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Contos fantásticos são narrativas breves de ficção que extrapolam o real, contendo elementos,

personagens ou acontecimentos mágicos / sobrenaturais e provocando o estranhamento no leitor.


Embora não exista uma data consensual, a literatura fantástica despontou entre o final do século XIX e o
começo do século XX. A partir daí, foi ganhando características e contornos distintos em algumas partes
do mundo.
Na América Latina, por exemplo, manifestou-se principalmente através do Realismo Mágico, misturando
a fantasia e a vida cotidiana. Confira, abaixo, quatro exemplos de contos fantásticos comentados:
 Os dragões - Murilo Rubião
 Quem se contenta - Italo Calvino
 Assombrações de Agosto - Gabriel García Márquez
 Flor, telefone, moça - Carlos Drummond de Andrade
Os dragões - Murilo Rubião
Os primeiros dragões que apareceram na cidade muito sofreram com o atraso dos nossos
costumes. Receberam precários ensinamentos e a sua formação moral ficou irremediavelmente
comprometida pelas absurdas discussões surgidas com a chegada deles ao lugar.
Poucos souberam compreendê-los e a ignorância geral fez com que, antes de iniciada a sua
educação, nos perdêssemos em contraditórias suposições sobre o país e raça a que poderiam
pertencer.
A controvérsia inicial foi desencadeada pelo vigário. Convencido de que eles, apesar da aparência
dócil e meiga, não passavam de enviados do demônio, não me permitiu educá-los. Ordenou que
fossem encerrados numa casa velha, previamente exorcismada, onde ninguém poderia penetrar.
Ao se arrepender de seu erro, a polêmica já se alastrara e o velho gramático negava-lhes a
qualidade de dragões, “coisa asiática, de importação europeia”. Um leitor de jornais, com vagas
ideias científicas e um curso ginasial feito pelo meio, falava em monstros antediluvianos. O povo
benzia-se, mencionando mulas sem cabeça, lobisomens.
Apenas as crianças, que brincavam furtivamente com os nossos hóspedes, sabiam que os novos
companheiros eram simples dragões. Entretanto, elas não foram ouvidas. O cansaço e o tempo
venceram a teimosia de muitos. Mesmo mantendo suas convicções, evitavam abordar o assunto.
Dentro em breve, porém, retomariam o tema. Serviu de pretexto uma sugestão do aproveitamento
dos dragões na tração de veículos. A ideia pareceu boa a todos, mas se desavieram asperamente
quando se tratou da partilha dos animais. O número destes era inferior ao dos pretendentes.
Desejando encerrar a discussão, que se avolumava sem alcançar objetivos práticos, o padre firmou
uma tese: os dragões receberiam nomes na pia batismal e seriam alfabetizados.
Até aquele instante eu agira com habilidade, evitando contribuir para exacerbar os ânimos. E se,
nesse momento, faltou-me a calma, o respeito devido ao bom pároco, devo culpar a insensatez
reinante. Irritadíssimo, expandi o meu desagrado:
— São dragões! Não precisam de nomes nem do batismo!
Perplexo com a minha atitude, nunca discrepante das decisões aceitas pela coletividade, o
reverendo deu largas à humildade e abriu mão do batismo. Retribuí o gesto, resignando-me à
exigência de nomes.
Quando, subtraídos ao abandono em que se encontravam, me foram entregues para serem
educados, compreendi a extensão da minha responsabilidade. Na maioria, tinham contraído
moléstias desconhecidas e, em consequência, diversos vieram a falecer. Dois sobreviveram,
infelizmente os mais corrompidos. Mais bem-dotados em astúcia que os irmãos, fugiam, à noite, do
casarão e iam se embriagar no botequim. O dono do bar se divertia vendo-os bêbados, nada
cobrava pela bebida que lhes oferecia.A cena, com o decorrer dos meses, perdeu a graça e o
botequineiro passou a negar-lhes álcool. Para satisfazerem o vício, viram-se forçados a recorrer a
pequenos furtos.
No entanto eu acreditava na possibilidade de reeducá-los e superar a descrença de todos quanto ao
