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Auto da Compadecida: Julgamento e Misericórdia

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talesjardim08
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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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Auto da compadecida

Entram todo em cena Coreografada

CIGANAS
Auto da Compadecida! O julgamento de alguns canalhas, entre os quais um sacristão, um
padre e um bispo, para exercício da moralidade.

TODOS - Auto da Compadecida!

CIGANAS
A intervenção de Nossa Senhora no momento propício, para triunfo da misericórdia.

TODOS - Auto da Compadecida!

CIGANAS
A COMPADECIDA
A mulher que vai desempenhar o papel desta excelsa Senhora, declara-se indigna de tão
alto mister.

TODOS - Auto da Compadecida!

CIGANAS
O ator que vai representar Manuel, isto é, Nosso Senhor Jesus Cristo, declara-se também
indigno de tão alto papeL

TODOS - Auto da Compadecida!

CIGANAS
Uma história altamente moral e um apelo à misericórdia.

JOÃO GRILO
Ele diz “à misericórdia”, porque sabe que, se fôssemos julgados pela justiça, toda a nação
seria condenada.

TODOS -
Auto da Compadecida!

(Cantando.) Tombei, tombei, mandei tombar! ATORES, respondendo ao canto


Perna na no meio do mar.
24

Cena 1

DORINHA CHEGANDO EM CASA

DORINHA - Abra essa porta Eurico


fi
EURICO - E isso é hora de chegar em uma casa de respeito?
Aqui você num entre nem com a moléstia do cachorro doido.
Vai dormir na rua, que é pra todo mundo conhecer a qualidade de mulher traidora que
você é

DORINHA - Ah! Eu só fui dar uma voltinha pra refrescar a quentura homem

EURICO - Quentura é o fogo que você tem por dentro. Não Grilo, Chicó.
Vai chamar padre João, que é pra Mode desacumular essa adultera e condena la ao
quintos do inferno

DORINHA - Riquinho bora resolver esse assunto nois dois. Abra por favor

EURICO - Abrir, mais de jeito maneira infeliz! Eu fui muito besta em casar com você

DORINHA - se você não abrir eu me atiro no poço e você vai morrer de remorso.
E vai todo mundo pensar que você me matou por ciúmes

EURICO - E tú lá e besta de morrer por isso

DORINHA - A Deus Eurico, meu único amor ( Joga um pedra - efeito)

Silêncio - Dorinha se esconde e Eurico aparece em cena desesperado

EURICO - Dorinha minha lha não faça um coisa dessa que sou louco por ti.

Dorinha aproveita que Eurico saiu e entra na casa. Eurico percebe que foi enganado e
corre até a porta

EURICO - Abre essa porta Dorinha

DORINHA - E isso é hora de chegar em uma casa de respeito?


Aqui você num entre nem com a moléstia do cachorro doido.
Vai dormir na rua, que é pra todo mundo conhecer a qualidade de mulher traidora que
você é

Aparece o Padre.

PADRE - Mais o que é isso?

EURICO - Era eu que estava lá dentro padre

DORINHA - Tá Bebinho padre


fi
EURICO - Padre Eurico…

PADRE - Perdoe minha lha ele não sabe o que faz.


Ande Eurico peça perdão para sua mulher

EURICO - Mas Padre

PADRE - Ande peça desculpas estou mandando

EURICO - Desculpa

DORINHA - Dorinha

EURICO - Desculpa Dorinha

PADRE - E lembre-se o casamento é uma invasão de Deus,

João Grilo - E o Diabo acrescentou o chifre.


Padre - Agora vão todos cuida da vida que eu vou pra minha igreja rezar uma almas

Todos saem, entre em cena as crianças brincando.

Senhora dona Santa,


Coberta de ouro e prata,
Descubra seu rosto,
Queremos ver sua cara.
Que anjos são esses,
Que vivem a rodiar
De dia de noite,
Pai nosso ave maria
Somos lhos do conde
E parente do visconde
Minha mãe mandou dizer
Para todos se esconder.

Dorinha - ( entrando por um lado e saindo pelo outro) Acode, que minha cachorrinha
está doente, Valei-me nossa…
Qual é mesmo o nome do santo das cachorras?

(se dirigindo a plateia que pode ou não responder)

Vale-me ( Falo o nome do santo, se não responder segue falando o texto)


Minha cachorrinha está doente, Corre Chicó vai chamar o padre pra benzer minha
cachorrinha

( Sai de cena enquanto do outro lado entra Grilo e Chicó)

JOÃO GRILO ( Pedro )


Chicó, ele vem mesmo? Eu to descon ado, Chicó. Você é tão sem con ança!
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fi
fi
fi
CHICÓ ( Lucas)
Eu, sem con ança? Que é isso, João, está me desconhecendo?
Juro como ele vem.

JOÃO GRILO
O bispo está pra chegar e eu tenho certeza de que o Padre João não vai querer benzer o
cachorro.

CHICÓ
Não vai benzer ? Por quê? Que é que um cachorro tem de mais?
Eu mesmo já tive um cavalo bento.

JOÃO GRILO
Que é isso, Chico? Eu já to cando por aqui com suas histórias, são sempre esquisita.

Quando se pede uma explicação, vem sempre com “não sei, só sei que foi assim”.

CHICÓ
Mas se eu tive mesmo o cavalo, meu lho, o que é que eu vou fazer? Vou mentir, dizer
que não tive?

JOÃO GRILO
Você vem com uma história dessas e depois se queixa porque o povo diz que você é sem
con ança.

CHICÓ
Eu, sem con ança? Antônio Martinho está para dar as provas do que eu digo.

JOÃO GRILO
Antônio Martinho? Faz três anos que ele morreu.

CHICÓ
Mas era vivo quando eu tive o bicho

JOÃO GRILO
Quando você teve o bicho? E foi você quem pariu o cavalo,
Chico?

CHICÓ
Eu não. Mas do jeito que as coisas vão, não me admiro mais de nada. No mês passado
uma mulher teve um, na serra do Araripe, para os lados do Ceará.

JOÃO GRILO
Isso é coisa de seca. Acaba nisso, essa fome: ninguém pode ter menino e haja cavalo no
mundo. A comida é mais barata e é coisa que se pode vender. Mas seu cavalo, como foi?

CHICÓ
Foi uma velha que me vendeu barato, recomendou todo cuidado, porque o cavalo era
bento. E só podia ser mesmo, porque cavalo bom como aquele eu nunca tinha visto. Uma
fi
fi
fi
fi
fi
vez corremos atrás de uma garrota, das seis da manhã até as seis da tarde, sem parar
nem um momento, eu a cavalo, ele a pé. Fui derrubar o boi já de noitinha,

JOÃO GRILO
O boi? Não era uma garrota?

CHICÓ
Uma garrota e um boi.

JOÃO GRILO
E você corria atrás do dois de uma vez?

CHICÓ, irritado
Corria, é proibido?

JOÃO GRILO
Não, mas eu me admiro é eles correrem tanto tempo juntos, sem me apertarem. Como foi
isso?

CHICÓ
Não sei, só sei que foi assim. 17 horas correndo e o cavalo ali sem reclama. É uma
história que eu não goste nem de contar.

JOÃO GRILO
Conte, conte, você está em casa.

CHICÓ
Comecei a correr da ribeira do Taperoá, na Paraíba. Pois bem, na entrada da rua
perguntei a um homem onde estava e ele me disse que era Própria, de Sergipe.

JOÃO GRILO
Sergipe, Chicó?

CHICÓ
Sergipe, João. Eu tinha corrido até lá no meu cavalo. Só sendo bento mesmo.

JOÃO GRILO
Mas Chicó, e o rio São Francisco?

CHICÓ
Lá vem você com sua mania de pergunta, João.

JOÃO GRILO
Claro, tenho que saber. Como foi que você passou?

CHICÓ
Não sei, só sei que foi assim. Eu não me admiro mais de nada, João. Cachorro bento,
cavalo bento, tudo isso eu já vi. E nesse tempo todo o cavalo ali comigo, sem reclamar
nada!
JOÃO GRILO
Eu me admirava era se ele reclamasse.
Chicó, acha que o padre vem?

CHICÓ
Só pode vir. É o único jeito. Doutor diz que não sabe o que é que o bicho tem, o jeito
agora é apelar para o padre. Hora da morte é a hora de chamar padre, de modo que ele
tem de vir. Padre João! Padre João!

JOÃO GRILO- ajoelhando-se, em tom lamentoso


Lembra-te de Nosso Senhor Jesus Cristo de Chicó.
Chicó, Jesus vai contigo e tu vais com Jesus.
Lembra-te de Nosso Senhor Jesus Cristo de Chicó.

CHICÓ
Que latomia é essa para o meu lado? Você quer me agourar?

JOÃO GRILO (erguendo-se)


Ah, e você está vivo?

CHICÓ
Estou, que é que você está pensando? Tu é besta?

JOÃO GRILO
Você disse que hora de chamar padre era a hora da morte, começou a gritar por Padre
João, eu só podia pensar que estava lhe dando a agonia.

CHICÓ - (estendendo o punho fechado)


Padre João!

JOÃO GRILO
Padre João! Padre João!

PADRE ( Vitor )
aparecendo
Que há? Que gritaria é essa?

Fala afetadamente com aquela pronúncia e aquele estilo que Leon Bloy chamava
“sacerdotais”.

CHICÓ
Mandaram chama o senhor para benzer uma cachorra que está se ultimando .
Para eu benzer?

PADRE - com desprezo


Um cachorro?

CHICÓ e JOÃO
Sim.

PADRE - Pra eu benzer?

CHICÓ e JOÃO
Sim.

PADRE
Que maluquice é essa! Que besteira!

JOÃO GRILO
Cansei de dizer a ele que o senhor benzia. Benze porque benze, vim com ele.

PADRE
Não benzo de jeito nenhum.

CHICÓ
Mas padre, não vejo nada de mal em se benzer o
bicho.

JOÃO GRILO
No dia em que chegou o motor novo do major Antônio Morais o senhor não o benzeu?

PADRE
Motor é diferente, é uma coisa que todo mundo benze. Cachorro é que eu nunca ouvi
falar.

CHICÓ
Eu acho cachorro uma coisa muito melhor do que motor.

PADRE
É, mas quem vai car engraçado sou eu, benzendo o cachorro. Benzer motor é fácil,
todo mundo faz isso, mas benzer cachorro?

JOÃO GRILO
É, Chicó, o padre tem razão. Quem vai car engraçado é ele e uma coisa é o motor do
major Antônio Morais e outra benzer o cachorro do major Antônio Morais.

PADRE, mão em concha no ouvido


Como?

JOÃO GRILO
Eu disse que uma coisa era o motor e outra o cachorro do major Antônio Morais.

PADRE
E o dono do cachorro de quem vocês estão falando é Antônio Morais?

JOÃO GRILO
É. Eu não queria vir, com medo de que o senhor se zangasse, mas o major é rico e
poderoso e eu trabalho na mina dele. Com medo de perder meu emprego, fui forçado a
obedecer, mas disse a Chicó: o padre vai se zangar.
fi
fi
PADRE, desfazendo-se em sorrisos
Zangar nada, João! Quem é um ministro de Deus para ter direito de se zangar? Falei por
falar, mas também vocês não tinham dito de quem era o cachorro!

JOÃO GRILO
Quer dizer que benze, não é?

PADRE - a Chicó.
Você o que é que acha?

CHICÓ
Eu não acho nada de mais.

PADRE
Nem eu. Não vejo mal nenhum em abençoar as criaturas de
Deus.

JOÃO GRILO
Então ca tudo na paz do Senhor, com cachorro benzido e todo mundo satisfeito.

PADRE
Digam ao major que venha. Eu estou esperando.
(sai de cena)

CHICÓ
Que invenção foi essa de dizer que o cachorro era do major Antônio Morais?

JOÃO GRILO
Era o único jeito de o padre prometer que benzia. Tem medo da riqueza do major que se
péla. Não viu a diferença? Antes era
“Que maluquice, que besteira!”, agora “Não vejo mal nenhum em se abençoar as criaturas
de Deus!”.

CHICÓ
Isso não vai dar certo.E se ele descobrir! Qualquer dia desse você ainda se mete em uma
embrulhada

JOÃO GRILO
Sou louco por uma embrulhada

CHICÓ
Deixe de agouro João e se o major aparece por aqui na cidade?

JOÃO GRILO
Meu lho o dia que o major aparecer por aqui as galinhas criam dentes

CHICÓ
fi
fi
Então acho que as bichinhas estão roendo osso, porque o major Antônio Morais vem ali
subindo ladeira.

JOÃO GRILO
Ave-Maria! Que é que se faz, Chicó?

CHICÓ
Não sei, não tenho nada a ver com isso. Você, que inventou a história e que gosta de
embrulhada, que resolva.

ANTÓNIO MORAIS
Cadê o povo dessa cidade, moribunda?

JOÃO GRILO
Major quando honra

ANTÓNIO MORAIS
Que conversa é essa seu amarelo?

JOÃO GRILO
Ë que o senho quase nunca vem pra batas de cá.

ANTÓNIO MORAIS
Você se lembra da minha lha Rosinha, pois bem ela andou meio adoentada e me pediu
para falar com padre para lhe dá a benção quando ela chega do recife.

JOÃO GRILO - Entonce Veio procurar o padre?


Se Vossa Senhoria quiser, eu vou chamá-lo.

(Antônio Morais afasta João do caminho com a bengala, encaminhando-se de novo para
a igreja. João, a ito, dá a volta, tomando-lhe a frente e fala, como último recurso.)

É que eu queria avisar para Vossa Senhoria não car espantado: o padre está meio
doido.

ANTÓNIO MORAIS,( Guilherme) Está doido? O padre?

JOÃO GRILO, animando-se


Sim, o padre. Está dum jeito que não respeita mais ninguém e com mania de benzer tudo.
Eu já ia dar um recado a ele, mandado por meu patrão, e ele me recebeu muito mal,
apesar de meu patrão ser quem é.

ANTÓNIO MORAIS
E quem é seu patrão?

JOÃO GRILO
O padeiro. Pois ele chamou o patrão de cachorro e disse que apesar disso ia benzê-lo.
fl
fi
fi
ANTÔNIO MORAIS
Que loucura é essa?

JOÃO GRILO
Não sei, é a mania dele agora. Benze tudo e chama a gente de cachorro.

ANTÓNIO MORAIS
Isso foi porque era com seu patrão. Comigo é
diferente.

JOÃ GRILO
Vossa Senhoria me desculpe, mas eu penso que não.

ANTÓNIO MORAIS
Você pensa que não?

JOÃO GRILO
Penso, sim. E digo isso porque ouvi o padre dizer: “Aquele cachorro, só porque é amigo
de Antônio Morais, pensa que é alguma coisa”.

ANTÔNIO MORAIS
Que história é essa? Você tem certeza?

JOÃO GRILO
Certeza plena. Está doidinho, o pobre do padre.

ANTÓNIO MORAIS
Pois vamos esclarecer a história, porque alguém vai pagar por isso.

Um mendigo para o major e pedi esmola, é o cangaceiro disfarçado

ANTÓNIO MORAIS
.
Vai arrumar um serviço pra fazer. Padre João! Padre João!

CHICÓ que estava meio escondido tenta fugir, mas João agarra-o pelo pescoço.

JOÃO GRILO
Não, você ca comigo. Vim encomendar a bênção do cachorro por sua causa e você tem
de car. E mesmo, Chicó, você já está acostumado com essas coisas, já teve até um
cavalo bento!

CHICÓ
É, mas acontece que o major Antônio Morais pode ter alguma coisa de cavalo, de bento
é que ele não tem nada.

JOÃO GRILO
Deixe de ser frouxo e que aqui.

ANTÔNIO MORAIS, voltando


Padre, Procurei-o por toda parte.
fi
fi
fi
PADRE,
Ora quanta honra! Uma pessoa como Antônio Morais na igreja! Há quanto tempo esses
pés não cruzam os umbrais da casa de Deus!

ANTÔNIO MORAIS
Seria melhor dizer logo que faz muito tempo que não venho à missa.

PADRE
Qual o que, eu sei de suas ocupações, de sua saúde...

ANTÔNIO MORAIS
Ocupações? O senhor sabe muito bem que não trabalho e que minha saúde é perfeita.

PADRE,
Mas que coisa o trouxe aqui? Já sei, não diga, A bichinha está doente, não é?

ANTÓNIO MORAIS
É, já sabia?

PADRE
Já, aqui tudo se espalha num instante. Já está fedendo?

ANTÓNIO MORAIS
Fedendo? Quem?

PADRE
A bichinha

ANTÓNIO MORAIS
Não! Que é que o senhor quer dizer?

PADRE
Nada, desculpe, é um modo de falar.

ANTÔNIO MORAIS
Pois o senhor anda com uns modos de falar muito esquisitos.

PADRE
Peço que desculpe um pobre padre sem muita instrução. Qual é a doença? Rabugem?

ANTÔNIO MORAIS
Rabugem?

PADRE
Sim, já vi um morrer disso em poucos dias. Começou pelo rabo e espalhou-se pelo resto
do corpo.

ANTÔNIO MORAIS
Pelo rabo?
PADRE
Desculpe, desculpe, eu devia ter dito “pela cauda”. Deve-se respeito aos enfermos,
mesmo que sejam os de mais baixa qualidade.

ANTÔNIO MORAIS
Baixa qualidade? Padre João, veja com quem está falando. A igreja é uma coisa
respeitável, como garantia da sociedade, mas tudo tem um limite.

PADRE
Mas o que foi que eu disse?

ANTÓNIO MORAIS
Baixa qualidade! Meu nome todo é Antônio Noronha de Brito Morais e esse Noronha de
Brito veio do Conde dos Arcos, ouviu? Gente que veio nas caravelas, ouviu?

PADRE
Ah bem e na certa os antepassados do bichinho também vieram nas galeras, não é isso?

ANTÔNIO MORAIS
Claro! Se meus antepassados vieram, é claro que os dele vieram também. Que é que o
senhor quer insinuar? Quer dizer por acaso que a mãe dele...

PADRE
Mas, uma cachorra!...

ANTÓNIO MORAIS
O quê?

PADRE
Uma cachorra.

ANTÓNIO MORAIS
Repita.

PADRE
Não vejo nada de mal em repetir, não é uma cachorra mesmo?

ANTÔNIO MORAIS
Padre, não o mato agora mesmo porque o senhor é um padre e está louco, mas vou me
queixar ao bispo. (A João.) Você tinha razão. Apareça nos Angicos, que não se
arrependerá.
Sai.

PADRE, a itíssimo
Mas me digam pelo amor de Deus o que foi que eu disse.

JOÃO GRILO
Nada, nada, padre. Esse homem só pode estar louco com essa mania de ser grande. Até
ao cachorro ele quer dar carta de nobreza!
fl
PADRE
Faço tudo para agradá-lo e vai-se queixar ao bispo. Será que vai me suspender?

JOÃO GRILO
Que nada, padre, antes disso eu vou aos Angicos e arranjo tudo.

PADRE
Arranja mesmo, João? Como?

JOÃO GRILO
Deixe comigo. Antônio Morais começou a ser meu amigo de repente. Não viu como me
convidou para ir aos Angicos? Agora é assim, João Grilo pra lá, Antônio Morais pra cá...
Está completamente perturbado.

PADRE
Pois arranje as coisas, João, que você não se arrepende.

JOÃO GRILO
Chama-se já está arranjado. Agora, eu queria um favorzinho do senhor padre.

PADRE
Eu já estava esperando por uma dessas.

JOÃO GRILO
O que eu vou pedir é coisa muito mais fácil do que cumprir os mandamentos.

PADRE
Diga então o que é!

JOÃO GRILO
O cachorro de meu patrão está muito mal e eu queria que o senhor benzesse o bichinho.

PADRE
De novo? Mas é possível?

JOÃO GRILO
É mais do que possível. O senhor não ia benzer o do major Antônio Morais?

PADRE
E a cachorra do padeiro agora está doente

JOÃO GRILO
Está.

PADRE
Também, oh terra para ter cachorro doente só é essa!

JOÃO GRILO
E a mania agora é benzer, benzer tudo quanto é de bicho. Como é, o senhor benze ou
não benze?

PADRE
Pensando bem, acho melhor não benzer. O bispo está aí e eu só benzo se ele der
licença.

Mendigo novamente- Uma esmolinha pelo amor de Deus

PADRE
Eu vou rezar pela sua alma

Mendigo -
Da pra juntar nesta sua benção um punhado de farinha?

PADRE
A igreja só se preocupa com o alimento espiritual.

(À esquerda aparece a mulher do padeiro e o padeiro.)

MULHER - Julia
Ai, padre, pelo amor de Deus, meu cachorro está morrendo. É o lho que eu conheço
neste mundo, padre. Não deixe o cachorrinho morrer, padre.

PADRE, comovido
Pobre mulher! Pobre cachorro!

João Grilo estende-lhe um lenço e ele se assoa ruidosamente.

PADEIRO - Kieza
O senhor benze o cachorro, Padre João?

JOÃO GRILO
Não pode ser, O bispo está aí e o padre só benzia se fosse o cachorro do major Antônio
Morais, gente mais importante, porque senão o homem pode reclamar.

PADEIRO
Que história é essa? Então Vossa Senhoria pode benzer o cachorro do major Antônio
Morais e o meu não?

PADRE, apaziguador
Que é isso, que é isso?

PADEIRO
Eu é que pergunto: que é isso? A nal de contas eu sou presidente da Irmandade das
Almas, e isso é alguma coisa.

JOÃO GRILO
É, padre, o homem aí é coisa muita. Presidente da Irmandade das Almas! Para mim isso,
é um caso claro de cachorro bento. Benza logo o cachorro e tudo ca em paz.
fi
fi
fi
PADRE
Não benzo, não benzo e acabou-se! Não estou pronto para fazer essas coisas assim de
repente. Sem pensar, não.

MULHER -
Quer dizer, quando era o cachorro do major, já estava tudo pensado, para benzer o meu é
essa complicação! Olhe que meu marido é presidente e sócio benfeitor da Irmandade
Almas! Vou pedir a demissão dele!

PADEIRO
Vai pedir minha demissão!

MULHER
De hoje em diante não me sai lá de casa nem um pão para a Irmandade!

PADEIRO
Nem um pão!

MULHER
E olhe que os pães que vêm para aqui são de graça!

PADEIRO
São de graça!

MULHER
E olhe que as obras da igreja é ele quem está custeando!

PADEIRO
Sou eu que estou custeando!

PADRE, apaziguador
Que é isso, que é isso!

MULHER
O que é isso? É a voz da verdade, padre João. O senhor agora vai ver quem é a mulher
do padeiro!

JOÃO GRILO
Ai, ai, ai e a Senhora, o que é que é do padeiro?

MULHER
A vaca...

CHICÓ
A vaca?!

MULHER
A vaca que eu mandei para cá, para fornecer leite ao vigário tem que ser devolvida hoje
mesmo.
PADEIRO
Hoje mesmo!

PADRE
Mas até a vaca? Sacristão, sacristão!

JOÃO GRILO
A vaca também é demais. (Arremedando o padre.) Sacristão, sacristão!

O Sacristão aparece à porta. É um sujeito magro, pedante, pernóstico, de óculos azuis


que ele ajeita com as duas mãos de vez em quando, com todo cuidado. Pára no limiar da
cena, vindo da igreja, e examina todo o pátio.

JOÃO GRILO
Sacristão, a vaca da mulher do padeiro tem que sair!

SACRISTÃO - ( Josias )
Um momento. Um momento. Em primeiro lugar, o cuidado da casa de Deus! Que é isso?
Que é isso?

Ele domina toda a cena, inclusive o Padre que tem Uma con ança enorme na empá a)
segurança e hipocrisia do secretário.

MULHER E PADEIRO, ao mesmo tempo, em resposta pergunta do Sacristão

É o padre…

SACRISTÃO, apontando para Chicó

Que é aquilo? Que é aquilo?


Sua afetação de espanto é tão grande, que todos se voltam para direção em que ele olha.

Entra Chicó

MULHER E PADEIRO,

O que você está fazendo aqui?

MULHER
O Cabra desmontado, eu não falei pra não deixar minha cachorra sozinha?

PADEIRO
Não diga que a cachorra piorou ?

CHICÓ
Está bem não digo

JOÃO GRILO
Ela piorou?
fi
fi
MULHER
Diga logo homem!

CHICÓ
É pra dizer ou não dizer?

Todos - