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A Bela e o Monstro: Conto Clássico

O documento descreve o conto de fadas clássico 'A Bela e o Monstro' da autora francesa Jeanne-Marie Leprince de Beaumont. Conta a história de uma bela jovem cujo pai perde a fortuna e eles são forçados a mudar-se para o campo. Quando o pai parte para recuperar sua fortuna, pede apenas uma rosa à filha. No caminho de volta, ele se perde em uma floresta durante uma tempestade de neve e encontra um palácio misterioso.

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A Bela e o Monstro: Conto Clássico

O documento descreve o conto de fadas clássico 'A Bela e o Monstro' da autora francesa Jeanne-Marie Leprince de Beaumont. Conta a história de uma bela jovem cujo pai perde a fortuna e eles são forçados a mudar-se para o campo. Quando o pai parte para recuperar sua fortuna, pede apenas uma rosa à filha. No caminho de volta, ele se perde em uma floresta durante uma tempestade de neve e encontra um palácio misterioso.

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A Bela e o Monstro - Texto

Enviado por Joao Costa

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Dados do documento 
O documento descreve Jeanne-Marie Leprince de Be…

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Título original
A Bela e o Monstro _ Texto
Jeanne-Marie Leprince de Beaumont
Direitos autorais
(1711-1780)
© © All Rights Reserved JEANNE-MARIE LEPRINCE DE BEAUMONT nasce em Rouen, em 1711, e contrai
matrimónio em Lunèville, mas o seu casamento será anulado pouco tempo depois. Em
1748, escreve o seu primeiro romance, O Triunfo da Verdade , que ela própria dará a ler ao
rei da Polónia, então retirado em Lunèville.
Formatos disponíveis Constrangida a ganhar a vida, parte para Inglaterra, onde se instala como
governanta. Sob o título Magasin, faz publicar tratados de educação para uso de crianças,

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adolescentes e senhoras. Do seu segundo matrimónio, em Londres, com Thomas
Pynchon, nascerão seis filhos.
De regresso a França, entrega-se à jardinagem e ao cultivo das suas terras, bem
como à composição de mais alguns textos de história, gramática e teologia.
Morre em Chavanod, em 1780.

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Das suas obras destacam-se Cida, Rei de Burgo, Anedotas do Século XIV , Cartas Curiosas, A Nova Clarisse e Novos Contos
Morais. Deve, contudo, a celebridade à versão que, num registo moralizante mas saboroso, nos legou de um belíssimo e conhecido
conto de fadas tradicional a que daria o título La Belle et la Bête (A Bela e O Monstro ) e que publicou em Le Magasin des Enfants
(1757). Esta obra, traduzida para diversos idiomas, converteu-se num caso de sucesso à escala europeia, sendo hoje considerada

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como um dos livros precursores da moderna l iteratura para crianças. Quanto ao conto A Bela e o Monstro, rapidamente se transformou
num “clássico” dessa mesma literatura.

A Bela e o Monstro
Facebook Twitter Porto: Porto Editora, 2005
Tradução: Maria Teresa dos Santos Silva

Era uma vez um comerciante muito rico. Tinha seis filhos, três rapazes e três raparigas; e, como era um homem inteligente,


