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EYRA

(Cativas do Berserker 05)

Margotte Channing
Sinopse

Ano 1115

Eyra, filha de um velho chefe viking, vive feliz em suas


terras, até que os selvagens desembarcam nelas, destruindo
seu mundo, e ela é capturada sendo levanda para o outro lado
do oceano. A partir desse momento, cresce dentro dela um ódio
mortal por Ragnar, o demônio de olhos azuis e vermelhos que
os dirige. Ragnar fica chocado desde que conhece aquela garota
loira, que o confronta e luta com ele a cada momento. O
berserker que vive nele, reconhece-a como sua, e precisamente
por causa disso, toda vez que ela o rejeita, ele perde o controle.
Porque ela é ela e ele, ela é tudo, e se ela não se juntar a ele,
sabe que perderá sua sanidade e sua vida. Os dois lutarão sem
descanso, até perceberem que seu destino está escrito há
séculos e que nada podem fazer para se opor a ele.
Capítulo I

Tinganes, Ilhas Feroe, Ano 1115.

A mulher montava inclinada sobre o pescoço da égua,


fazendo com que galopasse mais depressa, até que viu o mar,
então, ergueu-se e lançou um grito de alegria. Quando as patas
de Maia, sua égua, tocaram a areia, fê-la frear, e se lançou ao
solo despindo-se enquanto descia. Depois de tirar a roupa,
correu e atirou-se no mar gelado, onde nadou com todas as
suas forças, afastando-se rapidamente da praia. Não deixou de
bracejar até que ficou esgotada, e se deitou de barriga para
cima na água deixando-se levar pelas ondas; assim se manteve
alguns minutos. Quando começou a tremer, voltou
rapidamente à borda, porque o mar estava muito revolto, e se
continuasse se afastando, não poderia voltar.
Maia a esperava pacientemente, seu pai a presenteara
quando as duas eram muito jovens, por isso haviam crescido
juntas, e se entendiam perfeitamente. Quando chegou junto a
ela, abraçou-a e lhe deu um beijo no focinho, que Maia recebeu
com um suave relincho. Ela se vestiu e voltou seu olhar
sorridente para o enorme e escuro oceano, pelo qual sempre
sentira uma grande atração, algo incompreensível para seu pai.
Já de volta, deixou a égua nos estábulos, depois de
escová-la e lhe dar de comer, entrou na casa e foi diretamente
ao salão. Já estavam tomando o café da manhã, por isso se
aproximou sorrindo para dar um beijo em seu pai e depois se
sentou a seu lado. O famoso conde Sigmundur Brestisson,
sorriu meigamente para sua filha, mas observou o olhar
depreciativo que sua última concubina lhe dirigia.
— De onde você vem Eyra, minha filha? Vejo que tem o
cabelo úmido. — Ela olhou com carinho o cabelo branco e os
olhos azuis de seu pai.
— Fui nadar no mar.
— Já lhe disse Sigmundur! Ela é uma selvagem! — Eyra
nem sequer a olhou, já estava acostumada a seus insultos, e
descobrira já fazia muito tempo que era melhor não lhe dar
atenção. Então começou a comer do prato que uma escrava
havia lhe trazido, enquanto esperava a resposta de seu pai.
— Adair, você sabe que eu não gosto que fale assim de
minha filha. — O ancião se voltou à jovem mulher, com o
cenho franzido, não eram muitas as coisas que conseguiam
fazê-lo perder a paciência, e uma delas era que alguém tratasse
mal a sua adorada filha. Entretanto, Adair insistia em fazê-lo,
de fato, ao escutá-lo, ergueu o queixo e respondeu com rancor.
— Ela deveria estar casada e longe daqui! Eu vim para ser
a senhora desta casa, e não ela! Até que se vá, os escravos e
todos os que vivem na ilha, não me reconhecerão como ama! —
Ela terminou a frase sussurrando-a, para que os serviçais não
a escutassem, — deveria casá-la, Sigmundur. Afinal, vários
homens, inclusive um rico, pediram que a entregasse em
matrimônio, embora eu não entenda por que alguém gostaria
de se casar com ela.
— Não entende porque sua inveja por ela é tão grande,
que não quer aceitar que Eyra é a mulher mais bela de toda a
ilha, e provavelmente de todo o reino. — Ele suspirou sabendo
que, com aquela resposta, teria mais problemas com Adair.
Eyra, magoada, abaixou a cabeça e parou de comer. Em
momentos como esse, quando via o quanto aquela situação
estava sendo difícil para seu pai, lamentava tê-lo convencido
que lhe permitisse escolher seu futuro marido. Motivo pelo qual
ainda não se casara.
— Papai, vou à horta. — Seu pai assentiu com o olhar
triste, sua vida era um inferno desde que aceitara Adair como
concubina, e não via nenhuma possibilidade de anular o
vínculo, já que ela era prima do rei. O mesmo monarca a
apresentara como uma viúva ainda jovem e bela, alguns meses
antes, e lhe influenciara para que se produzisse a união.
Sigmundur, pensando em sua filha mais do que em si mesmo,
decidiu aceitar, sem imaginar que se odiariam desde que se
viram.
Eyra se aproximou da horta, se ela não estivesse
cavalgando, estaria ali, ou cozinhando, qualquer coisa com a
intenção de não ficar parada, porque odiava não fazer nada.
Sua mãe, morta cinco anos antes, ensinara-lhe a conhecer e
cuidar das plantas medicinais, as quais possuíam em grande
número na horta. Ela mesma cuidava, e quando não lhe era
possível pelos compromissos da casa, algum dos escravos se
encarregava. Mas nesse dia agarrou o enxadão e começou a
revolver várias camadas de terra, para plantar algumas
sementes que ela guardara do ano anterior. Agora lhe pareceu
um bom momento para usá-las.
Quando terminou seu trabalho, várias horas depois,
Amira, uma escrava que completara a sua mesma idade,
dezessete anos, aproximou-se dela.
— Eyra, já é hora de comer, seu pai pergunta por você, —
ela se esticou limpando o suor e segurando as costas, pois elas
ardiam devido a estar tanto tempo inclinada. Olhou para Amira
e sorriu.
— Obrigada Amira. — Deixou o balde de água com o qual
havia regado às sementes, e o enxadão, tirou o sobrevestido
que usava para não se sujar de terra, enquanto entrava na
casa.
Seu pai estava sozinho à mesa principal, e ela se sentou à
sua direita, em seu lugar habitual.
— Onde está Adair? — Ele sorriu fazendo com que ao
redor de seus olhos se formassem muitas rugas, de repente
aparentou sua idade, e era um homem muito velho. A mãe de
Eyra fora sua terceira esposa, e segundo suas palavras, a única
que ele havia amado, e também quem lhe dera a sua única
filha, Eyra. Desgraçadamente havia morrido cinco anos atrás
tentando parir seu segundo filho.
— Ao que parece não se sente muito bem, mandou dizer
que comeria em seus aposentos, mas tentaremos suportar sua
ausência, concorda? — Sorriu malicioso ao olhar sua filha, que
também sorriu divertida. — Quanto você se parece com sua
mãe, Eyra! — Ela sentiu que seu peito inflava de orgulho,
porque sua mãe havia sido uma mulher muito boa e também
muito bela. Ultimamente até se penteava como ela, com duas
longas tranças.
— Mamãe era muito mais bela do que eu, — ela
sussurrou.
— Não acredita minha filha? Ela era muito bela, mas seus
olhos transmitem um espírito do qual ela carecia. Se você fosse
um menino seria o melhor guerreiro de meu exército, mas
sendo uma garota… — ele encolheu os ombros.
— Já sei, quem dera eu tivesse sido um menino! — Seu
pai sorriu ao escutá-la
— Não, sendo uma garota, pobre do homem que se
apaixone por você! Embora, por outro lado, ele também será
muito afortunado. — Ela gargalhou ao escutá-lo.
— Pai! Às vezes você fala sem sentido, — ele observou sua
risada tranquilamente, desejando que os deuses lhe
concedessem viver para ver quando ela se uniria ao homem
adequado, aquele que soubesse apreciar toda sua valia.
— Senhor, senhor! — Horik, um dos soldados que
vigiavam a parte do escarpado, corria para eles com o rosto
assustado. Seu pai se levantou, igual a ela ao vê-lo, e esperou
que ele falasse.
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— O vigia viu dois drakkar que se dirigem para cá! — O
ancião respondeu com notável tranquilidade,
— Quanto tempo falta para chegarem?
— Poucos minutos, mais o que demorarem por terra, para
chegar da praia, quando muito uma hora. — Seu pai assentiu e
levantou a mão para que o homem parasse de falar.
— Espere um momento, — voltou-se para sua filha. —
Minha filha, pegue às mulheres, todas, e as leve ao porão, já
sabe o que deve fazer. Baixem água e mantimentos, eu vou
falar com os soldados, quando estiverem todas lá embaixo,
volte aqui. Quero falar com você antes que fechem a tranca por
dentro. — Eyra assentiu e saiu correndo.
Limpou com um tapa um par de lágrimas impróprias dela,
que ameaçavam cair de seus olhos, e correu à cozinha, onde
falou com Amira e lhe pediu que reunisse às escravas, depois
foi a procura de Adair que estava deitada em seus aposentos,
como quase sempre. Ela ficou histérica quando lhe foi dito que
fosse com ela porque estavam sofrendo um ataque, e começou
a gritar, até o ponto de que precisou lhe dar uma bofetada para
que se calasse.
— Cale-se Adair! Vamos nos esconder, faz anos que meu
pai mandou escavar uma caverna sob a casa, se por acaso
ocorresse isto. A única coisa que precisamos fazer é ficarmos
caladas, entende? — A mulher assentiu enquanto as lágrimas
corriam por suas bochechas.
Desceu às mulheres ao esconderijo, como pedira seu pai, e
lhes disse que não se movessem, porque voltaria em seguida.
Então correu para buscá-lo, mas o salão estava vazio. Saiu, e
seu coração se encolheu de dor, ao ver o que estava
acontecendo em seu lar, os soldados corriam de um lugar para
outro levando armas, e seu pai, apesar de sua velhice, voltava a
empunhar sua velha espada e seu escudo. Correu para ele,
porque seu pai não poderia lutar contra um inimigo jovem e
forte.
— Pai! — Ele a olhou desconsertado por um momento, até
que se lembrou do que lhe havia ordenado.
— Minha filha! Escute, — fê-la entrar na casa, embora ele
não transpassasse a soleira, — não devem sair aconteça o que
acontecer, em caso de que tudo se solucione, eu mesmo irei
procurá-la, a não ser… — ficou olhando sua jovem e bela filha,
quase certo de que não voltariam a se ver, — a não ser, —
continuou: — quero que saiba que serei feliz me reunindo com
sua mãe. E que estou muito orgulhoso de você, nunca lamentei
que não fosse um menino, embora você acreditasse o contrário,
— Pai. — Desta vez não conseguiu evitar que um punhado
de lágrimas ardentes e que queimavam em sua garganta como
o ácido, saíssem de seus olhos e percorressem suas bochechas,
— por favor, permita que eu fique aqui e lhe ajude, sou boa
com o arco, tenho certeza que …
— Cale-se Eyra! — Ele sorriu com tristeza ao ver como ela
chorava. — Irei tranquilo sabendo que você está a salvo, não
compreende? — Ela negou com a cabeça, não podia deixá-lo só,
mas um soldado os interrompeu.
— Senhor! Estão chegando! — Seu pai assentiu ao
soldado, e abraçou sua filha.
— Amo você minha filha, que os deuses a protejam. — Ela
se abraçou ao pescoço de seu pai, inspirando fortemente para
guardar seu aroma dentro de si, e o beijou,
— E eu a você pai, — os braços dele a acolheram com
ternura pela última vez, e depois a enviou com um ligeiro
empurrão, na direção correta.
Ela correu à caverna e se meteu lá dentro descendo com
dificuldade as estreitas escadas, depois, fechou a tranca com
cuidado, limpando antes, o chão de terra para que não vissem
seus rastros ao redor da tampa. O resto das mulheres, que
estavam no fundo da caverna, falavam entre elas quase a
gritos, Eyra se aproximou para dizer em voz baixa,
— Calem-se, eles já estão aqui! Se nos ouvirem estaremos
perdidas, — abraçou a si mesma apoiando-se na parede,
enquanto tremia na escuridão pensando em seu velho pai.
Durante alguns minutos lhe pareceu que tudo havia sido
um engano até que, de repente, escutaram o ruído da luta, e os
gritos dos homens que caíam fulminados, sob o ataque
indiscriminado das tochas e as espadas. A luta durou bastante
tempo, as mulheres que estavam sentadas no chão de terra se
abraçavam umas às outras tentando transmitir forças, menos
Eyra que se mantinha em pé observando a tampa, através da
qual penetrava um faixo de luz, pequeno, mas suficiente para
poder vislumbrar algo entre as sombras.
Depois que cessou o ruído da luta, Eyra estremeceu ao
saber o que isso queria dizer. Seu pai e os poucos soldados se
sobrevivessem, não estavam acostumados a lutar, e os que
vieram invadir sua terra, certamente sim. Adair começou a
gemer com voz crescente, a escrava que estava ao seu lado
tentou fazê-la se calar, mas ela não dava atenção. Eyra se
aproximou dela e lhe disse:
— Adair, precisa se acalmar ou vão nos descobrir, — mas
a mulher estava morta de medo, e parecia incapaz de obedecer.
Eyra, agarrando-a pelos braços, sacudiu-a ligeiramente e
voltou a sussurrar. — Adair, está colocando nossas vidas em
perigo, — então, a mulher a olhou com olhos esbugalhados e
gritou:
— Preciso sair daqui! Estou sufocando, não consigo
respirar! — saiu correndo à tampa, e começou a dar golpes na
madeira. Todas tentaram segurá-la, mas ela começou a dar
chutes, enquanto continuava golpeando a tampa com as mãos.
Finalmente ela conseguiu o que procurava, e a tampa foi aberta
do outro lado.
Um homem loiro, com barba e cabelos muito longos,
gritou, ao vê-las.
— Encontrei às mulheres! — Agarrou Adair e a arrastou
para fora enquanto ela esperneava contra ele, e tentava lhe dar
murros. Vários homens entraram em seguida e as agarraram
arrastando-as à saída. Eyra foi pega por um homem muito
grande, moreno e com olhos azuis, agarrando-a por um braço,
sussurrou-lhe entre os gritos de seus companheiros:
— Se você não resistir eu não a machucarei, — quando
saíram à luz ela entreabriu os olhos, e ficou olhando-o
incrédula. Estava certa de que eles as violariam e depois as
matariam, ou pior ainda, as capturariam como escravas. O
homem, por sua parte, observou a jovem mulher que tivera a
sorte de capturar, e abriu a boca, inconsciente do que fazia. Tal
era seu semblante de surpresa que seu amigo Ragnar, o chefe
da expedição, que chegava a seu lado nesse momento, riu ao
vê-lo e lhe disse:
— Tão feia é ela que você ficou como uma estátua, amigo?
— Colocou-se ao lado de Hadar, de quem era amigo desde
menino, e olhou à mulher que ele segurava pelo braço e que os
observava como uma rainha olharia para dois mendigos. Mas
não se importou, porque pela primeira vez em sua vida, soube
que todas as histórias que seu pai havia lhe contado sobre os
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berserkers eram verdadeiras. Até esse momento ele as havia
considerado um conto para velhas, mas seu coração deu um
salto ao ver a mulher dourada.
Ela franziu o cenho olhando àquele gigante ruivo e de
profundos olhos azuis, e em seguida voltou o olhar ao homem
que a segurava e lhe disse:
— Preciso encontrar meu pai — Hadar assentiu atordoado,
certamente se ela lhe tivesse pedido que cravasse sua própria
adaga em si mesmo, tê-lo-ia feito. Eyra começou a andar
percorrendo o salão observando os caídos, mas não encontrou
seu pai, então saiu, acompanhada por Hadar que não soltara
seu braço, e por Ragnar que observava assombrado o que
acontecia. Então ela lançou um grito e saiu correndo soltando-
se de seu agarre.
— Pai! — O ancião jazia imóvel sob um selvagem daqueles
que foram invadi-los, ela afastou o desconhecido com esforço,
sem receber ajuda de nenhum dos dois homens que
continuavam observando o que ela fazia, e se abraçou ao
ancião. Mas seu pai já não estava ali, Eyra sentiu seu coração
se rasgar e gritou sentindo a maior dor de sua vida, enquanto o
embalava entre seus braços. Com seu mundo destroçado,
fechou os olhos do ancião e beijou sua testa cheia de sangue,
depois acariciou seu cabelo por um momento, antes que a
separassem dele.
— Ele está morto, deixe-o. Morreu como um valente, meus
homens o enterrarão mais tarde. — Ragnar a agarrou pelo
braço fazendo-a se levantar. Por alguma razão ele se sentia mal
ao vê-la abaixada e chorando junto ao ancião. — Não adianta
de nada que chore, — puxou-a, mas Eyra resistia a ir com ele,
— Não, deixe-me! Preciso prepará-lo para o enterro, é
minha obrigação, era a minha única família! — Ragnar a olhou
com o cenho franzido, os olhos azuis obscurecendo-se por
momentos, sua voz soou muito mais grave do que antes e
disse:
— Você não tem mais direito de fazer o que quiser, agora
que me pertence como uma prisioneira de guerra. — Hadar ia
dizer algo para seu amigo, mas deu um passo atrás ao ver seu
olhar, já sabia o que aquilo significava, já vira outras vezes.
Moveu a cabeça e deixou que ele levasse a garota que resistia
com todas suas forças. Hadar não moveu um dedo, porque
quando aparecia aquela estranha luz azul nos olhos de Ragnar,
ninguém podia interpor-se entre ele e o que queria. Ninguém
que quisesse continuar vivendo, é claro.
Capítulo II

Os invasores guardaram, em bolsas, tudo o que


encontraram de valor, carregaram-nas e arrastando às
mulheres amarradas, subiram aos navios. Eyra não parou de
lutar por todo o caminho e Ragnar, que era quem a levava,
zangava-se cada vez mais por causa de sua teimosia, tanto que
a amordaçou para não continuar escutando seus insultos.
Dessa maneira a subiu ao navio e a amarrou, isolada do resto
das escravas, no mastro do navio que estava junto ao leme, que
ele conduziria. Com sorte, a travessia duraria somente dois
dias, mas devia se concentrar para chegar o quanto antes
possível a seu lar.
Franziu o cenho porque, de repente, a imagem de sua mãe
lhe veio à cabeça, e olhou de esguelha à mulher que tivera que
arrastar para poder arrancar da terra dela. Sua mãe também
tinha sido capturada por seu pai, e mesmo que depois se
apaixonassem e tivessem vivido uma vida cheia de felicidade,
sabia que, no início princípio, ela havia sofrido muito, segundo
ela mesma lhe confessara. Entretanto, graças a sua união, o
berserker de seu pai se apaziguou, e, segundo suas próprias
palavras, após aquilo ele havia parado de ter medo de
enlouquecer e morrer, algo que costumava ocorrer aos
berserkers.

