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Agregado Nada Familiar: Comédia Familiar

A peça de teatro "Agregado nada familiar" retrata as interações de uma família disfuncional. O avô surdo vive com a nora Joana e os netos Inês e Marco. O avô tem dificuldade em comunicar e entender o que acontece ao seu redor. Inês namora Faísca, um rapaz problemático. As conversas na família são cheias de mal-entendidos devido à surdez do avô.

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Agregado Nada Familiar: Comédia Familiar

A peça de teatro "Agregado nada familiar" retrata as interações de uma família disfuncional. O avô surdo vive com a nora Joana e os netos Inês e Marco. O avô tem dificuldade em comunicar e entender o que acontece ao seu redor. Inês namora Faísca, um rapaz problemático. As conversas na família são cheias de mal-entendidos devido à surdez do avô.

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Agregado

nada
familiar

Uma peça de Tiago Dias


Agregado nada familiar

Personagens:

Avô (Armindo): Homem casado, surdo que nem um cacho, recusa‐se a usar aparelho auditivo,
teimoso, mandão e com mobilidade reduzida.

Joana (Dobra 4): Nora do avô, mulher de Rui. É uma mulher bem vestida, cuidada, preocupa‐se
demasiado com a imagem e deve muito a inteligência.

Inês: Jovem com ar cuidado e inocente, filha de Joana e Rui, gosta de música e rapazes
rebeldes e problemáticos. Procura o seu verdadeiro amor.

Marco: Filho de Joana e Rui, jovem bem-comportado, sincero e amigável que está a descobrir
a sua (homo)sexualidade.

Faísca (DOBRA 3): Rapaz rebelde, com ar de rebelde e mania que fala criolo. Namorado de
Inês.

Leonel (DOBRA 3): Faz tudo do prédio. Trapalhão e desengonçado.

Rosário: Criada da casa. Fala muito rápido, faz tudo muito rápido exceto beber vinho ás
escondidas.

Avó (Dobra 4): Senhora chata e rabugenta que o que mais deseja é que tudo volta ao
“Antigamente”.

Amélia (DOBRA 2): Assaltante

Adelino (DOBRA 1): Assaltante

Dra. Noémia (DOBRA 2): Dentista ao domicilio.

Agente Roberto (DOBRA 1): Agente de policia.

Dra. Ticha (DOBRA 2): Psicóloga que vai acompanhar Inês.

Abílio (DOBRA 3): Vizinho gago e perverso.


1

Abra a cortina
Sala de estar
Entra um senhor de idade, muito lentamente a gatinhar como se procurasse algo no chão.
Logo atrás dele vem a avó a olhar com ar desconfiado

Avó: Oh homem…que raio estás ai a faer de cú pó ar?

Avô: HÃ? (Gritar)

Avó: O QUE ESTÁS AI A FAZER DE CÚ PAR O AR?

Avô: Estou a procura de um caramelo que me saltou da boca quando espirrei.

Avó: ENTÃO ESTÁS AI A TER TANTO TRABALHO POR CAUSA DE UM CARAMELO? VAI LÁ
DENTRO BUSCAR OUTRO.

Avô: NÃO QUERO OUTRO, QUERO ESTE!

Avó: MAS QUERES ESSE PORQUÊ? DEVE ESTAR CHEIO DE COTÃO E TUDO.

Avô: NÃO QUERO SABER, PRECISO DE ENCONTRAR ESTE.

Avó: Mas o que é que esse caramelo tem de especial querido?

Avô: Não… não é por ser o preferido.

Avó: Qual preferido? EU DISSE O QUE É QUE ELE TEM DE ESPECIAL?

Avô: ORA POSSA…. TEM OS MEUS DENTES AGARRADOS.

Avó senta se no sofá.


Avô encontra o caramelo, coloca os dentes na boca e olha para o caramelo…sopra e
come‐o.
Levanta‐se e dirige se à sua poltrona. Senta-se a ler o jornal. Avó dirige-se a um espelho.

Avó: Não entendo…Estou cada vez mais gorda. Cada vez mais velha… AMOR, SINTO ME
GORDA, VELHA E FLÁCIDA… PRECISO DE UM ELOGIO.

Avô: Oh amor, vê as coisas pelo lado positivo, pelo menos ainda tens boa visão.

Avó não liga e senta-se ao lado do avô noutro sofá.

Avó: Oh amor, diz me cá uma coisa, se eu morresse tu casavas novamente?

Avô: Pois é… é boa gente é.

Avó: É…só ouves o que te interessa. SE EU MORRESSE CASAVAS NOVAMENTE?


2

Avô faz um ar de seca e limpa o ouvido com uma caneta falando para o público.

Avô: Lá vem ela outra vez com as conversas filosoficas.

Avó: Casavas ou não?

Avô: Sim…pois é isso mesmo... Pois…..Pois é….. Ai sim? Que chatisse…. Não posso…

Avó: Limpa lá o raio dos ouvidos que eu calo-me.

Avô volta a ler o jornal e ficam uns segundos em silêncio.

Avó: Então, mas sim ou não?

Avô: Não, não… Claro que não.

Avó: NÃO? NÃO PORQUE? NÃO GOSTAS DE SER CASADO?

Avô: Não… Quer dizer sim… Gosto.

Avó: Então porque é que não casavas de novo?

Avô: Está bem… Casava sim mulher.

Avó: O QUÊ? CASAVAS MESMO?

Avô: Sim, mas só porque o nosso casamento foi tão fantástico. (Irónico)

Avó: E dormias com ela na nossa cama?

Avô: Então… onde querias que nós dormissemos?

Avó: E retiravas as minhas fotografias para pôr as dela?

Avô: E natural que sim…

Avó: Então e…ela ia usar O MEU CARRO?

Avô: Claro que não… a nossa empregada nem tem carta.

Avó: O quê?

Avô: Ha…nada, nada. É esta surez que me baralha todo

Avô olta a limpar o ouvido chateado.

Avó: Pois…. Sabes muito, ouves só o que te interessa.


3

Avó levanta-se e sai… Entra Marco acompanhado de Rui. Rui despede-se e sai de casa,
Marco segue para a cozinha quando o avô grita.

Avô: Mas não se almoça nesta casa? Onde anda a jeitosa da empregada? E o meu filho Rui?!
RUIIII, JOANAAAAA.

Marco: Eles não estão cá avô.

Avô: RUI? JOANA?

Marco: Eles não estão cá…

Avô: RRRRUUUUUUUUUUUUIIIIIIIIIIIIIIIIIII?

Marco aproxima‐se ao ouvido do avô.

Marco: Ele saiu.

Avô: Caiu? Ai coitado…onde? Vai ajudá‐lo.

Marco: Ele saiu avô.

Avô: Fugiu? Para onde? Isto é tudo culpa da tua mãe…ela dá‐lhe cabo do juízo. Eu já sabia
que mais cedo ou mais tarde ele ia fugir com a moça da fruta ali do minimercado… Eu vi-o a
galar‐lhe os melões…

Marco: ELE SAIU!

Marco sai da sala muito chateado, avô continua a sua leitura


e retira os dentes.
Coloca‐os num copo com água na mesinha ao seu lado.
Toca a campainha…uma…duas…três vezes. Avô não se mexe.

Marco entra na sala.

Marco: Então avô, não ouve a porta?

Avô: Quem é que está torta?

Marco: Esquece…

Avô: Parece? Está torta ou parece torta? Decide‐te porra…

Marco vira as costas ao avô e abre a porta, entra uma senhora bem-
parecida.

Joana: Estava a ver que ninguém me abria a porta… Canseira….

Marco: Mas porque não usa a chave mãe?

Joana: Olha porque…não a encontrei.

Marco: Mas perdeu‐a?


4

Joana: Sim

Marco: Onde?

Joana: Tanta pergunta… sei lá. Algures pela mala.

Joana senta‐se e coloca a mala numa mesa à sua frente. Começa a procurar a chave na
mala, tira um guarda chuva da mala… uma camisola…uma panela e finalmente
um
candeeiro (a mesa tem um furo com tudo la escondido).
Marco sai da sala. Joana olha para o avô.

