensador. Esse pensamento
geral permeia muitas igrejas nos Estados Unidos.
Após anos desta doutrina, a maioria dos jovens é governada pela ambição, inveja e glória
pessoal. William Law, escritor do século 16, levanta algumas questões problemáticas:
Você ensina uma criança a não permitir ser passada para trás e a almejar distinção e aplausos;
mas existe alguma idéia de que ela continuará a agir da mesma maneira a vida toda? Agora, se
um jovem deseja, até o momento, ser um cristão que governa seu coração pelas doutrinas da
humildade, sinto-me inclinado a saber em que tempo ele o fará: ou se ele, de fato, será assim
porque nós o treinamos para o contrário? Quão seca e pobre deve soar a doutrina da humildade
para um rapaz estimulado por toda essa indústria da ambição, inveja e imitação e pelo desejo de
glória e distinção! E se não é para ele agir por esses princípios quando for um homem, porque nós
o ensinamos a ter essa atitude assim na sua juventude? [...]
Deixemos aqueles que pensam que as crianças devem ser exploradas, se elas não foram assim
ensinadas, considerar o seguinte: eles podem pensar que, se algumas foram educadas pelo
Altíssimo ou por Seus santos apóstolos, a mente delas foi relegada à mesmice e à inutilidade? Ou
eles podem acreditar que elas não foram instruídas nos princípios profundos da estrita e
**
É dito a eles que não se satisfaçam com menos do que a mais alta distinção.
***
Não preciso dizer que os pais ou os professores devem fazer o máximo para inspirar as crianças a darem o melhor de si. Crianças precisam ser
encorajadas a valorizar a qualidade do seu trabalho. É esperado que eles estimulem os jovens a se envolverem em um campo de interesse.
Contudo, a prática atual de usar o orgulho como uma ferramenta motivacional não é apenas desnecessária, como também perigosa.Alguns do
campo acadêmico tentam corrigir tal pensamento por meio de métodos humanitários, como, por exemplo, recusando-se a reprovar uma criança
que não tenha atingido os requerimentos mínimos necessários.
verdadeira humildade? Talvez digam que nosso abençoado Senhor, que foi o mais manso e
humilde homem que esteve sobre a terra, foi impedido por Sua humildade de ser o maior
Exemplo de valor e ações gloriosas jamais feitas pelo homem? Podem dizer que Seus apóstolos,
os quais viveram no mesmo espírito humilde de seu Mestre, deixaram de ser úteis e instrumentos
de bênção por todo o mundo? Apenas algumas reflexões como essas são suficientes para expor
todos os pobres argumentos de uma educação de orgulho e ambição.3

O HOMEM DO POVO

Em nossa sociedade, se você quiser ser respeitado e admirado, terá de ser o melhor. O
problema é que nem todos podem ter esse adjetivo. Para cada pessoa que é reconhecida por alguma
conquista, há geralmente centenas de outras cujos esforços passam despercebidos.
Assim como pais que premiam a boa ação e punem o mau comportamento de seus filhos, o
orgulho também é motivado por fatores positivos e negativos. Existe um trato velado que acompanha
a promessa de recompensa para o conquistador: se ele não for bem-sucedido, não será retribuído; ele
não receberá os prêmios, não colherá os benefícios do sucesso, não será admirado pelos outros, nem
será elevado como um exemplo brilhante a ser seguido.
Muitas crianças aprendem a aceitar o fato de que elas não estão destinadas a receber os
aplausos das pessoas. Elas podem secretamente invejar aquelas que se destacam, mas, por outro lado,
ficam contentes em conseguir qualquer coisa que for possível.
Isso não seria tão ruim se fosse a única coisa que o homem do povo tivesse de lidar, mas,
infelizmente, o problema é muito maior do que isso. Os seres humanos nascem com uma profunda
necessidade de serem amados e respeitados. Esse desejo é tão profundo, que a falta de
reconhecimento pelos outros
- principalmente por membros da família -pode, na verdade, ser emocionalmente prejudicial
para uma criança pequena, a qual, por depender da aprovação dos outros ou devido à sua necessidade
de afirmação, geralmente cria um sentimento de insegurança penoso de superar. Ao invés de ser
autoconfiante, ela tende a ser difícil de lidar e é dominada pelo sentimento do medo.
Não só a falta de afirmação positiva afeta uma criança, como também insultos ou a
ridicularização por parte de outros podem intensificar sentimentos de insegurança. Ela aprende cedo
na vida a temer a dor emocional e evitá-la a qualquer custo.
O meio natural de lidar com o medo de ser alvo do ridículo é tornar-se alguém para quem todos
olham. Essa proeminência lhe garante um certo grau de liberdade contra os abusos que os outros
sofrem. Além disso, sua "alta" posição na hierarquia de seu grupo de semelhantes lhe dá mais
liberdade para abusar dos outros.
O jovem o qual sabe que não pode competir naquele nível deve trabalhar com isso de forma
diferente. Quando uma criança percebe que não receberá todo o amor e a aceitação de que precisa,
ela começa a desenvolver um determinado tipo de sentimento chamado complexo de inferio-
ridade, o qual é reforçado cada vez que ela experimenta a rejeição ou é emocionalmente magoada.
Quanto mais ela se sentir desvalorizada por não ser aceita pelas pessoas, mais tentará compensar essa
falta de segurança, exaltando a si mesma e protegendo-se dos rebaixamentos alheios.**** A criança
geralmente procura alguma coisa - seja ela qual for - que possa distingui-la dos demais.
Consequentemente ao desenvolvimento de uma criança, muitas coisas começam a acontecer.
Algumas formas de orgulho começam a se sobressair assim como sua individualidade: suas forças,
habilidades, aparências etc. Se ela é sensível por natureza, irá mostrar um orgulho autoprotetor para
prevenir qualquer dor ou rejeição ocasionada pelos outros. Se é naturalmente confiante, por outro

****
Promotores do movimento da auto-estima, certamente, vêem a verdade disso, mas sua solução para autopromoção apenas piora o
problema.
lado, tenderá a ser arrogante e orgulhosa. O nível de sua insegurança, seu desejo negligenciado de ser
tido em alta posição, geralmente, determina a força de seu orgulho. Como pecado de qualquer
natureza, esse sentimento cria um espiral descendente de degradação da alma. Quanto mais se der
liberdade para ele, de mais espaço ele vai precisar. Em outras palavras, ele fortifica a si mesmo.
Para lidar com o fato de ser magoada, a criança, que está fazendo apenas aquilo que lhe parece
natural, gradualmente, desenvolve mecanismos de defesa, os quais, infelizmente, são os embriões do
orgulho que se originam na infância, desenvolvem-se na adolescência e aperfeiçoam-se na vida
adulta.
Nesse meio tempo, o jovem não tem noção alguma de que é o alvo principal de espíritos
demoníacos.

Esses demônios são muito familiarizados com as árvores genealógicas, com todos os tipos de
personalidades, pecados secretos, áreas de egoísmos e assim por diante. Na verdade, esses agentes da
escuridão vêm alimentando o pecado e o orgulho nos membros da família antes mesmo de a criança
nascer. Quando ela cresce e sofre as inevitáveis dores da infância, sem dúvida, os demônios estão
presentes para mostrar como responder a esses sofrimentos. O orgulho é a resposta demoníaca
para a dor emocional. Em um mundo caído, escravo do pecado, onde. a soberba do homem é
exaltada, essas atitudes contrariamente divinas são cuidadosamente cultivadas enquanto o jovem
segue em direção à maturidade.

UM PADRÃO VITALÍCIO

A vida é uma longa jornada, feita de milhões de decisões diárias. O rumo de uma pessoa pode
ser alterado a qualquer momento, no entanto, quanto mais longe ela for a uma direção específica,
mais inclinada irá sentir-se em continuar nesse caminho. Assim como nos vícios ou em atividades
sexuais, a paixão pelo orgulho pode dominar alguém de tal maneira, que pode indicar o curso de sua
vida. Isso, na verdade, coloca-o em uma rotina que se torna crescentemente mais difícil de ser
quebrada.
Esses considerados insanos pela sociedade, tipicamente, têm uma longa história de decisões
tomadas que foram fortemente influenciadas pelo orgulho. Se a vida de cada um deles pudesse, de
alguma maneira, ser examinada desde o princípio, alguém provavelmente encontraria pontos cruciais
ao longo do caminho onde eles fizeram escolhas que, posteriormente, solidificaram sua insanidade.
O filme O coral de Natal habilidosamente mostrou, por meio do patrocinador do Natal passado,
como o jovem Ebenezer Scrooge tomou sua decisão fundamentada na ânsia pelo dinheiro, até que se
tornasse um amargo e miserável avarento.
Toda pessoa hoje - seja jovem ou idosa - está seguindo algum curso de vida e é o produto de
um viver de decisões diárias. As pessoas estão em constante estado de transição; sempre alterando
em pequenos graus seu trajeto para alguma direção. Consequentemente, seu orgulho está sempre
crescendo ou diminuindo. A. W. Tozer declara o seguinte:
Homens e mulheres são moldados por suas afinidades, modelados por suas afeições e podero-
samente transformados pela arte de seu amor. No mundo não-regenerado de Adão, isso produz
tragédias diárias de proporções cósmicas. Pense no poder que transformou um inocente garoto de
bochechas rosadas em um Nero ou um Himmler. E Jezabel sempre foi a mulher amaldiçoada, cuja
cabeça e cujas mãos os cães, mesmo que ela tenha merecido, recusaram-se a comer? Não, algum dia,
ela teve seus sonhos puros de menina e corou ao pensar no amor feminino; mas logo ela se
interessou por coisas más, admirou-as e, finalmente, começou a amá-las. Então, a lei da afinidade
moral se tornou poderosa, e Jezabel, como barro nas mãos do oleiro, transformou-se na coisa
deformada e horrorosa que os eunucos atiraram pela janela.4
Senhor, agora eu entendo mais claramente porque o orgulho se desenvolveu dentro de mim. Ajuda-
me a escapar do
sistema mundano de recompensar esse sentimento soberbo.
Eu não aceito a horrível solução demoníaca para a dor
emocional. Eu quero sofrer como um valoroso soldado de
Cristo; caso necessário, parecer-me com Tua imagem e ser
transformado da imagem do mal. Que assim seja, Senhor.
Amém.
Existe um vício do qual homem algum está livre; o que todo o mundo odeia quando vê em outra
pessoa; e do que poucos, exceto os cristãos, imaginam ser culpados [...] O vício do qual estou
falando é o orgulho ou o autoconceito.'
CS. Lewis

O orgulho é um vício que invade tão rapidamente o coração do homem, que, se tivéssemos de nos
despir de todas as nossas culpas, uma a uma, teríamos dificuldade, sem dúvida, para lidar com ele.2
Bispo Hooker

TRÊS
AS DIFERENTES FORMAS DO ORGULHO
Quando Adão se rebelou no jardim do Éden, seu coração se corrompeu instantaneamente.
Como uma forma agressiva de câncer, uma rede elaborada de orgulho se formou dentro de seu
coração e espalhou-se dentro de si. Agora, milhares de anos depois, após incontáveis gerações, tal
sentimento possui um sistema de radar altamente desenvolvido que mantém constante observação
sobre qualquer coisa que atravesse seu caminho. Consequentemente, esse mecanismo aproveita toda
oportunidade de se mostrar, promover e proteger seu hospedeiro. Assim, a vaidade mantém sua
posição dentro do coração humano com muito sucesso.
Na essência, o orgulho é como um fiel cão de guarda, sempre protegendo seu dono: o poderoso
ego Quanto mais cheio de si mesmo alguém estiver, mais presunçoso será. O cristão que não tiver
permitido que o Senhor lide severamente com sua personalidade cairá nas garras da soberba. Todos
os aspectos do viver - trabalho, diversão, relacionamentos, e vida espiritual - serão fortemente
tentados por esse sentimento, o qual contamina os pensamentos, as palavras e as atitudes. Assim,
tudo deve adquirir uma posição de subserviência ao seu desejo tirânico. Cristãos não-envolvidos
podem dizer que Jesus Cristo é o Senhor da vida deles, mas a verdade é que apenas o orgulho ocupa
essa posição. Esse sentimento rege o coração desses cristãos, consegue qualquer coisa que desejar e
permite apenas as coisas que servem ao seu interesse. A submissão a Deus é deixada do lado de fora
das barreiras erguidas pelo amor-próprio. O crente só irá submeter-se e render-se ao Onipotente tanto
quanto a imodéstia permitir.
É verdade. O orgulho é uma característica comum do coração humano, e todo ser humano,
inclusive o crente, possui uma única e vibrante personalidade. Assim, pessoas se exaltam e se
guardam em muitas maneiras diferentes. Por exemplo, cada um dos seis membros da família Johnson
é elevado de uma maneira distinta como indivíduo. Para fazer um diagnóstico melhor do egoísmo
que está dentro de cada um de nós, farei uma parada nas categorias básicas (geralmente parecidas).*

UM ESPÍRITO SOBERBO

Quando se pensa na palavra soberba, a imagem de um endinheirado esnobe rapidamente vem à


mente. Contudo, a Bíblia usa o termo para descrever qualquer atitude de ser melhor que os outros.
Pessoa alguma precisa ser rica para ser soberba. Considerar-se mais esperto, bonito, forte ou capaz
que os outros é um aspecto desse tipo de arrogância. Aquele que se exalta experimenta uma sensação
de excitação.
Bill Johnson é o exemplo perfeito de altivez. Ele se considera superior a praticamente todos à
sua volta -certamente, muito longe dos zés-ninguém que vivem contando o dinheiro do mês. Maior
ainda é o seu desrespeito pelos pobres "que deviam procurar algum trabalho decente e ser alguém na
vida!". Não interessa o quanto ele tente disfarçar, seu desdém pelos outros fica estampado em seu
rosto. O salmista chamou isso de a soberba do perverso (Sl 10.4) ou de coração soberbo (Sl 101.5).
Salomão simplesmente o classifica como olhar altivo (Pv 6.17).
O arrogante encontra algo em si mesmo que ele considera digno de louvor e usa essa qualidade
para se comparar favoravelmente com os outros. Por acreditar no melhor sobre si próprio, Bill não
percebe suas características mais desprezíveis. Por exemplo, ele e um chefe muito exigente e utiliza
o sarcasmo para manipular os outros para que façam aquilo que ele quer. A verdade é que não há
quem goste de trabalhar para ele. No maior desejo de pensar em seu melhor, essa crítica negativa é
convenientemente ignorada. Em vez disso, ele se parabeniza por sua grande ética profissional. Sim, é
verdade; ele é mais ambicioso que o Jim, o zelador que mora no final da rua. Entretanto, todos os
que conhecem Jim adoram estar perto dele, o que Bill nem percebe. Aqueles que são arrogantes se
exaltam, comparando suas forças com as fraquezas dos outros.
Bill é tão presunçoso em sua auto-avaliação, que fica indiferente à opinião que os outros têm
dele. Sua arrogância insana não deixa espaço para dúvidas. Ele é extremamente condescendente e dá
menos importância àquilo que os indivíduos possam pensar dele. Bill despreza sua aprovação assim
como sua desaprovação. Por causa de seu excessivo amor-próprio, ele não precisa do apoio de quem
quer que seja.

VAIDADE

Em contraste com a autoconfiança exagerada de Bill, está aquele que, verdadeiramente, vive
pela admiração dos outros. Cheio de vaidade, esse indivíduo precisa da aprovação dos outros, deseja
ser reconhecido e procura os aplausos.
A vaidade reside na raiz das petições lacrimosas tão comuns hoje em dia. A Sagrada Escritura
denuncia a oração de pessoas vaidosas que se recusam a condenar o pecado, a astúcia e a
carnalidade. Por intermédio de Jeremias, por exemplo, o Senhor disse que elas curam a ferida da
filha do meu povo levianamente, dizendo: Paz, Paz; quando não há paz (Jr 6.14). Judas, no versículo
16 de sua epístola, falou acerca daqueles que são aduladores de pessoas, e Paulo fez a seguinte
declaração: Porque virá tempo em que não sofrerão a sã doutrina; mas, tendo comichão nos
ouvidos, amontoarão para si doutores conforme as suas próprias concupiscências (2 Tm 4.3). Esses
falsos mestres querem ser adorados mais do que se preocupam com o bem-estar daqueles que os
ouvem.
Porém, a vaidade não está limitada ao ministério. Qualquer pessoa que deseja receber a
admiração dos outros está sujeita a ela. De fato, ela é um dos grandes problemas que assolam as
mulheres hoje em dia, cuja beleza determina o valor de cada uma delas em nossa cultura. A pressão
para ser adulada pode ser muito forte, especialmente para aquelas que precisam de atenção. Não é
coincidência que a mesa onde as mulheres passam sua maquiagem é chamada de vaidade.**
Atualmente, isso é especialmente trágico no Corpo de Cristo, quando algumas garotas,
querendo atrair os outros, vestem-se sem modéstia mesmo quando estão dentro da igreja. Contudo,
esse desejo de despertar a atenção dos rapazes, muitas vezes, leva-as ao caminho da promiscuidade.
Visto que a igreja esta abraçando os padrões do mundo, poucos parecem preocupados com isso hoje
em dia.
A vaidade faz os indivíduos viverem aprisionados pelo desejo de aprovação. Manter a
excitação da aceitação exige que a pessoa esteja constantemente falando, parecendo e agindo da
forma que os outros querem que ela faça.
A satisfação pessoal depende simplesmente do seu grau de aprovação: elogios trazem
felicidade e realização completa, enquanto que um comentário desaprovador é extremamente
devastador. Talvez, esse tipo de atitude tenha levado Deus (por intermédio de Isaías) a fazer-nos a
seguinte admoestação: E a altivez do homem será humilhada, e a altivez dos varões se abaterá, e só
o SENHOR será exaltado naquele dia. [...] Afastai-vos, pois, do homem cujo fôlego está no seu
nariz; porque em que se deve ele estimar? (Is 2.17-22).

AUTOPROTEÇÃO

Um indivíduo com o orgulho de proteger a si mesmo tem grandes problemas sendo vulnerável
aos outros. Ele é extremamente defensivo e fácil de se ofender. Essa pessoa se fortificou com um
elaborado sistema de barreiras e mecanismos de proteção na tentativa de se manter longe de
qualquer risco. Para quem apresenta esse tipo de orgulho, por ser geralmente sensível por natureza,
quase sempre a menor ofensa irá levá-lo a se proteger de futuras mágoas. Assim, os muros de sua
fortaleza pessoal ficam mais resistentes e se tornam impenetráveis para qualquer outro intruso.
Enquanto algumas categorias da soberba são por si só ofensivas - assim como a vaidade e autopro-
moção -, essa forma de orgulho é defensiva por natureza. Pessoas com esse tipo de sentimento vêem
os outros como uma ameaça que irá humilhá-las, rebaixá-las ou envergonhá-las. Dessa maneira, elas
se guardam dos ataques a qualquer custo. Tornando-se distantes, algumas se protegem da dor que
outros possam causar. Elas são cuidadosas para não deixarem transparecer seus sentimentos mais
profundos e sentem-se um pouco inseguras e medrosas quando as pessoas se aproximam delas.
Outras se utilizam do sarcasmo para manter seus semelhantes à distância.
A pequena Suzy, que tem apenas 12 anos de idade, já está permitindo que esse tipo de
presunção se solidifique dentro dela. Não é errado ser cuidadosa, sensível e introvertida. Essas
características simplesmente fazem parte de sua máscara como pessoa. O problema aparece quando
ela, diferentemente de Jesus, dá mais importância para os seus sentimentos do que para as outras
pessoas em sua vida. E fácil de simpatizar com alguém como essa menina, até que se esteja do outro
lado do sentimento horrível que emana dela quando se sente ameaçada.
O que é mais assustador para uma pessoa com o orgulho da autoproteção (e para alguém
vaidoso também) é sofrer alguma humilhação publicamente. O pensamento de ser rebaixado na
presença de outros é algo com o qual ela mal pode lidar. Contudo, o bom Mestre, quando falava
acerca da questão de se preocupar sobre o que as outras pessoas pensam, disse: E digo-vos, amigos
meus: não temais os que matam o corpo e depois não têm mais o que fazer. Mas eu vos mostrarei a
quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno; sim, vos
digo, a esse temei (Lc 12.4,5).

ORGULHO INTOCÁVEL

Uma pessoa intocável é alguém que não suporta ser corrigida. Ela se torna notavelmente tensa
todas as vezes que é admoestada sobre áreas de sua vida que precisam de mudanças. O orgulhoso e
tolo não aceitará reprovação. Salomão sabiamente disse: O que repreende o escarnecedor afronta
toma para si; e o que censura o ímpio recebe a sua mancha. Não repreendas o escarnecedor, para
que te não aborreça; repreende o sábio, e amar-te-á (Pv 9.7,8).
É uma pena que algumas pessoas sejam tão orgulhosas ao serem reprovadas, porque Deus
costuma ser muito confrontador quando está lidando com aqueles que Ele ama. O escritor de
Hebreus revelou como o Altíssimo trata Seu povo: Filho meu, não desprezes a correção do Senhor e
não desmaies quando, por ele, fores repreendido; porque o Senhor corrige o que ama e açoita a
qualquer que recebe por filho (Hb 12.5b,6). A confrontação do pecado por quem é de Deus é um dos
métodos mais efetivos que o Senhor usa para fazer a mudança necessária na vida de um cristão.
Infelizmente, as pessoas não levam a sério o arrependimento do pecado, do egoísmo, das práticas
mundanas ou das atitudes não-cristãs, até que o Onipotente mande um "Natã" para olhá-las nos olhos
e dizer-lhes a verdade sobre si mesmas. O cristão que é muito altivo para receber reprovação coloca-
se em uma posição inviável para receber aquilo que o Pai tem de melhor para a sua vida; assim, ele
amadurece pouquíssimo. E como Salomão disse: Mais profundamente entra a repreensão no
prudente do que cem açoites no tolo (Pv 17.10).

ORGULHO SABE-TUDO

Quem se torna altivo pelas coisas que sabe geralmente é alguém talentoso, inteligente e dotado
de dons. Ele costuma achar que pode fazer qualquer coisa e, de muitas formas, pode! Ele não
acredita no potencial dos outros por causa de sua alta consideração sobre si mesmo (seu ego
incorrigível), e pessoa alguma é tão capaz ou inteligente como ele. Essa é uma das razões pelas quais
ele não gosta de se submeter à liderança dos outros; ele julga que poderia fazer um trabalho melhor
se estivesse à frente. Tal atitude arrogante o torna rebelde perante seus superiores.
O espírito altivo dessa pessoa faz com que ela considere as próprias opiniões muito mais
importantes do que as dos demais. A verdade é que ela adora sentir-se superior e tende a pensar que
os outros têm pouco a lhe ensinar, desprezando as idéias alheias. Tal atitude é censurada nas
Escrituras, conforme podemos observar na seguinte declaração de Salomão; Tens visto um homem
que é sábio a seus próprios olhos? Maior esperança há no tolo do que nele (Pv 26.12), Isaías
também advertiu: Ai dos que são sábios a seus próprios olhos e prudentes diante de si mesmos! (Is
5.21). Mais tarde, Paulo acrescentou: Ninguém se engane a si mesmo: se alguém dentre vós se tem
por sábio neste mundo, faça-se louco para ser sábio. Porque a sabedoria deste mundo é loucura
diante de Deus; pois está escrito: Ele apanha os sábios na sua própria astúcia (1 Co 3.18,19).

REBELIÃO

Estudo algum sobre orgulho estaria completo se não tratássemos da questão da rebelião. Isso é
especialmente importante nos Estados Unidos, porque os americanos tendem a ser muito inde-
pendentes e extremamente rebeldes! De alguma forma, eles adquiriram uma propensão demoníaca de
questionar autoridade - a própria autoridade de Deus. As pessoas tendem a se submeter aos líderes
somente o mínimo necessário. Alguns, simplesmente, odeiam que alguém diga o que eles têm de
fazer.
Contudo, a submissão é uma parte importante da vida cristã. Os cristãos são admoestados a se
submeterem às leis dos homens (1 Pe 2.13,14; Rm 13.1-5), as esposas são orientadas a se sujeitarem
aos seu maridos (1 Pe 3.1-5), os empregados são encorajados serem subservientes aos seus patrões (1
Pe 2.18). Acima de tudo, os crentes são encorajados a se subordinarem às suas autoridades
espirituais: Obedecei a vossos pastores e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossa alma, como
aqueles que hão de dar conta delas (Hb 13.17a). Pedro disse: Semelhantemente vós, jovens, sede
sujeitos aos anciãos; e sede todos sujeitos uns aos outros e revesti-vos de humildade (1 Pe 5.5a).
Não é necessário dizer que a falta de submissão ao Todo-Poderoso é outra faceta dessa forma
de altivez. Como esse é um assunto importante, a rebelião espiritual será abordada mais adiante.