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Olhou a bússola e girou o leme para mudar o rumo e


voltar para sua casa, com a segurança conquistada pela
experiência. Para ele, o mar era um segundo lar, seu pai, um
excelente navegador, reconhecera anos atrás que Ragnar era o
único de seus filhos que navegava melhor do que ele. Era um
dos primeiros vikings que começaram a utilizar, para
orientação, uma bússola comprada em um mercado árabe, em
uma de suas viagens. Durante a noite não a utilizava, porque
se orientava mediante as estrelas, então era quando mais
gostava de conduzir o leme, quando todos dormiam, e ele,
sozinho, media forças com a natureza.
Passaram-se várias horas antes que ele começasse a
sentir o cansaço, e então fez um gesto para Hadar o substituir.
Seu amigo se aproximou em seguida e quando o fez, Ragnar se
esticou esgotado. Lançou uma olhada à escrava observando-a
longamente, agora que estava adormecida.
— Tome cuidado com ela, é uma fera, — colocou a mão no
ombro de seu amigo, que assentiu com um sorriso tímido
olhando-a, e Ragnar riu baixinho sabendo o quanto ele era
namorador — nem pense em desamarrá-la. — Hadar o olhou
sem responder, e ele se sentiu obrigado a ordenar com mais
firmeza. — Hadar, até que eu volte, não toque nela. Esta é
perigosa.
— É muito pequena, — ele o olhou incrédulo.
— Sim, mas ela nos odeia e leve em conta que seu pai
morreu por nossa culpa, por falar nisto você sabe quem o
matou?
— Fui eu. — Hadar fez cara de arrependimento. — Não o
vi se aproximar e quando se jogou em cima de mim, cravei-lhe
a espada instintivamente, — moveu a cabeça pesaroso. —
Espero que, ao menos, sua viagem ao outro mundo tenha sido
rápida, e que tenha se encontrado com seus entes queridos, —
expressou seu desejo em voz alta.
Sempre que o escutava falar assim, surpreendia-se com a
bondade de seu amigo, apertou pela última vez seu ombro e
deu a volta dirigindo-se ao outro lado do navio, onde a metade
da tripulação já estava adormecida. Envolveu-se em sua capa
de peles, e se deitou sobre a madeira escura do convés, em um
lugar afastado dos outros. E assim que apoiou a cabeça na
madeira adormeceu.
Eyra despertou de um pesadelo no qual um monstro ruivo
de olhos azuis a perseguia para matá-la, e viu que o pesadelo
era real. Doíam-lhe muito as mãos porque Ragnar as apertara
tanto que não conseguia movê-las, os pulsos estavam inchados
e esfolados, por ela ter tentado se soltar, repetidamente. Levou
os pulsos à boca para tentar tirar a mordaça, mas também não
conseguiu, então, sentou-se devagar, porque ele também a
amarrara ao leme pela cintura e ela não conseguia se mover
muito. Olhou à frente, e viu que o homem que conduzia o leme
não era o mesmo. Recordou-se dele, era o que a pegara em
primeiro lugar, seus olhos pareciam mais humanos que os do
seu chefe, e mais amáveis.
— Não chore, por favor. — Ela o olhou surpresa, e levou
as mãos ao rosto porque não se dera conta de que estava
chorando. Olhou-o e assinalou sua mordaça lhe pedindo, sem
palavras, que a tirasse. Ele pareceu hesitar, e finalmente,
inclinou-se para ela para sussurrar, — eu tirarei isso se me
prometer que não gritará, se o fizer, teremos problemas, os
dois, porque meu amigo Ragnar não consente que lhe
desobedeçam. — Ela desesperada, assentiu com a cabeça,
desejava conseguir fechar a boca, e lhe doíam muito os lábios,
porque Ragnar apertara muito a mordaça.
O homem olhou sobre seu ombro e viu que todos,
incluindo as outras mulheres que foram capturadas, estavam
dormindo, e se inclinou sobre ela, com perícia e lhe
desamarrou a mordaça, ficando com ela na mão direita, e
voltou ao leme. Eyra sentiu que lhe subia um soluço à boca ao
sentir que podia voltar a falar, mas o reprimiu e sussurrou ao
seu captor, com a voz estremecida:
— Obrigada — ele sorriu-lhe contente e vendo que estava
mais tranquila, perguntou.
— Quer água? — Eyra assentiu sem falar, porque sentia a
língua retorcida e ressecada. Hadar se aproximou de um barril
que havia atrás deles, e mergulhou uma taça para enchê-la e
lhe deu. Ela bebeu até a última gota, porque imaginou que,
quando o monstro despertasse ela não voltaria a tomar água.
Quando esvaziou a taça e a devolveu, voltou a agradecer. Por
mais estranho que parecesse, apesar de ele ser um homem
enorme como os outros, ele não parecia tão ameaçador. —
Quer mais?
— Não, agora não, obrigada. — Ele voltou a assentir e
seguiu dirigindo a nave.
Quando Ragnar despertou, permitiu-se balançar por
alguns segundos no convés, sorrindo. Atraíam-lhe as coisas
selvagens porque ele mesmo reconhecia que também o era. Sua
mãe sempre dizia, rindo, que ele era o mais viking de todos os
seus filhos. Ele se sentia muito orgulhoso de ser, já que sempre
preferira a cultura de seu pai, ao de sua mãe, que era cristã e
para ele, excessivamente branda. Quando Ragnar era menino,
perguntara a seu pai estranhando aquele aspecto de sua mãe,
e ele lhe dissera:
— Não acredito que você gostaria mais se sua mãe fosse
uma viking autêntica, como as mães de seus amigos. Temos
sorte de que sua mãe seja tão bondosa, quando você for mais
velho se dará conta de que é uma bênção que seja assim.
Agradeça que nunca tenha sentido a mão dela em seu rosto
mais do que para lhe fazer uma carícia, ou lhe curar uma
ferida. — Ragnar ainda se recordava da vergonha que havia
sentido, pela recriminação carinhosa de seu pai. Nunca mais
voltou a perguntar por que seu pai se unira a uma estrangeira,
e quando cresceu, entendeu o néscio que havia sido, ao não
saber valorizar a joia que seu pai tivera a sorte de capturar,
tantos anos atrás.
Sentou esticando-se, e olhou a seu redor. Seus olhos se
encontraram com as três mulheres que estavam amarradas
juntas, no fundo do navio, e girou a cabeça procurando à
outra, à única que lhe interessava. Ela estava falando com
Hadar e parecia sorrir para seu amigo; ao ver aquilo sentiu
como se um fogo subisse por seu estômago e arqueou as
sobrancelhas, porque não entendia o que acontecia, mas sentiu
a necessidade, imediata, de separá-los. Quando se levantou, os
dois voltaram a olhá-lo, seu amigo ao ver seu olhar azul
incandescente soube o que lhe acontecia, e olhou à mulher,
preocupado, depois voltou a olhar para Ragnar.
— Deixe o leme, eu assumo. — Hadar, pareceu hesitar
durante alguns segundos, mas finalmente assentiu. Não olhou
à mulher antes de ir, sabia que seria melhor para ela que não o
fizesse.
Ragnar olhou à frente, à linha do horizonte, e se
estabilizou sobre o convés abrindo as pernas, porque o mar
estava um pouco revolto, a embarcação balançava bastante,
motivo pelo qual ele despertou. Olhou de esguelha à mulher,
mas ela estava decidida a não o olhar, isso o incomodou, e fez
com que cravasse seu olhar nela; então ele observou as marcas
avermelhadas que ficaram na comissura dos lábios dela, e que
enfeiavam sua pele branca.
— Como você tirou a mordaça? — Ela encolheu os ombros
e tocou os lábios com a ponta dos dedos, fazendo uma careta
de dor.
Ele franziu o cenho indignado porque ela não respondeu, e
olhou acusador para Hadar, mas ele já havia dormido. Voltou a
olhar à mulher sem saber porque estava tão zangado com ela, e
então ela lhe devolveu o olhar, com todo o ódio que sentia por
ele. Nesse instante Eyra conseguiu observar como a cor de seus
olhos foi se tornando mais brilhante, embora continuasse azul.
E quando o escutou falar novamente, sua voz era muito mais
grave, como se alguém que não era ele, falasse de dentro de
seu corpo.
— Como se atreve a me olhar assim, moça? — Ela desviou
o olhar, assustada, porque nunca vira nenhum homem mudar
a cor dos olhos e a voz. Ragnar ao ver que ela olhava para o
chão, zangou-se mais ainda.
— Escrava! — Ele levantou a voz de propósito, mas ela não
respondeu e continuou com o olhar perdido, embora tenha
apertado sua mandíbula. Ele sentia como o sangue corria por
suas veias a toda velocidade, e não se lembrava de outro
momento de sua vida no qual tivesse ficado tão zangado.
Apesar disso, inspirou profundamente tentando se tranquilizar
e olhou à frente, mas ela, inconscientemente, disse:
— Amaldiçoo você demônio vermelho! — Ele entrecerrou
os olhos ao escutar a maldição, e apertou os lábios. — Espero
que, quando terminar seus dias na terra, não entre no
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Walhalla , mas sim acabe sendo um brinquedo de Gela, a filha
de Loki, no submundo! E que seu sofrimento seja eterno! —
Era a pior das maldições, aquela que lhe negava a felicidade na
outra vida.
Então Ragnar sentiu que um véu vermelho cobria sua
visão, e que um assobio se instalava em seus ouvidos, sacudiu
a cabeça e voltou a olhá-la. Ela pareceu se dar conta do que
fizera, mas incapaz de se desculpar, fechou a boca e guardou
silêncio, teimosa.
A partir de então, o berserker tomou o controle da mente
do homem, e ele levantou a cabeça e emitiu um rugido que fez
com que despertassem, os vikings e as três mulheres, que
ainda dormiam. Abandonando o leme, agarrou-a pelos pulsos
sem levar em conta a careta de dor que ela fez, e lhe tirou a
corda da cintura, Eyra lutava como podia contra ele, mas não
tinha força suficiente para opor-se a semelhante gigante, já que
ao menos havia trinta centímetros de diferença entre eles, e
uns cinquenta quilos de peso. Arrastou-a sem nenhum cuidado
para o mastro mestre, onde pegou a ponta de uma das cordas
que havia ali amarradas, e desatou seus pulsos para fazer com
que abraçasse o mastro, voltando a amarrá-la naquela posição.
Quando terminou, observou-a com um sorriso desumano, e ela
estremeceu ao ver a crueldade em seus olhos,
— Você vai se arrepender do que me disse. Antes do que
acredita, pedir-me-á perdão por isso, porque eu juro que não
vou parar de castigá-la até que o faça. — Sussurrar junto a seu
ouvido fez com que ela estremecesse de medo por um lado, e
pelo outro, conseguiu que ela jurasse morrer antes de pedir
perdão. Fechou os olhos e se encomendou ao Deus cristão de
seus pais, rogou para que ele lhe desse coragem para aguentar
até o final, não se importava de morrer se assim escapasse
daquele pesadelo.
Ragnar agarrou um chicote, rasgou as costas do vestido, e
começou com o castigo, as chicotadas eram disparadas diante
do olhar incrédulo do restante dos homens e mulheres, que
observavam atemorizados o que acontecia. Depois do terceiro
golpe, Hadar se aproximou de seu amigo, decidido a não deixar
que ele continuasse empunhando o chicote, embora fizesse
alguns segundos que ele havia se aquietado e olhava o chão
aturdido. Colocou-se diante dele e lhe disse em voz baixa.
— Ragnar, o que está acontecendo? Você nunca bateu em
uma mulher… — Os olhos azuis de seu amigo se levantaram
do chão e o olharam, haviam retornado para sua cor normal.
Pareceu estranhar ao ver o chicote em sua mão e quando viu
as costas da mulher, soltou-o enojado, aproximando-se dela,
com rapidez para desamarrá-la. Enquanto o fazia, observou as
três feridas diagonais que sangravam e que começavam a
inchar, sinal que demoraria para desaparecer, moveu a cabeça
odiando-se profundamente pelo que acabara de fazer. Seu
amigo estava certo ao dizer que nunca batera em nenhuma
mulher, e também havia proibido que algum de seus homens o
fizesse. Quando a desamarrou, recebeu em seus braços o corpo
da moça, que estava desacordada. Entrecerrou os olhos ao ver
sua palidez e como seus lábios estavam ensanguentados,
certamente porque os mordera para não suplicar e assim parar
o castigo. Levantou-a com cuidado em seus braços, e a levou a
uma lateral do navio. Envolto pelo silêncio do restante dos
ocupantes do navio, ajoelhou-se no convés e a colocou de
barriga para baixo, para que não lhe doesse às costas mais do
que o necessário. Até que chegassem à sua terra, pouco mais
poderia fazer por ela.
Capítulo III

Eyra despertou ao sentir uma forte dor nas costas, tentou


fugir da cama em que estava deitada, mas mãos fortes a
aprisionaram contra o colchão, e foi impossível. Enquanto
respirava agitadamente com o rosto sobre o travesseiro,
escutou a voz de uma mulher desconhecida, que parecia falar
dela.
— Não deixe que ela se mova Ragnar, as feridas se
infectaram, por isso ela não despertava, — a mulher deixou
passar alguns segundos antes de sussurrar, — acredito que ela
tenha febre, — a curandeira olhou para seu amo preocupada; a
moça estava há dois dias dormindo profundamente, desde que
chegaram. Ragnar enquanto isso, estivera anti social. Todos os
escravos estavam assombrados com a dureza que ele usara ao
castigar aquela frágil moça. Era tudo muito estranho, já que,
apesar de seu comportamento com ela, ele a levara a sua
própria cama para que se curasse, e quando tentaram levá-la a
outro aposento, ele negou. Aquilo fizera com que Siv, sua
concubina se zangasse, já que costumava dormir ali com ele, e
aqueles dias tivera que fazer em seu próprio dormitório.
Ragnar se abaixou para que Eyra lhe visse o rosto, e lhe
disse:
— Fique quieta, — tentou moderar sua voz para não a
assustar, mas ela, ao vê-lo, arregalou os olhos devido ao medo,
e começou a espernear e a mover os braços tentando se liberar,
enquanto gritava como se estivesse em frente ao seu pior
pesadelo.
Ao escutar os gritos, Hadar entrou no aposento. Estivera
esperando no salão para falar com seu amigo, mas não
conseguiu evitar de entrar, temendo que Ragnar tivesse perdido
o juízo com a mulher, outra vez. Quando transpassou a soleira
do aposento ficou parado sem saber o que fazer. Seu amigo,
que parecia muito zangado, segurava à moça pela cintura,
tentando não tocar suas costas que estavam destroçadas e
vermelhas; enquanto ela, muito agitada, soluçava com o rosto
transfigurado tentando escapar dele. Helga, uma velha escrava
que vivera antes na casa dos pais do Ragnar, por isso o
conhecia desde menino, e agora era a curandeira de sua casa,
permanecia um pouco afastada observando tudo com a boca
aberta.
— Ragnar, deixe-me falar com ela, por favor. — Seu amigo
o olhou e assentiu com um gesto rápido. Hadar se aproximou
deles, preocupado de que a moça tivesse perdido o juízo.
Embora Ragnar somente lhe segurasse os pulsos, ela
continuava lutando contra ele e gritando como se sua vida
dependesse daquilo.
— Eyra. — Ragnar o olhou assombrado porque ele
conhecia o nome dela, ele tivera que perguntar às outras
escravas cativas, para poder saber. — Acalme-se, por favor eles
querem somente curar as suas costas. — Mas ela não
escutava, continuava lutando contra Ragnar e tentando fugir,
sem se importar se se machucasse ao fazê-lo. Hadar se
aproximou mais e lhe agarrou o rosto com a máxima suavidade
que conseguiu, e fez com que ela o olhasse. Quando conseguiu,
os olhos dela pareceram se tranquilizar um pouco, embora todo
seu corpo continuasse tremendo por causa da tensão.
— Eyra, precisa ficar quieta, para que possam curá-la. —
Ela negou com a cabeça, embora segundos depois, sentiu que
suas pernas já não a sustentavam, e se deixou cair contra seu
inimigo sem poder evitá-lo. Ragnar a tomou em seus braços
com cuidado e a levou à cama. Enquanto ela gemia de dor e de
debilidade, ele se voltou à curandeira.
— Depressa, cure-a agora. — Ele observou os movimentos
fracos da moça e estranhou. — O que houve?
— Pelo que me contaram ela não come a dias, e bebeu
pouca água, seu corpo não aguenta mais.
— Assim que a curar, ela comerá. — Ele ordenou,
enquanto sentia um nó em seu estômago ao pensar que ela
pudesse morrer.
— Não. — Murmurou Eyra com o rosto escondido entre
seus braços, — deixe-me morrer malnascido, prefiro morrer, a
viver sendo sua escrava. — Hadar agarrou seu amigo pelo
braço, e o levou para o lado, para falar com ele.
— Ragnar, isto não conduz a nada, se continuar brigando,
ela morrerá em poucos dias. Se quiser que ela se recupere,
precisa deixá-la. — Ele sussurrou.
— O que quer dizer?
— Deixe que eu a leve para minha casa alguns dias, eu me
encarregarei de sua recuperação. Olhe minha escrava, tem boa
mão para os doentes, e pode fazer o que Helga ensinar…
— Não. — Respondeu Ragnar, mas seu olhar voltou à
moça que continuava gemendo, e cada vez com menos força.
— Ragnar o que acontece com você e esta moça? — Hadar
movia a cabeça negando o que seus olhos viam, — nunca havia
visto você agir assim, no navio temi que tivesse enlouquecido.
— Não sei, mas sinto uma raiva terrível quando ela
discute comigo, quando me enfrenta…não sei o que lhe faria. —
Ele encolheu os ombros, envergonhado por seu
comportamento. — No navio o berserker assumiu o controle
sobre mim, eu nunca lhe teria feito mal, você sabe.
— Mas você quer que ela se cure não? — Ragnar assentiu
com um golpe seco da cabeça, e tomou uma decisão.
— Está bem, pode levá-la a sua granja, mas somente por
alguns dias, assim que esteja melhor, eu a trarei de volta.
— De acordo. — Ragnar, depois de um último olhar, foi
sem olhar para trás, embora já se arrependesse do acordo ao
qual havia chegado com seu amigo da infância.
Quando a porta se fechou, Hadar fez um gesto à
curandeira para que esperasse um momento e se sentou na
cama junto à moça, ela o olhou com lágrimas nos olhos.
Parecia esgotada e agora estava com tremores, certamente pela
febre, tentou levantar a cabeça procurando Ragnar, mas em
seguida a deixou cair. Hadar decidiu que esse era o melhor
momento para falar com ela,
— Ele já se foi, e é muito importante que me escute Eyra,
vão lhe colocar remédio nas costas, e se você comer e beber,
mesmo que seja um pouco, tirarei você daqui. Ragnar aceitou
que você vá a minha casa. Você fará, ficará quieta para que
Helga a veja? — Ela assentiu, sem forças para falar, porque
sua luta com o demônio lhe deixara exausta. Fechou os olhos,
enquanto a anciã limpava suas feridas, depois notou que ela
passava algo em suas costas, o que fez com que as feridas
ardessem muito, mas em pouco tempo deixaram de lhe
incomodar. Finalmente, ela enfaixou suas costas com um
tecido limpo, e lhe ajudou a colocar um vestido que não era o
seu. Pouco depois lhe trouxe um pouco de caldo e pão, comeu
um pouco e Hadar ao vê-la, saiu do aposento, com um sorriso.
Estava preparando seu cavalo, quando seu amigo o encontrou
nos estábulos.
— Como foi? — Ele continuou colocando a sela, enquanto
lhe respondia.
— Bem, Helga conseguiu ajudá-la, e comeu um pouco. —
Ragnar assentiu e lhe disse.
— Agradeço-lhe isso Hadar, mas não crie ilusões, a moça é
minha, e eu a buscarei assim que ela se encontrar melhor. —
Hadar o olhou de frente, mas decidiu que esse não era o
momento para brigar por ela, e lhe disse:
— Está bem. — Ragnar foi ao salão para beber todo o
hidromel que pudesse. Estava a vários dias atento a Eyra,
praticamente sem se importar com mais nada, o que lhe criara
vários problemas com Siv, sua concubina. Esta apareceu pouco
depois, sentou-se a seu lado e começou a beber com ele. Ao
fazê-lo se grudou tanto a seu corpo, que teria sido impossível
separá-los a menos que o fizessem com uma faca.
Ragnar sentia que lhe fervia o sangue nas veias, e ficava
muito incomodado com a presença de Siv, embora não
soubesse porque, já que sempre sentira uma forte atração por
ela. Siv era ruiva como ele, possuía os olhos verdes como os de
um gato, e era uma mulher muito bela. Além disso, ele se
afeiçoara a ela, porque já estavam juntos há dois anos, depois
de poucos meses que ela ficou viúva.
Siv possuía sua própria granja, e antes de se tornarem
amantes, ele costumava ir a sua casa e passar a noite, voltando
para sua casa ao dia seguinte, mas, um dia, quase sem se dar
conta, foi viver com ele. Até agora não havia lhe incomodado,
mas cada vez se tornava mais possessiva, e praticamente, já
agia como uma esposa. De fato, eles discutiram várias vezes
por causa de Eyra desde que ela havia chegado. Siv, finalmente
feliz ao pensar que ele se desfizera dela, começou a falar sem se
dar conta de que metia os pés pelas mãos.
— Soube por uma das escravas que a nova escrava foi
com Hadar, obrigada Ragnar. — Ela se apoiou nele com o olhar
agradecido, convencida de que ele tomara aquela decisão
devido as suas discussões. Ragnar, em vez de deixá-la pensar o
que quisesse, disse-lhe:
— Ele a levou para que se recupere, mas logo voltará para
cá. Siv, tem algo que quero lhe dizer faz tempo. — Bebeu o
restante da taça de hidromel antes de continuar, hesitou um
momento porque não queria magoá-la. Considerava-a uma boa
amiga, contara-lhe coisas que não havia compartilhado com
ninguém, e sentia dor pelo que ia lhe dizer, mas não suportava
os enganos. — Isto já não funciona, não me sinto à vontade. —
Ele observou aturdido como Siv, a amadurecida e tranquila Siv,
levantava-se de repente olhando-o com autêntico horror, e lhe
jogava em cima o conteúdo de sua taça. Ele se ergueu sobre
ela, enquanto o líquido escorria por seu cabelo e barba, e ela
nesse momento, consciente do que fizera, atirou-se ao chão, a
seus pés, para suplicar:
— Perdoe-me, por favor! Foi sem querer, não pensei,
perdoe-me, suplico-lhe isso! — Ele se inclinou para ajudá-la a
se levantar, mas ela se negava, agarrada a sua perna.
— Siv, por favor, não faça isto, levante-se. — Ela soluçava
descontroladamente, ainda agarrada a sua perna. — Os
escravos que pululavam habitualmente pelo salão haviam saído
correndo para não estarem diante da grande briga que se
avizinhava. — Por favor, — ao ver que ela continuava ajoelhada
a seus pés, voltou atrás, embora soubesse que era um engano,
— está bem, pensaremos durante alguns dias, mas levante-se,
por favor.
— Sim, perdoe-me! Dê outra oportunidade, sei o que está
pensando, acredita que não poderei lhe dar um filho, mas sim
eu poderei, asseguro-lhe isso. Só precisa me dar um pouco de
tempo. — Ela aceitou se levantar, e se arrumou como pode,
embora as lágrimas tivessem deixado rastro em seu rosto.
Pouco depois, foi aos seus aposentos com a desculpa de trocar
de roupa, embora a verdade fosse que estava envergonhada por
seu comportamento e que preferia estar a sós por um
momento.
Ragnar se serviu de outra taça e escutou alguns passos na
entrada do salão, era seu amigo Hadar, que se aproximou dele.
— Já vão? — Ele assentiu surpreso já que havia visto a
última parte da cena com Siv.
— Sinto por Siv, acreditei que ela estava feliz com seu
acerto. — Ragnar o olhou nos olhos assentindo,
— Eu também acreditei, mas agora penso que eu estive
conformado com o que estava à mão. — Aproximou-se mais de
seu amigo, — se você tiver qualquer problema, mande me
chamar. De toda a maneira, irei vê-lo em alguns dias. — Seu
amigo pendurou o embornal que sempre carregava, e assentiu,
despedindo-se com um apertão de mãos.
Ragnar observou enquanto ela saia, sentindo-se
estranhamente abandonado.