Joana: Sempre sentado de papo para o ar…

Avô: Almoçar? Sim quero almoçar obrigado.

Joana sai da sala disparada. Inês entra na sala em direção a cozinha.

Inês: Olá Avô, como estás?

Avô: Ananás? Sim podes trazer enquanto a outra não traz o almoço.

Inês sorri e sai de cena.

Avô: INÊS?

Inês volta a entrar.

Inês: Sim avô?

Avô: Senta‐te aqui minha querida, temos que falar.

Avô limpa os ouvidos.


Inês senta‐se a seu lado com ar carinhoso.

Avô: Olha Inês, sabes que o pai e a mãe gostam muito de ti não sabes? E não importa o que
acontece, eles vão estar sempre cá para ti.

Inês: Sim eu sei avô…

Avô: Mas há algo que precisas de saber… o teu pai…ele…fugiu com a mulher da fruta. A dos
melões grandes.

Inês: Hã? Não percebi. Fugiu com quem?

Avô: Não, não foi com a tua mãe… foi com a dos melões.

Toca o telefone de Inês, ela levanta‐se sem perceber a conversa e vai para o quarto a
correr.
Entra Marco na sala.

Marco: Avô, o que é que fizeste a Inês? Ela saiu daqui a correr…
5

Avô: Sim quero comer porra, Todos me oferecem e ninguém me traz nada… OH INÊS? O
MEU ANANÁS?
Marco sai de cena.
Toca a campainha…novamente três vezes. Joana vem abrir.

Joana: Deixe estar… Não precisa de se levantar.

Avô: Sim porra…JÁ DISSE QUE QUERO ALMOÇAR!

Joana vira costas e abre a porta. Entra um jovem mal vestido e com ar de rufia.

Faísca: Xé dama… Tá‐se bem?

Joana: Meu caro, o meu nome é Joana, não é dama.

Faísca: Ya ya cota, tá ai a minha Mboa?

Joana: Não é cota, é Joana. E o que é uma Mboa? E quem és tu?

Faísca: Xé…meu nome é Paulinho, mas todos me chamam de Faísca.

Joana: Faísca? Porquê?

Faísca: Porque sou rápido a conquistar damas…e sou…quente. (Diz passando a mão na
língua e a tocar no seu corpo fazendo o som de quente)

Joana: Quente? Ai coitadinho…tens febre? Precisas de um supositório?

Faísca: Hê lá Dama… Eu não curto nada dessas intimidades. Isto é só um sentido… Exit
only. Bem Cota, tou a curtir bué do teu cubico, mas demanda lá a minha Mboa que tenho
o bote lá em baixo atravessado.

Joana: (Ar perplexo) Cubi quem? Bote? Isso não é um barco?

Joana sai para chamar Inês. Faísca olha para o avô.

Faísca: Xéééééééé…. Quem é a carcaça velha?

Avô: Quem é o senhor? Anda a vender bíblias é? Raios parta estes fanáticos. Não me diga
que vem pedir dinheiro.

Faísca: Xé dinossauro, não venho pedir nada, mas se quiseres dar é numa boa.

Avô: Broa? Mas quem é que vende broa porta a porta?

Faísca: Xé teia de aranha, eu broas só a noite…daquelas que batem bué…. Mas agora só venho
buscar a minha garina.

Avô: Tangerina? Broa de Tangerina?

Faísa: Da-se que é surdo… Olha lá mumia, vai masé limoar os ouvidos com um piaçaba pá.
6

Inês entra na sala, visivelmente nervosa.

Inês: O…Ol…Olá Faísca.

Faísca: Xé Dama…Tás toda boa hoje.

Inês: Obrigado Faísca, és sempre tão educado.

Faísca: Eu sei dama… sou bom e pronto.

Inês avança para beijar Faísca, mas no ultimo momento antes dos lábios se tocarem
Faísca pousa para uma selfie a fazer o número dois com a mão.

Faísca: Vamos bazar.

Inês: Adeus avô…

Faísca sai e fecha a porta na cara de Inês.

Inês: Ele é um amor….

Avô: Vais sair com o vendedor? Mas isto anda tudo doido?

Joana entra a tempo de dizer adeus a Inês.

Joana: Bom rapazote…

Avô: Isso mesmo… Um bitoque. É isso que eu quero.

Joana: Mas onde andará o Rui? (Diz para si mesma enquanto sai da sala)

Avô: Não percebo, todos me oferecem comida e ninguém me traz… Porra que daqui a pouco
já não tenho fome.

Marco entra na sala, roupa justa e barriga de fora do top.

Marco: Olá avozinho…

Avô: Hé lá…que é isso pá? A tua mãe não te deu dinheiro suficiente para comprares o resto
da roupa?

Marco: Não avô, eu decidi ser livre…ser como eu quero… Não me esconder mais.

Avô: Gastou em aventais?

Marco desliza saindo da sala enquanto Joana entra pelo outro lado.

Avô: Sim senhora…. Gasta todo o dinheiro em aventais e comprar roupa para os filhos é á
metade.

Joana: O quê? Mas de onde veio essa conversa?

Avô: Foi só uma peça? Descarada…


7

Joana sai da sala perplexa. Entra avó na sala a comer chocolate.

Avô: Lá vem a minha assombração privada.

Avó: O QUE É QUE TU ME CHAMAS TE?

Avô: Assombração! Fantasma! BUUUUUUUU

Avó: Ouve lá oh meu…meu…monumento pré histórico. SE NÃO FOSSE EU O QUE SERIA DE


TI?

Avô: Um homem feliz.

Avó: Somos casados há quarente e sete anos, vais me dizer que na tua vida, nunca foste
feliz?

Avô: Fui claro.

Avó: Vês…

Avô: Até há quarenta e seis anos atras.

Avó sai furiosa. Avô volta a pegar no jornal.

Avô: Porra a ver se me deixam ler isto sem me chatearem…

Entra Rosário a criada na sala a passo acelerado.

Rosário: Ó meu xenhor, eu bou ali ao xuper buscar umas xebolas que num tenho ma nada
aqui. Tá o frango no lume, beja lá se num deixa queimar xenão despopis xobra é pra mim.
Lebo aqui binte aeros pra pagar ax xebolas e dexpois eu estrago o que xobrar. Daqui a xinco
minutoz apague alio lume pa num exturricar o arrox. Se estiber a queimar, tire a tampa e
deixa desxcanxar. Está tumbém o bolo no forno, daqui a pouco bá lá e xpete um expaguete
ber se tá no punto… Agora xquexa dixo e despois quero ber o que bai comer… (Fala tão
rápido que mal se percebe)

Rosário sai da sala e avô fica a olha com ar de


perdido.

Avô: Mas onde raio vai aquela jeitosa também? E o que raio estava ali a rezar? E foi‐se
embora e almoço nada… Mas lá que gosto de ver aquela boquinha a mexer gosto… (Diz
enquando lambe os labios)
8

Inês regressa a casa, com um ar abatido. Avô


preocupado põe o aparelho de volta.

Inês: Olá Avô.

Avô: Então minha menina, que cara é essa?

Inês: Foi ele avô…ele é uma besta.

Avô: Festa? Com essa cara a festa não foi muito boa.

Inês: O FAÍSCA avô… ELE É UM ANIMAL.

Avô: Quem é esse Faísca?

Inês: O rapaz que me veio buscar avô.

Avô: Há, o vendedor de broas de tangerina?

Inês: Uma broa apanhou ele na tromba…a tentar obrigar-me a fazer o que não quero…

Avô: Mas o que é o que o vendedor te fez?

Inês: Nada avô…não ias perceber.

Avô: Posso ser velho filha…mas já fui jovem um dia, podes -me explicar.

Inês começa a falar rapidamente.

