Drakers - Origens - B.M Santos
Drakers - Origens - B.M Santos
escrita por
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Revisão: Luana Souza
Livro oficialmente registrado.
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PRÓLOGO
Geny
Nunca desejei poder, nunca desejei mais do que meu parceiro, do
que estar com meu parceiro. Um menino órfão que cresceu ao meu
lado se tornou meu melhor amigo acima de tudo e sempre esteve
comigo, ensinando-me a sobreviver. É o único dono do meu sorriso.
Em todas as manhãs, abro os meus olhos, vejo os azuis escuros de
suas íris me admirando e sou levada para um banho relaxante em
uma cachoeira escondida na floresta.
— Devagar, Khan! Faz frio pela manhã, e ele costuma se assustar
se eu entro imediatamente.
— Me desculpe. Você sabe que eu te aqueço toda vez. Estou
sempre aqui para você, lembra? Minha pequena guerreira. — disse
calmamente antes de beijar minha bochecha. Suas mãos grandes
fazem carinho em minha barriga.
Posso estar cega pelo amor que sinto por Khan, mas o seu sorriso é
lindo e sua pele bronzeada é de deixar qualquer outra mulher com
inveja de mim. As mechas negras do seu cabelo comprido tocam
em meu rosto enquanto ele me beija. Quase me perco em seus
braços fortes enquanto sou carregada para a água. Consigo ver os
peixes coloridos nadarem entre nós.
— Seu filho odeia água fria. — falei brincando, admirando a minha
barriga dentro do rio.
— Ele se acostuma. Nosso filho nunca terá medo de nada. E
mesmo que tenha, não vai mostrar. Terá a minha força e a sua
coragem para nunca desistir.
Dou-lhe um sorriso apaixonado, perdendo-me no oceano azul dos
seus olhos.
— Para mim, ele ser uma cópia sua é o suficiente. Você é a coisa
mais importante que tenho neste mundo. Aliás, no universo todo.
— Sempre quis saber como era o nosso mundo, de onde veio o
nosso povo. Como diz a mulher mais velha do nosso clã, “somos
conquistadores de galáxias”. Ou proprietários. Algo assim. — Ri da
informação.
— Uau! Isso soa tão intimidador.
Sorrio quando ele me alcança de novo e me traz para junto dele.
— É simplesmente inacreditável saber que viemos das estrelas.
Fico imaginando como deve ser qualquer outro lugar fora daqui.
— Dizem que só o líder que possui a pedra de fogo tem o
conhecimento para saber dos outros mundos.
— Então, vamos roubá-los. Depois descobriremos. — Agarra-me
por trás e afunda o rosto em meu pescoço, arrepiando-me.
— Você parece uma criança, Khan. Para onde iríamos? Não está
feliz aqui? Eu aprecio a vida que temos.
— Eu gostaria de conhecer outros lugares e te levaria comigo. Você
é minha, Geny. Em todas as nossas conquistas seria importante tê-
la ao meu lado, nem que fosse para conquistar o mundo. — Pega-
me em seus braços e gira dentro d’água comigo em seu colo.
A superfície cristalina brilha com os raios de sol e eu vejo o meu
parceiro sorrir, feliz. Não desejo mais nada, sei que já tenho tudo
aqui.
— Você é um sonhador e aventureiro. Se fosse possível, eu te
seguiria a qualquer lugar, contanto que eu não te perdesse.
— Nunca. Eu sou teu por toda a eternidade.
— Em poucos meses seu pequeno guerreiro chegará e você se
aventurará com ele por toda a ilha.
— Essa será uma grande aventura, tanto para ele, como para mim.
— Ainda me recordo da nossa infância. Lembro-me de como tudo
era emocionante, por ser novo. Faça ele sentir essa emoção para
que tenha boas memórias. Só quero terminar o dia e ter vocês
descansando ao meu lado.
— E passar o resto da minha vida ouvindo você roncar? Isso será
emocionante, com certeza. Eu não perderia por nada.
Sua voz rouca me enche de desejo. Eu o vejo rir de novo e lhe faço
uma careta.
— Por ter dito isso, você irá preparar o jantar hoje. Estou com fome.
— Saio da água pisando duro, fingindo estar chateada.
— E quando não está, Geny?
Viro-me e não resisto à tentação de admirar meu parceiro saindo do
rio. Ele para de caminhar e levanta as sobrancelhas para mim.
— O que é?
— Nada. Faz bem para a minha visão observar sua beleza sempre
que possível. — Pisco para ele.
— Posso dizer o mesmo.
Às vezes sinto que não mereço a felicidade que ele me dá. Khan é
bom para mim de uma forma que ninguém jamais será. Ele me
entende. Isso é o suficiente.
— Vamos para a cabana do Silas. Imagino que você ainda queira
comer a fruta que tanto gosta. — sugeriu.
— Não diga isso. Eu amo amoras. Minha boca enche de água só de
imaginar.
— Só com as amoras?
— Não fale essas coisas. Eu não deveria ter te deixado assim. Criei
um monstro pervertido.
— Tão pervertido que te deixa relaxada o suficiente para adormecer
em menos de um minuto. — sussurrou, agarrando-me pela cintura.
Seguimos o caminho pelas trilhas.
— Você não acha que somos muito apegados a ele? Acredito que
Silas não aguenta mais ver as nossas caras. — Olho para cima a
fim de ver sua reação. Ele sorri novamente.
— Você está certa. Pode ser que estejamos sendo muito invasivos
ao visitá-lo a cada 3 dias. Talvez devêssemos demorar mais para ir
lá. E parar de comer amoras por um tempo também será bom.
— Isso é golpe baixo. Você sabe que eu gosto delas.
A trilha nos leva de volta para o vilarejo onde estão as demais
cabanas. À medida que caminhamos, crianças vêm em nossa
direção, correndo e brincando sem se preocuparem com qualquer
perigo. Mulheres executam suas tarefas e homens carregam
espadas nas costas enquanto ajudam ou treinam os mais jovens.
Temos armas de fogo, mas, na situação atual, não há recursos para
fabricar mais munições. Temos que usar apenas as lâminas.
Um pouco depois de anoitecer, estou sentada, ouvindo o velho Silas
contar suas histórias repetidas pela... Não me lembro, já perdi as
contas. Contudo, como ele gosta de suas próprias histórias, acabo
me divertindo novamente junto com ele. Khan está sentado ao meu
lado, em um tronco que pegamos e colocamos em frente à fogueira
que aquece os peixes que ele pescou horas antes do fim da tarde.
Mesmo sendo noite, ainda não está tão frio. Como sempre, o clima
é temperado. Ele também exigiu que eu comesse algo mais
sustentável depois de devorar tantas amoras. Não acho que
exagerei, apenas passei mal. Nada sério.
Estou distraída em pensamentos, observando as estrelas acima de
nós, enquanto Khan começa a contar uma história para Silas. É
quando um dos homens de nosso líder se aproxima. Meu sorriso
morre e meu companheiro fica em silêncio no mesmo minuto. Nunca
sabemos o que esperar quando se trata de Daryng, o atual líder do
clã. Ele não é um homem muito bom.
— Khan, Ary te pediu para ir até ele. Ele quer falar com você. — o
guerreiro alto e careca, com o rosto sombrio, avisou. Seu braço
esquerdo é coberto por tatuagens.
Aqui é tradição e uma honra ter uma parte do corpo marcada para
se destacar do restante dos homens, provando ser um dos melhores
do clã. Algo que meu companheiro recusou. Eles eram como uma
elite.
— O que o Ary quer desta vez? Todos nós sabemos que ele te
odeia. — comentei preocupada.
Ary é filho de Daryng. Não entendo por que ele despreza tanto o
Khan.
Vejo meu parceiro respirar fundo, de frustração, como se estivesse
se preparando para uma batalha. Eu não quero brigas, não quero
vê-lo ferido.
— Volto para você em breve, Geny. Assim que eu retornar, vou levá-
la para descansar. Fique tranquila. — Ele se afasta.
Não sei por que, mas sinto uma forte pontada no peito. Eu encaro
Silas e ele me devolve um olhar cauteloso e acolhedor.
— Fique calma, Geny. Ele não pode fazer nada sério contra Khan,
que é tão importante quanto qualquer outro membro.
Observo o fogo crepitar. Nem sei o que dizer.
— Às vezes eu penso seriamente em deixar o clã e morar sozinha
com ele, no outro lado da ilha. Khan não tem muita paciência para
receber ordens e Ary gosta de provocá-lo. Está mais agressivo
desde o início da minha gravidez.
— Fale com ele com calma quando retornar. Veja se ele está feliz do
jeito que está. Às vezes é necessário mudanças em nossas vidas.
Eu não consigo mais sorrir e Silas oferece um chá para mim,
embora nada tire a minha tensão.
Muito tempo se passa e Khan não volta.
— Vou procurá-lo. Não confio naqueles dois sozinhos. Já é tarde.
Boa noite, Silas. Até amanhã.
Ando rapidamente atrás do meu parceiro. Minha barriga ainda é
pequena, então não tenho problemas para me mover. Quando ouço
gritos perto de uma cabana isolada, desvio-me do caminho e vou
verificar a origem deles, que mais parecem rugidos. Também escuto
o som de coisas se quebrando.
Assim que entro no local, meu corpo congela diante da cena.
— Onde está o homem que se dizia ser invencível? Parece que
você não é tudo isso. Depois que eu acabar com você, irei atrás do
seu filho também. Não aceito nenhum vestígio seu em meu
território. Eu serei o líder. — O homem está por cima de Khan,
tentando sufocá-lo de qualquer maneira.
Meu parceiro grita e mal tem forças para agir. Ele tenta se levantar.
Seu braço está em um ângulo estranho e seu corpo banhado em
sangue, mostrando o quanto ele foi espancado. Sinto minha visão
ficar turva pelas lágrimas.
— É o último descendente do líder que meu pai matou. Sua
descendência termina com você. — Sorri, passando a lâmina na
garganta de Khan com violência. O sangue jorra do seu corpo.
Sinto o oxigênio desaparecer junto com minha força para ficar de
pé. Não consigo sair do lugar.
— KHAN! — Não sei se gritei seu nome alto o suficiente para todo o
clã ouvir, mas, na minha mente, o som da minha voz soou como se
eu pedisse ajuda em um lugar escuro e vazio, onde ninguém jamais
irá me ajudar.
É como um castigo eterno. Eu nunca poderia imaginar que iria
merecer viver isso.
Quando o homem percebe a minha presença, as feições em seu
rosto mudam para surpresa. Eu ouço o meu parceiro ainda tentando
respirar, embora esteja se afogando em seu sangue. É muito
sangue. Muito.
Minha visão escurece e eu não tenho mais controle sobre meu
corpo. Tudo se apaga e eu não vejo nada. Minha cabeça dói e não
sei mais o que faço quando ataco Ary. Nem lhe dou tempo de se
recuperar para revidar. Ele tenta se defender e, ao mesmo tempo,
bate na minha barriga. Sei que quer matar meu filho também.
Controlo-me para não deixar meu ódio me levar completamente,
lembrando-me do treinamento que Khan me deu ao longo dos anos.
Ary tenta recuperar o fôlego e eu me preparo para outro ataque. Ele
volta a me atacar e, no momento em que estende o punho para
socar minha face, giro meu corpo, torcendo seu braço e o
quebrando. Eu ataco seu rosto novamente e o sangue começa a
tomar conta dele. Ele tenta me rolar para o chão e eu forço seu
outro braço no mesmo ângulo que o outro, quebrando-o em
segundos. Nunca senti tanta raiva na vida.
Volto meu olhar para Khan. Meu melhor amigo não se move mais.
Eu vou até ele, vendo que seus olhos já estão perdidos no vazio.
Deito-me sobre seu corpo e grito entre lágrimas. Grito tanto. A dor
parece piorar. Eu teria dado qualquer coisa para evitar isso, teria
feito qualquer coisa para encontrar outra saída, mas o sangue dele
já tinha sido derramado e ele nunca mais me levaria para casa,
como havia prometido. Grito de ódio, segurando-o contra o meu
peito.
— Me perdoe por não ter chegado a tempo, minha vida. Eu nunca
vou me perdoar por isso.
Volto meu olhar para Ary, que tenta, a todo custo, rastejar-se para
longe. Vou em sua direção e o seguro pela gola de sua roupa. O
homem não tem mais o movimento dos braços para me impedir
agora e se defender.
— Você... vai andar, bastardo! Ou eu te arrasto até a maldita casa
de seu pai! — falei as palavras com nojo. Meu coração parece
querer sair do peito.
Ele rosna, mostrando as presas para mim. Não chega nem perto de
me assustar.
— De pé! — gritei, arrastando-o por todo o caminho.
Ele tenta se soltar o tempo todo, só que é inútil, devido ao que fiz
com seus braços.
— Por favor, Geny! Minha revolta não é com você.
Reviro os olhos. Poucos minutos atrás o homem quase conseguiu
matar a mim e ao meu filho, a última parte de Khan.
— A minha é! — rosnei as palavras, com raiva.
— Por favor, não faça nada pelo que vá se arrepender mais tarde.
— Outra ameaça? Não bastou ameaçar a minha vida e a do meu
filho? Você procurou por isso, só não vai gostar das consequências.
— avisei sem emoção.
O homem permanece em silêncio pelo resto do caminho, e assim
que chegamos à cabana de seu pai, as pessoas se aproximam e me
testemunham arrastando-o.
— Mas, o que isso significa? O que fez com meu filho, Geny? Solte-
o agora! — Daryng sai de sua cabana e se aproxima, pálido, do seu
filho.
— Seu filho... — gritei para que todos pudessem ouvir. — Acabou
de matar meu parceiro por ganância, porque ele carregava o mesmo
sangue do ex-líder! Eu o vi matar o pai do MEU filho! E cheguei no
momento em que ele anunciou que mataria a mim e ao meu bebê
também. Khan podia ter falhas, mas era orgulhoso. Se quisesse seu
lugar, já o teria desafiado há muito tempo. — minha voz saiu cheia
de nojo e ódio.
— O que você espera que eu faça, Geny? Pelo que vejo, já castigou
Ary o suficiente.
— Assim que eu virar as costas, você vai me matar pelo que o fiz.
— Jogo o menino aos pés do pai, gemendo de dor.
Eles realmente acreditam que sou tão ingênua?
— Vou fazer isso da maneira correta, Daryng. Eu o desafio a uma
luta até a morte pela liderança do clã.
Seu rosto se torna pálido, e depois raiva toma conta de sua
expressão.
— Ficou louca? Você carrega uma criança, mulher. — Encara-me
intrigado.
— Agora se preocupa comigo? Interessante. E se eu virar as costas
e voltar para a minha casa como se nada tivesse acontecido? Você
vai pensar no meu filho também? — Eu poderia sorrir se não
estivesse tão destruída por dentro.
Posso sentir que ainda estou em perigo. Khan não está mais aqui
para me ajudar.
— De qualquer forma, você vai me matar, Daryng. Acabe com isso,
então. Vamos!
A minha sorte é que sempre carrego minha espada comigo.
Sentindo-se desafiado, ele retira a sua espada, que estava presa
em suas costas, e vem até mim. Eu sei que vou morrer. Não quero
mais ficar aqui. Não tenho interesse no poder ou em qualquer coisa
além de que tenham tirado meu parceiro de mim. Sou egoísta. Sou
a pior pessoa do mundo agora, por, talvez, não permitir que meu
filho viva. Pode ser melhor assim.
— Sinto muito por Khan, Geny. Não se preocupe. Vou colocar seu
corpo ao lado do dele para que vocês possam descansar juntos. —
disse com escárnio.
Neste momento não presto atenção em mais nada ao meu redor.
Posso ouvir apenas o som da minha respiração. Ainda não consigo
acreditar que perdi tudo em minutos.
Vejo sua espada vir rapidamente em direção à minha e sei que a
luta começou devido ao som das lâminas se chocando.
— Vou fazer isso ser rápido para você, mulher. Vai pagar pelo que
fez ao meu filho. — Pelo menos ele se preocupa com o filho. É
menos monstro do que eu.
Daryng tenta acertar meu pescoço várias vezes e eu bloqueio seus
golpes usando o meu tamanho a meu favor. O homem tem dois
metros de altura. Quando ele abaixa a espada, eu a bloqueio
novamente. Sinto-o colocar sua força na arma, pressionando-a para
cortar minha garganta. Grito enquanto coloco todo o meu esforço na
espada, lembrando-me do instante em que Khan teve sua garganta
cortada. Eu me esquivo do seu ataque e o mando para o chão. O
velho de cabelos negros cai e eu, rapidamente, rolo o meu corpo.
Rasgo o seu calcanhar quando ele tenta se levantar, fazendo
sangue jorrar dele.
Com ódio, Daryng vem até mim e me segura pelo pescoço,
erguendo-me no ar. Sinto minha força se esvair ao começar a ficar
sem oxigênio. Reúno o restante de energia que tenho para levantar
minha espada e abrir sua garganta com violência. Começo a ver
manchas pretas quando volto direto ao chão.
— Pai! — Ouço a voz de Ary o chamando.
O homem sufoca com seu sangue, tendo o mesmo fim que Khan.
Pagou pelos pecados do filho.
— Matem essa mulher! Ela assassinou o líder! Eu quero a cabeça
dela! Matem-na! — Os gritos roucos de Ary me mantêm em alerta
ainda.
Mesmo que me matem, ele também não irá longe.
Olho ao meu redor e respiro rapidamente, assustada e cansada pelo
esforço. Estou quase desmaiando. Se tentarem me matar, não irei
reagir, mas ninguém se move.
— Geny desafiou Daryng a lutar até a morte. — a voz de Kevrel me
pegou de surpresa assim que ele saiu das sombras. — A mulher
lutou mesmo estando grávida. Ela não violou nenhuma lei do nosso
povo. E quanto a você, cometeu um assassinato. — Aproxima-se do
menino. Kevrel é o braço direito dos líderes do clã. — Levem ele
daqui! — deu a ordem.
Dois homens o levam para longe da minha visão. Ele grita o tempo
todo.
O homem atraente e de aparência calma se aproxima de mim.
— Geny, você se ajoelhou hoje como uma mulher solitária, porém
deve se levantar como a líder que se tornou.
Levanto a cabeça e o vejo parado em minha frente, com a mão
estendida para mim.
— Agora você precisa ser forte. Tem seu herdeiro e um povo para
proteger.
Fico de pé, sentindo o meu rosto molhado de lágrimas e a brisa
gelada da noite.
Kevrel sorri para mim e eu ouço e observo o meu povo gritar meu
nome. Não era o que eu queria, entretanto deixei o instinto me
dominar, e sou covarde por isso. Fui uma covarde por não ter
deixado Daryng me matar.
Eu gostaria de ir, mas algo me faz ficar. Não estava pronta para
morrer. Nunca quis ser líder de ninguém, contudo tenho Kevrel, que
se tornou um grande amigo, e Silas. Agora não só tenho o meu filho
para proteger, como também um povo e um território inteiro.
CAPÍTULO 1
Drake Ivanok
— Mamãe?
— Sim, querido?
— Quando o papai vai voltar? Já se passaram dois anos desde que
ele saiu. Sinto muito a falta dele.
— Não sei, Drake. Seu pai sempre foi assim, fascinado por coisas
desconhecidas. Mas tenha paciência, querido. Ele nunca nos
abandonaria.
— Ele já nos abandonou.
***
— Drake, eu te amo, filho.
Os sons graves dos dois tiros ecoam na minha memória como se eu
ainda pudesse ouvi-los. Sinto meu pulso acelerado. Como sempre,
se minha mente permanece em branco, sem executar nada, os
pensamentos ruins voltam. Levei 8 anos para me ajustar aos
pesadelos.
Encaro a sala vazia à minha frente e tento me acalmar com as
lembranças que me assombram. Tenho tudo que os homens
querem e, ao mesmo tempo, não tenho nada. Tudo está vazio;
apenas objetos sem vida e sem nenhum poder mágico que faça
todos os seus desejos se tornarem realidade.
Lágrimas embaçam minha visão enquanto descanso em uma
poltrona de couro. Há uma mesa à minha frente cheia de papéis e
mapas. Eu deveria odiar o homem que me abandonou e a mulher
que acreditou nele até seus últimos dias de vida, mas, no fundo, não
consigo. Só quero entender o motivo. Devido às noites em que eu
passava perto do quarto da minha mãe e ouvia os seus soluços
abafados para que eu não pudesse escutar, sei que ela também
sofreu.
Esforcei-me para criar uma pequena empresa de investimentos e
ser o filho dos seus sonhos, porém sempre que você está em uma
posição importante, torna-se um alvo. Eu faria qualquer coisa para
ter minha mãe segura. Um jovem milionário de 29 anos não
significava nada perto do valor que ela tinha para mim. Ofereci o
que podia, na esperança de libertá-la, e até pedi um local para um
possível encontro, mas assim que pegaram o dinheiro, ouvi ela se
despedir de mim e depois os estrondos dos tiros.
Minha mão treme enquanto segura o copo de uísque e eu me forço
a esquecer isso, ou minha raiva voltará e eu reduzirei meu escritório
a escombros novamente. Quando foi confirmado que aqueles
homens haviam tirado sua vida e foram presos, não poupei esforços
para agir. Olho por olho e deixei de ser o homem que minha mãe
sonhava. O choque e a adrenalina me fizeram visualizar a morte de
uma forma diferente e ver que nada que o mundo me oferecesse
seria suficiente para me fazer feliz.
Agora, ao completar 40 anos, eu me vejo prestes a cometer outra
loucura, entrando nas maluquices do meu pai, em busca de um
objeto inútil. O que eu teria a perder? É a terceira vez que analiso as
coordenadas nas duas categorias de mapas espalhados pela mesa
para não cometer erros. São 4 anos apenas estudando o pouco que
meu pai deixou para trás e aderindo ao que encontrei. Graças a
essa besteira e ao meu trabalho, distraio-me o bastante para não
surtar.
Fico olhando para a janela atrás das cortinas escuras do escritório.
É noite e o céu está estrelado. Uma das poucas horas que tenho de
descanso. Vestindo apenas um moletom escuro, sinto o frio da
madeira em meus pés nus. O computador está sobre a minha mesa,
esperando um relatório de uma das minhas equipes. Dois cientistas
foram contratados para participar da expedição. Tomei a decisão
quando me confirmaram a localização da ilha que eu procurava. Ser
bilionário tem seus privilégios, e eu não me importo de abusar deles
às vezes.
Corro a mão pelo meu cabelo, puxando-o para trás, em sinal de
cansaço, e respiro fundo. Logo ouço a porta de entrada se abrir e,
em seguida, o som de saltos na madeira. A morena alta entra
elegantemente, vindo até mim. Não sou um grande fã de mulheres
de cabelo curto, porém Kate é linda de qualquer maneira. Ela está
usando um dos vestidos que mais me atrai nela e sorrindo, fingindo
inocência ao se aproximar de mim. Eu permaneço imóvel, apenas
fantasiando o que farei com ela assim que a levar para o meu
quarto.
— Como me excita quando você faz essa pose de macho alfa. —
Sua voz fina se torna enjoativa quando ela fala demais.
Entro em seu jogo travesso de dizer “olá” para mim.
— Para a sua informação, princesa, estou apenas relaxado. Como
foi o seu dia?
— Foi ótimo, como todos os outros. E você, meu ursão gostoso?
Trabalhou até tarde hoje. — sua voz soou manhosa.
Ela dá a volta na mesa, ainda me olhando. Se eu fosse um garoto
na puberdade, já estaria dentro dela há horas, contudo sou mais
que capaz de me controlar.
Kate se senta no meu colo e observa a tela do computador quando
um novo e-mail chega para mim. Fecho a sua tela rapidamente.
Odeio pessoas invadindo a minha privacidade, e ela não é uma
exceção.
— Sem espionar, minha gostosa. Espere por mim no quarto, ok?
Terminando aqui, eu vou até você.
Ela me beija e se levanta do meu colo, rebolando exageradamente.
— Tudo bem. Irei preparar algo especial para você, meu ursão
gostoso.
A vontade de rir é grande, só que me contenho. Mulher maluca. Há
apenas dois meses decidi tentar um relacionamento sério e Kate
optou por morar comigo, alegando que seria bom para nos
conhecermos melhor. Mas, mesmo assim, ainda não me sinto
confortável para compartilhar minha cama com ela todos os dias. Eu
tentei uma vez; foi uma experiência um pouco cansativa e eu mal
dormi direito.
Deixando a mulher de lado, volto à mesa e abro o computador. Há
dois e-mails na caixa de entrada. Um dos homens para quem liguei
é um velho conhecido da época do exército, e mesmo sabendo que
ele seguiu um caminho nada digno depois, arrisquei-me pelas suas
habilidades e melhor experiência do que eu. Embora ele tenha
testemunhado coisas que eu nunca poderia imaginar, estou em meu
conforto e não tenho nada com o que me preocupar. Ele solicitou
sigilo e total segurança para eu não o denunciar às autoridades.
Envio-lhe um e-mail de volta para uma reunião sobre seus
privilégios. Se o homem vai trabalhar para mim, terá que seguir
minhas ordens. Não sou bom. Acabei expandindo meu negócio para
muito além de apenas investimentos. O mundo também não é um
lugar bom, no entanto posso dobrá-lo da maneira que gosto
somente com os recursos necessários.
Desligo o notebook e o guardo junto com meus documentos em um
cofre. Se realmente houver algum objeto mágico naquela ilha, no
meio do nada, vou descobrir, mesmo que morra tentando.
Deixo o escritório e caminho pelo corredor frio até meu quarto.
Minha jornada vai começar em breve.
CAPÍTULO 2
Geny
Sinto o cheiro da brisa fresca vir da floresta, antes de abrir os olhos.
Os pássaros cantam alto lá fora e os raios de sol penetram na
cabana. Meu corpo ainda está pesado pelo cansaço da rotina de
ontem. Apenas sinto um pequeno corpo se mover contra o meu e
ouço algo como quase todos os dias.
— Mamãe, estou com fome. — Passa por cima de mim na cama,
com dificuldade, para alcançar o outro lado.
Abro os olhos e vejo Callie se sentar, à minha espera. Ela tem
apenas 5 anos. Na minha mente, já se passaram 5 anos desde que
minha vida mudou para sempre.
Respiro fundo, deixando um leve sorriso se espalhar pelo meu rosto.
O dia está começando a clarear quando me levanto para cuidar
dela. Ela está sempre com fome pela manhã, exatamente como
alguém que já conheci.
Vou para a outra sala, na cabana, onde guardo minhas armas, e
pego minhas adagas. Eu coloco uma em cada lado do meu quadril.
Nunca ando desarmada e não confio nem na minha própria sombra.
Quando começo a pensar em me arrepender do que já fiz, volto a
ficar satisfeita com cada passo que dei até agora, embora cada
escolha sempre tenha vindo com consequências boas e ruins e eu
tenha que enfrentar as ruins no momento.
Saio de casa e vejo o céu começar a mudar de laranja para azul. No
horizonte, altas montanhas decoram a paisagem. Há outras pessoas
iniciando suas tarefas também. Ando calmamente com Callie ao
meu lado, que cumprimenta a todos que passam por nós depois de
me ver fazer o mesmo. Sua felicidade me lembra muito a de Khan.
Desde sua morte, ninguém mais se atreveu a me desejar; e se
tivessem tentado, certamente não viriam me testar depois do
espetáculo que dei ao matar o líder.
Caminho com minha filha por alguns minutos perto do bosque. Não
muito longe daqui fica a casa de Silas. Ele gosta de morar sozinho
em uma cabana de madeira mais velha que as outras. Na frente
dela, todo o chão é recheado de verduras, e as árvores ao redor são
carregadas de frutas. Como de costume, ao longe, o velho baixinho,
de barba escura, está regando suas plantações. O sol já está alto no
céu.
Olhando para o horizonte atrás da casa dele, vejo o vasto oceano
azul. É uma paisagem linda que nunca me canso de ver.
— Silas! — Callie gritou ao me deixar, correndo para o homem que
a espera com um sorriso.
Ele é uma das poucas pessoas leais que tenho e, praticamente, faz
parte da minha vida. É alguém que está comigo desde que eu era
criança.
— Oh! Olá, pequena Callie. Imagino que você teve uma boa noite
de sono.
— Sim. Mamãe me protege de monstros ruins quando tenho
pesadelos. — contou enquanto brincava com os dedos.
— Quando eles tentarem atacar você, ataque-os de volta e dê um
susto neles. Você verá. Eles nunca mais voltarão.
Callie sorri, balançando a cabeça, concordando. O homem de olhos
azuis também sorri para ela, que ainda está em seus braços. Belbor
logo aparece em seu ombro. Ele é um pequeno macaco de pelos
dourados, companheiro de Silas, e também se tornou amigo da
minha filha. Ela faz carinho no animal que não para de analisar sua
mãozinha.
— Silas, já posso comer as amoras?
Reviro os olhos. Callie é viciada em amoras.
— Pelos deuses, filha! — Coloco a mão na testa. Ela está cobrando
de Silas essa fruta há meses.
O homem sorri novamente e a coloca no chão.
— Deixe ela. Você também gostava de comê-las. Esqueceu?
Silas cuidou de mim e de Khan desde um ano depois que conheci
Khan, quando eu era criança. Éramos apenas dois órfãos.
Ele volta a sua atenção para ela.
— Elas estão finalmente boas para comer, pequena Callie. Estão lá,
perto das árvores maiores. Siga Belbor. Ele vai lhe mostrar onde
estão as melhores.
Minha filha me olha e sai correndo, com felicidade no rosto. Ela
estava esperando há um tempo por sua fruta favorita. O problema é
a deixar comê-la demais e recusar outra comida depois ou até
mesmo passar mal.
— Como está sua saúde, velho amigo? Você disse, há duas noites,
que estava se sentindo cansado. — perguntei gentilmente.
Eu realmente me importo com ele; não se trata apenas de
educação. Silas é como um pai para mim.
— Sim, está tudo bem. Acho que estava trabalhando muito e resolvi
descansar um pouco.
— Entendo. — Sinto-me aliviada e volto o meu olhar para Callie
tentando pegar algumas frutas que estão em galhos mais altos. — E
as plantações?
— Ainda são abundantes. E se tivermos problemas, já sabemos
como resolvê-los.
Mesmo sabendo a resposta, agora é minha missão verificar toda a
aldeia.
— E você, querida? Como está lidando com todo o peso atual que
está carregando?
— A qual deles se refere? — questionei em um tom normal.
Ele é o único com quem falo sobre esses assuntos.
— Pelo que já percebi, você se dá bem como líder. Se saiu muito
melhor que o anterior.
— E seus pesadelos? Você está dormindo melhor?
Sei que Silas se preocupa comigo porque tive que permanecer o
resto da gravidez na casa dele, pois me sentia em perigo em minha
própria casa. Os pesadelos eram horríveis o suficiente para que eu
ficasse noites sem dormir, com medo de algo acontecer. Nunca mais
quero passar por essa situação.
— Bem... Quando me concentro nas minhas funções e,
principalmente, em Callie, elas vão embora. Mas não posso ficar
dependente de alguém para dormir bem. Ela vai crescer rápido e eu
vou ficar sozinha novamente.
Silas ri e eu fico confusa. Não falei nada engraçado.
— Talvez seja melhor fazer mais filhos, então. — Ri alto.
Levo a mão ao rosto, rindo de seu comentário.
— Seria até uma boa ideia se ele estivesse aqui. Sinto tanto a falta
de Khan.
— Eu sei. Mencionei isso apenas para a distrair. Mas você não deve
tentar esquecer o Khan, somente guarde os bons momentos. Sei
que vai demorar para sarar, só que até lá você vai amadurecer.
Seguro as lágrimas. Meu parceiro não vai voltar e eu tenho algo
dele para cuidar e proteger.
— Tem razão.
— Mamãe! Mamãe! — Callie gritou, voltando toda manchada de
vermelho e roxo.
Silas sorri novamente e ela me mostra seus dentinhos com um
sorriso.
— Acho que preciso de um banho, mamãe. — Ela ri com uma voz
doce de bebê, coçando a cabeça com uma das mãos. Uma coisa
que seu pai sempre fazia quando estava envergonhado.
— Ou fez de propósito. Vamos lá. Que tal uma corrida até o rio?
Eu a vejo acenar com a cabeça e correr na minha frente. Sigo atrás
dela, observando cada movimento seu.
— Tome cuidado! — gritei.
Khan ficaria muito orgulhoso por ver que sua filha é uma cópia dele.
Mais adiante avisto o pequeno rio fluindo para a queda. O rugido da
cachoeira é alto e o cheiro doce enche meus pulmões.