nada poupou na educação das crianças, tendo-lhes dado os melhores professores.
As filhas eram muito bonitas; mas a mais nova, em especial, despertava a admiração de todos e, quando era pequena, só lhe
chamavam «a bela menina», de tal modo que o nome lhe ficou, o que causava muita inveja às irmãs. Além de mais bonita que as
irmãs, esta menina era também melhor do que elas. As duas mais velhas eram muito orgulhosas, por serem ricas: armavam-se em
grandes damas e não queriam receber as visitas das outras filhas de comerciantes; só desejavam para sua companhia gente
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importante. Iam todos os dias passear ao baile e ao teatro e troçavam da mais nova, que passava a maior parte do tempo a ler bons
livros. Como se sabia que estas meninas eram muito ricas, vários foram os grandes comerciantes que as pediram em casamento; mas
as duas mais velhas responderam que nunca se casariam, a menos que encontrassem um duque ou, pelo menos, um conde. Bela —
que, como lhes disse, era o nome da mais nova — agradeceu muito sinceramente aos que queriam casar com ela, mas disse-lhes que
era muito nova e que queria fazer companhia ao pai mais alguns anos.
Ora o comerciante perdeu de repente a fortuna e só lhe restou uma casinha no campo, bem longe da cidade. A chorar, disse
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filhos que tinham de ir morar nessa casa e que poderiam viver trabalhando como agricultores. As duas filhas mais velhas
responderam que não queriam a cidade e que os seus vários pretendentes muito felizes ficariam por casar com elas, apesar de
já não possuírem fortuna. Mas as meninas estavam enganadas: quando ficaram pobres, os pretendentes não quiseram saber mais
delas. E, como já ninguém as desejava por causa do seu orgulho, diziam: «Não merecem a nossa compaixão; ficamos contentes por
ver o seu orgulho humilhado. Que se armem em damas a guardar ovelhas!» Ao mesmo tempo, porém, todos afirmavam: «Temos muita
pena da infelicidade de Bela. É tão boa menina: falava aos pobres com tanta bondade, era tão doce, tão honesta!» Houve mesmo
vários fidalgos que com ela quiseram casar, apesar de não ter um centavo; mas ela disse-lhes que não podia abandonar o pai na sua
infelicidade, e que iria para o campo a fim de o consolar e ajudar no trabalho. A pobre Bela ficou bem aflita por perder a sua fortuna,
mas pensou para consigo que, por muito que chorasse, isso não traria o dinheiro de volta e que era preciso tentar ser feliz sem ele.
Quando chegaram à casa de campo, o comerciante e os três filhos ocuparam-se a lavrar a terra. Bela levantava-se às quatro
horas da manhã e tratava logo de limpar a casa e de preparar o almoço para a família. De princípio custou-lhe muito, porque não
estava habituada a trabalhar como uma criada; mas, ao fim de dois meses, tornou-se mais forte e o trabalho deu-lhe uma saúde
perfeita. Depois de fazer as suas lides, lia, tocava cravo ou cantava enquanto fiava. As irmãs, pelo contrário, aborreciam-se de morte;
levantavam-se às dez horas da manhã, passeavam todo o dia e entretinham-se a recordar as belas roupas e as companhias perdidas.
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«Olha a nossa irmã mais nova», diziam uma à outra, «tem a alma pequena e é tão estúpida que está contente com a sua infeliz
situação.»
O bom comerciante não pensava como as filhas. Sabia que Bela era mais capaz do que as irmãs de brilhar na sociedade,
admirava a virtude dessa menina e, principalmente, a sua paciência; porque as irmãs, não contentes em deixá-la fazer todo o trabalho
da casa, ainda a insultavam constantemente.
Havia um ano que esta família vivia na solidão, quando o comerciante recebeu uma carta, em que lhe comunicavam que um
navio, no qual ele tinha as suas mercadorias, regressara sem problemas. Esta notícia deu volta à cabeça das duas irmãs mais velhas,
pois pensavam que poderiam enfim deixar o campo, onde tanto se aborreciam. E, quando viram o pai pronto para partir, pediram-lhe