sucesso da minha missão. Valia-me da amizade com o delegado para retirá-los da cadeia, onde
eram recolhidos por motivos sempre repetidos: roubo, embriaguez, desordem.
Como jamais tivesse ensinado dragões, consumia a maior parte do tempo indagando pelo passado
deles, família e métodos pedagógicos seguidos em sua terra natal. Reduzido material colhi dos
sucessivos interrogatórios a que os submetia. Por terem vindo jovens para a nossa cidade,
lembravam-se confusamente de tudo, inclusive da morte da mãe, que caíra num precipício, logo
após a escalada da primeira montanha. Para dificultar a minha tarefa, ajuntava-se à debilidade da
memória dos meus pupilos o seu constante mau humor, proveniente das noites maldormidas e
ressacas alcoólicas.
O exercício continuado do magistério e a ausência de filhos contribuíram para que eu lhes
dispensasse uma assistência paternal. Do mesmo modo, certa candura que fluía dos seus olhos
obrigava-me a relevar faltas que não perdoaria a outros discípulos.
Odorico, o mais velho dos dragões, trouxe-me as maiores contrariedades. Desastradamente
simpático e malicioso, alvoroçava-se todo à presença de saias. Por causa delas, e principalmente
por uma vagabundagem inata, fugia às aulas. As mulheres achavam-no engraçado e houve uma
que, apaixonada, largou o esposo para viver com ele.
Tudo fiz para destruir a ligação pecaminosa e não logrei separá-los. Enfrentavam-me com uma
resistência surda, impenetrável. As minhas palavras perdiam o sentido no caminho: Odorico sorria
para Raquel e esta, tranquilizada, debruçava-se novamente sobre a roupa que lavava.
Pouco tempo depois, ela foi encontrada chorando perto do corpo do amante. Atribuíram sua morte
a tiro fortuito, provavelmente de um caçador de má pontaria. O olhar do marido desmentia a
versão.
Com o desaparecimento de Odorico, eu e minha mulher transferimos o nosso carinho para o
último dos dragões. Empenhamo-nos na sua recuperação e conseguimos, com algum esforço,
afastá-lo da bebida. Nenhum filho talvez compensasse tanto o que conseguimos com amorosa
persistência. Ameno no trato, João aplicava-se aos estudos, ajudava Joana nos arranjos
domésticos, transportava as compras feitas no mercado. Findo o jantar, ficávamos no alpendre a
observar sua alegria, brincando com os meninos da vizinhança. Carregava-os nas costas, dava
cambalhotas.
Regressando, uma noite, da reunião mensal com os pais dos alunos, encontrei minha mulher
preocupada: João acabara de vomitar fogo. Também apreensivo, compreendi que ele atingira a
maioridade.
O fato, longe de torná-lo temido, fez crescer a simpatia que gozava entre as moças e rapazes do
lugar. Só que, agora, demorava-se pouco em casa. Vivia rodeado por grupos alegres, a reclamarem
que lançasse fogo. A admiração de uns, os presentes e convites de outros, acendiam-lhe a vaidade.
Nenhuma festa alcançava êxito sem a sua presença. Mesmo o padre não dispensava o seu
comparecimento às barraquinhas do padroeiro da cidade.
Três meses antes das grandes enchentes que assolaram o município, um circo de cavalinhos
movimentou o povoado, nos deslumbrou com audazes acrobatas, engraçadíssimos palhaços, leões
amestrados e um homem que engolia brasas. Numa das derradeiras exibições do ilusionista, alguns
jovens interromperam o espetáculo aos gritos e palmas ritmadas:
— Temos coisa melhor! Temos coisa melhor!
Julgando ser brincadeira dos moços, o anunciador aceitou o desafio:
— Que venha essa coisa melhor!
Sob o desapontamento do pessoal da companhia e os aplausos dos espectadores, João desceu ao
picadeiro e realizou sua costumeira proeza de vomitar fogo.
Já no dia seguinte, recebia várias propostas para trabalhar no circo. Recusou-as, pois dificilmente
algo substituiria o prestígio que desfrutava na localidade. Alimentava ainda a pretensão de se
eleger prefeito municipal.
Isso não se deu. Alguns dias após a partida dos saltimbancos, verificou-se a fuga de João.
Várias e imaginosas versões deram ao seu desaparecimento. Contavam que ele se tomara de
amores por uma das trapezistas, especialmente destacada para seduzi-lo; que se iniciara em jogos
de cartas e retomara o vício da bebida.
Seja qual for a razão, depois disso muitos dragões têm passado pelas nossas estradas. E por mais
que eu e meus alunos, postados na entrada da cidade, insistamos que permaneçam entre nós,
nenhuma resposta recebemos. Formando longas filas, encaminham-se para outros lugares,
indiferentes aos nossos apelos.
Obra Completa. São Paulo: Companhia das Letras, 2010
Apontado como o maior representante nacional da literatura fantástica, Murilo Rubião (1916 — 1991) foi
um escritor e jornalista de Minas Gerais que iniciou sua carreira em 1947, com a obra O ex-mágico.
O conto que apresentamos acima é um dos mais famosos do autor, através do qual se serve dos dragões
para retratar e criticar a sociedade contemporânea. Embora as criaturas mitológicas sejam as
protagonistas, a narrativa fala sobre as relações humanas e o modo como são corrompidas.
Inicialmente, os dragões foram discriminados pelas suas diferenças e forçados a agir como se fossem
seres humanos. Depois acabaram sofrendo as sequelas da exclusão e muitos não sobreviveram.
Quando passaram a conviver conosco, começaram a cair nas armadilhas que a humanidade criou para
si mesma: a bebida, o jogo, a fama, a busca da fortuna, etc. Daí em diante, escolheram não se misturar
mais com a nossa civilização, conscientes dos perigos que ela esconde.
Quem se contenta - Italo Calvino
Havia um país em que tudo era proibido.
Ora, como a única coisa não proibida era o jogo de bilharda, os súditos se reuniam em certos
campos que ficavam atrás da aldeia e ali, jogando bilharda, passavam os dias. E como as proibições
tinham vindo paulatinamente, sempre por motivos justificados, não havia ninguém que pudesse
reclamar ou que não soubesse se adaptar.
Passaram-se os anos. Um dia, os condestáveis viram que não havia mais razão para que tudo fosse
proibido e enviaram mensageiros para avisar os súditos que podiam fazer o que quisessem. Os
mensageiros foram àqueles lugares onde os súditos costumavam se reunir.
— Saibam — anunciaram — que nada mais é proibido. Eles continuaram a jogar bilharda.
— Entenderam? — os mensageiros insistiram.
— Vocês estão livres para fazer o que quiserem.
— Muito bem — responderam os súditos.
— Nós jogamos bilharda.
Os mensageiros se empenharam em recordar-lhes quantas ocupações belas e úteis havia, às quais
eles tinham se dedicado no passado e poderiam agora novamente se dedicar. Mas eles não
prestavam atenção e continuavam a jogar, uma batida atrás da outra, sem nem mesmo tomar
fôlego.
Vendo que as tentativas eram inúteis, os mensageiros foram contar aos condestáveis.
— Nem uma, nem duas — disseram os condestáveis.
— Proibamos o jogo de bilharda.
Aí então o povo fez uma revolução e matou-os todos. Depois, sem perder tempo, voltou a jogar
bilharda.
Um General na Biblioteca; tradução de Rosa Freire d'Aguiar. São Paulo: Companhia das Letras,
2010
Italo Calvino (1923 — 1985) foi um notório escritor italiano, considerado uma das maiores vozes literárias
do século XX. Sua trajetória também foi marcada pelo engajamento político e o combate das ideologias
fascistas durante a Segunda Guerra Mundial.
No conto que selecionamos, é possível identificar uma importante característica da literatura fantástica:
a possibilidade de criar alegorias. Ou seja, apresentar um enredo aparentemente absurdo para criticar
algo que está presente na nossa realidade.
Através de um país fictício, com regras arbitrárias, o autor encontra um modo de se pronunciar acerca
do autoritarismo da época. Importa lembrar que a Itália viveu o fascismo "na pele", durante o regime
de Mussolini, entre 1922 e 1943.
Neste local, a população foi tão reprimida que até seus desejos foram condicionados pelo poder vigente.
Não conhecia outras atividades, por isso apenas queria continuar jogando bilharda, como sempre.
Assim, o texto traz uma forte carga sociopolítica, refletindo acerca de um povo que não está
acostumado à liberdade.
Assombrações de Agosto - Gabriel García Márquez
Chegamos a Arezzo pouco antes do meio-dia, e perdemos mais de duas horas buscando o castelo
renascentista que o escritor venezuelano Miguel Otero Silva havia comprado naquele rincão idílico
da planície toscana. Era um domingo de princípios de agosto, ardente e buliçoso, e não era fácil
encontrar alguém que soubesse alguma coisa nas ruas abarrotadas de turistas.
Após muitas tentativas inúteis voltamos ao automóvel, abandonamos a cidade por uma trilha de
ciprestes sem indicações viárias, e uma velha pastora de gansos indicou-nos com precisão onde
estava o castelo. Antes de se despedir, perguntou-nos se pensávamos dormir por lá, e
respondemos, pois era o que tínhamos planejado, que só íamos almoçar.
- Ainda bem - disse ela -, porque a casa é assombrada. Minha esposa e eu, que não acreditamos em
aparições de meio-dia, debochamos de sua credulidade. Mas nossos dois filhos, de nove e sete
anos, ficaram alvoroçados com a ideia de conhecer um fantasma em pessoa.
Miguel Otero Silva, que além de bom escritor era um anfitrião esplêndido e um comilão refinado,
nos esperava com um almoço de nunca esquecer. Como havia ficado tarde não tivemos tempo de
conhecer o interior do castelo antes de sentarmos à mesa, mas seu aspecto visto de fora não tinha
nada de pavoroso, e qualquer inquietação se dissipava com a visão completa da cidade vista do
terraço florido onde almoçávamos.
Era difícil acreditar que naquela colina de casas empoleiradas, onde mal cabiam noventa mil
pessoas, houvessem nascido tantos homens de gênio perdurável. Ainda assim, Miguel Otero Silva
nos disse com seu humor caribenho que nenhum de tantos era o mais insigne de Arezzo.
- O maior - sentenciou - foi Ludovico.
Assim, sem sobrenome: Ludovico, o grande senhor das artes e da guerra, que havia construído
aquele castelo de sua desgraça, e de quem Miguel Otero nos falou durante o almoço inteiro. Falou-
nos de seu poder imenso, de seu amor contrariado e de sua morte espantosa. Contou-nos como foi
que num instante de loucura do coração havia apunhalado sua dama no leito onde tinham acabado
de se amar, e depois atiçou contra si mesmo seus ferozes cães de guerra que o despedaçaram a
dentadas. Garantiu-nos, muito a sério, que a partir da meia-noite o espectro de Ludovico
perambulava pela casa em trevas tentando conseguir sossego em seu purgatório de amor.
O castelo, na realidade, era imenso e sombrio.
Mas em pleno dia, com o estômago cheio e o coração contente, o relato de Miguel só podia parecer
outra de suas tantas brincadeiras para entreter seus convidados. Os 82 quartos que percorremos
sem assombro depois da sesta tinham padecido de todo tipo de mudanças graças aos seus donos
sucessivos. Miguel havia restaurado por completo o primeiro andar e tinha construído para si um
dormitório moderno com piso de mármore e instalações para sauna e cultura física, e o terraço de
flores imensas onde havíamos almoçado. O segundo andar, que tinha sido o mais usado no curso
dos séculos, era uma sucessão de quartos sem nenhuma personalidade, com móveis de diferentes
épocas abandonados à própria sorte. Mas no último andar era conservado um quarto intacto por
onde o tempo tinha esquecido de passar. Era o dormitório de Ludovico.
Foi um instante mágico. Lá estava a cama de cortinas bordadas com fios de ouro, e o cobre-leito de
prodígios de passamanarias ainda enrugado pelo sangue seco da amante sacrificada. Estava a
lareira com as cinzas geladas e o último tronco de lenha convertido em pedra, o armário com suas
armas bem escovadas, e o retrato a óleo do cavalheiro pensativo numa moldura de ouro, pintado
por algum dos mestres florentinos que não teve a sorte de sobreviver ao seu tempo. No entanto, o
que mais me impressionou foi o perfume de morangos recentes que permanecia estancado sem
explicação possível no ambiente do dormitório.
Os dias de verão são longos e parcimoniosos na Toscana, e o horizonte se mantém em seu lugar até
as nove da noite. Quando terminamos de conhecer o castelo eram mais de cinco da tarde, mas
Miguel insistiu em levar-nos para ver os afrescos de Piero della Francesca na Igreja de São
Francisco, depois tomamos um café com muita conversa debaixo das pérgulas da praça, e quando
regressamos para buscar as maletas encontramos a mesa posta. Portanto, ficamos para jantar.
Enquanto jantávamos, debaixo de um céu de malva com uma única estrela, as crianças acenderam
algumas tochas na cozinha e foram explorar as trevas nos andares altos. Da mesa ouvíamos seus
galopes de cavalos errantes pelas escadarias, os lamentos das portas, os gritos felizes chamando
Ludovico nos quartos tenebrosos. Foi deles a má ideia de ficarmos para dormir. Miguel Otero Silva
apoiou-os encantado, e nós não tivemos a coragem civil de dizer que não.
Ao contrário do que eu temia, dormimos muito bem, minha esposa e eu num dormitório do andar
térreo e meus filhos no quarto contíguo. Ambos haviam sido modernizados e não tinham nada de
tenebrosos.
Enquanto tentava conseguir sono contei os doze toques insones do relógio de pêndulo da sala e
recordei a advertência pavorosa da pastora de gansos. Mas estávamos tão cansados que dormimos
logo, num sono denso e contínuo, e despertei depois das sete com um sol esplêndido entre as
trepadeiras da janela. Ao meu lado, minha esposa navegava no mar aprazível dos inocentes. "Que
bobagem", disse a mim mesmo, "alguém continuar acreditando em fantasmas nestes tempos.", Só
então estremeci com o perfume de morangos recém-cortados, e vi a lareira com as cinzas frias e a
última lenha convertida em pedra, e o retrato do cavalheiro triste que nos olhava há três séculos
por trás na moldura de ouro.
Pois não estávamos na alcova do térreo onde havíamos deitado na noite anterior, e sim no
dormitório de Ludovico, debaixo do dossel e das cortinas empoeirentas e dos lençóis empapados
de sangue ainda quente de sua cama maldita.
Doze Contos Peregrinos; tradução Eric Nepomuceno. Rio de Janeiro: Record, 2019
É quase impossível falar de fantasia sem mencionar Gabriel García Márquez (1927 — 2014). O renomado
escritor, ativista e jornalista colombiano venceu o Nobel de Literatura em 1982 e continua sendo
encarado como um dos melhores de todos os tempos.
O principal representante do Realismo Fantástico latino-americano é lembrado, sobretudo, pelo
romance Cem Anos de Solidão (1967), mas também publicou diversas obras de contos. Na narrativa
acima, ele subverte as expectativas dos leitores até à última frase.
Se servindo de elementos sobrenaturais próprios do terror, como o conceito de casas assombradas, o
enredo descreve um castelo com um passado trágico. Gradualmente, vamos perdendo a crença de que
algo fantástico pode acontecer naquele local, remodelado de um jeito moderno e pouco ameaçador.
Contudo, o parágrafo final vem demolir o cepticismo do protagonista que acaba sendo confrontado
com a existência de um mundo imaterial que não consegue explicar.
Ainda que ele e a esposa despertem em segurança, o quarto regressou à sua aparência antiga,
demonstrando que algumas coisas podem superar a razão.
Flor, telefone, moça - Carlos Drummond de Andrade
Não, não é conto. Sou apenas um sujeito que escuta algumas vezes, que outras não escuta, e vai
passando. Naquele dia escutei, certamente porque era a amiga quem falava, e é doce ouvir os
amigos, ainda quando não falem, porque amigo tem o dom de se fazer compreender até sem sinais.
Até sem olhos.
Falava-se de cemitérios? De telefones? Não me lembro. De qualquer modo, a amiga — bom, agora
me recordo que a conversa era sobre flores — ficou subitamente grave, sua voz murchou um
pouquinho.

— Sei de um caso de flor que é tão triste!


E sorrindo:
— Mas você não vai acreditar, juro.

Quem sabe? Tudo depende da pessoa que conta, como do jeito de contar. Há dias em que não
depende nem disso: estamos possuídos de universal credulidade. E daí, argumento máximo, a
amiga asseverou que a história era verdadeira.

— Era uma moça que morava na rua General Polidoro, começou ela. Perto do cemitério São João
Batista. Você sabe, quem mora por ali, queira ou não queira, tem de tomar conhecimento da morte.
Toda hora está passando enterro, e a gente acaba por se interessar. Não é tão empolgante como
navios ou casamentos, ou carruagem de rei, mas sempre merece ser olhado. A moça, naturalmente,
gostava mais de ver passar enterro do que de não ver nada. E se fosse ficar triste diante de tanto
corpo desfilando, havia de estar bem arranjada.

Se o enterro era mesmo muito importante, desses de bispo ou de general, a moça costumava ficar
no portão do cemitério, para dar uma espiada. Você já notou como coroa impressiona a gente?
Demais. E há a curiosidade de ler o que está escrito nelas. Morto que dá pena é aquele que chega
desacompanhado de flores — por disposição de família ou falta de recursos, tanto faz. As coroas
não prestigiam apenas o defunto, mas até o embalam. Às vezes ela chegava a entrar no cemitério e
a acompanhar o préstito até o lugar do sepultamento. Deve ter sido assim que adquiriu o costume
de passear lá por dentro. Meu Deus, com tanto lugar para passear no Rio! E no caso da moça,
quando estivesse mais amolada, bastava tomar um bonde em direção à praia, descer no Mourisco,
debruçar-se na amurada. Tinha o mar à sua disposição, a cinco minutos de casa. O mar, as viagens,
as ilhas de coral, tudo grátis. Mas por preguiça, pela curiosidade dos enterros, sei lá por quê, deu
para andar em São João Batista, contemplando túmulo. Coitada!

— No interior isso não é raro…


— Mas a moça era de Botafogo.
— Ela trabalhava?
— Em casa. Não me interrompa. Você não vai me pedir a certidão de idade da moça, nem sua
descrição física. Para o caso que estou contando, isso não interessa. O certo é que de tarde
costumava passear — ou melhor, “deslizar” pelas ruinhas brancas do cemitério, mergulhada em
cisma. Olhava uma inscrição, ou não olhava, descobria uma figura de anjinho, uma coluna partida,
uma águia, comparava as covas ricas às covas pobres, fazia cálculos de idade dos defuntos,
considerava retratos em medalhões — sim, há de ser isso que ela fazia por lá, pois que mais poderia
fazer? Talvez mesmo subisse ao morro, onde está a parte nova do cemitério, e as covas mais
modestas. E deve ter sido lá que, uma tarde, ela apanhou a flor.
— Que flor?
— Uma flor qualquer. Margarida, por exemplo. Ou cravo. Para mim foi margarida, mas é puro
palpite, nunca apurei. Apanhou com esse gesto vago e maquinal que a gente tem diante de um pé
de flor. Apanha, leva ao nariz — não tem cheiro, como inconscientemente já se esperava —, depois
amassa a flor, joga para um canto. Não se pensa mais nisso.

Se a moça jogou a margarida no chão do cemitério ou no chão da rua, quando voltou para casa,
também ignoro. Ela mesma se esforçou mais tarde por esclarecer esse ponto, mas foi incapaz. O
certo é que já tinha voltado, estava em casa bem quietinha havia poucos minutos, quando o
telefone tocou, ela atendeu.
— Alooô…
— Quede a flor que você tirou de minha sepultura?
A voz era longínqua, pausada, surda. Mas a moça riu. E, meio sem compreender:
— O quê?

Desligou. Voltou para o quarto, para as suas obrigações. Cinco minutos depois, o telefone chamava
de novo.
— Alô.
— Quede a flor que você tirou de minha sepultura?
Cinco minutos dão para a pessoa mais sem imaginação sustentar um trote. A moça riu de novo,
mas preparada.
— Está aqui comigo, vem buscar.
No mesmo tom lento, severo, triste, a voz respondeu:
— Quero a flor que você me furtou. Me dá minha florzinha.

Era homem, era mulher? Tão distante, a voz fazia-se entender, mas não se identificava. A moça
topou a conversa:
— Vem buscar, estou te dizendo.
— Você bem sabe que eu não posso buscar coisa nenhuma, minha filha. Quero minha flor, você tem
obrigação de devolver.
— Mas quem está falando aí?
— Me dá minha flor, eu estou te suplicando.
— Diga o nome, senão eu não dou.
— Me dá minha flor, você não precisa dela e eu preciso. Quero minha flor, que nasceu na minha
sepultura.

O trote era estúpido, não variava, e a moça, enjoando logo, desligou. Naquele dia não houve mais
nada.
Mas no outro dia houve. À mesma hora o telefone tocou. A moça, inocente, foi atender.
— Alô!
— Quede a flor…

Não ouviu mais. Jogou o fone no gancho, irritada. Mas que brincadeira é essa! Irritada, voltou à
costura. Não demorou muito, a campainha tinia outra vez. E antes que a voz lamentosa
recomeçasse:
— Olhe, vire a chapa. Já está pau.
— Você tem que dar conta de minha flor, retrucou a voz de queixa. Pra que foi mexer logo na minha
cova? Você tem tudo no mundo, eu, pobre de mim, já acabei. Me faz muita falta aquela flor.
— Esta é fraquinha. Não sabe de outra?

E desligou. Mas, voltando ao quarto, já não ia só. Levava consigo a ideia daquela flor, ou antes, a
ideia daquela pessoa idiota que a vira arrancar uma flor no cemitério, e agora a aborrecia pelo
telefone. Quem poderia ser? Não se lembrava de ter visto nenhum conhecido, era distraída por
natureza. Pela voz não seria fácil acertar. Certamente se tratava de voz disfarçada, mas tão bem que
não se podia saber ao certo se de homem ou de mulher. Esquisito, uma voz fria. E vinha de longe,
como de interurbano. Parecia vir de mais longe ainda… Você está vendo que a moça começou a ter
medo.
— E eu também.
— Não seja bobo. O fato é que aquela noite ela custou a dormir. E daí por diante é que não dormiu
mesmo nada. A perseguição telefônica não parava. Sempre à mesma hora, no mesmo tom. A voz
não ameaçava, não crescia de volume: implorava. Parecia que o diabo da flor constituía para ela a
coisa mais preciosa do mundo, e que seu sossego eterno — admitindo que se tratasse de pessoa
morta — ficara dependendo da restituição de uma simples flor. Mas seria absurdo admitir tal coisa,
e a moça, além do mais, não queria se amofinar. No quinto ou sexto dia, ouviu firme a cantilena da
voz e depois passou-lhe uma bruta descompostura. Fosse amolar o boi. Deixasse de ser imbecil
(palavra boa, porque convinha a ambos os sexos). E se a voz não se calasse, ela tomaria
providências.

A providência consistiu em avisar o irmão e depois o pai. (A intervenção da mãe não abalara a voz.)
Pelo telefone, pai e irmão disseram as últimas à voz suplicante. Estavam convencidos de que se
tratava de algum engraçado absolutamente sem graça, mas o curioso é que, quando se referiam a
ele, diziam “a voz”.
— A voz chamou hoje? indagava o pai, chegando da cidade.
— Ora. É infalível, suspirava a mãe, desalentada.

Descomposturas não adiantavam, pois, ao caso. Era preciso usar o cérebro. Indagar, apurar na
vizinhança, vigiar os telefones públicos. Pai e filho dividiram entre si as tarefas. Passaram a
frequentar as casas de comércio, os cafés mais próximos, as lojas de flores, os marmoristas. Se
alguém entrava e pedia licença para usar o telefone, o ouvido do espião se afiava. Mas qual.
Ninguém reclamava flor de jazigo. E restava a rede dos telefones particulares. Um em cada
apartamento, dez, doze no mesmo edifício. Como descobrir?

O rapaz começou a tocar para todos os telefones da rua General Polidoro, depois para todos os
telefones das ruas transversais, depois para todos os telefones da linha dois-meia… Discava, ouvia
o alô, conferia a voz — não era —, desligava. Trabalho inútil, pois a pessoa da voz devia estar ali por
perto — o tempo de sair do cemitério e tocar para a moça — e bem escondida estava ela, que só se
fazia ouvir quando queria, isto é, a uma certa hora da tarde. Essa questão de hora também inspirou
à família algumas diligências. Mas infrutíferas.

Claro que a moça deixou de atender telefone. Não falava mais nem para as amigas. Então a “voz”,
que não deixava de pedir, se outra pessoa estava no aparelho, não dizia mais “você me dá minha
flor”, mas “quero minha flor”, “quem furtou minha flor tem de restituir” etc. Diálogo com essas
pessoas a “voz” não mantinha. Sua conversa era com a moça. E a “voz” não dava explicações.

Isso durante quinze dias, um mês, acaba por desesperar um santo. A família não queria escândalos,
mas teve de queixar-se à polícia. Ou a polícia estava muito ocupada em prender comunista, ou
investigações telefônicas não eram sua especialidade — o fato é que não se apurou nada. Então, o
pai correu à Companhia Telefônica. Foi recebido por um cavalheiro amabilíssimo, que coçou o
queixo, aludiu a fatores de ordem técnica…

— Mas é a tranquilidade de um lar que eu venho pedir ao senhor! É o sossego de minha filha, de
minha casa. Serei obrigado a me privar de telefone?
— Não faça isso, meu caro senhor. Seria uma loucura. Aí é que não se apurava mesmo nada. Hoje
em dia é impossível viver sem telefone, rádio e refrigerador. Dou-lhe um conselho de amigo. Volte
para sua casa, tranquilize a família e aguarde os acontecimentos. Vamos fazer o possível.