— Pronta? — perguntei.
Callie se anima, ansiosa para pular da cachoeira. Eu pego em sua
mão e corro em seu ritmo para que ela salte. Quando o chão acaba,
sinto a adrenalina aumentar e a sensação de queda tomar conta de
todo o meu corpo. Minha filha grita enquanto pula e eu a agarro em
meus braços. Assim que afundamos, solto-a para nadar até a
superfície, com ela agarrada em meus ombros. Uma mania sua
desde que era bebê.
A pequena ainda não sabe flutuar muito bem, mas se esforça.
— Vamos de novo, mãe? — Está agarrada a mim para descansar.
Eu sinto sua respiração muito rápida e sei que já basta de diversão.
— Chega por enquanto. É hora de te limpar, bagunceira.
— Parece que não foi dessa vez, pequena Callie. — Kevrel sorri ao
se aproximar da margem do rio, deixa algumas armas nas rochas e
vem até nós duas.
Sua pele também é bronzeada e os cabelos são negros. Ele é
alguns centímetros mais alto do que eu e seus olhos são azuis (o
que é característico do nosso povo).
— Você pode vir comigo, Kev? — Callie pergunta.
— Eu ainda gosto de viver, criança. Não tenho a intenção de passar
por cima da autoridade de sua mãe.
Callie faz um beicinho e encosta a cabeça no meu ombro, irritada.
— Ela é nervosa igual a você. — Ele sorri para mim.
Finjo estar nervosa com sua afirmação.
— Vou considerar isso um elogio.
— Acredite: é sim.
— O que você está fazendo aqui? Achei que estaria acompanhando
a formação dos novos garotos.
— Eu irei voltar em breve. Estava à sua procura. Ficar de olho em
você é sempre bom. Nosso povo prosperou melhor desde a morte
de Daryng.
Decido manter a boca fechada.
— Ótima desculpa, Kevrel.
— Minha prioridade é a segurança da minha líder. — Dá um sorriso
malicioso.
Callie ri em meu colo.
— Por que você não diz à minha mamãe que gosta dela?
Eu arregalo os olhos, assim como Kevrel.
— Você tem uma mamãe teimosa. — Ele sorri.
Dou um leve sorriso e reviro os olhos.
— Tudo bem. Vocês dois estão conspirando contra mim. Vamos,
Callie. Tenho coisas para fazer, e desta vez não vou poder te levar.
Vai ficar com o Silas até eu voltar.
Ela balança a cabeça, fazendo beicinho, e Kevrel ri enquanto
saímos do rio.
Passo o dia lidando com tarefas tediosas: recursos e suprimentos
para tempos escassos, além de problemas e mais problemas entre
os membros do clã. O sol já está se pondo quando vou buscar
minha menina.
— Diga boa noite a Silas, Callie. Temos que ir. — pedi.
Silas a abraça. Ela já está dando os primeiros sinais de sono, sendo
que a noite caiu há apenas uma hora.
— Vejo você amanhã, pequenina. — Silas a solta e Callie volta para
o meu lado.
— Mamãe, quando eu crescer, vou fazer o que você faz?
— Se quiser, sim. Ser líder não é fácil, mas vou te ensinar tudo que
precisa saber.
— Mas você é forte, mamãe. Ninguém consegue te vencer.
— Possivelmente. Só que não sou invencível.
— É verdade que viemos das estrelas, mamãe? A mulher mais
velha nos disse que somos de origem guerreira e que éramos
conquistadores com poderes inimagináveis.
— Não sei, Callie. Não faço ideia se isso é verdade. Porém, de
acordo com as histórias, viemos.
— Eu queria ver outros mundos. Seria muito divertido. — confessou
com um leve tom de arrependimento na voz.
Sinto juntar lágrimas em meus olhos quando me lembro de Khan.
Ela tem os mesmos sonhos que seu pai.
Entro na casa onde apenas Callie e eu moramos. O trovão ecoa do
lado de fora enquanto está escuro dentro da cabana. No entanto,
nossa visão é boa o bastante para sabermos para onde ir.
Callie sobe na cama com dificuldade, eu vou até o baú onde guardo
minhas roupas e as troco. Por fim, deito-me ao lado dela. Ela me
abraça. Essa é sua mania desde que era bebê.
— Podemos brincar na cachoeira novamente amanhã? Se você não
quiser, posso ir com Kevrel? — pediu.
— Irei monitorar vocês dois.
— Não gosta dele?
— Eu não confio nele cegamente. Isso é algo que quanto mais cedo
aprender, melhor será para você. Ninguém é confiável. Vá dormir.
Amanhã decidiremos o que fazer.
Ela acena com a cabeça, concordando, e se acomoda em meus
braços. Callie mal dorme e eu já sinto o meu corpo relaxar de
cansaço. Não tenho pesadelos com Khan dessa vez.
CAPÍTULO 3
Drake Ivanok
— Você já está partindo, meu amor? — Ouço a voz de Katelyn atrás
de mim enquanto saio de casa com uma mala na mão.
Meu helicóptero, com o piloto, está esperando por mim. O sol já está
alto no céu, embora ainda esteja frio. Será uma longa viagem.
Provavelmente, colocarei meus pés em terra firme ao anoitecer.
Daqui, irei para o aeroporto particular, a 30 quilômetros de minha
casa à beira-mar.
— Sim. Nos vemos em breve. — confirmei sem emoção.
Eu a beijo rapidamente e tento me afastar dela, porém ela agarra o
meu braço com as duas mãos.
— Você não vai me dizer para onde está indo? E se algo acontecer?
Como vou saber onde está?
Libero o ar preso em meus pulmões, em frustração. Não, eu não
acho que sou bom para ter uma família e uma mulher me
manipulando com besteiras. Só estamos há dois meses morando
juntos e já estou me irritando com Kate. Não estou e nunca estive
apaixonado por ela. Não acredito nessas coisas, nem estou
interessado em herdeiros ainda, embora eu vá precisar deles em
breve. Até lá vou encontrar uma mulher que se encaixe nisso.
Me aproximo dela devagar. Estou longe o suficiente do helicóptero,
que começa a ser ligado.
— Escute, loira: se quiser continuar comigo, terá que aprender que
não preciso da sua preocupação, muito menos da sua permissão
para nada. Se eu tiver que morrer, eu vou, e acabou. Agora, se não
está satisfeita com o tipo de homem que sou, faça o que quiser da
sua vida.
Kate me encara em estado de choque. Sua expressão de tristeza
está longe de me comover.
— Você está terminando comigo? — gritou com uma voz chorosa.
Quanto drama!
— Entenda como quiser, princesa. — Viro as costas para ela.
Pelo visto, eu nasci apenas para foder mesmo. Não tenho paciência
para relacionamentos.
Entro na cabine do helicóptero e me preparo para decolar, sem olhar
mais na direção de Kate, para ver sua reação. Estou com fome de
um pouco de aventura e mulheres. Isso é o que terei de sobra
quando voltar para casa.
O helicóptero sobrevoa a costa, passando por cima da densa
floresta. Sinto o meu corpo começar a esquentar com a excitação e
o clima começar a mudar. Só ouço o som das hélices quando peço
permissão para pousar na pista do aeroporto. De longe vejo
Richard, que já está me esperando na pista, com o restante da
equipe que contratei.
— Senhor Ivanok, sua equipe já está à espera, conforme o
solicitado.
Saio da cabine, sentindo o sol batendo em meu rosto, e coloco
meus óculos enquanto caminho para o avião, que foi comprado
recentemente. Uma aeronave militar equipada com as mais
recentes tecnologias, capaz de transportar soldados e cargas
pesadas, além de até três tanques de combustível. É enorme, mas
necessária se eu quiser encontrar a tal ilha do Peter Pan.
— Estamos prontos, senhor Ivanok, e os carros já estão
armazenados. O senhor disse que escolheria um dos homens para
liderar. Quem será?
Olho para o cara magro, de cabelos loiros e olhos verdes, e volto a
encarar os cinquenta homens à nossa frente. Todos eles estão
ganhando bem para participar dessa loucura.
Não está tão quente, todavia tiro o casaco mesmo assim e, como os
demais, visto um uniforme com o emblema da minha empresa.
— Quem vai cuidar da equipe será alguém que conheço. —
respondi com calma.
Posso até ouvir suspiros de alívio ao meu redor. Sei que sou muito
exigente. Infelizmente, todo mundo tem defeitos, e esse é o meu.
Contudo, eles vão desejar que seja eu no lugar do Frost quando o
conhecerem.
— Já estava partindo sem mim, Drake? — Ouço uma voz profunda
se aproximando e me viro. Vejo Frost vindo de um dos galpões. —
Imagino que você esteja cumprindo sua promessa. Odiaria perder a
diversão. — Encara-me de perto com um sorriso forçado no rosto.
Eu dou um leve sorriso, o qual desaparece em questão de
segundos.
— Pare de colocar o rabo entre as pernas, Frost. Eu mantenho a
minha palavra e posso garantir que você vai se divertir até demais.
Estes são os homens que você vai liderar. — Dou um leve aceno de
cabeça e cruzo os braços, aguardando sua reação.
Ele não parece muito feliz, talvez porque eu o tenha insultado,
porque minha palavra seja a lei. O homem está como um cachorro
assustado, só que para alguém que se tornou um assassino, isso
não deveria parecer grande coisa.
— Você sabe que eu gosto de fazer as coisas do meu jeito. — disse
com um olhar sério, aprofundando a voz.
Posso não ser o soldado de guerra que viu de tudo, mas ainda sou
capaz de deixá-lo sem sua mandíbula. Até eu voltar da viagem
maldita, vou acabar mandando o maldito para o hospital.
— Eu não quero você matando ninguém por aqui, ou eu mesmo vou
acabar com você. — avisei.
Volto minha atenção para Richard, que espera ordens atrás de mim.
O homem sabe levar o trabalho a sério, para um jovem de 26 anos.
— Onde estão os cientistas de quem você me falou? — perguntei
impaciente.
Ele caminha em direção a dois jovens.
— Estão aqui.
Aproximo-me de dois jovens idênticos: um homem e uma mulher
que possuem cabelos loiros esbranquiçados e olhos azuis.
— Senhor Ivanok, prazer em conhecê-lo. Eu me chamo Liz Chabot.
— disse a mulher que é alguns centímetros maior que eu. — Este é
o meu irmão Pieter.
— Vocês são bem novos para dois cientistas. — Estou um pouco
inseguro. A missão está destinada a terminar em desastre.
— Somos os melhores pesquisadores de arqueologia do mundo,
senhor Ivanok. Será um prazer acompanhá-lo nesta missão e
mostrar do que somos capazes. — disse o homem ao lado da irmã,
com uma voz afeminada.
Mantenho a expressão neutra.
— Espero um bom trabalho de vocês dois. — Volto para o avião. —
Richard, vamos embora.
Todos se movem, entrando na parte de trás do avião. Entro na
cabine e vejo o enorme painel com vários controles. Só confio em
mim para pilotar, graças ao treinamento que tive no exército quando
era mais jovem. Outro piloto vem comigo e iniciamos o processo de
decolagem. Como o avião é pesado, leva tempo para ganhar
velocidade, só que depois de alguns minutos já está no ar, sem
complicações.
A jornada é tranquila. Pelas pequenas janelas, noto que o céu
começa a ficar nublado. Já estou preparado para o que virá em
pouco tempo. Em seguida, o painel de controle detecta uma
tempestade moderada a algumas horas de distância. Já sei quanto
risco estou correndo. A questão é: é tarde demais para voltar atrás.
Após 8 horas de voo, olho para o lado e avisto o piloto com os olhos
fechados e a boca se movendo. Aparentemente, ele está orando, e
o motivo é claro. Nuvens negras se formam à nossa frente, e é aí
que entramos de acordo com as coordenadas. Prestes a entrar na
tempestade, sinto o avião começar a oscilar ligeiramente e me viro
para olhar para o lado. O homem treme os braços incessantemente
e eu quase sinto pena dele.
— Controle-se. Não vamos morrer tão rápido. Ainda temos muito o
que fazer. Só não suje a porra do meu avião. — falei em um tom
autoritário.
Eu sei que estou sendo rude, mas não me importo. Desde quando
me preocupo com alguém?
— Sim, senhor. — Tenta parar de tremer.
Eu deveria ter chamado outra pessoa para pilotar. Aparentemente, a
ganância falou mais alto do que o medo para ele também.
Relâmpagos e trovões ecoam lá fora e a turbulência aumenta. Não
é mais possível ver nada além da escuridão, apenas as luzes dos
raios próximos. Eu ligo o sensor para detectar qualquer vestígio de
terra abaixo de 20.000 pés. E nada. O medo tenta me dominar,
porém eu o ignoro isso. A equipe que enviei confirmou uma ilha
neste local. Sei que é uma missão suicida.
— Chefe, é melhor voltarmos. Está ficando muito forte e podemos
cair. — o piloto tentou esconder o tom de pânico em sua voz.
Quem é mais louco aqui? Eu, por criar uma missão suicida, ou o
frango ao meu lado, por aceitar, de boa vontade, seguir a mim?
— Ainda não! — rosnei as palavras.
Estou sendo um verme, entretanto minha mente não me permitirá
dormir sabendo que recuei quando estava tão perto.
Ventos fortes tentam jogar a aeronave de lado com tanta força, que
às vezes acho que vou quebrar a manche.
— Vamos, baby! Mostre o que há de especial em você para ter me
custado tanto. — Meu corpo estremece de tensão, com o esforço
para manter o avião em curso.
O sensor apita, localizando o terreno a uma hora de distância.
Começo a me preparar para desacelerar quando já estivermos
perto. Após o alerta, a tempestade começa a ficar para trás e o céu
fica estrelado à medida que me aproximo da ilha. É quase surreal.
Mas preciso fazer outro grande esforço para encontrar um lugar
seguro para pousar.
Com a velocidade reduzida, o avião toca o solo e, rapidamente,
aplicamos os freios de pouso. Aterrissamos em um grande campo
aberto, os motores são desligados e eu me permito respirar. Espero
que seja a ilha certa. O sensor não encontrou nenhuma outra em
um raio de 300 quilômetros.
— Parece que ainda não morremos. — Tento controlar a respiração,
olhando para o painel.
O piloto está mais sem fôlego do que eu.
— Sim. Mas ainda tem a volta para casa. — disse nervoso. —
Estamos fodidos.
— Absolutamente. — Aceno, vou até a porta e a abro para descer.
Minha curiosidade aumenta quando avisto o céu estrelado e sinto a
brisa fresca da noite. Caminho pela grama baixa, olhando para a
vasta floresta ao meu redor. Na escuridão, não consigo ver como é
o lugar, só posso esperar o amanhecer.
— Você realmente sabe pilotar, Ivanok. Por um minuto achei que
veria o paraíso mais cedo. — comentou Frost. Seu tom de voz foi
puro sarcasmo.
Não me importo. Não obriguei ninguém a me acompanhar. Todos
estão aqui pelo dinheiro e pelas riquezas que encontrarem. Estou
longe de ser otário. Eles descem do avião; alguns tensos, só que
todos bem. Só espero encontrar algo realmente valioso.
— Vamos acampar aqui esta noite. É mais seguro ficarmos perto do
avião.
Será nossa primeira noite em um local desconhecido. Pelo menos
todos estão armados e prontos para qualquer perigo.
CAPÍTULO 4
Drake Ivanok
O sol nasce no horizonte e eu observo o oceano abaixo dele. O
restante da equipe já se prepara para as buscas. Está quente aqui,
apesar da brisa fresca que vem do mar. Olho em volta e vejo o avião
com os jipes prontos.
A ilha é um lugar paradisíaco, tem picos rochosos que desaparecem
entre as nuvens e um oceano tão azul quanto o céu. Só preciso me
lembrar de que não estou de férias. Temo que algo dê errado. Nas
anotações de meu pai, ele disse que há civilização aqui. O que é
bem possível, já que o lugar é enorme. Só preciso ter um cuidado
redobrado para não ganhar uma flecha na cabeça.
— Qual é o plano para começarmos? — perguntou Frost,
aproximando-se de mim.
Observo um vulcão à distância. Parece estar bem longe.
Felizmente, tenho os jipes, ou levaria horas apenas caminhando.
— Esta ilha possui civilização ou já possuiu. De qualquer maneira, é
bom que estejamos armados, para o caso de alguma surpresa. —
Volto a olhar para os mapas de cima da mesa improvisada. Deixei
alguns deles com anotações para não esquecer.
Hoje quase não haverá progresso. Será ótimo se encontrarmos o
local descrito nas notas e livros, monumentos perdidos ou uma
cidade antiga. Saberei quando chegar lá.
— Essa não é uma surpresa. Teremos que os matar se
encontrarmos algum deles. Eles tendem a ser agressivos. — Diz
Frost mexendo a cabeça para o lado tentando entender os riscos
desenhados no mapa.
— Esse seria um problema se estivéssemos caminhando. Divida a
equipe em dois grupos. Você acompanhará os cientistas até lá. Por
hoje, vamos apenas reconhecer o lugar.
— Entendido, chefe. — Foi possível sentir um fio de desprezo nele.
Já me arrependi de ter trazido esse imbecil até aqui. Mas isso era
esperado. Não se pode confiar em ninguém mesmo.
Olho para os mapas novamente. Não sei muito sobre essa ilha,
apenas o que está nas notas que meu pai deixou, e nada mais. É
uma parte. Intriga-me que ele tenha deixado um pouco do seu
trabalho para trás. Não confio totalmente em tudo que foi deixado,
porém passei quatro anos procurando vestígios desse lugar. O que
quer que tenha acontecido com o bastardo, ele morreu em uma
tempestade ou foi devorado por canibais.
Sorrio com o pensamento. Eu não deveria estar rindo, mas perdi o
juízo há alguns anos, então desisti de me preocupar com meu
psicológico.
Uma das minhas equipes sai alguns minutos depois com uns dos
carros e o restante fica para vigiar o avião. Eu não queria ir no
primeiro dia. Se eles tiverem sorte, vão levar o dia todo para
encontrar o local exato para procurarmos qualquer vestígio do
artefato. Ainda me sinto um idiota por estar aqui. O artefato é
considerado uma lenda antiga, e minha curiosidade foi aguçada por
saber que meu pai abandonou sua própria família para tentar
encontrar essa coisa.
Ando até uma das caixas de armas e pego uma AK-50 e munição
extra para ambas as pistolas, de coxa e cintura, pois não sei o que
posso encontrar na floresta. Resolvo sair sozinho, contudo não vou
longe. Pelo que vi ontem, há um rio próximo, e o calor está quase
me colocando em piloto automático para o encontrar. Se acontecer
alguma coisa, os tiros vão soar como um alarme.
Caminho por alguns minutos, observando a vegetação totalmente
exótica, colorida, e árvores enormes a perder de vista. São cerca de
nove e quarenta da manhã. Já está quente, minha camisa preta está
grudada em meu corpo e eu desejo me refrescar. Ando mais rápido,
procurando qualquer som de água por perto. Após mais alguns
metros desviando de galhos no chão, ouço um som suave de água
corrente. Eu olho por entre as árvores e, no fim delas, encontro o
rio. Vou rapidamente até lá, ainda em alerta para qualquer perigo
próximo.
Tudo parece calmo quando, finalmente, chego à margem. Observo
se há algum animal ou qualquer outra coisa por perto. Nada. A água
é tão cristalina, que dá para ver as rochas no fundo até certo ponto.
Sem baixar a guarda, continuo com a arma nas costas e me curvo
para molhar o rosto e os braços. Está muito quente. Eu poderia
pensar em comprar a ilha no futuro e construir algo aqui para atrair
pessoas. Praias sem ondas e areia branca são sempre o que os
turistas desejam.
Continuo lavando o rosto, quando vejo algo saindo do rio. Alguém,
na verdade. Fico parado, olhando a cena. É quase uma miragem
diante de mim. Uma criança vem em minha direção. É uma
garotinha. Ela passa as mãos no rosto para remover o excesso de
água enquanto me estuda. Tão curiosa quanto eu. Certamente, faz
parte da civilização mencionada nas anotações.
A menina sorri para mim e eu não me atrevo a pegar a arma. Ela
não deveria estar sozinha. Um movimento em falso e eu corro o
risco de ser morto em segundos. Sua pele é bronzeada e seus
cabelos são longos e negros, tendo algumas mechas coladas em
seu rosto, e seus olhos são azul-safira.
Vejo-a me olhar como se eu fosse um alienígena recém-descoberto,
algo fora desse mundo, e a expressão em seu rosto deixa clara a
sua curiosidade. A criança parece ter cerca de 6 anos.
Cautelosamente, ela se aproxima de mim até ficar cara a cara
comigo.
— Olá, coisinha. — cumprimentei-a com a voz calma.
Ela sorri amplamente e eu controlo meu medo quando vejo
pequenas presas junto ao restante dos seus dentes. Essa coisa não
é um nativo comum. Ela toca em meu cabelo, parecendo fascinada
por mim. Suas mãos são gentis.
— Mamãe! Podemos ficar com ele?
Assusta-me ver que ela fala a minha língua. De forma arrastada,
mas fala. Meu corpo congela quando a vejo levantar a cabeça,
comunicando-se com alguém. Acabei de descobrir que sou a caça.
Rapidamente me levanto do chão, assustado, ao ver uma mulher
me observando, sentada no tronco de uma árvore. A primeira
impressão que tenho é de ela ser uma predadora prestes a me
matar por ter mexido com sua cria. Sua expressão é letal. Sei que
esse encontro não vai acabar bem.
Ela desce da árvore, indo direto para o chão, e se aproxima de mim
com cautela. Gradualmente posso ver sua beleza exótica, e a cor de
sua pele me dar água na boca, por me lembrar um chocolate ao
leite. Seus olhos azuis brilham de uma forma a atingir uma
tonalidade que nem mesmo o céu noturno tem de semelhante. É
como se duas safiras estivessem me analisando com curiosidade.
Seus cabelos negros atingem sua cintura.
Encontro-me paralisado diante dela, e uma mistura de medo e
fascínio toma conta de mim, no entanto o medo prevalece assim
que vejo as presas quando ela sorri em minha direção.
— Sempre imaginei que um dia veria outras pessoas como você por
aqui. — Ela não se intimida com meu tamanho quando tem que
levantar a cabeça para me encarar, tornando sua boca ainda mais
convidativa. Devo admitir que nunca vi uma mulher tão bonita,
mesmo que pareça um monstro. — Quem é você? — Olha em meus
olhos.
De suas írises, eu olho para baixo, para a sua boca carnuda e bem
torneada, sem ter ideia do porquê estou me sentindo atraído por um
animal. Talvez por ela estar praticamente nua em minha frente. Sigo
os detalhes até seus seios e algo me chama a atenção em seu
pescoço: um colar semelhante a um amuleto, uma pedra bruta de
cor avermelhada. É difícil deduzir por que uma corda grossa está
enrolada em volta da pedra, dificultando minha visão. Parece que o
fogo se congelou dentro dela.
— Drake. O que você quer, mulher?
Ela dá um sorriso zombeteiro.
— Me diga você. É você quem está na minha terra. Eu faço as
perguntas. — seu tom foi firme, juntamente com sua postura. Quer
proteger sua filha, claro.
Arrisco-me a dizer que é sua filha, pois as duas são idênticas.
— Sério? E você é a dona de toda a ilha? — Levanto as
sobrancelhas zombeteiramente e sorrio de volta para ela.
— Estou impressionada com sua observação. — Sorri novamente e
faz os mesmos gestos que eu. Parece se divertir em vez de ter
medo de mim.
— Mãe, vamos levá-lo para casa? — O fascínio da coisa comigo é
estranho. — Essa coisa está tentando me comer? O que quer
comigo? — perguntei irritado.
Ela ignora a minha pergunta e olha para a filha.
— Nós vamos para casa. — Distancia-se de mim.
Sem entender, acabo ficando irritado com sua distância. Nosso
encontro privado não dura muito, já que alguns dos meus homens
vêm atrás de mim.
— Senhor Ivanok, está tudo bem?
— O senhor demorou muito para voltar. Estávamos preocupados.
Eles me olham da cabeça aos pés e voltam suas atenções para a
mulher e para a criança.
— Selvagens! — gritou um deles.
Sinto o meu estômago gelar quando as armas são apontadas para
as duas.
A menina se esconde entre as pernas da mãe e sei que estamos
fodidos quando a mulher não recua.
CAPÍTULO 5
Drake Ivanok
A mulher sabe que não há saída quando mostra aos meus homens
suas presas e pura raiva em seus olhos. Eles mantêm suas armas
apontadas para a sua cabeça. Ela só não os atacou ainda, por estar
protegendo a criança que está entre suas pernas com um olhar
assustado.
— Merda! — Deixo-me levar. Não sei por que, mas não quero que
eles as machuquem. —Abaixem suas armas! Não atirem! Recuem!
— Minhas ordens foram claras.
Assim que eles recuam finalmente, baixando as guardas, a mulher
se move em questão de segundos e algo pendurado em seu
pescoço brilha. Sinto uma onda invisível me lançar brutalmente
contra uma árvore e demoro um pouco para entender o que está
acontecendo ao meu redor. Não vejo mais nem um dos homens da
minha equipe por perto, apenas ouço um zumbido alto e fico tonto
enquanto me esforço para me levantar do chão. Até mesmo respirar
dói. Meu corpo inteiro parece pesar toneladas e, então, vejo a
mulher vindo em minha direção. A raiva me oprime no momento em
que fito diretamente seus olhos. Sei que ela está furiosa, igualmente
a mim.
Minha mente retorna para a escuridão.
Geny
Depois de apagar o desgraçado que me colocou em perigo, meus
homens chegam ao local da cena. Nunca fico totalmente
desprotegida.
— Geny, está machucada? O que aconteceu?
Eles estão um pouco assustados, olhando para os estranhos
inconscientes no chão.
— Vou levar este homem comigo. — Aponto para o homem branco,
de cabelos curtos.
Voltamos para o vilarejo com dois deles carregando-o.
— Geny? O que houve? — Kevrel perguntou, vindo em nossa
direção.
Ele encara Drake com desconfiança.
— Mamãe colocou um monte de homens maus para dormir. —
Callie ri da situação.
Kevrel vira seu olhar confuso de volta para mim.
— Ele é o meu novo prisioneiro, e é precioso. — avisei antes que
eles decidissem despedaçar o homem por tentar matar sua líder. —
Preciso que você o deixe em um lugar isolado para que eu possa
extrair informações dele quando recuperar a consciência.
— Sempre que trouxemos humanos para o nosso território acabou
não sendo uma boa ideia. Eles são imprevisíveis. — argumentou.
— Vamos ver o que esse quer agora. Precisamos saber por que
eles estão aqui e se vão aparecer mais deles.
Kevrel caminha ao meu lado e um dos meus homens gesticula para
carregar o peso morto até o salão principal.
— Como isso aconteceu? Só senti a força da pedra se expandir e já
estava indo à sua procura. Foi quando você chegou.
— Callie e eu o encontramos perto do rio. Ele parecia estável, até
que outros do seu grupo nos cercaram. Usei a pedra como escudo.
Eu poderia lutar contra eles, mas minha filha estava comigo. Por
isso apaguei todos. Ele deve acordar logo, já que o soco não foi tão
forte.
Kevrel ri alto.
— Aqui vamos nós de novo. — comentou cansado ao virar o olhar
para cumprimentar outra pessoa.
— Sim. — também falei com frustração.
Anos atrás alguns deles apareceram na ilha também e quase os
matamos. Passaram um tempo conosco, até o líder anterior
descobrir que eles queriam algo muito precioso. Aí ele os mandou
embora, senão seriam mortos. Achei que nunca mais veria outros e
jamais soubemos por que eles vieram aqui. O líder não
compartilhava essas informações conosco.
— Vá descansar. Assim que ele acordar, avisarei. — Kevrel se
afasta de mim para ajudar o resto dos homens.
Drake Ivanok
Abro os olhos e leva alguns segundos para a minha visão voltar ao
normal. Minha cabeça dói e está escuro onde estou. Minha mente
fica em alerta quando sinto meus pés e mãos amarrados a cordas, a
um pilar. Analiso ao redor, notando um lugar diferente. Parece uma
casa de madeira. Há algumas pilastras com fogo aceso em
estruturas de ferro.
Sorrio ao me lembrar que horas atrás desejei um pouco de
aventura. Parece que consegui.
Divirto-me com meus pensamentos.
É noite, e eu ainda estou com calor.
Assim que as memórias voltam, percebo que estou com sérios
problemas. Eu deveria ter ordenado que aquela maldita mulher
fosse morta, mas me deixei levar por ela, pensando em bancar o
bom moço, e fui nocauteado por uma selvagem com poderes que
não conheço. Como ela fez aquilo? Eles devem lidar com magia
negra. Algo em volta do seu pescoço parecia brilhar, ou minha
cabeça estava confusa.
Ouço o som de portas se abrirem e baterem com força atrás de
mim. Lá vem! Quero ver o que esses selvagens imundos querem de
mim. Estarei fodido se forem canibais.
Agora que me lembrei do comunicador em meu ouvido. Preciso ligar
para a minha equipe, apesar de ter rastreador. Isso é humilhante.
— Você finalmente acordou, Drake. — A mulher sorri para mim ao
se aproximar, estudando-me. — Parece que meu soco teve um
ótimo efeito.
Maldita ela seja por sua beleza exótica. Embora suas presas sejam
estranhas, ela é simplesmente linda. É muito difícil não a olhar. As
cordas estão apertadas e quase interrompendo a circulação
sanguínea em meus pulsos. Se eu não fizer nada em alguns
minutos, é provável que eu perca minhas mãos. Também preciso
ficar sozinho para alertar os outros. Não tenho interesse em testar o
nível de inteligência desses animais.
— Por que você não me solta, animal, para equilibrar o jogo, se está
tão convencida de que é boa em luta? Você não me deu a chance
de lutar. — Quase rosnei de raiva.
Estou nervoso o suficiente para quebrar seu pescoço se eu tivesse
minhas mãos livres.
Ela sorri e fica calma novamente.
— Acalme-se, homem. — Diverte-se.
Ela está ciente do perigo? Ou é muito confiante?
— Sem o soco, eu não poderia te trazer aqui para descobrir o que
você tanto quer no meu território. E fique tranquilo: seu rosto
continua lindo.
É minha vez de sorrir.
— Então, você me acha atraente? — Divirto-me com seu
comentário.
—Talvez. Sorte a sua, não? Não vou te devorar. — Mostra-me os
dentes, sorrindo.
— Eu não...
— Já sei que seu povo acredita que comemos humanos no jantar.
— Ri, fazendo eu me sentir mais estúpido. — Você não tem carne o
suficiente.
— Então fale, mulher, como pode me entender. Essa é a sua língua
nativa?
— Há vários anos. Quando eu era criança, surgiram outros como
você e acabaram nos ensinando um pouco da cultura deles. Eles
passaram muito tempo aqui.
— Então... Já que somos amigos, por que estou preso aqui?
— Não somos amigos e nunca seremos. Está aqui porque o invadiu
meu território, e eu quero saber por quê. Isso é óbvio. Ou de onde
você vem, é normal invadir o território alheio?
— Não. Mas isso não é da sua conta. Esse lugar não te pertence,
mulher. Se você não sabe, há um mundo inteiro fora de sua
pequena ilha, e assim que souberem de sua existência, virão em
massa para cá. Duvido muito que irá detê-los com arcos e flechas.
— provoquei-a.
Lembro-me de como ela conseguiu me apagar. Talvez eu esteja
brincando com o perigo.
Ela continua séria, sem mostrar nenhuma emoção.
— Eu não subestimo os meus inimigos, Drake, porém estou muito
curiosa. O que você está fazendo aqui?
— A curiosidade geralmente mata. — Dou um sorriso zombeteiro.
A expressão em seu rosto muda em segundos. Ela está com raiva.
O que é excitante a ponto de me fazer sorrir diante do perigo.
— Dependendo do que for, posso ajudar, contanto que saia daqui
depois. Aí permitirei que volte para casa vivo. E se decidir recusar,
eu mato você e o restante do seu grupo. Parece que está pagando
para ver, e isso me diverte também. Só não sei se vai gostar do
resultado. — Encara meus olhos. É como se suas írises azuis
brilhantes quisessem penetrar nas minhas. Seu olhar é feroz.
Sua ameaça não pareceu ser um blefe, entretanto não tenho
interesse em matar nativos. Não foi para isso que vim aqui.
— Viajei para cá interessado em encontrar um objeto, algo valioso
que promete muitos benefícios. Sabe onde encontro um? —
perguntei em tom de deboche.
— Objetos que prometem muitos...? — ponderou. — Aonde você
pretendia encontrá-lo?
— Pelas informações que tenho, estaria em uma civilização antiga.
Pelo que vi até agora, só há você e seu povo nesta ilha, não é? Há
quanto tempo vocês vivem aqui? Você sabe?
Ela me lança um olhar confuso. A mulher sabe de alguma coisa,
contudo permanece em silêncio.
— Como você nocauteou todos os meus homens de uma vez,
morena? Estou curioso. — Olho em seus olhos.
— Por que gosta tanto de me provocar?
— E por que você sempre cai nas minhas provocações?
— Se quiser continuar me irritando, vou nocauteá-lo de novo
quantas vezes forem necessárias. Não tolero invasores de forma
alguma, principalmente falta de respeito comigo.
Sorrio para ela, gostando do seu temperamento.
— Isso seria muito excitante. Me conte mais.
Ela soca meu rosto novamente e eu sinto um gosto metálico invadir
minha boca. Mulher maldita!
— Você pode, pelo menos, responder minha pergunta em vez de
me bater? — questionei furioso.
Essa mulher vai me pagar assim que eu me soltar.
Ela revira os olhos, respirando fundo, e responde:
— Quando um membro do clã se torna um líder, recebemos uma
proteção, e o líder usa essa proteção a favor do seu clã.
Analiso cuidadosamente cada palavra do seu enigma. Você recebe
proteção quando se torna um líder? Isso faz ainda mais sentido para
a minha teoria. Eu a observo silenciosamente.
Não tenho interesse em matar nativos, seria uma perda de tempo.
Sei que o que estou procurando, está aqui, na minha frente.
— Qual é o seu nome, mulher? — Aproveito para admirar um pouco
mais suas pernas nuas. Ela usa poucos tecidos, e isso pode causar
luxúria em qualquer homem.
Nunca pensei que encontraria uma morena com este tom de azul
nos olhos.
— Me chamo Geny. Sou a líder do clã.
— Uau! Líder. Não quero prejudicar ninguém, Geny, então vou
confiar em você e aceitar sua ajuda para encontrar o que quero.
— Imaginei. — Liberta-me das cordas.
— Por que você está me deixando ir?
Não acredito que ela é ingênua a ponto de acreditar que aceitarei
seu acordo. Só que entendo o lado dela: nunca viveu em meu
mundo, para saber como as coisas realmente funcionam.
— Você prefere dormir aqui? — Encara-me como se eu tivesse
problemas mentais.
Eu nego e ela sorri. Sua inocência quase faz o meu peito apertar.
Quase.
— Venha, antes que eu mude de ideia. Aproveite que estou de bom
humor. — Franze a testa.
Quem sorri agora sou eu. Que mulher nervosa. Gosto de desafios.
— Chefe? — Ouço a voz de Frost pelo comunicador em meu
ouvido.
— Sim?
— Estamos indo até você; já temos sinal. Precisa de mais alguma
coisa?
— Sim, Frost. — Preciso que você prepare tudo para que possamos
sair de imediato quando eu retornar. E traga uma daquelas seringas.
Já encontrei o que procurava.
Observo a bela bunda de Geny à minha frente. Ela está alheia ao
grande perigo que está por trás de tudo.
— Entendido. Estaremos aí em uma hora. Você pode sobreviver até
lá?
— Eu acredito que sim.
Que a confusão comece.
CAPÍTULO 6
Drake Ivanok
— Você não vai comer?
Levo o meu olhar para a mulher que me observa com atenção,
percebendo que mal toquei na comida que ela me ofereceu. A carne
é assada por fora e crua por dentro.
Ainda estou me perguntando por que ganhei a liberdade de estar
aqui. O que Geny está aprontando?
— Pode comer se quiser. Está tudo limpo. Você não vai morrer, não
se preocupe. Eu acho. — Sorri para mim.
— Como assim “eu acho?”
— Não sei se o seu estômago está forte. Outras pessoas que
estiveram aqui, passaram mal, pelos alimentos serem diferentes das
dietas deles, eu acho. Mas sobreviveram.
— Obrigado, mas não estou com fome. — Preparo-me para a sua
reação diante da minha recusa de sua “hospitalidade.”
Felizmente, eu não confio nela e não vou fazer nenhum tipo de
amizade, pois ela, provavelmente, vai me odiar pela manhã.
Geny vem até mim, pega a tigela da minha mão e come. Sua filha
ao lado dela também está se concentrando em seu próprio prato.
Essa mulher pode tentar ser inteligente comigo, só que mal sabe
que tem um inimigo dentro de sua própria casa.
— Você sabe há quanto tempo vivem nesta ilha? — questionei,
observando cada detalhe de sua casa. É aconchegante e
confortável, com decorações e artesanatos que nunca imaginaria
ver e avançados para nativos.
Ela e a filha comem sentadas no chão, sobre um tapete de veludo,
apoiando as tigelas em uma mesa baixa de madeira. Eles são muito
criativos, para quem nunca saiu desta ilha. O que me chamou a
atenção também foram as suas armas. São umas espadas bem
diferentes das que já vi nos filmes ou em qualquer outro lugar.
— Meu povo mora nessa ilha há muitos anos. Nós nunca saímos
daqui. — Mesmo nervosa e com um inimigo, consegue ser educada.
— De onde vieram vocês? Sempre esteve aqui? — Minha
curiosidade só aumenta.
— Você não é um de nós, para entender minha cultura, Drake. Nem
deveria estar aqui.
— Então, por que me soltou?
— Também estou me perguntando a mesma coisa. — respondeu
quando acabou de comer. — De qualquer forma, não fará diferença
na sua vida saber disso. — Seu sorriso parece gentil.
Permaneço em silêncio. Não sou um homem que se ofende
facilmente. Posso entender o raciocínio das outras pessoas e, ao
mesmo tempo, não deixar que elas me influenciem. Essa mulher é
como um enigma. Talvez, para eles, eu seja um alienígena invasor
de mundos. Quero descobrir mais deles, e irei.
Geny leva a filha para outro cômodo da casa.
Eu me sinto sujo e a vontade de tomar um banho relaxante fala
cada vez mais alto. Nada vai ser fácil quando eu voltar. Falta 15
minutos para o meu pessoal chegar, e eu preciso estar ciente dos
próximos passos dessa mulher.
— Você deveria dormir, Drake. Eu vou te acordar antes do
amanhecer. — Apaga as luzes, deixando toda a casa às escuras.
Apenas o luar ilumina o lugar o suficiente para eu enxergar.
— Por que ele não pode dormir aqui também? — Ouço a voz
manhosa da menina.
O que essa coisa quer tanto de mim, para não esquecer que existo?
Além disso, irrita-me o fato de ela não me temer. Meu rosto não é
dos melhores e pode colocar qualquer criança para correr, no
entanto essa não é uma garota normal.
— Onde está o pai dessa criança? — indaguei bruscamente.
Escuto um resmungar baixo e de raiva.
— Vá dormir! — sua voz saiu carregada de raiva e frustração. Acho
que ela falou tanto para a filha quanto para mim.
A menina começa a chorar. Seu choro é bem sentido. Ela pula da
cama e corre pela escuridão, vindo até mim. Eu arregalo os olhos,
surpreso. Qual é o problema dela? Seu pequeno corpo bate contra o
meu e, imediatamente, sinto um calor diferente, como se algo se
ligasse dentro de mim. A coisinha se enrosca em meu colo
enquanto me sento em uma cama improvisada no chão. Seu cabelo
preto esconde seu rostinho. Não tenho mais certeza de minhas
emoções, apenas estou em choque.
— Callie, venha aqui! — Geny se levanta com raiva.
— Eu não quero. Não quero ficar perto de você. — ela disse entre
soluços.
Sinto o seu corpinho trêmulo tentar se acalmar enquanto suas mãos
agarram a minha camisa. Fico tenso quando a mulher vem com
raiva em minha direção. Sem perceber, coloco meu braço em volta
da criança, olhando para a sua mãe.
— Devolva a minha filha agora! — sussurrou para mim.
As feições em seu rosto quase me assustam, entretanto em nenhum
momento demonstro qualquer sinal de fraqueza. Não faço ideia do
porquê me deixei levar pelas preocupações com uma garota que
nunca vi na minha vida.
Rapidamente dou à Geny acesso total para pegar Callie, que ainda
agarra a minha roupa com todas as forças. Quando ela vê que não
tem como lutar, começa a chorar de novo. Sua mãe, em nenhum
instante, repreende-a por desobedecer, somente a acalma,
colocando-a na cama. O choro dela não é de birra, é sincero e
sentimental.
Depois de alguns minutos, as duas adormecem e Geny não fala
mais comigo.
Caminho descalço pela sala, já que aquela mulher não me deixou
entrar aqui com sapatos. Isso não me incomoda. Estranhamente,
sinto-me confortável, como se estivesse na casa de alguém que
conheço há anos. Essa maluca deve estar fazendo uma lavagem
cerebral em mim, é a única explicação.
Paro a alguns centímetros delas. Ela dorme com os braços em volta
da filha.
Respiro fundo e reavalio minhas decisões.
— Chefe, estamos no local. — Ouço a voz de Frost.
Afasto-me delas com cautela, vou até a porta e dou de cara com o
homem armado com uma AK-50.
— Você estava fazendo amizade com os selvagens? — Ele dá um
sorriso que estou começando a odiar.
— Você trouxe o que pedi? — indaguei impaciente, tentando não
me incomodar com suas provocações.
— Aqui está. Para o que precisa?
Ignoro sua pergunta e volto para dentro.
— Cuide da entrada. Vou pegar o que quero e vamos embora. —
avisei.
— Entendido.
Entro com a seringa na mão e fico cara a cara com Geny, que
mantém um olhar assassino para mim, de pé na frente da cama,
protegendo sua filha, que ainda dorme.
Sorrio diante do perigo. Não tenho senso de sobrevivência.
— Eu já imaginava que você atacaria na primeira oportunidade que
conseguisse. É apenas um verme mesmo. — cuspiu as palavras
para mim.
Ela faz um movimento com a mão para me atacar, a qual bloqueio
rapidamente, torcendo seus braços para trás. Como ela é muito
forte, é difícil mantê-la parada, mesmo usando minha força.
Mantenho-a imóvel contra a parede.
Geny rosna de raiva enquanto eu acaricio o seu pescoço
suavemente.
— É bom ter seus inimigos sob seu poder, não é, morena? —
sussurrei ao seu ouvido.
Não sei que tipo de louco sou por me sentir atraído por uma mulher
que vive em uma ilha deserta, mas tendo o corpo dela colado ao
meu, posso ter certeza de que o que vou fazer é exatamente o que
quero. Acaricio sua boca lentamente contra a minha e vejo sua raiva
crescer.
— Eu vou matar você! — Seus olhos brilham na escuridão.
Acabei de descobrir que gosto muito de mulheres que me desafiam.
Sorrio, imaginando sua malícia.
— Você é minha agora, meu tesouro perdido. — Fito suas írises.
Percebo o seu desespero quando a seringa afunda em seu
pescoço. Em segundos, o seu corpo pesa contra mim. Tenho que a
pegar e caminhar em direção à saída.
— Pegue ela! Leve-a com cuidado para o carro! — Entrego-a para
Frost.
O restante da equipe está esperando. Vejo alguns do seu povo no
chão, mortos. Como nossas armas são silenciosas, ninguém sabe
que estamos atacando.
— Não temos mais tempo, Drake. O que você vai fazer?
Não fico para responder e volto para pegar a coisinha. Não tenho
nenhum apego a ela, mas ela será uma grande ajuda para controlar
sua mãe. Não vou machucar nenhuma delas, só que Geny não
precisa saber.
Corro de volta, fazendo o meu caminho para a floresta, seguindo
Frost até o carro, que está a alguns metros de distância.
— Vamos sair daqui! — ele gritou.
Compreendo o motivo do seu desespero ao me virar. Entro no
banco de trás e fico grato pelo veículo ser espaçoso. Homens altos
como eu não se sentem confortáveis em lugares tão pequenos.
— Acelere! Eles vão nos alcançar! — exigi em voz alta.
Frost acelera e algo é disparado contra nós. Não parecem flechas.
Filhos da puta! Ele acelera ainda mais, evitando colisão contra as
árvores. Corremos o risco de bater o carro.
Dois dos meus homens atiram nos nativos e o barulho ensurdecedor
dos tiros faz a garota acordar no meu colo. Seguro-a em meus
braços para a manter segura.
O veículo faz todo o percurso em 10 minutos.
Observo a pequena mulher deitada no banco de trás e a seguro
para que não se machuque enquanto mantenho sua filha sonolenta
no meu colo. Eu deveria ter deixado essa menina para trás. Nunca
havia tido contato com uma criança depois de me tornar adulto.
Inclusive, a minha vida tem sido muito solitária desde que perdi
minha mãe. O que não faz muito tempo. Desde então, notei muitas
pessoas formarem famílias enquanto eu apenas existia e às assistia
de longe. Já pensei em ter isso, e agora me considero responsável
por uma mulher e por uma coisinha.
Um choque de realidade me atinge assim que penso sobre o que
farei com elas depois que conseguir o que quero. O carro pula e eu
me seguro firme quando finalmente vejo o meu avião pronto para
partir.
A garotinha murmura em meus braços e suas mãozinhas me
agarram como se ela tivesse medo de perder o contato comigo.
Eu me concentro. Preciso sair desta ilha rápido.
Finalmente, o carro chega onde está o avião.
— Rápido! Eles estão atrás de nós! — avisei ao ouvir sons vindo da
floresta.
Frost dirige o automóvel para dentro do avião, subindo a rampa, e a
porta se fecha atrás de nós minutos depois. O balanço da aeronave
se preparando para voar faz o meu estômago gelar, pois não temos
pista o suficiente para um veículo grande decolar de imediato.
— Frost, mantenha elas no carro e não as machuque. Estarei de
volta assim que colocar o avião no ar. — Deixo a garota ao lado da
mãe e corro até a cabine.
Aproximo-me do piloto e o encontro mais branco que papel.
— Que bom que você chegou. Preciso de ajuda. Não há chão o
suficiente. Você pode ver mais ao longe as bordas da terra e o
oceano logo depois.
— Eu sei. Fique calmo e pilote. — Pressiono os botões, acelerando
o avião, que balança mais, aumentando a minha tensão.
— Temos uma pista pequena, chefe. Merda! — falou mais alto,
deixando o seu desespero claro.
Também estou tentando não entrar em pânico.
— Cale a boca, porra! Temos que ir, ou aqueles desgraçados vão
danificar a aeronave. — Acelero mais.
Meus dentes cerram, de medo, e a tensão aumenta quando vejo o
chão prestes a desaparecer e o avião não conseguir impulso o
suficiente. O homem ao meu lado ruge de medo e finalmente
decolamos. A vontade de gritar, em pânico, vem automaticamente
assim que meu sangue congela, e eu perco a capacidade de
respirar quando começamos a cair. O som estridente das quatro
turbinas é alto o suficiente no momento em que consigo colocar a
aeronave de volta no ar a poucos metros de sofrer uma queda no
mar.
Fico olhando para o homem ao meu lado e o noto querer chorar de
alívio. Imagino que, desta vez, precise ir ao banheiro. Quase posso
ouvir os meus próprios batimentos cardíacos. Estou feliz por não
sofrer de nenhuma doença do coração, senão não voltaria para
casa vivo.
— Você sabia que seria uma missão arriscada. — declarei. — Eu te
deixei muito bem avisado.
— Eu sei, senhor. — Ele se acalma e mantém a atenção no painel.
Após mais alguns minutos, o avião já está no caminho certo, e
agora sem fortes tempestades, somente uma chuva leve.
Saio da cabine e volto para verificar o carro. Quando ouço gritos de
Frost, rapidamente corro. Meu sangue ferve de novo e eu o vejo
tentando agarrar a garota enquanto os outros assistem à cena em
silêncio.
— Eu te disse para não as machucar, porra! Você está ficando com
problemas de audição? — reclamei em voz alta, caminhando em
direção a eles.
— Me solte! Eu quero minha mamãe! — Callie é muito nervosa,
idêntica à mãe.
— Fique quieta, pirralha!
Ela se contorce desesperadamente nos braços do desgraçado.
Vou até ele e o empurro com força o suficiente para o fazer cair a
alguns metros de distância.
— Eu disse para você apenas cuidar delas, não tocar nelas, porra!
— Estou fodido de raiva.
Callie para de chorar em meu colo e seu aperto no meu pescoço
continua forte. Provavelmente, está com medo de me ouvir gritar
pela primeira vez.
— Essa coisa queria sair do carro e me arranhou quando tentei
pará-la. Foi apenas isso. — ele explicou com raiva, levantando-se.
— O que uma criança de 6 anos seria capaz de fazer contra você,
Frost?
— Isso aí é um animal. Ela me machucou como um. Pensei que
você tivesse vindo a este maldito lugar em busca de ouro e joias,
não para adotar animais selvagens. — seu tom de voz foi cheio de
nojo.
A vontade de matá-lo cresce mais.
— Ele estava tocando na mamãe. — Callie sussurrou ao meu
ouvido, com o corpo ainda tremendo.
Não posso começar uma briga no avião com apenas uma pessoa
pilotando. Terei uma responsabilidade extra e não posso pilotar,
sabendo que posso perder meu tesouro para um possível inimigo.
Frost é como todo mundo: não se pode confiar nele. Mas assim que
ele estiver no chão, será muito diferente. Quero ver se vai tocar no
que é meu de novo.
— Falo com você mais tarde. — avisei-o.
Tento acalmar Callie, querendo descobrir o que fazer com ela.
— Senhor Ivanok, eu sou a única mulher aqui. Posso cuidar dela
enquanto você pilota. Sei que seria difícil para você fazer esse
trabalho de babá. — Lyz me estende os braços para que eu lhe
entregue a menina.
Analiso a cientista sobre o assento do avião e penso duas vezes se
posso confiar nela.
— Não se preocupe, senhor Ivanok. Eu e minha irmã amamos
crianças. — O irmão dela está sentado ao seu lado. Parece me
olhar com expectativa.
— Quando eu voltar, quero que ela esteja inteira. — Ainda com raiva
e relutante, entrego a criança para Lyz.
— Não, por favor! — Callie começa a chorar de novo no colo dela.
— Eu voltarei em breve. Fique aí. Ninguém vai te machucar. — Sigo
em direção à cabine.
— Não vá embora! Papai!
Estremeço, ficando totalmente sem reação diante da palavra que
um dia significou tanto para mim, quando eu era criança. Respiro
fundo, entro na cabine e fecho a porta.
CAPÍTULO 7
Drake Ivanok
A viagem está cansativa. Eu mantenho a mulher sedada como um
animal, e isso me deixa doente a ponto de piorar minha dor de
cabeça, no entanto ela me daria um trabalho extra se não
cooperasse ou matasse alguém na esperança de voltar para o seu
lar. Um lugar que ela não verá tão cedo se não me ajudar. É mais
uma vantagem para eu conseguir o que quero. São 9 mil
quilômetros de mar separando a minha casa da dela.
Geny ficará louca quando acordar, porém estará em um lugar
seguro, longe de pessoas que podem machucá-la, e com sua filha
ao seu lado.
Finalmente chegamos e conseguimos pousar o avião sem grandes
dificuldades. A minha vontade de chegar em casa e tomar banho é
gritante, mas primeiro saio da cabine e vou para onde o restante da
equipe está. A primeira coisa que procuro é Callie, que está
dormindo no colo de Lyz, com as mãos livres. Depois vou até o
desgraçado, que já parece saber o que vou fazer. Frost tenta ficar
na frente de todos para ser o primeiro a descer do avião, contudo,
para o seu azar, eu o alcanço e o agarro pela camisa. Ele se vira,
tentando me dar um soco e eu me esquivo, batendo meu punho em
seu rosto duas, três vezes. Rujo de raiva e o levanto, jogando seu
corpo contra a parede, fazendo vários equipamentos caírem. O som
atrai a atenção de outras pessoas. Em seguida, agarro-o pelo
pescoço. Ele começa a ter dificuldade para respirar e a raiva fica
evidente em seu olhar.
Continuo encarando-o com nojo. Não sou amigo de ninguém. Que
isso sirva de aviso.
— Na próxima vez que você se atrever a tocar no que é meu... eu
mato você. — Deixo seu corpo cair no chão e vejo sua boca com um
pequeno corte sangrento.
Alguns anos de treinamento me fizeram bem. Achei que estava
muito velho para essas coisas.
Frost desce em silêncio e eu me aproximo da cientista que está com
Callie nos braços. Eu a agradeço pelo que fez e ela me entrega a
criança antes de ir embora com o irmão.
Ainda tento controlar a respiração. Minha dor de cabeça está me
matando e tudo que quero é minha cama.
— Drake, o helicóptero já está esperando por você. — Richard me
espera do lado de fora do avião.
Vou até ele e, novamente, preciso deixar Callie no colo de outra
pessoa. O que me incomoda.
— Coloque-a no helicóptero. Irei buscar a mulher. — Entrego-lhe a
criança. Pelo menos é um homem em quem posso confiar.
Ele pega a menina, vai embora, e eu sigo até o carro para pegar
Geny, que ainda está dormindo. Ela é pequena em meus braços,
mas um pouco pesada. Algo que não me admira, devido ao seu
corpo tão tentador.
Subo no helicóptero e deixo as duas protegidas por cintos de
segurança. Enquanto Richard cuida de Callie, eu cuido de Geny.
O voo para casa é rápido, e eu realmente aprecio isso.
A frase da garota permanece na minha cabeça e eu mal consigo
entender o porquê. Talvez por ter sido sincera, comovente. Todavia,
nunca me deixo levar por crianças. Na verdade, tudo que sei sobre
elas é que elas são irritantes. Eu queria essas coisas longe de mim.
Aliás, nunca me passou pela cabeça ser chamado de “pai” e jamais
imaginei que um dia tal palavra me desarmasse e me fizesse ver o
futuro de uma forma diferente e o meu passado de uma maneira tão
sombria.
Só então paro para pensar no quanto acabei com minha vida. O
peso da dor da perda me fez perder certas oportunidades. Do que
adiantaria chorar agora? Encolho os ombros com o pensamento.
Não encontrei uma mulher boa o suficiente. Talvez eu nem mesmo
mereça uma. A vida que minha mãe queria para mim, nunca
existirá. Seria como uma simples caixa onde eu poderia guardar
minhas memórias, aventuras e experiências, para quando chegasse
ao final da jornada, olhar para trás e saber que fiz tudo que sonhei.
Essa é a maior sorte que alguém pode ter, mas não é para todos, e
eu nunca receberei tal recompensa. Sei que quando o meu tempo
acabar não será tranquilo.
Desço do helicóptero após pousarmos no pequeno espaço da minha
casa. Vou até a entrada dela, carregando Geny em meus braços, e
vejo Nana passar pelas portas de vidro, olhando assustada para
mim. Ela é minha governanta e amiga de longa data.
— Deus! Quem é essa mulher, Drake?
Passo pela entrada, indo da sala ao corredor, onde ficam os
quartos. Viro-me para a mulher mais velha, percebendo que ela
ainda está em estado de choque.
— Nana, você poderia pegar a criança para mim no helicóptero
enquanto coloco sua mãe no quarto? Eu já volto.
Ela atende ao meu pedido, indo em direção à saída para pegar a
garota.
Abro a porta com dificuldade, atravesso o quarto com pouca
iluminação e coloco Geny na cama. Verifico sua respiração e a
deixo entre os travesseiros. Quando ela acordar, a primeira coisa
que irei fazer é lhe dar um banho. Eu as roubei, mas elas não serão
maltratadas por isso. Não sou um bom homem, só que não sou um
monstro, apesar de viver com muitos. Ou talvez eu seja? Talvez sim,
porém menos cruel que os outros.
Volto para a sala de estar para verificar tudo. O helicóptero já foi
desligado e as pessoas que fizeram parte da viagem, ficaram no
aeroporto. Apenas eu, Richard e meus tesouros retornamos para
casa.
Nana está sentada no sofá, observando a menina dormir.
— O que você vai fazer com ela? Por que a trouxe para a sua casa?
— Ela me olha tensa.
— Preciso da ajuda da mãe dela para obter informações e decidi
não a separar da criança. — respondi calmamente, com as mãos
nos bolsos da minha calça preta.
Eu sei que isso está errado, entretanto estou aliviado por ter
conseguido trazer as duas em segurança.
Nana permanece em silêncio e a expressão em seu rosto muda
quando ela olha para a garota. Parece zangada. Bem... Talvez não.
Ela é carinhosa com crianças e já não vê uma há algum tempo.
Nana trabalhava em uma escola e era uma velha amiga da minha
mãe.
— Ela é linda de qualquer maneira. — Sorri, alisando os cabelos da
menina.
Sorrio com a cena.
— Você não viu a cor dos olhos delas. São azul-escuros e
brilhantes, semelhantes a safiras.
Assim que termino de falar, Callie se mexe no sofá, ainda meio
desorientada pelo sono. Ela fica nervosa e assustada ao analisar o
ambiente, principalmente as luzes do lustre. A atenção dela se volta
para mim e depois para Nana.
— Mamãe! — choramingou.
A governanta não resiste e vai até ela para a acalmar.
— Calma, pequenina. Sua mãe está bem, está apenas
descansando. — Pega-a no colo, tentando consolá-la.
Callie fica em silêncio e observa Nana de perto. É como se ela
estivesse encantada pelo seu cabelo loiro-claro e sua pele mais
clara que a dela. Até toca em seu cabelo delicadamente, sem nem
sorrir na direção da mulher que está na casa dos cinquenta anos. A
garota permanece neutra enquanto faz suas descobertas.
— Parece que ela gostou de você. — comuniquei sem emoção.
Minha voz está rouca pelo cansaço.
Tudo que quero é tomar banho e dormir.
A pequena olha para mim e depois para Nana novamente.
— Onde está a mamãe? — Faz uma careta.
Eu me pergunto como essa garota será quando tiver a idade de sua
mãe. Terá o dobro do temperamento explosivo dela, provavelmente.
— Está dormindo no quarto dela, pequenininha. Ela está bem e vai
acordar logo.
— Posso ficar com ela?
Eu poderia até deixar, mas aí não faria sentido eu ter me dado ao
trabalho de trazê-la, já que o papel dela é fazer a mãe falar mais
facilmente.
— Vou precisar falar com sua mãe primeiro, Callie. Mas assim que
eu terminar, vou te levar até ela.
— A mamãe é sua prisioneira?
“Prisioneira” é uma palavra muito forte. É melhor “hóspede”, não é?
Até porque é costume maltratar prisioneiros, e isso está longe dos
meus planos e fantasias.
— Não, pequena.
Não posso deixar essa criança com raiva. A raiva de Geny será
suficiente.
— Que tal tomarmos um banho, pequenina? O que acha? Imagino
que esteja com fome. Aqui tem muita comida deliciosa que você vai
adorar. — Nana tentou animá-la.
A menina parece chateada por saber que a mãe ainda está
dormindo, e eu entendo como ela se sente, no entanto realmente
preciso estudar o tesouro que encontrei e não poderia fazer isso na
ilha, porque meus recursos estão aqui. Desde o início o plano era
trazer o objeto comigo, só não imaginei que estaria na posse de um
ser vivo.
— Eu vou ver a mamãe mais tarde, não é? — Callie me perguntou
com um olhar desconfiado.
A versão mais jovem da mãe. Talvez eu goste dessa coisinha até
que nossa aventura termine. Ela demonstra ter um espírito quase
inquebrável.
— Eu nunca iria separar você dela. Mas enquanto ela não acorda,
você descansa. Há muitas coisas novas para explorar. — Mantive a
minha voz calma, não querendo assustá-la mais do que já assustei.
Ela acena com a cabeça tristemente.
— Só não a machuque. — advertiu-me antes de acompanhar Nana
até uma das suítes.
Respiro fundo e, finalmente, entro em meu quarto. Deixei Geny no
que fica ao lado do meu, pois quanto mais perto de mim, melhor.
Não tenho planos de amarrá-la em um porão ou em um cômodo
escuro, vazio, e a qualquer problema estarei por perto.
Tomo um banho relaxante e encaro a luz do teto do banheiro,
sentindo os respingos de água em minha cabeça. Finalmente em
casa e limpo. Todavia, ainda não consigo relaxar cem por cento.
Geny vai acordar logo e poderá destruir aquele quarto antes que eu
chegue lá. Nunca vi uma mulher tão brava.
Visto o meu moletom de costume e ando com os pés no chão em
direção ao quarto da minha morena.
“Minha morena”. Gostei disso. Direi isso sempre que tiver
oportunidade.
Entro no cômodo, contorno a cama em que ela está e me permito
sentar na poltrona ao lado. Após alguns minutos a observando, vejo-
a começar a acordar lentamente. Está desorientada.
Contenho o desejo de confortar seu corpo.
Desta vez, seu colar misterioso está em minhas mãos. É pesado e
se assemelha a um pedaço de uma pedra ligeiramente grande. Só
espero que minhas teorias estejam certas e que eu não tenha feito
toda a viagem em vão.
A bela mulher tenta se levantar e analisar o que está à sua volta.
— Calma, querida. Pode piorar sua fraqueza se você se mover
muito rápido.
Ela olha para trás, todavia sua visão não se fixa em mim. Está
embaçada, com certeza. Observo-a seguir o som da minha voz.
— Olá, Geny.
Ela permanece em silêncio. Essa mulher ainda vai me matar. Terei
que ir com cuidado, ou estarei fodido.
CAPÍTULO 8
Geny
Minha cabeça dói muito e a náusea piora quando tento abrir os
olhos e focar a visão em algo. Está tudo embaçado. Sinto meu
corpo estremecer de medo por eu saber que estou vulnerável.
Minha memória está em branco, então tudo que me lembro são dos
meus momentos com Khan, do seu sorriso. O nó em minha
garganta cresce. Não gosto de ficar sem ele, sinto-me vulnerável.
Eu o tenho em minha vida desde que era criança e não sei viver
sem ele.
Viro-me na cama, procurando o calor do seu corpo. Khan sempre
me conforta pela manhã. Imagino que tenha ido buscar nossa
comida ou outra coisa.
O cheiro desconhecido me deixa inquieta. Esta não é minha casa, já
que nem sinto o cheiro da vegetação ao redor. Minha visão vai
melhorando aos poucos e eu analiso tudo. É um lugar claro, sem
graça e com paredes estranhas. Fico mais confusa.
— Onde estou?
Meu corpo congela assim que ouço uma voz profunda e grossa
atrás de mim. A qual me traz de volta à realidade.
— Olá, Geny. — É o meu inimigo, aquele que me traiu e me
machucou.
Eu já estava esperando por isso, mas ainda dói. Em segundos, as
memórias retornam: Callie, os intrusos na ilha, eu o sequestrando
de seu povo e ameaçando matá-lo se não aceitasse o meu acordo,
ele me machucando e eu não vendo mais nada.
Observo-o em silêncio, ainda em choque. Não sei como agir, nem
sei se ele vai me machucar. Não quero morrer aqui, quero ir para
casa.
Drake olha para mim, esperando uma reação minha. Seu cabelo
está úmido, com algumas mechas na testa, e ele está usando
roupas estranhas que, ainda assim, deixam-no atraente. Ele é
bonito de qualquer maneira.
Ele é o inimigo, Geny, que traiu sua confiança e que vai te
machucar.
Preciso ir para casa.
— Por que estou aqui? Você vai me machucar agora e depois me
matar? Onde está a minha filha? — Estou desesperada. Minha voz
foi arrastada por conta da minha garganta seca.
Olho ao redor novamente e me sinto como se estivesse em uma
gaiola. Estou presa com um homem mau que, com certeza, vai me
matar. Faço o meu melhor para controlar o medo, contudo a minha
respiração rápida me denuncia.
Ele se levanta calmamente e vem até mim, trazendo algo
transparente nas mãos.
— Beba primeiro. Precisa de energia antes de fazer qualquer coisa.
— Fala calmo.
Tiro o objeto de sua mão com cautela.
— O que é isso? — Analiso o recipiente com curiosidade.
Tenho vergonha de estar com medo, mas não estou em minha casa,
esse não é o meu lugar. Não tenho poder aqui, e Drake sabe disso.
— Com o que se parece? É apenas água. Não vou drogá-la de
novo. Eu precisava de você dormindo porque sei que tentaria matar
todos, e tais atitudes fariam com que eu não alcançasse o meu
objetivo. Eu sinto muito mesmo.
Estou com muita sede para pensar em algo. Bebo a água em
grandes goles, depois de horas inconsciente, e o líquido rasga a
minha garganta.
— O que você quer dizer, droga?
Volto o olhar para cima. Ele tira o objeto da minha mão e me olha
atentamente.
— É um líquido que é injetado no corpo para a pessoa dormir. Me
perdoe por isso. Eu precisava tanto de você comigo e não vi outro
jeito.
— Isso é algum tipo de vingança contra mim? Você invadiu o meu
território e ficou bravo porque eu não te recebi bem? E agora vai me
matar? Seja honesto. Estou acostumada com traições.
Ele mantém o olhar neutro em mim, e isso me assusta depois de
alguns segundos, mas mantenho a minha posição. Ainda sou
orgulhosa.
— Não te apaguei para me vingar, mulher. Você viria comigo de
qualquer maneira. Pare com esse drama. — Volta para a sua
cadeira, aparentemente, confortável.
— Onde estou?
— Na minha casa. Você está em Reyskins, nas terras do gelo. Já
viu neve antes? Verá em breve. — Permaneço em silêncio. —
Estaremos entrando no inverno em alguns meses, e o frio pode
acabar te incomodando também. Aconselho-a a não sair de casa
desprotegida, pois, provavelmente, adoeceria ou até morreria.
— Não adianta tentar me assustar. Vou voltar para a minha casa. —
rebati nervosa.
O maldito dá um sorriso divertido. Ele sabe que a vantagem é dele.
— E você realmente acredita que pode voltar sozinha? — Sua
atitude de sorrir mais me enche de medo e raiva por dentro. —
Preste atenção, Geny. São 9 mil quilômetros de oceano que separa
as nossas casas. Teria que nadar muito, e suponho que deveria
estar em boa forma para isso, além de ser imortal.
— O que você tanto quer de mim? Onde está a minha filha?
— Callie está bem, e aqui também. Você a verá depois que
conversarmos. Ela está sendo cuidada por outra mulher. Eu não sou
um monstro. Posso prometer que nada de ruim vai acontecê-la. Meu
único interesse é você, pois preciso da sua ajuda. — Mexe-se na
cadeira, totalmente calmo.
— Eu a quero de volta, seu bastardo! — Decido avançar na direção
dele.
Em segundos sou jogada de volta na cama. O que me salva de uma
queda mais dolorida. Meu peito dói com o golpe e eu sinto uma leve
tontura.
— O que você...? — Tenho dificuldade para falar. — O que está
fazendo com o meu colar, seu desgraçado? — Encaro-o, vendo-o
olhar para o objeto em sua mão com um leve sorriso malicioso.
— Então, foi isso que fez aquilo comigo naquele dia? Interessante.
Levei um tempo para descobrir seu truque, mas parece que você
deixou muito óbvio, não é? Escute, mulher... — Brinca com o colar
nas mãos. — Farei o mesmo acordo que fez comigo. Não tenho
interesse em matar você ou sua filha. Se me ensinar o que esse
objeto é capaz de fazer, vou levá-la de volta para a sua casa e
nunca mais me verá. Todos poderão ganhar se me ajudar.
— Acredita que eu nasci ontem? O que realmente quer com o
amuleto do dragão? Se pensa que ele vai te deixar mais forte, ficará
desapontado. — Tentei tornar o objeto inútil.
— Se não é valioso o suficiente, posso ficar com ele, então? Vou
estudar seu brinquedo mesmo assim. Pode me contar, ou eu
mesmo descobrirei. Ele, provavelmente, não vai voltar para as suas
mãos.
— Nem mesmo o meu povo e eu sabemos muito sobre essa pedra.
Só a usamos como escudo porque ela protege quem a usa. É
passada de geração em geração entre os líderes.
Drake permanece em silêncio, olhando para o objeto. Ele não ficará
satisfeito com minhas respostas.
— Se eu aparecer na minha aldeia sem o amuleto, serei morta.
Preciso dele de volta.
— Então, essa joia de cor brilhante tem mais segredos que você
não quer me contar. É bom saber também que seu povo não a
aceitará. Eu posso tê-la como o meu animal de estimação.
Ainda vou matar esse homem. Ele não sabe com quem está
jogando.
— Vá em frente. Deixe um inimigo dentro da sua casa. — falei
furiosa, aproximando-me dele.
Ele ainda está completamente calmo, encarando-me com escuridão
nos olhos, e depois se levanta lentamente. Portanto, preciso olhar
para cima de novo.
— Você é muito corajosa, linda. Mas, deixe-me avisar, para que
saiba exatamente em que situação se encontra. Agora está em meu
território, eu dou as ordens aqui e um oceano separa as nossas
casas. Então, se eu fosse você, pensaria bem antes de dar os
próximos passos. Ninguém aqui vai te ajudar, além de mim, porque
fora das minhas terras tem gente muito, muito pior do que eu. —
Sorri.
Seguro as lágrimas de ódio que ameaçam vir. Maldito!
— Você pode chorar o quanto quiser. Não tem como voltar sem
minha ajuda. Aceite o acordo ou enlouqueça sozinha, desejando
sua vida de volta.
— Você é apenas um bastardo traidor.
— Eu sou isso e muito mais, linda. Se quiser fazer um teste depois...
Considero o seu silêncio um “sim”. Agora, que nos entendemos,
você vai tomar banho e depois poderá ver sua filha.
Respiro fundo, sentindo-me obrigada a aguentar esse homem
presunçoso.
— E onde você toma banho? Aqui parece uma caixa. — Franzo a
testa.
Ele se afasta para abrir uma porta. Aproveito sua distração e penso
rapidamente, pegando o primeiro objeto pesado que encontro. Isso
deverá desorientá-lo e, então, poderei matá-lo. Tudo que ele me
disse é mentira, um blefe. Eu só preciso encontrar Callie e procurar
a saída sem que ninguém me veja. Devo estar a apenas alguns
quilômetros da aldeia.
Jogo o objeto pesado nele antes que possa abrir a porta. O
problema é que ele se vira no mesmo instante e o bloqueia,
segurando-o com as mãos.
Drake Ivanok
Enquanto abaixo o jarro de porcelana, vejo o medo crescer em seus
olhos. Geny sabe que, apesar de ter quase a mesma força que eu,
ainda tenho a mesma experiência que ela. Já imaginei que, ao virar
as costas, a mulher faria alguma coisa contra mim. Para piorar sua
situação, tenho o seu amuleto, que dá muitas vantagens para mim e
nada para ela.
Coloco a porra do jarro de volta na mesa.
— Você sabe por que eu trouxe sua filha comigo, Geny? —
Aproximo-me dela, vendo-a não se mover do lugar. — Exatamente
porque eu esperava um comportamento rebelde seu. Eu já sabia
que na primeira oportunidade de me matar, você não hesitaria.
Suponho que não tenha ouvido o meu aviso há alguns minutos, não
é? Continue assim e não vai sair deste quarto, muito menos ver
Callie. Não tem poder aqui. — Olho em seus olhos para que ela veja
que não estou blefando.
Ela fica em silêncio.
— Odeio você.
— Também gosto de você, mulher. Agora... Banho! — Aponto o
dedo na direção do banheiro.
Geny se afasta enquanto eu a admiro por trás. Não perco
oportunidades.
— Como vou tomar banho aqui? — perguntou irritada, claramente
lutando para falar comigo.
Essa mulher parece orgulhosa, e eu gosto disso.
Guio-a com cuidado até o chuveiro ao lado da banheira. Ela se
assusta com a água que cai perto dela assim que aperto o botão.
— Vocês parecem ser muito criativos. Como faz isso? — Tentou
esconder a curiosidade, que venceu o mau humor.
— A água vem de canos, e o chuveiro possui tecnologia para
aquecer a água da maneira que você quiser. Basta pressionar esses
botões. — Mostro-lhe todos eles.
— Você toma banho com água quente? — questionou, estranhando
esse fato.
— Sim.
Ela levanta a mão e se afasta em segundos, demonstrando estar
assustada.
— Eu prefiro fria. — Espera pela minha resposta.
Pressiono o botão, mudando a temperatura da água.
— Você deve passar isso em seu corpo. — Mostro-lhe o sabonete
líquido. — E estes são o shampoo e o condicionador, para o cabelo.
Nem tenho tempo de sair do banheiro, porque ela logo tira as
poucas roupas que escondia seu corpo. Fico paralisado e recuo
para lhe dar privacidade, tentando não olhar para os seus seios
fartos que, em poucos segundos, notei que são lindos, já à primeira
vista.
— Você também não vem tomar banho? — Olha para mim enquanto
a água começa a escorrer pelo seu corpo.
Não sei por quanto tempo permaneci prestando atenção nela, mas
se eu não sair daqui agora, vou perder o controle. Adoraria entrar lá
com ela.
— Talvez outra hora. — falei sério, dando-lhe uma última olhada
rápida.
Quase corro para fora do quarto. Não posso me dar ao luxo de
chegar perto dela assim. É temporário. E se eu mudar de ideia, ela
nunca verá sua casa novamente.
CAPÍTULO 9
Frost
Passaram-se horas desde que levei um soco no queixo de um
daqueles selvagens em miniatura. Os dois arranhões no lado direito
do meu olho estão desaparecendo lentamente, só que a humilhação
permanecerá em mim por muito tempo. Nunca imaginei que quando
fosse dar uma olhada na mulher inconsciente, dentro do carro, seria
atacado por uma criança. Eles são como animais. Para piorar as
coisas, o filho da puta do Ivanok me atacou à toa. Isso não vai ficar
assim.
Levei um tempo para descobrir o que ele queria com aquela nativa.
Talvez faça dela um animal de estimação ou algum tipo de objeto
para exibir. Mal sabe esse playboy que muita gente já está
procurando o tesouro que ele possui.
Continuo sentado com os braços cruzados sobre o peito, analisando
os dois cientistas sentados à minha frente, em suas poltronas. A
garota alta, de pele leitosa e cabelos loiro-claros, quase brancos, faz
anotações em um pequeno caderno, totalmente concentrada. Ela é
muito bonita, bem diferente das putas com as quais estou
costumado. Já o irmão dela, imagino que nem aos olhos de uma
mulher seja atraente. Os dois têm as mesmas características, mas a
beleza favoreceu apenas a menina.
O homem de rosto neutro olha pela janela do seu lado direito e
balança os pés sem parar. Nervoso, claro, pelo que está por vir, já
que é novo aqui.
— Vocês dois parecem mais estagiários no primeiro dia. Acalmem-
se, crianças. Não é hoje que vão morrer. — comuniquei com calma,
rindo por dentro.
Felizmente, nem todos têm o privilégio de aprender a se defender.
Seria inútil assustá-los. Saber que eles não são capazes de ser
como eu, que não passam de vermes insignificantes apenas
ocupando espaço no mundo, enche-me de prazer.
Ouço a porta se abrir e avisto um homem de tamanho incomum
cruzar a sala com a cabeça erguida. Aparentemente, um anão. Ele
caminha até a mesa desproporcional à sua altura, e isso não parece
incomodá-lo. Tenho que aplaudir meu autocontrole, porque a
vontade de rir é grande. Pacientemente, espero-o subir em sua
cadeira. Desvio o olhar ao chão para não correr o risco de
enfraquecer.
— Relatório. — o homenzinho pediu.
Aguardo um dos cientistas responder. São eles quem têm as
informações.
Daqui a pouco descobrirei por que fui chamado aqui também. A
frustração toma conta de mim, pois, na verdade, eu deveria estar
seguindo os movimentos de Ivanok.
— O artefato que procurávamos não foi encontrado. — Lyz disse.
Até o nome combina com sua beleza.
— O que quis dizer com “não foi encontrado”? Estão me dizendo
que a viagem foi em vão? Vocês terão que voltar lá. Preciso do
artefato. — Charles está com raiva.
Bem... Dizem que quanto menor o ser, mais zangado ele é. Esse
não é diferente.
— Certamente. Nós também pensamos nisso. — apontou o irmão
da menina. — Até descobrirmos um povo peculiar morando naquela
ilha. Aproveitávamos para coletar informações, quando o líder da
expedição foi capturado por um deles.
O homem ri alto, como se tivesse acabado de ouvir uma piada.
Acabo sorrindo também. Foi engraçado ver um homem como
Ivanok, com ar de temível, ser pego tão facilmente pelos nativos.
A voz de Charles enche a sala. Mesmo com seu tamanho, não sou
louco de entrar em conflito com ele. O que lhe falta em altura, ele
tem em poder. O que muitos homens desejam.
— Aquele pirralho mimado foi pego? Nunca imaginei que viveria
para ouvir isso. E como foi? — indagou com curiosidade.
Pelo que sei, o velho de 60 anos tem um pouco de inveja de Drake,
por ser bem-sucedido nos negócios. É um menino inteligente e órfão
que conseguiu conquistar o mundo. Até eu teria, em seu lugar. Não
tenho nada contra Ivanok, apenas o fato de ele ter me agredido por
causa de duas estranhas que ele tomou para si.
— A líder dos nativos da ilha o capturou depois de nocautear sete
homens de uma vez. — Lyz respondeu.
A expressão no rosto de Charles muda para tensão.
— Eu não entendo. Eles não deveriam ser mais do que nativos
indefesos. Isso é algo a se considerar.
— Sim. Mas, aparentemente, a mulher tinha o poder de se defender
sem esforço. E somente ela. — Lyz continuou.
Resolvo falar sem permissão.
— Eu matei quatro de seus guardas no processo de resgate
daquele idiota. Nenhum deles tinha essa habilidade.
— Então, se juntarmos as peças, está mais do que explicado porque
Drake a pegou. — disse Charles pensativo.
— Ele não só a levou, como também a uma criança. Deve ser filha
da mulher. Aquela coisa me atacou com uma força incomum para
uma menina de, aparentemente, 5 anos. — Ainda estou com raiva.
— Você tem algo a dizer, senhor Chabot? — Charles encara o
homem quieto.
— Se os estudos feitos nos últimos anos estiverem corretos, o
artefato realmente existe, e, provavelmente, as pessoas que
habitam a ilha têm conhecimento do objeto. Deve estar com a
mulher, já que ela é a líder.
— Eles não são humanos. Consegui ficar um tempo com a criança
nos braços, no avião. Ela possui presas mais elevadas do que o
normal. — contou Lyz.
— Quando eu estava sozinho com a nativa, verifiquei se havia
algum objeto incomum com ela, porém não encontrei nada além de
armas escondidas.
— E se não for um objeto? E se for a nativa que tem o poder?
Olho para a mulher, confuso com seu raciocínio. Ela deve usar
algum tipo de droga antes de trabalhar.
— Não podemos afirmar nada. Ivanok, como sempre, foi esperto em
levá-la direto à sua fortaleza, provavelmente, para a estudar. Ele,
com certeza, já tem muitas informações. — O irmão de Lyz cruza as
pernas, em frustração.
— Apenas façam o seu trabalho. Eu quero o artefato e não aceito
mais imprevistos. O combinado era para vocês o ter aqui. Não
desejo mais problemas. Estão dispensados.
Eu me levanto para sair da sala. Aquele filho da puta me paga, e
aquela coisa que parece uma criança será a primeira.
— Você fica, Frost.
Paro de caminhar, vendo os irmãos fecharem a porta, e retorno para
a mesa de Charles, esperando por ordens.
— Como posso ajudá-lo? — Não gosto de seguir ordens, eu odeio.
Mas, devido aos meus erros, acabei aqui, pagando com trabalho
para não ser pego pela polícia.
— Preciso de um favor seu em relação ao Ivanok.
— Ficarei feliz em ajudar, senhor. — Contenho meu sorriso. É isso o
que mais quero.
CAPÍTULO 10
Drake Ivanok
Caminho em direção à porta do quarto de Geny. Sua filha, ao meu
lado, vem em silêncio comigo, com sua pequena mão segurando a
minha. Ela foi paciente o tempo todo depois que eu lhe disse que
sua mãe estava bem e que iria vê-la em breve. Callie não fez mais
perguntas, e o que mais me chamou a atenção foi o seu jeito de
sempre guardar tudo para si e não mostrar raiva, tristeza e alegria.
É um dom natural para se esconder, ou deve ter aprendido isso com
a mãe desde o começo, quem parece ser rígida às vezes. Também
quero entender a cultura e os ensinamentos dela com sua filha.
Quando eu abro a porta, encontro-a usando ainda a toalha de banho
que lhe dei. Ela está parada, olhando pela janela do quarto. Eu me
sinto indiferente quando a vejo se virar para nós.
Callie solta a minha mão e corre até Geny, que sorri, esperando por
um abraço. Sinto meu coração acelerar quando ela sorri para a sua
filha e sua toalha quase cai do seu corpo no processo. Pelo visto, a
bela mulher não tem vergonha da garota. Seus longos cabelos
negros parecem brilhar sob a luz do lustre de cristal. De onde estou,
é como observar uma pintura em 4D: a vista do mar atrás das
janelas e o abraço entre elas.
Eu me pego pensando no que estou fazendo. Por que a trouxe para
a minha casa, se bastava roubar seu colar? Mas assim eu não teria
as respostas que preciso. Necessito que ela me ensine tudo sobre o
objeto. No entanto, foi só isso? Ou também o fato de ela ter me
alucinado desde o primeiro momento que a vi?
— Alguém te machucou? — Geny perguntou para a menina.
— Não, mamãe. Um homem mau queria chegar perto de você, mas
eu não deixei e o machuquei. — contou com bastante orgulho.
Eu finjo não ser afetado pelo olhar letal de Geny em minha direção.
Crianças!
— Que homem é esse, Drake? Exijo uma explicação! — aprofundou
a voz, tornando-se mais intimidante.
Que mulher é essa? Embora pareça uma espécie de princesa
amazona, também se assemelha a uma assassina selvagem.
— Eu pedi a um dos meus homens para proteger vocês duas
enquanto eu estava decolando o avião. E quando voltei, ele tinha
tirado Callie de perto de você. — Sei que é minha culpa, já que elas
estavam sob minha proteção.
— E você não fez nada?
— Eu não poderia matá-lo lá, mulher. Meu mundo não é como o
seu. E se eu fosse lutar contra um homem dentro de um avião,
quem manteria aquela coisa no ar? Iríamos morrer. Ele foi
dispensado assim que pousamos e voltou para casa com o rosto
inchado. Nunca vou permitir que ninguém toque em vocês duas.
— Estou me sentindo muito protegida. — Revira os olhos e volta
sua atenção para a criança.
Dou um suspiro de frustração, lembrando-me de que preciso ter
paciência.
— Podemos ir jantar agora? Ou devo imaginar que você não se
importaria de comer comida fria? — Levanto as sobrancelhas para
ela.
Eu sei exatamente o que fiz e muito mais, só que não estou com
vontade de discutir no momento. Estou cansado.
— Você me tirou de casa. Agora assuma as consequências,
homem. E se tentar me machucar, vou tirá-lo o que considera mais
valioso. Entendido? — rosnou as palavras, quase encostando o seu
nariz no meu.
Mesmo admirando toda a sua coragem e falta de bom senso em
relação à vida de sua filha, sei que ela está longe de ser capaz de
me intimidar.
— Sorte sua, morena linda, que estou de bom humor. Você me
diverte. Precisamos cuidar de outra coisa antes do jantar. —
Seguro-a pelo braço. Ela realmente pretende sair da sala usando
toalha de banho? — Venha. Vou encontrar algo para você vestir. —
Arrasto-a até o closet, ouvindo-a bufar.
Sinto pena de Nana, porque terá que aguentar Geny por alguns
meses. Que mulher nervosa.
— Achei que já estivesse vestida.
Eu não me importaria de avisá-la se fôssemos apenas nós dois na
casa. Vê-la andando quase nua, seria impossível de recusá-la.
— Essa toalha é somente para depois do banho. As roupas que
você vai usar estão aqui. Vou mandar Nana te ajudar a se vestir,
mas, por enquanto, use isto. — Entrego-lhe um vestido longo e
branco, de cetim.
Sou um idiota por ter escolhido um dos melhores deles apenas por
querer vê-la ficar mais tentadora do que já é.
— Vista-o. — Saio do closet.
Espero-a sentado na cama com Callie, que admira a vista do lado
de fora com as mãozinhas na janela. Não há muito para ver, está
nublado.
Pouco tempo depois, Geny aparece e eu quase perco o fôlego. Seu
queixo levantado a torna ainda mais poderosa naquele vestido, e o
decote razoável a deixa quase vulgar, devido ao tamanho dos seus
seios. Ela não é magra como Katelyn, e isso me deixa louco,
atentado a arrancar a coisinha do quarto, prender sua mãe contra a
parede e agarrar seu corpo. Tenho fome dela.
— Está perfeita. — Foi tudo que consegui dizer.
— Ainda prefiro ficar sem roupas.
Solto uma risada rouca.
— Concordo com você, morena. Mas, por enquanto, vai ter que ficar
com isso. Agora, podemos ir? — Estendo-lhe a mão para que me
siga.
Fico surpreso quando ela a aceita sem reclamar. Callie corre na
frente, com certeza indo atrás de Nana.
Observo Geny o tempo todo enquanto come como eu ensinei. Ela
ajuda a filha ao seu lado, que tem mais dificuldade para aprender a
usar o garfo. Estou surpreso em como alguém com a formação
dessa mulher mostre certa polidez à mesa. Totalmente diferente do
que eu esperava. Ela não auxilia a garota o tempo todo, apenas lhe
mostra como fazer os movimentos, os quais Callie copia.
Sorrio discretamente, olhando para a cena, e Nana me lança um
leve sorriso quando percebe que fui pego no flagra.
— Geny, o Drake me disse que te encontrou em uma ilha. Você
sempre morou lá? — Nana a analisa com curiosidade.
Eu já lhe disse tudo que precisava saber, mas a governanta gosta
de conversar com outras pessoas, e a única por aqui é Kate, que
não gosta muito de falar com ela.
— Oh! Foi isso que ele te disse? Interessante. Eu nasci na ilha e
moro lá desde sempre. Apenas isso. — Tentou encerrar o assunto.
— E apenas para deixar claro, fui roubada pelo seu companheiro. —
usou um tom de sarcasmo, irritando-me.
O que ela quis dizer com a porra de “parceiro”? Mulher louca.
— Eu entendo, querida. Mas, o que você quis dizer com
“companheiro”?
— Ele não é o seu homem? — Olha para mim.
— Não. Meu companheiro, como você diz, morreu há muito tempo.
Estou sozinha. Só trabalho para o senhor Drake. — Dá um sorriso
educado, com uma paciência incomum, deixando Geny sem graça.
— Bem... Então, somos duas. Sou uma mulher viúva também.
Minha perda foi há cinco anos. — ela informou sem nem mesmo
olhar para mim, concentrando-se apenas em seu prato.
Isso não deveria, porém me deixou curioso. Por que ela é viúva?
Parece ser tão jovem.
— Sinto muito, querida. — Nana resolve encerrar o assunto.
— Obrigada.
Concentro-me no meu prato também, em silêncio, permitindo que
Geny tenha um pouco de sossego, assim como Nana, que já
percebeu que a mulher não é de falar muito. Mesmo mostrando
sutileza, o corpo dela ainda está um pouco rígido, por não se sentir
em casa.
Quando termino de comer, ajudo minha funcionária a limpar a mesa.
Geny também começa a ajudar enquanto sua filha a espera.
— Não. Você e Callie podem ir descansar. — Aceno para que ela
saia da sala de jantar.
Eu a vejo bufar de raiva. Seus olhos ficam mais brilhantes quando
ela está nervosa. Para mim, fica ainda mais bonita assim, no
entanto não deixo transparecer esse pensamento. Se essa mulher
descobrir o que está fazendo comigo, estarei fodido.
— Venha, filha. — chamou a garota baixinho.
Minha maneira de falar quase sempre soa rude. Mas não quero que
ela faça nada agora; prefiro que descanse e que passe algum tempo
com Callie. Imagino que logo sentirá saudade de casa e que
começará a tentar fugir. O que será uma perda de tempo.
— Você deve ser mais paciente com ela, já que você mesmo afirma
que elas não são prisioneiras. Não sei como ainda está inteiro. Pelo
temperamento que Genny parece ter, isso me espanta.
— Só quero que ela descanse e fique com a filha depois das horas
que passou dormindo. É difícil me controlar perto dela.
— Eu entendo. Pela sua cara no jantar, compreendo todo esse
cuidado.
Estreito os olhos em sua direção.
— O que está insinuando, Nana?
— Nada. Só estou falando. Agora, vá para a cama você também,
garoto apaixonado. Eu termino aqui. — Dá um leve sorriso ao
colocar a louça no lava-louças.
— Você está vendo coisas. — comentei já partindo.
— Talvez. — Fica em silêncio.
Caminho pelo corredor, balançando a cabeça. Nunca me apaixonei
em minha vida, e não faço ideia de como é isso. A ansiedade de ver
o que Geny está fazendo no quarto me faz dar um passo à frente.
Abro a porta devagar, que estava entreaberta, e me deparo com as
duas aninhadas no meio da cama, abraçando-se. Aproximo-me e
vejo a mulher acordada, observando a filha dormir em seus braços.
— O que você quer agora, Drake? Vai me pedir mais alguma coisa?
Fico em silêncio por alguns segundos. Ela não gosta de receber
ordens. Mais um motivo para eu ficar longe.
— Vim ajudá-la a dormir. Imagino que queira tirar esta roupa e que
esteja desconfortável.
— Possivelmente.
Respiro fundo, cansado.
— Têm lençóis no baú e roupas de dormir nas gavetas do closet, se
quiser.
Ela segue com o olhar por onde mostro em quais lugares está tudo.
— Vou fazer o meu melhor. — pronunciou em um tom irritante.
Essa birra já está consumindo a porra da minha paciência.
— É isso ou você é capaz de destruir tudo com seus modos e
costumes selvagens, não é? Estou apenas me certificando de que
as coisas estão em ordem.
— Não sou um animal selvagem que não tem disciplina, imbecil. —
rosnou baixinho, por medo de que a criança acordasse.
— Prove, então. — pedi, com raiva. — Boa noite. — Saio sem olhar
para trás e sem esperar por uma resposta.
Essa mulher pode me irritar tanto quanto me atrair. No entanto,
tenho autocontrole suficiente.
CAPÍTULO 11
Geny
Três semanas se passaram desde que cheguei a este lugar
estranho. Tive que me acostumar com tantas coisas, como a
reaprender a tomar banho, a comer, a dormir... A tudo, a qualquer
atividade. Esse local tem um certo conforto. Você não sofre e não se
cansa; não é como na ilha.
Sempre vejo Nana, a mulher mais velha que cuida daqui,
reclamando de dor, mas não procuro prestar muita atenção nela. Em
meu mundo, definitivamente, ela ficaria doente. No clã, se alguém
se torna inválido e deixa de fazer sua parte, eles não param suas
vidas por essa pessoa, a menos que ela não consiga sair da cama.
Não estamos costumados com idosos doentes, porque eles nunca
adoecem e estão sempre em movimento, cuidando das coisas mais
leves. As mais pesadas são para os jovens. Lá ninguém facilita a
vida de ninguém, e se você está prestes a morrer, alguém mais
próximo fica ao seu lado até você ir embora. Nosso povo não é tão
sensível.
Eu me perdi quando Khan morreu, sendo brutalmente assassinado
por uma antiga rivalidade. Algo extremamente raro entre nós, já que
não nos matamos, nem por inveja. Mesmo tendo inimigos,
continuamos apenas distantes deles. O assassinato é inaceitável e
punível com a morte. Matar só é permitido no ritual de reivindicação
de liderança, exatamente como fiz. Aliás, Ary foi executado por
Kevrel no mesmo dia em que seu pai foi morto por mim. Eu não
estava em posição de fazer mais nada nesse dia e desmaiei pouco
tempo depois. Um curandeiro cuidou de mim por três dias e o
batimento cardíaco de Callie, ainda na minha barriga, estava
acelerado. No meu mundo, a conexão entre mãe e filho é muito
profunda e ainda mais forte quando o bebê ainda não nasceu. É
como se a criança nos protegesse, e vice-versa. Ela estava
assustada porque sentiu o meu medo e a adrenalina, que aumentou
minha força para vencer.
Caminho pelo campo do jardim de Drake. É de manhã. Devo admitir
que sinto falta de ver o sol. Não sinto frio.
Outros homens, que vigiam cada centímetro da casa, estão vestidos
com uniformes que cobrem completamente seus corpos, até as
mãos.
Só depois que saí da propriedade, vi quão enorme ela é. Mas só a
casa, porque o terreno não é tão grande assim. Pelo que percebi até
agora, depois de mais alguns metros do campo, dá para ver o mar.
A água é cinza-escuro, da mesma cor do céu. Tudo aqui é diferente
do meu lar. Tenho saudade das cores.
Se eu quiser voltar, terei que aceitar a palavra de Drake e lhe dar o
que quer. Não tenho escolha. Contudo, não posso revelá-lo o seu
verdadeiro papel. Ele é um homem muito chato, porém eu não
demonstro, nem nunca vou admitir, que rio algumas vezes de suas
provocações, como quando ele me ensinou a “escovar” os dentes.
Eu fazia a limpeza deles de uma maneira diferente na ilha. Aqui se
usa um tipo de pasta que cheira bem. O homem insistiu em me
ensinar, mesmo com Nana se oferecendo para me ajudar. Ele veio e
a mandou embora de propósito para tirar a minha paz. É claro que
não queria me auxiliar; queria se divertir, vendo-me falhar em uma
tarefa que lhe é simples. No final, ele tomou um banho com a água
que peguei nas mãos e joguei nele.
Se há um homem mais chato do que esse, só os próprios filhos
dele, se ele tiver um dia.
— Não me diga que está pensando em um plano para atravessar o
oceano até sua casa. O que vai fazer? Uma jangada? — Ele ri.
Eu nem perco o meu tempo me virando.
— E o que é isso?
— É um barco improvisado. Nem tente fazer. Não tem nada para o
construir aqui e ele não dura em alto-mar. Nas tempestades, as
ondas chegam a 20 metros de altura ou mais. Você não
sobreviveria, mesmo com toda a força de vontade que tem.
— Eu não vou fazer nada, homem. Deixe de ser paranoico.
Ele ri de novo.
— Não está com frio?
— Estou bem. Você parece mais sensível ao frio, não é?
Ele está usando uma camisa escura que cobre seus braços e uma
calça de moletom que adora colocar em casa.
— Se você veio de um mundo feito de gelo, está explicado.
Pela primeira vez, sorrio, sem me conter. Que homem chato.
— Fica mais bonita quando sorri. — Chega mais perto de mim.
Seus olhos demonstram querer navegar nos meus e seu jeito de me
olhar é muito compreensivo. Drake não é tão grande quanto o meu
parceiro, mas ainda faz eu me sentir pequena quando está próximo
a mim.
Mal percebi que, com apenas sua abordagem, ele conseguiu me
desarmar. Tento esconder minha timidez.
— Pelo que meus ancestrais nos contavam, nosso mundo era
idêntico ao seu, apenas com mais diversidade.
Ele me olha surpreso, como se não acreditasse.
— Se não fosse pelas suas presas mais elevadas que as minhas,
eu jamais acreditaria. É uma coisa surreal de se imaginar. Nunca
fomos capazes de descobrir quaisquer outros seres como nossa
espécie fora de nosso planeta.
— O que vocês, humanos, imaginam? Que só existe o seu planeta?
Todo o universo é povoado por seres semelhantes a nós, com cada
espécie mais superior que a outra. Também existem regras a serem
seguidas. Planetas como o seu são raros, mas não valem muito por
causa do tamanho. Há outros maiores, com muito mais variedade
de vidas para despertar o interesse. O meu era um desses, muito
cobiçado. Mataram muitos de nós e muitos tidos como espécies
exóticas. — Lembrei-me das histórias assustadoras que me
contavam quando eu era criança.
Não era para eu ter revelado detalhes sobre a minha origem, só que
isso não é tão valioso. Apenas a informação a respeito da pedra não
pode ser revelada. Se eu tiver que morrer, irei. Se eu revelasse, já
estaria morta de qualquer maneira, pois seria uma traidora,
condenando o meu povo.
— Seu pessoal tem acesso e conhecimento sobre todo o universo?
— Para ter acesso é necessário ter os recursos que tínhamos no
nosso planeta. Por isso sabemos apenas algumas coisas que foram
transmitidas de geração em geração. Meu povo tem vivido como
refugiado em seu planeta por apenas 180 anos.
— E qual era a função de vocês antes? — Drake está bastante
curioso, olhando-me com expectativa.
— As espécies evoluídas eram divididas em classes. Quanto mais
alta a classe, mais poder tinham para fazer o que quisessem. O meu
povo era da classe média, mas éramos livres para muitas coisas.
Vivíamos dos recursos do nosso planeta. Só não me pergunte como
chegamos aqui. Não tenho ideia. Essas histórias eram contadas
para as crianças.
— São interessantes as histórias que seu povo conta. E a origem da
pedra?
— O que você quer tanto com ela? O que acha que ela vai te dar?
— Por que ela é tão valiosa para você?
— Ela protege. O amuleto também tem uma história, mas eu não
acredito nela. Ela não veio do nosso planeta, foi encontrada por um
dos meus em algum momento. Também não sei como. Dizem que é
apenas um fragmento de matéria vinda de algum canto do universo.
Além do que você viu, não sei mais o que ela faz. O que vai fazer?
Por favor, não a estrague. Se não vale nada para você, vale para
mim e meu povo.
— Não vou destruí-la. Tenho um projeto em andamento e preciso
estudá-la. Até eu terminar, você fica me contando as histórias de
crianças do seu povo. Todas são muito interessantes. — Estende a
mão para mim. — Vamos entrar? Ou irei ficar doente, morena. Não
sou igual a você.
— Por que me chama de “morena”?
— Porque você é. Sua pele parece chocolate.
— O que é chocolate?
— É claro que não sabe. Estou relutante em te dar um para comer.
Todas as mulheres, ou a grande maioria delas, amam chocolate.
— Conseguiu despertar minha curiosidade.
Ele me encara quando o vento sopra o meu cabelo para trás. Toda
vez que isso acontece, Drake fica encantado. É engraçado.
— Me siga, então. É incrível como sua mão está quente. —
comentou sem olhar para mim, mantendo sua mão macia à minha, a
qual desaparece dentro da sua.
Nós entramos em sua cozinha e eu o observo tirar algo de seu
armário. Ele se vira com entusiasmo, oferecendo-me o tal chocolate.
— Bem... Pegue, experimente e me diga se gosta. — Senta-se ao
meu lado, no sofá de sua sala, e estende um pacote para mim.
Ele me ajuda a abri-lo e eu assisto à cena fascinada. É incrível
como eles guardam tão delicadamente as comidas.
Mordo a barra escura e sinto um gosto completamente único e
delicioso. Contudo, no momento em que engulo o pedaço, sinto-me
mal de imediato e procuro desesperadamente por um lugar para
vomitar. Drake corre de volta para a sala com um balde na mão e,
assim que ele o coloca em minha frente, meu estômago joga tudo
de dentro dele, para fora. Talvez não seja uma boa ideia
experimentar novos alimentos.
— É a primeira vez na vida que vejo uma mulher passar mal por
comer chocolate. Respire, morena. — Passa a sua mão enorme em
minhas costas.
— Você fez isso de propósito? Sabia que eu... iria passar mal? —
Olho-o com lágrimas escorrendo pelo meu rosto, pelo esforço.
Odeio vomitar.
— Não, Geny. Eu não sou assim. Se quiser que eu coma a mesma
comida que você comeu, poderei provar. Deve ser porque isso não
faz parte da sua alimentação.
— Coma um pedaço. — pedi séria.
Ele respira fundo, chateado por eu não ter acreditado nele. Meus
medos diminuem quando nada lhe acontece ao comer uma parte da
barra.
— Você não me disse, naquela maldita ilha, que passamos mal
quando não estamos costumados com uma comida diferente?
Quem está agindo errado aqui agora? — Fita-me com raiva.
Acabo me sentindo envergonhada.
— Me desculpe. — minha voz saiu fraca após minutos de silêncio.
Estou tão focada em culpá-lo, por estar aqui, que já estou
começando a perder o controle, ficando confusa.
— Tudo bem. Se quiser tomar banho para se acalmar, fique à
vontade. Vou trabalhar. Vejo você mais tarde. — disse sem
nenhuma emoção antes de me deixar sozinha na sala.
Eu sei que é errado, mas queria sua companhia no quarto.
Não! Eu tenho minha Callie. Não preciso de companhia.
Levanto-me, limpo tudo e vou para o meu quarto tomar um banho.
Nunca passei tanto tempo na minha vida sem cumprir nenhuma
obrigação. A preguiça volta a me atacar a ponto de me fazer
desmaiar na cama após o banho, ao lado de minha filha, que ainda
dorme.
CAPÍTULO 12
Geny
O estridente rugido do trovão ecoa fora da cabana e o choro da
bebê me deixa em alerta. Ela se assusta com a forte chuva que cai.
Enrolo seu corpinho frágil entre os cobertores, mantendo-o contra o
meu, e me sento na cama. Já se passaram 10 dias desde que Callie
nasceu e eu nunca me senti tão vulnerável. As lágrimas insistem em
voltar.
Perdi meu parceiro recentemente, o homem que cuidou de mim.
Não tenho ninguém com quem conversar e estou sozinha na
escuridão daqui. Minha filha se mexe em meu colo, querendo se
alimentar. Estou sem roupa em segundos, atendendo ao seu
pedido. Ela se acalma enquanto segura meu seio e eu me enrolo no
canto da cama.
Raios iluminam o ambiente e a solidão me atinge. Sinto o desespero
de quando testemunhei a última respiração de Khan, encolhendo-
me ainda mais e sentindo falta do calor de seu corpo para proteger
a mim e a nossa filha. Era para ele estar aqui, comigo.
A chuva diminui depois que Callie dorme. Ela é tão pequena, tão
frágil. Seus cabelinhos negros são cheios e sua pele avermelhada
me encanta.
Levanto-me da cama e fico a observando dormir entre as cobertas.
Sinto-me insegura. Pergunto-me se sou realmente capaz de
protegê-la. Ela dorme em paz porque sabe e sente que estou aqui
para prover seu sono, porém eu perdi meu provedor.
Minha garganta se fecha novamente, meu corpo desaba ao lado da
cama e eu choro baixinho para não a acordar. Tenho medo do
amanhã, medo de não ser forte o suficiente. Enrolo-me no chão e
abaixo a cabeça.
Como vou continuar sem você, Khan? Eu sinto sua falta.
***
— Mamãe! Acorde, mamãe!
Ao abrir os olhos, a primeira coisa que vejo é o rosto de Callie. Sinto
meu coração ainda disparado, com as emoções das memórias. Pela
primeira vez, não sonhei com meu parceiro morto, embora a
saudade jamais vá embora.
— Oi, minha pequena guerreira. — Aliso o seu rostinho.
— Você estava chorando. Por que estava chorando, mamãe? Está
machucada? — Sente-se preocupada.
— Não, filha. Estou bem. Foi apenas um sonho. — Sorrio para ela.
Cinco anos se passaram desde que decidi assumir minhas
responsabilidades com meu povo e priorizar Callie. Deixar meu
passado para trás doeu muito, contudo, pelo bem dela, eu precisava
disso. Foi naquela mesma noite que me levantei, com o rosto
encharcado, e prometi a mim mesma que nunca mais iria
desmoronar, porque outra pessoa precisava de mim. Eu seria o que
minha filha necessitasse para crescer forte.
— Vou ver se Nana já fez alguma coisa para comer. Está bem? —
pediu minha permissão para ir atrás da mulher que cuida da comida.
Nana tirou o meu papel de alimentar minha filha, e eu não gosto
disso. Afinal, sou a mãe dela. Drake me garantiu que seu dever aqui
é preparar refeições para todos. Mesmo assim, prefiro minha casa.
— Vá. Vejo você em alguns minutos.
Ela pula da cama, abre a porta e a deixa aberta.
Já estou neste lugar estranho há 2 meses, e a saudade de casa só
aumenta. As provocações de Drake continuam. Quando não está
ocupado, trabalhando, sempre vem ver como estou, só que não
consegue resistir e me irrita de alguma forma. Já estava pensando
em uma maneira de matá-lo, entretanto, a cada conversa que ele
veio tendo comigo, comecei a gostar das suas provocações, já que
a maioria delas é boba e me faz querer rir. Quando não é isso, ele
quer mais informações sobre a pedra. Não tenho muito a oferecer.
Esse homem é muito atraente, todavia ganancioso e não se importa
com ninguém. Eu imaginei que ele iria me manter trancada para
obter informações, mas sempre aparece em um lugar onde me sinto
confortável e me faz perguntas como se quisesse conversar comigo.
Tenho plena consciência de como ele age e prefiro assim. Nunca
demonstrou perder o controle comigo ou com Callie. Parece que sou
uma exceção, visto que ele não dá o mesmo tratamento para os
outros que aparecem aqui.
Minha filha desenvolveu uma certa amizade com Drake. Algo que
me preocupa. Ela o procura para fazer perguntas e às vezes fica o
olhando de longe. A pequena tem Silas e até Kevrel como figura
paterna, mas um estranho? Ele ainda é um inimigo. Preciso
conversar com ela sobre isso. Senti meu coração bater mais rápido
no dia em que encontrei os dois brincando na sala de estar. Suas
costas largas à mostra me despertaram uma necessidade que eu
não sentia há um tempo. Alguns homens já tentaram se aproximar
de mim, mas eu estava chateada o bastante com a falta de Khan
para os desejar. Porém, mesmo que Drake me atraia de certa forma,
não sei se seria bom me envolver. Temo esquecer meu antigo
parceiro por completo. Prefiro me manter distante dele.
O problema foi depois daquele dia. Comecei a observá-lo sempre e
fui pega no flagra duas vezes. Na última, ele me deu um leve
sorriso, com um olhar diferente. Não consegui entender. Depois de
me encarar por um tempo, foi para o outro quarto.
Drake deve estar se divertindo por saber que estou tão atraída por
ele. Tentei me comportar depois disso e não o olhei mais.
Eu não deveria estar feliz, pois estou fazendo o que ele quer:
passando-lhe informações básicas que nem poderiam ser
reveladas, em troca da minha liberdade. E se quando chegar a hora,
ele não cumprir sua palavra? Ele não tem ideia do que o espera.
Sou um verdadeiro monstro quando quero. A minha liberdade ainda
está em perigo, mas, por hora, posso aproveitar a ocasião. Já me
sinto bastante confortável neste lugar.
Drake acha que me conhece. Mal sabe que está com alguém
interessada no que é dele e nele também. Se ele não me deixar
voltar para casa, eu o forçarei de outra maneira. Vamos ver até onde
sua coragem e teimosia o levarão.
Saio do quarto com uma camisola de seda que ele comprou para
mim. É uma roupa muito confortável. Meu cabelo cai sobre o rosto e
eu sinto um cheiro de comida sendo preparada. Ao chegar à
cozinha, procurando pela minha filha, ouço vozes desconhecidas no
outro cômodo da casa e o choro abafado dela. Meu sangue ferve
por eu não saber o que estão fazendo com ela. Se arrancarem um
fio de cabelo seu, serei mais do que capaz de destruir esta casa.
Nada que eles valorizem aqui, vale algo para mim.
Eu entro na sala de estar, e a cena que testemunho é o gatilho que
eu precisava para começar um massacre hoje. Rosno de raiva
quando vejo uma mulher desconhecida segurando Callie pelo
cabelo, cara a cara com ela. Minha filha está com o pescoço torto,
tentando soltar a mão que prende seus fios, chorando, com uma
cara zangada.
Eu odeio quando testam a minha paciência. O resultado geralmente
não é agradável.
Sem aviso, ataco a mulher, jogando-a brutalmente contra a parede.
Ela grita e cai a alguns metros de distância, batendo a cabeça. Logo
tenta se levantar. Não viu nem o que a atingiu.
Pego Callie e a coloco de pé perto de mim. Ela chora, com dor,
pondo as mãozinhas na cabeça.
— Filha, ela te machucou em mais algum lugar? Fique atrás de
mim. Tudo bem? Não vou deixar ninguém te machucar.
Ela se encolhe atrás das minhas pernas, tentando parar de chorar.
— Sua puta de merda! Quem é você?! Como ousou me tocar?! —
gritou a mulher mais alta que eu.
Sua pele é pálida, o cabelo é claro como o de Nana e os olhos são
azuis como os meus, só que mais claros. É atraente. Mas não por
muito tempo.
— E quem você pensa que é, para entrar assim em minha casa e
atacar minha filha? — minha voz soou mais grossa e profunda que a
dela. A coitada fala como um ratinho.
— Eu sou a mulher de Ivanok, sua vadia. E quero você e esta praga
fora da minha casa agora! — gritou descontroladamente, divertindo-
me.
— Esse território é seu? — perguntei baixinho, sorrindo e
levantando as sobrancelhas.
— Essa casa é minha, sua vadia. Quero você e essa coisa fora
daqui.
Dou-lhe um sorriso malicioso, mostrando-a minhas presas, e sinto
minhas pupilas dilatarem. Ela fica pálida, com terror em sua
expressão.
— Parece que fez um péssimo trabalho protegendo o que era seu,
então. Sinto muito por você. Já assumi o comando. Esse lugar é
meu agora. — Um segundo depois, parto para o ataque.
CAPÍTULO 13
Drake Ivanok
Os pensamentos sobre o problema atual que criei, continuam vindo
à minha mente. Eu sei muito bem que sou ganancioso, ainda mais
sabendo que a pedra que tenho em minhas mãos tem tanto poder e
mistérios. Depois que Geny me contou o básico sobre o amuleto e
as histórias inventadas para crianças, fiquei mais curioso sobre sua
origem. Só que não pude acreditar nelas, pois os nativos sempre
inventaram contos como esses apenas para enriquecer sua cultura.
Enfim, a existência da mulher é mais confusa que a minha.
Geny não conseguiu explicar por que a pedra atua como um escudo
para proteger o usuário. Desde então, seu povo a possui para se
manter longe de pessoas que representam uma ameaça. Sei muito
bem que a morena me esconde muito mais coisas e que, a cada dia
que passa, atrai mais a mim. O que mais me agradou foi saber que
ela sente o mesmo.
Seu sorriso em contraste com sua pele bronzeada são uma
verdadeira tentação. Um sorriso capaz de me fazer esquecer por
que eu a trouxe aqui. Sinto-me mais feliz com elas por perto. Ontem
à noite a namorei de longe, observando-a sorrir para a filha
enquanto conversava com Nana na cozinha. Ela olhou em minha
direção e seu sorriso sumiu. Geny pode estar atraída por mim, mas
sei que sua raiva também ainda está lá. Com pensamentos
impulsivos, várias vezes quase a levei de volta para a sua casa,
sendo que não precisaria me dar a esse trabalho. Se eu pudesse
acabar com a última gota de sentimento que tenho, poderia,
simplesmente, matá-la, depois de saber tudo que preciso sobre o
objeto. No entanto, só de pensar nisso, fico com dor de cabeça.
Apenas gosto da presença dela e não quero que ela vá embora. E
quanto ao seu precioso amuleto, irei levá-lo ao meu laboratório para
o estudar mais.
Inclino-me e apoio os braços sobre a mesa de madeira do escritório,
ainda olhando para o objeto avermelhado de tamanho médio em
minhas mãos. Sei que em breve terei que tomar uma decisão, e
toda decisão tem consequências. Guardo-o dentro de um cofre
especial e saio da sala.
Estou cansado dos horários de trabalho nos últimos dias e tudo que
quero é ter um momento a sós com Geny. Às vezes me pego
entrando em seu quarto em noites clareadas pela lua, que permite a
visualização de seu corpo, mesmo com as cortinas impedindo a
entrada da luz no ambiente. Eu a olho dormir com a filha ao lado por
alguns minutos e desejo me juntar a ela, deitar-me, puxar todo o seu
corpo delicioso para mim e o sentir contra o meu. Isso me irrita, e
qualquer outra mulher me desencoraja se eu tento me aliviar. Nunca
imaginei, na minha vida, que passaria por algo assim: eu, um
homem que vive para trabalhar, fisgado por uma nativa.
Ando pelo corredor, tentando me acalmar, e logo me deparo com
uma cena que eu não esperava. Na sala de estar, atrás do sofá,
perto da porta de entrada, Geny sufoca Katelyn contra a parede.
Minha ex tem parte do rosto sangrando e está quase perdendo a
consciência.
Eu me aproximo delas e vejo Nana com Callie nos braços. A criança
chama pela mãe.
— Mas, o que está acontecendo aqui?! — gritei irritado. — Geny,
solte-a agora! — mandei em um tom firme.
Sinto o meu sangue gelar ao ver sua aparência quando ela olha
para mim. Seus olhos estão azul-escuros e as pupilas dilatadas. Ela
rosna, voltando sua atenção para Katelyn, e a solta abruptamente.
Eu chego perto delas. Kate tenta recuperar o fôlego, já fazendo cara
de choro.
— O que você está fazendo aqui? — perguntei com indiferença.
Ainda tentando recuperar o fôlego, ela me olha.
— Eu vim ver você, e essa coisa me atacou. O que é essa mulher,
Drake? O que ela está fazendo aqui? — tentou gritar, com raiva,
estressando-me mais. Não suporto mulher histérica.
— O que houve? — rosnei para Nana, furioso.
Não quero ver Katelyn em minha casa de novo, principalmente
agora, quando meu foco está em Geny e em mais ninguém. Não
posso deixá-la matar alguém aqui, pois seria o responsável por isso,
e problemas já tenho muitos.
Ela me responde, ainda segurando a garota em seus braços.
— Eu deixei Callie tomando o seu café e fui pegar mais ervas para o
chá de Geny. E quando voltei, vi Geny, com a filha ao lado,
atacando a senhora Katelyn. — Tentou manter a calma.
A menina está em seu colo com uma expressão de irritação dirigida
à Kate. Se essa mulher ficar aqui, aparentemente, vai morrer. Tanto
a mãe quanto a criança estão muito zangadas.
— Ela atacou minha filha! — a morena rosnou com raiva, olhando
para Nana e depois para mim.
Não duvido da sua declaração, até porque ela nunca se atreveu a
atacar ninguém que mora em minha casa, nem jamais foi
desrespeitosa. É uma boa pessoa e muito protetora com a filha. Não
é preciso de muito para ver isso.
— Escute: quero que vá para o seu quarto agora mesmo. Preciso
falar com ela. — pedi para a minha mulher, olhando-a. Sim, eu
quero que ela seja minha, e espero conseguir em breve.
— Como é? — Ela me encara. A cor dos seus olhos está voltando
ao normal.
Estou longe de ter medo de você, morena.
— Vá para o seu quarto, Geny. Por favor, não discuta agora. Callie
ficará com Nana por enquanto.
— Eu nunca mais vou deixar minha filha com nenhum de vocês! —
gritou comigo.
Perco o controle.
— Não se atreva a me desafiar!
Ela olha para a filha e dirige ódio puro a mim, o qual está em seus
olhos, que brilha com as lágrimas.
Eu sei que estou errado, contudo não vi outra maneira de falar sem
denunciar meus motivos ocultos. A questão é que eu quero um
momento a sós com ela, sem a criança ou qualquer outra pessoa
por perto. Mas, primeiro, eu preciso falar com uma certa intrusa, e
Geny tem que se acalmar.
Respiro fundo, recuperando meu controle. É isso ou ela nunca
concordará em me obedecer.
— Obrigada, meu amor. Essa coisa me atacou. Eu não fiz nada de
ruim. Só fui perguntar o nome da garota. Ela deve ter ficado com
ciúme e até disse que este era o seu território. É uma mulher
estranha. — Katelyn tenta se reaproximar de mim.
— Mentirosa! — Callie gritou, soluçando.
Nana a leva a outro quarto, para a acalmar. Ela é uma boa menina
e, nos poucos meses de convivência que tivemos, deixou mais do
que claro que é carinhosa e educada. Geny é uma excelente mãe.
Volto o meu olhar para Kate, que, mais uma vez, é uma completa
estranha para mim.
— Que porra você está fazendo em minha casa? Eu te convidei
para vir até aqui?
Ela dá dois passos para trás.
— Você não está feliz em me ver? Eu me acalmei depois que você
saiu e...
— Fora da minha casa! Nunca terei uma mulher que queira me
controlar! Já falei, porra! Foi muito bem avisada! E não tenho
dificuldade em imaginar que, realmente, tenha tentado machucar a
criança. Sei muito bem quem te colocou dentro da minha casa e já
conheço suas máscaras.
Ela me fita com confusão e medo. Foi a primeira vez que fui
agressivo com ela.
— Quem são aquelas duas? Você está me deixando por um
monstro em forma de mulher e por uma coisinha que ela chama de
filha? Sente tesão por mulheres exóticas com filhos de outras
pessoas?! É isso?! — gritou comigo novamente.
A vontade de agarrar seu pescoço, como Geny fez minutos atrás, é
grande. Eu deveria ter deixado minha mulher machucá-la um pouco
mais.
— Fora da minha casa! — Aponto para a porta.
— Eu não sou um cachorro, seu bastardo!
— Você vem à minha casa, magoa as pessoas que estão sob meu
teto e acha que está certa? Fora! Ou vou piorar as coisas para você.
E não faz ideia do que sou capaz. — Mantenho o dedo apontado
para a saída.
Lágrimas correm pelo seu rosto.
— Isso não vai ficar assim. — ameaçou antes de sair pisando duro.
Vou atrás do meu comunicador, que deixei em meu quarto.
— Richard!
— Sim?
— Mande uma escolta para tirar Katelyn da minha propriedade. Ela
está proibida de entrar aqui, e quem permitir será punido.
— Sim, senhor.
Desligo o comunicador, respiro fundo, saio do quarto e vou direto
para o de Geny, pronto para lidar com ela. Não sei o que ela poderá
fazer agora, mas estarei preparado. É provável que tente me matar,
já que seu ódio por mim aumentou. Entro no cômodo e a encontro
de costas para a janela, com os punhos cerrados e o cabelo solto,
selvagem, quase roçando na bunda. É uma bela bunda:
arredondada, firme e com algumas marcas naturais a adornando.
— Se você não mandou sua mulher embora, coloque-a em um local
mais seguro. — pediu sem me olhar, com a voz mais suave do que
há alguns minutos.
Com toda essa marra, não me admira que minha morena seja
vingativa.
— Eu deveria mudar você para um local mais seguro, morena.
Minha raiva se foi. Estou excitado, admirando o seu corpo. Não vou
aguentar por muito tempo.
— Onde ela está? — questionou com raiva.
— Eu a mandei embora. Aquela mulher não é minha, Geny.
Quero outra no momento. — pensei comigo mesmo.
Quase fico tonto quando ela fica cara a cara comigo. Deixo cair o
meu olhar, conhecendo cada centímetro dela. Seus seios fartos e
suas curvas me fascinam a ponto de eu nem perceber suas
intenções ao se aproximar de mim. Recebo um golpe forte o
bastante para me fazer cambalear para trás e sinto um líquido
quente escorrer pelo meu nariz.
Puta merda! De onde veio essa força? Ela não parecia tão forte
quando a agarrei para lhe roubar.
Continuo olhando-a, em estado de choque.
— Isso foi por ousar gritar comigo e não ficar do meu lado. Eu
estava protegendo minha filha, e nem você poderia ficar no meu
caminho. — Está chateada.
Posso ver nos olhos dela o quanto luta para não quebrar em minha
frente.
— Ela é tudo que tenho. É por ela que ainda estou respirando. Sem
Callie, eu nem estaria aqui. Já perdi meu parceiro para outra
pessoa. Nunca vou permitir que ninguém, nem mesmo você, afaste-
me dela.
Suas palavras me quebram e eu sinto o peso da culpa.
Seu rosto se suaviza depois de alguns minutos e ela volta ao
normal. Eu não esperava por isso.
— Me perdoe, Geny.
CAPÍTULO 14
Drake Ivanok
Geny se afasta, tentando se recompor.
— O que aconteceu com sua família, anjo? — questionei, tentando
acalmá-la. A última coisa que quero é que discutamos.
— O que essa palavra significa? “Anjo”. — Olha-me confusa.
— É um termo carinhoso. Não se ofenda. — Dou-lhe um leve
sorriso.
Suas írises, que já voltaram ao azul-safira, brilham mais.
— Eu era órfã quando conheci Khan, um garotinho da minha idade.
Ele me ajudou a sobreviver no começo, me ensinou a lutar e a
caçar. Quando eu cresci, nos tornamos companheiros. Ele foi muito
importante para mim. Khan se destacou em nosso clã, por ser um
dos melhores guerreiros, e eu fiquei muito feliz por isso. Mas... O
filho do atual líder o invejava. A rivalidade deles era antiga. O
homem queria ser o melhor, e ver Khan ser mais amado do que ele
foi o fim. Acredito que isso o consumiu. Eu ainda carregava Callie
em meu ventre e meu parceiro estava muito feliz porque seria pai.
Ninguém mais no mundo me importava tanto. Um dia estávamos
visitando um amigo, quando ele foi chamado. Ao perceber que ele
demorava muito para voltar, fui atrás dele, pois já estava com medo
de que lhe acontecesse alguma coisa. Então ouvi gritos vindo de
uma cabana isolada. Assim que entrei lá, testemunhei o filho do
líder matando o meu companheiro. — Geny se esforça para não
chorar, e isso me mata. Eu sei o que é perder uma família.
— Ele estava todo ensanguentado e um de seus braços quebrado.
Aquele monstro o observou enquanto ele morria sufocado. Em
estado de choque, eu não tive reação. Enlouqueci nesse dia. Eu ia
matá-lo; era exatamente o que minha mente queria que eu fizesse.
Ele tirou tudo que eu tinha e me deixou sem alma. Merecia sofrer.
Mas eu estava com muita raiva por ter medo. — Suas mãos tremem
enquanto ela conta a história e eu engulo em seco. Parece que
somos mais parecidos do que eu pensava.
— Eu o deixei em um estado semelhante ao que ele havia feito com
Khan. Ele estava mais forte, só que eu tinha energia para lutar
algumas horas sem parar. — Permaneço quieto. Pelo menos ela
está mais calma agora.
— Ele não podia mais me atacar e eu o arrastei até a casa de seu
pai, colocando-o em frente ao homem, e lhe contei o que seu filho
fez. Eu fui egoísta, estava preparada para me entregar à morte.
Desafiei o líder, sem pensar na filha que eu estava carregando. Não
tinha outra escolha, porque ele me puniria por ter deixado o seu
herdeiro aleijado. Eu o desafiei pelo posto de liderança. Quase
morri, mas consegui matá-lo enquanto ele estava no chão,
sangrando. Ainda sorriu para mim, mostrando-me que era igualzinho
ao filho. Juntei o resto das minhas energias e rasguei sua garganta.
Vi o homem de dois metros de altura caindo de joelhos em minha
frente. Depois seu filho foi executado. No entanto, após tudo isso, a
dor não foi embora e nunca parei de sofrer. Queria acabar com a
minha vida e a de Callie junto. Ela ainda não tinha nascido e eu
quase enlouqueci sozinha. Nenhum homem ousava se aproximar de
mim, por medo. Perdi a única pessoa que cuidou de mim, que me
tratava com respeito e carinho. — Algumas lágrimas escorrem pelo
rosto dela.
Eu só quero poder abraçá-la, dizer o quanto sinto pela sua dor e o
quanto quero protegê-la. O pouco tempo que passamos um com o
outro já me deixou claro que Geny é uma mulher rara e muito
transparente em tudo que faz. Sinto uma certa admiração por ela.
— Callie é tudo que me resta. — Respira fundo. — Se você quiser
machucá-la, faça isso comigo. Não a machuque para me punir por
algo. Eu nunca te fiz nada. — Sustenta meu olhar enquanto me
aproximo dela.
Jamais teria coragem de machucá-la. Sua opinião sobre mim me
machuca, mas não deveria.
— Nunca tive prazer em fazer nada para te ferir. Me perdoe por ter
agido errado com você. Sinto muito por ter te feito sofrer mais. O
meu maior desejo é poder me redimir, pois você fez algo grave
comigo também. — Chego mais perto dela, vendo sua raiva
retornar.
— Só porque te fiz de prisioneiro? Você invadiu... — Tomo o resto
de suas palavras quando, finalmente, encontro sua boca. Tão suave
e doce.
Sinto meu mundo parar ao conhecer o seu calor. Tenho um desejo
insano por ela, muito maior do que imaginei. Seu corpo é quente e
macio. Eu sou agressivo no beijo e ela não liga, pois me toma na
mesma intensidade. Meu corpo arde de necessidade. Pego sua
cintura, lembrando-me de ter cuidado para não a machucar. Sou
muito bruto nessas horas. Não posso deixá-la nervosa. Sentir seu
corpo no meu é como voltar a ser um adolescente que sonha em
transar com a mulher que ele sempre desejou.
Afasto-me de sua boca, recuperando o fôlego, e avisto confusão em
seus olhos.
— Por que fez isso?
— Porque você me fez querê-la desde o momento em que te vi pela
primeira vez. Desde então, meu desejo apenas cresceu. Eu não
poderia te deixar matar aquela mulher, porque as leis do meu
mundo se diferem das suas, mas nunca foi minha intenção te
magoar. Acontece que você é um pouco teimosa às vezes.
Geny levanta as sobrancelhas. Já sei que está com raiva de novo.
— Você é muito nervosa. Não estou te ofendendo. Aprenda a ficar
calma.
— Vou tentar. — Sorri.
Me perco quando agarro o seu corpo novamente, colando-o ao meu.
Ela agarra a minha nuca e me beija, mordendo meu lábio. Fecho os
olhos, sentindo a leve dor da mordida e o gosto do sangue. Como
um mimo, ela torna o beijo mais afetuoso, arrastando-me até a
cama. Coloco-a de costas, arranco sua camisola e me levanto para
admirar seu corpo bronzeado contra o lençol branco. Seus seios
fartos e sua pele brilham pelo suor, e sua respiração está acelerada.
Ela me olha com expectativa e eu não a decepciono. Rapidamente
tiro a calça, a camisa e as jogo em algum lugar.
— Eu quero você, Geny. Vou enlouquecer se não a tiver embaixo de
mim. — minha voz saiu rouca de tesão.
Lentamente, ela abre as pernas, dando-me a visão mais linda que já
vi. Sinto minha boca salivar e subo sobre seu corpo, explorando-o
totalmente.
— Você não tem ideia do quanto é linda, morena. — Encontro seu
olhar enquanto beijo sua barriga.
— Drake... — diz meu nome em um sussurro. Quase gozo somente
por ouvir.
Meu sorriso se alarga para ela com diversão, eu a empurro mais
para cima e levo a boca até a fonte do meu desejo. Seu perfume
doce e único me invade e eu a beijo, insano de tesão.
Sinto-me dolorido quando a ouço gemer no momento em que
provoco seu ponto fraco. Ela se arqueia, enlouquecendo-me, e meu
corpo lateja de necessidade. Espalho beijos pela sua barriga e
devoro seus seios. Geny agarra meu cabelo enquanto provo cada
centímetro seu. Enfim, posiciono-me nela e quase rujo de satisfação
ao explorá-la por dentro. Tão quente! Eu deixo as marcas dos meus
dentes em sua carne macia e ela responde a cada movimento.
Estou decidido a não sair mais deste quarto por hoje.
Porra! Seu gemido me deixa louco. Eu pego o ritmo e ela morde
meu ombro.
Cubro todo o seu belo corpo e me perco quando a sinto vir para
mim, choramingando de tesão. Gozo com força dentro dela e me
forço ainda mais a me manter em seu interior, segurando com
firmeza a sua cintura. Depois me deito sobre ela, evitando que meu
peso a esmague, e enterro meu rosto em seu pescoço, ainda me
acalmando.
Ela envolve os braços em volta dos meus ombros e brinca com meu
cabelo por alguns minutos, recompondo-se.
— Drake... — sussurrou, recuperando o fôlego. — Tenha cuidado.
Eu posso, facilmente, me viciar em você.
— Isso foi uma ameaça? — indaguei em um tom divertido.
— Um aviso para o caso de você se arrepender quando voltar ao
normal.
— Então, morena... Eu também posso dizer que acabei de me viciar
em você.
CAPÍTULO 15
Frost
Entediado, continuo a seguir cada movimento em volta da mansão
de Drake, de dentro do SUV. Minha equipe está tentando encontrar
uma brecha de segurança para entrar na propriedade. Estou
cansado e sei que irei estar fodido se não começar a atuar em
algumas horas. Tenho seguido a rotina dele há uma semana. Ele só
sai do maldito ninho para ter reuniões por algumas horas.
Devo admitir que fiquei impressionado com o fato de um homem de
sua idade ter um império.
Deixo o carro a uma distância segura de sua casa, para ele não
sentir que está sendo perseguido. Preciso de alguém que conheça
sua mansão por dentro.
— Frost? Ouvindo? — Ouço a voz através do pequeno aparelho
conectado ao meu ouvido direito.
— Fale, Flint.
— Uma mulher acabou de entrar. Aparentemente, deve ser alguma
amante dele. Ela já foi vista na casa antes.
— Fique de olho nela o máximo que puder e me avise se mais
alguém aparecer.