********

Eyra estava preparando a massa para o pão do dia


seguinte, já que todos da casa pareciam gostar. Em sua terra,
seu pai, sempre lhe dizia que ela possuía uma mão muito boa
na cozinha, e quando queria comer algo especialmente
suculento, costumava lhe pedir para cozinhar. Enquanto
amassava, com cuidado, já que ainda lhe doíam as cicatrizes
das costas, pensava na sorte que tivera, porque escapara das
mãos do monstro.
Hadar era diferente, tratava-a com bondade, era um
homem paciente e justo com todos. Ele mesmo trabalhava a
terra junto com Bjorn, o escravo da casa. Fazia alguns dias,
quando já se sentira melhor, que havia começado a sair de
seus aposentos, e a ajudar no que podia, embora ninguém
tivesse pedido.
A granja de Hadar era muito menor do que a de Ragnar, e
possuía somente um casal de escravos, por esse motivo ele
precisava ajudar nos trabalhos da terra. Um dos cativos era um
homem, Bjorn, que todas as manhãs saía para trabalhar, e a
outra, Mira, que era a mulher de Bjorn. Ambos pareciam felizes
com sua situação e reconheciam perante ela que Hadar era um
amo compassivo, muito diferente de Ragnar. Eyra chegara a
um acordo com Mira, segundo o qual, ela faria comida, e assim
a outra mulher poderia dedicar mais tempo à limpeza da casa,
além disso Eyra ajudaria também na horta.
Apartou o cabelo úmido da testa, enquanto envolvia a
massa em um pano úmido para deixá-la repousar, e, estava
limpando a mesa, quando escutou seu nome e se voltou para a
entrada da cozinha. Ragnar estava de pé esperando, e
observando-a com aqueles olhos azuis, escuros como o oceano.
Aproximou-se dela e Eyra olhou em volta procurando algo para
se defender. Em cima da mesa havia uma faca que ela agarrou
empunhando-a como uma espada, ameaçando-o com ela. Ele
sorriu ao vê-la, e continuou avançando até colocar-se o mais
perto possível, mas a uma distância que ela não pudesse lhe
alcançar.
— Vejo que você está melhor. — Ele a olhou de cima
abaixo, conseguindo que se sentisse nua, ela se ruborizou
surpreendida, porque não esperava que ele a olhasse daquela
maneira.
— Não se aproxime! Eu lhe cravarei isso, juro! — Ragnar a
olhou nos olhos e continuou se aproximando apesar da faca,
então, esticou o braço esquerdo como se fosse pegá-la, e ela
aproveitou para lhe fazer um corte no antebraço. Eyra observou
horrorizada a ferida, e ele aproveitou para lhe roubar a faca
com a mão direita, e atirá-la sobre a mesa, agarrando-a depois
pelos pulsos. Assim a manteve presa, sem permitir que ela a
pegasse, enquanto ela esperneava e gritava.
— Acalme-se, fera. — Apesar de suas palavras, seu olhar
era de admiração. Pouco a pouco, foi juntando seu corpo ao de
Eyra, até que segurou seus dois braços com uma mão, e com a
mão esquerda, por onde escorria um filete de sangue,
acariciou-lhe a bochecha, brandamente. — Vim para vê-la, e
lhe pedir perdão pelo que eu fiz. — Ela o olhou rancorosa.
— Não acredito em você! Solte-me seu assassino! — Ele
sentiu que voltava a lhe ferver o sangue, o que acontecia
quando ela o tratava assim, mas nesta ocasião não perderia a
cabeça até o ponto de empregar a violência.
Naqueles dias se lembrara de uma das conversas que seu
pai tivera com ele e com seus irmãos, sobre o que sentiriam
dentro de si quando seu berserker encontrasse sua
companheira, sua alma gêmea. Era imprescindível não perder a
prudência com ela, e conseguir ter uma longa e feliz vida. E
recordou-se como ele lhes disse, que no início poderia não
compreender o que sentiam, reagindo violentamente.
Enquanto mantinha presa à pequena mulher que lutava
contra ele com todas as suas forças, inclinou-se para ela pouco
a pouco, até que viu como o medo aparecia em seu rosto, por
isso lhe disse:
— Acalme-se, não lhe farei mal. — Então a beijou,
primeiro, unicamente pousou os lábios nos dela, mas depois, a
língua tentou entrar em sua boca, mas ela mantinha os lábios
fechados. Ele notou incrédulo, como os batimentos de seus
dois corações se compassaram, pulsando cada vez mais rápido,
o que lhe demonstrou que ela também estava excitada. — Abra
a boca, — ele sussurrou, ela se negou com um insulto,
resistindo, mas ele segurou sua cabeça com força e conseguiu
entrar nela com a língua, e prová-la. Seu sabor o invadiu como
se fosse algo que estivesse esperando toda a vida, todos seus
sentidos se viram preenchidos por ela, seu toque, seu aroma e
agora seu sabor. Seu berserker urrava de alegria sabendo,
instintivamente, que havia encontrado aquela pela qual
chorava.
Ragnar finalmente afastou seu rosto olhando-a surpreso.
Depois de muito pensar decidira ir à casa de seu amigo, e
experimentar beijá-la, certo de que não funcionaria, mas pela
primeira vez e fazia muitos anos, seu berserker estava calado,
tranquilo. Normalmente, vivia continuamente mal-humorado,
inclusive chegara a pensar que aquele era seu verdadeiro
caráter, mas agora mesmo estava mais tranquilo do que nunca
desde que ele se lembrava, e sentia com atemorizante
segurança que a culpada era a pequena moça que ele
mantinha entre seus braços, e que o olhava com semblante de
ódio. De repente escutaram algo que os fez se afastarem:
— Ragnar! O que você faz aqui? — Eyra aproveitou para
correr junto a Hadar, que a abraçou contra ele, satisfeito por
sua reação. Ragnar se empertigou olhando para seu amigo com
uma majestuosidade que lembrava seu pai, o grande Erik “O
Vermelho”, e seu berserker ficou em pé de guerra novamente,
diante da possibilidade de que lhe arrebatassem sua única
possibilidade de sobrevivência.
Capítulo IV

Ragnar tentou não se zangar ao ver como ela o rechaçava,


porque diziam que era normal ela sentir medo dele. Mas sua
parte mais irracional se sentia ofendida ao ver como ela se
agarrava a seu amigo, suplicando que a protegesse dele.
Mesmo sabendo que ela estava com razão ao se comportar
assim, estremecia de raiva ao vê-los abraçados, apesar de tudo,
sua voz soou tranquila quando disse a seu amigo:
— Quero falar com você em particular. — Eyra franziu o
cenho ao escutá-lo, já que imaginou que falariam sobre ela, e
se virou para pedir para Hadar que não a deixasse nas mãos
dele, mas não precisou, porque em seus olhos viu que ele não
tinha intenção de fazê-lo. Instintivamente, embora ele não
houvesse dito, ela sabia o que ele sentia por ela.
— Eyra, por favor, vá para seus aposentos, — Hadar,
sempre a tratara com respeito, — eu a avisarei quando
tivermos terminado. — Ela assentiu e baixou a cabeça
caminhando depressa para seu dormitório, sem levantar os
olhos para não cruzar seu olhar com o do Ragnar, que a seguiu
com o olhar até ela desaparecer.
— Vamos ao salão, — seguiu Hadar, que havia suspirado
ao ver a resolução em seu olhar. O dono da casa conhecia
muito bem a teimosia de Ragnar, e esperava não precisar
enfrentá-lo, mas também não deixaria que ele a levasse sem
oferecer resistência.
Sentaram-se em duas das cadeiras que havia junto a uma
mesa larga na sala, e se olharam fixamente, cada um tentando
averiguar o que o outro pensava. Não havia bebidas, nem
comida, porque ambos sabiam que aquela não era uma visita
de cortesia de um amigo para outro, mas sim, a de um homem
que devia reclamar algo que considerava dele.
— Espero que isto não estrague nossa amizade, você é o
melhor amigo que tenho, e sei bem o quanto é leal. — Ele se
ergueu na cadeira jogando a cabeça para trás, olhando-o com
seriedade, — mas não posso permitir que você fique com ela. —
Ragnar entrecerrou os olhos ao ver o rosto de desgosto de seu
amigo. Hadar se inclinou para ele, com expressão decidida e
lhe disse:
— Ragnar eu não quero roubá-lo, nem me aproveitar de
você, você me conhece. Entendo que, por direito de saque, já
que você foi o chefe da expedição, considere Eyra sua
propriedade, e estou disposto a pagar o que considerar justo
por ela. — O aludido entrecerrou os olhos incrédulo, porque
conhecia muito bem a situação econômica de seu amigo. Seu
coração sofreu durante um momento, ao se dar conta de que
aquilo significaria a destruição da amizade deles. Mas em
seguida disse a si mesmo, que não podia ceder, já que para ele
era questão de vida ou morte.
— Não poderia pagar o preço dela, Hadar. — Ele franziu o
cenho e lhe disse:
— Estou disposto a trocá-la pela terra junto ao rio, aquela
que você sempre quis. Você mesmo me disse que me daria o
preço que eu pedisse.
— Mas você nunca quis vendê-la!
— Eyra é importante para mim, Ragnar, — inclinou-se
para ele para confessar. — Quero que ela seja minha mulher.
Se fosse minha me encarregaria de que ela fosse feliz, essa
seria minha principal obrigação para com ela. Por favor
Ragnar, você pode ter centenas de escravos, todos os que
queira, peço-lhe isso como amigo.
Ragnar o olhou e hesitou, embora lhe retorcesse o
estômago ao pensar neles, juntos, mas tudo se precipitou
quando Eyra entrou correndo. Ela escutara Hadar e correu
para abraçá-lo feliz, não porque o quisesse, mas sim porque
estava agradecida por se acreditar salva. Depois de tudo pelo
que passara desde a morte do pai e seu sequestro, ela se deu
conta de que o futuro não seria tão terrível junto de Hadar.
Abraçou-se ao pescoço dele, sussurrando uma palavra em seu
ouvido, que repetiu continuamente: obrigada.
Aquilo fez com que Ragnar visse a dura realidade, e esta
era que não podia suportar vê-la nos braços de outro homem, e
seria sempre assim. Tinha certeza, de que Eyra era sua alma
gêmea, por isso se levantou olhando-os fixamente. Não falou,
nem fez nada à espera que Eyra se acalmasse, e pouco depois,
ela e Hadar o olhavam espectadores. Ao vê-los abraçados, como
se ele não estivesse farto de ser o malvado daquela história,
uma ideia venenosa penetrou em sua cabeça, sabendo que
jogar sujo seria a única maneira de conseguir, que ela saísse
daquela casa por sua própria vontade.
— Vejo que Eyra está muito afeiçoada a você. — Eyra
franziu o cenho pelo tom venenoso do demônio. — E seu
sorriso é porque ainda não lhe contou a verdade do que
aconteceu a seu pai. — A moça se voltou para Hadar, que
empalidecera e fugia de seu olhar, mas ela se colocou diante
dele e lhe disse.
— Precisa me contar algo, Hadar? — Ele negou com a
cabeça, mas a intuição da moça lhe disse que ele mentia.
Enojada voltou a olhar para Ragnar, mas ele não a olhava
vitorioso, como ela esperava, mas sim seus olhos pareciam
tristes. Depois de alguns minutos de silêncio dos dois homens,
decidiu perguntar a seu inimigo.
— O que ele precisa me dizer? — Ragnar admirava sua
valentia, olhava-o de frente, de igual para igual, apesar de que
devia temer a resposta. Ele olhou por última vez para Hadar,
esperando que fosse ele quem falasse, mas este continuava
sem fazê-lo olhando para o chão.
— Hadar, diga-me a verdade, o que aconteceu com meu
pai? — Quando a olhou, estava com os olhos cheios de
lágrimas, certo de que, aquele ato involuntário, havia
conseguido que ele perdesse aquela que consideraria para
sempre, o amor de sua vida. Inspirou com força e falou com voz
grave e arrependida, mas Ragnar endureceu seu coração diante
da dor de seu amigo, porque ele precisava dela para sobreviver,
era simples assim.
— Foi um acidente, eu estava de costas para ele e senti
que alguém se jogava em cima de mim, para me proteger, ao
me voltar, estiquei minha espada e ele a cravou nele próprio,
com o impulso da corrida. Sua morte me perseguiu todos os
dias desde que a conheço, porque sabia que, se você soubesse,
poderia se afastar de mim, — aproximou-se dela, e Eyra não se
moveu, porque ainda tentava aceitar o ocorrido, — nunca foi
minha intenção machucá-lo Eyra, eu nem sequer deveria ter
ido naquela incursão, mas um homem de Ragnar falhou e ele
me pediu que o acompanhasse. Por favor, peço seu perdão!
Sabe que eu a quero, não lhe havia dito isso, até agora, mas
meu maior desejo é que você seja minha esposa. — Ela se
voltou para ele, e olhando-o com todo o desprezo que
conseguiu cuspiu em seu rosto. Enquanto ele a contemplava
perplexo, ela se aproximou de Ragnar e lhe disse:
— Irei com você. — Hadar e Ragnar a olharam com os
olhos arregalados, incrédulos, diante do sentido da honra e da
valentia daquela mulher.
— Eyra! — Ragnar não era o único que podia utilizar
métodos sujos para conseguir seu propósito. — Lembra-se do
que Ragnar lhe fez no navio, há muitas ocasiões nas quais ele
não pode controlar seus impulsos. Não vai querer viver com um
homem assim, estará à mercê de seus caprichos. — Eyra
caminhava em direção à saída, mas ao escutá-lo, voltou-se e
lhe respondeu.
— Quem dera ele me mate, acredito que essa é a única
vingança que resta contra os dois, — sorriu irônica, — se ele
não conseguir, é possível que eu o ajude. — Ragnar vendo seu
estado, agarrou-a pelo braço e a levou; não precisou obrigá-la,
porque ela caminhava a seu lado sem se queixar. Subiu-a em
seu cavalo e ao ver que ela sentia frio porque usava somente
um vestido de lã, jogou-lhe por cima sua capa de peles. Ela não
se queixou, nem o agradeceu, parecia como se estivesse
ausente, ele rodeou sua fina cintura com os braços, e saíram a
galope para voltar para sua casa. Pelo caminho, de vez em
quando, ele a olhava, mas ela se mantinha no cavalo sem falar,
pensativa. A mesma situação continuou quando chegaram a
sua casa, então a deixou nas mãos de Helga lhe explicando que
ela não se encontrava bem, e a anciã a levou à área da cozinha,
enquanto ele se sentava em frente à lareira do salão. Estava
nervoso, a consciência lhe remoía pelo que aconteceu com seu
amigo, embora também acreditasse que não tivera mais
remédio que fazer aquilo, já que ele não queria lutar contra
Hadar.

********

Eyra sentia como se nada do que acontecesse lhe afetasse,


nem sequer sentia dor pelo engano de Hadar. Era como se não
lhe afetasse o que acontecia ao seu redor, refugiou-se em seu
interior e não falava com ninguém. A anciã que a curara alguns
dias antes lhe fez beber uma infusão que lhe deu sono, e depois
a levou a um dormitório, que imaginou que seria o das
escravas, porque havia vários colchões no chão. Deitou-se onde
Helga indicou e notou como ela a agasalhava e depois saia,
enquanto ela permanecia com os olhos arregalados observando
a escuridão, sentindo como se a cabeça fosse explodir.