ORGULHO ESPIRITUAL

Por último, a falsa moralidade se opõe àquilo que Jesus descreveu como pobre de espírito.
Alguém que tenha esse tipo de orgulho se imagina como um gigante espiritual. Deus detesta a auto-
aprovação e o orgulho espiritual. Jesus censurou os fariseus por causa de sua falsa piedade, sua
enganosa aparência de santidade. Eles não eram menos pecadores que os que estavam à sua volta,
mas agiam como se fossem os mais sublimes exemplos de pureza. Contudo, o Mestre pôde dizer o
seguinte a respeito deles: Ai de vos, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que sois semelhantes aos
sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas interiormente estão cheios de
ossos de mortos e de toda imundícia. Assim, também vós exteriormente pareceis justos aos homens,
mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade (Mt 23.27,28).
Hoje em dia, muitos dos que estão na igreja não agem diferente. Sentam-se orgulhosamente nos
bancos das congregações, julgando todos à sua volta para ver se eles se encaixam em seus padrões.
Alguns são do tipo muito espirituais, que estão sempre ouvindo uma palavra de Deus, embora sua
caminhada cristã seja caracterizada pela instabilidade, falta de compromisso ou mesmo
desobediência. Assim, eles são espiritualmente arrogantes, pois consideram ter um nível de
maturidade que, na verdade, não atingiram.
Uma outra forma muito comum do comportamento das pessoas com relação ao Onipotente é
quando elas imaginam que podem continuar sem se arrepender dos pecados e não sofrer
conseqüência alguma. Acerca dessas pessoas, as quais se fundamentam na graça divina, Judas falou:
Porque se introduziram alguns, que já antes estavam escritos para este mesmo juízo, homens ímpios,
que convertem em dissolução a graça de Deus e negam a Deus, único dominador e Senhor nosso,
Jesus Cristo (Jd 1.4). Essa é mais uma forma de orgulho espiritual, a qual é bastante perigosa.
Esse rápido exame sobre a soberba dá uma idéia de como ela se manifesta dentro da natureza
humana caída. Você pode ver como cada um desses tipos de altivez limita o Senhor de alcançar o
homem? Por exemplo, e possível para o altivo, que se exalta acima dos que estão à sua volta, ter uma
comunhão íntima com o Todo-Poderoso? O Onipotente ouvirá as orações desse rebelde mimado?
Ele abraçará a causa daquele que se protege, mesmo que isso signifique ser rude com os outros, em
vez de se entregar nas mãos do Pai? (1 Pe 2.23). Não! Deus resiste aos soberbos, e quanto maior o
grau de presunção de uma pessoa, mais ela estará oposta ao Pai.
A notícia maravilhosa sobre o Reino de Deus é que um pecador sempre pode arrepender-se!
Como é possível perceber o orgulho trabalhando em sua vida, você pode também se forçar a não
seguir tudo o que ele manda em seu relacionamento com o Senhor e com os outros. Deus irá ajudá-lo
a superar essa área do orgulho, pelo menos em grande parte. Esse sentimento não desaparecerá
automaticamente, simplesmente, porque você descobriu que ele está lá, mas, pelo menos, vê-lo como
realmente é auxiliará você a lutar contra ele e arrepender-se cada vez que ele mostrar sua horrorosa
face.

Senhor, por favor, torna clara para mim toda forma de orgulho
que está dentro do meu coração. Expõe cada uma delas pelo que elas são! Ajuda-me a ser mais
consciente de como esse sentimento afeta meu relacionamento contigo e com os outros. Liberta-me!
Amém.
O orgulho aumenta todos os nossos outros pecados, porque não nos podemos arrepender de nenhum
deles sem, antes, deixarmos de ser orgulhosos.1
Bíblia da Vida Prática

Não existe mínimo para o orgulho, não há limite para a soberba, medida que possa alcançar a
vaidade, temperança para a desobediência nem vara ou rédea que seja confiável para guiar na
incerteza e no temperamento irritante de falta de respeito e desdém.2
W. Dinwiddle

QUATRO

AS FACES DO ORGULHO

Inegavelmente, o orgulho tem sido uma das maiores causas da queda do homem em todos os
tempos. Enquanto há muitos versículos diretos sobre esse assunto nas Sagradas Escrituras, há muito
a aprender com personagens bíblicos que se viram nas armadilhas desse sentimento e caíram por
causa dele. A transparência do Senhor sobre o colapso espiritual do Seu povo escolhido é um
testemunho brilhante de Sua humildade e submissão. Para o nosso bem, Ele claramente nos mostra
como Seu Espírito se opõe à soberba do homem. Em seguida, estudaremos a vida de três
personagens bíblicos e suas argumentações com Aquele que é o mais Submisso de todos.

MIRIÃ: FAMILIARIDADE LEVA À DESOBEDIÊNCIA

A irmã mais velha de Moisés, Miriã, certamente foi uma das mulheres mais proeminentes da
história de Israel. Sua coragem e seu raciocínio rápido ainda estavam atuando quando, ainda
garotinha, ofereceu-se para procurar uma ama para a filha do Faraó que tinha acabado de encontrar o
bebê, Moisés, no carriçal, à beira do rio. Logo, ela iria tornar-se uma leal ajudante de seu irmão mais
novo enquanto ele encarava muitos desafios com os israelitas durante o êxodo. Corajosamente, Miriã
permaneceu ao lado dele e nunca imaginou que poderia ser usada pelo maligno para se opor ao
homem enviado por Deus para guiar os hebreus à Terra Prometida.
O capítulo 11 do livro de Números relata que Moisés, obedecendo às instruções do Senhor,
escolheu 70 anciãos para assistir o povo e julgá-lo. Essa foi a delegação de autoridade que Jetro, seu
sogro, anteriormente tinha-lhe orientado. Moisés, cansado de suportar toda a carga do povo, sentiu-se
aliviado por outros com quem dividia a responsabilidade. Porém, Miriã, que claramente se enfureceu
ao pensar em perder o poder que havia conquistado como sua confidente, começou a atacá-lo.
Podemos ver que falaram Miriã e Arão contra Moisés (Nm 12.1). É evidente que era ela quem
estava instigando tal atitude pelo fato de ser mencionada primeiro e de ter sido a única punida por
Deus. Porventura, falou o SENHOR somente por Moisés?, ela questionou. Não falou também por
nós? Perguntas assim tão diretas revelam que a proximidade de Miriã com seu irmão mais novo a
cegou para a realidade de que a caminhada de Moisés com Deus era muito mais profunda que a dela.
O Senhor falava com ele face a face (Êx 33.11). Embora ela ainda fosse uma profetisa e tenha
permanecido ao lado do Senhor até este momento, enquanto outros abertamente se rebelavam contra
Ele, Miriã cometeu o terrível erro de se focar na humanidade de seu irmão. Seu orgulho e seu
espírito faltoso a posicionaram contra a autoridade do Todo-Poderoso.
Jesus disse a Seus discípulos: E, assim, os inimigos do homem serão os seus familiares (Mt
10.36). Não é de surpreender que este seja um problema entre associações de homens de Deus. Por
ser difícil de ver, no dia-a-dia, o que acontece na vida pessoal com o Altíssimo, é mais fácil os
colaboradores concentrarem-se na liderança natural. A camada de mistério que cerca os líderes
cristãos é desfeita por aqueles que estão próximos a eles. Não há profeta sem honra, a não ser na
sua pátria e na sua casa (Mt 13.57b).
Parece ter havido duas razões para Miriã levantar-se contra Moisés. A primeira era que, como
irmã dele, ela tenha sido exaltada na frente de mais de 1 milhão de pessoas. Ter uma posição de
honra tão invejada entre o povo afetou sua espiritualidade. Há um antigo ditado popular que diz a
seguinte verdade:
O poder corrompe, e o poder absoluto corrompe totalmente". Por essa razão, Paulo orientou
Timóteo a não colocar pessoas na posição de lideres tão rapidamente: Não seja neófito, para não
suceder que se ensoberbeça e incorra na condenação do diabo (1 Tm 3.6 - ARA).
O segundo fator contribuidor pode ser encontrado na seguinte passagem: Não falou [Deus]
também por nós? Como profetisa, Miriã, provavelmente, deve ter proferido a Palavra do Senhor em
diversas ocasiões. Talvez, isso a tenha levado a pensar que ela estava no mesmo patamar que seu
irmão mais novo. O teólogo e reformador protestante francês João Calvino comentou:
Eles se orgulham do dom de profecias, que, ao contrário, deveria ter-lhes trazido modéstia. Mas
a depravação da natureza do homem é tão grande, que eles não só abusam dos dons de Deus dados
ao irmão que eles desprezam, como também exaltam com glorificação sacrílega os próprios dons em
vez de o Autor desses dons.3
É interessante que a seguinte afirmação seja feita a respeito de Moisés: E era o varão Moisés
mui manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra (Nm 12.3). Foi a mansidão que o
segurou de se defender e permitiu que o Todo-Poderoso lutasse suas batalhas por ele. Miriã deveria
saber disso, tendo sido uma testemunha ocular da fúria de Deus contra aqueles que escarneceram da
liderança de seu irmão. Nós aprendemos que o Senhor ouviu as suas palavras (Nm 12.2). Seu
julgamento foi rápido:
E logo o SENHOR disse a Moisés, e a Arão, e a Miriã: Vós três saí à tenda da congregação. E
saíram eles três. Então, o SENHOR desceu na coluna de nuvem e se pôs à porta da tenda; depois,
chamou a Arão e a Miriã, e saíram ambos. E disse: Ouvi agora as minhas palavras; se entre vós
houver profeta, eu, o SENHOR, em visão a ele me farei conhecer ou em sonhos falarei com ele. Não
é assim com o meu servo Moisés, que é fiel em toda a minha casa. Boca a boca falo com ele, e de
vista, e não por figuras; pois, ele vê a semelhança do SENHOR; por que, pois, não tivestes temor de
falar contra o meu servo, contra Moisés? Assim, a ira do SENHOR contra eles se acendeu; e foi-se.
E a nuvem se desviou de sobre a tenda; e eis que Miriã era leprosa como a neve; [...] Assim, Miriã
esteve fechada fora do arraial sete dias. Números 12.4-15a
Os arquivos bíblicos mostram que, em outras ocasiões, quando Moisés foi atacado, o Senhor
respondeu destruindo as pessoas completamente! Contudo, nessa situação, tudo o que Arão recebeu
foi um sermão, e Miriã, uma semana de lepra. Esse é um ótimo exemplo de como o Senhor age de
diferentes maneiras com os salvos e os não-salvos. Sua sentença de morte instantânea sobre aqueles
que tentaram colocar-se contra Moisés foi para proteger a nação como um todo. Rebeldes que se
recusaram a se arrepender podiam receber julgamentos severos. Miriã, por outro lado, foi
disciplinada como uma falha e restaurada ao convívio familiar,
Apesar de tudo, o Senhor claramente mostrou Sua grande estima por Moisés. Um comentarista
declarou o seguinte:
Os profetas, consequentemente, eram simplesmente instrumentos por intermédio dos quais o
Altíssimo tornava conhecidos Seus conselhos e Sua vontade para determinadas situações, em relação
às circunstâncias especiais e situações do desenvolvimento do Seu Reino. Não foi assim com
Moisés. O Onipotente o colocou sobre toda a Sua casa, chamou-o para ser o fundador e organizador
do reino estabelecido em Israel por meio de seu serviço de mediador e encontrou-o fiel ao Seu
serviço [...].
Assim Moisés não era um profeta do Senhor, como muitos outros, nem meramente o primeiro e
maior anunciador da Palavra, o primeiro entres os iguais, mas ficou sobre todos os profetas, como o
fundador da teocracia e mediador da Antiga Aliança... Seus sucessores, simplesmente, continuaram a
se estabelecer nos fundamentos que Moisés lançou. Se aquele homem de Deus teve esse
relacionamento peculiar com o Pai, Miriã e Arão pecaram gravemente contra Ele, quando falaram
daquela maneira.4
Sem dúvida, o prazer do Senhor com Moisés foi o suficiente para atrair a atenção dos seus
irmãos, mas Miriã precisava aprender essa lição de uma forma que jamais esquecesse. O Senhor
acometeu seu corpo com a praga maligna da lepra. Por isso, por ter-se exaltado acima do líder
escolhido pelo Onipotente, ela foi condenada a permanecer fora do arraial por uma semana inteira,
com muito tempo para se arrepender.
Evidentemente, essa humilhação atingiu o efeito desejado, pois nós nunca mais lemos sobre ela
exaltando-se novamente. Com toda certeza, tal afirmação é verdadeira: Porque o Senhor corrige o
que ama e açoita a qualquer que recebe por filho (Hb 12.6).

SAUL: REBELIÃO É COMO O PECADO DA FEITIÇARIA

Uma ilustração muito clara das devastadoras conseqüências que o orgulho pode causar na vida
de alguém e até mesmo no Reino de Deus pode ser vista na vida de Saul, o primeiro rei de Israel.
Esse governante, que, sem dúvida, começou seu reinado no caminho certo, era pequeno à própria
vista. Quando Samuel disse-lhe que gostaria de ordená-lo rei sobre o povo, ele respondeu:
Porventura, não sou eu filho de Benjamim, da menor das tribos de Israel? E a minha família, a
menor de todas as famílias da tribo de Benjamim? Por que, pois, me falas com semelhantes
palavras? (1 Sm 9.21). Mais tarde, quando o velho profeta tentou coroá-lo rei, ele se escondeu.
Porém, a humildade de Saul rapidamente começou a desaparecer quando o Senhor lhe deu
algumas vitórias retumbantes sobre os inimigos de Israel. O primeiro sinal de que ele estava
tornando-se orgulhoso surgiu quando ele, presunçosamente, ofereceu sacrifícios a Deus, em vez de
esperar, como Samuel o tinha instruído. O Altíssimo reprovou e ameaçou Saul por intermédio do
profeta, mas permitiu que o governante confuso permanecesse em seu cargo. O comentário do
púlpito mostra a importância do processo de testes do Senhor:
Deus prova Seus servos e não lhes mostra o Seu favor completo nem Sua confiança até que eles
tenham sido testados. Abraão foi provado e encontrado fiel, assim como Moisés, Davi e Daniel. O
patriarca, inclusive, não era sem pecado, nem Moisés. Certa vez, Davi pecou gravemente. Mas todos
eles se mostraram puros de coração e confiáveis. Saul desperta a atenção no Antigo Testamento por
ser alguém que, chamado para ocupar uma alta posição no serviço do Todo-Poderoso e testado
inúmeras vezes, ofendeu o Senhor muitas ocasiões e foi, além de tudo, rejeitado e destituído. A
questão na qual o rei foi testado é a mesma de antes. Ele obedeceria à voz do Senhor e reinaria como
Seu comandante, ou ele seria como os reis das tribos e nações vizinhas e usaria o poder do qual tinha
sido investido de acordo com sua própria vontade e seu prazer?5
Muitos anos se passaram, e mais vitórias militares foram conquistadas. Naquele momento,
tinha chegado a hora de testar novamente o caráter do déspota teocrata e dar-lhe uma oportunidade
de se render. Depois de lembrar a Saul, solenemente, que Deus o tinha escolhido como rei, Samuel
disse a ele que destruísse o povo amalequita: Vai, pois, agora, e fere a Amaleque, e destrói
totalmente tudo o que tiver, e não lhe perdoes; porém matarás desde o homem até a mulher, desde
os meninos até aos de peito, desde os bois até as ovelhas e desde os camelos até aos jumentos (1 Sm
15.3). Centenas de anos antes, esses amargos inimigos de Israel foram avisados do julgamento que
viria, mas nunca se arrependeram de sua insensatez.
O cálice da iniqüidade estava cheio. Eles haviam cruzado a linha; o tempo de cumprir a
profecia havia chegado (Êx 17.14). Era responsabilidade de Saul aniquilar completamente a nação
adversária.
Apesar dos avisos pessoais de Deus, Saul preferiu escolher obedecer parcialmente, não se
dando conta de que a obediência parcial é, na verdade, desobediência. Em vez de seguir as ordens
divinas de destruir cada criatura, ele poupou o rei - como um troféu individual para ser exibido - e
alguns animais para alimentar seus soldados famintos. Então, para aumentar ainda mais o furor da ira
do Senhor, ele deu uma festa para comemorar a vitória e construiu um monumento para si mesmo!
Diz um comentarista:
Antes de ser elevado à dignidade real, Saul se considerava incapaz de carregar um fardo tão
pesado. Depois dos grandes sucessos militares, ele ficou cheio de arrogância e reinou de maneira
abertamente desafiadora às condições sobre as quais Jeová o investiu no cargo.6
Quando Samuel encontrou o rei, imediatamente confrontou-o sobre sua desobediência. Com
um rancor profundo, Saul exagerou em sua obediência e minimizou seus erros. Em uma reação típica
de quem está iludido, Saul se convenceu de que se encontrava motivado por boas intenções. Em sua
cabeça, tinha respondido o chamado do Todo-Poderoso. O fato de ter poupado um homem e um
grande grupo de animais era apenas um detalhe comparado a tudo aquilo que ele havia feito
corretamente. "Dessa forma carnalmente enganosa, os corações acreditam estar desculpando-se dos
mandamentos de Deus à sua própria maneira", explicou um ministro.7
O olhar penetrante do sério profeta deve ter dado uma bela sacudida nas fantasias sanguinárias
de Saul. O querido ancião, que havia perdido muitas noites em agonizantes intercessões pelo rei
rebelde, não o poupou da repreensão: Porventura, sendo tu pequeno aos teus olhos, não foste por
cabeça das tribos de Israel? (1 Sm 15.17a). Com esta pergunta pungente, Samuel atravessou
completamente o coração desapontado do rei. Como Miriã, o rei Saul corrompeu-se pelo poder e
considerou-se muito mais do que, na verdade, era. Ele também formou uma falsa impressão do seu
relacionamento com o Pai. Mas o cordeiro berrante e o temeroso rei Agague depunham contra ele.
Saul esqueceu-se de que sua tarefa era apenas ser um agente visível de Deus para o Seu povo.
Foi o Altíssimo quem o colocou naquela posição, deu-lhe favor perante os olhos daquela nação e
concedeu-lhe as vitórias sobre os inimigos de Israel. Um reino longo e próspero estaria esperando
por ele caso aquele governante tivesse simplesmente escolhido obedecer aos mandamentos de Deus.
Infelizmente, Saul não fez mais do que o mínimo necessário para conseguir isso. Além disso, em vez
de andar no temor do Senhor, era mais zeloso para construir e promover seu próprio reino longe do
Onipotente. Grande ao seu próprio ponto de vista, aquele rei abandonou seu chamado de autoridade,
delegado pelo Todo--poderoso sobre a tribo de Israel.
Deve ter sido uma cena apavorante quando Samuel proferiu aquelas palavras imortais, que têm
desafiado muitos cristãos ao longo dos séculos: Tem, porventura, o SENHOR tanto prazer em
holocaustos e sacrifícios como em que se obedeça a palavra do SENHOR? Eis que o obedecer é
melhor do que o sacrificar; e o atender melhor é do que a gordura de carneiros. Porque a rebelião é
como o pecado de feitiçaria, e o porfiar é como iniqüidade e idolatria. Porquanto tu rejeitaste a
palavra do SENHOR, ele também te rejeitou a ti, para que não sejas rei (1 Sm 15.22,23).
Matthew Henry afirma:
Aquela humilde, sincera e conscienciosa obediência à vontade de Deus é mais agradável e
aceitável para Ele do que gordura queimada e sacrifícios. É muito mais fácil trazer um bezerro ou
cordeiro para ser queimado sobre o altar do que transformar todo pensamento altivo em obediência
a Deus e à sua vontade.8
Dessa forma, podemos ver que o maior pecado de Saul contra o Onipotente não era tanto o fato
de ele não ter cumprido meticulosamente cada detalhe que lhe tinha sido ordenado. Não, o verda-
deiro problema era que, em seu coração, ele se havia exaltado contra o Pai, rejeitado a Palavra do
Senhor e tinha, de fato, deixado de segui-lO. Tudo isso estava descoberto ao grande Investigador
das almas de quem criatura alguma pode esconder-se (Hb 4.13).
Podemos aprender muitas lições com a vida de Saul, e a primeira delas é que a obediência ao
Senhor é uma questão do coração. Embora aquele rei tenha vivido ostensivamente em sujeição a
Deus, essa provação expôs a verdadeira condição de seu coração. Saul, como muitos cristãos
professos, apenas praticou aqueles atos de aparente penitência que pareciam confirmar sua
espiritualidade para os que estavam à sua volta. Secretamente seguindo os anseios do seu coração,
ele - como os fariseus da época de Jesus -desejou a glória dos homens aos invés da glória que vem
do Pai (Jo 12.43).
Um outro ponto chave nessa história é que ser fiel nas pequenas coisas do dia-a-dia é muito
mais importante do que fazer grandes atos para Deus. De fato, o Senhor nunca usará uma pessoa de
uma maneira grandiosa até que ela tenha aprendido as lições diárias de submissão. As palavras de
Samuel são verdadeiras: obediência é melhor do que sacrifício.
Provavelmente, a maior lição que podemos aprender da grande queda de Saul é a importância
de andar humildemente com o Senhor. Aquele governante havia sido pequeno aos [próprios] olhos
uma vez, mas, gradualmente, tornou-se imenso em sua própria percepção. Quando uma pessoa é
assim, rapidamente toma para si os créditos das coisas boas que acontecem em sua vida, porque o
Criador Se torna pequeno em sua mente. Assim, ela se exalta e recusa-se a glorificar a Deus (Rm
1.21). Por outro lado, aquele que se vê pequeno aos próprios olhos enxerga o Altíssimo em todas as
coisas e é ágil para lhe dar a glória devida. Pessoas humildes não se consideram como tal.
Uma lição final tirada dessa narrativa bíblica é que um exame adiado endurecerá um coração
não-arrependido. Embora Saul tenha sido rejeitado como rei, ele continuou no cargo ainda por
muitos anos, persistindo em seu orgulho e tornando-se mais cruel e insano. O Onipotente, no
entanto, lidou com Saul como Ele trata todo aquele que tem o coração endurecido e se recusa a se
humilhar: Ele foi muito paciente. Contudo, é inevitável que qualquer pessoa que se exalta seja
humilhada, embora o julgamento aparente geralmente não ocorra durante um longo período. Após o
Senhor rejeitar Saul, Samuel imediatamente ungiu Davi para ser o novo rei de Israel. Entretanto, a
mudança, de fato, não ocorreu logo. Eventos que tomam lugar no reino espiritual, geralmente,
demoram a se concretizar no mundo físico. Depois desse incidente, o Todo-Poderoso abandonou
Saul para o demônio, que o atormentou pelo resto de sua miserável vida. Sua insanidade crescente
finalmente o levou á demência. Tudo isso poderia ter sido evitado se ele, simplesmente, tivesse-se
humilhado e obedecido ao Criador. O texto de Provérbios afirma: O homem que muitas vezes
repreendido endurece a cerviz será quebrantado de repente sem que haja cura (Pv 29.1)