— Entendido.
Meia hora se passa e eu vejo pelas câmeras dos drones uma
mulher loira sendo praticamente arrastada de dentro da casa por
dois homens armados. Esse é o problema de pegar Drake: ele é
muito paranoico. Até parece que alguém estaria tão interessado
nele, como eu.
— Chefe, parece que a mulher foi expulsa do local. Está sendo
escoltada até os portões.
— Interessante. Estou indo. — Mantendo o comunicador no ouvido,
ando rapidamente até o meu veículo.
O carro dela está estacionado na frente da propriedade. Quando ela
entra nele, liga-o e segue viagem, eu a sigo. Ordeno que a equipe
permaneça alerta enquanto eu estiver ausente. Ela dirige devagar
até chegar ao que parece ser um hotel.
Desligo o meu automóvel no outro lado da rua, observando-a
cumprimentar alguém e entrar no local.
— Acredito que você vai me servir bem, vadia. — Sorrio diante de
todos os pensamentos deliciosos, imaginando-a.
Facilmente, entro em seu quarto. Pelo visto, ela está aqui há mais
de um dia. O cômodo é totalmente luxuoso e tem uma bela vista.
Ouço um barulho de ducha vindo do banheiro. Tudo está tão fácil,
que estou com água na boca, sabendo o que me espera. Tiro os
sapatos e continuo com minha calça jeans escura, que carrega uma
faca de caça.
Meu sorriso aumenta quando me aproximo da porta destrancada. É
sempre emocionante caçar. Assim que entro, reparo que o banheiro
é quase uma sauna a vapor. A mulher está tomando banho com os
olhos fechados, senão já teria visto o meu reflexo através do vidro.
Chego perto dela. Vou me divertir por algumas horas. Essa é a
melhor parte do trabalho que faço: ter facilidade em foder mulheres
descuidadas.
Abro o vidro do box lentamente, para aumentar a luxúria, e observo
seu corpo magro, pálido e lindo que vou esfolar em breve. A mulher
lava o cabelo, que cai em seus ombros, e meu sorriso se alarga
quando sinto a emoção percorrer meu corpo. Agarro o seu quadril
por trás, com uma mão, trazendo-o ao meu, enquanto a outra abafa
seus gritos histéricos.
— Quietinha, vadia gostosa! A menos que queira morrer enquanto
toma banho. O que acha? — Sorrio ao sentir seu corpo tremer.
Ela quase escorrega, na falsa esperança de se livrar de mim.
— Por favor! — Geme desesperadamente.
Agora nós dois estamos embaixo d’água. Seu desespero a faz ficar
parada, porém todo o seu corpo treme contra o meu, divertindo-me.
— Eu vou fazer perguntas, e você deve responder a todas. Não
tente nada. Está totalmente vulnerável. Se for uma boa cadela,
receberá uma recompensa mais tarde. Tudo bem?
Ela balança a cabeça, em concordância.
— Eu sei que você está envolvida com Ivanok. Ele é um velho
amigo meu, mas roubou algo de mim que realmente quero de volta.
Você vai à casa dele com frequência, que eu sei. Então, me diga
tudo que viu lá e não minta. — Tiro a mão de sua boca.
Ela ainda está respirando com dificuldade.
— Se você não me machucar, contarei tudo sobre aquele
desgraçado. — sua voz saiu trêmula. O cachorrinho é corajoso.
— Parece que temos um inimigo em comum. — Continuo me
esfregando em sua bunda, sentindo-a arquear mais o seu corpo,
como se pedisse por mais. Cadela safada! — Como você é fogosa!
Ela geme. Nunca me diverti tanto trabalhando.
— Fale, vadia! — Seguro o seu cabelo com firmeza. Qualquer coisa,
simplesmente a afogo na água, que ainda corre. Não seria divertido,
pois prefiro ver sangue, mas daria menos trabalho.
— Não sei o que você está procurando. Tudo que vi na casa foi uma
puta esquisita e uma pirralha. A mulher me atacou. Ela tinha uma
força incomum para alguém menor do que eu. Fiquei pouco tempo
lá. Drake parece ter um relacionamento com a mutante e acho que
adotou a praga também. Me desculpe, não tenho mais informações.
Ele me chutou brutalmente para fora.
Seus seios enchem minhas mãos.
— Não presta para dar informações, mas serve para foder.
Depois de 20 minutos sob meu ritmo, ela está cansada demais para
se mover. Eu a viro na cama e ela sorri para mim de uma forma
completamente pervertida. Deve ser por isso que Ivanok não a quis.
A cadela parece não ter cérebro.
— Que tal trabalhar comigo, vadia gostosa?
— Eu não sei fazer essas coisas que você faz. — Encara-me com
medo.
— Você acabou de fazer uma delas comigo. — Sorrio, esperando
pela sua resposta. Qualquer uma delas me satisfará. Se ela se
recusar, morre agora; se aceitar, vou matá-la mais tarde.
— Mas eu…
— Pense no lado bom. — Corro a língua pelo seu pescoço. — Você
pode conseguir se vingar deles e ainda roubar toda a fortuna de
Ivanok. Se tornaria bilionária.
Ela pensa para responder.
— Eu aceito. — Sorri para mim e me beija.
Essa mulher tem sérios problemas mentais, só que eu não me
importo. Tudo que sei é que estou transando com uma linda modelo
que agora faz parte dos meus planos. Sorrio por, finalmente, estar
colocando-os em ação.
CAPÍTULO 16
Drake Ivanok
Descanso na minha cama depois do almoço. É domingo. Nada foi
melhor do que passar os últimos três dias colado em Geny. Uma
semana se passou desde a nossa discussão que resultou em nada
melhor que sexo. Depois daquele momento, decidi lhe dar algum
tempo para pensar.
Meu coração saltou do meu peito em uma noite que ela saiu de seu
quarto e entrou no meu. Como tenho o sono leve, eu a vi entrar
silenciosamente em uma camisola branca, de seda. Sim, amo ver
minha morena vestida com esses tecidos. Depois subiu na minha
cama, ainda sonolenta. Até presumi que poderia estar sonâmbula.
— O que houve, amor? — perguntei, afastando-me para lhe dar
espaço para se deitar ao meu lado.
Meu coração estava disparado e eu adorei a sua iniciativa.
— Eu quero dormir com você.
Esse foi o gatilho para eu matar o que estava me matando: meu
desejo por ela. Sentia cada centímetro do seu corpo e de uma coisa
tive certeza: ela estava com mais fome de sexo do que eu.
Uma nova rotina foi criada depois disso. Passamos a fazer sexo em
todas as manhãs, antes de eu ir para o escritório, e comecei a tomar
café ao lado dela. Passo cinco horas por dia querendo entrar em
seu corpo fogoso e, ao acabar minhas obrigações, procuro por ela.
Só depois me lembro de que precisamos de comida.
Pela primeira vez em anos, estou me permitindo relaxar, curtindo
minha casa, sendo que quase não ficava aqui. Não tinha motivo
para passar o dia todo olhando para as paredes. Mas Geny tem me
esgotado, e estou mais do que feliz por me sentir assim.
Mexo-me na cama e cruzo os braços atrás da cabeça. É quando
ouço pequenos passos descalços no chão frio. Já posso imaginar
quem é. Seu corpinho para ao meu lado e eu mantenho os olhos
fechados, curioso para saber o que a menina fará. Callie sobe na
cama espaçosa e, entre todos os lugares para se deitar, decide ficar
sobre o meu abdômen. Seu cabelo ondulado roça em minha barba e
ela se aconchega a mim, cochilando. Alguns minutos se passam e
eu decido movê-la. A coloco de lado e a deito sobre os travesseiros
macios, para poder continuar minha soneca. Em nenhum momento
a pequena fala comigo.
— Onde está sua mãe, querida? — perguntei com os olhos ainda
fechados.
— Está no jardim, conversando com Nana. Eu fiquei com sono.
Sorrio com seu comentário.
— Também comeu demais?
— Sim. — Ela se aninha ao meu peito e fecha os olhos, respirando
fundo. Seu corpinho relaxa.
Esse pequeno contato entre nós já me enche de uma emoção
totalmente estranha e boa ao mesmo tempo. Ela é tão pequena e
idêntica à mãe.
Volto a dormir, sentindo uma satisfação por saber que, pela primeira
vez na vida, gosto de não estar sozinho. É como se elas sempre
tivessem sido minhas. Elas são minhas. Minhas meninas.
Geny
As semanas se passaram como se eu sempre tivesse vivido assim.
Eu me acostumei ao Drake mais rápido do que imaginei. A rotina é
satisfatória e parece tão normal, que quase me esqueço de que
preciso ir para casa e levar o amuleto de volta para um lugar seguro,
senão não serei aceita de volta.
Drake está quase sempre ocupado com seu trabalho, mas quando
chega, é como se tentasse colocar o cansaço de lado, e seu sorriso
aparece junto com aquela cara de quem quer me devorar inteira. No
chuveiro, na cama, ele está ali, e no momento até me esqueço do
que preciso fazer. Meus instintos se acalmam quando estou ao seu
lado.
Callie acabou ganhando um pouco da atenção dele. Eu a peguei
ontem em seu quarto quando fui procurar por ela. Estava enrolada
nos seus braços, na cama. Já gravei e memorizei essa imagem para
sempre em minha mente.
Sorrio com o pensamento, tomando o café da manhã que ele se
certificou de preparar; com a ajuda de Nana, é claro: torradas,
geleias, frutas que já comi em casa e panquecas que ele queria que
eu provasse. Callie gosta tanto, que tem vontade de comer mais.
Agora sinto minha pele ser tocada. O braço direito de Drake roça no
meu e quase todas as minhas preocupações vão embora. Olho para
o lado e levanto a cabeça, encontrando os seus olhos negros
brilharem e um sorriso torto.
— Quais pensamentos causaram esse sorriso? Posso saber?
Ele volta a comer mais da salada de frutas, sem tirar os olhos de
mim. Queria que tudo fosse diferente, que ele voltasse para a ilha
comigo. Eu o quero para mim. Mas é claro que é impossível, em
todas as circunstâncias.
Meu sorriso desaparece e eu demoro a perceber que nem estou
comendo mais. Callie continua comendo suas panquecas com mel.
Drake Ivanok
Uma nova expressão aparece no rosto de minha mulher. Ela está
triste e eu preocupado. Nossas últimas semanas juntos foram quase
surreais. Nunca tinha experimentado esse tipo de vida. Qualquer
filho da puta que me tirar dessa paz que nunca senti, morrerá. A
tensão se foi de mim, e tudo que penso quando chego em casa é
em me perder em um corpo pequeno e quente. Ela é como uma
fonte tranquilizante para mim, a qual não quero mais ficar sem.
Nenhuma outra mulher me deu esse sentimento.
— Ei, morena. O que está errado? — indaguei preocupado. É tão
fácil ler suas expressões.
— Está tudo bem. — Sua voz foi tão suave, que me incomodou
mais, porque ela adquire um tom mais profundo quando Geny está
feliz. E agora foi quase um sussurro.
— Não, não está. Me diga o que te incomoda, e eu resolvo o seu
problema. Apenas me diga. — A esta altura, já perdi minha fome.
Pelo visto, minhas prioridades estão mudando.
Seus olhos já estão brilhando quando ela se vira para mim e depois
olha em direção oposta. Eu paro de comer imediatamente e me
levanto da mesa, agradecendo à Nana. Callie continua comendo,
alheia a qualquer coisa.
— Venha. — Pego sua mão e quase a arrasto para longe.
— O que aconteceu, Drake? Não acabei de comer. — reclamou,
com raiva.
— Depois você come. Precisamos conversar. — Levo-a para o meu
quarto, que, aliás, já está se tornando nosso desde o dia em que ela
decidiu dormir comigo. Nada é melhor do que passar a noite dentro
dela.
Entro no cômodo e tranco a porta. Não vou sair daqui hoje, exceto
para comer.
— Tire suas roupas. — pedi.
Ela me encara com raiva.
— Você disse que queria conversar. Estou esperando. — Cruza os
braços.
— Vamos conversar no chuveiro. Agora, tire as roupas. — Continuo
olhando-a sério.
A água quente cai sobre nós dois e eu começo a banhar seu corpo.
Ela é perfeita. Pego o sabonete líquido e a massageio, vendo-a
colocar para o lado o cabelo negro como uma Ônix, tornando o meu
trabalho mais fácil. Trago-a contra meu corpo, sentindo-a ofegar.
— Diga, amor: o que está te preocupando? Gosto de ver seu
sorriso. Te ver como agora me deixa inquieto.
Geny se vira para mim, em meus braços. Se não fosse pela água do
chuveiro escorrendo pelo seu rosto, eu teria certeza de que ela está
chorando.
— Eu estava pensando na minha casa.
Minha tensão volta. Não estou surpreso, porque em seu lugar,
também estaria com vontade de ir para o meu lar. É foda ser
egoísta.
— E também... Você e eu... — Respira fundo.
— “Você e eu” o quê, Geny?
— Eu quero voltar para casa. — soltou com a voz trêmula, querendo
chorar. — Mas queria estar com você, mesmo sabendo que é
impossível.
Agora estou surpreso.
— Por que é impossível? — Eu sei por que, mas não entendo a
necessidade que tenho de ouvir isso dela.
— Nossas diferenças… Como tudo começou... — Encosta a cabeça
em meu peito, abraçando-me.
— Eu seria um prisioneiro se voltasse com você, Geny, ou morto.
— Eu também sou sua prisioneira aqui. — Olha-me um pouco
irritada.
— Você não é minha prisioneira. Nunca diga isso de novo. Seu povo
me mataria se eu voltasse para lá, mas aqui eu nunca permitirei que
ninguém te faça mal. — Tentei ser lógico, sendo que, na verdade, o
egoísmo ainda está me levando.
— Se não sou, por que ainda estou aqui?
— Porque eu me apaixonei por você e sou egoísta. — Olha-a sério.
Eu não quero que ela vá, porém se isso vai fazê-la mais contente do
que estar ao meu lado, que assim seja. Iria me machucar muito ver
a pessoa que me faz feliz, sendo infeliz ao meu lado.
— Me incomoda vê-la assim. Eu só queria que pensasse mais sobre
isso. Eu quero você ao meu lado, Geny. Você é tudo o que penso
quando chego em casa e quando não estou aqui. Me motiva a fazer
tudo o mais rápido possível, só para a ver novamente. Você não é
nada para mim além da mulher que amo.
Suas mãos agarram meu pescoço e ela me beija. Eu a pego no colo
facilmente. Suas carícias são tão necessitadas, que sinto novas
ondas de emoções. Levo-a para fora do banheiro e tomo seu corpo
e alma em nossa cama. É tudo que preciso, nada mais. Não quero
que acabe. Desejo isso enquanto eu respirar.
CAPÍTULO 17
Geny
— Precisa de mais alguma coisa, querida? — Nana olha para mim.
Ela está me ajudando com alguns detalhes, já que não estou
familiarizada com os produtos de beleza que ela disse que as
mulheres no mundo de Drake usam.
— Suponho que não. Não sei. Não conheço os costumes do seu
mundo. — Dou um leve sorriso.
— Claro. Eu me esqueço disso. — Termina de passar algo em meus
lábios.
Eu olho para o espelho e fico surpresa com minha aparência.
Realmente, estou diferente.
— Estou feliz que você tenha entrado na vida de Drake. Desde que
esse menino perdeu os pais, se fechou para todos, por anos. Ele
sempre falou comigo, mas nada além do básico. E para ser sincera,
nunca imaginei que o veria interagindo com uma criança. Tudo que
você viu nesta casa desde que chegou, é novo, e por sua causa,
Geny. Drake estava muito sozinho, mas com você... Bem, já deve
saber. — Seu sorriso se alarga enquanto ela coloca os produtos
usados de volta no banheiro.
— O que aconteceu com a família dele, Nana? — Estou preocupada
e um tanto curiosa.
— Bem... Isso é algo para ele contar. Não é da minha conta. —
Decido deixar o assunto para outro momento. — Você está linda.
Aproveite o passeio. Tenho certeza de que vai gostar. Callie e eu
ficaremos bem.
Pela primeira vez, sinto que posso confiar nela estando com minha
filha. Drake quer ficar sozinho comigo em outro lugar.
— Obrigada, Nana. — Sorrio.
Ela se afasta, deixando-me sozinha. Eu me olho no espelho.
Deveria estar feliz e ansiosa pela surpresa que Drake me prometeu,
mas, em vez disso, estou perturbada e não tão animada. Não
somos do mesmo mundo. Analiso o vestido branco, longo e justo,
que deixa cada curva do meu corpo visível. O decote revela um
pouco dos meus seios e há uma fenda na minha coxa esquerda.
Drake o escolheu. Deixou-me a roupa como um presente sobre a
cama, dentro de uma caixa, com um bilhete me pedindo para a usar.
Tento me equilibrar nos sapatos que me deixaram mais alta. Tenho
que admitir que eles estão me incomodando.
— Como vou conseguir andar agora sem cair? — falei comigo
mesma, um pouco perdida.
— Está tudo bem, amor? — Ouço a voz de Drake e fico insegura.
Ele está perfeito em um terno preto e seu cabelo está cortado de
uma forma única, curto e penteado para trás. — Você... demorou. —
Encara meu corpo com desejo.
— Porque sou obrigada a usar estes sapatos esquisitos? Vou
acabar me machucando. As mulheres daqui usam isso?
Ele me olha, parecendo confuso, e então sua expressão muda.
— Sim, baby, elas usam. — Dá um sorriso divertido.
Reviro os olhos.
— Não há outro?
— Me perdoe. Eu me esqueço de que você não está familiarizada
com essas coisas. As mulheres daqui praticam antes de usar um
desses. Mas se você quiser ir sem eles, não há problema algum.
— Me desculpe por desapontá-lo. Eu deveria…
— Não, querida. Está tudo bem. Eu que sinto muito. Você é linda de
todos os jeitos, e meu favorito ainda é você nua.
Sorrio com seu comentário.
— Estou pronta. — Pisco ao passar por ele, provocando-o.
Ele dá um sorriso torto.
— Suponho que eu tenha criado um monstro. — Vem atrás de mim.
— Talvez tenha piorado a situação. — Deixo escapar uma
gargalhada.
— Prefiro morrer a me arrepender de ter você me desejando.
— Talvez eu deva deixar você descansar mais e parar de procurá-lo.
— Não, amor! — disse em um tom sensual. — Você está proibida
de não me incomodar. É uma ordem.
— Vou pensar no seu caso. — Piscando para ele de novo, continuo
o meu caminho pelo corredor.
Drake Ivanok
Bato em sua bunda com força, vendo-a desfilar em minha frente.
— Morena gostosa! — Agarro-a por trás.
— Continue assim e não vamos sair. Vou me trancar com você em
nosso quarto, e você não vai sair de lá até eu deixar. — Seu
comentário me surpreende.
— Essa é uma ameaça tentadora, mulher. Tenha cuidado com o que
fala. Tem sorte de estarmos saindo agora, mas ainda irei puni-la
quando voltarmos.
— Como assim “punir”? — Olha-me com raiva.
— Vou torturá-la até vê-la implorar para eu estar dentro de você. —
sussurrei, sentindo o seu corpo relaxar.
— Desafio aceito.
Acompanho-a até o carro e a vejo hesitar. Eu pressiono o botão do
controle e a porta sobe. Ela observa tudo com fascinação.
— Sente-se. Vou te ajudar com o cinto de segurança. É apenas por
precaução, ok?
— Tudo bem. — Ainda está desconfiada.
Prendo o cinto em volta do seu corpo, fecho a porta, dou a volta e
entro no veículo. Ao pressionar o botão, ouço o som do motor
quando ele liga. Geny assiste às luzes do painel com curiosidade.
Está tão focada nelas, que nem me vê olhando-a.
— Apenas relaxe, amor. Nosso passeio está prestes a começar. —
Sorrio para ela e vejo o seu sorriso largo.
Tenho muita sorte de ter encontrado uma morena assim só para
mim.
Geny
Meu corpo responde ao som do carro de Drake ligando, que sai
lentamente da frente da casa. O caminho adiante está escuro, já
que é noite, então só posso ouvir o som das ondas ao meu lado.
Meu estômago esfria quando ele decide correr mais rápido.
— Nada de ruim vai acontecer. Pode ficar tranquila. — Ele sorri com
minha reação.
Rio de felicidade pela emoção da velocidade, e quando penso que
acabou, avisto luzes à distância ficarem cada vez mais visíveis para
nós. O teto do carro começa a se abrir e eu as vejo.
— Isso é para você, minha morena.
Meu coração acelera. Drake para de correr e eu fico perplexa com
as luzes do lugar.
— O que você vê são edifícios. A maioria deles ultrapassa as
nuvens.
Olho para cima, tentando acompanhar os tamanhos dos prédios. É
tão surreal, tão diferente. Também, há várias pessoas caminhando
pelas proximidades, e alguns outros carros bem diferentes do de
Drake. Os edifícios parecem ficar mais assustadores à medida que
passamos por eles.
— Em alguns minutos você estará em um deles. Esse é apenas o
começo. — Estaciona em frente a um dos prédios.
Saio com sua ajuda e ando ao lado dele.
— Vamos entrar no elevador agora. Não precisa ter medo. Ele vai
nos levar para cima. — avisou, agarrando-me pela cintura.
Nós entramos no tal elevador e eu sinto uma fisgada no estômago
quando ele começa a se mover. A mão de Drake segura o meu
corpo com mais força. Tento me acalmar e, à medida que subimos,
vejo a cidade inteira. Tudo fica menor conforme vamos mais alto.
— Falta muito para acabar? — Estou tensa.
— Você tem medo de altura?
— Não. Apenas curiosidade.
— Estamos quase lá. Vamos para minha cobertura. Por isso é tão
alto. Hoje será apenas você e eu, Geny.
Ao sairmos do elevador, vejo um ambiente parecido com o da casa
de Drake. Ando até a enorme sacada e me deparo com vários
edifícios atravessando as nuvens, e as luzes da cidade abaixo.
— Você gostou?
— É incrível. Nunca imaginei que viveria para conhecer um lugar
como esse. — Sorrio para ele.
Juro que enxergo um lampejo de dor em seus olhos. Em seguida,
ele me abraça com força, como se nunca quisesse me soltar.
CAPÍTULO 18
Geny
— Está tudo bem? — Estranho a sua atitude. Ele está tão afetuoso
e calmo. Estou vendo esse lado dele agora.
Drake passou a maior parte do tempo me observando comer. A
comida foi preparada no terraço do prédio do qual ele diz ser o
dono.
— Por que não estaria?
— Não sei. Só estou estranhando todo o seu tratamento comigo.
— Não posso agradar a pessoa que gosto? — Dá um sorriso fraco.
— Acho que esqueci o que é ser mimada por alguém.
— Seu companheiro não mimava você?
— Sim. Eu só não me lembrava mais da sensação.
— Quando você faz parte de uma família, é assim. Ainda pretendo
mimar muito você, amor.
Estranho o seu comentário. Ainda não o tinha visto desse ângulo. A
lealdade por Khan me deixa confusa enquanto Drake parece tão
feliz por me ter ao seu lado. Ele se esqueceu de como tudo
começou? Eu queria me esquecer, mas não consigo.
— Eu nunca tive família, então não sei como é isso.
— No entanto, sabe agora, não é?
— Não entendo.
— Nós nos preocupamos com o bem-estar uns dos outros. É isso
que forma uma família. Nunca pensei que teria essa chance, mas
você e Callie a deram para mim. — Seu sorriso se ilumina mais.
Lembro-me do que Nana me disse.
— Onde está a sua família?
Seu sorriso se esmaece e ele permanece em silêncio.
— Estão mortos. — disse simplesmente.
— Os meus também, mas não me lembro deles. Como eles eram?
Nunca tive uma família, para saber como é.
Ele me encara sério e demora alguns segundos para me responder.
— Não foi perfeito. Nunca é. — Suspira.
— Quando eu era menino, meu pai era arqueólogo, e eu raramente
o via, porque ele viajava com frequência. Como toda criança, eu via
meus pais como os melhores do mundo. E tive uma infância boa,
pelo menos. Minha mãe se esforçou muito para compensar a falta
dele. Mas quando fiz 11 anos, as coisas mudaram. Meu pai
simplesmente desapareceu e não deu mais notícias. Eu demorei um
pouco para perceber que ele nunca mais voltaria e jamais soube o
que aconteceu. No entanto, mamãe sempre dizia que um dia ele
retornaria. Ela tinha essa esperança, não importava quanto tempo
se passasse. Me empenhei para dar a ela um futuro melhor, só que
acabei tornando tudo pior. Eu me tornei um dos melhores
empresários do país e, em pouco tempo, fui reconhecido. Tentava
preencher o vazio dela, dando-lhe atenção e presentes, mas ela não
parecia satisfeita. — Um sorriso sem emoção aparece em seu rosto.
Engulo em seco, sabendo que essa história é dolorosa para ele. —
Ela sempre me pedia netos. — Sorri com a lembrança, mantendo os
olhos abaixados, na direção da mesa. — Eu não queria nada
daquilo e não estava interessado. Então, ela passou a se fechar
mais para mim depois de alguns meses e não falava mais do meu
pai. Percebi que, finalmente, estava perdendo as esperanças e que
queria ficar sozinha. Também estava me afastando dela. Doeu muito
ver a mulher que me deu a vida, acabar assim por culpa de um
verme. — Sua expressão é de nojo.
Forço-me a continuar indiferente.
— O que aconteceu com ela?
— Ela foi sequestrada por minha causa. Eles exigiram muito
dinheiro em troca dela e eu fiz tudo que eles pediram. Tudo que eu
queria na época era ter minha mãe ao meu lado e nunca cometeria
o erro de deixá-la sozinha novamente. — Sua voz foi falha, mas ele
se recupera rapidamente. — Eu a ouvi se despedindo de mim, e
meu mundo se acabou quando a mataram. Fiz de tudo para não
entrar em pânico, porque eles poderiam ter feito aquilo apenas para
me deixar mais assustado, poderia não ser real. Eu já havia
transferido os números, mas foi confirmado depois que ela levou
dois tiros na cabeça.
Sinto um nó na garganta, mas, como é geralmente, não choro. Khan
me ensinou a não mostrar emoções, pois é um sinal de fraqueza. E
Drake veria isso como um sinal de pena.
— Sinto muito por ter perdido a sua família assim, Drake. — falei
com calma.
— Eu não queria saber de mais nada após esse dia. Tudo estava
opaco, sem cor. Nada compensava o vazio. Apenas passei a existir
depois disso e vivia só trabalhando. Sabia que nenhum diamante ou
objeto a traria de volta. Eu me perdi com a morte dela, fui para todos
os caminhos errados e tinha medo de ter uma família. Não queria
me envolver com ninguém e ia cada vez mais fundo, até me tornar o
monstro que você conheceu em sua ilha, aquele cara que não
estava preocupado com que o mundo ao seu redor estivesse
acabando, que estava apenas existindo e esperando seu fim.
— Você é um grande guerreiro, mesmo que pense que desistiu e
que não tem mais chances para lutar.
— Não sou nada, Geny. Sou apenas um assassino, sedento por
vingança, que matou todos os envolvidos na morte de alguém.
— Que coincidência, não é?
— Não estou orgulhoso disso. — Lança-me um olhar sério. Sua
raiva por si mesmo está estampada em seu rosto. — A vingança
não é uma coisa para se comemorar. O que nos resta é cuidar do
nosso futuro, não é?
— Callie é o meu único motivo para não desistir. Talvez eu não
conseguiria sem ela.
— E agora? Apenas Callie te motiva? — Sorri para mim.
Levo o seu comentário a sério.
— Não deveria?
— Deveria. Ela é sua filha. Mas vocês duas mudaram a minha vida
e eu tenho vocês como minha prioridade.
Estou confusa e me sinto traindo Khan ou minha própria natureza,
por desejar algo errado.
— Em outras circunstâncias, eu teria te considerado uma de minhas
principais prioridades, Drake. Não se esqueça que você me roubou
e que nunca mais verei minha casa. Mas isso não importa mais, não
é? Você tem seu amuleto. É a única razão por eu estar aqui. — Olho
para a cidade e fico em silêncio.
Drake Ivanok
— E por que está me contando isso agora? — Tento me manter
calmo, porém estou com o coração querendo pular do peito.
— Porque é verdade. Eu gosto de você e sinto muito pelo inferno
que passou. Realmente. Mas apenas me mantém aqui por um
objeto. Eu gostaria de ter te conhecido de outra maneira. Minha
única prioridade é minha filha. — Volta a olhar para o céu estrelado,
deixando-me sem palavras.
Não deveria ter doído. Por que ela está me dizendo isso agora? Eu
não me iludo. Nunca me deixaria ser enganado por mulheres. Ela
acabou de deixar claro que não faço parte da vida dela. Eu sei que
errei e que estava tão cego, que não me importava com nada.
Apenas me enganei. Na verdade, banquei o garoto ingênuo.
Geny tem todos os motivos para não me amar do jeito que eu amo.
Ela disse que me queria, entretanto parece não querer esquecer o
erro que cometi.
Engulo em seco, analisando a vista à minha esquerda. Eu tenho
estado muito sentimental ultimamente.
Se ela quer tanto voltar para casa, que seja. Não tenho nem
palavras pra dizer o quanto estou arrependido e que, realmente, não
mereço o seu perdão.
O celular vibra na mesa, ao meu lado. Número desconhecido.
— Quem é? — atendi.
— Drake Ivanok! Curtindo o seu passeio romântico? Estou aqui, na
sua casa. Vim te fazer uma visita, matar a saudade. — Ouço uma
risada familiar.
— Frost? — Arregalo os olhos.
Geny me olha com uma expressão confusa.
— Vim te fazer uma surpresa, mas admito que ela não saiu como o
planejado. — Sorri novamente.
— Papai! — gritou Callie ao fundo.
— Faça este filhote de animal ficar quieta, sua puta!
Callie grita e eu me assusto, levantando-me da cadeira. Geny vem
atrás de mim, desesperada.
— Filha! — Ela parece ouvir à distância. Seu rosto está pálido.
— Vamos direto ao ponto, Drake.
CAPÍTULO 19
Drake Ivanok
— Se você tocar na minha filha, eu vou te matar! — Geny gritou,
tentando tirar o celular de mim.
— Quieta! — gritei com ela, mantendo o aparelho fora do seu
alcance. — Se você não se controlar, Callie pode morrer. Acalme-se
agora! — exigi.
Ela se cala.
— Diga à sua pet sexual para calar a boca. É um telefonema rápido.
Se você cooperar, vou embora, e nem saberá que estive aqui.
Entro rapidamente no elevador, com Geny ao meu lado. Ela me
encara e eu lhe faço um gesto para que permaneça em silêncio. A
vida de Callie está em jogo.
— O que você quer de mim, seu bastardo?
— Não sabe? Presumi que soubesse. Quando voltamos à
civilização, você disse que conseguiu o que estava procurando. Eu
quero isso, Drake. Quero o tesouro que esconde e guarda para si
mesmo. Não é só você que está procurando por ele. Muitas pessoas
o querem. Traga-o para mim, e o filhote da sua cadela ainda estará
inteiro. Se tentar qualquer coisa para me impedir de conseguir a
mulher, queimarei tudo que você possui aqui, inclusive os
funcionários. Mas não vai se importar, vai? Tem dez minutos para
estar em minha frente.
— Não fique tão feliz me ameaçando, Frost. Afinal, não somos tão
diferentes. — Pura ira pesou em minha voz.
Eu vou caçar e matar todo mundo que mexer com o que é meu. É
tudo que minha mente pede.
— Estou longe de ter medo de você, riquinho mimado. — Ri.
Em segundos, ouço um grito feminino ao fundo.
— Que porra! Segure esta maldita! Não sabe fazer nada, sua vadia!
— ralhou com alguém.
Em seguida, escuto três tiros. Então a conexão cai.
Minha respiração falha.
— Merda! Merda! Merda! — exclamei, em frustração, correndo para
o carro.
Geny vem atrás de mim e eu abro a porta para ela entrar. Dirijo
rapidamente, não dando tempo para as portas terminarem de se
fechar, e corro o mais rápido que posso. Mal posso ver o quão a
morena está puta.
— Vou consertar tudo. Eu prometo. — garanti, tentando acalmá-la.
Ela não me responde, e isso só piora a minha culpa. Nunca me
perdoará por ter trazido sofrimento à sua vida, mais do que já teve.
Eu não posso falhar. Já falhei com minha mãe, e não posso falhar
com a mulher que amo, mesmo que eu dê minha vida por isso.