Inês: Então é assim, a Raquel foi dizer ao Marco que eu não queria fazer amor com o Faísca,
mas o Marco que é o melhor amigo do Pedro, amigo do João, vizinho do Marco, foi dizer o
contrário, que eu queria mesmo fazer isso rapidamente senão ia ter com o Jorge, que é
primo afastado da Raquel. Como é óbvio, o Gonçalo que é um granda chibo, foi logo correr
contar isso a irmã, tu sabes, a Vanessa?! E ela muito inocente, a cabra, foi mandar
mensagem ao Faísca a dizer para ele se despachar a fazer isso comigo senão eu virava
lésbica. Achas isto normal?

Avô fica embasbacado a olhar para Inês.

Avô: Normal…A Raquel…o João…Vanessa…Normal?

Inês: Claro que não avô.

Avô: Pois claro Inês, é o que eu acho, não é nada normal.

Inês: Obrigado avô, sabes sempre o que dizer e como me apoiar.

Diz Inês a levantar‐se e abraçar o avô. Inês sai de cena.

Avô: Juventude… No meu tempo era bem mais fácil, gostas dela? Corteja‐a durante uns
anos sem lhe tocares, passa horas a janela dela a cantarolar e apanhar chuva nos cornos,
conheces o pai dela, demonstras as tuas intenções com esperanças de não levares um tiro
do pai dela e no fim, ainda sem sequer lhe teres tocado, casas-te com ela só para
perceberes que afinal ela já foi “tocada“.
9

Joana entra com ar pensativo.

Joana: Mas onde será que anda o Rui? Ele saiu de manha e ainda não disse nada…tem o
telemóvel desligado… Ó sogro, onde anda o seu filho? Ainda não apareceu…

Joana senta-se no sofa.

Avô: Quem é que morreu?

Joana: O SEU FILHO?

Avô: O quê? O Rui Morreu?

Joana: NÃO SEJA PARVO HOMEM… NÃO SE BRINCA COM ISSO. NINGUÉM MORREU. ONDE É
QUE FOI O SEU FILHO?

Avô: O Rui? Deve ter ido…comer uma fruta.

Joana: Comer fruta? Onde? Ele tem fruta aqui em casa.

Avô: Pois, mas a fruta cá de casa já está a murchar, ele quer fruta nova…mais fresca.

Joana: Mas a fruta cá de casa também está fresca, eu mantenho‐a no frigorífico.

Avô: Pois, mas o frigorífico seca a fruta toda. Ele quer fruta gostosa, saborosa e com muito
sumo.

Joana: Mas o que é que ele vai fazer com a fruta? Comê‐la ou fazer sexo com ela?

Avô: Se ela quiser certamente ele não se importa.

Joana: Quem?

Avô: A mulher da fruta.

Joana: Quem?

Avô: A fruta mulher…a fruta.

Joana: Ok… percebi outra coisa.


Joana sai da sala.

Avô: E eu é que sou surdo…


10

Entra avó na sala e senta‐se ao lado do avô.

Avó: Ouve lá casmurro, onde anda o nosso filho?

Avô: O que é que tu me chamaste?

Avó: Amor…chamei te amorzinho.

Avô: Sim estava bem aqui sozinho….

Avó: (Com ar apaixonado) Já reparaste, quando éramos novos tu davas me sempre a mão
quando víamos televisão.

O avô relutante estica‐lhe a mão. Dão a mão e ficam a rir.

Avó: E sempre que estávamos assim no sofá tu tentavas sentar sempre o mais perto de mim
possível.

Avô relutante levanta-se a manda a vó chegar se para mais longe para


ele se sentar no lugar dela.

Avó: E quando estávamos assim tão perto tu…mordiscavas‐me sempre a orelha…

Avô afasta‐se e tenta‐se levantar.

Avó: Mas onde é que tu vais? (Pergunta furiosa)

Avô: Então, vou buscar a cola da dentadura senão fica agarrada a orelha.

Avó sai de cena furiosa. Avô acende a televisão.

Voz off: O fim está próximo, prepare‐se para a chegada de Deus.

Nisto, uma das luzes começa a piscar e a luz na mesinha do avô desliga‐
se.

Avô: Mas que raio…Quem é que apagou a luz?

Avô olha para a lâmpada.

Avô: Olha…morreu…raios parta a lâmpada

Entra Marco, vestido de cabedal com ar de machão a ajeitar o seu orgão


e olha para o avô.

Marco: O que se passa avô? (Diz com jeitos femininos e voz fininha)

Avô: O raio da luz foi‐se.

Marco: Deixa estar avô, eu ligo ao Leonel para vir arranjar isso.

Marco, pega no telefone e marca o número.

Marco: Estou? Sr. Leonel? Fala Marco do 3º D. Se poder passe aqui em casa que temos
uma lâmpada fundida. Obrigado xuxu…até já.
11

Assim que desliga o telefone, batem a porta. Marco vai abrir.

Marco: Já? Hum…adoro a sua rapidez.

Marco abre a porta, entra Leonel com a sua mala de ferramentas.

Leonel: Dias… Onde anda a D. Joana?

Marco: A minha mãe? Porque quer saber da minha mãe?

Leonel: Então porque… porque…. Para mostrar como se muda a lâmpada.

Marco: Não é necessário, mude lá isso que eu depois digo‐lhe.

Leonel aproxima‐se do candeeiro. Levanta‐o… olha de várias perspetivas…tira uma fita


métrica…mede o candeeiro…a mesa…. Começa a escrever num bloco de papel.

Leonel: Então é o seguinte, segundo o vetor X, multipliquei por 32 a altura do candeeiro e vi


qual seria a raiz quadrada do número inferior ao resultado. Depois de descobrir qual seria a
medida entre o sofá e o candeeiro, sei que o vento sopra a 5 Km por hora vindo…dali. Sem
nunca esquecer a teoria da relatividade de Einstein, agora cientificamente comprovada,
onde provou que 1+5 são 8 e que a batata quando é demasiado cozida, fica frita, posso
afirmar sem qualquer tipo de certeza que a lâmpada… fundiu.

O avô e o neto olham um para o outro enquanto Leonel fica todo contente por ter
descoberto.

Marco: Hum…certo, e agora?

Leonel: Agora? Então agora…. De acordo com a alínea C da lei como disposto no artigo
número 156 do código do eletricista, é necessário mandar o candeeiro para o lixo e comprar
outro.

Marco: O que? Mandar o candeeiro fora? Porque não trocamos simplesmente a lâmpada?

Leonel: Hum…. Trocar a lâmpada… vendo por esse prisma…Sim é possível.

Ficam todos a olhar uns para os outros algum tempo….

Leonel: Certo… eu trocar a lâmpada. Vamos a isso…

Leonel com muito cuidado tenta tirar a lâmpada. Avô e Marco olham para ele. Ao meter a
mão no candeeiro, Leonel apanha um enorme choque e cai no chão. Todas as luzes se
apagam.

Avô: Mas… o que aconteceu? Estou morto?

Marco: A luz foi‐se avô.

Avô: Quem está ai?

Marco: Quem haveria de ser avô? Nem conhece a voz dos seus?
12

Avô: Deus? És tu Deus? Ai… raios parta televisão tinha razão… chegou o fim. Por favor
Deus…mostra‐te.

A luz acende e está Leonel em pé com o cabelo todo no ar, e a cara e toda queimada e
com o corpo a tremer.

Avô: Deus? Ai porra. Aqueles gajos lá em baixo pintavam-te de maneira diferente.

Marco: Tu estás vivo avô… foi só um corte de luz. E tu Leonel, estás

bem? Leonel: Eu…Estou…zinhos…frigorífico… AUUUUUUUUU

Marco: Sente‐se aqui no sofá que eu vou buscar‐lhe água.

Marco sai para a cozinha e Leonel fica sentado ao lado do avô.

Leonel: Luz…fome…eu…AUUUUU.

Avô: Mas que se passa homem? Está tudo bem? Parece-me um pouco elétrico.

Leonel: Lâmpada…corrente…AUUUUU.

Marco entra na sala com um copo de água e senta‐se ao lado de Leonel. Dá‐lhe o copo à
boca.
Limpa-lhe a boca com a sua manga e fica a olhar com ar de desejo para Leonel.

Marco: Leonel…com tanta eletricidade no corpo… devia descarregar alguma, não?