********

Ragnar pegara um mapa que havia conseguido em uma de


suas últimas incursões, e o observava atentamente, enquanto
bebia de sua taça de vez em quando. Continuava sentado em
frente ao fogo, onde gostava de ficar frequentemente, quando
estava em casa.
Que ela estivesse ali, a seu alcance, fazia com que fosse
quase impossível não ir procurá-la, de fato, precisava se conter
continuamente para não fazê-lo. Controlava-se somente porque
sabia que ela havia sofrido um duro golpe e queria que se
recuperasse, mas não sabia durante quanto tempo poderia
suportar tê-la tão perto, e não levá-la para sua cama. Virou-se
ao escutar ruído de passos, era Siv e seu rosto não
demonstrava precisamente alegria. Depois de observar sua
expressão, ele voltou seu olhar para o fogo, sabendo que se
aproximava outra de suas cenas.
— Como você se atreveu? — Ela ficou a seu lado, de pé,
cuspindo suas recriminações. Mesmo que ela logo se
arrependesse, ele estava farto do ciúme doentio que ela
mostrava continuamente,
— Sente-se Siv, e falemos tranquilos.
— Não! No outro dia me disse que voltaríamos a ficar
juntos, como antes! E hoje volta a trazer aquela puta! — Ele
voltou o olhar com ferocidade para ela, o olhar mais duro que
ela já havia visto.
— Jamais volte a insultá-la em minha presença. Aquela
moça ainda não se uniu a nenhum homem, e sua situação
atual não foi escolhida por ela, como a sua. Então, eu exijo que
você não volte a chamá-la assim. — Siv sentiu como sua boca
tremia incontrolavelmente, nesse momento soube que perdera.
Mas se negou a aceitar.
— Por favor! Farei o que você quiser! Se for necessário,
pegue-a como a segunda concubina, eu não me queixarei, eu
juro! — Ele a olhou com pena, apesar de que se zangou ao
escutá-la, sabia que o ciúme e a dor é que falaram por ela. Mas
já não podiam continuar assim.
— Siv, acredito que seja melhor que você se vá o quanto
antes. — Ela o olhava negando com a cabeça, ele ao vê-la, ficou
de pé para insistir com calma, mas com seriedade. — Agradeço
por estes anos que estivemos juntos, mas quero que você vá
hoje mesmo, — respirou fundo ao ver como ela começava a
soluçar, — digo isto por consideração a você, quero que aquela
moça seja minha mulher, e não acredito que você deva estar
aqui. — Então a mulher saiu correndo e foi para seu aposento.
Ragnar observou que Helga o olhava da entrada e lhe fez um
gesto para que entrasse, enquanto ele voltava a se sentar com
um suspiro,
— Amo, a moça adormeceu. — Ele assentiu,
— Onde ela está?
— Na habitação das escravas.
— Está bem, esta noite que durma lá, mas a partir de
manhã estará somente a minha disposição. — Diga a todos e
deixe bem claro. Ela é minha escrava pessoal, — a anciã o
observou com a boca aberta durante um momento, até que viu
a expressão dele. — E você e o resto das escravas, ajudem a
recolher as coisas de Siv, ela volta para sua granja. — Olhou-a
fixamente antes de acrescentar: — Quero que ela esteja em sua
casa antes que a noite caia. — Helga incrédula pelo que estava
acontecendo, saiu o mais depressa que pode do salão. Teriam
muito trabalho pela frente, porque a viúva possuía muitos
pertences, e estava segura de que não deixaria fácil, mas ela
preferia enfrentar à viúva do que enfrentar seu amo.
Ragnar começou a escutar os ruídos das coisas que Siv
estava quebrando no quarto, e decidiu ir dar uma volta pelos
campos com seu cavalo, enquanto dava tempo para que suas
ordens fossem cumpridas. Mas, inconscientemente, galopou
até a granja de seu pai, Erik “O Vermelho”. Deixou o cavalo nos
estábulos e saudou efusivamente ao velho Jim, que se
encarregou dele, para se dirigir à casa familiar. Erik o esperava
na porta para abraçá-lo com força antes de entrar,
— Sua mãe não está, foi ao povoado para fazer compras,
mas pelo que vejo, parece-me que quer falar comigo e não com
ela. — Ele se voltou e entrou seguido por Ragnar, que se
perguntava como era possível que ele soubesse de tal coisa.
Seu pai lhe ofereceu um copo de hidromel e se sentou em
frente a ele à mesa.
— Em seguida comeremos, mas me diga o que lhe trouxe
até aqui, filho meu. — Ragnar sorriu, e tentou brincar com seu
pai, porque realmente não sabia muito bem o que lhe dizer.
— Não acredita ser possível que eu tenha vindo somente
para vê-lo, pai? — Erik sorriu exatamente igual a ele, já que era
o filho que mais se parecia com ele, e respondeu.
— Não acredito, porque você raramente vem somente de
visita, e mostra um olhar, — ele ficou sério e seus olhos azuis
se obscureceram, — um pouco estranho. — Ragnar baixou o
olhar para sua taça e deu outro gole, então começou a falar.
— Outro dia me lembrei do que você nos contava quando
pequenos, sobre as almas gêmeas e o que teríamos que fazer ao
encontrá-la. — Seu pai observou impressionado que seu filho
parecia envergonhado. — Acho que a encontrei, pai, e cometi
um engano imperdoável com ela, — olhou para seu pai, mas
este não abriu a boca para deixar que ele se explicasse, — eu a
capturei em uma incursão, e a seu lado me sentia muito
nervoso, zangado e excitado ao mesmo tempo… e não soube
reconhecê-la, no início ela me fez algo que me enraiveceu tanto
que…
— O que você fez? — Seu pai temia, porque conhecia seu
forte caráter, muito parecido ao dele.
— Castiguei-a com o chicote. — Ele observou Erik que
havia abaixado a cabeça, pesaroso.
— Meu filho, — ele moveu a cabeça como se não pudesse
acreditar no que ele dissera, — mesmo que não seja sua alma
gêmea, ensinei sempre que, ao contrário do que pensam outros
vikings, não é ser homem pegar ou castigar às mulheres. Você
nunca fez isto com nenhuma outra, por que fez com ela?
— Não sei pai, sei somente, que na presença dela não
consigo me controlar, e não sei como farei para não voltar a
machucá-la. Conhece alguma maneira de como eu possa
aquietar o berserker, para que não volte a acontecer? Não
acredito que eu possa suportar se voltar a machucá-la de
alguma maneira. — Seu pai hesitou, mas finalmente assentiu
com a cabeça,
— Qual? — Ao ver que ele não respondia, insistiu. — Pai
por favor.
— Você precisa possui-la, da maneira mais completa para
que não haja dúvidas da parte de nenhum dos dois, nem em
seu corpo nem em sua mente, de que se pertencem. Somente
assim, o berserker que existe dentro de você se acalmará e você
poderá governar sobre ele pelo resto de sua vida, assim me
aconteceu quando me uni a sua mãe. E não duvide que assim
aconteceu com seus irmãos, mas precisa tomar cuidado nas
primeiras uniões, já que a paixão que sentirá é tão forte, que
será muito difícil que não seja brusco com ela. Por própria
experiência eu o aconselho que, o quanto antes possível, tente
ganhar sua confiança, se é que conseguirá. Será o melhor para
os dois.
Ragnar ficou olhando para seu pai e inspirou fundo, havia
muito no que pensar.
Capítulo V

Ela despertou e olhou a seu redor, mas não conseguiu


distinguir nada porque a escuridão era total, então se
endireitou no colchão sobre o qual estava deitada e escutou a
respiração das outras três mulheres que dormiam no mesmo
aposento. Levantou-se, tentando não fazer ruído, e pegou suas
sapatilhas na mão para colocá-las quando já não houvesse
perigo. Fechou a porta brandamente e começou a andar pelo
corredor sem saber muito bem aonde ia, então teve consciência
de que havia dormido todo o dia e parte da noite, e de que por
isso o restante dos habitantes da casa dormia. Abriu a porta da
rua, e se cobriu com uma capa de peles que havia pendurada
na entrada, saiu depois de calçar-se. Estava tudo branco, devia
ser a primeira neve da temporada, olhou à frente onde estava o
escarpado bem a sua direita, onde se via um caminho pelo qual
se podia descer à praia, e mordendo o lábio inferior, ela deu a
volta à casa e observou o rio que cruzava a granja, e que a
separava de um grande bosque. Dali não podia ver o que havia
atrás, precisaria atravessá-lo para saber, mas parecia a única
via de escapamento possível.
Observou o céu, no qual havia uma lua cheia enorme,
motivo pelo qual ela enxergava perfeitamente e se dirigiu para
os estábulos, abrigando-se o que conseguia, com a capa.
Reprovou a si mesma não ter pego um pouco de comida e mais
roupa, mas não voltaria atrás, porque sabia que era uma sorte
ter saído da casa tão facilmente. Entrou na construção de
madeira agradecida pelo calor que os cavalos emanavam, um
deles ao escutá-la, relinchou brandamente. Aproximou-se de
uma égua branca que a observava com olhos tranquilos, e lhe
acariciou o focinho deixando que o animal a cheirasse, não
colocou a sela por medo de demorar muito e que aparecesse
alguém, além disso, estava acostumada a montar no pelo, mas
sim lhe colocou as rédeas. Depois a montou dirigindo-se ao
passo, em direção ao rio, e o cruzou pela parte menos funda
continuando para o bosque, depois, até que as árvores não a
ocultaram da vista, não respirou tranquila.

********

Ragnar despertou inquieto, como quando estava em meio


de uma batalha, estava a ponto de lançar-se procurando sua
espada, mas respirou fundo e se concentrou em escutar, mas
não havia nenhum ruído que lhe tivesse despertado, era algo
diferente. Havia acontecido algo, alguma coisa que o urgia a se
levantar, colocou as calças e acendeu uma vela. Com ela na
mão, saiu e foi até o aposento das escravas, que dormiam perto
da cozinha para aproveitar o calor que se desprendia dali.
Abriu a porta e iluminou os colchões, quando chegou ao
último, que estava a sua direita, comprovou que estava vazio.
As mulheres, a quem ele havia despertado, olhavam-no
assustadas, embora Helga foi a única que se atreveu a falar
— Amo! O que houve? — Mas ele não podia perder tempo
falando, correu como se sua vida dependesse daquilo até a
saída, e ficou parado lá fora, observando os caminhos e
escutando os ruídos da noite. Virou o rosto para os fundos da
casa, por onde lhe pareceu ter escutado o relincho de um
cavalo. Quando se assegurou disso, correu para os estábulos, e
comprovou que faltava Hallie, uma de suas éguas. Montou
Thor, seu cavalo de guerra, e saiu para procurar Eyra,
apertando a mandíbula, e rogando, que não lhe tivesse
acontecido nada.
Eyra avançava com dificuldade através do bosque, mas
com coragem, certa de que, se conseguisse, seria livre. Quando
saiu para fora do amparo das árvores e viu o que havia a sua
frente, quase começou a chorar. Era um impressionante
escarpado impossível de atravessar, inclusive com o cavalo, a
única opção para pegar outro caminho era voltar sobre seus
passos, e atravessar o bosque novamente. Acariciou o pescoço
da égua distraída e deu a volta para tentar, enquanto rezava
para que ninguém ainda houvesse se levantado. Mas não era
seu dia de sorte, Ragnar vinha trotando com seu cavalo através
do bosque como um louco. Quando a viu, olhou-a fixamente e
se aproximou dela, enquanto ele e Thor lançavam grandes
nuvens de vapor ao respirar, devido ao frio.
— Jamais poderá escapar de mim, quanto antes aceitar
melhor. — Ela sentiu como fervia seu sangue nas veias ao
escutá-lo. Todas as afrontas, os sofrimentos, e as humilhações,
de repente se uniram em sua cabeça, e, sem pensar, ficou
transtornada e se lançou contra ele. Ragnar, que não esperava
o ataque, caiu ao chão junto com ela, e lhe segurou as mãos
assim que conseguiu, mas não antes de que ela lhe arranhasse
as bochechas, a moça parecia uma selvagem.
— Fique quieta, não quero machucá-la! — Apesar de ter
conseguido lhe segurar as mãos, ela continuou grunhindo e
movendo seu corpo tentando atacá-lo. Ele conseguiu colocar os
braços dela acima de sua cabeça, deitando-se sobre ela.
— Está bem, acalme-se Eyra, assim não vai conseguir
nada — ela continuou gemendo de frustração e se movendo
debaixo dele, sem se dar conta de que o olhar do homem estava
se transformando pela excitação — não se mexa assim, moça…
não, — ele pediu, mas ela continuou lutando.
Instantes depois, ele também deixou de raciocinar.
Excitado ao máximo, beijou-a forçando-a e colocou sua língua
para acariciar a dela, mas Eyra a mordeu fazendo com que ele
levantasse a cabeça com a língua dolorida e o cenho franzido.
Sua voz destilava rancor quando lhe disse:
— Acredito que fui muito brando com você, — com mãos
cruéis a fez separar as pernas, e se colocou no oco que haviam
formado. Sem falar mais rompeu suas roupas, e lhe levantou a
camisa, então ela gritou com todas suas forças:
— Nãoooooooooooooo! — Ele, sorrindo com maldade,
empunhou seu pênis como se fosse uma espada, e entrou nela
sem nenhum cuidado. Depois lhe lambeu a boca e o rosto,
enquanto ela movia a cabeça de um lado a outro, como se
quisesse negar o que estava acontecendo, e as lágrimas,
finalmente, rolavam por suas bochechas. Ragnar, possuído
pelo berserker, sorveu suas lágrimas como se fosse o vinho
mais prezado, e começou a se mover dentro dela, com força e
rapidez no princípio, e depois mais lentamente.
Quando estava um pouco mais tranquilo, tentando fazer
com que ela se excitasse e desfrutasse do momento, chupou
seus seios, e os acariciou longamente, procurando que ela se
unisse a ele, mas ela tinha virado a cabeça para não o ver,
enquanto seu peito se agitava pelos soluços.
Quando Ragnar rugiu em sua liberação, ficou alguns
instantes sobre ela, observando-a. Depois, afastou-se, e se
ajoelhou sobre a erva respirando agitadamente.
— Lamento que sua primeira vez tenha sido assim, não
era minha intenção, mas você me pressionou muito. — Ele se
sentia profundamente arrependido, e ainda mais, quando
aproximou sua mão do rosto dela para retirar o cabelo da boca,
e ela se encolheu assustada. Com uma maldição se levantou e
amarrou a égua dela a seu cavalo, depois, apesar dos
protestos, levantou-a em seus braços e a sentou em frente a
ele, cavalgando juntos até a casa.
Quando chegaram ao seu aposento, ela parecia
excessivamente tranquila, o que ele aproveitou. Com um tecido
molhado, lavou-lhe o sangue e o sêmen de seu corpo, e fez que
ela se deitasse em sua cama. Ela deixou-o fazer, como se fosse
uma menina pequena, depois, deitou-se junto a ela, e
abraçando-a dormiu, enquanto Eyra ficou acordada com os
olhos aterrorizados.
A partir desse dia, as coisas mudaram, Ragnar lhe
ordenou que dormisse com ele todas as noites, e sempre havia
alguém vigiando-a. Ela não falava, nem com ele, nem com
ninguém, e o viking não a tocou novamente, exceto para
dormir, quando a abraçava com suavidade. Ela não sabia
como, mas aquele abraço conseguiu que ela se sentisse segura.
Seu corpo traidor confiava naquele monstro com quem vivia,
embora sua cabeça não o fizesse.
Uma manhã, Ragnar agitava-se na mesa do salão
esperando que ela chegasse. Quando se deu conta de que ela
não o faria, decidiu chamar Helga; a anciã acudiu em seguida.
— Amo, — ela se inclinou diante dele assustada, porque
sabia o que acontecia.
— Helga, ordenei que Eyra viesse tomar o café da manhã
comigo.
— Sim amo, mas ela diz que não tem fome.
— Pouco me interessa que ela tenha fome ou não! Eu lhe
disse que viesse, tenho que ir buscá-la? — Deu um murro na
mesa que sobressaltou à anciã, Eyra que o escutou da cozinha
onde estava trabalhando, limpou as mãos para ir junto a ele.
Não podia consentir que o mau humor provocado por ela, fosse
pago por outras pessoas. Apresentou-se no salão, e depois de
lançar um olhar a Helga para que ela se fosse, sentou-se à
mesa. Ragnar, muito zangado, assinalou a papa que haviam
lhe trazido e disse:
— Coma, — ela continuou sentada, ele não podia obrigá-la
a comer, afinal encontrara algo no qual ele não podia ganhar.
— Maldita seja Eyra, não pode ficar mais tempo sem comer! —
Observou suas delicadas feições, que já acusavam a falta de
alimento. Ele sabia o que estava fazendo, ela já estava mais
magra, e sob seus olhos havia grandes olheiras escuras. — Se
você não o fizer sozinha, obrigarei você a comer. — Ela o olhou
como lhe desafiando a fazê-lo e ele franziu o cenho; por acaso
ela pensava não ser ele capaz de obrigá-la? Mas em seguida ele
soube que depois ela vomitaria. Já se dera conta do quanto ela
era teimosa. Precisava pensar em algo para obrigá-la,
possivelmente se a ameaça não fosse contra ela…
— De acordo, está bem. Jogaremos a seu modo, mas então
teremos novas regras, — sorriu com a mesma ironia que ela, —
o mesmo que você comer, a partir de agora mesmo, será a
única coisa que o resto das escravas comerá.
— Você não será capaz. — Sussurrou Eyra com a voz
seca. Sentia-se quase incapaz de falar pela falta de água; ele a
olhou para que ela visse a decisão em seus olhos.
— Não se engane comigo, para mim você é muito mais
importante do que elas, então, imagine se serei capaz ou não...
— nesse momento ela pegou a colher e começou a comer, ele
fez o mesmo, e não voltaram a falar disso.
Depois disso, estabeleceu-se uma frágil paz que ambos
tentavam não chocar. Todas as refeições ele fazia em sua
presença, para ter certeza de que ela comia bem, e depois ela
se levantava e voltava à cozinha, sendo seguida pelo olhar
ansioso dele. Eyra havia conseguido que sua discussão com ele
não afetasse a nenhum dos outros habitantes da casa, todos
escravos. Além disso, ela começara a ajudar na cozinha, e ele
mesmo havia lhe agradecido em um dos jantares, embora não o
tivesse respondido, porque evitava falar com ele.
Outro dia, ele a despertou durante a noite, ela o olhou
com o cenho franzido sem saber o que acontecia,
— Vamos, levante-se, não seja lenta, não se arrependerá.
— Eyra fez uma careta, ia dizer-lhe que estivera toda a tarde
cozinhando e estava esgotada, mas ele estivera trabalhando
nos campos junto com os outros homens, e, entretanto, ele não
parecia cansado.
— Está bem, já vou. — Ao ver que ele saía tirou a
camisola, para colocar o vestido, sem se dar conta de que ficou
na porta observando-a. Mas um sexto sentido a avisou e o viu,
então ele se aproximou dela. Eyra mantinha o vestido diante
dela como se fosse um escudo, mas ele não o tocou, mas sim,
parando a poucos centímetros de seu corpo, acariciou seu
pescoço com suavidade, e desceu com a mesma mão até seus
seios, onde lhe beliscou um mamilo e observou sua reação. Ela
o observava com medo, ele a havia machucado muito, então ele
deu um passo atrás e disse:
— Perdoe-me. Vista-se, vou pegar algo para que coloque
em cima. — Voltou minutos depois com capas para os dois,
cobriu-a com a menor, e depois lhe colocou um cinturão por
cima para segurar. — Assim ela não se moverá, há muito
vento. Vamos — agarrou-a pela mão, e a guiou para fora da
casa. Preparou Thor em instantes, enquanto ele relinchava e
esperneava ansioso. Eyra abriu a boca um pouco assustada
porque ele era um cavalo enorme, muito grande, mas não lhe
deu tempo de dizer nada. Ragnar a levantou sem esforço e a
colocou em cima do animal, depois ele subiu atrás dela, e se
colocaram em marcha.
Naquela ocasião sentiu que a experiência de cavalgar com
Ragnar atrás dela protegendo-a, era diferente de tudo o que
teria imaginado. Estava abrigada e, além disso, sentia-se
segura envolvida por seus braços, enquanto via como a terra
passava rapidamente ao lado do cavalo, que corria como se
desfrutasse em fazê-lo, e ela somente precisava se preocupar
em se manter ereta e desfrutar. Inclusive quando atravessava o
bosque, o cavalo o fez com uma segurança e uma rapidez como
nunca vira.
Quando viu que Ragnar a levava ao mesmo lugar onde
havia tomado sua virgindade alguns dias antes, por um
momento lhe ocorreu que ele voltaria a fazer o mesmo, e se
aterrorizou ao pensar.
Ele, ao sentir como tremia seu delicado corpo, fez uma
careta de nojo, contra si mesmo, e a apertou brandamente
contra ele, tentando fazer com que se sentisse mais tranquila.
Finalmente saíram do bosque e chegaram à ponta do
escarpado, tudo estava branco, desceu do cavalo e levantou os
braços para baixá-la, mas ela estava olhando o céu com a boca
aberta. Já havia começado.
— O que é isso? É lindo! — Ele sorriu contente por tê-la
trazido, e a baixou com cuidado, depois, mantendo-a
enganchada pela cintura, acompanhou-a até a borda do
penhasco. A vista dali era impressionante, e mantendo-a
apertada contra ele, ficaram olhando o espetáculo.
As luzes verdes ziguezagueavam como raios pelo céu,
como se dançassem umas com outras, indiferentes a quem as
estivesse olhando. Os dois as observaram com um sorriso,
sabendo que estavam na presença de um dos fenômenos
naturais mais impressionantes da terra.
— Meu pai nos dizia quando éramos pequenos que esses
fogos eram dragões que lutavam entre eles, em sua terra não
existe isso? — Olhou-a sorridente, ela negou com a cabeça e
lhe devolveu o olhar, desta vez sem medo.
— Não. Isto é lindo, quase parece magia!
— Eu acredito que seja algo natural, porque todos os
anos, por esta época se repetem. Sempre venho vê-las e queria
que você as visse comigo. — Não lhe disse o mais importante,
que seu pai também havia levado sua mãe para vê-las muitos
anos atrás, quando soube que ela era sua alma gêmea.
Olharam-se durante um longo instante, no qual ela sentiu que
algo dentro dela se abrandava, e um sorriso tímido apareceu
em seus rostos quando voltaram a olhar a aurora boreal, com
as mãos unidas. Era um bom começo.
Capítulo VI

Durante os dias seguintes se instalou entre eles uma


rotina cômoda, dormiam e comiam juntos, mas ele não voltou a
tocá-la exceto para abraçá-la na cama. Eyra, se não fosse por
algum olhar ardente que havia visto em um descuido dele, ou,
alguma topada acidental com seu pênis duro, como o ferro na
cama, teria pensado que ele já não a desejava.
Estava ajudando Helga, quando Liska, outra escrava,
entrou correndo para que ela a seguisse.
— Eyra! Venha. — A mulher riu ao ver a cara de nojo de
Eyra, porque ela estava tirando as tripas de um pescado, e
odiava fazê-lo. — Vieram muitos homens das granjas ao redor,
vamos! Limpe as mãos e venha. — Na noite anterior viera até à
granja um vizinho de Ragnar, para queixar-se de que uma
manada de lobos estava matando seu gado. Ela lavou as mãos
rapidamente com água e sal para tirar o cheiro, e enquanto as
secava, saiu atrás da moça.
Elas ficaram na entrada do salão, onde podiam escutar os
homens, porque eles falavam aos gritos. Para Eyra parecia
impossível que eles conseguissem se entender, por isso não
estranhou que Ragnar tivesse que gritar para se fazer ouvir.
— Escutem, falem um por vez! Knutsen! Fale você
primeiro! — Eyra já ouvira falar daquele homem, Ragnar dizia
que era, de todos seus vizinhos, quem mais possuía juízo.
— Ragnar, amigos, escutem-me, sabem que sou homem
de paz, nunca fui a uma incursão, nem gosto da guerra,
embora saiba que em certas ocasiões seja necessária, — era
um homem de pouca estatura, cabelo curto cinza, e olhar
tranquilo, — também não gosto de fazer mal aos animais, mas
preciso dizer que isto está ocorrendo, porque faz alguns anos,
quando fomos caçar os lobos que estavam acabando com
nossos rebanhos, não matamos a todos, fomos brandos e
deixamos uma fêmea com seus dois lobinhos, vivos. — O
homem pesaroso, moveu a cabeça, — foi um engano, e
reconheço que fui um dos que o cometeu, por isso, agora,
proponho que não perdoemos a nenhum deles, nem adulto,
nem cachorrinho. Porque um daqueles cachorrinhos
certamente será um inimigo dentro de alguns meses. Eu estou
preparado para sair de uma vez, o quanto antes, e terminemos
com tudo isto, amigos. — Todos assentiram e começaram a
gritar elevando as espadas ou as armas que carregavam.
Ragnar os observava, sério e um pouco afastado do grupo.
Eyra, não soube por que, sentiu a necessidade de ir com ele,
mas esperou que terminassem de falar para convencê-lo.
— Está bem, iremos em seguida, vão para fora e montem
seus cavalos, preciso de alguns minutos. — Enquanto a
vintena de homens saia pelo corredor, ela junto com Liska,
retirou-se alguns passos à escuridão para que eles não as
vissem. E assim que os estranhos desapareceram, aproximou-
se dele. Ragnar, intuindo sua presença levantou os olhos.
Sempre que ele a olhava assim, ela sentia que a percorria um
calafrio, seus olhos eram luminosos como o sol, quase
incandescentes, mas ele estava muito sério, inclusive,
parecia…pesaroso.

********

— Eyra. — Ele observou seu rosto e agarrou suas mãos.


Puxando-a para aproximar-se dele. — O que quer me pedir? —
Ela o olhou com o cenho franzido, porque não sabia quando ele
havia aprendido tanto sobre ela, mas não havia tempo para
perguntas.
— Preciso acompanhá-los. — Ele sorriu e acariciou sua
bochecha brandamente, negando com a cabeça, mas antes de
que pudesse fazê-lo com palavras, ela lhe disse. — É
importante para mim Ragnar. — Agora era ele que franzia o
cenho, assombrado pelo que aquela mulher o fazia sentir. Não
precisava gritar nem exigir, somente pedir, e lhe custava um
esforço enorme lhe negar alguma coisa, porque seu maior
desejo era agradá-la.
— Não é seguro Eyra…
— Não me separarei de você, por favor Ragnar. — Ela lhe
sorriu com algo de sua antiga malicia. — Ultimamente me
comportei muito bem… — Ele sorriu como resposta e suspirou
claudicando, não podia lutar contra, se ela ficava assim,
embora esperasse não se arrepender.
— Está bem, mas você irá em meu cavalo, e se eu tiver
que brigar com um lobo, ficará onde eu lhe disser, embora eu
tentarei nos colocar um pouco afastados das primeiras filas.
— Mas como? — Ela estava surpresa. — Pensei que você
fosse em primeiro lugar.
— Na guerra sim, mas para matar animais não, — ele
encolheu os ombros, um pouco envergonhado, — se não
houver mais remédio eu faço, sobretudo se for para comer, mas
eu não gosto de matar. — Surpreso, observou como ela se
aproximava e o enlaçava pelo pescoço, ficando nas pontas dos
pés, para chegar até ele. Então o beijou docemente, inclusive
introduziu sua língua entre seus lábios; quando ela terminou,
os dois respiravam mais depressa, e ele lhe perguntou.
— E isto foi por quê?
— Porque eu gosto do que você disse, eu adoro os animais,
na casa de meu pai havia muitos e eu me encarregava de
alimentá-los todos os dias. — Ele sorriu. — Estou começando a
gostar de você Ragnar. — Ele lhe deu um beijo rápido nos
lábios, e disse:
— Pegue sua capa. — Ela correu ao seu aposento e voltou
para o corredor, onde ele esperava para saírem, juntos. O
restante dos homens estava a cavalo falando entre si, e ficaram
olhando com a boca aberta, mas nenhum se atreveu a dizer
nada para Ragnar quando ele agarrou a sua mais recente
escrava, e a colocou em seu cavalo, montando, em seguida,
atrás dela para galopar para os bosques.
Eyra, duas horas depois, estava totalmente arrependida
por ter ido, já haviam matado quatro lobos, e ela havia
presenciado as mortes de cada um deles. Apesar de não ter
olhado em nenhum dos casos, escutou seus gemidos, e os
gritos vitoriosos dos humanos, também. Ragnar via como cada
vez ela ia se tornando mais pálida, mas não disse nada, porque
ela precisava aprender com seus enganos, ela quisera ir, então
faria isso com todas as consequências. De repente, o viking
ergueu a cabeça e viu um deles em frente a seu cavalo.
— Eyra. — Ele sussurrou. A moça o olhou questionando e
seguindo seu olhar observou o lobo que havia em frente a eles.
— Desça devagar do cavalo, ele está a ponto de atacar. — Atrás
deles havia uma série de arbustos que impediam que fugissem
por ali, Eyra desceu deslizando, e uma vez em terra observou
como Ragnar desceu com um salto, com a espada em sua mão
direita.
— Pegue Thor pelas rédeas e vá aos arbustos do fundo. —
Assim ele saberia que ela estava segura, porque o lobo
precisaria matá-lo para poder chegar até ela. O animal mostrou
os dentes baixando a cabeça com o pelo do lombo arrepiado,
grunhindo raivoso. Ragnar também grunhiu e mostrou os
dentes. Estando Eyra em perigo, não havia animal ao qual ele
não mataria mil vezes para protegê-la.
A moça observou como o lobo saltava para ele, babando e
rugindo como louco. Ragnar aguentou sua investida e levantou
a espada mortal, então ela afastou o olhar, porque sabia o que
aconteceria, e o fixou em suas botas, porque preferia não ver.
Então viu junto a seus pés, uma bolinha de pelos que brincava
com a neve, e que depois se sentou e a olhou com a cabeça
inclinada. Era um filhotinho de lobo, certamente quem havia
atacado Ragnar era a mãe, por isso ela estava naquele estado
de fúria, porque tentava proteger seu filho. Ela abaixou-se para
pegá-lo, e o filhotinho lhe lambeu o nariz apoderando-se de seu
coração.
— Já está pronto, Eyra, venha, voltemos para casa!
Procuremos os outros e…— ficou calado ao ver a imagem da
moça com o lobinho nos braços. Ambos o olhavam com as
cabeças juntas. — Solte-o, eu o matarei o mais rapidamente
possível. — Ela, ao escutá-lo, sentiu que lhe rompia o coração,
— Não! — Ele franziu o cenho com o olhar que ela
costumava mostrar quando ficava teimosa. — Por favor Ragnar,
não o mate, rogo-lhe isso.
— Ele morrerá de qualquer jeito, aquela que me atacou
era sua mãe, ainda estava mamando, seria pior para ele morrer
de fome.
— Por favor, deixe que eu o leve para casa. — Ele a olhou
como se ela estivesse louca.
— Você não sabe o que diz, — ele se aproximou com a
mão estendida para o tirar dela. Eyra escutou as vozes de
outros, sabia que não lhe restava tempo.
— Ragnar, em troca farei o que você quiser, juro-lhe isso.
— Ele entrecerrou os olhos, e deixou cair a mão. — Sei que
você quer que eu lhe pertença totalmente, e o farei, se você
deixar que eu fique e cuide dele. Entregar-me-ei totalmente a
você, serei sua, jurarei fidelidade, e lhe darei minha palavra de
não voltar a fugir.
— Está falando a sério? Tudo isto para ficar com um lobo?
— Ela assentiu, sentia que sua intuição a trouxera até ali para
salvar a vida desse animal. Ele a olhou durante um longo
minuto e respondeu: — Está bem, mas não permitirei que você
não cumpra sua promessa.
— Cumprirei, eu jurei. — Ela estendeu a mão para juntar
seu antebraço com o dele, como faziam os guerreiros. Ele, com
igual solenidade, envolveu seu antebraço, embora ela notasse
uma ligeira carícia do polegar dele.
— Venha, colocarei você no cavalo, esconda o lobo,
preferiria não precisar brigar com todos os vizinhos. Pelo
menos por enquanto, que não saibam nada disto, esperemos
que você seja capaz de educá-lo para que não coma o resto dos
animais da granja, porque senão, com promessa ou sem ela,
não poderei mantê-lo com vida. — Ela assentiu e deixou que a
subisse, depois saíram ao galope dali.
Quando chegaram a casa, o dia transcorreu rapidamente,
havia uma tensão estranha entre eles que somente os dois
notaram, porque todos estavam muito distraídos com a
presença do “Lobo”, que era como Eyra havia decidido chamá-
lo. Ela o levara à cozinha, e com um tecido havia tentado lhe
dar leite da vaca, mas ele brincava com o tecido e não bebia.
Helga pensou que possivelmente fosse capaz de beber de uma
terrina, e encheram uma com leite e água, para que o leite não
fosse tão forte, ele adorou, e esteve bebendo um pouco até que
decidiu brincar com ele e acabou atirando tudo pelo chão.
Helga e Liska a olhavam como se ela tivesse enlouquecido por
recolher semelhante animal, e depois disso o levou para seu
aposento, Ragnar os encontrou lá.
Ele havia esperado todo o dia para levá-la à cama, queria
que estivesse tranquilo quando ocorresse, por isso saiu para
trabalhar algumas horas nos campos e depois foi se banhar no
rio, tentando estar o mais apresentável possível. Depois, entrou
em seu aposento e sorriu ao vê-la brincar com o animal, estava
deitada em frente ao fogo rindo até as gargalhadas.
— Entregue-me isso, você é um lobo mau. — O lobinho
grunhia enquanto puxava um tecido com os dentes, estava-se
divertindo, a julgar por como movia o rabo.
— Eyra, — Ela soltou o tecido e o lobo caiu sentado
enquanto olhava os dois. Ao ver Ragnar se aproximou dele
correu e subiu em duas patas para reclamar sua atenção, ele
olhou à moça sem entender.
— Ele quer que você o pegue. — O viking arqueou as
sobrancelhas e o pegou, então o lobo lhe deu uma lambida no
nariz que fez com que ele risse, e o acariciasse junto às orelhas.
— Ele é como um cão.
— Sim. — Ela não disse nada mais, somente os observou
um momento, depois se levantou. — Sei para o que você veio
Ragnar, estou preparada. — Ele escutou um tremor em sua
voz, mas não podia fazer nada, somente lhe demonstrar que
não havia nada a temer. Para ajudá-la, aproximou-se da mesa
e serviu duas taças do vinho que costumava ter em seu
aposento.
— Beba Eyra, isto a ajudará. — Ele lhe entregou uma taça
de vinho, e bebeu outra, ela se aproximou do fogo enquanto
saboreava o líquido vermelho escuro. Trouxe-lhe boas
lembranças porque na casa de seu pai havia bebido muitas
vezes, já que ele era um grande aficionado ao vinho, mais que
ao hidromel. Sentiu como o álcool a esquentava por dentro, e
conseguiu que relaxasse um pouco seus músculos, rígidos
desde que o vira. Olhou o lobinho, que dava voltas perseguindo
seu próprio rabo, junto à porta. Quando quis se dar conta,
sentiu mãos sobre os ombros, a primeira coisa que Ragnar fez
foi lhe tirar a taça e deixá-la sobre uma mesa.
O viking a atraiu para seus braços antes que Eyra
pudesse pensar em alguma coisa, e seus lábios se apoiaram
com força nos dela. Suas musculosas coxas se apertavam
contra suas pernas, e suas mãos percorriam acariciando suas
costas. Tentou não lutar contra seu abraço, e ele continuou
acariciando-a com suavidade, até que ela se sentiu igualmente
excitada. A boca dele separou de seus lábios com exigência e
uma de suas mãos se moveu sobre seu vestido, acariciando-lhe
um dos seios, depois o abrangeu apertando-o um pouco, só o
necessário.
Ele se interrompeu de repente, e tomando Eyra nos braços
a aproximou da cama que estava somente a dois passos, mas
não a deixou nela porque parecia satisfeito com o simples feito
de tê-la em seus braços. Eyra observou seus olhos, de novo
haviam se tornado mais escuros, e brilhavam como as estrelas,
transmitindo sua necessidade. Ela, sabia que nada o deteria
desta vez, e ela também não queria que ele parasse.
— Depois disto já não seremos dois, mas um. — Ela
franziu o cenho ao escutar sua voz, não parecia a mesma de
um momento antes, era como se outra criatura falasse por ele.
Atreveu-se a perguntar, embora fizesse tempo que uma
suspeita invadia sua alma,
— Quem é você? — Ele sorriu enquanto a deitava e se
sentava junto a ela, voltou a pousar a palma de sua mão
esquerda sobre seu seio e depois se inclinou, mordiscando seu
mamilo sobre o tecido. Ela gemeu sem conseguiu evitar,
quando se ergueu de novo, ele respondeu a sua pergunta.
— Sou Ragnar. — Sua voz ainda se tornara mais grave,
conseguindo que ela o observasse como se estivesse
hipnotizada. — E existe algo mais, algo contra o qual lutei toda
minha vida, mas você vai fazer com que isso seja diferente a
partir de hoje. Nossa união fará com que eu volte a ser livre, o
espírito que mora em mim sempre se dobrará a minha vontade.
Por isso é tão importante, Eyra.
— Não entendo nada do que você diz. — Ela se erguia
apoiando-se em um cotovelo, observando seu rosto. Ele sabia
que quanto mais a fizesse esperar, seria pior para ela, porque
mais temeria a união.
— Acabou-se a conversa. — Ele se levantou da cama e
começou a tirar as calças e a camisa, ela por um momento
pensou em fugir, mas ao que parecia ele a conhecia, inclusive
seus pensamentos,
— Não tente Eyra. — Ele disse, quando ela olhou à porta
tentando calcular se lhe daria tempo para fugir. — Porque já
não há como voltar atrás.
Eyra contemplou fixamente o corpo nu dele, e de novo
sentiu medo, porque recordou o dano que ele lhe causara dias
antes no penhasco. Ela deslizou para fora da cama e correu à
porta, mas ele se moveu com rapidez e a agarrou pelo vestido
com uma mão, e com a outra pelas tranças que flutuavam
atrás dela, e a fez voltar para seus braços. Ragnar conseguiu
que ela se voltasse para poder ver sua expressão.
— Não tenha medo, prometo que nunca voltarei a
machucá-la. — Agarrou com as duas mãos o decote do vestido
e o rasgou de cima abaixo, deixando-o cair ao chão. Depois lhe
tirou a camisa, e segurando-a pelo braço, contemplou-a,
finalmente, nua em frente a ele. Com a mão esquerda
percorreu seu corpo do pescoço até os quadris, passando por
seus seios, e seu sexo, logo voltou a subir, e a atraiu para seus
braços outra vez, para beijá-la. Desta vez ela o deixou fazê-lo, e
suas línguas dançaram juntas durante um longo momento. Ele
levantou o rosto com os olhos incandescentes.
— Protegerei você com minha vida, ainda não sabe o
quanto você é importante para mim, Eyra, mas saberá. — Ele
ronronou e voltou a sorver seus seios.
— Não o entendo Ragnar. — Ele uivou de felicidade, uivo
que foi imitado pelo lobinho, e voltou a levantá-la nos braços,
deitando-a sobre a cama. Depois se colocou em cima dela e seu
corpo alto e musculoso roçou sensualmente contra o dela. Eyra
voltou a responder a outro de seus beijos com os quais ela
sentia que ele lhe roubava a alma. Quando ele se afastou, ela
emoldurou o rosto do viking com suas mãos e observou seus
olhos, onde conseguiu ver sua paixão por ela, uma paixão
avassaladora que ela, pela primeira vez, estava desejando
experimentar.
Capítulo VII

Eyra sentiu o que significava ser parte de outra pessoa,


ela começou a notar, pela primeira vez, o esforço que Ragnar
estava fazendo para ser suave com ela, por exemplo: com os
beijos que aplicava em seus seios, seu estômago em suas
pernas. Era muito persuasivo, e ela não conseguiu evitar que
suas próprias mãos percorressem os músculos de suas costas,
acariciando-o. Ele voltou a afundar o rosto em seu pescoço
aspirando seu aroma, e tocou suas tranças, maravilhado as
desfez e esteve um momento esfregando seu cabelo entre os
dedos como se estivesse assombrado por sua suavidade.
— Olhe para mim Eyra. — Ela o fez e sentiu como seu
coração se acelerava, porque, ao fazê-lo, sentiu-se querida.
Ninguém nunca a acariciara assim, nem sequer seu pai.
Ragnar sorria como se soubesse algo que ela desconhecia, e
separou mais as pernas da moça para poder ajoelhar-se entre
elas, depois, levantou-as por trás dos joelhos até posicioná-las
junto à cabeça de Eyra, quando ela começou a se dar conta do
que ele queria fazer, já era tarde para se queixar. Sentia-se
totalmente exposta, então o olhou, e soube que era aquilo que
ele estivera esperando, porque, lentamente, abaixou a cabeça e,
sem romper o contato visual, lambeu sua vulva de cima abaixo,
repetindo o movimento duas ou três vezes, depois a separou
com os dedos, e roçou brandamente a língua em seu clitóris,
no início lentamente, e cada vez foi chupando com mais força,
enquanto penetrava sua vagina com dois dedos.
Eyra sentiu como se um raio a percorresse pelo corpo, e
aspirou, com a boca aberta, uma grande baforada de ar,
enquanto se mantinha tensa, esperando.
— Não! Pare Ragnar! — Soltou um gemido estrangulado,
mas conseguiu somente que ele redobrasse seus esforços;
agora ele usava um dedo para acariciar seu clitóris, e a língua
para penetrá-la. Como resultado ela começou a gemer ao ritmo
de suas carícias, a mover os quadris, e então gozou. Nunca
havia sentido nada igual e por um momento lhe pareceu estar
flutuando sobre a cama, embora não se movesse. Ele esperou
que ela terminasse seu orgasmo, enquanto continuava bebendo
o mel que emanava de seu corpo, e depois, com cuidado, voltou
a deixar suas pernas estendidas sobre a cama. Deitou-se sobre
ela, tentando não a esmagar, e tomando sua cabeça entre as
mãos, beijou-a, colocando a língua em sua boca. Ela abriu os
olhos e respondeu ao beijo, embora meio entorpecida. Não
entendia o que acabava de acontecer, o homem culpado de lhe
causar o maior dano que sofrera em sua vida, era também o
responsável por ter lhe dado o maior prazer que havia sentido,
uma coisa que nunca imaginara que fosse possível.
Quando Ragnar se afastou dela, olhou-a nos olhos, os dele
pareciam felizes, os dela aturdidos.
— Ainda falta o melhor, alma gêmea. — Ela franziu o
cenho, porque pensava que já haviam terminado, — mas não
tenha medo, será igualmente bom ao que você experimentou
faz um momento.
— Não sei…, — ainda sentia como seu sexo palpitava,
embora começasse a reagir à rigidez do pênis que roçava contra
ela.
Ragnar sabia que era melhor não continuar falando, por
isso colocou seu pênis na entrada de seu sexo, e a beijou
longamente, depois, fez o mesmo com seus seios porque havia
notado que ela gostava muito. Olhou-a enquanto fazia aquilo, e
viu como ela mordia os lábios para não voltar a gemer.
— Grite se quiser, eu gosto quando você grita.
— Eu não grito.
— Sim, você grita. — Gostava que ela lhe respondesse,
mas sorveu com força um mamilo e ela fechou os olhos,
extasiada, então aproveitou para penetrá-la com um golpe de
quadril. Ela gemeu e o olhou com o cenho franzido,
— Por que não foi assim da outra vez? — Ele sentiu uma
grande ternura por ela, porque era tão inocente quanto uma
menina.
— Porque a primeira vez dói, mas não doerá mais.
— Certamente me lembrarei, se você precisar ser
desmentido. — Ela se lembrou de Hadar, mas Ragnar ficou
sério para responder.
— Eu não precisarei, nunca lhe mentirei, — ela afastou o
rosto, claramente incrédula.
— Tenho certeza de que você disse o mesmo para sua
concubina, e depois a expulsou. — Ele compreendeu que isso
era algo que rondava a cabeça dela e que a preocupava.
Levantou a cabeça com decisão, porque não deixaria que
houvesse dúvidas entre eles.
— Olhe para mim Eyra. — Esperou que ela o fizesse. — A
minha situação com Siv não tem nada a ver com isto, era um
acerto temporário que convinha aos dois. Isto é para toda a
vida, juro pelo mais sagrado para mim, que não estou
mentindo, nem lhe mentirei, embora eu acredite que isso me
trará muitos problemas, — ele brincou, — mas não o farei, de
acordo? — Ela duvidou, mas assentiu, desejava lhe dar uma
oportunidade, e esperava estar fazendo o certo. O viking lançou
um grunhido de felicidade por sua resposta, e seus lábios se
precipitaram ávidos sobre a boca entreaberta dela. Quando
finalmente ela também o beijou, ele sentiu que havia triunfado
na batalha mais importante de sua vida.
— Deseja-me, Eyra? — O corpo dela ardia pela excitação,
mas ele esperava sua resposta quase sem fôlego.
Eyra voltou a cabeça envergonhada, mas Ragnar exigiu,
com rudeza.
— Diga-me que me deseja, ou é você quem mente? — Ela
girou a cabeça com rapidez para olhá-lo
— Não... — Eyra finalmente conseguiu dizer com voz
entrecortada, — eu o desejo... Ragnar.
Ele voltou a se mover dentro dela, e conseguiu criar uma
tormenta que se estendeu por seu frágil corpo, até que ela
ofegou em voz alta e tudo voltou a explodir, fazendo com que
quase perdesse a consciência. Ele parecia realmente diabólico,
porque continuou invadindo-a sem piedade, até que conseguiu
que ela voltasse a sentir prazer, somente então ele se deixou ir,
e com um rugido escondeu a cabeça no pescoço dela, seu lugar
preferido.
— Já não posso mais, por favor Ragnar. — Ele olhou seu
rosto e se afastou para deixá-la descansar. Deitado de lado,
jogou para trás, com mão carinhosa, o cabelo revolto que lhe
cobria o rosto. Eyra fechou as pálpebras, estranhamente
tranquila, finalmente se sentia segura, como se tivesse voltado
para casa, e se sentindo assim, dormiu. Ele continuou
observando-a por um longo momento, ainda sem saber como
dirigir os sentimentos que buliam em seu interior.

********

Voltava a fazer pão de nozes, porque Ragnar havia dito


que era seu preferido. Eyra havia se acostumado bastante bem
a sua nova vida, e ambos estavam acostumando-se um com o
outro. Ela sorriu bebendo um copo de água ao recordar a noite
anterior em que ele, praticamente, não lhe deixara dormir.
Continuou com a refeição que estava preparando à noite,
queria se apressar porque depois queria se banhar e se vestir
para a visita dos pais de Ragnar: Erik e Yvette. Ragnar lhe
dissera que seu pai mandara um homem avisar que viriam
essa noite se lhe parecesse bem, e é obvio ele aceitara. Nessa
manhã foram ao mercado comprar o necessário para um jantar
especial, e Ragnar lhe presenteara com um vestido novo, o que
fizera Eyra sorrir todo o caminho de volta.
Quando terminou, ela deixou Helga para que vigiasse os
pratos, e correu ao aposento que compartilhava com Ragnar,
ali pegou sabão e uma toalha, e se dirigiu ao rio. Em sua terra
se banhava assim, a menos que fizesse muito frio para poder
suportar, porque odiava não se banhar inteira, preferia
aguentar o frio e conseguir se lavar bem.
Observou se não havia alguém nos arredores, e deixou sua
roupa escondida atrás de alguns arbustos, e foi se introduzindo
na água pouco a pouco, em um lugar que havia descoberto
dias atrás e que era bastante escondido. Adorava, porque podia
espichar seu banho o quanto quisesse já que ninguém nunca
andava por ali. Enquanto nadava para se esquentar antes de
começar a lavar o cabelo, deu-se conta de que ainda não era
totalmente feliz, havia deixado de ser amargurada desde o
momento em que aceitara sua nova vida.
Sabia que era uma sorte ter se entendido com Ragnar, na
cama se satisfaziam e brincavam como duas crianças, e se
davam bem, ela não aspirava mais nada depois de ter visto de
perto a desventurada união de seu pai com a sua madrasta
má, a quem, na verdade, não retornara a ver. Ragnar lhe havia
dito que ela e as outras duas escravas que a acompanhavam
haviam ficado com seu segundo ao mando. Ele pagou pelo dito
“privilégio”.
Depois de se banhar por inteira, saiu sentindo-se muito
melhor, e se secou rapidamente antes de voltar para casa, sem
se dar conta de que olhos malvados seguiram seus
movimentos.
Colocou seu vestido novo de veludo azul, e deixou o cabelo
solto, já que Ragnar lhe pedira que o deixasse, porque ele
gostava que ela o usasse assim. Quando se arrumou, voltou à
cozinha para ver como tudo estava, a carne já estava
terminada, e as batatas estavam assando na lareira, além
disso, fizera uma sobremesa que estava na prateleira da
despensa. Foi ao salão, e observou que a mesa já estava
arrumada, caminhou por ali se lembrando de quantas noites
ela havia presidido a mesa de seu pai, mas em seguida sacudiu
a cabeça, porque havia descoberto que a única maneira de
sobreviver e tentar ser feliz, era aceitar a vida como ela se
apresentava, e tirar o maior proveito.
Escutou um ruído na porta e se aproximou para abrir, já
que não havia ninguém mais para fazer. Era uma moça, muito
bela.
— Olá, você deve ser Eyra, não? — Ela assentiu sorrindo.
— Sim, e você quem é? — A mulher sorriu divertida, ao
ver que ela não imaginava quem era.
— Sou Yvette, a mãe de Ragnar. — Eyra moveu a cabeça
negando, e lhe disse:
— É impossível, você não pode ter idade suficiente para
ser a mãe dele. — Yvette, com uma gargalhada alegre, abraçou-
a sem prévio aviso, enquanto dizia.
— Você é encantadora! Quando tiver algum problema com
o bruto do meu filho, conte comigo e lhe ajudarei no que puder.
— Eyra se sentiu envergonhada enquanto seus olhos se
umedeciam, não podia acreditar que depois de tudo o que
havia passado, sentisse vontade de chorar por causa de um
abraço. — O que houve filha? — Yvette entrou e fechou a porta,
depois lançou um braço sobre os ombros de Eyra, que era
igualmente pequena como ela, e a levou até o salão, a moça
respondeu surpresa consigo mesma por se sentir assim
— Não sei, é que não me lembro de outra mulher que me
tenha abraçado com tanto carinho.
— Criatura de Deus! E sua mãe? — Yvette possuía um
coração bondoso, e também sentiu seus olhos se encherem de
lágrimas.
— Morreu faz anos, mas sinto saudades.
— Agora você tem a mim. Lembre-se, se precisar de mim,
ajudarei no que eu puder. — Olhou a seu redor. — Que bonito
está isto Eyra, e que limpo! Nunca vi a casa de meu filho assim.
Parece-me que Ragnar foi muito afortunado encontrando-a,
esperemos que ele mereça, — ela sorriu travessa
— Quer algo para beber? Prefere uma infusão?
— Pois se oferece, prefiro uma infusão, eu gosto muito.
— Espere um momento, irei pedir.
— Claro, muito obrigada. — Sentou em uma cadeira junto
à mesa, enquanto seu olhar passeava pelo salão, que havia
sido profundamente limpo naquela mesma manhã.
— Helga! A mãe de Ragnar chegou, e quer uma infusão,
sabe do que ela gosta? — A anciã assentiu sorridente e colocou
a mão em uma das terrinas que havia sobre a mesa da cozinha,
depois, encheu uma taça com água quente que sempre havia
sobre a lareira, e o tapou com um prato.
— Estará pronta em alguns minutos, depois precisa
somente adoçá-la com uma colherada de mel, é a infusão
favorita dela. — Enquanto procurava o mel que estava quase
endurecido por estar guardado na despensa, e brigar para tirar
uma colherada, a infusão ficou pronta, e a levou à mãe de
Ragnar.
— Está deliciosa! — Eyra se sentara em frente a ela. —
Meu marido e meu filho estão percorrendo a granja. Antes que
voltem, permita que a convide à festa que daremos em alguns
dias, comemorando o Solstício de Inverno. — Eyra a olhou sem
saber o que dizer.
— Não sei…se Ragnar quiser…é claro que irei.
— Claro que ele vai querer! Mas você também pode decidir
se quer ir ou não, gostaria de ir? — Eyra sorriu feliz.
— Sim, eu adoraria.
— Estupendo então, e diga-me, como estão meu filho e
você?
— Eu acredito que bem, na verdade. Agora já não
discutimos, e cada vez nos entendemos melhor.
— E nada mais? Quer dizer, não há vezes nas quais,
estando você separada dele, parece que não consegue respirar?
— A moça negou com a cabeça, e Yvette assentiu. — Está bem,
é possível que vocês sintam de outra maneira. — Pareceu que
ela ia acrescentar algo mais, mas se calou ao escutar a porta,
porque os homens haviam chegado.

********

Ragnar estava sentado junto a seu pai, ao lado do fogo,


porque Erik queria falar com ele, mas estava distraído, seu
olhar voltava uma e outra vez, para Eyra que falava e ria com
sua mãe. Estava muito contente de que fosse assim, é claro,
mas ele estava com a sensação de que ela estava rindo mais
com sua mãe, do que com ele durante as semanas que estava a
seu lado.
— Ragnar pode deixar de olhar a moça durante alguns
minutos? — Seu filho o olhou com os olhos brilhando com um
fogo azul incandescente, que lhe recordou outros tempos nos
quais lhe acontecia o mesmo, e se sentiu feliz pela sorte que
esperava seu filho mais velho, embora pudesse ver que o
berserker ainda não estava domado. — Filho, tem algum
problema com ela?
— Não pai, tudo vai bem.
— Mas o berserker ainda está em pé de guerra, não é
assim? — Ragnar que nunca renunciava a uma briga, e sempre
falava claro, encolheu os ombros sem responder, voltando a
olhar à moça.
Até o jantar não souberam qual era o verdadeiro motivo da
visita dos pais de Ragnar,
— Filho, eu preciso ir a Birka para levar um carregamento
de peles, estão acumuladas há três anos, e preciso que você me
acompanhe. Sei que não é bom momento para você, mas não
lhe pediria isso se não fosse importante. — Ragnar olhou para
sua mãe, porque sabia a quem se devia realmente aquele
pedido. Seu pai jamais teria reconhecido que precisava de
ajuda, mas no ano anterior, quando foi a Birka para vender as
peles, caiu doente, foi bem grave e aquilo fez todos se
lembrarem de que ele não era mais um jovem. Sua mãe
assentiu disfarçadamente, para pedir que aceitasse. Então
olhou para Eyra, porque não queria deixá-la sozinha, se lhe
acontecesse algo, ele não poderia viver.
— É claro que Eyra pode vir comigo para casa o tempo que
estiverem fora, você gostaria disso filha? Além disso, poucos
dias depois serão as celebrações do Solstício, e poderão ficar lá
em casa até depois da festa. — Olhou para Ragnar esperançosa
pelo que ia dizer. — Estarão todos os seus irmãos Ragnar, faz
muito tempo que não nos juntamos todos. Rognvald e sua
mulher já chegaram, mas estão passando alguns dias na casa
de alguns amigos — Eyra encolheu os ombros sem saber o que
dizer, embora depois, vendo que Erik precisava de seu filho, e
Ragnar hesitava em aceitar, por causa dela, assentiu olhando-
o. Yvette parecia muito bondosa, não se importaria de passar
mais tempo com ela. Ragnar olhou fixamente para sua alma
gêmea enquanto respondia.
— Eu o acompanharei pai. — Erik sorriu e levantou a taça
de hidromel para chocá-la com a de seu filho. As duas
mulheres os observavam absortas.

********

Naquela noite Ragnar foi especialmente insaciável, partiria


em dois dias, e não sabia como dormiria as noites sem tê-la em
seus braços, parecia-lhe impossível. Quando os dois
alcançaram o prazer, abraçou-a com força, e notou como ela
fazia o mesmo. As palavras que ele devia dizer aguardavam em
sua boca, mas não saíram dela, embora não soubesse o
porquê. Já a amava mais que qualquer coisa, mas não
conseguir falar, possivelmente, porque não sabia o que ela
sentia. Era um covarde com ela, embora não tivesse medo de
nada mais na vida, beijou sua testa em silêncio, e inspirou
fundo observando a lua que penetrava pela janela, desejando,
desejando.
Capítulo VIII

Seu pai esperava com o resto dos homens no navio em


frente à praia, e ele se levantou, para se despedir, diante à
pequena mulher que conseguira ser tão importante em sua
vida, mas antes que pudesse lhe dizer alguma coisa, ela se
jogou em seus braços e ele a abraçou enquanto a cheirava, com
o rosto em seu pescoço.
— Fique calma, voltaremos em uma semana quando
muito, — separou-se dela sorrindo, — quando eu voltar,
falaremos. — Ela assentiu com os olhos quentes e tristes por
sua partida. Era a primeira a se surpreender por seus
sentimentos, porque até tê-lo visto recolher suas coisas, não
sabia o que sentia.
— Vou sentir saudades, Ragnar. — O sorriso dele esteve a
ponto de cegá-la, e como resposta a beijou, dizendo-lhe sem
palavras o que sentia.
— Eyra eu… — os gritos de seu pai chamando-o, fizeram
com que amaldiçoasse em voz alta e lhe desse outro beijo
rápido. Depois, a seu pesar, empurrou-a brandamente para os
braços de sua mãe. — Cuide dela mãe, porque é a coisa mais
importante que tenho na vida. — Sorriu às duas mulheres que
reinavam em seu coração e correu através da água para o
navio, enquanto Eyra o olhava chorando, e Yvette a abraçava
feliz, ao ver o carinho que os unia. Lobinho uivou triste pela
partida de Ragnar, mas sem se mover do lado de sua ama.
Até que o drakkar não desapareceu da visão, não
entraram na casa, e o fizeram abraçadas pela cintura,
enquanto Lobo dava saltos em volta de Eyra, tentando chamar
sua atenção. Os dois primeiros dias passaram depressa, e, no
terceiro, já cansada de estar sentada no salão com Yvette
enquanto ela tecia, decidiu lhe perguntar algo que lhe rondava
a cabeça.
— Yvette, importa-se que eu ajude na cozinha? Posso fazer
isso ou trabalhar na horta, porque em outros trabalhos de
mulheres não me saio muito bem.
— Não precisa fazer nada filha, está aqui como convidada.
— Eu gostaria de fazer, não quero estar pensando nele
sem parar — Yvette a observou e lhe fez um gesto para que se
sentasse a seu lado.
— Sente-se filha, diga-me, o que a preocupa? Os homens
virão em cinco dias. Ragnar voltará para seu lado antes que se
dê conta, somente foram vender as peles, não é como quando
vão a uma incursão ou à guerra.
— Eu sei. — Ela estava muito nervosa, embora não
soubesse porquê, olhou para Lobo que estava deitado a seus
pés, observando-a e movendo o rabo. Yvette seguiu a direção de
seu olhar sorrindo.
— Nenhuma vez vi um lobo que agisse como este, nem
sequer sabia que poderiam conviver com os humanos, você teve
algum quando era pequena?
— Não, mas em casa sempre tínhamos cães, e quando o
encontrei, tão pequeno, — acariciou-o entre as orelhas, onde
ele mais gostava, — não pude permitir que o matassem, era um
ser inocente. — Lobo lambeu seus dedos provocando a risada
das duas mulheres. — Amanhã irei à casa buscar o restante de
minha roupa. — Ela estava tão aturdida quando Ragnar a
trouxe para casa de seus pais, que havia deixado a maioria de
suas coisas lá, sem dar-se conta.
— Se for a tarde, eu a acompanharei. Pela manhã preciso
ver alguns vizinhos que estão com seu bebê muito doente, e
lhes levarei algumas coisas.
— Não se preocupe Yvette, voltarei em seguida, até
deixarei o Lobo aqui com você, para que eu não me atrase. —
Sua sogra a olhou indecisa, mas depois assentiu.
— Está bem, como quiser, direi a Olaf que a acompanhe.
— Não é necessário, irei a cavalo, e não pararei até chegar
lá, não se preocupe, de verdade.
— Está bem, como quiser, e já que vai, por favor, quando
vier traga um pouco da mistura que Helga faz para a dor de
cabeça, porque me esqueci de lhe pedir na última vez que
estive lá, e é a única coisa que consegue me tire a dor, quando
as tenho.
— Claro que sim, agora vou à cozinha para dar uma mão,
assim não continuarei me preocupando.