Finalmente vejo minha propriedade. O meu desespero só aumenta e
Geny demonstra que irá pular do carro a qualquer momento. Faço
uma curva, derrapando para a outra rua, e avisto um último carro
preto fugindo da casa. Mais dois já estão ao longe. Fico confuso e
corro, com Geny atrás de mim.
— Richard! O que aconteceu? Onde está aquele desgraçado?
Ele respira com dificuldade e eu noto seu colete com sangue no
lado direito do peito.
— Onde está a minha filha? Onde ela está? — gritou Geny,
desesperada, olhando para o homem e por toda a casa.
Tudo está revirado e o chão está imerso em cacos de vidro.
— Drake... — ele falou com dificuldade, colocando uma mão no
abdômen. Sua sorte foi o colete. — Siga o carro preto. Eles apenas
a levaram. Escolheram levar a garotinha em vez da mulher depois
que eu os ataquei.
— Onde está Nana? — Ela logo se aproxima de mim, ilesa. — Ligue
para a minha equipe médica! Rápido! — Olho em volta, vendo
alguns dos meus homens mortos. — Geny, você vai ficar aqui. Vou
buscar a Callie. — Sigo para o carro.
Não há mais tempo. Pode ser tarde demais.
— Não! Nunca vou deixá-la nas mãos de outras pessoas. Eu vou
buscar minha filha, e você vai me levar até ela. — exigiu, batendo o
pé no chão.
Quase rosno de raiva. Maldita mulher teimosa.
— Não vou arriscar vocês duas, porra! Eles queriam você e levaram
sua filha. Com certeza é uma armadilha. Não irei arriscar sua vida.
— Corro para fora da casa, sem mais tempo para discutir sobre
quem vai e quem fica.
— Drake!
Faço de tudo para não voltar e a levar comigo. Não posso perder as
duas. Salvarei a minha Callie do jeito que for preciso, mesmo que
me custe tudo. Ligo o automóvel, furioso.
Eu falhei. Eu falhei. Eu falhei. — A frase continua vindo à minha
mente.
Não posso perdê-las. Eu não posso. Por favor, não! Farei o meu
melhor para manter o controle e não bater o carro.
Pego a arma que mantenho sob o volante e a deixo pronta. Adiante,
vejo o veículo preto que saiu de minha casa. Acelero, chegando
mais perto dele. Quando o vejo começar a fazer zigue-zague na
pista, arregalo os olhos, sentindo o meu coração parar. Ele perde o
controle, move-se para o lado direito e cai pela ribanceira.
— Callie! — exclamei desesperado, parando o automóvel
abruptamente.
Olho para baixo, observando-o parar de rolar perto da praia, e corro
até lá. Meu desespero aumenta enquanto desço rapidamente o
penhasco. Sinto que meu coração vai explodir.
Por favor, por favor! Deixe-a viver! Esteja viva, pequena!
O carro está de cabeça para baixo. Eu me jogo na areia para
procurar qualquer sinal dela, porém não encontro mais nada além
de entulhos. Sinto o cheiro forte do combustível.
— Callie! Callie! Pequena, cadê você meu amor?! — Tento entrar
nos escombros, mesmo sendo grande para isso. As ferragens
rasgam minha pele.
— Papai! — Ouço sua voz suave e chorosa. Sei que ela está na
parte de trás do veículo. — Eu me machuquei. Está doendo. —
Choraminga, tentando vir até mim, rastejando-se.
Ela é tão pequena. Oh, Deus!
Agora mesmo sinto as lágrimas escorrerem pelo meu rosto, contudo
me concentro.
— Você pode se mover, meu amor? Pode chegar até aqui? — Tento
me aproximar dela.
Vejo o cabelo loiro de uma mulher ao lado de Callie, mas não
encontro sinal de Frost.
— Calma, meu amor. O papai vai te pegar. Vai ficar tudo bem.
Espere um pouco mais.
Estou indo tentar pegá-la, quando sou puxado para trás com
violência. Meu corpo é jogado para longe.
— É incrível como você consegue foder todos os meus planos,
Drake. Teria ficado tudo bem se não tivesse vindo atrás de mim.
Mas é muito ganancioso, sempre quer tudo apenas para si mesmo.
— Frost me ataca, socando o meu rosto várias vezes.
Mal tenho tempo para respirar. Meu foco ainda é Callie.
— Papai! — ela me gritou.
Forço o meu corpo a jogar Frost para longe e tento ir atrás dela, no
entanto sou puxado novamente. Odeio me sentir impotente.
— Morra, seu verme! — ele berrou.
Perdendo a paciência, ataco-o com vários socos. Ele consegue se
esquivar deles e tenta me derrubar novamente, então dou uma
cotovelada em seu nariz. O sangue enche suas mãos e ele grita,
caindo na areia, sentindo-se sufocado.
— Papai! Me ajude! Socorro!
Meu sangue gela assim que vejo fogo começar a se espalhar. O
carro vai explodir.
Eu corro para ela e, de repente, tudo parece estar em câmera lenta.
Jogo-me na areia, tentando puxá-la para mim, e ouço um grito
arrastado e o som de um tiro. Seguro o gemido de dor, sentindo que
vou morrer. Minha frequência cardíaca dispara quando me lembro
da arma amarrada à minha cintura. Pego-a e aperto o gatilho sem
pensar. As balas atingem o olho esquerdo de Frost duas vezes, o
qual se enche de sangue. Ele tomba para o lado.
Mal consigo respirar quando pego a minha garota finalmente. Ela
passa pelo banco do passageiro e eu a alcanço. Tento fugir com ela
para longe do carro, mesmo sentindo a dor aguda da bala em algum
lugar das minhas costas.
Callie se agarra a mim, chorando, e eu corro o mais rápido possível
para longe do veículo. Mas não o suficiente. A pequena grita em
meu ouvido quando surge um som estridente ao fundo e minha pele
arde. Sou jogado para a frente, sentindo a carne dos meus braços
moerem, e caio na areia, segurando-a com força. Trago o seu
corpinho pequeno para baixo do meu e sinto a queimação piorar.
Mal consigo pensar. Minhas costas ardem como se brasas
estivessem em minha pele. Callie grita por mim.
Não consigo mais raciocinar. A dor é insuportável. Estou gemendo
de dor e perdendo sangue. Parece que não foi dessa vez. Talvez
hoje não seja o dia em que tentarei consertar meus erros. Mas, pelo
menos por agora, salvei minhas meninas.
Vultos e manchas surgem em minha visão. Sei que a garotinha está
no chão, abaixo de mim, todavia não tenho mais forças para a
abraçar. Minhas mãos estão apoiadas no chão, ao lado de sua
cabeça, enquanto ela chora, com medo. Eu falhei de novo e me
sinto pior do que qualquer verme. Eu falhei e vou pagar pelos meus
erros.
Vejo imagens da minha mãe chorando em seu quarto, misturadas às
de Geny. Tudo que enxergo é um futuro diferente em que eu poderia
ter tido a oportunidade de estar com ela sem colocá-la em perigo.
— Drake! — alguém me chamou. Não consigo identificar quem é.
Sinto mãos pequenas e gentis em meu rosto. A dor está queimando
e latejando enquanto a brisa fresca toca em minha pele exposta.
— Papai! — É a última coisa que ouço antes de desligar.
CAPÍTULO 20
Geny
Depois de chegar ao local do acidente, os momentos seguintes são
apenas borrões em minha mente. Eu não sei o que pensar, nem
como agir. Há duas pessoas importantes para mim aqui, vários
carros chegando e gente correndo para conter o fogo. Alguns
tentam socorrer meu Drake.
Richard me trouxe depois que eu o ameacei, e como ele também
parecia preocupado, não demorou muito para ser convencido a vir.
Ver minha filha ilesa foi uma sensação de alívio temporário, porque
quando olhei para Drake inconsciente, eu me vi voltando no tempo
para o momento em que avistei meu parceiro morto, deitado no
chão, ensanguentado.
Agora um nó se forma em minha garganta mais uma vez ao mesmo
tempo em que presencio a cena de suas costas em carne viva,
sangrando. Callie chorava muito, abraçada a ele. Ela apenas se
acalmou um pouco depois que a coloquei em meus braços,
acalentando-a. Não sai do meu colo nem para ser examinada pelos
médicos contratados para Drake.
Minhas memórias estão frescas e a sensação de perda ainda é
forte. Meu corpo treme, de medo, porque não sei o que esperar.
Jamais estive tão assustada em minha vida, porque se eu ficar
sozinha novamente, nunca mais verei minha casa. E não sei o que
farão comigo se Drake não estiver mais aqui, além de que irei
perdê-lo para sempre.
Ele é levado para um hospital particular, como eles chamam. E
sobre a questão da explosão, uma história é inventada para que o
mundo deles não saiba da minha existência e do meu povo.
Sinto-me insegura, longe de minha casa, e agora prestes a perder
alguém importante para mim.
Após um tempo, as notícias do estado atual de Drake vêm. Não
sabem se ele sobreviverá à explosão, porque estava perto demais
dela. Sem contar do tiro que tomou, que, por pouco, não acertou
seus órgãos vitais. Perdeu muito sangue.
Meu coração se parte ainda mais e o desespero me bate. Em
nenhum momento saio do seu lado e ele não demonstra estar
acordando.
De novo não. Por favor! O que eu fiz de tão sério, que os deuses
não me deixam ser feliz? Por favor, deixe ele comigo! — implorei em
pensamentos.
A pele dele está pálida, seu coração fraco e sua respiração lenta.
Ele luta para se recuperar. Se estivesse na ilha comigo, não
sobreviveria.
Richard e eu pedimos para que ele seja mandado para casa, para
se recuperar lá. Uma mulher é designada para cuidar dele e eu faço
questão de estar ao seu lado o tempo todo. Em todas as vezes que
ela troca as bandagens de suas costas, eu procuro fazer a maior
parte do trabalho pesado, já que tenho bem mais força que ela.
Além do mais, sinto-me mais calma cuidando da pessoa que amo.
Uma semana depois, ele já está melhorando. Callie o visita às vezes
e sempre sai do quarto chorando, dizendo que não quer perder o
pai. A culpa cresce em mim. Drake realmente se importa conosco,
como uma família, e eu o rejeitei feito uma covarde. Por duas noites
seguidas, chorei em sua cama e quase não dormi, torturando-me
por ter sido tão estúpida. Nunca consegui aprender a ver o bem em
outras pessoas e sempre tive a certeza de que todas elas eram
ruins, mas agora entendo que somos falhos e que a redenção
sempre será a coisa mais importante.
Observo o céu cinza-escuro, da janela do seu quarto. Na maioria
das vezes, com os olhos fechados, descansando, desejo que nada
disso seja real. Quando olho para ele e o enxergo tão sem vida,
quero me punir pelos meus erros. O que não adianta, que somente
me deixa mais doente. Ele queria fazer parte de uma família e eu
me recusei. Julguei-o, sendo que também errei. Por minha culpa
vou perder outra pessoa importante. Meu rosto já está inchado, de
tanto chorar.
Callie passa a maior parte do tempo com Nana, e Richard vem de
vez em quando ver o progresso do amigo, quando não está
cuidando das obrigações dele em seu lugar.
Aproximo-me da cama e analiso o seu rosto, seu cabelo castanho-
escuro e sua pele pálida. Minha visão embaça novamente enquanto
corro a mão pelos seus fios grossos.
— Drake, por favor! Não sei mais o que fazer. Só quero que você
acorde, para que eu possa implorar pelo seu perdão, de joelhos. Já
perdi muito, e não quero te perder. O que eu disse sobre não te
considerar minha família foi porque eu estava com muito medo...
Com medo de me agarrar a você e sofrer depois. Estava confusa
sobre o que queria. Minha vida foi ficando fácil depois que me
acostumei a ficar sozinha; Callie se tornaria uma adulta e eu teria
que me adaptar a isso; mas então você chegou. Eu olhei para cima
e soube que você me causaria problemas, pois sabia que não
pretendia partir. Não quero passar pelo mesmo processo de novo. A
sensação de ter certeza de que te perdi é pior do que qualquer
coisa. Não quero mais ficar sozinha, Drake. Por favor! Eu errei...
Errei em deixar para dizer que te amo só depois de te perder. Volte
para mim, amor. Fique aqui e me dê uma chance de me redimir, por
favor. — sussurrei perto do ouvido dele.
Minha mão está tremendo quando toco em seu rosto. Ajoelho-me no
chão, ao seu lado, e pego sua mão. Fecho os olhos ao sentir a
textura de sua pele e ouço o som do monitor aumentar e aumentar.
Ele estava bem lento e agora está mais rápido. Não entendo.
Preocupada, vou atrás da mulher que cuida do aparelho.
Drake Ivanok
Observo o oceano azul tremeluzir em minha frente. O lugar
paradisíaco me traz uma sensação de lar. Nunca tinha me sentido
tão feliz e calmo. Olho para trás, avistando longos cabelos negros
balançando com a brisa. A mulher da minha vida se aproxima de
mim com aquele sorriso pelo qual sou tão apaixonado.
— Amor, venha. Termine isso depois. Greedy e Kalel estão
perguntando por você há horas. — ela me chamou.
Deixo para terminar de montar o restante das armas depois e vou
ao seu encontro. Coloco os fios de seu cabelo para trás das orelhas.
— Como você é linda! Sabia, minha morena?
— Você também é lindo, querido. — Dá um largo sorriso para mim
ao mesmo tempo em que o azul de seus olhos brilha mais.
Eu lhe roubo um beijo e meu coração dispara de felicidade.
— Achei que eles fossem mais apegados a você. — Abraço-a.
— Também pensei. Mas ter um pai bagunceiro deve ser mais
divertido.
Sorrio com o elogio e caminho ao seu lado, olhando para as
árvores. Vejo uma bela cabana de madeira e, à distância, dois
meninos aparentando ter 1 ou 2 anos, que correm em minha
direção.
— Papai! — Eles pulam em meus braços.
A sensação de conhecer essas crianças há tanto tempo me faz
experimentar sensações inexplicáveis. O mais velho tem os olhos
azuis, como os de minha Geny, e os do mais novo são negros,
como os meus.
— O que estão aprontando com a mãe de vocês desta vez? —
Coloco-os no chão.
Os dois caminham ao meu lado, rindo.
— Vamos, amor. Está na hora de jantar. — Geny sorri, andando em
minha frente.
— Drake! — Ouço uma voz. É como se viesse de dentro da minha
mente. — Por favor! — Sei que ela é familiar.
Olho para o céu azul, para as árvores e ao oceano cintilante à
minha direita. Paro no meio do caminho, com o coração batendo
forte, e olho na direção da minha família novamente.
— Venha, papai. — Um dos meus meninos sorri para mim. Suas
palavras ainda saem enroladas, por ele estar aprendendo a falar.
Em seguida, eles correm até a mãe. Ela continua caminhando. Eu
quero tanto, mas tanto, segui-los, só que de repente tudo escurece
e a angústia, a tristeza e a raiva voltam à minha alma. Pela primeira
vez em anos, quero chorar e gritar como uma criança. Gemo de dor
e desespero, ouvindo o som da minha própria voz. Eu perdi alguém.
Eu perdi e decepcionei alguém.
— Senhor Ivanok, por favor, fique calmo. Está tudo bem. — É uma
voz desconhecida.
Estou respirando com dificuldade, quando abro os olhos e sinto uma
brisa fresca roçar em minha face. Sei que estou em casa, bem longe
da ilha de Geny, onde eu queria ter estado com ela se tudo fosse
diferente.
— Drake, olhe para mim. — Mãos seguram meu rosto. — Eu estou
aqui com você. Você não está sozinho. — É a voz da mulher que
amo, ao meu lado esquerdo.
Ainda enxergo tudo um pouco embaçado.
— Geny?
— Sim. Estou aqui. Não precisa falar agora. Ainda deve descansar.
Tudo e todas as memórias voltam para mim, e eu fico com medo.
— Callie? Onde ela está? Onde está a minha pequena? — Tento me
levantar, quase entrando em pânico. Se eu a perder, matarei todos
eles.
— Ela está bem, Drake. Você a protegeu muito bem. Logo poderá
vê-la.
Luto para firmar minha visão, entretanto é impossível. Não consigo
ver o rosto da minha mulher, e isso me irrita mais.
— Você está bem? Por favor...
— Senhora, ele vai dormir daqui a alguns minutos. Coloquei um
remédio porque ele irá sentir dor logo. Precisa descansar mais um
pouco.
— Esta é a última vez que você coloca essas coisas nele. Quando
ele acordar de novo, ele mesmo vai decidir. Entendeu? — Minha
mulher está nervosa ao me proteger. Então sei que fiz a escolha
certa.
— Geny, me perdoe por tudo que fiz.
— Sou eu quem preciso do seu perdão, Drake. Mas agora quero
apenas que você descanse. Mais nada.
— Fique comigo, por favor. — Tento tocar nela e sinto sua mão se
agarrar à minha. Isso me traz alívio.
— Quando você acordar, eu estarei aqui. Não irei a lugar nenhum.
Com essa promessa, percebo meu corpo relaxar novamente.
CAPÍTULO 21
Drake Ivanok
Fico sozinho em meu quarto após a enfermeira me auxiliar com os
medicamentos. Os curativos já foram removidos para que minha
pele possa cicatrizar mais rápido. Como ela estica, é desconfortável,
dando a impressão de que algo está preso às minhas costas. Mover
muito o corpo ainda é ruim e doloroso, mas já posso andar e me
mexer.
Agora, que estou melhor, posso analisar minhas opções e decidir
meus próximos passos. E rápido. Se estão pensando que vou deixar
aquele assunto morrer só porque Frost levou um tiro e foi
carbonizado junto a uma mulher que ainda vou descobrir quem é,
estão enganados. Cada infeliz que participou desse ataque, vai
pagar. Contudo, só irei agir quando Geny e Callie estiverem em
segurança, de volta à ilha. Não é seguro para elas aqui e minha
morena realmente quer ir para casa.
Ainda não me esqueci do que ela disse; suas palavras estão frescas
em minha mente. Estou me acostumando à dor de ser feito de idiota
pela primeira e última vez. Não vou deixar de amá-la tão
rapidamente, no entanto, se ela não me quiser mais, só poderei
sentir falta dela. Apenas um demente mesmo pode continuar
perseguindo alguém que não o quer. E eu não sou um cachorro
para correr atrás da primeira pessoa que me faz carinho.
— Richard. — chamei o único homem em quem posso confiar
0,01%.
— Drake, estou feliz que esteja acordado. — afirmou com um tom
de alívio. — Eu estava ficando preocupado sobre quem iria pagar
meu salário. Está melhor?
Sorrio pelo comunicador.
— Melhor do que antes. Foi uma experiência assustadora quase ser
queimado vivo.
— Você tem meu respeito por isso, amigo, realmente.
— Agradeço. Mas eu não vou deixar o assunto morrer. Eu preciso
do avião novamente para levar a mulher e a criança de volta para a
ilha.
— O que houve?
— Não é mais seguro para elas aqui. Também preciso aumentar a
segurança agora, já que tenho inimigos jurados. Sem mencionar
que eles estão atrás da minha mulher. Ela estará mais segura com
seu povo.
— E se alguém for atrás delas?
— É um risco, mas eu decido sobre isso. Instale uma segurança na
ilha ou qualquer coisa parecida.
— Espero que esse não seja um erro.
— Eu também. — Aguardo sua resposta. Só quero o melhor para
minhas meninas, mesmo que isso custe a minha paz.
— Vou fazer as ligações. Quando você irá querer o avião pronto?
— Amanhã à noite.
— Entendido.
Respiro fundo, em frustração, depois de desligar o comunicador.
Ainda estou de pé, exausto, ao lado da cama, porém não quero
voltar para ela tão cedo.
— Você vai me mandar embora? — Geny está parada perto da
porta.
Fico surpreso com sua presença.
Eu não queria ter que me separar dela. Ela é tão transparente. Seus
olhos brilham com lágrimas não derramadas, então sei que ouviu a
conversa.
— Sim. Prepare você e n... Sua filha. — Respiro fundo novamente.
Estou muito nervoso e ainda com medo de tudo. É assustador me
sentir vulnerável. — Vocês vão embora amanhã.
— Nós? Você não irá com a gente? — sua voz foi tão suave.
A tentação de desistir e a manter aqui quase supera a minha razão.
— Claro que não. Primeiro: você deixou claro que não quer ficar
comigo; segundo: eu preciso resolver meus problemas. No
momento estarei cego até conseguir informações. Eles queriam
você, e, pela minha ignorância, coloquei a vida de todos em risco.
Não farei isso de novo. Me desculpe por te fazer isso. A princípio,
tudo que eu queria era encontrar aquele objeto e ver o que
conseguiria desenvolver com ele, porém encontrei algo mais
valioso. — Olho para a janela. Não estou a fim de lhe demonstrar
carinho de novo.
— Por favor, Drake! Eu sei que te machuquei. E essa era a minha
intenção, porque fui uma covarde. Fui covarde por medo de te amar
e de te perder. Eu não queria perder mais ninguém, pois estava me
acostumando com a vida solitária, quando você apareceu. E... foi a
melhor coisa que já me aconteceu. Tive uma grande aventura ao
seu lado. É um bom homem. Me perdoe. O que eu disse não é e
nunca foi verdade. Eu percebi que já te amava o suficiente para
sofrer de novo, e quando vi que ia te perder também...
Viro o meu olhar para ela. Suas írises azuis brilham, em súplica.
Queria que tudo fosse diferente.
— Eu também te amo, Geny, mas estou falando sério. Prepare
Callie. Aqui não é mais seguro e vocês ficarão melhor com seu
povo. Eu preciso ficar sozinho agora, pois tenho alguns negócios
para fazer.
Ela me olha magoada e eu me viro de novo, esperando-a ir embora.
Ainda estou completamente chateado e, também, aliviado, por tê-la
ouvido falar a verdade. A morena se importa comigo. Todavia, meu
orgulho ainda está ferido e eu estou sozinho para resolver todos os
problemas que criei. Sem contar que o medo de as perder ainda
está aqui. Sendo assim, eu irei enlouquecer se não as mandar
embora.
Eu vou perder Geny, no entanto, pelo menos, ela vai continuar viva,
e eu também. Mas se eu tiver que ir para o inferno, arrastarei meus
inimigos comigo. Ninguém vai escapar desta vez.
***
É noite quando estou sentado na cama, com o notebook no colo.
Não consigo dormir, tentando resolver todos os problemas
pendentes. A minha cabeça dói e eu me mantenho inquieto a todo
momento.
A porta se abre e uma pequena sombra se move na escuridão do
quarto.
— Papai! — Callie me chamou com a voz rouca de sono.
— O que você está fazendo acordada, pequena? Não deveria estar
dormindo? Amanhã será um longo dia. — Coloco o computador de
lado e a tomo nos braços.
Ela é bem pequenina, tem bochechas redondas, e seus cabelos
longos, ondulados, são macios como seda. É minha boneca
perfeita.
— Eu acordei e vi a mamãe chorando baixinho. Ela me disse para
voltar a dormir, porque amanhã vamos embora. Por que vamos
embora? Você não quer mais ficar com a gente? — Seus olhos azul-
safira são os mesmos da mãe e também me derretem em
segundos. Ela é muito linda.
Penso no companheiro de Geny, sobre quem ela tanto comentou, e
em como a família dele é linda. É uma pena que não pôde ver a filha
crescer. Eu nem família tenho. Achei que tinha conseguido uma,
mas foi apenas uma ilusão.
— Não, querida. Não é por isso. Você e sua mãe são tudo que
tenho, mas às vezes precisamos tomar decisões difíceis em nossas
vidas, que nem sempre agradarão a todos.
— Por favor, papai! Eu prometo não machucar ninguém e ser boa se
pudermos ficar com você. Não deixe a gente.
— O que você quis dizer com “machucar” alguém? — Limpo seu
rostindo delicado com as mãos. Ele quase desaparece ao lado
delas.
— Você não está bravo por eu ter feito o homem que me pegou,
morrer? A mulher com ele era a mesma que me atacou no outro dia.
Mamãe me salvou dela porque ela estava me machucando. Eu
fiquei com raiva. Ela queria enfiar algo em mim, mas eu não deixei e
ataquei os dois. Foi por isso que ele morreu, não foi?
Não sei como Callie não está traumatizada com tudo isso. Talvez
nada faça efeito agora, enquanto ela é criança, mas irá precisar de
terapia quando for adulta. E saber que tenho minha parte de culpa
nisso, deixa-me pior.
— Querida, você foi muito corajosa. Estou orgulhoso de você. E
nada disso foi sua culpa. O motivo de vocês voltarem para a sua
casa é outro. Eu preciso protegê-las, não posso perdê-las.
— Mas a mamãe é forte e pode te ajudar. — sua voz veio
embargada pelo choro.
O que eu fiz para Deus, para merecer isso? Eu as amo.
— Eu sei. Mas é meu dever cuidar de vocês duas. Vai ficar tudo
bem, meu amor. Eu prometo.
— Vou sentir saudade. — Seu corpinho se agarra ao meu e minha
angústia só piora.
É para o bem delas, Drake. — Tentei me convencer.
Sinto o cheiro de bebê dela e minha dor aumenta. Passo um bom
tempo acariciando o seu cabelo de índia. Ela é tão perfeitinha. Olho
para o seu rostinho adormecido sobre meu peito, notando como sua
boquinha é toda perfeita e bem desenhada. É a miniatura do amor
da minha vida. Se tudo tivesse sido diferente, eu iria pedir para ter
filhos com Geny. Queria poder ter uma família com ela.
Com Callie dormindo em meus braços, eu me levanto da cama
devagar, para não a assustar, e a carrego de volta para o quarto da
sua mãe. Ando lentamente pelo corredor, admirando-a. Nunca
imaginei que amaria uma criança que não fosse minha. Trago-a
para mais perto do meu rosto e a abraço, ainda parado. É a última
vez que vou vê-la. Elas são meus tesouros, e tudo que quero é as
proteger do meu mundo. Entro no quarto delas e deixo a pequena
na cama.
Eu me viro para sair e vejo Geny me olhando. Ela vem até mim e
me beija de uma maneira única que quase me faz desistir da minha
decisão. Afasto-me dela, relutante.
— Boa noite, Geny. — Saio o mais rápido possível.
Tudo que eu queria agora era estar em minha cama com ela,
mantendo-a segura ao meu lado. Contudo, a realidade sempre tira
qualquer traço de paz.
— Drake! — foi a voz de Richard no comunicador. — Recebi novas
informações. A mulher com quem Frost estava, era Katelyn Ting,
sua ex-namorada. Os dois estavam trabalhando juntos para Charles
Wilson. O mesmo perfil de sempre: contrabando e lavagem de
dinheiro. É um ex-político de 59 anos, que parece estar envolvido
com alguém superior. Sinto muito, cara. Trarei mais informações em
breve.
— Agradeço. Boa noite. — Respiro fundo e tento dormir.
Nem me importo com que aquela vadia tenha feito parte disso. Não
estou surpreso. No entanto, ainda tenho medo de que alguém venha
e leve minhas meninas de mim.
CAPÍTULO 22
Geny
Não tenho nada para levar de volta à minha terra, apenas a
esperança de que tudo ficará bem. Acordei com o amuleto em meu
pescoço e tentei descobrir como ele chegou lá. Drake deve ter me
devolvido enquanto eu dormia. Estava exausta e chateada. Não o vi
o dia todo; ele desapareceu.
Vejo Nana se despedindo de Callie. É o melhor para todos. Aqui
nunca foi o nosso lugar mesmo. Só quero poder voltar para casa
agora.
— Vou sentir sua falta, Nana. — Minha filha a abraça.
— Eu também, minha pequena. Que você tenha uma jornada
tranquila. Adeus, garota. — Ela coloca a minha menina no chão, que
retorna para o meu lado.
— Vamos lá. Está na hora. — Richard anunciou da porta antes de
voltar para o helicóptero.
Nana está parada agora, observando nossa partida.
— Adeus, Nana. — falei novamente.
Eu me viro para entrar no helicóptero com a ajuda de Richard. Callie
quase coloca as mãozinhas no chão para subir. Ele nos prende aos
cintos de segurança e ela fica ao meu lado, um pouco nervosa com
a sensação estranha de não estar no chão. Quando começamos a
subir ao céu, estou pior, por nunca ter voado na minha vida. Não
acordada.
— Fiquem calmas, meninas. Vai dar tudo certo. — Richard está
ajudando o piloto.
A sensação do balançar da coisa é horrível.
Encaro a pedra pendurada em meu pescoço. Ele realmente me
devolveu. Estou feliz por estar voltando viva para casa, mas saber
que nunca mais verei Drake me entristece. Ele nem estava aqui
para se despedir de nós, nem pôde ver nossa partida. Nunca
saberei porquê.
Como a viagem de avião é bastante assustadora, Richard
acompanha Callie e eu para nos manter calmas. Tenho que admitir
que não gosto dessa coisa de voar.
— Sinto muito, Geny. Sua casa é longe da nossa. Terá que ter
paciência. — Ele sorri e eu concordo, retribuindo-lhe um sorriso
triste.
Não consigo tirar Drake da mente. Ele estava se recuperando dos
seus ferimentos, então eu gostaria de tê-lo visto, para ver se está
bem.
***
A sensação de voltar para o lugar de onde vim, é estranha. A longa
viagem foi tranquila e, finalmente, consigo respirar o ar puro do meu
lar. O avião toca no chão e eu posso sair do cinto de segurança,
junto com Callie, que está sonolenta ao meu lado. Não a culpo. A
porta se abre e eu saio com minha filha. Já amanheceu.
Percebo que realmente estou em casa quando vejo as montanhas e
o oceano tão azul quanto o céu.
— Mamãe, cadê o papai? Por que ele não está aqui?
— Sinto muito, Geny. — Richard disse atrás de mim. — Drake optou
por não vir. — avisou sem emoção.
— Eu entendo perfeitamente. Adeus, Richard. — Viro as costas
para ele.
— Vamos, filha. Iremos encontrar o nosso amigo Silas novamente.
Lembra dele? Vamos rever todos os nossos amigos.
— Eu só queria o papai. — Começa a chorar.
Pego-a no colo, afasto-me do avião e olho para trás. Richard está
parado no mesmo lugar, observando-nos. Callie esconde o rosto em
meu pescoço. Vai ser difícil, mas essa é a nossa vida.
Caminho para entrar na floresta, sem olhar mais para trás. Tudo que
quero é voltar para o meu lar. Pouco tempo depois, minha filha se
acalma e enxuga o rosto, olhando para onde estamos indo. Ela
permanece em silêncio, ainda soluçando.
De repente, dois homens do nosso clã aparecem em minha frente,
apontando armas afiadas para mim. Sinto o meu coração pular.
— Geny? — Um deles está surpreso.
— Por favor, eu quero ir para casa. — falei com cautela.
Eles se entreolham.
— Siga-nos!
Os dois não parecem muito felizes por eu estar de volta. Eu estou
usando roupas do mundo de Drake e meu cheiro também deve ser
diferente.
Finalmente, chego ao vilarejo. Tudo parece tão mudado e estranho.
Achei que quando voltasse, ficaria mais feliz. Meu povo se reúne ao
lado de fora das casas para me observar com os dois guardas que
me acompanham. Ninguém está contente com meu retorno.
— Mamãe, estou com medo. — Callie sussurrou ao meu ouvido.
Quase concordo com ela quando vejo Kevrel se aproximando de
nós com uma expressão de surpresa e tristeza.
— Geny, está de volta. — Ele vem me cumprimentar e eu coloco
Callie no chão para receber seu abraço forte. — O que aconteceu
com você? Nós pensamos que estava morta. Perdemos pessoas
importantes no dia que te levaram de nós. Como voltou? Por que
eles te levaram? — Olha-me preocupado, estudando-me da cabeça
aos pés.
— Não sei como explicar isso para vocês. É tudo muito estranho.
Eles disseram que não era mais seguro me manter onde eu estava
e me trouxeram de volta.
— O que eles queriam com você? — Encara-me confuso, tentando
entender as coisas.
— Estavam atrás do colar.
Kevrel olha para o meu pescoço, onde está a joia.
— Ele está seguro com você, pelo que vejo.
— Sim. Eu consegui mantê-la comigo. — Meu alívio não dura muito
tempo, pois Kevrel está em silêncio, ainda me estudando. Minha
tensão volta a crescer.
Ele se aproxima de mim com uma expressão estranha e inala meu
perfume. Até sinto um pequeno arrepio quando seus olhos voltam a
me analisar.
— Vou jogar estas roupas fora. Deve ser o cheiro delas que você
está sentindo. — comentei.