Leonel olha amedrontado para Marco.

Marco: Ora então…Não me queres acompanhar ali ao quarto para descarregarmos um


pouco?

Leonel: Ajuda…Medo…. AUUUUU

Marco levanta‐se e levanta Leonel, leva o para o quarto lutando um pouco com ele.

Avô: Mas onde é que eles vão? Bem...nem quero saber. Eu quero é comer alguma coisa. Oh
Rosário? Rosário? Onde será que está aquela jeitosa? Bem, vamos la tentar ler isto outravez.

Avô volta ao jornal.


Inês entra na sala.

Inês: O que aconteceu a luz avô? Foi abaixo?

Avô: Qual tacho?

Inês: A LUZ AVÔ. FOI A BAIXO?

Avô: Ah sim… Foi Deus que apagou a Luz e depois foi para o quarto com o teu irmão.
13

Inês sem perceber a conversa senta-se ao lado do avô.

Inês: Óh avô, já ques estamos aqui só os dois, diga me uma coisa. Não nota nada de estranho
no Marco?

Avô: Qual Barco?

Ines: No Marco avõ, o meu irmão.

Avô: Mas o teu irmão tem um barco? BEm…eu já tinha reparado que ele gosta muito de pegar
no leme….

Inês: Óh avô… estou a perguntar se não nota algo de estranho no seu neto?

Avô: Sim Inês, ele é estranho ao perto. Mas olha que não é muito melhor ao longe. Não achas
que o teu irmão anda um pouco estranho?

Inês: Mas… Bem, continuando. Sim avô, ele anda estranho, as roupas, a forma de falar, o
andar…

Avô: O rapariga, aquele rapaz não anda… ele desfila.

Ouvimos a música “Ela não anda, ela desfila” e o Marco passa pros trás do sofa a deslizar
e a dançar em direção á cozinha, sem tshirt, enquanto avô e neta olham com ar
assustado.

Inês: Exctamente avô… Ele anda muito estranho. No outro dia apanheio a…. tu sabes avô.

Avô: Apanhaste-o a quê?

Inês: Tu sabes avô, não me faças lembrar dessa cena.

Avô: Com uma pena? Mas que raio fazia ele com uma pena?

Inês: Não avô…ele estava a…. tu sabes….com a mão…e a por a aquilo na boca.

Avô: Nao me digas… Apanhas te o teu irmão com uma toca?

Inês: POSSA AVÔ… APANHEIO A METER AQUILO NA BOCA!

Avô: Ai que nojo… Mas onde é que ele andava a fazer essas poucas vergonhas?

Inês: No quarto avô… em frente ao espelho.

Avô: No espelho? Mas para quê que ele precisa de ver ao espelho?

Inês: Então avô…senão o batom fica mal posto não é?


14

Ouvimos a música “Single Ladies” e o Marco passa por trás do sofa a dançar em direção
ao quarto, com os mamilos tapados com chantili e a por mais na boca enquanto dança e
enquanto avô e neta olham com ar assustado.

Avô: OH MARCO… TU NÃO USES O CHANTILI TODO… OLHA QUE EU PRECISO DISSO PARA POR
NOS MORANGOS DA ROSÁRIO. Como eu adoro quando a Rosário me dá os morangos dela.

Inês: Ai avõ, tu não tens remédio.

Inês levanta-se e sai de cena.


Batem a porta e entra um senhor de idade. O vizinho Abílio.

Abílio: Oh da casa? Sou…sou …. sou …. E sou eu. O vivi…vivi…E Vizinho.

Avô: Entre meu caro…sente‐se aqui.

Abílio: Obrigado meu ca…. meu ca…. E meu caro amigo.

Avô: Como vão as coisas?

Abílio: Vai…vai…E vai bem.

Avô: Vai onde?

Abílio: Vai…vai...E vai bem.

Avô: Então e já meteu conversa com a nova vizinha do 3ºE?

Abílio: Já sim. Descobri que ela é pu…. é pu…. é pu…. E é polícia.

Avô: Patrícia? Não era Arminda?

Abílio: Sim...Cha…cha…chama‐se Arminda. E tem um grande cu….cu…cu…. e coração.

Avô: Tem comichão? Então afaste‐se dela meu caro. Isso são chatos.

Abílio: Não são chacha…. chacha…chatos. Eu disse Cu…cu. E Coração.

Avô: Há, muito bem. E porque diz isso?

Abílio: Ela tem umas grande ma…..ma….ma…E mãos na cu…cu…E cozinha. E muitas v…. v….
vezes quando faz bro….bro….bro….Boculos a mais, tras me sempre um po…po….po…

Avô: Po…po….po…. Então? Não pega?

Abílio: Raios parta o homem que é susu…su…su. PORRA QUE É SURDO.

Avô: Olha lá, vê se ela não é daquelas que só quer um velho cheio de papel para lho limpar
todo.

Abílio: Isso não é…é….é… E é verdade. Ela gosta de…de….de… e de mim porque
sou…Bu..Bu…Bu.. E bonito e sou um ca….ca….ca…
15

Avô: Cavalo?

Abílio: Ca…ca…ca…

Avô: Cabeludo?

Abílio: Ca…ca….ca…

Avô: Calão?

Abílio: Ca….ca…ca…CA PORRA. SOU CAVALHEIRO.

Avô: Cavalheiro…. És é um cavaleiro. Queres é montar.

Abílio sai furioso.

Marco sai do quarto a puxar as calças para cima com ar satisfeito. Senta-se no sofa. Avô
olha com ar confuso.

Avô: Então Marco… Que cara é essa? Está tudo bem?

Marco: Então não está…. Não podia estar melhor… Sinto me tão bem avozinho… tão feliz…tão
extasiado…

Avô: Saciado?

Marco: Ui… e de que maneira. Nem imaginas o quanto.

Entre Inês na sala e senta-se ao lado de Marco.

Inês: Bem… tu estás com um ar super…satisfeito.

Marco: Ai pois estou…

Inês: Marco, há algo que nos queiras dizer? Sabes que podes falar comigo mano.

Marco: Oh Inês… Então. Tomava por mais inteligente. Sabes bem o que se passa.

Inês: Sim Marco. Eu sei, mas queria que tu falasses comigo e me contasses as coisas. Em vez
de eu te apanhar com os meus vestidos no quarto e a por batom.

Marco: Não sejas assim… sabes tão bem quanto eu que aquele vestido realça muito mais as
minhas pernas.

Avô mostra-se chocado com a conversa.

Marco: Então mas antes disso conta-me lá… como correu o teu date com o Bad Boy?!

Inês: Mal… Ele é um estúpido. Nunca mais o quero ver.

Marco: Uiii, isso soa me a mexerico. Conta lá aqui a mana ao mano o que é que ele fez?

Inês: Tu sabes Marco… Tu és rapaz.

Avô: Ai é?
16

Marco: Sim, eu imagino o que ele queria. Mas olha… diz lhe que aquele vestido preto é meu e
não lho emprestas.

Entra Leonel na sala com ar assustado… roupa rasgada e cheio de btom na cara…
Marco levanta-se e olha para ele acenado com a mão. Leonel vai andando para a porta
com um andar estranho… quado esta quase a sair, vemos que vem algemado. Marco vai la
abrir e retirar as algemas.

Marco: Isso fica cá meu querido… O brinquedo é meu.

Leonel sai de casa. Marco e Inês retiram-se.


Avô agarra no seu jornal.

Avô: Bem… vamos lá acabar de lêr as noticias que hoje não está facil.

Ao virar a página deixa cair o jornal e vê-mos que tem uma playboy escondida a frente
do jornal. Pega nervosamente no jornal, tapa a revista e continua a ler.

Avô: Olha pra isto… Assim sim… parece a Rosário. Que bela marmita tu tens…

Vemos um homem a entrar pela janela, encapuçado. Depois de entrar anda lentamente
e com cuidado.
Vai vasculhando algumas coisas enquanto avô está distraído com a revista.

Adelino: Porra…casa tão grande e não tem nada de jeito.