NAAMÃ: ENSINADO PELOS SERVOS

Passados aproximadamente 200 anos, surgiu, na região da Síria, um grande homem chamado
Naamã, que era de muito respeito por ser um valente de guerra. Ele, que era um herói nacional e
estava acostumado a ser tratado com reverência e consideração, construiu essa imagem por ter agido
bravamente e obtido muitas conquistas no campo de batalha. Podemos imaginar quantas vezes ele
retornou para ser aclamado pela multidão em Damasco depois de conquistar grandes vitórias para
sua nação. Naamã era muito especial, literalmente falando. Contudo, quando tudo parecia estar indo
bem, ele notou uma marca branca em sua pele: os primeiros sinais de lepra!
Mal sabia ele que o Onipotente, o Senhor de Israel, já tinha determinado uma série de
acontecimentos que lhe dariam algo mais maravilhoso do que quaisquer riquezas e toda fama que o
mundo já lhe havia oferecido: o conhecimento de Deus. A história, na verdade, começou algum
tempo antes, quando as tropas sírias haviam seqüestrado uma garotinha judia e levaram-na para a
Síria a fim de servir a esposa de Naamã. Simpatizando com a condição de seu novo senhor, a jovem
escrava mencionou que havia um profeta em Israel que poderia sará-lo. O grande general,
desesperado por um milagre de cura, foi forçado a receber instruções de uma criada! Esse foi o
primeiro de muitos degraus que aquele orgulhoso guerreiro estava descendo.
Em uma grande demonstração de pompa e arrogância, o poderoso homem aparece com seu
grupo de soldados e chega ao humilde lar do profeta Eliseu. Naamã era acostumado com a atitude de
seus subalternos - como este profeta judeu - de se curvarem ante a sua presença, em sinal da mais
profunda reverência. Para sua surpresa, Eliseu sequer saiu da casa para cumprimentá-lo. Em vez
disso, enviou seu servo com uma simples mensagem: Vai, e lava-te sete vezes no Jordão, e a tua
carne te tornará, e ficarás purificado (2 Rs 5.10b). O comentário do púlpito descreve sua reação:
O general sírio tinha imaginado uma cena bem diferente. "Pensava eu que ele sairia a ter
comigo, por-se-ia de pé, invocaria o Nome do Senhor, seu Deus, moveria a mão sobre o lugar da
lepra e restauraria o leproso". Naamã tinha imaginado uma grande cena, onde ele seria o personagem
central, o profeta descendo, provavelmente com uma varinha mágica, com os ajudantes posicionados
ao redor, os transeuntes parando para observar - uma invocação solene da deidade, um poder mágico
movendo-se em suas mãos, e a cura imediata, ocorrida nas ruas da cidade, diante dos olhos dos
homens, no barulhento centro da cidade [...] Em vez disso, ele foi orientado a voltar como tinha
vindo, cavalgar cerca de 32km até o rio Jordão, geralmente lamacento ou, pelo menos, sem cor, e
banhar-se, sem qualquer pessoa para ver, exceto seus próprios ajudantes, sem importância, pompa ou
circunstância ou glória alguma.9
Por causa de sua grandiosa imaginação de como aconteceria sua cura, Naamã ficou
extremamente furioso com esse tratamento: Não são, porventura, Abana e Farpar, rios de Damasco,
melhores do que todas as águas de Israel? Não me poderia eu lavar neles e ficar purificado?, ele se
indignou (2 Rs 5.12a). Esse foi um momento crucial. Se tivesse permitido que a raiva afetasse sua
resposta, ele poderia ter feito algo sem pensar, como tentar agredir Eliseu, que poderia facilmente
clamar fogo do céu para destruir toda a sua tropa (2 Rs 1.9). Porém, alguns dos servos vieram falar-
lhe e ponderaram com ele: Meu pai, se o profeta te dissera alguma grande coisa, porventura, não a
farias? Quanto mais, dizendo-te ele: Lava-te e ficarás purificado (2 Rs 5.13b).
Nada disso fez sentido para a mente racional de Naamã, mas, mesmo assim, sua grande
necessidade o fez humilhar-se e obedecer às palavras daquele profeta que tanto o havia
desrespeitado. Ele fez a viagem de duas horas até o rio Jordão e se lavou sete vezes. Depois de ter
mergulhado a sétima vez no rio sujo, conforme o homem de Deus havia prometido, a lepra tinha
desaparecido totalmente. Assim como o único leproso purificado que voltou para agradecer a Jesus,
Naamã retornou a Samaria para expressar sua gratidão a Eliseu. Dessa vez, não havia qualquer
indício de ego insuflado ou do desdém soberbo que ele havia mostrado anteriormente. Ele era um
homem mudado que, naquele momento, havia experimentado a bênção da humildade.
Há um grande número de coisas importantes que podemos aprender dessa experiência
humilhante de Naamã. A mais óbvia é que, quando ele tinha tudo caminhando da forma esperada,
não sentiu a necessidade de procurar um relacionamento com o Altíssimo, e isso não é diferente
hoje, mesmo com os crentes. A ausência de problemas tende a deixar as pessoas orgulhosas e auto-
suficientes. Então, em Sua misericórdia, o Senhor permite que a adversidade aconteça em nossa vida
para que tenhamos sempre a consciência da necessidade de Sua ajuda (Sl 119.67,71).
É também interessante como o altivo general sírio teve de receber constantemente orientações
de seus escravos. Primeiro, a pequena escrava disse-lhe onde procurar pelo poder de cura. Eliseu
mandou seu escravo, Geazi, dar as instruções da restauração. Por último, quando Naamã ficou
nervoso, seu próprio servo teve de lhe mostrar a sabedoria necessária para decidir o que fazer. O fato
da questão é a verdade que servos têm muito mais facilidade de entender o Senhor, pois o Reino de
Deus é fundamentado na servidão. Eles têm uma singela forma de pensar que os ricos e poderosos
não compreendem.
Podemos observar também como a maneira de Deus agir é muito diferente da do homem. O
Senhor deu a Naamã uma simples tarefa para executar: Lava-te e ficarás purificado. Em nosso
orgulho, queremos fazer alguma coisa que nos torne merecedores daquilo que estamos pedindo a
Deus. "Se eu jejuar por 40 dias, certamente, Deus irá libertar-me," é a maneira que geralmente
pensamos. Mas pensar dessa forma é perder totalmente o foco da questão central: desenvolver a
humildade e uma dependência do Senhor. Indivíduos imaturos, autocentrados, em geral, querem
fazer algo grande que eles possam apontar como a razão para a oração atendida. Em vez de dar a
glória a Deus, a pessoa a clama para si. No caso de Naamã, se lhe tivesse sido pedido que fizesse
algo extraordinário a fim de receber a cura, ele teria voltado para a Síria tão arrogante como sempre e
mais longe ainda do Altíssimo.
Finalmente, os sete mergulhos de Naamã no rio Jordão na frente de toda a tropa é uma linda
ilustração de como o Senhor ajuda as pessoas a se rebaixarem. Cada vez que ele mergulhava,
aproximava-se mais um pouquinho do conhecimento do Todo-Poderoso. Depois de receber toda a
água dos sete mergulhos, ele estava suficientemente humilde para que enxergasse O mais humilde de
todos. Isso, simplesmente, não seria possível se não experimentasse essas humilhações repetidas.
Esse é o caso dos cristãos hoje em dia. Quando o Senhor permite que uma pessoa seja humilhada de
alguma forma, o Seu desejo é sempre que ela tenha um conhecimento maior de Jesus.
Muitos poderiam pensar que seria impossível para um homem egoísta e orgulhoso como
Naamã aproximar-se de Deus. Contudo, o Senhor sabe exatamente como atender à necessidade de
cada um. No caso de Naamã, foram necessárias as ordens de três escravos e muitos mergulhos no rio
Jordão para quebrantá-lo! Mas esse era um homem que estava sendo atraído para o Senhor.
Um homem orgulhoso humilhando-se é uma coisa maravilhosa no Reino de Deus.

Querido Pai, eu vejo o orgulho agindo nessas três vidas. Eu


desejo que o Senhor me faça mergulhar sete vezes ou até me
ponha fora do campo por uma semana, mas, por favor, não
deixe que meu orgulho saia tanto de controle que o Senhor
tenha de me punir como fez com Saul.
Amém.
O cobiçoso levanta contendas, mas o que confia no Senhor prosperará.
Salomão - Provérbios 28.25

O orgulho é um artista maravilhoso. Ele aumenta o pequeno, embeleza o feio, honra o desonrado e faz o
homem pequeno, feio e desrespeitoso parecer grande, belo e digno aos seus próprios olhos. Dizem que
Acácio, o poeta, que era um anão, retratou-se como sendo alto e de belo porte. Na verdade, ele faz com que o
homem que tem um coração demoníaco aparente a si mesmo ser um santo.'
D. Thomas

CINCO

ORGULHO RELIGIOSO
Exceto por alguns poucos isolados períodos na história bíblica, a desobediência e a rebelião
foram as principais características dos judeus. Isso se manifestou primeiro em sua participação na
idolatria inaceitável das nações pagãs que estavam ao redor deles depois de se terem instalado na
Terra Prometida. O seu exílio na Babilônia trouxe um fim a tudo isso - mais uma vez, eles clamaram
pelo Todo-Poderoso. Mas não muito tempo antes, uma fé verdadeira em Deus foi substituída por
rituais mortos. Em um determinado ponto, o Senhor os confrontou sobre sua falta de sinceridade na
adoração, quando Ele disse que este povo se aproxima de mim e, com a boca e com os lábios, me
honra, mas o seu coração se afasta para longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em
mandamentos de homens, em que foi instruído (Is 29.13). Essa foi uma acusação grave contra eles,
pois expôs que, mesmo naqueles dias iniciais, os judeus tinham-se tornado descrentes, mudando sua
realidade interna com Deus para outra de religiosidade sem verdade.
Quando Jesus apareceu em cena centenas de anos mais tarde, um formalismo frio havia tomado
conta do judaísmo. Em vez de manter a Lei fora da adoração sincera ao Senhor, os fariseus ficaram
satisfeitos em manter sua fachada religiosa. Jesus colocou o dedo na ferida quando disse: E fazem
todas as obras afim de serem vistos pelos homens, pois trazem largos filactérios, e alargam as
franjas das suas vestes (Mt 23.5). Tudo relacionado às suas cerimônias, seja usar amuletos, seja
recitar longas preces em público, era realizado com o propósito de fazer com que parecessem
espirituais para aqueles que estavam à sua volta. Sua "fé" foi tão corrompida pelo orgulho e pela
hipocrisia, que, de maneira aparentemente exasperada, Jesus exclamou: Como podeis vós crer,
recebendo honra uns dos outros e não buscando a honra que vem só de Deus? (Jo 5.44). Em outras
palavras, no lugar de viverem para agradar ao Senhor - a atitude natural que vem da fé genuína -, os
fariseus construíram um sistema fundamentado na própria glória e no orgulho. Eles eram tão altivos,
que não puderam ver que o Deus encarnado estava sentado à frente deles.
Não há dúvida de que os fariseus * e seus similares "cristãos", os judeus convertidos,
apareceram muitas vezes na mente dos escritores do Novo Testamento, sendo mencionados mais de
cem vezes.
Sua presença formou a base da vida religiosa do primeiro século. Um dos maiores esforços da
primeira igreja cristã foi romper com a superficialidade do judaísmo. Claramente convencidos de que
a verdadeira religião é uma questão do coração, os que escreveram o Novo Testamento,
repetidamente, exortaram aqueles cristãos a lutarem pela presença real do Altíssimo na vida deles,
em vez de se acomodarem com uma vã religiosidade caracterizada pelo legalismo e por atos vazios
de devoção.
Apesar disso, como a Igreja tem-se desenvolvido nos últimos dois milênios, o Evangelho de
Jesus Cristo tem-se espalhado por todo o mundo. A semente do verdadeiro cristianismo tem crescido
*
Para simplificar, esse termo está empregado em senso geral para descrever todos os hipócritas religiosos dos tempos de Jesus.
ao mesmo tempo em que as "sementes" da hipocrisia, ou seja, aqueles que estão satisfeitos com uma
forma aparente de cristianismo em vez de uma realidade interna. A Igreja pós-moderna desenvolveu
a própria forma de dissimulação, feita sob medida para a vida americana moderna. Embora nossas
congregações evangélicas não tenham ministros segurando talismãs e longas franjas pendendo de
suas roupas, criamos a nossa forma de farisaísmo. O orgulho religioso está tão ativo hoje quanto há
dois mil anos.

ÊNFASE NA APARÊNCIA

A primeira e mais óbvia característica dos fariseus era que eles estavam muito mais
preocupados com a maneira com que pareciam para os outros do que como pareciam para Deus.
Com precisão milimétrica, Jesus lhes mostrou qual era o seu espírito:
Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que limpais o exterior do copo e do prato, mas o
interior está cheio de rapina e de iniqüidade. Fariseu cego! Limpa primeiro o interior do copo e do
prato, para que também o exterior fique limpo. Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que
sois semelhantes aos sepulcros caiados, que por fora realmente parecem formosos, mas
interiormente estão cheios de ossos de mortos e de toda imundícia. Assim, também vós exteriormente
pareceis justos aos homens, mas interiormente estais cheios de hipocrisia e de iniqüidade.
Mateus 23.25-28
Nessa denúncia agressiva, Jesus expôs a raiz da hipocrisia daquele povo: Porque amavam mais
a glória dos homens do que a glória de Deus (Jo 12.43). Jesus utilizou a palavra grega hipócrita -
usada no mundo grego para descrever atores que atuavam em alguma peça - como o termo ideal para
descrever a falsa piedade dos fariseus. O mundo judeu era o seu palco, e esses atores religiosos
tinham uma habilidade nata para representar o papel de "escolhidos de Deus". A sua platéia judia
buscava neles direção e acreditava que estava sendo liderada pelo caminho correto. O problema era
que, assim como um ator influente de Hollywood pode ter um papel reescrito para que apareça
melhor em um filme, os fariseus tinham transformado suave e gradualmente a devoção a Deus em
um sistema religioso que recompensava a piedade aparente e ignorava a verdadeira intenção. Como
disse Jeremias, eles recusaram a palavra do SENHOR, e a falsa pena dos escribas a transformou em
mentira (Jr 8.8,9). Ezequiel coloca isso de maneira ainda mais clara: Os seus sacerdotes transgridem
a minha lei (Ez 22.26a). A transformação aconteceu tão gradualmente, que quase ninguém percebeu.
De maneira mais branda, o mesmo fenômeno está acontecendo na Igreja moderna nos Estados
Unidos. Embora ela tenha seus períodos de verdadeiros avivamentos, esse fogo está gradualmente se
extinguindo por causa do egoísmo e do secularismo. As pessoas naturalmente preferem o percurso
mais fácil, mas esse é o largo caminho que leva à destruição (Mt 7.13). Existem muitos crentes
sinceros que são devotos do Altíssimo e orientados por Ele, mas outros têm escolhido um viver mais
fácil e têm tentado encaixar o cristianismo dentro do seu cotidiano. Em outras palavras, como os
fariseus, eles têm-se tornado atores religiosos profissionais que estão espiritualmente vazios. De fato,
é muito mais fácil exagerar no distanciamento de Deus do que, na verdade, lutar contra o
problema propriamente dito.
Jesus advertiu Seus discípulos sobre a contaminação da falsa espiritualidade: Acautelai-vos,
primeiramente, do fermento dos fariseus, que é a hipocrisia (Lc 12.1b). A melhor analogia, hoje em
dia, para esta admoestação seriam as placas que encontramos nas estradas: "Cuidado! Atenção!
Pare! Perigo! Afaste-se!". Para o bom Mestre ter usado um termo tão forte como acautelai-vos,
isso mostra que Ele considerava a hipocrisia extremamente perigosa. A hipocrisia é muito arriscada
porque:
• Reforça o amor-próprio da pessoa.
• Acontece automaticamente quando alguém é altivo e tem dificuldade de perceber.
• Substitui uma falsa espiritualidade.
• Leva a uma posterior decepção e desilusão.
• Impede que a pessoa veja sua necessidade de se arrepender e mudar.
• Encoraja mais o temor do homem do que o de Deus.
• Exalta os resultados visíveis enquanto cega as pessoas em relação às conseqüências eternas.
Deveria ser claro que a verdadeira condição espiritual de um homem não é determinada por
uma auto-avaliação otimista. Ele não é de Deus simplesmente porque se considera assim, nem é
devoto porque enganou os outros para que pensassem que ele é. A realidade da sua situação
espiritual é fundamentada apenas sobre uma coisa: como o Altíssimo o vê. Jesus declarou: Eu sou
aquele que sonda as mentes e os corações. E darei a cada um de vós segundo as vossas obras (Ap
2.23b). O escritor do livro de Hebreus disse que não há criatura alguma encoberta diante dele;
antes, todas as coisas estão nuas e patentes aos olhos daquele com quem temos de tratar (Hb 4.13).
Tudo o que fazemos em segredo e o que pensamos (incluindo nossas motivações secretas) são claras
diante do Senhor. Aqueles que não têm uma realidade do Reino do Pai se enganam pensando que sua
animosidade, seu desejo, sua avareza, sua autopiedade e inveja são problemas insignificantes. Mas,
apesar disso, tudo é revelado claramente no telão do Céu (como se existisse um) diante do Deus
santo. Eles podem convencer a si mesmos e persuadir os outros, afirmando andarem retamente no
caminho do Senhor, mas isso não é necessariamente a verdade.

ÊNFASE EM ASPECTOS SECUNDÁRIOS DA LEI

Jesus resumiu o verdadeiro fundamento da religião quando falou: Amarás o Senhor, teu Deus,
de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande
mandamento. E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo. Desses
dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas (Mt 22.37-40). Qualquer crente sincero (antes
ou depois do Calvário), que tenha conscientemente decidido seguir honestamente essas regras de
vida, deve saber que esses são os grandes e os primeiros mandamentos. Ele entende que aquele
que não ama não conhece a Deus, porque Deus é amor (1 Jo 4.8 - ARA). Sendo assim, sua vida é
tomada de grande devoção pelo Poderoso e é seriamente envolvida em ajudar, de alguma maneira, os
necessitados.
Embora eu tenha certeza de que os fariseus auto-enganados pensavam que amavam o Senhor e
os outros verdadeiramente, eles viviam para si mesmos acima de tudo. Amor pelo Altíssimo sempre
representa na vida diária a devoção aos outros, atendendo às suas necessidades (1 Jo 4.20). Consi-
derando que esses líderes religiosos judeus estavam acostumados com sacrifícios pessoais, eles
simplesmente evitavam a realidade das leis, enfatizando a observação estrita aos aspectos
secundários. Eles davam mais destaque aos pontos menores e reduziam a importância dos dois
grandes mandamentos. Consequentemente, com o decorrer dos anos, eles deixaram de adorar o Pai e
começaram a realizar um ritual morto.
Um exemplo disso acontecia quando eles, cuidadosamente, pesavam os fragmentos de cominho
e extraíam com a maior precisão o dízimo para ofertar ao Senhor. Jesus lhes chamou a atenção
dizendo: Ai de vós, escribas e fariseus, hipócritas! Pois que dais o dizimo da hortelã, do endro e do
cominho e desprezais o mais importante da lei, o juízo, a misericórdia e a fé; deveis, porém, fazer
essas coisas e não omitir aquelas. Condutores cegos! Coais um mosquito e engolis um camelo (Mt
23.23,24).
Os fariseus dos nossos dias não pesam meticulosamente, mas ainda evitam os fundamentos do
cristianismo: amar a Deus e o próximo. Como exemplo disso hoje em dia, há a maneira como alguns
ressaltam demasiadamente a importância da doutrina, como se isso fosse o ponto supremo da fé
cristã. Muito da desunião e da rivalidade orgulhosa presentes no cristão do século 21 é um resultado
direto daqueles que discutem questões doutrinárias com qualquer um que tenha uma opinião
diferente.
Porém, um crente maduro e humilde entende que existe uma distinção entre os fundamentos
da Lei e opiniões sobre conceitos de menor importância. Todo aquele que é nascido de novo possui
certas verdades comuns sobre Cristo, as quais declaram que Ele:
• É um membro da Trindade.
• Era Deus encarnado.
• Nasceu da virgem Maria.
• Morreu no Calvário e ressuscitou ao terceiro dia.
• Irá voltar para a Terra etc.
Esses são alguns dos dogmas importantes que formam o fundamento da religião cristã. É apro-
priado batalhar pela fé contra os falsos mestres que tentam destruir essas verdades inabaláveis (Jd
1.3). Mas, atualmente, o problema é que existem aqueles que querem lutar diligentemente com
outros crentes que não concordam com suas perspectivas sobre todos os aspectos do cristianismo.
Sem dúvida alguma, a unidade é um dos sinais de uma igreja saudável. Isso significa que as
pessoas estão tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo. sentindo uma mesma coisa (Fp 2.2b). Eles estão
vivendo com toda a humildade e mansidão, com longanimidade, suportando-vos uns aos outros em
amor, procurando guardar a unidade do Espírito pelo vínculo da paz (Ef 4.2,3).
Jesus orou para que Seus discípulos fossem aperfeiçoados na unidade e conhecessem que o
Altíssimo enviou Seu Filho ao mundo (Jo 17.23). Ele também disse: Nisto todos conhecerão que
sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros (Jo 13.35). Considerando o fato de que muitos
cristãos, frequentemente, têm mais discussões do que comunhão e parecem dar maior importância
em forçar suas opiniões pessoais sobre os outros do que se preocupar com o bem-estar dos
necessitados, há alguma dúvida de que somos ridicularizados como tolos egocêntricos?
Desunião desnecessária surge quando as pessoas põem questões doutrinárias secundárias acima
da necessidade de amar os outros e ganhar almas para Jesus Cristo. Questões sobre segurança eterna,
duração do júbilo, divórcio e novo casamento, dentre outras, não deveriam jamais separar os santos.
Está tudo bem se os indivíduos tiverem pontos de vista diferentes. Porém, orgulhosos e imaturos não
podem tolerar os que discordem deles nessas questões espirituais.
O cristão maduro que acredita nos fundamentos da fé crista (como aqueles mencionados
anteriormente) tem uma convicção divina que é fortalecida pela fé. Quem encontra problemas
naqueles que possuem padrões doutrinários diferentes tem uma opinião intelectual fortalecida pelo
orgulho. O crente humilde entende que, no geral, ele herdou seu ponto de vista por meio de seu
embasamento denominacional. Por exemplo, caso ele tenha crescido em uma igreja batista, existe
grande chance de ele acreditar na segurança eterna. Se ele teve um crescimento em congregação
pentecostal, provavelmente abraçará a perspectiva Arminiana. Independente de qual conceito ele
tenha, não deve permitir que este o separe de demais cristãos.
Onde existe a soberba, as pessoas se tornam intolerantes com relação àquilo que os outros
crêem. Seguindo o mesmo raciocínio, onde a humildade receber seu lugar apropriado, a unidade
prevalecerá. O acordo cristão e o amor dos irmãos são mais importantes que a opinião de alguém
sobre doutrinas secundárias! Não é errado apoiar as crenças, mas devemos ser humildes o suficiente
para admitir que nosso conhecimento do Reino de Deus é, no máximo, minúsculo. É crucial, para o
bem da comunhão, que voltemos a nossa atenção para amar ao Senhor e os outros. Como Davi
declarou: Oh! Quão bom e quão suave é que os irmãos vivam em união! (Sl 133.1).
Aqueles que têm apenas uma forma de obedecer a Deus estarão sempre procurando
alternativas para servir-Lhe e amar os demais com um coração sincero. Eles mantêm suas máscaras
espirituais e podem, inclusive, aderir honestamente a certos aspectos do cristianismo, mas falta-lhes
um relacionamento vibrante com o Senhor. Em vez de se submeterem humildemente ao Onipotente,
eles se esforçam apenas para manter a aparência de estarem envolvidos com o Pai. Como o Poderoso
pode interagir com pessoas tão hipócritas? Vejamos o que Ele declarou nas Sagradas Escrituras: Pois
que este povo se aproxima de mim e, com a boca e com os lábios, me honra, mas o seu coração se
afasta para longe de mim, e o seu temor para comigo consiste só em mandamentos de homens, em
que foi instruído (Is 29.13). Possa Deus ter misericórdia de nós e livrar-nos dos efeitos do orgulho
religioso!

Querido Senhor, por favor, guia-me a um relacionamento vivo e vibrante com Jesus. Por favor,
ajuda-me a superar minha tendência natural de me apresentar como algo que não sou. Também, dá-
me a humildade para resistir a tentação de fazer as pessoas aceitarem minhas crenças. Eu quero
conhecer-Te de maneira real, Senhor. Remove qualquer coisa do meu coração ou da minha vida que
possa impedir que isso aconteça. Obrigado.
Amém.
Apenas um passo entre soberba e o inferno. Arrogância insolente beira à loucura.1
J. D. Davies

Deus diz de todo homem orgulhoso: "Nós não podemos viver neste mundo juntos".2
Talmude Judeu

O tempo está a favor do manso e contra o soberbo. Os julgamentos de Deus se unem, como nuvens
negras de tempestade, em oposição àqueles que têm o coração altivo. A tempestade irá cair muito em
breve.3
R. Tuck

SEIS

A NATUREZA DESTRUTIVA DO ORGULHO


Prisões, asilos insanos e cemitérios do mundo fornecem inúmeros relatos de almas que
descobriram, em primeira mão, a verdade da curta, mas deprimente, afirmação de Salomão:
A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito precede a queda (Pv 16.18). Mais tarde, ele
confirmou isso quando disse: Antes de ser quebrantado, eleva-se o coração do homem; e, diante da
honra, vai a humildade (Pv 18.12).
Suponho que não haja lei espiritual alguma mais constantemente confirmada para mim do que
essas destes versos. Para qualquer lugar que o olhar de discernimento mire, as conseqüências da
altivez aparecem claramente. Muitos têm destruído a própria vida e a dos outros simplesmente
porque não foram capazes de se humilhar. A altivez está para a alma como o câncer maligno está
para o corpo humano. Não só ele se espalha por todo o organismo, como também devasta cada
aspecto da vida da pessoa. Uma vez que o orgulho tenha-se desenvolvido totalmente dentro do
coração inatingível, a destruição rapidamente se apodera dele.
Note que Salomão usou a idéia da palavra antes três vezes nessas duas afirmações. Isso mostra
a grande influência do caráter em determinar o que acontece na vida de alguém. O que ele é
determina o que faz. As ações de uma pessoa não só estabelecem um padrão de vida que reforça o
que ela é, mas também promovem reações variadas. Assim, o princípio de causa e efeito está agindo.
Ser orgulhoso leva as pessoas a fazerem certas coisas, as quais surtem efeitos que trazem
conseqüências terríveis. Como qualquer outro pecado, o orgulho carrega consigo o próprio
julgamento.
Embora o resultado do orgulho na vida de uma pessoa não-salva diferencie-se de alguma forma
do cristão orgulhoso, as mesmas leis espirituais se aplicam aos dois. As normas físicas, judiciais e
espirituais têm um denominador comum: funcionam com base no princípio de causa e efeito. Se um
homem for apanhado roubando um banco, ele enfrentará o peso do sistema judicial. Se alguém pular
de um prédio alto, será atraído para a terra pela gravidade. Se uma pessoa exaltar a si mesma, será
humilhada. Não interessa se o ladrão de bancos, o suicida ou o orgulhoso professa Cristo ou não; o
princípio de causa e efeito irá atingi-los sem piedade. A altivez de uma pessoa determinará as
conseqüências que ela enfrentará. Como foi mencionado anteriormente, o orgulho carrega consigo o
próprio julgamento. Jesus disse: E o que a si mesmo se exaltar será humilhado (Mt 23.12a). Embora
Ele não nos tenha dito como seria essa humilhação, podemos acreditar que quanto mais presunção
alguém tiver, maiores serão a desgraça e a calamidade sobre ele. As seguintes afirmações feitas por
Salomão nos dão uma base para examinar as conseqüências do orgulho:
• Vindo a soberba, virá também a afronta (Pv 11.2a).
• A soberba precede a ruína (Pv 16.18a).
• A altivez do espírito precede a queda (Pv 16.18b).