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que lhes trouxesse vestidos, guloseimas, cabeleiras e toda a espécie de bagatelas. Bela não lhe pediu nada; porque pensava para
consigo que todo o dinheiro das mercadorias não iria chegar para comprar o que as irmãs desejavam.
«Não me pedes para te comprar nada?», perguntou-lhe o pai.
«Já que tem a bondade de pensar em mim», disse-lhe ela, «peço-lhe para me trazer uma rosa, porque não aparecem por
aqui.»
Não é que Bela se preocupasse com uma rosa, mas não queria condenar com o seu exemplo a conduta das irmãs, pois estas
diriam que era para se distinguir que não pedia nada. O bom homem partiu; mas, quando chegou ao destino, teve de enfrentar um
processo por causa das mercadorias e, depois de ter passado por muitas aflições, regressou tão pobre como estava antes. Só faltavam
três milhas para chegar a casa e já se alegrava com a ideia de ver os filhos; mas, como era preciso passar por um grande bosque,
antes de encontrar a casa, perdeu-se.
Nevava horrivelmente; o vento era tão forte que o atirou duas vezes abaixo do cavalo e, tendo chegado a noite, pensou que
morreria de fome ou de frio, ou que seria comido pelos lobos que ouvia uivar à sua volta.
De súbito, olhando ao longo de uma alameda de árvores, viu uma grande luz, mas que parecia muito distante. Caminhou nessa
direcção, e percebeu que a luz saía de um grande palácio todo iluminado. O comerciante agradeceu a Deus pelo socorro que lhe
mandava e apressou-se a chegar; mas ficou muito surpreendido por não encontrar ninguém nos pátios. O cavalo que o seguia, ao ver
uma cavalariça aberta, entrou e, encontrando feno e aveia, o pobre animal, que morria de fome, atirou-se a eles com avidez. O
comerciante amarrou-o na cavalariça e dirigiu-se à casa, mas não encontrou ninguém. Entrou numa grande sala e deparou com um
bom fogo e uma mesa cheia de carne, onde só havia um talher. Como a chuva e a neve o tinham molhado até aos ossos, aproximou-
se do fogo para se secar, dizendo para si próprio que o dono da casa ou os criados lhe perdoariam a liberdade que tomara e que sem
dúvida viriam dentro em pouco. Esperou durante um tempo considerável; mas, ao soarem as onze horas, sem ver ninguém, não
conseguiu resistir à fome e pegou num frango, que comeu em duas dentadas, tremendo. Bebeu também alguns tragos de vinho e,
tornando-se mais ousado, saiu da sala e atravessou vários aposentos grandes e magnificamente mobilados. Por fim, encontrou um
quarto onde havia uma boa cama e, como já passava da meia-noite e estava cansado, resolveu fechar a porta e deitar-se.
Eram dez horas da manhã quando se levantou, no dia seguinte, e ficou surpreendido por encontrar um fato limpo no lugar do
dele que estava todo estragado. «Certamente», disse para consigo, «este palácio pertence a alguma boa fada que teve pena da minha
situação.»
Olhou pela janela e não viu neve, mas canteiros de flores que encantavam a vista; regressou à sala grande onde tinha ceado
na véspera e viu uma mesinha com chocolate quente.