Continua a procurar pelas gavetas. Entra também pela janela uma mulher também
encapuçada. Ao entrar tropeça e cai e faz barulho.

Adelino: SHIIIIIIIIIUUUUUUUUUUU, o velho é surdo mas não tanto.

Amélia: Desculpa pá… Quem manda ter uma porcaria de uma mesa mesmo à janela? Uma
pessoa já não pode roubar a vontade.

O avô boceja… pousa a revista e adormece um pouco.

Adelino: Olha, o velho adormeceu…ou morreu. Qual quer que seja o caso vamos aproveitar e
limpar tudo. Vê ai as gavetas se tem algo que possamos vender.

Amélia abre uma gaveta e encontra um maço de notas…Olha para elas, conta‐as e volta
a guardar.

Amélia: Nada de jeito aqui Adelino, só um monte de notas.

Adelino olha para ela incrédulo.

Adelino: Só um monte de notas? Então e porque raio não as tiras e guardas ignorante?

Amélia: Porra, tu disseste que querias coisas para vender. Vais vender o dinheiro seu
inteligente?

Avô mexe-se e fala durante o sono.

Avô: Ai Rosário… lava me os tomates antes de por na salada lava…


17

Adelino desesperado vai tirar as notas da gaveta e guarda‐as no bolso e continua a sua
procura.

Amélia: Sempre a mesma coisa…sou sempre ignorante e nunca faço nada de jeito. Deve estar
esquecido que a minha média na faculdade de ladrões foi bastante superior à dele.

Abre mais uma gaveta e encontra algo muito valioso.

Amélia: PSSSSTTTTTTT…. PSSSSSSSSSTTTTTTTTTT……PSSSSSSSSSSSTTTTTTTTTTTT… ADELINO


PORRA.

Adelino: Chui! Fala baixo… o que foi?

Amélia: Encontrei o pote do ouro…isto deve valer uma fortuna. (aponta para dentro da
gaveta)

Adelino: O que é?

Amélia: É um colar…

Adelino: Isso mesmo…guarda‐o muito bem.

Amélia tira o colar da gaveta e fica a olhar para ela com ar de desejo.

Amélia: Olha…fica me tão bem, não fica? (Pondo o colar a sua frente)

Adelino: Não te metas com ideias. Estamos aqui para limpar e vender. Não é limpar e usar.
Mete isso já no saco.

Amélia vai olhando para o colar e começa a dançar com ele pela sala. Tropeça no tapete e
o colar cai no colo do avô.

Amelia: Ade…Ade…Ade… Lino. Eu…. O colar….

Adelino: O colar? Onde está?

Amélia aponta para o colo do avô.

Adelino: Mas que porra foste fazer Amélia?! Agora vai lá tirar sem acordar o velho.

Amélia chega‐se ao pé do avô, com muito cuidado estica a mão para agarrar o fio. O avô
mexe‐se um pouco e Amélia esconde-se rapidamente assim como Adelino se atira para o
chão.
Insiste mais uma vez esticando o braço para o fio, mas desta vez o avô mexe‐se e solta
um peido enorme. Amélia afasta‐se com nojo. Insiste novamente, o avô solta outro
peido este mais alto e longo. Amélia quase desmaia com o cheiro.

Adelino: Mexe‐te Amélia. Não temos tempo para brincadeiras.

Amélia: Porra Adelino, o velho está mesmo morto. É um cheiro que não se pode.
18

Neste momento começa a ouvir‐se sirene da policia.

Adelino: Mas quem é que chamou a policia? Ninguém nos viu.

Amélia: Eu não fui. Mas… será que vêm atrás de nós?

Adelino: Claro que vem atrás de nós. Quem haveria de ser? Bora…vamos sair daqui Amélia.
(salta pela janela)

Amélia vai atrás dele, mas não resiste e tenta agarrar o fio. O avô mexe‐se e prende-lhe o
braço. Amélia tenta várias vezes se soltar, mas não consegue.

Amélia: Adelino????? Ajuda‐me porra…. Estou presa.

Adelino não responde, Amélia tenta mais uma vez e não consegue se soltar. Irritada
encosta o rabo a cara do avô e solta um peido, o avô faz cara feia e desvia‐se soltando
assim o braço de Amélia, que agarra o colar e atira‐se da janela de cabeça, ouvindo‐se um
estrondo lá fora.

Amélia: Auuuuuuuuuu.

Começa a sair fumo da cozinha…


Avô acorda e sente um cheiro estranho.

Avô: Que estranho… Cheira me a queimado…. E a peido ao mesmo tempo. Que raio?!

A criada entra em casa carregada de sacos. Vê fumo a sair da cozinha e corre para lá em
pânico.

Rosário: O noxa xenhora da agrela que o raio do velho deixou o almoxo queimar.

Rosário ao entrar na cozinha desata a gritar.

Rosário: SOCORRO…ESTÁ A ARDER…A COZINHA…. SOCORRO.

Rosário sai pela porta a correr.

Avô: Raios partam aquela maluca. Peidou-se, queimou o almoço e agora foi se embora. Não
faz nada de jeito. Oh Rosário? Olha o almoço? Anda cá que quero te comer… Comer, quero
comer.
Entra Rosário e Leonel.

Rosário: É ali Leonel… A cozinha…está tudo a arder…

Leonel: Afaste‐se menina. Aqui o Leonel trata disso. Sabe que eu já fui bombeiro? Quer dizer,
chumbei 5 vezes no curso, mas ainda assim aprendi muito.

Leonel manda‐se para o chão, rebola e dá cambalhotas, faz pose de super-herói. Chega‐
se a porta da cozinha e começa a soprar com muita força, várias vezes. Depois atira‐se lá
para dentro.

Rosário: Ai noxa xenhora da agrela, protexa o Leonel…ele é tão coraxoso…


19

Ouve‐se uma pequena explosão e vemos um frango a atravessar a sala e a aterrar no


colo do avô.

Leonel sai da cozinha chamuscado e a deitar fumo por todo o lado.

Leonel: Acho que o Frango está um pouco bem passado demais…

Leonel sai pela porta.

Leonel: Auuuuuuuu.

Avô: Ao menos se me vais servir frango podes por num prato?

Rosário vai disparada ao avô e tira‐lhe o frango das mãos.

Rosário: Não lhe tinha dito para ir olhando pela coxinha?

Avô: Sim, sim, podes me dar a coxinha.

Rosário ameaça avô com o Frango e sai disparada.

Avô: Isto é mesmo uma casa de doidos.

Avô sentado no mesmo sitio. Entra Avó agarrada a boca.

Avó: Ai…Ui…. Ai….Auuuu.

Senta‐se no sofá mas o avô não lhe liga nenhuma.


Avó: Aiii…. Ui…. Ui….

O avô continua a não ligar nenhuma.

Avó: AUUUUUUUUU.

Avô suspira alto e remunga entredentes.

Avô: Vais me obrigar a perguntar não vais?… Pareces mesmo um fantasma... o que foi
assombração?

Avó: Nada…
Avô encolhe os ombros e não liga nenhuma.

Avó: Ai…. Ui…

Avô: Mas o que raio se passa mulher? O que é que te dói?

Avó: Ai…é o meu dente.

Avô: Estiveste a comer chocolates outra vez não foi?


20

Avó: Claro que não, eu não como chocolates. (Tira a mão da boca e está toda suja de
chocolate)

Avô: Não gostas não é? Liga lá pra vizinha do 6ºD que ela é dentista e vem ai ver o que se
passa com o teu para‐choques.

Avó levanta‐se e vai para o telefone. Marca o número.

Avó: Estou? É a Dra. Noémia? Como está Dra.? Olhe, fala a assombração do 5º… Ai desculpe, a
vizinha do 5ºD, precisava que a Dra. Viesse ver o que se passa com o meu para‐choques…Ai
desculpe, com o meu dente que me está a doer muito… Não, não comi doces. Sim sim, vem já?
Obrigado então.

Desliga o telefone.

Avô: Antes que ela chegue, vai lavar a boca que está suja de chocolate.

Avó faz cara de culpada passa a mão na boca e sai para os quartos.