A DESONRA DO ORGULHO

A primeira lei espiritual prática é que a soberba leva a desonra (do hebraico, qalown) à vida de
uma pessoa. Os sinônimos para este termo são desgraça, ignomínia, reprovação e vergonha.4
Pessoa alguma gosta de alguém que imagina ser superior a todas as outras à sua volta. Existe
algo repulsivo nele. Em vez de ser tratado com respeito e honra, o altivo provoca sentimentos ruins
em seus semelhantes. O que é triste a respeito daqueles que são obcecados com o que os demais
pensam sobre eles é que quanto mais preocupados estiverem com a própria aparência, menos as
pessoas irão respeitá-los. Sua tentativa orgulhosa de se exaltar apenas os diminui perante elas.
O seguinte incidente que aconteceu comigo e com a minha esposa, Kathy, é uma boa ilustração
disso. Há muitos anos, jantamos com um casal influente, em quem eu queria muito causar boa
impressão. Enquanto comíamos, minha mulher lhes contou uma história engraçada sobre mim que
me embaraçou. Se eu tivesse dado risadas, ela seria rapidamente esquecida, mas como eu estava
muito preocupado com o que eles iriam pensar de mim, fiquei com raiva e chamei a atenção de
Kathy com um tom de voz muito agressivo. Foi uma cena horrível e, por causa da minha soberba, a
coisa que eu mais temia aconteceu comigo: passei uma péssima impressão.
O orgulho não somente é repulsivo, como também provoca a competitividade. Pessoas que se
preocupam com sua autopromoção quase sempre o fazem às custas dos outros. Contudo, uma com-
petição exige um oponente. Não é suficiente para alguém se gabar sobre algum talento, característica
pessoal ou resultados satisfatórios. Que vantagem tem se não há quem derrotar ou desdenhar?
C. S. Lewis declarou o seguinte:
Nós dizemos que as pessoas se orgulham de serem ricas, ou inteligentes, ou bem-
apessoadas, mas elas não são. Elas se orgulham de serem mais ricas, mais inteligentes, ou
mais bem-apessoadas que as outras. Se todos os outros se tornassem igualmente ricos,
inteligentes ou bem-apessoados não se teria nada do que se orgulhar. É a comparação que
o faz orgulhoso: o prazer de estar acima dos outros.5

Pessoas que vêem as outras como suas rivais, inevitavelmente, dirão ou farão algo que as
ofenderá. As palavras de Salomão confirmam isso:
• O altivo de ânimo levanta contendas (Pv 28.25a).
• Da soberba só provém a contenda (Pv 13.10a).
• Como o carvão é para o borralho, e a lenha, para o fogo, assim é o homem contencioso para
acender rixas (Pv 26.21).
Em cada um desses três provérbios, o conflito surge de um pensamento orgulhoso. O resultado
é a contenda (do hebraico, riyb), que literalmente significa discussão. Assim como o orgulhoso é
levado a manter sua posição sobre os que estão à sua volta, ele se encontra em uma competição sem
fim: todos são seus desafiantes. É uma batalha de gigantes: ele deve exaltar-se sobre os demais e
defender-se das tentativas deles de tomar o seu lugar. Ele vê com suspeita as coisas que outros dizem
e tende a ser cínico.
Quanto mais uma pessoa pensa, fala e age de acordo com esse tipo de pensamento, menos os
outros gostarão dela e, cada vez mais, evitarão sua companhia. Aquele que vive para desfazer dos
outros logo se verá sozinho. Maria disse sabiamente que Deus dispersa os que, no coração,
alimentam pensamentos soberbos (Lc 1.51). Talvez, isso aconteça em grande parte simplesmente
porque a soberba é intolerável na presença do Senhor. Ela traz consigo o julgamento da desonra e
isolação.
A QUEDA INEVITÁVEL

A segunda verdade apresentada aqui é que o orgulho mostra o caminho para a queda. O rei
Davi é um triste exemplo disso. Quando jovem, ele se humilhava completamente na presença de
Deus e dos homens. Contudo, uma vida de 20 anos de palácio o fez mudar um pouco. Antes de ver
Bate-Seba banhando-se no palácio vizinho, uma idéia demoníaca de que ele poderia ter qualquer
coisa que quisesse já havia entrado em seu coração. Afinal, ele era o rei! Sua soberba o levou a
cometer adultério e, deliberadamente, mandar matar o marido daquela mulher. O Onipotente
severamente o repreendeu por intermédio do profeta Natã: Agora, pois, não se apartará a espada
jamais da tua casa, porquanto me desprezaste e tomaste a mulher de Urias, o heteu, para que te seja
por mulher. Assim diz o SENHOR: Eis que suscitarei da tua mesma casa o mal sobre ti, e tomarei
tuas mulheres perante os teus olhos, e as darei a teu próximo, o qual se deitará com tuas mulheres
perante este sol. Porque tu o fizeste em oculto, mas eu farei este negócio perante todo o Israel e
perante o sol (2 Sm 12.10-12). Isso foi o que exatamente aconteceu. As conseqüências da queda de
Davi o perseguiram pelo resto de sua vida.
Quando alguém pensa em um líder espiritual caindo em pecado, o primeiro pensamento é o de
queda moral (como o pecado sexual). Mas a queda nem sempre acontece da mesma maneira ou no
mesmo grau. Algumas pessoas perdem seus empregos, outras perdem suas famílias, há ainda as que
caem doentes.
Posso dar uma ilustração recente, e um tanto literal, de queda na minha própria vida. Devido a
um grande número de razões, houve um período de vários meses em que eu estive extremamente
ocupado com o trabalho ministerial. Todo fim de semana, eu tinha de viajar para pregar em algum
lugar do país, e só retornava na segunda-feira para continuar o ministério durante a semana. Embora
eu estivesse em dia com a minha vida espiritual, o cansaço e a pressão do trabalho pesavam em
minha caminhada com Deus. Gradualmente, eu estava distanciando-me dEle internamente. Tentei
encontrar o caminho de volta para aquele lugar de paz e alegria que vem com a Sua presença, mas
parecia que eu estava lutando em uma batalha perdida. Cada vez mais, sentia-me descontrolado e
agitado. Em todo o tempo, tornava-me mais altivo.
Como um homem que se debate na água, a ponto de se afogar, eu estava espiritualmente com
problemas. Implorei pela ajuda do Senhor, aguardando um impacto divino ou uma visita do céu. Sua
resposta veio, mas não da maneira que eu esperava.
Eu e Kathy havíamos decidido fazer algum exercício físico para aliviar um pouco meu cansaço
relacionado ao trabalho. Começamos a construir um novo cômodo em nossa cabana no leste do
estado de Kentucky, nos Estados Unidos. Um dia, instalamos uma janela, e permanecemos em uma
plataforma improvisada na lateral da casa, muitos centímetros acima do chão. Quando pisei na borda
da plataforma, ela se desequilibrou e escorregou sob nossos pés, e fomos para o chão. Minha
clavícula se partiu, e fraturei o meu ombro. Kathy sofreu uma contusão, teve quatro costelas
quebradas e rompeu o ligamento do ombro.
Não posso provar que foi Deus quem nos atirou ao chão, mas, honestamente, acredito que Ele
tenha usado isso (literalmente) para nos derrubar! Eu e Kathy temos expressado nossa gratidão por
Ele muitas e muitas vezes, porque esse acidente nos levou de volta à caminhada espiritual. Em algum
lugar entre a dolorosa recuperação da cirurgia, as semanas de fisioterapia e assim por diante,
acalmamo-nos, e a realidade de Sua presença maravilhosa nos foi restaurada. Para mim, seria
impossível descrever quão vitais são as experiências como essa na vida espiritual de alguém.
Sim, exaltei-me internamente, mas Deus foi fiel para me trazer ao meu lugar. Porque o Senhor
corrige o que ama e açoita a qualquer que recebe por filho.
E, na verdade, toda correção, ao presente, não parece ser de gozo, senão de tristeza, mas,
depois, produz um fruto pacífico de justiça nos exercitados por ela (Hb 12.6,11). Sou grato porque,
se Ele não tivesse feito algo para me resgatar, eu teria tido uma queda espiritual com conseqüências
devastadoras.

JULGAMENTO E DESTRUIÇÃO

Quando o Senhor permite alguma calamidade na vida de Seus filhos, Ele o faz para aproximá-
los de Si e distanciá-los de uma tragédia ainda maior. Infelizmente, parece que alguns nunca
aprendem a lição. Deus tenta falar com eles por meio de Sua Palavra, dos sermões, ou mesmo da
admoestação de um ministro fiel. Ele também permitirá provas como a que eu e minha esposa
enfrentamos. Tudo isso é feito (ou permitido) para o bem-estar da pessoa em mente. Porém, o preço
pode ser muito alto quando um homem se recusa a ser corrigido. Salomão disse: O homem que
muitas vezes repreendido endurece a cerviz será quebrantado de repente sem que haja cura (Pv
29.1).
Um exemplo disso é a comovente história que contei em outro livro sobre o jogador de
baseball da liga nacional, que entrou no programa de internação dos Ministérios de Vida Pura (Pure
Life Ministries) há muitos anos. Embora Eddie Smith (um pseudônimo) possuísse um número de
recordes, sua carreira havia-se deteriorado por causa de seu vício por sexo e cocaína. A droga o
deixou tão paranóico, que ele estava morando no quarto de vestir de um amigo com uma arma
carregada.
Tudo parecia muito promissor quando ele se internou no programa. Ele respondia à presença de
Deus no Vida Pura de uma maneira maravilhosa. Passar o tempo com a Palavra de Deus diariamente,
literalmente trouxe sanidade para a sua mente medrosa e atormentada. O maior problema de Eddie
não era a ganância, a influência do mundo nem mesmo sua obsessão pelo sexo. O seu maior e mais
problemático pecado era a imensa quantidade de orgulho que havia surgido e sido alimentado por
anos de estrelismo. Mesmo depois de ir para o lugar onde estava morando, em um armário, com uma
arma carregada, ele continuou internamente inquebrável. Assim que começou a recuperar a sanidade,
seu orgulho começou a querer aparecer novamente no Vida Pura.
Primeiro, apenas com coisas banais. Ele não gostava das regras do programa de internação e,
simplesmente, desobedecia àquelas que ele achava que eram desnecessárias. Há uma regra para
respeitar o horário de 22 horas no programa, mas, se ele quisesse fazer um lanche ou conversar com
algum dos outros rapazes, ele iria. Quando questionado sobre esse comportamento inaceitável, ele
desfazia-se do problema ou dava de ombros. Com o passar do tempo, ele se tornou mais arrogante e
rebelde. Depois de vários meses trabalhando com ele, seu conselheiro tentou uma última e
desesperada manobra: ele havia tido com o rapaz a chamada "sessão de luz" durante o encontro de
acompanhamento, na noite de terça-feira.
Com o Eddie sentado ali, na parte central do palco, cada homem do programa era convidado a
dividir seu ponto de vista sobre a caminhada do jogador com Deus. Todos, sem exceção, disseram
que ele era extremamente orgulhoso. Eddie não gostou muito disso, mas permaneceu em silêncio. A
equipe continuou sua oração fervorosa em favor dele, desejando que este incidente pudesse ajudá-lo
a mudar. Infelizmente, seu comportamento continuou a deteriorar depois disso. Embora lhe faltassem
apenas duas semanas para terminar o programa, eu sabia que não poderia dispensar um homem que
tinha o coração tão endurecido. Relutantemente, chamei-o ao meu escritório e pedi que ele deixasse
o prédio. Isso o chocou. Ele não estava habituado com as pessoas atrapalhando suas vontades dessa
maneira. Ele explodiu em raiva, dizendo: "Oh, você é como os outros, Steve! Eu ouvi um bocado
sobre a misericórdia por aqui, mas não vejo demonstração alguma desse sentimento!". Ao dizer isso,
ele saiu rapidamente do escritório e bateu a porta com tanta força, que quebrou a madeira do batente.
Oito meses depois, ele morreu de uma overdose.6
O Onipotente não matou Eddie Smith; ele atraiu a morte para si mesmo. Porém, sou
testemunha do fato de que o Senhor fez de tudo para ajudá-lo. Homens de Deus tinham tentado
mostrar-lhe. Ele tinha trazido desonra sobre ele e a própria família. Ele havia tido tantas quedas da
graça, que até perdeu as contas. Essa foi, talvez, sua última oportunidade de se humilhar perante
Deus em submissão, mas ele se recusou a se quebrantar o mínimo que fosse. Parecia que calamidade
alguma era severa o suficiente para chamar sua atenção. Ele foi quebrantado de repente sem que
houvesse cura, destruído pelo orgulho.
Enquanto não é o desejo de Deus destruir as pessoas, os homens têm o livre-arbítrio que Ele
não violará. Um ministro sabiamente escreveu:
Não há campo do pensamento humano e das ações em que o orgulho não seja o mais perigoso
guia. Ele leva (muito geralmente) ao precipício.7
As Escrituras declaram a seguinte verdade: A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito
precede a queda.

Querido Senhor, por favor, quebranta-me!


Por favor, arranca toda raiz do orgulho que estiver no meu
coração ou na minha vida. Não quero encarar a destruição
e o julgamento; confio em Ti para fazer qualquer coisa
possível a fim de me colocar no lugar. Obrigado por
Teu castigo severo, Senhor.
Amém.
PARTE DOIS

AS BÊNÇÃOS DA
HUMILDADE
A Igreja de Deus nunca é tão bem construída como quando é feita com homens de corações
quebrantados. Eu orei ao Altíssimo em segredo muitas vezes, recentemente, para que Ele levantasse
do nosso meio alguém que tivesse profunda experiência, conhecesse a culpa do pecado, fosse
quebrado e destruído ao pó sobre seu senso de falta de habilidade e de valor [...] Aquele que nunca
esteve no porão, nem no abismo, tampouco se tenha sentido como se estivesse fora da vista de Deus,
como pode confortar os que estão longe do Pai e estão suplicando no desespero?1

Charles Spurgeon

SETE

SALVO PELA HUMILDADE DO ESPÍRITO


Vimos como o orgulho cega alguém para sua verdadeira condição espiritual, de que forma
distorce sua visão sobre si mesmo e sobre os outros, e como evita uma amizade quebrantada com o
Onipotente. Felizmente, existe uma chance: por meio da humildade. Enquanto existem coisas
práticas que alguém pode e deve fazer paira limitar o comportamento orgulhoso e agir mais
humildemente, finalmente, o orgulho morre como a sua própria vida (como a carne e a natureza
caída) é desmantelada. Somente quando uma pessoa chega no fundo de si mesma, ela lida
efetivamente com a soberba, e Cristo Se torna mais glorificado em sua vida. Antes de examinarmos
o processo que a traz para esse estado abençoado, estudaremos os pré-requisitos para entrar no Reino
de Deus.

VERDADEIRA SALVAÇÃO

Hoje em dia, existem bilhões de almas sobre a face da terra, sentindo o peso do seu pecado,
eternamente perdidas e destinadas ao inferno. Muitas estão envolvidas com as coisas desse mundo
completamente inconscientes e despreocupadas sobre sua terrível condição espiritual.
Ocasionalmente, Deus tem a possibilidade (em primeiro lugar, pelas orações dos santos) a
trabalhar conscientemente em uma alma perdida. O Espírito Santo tenta mostrar por meio da
cegueira espiritual a realidade da sua situação de perdição. Ele faz isso convencendo a pessoa do seu
pecado e promovendo circunstâncias em que ela poderá ver que necessita de um Salvador. Conforme
o fardo da transgressão vai pesando, ela gradualmente se dá conta de que esteve em total rebelião
contra seu Criador. John Bunyan registrou de maneira muito interessante em seu livro Pilgrim's
progress (O progresso do peregrino) a experiência do profundo desespero de um pecador
condenado, como uma busca verdadeiramente cristã pelo caminho que pudesse remover o fardo do
pecado.
Quando alguém reconhece sua pobreza espiritual, sabe que não há coisa alguma que possa
fazer para salvar-se. Ele está completamente sem esperança por sua condição. Jesus exclamou: Bem-
aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos céus (Mt 5.3). Ele está, se assim
podemos dizer, prostrado sem alguém para quem ele possa pedir por socorro, exceto para Deus. Seu
destino está completamente fora de suas mãos. Em profundo desespero, ele deve aproximar-se do
Poderoso com apenas com um pedido: "Tenha misericórdia da minha alma pecadora!". Essa é a
única entrada para o Reino dos céus.
É nesse ponto que a pessoa espiritualmente "alcançou o fundo"; não há mais coisa alguma!
Quando um pecador arrependido esgota todas as possibilidades de se ajudar, joga-se nos braços do
seu Salvador. É lá, aos pés da cruz, que ele deve tomar uma decisão genuína por Cristo. Antigos
escritores de músicas registraram esse momento precioso:
Durante muito tempo meu espírito permanece preso, Fortemente ligado ao pecado e à
noite natural, Meus fracos olhos percebem um raio, Eu acordo, o porão iluminado
com luz: Minhas cadeias caíram, meu coração estava livre, Eu me levantei, saí dali e
segui a Ti.2
Houve muita misericórdia e graça, eu estava livre; Perdão foi multiplicado para mim;
Lá, minha alma condenada encontrou liberdade, no Calvário.3

A percepção da necessidade não garante a automática busca pela vida eterna. Muitos chegam a
esse lugar apenas para voltar, incapazes de admitir os erros, arrepender-se dos seus pecados e aceitar
a redenção necessária. Aparentemente, foi isso o que aconteceu com o jovem rico. Incerto de seu
destino eterno, prostrou-se diante do Salvador das almas e perguntou o que ele deveria fazer para ser
salvo. Porém, quando Jesus pôs seu dedo sobre o ídolo que estava bloqueando sua verdadeira
redenção- o apego às riquezas, podemos ler que ele, contrariado com essa palavra, retirou-se triste,
porque possuía muitas propriedades (Mc 10.17-22). Esse homem se encontrou face a face com sua
necessidade espiritual, mas, quando se deu conta dela, viu-se incapaz de romper com as coisas desse
mundo que o escravizavam.
Veja, perceber a condição de desesperança de uma pessoa é apenas o começo. A escravidão do
pecado, a autodeterminação e o amor às coisas desse mundo devem ser quebradas em sua vida. Se a
semente do Evangelho é plantada no solo de um coração honesto e bom (Lc 8.15), que é responsivo,
então, a sua realidade se torna clara, e ele se entristece profundamente, com uma tristeza interior
sobre sua situação pecaminosa. Ele se move simplesmente procurando sua incapacidade de se ajudar
para responder à culpa que sente por ter-se rebelado contra o Deus santo. Ele se quebra diante de
seu estado pecaminoso; em outras palavras, arrepende-se. Essa pessoa, agora, cruza a linha que
define uma nova vida em Cristo.

A APROXIMAÇÃO DE DEUS

Tragicamente, há muitos que "se decidiram por Cristo", mas nunca experimentaram
arrependimento e redenção genuínos. Podemos dizer, verdadeiramente, que deles é o reino? Eles
devem ter entrado no movimento evangélico, mas o interior orgulhoso que passou uma vida inteira
negando o senhorio de Cristo ainda permanece inteiro. Com o interior soberbo seguramente instalado
em seu coração, eles não vêem a necessidade de desistir de controlar e entregar-se ao Maior de todos.
Assim, agem como ditadores, aprovando ou rejeitando qualquer pedido que a Palavra de Deus ou o
Espírito Santo possam fazer-lhes. Eles estão inquebráveis, sem arrependimento e redenção.
Na história do fariseu e do publicano, encontrada em Lucas 18, Jesus expôs essa falsa
proximidade com o cristianismo enquanto a contrastou com a conversão verdadeira. Lucas escreve
que Ele disse também esta parábola a uns que confiavam em si mesmos, crendo que eram justos, e
desprezavam os outros (Lc 18.9). Consequentemente, essa parábola confronta aqueles que nunca
transferiram sua confiança e dependência de si mesmos para Deus. Jesus começou a história
descrevendo a aproximação entre o fariseu e seu Criador. Dois homens subiram ao templo com o
propósito de orar: um, fariseu, e o outro, publicano. O primeiro, posto em pé, orava para si mesmo da
seguinte forma: O Deus, graças te dou, porque não sou como os demais homens, roubadores,
injustos e adúlteros; nem ainda como este publicano. Jejuo duas vezes na semana e dou os dízimos
de tudo quanto possuo (Lc 18.11,12).
Jesus expôs a autoconfiança dos líderes religiosos de Sua época por meio desse inquebrável e
orgulhoso fariseu. Como muitos hoje em dia, ele agia de forma grandiosa e estava interessado apenas
no que lhe dizia respeito. Ele era rápido para dizer as coisas positivas que tinha feito para o Reino de
Deus. Infelizmente, estava completamente cego para o fato de que toda a sua experiência espiritual
estava enraizada e erguida sobre nada mais do que o seu próprio eu. Não é de se surpreender que ele
tenha tido prazer na glória pessoal. Um senso de necessidade nunca o dominou.
Pelos padrões externos atuais, o fariseu teve uma vida cheia de Deus: orando, jejuando, dando o
dízimo e abstendo-se dos pecados óbvios e visíveis. Cuidadosamente, deu para Deus todo o crédito
pelo sucesso que tinha alcançado. E interessante notar que quando fez um inventário de sua vida,
tudo o que viu sobre si mesmo era positivo. Facilmente, ele iria enquadrar-se em nosso "famoso
movimento evangélico" contemporâneo, que prega um evangelho falso, fundamentado nas emoções
e nos sentimentos, e mantém uma atitude mental positiva.
É óbvio também que esse fariseu tinha pouco temor ou reverência a Deus. O amor-próprio o
cegou para o fato de que o Poderoso estava pequeno em sua mente, enquanto ele mesmo era imenso.
Ele não se aproximou do trono do Céu com a atitude humilde e submissa de um servo perante o seu
rei. Em vez disso, comportou-se como se o Senhor fosse um afortunado por ter um seguidor como
ele. Com uma visão tão exaltada de si mesmo, é fácil perceber como ele ordenava que o Altíssimo
cumprisse todas as suas petições.
A aproximação do outro homem foi um pouco diferente:
O publicano, porém, estando em pé, de longe, nem ainda queria levantar os olhos ao céu, mas
batia no peito, dizendo: Ó Deus, tem misericórdia de mim, pecador! (v. 13). Esse homem não
marchou dentro da sala do trono do Pai e exigiu Sua atenção devida. De fato, ele ficou parado ao
longe, incapaz sequer de olhar para o Senhor. Ele estava consciente de sua falta de mérito enquanto
se apresentava ao Poderoso. Seus pecados estavam sempre diante dele quando se prostrava na
presença do Santo. Ele estava cheio de tristeza por não se parecer com Cristo e profundamente
envergonhado pelo pouco que tinha feito pelo Onipotente. Sendo assim, ficou lá parado, esperando
por apenas uma coisa: misericórdia.
Hoje em dia, aqueles que vêm de uma esfera superior da igreja podem sugerir que esse homem
simplesmente precisa reassegurar-se de quem ele é em Cristo. Talvez, eles o condenem por sua
atitude negativa e o identifiquem como um perdedor espiritual, levando uma vida derrotada. "Você é
uma criança do Rei e deveria ver-se como tal!", eles exclamariam. "Você precisa apenas aceitar o
amor de Deus e aprender a perdoar a si mesmo. É necessário que professe sua fé!" *
É interessante como a perspectiva celestial pode ser diferente da terrena. George Whitefield, o
fervoroso pregador da Grande Reforma e um dos grandes ganhadores de almas da história da Igreja,
teve uma revelação tremenda sobre a salvação. Ele sabia com o que ela realmente parecia. A respeito
do publicano, ele disse:
Pobre coração! Como ele se rebaixou dessa vez! Somente os outros publicanos, como ele,
podem dizer. Eu o vejo parado ao longe, pensativo, oprimido e, ainda, cheio de tristeza;
algumas vezes, ele tentava olhar para cima; mas, então, pensava ele, como pode um
pecador como eu ousar erguer minha cabeça culpada? Para mostrar que seu coração
estava cheio do santo auto-ressentimento e que ele se sentia entristecido diante de Deus,
bateu em seu peito, seu infiel, ingrato e, desesperadamente, fraco peito, o qual, agora,
estava pronto para arder. E, por um longo tempo, fora da abundância do seu coração, não
tenho dúvidas de que, com muitas lágrimas, ele finalmente clamou: "Deus, seja
misericordioso para comigo, um pecador, nascido em pecado, com pensamentos, palavras
e atitudes pecaminosos; um transgressor como eu, um pecador que fez tudo o que eu fiz;
que não tem nada saudável, em quem não foi achado coisa boa; um pobre, miserável,
cego e nu, da ponta da cabeça à sola dos pés, cheio de feridas e marcas e malcheiroso; um
*
Parte desse material foi extraído de Living in victory (Viver em vitória), escrito pelo autor.
pecador auto-acusado e autocondenado". O Senhor declarou: Digo-vos que este,
publicano, desprezado, pecador, mas homem quebrantado, desceu justificado para sua
casa [perdoado, e visto como justo por Deus] e não aquele (Lc 18.14a).4

A BÊNÇÃO DA POBREZA

Aqueles que repetiram a oração do pecador, mas ainda não experimentaram o arrependimento
genuíno - chegaram ao fundo de si mesmo, cheios da tristeza divina sobre o pecado, quebrantamento
e redenção -, têm dificuldade em entender as bênçãos que o publicano quebrantado e contrito
recebeu. Eles nunca sentiram a necessidade de se lançarem para a misericórdia de Deus. De fato,
passaram a vida toda justificando-se e evitando encarar a realidade de sua verdadeira condição
espiritual. Talvez, inicialmente, tenham rompido com alguns maus hábitos e feito algumas alterações
em seus estilos de vida, para que pudessem encaixar-se na cultura evangélica, mas, durante a maior
parte, continuaram a se guiar da mesma maneira que faziam antes de professar a fé.
Quão diferentes são aqueles que ficaram absolutamente sem esperança sobre o seu
pecado. Recebi, recentemente, uma carta de um homem de um abrigo que tinha acabado de ler meu
primeiro livro, At the altar of sexual idolatry (No altar da idolatria sexual). Sua história é um
exemplo do que se parece o arrependimento real:
Eu não sou um novato nos jogos de auto-ajuda e no jogo da ajuda de Jesus; já li muitos
livros de batalha espiritual, cura interior e coisas desse tipo.
Seu livro é, sem dúvida, o mais claro, acurado, genuíno, o que mais tocou meu coração!
Parecia que tínhamos crescido juntos! Era como se eu estivesse lendo a minha história de
vida! Quanto mais eu lia, mais reconhecia partes de mim, do meu comportamento, minhas
atitudes, minha doença interior que nunca fui capaz de definir nem houve quem pudesse
defini-la para mim. Quanto mais eu lia, mais me condenava. Quando a cegueira ia
desaparecendo, finalmente, via-me face a face com a causa do meu pecado. Sua obra
literária expôs isso para mim sem evitar lidar com o assunto, e Deus mostrou o meu
interior: egoísta, arrogante, orgulhoso e, habitualmente, viciado, sem absolutamente
autocontrole algum. Sem mentira: pus o livro de lado quando o li e me dei conta de que a
culpa era toda minha e chorei incontrolavelmente na sessão de arrependimento mais
humilde e quebrantada, com a mais verdadeira tristeza que jamais experimentei em toda a
minha vida.