«Agradeço-lhe, senhora fada», disse em voz alta, «por ter tido a bondade de pensar no meu almoço.»
O bom homem, depois de ter tomado o seu chocolate, saiu para ir buscar o cavalo e, ao passar por um canteiro de rosas,
lembrou-se do pedido de Bela e colheu um pé onde havia várias flores. Nesse mesmo instante, ouviu um grande barulho e viu vir na
sua direcção um monstro tão horrível que esteve prestes a desmaiar.
«Sois muito ingrato», disse-lhe o Monstro com uma voz terrível. «Salvei-vos a vida, recebendo-vos no meu palácio e, para meu
desgosto, roubastes-me as rosas de que gosto mais do que de tudo no mundo. Tendes de morrer para reparardes essa culpa; só vos
dou um quarto de hora para pedirdes perdão a Deus.»
O comerciante caiu de joelhos e disse ao Monstro juntando as mãos:
«Meu senhor, perdoai-me, não sabia que vos estava a ofender colhendo uma rosa para uma das minhas filhas que ma tinha
pedido.»
«Não me chamo “meu senhor”», respondeu o animal, «mas Monstro. Não gosto de amabilidades, gosto que digam aquilo que
pensam; por isso, não penseis em comover-me com os vossos elogios. Mas dissestes que tínheis filhas; estou disposto a perdoar-vos
na condição de que uma delas venha voluntariamente para morrer em vosso lugar. Não discutais comigo; parti e se as vossas filhas
recusarem morrer por vós, jurai que voltareis dentro de três meses.»
O bom homem não tinha a intenção de sacrificar uma das filhas àquele horrível Monstro: mas pensou que, pelo menos, teria o
prazer de as abraçar mais uma vez. Jurou, pois, voltar e o Monstro disse-lhe que podia partir quando quisesse. «Mas», acrescentou
ele, «não quero que partais de mãos vazias. Voltai ao quarto onde dormistes e aí encontrareis uma mala vazia; podeis meter nela tudo
o que vos agradar, que eu a mandarei pôr em vossa casa.» Ao mesmo tempo, o Monstro retirou-se e o homem disse para consigo que,
já que era necessário morrer, ao menos teria a consolação de deixar pão aos seus pobres filhos.
Regressou ao quarto onde tinha dormido e, tendo encontrado lá uma enorme quantidade de moedas de ouro, encheu o malão
de que o monstro lhe falara. Fechou-o e, pegando no cavalo que encontrou na cavalariça, saiu do palácio com uma tristeza igual à
alegria que sentira quando lá entrara. O cavalo tomou uma das estradas da floresta e, em poucas horas, o bom homem chegou à sua
casinha. Os filhos juntaram-se à volta dele, mas, em vez de ser sensível às suas carícias, o comerciante pôs-se a chorar olhando para
eles. Segurava na mão o pé de roseira que trazia a Bela. Deu-lho e disse:
«Bela, pega nestas rosas; elas custarão bem caro ao teu infeliz pai.». E logo contou à família a funesta aventura que lhe
acontecera. De imediato, as duas mais velhas começaram a soltar grandes gritos, injuriando a Bela que não chorava.
«Vejam no que deu o orgulho desta criaturinha», diziam elas. «Porque não pediu ela adornos como nós? Mas não, a menina
queria ser diferente; vai causar a morte do nosso pai e nem chora.»