O homem se ajoelha em minha frente e começa a me cheirar
novamente, só que perto da minha barriga. Diante do seu rosnado
baixo, de repente me sinto insegura e alarmada, como se não
estivesse mais protegida em minha própria casa. Ao se levantar
lentamente, sua expressão é de repulsa. Ele se afasta.
— Por que você carrega a prole de um deles? — perguntou com a
voz severa e rouca.
Pela primeira vez, tenho medo do meu povo.
— O quê? — Estou em choque com a menção da palavra “prole”.
Não. Fiquei tão chateada com tudo que aconteceu, que não prestei
atenção nas mudanças em mim. Deve ser um engano.
— Você me ouviu, Geny. Por que carrega a descendência de
nossos inimigos? Eles violaram seu corpo? — sua voz foi alta o
suficiente para que todos pudessem ouvi-la.
Ouço pessoas murmurando baixo e algumas demonstrando espanto
e raiva. Meu pânico aumenta. Não posso mentir e sei que minha
vida acabou aqui. Deixo o meu olhar cair para o chão, em
constrangimento, e fico em silêncio.
— Eles corromperam você. Não aceitamos bastardos em nosso clã.
Sabe disso muito bem, Geny.
Olho para cima e percebo o seu olhar de descrença e tristeza sobre
mim, assim como os de todos ao meu redor. Nunca me senti tão
fraca e vulnerável, como agora.
— O colar! Você não é mais digna de guiar o nosso povo. Outro
líder será escolhido. — Estende a mão em minha frente.
Toco na joia, sentindo-a pela última vez. As lágrimas fluem pelo meu
rosto. Não me importo de abrir mão da liderança, mas ser humilhada
e repudiada pela minha própria família é pior que tudo.
— Por favor! Tudo que eu queria era voltar para casa. Aqui é minha
casa.
— Você dormiu com um deles, Geny. Isso é considerado traição.
Conhece nossas leis. O colar! Aí te deixarei viver na ilha com seus
filhos. O colar, Geny!
De repente, parece que nunca morei neste lugar. Todos que
conheço, tornaram-se simples estranhos. Fui tola por acreditar que
ser um membro do clã seria suficiente. Removo o colar do pescoço
e o entrego a ele. Lágrimas já ameaçam correr pelo meu rosto e
minha visão nubla.
— Você, oficialmente, não faz mais parte do nosso povo, e viverá
sem a proteção do clã. — Ele vira as costas para mim e me deixa
sozinha.
Todos do meu povo me abandonaram.
— Espere, Kevrel! — Silas vai ao encontro dele no meio da
multidão.
— Por favor, me deixe cuidar dela. Eu sei que o filho que ela carrega
não faz parte do nosso povo, mas ela não merece perdê-lo. Me
permita ajudar a cuidar dela. — sua voz foi ficando mais suave.
Minha humilhação apenas cresce e Kevrel olha para mim, piscando
com nojo.
— Quando a criança começar a andar, ela deverá sair de sua casa.
Você entendeu?
— Sim. — Silas me encara.
Cometi um grande erro e sei que terei que pagar por ele. Só queria
poder voltar para Drake.
CAPÍTULO 23
Drake Ivanok
Nove meses depois
— Eles estão fugindo! Vai! Vai! Vai!
— Atire, porra! — gritei de volta.
Os homens da minha equipe atiram, explodindo os armazéns do
desgraçado. As explosões são como um show de luzes para mim.
Esperei por muito tempo para ver isso.
Passei os últimos nove meses estudando cada maldito movimento
de Charles Wilson, então a loucura, por conta da falta que Geny me
fez, não me dominou.
“Ela está em casa, está segura”. Eu repetia isso para mim mesmo o
tempo todo, e focar no meu inimigo era tudo que eu podia fazer.
Charles controlava Frost, e os dois cientistas desempenharam um
pequeno papel nisso, de acordo com as informações. Os dois
bastardos trabalhavam para alguém pior do que Charles, mas, por
enquanto, meu alvo era o maldito anão. O desgraçado pensou que
eu iria me acovardar dentro da minha casa e o deixar fazer o que
quisesse. Não mesmo. O meu medo de morrer se foi depois que
perdi minhas garotas. A única mulher que amei, foi embora por
minha causa e por causa de meus inimigos.
Os armazéns queimam e vários SUVs pretos tentam fugir do lugar.
Apenas espero pelo momento certo. Tenho o dom da paciência
quando se trata de me vingar. Era aqui que Charles resolvia seus
problemas de negócios, onde estava mais focado em fazer vítimas
do que se preocupar com seu rabo. Um de seus aliados o traiu e eu
consegui sua localização. Seu ramo envolvia tudo de ruim que
alguém pode pensar, como o tráfico de mulheres e crianças, um de
seus favoritos.
Atiro apenas uma vez. A bala atinge o tanque do carro da frente,
explodindo-o em segundos. Ando rapidamente até os outros
automóveis que não conseguiram me seguir e atiro novamente, com
meus homens me dando cobertura. Eles entram em pânico e
começam a atirar em nós também, portanto ativo o escudo que criei
dois meses depois que minha morena se foi. O resto da minha
equipe está blindada com o escudo invisível inspirado na pedra de
Geny. É um minúsculo dispositivo implantado sob a pele do meu
braço esquerdo, que capta, a cinco metros de distância, qualquer
objeto que esteja sendo disparado em alta velocidade.
Geny me ajudou muito a entender seu objeto, e a partir dele
consegui criar outro. Esse era o meu objetivo o tempo todo e
agradeço por não ter perdido o meu tempo.
Eu atiro em outro carro e ele explode junto com vários homens, que
são jogados para os lados. O escudo me protege da explosão.
— Charles! — gritei ainda andando. — Vamos! Mostre a cara,
covarde! Eu prometo que se você bancar o corajoso, vou deixá-lo
viver em troca de algumas respostas. — Caminho para o último
veículo fechado, onde ele está. — Charles! — chamei seu nome
como um psicopata atraindo sua vítima.
Minhas emoções estão reprimidas há meses, e qualquer sinal de
gentileza que eu tive enquanto estava com minha mulher, foi-se com
ela. A última vez que a vi foi quando a levei de volta para a ilha,
quando ela olhou para trás. Lá percebi a realidade: não a veria mais.
Ela se ajustaria e esqueceria que eu fiz parte da vida dela. Tentei
fazer o mesmo. Tentei voltar ao ser o que era antes. Mas ao dormir,
Geny sempre estava presente em meus sonhos, permitindo-me
sentir o calor do seu corpo.
Rosno de frustração e abro a porta com violência, colocando o
escudo em minha frente. Acontece como imaginei: as balas vêm
direto para o meu cérebro. Eu já esperava. Coloco balas na cabeça
do infeliz também, que me impede de alcançar o meu alvo. Por
causa dele, nunca mais verei Geny.
Ele corre para o outro lado, gritando, e um dos meus homens o
agarra. Rio alto do seu desespero e me aproximo dele com calma.
Tudo ao nosso redor queima como o inferno.
Olho para o merdinha que acabou com minha vida.
— Estou impressionado em como um verme do seu tamanho quase
ganhou o crédito por foder minha vida.
— Não foi nada pessoal, idiota. Os negócios sempre envolvem
sacrifícios. — O sangue pinga de sua testa.
— E desde quando aceitei negociar? Nunca tinha te visto na minha
vida. — Levanto as sobrancelhas.
— Aparentemente, você só tem tamanho. Saber raciocinar não é o
seu forte, não é? O que você conquistou, vários tentaram possuir.
Muitos tentaram encontrar aquela ilha perdida no meio do oceano e
poucos conheciam as informações dela. Era quase impossível
encontrá-la. E os que tiveram coragem de ir, não voltaram. Você
sobreviveu e conseguiu capturar o que muitos cobiçavam: a mulher.
Pode me matar se quiser, seu bastardo, mas outros irão atrás do
que você já descartou. Fiquei surpreso ao saber que devolveu o
tesouro ao seu lugar original. O que tem de altura, também tem de
estupidez. — Tenta rir, mesmo com dor.
O homem que o segura, quebra seu braço.
Meu sangue ferve, pego o anão pela garganta e o levanto facilmente
até ele chegar ao auge da minha visão.
— Diga-me como deseja morrer, anão. Se não me disser o que
quero saber, serei eu quem vou escolher. Seu tempo acabou. Diga!
Para quem vocês trabalham? — gritei.
Ele se treme todo.
Estou pior do que antes de conhecer Geny. Frustração, raiva, ódio e
desejo reprimido se misturaram para que eu me tornasse essa coisa
que Charles encara com terror. Rosno e aperto sua traqueia com
mais força. Posso, facilmente, acabar com sua vida com uma única
mão.
— Eles... — Tenta dizer algo quando já está ficando roxo.
Deixo-o respirar.
— Se você não a quis, outros irão querer. Tem mais gente que já
conhece a localização da ilha. É só questão de tempo para
conseguirem chegar lá. Eu apenas te dou um aviso: existem
pessoas muito piores do que nós dois, Ivanok. Se eu fosse você...
— Não o deixo terminar seu discurso de merda, socando seu rosto.
Estou descontando nele tudo que não pude descontar em Frost e na
cadela que se atreveu a me desafiar. Ela seria um presente meu
para Geny e eu iria assistir à sua morte de camarote. Uma pena.
Quando paro de socar seu rosto, não é mais possível ver nada além
de uma massa de carne e sangue. Sua face está abatida e ele ainda
luta para respirar. Dou um último tiro em sua cabeça, e acabou.
Tudo pega fogo quando eu volto para os SUVs, que estão longe.
Richard sai correndo do carro, vindo em minha direção. Sua
expressão tensa faz meu coração acelerar.
— O que está errado? — perguntei assustado.
— A ilha que você nos mandou proteger foi invadida por forças mais
poderosas que as nossas. Alguns de nossos homens morreram.
Eles chegaram destruindo tudo durante o dia, queimaram florestas e
tudo mais. Temos quase certeza de que estavam atrás do pessoal
de Geny.
— E ela? Ela e sua filha estão bem?
— Sinto muito, Drake. Ainda estamos procurando-a. Ela não foi
encontrada na aldeia. Presumi que você quisesse ir lá
pessoalmente.
— Vamos, então.
Meu coração está disparado como se eu fosse morrer, como se
muita adrenalina tivesse sido injetada em meu sangue. Corro até o
carro.
Eu estava errado quando a tirei de perto de mim, quando a deixei
sozinha. Vou enlouquecer se ela estiver morta. Aperto os olhos com
força enquanto Richard dirige em alta velocidade para o aeroporto.
CAPÍTULO 24
Geny
Sinto a brisa fresca do mar calmo roçar em minha pele. É de manhã,
está sol e a água está cristalina, translúcida. É possível ver até
mesmo os peixes. Greedy e Kalel brincam na parte tranquila da
praia, onde não há ondas. Passei seis meses de mais uma gravidez
sozinha. Tive dois lindos meninos que se desenvolvem rapidamente.
Eles estão quase aprendendo a andar.
Callie não quis vir comigo hoje. Eu a chamei para nadar com os
irmãos, mas ela preferiu ficar em casa e ajudar Silas com a colheita,
além de acabar com as amoras que tanto gosta. Ainda está se
acostumando a me compartilhar com seus irmãos. Depois que os
meninos nasceram, procuro sempre prestar o máximo de atenção
nela. Em breve, conforme o prometido, deixaremos o clã para
sempre, e terei que sobreviver sozinha com meus filhos. Isso me
deixa deprimida, porém não tenho para onde correr.
Kalel agarra Greedy na água e ambos dão risadas contagiantes.
Eles são muito próximos, e isso me traz alívio. Kalel é maior e mais
forte que o irmão desde que nasceram, mas um não se separa do
outro.
Sorrio quando vejo Greedy agarrar a minha perna, como não gosta
muito de águas profundas. Já seu gêmeo mergulha e passa entre
minhas pernas, puxando a do seu irmão.
— Vocês dois são terríveis. — Sorrio de novo para eles.
Greedy grita de susto e ri ao mesmo tempo, tentando alcançar Kalel,
que foge para as águas mais profundas. Greedy permanece perto
de mim e meu outro filho lhe mostra a língua.
Eu decido dar um mergulho e os dois me seguem, como sempre
fazem quando veem que estão sozinhos.
Queria que Drake visse como são seus filhos. Greedy é quem mais
se parece com ele: cabelos castanho-escuros que alcançam seus
ombros, ondulados, e olhos negros como uma Ônix. Já Kalel tem
cabelos negros e olhos tão azuis quanto os meus.
Mergulho com eles e, de repente, ouço um estrondo alto no topo da
colina, perto do vilarejo. Eu olho para cima, avistando fumaça, e
meu coração dispara. Também ouço sons ensurdecedores e vozes
de pessoas gritando.
— Callie! — Arrasto-me para fora da água desesperadamente.
— Venham, meninos! Vamos! Corram! — Pego no braço de cada
um para sairmos.
Isso não é normal. Essas coisas nunca aconteceram em nosso clã.
Tem algo errado.
Mais uma vez escuto um grande estrondo, e meu desespero
aumenta. Eu corro pela praia e os meninos fazem o possível para
me acompanhar. Meu sangue gela assim que olho para trás e vejo
barcos se aproximando da costa.
— Eu preciso esconder vocês. Vamos lá! Corra o mais rápido que
conseguir! — Pego Greedy no colo, por ele ser menor, e Kalel
segura minha mão.
Nós corremos pela floresta e eu faço o possível para não tropeçar
em nada.
Greedy se assusta, começa a chorar e eu sinto o meu coração
disparado. Preciso encontrar Callie. Eu não deveria tê-la deixado.
Por favor! Corro mais e passo perto de um buraco dentro de uma
árvore oca. Um tronco de madeira esconde o suficiente o lugar. É
perfeito.
— Ouçam: preciso que vocês dois fiquem aqui. Tudo bem? É
perigoso cá fora. Preciso que entrem e fiquem aí até eu voltar. Vou
buscar Callie e não posso levar vocês. Fiquem aí! Entenderam?
Eles olham para mim com medo, acenam com a cabeça e entram
no tronco da árvore. Greedy abraça o irmão.
Afasto-me deles com grande tristeza, fitando seus olhinhos. Kalel
está assustado, mas tenta, de todas as formas, confortar Greedy,
que chora baixinho, olhando para mim. Eu os olho e saio correndo.
Por favor, deuses, protejam os meus filhos.
Corro o mais rápido que posso e, quando chego onde queria, fico
cara a cara com uma grande parte da aldeia em chamas. Casas
queimam e há vários mortos queimando. Não sei o que aconteceu,
mas vou direto para a casa de Silas. Homens do mundo de Drake
estão no centro da vila com algumas pessoas sob seu poder. Eu
não posso ajudar. Minha prioridade é minha filha.
Quando chego a casa, não vejo ninguém. Ninguém está no local.
Meu medo só aumenta.
— Callie! — gritei em um tom contido, com medo de que me
encontrassem.
Vejo Kevrel atrás da cabana, com o amuleto na mão, começando a
abrir um portal. Fazemos isso apenas em casos de emergência. A
pedra em sua mão brilha, e o homem parece lutar para a manter
aberta enquanto as pessoas passam por ele desesperadamente.
Herdamos essa habilidade de nossos ancestrais.
Corro para encontrar Callie, ouvindo tiros e vendo pessoas
morrerem em minha frente. Rapidamente recuo para dentro da
casa. Homens vestidos com roupas estranhas acabam matando o
resto das pessoas e o portal se fecha. Não sinto mais a energia vital
da minha filha neste mundo. Certamente, Silas a levou consigo.
Perdi minha menina.
Agora preciso voltar para os meninos. Corro de volta para a floresta
e dou o meu melhor para não me verem. É quando sinto o meu
corpo ser atingido. Perco as forças e caio no chão, machucando-me
entre galhos soltos e espinhos. Não consigo me mexer, nem mover
as pernas. O cansaço me atinge, contudo não posso parar agora.
Meus garotos necessitam de mim.
Eu tento me levantar, porém minha visão começa a escurecer. Não
quero morrer agora, preciso protegê-los. Meu corpo pesa mais do
que posso suportar até que eu não veja mais nada.
Drake Ivanok
Chego à ilha ao anoitecer, sabendo que já é tarde demais. Eu não
pilotei a porra do avião. Tudo que quero é sair dessa merda e
encontrar Geny, nem que eu precise passar um mês vasculhando
esse lugar, pedra por pedra, para isso.
A aeronave mal toca o solo e eu já abro a porta e pulo para fora,
correndo até os homens que estão nas bases improvisadas.
— Quero saber onde está a mulher. Alguém a encontrou? —
perguntei ao chegar perto de um dos soldados.
Um homem de cabelos grisalhos, da mesma altura que eu, encara-
me com uma AK-50 na mão.
— Ivanok. — cumprimentou-me. — A mulher foi encontrada
inconsciente perto de sua aldeia. Ela levou um tiro nas costas e eles
a deixaram para morrer. Atacaram grande parte da ilha. Nós não
conseguimos contê-los e alguns soldados morreram. Também
queimaram todas as casas e mataram vários dos nativos. Não
entendemos muito bem o que eles queriam, mas os vimos fazendo
alguns reféns e tentamos segui-los até o mar. Eles possuíam navios
e aviões.
— Qual era o símbolo? Você viu algum?
— Não, não vimos nenhum. Nada que pudesse ser visualizado.
Perdemos a pista deles em uma tempestade, a alguns quilômetros
de distância.
— Entendido. — Respiro fundo, decepcionado. — Quero saber onde
está a mulher agora.
— Senhor Ivanok. — outro homem, de estatura menor, falou. — Ela
tinha um bebê que foi encontrado vivo junto dela. Ele não parava de
chorar.
— Deve ser filha dela: Callie.
— Era um menino que parecia ter alguns meses. Vou te levar até
ela.
Arregalo os olhos, deixando a informação entrar. Geny encontrou
alguém e teve outro filho?
Sigo o homem, entro em um lugar improvisado, tipo uma área
médica, e sigo pelo corredor para chegar ao quarto de Geny. Assim
que me aproximo dela, vejo vários cortes em seu corpo. Seu cabelo
está espalhado pelo travesseiro e um médico está terminando de
examiná-la.
— Senhor Ivanok.
— Olá.
— A mulher foi atingida por uma bala perto da coluna. Nós a
encontramos algumas horas depois, quando ela já havia perdido um
pouco de sangue. Mas o curioso é que seu ferimento parecia estar
cicatrizando por conta própria.
Olho para o homem, surpreso com a informação.
— Também estamos surpresos. Ela está tomando analgésicos
agora e vai acordar em algumas horas, ou antes talvez.
Na pequena cama ao lado dela, encontro um bebê dormindo. Meu
coração dispara de ansiedade e medo.
— Quanto à criança, ela estava bem. Por algum milagre, nós o
encontramos deitado, chorando, perto dela. Ele estava muito
nervoso e não nos deixava nos aproximar da mulher, então o
colocamos para dormir, para que se acalmasse. Logo ele vai
acordar também.
— Obrigado, doutor.
Chego perto do garoto que tem uma aparência familiar. Seu cabelo
castanho atinge os ombros. Pelo menos parece um pouco com ela.
Coloco as mãos nos bolsos e sinto minha garganta fechar com a
decepção. Ela foi em frente e teve outro filho. Mas, e quanto à
Callie? Meu peito se aperta, pensando que a menina pode estar
morta. Ela nunca saiu do lado da mãe.
— Drake? — Assusto-me com a voz suave de Geny. Eu a encaro e
ela me olha angustiada. — Isso é você?
— Geny, como está?
Ela olha em volta e sua expressão apavorada retorna, preocupando-
me.
— Meus bebês? Onde estão? Eu ia protegê-los, mas não pude.
Deixei nossos filhos sozinhos e falhei. — disse desesperada.
Meu peito se rasga. Eu deveria ter ficado com ela. Eu sofri sem ela.
Espere aí! Nossos filhos? Devo ter entendido mal.
— Ei, amor. Está tudo bem. Eu estou aqui agora. Foi tudo minha
culpa. Eu nunca deveria ter deixado você voltar para cá. Queria
tanto te ver feliz, segura, e olhe o que eu fiz.
Ela me olha.
— Eu entendi sua posição, porém, assim que cheguei aqui, fui
banida do meu clã. — Seus olhos se enchem de lágrimas. — Eles
descobriram que eu estava grávida. O que foi considerado traição.
Eu queria tanto voltar para a minha antiga vida, que não pensei
direito. Também não sabia que estava carregando os bebês.
Eu sinto todo o sangue do meu corpo virar gelo.
— Você voltou grávida? — O pânico parece querer me dominar para
sempre.
Ela acena com a cabeça, confirmando, fitando os meus olhos. Não
tenho reação.
— Eu sou o pai do menino que está dormindo agora? Sério? —
perguntei, em choque.
— Greedy e Kalel são seus filhos. Eles nasceram seis meses depois
que eu voltei.
Eu fico em silêncio e ela olha em volta.
— Preciso me levantar. Eu disse para eles ficarem escondidos na
floresta enquanto eu procurasse por Callie. Tenho que os encontrar.
— Ela tenta se levantar e eu a contenho.
— Espere, meu anjo. Onde está Callie?
— Ela foi levada; não está mais neste mundo. Meu povo abriu um
portal para escapar. Eu não a sinto mais e não consegui achá-la.
Preciso me levantar e ir atrás deles antes que eu os perca também.
— Portal? — Precisarei do meu terapeuta assim que retornar para
casa.
— Meu povo tem a capacidade de abrir portais para outros mundos.
Vou explicar mais tarde. — Tenta se levantar de novo.
— Você foi encontrada na floresta com o nosso filho ao seu lado,
Geny. Ele está aqui, com você, e está dormindo. — Mostro-lhe o
bebê dormindo no berço improvisado.
— Greedy. — chamou o nome que eu já tinha ouvido em algum
lugar. — Ele está machucado?
— Não, amor. Apenas dormindo.
— Ele é o que mais parece com você. Agora... Kalel? — Arregala os
olhos novamente. — Onde ele está, Drake? São dois. Eles
nasceram juntos. Onde está o meu bebê?
Tento não entrar em pânico junto com ela. Queria ter estado ao seu
lado quando teve nossos filhos.
— Sinto muito, amor. Eles não encontraram nem um outro bebê.
— Não! Por favor! — Minha Geny coloca as mãos na boca e
explode em lágrimas.
Não aguento mais vê-la sofrer.
— Me perdoe por ter feito isso com a nossa família, amor. — Minha
alma está quebrada.
Eu tinha uma família e saí acreditando que era mais seguro para ela
aqui. Se nunca mereci ser feliz, por que achei que seria digno?
— Eu prometo, meu anjo, que não vou parar até encontrá-lo.
Prometo. — sussurrei.
— Ele está vivo, Drake. Não sei em que lugar deste mundo está,
mas ainda vive.
— Como você sabe?
— Posso sentir a energia vital deles. Kalel ainda está vivo.
Meu Deus! Estou me sentindo naqueles filmes de ficção, em que as
pessoas descobrem algo novo a cada minuto.
— Vamos encontrá-lo, ok? Estou aqui e nunca mais vou te deixar.
Descanse mais, para podermos ir para casa.
Ela me agarra com força, abraça-me e volta a dormir alguns minutos
depois.
Kalel e Greedy. Saber que sou pai é uma mistura de todas as
emoções e um grande choque. Ainda não consigo acreditar que o
bebê dormindo ao lado de Geny é meu filho. Ele é pequeno e suas
bochechas são cheias e redondas. Parecem as da mãe. Já o seu
cabelo é ondulado até os ombros. Ele é perfeito. Ele é meu. Greedy!
Estendo a mão e me permito tocar em seus fios sedosos enquanto
suas mãozinhas repousam ao lado de sua cabeça. Ele aparenta ter
apenas alguns meses de vida, talvez 9. Geny diz que eles nasceram
em apenas 6 meses. Deve ser por causa do período de gestação
dela, que foi inacreditável, assim como o resto.
— Prazer em conhecer você, Greedy. — Não vou descansar até ter
certeza de que eles estão seguros. — Papai está aqui agora, filho.
Não vou deixar mais nada de ruim te acontecer e vou mover o
mundo inteiro para encontrar o seu irmão.
Não sei o que aconteceu com Callie, mas agora tudo que tenho que
fazer é procurar por Kalel. Não posso decepcionar minha mulher
novamente. Preciso achá-lo.
EPÍLOGO
Drake Ivanok
Um mês depois
Acordo assustado e noto que ainda é madrugada. Observo o quarto
escuro, com apenas a luz da lua se infiltrando no ambiente através
das cortinas escuras. Tudo está silencioso, e somente o ruído baixo
do aquecedor preenche o cômodo. Sinto minha respiração pesada e
sei que estava tendo outro pesadelo. Mas, para a minha sorte, não
me lembro dele. Sinto só uma sensação de terror e desespero.
Olho para o lado e encontro minha Geny dormindo pacificamente.
Perto da nossa cama está o berço onde nosso filho dorme.
Corro as mãos sobre meu rosto, respiro fundo para me acalmar,
levanto-me e caminho até o berço de madeira. Sempre procuro
verificar, pelo menos uma vez na noite, se minha família dorme bem.
Também peço a Deus para me dar forças para defender o que é
meu.
Vejo os traços de Geny em seu rostinho, porém seus cabelos e
olhos são meus. Ela me contou que Kalel é mais parecido comigo
em traços, com os cabelos e olhos azuis dela. Isso me enche de
orgulho. As pequenas presas estranhas, como as da mãe, estão
começando a aparecer nele, então comecei a chamá-lo de filhote de
vampiro. Geny fica brava com isso e briga comigo, porém gosto de
provocá-la. Meu menino é forte e mais desenvolvido para a idade
dele do que qualquer outra criança. De acordo com a minha mulher,
nossos filhos têm apenas quatro meses de vida, porém o dobro do
desenvolvimento de bebês humanos.
Greedy já está tentando dar os primeiros passos. E quanto ao Kalel,
pelo que eu soube, ele era mais esperto e mais forte que seu irmão.
Isso me deixa extasiado de orgulho e triste ao mesmo tempo.
O pequeno se remexe no berço e respira fundo, virando a cabeça
para o outro lado. Se eles são fortes, como a mãe deles diz, preciso
ter esperança de que meu Kalel vai sobreviver, seja onde estiver.
Passo as mãos no rosto de Greedy, preocupado. Meu outro menino
tem a mesma idade que ele e está em perigo, enquanto eu estou
aqui. Durante as noites, eu não durmo bem, apenas quando bate a
necessidade, e a preocupação às vezes quase me oprime.
Saio do quarto, tentando esfriar a mente, e atravesso a sala de
estar, indo para o meu escritório. Estou ficando louco gradualmente.
Minha mesa está cheia de papéis novamente, pois estou caçando o
meu filho por todo o mundo, por onde tenho contatos. O que mais
me dói é saber que ele ainda está vivo e que alguém vem fazendo
um monte de coisas inimagináveis com ele. Não sei como explicar
para a minha Geny que se um dia tivermos a sorte de encontrar
Kalel, ele não será mentalmente saudável. Isso se ainda estiver
vivo. Ele estará. Precisa sobreviver. A saúde mental dela anda por
um fio também, pois perdeu dois filhos no mesmo dia. Também sinto
falta da nossa Callie.
Minha mulher tenta ser forte porque, graças a Deus, sobrou Greedy
para a distrair. Irei fazer todo o possível para a minha família não
desmoronar, começando por treinar Greedy assim que ele estiver
com porte físico o suficiente para isso. O que vai ser em breve, já
que ele cresce mais rápido que um ser humano comum. Vou treiná-
lo para me ajudar a achar seu irmão, pois, pelo visto, a busca por
ele não será fácil e não irá acabar tão cedo.
Richard está viajando, a meu serviço, procurando por qualquer coisa
que possa conseguir como informação.
Eu me isolei em uma casa menor após vender a propriedade que
tinha perto do mar. O novo imóvel tem apenas três quartos e nada é
de luxo, como costumava ser. Meu dinheiro está sendo investido
nas buscas pelo meu filho.
A segurança daqui é quase impenetrável. Minha paranoia pela
segurança de Geny e Greedy só me deixa mais em alerta. O medo
é algo que habita em minha vida agora.
Paro de olhar pela janela. O frio é intenso enquanto a neve cai. Há
luzes acesas do lado de fora, onde alguns homens patrulham em
seus turnos.
— Drake?
Escuto a voz suave de Geny e me viro apenas para a testemunhar
com sua camisola de seda e nosso bebê em seu colo, acordado. Ele
é calmo na maior parte do tempo, portanto nem parece ser filho
dela. Deve ter puxado a alguém da minha família ou a mim. Ao lado
da mãe, ele parece uma criança de um ano. É muito grande em
seus braços.
Rapidamente, aproximo-me deles e pego meu garoto. Ele está com
o cheiro dela.
— O que está fazendo acordado, amor? Outro pesadelo?
Desde que saímos daquela ilha para sempre e voltamos para casa,
tenho sonhado muito. Meus inimigos e meu filho perdido fazem
parte disso. Ainda não sei como não enlouqueci.
— Sim. Sempre acordo pensando que alguém tirou vocês dois de
mim. — Puxo-a para mais perto do meu corpo.
Ela respira fundo. Essa situação nos cansa mentalmente. É
cansativo saber que estamos perseguindo uma agulha em um
palheiro.
— Você está progredindo nas buscas?
— Sim, amor.
Geny aprendeu muito sobre minha vida e, estranhamente, isso não
me incomoda agora. Ela geralmente não exige nada de mim, pois vê
meu esforço.
— Por que não está na cama? — Mudei de assunto.
— Nosso filho acordou assim que você saiu do quarto e eu acordei
depois que te senti se levantar. Tenho o sono leve. Amamos estar
perto de você também. — Sorri.
Não sei o que fiz para receber um presente tão precioso assim.
Como amo o oceano azul dentro dos seus olhos. Sorrio por saber o
quanto eles precisam de mim e me sinto mais protetor.
— Não vou deixar nenhum mal acontecer com vocês, Geny, nunca
mais.
— Você não poderá estar sempre por perto, Drake. Eu sei que tem
suas obrigações. Vamos fazer isso juntos.
— Não irei sair do seu lado até que Greedy saiba como se defender.
É minha família que estou protegendo. — falei em um tom firme.
Porra! Não vou a lugar nenhum, para não ficar longe deles, até que
estejam mais fortes.
Beijo seus lábios e ouço o nosso bebê fazer pequenos sons com a
boca, observando-nos.
Saio do escritório e volto para o quarto com os dois. Consigo relaxar
um pouco, sentindo Geny dormir em meus braços, com Greedy nos
braços dela. Ele acaba dormindo enquanto mama. Uma coisa que
me chama a atenção é o fato de o pequeno mamar muito. É viciado
em peitos, igual ao papai.
***
Ao amanhecer, observo o jardim da casa coberto de neve e Geny
brincando nela com Greedy. É a primeira vez que ele vê nevando e
não para de sorrir nos braços da mãe. Ainda sinto aquela emoção
forte, por saber que sou pai.
Sorrio, vendo a criança estender a mão para tocar nos flocos de
neve que caem.
— Drake. — Richard entra no escritório. — Trago boas e más
notícias.
— Olá, Richard. Diga-me. — Viro-me para ele e me sento em minha
cadeira.
— Encontramos o nome da empresa que participou do ataque.
Olhamos mais a fundo. É uma organização privada que possui um
dos maiores sistemas de segurança do mundo e, definitivamente, é
onde estão os reféns. Mas é impenetrável e possui 30 quilômetros
de território. Você já estará morto ou capturado se não estiver
autorizado a entrar. Sinto muito, Drake.
— Não sinta. Meu filho está lá, e sempre há maneiras diferentes de
se resolver um problema. Quero que capturem quem comandou o
ataque e quero que até os funcionários sejam interrogados. Quando
fizerem isso, me avisem. Desejo estar presente.
— Entendido. Você vai contar à Geny?
— Em breve. Agora temos que nos preparar. Nosso inimigo tem
mais recursos que nós e temos muito trabalho a fazer. Obrigado
pelas informações. Continue me mantendo informado de qualquer
mudança.
— Sim, senhor. — Vai embora.
O meu medo aumenta. Não tenho ideia de por onde começar, mas
por Geny e pelo seu sorriso irei até o inferno matar demônios.
Saio da sala, indo em direção ao jardim coberto de neve, chego
perto da minha família e pego meu filho nos braços. Ele gargalha
quando o levanto para o alto. Sinto minha mulher encostar a cabeça
em meu peito. Por eles, vale qualquer sacrifício. É minha família.
Vale a pena morrer por eles.
Coloco Greedy nos braços e me viro para a minha morena, que sorri
para nós.
— Eu amo vocês. — Beijo-a.
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