Esse homem, como o publicano, chegou ao fundo de sua esperança. O Espírito Santo
onisciente ilumina, com Seu olhar profundo, a alma do homem, infestada pelo pecado, e expõe tudo
o que está dentro. O Senhor, em Sua misericórdia, mostra-o claramente em seu estado. A verdade
dolorosa sobre seu interior deixa-o horrorizado. Tudo parece perdido. O futuro não parece nada além
de uma grande escuridão. Ele se sente sem esperança e saída. Ele sabe que está com um grande
problema e não tem para onde ir. Mas é precisamente nesse ponto que se volta para Deus. No
profundo do seu coração, renuncia e abandona o pecado e a vontade própria que tinha nutrido.
De repente, tudo está diferente. Todos os obstáculos que o mantinham afastado de Deus são
removidos. Agora, não há o que o impeça de alcançar o Salvador. Ele se joga nos braços do Pai
celestial e é imediatamente envolvido por Sua presença gloriosa. Lágrimas de desespero se
transformam em alegria! De fato, todo o Céu está em júbilo por seu arrependimento (Lc 15.7).
Como todos os efeitos do pecado e do orgulho que cegam a alma são dissipados, esse homem
pode descobrir uma nova perspectiva celestial que nunca tinha conhecido antes. Ele está no calor do
primeiro amor, onde tudo parece novo e interessante! A grama é mais verde, e o céu mais azul do
que nunca. A Palavra de Deus, que antes parecia sem atrativos e sem vida, agora parece cheia de
energia, virtualmente pulando das páginas para dentro do seu coração. Ele sente a presença do
Senhor em todos os lugares. Sua adoração se torna viva enquanto louva com um coração radiante.
Ele também enxerga os demais de maneira diferente. Em vez de vê-los com olhos egoístas - aquela
perspectiva escura que reduz os outros a rivais que devem ser derrotados -, enxerga suas
necessidades e sente compaixão e amor por eles.
Sua visão de Deus também passa por uma transformação radical. Ele não precisa mais de um
professor da Bíblia para lhe explicar o veredito de determinação da eternidade proferido por Jesus:
Em verdade vos digo que qualquer que não receber o Reino de Deus como uma criança de maneira
nenhuma entrará nele (Mc 10.15). Essa afirmação é mais real do que a vida. Ele se sente como na
infância, tem agora um senso de confiança pelo Pai celestial como alguém de tenra idade e está
preparado para se submeter ao Senhor como qualquer criança obediente estaria. Assim como um
garotinho olha para seus pais à espera do sustento, ele espera confiantemente que o Todo-Poderoso
supra suas necessidades.
E lá, aos pés da cruz, que as primeiras bênçãos da humildade são descobertas. Aqueles que
perdem sua vida procurando por felicidade e satisfação fora do seu relacionamento com o Onipotente
nunca poderão entender a alegria inexplicável de ter um encontro pessoal com Ele. Só aqueles que se
arrependem como o publicano conhecem a alegria inebriante dessa vida.
Talvez esta seja uma boa oportunidade para você, leitor, pensar se está ou não descendo para a
(sua) casa justificado. Você já chegou ao fundo dos seus próprios desejos? Já permitiu que Jesus
Cristo ocupasse Seu lugar de direito no trono do seu coração? Já se entregou de verdade para Ele e O
fez Senhor da sua vida? Responder honestamente essas perguntas e ter a certeza de que sua redenção
está completa são a melhor maneira de receber as verdades contidas no restante deste livro.

Querido Senhor, reconheço que sei pouquíssimo sobre


humildade de espírito, tristeza sobre o pecado e verdadeiro
arrependimento. Por favor, leva-me ao lugar onde eu me
esvazie de mim mesmo. Estou cansado dessa religião
fundamentada em mim mesmo. Quero ser como este
publicano. Por favor, leva-me até o fundo de mim mesmo,
não importa a que custo. Não Te deixarei ir até
que eu receba aquilo de que preciso.
Amém.
Quebrantamento é uma forma de bênção, de fragrância, de frutificar... Submissão é o sinal do
quebrantamento.1
Watchman Nee

Quão poucos do povo de Deus reconheceram efetivamente a verdade de que Cristo é, de fato, o
Dono de tudo ou não é Dono de coisa alguma! Se pudéssemos julgar a Palavra, ao invés de sermos
julgada por Ela; se pudéssemos dar para o Altíssimo o quanto quiséssemos, então, seríamos
senhores, e Ele, o devedor, grato por nosso dolo em atender a Seus desejos. Se, por outro lado, Ele é
Senhor, vamos tratá-lO como tal.2
Hudson Taylor

OITO

SUBMISSO PERANTE DEUS

O homem é um rebelde e um produto de uma raça de revoltosos. Assim, ele naturalmente anda
segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe das potestades do ar, do espírito que, agora,
opera nos filhos da desobediência (Ef 2.2). Lúcifer estabeleceu esse padrão mundial logo após sua
tentativa fracassada de tomar, à força, o governo celestial, de forma que ele pudesse usurpar o
controle e a autoridade de Deus. Descontente por apenas andar na presença de seu Criador, almejou a
posição, o poder e o prestígio, e se tornou absolutamente insano.
Como é diferente o raciocínio do manso e humilde Jesus! Ele desfrutava dos mais altos de
todos os privilégios celestiais, apreciava os momentos de adoração dos seres angelicais e vivia em
perfeita e amorosa harmonia com o Pai. Ainda assim, Ele desistiu de tudo isso para que pudesse
satisfazer as necessidades da humanidade pecadora. Paulo disse: De sorte que haja em vós o mesmo
sentimento que houve também em Cristo Jesus, que, sendo em forma de Deus, não teve por
usurpação o ser igual a Deus. Mas aniquilou-se a si mesmo [de Sua posição e de Seus privilégios],
tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem,
humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até a morte e morte de cruz (Fp 2.5-8).
Certa vez, Jesus declarou: Eu faço sempre o que lhe agrada (Jo 8.29b). Consequentemente, Ele
nunca Se exaltou. Esse tipo sincero de obediência é o nosso modelo de verdadeira submissão -
sujeição da vontade de uma pessoa à vontade de outra. É o oposto da vontade própria,
autodeterminação e rebelião. Uma figura clara de obediência pode ser vista no Getsêmani: Pai, se
queres, passa de mim este cálice; todavia, não se faça a minha vontade, mas a tua (Lc 22.42).

A MENTALIDADE DO SOLDADO

A Escritura orienta os crentes a se submeterem a Deus (Ef 5.24; Tg 4.7; Hb 12.9). A palavra
submeter (do grego, hupotasso) é uma junção de dois outros vocábulos: hupo, que significa sob, e
tasso, posicionar; portanto, posicionar-se sob ou em sujeição à liderança de outro. A melhor
ilustração disso é um exército organizado em formação de marcha. Todos os homens estão
submetidos aos seus superiores.
Imagine, porém, se há um soldado em desarranjo, andando conforme sua vontade, algumas
vezes em forma, mas, a maior parte do tempo, apenas fazendo o que lhe dá vontade. O general,
vendo a vontade própria e a insubmissão desse militar, jamais confiaria nele para cumprir ordens.
Como ele responderia para este subalterno caso este lhe viesse pedir alguma coisa? Ele provavel-
mente estaria tão desgostoso com sua soberba e audácia que simplesmente o deixaria falando
sozinho. Não seria apropriado que o general não cedesse ao soldado insubordinado?
Um bom soldado, por outro lado, obedece com todo o respeito e toda a devoção ao seu líder.
Ele se coloca sob a liderança do seu comandante não apenas aparentemente, mas de todo o seu
coração. E mais do que, simplesmente, obedecer por medo das conseqüências da desobediência. Ele
está comprometido com a causa do seu líder. Na verdade, ele renunciou à própria vontade em favor
da do general. Sua atitude ganhou a confiança de seu superior, e ele terá, assim, garantido uma
posição de responsabilidade.
Nós, cristãos, travamos uma batalha diariamente para permanecermos submissos ao Espírito
Santo. A carne sempre quer controlar e lutar contra os esforços mais sinceros para viver no Espírito.
Paulo fez uma consideração profunda a respeito desse assunto: Porque a inclinação da carne é
morte; mas a inclinação do Espírito é vida e paz. Porquanto a inclinação da carne é inimizade
contra Deus, pois não é sujeita [hupotasso] a lei de Deus, nem, em verdade, o pode ser. Portanto, os
que estão na carne não podem agradar a Deus (Rm 8.6-8).
Como o Senhor traz uma pessoa independente para a real submissão? Da mesma maneira que o
exército transforma um simples recruta em um lutador disciplinado: a vontade própria do iniciante
deve ser destruída, e ele precisa aprender a se alinhar com o propósito de seu superior.

A IMPORTÂNCIA DO QUEBRANTAMENTO

Até que a vida de um cristão esteja sob o controle de Deus, ele é inútil para o Seu Reino. A
única maneira que ele tem para se tornar submisso é pelo quebrantamento da sua vontade. Uma boa
analogia disso é a de um cavalo selvagem, o qual pode ser um animal lindo e gracioso, mas é inútil
em sua condição de indomado. No entanto, uma vez que tenha sido amansado, o cavalo poderoso
pode ser controlado e guiado pelas rédeas e pelos comandos verbais do seu mestre.
O cristão que tem sua vontade quebrantada por seu Pai celestial desenvolve um respeito pela
orientação do Mestre. Ele não exibe o medo que uma criança castigada tem de um pai cruel, mas, ao
contrário, mostra reverência apropriada a quem deve respeito. Por sua vontade ter sido conquistada,
ele não vê mais sua vida como se tivesse o direito de controlá-la. Davi era um homem que agia dessa
maneira. Mesmo quando o Senhor o repreendeu (por intermédio de Natã) pelo relacionamento com
Bate-Seba, o Altíssimo revelou que ele tinha um lugar especial em Seu coração: Eu te ungi rei sobre
Israel e eu te livrei das mãos de Saul; e te dei a casa de teu senhor e as mulheres de teu senhor em
teu seio e também te dei a casa de Israel e de Judá; e, se isto é pouco, mais te acrescentaria tais e
tais coisas (2 Sm 12.7b,8). Até quando havia atingido o auge de seu orgulho e caído no precipício do
pecado, Davi usufruía de um tremendo favor do Onipotente.
Uma das coisas que Davi disse para o Senhor, quando se dobrou de joelhos em profunda
penitência pelo seu pecado foi: Os sacrifícios para Deus são o espírito quebrantado; a um coração
quebrantado e contrito não desprezarás, ó Deus (Sl 51.17). Em outra ocasião, ele usou esses
mesmos adjetivos: Perto está o SENHOR dos que têm o coração quebrantado e salva os contritos de
espírito (Sl 34.18). Os termos hebraicos traduzidos como quebrantado (shabar) e contrito ou
oprimido (dakah) são extremamente importantes para aqueles que desejam ser bem-estimados por
Deus. É muito interessante como o termo shabar é empregado em outros trechos no Antigo
Testamento.

• E a saraiva feriu, em toda a terra do Egito, [...] toda a erva do campo e quebrou todas
as árvores do campo (Ex 9.25).

• Antes, os [seus ídolos] destruirás totalmente e quebrarás de todo as suas estátuas (Ex
23.24b).

• O SENHOR o entregou ao leão, que o despedaçou e matou (1 Rs 13.26b).


Assim, o Senhor Se aproxima de quem a vontade própria foi oprimida, ferida,
despedaçada e destroçada. Esses termos descrevem uma pessoa cujo coração é o oposto ao daquele
que é altivo (lembra-se de Uzias?). Muitos querem ter essa posição especial com o Senhor (imagine
os que a têm), mas poucos são aqueles que estão dispostos a permitir que Ele os quebrante dessa
forma.
Esse Pai está próximo do humilde. Pessoas que permitiram que as durezas da vida
quebrantassem o escudo protetor de si mesmas têm os corações mais ternos de todo o Reino de Deus.
Sem dúvida, Ele os acha irresistíveis! O Senhor proclamou por intermédio do profeta Isaías: Porque
assim diz o Alto e o Sublime, que habita na eternidade e cujo nome é Santo: Em um alto e santo
lugar habito e também com o contrito [dakah] e abatido de espírito, para vivificar o espírito dos
abatidos e para vivificar o coração dos contritos [dakah] (Is 57.15). Watchman Nee, em seu
excelente livro The release of the Spirit (A liberação do espírito), diz o seguinte:
Para quebrantar nossa vontade, Deus tem de nos impactar até que nos prostremos ao chão
e digamos: "Senhor, não ouso pensar, perguntar nem decidir pela minha vontade. Em tudo
e todas as coisas preciso de Ti". Sendo quebrantados, aprendemos que nosso querer não
deve atuar independentemente do Altíssimo [...] Todos os que são quebrantados por Ele
são caracterizados pela submissão. No passado, podíamos dar-nos ao luxo de ser
inflexíveis e obstinados, porque éramos como uma casa bem-fundamentada por muitos
alicerces. Como Deus remove cada uma dessas bases, a casa pode despencar. Quando os
alicerces são abalados, a força da vontade interior só pode cair.3

CONFORME A VONTADE DE DEUS

Como o Espírito Santo inicia o processo de quebrantamento da vontade própria do crente, Ele
também começa a erigir barreiras em sua vida. Antes de ir a Cristo, a pessoa era livre para fazer o
que bem desejasse. Exceto por algumas expectativas que sua família ou seu chefe fizessem dela, ela
realmente não tinha de dar satisfação para quem quer que fosse.
Agora ela descobre que deve submeter sua vontade à de outro e que recebeu novas limitações.
Ela pode curtir a vida, mas apenas dentro do que é permitido por seu novo Mestre. Conforme
amadurece na fé, descobre que aqueles impedimentos se tornam mais restritivos. Durante seu curso
de vida, o crente é continuamente guiado, enquanto o Senhor gradualmente exerce Sua vontade na
vida do Seu servo.
Muitos personagens bíblicos experimentaram essa cerca divina de proteção. Jó reclamou: O
meu caminho ele entrincheirou, e não posso passar (Jó 19.8a). Davi exclamou: Tu me cercaste em
volta e puseste sobre mim a tua mão (Sl 139.5). Jeremias disse: Circunvalou-me, e não posso sair;
Circunvalou os meus caminhos com pedras lavradas (Lm 3.7,9a). Com relação à infidelidade de
Israel, o Senhor fez a seguinte declaração: Portanto, eis que cercarei o teu caminho com espinhos; e
levantarei uma parede de sebe, para que ela não ache as suas veredas (Os 2.6).
Essas declarações revelam as diferentes maneiras com que o Senhor estabelece limites na vida
de Seus servos. Na maior parte do tempo, o cristão está inconsciente desses parâmetros invisíveis em
seu viver. Apenas quando tenta transpor essas imposições divinas é que ele se dá conta deles.
Alguns indivíduos se tornam descontentes com tais delimitações. Determinados a seguir o
próprio caminho, eles se atiram continuamente contra esses obstáculos, muitas vezes "batendo a
cabeça" repetidas vezes. Entretanto, Deus está trabalhando na vida de cada um deles e tentando guiá-
los para a paz que se obtém por meio da obediência. Como um ministro disse: "A ovelha curiosa é
machucada pela cerca, enquanto a ovelha quieta e obediente não sabe nada sobre os espinhos".4-
A princípio, o principal propósito da barreira é prevenir o novo cristão de cometer bobagens
que poderão machucá-lo. Certa vez, Salomão declarou: Como a cidade derribada, que não tem
muros, assim é o homem que não pode conter o seu espírito (Pv 25.28).
Um cristão indisciplinado é um alvo para o inimigo. Felizmente, a graça de Deus irá mantê-lo
no caminho.
Porém, existe muito mais nesse processo do que simplesmente limitar as ações de alguém. É
desejo do Senhor que o crente amadureça, desenvolva as próprias convicções e esteja
verdadeiramente feliz e.satisfeito com o querer do Pai. Quando o propósito de alguém é ligado ao do
Senhor, as duas vontades são assimiladas em uma só; as duas se tornam uma.
Nos tempos bíblicos, quando duas pessoas se casavam, a esposa compreendia que estava
unindo sua vida à de seu marido. Hoje em dia, nos Estados Unidos, o matrimônio é mais uma
combinação de duas vidas, duas carreiras e duas metas de desejos. O papel da mulher, na época
bíblica, estava apenas um patamar acima do da serva da família. A esposa perdia o direito sobre seus
sonhos e suas aspirações para se ligar aos de seu marido. Ela se tornava sua companheira e submetia
seu querer ao dele. Era uma união de duas vontades, mas era quase uma completa sujeição de um ao
outro.
Nós, como Noiva de Cristo, somos chamados a abandonar os interesses, planos e objetivos que
temos e submetê-los ao nosso Senhor e Marido. É Sua responsabilidade prover-nos, proteger-nos e
dar sentido à nossa vida. Quando nos casamos com Ele, alinhamos nosso viver com Seus planos,
submetemos nossas vontades à Sua e vivemos dentro dos limites desse contrato marital.
A todo cristão é oferecida a surpreendente bênção de se unir em extrema intimidade com o Ser
mais amado e decente que já existiu. Quem não ficaria extremamente feliz ao receber um convite
para jantar na Casa Branca? Sacrifício pessoal algum seria considerado excessivo para um privilégio
tão grande! Quão maior seria a honra de ser completamente íntimo de Jesus Cristo - ser considerado
Seu querido amigo e, mesmo, amado! Ele deseja que todo crente experimente esse relacionamento
especial, por meio do qual Ele divide Seus pensamentos mais secretos e detalhes mais íntimos.
Este é um convite aberto a todos: Vinde a mim, todos os que estais cansados e oprimidos, e eu
vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração,
e encontrareis descanso para a vossa alma. Porque o meu jugo é suave, e o meu fardo é leve (Mt
11.28-30). Sim, há um jugo para os seguidores de Cristo. Devemos obedecer a Deus e colocar-nos
sob o controle do Espírito Santo. O Altíssimo deve receber o direito de crucificar a vontade própria
dentro de nós e reinar em nós. Porém, os benefícios de uma união tão próxima assim com Cristo são
extraordinários! Envolve a liberação do assustador e sufocante peso do pecado e do desejo. Tomar
verdadeiramente o jugo de Jesus significa voar com Ele como uma águia! É o tipo de relacionamento
que o Salvador diz que nós precisamos aprender e almejar.

CONQUISTADO POR DEUS

Uma figura histórica que se tornou próxima do Senhor dessa maneira foi Moisés. Ele é a figura
mais predominante no Antigo Testamento, tendo escrito seus primeiros cinco livros e sendo
mencionado, aproximadamente, 800 vezes na Sagrada Escritura. Além de ter sido o instrumento que
Deus usou para lançar as pragas no Egito que levaram à libertação da escravidão Seu povo escolhido,
ele também foi usado para fundar a nação de Israel e formar a religião judaica. Porém, esse vaso
escolhido precisou de uma preparação espiritual extensa para essa grande tarefa.
Moisés cresceu nos palácios do Egito, uma civilização que estava muitos anos além de seu
tempo em diversas áreas de conhecimento, como, por exemplo, nas de patologia, astronomia e
engenharia. Infelizmente, parece que essa sabedoria extraordinária surgiu do conhecimento das
profundezas de Satanás. Esse império maligno era, com certeza, controlado pelos principados,
pelas potestades e forças espirituais do mal, nas regiões celestes (Ef 6.12 - ARA).
Sem dúvida, Moisés cresceu em um mundo detestável e extremamente depravado. Como
membro da casa de Faraó, o jovem hebreu recebeu uma profunda doutrinação, tendo sido instruído
em toda a ciência dos egípcios (At 7.22a). Quando tinha por volta de 40 anos, ele estava mergulhado
no modo de pensar egípcio. Porém, foi nessa época que ele teve um encontro com Deus que mudou
completamente o rumo de sua vida. A Bíblia Ampliada expressa de maneira muito bela a consa-
gração de Moisés quando recebeu esta revelação do Senhor:
[Movido] Pela fé, Moisés, quando já homem feito, recusou ser chamado filho da filha de
Faraó, preferindo ser maltratado [sofrer as dificuldades] junto com o povo de Deus a
usufruir prazeres transitórios do pecado; porquanto considerou o opróbrio [a vergonha]
de Cristo [o Messias que estava por vir] por maiores riquezas do que os tesouros do
Egito, porque contemplava o galardão [a recompensa]. [Motivado] Pela fé, ele
abandonou o Egito, não ficando amedrontado com a cólera do rei; antes, permaneceu
firme como quem vê aquele que é invisível (Hb 11.24-27 - ARA).