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«Isso seria inútil», respondeu Bela. «Porque havia eu de chorar a morte do nosso pai? Ele não vai morrer. Já que o Monstro
quer aceitar uma das suas filhas, estou disposta a abandonar-me à sua fúria e sinto-me muito feliz, porque, morrendo, terei a alegria de
salvar meu pai e de lhe provar o meu amor.»
«Não, minha irmã», declararam os três irmãos, «não morrerás. Nós iremos procurar esse Monstro, e morreremos às suas
mãos, se não pudermos matá-lo.»
«Não contem com isso, meus filhos», disse o comerciante. «O poder desse Monstro é tão grande que não me resta esperança
alguma de o matar. Estou encantado com o bom coração de Bela, mas não quero expô-la à morte. Sou velho, pouco me resta para
viver. Assim, apenas perderei alguns anos de vida, que só lamento por causa de vós, meus queridos filhos.»
«Garanto-vos, meu pai», disse-lhe Bela, «que não ireis a esse palácio sem mim; não podereis impedir-me de vos seguir.
Embora seja nova, não estou muito presa à vida e prefiro ser devorada por este Monstro do que morrer do desgosto que teria com a
vossa perda.»
Por mais que insistissem, Bela quis por força partir para o belo palácio e as irmãs ficaram encantadas, porque a virtude da mais
nova lhes tinha inspirado muita inveja. O comerciante estava tão ocupado com a dor de perder a filha que não pensava no malão que
tinha enchido de ouro; mas, mal se fechou no quarto para se deitar, bem surpreendido ficou de o encontrar entre a cama e a parede.
Resolveu não dizer aos filhos que se tinha tornado rico, porque as filhas quereriam voltar para a cidade e ele estava resolvido a morrer
no campo. Mas confiou o seu segredo a Bela. Esta comunicou-lhe que, durante a sua ausência, tinham vindo alguns fidalgos e que dois
deles amavam as suas irmãs. Pediu ao pai para as casar, porque ela era tão boa que as amava e lhes perdoava de todo o coração o
mal que lhe haviam feito.
Essas duas irmãs pérfidas esfregaram os olhos com cebola para chorar quando Bela partiu com o pai; mas os irmãos
choravam de verdade, assim como o comerciante. Só Bela não chorava, pois não queria aumentar a dor deles. O cavalo tomou então o
caminho do palácio e, quando já era noite, viram-no iluminado, como da primeira vez. O cavalo dirigiu-se para a cavalariça e o bom
homem entrou com a filha na sala grande, onde encontraram uma mesa, magnificamente servida, com dois talheres. O comerciante
não tinha coragem para comer; mas Bela, esforçando-se por parecer tranquila, sentou-se à mesa e serviu-o; depois dizia para consigo:
«O Monstro quer engordar-me antes de me comer, visto que me dá tão boa comida.»
Quando acabaram de cear, ouviram um grande barulho e o comerciante disse adeus à filha, chorando, porque pensava tratar-
se do Monstro. Bela não pôde impedir-se de estremecer, ao ver aquela horrível figura; mas recompôs-se o melhor que pôde e, quando
o Monstro lhe perguntou se fora de livre vontade que viera, ela, tremendo, respondeu que sim.