O telefone toca, o avô atende.

Avô: Estou? Estou? Quem? O que?

Desliga o telefone chateado.

Avô: Óh Marco? Anda cá!

Marco aparece vestido de casaco de cabedal e calças rotas. Com ar machão.

Marco: Sim avôzinho mais lindo? (com ar super feminino)

Avô: Mas que raio… Esquece, já nem tento perceber. Liga lá ao teu amigo…Deus para vir
arranjar o telefone que não se ouve nada.

Marco pega no telefone e liga.

Marco: Estou? Leonel? Anda cá a casa que…tenho algo para tu…levantares.

A campainha toca assim que desliga o telefone.

Marco: Adoro a sua rapidez… é tão… máscula.

Marco abre a porta e Leonel solta um grito de medo. Entra fugindo de Marco. Marco sai
para a rua.

Marco: Tenho que sair amor…mas espera por mim… temos que acabar esse… curto
circuito.ZZZZZ

Leonel: Ai este rapaz…. BATATA… é estranho. (Ainda com tiques do choque)

Avô: Óh tu aí...rapazito…Leonel…ou Deus…ou o que for, mete aqui o telefone mais alto que eu
não ouço nada.
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Leonel: Sim senhor. Vou já GIRAFA tratar disso.

Chega‐se perto do telefone e fica a examina‐lo.

Tocam à campainha e a avó aparece para abrir. É a dentista.

Dra. Noémia: Muito boa tarde, então o que se passa com o seu dentinho? Andou a portar‐se
mal e a comer docinhos foi?

Avó: Não, não Dra. Portei me muito bem. Não lhes toquei nem com um dedo.

Avô: Pois não. Foi logo a mão cheia.

Avó: Pois…isso já tu ouves bem.

Dra. Noémia: Nem tinha reparado que estava ai. Como está meu caro?

Avô: Cheio de fome!

Avó: Não ligue Dra. Veja lá o que se passa aqui com o meu dente por favor.

Avó senta‐se no sofá e abre a boca. Quando Leonel repara na Dentista tudo fica em
camara lenta… Ouvimos a musica “Stand by ME” e Leonel vai em direção a dentista em
camara lenta… Esta só termina quando Leonel Grita “caramel” e ouvimos o som de um
sico riscado.
A dra. aproxima‐se e olha para a boca da avó. Leonel volta ao trabalho. Sem a dra. tocar
na avó, esta começa a gritar.

Dra. Noémia: Eu ainda nem lhe toquei minha querida.

Avó: Há não? Desculpe Dra.

A dentista volta a aproximar‐se e a avó começa a descer pelo

sofá.

Dra. Noémia: Ah pois, uma cáriezinha aqui escondida. Vamos ter que tratar dela.

Avó: Por favor Dra., tem que me anestesiar que eu não aguento.

Dra. Noémia: Anestesia? Muito bem… deixe‐me preparar aqui uma mistura então.

Enquanto Dra. Está a preparar a anestesia, Leonel continua a avaliar o telefone.

Leonel: Bem meu caro, já sei o que se ASTEROIDE se passa aqui. Então passo a explicar.

Avô: Não preciso de explicações homem. Só quero esse telefone mais alto para eu ouvir
melhor.

Leonel: Mais alto… Sim senhor. (Faz continência)

Volta a examinar o telefone. Pega nele, olha por cima, por baixo pelo lado… poisa o
telefone…afasta‐se e olha para ele…

Leonel: Bem, isto é um caso complicado… (ladra duas vezes) mas eu consigo resolver.
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Dá mais uma volta ao telefone e subitamente tem uma ideia. Abre a sua mala, tira
duas listas telefónicas e coloca‐as por baixo do telefone e faz um ar vitorioso.

Leonel: Ai está… Mais alto.

Dra. Noémia: Pronto, aqui está, uma anestesia que vai adormecer a sua cara toda.

Leonel arruma o seu saco e dirige‐se para a porta. A Dra. quando vai a espetar a agulha na
avó esta contrai‐se tanto que com o susto a Dra. dá um salto e acaba espetando a agulha
na cara de Leonel. Dra. Noémia fica em pânico.

Dra. Noémia: Ai desculpa Senhor Leonel. Peço imensas desculpas. O senhor está bem?

Leonel: Sim sim, Dra., está tudo bemmmmm (Leonel não consegue terminar a palavra e a sua
boca abre‐se e a lingua cai para fora.)

Dra. Noémia: Está bem Leonel?

Leonel: Uaaa uaaaaa uaaaaaaa (tenta com a mão por a língua para dentro mas ela volta
sempre a cair.)

Dra. Noémia: Não se preocupe Leonel. Isso dentro de 4 horas passa.

Leonel tenta falar, mas não consegue. Vai em direção a porta resmungando.

Dra Noémia: Lamento muito mas tenho que ir ao consultório buscar mais anestesia que era a
última que tinha comigo. Entretanto vá-se deitar um pouco e descansar.

Avó: Está bem Dra. Obrigado na mesma.

Avó acompanha Dra. a porta e segue para o quarto.


Inês entra em cena com Joana e sentam‐se no sofá

Joana: Bem minha filha, chegou uma altura muito importante na tua vida. Estás a descobrir
coisas novas e é normal ter perguntas. Está na altura de termos a tal conversa que todas as
mães e filhas devem ter.

Inês: Oh mãe, estás a brincar comigo.

Joana: Não filha, está na altura de eu te ensinar um processo que faz parte da vida de todas as
jovens. É normal e devemos estar sempre recetivos a aprender com quem mais sabe.

Inês: Mãe…a sério. Não vás por ai. Não precisas falar disso comigo.

Joana: Não precisas ter vergonha filha. Temos que aprender, ninguém nasce ensinado. Temos
que aprender o que é melhor para nós, aquilo que gostamos e o uso que lhe damos.

Inês: Isto está a ficar desconfortável mãe…

Joana: Sim, por vezes é desconfortável, ás vezes faz dor de cabeça… mas quando é assim faz‐se
sem mãos que ajuda sempre.

Inês: Sem mãos?

Joana: Claro Inês, os cientistas dizem que usar muito pode fazer mal e que o melhor remédio é
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usar sem mãos para não haver contacto direto.

Inês: Mas que raio… Mãe, isto está a ser estranho demais. Quero mudar de assunto.

Joana: Não filha. Como tua mãe sinto me na obrigação de falar isto contigo, de te encaminhar,
tal qual o meu pai me fez a mim. Falou comigo e até me ajudou na primeira vez.

Inês: O que? O avô Francisco ajudou te na primeira vez?

Joana: Claro que sim… eu estava muito nervosa e não sabia como agarrar. Então o meu pai
segurou para mim com uma mão para eu ver como era.

Inês: Eu não acredito nisto… que nojo.

Joana: Olha, então é assim, quando o tiveres na mão, tens que ter muito cuidado para não o
arranhar com as unhas.
Inês mostra‐se chocada.

Joana: Mas espera…não há nada como ter um na mão para perceberes melhor.

Joana fala para o avô.

Joana: Ó sogro, podemos usar um pouco o seu?

Inês fica enojada enquanto avô põe as mãos nas


calças.
Inês levanta‐se parva com a conversa e vai para o
quarto.
Tira o telemóvel e mostra para o público.

Joana: Juventude… Não entendem a importância de escolher bem o seu primeiro telemóvel.
Como os tempos mudam…

Joana sai da sala.


Marco entra em casa com uma faca muito grande na mão e senta‐se no sofá a olhar para
ela com ar tresloucado. O avô olha em pânico para ele.

Avô: Ah… Marco, o que é isso que tens na mão?

Marco: É uma naifa meu.

Avô: Quê?

Marco: Uma faca man…

Avô: E o que raio estás a fazer com essa faca? Onde arranjas-te isso?

Marco: Encontrei‐a…estava ali…sozinha…no parque…perdida…tadinha.

Avô: Uma faca dessas perdida? Estava mesmo perdida Marco?

Marco: Sim estava perdida… Mas estava à minha espera…como se o destino nos junta-se….
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Marco retira‐se para o quarto. Avô volta a agarrar no jornal.