O Senhor estava preparando para levar Seu povo à Terra Prometida. Suas leis governariam a
nova nação. Para conseguir isso, Ele precisava de um homem que entendesse a obediência; não
simplesmente a obediência externa às regras, mas uma convicção profunda e sincera para obedecer a
Deus. Moisés foi escolhido desde o seu nascimento para ser tal homem. Infelizmente, ele, como os
demais de seu povo, era um rebelde inveterado. Tornou-se zeloso com o Senhor, mas estava tão
cheio de sua justiça própria, que matou um egípcio. Ele teria de sofrer uma profunda mudança de
caráter antes que pudesse ensinar os outros acerca da obediência.
A Escritura é estranhamente silenciosa sobre a estada de Moisés no deserto. Podemos apenas
imaginar o que o Criador o fez passar a fim de prepará-lo para o grandioso desafio que surgiria
diante dele. Durante 40 anos, Moisés foi disciplinado, humilhado, confinado e quebrantado pelo
Todo-Poderoso. Ele teve de ser purificado de sua mentalidade egípcia e aprender como obedecer a
Deus. De qualquer forma, era um homem completamente transformado que entrou no palácio do
Faraó 40 anos depois de ter deixado esse lugar em desgraça. A Bíblia nos conta que ele foi mui
manso, mais do que todos os homens que havia sobre a terra (Nm 12.3). Pode-se dizer isso de uma
outra maneira: a vida de Moisés foi mais diminuída, controlada e direcionada pelo Espírito
Santo do que qualquer outra. Ele se tornou tão puro no fogo Refinador, que podia falar com o
Senhor face a face (Mt 5.8).
O cristão do século 21 não parece experimentar o mesmo tipo de encontro que Moisés teve com
o Poderoso. Porém, os mesmos princípios espirituais que estavam em vigor naqueles dias vigoram
também hoje. Quanto mais o Espírito Santo conquista o interior de uma pessoa, mais ela se aproxima
do Pai. Quanto mais profunda sua submissão, maior será sua revelação sobre o Onipotente. Seu
coração entenderá, seus ouvidos ouvirão, e seus olhos verão a realidade espiritual do mundo invisível
onde o Senhor reina (Mt 13.14-16).
Tudo envolvido com o cristianismo gira em torno de um relacionamento pessoal com Cristo,
que depende do seu nível de submissão ao Altíssimo. Assim como o crente se torna
progressivamente mais submisso às regras do Senhor em sua vida, ele verá a realidade de Deus
crescendo dentro do seu ser. Não há atalhos para essa intimidade preciosa.
Querido Senhor, ofereço meu corpo, minha alma,
minha mente, meu coração, minhas vontades, meus
desejos e meus sonhos como sacrifício em Teu santo altar.
Por favor, quebranta meu ser.
Leva-me a submissão ao Santo Espírito.
Conquista totalmente o meu ser interior.
Senhor, não permitas que eu siga o meu
caminho se isso trouxer desgraça para o Teu Nome,
machucar o Teu povo ou me manchar eternamente.
Eu Te dou permissão para fazer o que for necessário para me
manter dentro da Tua vontade.
Amém.
De certa forma, parece ser uma contradição, mas a verdade é que aquele que anda em humildade
anda no poder.¹
George Ridout

A primeira, a segunda e a terceira coisa na religião é a humildade; pessoa alguma se torna cristã se
não for capaz de ser como uma criança.2
Albert Barnes

E muito difícil competir com alguém que escolhe ser o último.3


Gayle Erwin

NOVE

ANDANDO EM HUMILDADE

Quando alguém recebe a disciplina do Senhor e experimenta o quebrantamento de sua vida


interior e do orgulho que cresce dentro de si, ele se torna gradativamente mais consciente da
realidade de Deus. Com o eu interior diminuindo, a presença do Altíssimo aparecerá de uma maneira
muito maior do que antes. Por que isso? Qualquer coisa que diminua a vida interior promove a
humildade.
Uma vez que a realidade do Pai invada o coração de uma pessoa, a resposta natural (e
apropriada) é reconhecer-se e adorar ao Senhor. Por exemplo, a Palavra descreve o seguinte
acontecimento quando Jesus andou sobre as águas: Então, aproximaram-se os que estavam no barco
e adoraram-no, dizendo:
És verdadeiramente o Filho de Deus (Mt 14.33). Quando o homem cego foi curado por Jesus
no templo, vemos que ele o adorou (Jo 9.38). Quando as duas Marias encontraram Cristo ressurreto,
elas abraçaram os seus pés e o adoraram (Mt 28.9). Todos esses que viram o Senhor Jesus Cristo se
prostraram e O adoraram, o que significa que eles entenderam que estavam na presença do grande
Senhor.
Contudo, humilhar-se diante de Deus não é significativo somente para os que têm uma
revelação poderosa dEle. Ao contrário, é a posição apropriada que todos deveriam ter em seu
coração diante do Senhor. Jesus disse para a mulher, na fonte, que o Pai verdadeiramente procura
aqueles que O adorem em espírito e em verdade (Jo 4.23,24). Essa devoção é de importância
fundamental porque envolve o relacionamento pessoal com o Onipotente.
Tanto em hebraico quanto em grego, o termo adorar dá a idéia de se prostrar fisicamente
diante de alguém. De fato, a palavra transmite a imagem de uma pessoa curvando-se na mais
completa humildade para beijar a mão de alguém superior.
Muitos pensam que cantar hinos e canções de adoração a Deus aos domingos é tudo o que se
pode fazer para adorará-lO, mas, na realidade, há muito mais para realizar com a sujeição consciente
a Deus do que apenas entoar louvores. A verdadeira adoração apenas acontece quando alguém
reconhece quem ele é em relação a Deus e quem Deus é em relação a ele. Isso requer sempre uma
grande humildade dentro do coração.
O salmista mostrou isso quando disse: Servi ao SENHOR com temor e alegrai-vos com tremor.
Beijai o Filho, para que se não ire, e pereçais no caminho (Sl 2.11,12a). Tais palavras indicam um
indiscutível senso de medo santo e humildade em um homem que entendeu seu lugar diante do
Criador.
Um outro personagem bíblico que compreendeu o verdadeiro significado da adoração foi Jó.
Coisa alguma fará a atitude real de uma pessoa diante de Deus tornar-se mais evidente do que as
provações. Quando todas as suas posses terrenas foram destruídas, e seus filhos, mortos, Jó se
levantou, e rasgou o seu manto, e rapou a sua cabeça, e se lançou em terra, e adorou, e disse: Nu
saí do ventre de minha mãe e nu tornarei para lá; o SENHOR o deu e o SENHOR o tomou; bendito
seja o nome do SENHOR ( Jó 1.20,21).
Abraão também teve uma atitude apropriada diante do Senhor. Ele havia esperado 25 anos por
um filho, mas, quando o Todo-Poderoso disse-lhe que fizesse uma viagem de três dias até o monte
Moriá e sacrificar Isaque, ele obedeceu ao Pai sem hesitar. Depois que ele chegou ao lugar, disse
para o jovem que estava com ele: Ficai-vos aqui com o jumento, e eu e o moço iremos até ali; e,
havendo adorado, tornaremos a vós (Gn 22.5).
Cada um desses personagens ilustram o verdadeiro significado da adoração. Eles tiveram temor
ao Senhor e mantiveram seu lugar exato diante dEle em seus corações. Eles eram tão devotados ao
Senhor, que sua adoração continuava mesmo sob circunstâncias extremamente difíceis. Aquele que
simplesmente se aproxima com suas palavras e cuja reverência por Ele consiste só em mandamentos
de homens, que maquinalmente aprendeu (Is 29.13 - ARA),
não tem compreensão da verdadeira adoração. Embora possa experimentar uma vaga sensação
de Sua presença enquanto entoa hinos e cânticos, sua revelação de Deus será extremamente
superficial.

GANHANDO UMA PERSPECTIVA VERDADEIRA

Muitos dos que procuram nunca se tornam íntimos do Senhor, não se humilham
verdadeiramente diante dEle e jamais O adoram realmente. Orgulho e outros pecados não-
confessados os mantém à distância (Sl 138.6; Is 59.2). Porém, o que é assustador é que eles pensam
que estão próximos de Deus. A soberba, como todos os pecados, tem o poder de enganar o coração
de alguém, cegando-o para sua verdadeira condição espiritual (Ob 1.3; Hb 3.13). Assim, os mesmos
elementos atuando na vida de uma pessoa que se afasta do Senhor, simultaneamente, fazem-na
acreditar que ela está realmente perto do Pai.
No livro At the altar of sexual idolatry (No altar da idolatria sexual), escrevi sobre o poder
enganador do pecado e como o processo de superá-lo leva o homem à realidade espiritual:
As pessoas tendem a negligenciar seu pecado profundamente enraizado porque ele tem
uma natureza extremamente enganadora. Existe uma correlação interessante entre o
envolvimento de uma pessoa com o pecado e sua percepção dele. Quanto mais a pessoa
torna-se envolvida com o pecado, menos ela o vê. Ele é uma doença hedionda que destrói
a capacidade da pessoa de compreender sua existência. Pode ser comparado a um vírus de
computador, que pode esconder sua presença do usuário enquanto destrói
sistematicamente o disco rígido. Geralmente, aqueles mais envolvidos em pecado são os
que não conseguem notar a presença do mal dentro deles. O pecado tem o poder de se
mascarar tão bem, que poderá realmente fazer a pessoa que lida com ele pensar, no
mínimo, que é a mais espiritual.

O salmista expôs a verdade que está dentro do coração dessa pessoa quando disse: Aos seus
olhos é inútil temer a Deus. Ele se acha tão importante, que não percebe nem rejeita o seu pecado
(Sl 36.1b,2 - NVI).
Por outro lado, quanto mais uma pessoa domina o pecado em sua vida e se aproxima mais de
Deus, mais sua natureza pecaminosa se sobressai. Deus habita na luz inacessível (1 Tm 6.16) e,
assim, conseqüentemente, todo vestígio de egoísmo, orgulho e pecado será exposto àquele que
buscar o Senhor com sinceridade. A luz intensa e brilhante de Deus expõe o que está no coração da
pessoa. Aqueles que querem aproximar-se mais do Senhor regozijam-se por causa disso. Eles amam
a Luz e, então, abraçam-nA, muito embora isso signifique que seu verdadeiro eu seja desmascarado.
Jesus disse: E a condenação é esta: Que a luz veio ao mundo, e os homens amaram mais as trevas
do que a luz, porque as suas obras eram más. Porque todo aquele que faz o mal aborrece a luz e não
vem para a luz para que as suas obras não sejam reprovadas. Mas quem pratica a verdade vem
para a luz, a fim de que as suas obras sejam manifestas, porque são feitas em Deus (Jo 3.19-21).4
O altivo, que não deseja ser mudado, permanece em profunda ignorância sobre seu real estado
espiritual. Ele faz a própria propaganda pessoal. Assim como os fariseus com sua auto-aprovaçao
e ilusão no templo, ele pensa, ora e acredita no melhor sobre si mesmo. Por causa desse tremendo
amor-próprio, ele se vê em uma posição de destaque.
Como é diferente o crente capaz de ser honesto consigo mesmo e confessar o que há em seu
coração! Quando inicia o amadurecimento de sua caminhada com Deus, ele começa a reconhecer os
horríveis tentáculos do pecado em todos os lugares! Não que a iniqüidade tenha crescido; seus olhos
cegos simplesmente se abriram para o que já estava lá durante todo o tempo. Ele agora quer ver a
transgressão porque ele deseja que o Senhor o livre dela. Aquele que foi quebrantado pelo Altíssimo
não precisa ser convencido de sua condição indigna; seu pecado está sempre diante de si.
Paulo admoestou o cristão: Digo a cada um dentre vós que não pense de si mesmo além do que
convém; antes, pense com moderação (Rm 12.3). Geralmente, a humildade está simplesmente tendo
a perspectiva adequada sobre o Onipotente, sobre ela mesma e sobre os outros. William Law disse:
Humildade não consiste em ter uma opinião pior sobre nós mesmos do que merecemos,
ou rebaixar-nos mais do que deveríamos; mas, assim como toda virtude está
fundamentada na verdade, a humildade está alicerçada em uma verdade e em uma
impressão correta sobre nossas fraquezas, nossa miséria e nosso pecado. Aquele que sente
e vive sinceramente nesse conhecimento sobre sua condição vive em humildade.5

Matthew Henry expressou o mesmo sentimento:


Humildade é a estima de nós mesmos como nós realmente somos. E a capacidade de ser
conhecido, relacionar-se e ser tratado apenas de acordo com a verdade. É a visão de nós
mesmos como perdidos, pobres e criaturas errantes.6

Ter um conhecimento verdadeiro sobre si mesmo é muito humilhante. O benefício maravilhoso


disso é que, assim como o crente se torna menor na própria visão, Deus Se torna maior. Como a
consciência da pessoa cresce sobre as limitações de suas virtudes -resultando assim na diminuição
dos efeitos da auto-aprovação que a cegam -, o caminho se abre para que ela veja a infinita bondade
do Pai. Como ela vê o quanto é egoísta, tem maior percepção do altruísmo do Senhor. Quando
reconhecer a tão pequena quantidade de amor que sente pelos outros, os olhos dela abrir-se-ão para o
amor completo do Onipotente.
A proporção que uma pessoa se torna pequena para si mesma, ela desfruta de uma realidade
muito maior do Todo-Poderoso em seu viver. Uma área inteira que era, anteriormente, desconhecida
aparece para ela; seu espírito fica sensível ao Reino de Deus; as Escrituras tornam-se vivas, e a
oração é revitalizada. Assim, essa crescente conscientização afeta todos os âmbitos de sua vida.
Amor, alegria e paz surgem dentro dela (Gl 5.22). Quanto mais real a presença do Criador é para ela,
mais completa ela se sente. Em essência, Deus preenche Sua criação com vida abundante. Um cálice
transbordante que, verdadeiramente, aguarda que todo cristão se humilhe perante o Senhor.

UMA NOVA PERSPECTIVA SOBRE OS OUTROS

O resultado final de se humilhar perante o Senhor é que sua percepção sobre as outras pessoas
irá mudar drasticamente. Uma vez que seu ego tenha sido destronado, o crente é capaz de ver os
outros por meio de um prisma completamente diferente: as pessoas se tornam mais importantes
quando vistas pelos olhos do amor de Deus.
Pedro mostrou a conexão entre a relação com o Altíssimo e os outros quando disse: Sede todos
sujeitos uns aos outros e revesti-vos de humildade, porque Deus resiste aos soberbos, mas dá graça
aos humildes. Humilhai-vos, pois, debaixo da potente mão de Deus, para que, a seu tempo, vos
exalte (1 Pe 5.5b,6).
O tipo de roupa que uma pessoa usa geralmente identifica o que ela é. Por exemplo, um anjo
das trevas usa suas "cores", os apliques de sua jaqueta que representam a violência e o vício. Um
homem de negócios mostra seu sucesso usando um terno caro. Uma mulher sedutora atrai os olhares
com uma blusa agarrada e uma saia curta. É muito importante para esses indivíduos que sua
aparência represente adequadamente a imagem que eles querem passar para os outros. Acredite ou
não, o orgulho é o fator motivador por trás de tudo isso.
Pedro, porém, exorta os cristãos a reforçarem o próprio interior com a submissão. Isso significa
que eles devem passar essa impressão para aqueles com quem vivem e trabalham. O seu
comportamento humilde deve ser tão óbvio quanto o agasalho que vestem. Nos tempos bíblicos, os
servos usavam um determinado adereço que os identificava como tal. Era claro para todos à sua volta
que ele era servo de alguém, um membro da classe mais baixa da sociedade. Os ouvintes de Pedro
entenderam claramente as implicações dessa afirmação.
Jesus - que, frequentemente, falava em parábolas para mostrar a verdade - ilustrou esse
princípio espiritual, utilizando-o anteriormente com Seus discípulos. João disse que o Mestre
levantou-se da ceia, tirou as vestes e, tomando uma toalha, cingiu-se. Depois, pôs água numa bacia
e começou a lavar os pés aos discípulos e a enxugar-lhos com a toalha com que estava cingido ( Jo
13.4,5). Estando "cingido" com uma toalha e fazendo a tarefa de um servo, Ele mostrou aos
discípulos o que esperava da vida de cada um deles: seguir Seus passos, amando e servindo aos
outros.
Então, Cristo explicou Suas atitudes: Vós me chamais Mestre e Senhor e dizeis bem, porque eu
o sou. Ora, se eu, Senhor e Mestre, vos lavei os pés, vós deveis também lavar os pés uns aos outros.
Porque eu vos dei o exemplo, para que, como eu vos fiz, façais vós também. Na verdade, na verdade
vos digo que não é o servo maior do que o seu senhor, nem o enviado, maior do que aquele que o
enviou. Se sabeis essas coisas, bem-aventurados sois se as fizerdes (Jo 13.13-17).
Jesus não instituiu um novo sacramento; simplesmente, mostrou-lhes que um verdadeiro servo
de Deus deve ter uma mente servil. Paulo usou termos claros para explicar a relação dos cristãos com
os seus semelhantes: Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de
misericórdia, de benignidade, humildade, mansidão, longanimidade, suportando-vos uns aos outros
e perdoando-vos uns aos outros, se algum tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos
perdoou, assim fazei vós também. E, sobre tudo isto, revesti-vos de caridade, que é o vinculo da
perfeição (Cl 3.12-14).
Enquanto todos temos áreas de orgulho dentro da moldura de nosso caráter, devemos esforçar-
nos para nos humilhar perante Deus e os homens. Aqui estão algumas coisas que podemos fazer para
aumentar a humildade:
• Tornar nosso pecado conhecido diante do Senhor.
• Adorá-lO com verdadeira reverência.
• Tratar as pessoas com bondade, paciência e mansidão.
• Ser rápidos em perdoar os erros dos outros.
• Mostrar compaixão por eles fazendo o nosso melhor para sanar suas necessidades.

Em outras palavras, humildade não deveria simplesmente ser um conceito vago, mas uma parte
bem real da vida diária do cristão.
Querido Senhor, reconheço que sou muito grande aos meus próprios olhos.
Por favor, humilha-me para que eu possa ver-Te melhor. Tira-me de qualquer auto-ilusão que o
orgulho ou o pecado tenham criado. Ajuda-me a
adquirir a perspectiva apropriada de mim mesmo em relação a Ti e aos outros.
Faça-me temer-Te! Dá-me um coração de servo. Purifica-me, Senhor,
para que eu possa viver humildemente diante de Ti e dos outros. Amém.
Eu costumava pensar que os dons de Deus estavam em prateleiras, uma acima das outras, e, quanto
mais crescíamos no caráter cristão, mais facilmente poderíamos alcançá-las. Eu entendo, agora, que
eles estão em prateleiras, uma abaixo das outras, e isso não é uma questão de se tornar maior, mas de
se tornar menor e ter de descer para pegar Seus melhores dons. No serviço cristão, os galhos que
produzem mais frutos se curvam aos mais baixos.1
F. B. Meyer

Nossa humildade não deve ser apenas uma baixa auto-estima de nós mesmos, mas ser uma remoção
prática de distinções e prerrogativas e uma identificação de nós mesmos com os mais humildes.
Precisa levar ao serviço, o qual deve ter por fim a limpeza de nosso irmão. Uma mente humilde não
pensa em seus pedidos para os outros, mas em suas obrigações para com eles.2
Alexander MacClaren

DEZ
SERVINDO AOS OUTROS

A sabedoria convencional iguala a humildade à modéstia humana. Aos olhos do mundo, os


humildes são modestos por natureza. Porém, de acordo com o padrão de Deus, algumas vezes, as
pessoas exteriormente modestas são as mais egoístas e orgulhosas. A verdade é que a humildade
divina não tem nada a ver com uma disposição natural da pessoa. Por exemplo, Ele separou dois
homens durões e, radicalmente, transformou-os pelo poder do Espírito Santo: o desbocado e
impositor Pedro, e Paulo, que havia sido um agressor, uma pessoa violenta. Ambos foram levados
para baixo, andaram em humildade e tornaram-se verdadeiros servos fiéis de Jesus Cristo.
Uma pessoa torna-se humilde quando sua consciência, preocupação e devoção ao Todo-
Poderoso e aos outros cresce. Paulo mesmo diz o que talvez seja a melhor definição de humildade:
Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros
superiores a si mesmo. Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também
para o que é dos outros (Fp 2.3,4).
Um aspecto essencial da humildade é viver em constante atenção à importância que se dá às
pessoas. Quando um crente se envolve na vida dos outros, ele fica cada vez menos preocupado
consigo mesmo. De maneira contrária, o orgulhoso está voltado para si. Seus pensamentos quase
sempre giram em torno da própria opinião, de seus desejos e suas necessidades. Socialmente, ele está
interessado na própria vida e na sua família. Há um lugar bem pequeno para o semelhante, porque
ele é muito grande em sua mente. Ao invés de servir os outros, ele procura ser servido.
Por outro lado, o cristão humilde amadurece, liberta-se desse pensamento egocêntrico e se inte-
ressa por outras pessoas. A medida que a consciência de si mesmo diminui, ele se torna,
gradativamente, cônscio dos objetivos alheios. A vida de seus semelhantes começa a tomar grande
parte de sua consciência, e ele se torna menor na própria mente. Ter humildade é viver preocupando-
se com o bem-estar dos outros e realizando seus interesses, suas necessidades e dificuldades, seus
sonhos e medos para fazer parte da vida de alguém. Todo cristão deve carregar o fardo pesado dos
outros para que cumpram a lei de Cristo (Gl 6.2).
Paulo fez a seguinte exortação aos cristãos: Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor
fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros [...]. Comunicai com os santos nas suas
necessidades, segui a hospitalidade; abençoai aos que vos perseguem; abençoai e não amaldiçoeis.
Alegrai-vos com os que se alegram e chorai com os que choram. Sede unânimes entre vós; não
ambicioneis coisas altas, mas acomodai-vos às humildes; não sejais sábios em vós mesmos (Rm
12.10-16).
Essa é uma definição completa de humildade e descreve o que deveria caracterizar a vida
normal do cristão. Qualquer um que tem o Espírito de Cristo vivendo dentro de si terá uma vontade
interna de ajudar aqueles que estiverem passando necessidade à sua volta. Por exemplo, observemos
o que Jesus fez em um período de dois dias, como está registrado nos capítulos 5 a 9 do Evangelho
de Mateus:

PRIMEIRO DIA:
• Pregou o sermão da montanha.
• Curou um leproso.
• Sarou o servo do centurião.
• Curou a sogra de Pedro.
• Restaurou pessoas e expeliu demônios de muitas delas aquela noite.
• Entrou em um barco para cruzar o mar da Galileia e adormeceu.
• Acalmou uma tempestade que assaltou o barco.

SEGUNDO DIA:
• Expulsou os demônios de dois homens na outra margem.
• Cruzou o lago de volta para Cafarnaum.
• Curou um paralítico.
• Debateu com os fariseus.
• Jantou com Mateus e seus amigos.
• Curou a mulher com hemorragia.
• Ressuscitou a filha de Jairo.
• Curou dois cegos.
• Expulsou o demônio de um outro homem.

Sou grato a Mateus por ter feito esse registro da vida diária do Salvador, em vez de,
simplesmente, registrar todos os grandes eventos que aconteceram durante Seus três anos de intenso
ministério terreno. Esse relato sobre Seu cotidiano revela Sua preocupação constante com a vida das
pessoas. De acordo com a afirmação de Sua missão, Ele não veio para ser servido, mas para servir
(Mt 20.28 - ARA).
Os verdadeiros seguidores de Cristo adotam esse mesmo raciocínio porque Cristo vive neles. *
Quando vêem a necessidade, eles são compelidos a ajudar os necessitados. Os servos cristãos não
dão ordens, como muitos ricos tratam seus serviçais. Eles, sob a orientação de seu Mestre, vivem
para satisfazer a necessidade dos outros. De certa forma, são servos desses necessitados.
Paulo é um ótimo exemplo dessa postura de coração. Continuamente, ele se identificava como
um servo, dedicando seus 30 anos de ministério para servir e satisfazer as carências espirituais dos
gentios convertidos. O que ele enfrentou para ajudar os outros é absolutamente fenomenal. Assim, as
coisas que ele pode ter desejado para si mesmo (conforto, segurança, prazer, prosperidade, dentre
outras) ficaram em segundo plano quando ele recebeu um chamado de Jesus Cristo para pregar o
Evangelho. Não havia coisa alguma, nem mesmo martírio, que ele deixaria de enfrentar até o fim.