«Sois tão boa», disse o Monstro, «que vos estou agradecido. Bom homem, parti amanhã de manhã e não vos atreveis a voltar
aqui nunca mais. Adeus, Bela.»
«Adeus, Monstro», respondeu ela. E logo o Monstro se retirou.
«Ah, minha filha!», disse o comerciante beijando Bela, «estou meio morto de medo. Deixai-me ficar aqui!»
«Não, meu pai», disse Bela com firmeza. «Partireis amanhã de manhã e abandonar-me-eis ao socorro do Céu, que talvez se
apiede de mim.»
Foram deitar-se e pensaram que não dormiriam toda a noite, mas, mal se deitaram na cama, os olhos fecharam-se-lhes.
Durante o sono, Bela viu uma dama que lhe disse: «Estou contente com o teu bom coração, Bela; a boa acção que fazes, dando a vida
para salvar teu pai, não ficará sem recompensa.»
Bela acordou, contou ao pai o sonho e, embora este o consolasse um pouco, não conseguiu impedi-lo de soltar grandes gritos,
quando teve de se separar da filha querida. Quando o pai partiu, Bela sentou-se na grande sala e pôs-se a chorar; mas, como era
muito corajosa, encomendou-se a Deus e resolveu não se afligir no pouco tempo que lhe restava para viver; porque ela acreditava
firmemente que o Monstro a comeria nessa noite. Resolveu passear, entretanto, e visitar aquele belo castelo. Não podia deixar de
admirar a sua beleza. Mas ficou surpreendida por encontrar uma porta sobre a qual estava escrito: «Aposentos da Bela». Abriu essa
porta com precipitação e ficou deslumbrada com a magnificência que lá reinava, mas o que mais atraiu o seu olhar foi um grande
armário com livros, um cravo e vários livros de música.
«Não querem que me aborreça», disse ela baixo. Pensou em seguida que, se tivesse só um dia para ali permanecer, não lhe
teriam preparado tal provisão. Este pensamento reanimou a sua coragem. Abriu o armário e viu um livro, onde estava escrito em letras
de oiro: «Desejai, ordenai; sois aqui a rainha e a senhora».
«Ai de mim! Só desejo tornar a ver o meu pobre pai e saber o que ele está a fazer», disse para si própria, suspirando. Qual não
foi a sua surpresa ao deitar os olhos para o grande espelho e ao ver nele a sua casa, onde o pai chegava com uma cara extremamente
triste. As irmãs vinham ao seu encontro e, apesar das caretas que faziam para parecerem aflitas, a alegria que sentiam pela perda da
irmã era visível nos rostos. Um momento depois, tudo desapareceu e a Bela não pôde impedir-se de pensar que o Monstro era bem
complacente e que nada tinha a recear dele. Ao meio-dia, encontrou a mesa posta e, durante o almoço, ouviu um excelente concerto,
embora não visse ninguém. À noite, quando se ia sentar à mesa, ouviu o barulho que fazia o Monstro e não pôde evitar estremecer.
«Bela», disse o Monstro, «importais-vos que vos veja cear?»
«Vós sois o senhor», respondeu Bela tremendo.
«Não», disse o Monstro, «aqui não há outra senhora senão vós. Só tereis de me dizer para me ir embora, se vos aborreço;
sairei imediatamente. Dizei-me, não achais que sou muito feio?»
«É verdade», disse Bela, «eu não sei mentir, mas acho que sois muito bom.»

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«Tendes razão», tornou o Monstro, «mas, além de ser feio, não tenho inteligência: sei que não passo de um animal.»
«Não se é estúpido», retomou Bela, «quando se acredita não se ser inteligente: um tolo nunca saberia isso.»
«Comei então, Bela», disse-lhe o Monstro, «e tratai de não vos aborrecerdes em minha casa; porque tudo isto é vosso e ficaria
desgostoso se não estivésseis contente.»
«Sois muito bondoso», disse Bela. «Confesso-vos que estou muito contente com o vosso coração; quando penso nisso, já não
me pareceis tão feio.»
«Oh, sim», respondeu o Monstro, «tenho bom coração, mas sou um Monstro.»
«Há muitos homens que são mais monstros do que vós», disse Bela, «e gosto mais de vós com a vossa aparência do que
daqueles que, com figura de homens, escondem um coração falso, corrupto e ingrato.»
«Se eu fosse inteligente», tornou o Monstro, «fazia-vos um cumprimento para vos agradecer, mas sou um estúpido; e tudo o
que posso dizer é que vos estou muito agradecido.»
Bela ceou com apetite. Parecia-lhe que não tinha medo do Monstro; mas quase morreu de susto quando ele perguntou:
«Bela, quereis ser minha mulher?»
Ficou algum tempo sem responder, tinha medo de excitar a cólera do Monstro recusando-o, mas disse tremendo:
«Não, Monstro.» Nesse momento, o pobre Monstro quis suspirar, mas produziu um assobio tão aterrador que todo o palácio
ressoou. Bela, no entanto, depressa ficou sossegada; porque o Monstro lhe disse tristemente: «Adeus, Bela» e saiu do quarto, virando-
se de vez em quando para a olhar mais uma vez.
Bela, ficando só, sentiu grande compaixão por aquele Monstro: «Ai de mim», dizia ela, «é uma pena que ele seja tão feio. É tão
bondoso!»
A menina passou três meses no palácio com bastante tranquilidade. Todas as noites o Monstro lhe fazia uma visita, entretinha-
a durante a ceia com bastante bom senso, mas nunca com aquilo a que no mundo se chama espírito. O hábito de o ver tinha-a
acostumado à sua fealdade e, longe de recear o momento da sua visita, olhava muitas vezes para o relógio, para ver se já eram nove
horas; porque o Monstro nunca deixava de vir a essa hora.
Só havia uma coisa que fazia pena a Bela. É que o Monstro, antes de se deitar, perguntava-lhe sempre se ela queria ser sua
mulher e parecia penetrado pela dor quando ela lhe dizia que não. Até que ela lhe disse um dia:
«Desgostais-me, Monstro, eu queria poder casar-me convosco, mas sou demasiado sincera para vos fazer crer que isso
acontecerá um dia. Serei sempre vossa amiga. Tentai contentar-vos com isso.»
«Que remédio», respondeu o Monstro. «Faço-me justiça. Sei que sou horrível, mas amo-vos muito. No entanto, já estou muito
feliz de que queirais permanecer aqui. Prometei-me que nunca me abandonareis.»
Bela corou com estas palavras. Tinha visto no seu espelho que o pai estava doente de desgosto por a ter perdido, e desejava
voltar a vê-lo.
«Eu poderia prometer-vos», disse ela ao Monstro, «que nunca vos deixarei, mas tenho tanta vontade de voltar a ver meu pai,
que morrerei de dor se me recusardes esse prazer.»
«Prefiro morrer eu próprio», disse o Monstro, «do que desgostar-vos. Vou mandar-vos a casa do vosso pai, ficareis por lá e o
vosso pobre Monstro morrerá de dor.»
«Não», disse Bela chorando, «amo-vos de mais para querer causar a vossa morte. Prometo-vos regressar dentro de oito dias.
Fizestes-me ver que as minhas irmãs estão casadas e que os meus irmãos partiram para servir no exército. O meu pai está só,
consenti que fique com ele uma semana.»
«Estareis lá amanhã de manhã», disse o Monstro, «mas lembrai-vos da vossa promessa. Quando quiserdes regressar, só
tereis de pôr o anel em cima de uma mesa ao deitar. Adeus, Bela.»
O Monstro suspirou como de costume ao dizer estas palavras e Bela deitou-se muito triste por o ver aflito. Quando acordou de
manhã, encontrava-se em casa do pai e, tendo tocado uma sineta que estava ao lado da cama, viu chegar uma criada que deu um
grande grito ao vê-la. O velho acorreu ao grito e quase morreu de alegria ao deparar com a sua querida filha; e ficaram abraçados mais
de um quarto de hora. Bela, depois das primeiras efusões, pensava que não tinha roupa para se vestir; mas a criada disse-lhe que
acabava de encontrar no quarto ao lado uma mala cheia de vestidos de oiro, guarnecidos de diamantes. Bela agradeceu ao bom
Monstro as suas atenções; pegou no menos rico dos vestidos e disse à criada para guardar os outros, que ela queria dar de presente
às irmãs. Mas, apenas pronunciara estas palavras, a mala desapareceu. O pai disse-lhe que o Monstro queria que ela ficasse com tudo
para ela, e logo os vestidos e a mala regressaram ao mesmo local. Bela vestiu-se e, durante esse tempo, foram prevenir as irmãs que
logo chegaram com os maridos.
Eram ambas muito infelizes. A mais velha tinha casado com um fidalgo belo como o amor; mas estava tão encantado com a
sua própria figura, que só se ocupava com isso de manhã à noite, desprezando a beleza da mulher. A segunda casara com um homem
muito inteligente, mas ele apenas se servia disso para fazer enraivecer toda a gente e sobretudo a mulher. As irmãs de Bela quase
morreram de dor quando a viram vestida como uma princesa e mais bela que o dia. Por muito que as afagasse, nada pôde abafar a
sua inveja, que cresceu ainda mais quando ela lhes contou como era feliz. As duas invejosas desceram então ao jardim para chorar à
vontade e perguntavam-se por que razão aquela criaturinha era mais feliz do que elas. Não seriam elas mais simpáticas do que Bela?

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«Minha irmã», disse a mais velha, «tive uma ideia; tentemos retê-la aqui mais de oito dias, talvez o tolo do Monstro se
encolerize por ela ter faltado à palavra e a devore.»
«Tendes razão, minha irmã», respondeu a outra, «para isso temos de a acarinhar muito.» E, tomada essa decisão, subiram e
mostraram tanta amizade pela irmã que Bela chorou de alegria. Quando os oito dias passaram, as duas irmãs arrepelaram os cabelos
e fingiram-se tão aflitas com a partida dela, que prometeu ficar mais oito dias.
No entanto, Bela acusava-se do desgosto que ia dar ao pobre Monstro, que amava de todo o coração, e desgostava-se por não
o ver. No décimo dia que passou em casa do pai, sonhou que estava no jardim do palácio e que via o Monstro deitado na erva e quase
a morrer, acusando-a de ingratidão. Bela acordou sobressaltada e pôs-se a chorar.
«Que má sou», dizia ela, «em dar um tal desgosto ao Monstro que tem para comigo tanta bondade. Que culpa tem ele de ser
tão feio e pouco inteligente? É bom e isso vale mais do que tudo o resto. Porque não quis eu casar com ele? Seria mais feliz com ele
do que as minhas irmãs com os maridos. Não é a beleza nem a inteligência de um marido que tornam a mulher feliz: é a bondade do
carácter, a virtude, a complacência: e o Monstro tem todas essas qualidades. Não sinto amor por ele, mas sinto estima, amizade e
reconhecimento. Não posso torná-lo infeliz; toda a vida me recriminaria por essa ingratidão.»
Com estas palavras, Bela levantou-se, pôs o anel sobre a mesa e voltou a deitar-se. Mal chegou à cama, adormeceu e, quando
acordou de manhã, viu com alegria que estava no palácio do Monstro. Vestiu-se magnificamente para lhe agradar e aborreceu-se de
morte todo o dia à espera das nove horas da noite; até que o relógio soou, mas o Monstro não apareceu. Bela receou então ter
causado a sua morte. Correu o palácio de lés a lés gritando desesperada. Depois de ter procurado por todo o lado, lembrou-se do
sonho e correu para o jardim em direcção ao canal onde o vira a dormir. Encontrou o pobre Monstro estendido e pensou que estivesse
morto. Atirou-se sobre o corpo desmaiado sem experimentar horror pelo aspecto dele e, sentindo que o seu coração ainda batia, foi
buscar água ao canal e deitou-lha na cabeça. O Monstro abriu os olhos e disse-lhe:
«Esquecestes a vossa promessa e, com o desgosto de vos ter perdido, resolvi deixar-me morrer de fome; mas morro contente,
porque tive o prazer de vos tornar a ver mais uma vez.»
«Não, querido Monstro, não morrereis», disse-lhe Bela. «Vivereis para vos tornardes meu marido; desde este momento dou-
vos a minha mão e juro que serei só vossa. Ai de mim! Pensava que só tinha amizade por vós, mas a dor que sinto faz-me reconhecer
que não poderia viver sem vos ver.»
Mal Bela pronunciou estas palavras, viu o castelo brilhando com luz; fogos de artifício, música, tudo lhe anunciava uma festa,
mas nenhuma dessas belezas foi capaz de lhe prender o olhar. Voltou-se para o Monstro, cuja vida perigava e a fazia tremer. Qual não
foi a sua surpresa! O Monstro desaparecera e ela apenas viu a seus pés um príncipe mais belo que o amor, que lhe agradeceu ter
quebrado o encanto. Embora esse príncipe lhe merecesse toda a atenção, não pôde evitar perguntar-lhe onde estava o Monstro.
«Vede-lo a vossos pés», disse o príncipe. «Uma fada má condenou-me a ficar com esse aspecto até que uma bela menina
consentisse em casar comigo, e proibiu-me de mostrar a minha inteligência. Assim, éreis a única no mundo suficientemente generosa
para se deixar tocar pela bondade do meu carácter; e ao oferecer-vos a minha coroa, não poderei pagar-vos as obrigações que vos
devo.»
Bela, agradavelmente surpreendida, deu a mão ao belo príncipe para ele se erguer. Juntos dirigiram-se para o castelo e Bela
quase morreu de alegria ao encontrar na sala grande o pai e toda a sua família. A bela senhora, que lhe aparecera em sonhos, havia-
os trazido para o palácio.
«Bela», disse-lhe a senhora que era uma fada, «vinde receber a recompensa pela vossa escolha: preferistes a virtude à beleza
e ao espírito; mereceis encontrar todas essas qualidades numa só pessoa. Ides tornar-vos uma grande rainha: espero que o trono não
destrua as vossas virtudes. Quanto a vós, meninas», disse a fada às duas irmãs de Bela, «conheço o vosso coração e toda a maldade
que encerra. Transformai-vos em duas estátuas, mas conservai a razão sob a pedra que vos envolverá. Ficareis à porta do palácio de
vossa irmã e não vos imponho outra pena, além de serdes testemunhas da sua felicidade. Só podereis regressar ao vosso primeiro
estado, quando reconhecerdes os vossos erros; mas receio bem que fiqueis para sempre estátuas. Corrigimo-nos do orgulho, da
cólera, da gulodice e da preguiça; mas é uma espécie de milagre a conversão de um coração mau e invejoso.»
Nesse momento, a fada deu um golpe com a varinha que de imediato transportou todos os que estavam na sala para o reino
do príncipe. Os seus súbditos receberam-no com alegria e ele casou com Bela que com ele viveu muito tempo, numa felicidade
perfeita, porque fundada na virtude.

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