********
Dois homens se esconderam atrás de algumas árvores, de
onde podiam vigiar a entrada da granja. Quando estavam
sentados, um deles tirou um pouco de carne seca do embornal
e a compartilharam, eram morenos, com o cabelo e a barba
longos e descuidados e em geral com aspecto de sujos.
— Tem certeza de que ela não está?
— Não, ontem não apareceu por todo o dia. Por isso decidi
ir buscá-lo, se por acaso tivermos que esperar vários dias. Não
a vi desde outro dia, quando esteve se banhando nua no rio.
Que mulher! — O outro, maior e mais forte do que ele, assentiu
com a boca cheia, e voltou a perguntar.
— Diga-me outra vez quanto nos pagam…
— Dez moedas de ouro, cinco para cada um, mas
precisamos levá-la intacta, porque querem fazer com ela algum
tipo de bruxaria. Aquela que nos paga foi muito clara, não
podemos tocar à moça porque senão, ela não lhe serviria, falou
alguma coisa dos fluidos, mas era tão nojento que preferi não
escutar. Os dois irmãos se olharam enojados, enquanto
comiam com as mãos negras de sujeira. Nenhum dos dois
gostava de bruxas.
No dia seguinte, muito cedo, Eyra foi à granja de Ragnar,
buscaria sua roupa, mas além disso, gostava de montar a
cavalo, porque havia despertado muito intranquila. A princípio
pensava que seria por causa da viagem de Ragnar, mas agora,
sentia que havia algo mais, parecia que estava a ponto de
acontecer alguma coisa, embora não soubesse o que era.
Deixou que o cavalo corresse à vontade, através dos campos.
As duas granjas estavam muito perto uma da outra, por isso
não lhe pareceu necessário que alguém lhe acompanhasse,
porque demoraria somente dez minutos para chegar. Deixou os
arreios no estábulo e entrou na casa passando pelo salão, onde
ficou observando o quanto ele estava vazio. A cadeira onde
Ragnar sempre se sentava parecia maior, voltou-se e caminhou
à cozinha chamando por Helga; a anciã saiu a seu encontro e
sorriu ao vê-la.
— Eyra! Acreditava que você ficaria ao menos uma
semana lá! — Ela assentiu aproximando-se.
— Sim, mas vim buscar minha roupa, deixei aqui, a bolsa
foi esquecida em meu aposento. Vou pegá-la e depois volto à
casa dos pais de Ragnar. — Quando já caminhava pelo
corredor para o dormitório de Ragnar, virou-se para Helga
lembrando-se do pedido de Yvette.
— Helga, esquecia-me! Yvette pediu que me entregue um
pouco da mistura que você faz para dor de cabeça.
— Não tenho pronta, mas demorarei somente um pouco
para prepará-la.
— Está bem, enquanto isso, irei um momento à horta,
porque lá quase não temos ervas para cozinhar, e levarei
algumas. Volto em seguida. — Helga assentiu enquanto ia à
cozinha para preparar sua mistura especial contra as dores de
cabeça, e Eyra saía pela porta dianteira para ir à horta. Não viu
ninguém, mas eles a vigiavam de seu esconderijo, os dois
homens que a esperavam desde o dia anterior. O irmão mais
velho sussurrou no ouvido do caçula.
— Corra para buscar os cavalos. — Quando seu irmão foi
buscá-los, ele seguiu os passos da moça sem fazer ruído.
Quando chegou a seu lado, observou-a inclinada sobre
algumas plantas, que cortava com uma faca pequena, tapou-
lhe a boca e em seguida lhe colocou uma mordaça, amarrando-
lhe à nuca. Depois, amarrou suas mãos, mas ela não parava de
resistir. Por causa disso ele lhe deu um golpe no rosto com o
punho que a fez desmaiar, assim finalmente conseguiu amarrá-
la e carregá-la. Quando saía dali, aconteceram várias coisas ao
mesmo tempo, seu irmão chegou com os cavalos, e quando ele
caminhava com a moça nos braços, uma velha saiu gritando da
casa.
— O que fazem? Soltem-na! — O sequestrador subiu
rapidamente no cavalo, e saíram galopando. Helga chegou
tropeçando até a horta enquanto observava, aterrorizada, o
quão depressa galopavam os cavalos. Levou a mão à boca
assustada, e, em seguida, correu para procurar ajuda,
precisava chegar o mais rapidamente possível à granja de Erik
e Yvette.
Yvette escutou o que Helga lhe disse empalidecendo, e
caiu sentada na cadeira que havia atrás dela.
— Meu Deus! O que vou dizer ao meu filho? — Esfregou o
rosto, angustiada, porque vira o amor que seu filho sentia por
Eyra. Mas não podia ficar quieta, faria o possível para ajudá-la,
— Reconheceu os que a levaram?
— Não, nunca os vi. — A anciã sabia, como todos na
granja, que seu amo enlouqueceria se a moça não aparecesse.
Não precisava mais do que, vê-los juntos durante os últimos
dias, para saber que ele não aceitaria seu desaparecimento.
— Os homens não voltarão até dentro de cinco dias, a
menos que façamos algo. — Levantou-se e saiu dali a toda
pressa, seguida por Helga. — Meu filho Rongvald está perto, na
casa de alguns amigos. Irei buscá-lo, e direi para Olaf que me
acompanhe, por favor, preciso que você fique aqui se por acaso
acontecer mais alguma coisa. Yvette saiu correndo para os
estábulos para pegar dois cavalos.
Menos de uma hora depois, Rognvald se despedia de sua
esposa, para voltar a granja de seus pais, com sua mãe e Olaf,
o escravo de confiança de seu pai. Aproveitou o caminho para
ter mais informações.
— Realmente é tão importante essa escrava para Ragnar,
mãe? — Ela assentiu, enquanto mordia o lábio preocupada.
— Sim filho acredito que ele, finalmente, encontrou sua
alma gêmea. — Seu filho a olhou surpreso, já que seu irmão
mais velho era o que mais havia demorado a encontrar a
metade perdida de sua alma.
— Não quero nem pensar que algo assim acontecesse com
minha esposa. — Mas Yvette estava pensando como poderiam
avisar Ragnar do que acontecia.
— Filho, pode pegar o navio de seu pai — Erik tinha dois
Drakkar, um deles, recém construído, podia ser conduzido por
dois tripulantes, Rognvald a olhou, sorrindo travesso, porque
ele havia pedido o navio para seu pai várias vezes para
experimentá-lo, e ele sempre se negou.
— Ele vai se zangar com você.
— Não brinque, isto é muito importante, seu pai
queimaria cem navios se com isso assegurasse a felicidade de
vocês.
Chegaram rapidamente em casa, e enquanto saíam dos
estábulos, Rognvald disse para Olaf.
— Acredito que se lembre como navegar. — O homem
respondeu muito sério.
— Melhor do que você.
— Vamos ver isso logo. Mãe, enquanto revisamos o navio,
que nos tragam água e um pouco de comida. A nave que papai
construiu é muito rápida, mas demoraremos ao menos um par
de dias para alcançá-los. — Yvette saiu correndo enquanto
chamava Helga e a Liska para que a ajudassem. Rognvald e
Olaf chegaram à praia, onde admiraram, em silêncio, o drakkar
que, com a âncora baixada, as velas enroladas balançava-se ao
compasso do mar.
— Seu pai me convidou para dar uma volta com ele
quando o terminou, nunca viajei em um navio mais manejável
e rápido do que este. — Os dois suspiraram olhando-o, e
entraram na água para subir nele e começar a preparar a
saída.
Erik era um grande carpinteiro, embora não gostasse que
dissessem, porque a maior parte de sua vida tivera que
guerrear para conseguir o que possuía e preferia que o
considerassem um guerreiro, mas quando Rognvald passou a
mão pela madeira do drakkar, deu-se conta de que seu pai não
era um simples carpinteiro, era um artista. Sabia que ele havia
demorado um par de anos para construí-lo, e que o fizera
sozinho, porque não quis que ninguém o ajudasse. Admirou a
altura do mastro, e o feroz dragão que fora esculpido na
máscara de proa, para assustar seus inimigos.
— Rognvald, filho! — Sua mãe já estava na praia, onde
estavam deixando os mantimentos que ele pedira. Desceu para
recolhê-los, enquanto Liska e Helga voltavam à casa para
buscar o resto das coisas. Subiram tudo, Olaf e ele, e depois se
aproximou de sua mãe para lhe dar um abraço rápido.
— Não se preocupe mãe, alcançá-los-ei, e voltarei com
meu irmão. — Yvette acariciou um momento a bochecha de seu
filho e assentiu dando um passo para trás, Rognvald voltou
para o navio, ao qual subiu ajudado pela corda que estava
pendurava na amurada. Depois, elevaram a âncora e partiram.
Yvette ficou olhando o navio até que ele desapareceu,
rogando a Deus para que todos voltassem sãos e salvos.

********

Ragnar não conseguia dormir, aquela noite se deitou à


mesma hora que as outras noites, mas finalmente fora
substituir seu pai em frente ao leme, para que pelo menos ele,
pudesse descansar. Envolvendo-se melhor em sua capa de
peles, olhou para o céu estrelado, e depois à bússola que
tremia junto ao leme, atento a qualquer mudança de rumo.
Quatro horas depois seu pai lhe colocou a mão no ombro, mas,
embora ele se negasse a sair, Erik “O Vermelho” insistiu.
— Ragnar, não seja teimoso, descanse ao menos algumas
horas. — Seu filho o olhou e ele franziu o cenho ao ver seus
olhos. — O que está acontecendo? — Mas Ragnar encolheu os
ombros.
— Não sei, estou nervoso, mas não sei porquê. — Respirou
fundo e deixou o leme para seu pai. — Está bem, descansarei
um momento, embora não acredito que consiga dormir.
Deitou-se sobre o convés, afastado do restante dos
homens, coberto por sua capa, fechou um momento os olhos, e
ao contrário do que esperava, dormiu.
Em sua mente apareceu Eyra, mas não como a vira pela
última vez, mas estava ferida. Estava com o rosto desfigurado,
amarrada e amordaçada, e dois homens a levavam a cavalo
através da neve, embora não pudesse ver onde eles estavam.
Ela estava sentada diante de um deles, e chorava em silêncio,
Ragnar, sobressaltado, conseguiu ver seus pensamentos como
se estivesse dentro dela. Assim conseguiu saber que ela estava
certa de que ia morrer, e que sentia muito medo, mas, que
acima de tudo, sentia não ter se despedido dele. Quando a
imagem desapareceu de sua mente, ele se sentou puxando o
cabelo, meio enlouquecido e lançando um uivo que despertou o
restante dos homens do navio. Seu pai, que havia bloqueado o
leme, aproximou-se dele, assustado ao vê-lo assim.
— Filho! O que está acontecendo? — Jamais havia
escutado aquele grito de sofrimento, Ragnar se levantou com os
olhos ardentes, mais azuis do que nunca, e repletos de
lágrimas.
— Pai! Eyra está em perigo! Precisamos voltar, — seu pai
colocou as mãos em cima de seus ombros, e o olhou no rosto
fixamente, depois se voltou para o leme enquanto gritava:
— Atentos! Vamos virar completamente! — Todos os
marinheiros que os acompanhavam não se atreveram a
perguntar o que houve, ainda atemorizados pelo uivo de
Ragnar. Ele colocou-se na proa observando a escuridão com
olhos ferozes, aumentando por momentos sua ânsia de
vingança. Ao amanhecer, encontraram-se com Rognvald, que,
aos gritos dentro do navio de Erik, contou-lhes o ocorrido.
Ragnar se voltou para seu pai.
— Pai, você quer continuar para vender as peles? Eu
posso voltar com Rognvald. — Seu pai franziu o cenho e o
olhou zangado.
— Não diga idiotices, e vamos procurar sua mulher!
Os dois navios voltaram a toda velocidade à granja de
Erik, enquanto Ragnar prometia uma morte horrível a qualquer
um que tivesse feito mal a sua mulher.
Capítulo IX

Eyra estava esgotada e quando o homem a empurrou do


cavalo, ela caiu esparramada no chão, provocando a risada dos
dois irmãos, pois por suas palavras ela já sabiam que o eram.
Em seguida, aquele que parecia mandar, agarrou-a pelo vestido
arrastando-a enquanto ela tentava acompanhar o passo, mas
era difícil de fazê-lo, porque, além do cansaço e da dor que
sentia em todo o corpo, por um olho não via absolutamente
nada devido ao inchaço. A parte direita do rosto lhe pulsava
pela dor constante, e sentia as mãos e a boca em carne viva.
Sentiu vontade de chorar, mas não o fez e voltou a pensar
em Ragnar, porque descobrira que pensar nele lhe dava forças.
O homem finalmente a deixou junto a um rio que cruzava o
bosque ao qual acabavam de chegar, e ela os olhou com o olho
bom, certa de que morreria nos próximos minutos. Jurou a si
mesma que não arrastaria a honra de sua família suplicando
por sua vida, e ficou ajoelhada olhando o rio, tentando se
acalmar, esperando seu final.
— Sabe se demorará muito? — Estavam falando entre si e
ela os escutava sem olhá-los, porque não queria que se dessem
conta de que os ouvia. Aparentemente esperavam alguém.
— Não, viemos antes de tempo, mas estou certo de que
chegará em seguida. — Amanhecia e Eyra podia notar como o
sol pouco a pouco iluminava o dia. Estava com aqueles dois
malditos por um dia inteiro, à tarde e noite anterior eles
estiveram escondidos em uma cabana, mas saíram dali pouco
antes que amanhecesse. Então, na realidade, estavam muito
perto da granja de Ragnar. Ela lançou uma prece para que
Deus lhe permitisse morrer antes que eles conseguissem
machucá-la, embora já escutara eles dizerem que se a
violassem, a pessoa que os contratara não os pagaria. Embora
isso não os tivessem impedido de bater nela, quando pensaram
que ela não cumpria suas ordens rapidamente.
Apesar das cordas, conseguiu se sentar com as pernas
encolhidas contra o peito, tentando passar o mais despercebida
possível, depois apoiou a cabeça sobre as pernas, tentando
descansar, sem cochilar, embora às vezes não conseguisse
evitar. Não soube quantas horas haviam se passado quando
escutaram os cascos de um cavalo se aproximando. Os dois
homens ficaram de pé, e ante um sinal daquele que mandava,
o outro a agarrou por um braço e a arrastou para trás de uma
árvore, onde se esconderam. Dali puderam ver que uma
mulher muito bela, chegava a cavalo e encarava o homem:
— Onde está a moça? — O bandido segurou as rédeas do
cavalo, e fez um gesto com a mão para que ela lhe pagasse
— Darei o dinheiro assim que me entregar à moça, além
disso, já lhe disse que, se fizer bem este trabalho, terá mais, e
igualmente bem pagos. Se não me enganar se dará muito bem
comigo, sou muito generosa.
— Hrolf! Venha com a moça para que a senhora a veja! —
O homem a agarrou pelo pescoço e a fez caminhar. Quando
estavam a alguns metros, ele a fez parar, e a desconhecida
observou Eyra atônita.
— Eu lhes disse que não a tocassem!
— Disse que não a violássemos, e apesar da vontade que
tínhamos, aguentamos. Mas é um pouco rebelde, não é verdade
moça? — Eyra o olhou com o único olho que podia abrir,
desejando poder ver, mesmo que fosse sua última visão antes
de morrer, como Ragnar acabaria com todos eles. Mas isso era
impossível, porque ele não poderia encontrá-la.
— Está bem, tome, amarre esta corda à cintura dela. —
Siv, pois era ela, lançou-lhe a ponta da corda e ela amarrou a
outro à sela de seu cavalo, depois atirou uma bolsa que o mais
velho dos irmãos abriu para comprovar o conteúdo. — Aí está o
pagamento, dez moedas de ouro, eu os avisarei assim que surja
outro…trabalho. — Eles assentiram enquanto observavam
incrédulos as moedas de ouro, porque era a maior quantidade
de dinheiro que viram junto. Continuavam observando as
moedas enquanto elas desapareceram dentro do bosque.
Siv ria descontroladamente enquanto Eyra, totalmente
esgotada e com as pernas geladas por estar caminhando sobre
a neve, tentava continuar no passo do cavalo, que a arrastava
sem piedade. Em poucos minutos, felizmente, chegaram a uma
casa que se encontrava no outro lado do pequeno bosque. Siv
desceu do cavalo deixando-o com um escravo que olhou para
outro lado quando viu a mulher cativa, e o levou. Ela agarrou a
corda para segurar Eyra, e a enrolou em seu pulso. Eyra estava
caída de joelhos em frente a ela, com a cabeça abaixada, e
respirando agitadamente.
— Assim é como eu queria vê-la, de joelhos! Por sua culpa
perdi meu homem, porque jogou um feitiço sobre ele, mas hoje
vou fazer com que tudo volte a ser como antes. Fui ver uma
feiticeira que me deu a solução, é uma pena que você precise
morrer para eu conseguir minha felicidade, mas a vida é assim.
— Eyra observou a risada desequilibrada da mulher, sabendo
que morreria pelas mãos de uma louca, e como Ragnar sofreria
quando soubesse do ocorrido.
— Não percamos mais tempo, vamos! — Ela a fez entrar
na casa e Eyra olhou ao redor assombrada. Tudo estava muito
sujo, como se fizesse meses que ninguém limpava. — Sente-se
nessa cadeira. — Depois, amarrou-a, sem lhe tirar as amarras
das mãos, nem a mordaça.
— Você não deveria ter olhado para meu homem, — ela
cantarolou enquanto agarrava uma faca muita afiada da mesa,
e a limpava em seu vestido. — Ragnar era meu até que você o
enfeitiçou, mas ele voltará a ser. — Começou a misturar vários
líquidos de diversas terrinas em uma taça, conseguindo que
desprendessem um aroma horrível, e deixou cair sua faca no
líquido resultante. — A adaga já está encharcada com o líquido
mágico, depois, em poucas horas, quando cair a noite,
terminarei o ritual. Quando você emitir sua última respiração,
seu feitiço deixará de existir, e ele voltará para mim e nem
sequer se lembrará de você. Mas precisa ser quando o sol já
não estiver no céu. — De repente ela olhou em volta e pareceu
ficar nervosa. — Preciso de mais plantas, não tenho o
suficiente! — Então, saiu correndo.
Eyra sentiu que um soluço lhe subia à garganta, mas se
controlou. Tentou se soltar das cordas, mas, embora Siv
estivesse louca, não era tola, e a amarrara perfeitamente.
Apesar de saber que era impossível desamarrar-se continuou
lutando contra as cordas, sentindo como lhe doía todo o corpo,
mas pensar em seu viking lhe dava forças para continuar
lutando.