Bem, você já está percebendo que não adiantou. A voz sempre mendigando a flor. A moça
perdendo o apetite e a coragem. Andava pálida, sem ânimo para sair à rua ou para trabalhar. Quem
disse que ela queria mais ver enterro passando. Sentia-se miserável, escravizada a uma voz, a uma
flor, a um vago defunto que nem sequer conhecia. Porque — já disse que era distraída — nem
mesmo se lembrava da cova de onde arrancara aquela maldita flor. Se ao menos soubesse…
O irmão voltou do São João Batista dizendo que, do lado por onde a moça passeara aquela tarde,
havia cinco sepulturas plantadas.

A mãe não disse coisa alguma, desceu, entrou numa casa de flores da vizinhança, comprou cinco
ramalhetes colossais, atravessou a rua como um jardim vivo e foi derramá-los votivamente, sobre
os cinco carneiros. Voltou para casa e ficou à espera da hora insuportável. Seu coração lhe dizia que
aquele gesto propiciatório havia de aplacar a mágoa do enterrado — se é que os mortos sofrem, e
aos vivos é dado consolá-los, depois de os haver afligido.

Mas a “voz” não se deixou consolar ou subornar. Nenhuma outra flor lhe convinha senão aquela,
miúda, amarrotada, esquecida, que ficara rolando no pó e já não existia mais. As outras vinham de
outra terra, não brotavam de seu estrume — isso não dizia a voz, era como se dissesse. E a mãe
desistiu de novas oferendas, que já estavam no seu propósito. Flores, missas, que adiantava?

O pai jogou a última cartada: espiritismo. Descobriu um médium fortíssimo, a quem expôs
longamente o caso, e pediu-lhe que estabelecesse contato com a alma despojada de sua flor.
Compareceu a inúmeras sessões, e grande era sua fé de emergência, mas os poderes sobrenaturais
se recusaram a cooperar, ou eles mesmos eram impotentes, esses poderes, quando alguém quer
alguma coisa de sua última fibra, e a voz continuou, surda, infeliz, metódica.
Se era mesmo de vivo (como às vezes a família ainda conjeturava, embora se apegasse cada dia
mais a uma explicação desanimadora, que era a falta de qualquer explicação lógica para aquilo),
seria de alguém que houvesse perdido toda noção de misericórdia; e se era de morto, como julgar,
como vencer os mortos? De qualquer modo, havia no apelo uma tristeza úmida, uma infelicidade
tamanha que fazia esquecer o seu sentido cruel, e refletir: até a maldade pode ser triste. Não era
possível compreender mais do que isso. Alguém pede continuamente uma certa flor, e essa flor não
existe mais para lhe ser dada. Você não acha inteiramente sem esperança?

— Mas, e a moça?
— Carlos, eu preveni que meu caso de flor era muito triste. A moça morreu no fim de alguns meses,
exausta. Mas sossegue, para tudo há esperança: a voz nunca mais pediu.
Contos de aprendiz. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.
Mais conhecido pela sua poesia incomparável, Carlos Drummond de Andrade (1902 — 1987) foi um
aclamado escritor brasileiro que integrou a Segunda Geração do Modernismo nacional.
Além dos célebres versos, o autor também publicou diversas obras de prosa, reunindo crônicas e contos.
Naquele que apresentamos acima, há uma linha tênue entre o real e o fantástico: os dois conceitos
vão se misturando o tempo todo.
Reproduzindo uma conversa casual de amigos, o autor estabelece uma atmosfera realista. A
interlocutora relata uma história de alguém que conheceu, conferindo alguma credibilidade ao
testemunho. Na história, uma moça costumava passear no cemitério e, sem pensar, arrancou uma flor
que estava numa campa.
A partir daí, começou a receber ligações misteriosas que imploravam que devolvesse a flor. Durante
muito tempo, ela não acreditava no mundo espiritual e, julgando que não passava de um trote, tomou
providências com a polícia.
Quando isso não adiantou, sua família deixou flores em todas as campas e procurou a ajuda de um
espírita. Consumida pelo medo, a protagonista da história acabou falecendo e as cobranças via telefone
pararam, como se "a voz" estivesse satisfeita.
No final, a dúvida permanece nos personagens e nos leitores da história, que podem atribuir os
acontecimentos à ação humana ou às forças sobrenaturais.

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