Avô: Porra, só quero ver mamas em paz…noticias… noticias em paz e ninguém me deixa.

Inês entra na sala.

Inês: Avô, tenho que lhe pedir um favor, preciso que se retire para o seu quarto.

Avô: Quem é que está em trabalho de parto?

Inês: Não, PRECISO QUE SAIA DAQUI.

Avô: Sair daqui? Porque? Estou tão confortável aqui.

Inês: Eu sei avô, mas vem cá uma psicóloga falar comigo e preciso de privacidade.

Avô: Olha que ésta… era só o que me faltava, mais uma maluca cá em casa.

Avô retira‐se para o quarto e Inês deita‐se no sofá e baixa as luzes. Começa a ouvir‐se
uma musica lamechas como se fosse da mente de Inês. Entra a avó a dançar sozinha.
Toca a campaínha e musica para e luz levanta. Avó foge para dentro. Inês vai abrir. É a
psicóloga.

Dra. Ticha: Olá Inês, o meu nome é Ticha. Dra. Ticha.

Inês: Olá Dra. Faça favor de entrar.

Dra. Ticha: A questão é, queres que eu entre Inês?

Inês: Sim claro Dra, entre entre.

Inês volta a deitar se no sofá. Psicóloga senta‐se na poltrona do avô e abre um bloco.

Inês: Por onde devo começar Dra.?

Dra. Ticha: Começa pelo inicio Inês.

Inês: Eu não estou bem Dra.

Dra. Ticha: Hum…estou a ver…Se não estás bem, será porque estás mal.

Inês: Sim Dra., é isso. Estou mal.

Inês: Se estás mal…é porque não estás bem. Mas diz‐me, o que se passa?

Inês: Foi o Faísca Dra. Ele magoou‐me. Ele não gosta de mim… Mas eu gosto tanto dele.

Dra Ticha: Se gostas dele, é porque não o odeias…

Inês: Não, neste momento odeio muito.

Dta Ticha: Hum…estou a ver. Então se o odeias será porque não gostas dele…

Inês olha para Dra. com ar confuso, mas continua.


25

Inês: Então eu vou lhe contar o que aconteceu.

Dra Ticha: Então se me vais contar…é porque não vais estar calada.

Inês: Então mas é suposto estar calada?

Dra Ticha: A questão é: Queres estar calada?

Inês: Não!

Dra Ticha: Então se não queres estar calada é porque queres falar…

Inês: Então foi assim, eu andava com o Faísca, ele queria foni foni, mas eu não me sentia
preparada. Achei que ainda não seria altura certa para o fazer, e ao que parece esta
informação chegou a Raquel que como é uma linguaruda foi logo dar com a língua nos dentes.

A Dra levanta‐se com ar de seca e começa a passear pela sala a mexer nas coisas.

Inês: O Faísca depois de saber isto tudo ficou chateado e telefonema após telefonema, a
noticia correu a escola toda e ao que parece ele diz que se eu não fizer com ele, ele vai fazer
com a Raquel. Todos sabemos que a Raquel se devia chamar Maria, Maria vai com todos,
porque ela já percorreu a escola toda, só lhe falta o Faísca, mas ele como é estúpido ainda
vai cair nas mãos dela.

A Dra. volta a sentar‐se e tira uma garrafa de vinho da mala, vai buscar um copo ao
armário e começa a beber.

Inês: Agora não sei o que fazer porque gosto muito dele, mas se ele só pensa nisso não
posso ficar com ele. Acha isto normal Dra.?

Dra. Ticha: Hum…se não é normal, só poderá ser anormal.

Inês: Exato Dra., ele é um anormal. Ele não me merece. Foi injusto comigo.

Dra. Ticha: Então se foi injusto… é porque não foi justo.

Dra. olha para o relógio e arruma tudo.

Dra. Ticha: Bem, o nosso tempo acabou, foi uma boa sessão. Aprendemos muito e
analisámos muito. São 375 Euros por favor.

Inês levanta‐se chocada.

Inês: Desculpe? 375 Euros por 10 minutos a dizer o óbvio? Mas onde raio isso é normal?

Dra. Ticha: Minha querida, eu tirei o meu curso de psicologia com o grande Professor Bambo.
Ele ensinou‐me tudo o que sei. E os meus honorários são estes. 15 minutos da minha
preciosa ajuda são 375 euros.

Inês: Recuso‐me, não pago.

Dra. Ticha: Desculpa? Ouve lá minha maluca dum raio, eu não tenho nada que levar com
os teus problemas vaginais. Se te queres manter pura até ao casamento o problema é teu,
não sabes o que perdes. Agora, se eu tenho que te aturar a falar disso, tens que pagar.
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Inês: Não pago!

Dra. Ticha: Ou pagas ou eu chamo a polícia, que por acaso são meus clientes também e
satisfeitos.

Inês abre a porta e aponta para a rua.

Inês: Chame lá que quiser, eu não pago e pronto.

Dra. sai.

Inês: E Dra. Se eu a estou a por na rua…é porque não a quero cá dentro.

Fecha a porta na cara da Dra. e sai para o quarto.


Avô volta para o seu lugar.

Avô: Há aqui qualquer coisa diferente…algo não está bem. Alguém sentou o cu no meu sofá.

Avô levanta‐se e começa a passar a mão no sofá.

Avô: Hum… Cu grandinho…com óculos…calças pretas… (Passa a mão no nariz) Comeu


feijoada…Hum. Se sentou na minha poltrona…é porque não ficou em pé.

Avô senta‐se com ar pensativo… A luz baixa e recomeça a musica lamechas. Avó volta a
entrar em cena a dançar e nem repara no avô. Dança pela sala toda enquanto o avô
olha para ela. Avô com ar de gozo põe o aparelho e grita pra avó.

Avô: MAS QUE RAIO É ISSO?

Avó: Eu…eu…estava só a limpar o pó. (fingindo que limpa)

Avô: Limpar o pó… Parecias era uma vaca com a doença das vacas loucas.

Avó: Olha, VACA É A MULA DA TU MÃE.

Avô: Mas é vaca ou mula? Decide‐te. E tu não chames nomes á minha mãezinha que Deus
a tenha. Ela era uma santa…tinha toda a razão, sempre a dizer para não casar contigo…que
eras arraçada de bruxa.

Avô sai atrás da avó.


Rosário entra de novo na sala e olha em volta. Depois de ver que não estava ninguém,
enche um copo com vinho, senta‐se na poltrona com os pés na mesa e relaxa...

Rosário: Ixto é que é vida... Ninguém em caxa... caxa só pra mim... Patrão fora dia xanto na
loja.

Bebe vinho e fica deitada na calma... no silêncio. Até que entra de repente a Joana na sala
com o Marco vestido de mulher. Rosário, muito lentamente encolhe‐se no chão ficando de
gatas a frente da poltrona sem ninguém a ver.

Joana: Ainda és muito novo para andar com facas assim Marco, e se magoas alguém?

Marco: Não magoou ninguém, mas assim também sei que ninguém me magoa, se alguém se
meter comigo leva logo uma naifada.
27

Joana: Sim claro, qualquer pessoa anda com uma faca desse tamanho pela rua, não é... mais
vale andares com uma motosserra no bolso, não vá ser preciso.

Marco: Posso comprar uma?

Joana: Não sejas parvo, não ficas nem com faca, nem com motosserra.

Sai para o quarto e o Marco vai atrás, mas ouve um som. Nisto, Rosário mexe‐se e deixa o
copo tombar.
Marco: Que foi isto? Quem está ai?

Rosário: Miau... miaaaaaaauuuuuu.

Marco: Raios parta o gato.

Joana volta para a sala com a faca e dirige‐se para a porta.

Marco: Mas onde vais?

Joana: Vou à polícia, levar esta faca que é uma arma.

Marco: Estás doida? Essa faca vale uma fortuna, temos que a guardar.

Joana: Não, vou entregá‐la a polícia. E acabou a conversa.