*
O religioso pode ir ã igreja e confessar os pecados óbvios e externos, mas, se não tiver uma conversão verdadeira, ele não sentirá aquela vontade
interna de satisfazer as necessidades dos outros. Tiago propõe que a fé é provada por seus atos de misericórdia (Tg 2.13-16).
O livro de 1 Tessalonicenses revela o grande amor desse apóstolo pelas pessoas. Leia algumas
das coisas que ele disse para essa congregação, as quais significavam muito para ele:
• Tanto mais procuramos com grande desejo ver o vosso rosto (2.17b).
• Pelo que bem quisemos, uma e outra vez, ir ter convosco, pelo menos eu, Paulo, mas Satanás no-
lo impediu (2.18).
• Porque qual é a nossa esperança, ou gozo, ou coroa de glória? Porventura, não o sois vós
também diante de nosso Senhor Jesus Cristo em sua vinda? (2.19).
• Na verdade, vós sois a nossa glória e gozo (2.20);
• Pelo que, não podendo esperar mais (3.1a).
• Portanto, não podendo eu também esperar mais, mandei-o saber da vossa fé, temendo que o
tentador vos tentasse (3.5a).
• Desejando muito ver-nos, como nós também a vós (3.6b).
• Porque, agora, vivemos, se estais firmes no Senhor (3.8).
• Por todo o gozo com que nos regozijamos por vossa causa diante do nosso Deus (3.9b).
• Orando abundantemente dia e noite, para que possamos ver o vosso rosto e supramos o que falta
a vossa fé? (3.10).
A grande devoção de Paulo por essas pessoas é óbvia. Ele passou a vida inteira envolvido com
o bem-estar delas. Sua busca por almas perdidas o levou a um viver sem descanso. Muitos estavam
perdidos na escuridão, indo para o inferno, e ele se importou profundamente. Esse é o pensamento
que todo cristão deveria ter.
Auto Serviço

Como é diferente a mentalidade que muitos têm hoje! A história de um jovem, cujo
pseudônimo é Keith, vem à minha mente. Ele ingressou no programa de internação do Pure Life
Ministries (Ministérios de Vida Pura), por causa de seu problema com a homossexualidade.
Rapidamente, tornou-se salvo e seguiu procurando mais liberdade de seu pecado sexual. Ele sentiu o
chamado para o ministério e, finalmente, entrou na escola bíblica com a bênção dos conselheiros.
Ficamos todos muito felizes por ele quando se graduou, dois anos mais tarde, e estávamos ansiosos
para contratá-lo quando ele viesse pedir um emprego.
Porém, quando chegou, rapidamente, ficou visível que ele havia perdido alguns dos princípios
de servidão que havíamos plantado nele. Nós o havíamos ensinado que o principal propósito do
ministério é ajudar outras pessoas. De alguma forma, na época em que ele se formou, seu principal
foco era construir uma carreira ministerial que girasse em torno dele.
Parecia claro que ele queria ser alguém grande, e o ministério era a sua passagem para essa
grandeza.
Tal atitude se revelou, particularmente, em uma conversa que tive com ele muitos meses depois
de ele ter voltado para trabalhar conosco. Keith ainda estava lutando com a masturbação constante.
Porém, ele me disse que tinha tido um sonho, na noite anterior, em que o Senhor disse-lhe que queria
usá-lo de uma maneira grandiosa, mas ele estava incapacitado por causa de seu hábito de se
masturbar. Eu sabia que o sonho não vinha de Deus, porque a masturbação é um mero sintoma de
algo muito mais profundo.
"Keith, o Senhor quer usá-lo, mas a masturbação não é o problema; você é o problema!", eu
exclamei. "Masturbação, raiva, amargura e outras coisas contra as quais você luta são as fraquezas da
carne. Para colocar em termos mais simples: o problema é que você ainda está muito cheio de si
mesmo. Enquanto estiver dessa maneira, o Altíssimo estará muito limitado no que Ele pode fazer por
seu intermédio.
A outra coisa que precisa saber é que seu entendimento sobre o serviço do Senhor está fora dos
eixos", continuei. "Keith, o ministério não se deve desenvolver em torno da idéia de você ser usado
de uma grande maneira. Esse tipo de pensamento é alheio ao Reino de Deus. Sua perspectiva é que
você faça grandes coisas para o Senhor. Toda a sua motivação para o serviço está centrada em torno
da sua vida: o que ganhará com isso, como as pessoas olharão para você, quão grande você parecerá
aos outros".
"A grandeza no Reino de Deus gira em torno do Senhor, não do trabalhador", concluí. "O
Senhor é o único com o coração magnânimo. Ele é quem possui um amor enorme pelos outros e o
único com poder para fazer qualquer coisa para ajudá-los. Nossa parte Richard Sobotka tem 23 anos
de idade. Quando tinha nove, sofreu de síndrome de Reye, uma doença que causa a destruição do
tecido nervoso, deixando seqüelas irreversíveis. Seu efeito em Richard foi a perda da capacidade de
se comunicar e algumas habilidades motoras. Ele respira por meio de um tubo de traqueotomia, o
que parece ser um grande problema, mas Richard aprendeu a servir ao Senhor como ele é.
No último outono, ele decidiu recolher as nozes caídas no chão da propriedade de seus pais. Ele
poderia vendê-las e ganhar algum dinheiro.
Richard gastou uma semana inteira nesse trabalho, que, para ele, era uma grande tarefa, uma
vez que seus problemas de saúde não permitiam muitos movimentos.
Ele se sentava no chão, pegando os frutos com dois dedos que funcionavam, e os colocava
dentro da sacola. Sua colheita foi impressionante: 122 quilos de nozes foram coletadas dentro de 16 a
20 sacos. Richard levou-as para o comércio local e recebeu 21 dólares e 60 centavos por seu
trabalho.
Em vez de guardar esse dinheiro para o próprio uso, ele decidiu mandá-lo para os missionários
Bill e Judy Kirsch, na África do Sul. Bill escreveu que "foi a oferta mais generosa que eles já haviam
recebido [...]. De muitas formas, Richard é um exemplo para todos nós. Ele é o modelo do tipo de
servo e do auto-sacrifício que agrada a Cristo e que, geralmente, negligenciamos em nossa
abundância e riqueza".3Quando Deus chama um crente para a vida eterna, Ele também o convoca
para Seu serviço. A Igreja é denominada Corpo de Cristo, onde cada membro tem seu lugar. O
Senhor planejou um ministério que se adéqua perfeitamente ao temperamento, às habilidades e à fé
que cada cristão possui. A. B. Simpson fez a seguinte declaração:
Existe algo que só você pode fazer; há alguém que somente você pode alcançar. Seu
talento pode vir de uma habilidade natural ou influência social, de recursos financeiros, de
alguma posição na igreja, no mundo, ou de oportunidades especiais trazidas a você com
relação à sua vida profissional. Esse é o resumo de todas as possibilidades de utilidade em
sua vida. Deus espera que você faça o melhor por Ele e pelos outros; Ele irá chamá-lo
para prestar conta na volta de Cristo pelo uso que você fez de sua vida.4

Como servos de Cristo, é nossa responsabilidade descobrir a vontade do Altíssimo para nós.
Richard não tinha muito a oferecer, mas doou tudo o que possuía. As possibilidades de se envolver
nas necessidades dos outros são ilimitadas. Asilos estão sempre procurando por voluntários para
ajudar os idosos que foram esquecidos e abandonados pela família e pelos amigos. Que lugar
maravilhoso para retribuir ao Pai por toda a misericórdia que Ele tem demonstrado. Os ministérios
carcerários precisam de homens que despertarão interesse nos que estão atrás daquelas grades. As
cozinheiras precisam de pessoas que sirvam sopa aos incapacitados.
Ministérios paralelos aos da igreja podem usar voluntários para ajudar. Vizinhos idosos sempre
podem ser auxiliados por alguém que lave a roupa, leve-os às compras, corte seu gramado, e assim
por diante. Muitos pastores estão sobrecarregados com as obrigações pastorais e vários problemas
relativos aos membros da sua congregação; eles dispõem de poucas pessoas que podem ceder seu
tempo. Um cristão capaz de ajudar pode perguntar ao seu pastor se há algum trabalho que precisa ser
feito na igreja de vez em quando. Uma pessoa que tenha habilidades de mecânica pode oferecer-se
para ajudar com os veículos do ministério ou na manutenção. Aqueles que têm habilidade
administrativa podem colocar-se à disposição para digitar os trabalhos, preparar um boletim mensal,
agendar as visitas e um grande número de outras coisas. Pessoas simpáticas podem trabalhar
saudando os visitantes nas manhãs de domingo, visitando membros novos ou ensinando na escola
dominical. Qualquer um desses serviços de misericórdia são tão importantes quanto pregar e ensinar
no Reino de Deus.
Não são poucas as necessidades para se ajudar. O Todo-Poderoso tem um propósito para a vida
de cada um. Ele tem alguma tarefa que é especialmente adequada para cada pessoa. O que é
importante para o crente é envolver-se auxiliando os outros da maneira que puder. Esse é o
raciocínio do Reino dos céus. O que pode ser mais gratificante na terra do que fazer a vontade do
Altíssimo? Aqueles que não estão atendendo completamente o chamado de Deus nunca terão
conhecimento da alegria que estão perdendo.

Querido Senhor, por favor, convence-me da minha falta de preocupação pelos outros. Põe um fardo
em meu coração que me pressione dia após dia, até que eu responda. Ajuda-me a ver a necessidade
dos outros e dá-me a graça de fazer a minha parte para satisfazer suas necessidades. Faze Tua
vontade conhecida para mim e eu prometo que obedecerei ao Teu chamado. Obrigado, Senhor.
Amém.
Muitos de nós valorizamos a qualidade em uma pessoa que, quando fala conosco, diz: "Você,
certamente, é igual a mim e, em muitas formas, melhor que eu".1
Anônimo

As pessoas são, por natureza, egoístas, e é a forma da religião que as faz benevolentes. Naturalmente,
procuram os próprios interesses, mas o Evangelho ensina-lhes a considerar o bem-estar dos outros.
Se estivermos verdadeiramente sob influência religiosa, não haverá sequer um membro da igreja por
quem não nos interessaremos e para quem faremos de tudo a fim de promover o bem-estar em todas
as oportunidades que tivermos.2
Albert Barnes

ONZE

DIMINUIR-SE EM HUMILDADE
Todos os cristãos sinceros perseguem impiedosamente tudo na vida deles que é desagradável
para Deus. Eles desejam profundamente ser puros de coração (Mt 5.8). Eles compreendem que a
Terra é uma provação temporária e que todo pensamento e qualquer palavra e ação serão julgados
um dia. Aquilo que permitiram que o Criador fizesse dentro deles e por intermédio deles determinará
a qualidade e a medida da recompensa que receberão na eternidade, as quais, segundo eles, serão
fundamentadas, primeiro, no grau que permitiram que Deus os conquistasse e os moldasse para ser a
imagem de Jesus Cristo (Rm 8.29). A oração de Davi está continuamente em seus lábios: Sonda-me,
ó Deus, e conhece o meu coração; prova-me e conhece os meus pensamentos. E vê se há em mim
algum caminho mau e guia-me pelo caminho eterno (Sl 139.23,24).
Quão diferente é o pensamento daqueles que vivem apenas pelo dia de hoje! A Bíblia os chama
de tolos: aqueles que não ponderam e tomam decisões fundamentadas em resultados imediatos.
Certamente, o que as Escrituras dizem sobre eles é verdade:
• Os loucos desprezam a sabedoria e a instrução (Pv 1.7b).
• O caminho do tolo é reto aos seus olhos (Pv 12.15a).
• Os loucos zombam do pecado (Pv 14.9a).
• O tolo encoleriza-se e dá-se por seguro (Pv 14.16b).
• O tolo despreza a correção de seu pai (Pv 15.5a).
• O coração dos tolos está na casa da alegria (Ec 7.4b).

Essas passagens são um bom lembrete da importância de permitir que o Espírito Santo
complete Sua obra dentro do nosso coração. Há muito em risco, e é um fato inegável que uma das
maiores necessidades do homem é ser humilhado. Até aqui, grande parte deste livro tratou acerca do
orgulho e da humildade sob um ponto de vista teórico. Agora, apresentarei alguns passos concretos
que o leitor poderá seguir para cooperar completamente com a obra de Deus em sua vida.

LIDANDO COM O ORGULHO


Se você deseja andar em humildade, deve, primeiro, determinar quais as formas de orgulho que
estão atuando em seu coração. Faça a si mesmo as seguintes perguntas:
• "Existem ocasiões em que me comporto de maneira superior aos outros?"
• "Procuro e tento ganhar a admiração das pessoas?"
• "Sou sensível e defensivo?"
• "Tenho a tendência de me comportar como o 'sabe-tudo'?"
• "Sou rebelde para com os meus líderes?"
• "Resisto à autoridade de Deus em meu viver?"
• "Tento receber a glória por aquilo que o Pai fez em minha vida ou por meio dela?"

É sábio lidar com essas questões antes do Senhor e pedir a Ele que revele as áreas de seu
coração que estão sendo marcadas pelo orgulho.
Se formos honestos, identificaremos facilmente vários tipos de orgulho atuando em nosso
coração. Sem perder a coragem ou sentir autopiedade, entregue cada uma delas para o Altíssimo
individualmente. Tome consciência delas e peça para que Ele lhe perdoe por todas as vezes que isso
tenha levado você a destratar o Senhor e as outras pessoas. Você pode lembrar-se também de
algumas coisas que tenha pensado, dito ou feito e pode ter a vontade de ir até aqueles contra quem
você pecou e pedir perdão.
Tendo-se arrependido, agora é hora de tomar alguma atitude contra cada tipo de orgulho que
você tem enfrentado. Parte disso irá contrabalançar suas tendências orgulhosas naturais, diminuindo
o orgulho e aumentando a humildade (Ef 4.22-24). Por exemplo, o soberbo precisa fazer coisas que o
rebaixarão (em sua mente) ao nível das pessoas. Se ele é arrogante em relação às virtudes de outros,
deverá desenvolver o hábito de parabenizá-los pelas conquistas. Transferindo, dessa forma, o foco de
si mesmo para os demais, ele poderá contribuir muito para derrotar uma atitude altiva. É preciso
também desenvolver o hábito de comentar seus erros com aqueles que estão à sua volta. Por
exemplo, Bill Johnson poderia melhorar se considerasse realmente por que as pessoas gostam muito
mais do Jim, o zelador, do que dele.
A pessoa vã precisa lidar com sua inclinação de procurar a aprovação dos outros. Embora a
vaidade não seja uma forma de orgulho contra a qual eu tenha de lutar, posso ver muito claramente
minha propensão de me mostrar da melhor maneira possível. Para combater essa inclinação natural,
geralmente, coloco-me propositalmente em situações em que fico exposto de maneira desagradável.
Por exemplo, se estou indo às compras com a minha esposa, em vez de usar roupas para situações
casuais, prefiro colocar minha calça jeans, suja de lama, e as botas que eu uso em minhas
caminhadas de reflexão, durante as manhãs, no campo. Talvez, isso pareça bobo e desnecessário,
mas é uma coisa pequena que posso fazer para ir contra a tendência natural do meu orgulho.
Acredite em mim, esse tipo de comportamento opera maravilhas para acabar com a necessidade que
a pessoa tem de se sentir altamente gratificada.
Alguém que luta contra a tendência de ser extremamente protetor vê as coisas de maneira
diferente. Ele deve baixar a guarda e dar-se conta de que está tudo bem se ele é visto um pouco
aquém da perfeição. De fato, é uma experiência libertadora que o ajudará a ser mais simpático e
amável. Enquanto ele aprende a se tornar mais vulnerável aos outros, descobre que seus muros e suas
torres de proteção - que representam o medo do homem e só podem ser substituídos quando uma
grande preocupação com os outros crescer - ruirão. O apóstolo do amor disse: No amor não existe
medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora, o medo produz tormento; logo, aquele que
teme não é aperfeiçoado no amor (1 Jo 4.18). Em outras palavras, quanto mais você se envolve com
a vida dos outros, menos medo terá dentro de si.
Um indivíduo rebelde ou que tende a ser inatingível deve lidar sem misericórdia com seu
orgulho, porque o confronto é uma parte vital no Reino de Deus. Seria uma atitude sábia aproximar-
se de seus líderes espirituais e/ou daqueles próximos a ele, apresentando essas inclinações e pedindo
a interferência dessas pessoas em sua vida. As sábias palavras de Salomão expressam por que isso é
tão vital: O que repreende o escarnecedor afronta toma para si; e o que censura o ímpio recebe a
sua mancha. Não repreendas o escarnecedor, para que te não aborreça; repreende o sábio, e amar-
te-á*(Pv 9.7,8).
Uma pessoa muito qualificada, geralmente, luta contra o orgulho do sabe-tudo em suas áreas de
interesse; ela pode estar muito satisfeita sobre seu nível de conhecimento. Uma boa maneira para
lutar contra essa atitude é propositalmente pedir orientação e informação aos outros sobre diferentes
assuntos. Isso pode ser extremamente difícil (e humilhante) para ela, porque é muito talentosa.
Porém, isso irá fazer-lhe um bem tremendo e, ao mesmo tempo, será uma bênção para os outros.
O orgulho espiritual exige um grande acordo de arrependimento profundo diante de Deus.
Alguém que lida com essa forma de soberba tende a exagerar em sua espiritualidade. Seria prudente
pedir ao Senhor que lhe desse uma visão maior do quanto está perdendo espiritualmente. Tal
indivíduo não pode fazer-se pobre de espírito, mas tem a possibilidade de procurar o Altíssimo para
que Ele o faça.
Andar contra a tendência natural do orgulho na vida ajuda tremendamente a mantê-lo sob
controle. Uma palavra de atenção deve ser mencionada aqui. Enquanto você começa a ver formas
diferentes de orgulho em sua vida, inevitavelmente, torna-se mais consciente delas na vida dos que
estão à sua volta. Você deve policiar-se contra essa propensão e evitar criticar essas pessoas. Em vez
de apontar erros delas, procure maneiras de servir.

FORMAS DE SE HUMILHAR

Além de lidar com atitudes orgulhosas específicas que você possa ter, existem outras coisas
práticas que você pode fazer para se humilhar diante dos outros.
Antes de tudo, deve mudar a maneira que vê aqueles que estão ao seu redor. Em lugar de
enxergá-los como rivais, considere-os objetos do seu amor, seu respeito e sua afeição. Deus os ama e
mandou Seu Filho para morrer na cruz para que eles pudessem ter vida. Eles devem ter o melhor
daquilo que você puder oferecer. Em uma manhã em oração, durante os anos iniciais de meu
ministério, o Senhor colocou em meu coração que os homens que viriam para o nosso programa de
internação eram Seus convidados especiais e deviam ser tratados como tal. Essa revelação realmente
mudou a maneira de vê-los a partir daquele momento.
Em segundo lugar, reconheça como o espírito desse mundo tem afetado suas perspectivas de
vida e a forma como você se vê e observa os outros. Pense nas palavras de William Law, que
escreveu o seguinte muitos séculos antes de a televisão, o rádio e os computadores começarem a
influenciar o pensamento moderno:
O demônio é chamado, nas Escrituras, de príncipe deste mundo pelo fato de ele ter grande
poder aqui. Muitas de suas regras e seus princípios são criados por esse espírito maligno,
que é o pai de todas as mentiras e falsidades, as quais nos separam de Deus e evitam
nosso encontro com a felicidade.
Agora, de acordo com o espírito e a moda desse mundo, cujo ar corrupto todos nós temos
respirado [...], não ousamos tentar ser importantes à vista de Deus e dos anjos, por medo
de sermos pequenos aos olhos do mundo.
Nessa área, surgem as maiores dificuldades da humildade, porque ela não pode existir em
qualquer mente, mas, até agora, está morta para esse mundo e separada com todos os
desejos de aproveitar sua grandeza e honra. Assim, para ser verdadeiramente humilde,
você deve desaprender todas as noções que aprendeu em sua vida toda acerca do espírito
corrupto desse mundo. Você pode não se posicionar contra as investidas do orgulho e,
talvez, as afeições mansas da humildade não tenham lugar em sua alma, até que você
barre o poder desse mundo sobre você e decida contra a obediência cega às suas leis.3
Depois, mude a forma com que você interage com os seus semelhantes. Uma das coisas que
ensinamos aos homens que vêm para o nosso programa de internação é resumida na frase: "Colocar-
se abaixo dos outros". Quando existe um conflito entre duas pessoas, de uma forma muito real,
cada uma delas é tentada a passar por cima da outra com seu argumento ou sua vontade. Na maioria
das vezes, a pessoa humilde permite que a outra faça isso. Por exemplo, quando as duas têm opiniões
contrárias sobre um assunto controverso, a que é humilde,
graciosamente, permite que a outra expresse seu ponto de vista sem ter a necessidade de
discutir. Salomão disse: Como o soltar as águas, é o princípio da contenda; deixa por isso a porfia,
antes que sejas envolvido (Pv 17.14). Ele também declarou: A resposta branda desvia o furor, mas a
palavra dura suscita a ira (Pv 15.1). Permitir que a outra pessoa expresse sua opinião sem discussão
não significa que você concorde com o que ela está dizendo; simplesmente quer dizer que você tem a
sabedoria para compreender que nada de bom resultará de um desentendimento. Uma boa maneira de
lidar com esse tipo de disputa é sorrir e dizer: "Eu entendo sua opinião" e, delicadamente, mudar de
assunto.
Se perceber que há a possibilidade de trocar idéias com a pessoa, você poderá dizer: "Sim, acho
que entendo por que você se sente assim. Talvez, eu esteja completamente errado, mas a maneira
com que vejo isso é...". Expresse sua opinião de maneira gentil e observe a reação dela. Se perceber
que ela se recusa a entender, mude para a atitude mencionada acima. Mantenha-se em paz e evite
conflitos desnecessários.
Esse conceito de colocar-se abaixo também envolve permitir que os outros consigam o que
querem, ainda que isso esteja sob seu poder. Se alguém deseja o último pedaço de torta, deixe. Se
ultrapassa seu carro no trânsito, não arranje encrenca por causa disso. Se não tem ânimo de sair para
jantar, mas sua esposa quer, vá com ela! Uma das marcas do verdadeiro cristianismo é desistir da
vontade própria em favor da dos outros. Não é necessário dizer que isso não se aplica ao caso de um
pai ou uma mãe disciplinando uma criança, um professor insistindo para que o aluno complete sua
lição, um pastor repreendendo um falso mestre, e assim por diante.
É também muito importante assumir rapidamente quando você está errado. Se discutir com
alguém, desculpe-se pela sua falta de tato, ainda que as pessoas sejam capazes ou não de fazer o
mesmo. Você estará apto para sair dessa situação sabendo que agradou a Deus.
Uma das dificuldades que muitos têm em dizer que estão errados é que eles estão muito
acostumados a pensar que estão sempre certos. Porém, ainda que alguém não esteja errado sobre o
que disse para o outro indivíduo, existem chances de a atitude em seu coração estar errada. Os
fariseus eram "corretos" em muitas coisas que ensinavam, mas quão terrivelmente errados eles
estavam em seu auto-aprovado desdém pelos outros. Seja rápido para se desculpar e pedir perdão;
seja devagar para se defender. Existem cristãos tão orgulhosos, que, literalmente, vivem anos sem
admitir algum erro sobre qualquer coisa!
Sempre esteja pronto para dar crédito quando for necessário. Tome nota das coisas boas que as
pessoas fazem. Deixe-as saber que você admira os esforços delas. Adquira o hábito de promovê-las,
ao invés de elevar si mesmo. Um pastor disse:
Se amarmos os outros da mesma forma que Jesus ama, iremos regozijar-nos tanto em vê-
los tendo êxito e sendo destacados, que mal perceberemos que, em nossos esforços para
ajudá-los, ficamos por último".4

O Salvador também declarou: E como vós quereis que os homens vos façam, da mesma
maneira fazei-lhes vós também (Lc 6.31).
Por último, envolva-se com a vida das pessoas e mostre que você se preocupa com elas. No
último capítulo, exploramos diferentes maneiras possíveis para ajudar as pessoas a satisfazer suas
necessidades. Você não só deve agir gentilmente, mas também ter uma atitude de preocupação por
elas. Por exemplo, envolva-as em conversas sobre si mesmas: "O que você faz para viver?; Como
vão as coisas em seu trabalho?; "Você tem filhos? Fale-me sobre eles."; "Onde você morou na sua
infância? Sua família ainda reside lá?"; "Em que parte da cidade você mora? Você gosta de lá?".
As pessoas adoram falar sobre si mesmas. Perguntas como essas irão ajudá-las a se abrir e ver
que você se importa com elas. Enquanto se envolve com a vida delas, vê o amor de Deus em relação
a elas crescendo dentro do seu coração. Pode parecer mecânico e artificial, a princípio, mas não
permita que isso o desanime! O Senhor está derramando Seu grande amor pelos outros dentro de
você. Faça tudo o que estiver ao seu alcance para cooperar com os esforços de Deus. Todos aqueles
com quem você entra em contato são extremamente importantes para o Onipotente. Ele ficaria muito
satisfeito se você se interessasse pela vida deles.

Querido Senhor, vê os diferentes tipos de orgulho em meu


coração. Eu entendo o fato de que eles estão agindo dentro de
mim. Senhor, por favor, ajuda-me a destruir cada um deles,
os quais me tornam feio e limitam minha habilidade para
dar testemunho de Ti perante os outros. Espírito Santo, eu
Te convido a me condenar toda vez que eu agir ou pensar
dessa maneira novamente. Senhor, eu me arrependo e prometo
fazer o que estiver ao meu alcance para deixar de
me comportar assim com as outras pessoas. Por favor,
arranca isso do meu coração. Eu Te peço para me humilhar
e ajudar-me a ver quão pequeno eu sou.
Obrigado por me ajudar.
Amém.
A humildade é uma qualidade amável que força nossa estima em qualquer lugar que formos. Não
existe a possibilidade de desprezar a menor pessoa que a tenha ou de superestimar o maior homem
que não a tenha.¹
William Law

DOZE

SANTOS IRRESISTÍVEIS
Até agora, examinamos a questão do aborrecimento de Deus com relação ao orgulho e sua
admiração pela humildade. A premissa deste livro, a qual tentei estabelecer por meio das Escrituras,
é que a soberba cobra um preço terrivelmente alto sobre a vida de uma pessoa, enquanto a humildade
traz o favor do Senhor e Suas bênçãos.
Em uma cultura onde é tão fácil fazer muito dinheiro em um curto período de tempo e em um
ambiente religioso no qual os ministros são recompensados de acordo com as habilidades naturais e
o carisma que possuem, as bênçãos do Pai, geralmente, tornam-se algo corriqueiro. Se alguém
almeja regenerar-se, por que deveria seguir pelo caminho estreito do quebrantamento e da humil-
dade? A resposta é que cristãos sinceros desejam agradar a Deus e viver em uma perspectiva eterna.
Um dia, aqueles que falsificaram seu caminho para o topo serão expostos como realmente são,
enquanto os que se humilharam perante o Altíssimo serão publicamente recompensados.
Admito que, pessoalmente, não viajei até muito longe nesse percurso por meio da humildade.
Porém, posso enxergar essa condição e estou determinado a resolver isso independente do tempo que
possa custar. Quero que minha vida seja agradável para Deus e, depois de tudo o que Ele fez por
mim, não quero colocar-me diante dEle com um legado de orgulho e egoísmo.
Tendo dito isso, concluirei este livro com as histórias de três santos renomados, cujas vidas
testificam o fato de que o Todo-poderoso dá graça aos humildes. É fácil ver como o Senhor os
honrou e usou grandemente a vida deles em Seu Reino. A biografia de cada um deles é bem-
conhecida, por isso, irei centralizar-me nas afirmações e situações interessantes que revelam o
caráter de cada um.

TREMENDO DIANTE DE DEUS

Porque quem despreza o dia das coisas pequenas?