********

Ragnar foi o primeiro que desceu do navio, e correu à casa


de seus pais, seguido por Erik que tentava seguir seu ritmo,
embora por sua idade lhe custasse fazê-lo. A porta da casa foi
aberta quando ele quase chegava e sua mãe o abraçou
incrédula.
— Meu filho eu nunca me perdoarei por isso! — Afastou-se
para olhá-lo estranhando. — Mas como você veio tão depressa?
Não os esperava pelo menos até amanhã.
— Demos a volta ontem, quando já havíamos percorrido a
metade do caminho de volta, encontramos com Rongvald que
chegará logo, ele vem atrás de nós.
— Por que você disse na volta?
— Sonhei que Eyra estava em perigo e quando despertei
soube, não sei como, que o que eu havia visto era verdade.
— Sim, seu pai e eu, em algumas ocasiões sentimos essa
intuição, quando precisávamos um do outro.
— Sim, ele me contou isso. Por isso acreditou em mim,
assim que eu lhe contei, não colocou em dúvida, mas me diga
mãe, tem ideia de onde ela possa estar?
— Não filho, mas espere um momento, que vou procurar a
Helga, ela viu os homens que a levaram. A pobre correu atrás
deles, mas não foi capaz de alcançá-los. — Sua mãe voltou ao
mesmo tempo em que Erik entrava, ele havia deixado lá fora o
restante dos homens.
Observou como seu filho passava a mão pela cabeleira
ruiva, mais nervoso do que jamais o havia visto em toda sua
vida. — Não sei o que farei se eu não chegar a tempo. — Seu
pai se aproximou até se colocar em frente a ele.
— Acalme-se Ragnar, seu irmão já está chegando, e nós
três a encontraremos, não se preocupe. — Ragnar franziu o
cenho ao notar que algo lhe arranhava as pernas, ao baixar o
olhar e ver lobo agarrou-o nos braços, e o lobinho, como fazia
sempre, lambeu-lhe o nariz. Conteve a vontade de afundar seu
rosto na suave pelagem do animal e chorar como um menino,
lembrando-se de sua mulher. Mas não fraquejaria quando mais
o precisava, quando tudo passasse, poderia se perguntar o que
fizera de mal, amaldiçoar e rugir, mas agora precisava manter a
cabeça fria. Quando voltou a deixar Lobo no chão, o animal
correu à porta saindo fora, e voltou a entrar latindo, estava
muito nervoso, Erik o observava estranhando.
— O que ele quer? — Ragnar negou com a cabeça.
— Não faço nem ideia. — O animal voltou a se aproximar e
olhando para Ragnar voltou a correr à porta, depois se sentou
ali enquanto uivava ao ver que não lhe davam atenção.
— É como se quisesse que você fosse com ele.
— Será que quer brincar? — Erik assentiu, mas não
parecia muito convencido.
— Ragnar, aqui está Helga. — A anciã vinha limpando as
mãos, que estavam manchadas de terra, e se colocou de frente
a ele esperando.
— Olá Helga, conte como eram aqueles homens, e o que
fizeram.
— Eram morenos, e estavam muito sujos, as roupas
pareciam velhas, como se fossem mendigos. Quando saí da
casa vi um deles bater no rosto de Eyra, para forçá-la a ir com
eles, depois, com ela desmaiada, levou-a nos braços até o
cavalo e ele montou atrás. Os dois estavam a cavalo, mas não
sei que mais lhe dizer, porque os vi pouco tempo, e além de
tudo, de longe.
— Recorda-se de tê-los visto antes?
— Não, eu me lembraria, aqueles dois não são daqui. —
Ela encolheu os ombros. — Ao menos eu não os reconheci.
Nesse momento chegou Rognvald que saudou seus pais,
antes de aproximar-se de seu irmão e ficar junto a ele. Erik se
impacientava.
— Devemos sair já, filho por onde quer que comecemos a
olhar? — Ragnar ficou pensativo, havia algo que lhe dava voltas
na cabeça.
— Que estranho que dois homens desconhecidos
casualmente tenham levado Eyra! Não lhe parece pai? — Erik
aproveitou que Yvette saiu com a Helga para dizer.
— Filho, não será uma vingança de alguém com quem
você tenha tido algum enfrentamento? — Ragnar negou com a
cabeça, não se lembrava de ninguém. Voltou a cabeça, zangado
porque Lobo continuava com aquela conduta tão estranha, foi
até ele para castigá-lo, mas Helga voltou depressa para lhe
mostrar um tecido.
— Ragnar eu acabo de me lembrar que este lenço estava
com Eyra naquele dia, encontrei-o no lugar no qual lutaram
com ela. — Ela deixou o suave tecido nas mãos do homem e se
foi…então ocorreu algo surpreendente, Lobo, correu até Ragnar
e antes que pudesse evitá-lo, começou a cheirar o tecido,
visivelmente nervoso. Depois olhou para Ragnar e uivou com
um som que fez arrepiar a pele de todos. O instinto fez com que
Ragnar não o castigasse, mas sim que aproximasse outra vez o
tecido ao focinho dele. Olhou para seu pai, que havia pensado
o mesmo.
— Está cheirando sua mulher no lenço, se pudéssemos
encontrar o último rastro que ela deixou certamente ele poderia
nos levar até ela.
— Estava pensando nisto, vamos a minha casa, aquele é o
último lugar onde ela esteve! — Pegou Lobo nos braços e correu
à cozinha, onde sua mãe e Helga estavam.
— Helga! Isto é muito importante, onde Eyra estava
exatamente quando aqueles homens a agarraram?
— À saída da horta, eu vi Eyra lutando com um deles, o
outro, esperava com os cavalos. — Yvette escutou tudo
assombrada, e aceitou o beijo que seu marido lhe deu na
bochecha, antes que os três corressem para seus cavalos, e
saíssem depois a galope em direção à granja de Ragnar. Ao
chegar lá desceu do cavalo somente Ragnar com Lobo, ele
colocou o animal sobre a terra, e este, começou a farejar como
um louco, em seguida tomando uma direção com o nariz pego
ao chão. Ragnar deixou as rédeas de seu cavalo para seu
irmão, e decidiu continuar a pé com Lobo, porque se subissem
no cavalo podiam perder o rastro.
Às vezes saía correndo e às vezes parecia que havia
perdido o faro, e quando isso ocorria, deixava que ele voltasse a
cheirar o lenço, assim continuaram por algumas horas, até que
chegaram a uma cabana vazia. Lobo a percorreu, de cima
abaixo, várias vezes, e voltou a sair ao ver que sua ama não
estava nela.
— Lobo! Onde ela está? — Conseguiu fazer com que o
animal parasse, e pode ver que ele estava esgotado, olhou para
seu pai e seu irmão. — Ele está muito cansado, vamos
descansar alguns minutos, ainda é um filhotinho. — Levou-o
junto ao rio para que bebesse. Seu pai e seu irmão desceram
dos cavalos e observaram estupefatos com quanta paciência ele
esperou que o animal bebesse, e depois o agarrou de novo nos
braços para levá-lo para o lado deles.
— Nunca acreditei que o veria tão carinhoso com um
animal, e muito menos com um lobo!
— Sim, na verdade eu também não acredito, mas Eyra
gosta muito dele. — O lobo, que estava sentado em seu regaço,
tentava lhe dar uma lambida na bochecha. Ragnar o olhou com
suposta ferocidade, para que não o fizesse diante de sua
família, e conseguiu que ele se acalmasse um momento…, mas,
cinco segundos depois, pegou um salto e o lambeu de novo no
nariz. Os três homens riram sem parar.
— Acredito que vou entendendo porque ele agrada tanto a
sua mulher. — Erik sorria. Lobo era assim, conseguia penetrar
no coração das pessoas.
— Você gostaria do pegá-lo um pouco? — Seu pai pareceu
envergonhado e negou com a cabeça, mas Rognvald que não
possuía tantos escrúpulos disse:
— Eu quero sim! — Ragnar se aproximou e deixou o
animal nos braços de seu irmão, o lobinho pareceu assustado a
princípio diante o aroma desconhecido, mas segundos depois,
sentou-se tranquilo na mesma posição em que estava sobre
Ragnar, e ficou olhando Rognvald com a língua para fora, como
se sorrisse. O viking o acariciou entre as orelhas, como vira seu
irmão fazer e propôs, surpreendendo a si mesmo. — Eu
adoraria levar ele para minha casa. Vai ser um animal muito
inteligente. — Olhou a seu irmão com um questionamento no
rosto.
— Eyra me mata, se voltar para casa e Lobo não estiver
nela. Tire isso da cabeça, mas durante a próxima matança de
lobos que tenha em suas terras, como há em todas, por
necessidade de vez em quando, observe se houver filhotinhos e
recolha-os. Cada vez estou mais convencido de que se consiga
domesticar estes animais.
— Você acredita? — Rongvald e Erik olharam o lobo
assombrados, e ele continuava olhando-os.
— Sim, vou tentar fazer com que Lobo se acostume aos
humanos e aos animais, para que não os ataques. Veremos o
que acontece, acredito que ele já nos considera como sua
família. — Levantou-se e voltou a deixar que o animal cheirasse
o lenço, então ele saltou do colo de Rongvald e saiu correndo
através do bosque, Ragnar fez o mesmo atrás dele, enquanto
gritava para seu pai e seu irmão:
— Montem e nos sigam! — Deu a volta e correu atrás do
lobo, que tornara a farejar o rastro e continuava entre
grunhidos.

********

Eyra desistiu de continuar lutando contra suas amarras,


esgotada e convencida de que morreria, fechou os olhos e
pensou nele. Não sabia se Ragnar poderia escutá-la ou não, ou
se era somente imaginação dela, mas tentaria lhe dizer o que
sentia, pelo menos morreria mais tranquila se pensasse que ele
sabia.
Ragnar sentiu sua chamada dentro dele, e se ajoelhou
sobre a terra, ao mesmo tempo que segurava o animal, para
não o perder de vista, depois, fechou os olhos para poder se
comunicar com ela. Escutou como ela lhe dizia que o amava, e
depois se despedia, mas antes que pudesse responder, rompeu
a comunicação e Ragnar lançou um uivo seguido pelo Lobo.
Gritou para o animal enquanto ouvia como seu pai e seu irmão
freavam os cavalos atrás deles, e disse:
— Lobo, depressa, o tempo está acabando! — O animal o
olhou com seus olhos azuis e inteligentes, quase humanos, e
disparou sendo seguido pelos três homens e seus cavalos.
Capítulo X

Siv voltou a entrar na habitação com a roupa molhada e


manchada de barro, como se tivesse se deitado na terra, e
sorriu com malícia ao voltar a ver a moça que estava com o
rosto terrivelmente inchado, e que a olhou ao entrar. Com a
faca em uma mão, e vários tipos de planta na outra,
aproximou-se dela e, com um movimento rápido da faca, cortou
sua mordaça. Nesse momento decidiu que queria falar com ela
antes de matá-la.
— Sei que você se chama Eyra, quero lhe explicar por que
deve morrer hoje. — Ela cantarolou. Eyra a observou,
estremecida, porque Siv a olhava com os olhos esbugalhados, e
movendo os braços de maneira brusca, fazendo com que a faca
passasse, involuntariamente, perto de seu rosto. De repente a
olhou fixamente e lhe falou. — Ragnar estava contente comigo,
até que você apareceu, com sua carinha de menina. — Ela
amaldiçoou, seu aborrecimento pareceu aumentar de repente,
e pegou o rosto de Eyra, gritando e salpicando-a de saliva. —
Quando ele me expulsou de seu lado eu jurei que o
recuperaria, e que me vingaria de você, e com este feitiço eu
conseguirei as duas coisas. Mas antes de matá-la preciso
amassar estas plantas. — Agitou a mão onde levava as plantas
que havia arrancado do campo. — Porque preciso delas para
fazer a beberagem mágica. — Na mesa começou a separar
algumas folhas e as amassá-las para depois jogá-las ao líquido
pestilento que estava criando. Quando levantou a cabeça, falou
como se respondesse a uma pergunta. — Sim, você tem razão.
— Eyra sentiu apagar sua última esperança ao ver anunciada
sua morte nos olhos daquela pobre louca, e voltou a lamentar
não ter se despedido de Ragnar. — Você tem razão! Não lhe
expliquei o que a bruxa me contou. — Pegou uma taça vazia
que havia sobre a mesa e mostrou. — Olhe! Preciso somente
encher esta taça com seu sangue e com as ervas que tenho
aqui, e beber antes que você morra. — Ela sorria quase com
ternura. — Então eu conseguirei que ele volte para mim, e você
desaparecerá de sua mente para sempre, a bruxa me
assegurou que fazendo isto, ele nunca mais se lembrará de
você.
— Está equivocada, você é uma pobre louca que não vê a
realidade.
— Não me chame de louca! — Ela empunhou a adaga e
sem prévio aviso, cravou-a acima do seio, perto do ombro. Eyra
lutou para não desmaiar, mas não conseguiu evitar perder a
consciência por alguns momentos. Quando voltou a abrir os
olhos, a outra mulher já havia enchido a taça com seu sangue
e bebia dela grotescamente. Ao vê-la acordada se lambeu e lhe
disse:
— Já está quase acabado, agora você sangrará
lentamente, mas não doerá, será como se você dormisse. —
Eyra enxergava com dificuldade, além dos golpes no rosto,
estava tão esgotada, que precisava lutar para permanecer
acordada.
De repente, a porta da cabana foi aberta com golpe tão
forte, que fez com que se quebrasse ao se chocar contra a
parede, e Ragnar ao vê-la, entrou e se aproximou dela
correndo. Então Siv, perdida em sua realidade, correu para ele
com um fio de sangue escorrendo pelo queixo, e com a adaga
ainda na mão puxou o braço do homem que, enlouquecido,
estava desamarrando Eyra, desacordada e sangrando aos
borbotões pela ferida.
Quando a louca conseguiu que ele a olhasse, o rosto do
viking refletiu o nojo e o ódio que sentia por ela, então Siv
voltou a empunhar a faca para matar à moça, mas Ragnar
arrancou-lhe da sua mão e a empurrou contra a parede. Ao
chocar sua cabeça contra a parede, escutou-se um estouro
desagradável, mas Ragnar não se incomodou em comprovar se
ela havia morrido, porque sabia que sim. Aquela fora a sua
intenção ao empurrá-la com semelhante força.
Já sem precisar se preocupar com Siv, agarrou o lenço de
Eyra, graças ao qual Lobo conseguira guiá-los até ali, e o
utilizou para enfaixar fortemente a ferida para que parasse de
sangrar. Ragnar a levou para seu cavalo seguido por Lobo que
gemia triste; quando seu pai e Rognvald desciam dos cavalos, e
ficaram sobressaltados ao vê-los.
— Vamos, voltemos para casa, ela está perdendo muito
sangue! — Quando subiu em Thor, observou Lobo que latia
exigindo atenção e disse ao seu irmão. — Pegue o Lobo, ele
merece andar em um cavalo por toda sua vida. — Rognvald
pegou o filhotinho que o esperava, como se soubesse o que ele
faria.

********

Yvette correu para preparar seu próprio aposento para


Eyra, era o mais confortável da casa, felizmente o fogo já estava
aceso e Helga já havia ido à cozinha para procurar a bolsa dos
remédios. A moça despertara durante a viagem a cavalo e se
queixou de dor, depois olhou Ragnar e sorriu ao vê-lo, embora
continuasse doendo tudo.
— Não sei como você pode sorrir. — Grunhiu ele, ela
levantou o braço que não estava ferido, com muito esforço, e
acariciou a bochecha dele.
— Porque Deus me deu a oportunidade de vê-lo uma
última vez, e lhe dizer que eu o amo. — Ele ficou pálido ao ver
que ela voltava a desmaiar.
— Mãe! — Yvette fez com que ele se apartasse, colocou um
espelho sob a boca dela, e respirou tranquila ao ver que se
embaçava.
— Fique calmo filho, ela ainda respira. — Ao ver os olhos
de seu filho, olhou para Erik, que a entendeu em seguida.
— Filho, vamos, é melhor deixar às mulheres tranquilas,
assim trabalharão melhor. — Ragnar se soltou do toque de seu
pai, e se aproximou da cama, onde depositou um beijo na testa
de Eyra. Depois se voltou para sua mãe e lhe disse:
— Mãe, salve-a se quiser que eu continue vivendo. — Sua
voz nunca foi tão sincera quando ele disse: — Ela é minha alma
gêmea, é tudo para mim. — Depois seguiu seu pai que o
esperava na entrada do aposento, e fechou a porta atrás dele.
Yvette e Helga colocaram as mãos à obra, havia muito o
que fazer.

********

Ela despertou ao sentir uma forte dor no ombro,


novamente havia se apoiou inadvertidamente no braço,
enquanto dormia, e a ferida latejava terrivelmente. Olhou a seu
lado onde Ragnar dormia de barriga para cima, tentando não
se aproximar muito dela, com medo de machucá-la. Sentou-se
na cama já que a dor fizera com que passasse o sono. Quando
se levantou, embora fosse com todo o cuidado, Ragnar
despertou sentando-se também.
— Aonde você vai? — Ela girou meio corpo para sussurrar
— Vou tomar água, não tenho sono. — Ragnar se levantou
— Vou eu, não se mova. — Ela voltou a se sentar
mordendo os lábios. Quando notou que Lobo lhe chupava o
dedo gordo do pé, assinalou para ele o catre que Ragnar
fabricara e lhe disse firme, mas carinhosamente.
— Vá dormir, você é muito pequeno para estar acordado
tão tarde. — O lobinho foi devagar, e voltou a olhá-la no meio
do caminho tentando convencê-la com o olhar, mas ela voltou a
assinalar o catre, até que o animal se deitou enrolando-se.
— Muito bem Lobo, muito bem.
Ragnar voltou com uma terrina com água e a aproximou
de sua boca, para que ela não precisasse levantar o braço. Eyra
sabia que se sentia culpado porque a responsável pelo que
acontecera era Siv, sua antiga concubina. E por mais que ela
lhe dissesse que não o culpava por nada, não conseguiu que o
antigo Ragnar aparecesse outra vez, este lhe parecia um
desconhecido por demais submisso.
— Preciso falar com você Ragnar. — Ela aproveitou que ele
estava do seu lado, e lhe colocou levemente a mão em um
braço. — Escute, agora sei o que se sente quando acreditamos
que vamos morrer. Nesse momento a gente se dá conta do que
realmente importa na vida, e não é viver no passado, nem
assustada ou zangada, mas sim aceitar a vida com a maior
alegria possível, e isso é o que eu quero fazer de agora em
diante. — Pigarreou um pouco envergonhada. — Eu amo você
Ragnar, e me sentirei muito feliz se ficarmos juntos todo o
tempo possível, eu gostaria que tivéssemos filhos e….
— O que você disse mulher? — Ele interrompeu-a. — Fala
como se o nosso relacionamento fosse algo passageiro. —
Olhou-a zangado, embora não levantasse a voz em nenhum
momento. — Pois deixe que eu lhe diga que assim que você
estiver melhor nos casaremos, e é óbvio que teremos filhos. —
Olhou o animal dormindo no catre, e que havia feito o possível
para que ele a encontrasse a tempo. — Embora, me atrevo a
dizer que já ampliamos a família.
Ela sorriu seguindo seu olhar porque pensava o mesmo.
Abraçou-a com cuidado, por causa de sua ferida, enquanto
seus olhos mostravam um azul incandescente, e um sorriso de
felicidade mudava sua fisionomia no rosto. Sua alma gêmea
não sabia que, com a ajuda de sua família, organizara seu
casamento como parte das celebrações do Solstício de Inverno,
dois dias depois, a qual seus irmãos iriam com suas famílias e
os habitantes da região. Todos haviam prometido guardar
segredo porque era uma surpresa à noiva. Seu sorriso se
ampliou pensando na felicidade que o casamento
proporcionaria a sua mulher, e apertou brandamente seu frágil
corpo contra o seu, enquanto seus corações compassavam seus
batimentos, como faziam sempre que estavam perto um do
outro. E assim seria sempre.

********

A família de Erik e Yvette se juntou pela primeira vez em


muito tempo, à celebração das bodas, e estiveram presentes
todos seus filhos e os netos que já haviam nascido. Era o
último filho que se casava, e celebraram a festa no salão de
Brattahild, sua granja, rodeados de todos os amigos e vizinhos
que foram à cerimônia. Erik e Yvette, que estavam sentados na
mesma mesa dos noivos, observaram, agarrados pela mão,
como o casal olhando-se, diziam as palavras que os uniriam
para sempre. Então, eles mesmos, olharam-se nos olhos e,
voltaram a ser os mesmos que, tantos anos atrás, amaram-se
com uma paixão difícil de igualar.
Sorriram ao recordar o que fizeram naquela mesma
manhã, na cama, antes de se levantar, e logo voltaram o olhar
para o casal de noivos, cuja felicidade lhes rodeava e
contagiava a outros. O círculo se completou, mas não era o fim,
mas o começo de uma nova era, porque enquanto houvesse
crianças em sua família, existiriam os berserkers, e sua luta
para serem felizes.
Mas essa é outra história.
Notas

[←1]
Drakkar ― típica embarcação viking, longa destinada à guerra e à conquista,
que diferia do knorr essencialmente pela presença da grande carranca na proa.
[←2]
Bersercker ― Guerreiros nórdicos ferozes, relacionados ao culto do deus Odin.
Eles despertavam uma fúria incontrolável antes de qualquer batalha.
[←3]
Valhala, Valíala, Valhalla ou Walhala ― na mitologia nórdica e nas crenças de
religiões pertencentes ao paganismo nórdico, como a religião Ásatrú, de maior
reconhecimento, é um majestoso e enorme salão com 504 portas, situado em
Asgard, dominado pelo deus Odin.