Marco: Sempre a mesma coisa, nunca posso ter nada meu. (Sai da sala chateado)

Joana dirige‐se a porta, mas ouve um som. Ao ir andando para a cozinha, a criada deixa
cair o copo.

Joana: O que foi isto? Quem está aí?

Rosário: Miauuuuuu... é o gatoooooo.

Joana: Raios parta o gato. (E sai de casa).

Rosário levanta‐se e vai para a cozinha.


Entra Marco de novo e senta‐se.

Marco: Não sei o que se passa comigo... Num momento sinto‐me uma coisa, noutro
momento sinto outra. Hoje desejo a pela macia de uma mulher, noutro dia desejo os pêlos
de um Homem... Mas o que se passa comigo?!

Entra Avó na sala.

Avó: O que se passa Marco? Que carinha é essa?

Marco: Eu estou confuso avó, não sei o que quero nem quando quero.

Avó: Em relação a quê Marco?


28

Marco: Não sei se gosto mais de...digamos...salsichas ou ovos?

Avó: Eu cá adoro ovos.

Marco: Hã?

Avó: Sim, sim, eu prefiro ovos. Antes gostava muito de salsicha, era todos os dias se eu
pudesse, muitas vezes duas vezes ao dia. E gostava mesmo daquelas grandes, as alemãs.
Depois de uma daquelas ficava logo cheia.

Marco: Então mas... agora gosta de ovos?

Avó: Sim... fartei me de comer salsichas. Acho que é por ter provado todas as salsichas que
havia, fiquei sem nada de novo. Então decidi virar‐me para os ovos...

Marco: Então mas...e o avô sabe disso?

Avó: Claro que sim, ele até me leva a comer ovos de vez em quando. Se bem que eu não
gosto muito de ter de pagar para comer o que posso comer aqui em casa.

Marco faz um ar estupefacto.

Marco: A avó... come ovos cá em casa?

Avó: Claro que sim... Adoro o ovo da Rosário.

Marco: A avó já comeu o ovo da Rosário?

Avó: Claro que sim, mais que uma vez. Ás vezes, durante à noite dá-me assim umas vontades,
então tenho que ir bater ao quarto da Rosário e pedir-lhe para me dar ovo.

Marco: Então... mas.... a avó... gosta de ovos? Tipo...gosta mesmo?

Avó: Sim gosto mesmo.

Marco: Então a avó é.... Fufa?

Avó: Sou o quê? Fofa? Agora diz‐se Fufa? Nunca vou perceber esses dialetos. Mas és um
querido. Tu também amor. És uma fufa também. (E sai da sala)

Marco fica com ar perdido. Entra avô e senta‐se.

Avô: Então, que cara é essa?

Marco: O avô sabe que a avó durante a noite vai comer o... ovo da Rosário?

Avô: Claro que sim... eu sei que ela adora isso. O que ela não sabe é que eu as vezes
durante a noite vou comer salsichas com o teu pai.

Marco sai a correr enojado da sala.

Avô: Olha olha, agora não posso comer salsicha descansado. Isto anda tudo doido.

Batem de novo a porta, Inês vem abrir. É a Ticha e a polícia.


29

Ticha: É aqui senhor agente... Ela é a ladra que não me quer pagar.

Entram em casa.

Agente Roberto: Ora bem, então a senhora usou os serviços desta colega e não quer pagar
é isso?

Inês: Mas quais serviços? Ela é que usou o meu serviço. Usou o meu serviço de loiça para
beber enquanto eu estava ali a falar.

Agente Roberto: Mas se estava a falar não estava calada, logo tem que pagar.

Inês: Mas ela não me ajudou em nada, fui eu que fiz tudo sozinha...

Nisto entra Joana em casa com a faca na mão.

Joana: Fui lá para dar a faca e não estava ninguém.

O polícia ao ver a mulher com a faca assusta‐se e pega na arma.

Agente Roberto: QUIETA. QUIETA. NÃO MEXE. MÃOS NO AR.

Joana em pânico grita e levanta as mãos.

Agente Roberto: NÃO MEXE... POISA A FACA MUITO LENTAMENTE.

Joana larga logo a faca para o chão.

Joana: Mas o que é isto, eu não fiz nada... eu só ia entregar a faca à polícia.

O agente aproxima‐se lentamente de Joana e coloca‐lhe algemas.

Agente Roberto: A SENHORA ESTÁ PRESA POR POSSE DE ARMA BRANCA E TENTATIVA DE
AGRESSÃO A UM AGENTE DA AUTORIDADE.

Joana: Mas eu não tentei agredir ninguém. Eu ia a polícia entregar a arma.

Agente Roberto: Esclarecemos isso na esquadra.

Entra Marco na sala e vê a mãe a ser algemada e a Inês a discutir com a Ticha.

Marco: Mas que raio se passa aqui?

Marco vai ter com o polícia para discutir com ele. Avô levanta-se para defender Marco.

Agente Roberto: TODOS QUIETOS. DEITADOS NO CHÃO E MÃOS NAS COSTAS.

Todos se deitam e deixam-se algemar. Entra Rosário na sala e todos olham para ela.

Rosário: Ixto realmente parexe impossivle, nada funxiona nexta caxa. Agora o raio do cano
intupiu, e a áuga num corre. Quero coxinhar num tenho fuorno, quero lavar, num tenho
canos, poxa que num tenho nada.
30

Agarra no telefone e liga.

Rosário: Extou Leonel, anda cá xima ver o raio do cano k ta intupido. Num corre nada. Até
xa.

Leonel bate a porta e todos olham para a porta. Ele entra na sala e fica a olhar para todos
com ar assustado.

Rosário: Não liguex Leonel, anda lá, max é ver o cano que num corre nada.

Ambos entram na cozinha e todos continuam a discutir.

Passado um tempo voltam Leonel e Rosário todos sorridentes da cozinha ainda a vestirem‐
se.

Todos olham para eles.

Rosário: Obrigado por teres desentupido o meu cano... agora tudo corre
naturalmente. Finalmente conseguiste arranjar algo.

Ao ouvirem isto todos se dirigem ao Leonel e fazem uma grande festa por ele ter
conseguido arranjar algo. Todos ficam num círculo a felicitar o Leonel.

Começa a ouvir se o barulho de canos e todos percorrem a sala com os olhos até ficarem a
olhar para a cozinha. Nisto ouve‐se um cano a rebentar e um jato de água sai da cozinha e
molha toda a gente. Todos começam a discutir com Leonel e expulsam no de casa. Todos
saem de casa aos gritos excepto o avô e a avó que voltam a sentar se como no inicio.

Avó: Realmente… esta casa está cada vez pior… O Marco anda armado em esquesito não sabe
o que quer. A Inês anda com a mania que é santinha. A Joana não toma conta do marido. O Rui
desapareceu e ninguém sabe dele. Vou é ligar-lhe.

Avó pega no telephone e liga para Rui. Toca o telephone de uma pessoa do público. Este
atende.

Rui: Estou?

Avó: Estou Rui, onde é que tu estás que ninguém sabe de ti filho?

Rui: Eu vim ao teatro mãe.

Avó: Ao teatro filho? Com quem?

Rui: Vim sozinho… O Leonel arranjou me um bilhete. Mas olha, esta peça está a ser uma treta.
É que não tem piada nenhuma…

Avó: Então filho, e estás ao telefone durante a peça?

Rui: Sim Então… ninguém… Ups.

Rui olha em volta e ao aperceber que estão todos a aolhar para ele desliga o telefone…

Avó: Olha o teu filho está muito estranho. Diz que foi ver uma peça de teatro sozinho.

Avô: Sim eu sei que ele foi ver cuzinho.


31

Avó: O quê?

Avô: Nada nada… e eu é que sou surdo. Sabes muito…Só ouves o que queres.

Avó estende a mão ao avõ e este percebe. Levanta-se e senta-se ao pé dela. Dá-lhe a mão
como no inicio… ficam os dois a rir internamente.
O sofa “parte-se” e cai para trás com eles dois sentados. Luzes apagam-se e ambos gritam ao
mesmo tempo “Leonel”.

FIM

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