Zacarias 4.10ª

Talvez você pense que uma das maiores denominações tenha surgido com o movimento
missionário moderno, que seu pioneiro deve ter sido abençoado em alguma das grandes catedrais e
tenha sido o tema de uma gloriosa celebração de despedida. Porém, foram formas modestas que
inauguraram esse monumental segmento da história da Igreja.
Ainda jovens cristãos, William Carey e um casal de amigos formaram uma sociedade de
missões para estudar a idéia de levar o Evangelho à índia. Porém, quando eles compartilharam suas
idéias no encontro de ministros da região, foram ridicularizados. Ainda entusiasmado, William
começou a fazer planos para ir àquele país. Após saber de seus planos, seu pai lhe escreveu uma
carta, criticando-o e reprimindo-o por um propósito tão tolo. Pior do que isso, sua esposa se recusou
a acompanhá-lo ou permitir que seus filhos fossem também. William respondeu à sua mulher em
uma carta datada de 6 de maio de 1793:
Se tivesse o mundo todo, eu dá-lo-ia facilmente para ter você e meus filhos aqui comigo,
mas o senso de obrigação é tão forte, que se sobrepõe a todas as outras considerações.
Não posso voltar sem sentir culpa em minha alma.

Dorothy finalmente cedeu, e a pequena comissão embarcou em um navio que chegaria a


Calcutá seis meses depois.
O movimento missionário moderno começou com muita oposição. Em poucos meses, o
dinheiro havia acabado. Quando parecia que nada mais podia piorar - viver em um país estranho
onde eles não conheciam pessoa alguma -, a Sra. Carey e seu filho ficaram seriamente doentes.
Apesar disso, Deus interveio, e logo eles se restabeleceram e ficaram aptos para obter uma renda
modesta. Infelizmente, o coração de Dorothy não estava ligado ao de William nessa empreitada. Em
vez de ver isso como uma oportunidade maravilhosa de servir ao Senhor e levar o cristianismo a uma
nação mergulhada na escuridão espiritual, tudo o que ela via era as dificuldades. Quando seu filho
mais novo morreu, ela chegou ao limite emocional. Os primeiros sete anos da família Carey, na
índia, foram extremamente difíceis, mas esse período foi crucial, quando sua fé foi testada e a vida
própria, esmagada.
De vez em quando, outros provenientes da Inglaterra se uniam a eles. Logo, o pequeno grupo
de missionários ocupou-se na tradução de partes das Escrituras para a língua local. Durante os 30
anos seguintes, William traduziu toda a Bíblia em 25 línguas e dialetos indianos diferentes. Em
1825, ele escreveu: "O Novo Testamento será impresso, em breve, em 34 línguas, e o Antigo
Testamento, em 8, além das versões em três variedades do Novo Testamento hindu". Não fez apenas
isso, mas também abriu muitas escolas para ensinar às crianças e um colégio bíblico que formaria
muitos ministros ao longo dos anos.
Embora tenha enfrentado um começo humilde, Deus usou poderosamente a vida desse homem
para abrir uma região inteira do mundo, a qual havia sido selada contra o Evangelho. No entanto,
assim que sua vida começou a chegar ao fim, ele dedicou ao Senhor todo o louvor de suas
conquistas. George Gogerly, um de seus contemporâneos, conta sobre sua visita ao velho
missionário dias antes de sua morte.
Ele estava sentado perto de sua escrivaninha, vestido com sua roupa habitual. Seus olhos
estavam fechados, e suas mãos, unidas... [Sua aparência] encheu-me de algo como um
grande respeito, pois ele parecia estar ouvindo as ordens de seu Mestre e pronto para
partir. Fiquei sentado lá por cerca de meia hora sem dar uma palavra, pois eu temia
quebrar seu silêncio e trazer de volta à Terra o espírito que parecia estar quase no paraíso.
Por fim, porém, falei, e lembro-me muito bem das palavras que trocamos.
"Querido amigo", Gogerly disse, "você parece estar diante do portão da eternidade. Não
pense mal de mim ao perguntar sobre seus pensamentos e sentimentos".
A questão fez o Dr. Carey corar. Vagarosamente, ele abriu os olhos e, então, com uma
voz fraca e profunda, respondeu: "Eu sei em quem tenho crido, e estou convencido de que
Ele é capaz de manter aquilo a que fui ordenado por Ele até este dia. Mas, quando penso
que estou para entrar na santa presença de Deus e lembro-me de todos os meus pecados,
eu tremo".2

Ele morreu dois dias depois.


Poucos dias antes dessa visita, enquanto sua saúde parecia deteriorar-se sem qualquer chance
de recuperação, um outro amigo perguntou-lhe se havia alguma preferência por uma passagem
específica da Bíblia para ser usada no sermão de seu funeral. Ele respondeu: "Oh, sinto que uma
criatura tão pobre e pecadora não pode ter nada de útil para ser dito a respeito dela; mas, se um
discurso fúnebre deve ser pregado, deixe-o ser com as seguintes palavras: Tenha misericórdia de
mim, ó Deus, de acordo com a Sua bondade e a multidão de Sua terna misericórdia sobre as minhas
transgressões".
Segundo seu desejo, gravado em sua lápide estavam as seguintes palavras:

William Carey

Nascido em 17 de agosto de 1761 e morto em 9 de junho


de 1834

Um pecador, pobre e verme inútil.


Em Seus ternos braços eu descanso.

DEPENDENTE COMO UMA CRIANÇA

Portanto, aquele que se tornar humilde como esta criança, esse é o maior no Reino dos céus.E
qualquer que receber em meu nome uma criança tal como esta a mim me recebe.
Mateus 18.4,5

Depois de muitos anos de ministério na Inglaterra, George Mueller começou a sentir grande
compaixão pela terrível situação dos órfãos daqueles dias. Seu coração sofria pelas crianças
maltrapilhas largadas nas ruas. Ele decidiu que deveria fazer alguma coisa e alugou uma casa para
26 garotinhas em uma área residencial de Bristol. Durante muitos anos, três outros imóveis foram
alugados também, dando residência para mais cem meninos e meninas.
O aspecto marcante do ministério de Mueller foi que ele nunca falou das próprias necessidades
para os outros. Ele, simplesmente, pedia a Deus que tocasse as pessoas para contribuírem com seu
trabalho. Essa determinação em confiar apenas no Onipotente pôde ser testada muitas vezes. A
seguinte história é tipicamente a forma com que ele dependia do Senhor para qualquer necessidade.
Em uma manhã, os pratos, as xícaras e travessas sobre as mesas estavam vazias. Não
havia comida na despensa nem dinheiro para comprar mantimento. As crianças
aguardavam a refeição matinal, quando Mueller disse: "Crianças, vocês sabem que está na
hora de ir à escola". Erguendo as mãos, ele disse: "Pai querido, nós Te agradecemos por
aquilo que Tu irá conceder-nos para comer". De repente, escuta-se uma batida na porta. O
padeiro estava lá, de pé, e disse: "Sr. Mueller, não pude dormir na noite passada. De
alguma forma, senti que vocês não tinham pão para o café da manhã, e o Senhor quis que
lhes trouxesse alguns. Então, levantei-me às duas horas da manhã, assei alguns pães e os
trouxe". Mueller agradeceu ao homem. Mal havia acontecido isso quando se escutou uma
segunda batida na porta. Era o leiteiro. Ele contou que seu carro havia quebrado
exatamente na frente do orfanato e gostaria de doar seu leite fresco para as crianças, a fim
de que ele pudesse esvaziar seu carro e consertá-lo. Não é de se surpreender que, passados
alguns anos, quando Mueller viajava o mundo como evangelista, ele fosse conhecido
como o homem que recebia as bênçãos de Deus!3

Em 1846, o Sr. Mueller sentiu-se movido a mudar as crianças daquele lugar apertado de sua
vizinhança. Além disso, pedidos de outros pequeninos, também necessitados, continuavam a
despencar sobre sua mesa. Ele tinha de fazer mais! Começou, então, a sondar Deus sobre a
possibilidade de construir um prédio. Passados três anos, a primeira Casa dos Órfãos ficou pronta,
com quartos para acomodar 335 crianças!
Mal essa casa havia sido terminada, George desejou construir mais uma. Havia muitas crianças
necessitadas, mas, pela graça de Deus, ele ajudaria tantas quantas pudesse. Mais uma vez, começou a
orar. Ele não estava preocupado se o Senhor iria ou não prover tal necessidade, mas sim com seus
motivos. Ele pensava:
Construir uma nova Casa dos Órfãos fará sentir-me orgulhoso? Há o perigo disso... Um
décimo do serviço que Ele me confiou seria suficiente para me encher de soberba. Não
posso dizer que o Senhor tenha-me mantido humilde, mas posso declarar que Ele me tem
dado o desejo profundo de Lhe dar toda a glória. Não vejo, porém, que o medo do orgulho
possa prender-me de ir mais adiante com esse trabalho. Ao invés disso, peço que o Senhor
me dê uma atitude humilde.4

No período de nove anos da construção de sua primeira casa, ele abriu mais duas. Isso permitiu
o cuidado de mais de 1.200 órfãos. Em 1870, ele tinha cinco orfanatos funcionando com mais de
duas mil crianças sendo atendidas.
Certa ocasião, ele disse: Se eu estivesse largado à minha própria sorte, eu teria sido presa (de
Satanás) imediatamente. O orgulho, a descrença ou outros pecados seriam minha ruína e iriam levar-
me a trazer desgraça sobre o Nome de Jesus. Pessoa alguma deve admirar-me, surpreender-se com
minha fé ou pensar em mim como alguém maravilhoso. Não, estou mais fraco como nunca. Preciso
aumentar a minha fé e todas as outras graças.5
O Sr. Mueller morreu em 1898. Não muito tempo antes disso, um amigo lhe disse: "Quando
Deus chamar seu nome, Sr. Mueller, será como um navio na baía a todo vapor".
"Oh, não", ele disse, "é o pobre George Mueller, quem precisa pedir diariamente: aumenta a
minha fé... para que meus pés não afundem". 6

PEQUENO AOS PRÓPRIOS OLHOS

Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza. 2 Coríntios
12.9a – NVI

Hudson Taylor, um homem de pequena estatura que tinha um grande amor pela China, nasceu
na Inglaterra em 1832. Enquanto jovem, ele sentiu o chamado de Deus em sua vida para o campo
missionário e ingressou na faculdade de Medicina. Mal sabia ele como severamente seria testado nos
anos seguintes. Enquanto ainda estava em Londres, ele adoeceu de forma muito grave e ficou tão
doente por meses, que mal podia levantar-se da cama. Passado algum tempo, finalmente, melhorou e
reservou uma passagem para um navio que iria para a China.
Taylor chegou em Shangai em 1854 e logo começou a visitar o interior para pregar o
Evangelho. A falta de resposta das pessoas o levou a concluir que o problema era que ele estava
vestido de maneira muito estranha para aquele povo. Para o deleite de outros missionários, o jovem
rapaz trocou suas vestes européias pelas das pessoas da região.
Em uma viagem evangelística, Taylor e seus companheiros de viagem foram avisados para não
entrarem na cidade que se aproximava, ou os soldados dali, certamente, iriam matá-los. Eles não
mudaram de idéia, pois estavam certos de que o Altíssimo os havia mandado até lá. Ele conta o que
aconteceu enquanto se aproximavam da cidade:
Muito antes de alcançarmos o portão, porém, um homem alto e poderoso, criado para ser
dez vezes mais agressivo, fez-nos saber que toda milícia não estava muito pacificamente
inclinada, segurando o Sr. Burdon pelos ombros. Meu companheiro tentou escapar dele.
Virei-me para ver qual era o problema e, imediatamente, estávamos rodeados por uma
dúzia ou mais de homens brutos que nos forçaram com passos largos para dentro da
cidade. Minha mala começou a parecer muito pesada, e eu não podia trocá-la de mãos
para aliviar-me. Logo eu estava coberto de suor e mal podia acompanhar seus passos.
Tinham mandado levar-nos até o chefe, mas nos disseram, por meio dos maiores insultos,
que eles sabiam onde nos buscar e o que fazer com pessoas como nós. O homem que
havia segurado o Sr. Burdon logo o trocou por mim e tornou-se meu principal tormento,
por eu não ser nem tão alto e nem tão forte quanto o meu amigo e, portanto, menos capaz
de resistir a ele. Tudo o que aquele homem fez foi bater-me muito, levantar-me pelos
cabelos, segurar meu colarinho até quase me sufocar e apertar meus ombros e meu braços
até que eles ficassem muito marcados. Se esse tratamento tivesse continuado por muito
tempo, eu teria desmaiado.7

Finalmente, eles foram levados até o escritório do chefe e, então, foram tratados com mais
respeito. O chefe se sentiu tão mal sobre o abuso que eles haviam sofrido, que mandou alguns
homens com eles para protegê-los enquanto pregavam e estudavam os livros! Assim, Deus usou o
ataque de Satanás para espalhar o Evangelho.
Taylor continuou a viajar pela China, pregando em todas as oportunidades, ensinando a
literatura e mostrando sua capacidade de sofrer pela causa de Cristo. Em 1865, já no campo
missionário por 11 anos, o Senhor moveu-o para iniciar uma organização com a intenção específica
de alcançar o inatingível interior daquele país do Oriente. Ele viajou de volta à Inglaterra, orando e
escrevendo sobre a grande necessidade de evangelizar os milhões de almas perdidas na China. Ele
também começou a pedir a Deus que mandasse trabalhadores para que ele pudesse empreender um
trabalho bem grande.
Um número de pessoas atendeu ao seu chamado e se juntou a ele e à sua esposa na China.
Algumas, mais tarde, caíram no orgulho contra Hudson e retornaram à Inglaterra, espalhando
mentiras maliciosas sobre ele, que se recusou a responder, ou mesmo, defender-se, deixando isso nas
mãos do Pai.
Hudson continuou a orar ao Senhor da seara por trabalhadores. A época da sua morte, 40 anos
depois de ter iniciado a organização, havia centenas de missionários empregados pela Missão
Interior da China. Deus usou Hudson Taylor e seus seguidores para abrir o interior daquele grande
país para a mensagem de Cristo. Milhares de chineses se tornaram cristãos. A rebelião do Boxer *
tentou acabar com o cristianismo, mas isso só serviu para espalhá-lo ainda mais.
Embora sua organização tenha-se tornado uma das mais efetivas e renomadas no mundo, o Sr.
Taylor permaneceu pequeno aos próprios olhos.
Uma vez, um líder de uma igreja na Escócia comentou com ele: "Você deve ser tentado, às
vezes, a ser orgulhoso por causa do modo maravilhoso com que Deus o usou. Duvido que algum
outro homem vivo tenha recebido honra maior que essa".
"Pelo contrário", Hudson respondeu. "Geralmente, penso que o Onipotente deve estar
procurando alguém pequeno e fraco o suficiente para que Ele o use, e isso Ele encontrou em mim".8
Em 1905, o pequeno homem com o coração tão grande quanto o país para o qual ele foi
chamado a evangelizar voltou para casa a fim de estar com seu Senhor.
Esses três homens não são considerados gigantes na fé por possuírem excelentes habilidades
organizacionais, força extraordinária de caráter, carisma que levantava seguidores ou qualquer outra
qualidade humana notável. Eles foram usados por Deus de uma grande maneira, pois aprenderam o
segredo de andar humildemente com Ele, dependendo apenas do Altíssimo e atendendo às
necessidades de outras pessoas. Nenhum deles aceitou crédito pessoal por suas conquistas; antes,
*
Nota da Revisão: De acordo com o Dicionário Houaiss: membro de uma sociedade secreta chinesa organizada no final do s. XIX, cujo objetivo
fundamental era salvar o império chinês e que inspirou o ataque contra os estrangeiros em Pequim em 1900.
eles foram todos rápidos para dar a glória apenas ao Todo-Poderoso. De certa forma, não eram
pessoas especiais. A vida de cada um deles simplesmente mostrou o que o cristianismo deveria
parecer no viver de qualquer cristão.

O AMIGO DE DEUS

O Reino do Pai está estabelecido de maneira que toda e qualquer pessoa tenha o direito de
receber tantas bênçãos do Onipotente quantas ela quiser.
Deus não faz acepção de pessoas, Pedro afirmou (At 10.34), querendo mostrar que a porta está
aberta para qualquer um que queira entrar. Que notícia fantástica!
Entretanto, o Altíssimo tem Seus favoritos. Isso é visto claramente na história de Sua relação
com um certo homem: Abraão foi chamado o amigo de Deus (Tg 2.23). Gabriel duas vezes intitulou
Daniel como um homem mui desejado (Dn 10.11,19). As Escrituras declaram: E falava o SENHOR a
Moisés face a face, como qualquer fala com o seu amigo (Ex 33.11a). Acredite ou não, esses homens
não foram escolhidos arbitrariamente; eles se fizeram irresistíveis para Deus, escolheram humilhar-
se diante do Senhor e foram ricamente recompensados com Sua mais profunda amizade. E muito
parecido com o que aconteceu com Jesus em Seu ministério terreno. Sim, Ele falou às multidões e
enviou 70 discípulos. Porém, foi o grupo de 12 que aproveitou a proximidade com o Mestre e, mais
ainda do que esses, Pedro, Tiago e João a desfrutaram.
O segredo do SENHOR é para os que o temem, Davi exclamou (Sl 25.14a). É muito claro que
Deus responde às ações dos homens: Ele Se aproxima
daqueles que se humilham perante Ele. Como Ele poderia fazer-Se de surdo ao
publicano, que batia no peito angustiado, quebrantado pelo seu pecado? Como poderia o
Altíssimo retirar Suas bênçãos de um homem como José, que permaneceu fiel nas circunstâncias
mais difíceis? Como poderia o Poderoso fechar os olhos para os problemas de Hudson Taylor, que se
recusou a responder aos seus antagonistas? Como poderia o Onipotente ignorar as orações de George
Mueller, que abraçou a causa daqueles mais rejeitados pela sociedade? Do início ao fim, a Escritura
proclama a resposta em alto e bom som: Deus é completamente atraído pelos pequenos e age em
favor deles.
Agora, que você terminou este livro, quero encorajá-lo a se comprometer a colocar em prática
as lições aqui aprendidas. O que você faz a cada dia é muito importante. O Poderoso percebe cada
palavra ou intenção, cada vez que você Lhe obedece e se humilha diante dos outros. Cada ato desses
o aproxima mais do Pai. Não apenas isso, mas, quanto mais praticar o bem, mais fácil será você
continuar a praticá-lo como um estilo de vida. Talvez você nunca seja um apóstolo como Paulo ou
Billy Graham, mas pode tornar-se um amigo de Deus. Quanto Ele anseia por sua amizade!
Humilhe-se hoje. Volte-se para Ele com todo o seu coração. Implore por Sua ajuda e se
submeta à Sua vontade. Veja o Senhor transformar seu caráter de dentro para fora. Enquanto Ele age,
você se sente como o receptor de Suas mais completas bênçãos.

O Senhor declara: Eis para quem olharei: para o pobre e


abatido de espírito e que treme diante da minha palavra.
Essa é a pessoa que se torna Irresistível a Deus!
BIBLIOGRAFIA

CAPÍTULO UM

1. Agostinho, City of God (Cidade de Deus), Nicene and Post Nicene Fathers, Philip Schaff, editor.
Ages Software, Inc. Rio, WI (www.ageslibrary.com). Utilizado com permissão.
2. Jerônimo, The principie works of St. Jerome (Os principais trabalhos de São Jerônimo), Nicene
and Post Nicene Fathers, ibid.
3. John Cassian, The works of John Cassian (Os trabalhos de John Cassian), ibid
4. William Gurnall, The christian in complete armour (O cristão de armadura completa), Vol.l, The
Banner of Truth (A bandeira da Verdade), Carlisle, PA, 1988.
5. Charles Spurgeon, Spurgeon's treasury of the New Testament (O tesouro do Novo Testamento de
Spurgeon).
6. The pulpit commentary (O comentário do púlpito), Vol. XXII, I Pedro, MacDonald Publishing
Co., McClean, VA. p.229.
7. Ibid, p.213.
8. Ibid, Vol. V, II Reis, p.105.

CAPÍTULO DOIS

1. C. S. Lewis, Readings for meditation and reflection (Leituras para meditação e reflexão) Harper
San Francisco, 1992, p.79.
2. A. W. Tozer, God tells the man who cares (Deus fala ao homem que se importa), copyright 1992.
Utilizado com a permissão de Christian Publi-cations, Camp HiJl, PA.
3. William Law, A serious call to a devout and holy life (Um chamado sério para uma vida devota e
santa), Ages Software.
4. A. W. Tozer, ibid.

CAPÍTULO TRÊS

1. C. S. Lewis, Readings for meditation and reflection (Leituras para meditação e reflexão) Harper
San Francisco, 1992, p. 79.
2. Bishop Hooker, citado em Thepulpit commentary (O comentário do púlpito), Vol. V. II Reis 5, p.
105.

CAPÍTULO QUATRO

1. Life application Bible (Bíblia da vida prática), Tyndale House Pub., Wheaton, IL, 1988.
2. The pulpit commentary (O comentário do púlpito), Vol. VII, Ester, p.70.
3. João Calvino citado em Keil-Delitsch Commentary (Comentário de Keil-Delitsch), AGES
Software.

4. Keil-Delitsch Commentary (Comentário de Keil-Delitsch), ibid.


5. The pulpit commentary (O comentário do púlpito), Vol. IV, I Samuel, p. 292.
6. ibid, p. 266.
7. Matthew Henry Commentary (Comentário de Matthew Henry), Ages Software.
8. Ibid.
9. The pulpit commentary (O comentário do púlpito), Vol. V, II Reis, p. 94.

CAPÍTULO CINCO

1. The pulpit commentary (O comentário do púlpito), Vol. XIV, Obadias, p. 33.


CAPÍTULO SEIS
1. The pulpit commentary (O comentário do púlpito), Vol. XIII, Daniel, p. 160.
2. ibid, Vol. IX, Provérbios, p.310.
3. ibid, Vol. X, Isaías, p.395.
4. Strong's dictionary (O dicionário dos fortes), Ages Software.
5. C S. Lewis, Readings for meditation and reflection (Leituras para meditação e reflexão) Harper
San Francisco, 1992, p.80.
6. Steve Gallagher, Fork in the road (Dividido na estrada), Pure Life Ministries (Ministérios Vida
Pura), 2001.
7. The pulpit commentary (O comentário do púlpito), Vol. IX, Provérbios, p. 327.

CAPÍTULO SETE

1. C. H. Spurgeon, The Spurgeon sermon collection (A coleção de sermões de Spurgeon), Vol. 4, p.


167, Ages Software.
2. Charles Wesley, And can it he (E não pode ser); Hymns of faith and life (Hinos de fé e vida),
Light and Life Press (Winona Lake, IN) and the Wesley Press (Marion, IN), 1976; p. 273.
3. William Reed Newell, Years I spent in vanity and pride (Os anos que eu desperdicei na vaidade e
no orgulho); ibid, p.250.
4. George Whitefield, Pharisee and the puhlican (O fariseu e o publicano), Ages Software.

CAPÍTULO OITO

1. Watchman Nee, The release of the spirit (A liberação do espírito), Christian Fellowship
Publishers, Richmond, VA, 2000, p. 15,98.
2. Dr. e Sra. Howard Taylor, Hudson Taylor's Spiritual Secret (O segredo espiritual de Hudson
Taylor), Discovery House Pub., Grand Rapids, MI, 1990, p.262.
3. Watchman Nee, ibid, p. 38-39, 98.
4. The pulpit commentary (O comentário do púlpito), Vol. XI, Lamentações, p. 37.

CAPÍTULO NOVE

1. George Ridout, The beauty of holiness (A beleza da santidade), Ages Software.


2. Albert Barnes, Notes on the Bible (Notas na Bíblia), Ages Software.
3. Gayle D. Erwin, The Jesus style (O estilo de Jesus), Word. Pub., Dallas, TX, 1983, p.92.
4. Steve Gallagher, At the altar of sexual idolatry (No altar da idolatria sexual), Pure Life
Ministries (Ministérios Vida Pura), 2001.
5. William Law, Ages Software.
6. Matthew Henry Commentary {Comentário de Matthew Henry), Ages Software.

CAPÍTULO DEZ

1. F. B. Meyer, Topical Encyclopedia of Living Quotations (Enciclopédia de tópicos de citações),


Bethany House Pub., Minneapolis, MN, 1982, p. 102.
2. The pulpit commentary (O comentário do púlpito), Vol. XXII, I Pedro 5, p. 219.
3. Mountain Movers Magazine (Revista dos movedores de montanhas), the Assemblies of God
(Assembléia de Deus), c. 1987.
4. A. B. Simpson, The Bethany parallel commentary on the New Testament (O comentário paralelo
do Novo Testamento de Bethany), Bethany House Publishers, Minneapolis, MN, 1983, p. 215.

CAPÍTULO ONZE
1. Ages Software Questions (Perguntas Ages Software).
2. Albert Barnes, ibid.
3. William Law, ibid.
4. Gayle D. Erwin, ibid, p. 95.

CAPÍTULO DOZE

1. William Law, ibid.


2. Basil Miller, William Carey - The father of modem missions (William Carey - O pai das missões
modernas), Bethany House Pub., 1952, p. 54 e 149.
3. Reese Publications, P.O. Box 5625, Lansing, IL 60438.
4. George Mueller, The autobiography of George Mueller (A autobiografia de George Mueller),
Whitaker House Oub., 1984, p. 208-209.
5. ibid, p. 190.
6. J. Wilbur Chapman, Present day parables (Parábolas dos dias atuais), Ages Software.
7. J. Hudson Taylor, Hudson Taylor, Bethany House Publishers, Minneapolis, MN, 1937, p. 21, 68-
69, 145.
8. Dr. e Sra. Howard Taylor; ibid, p. 226-227.

***FIM***

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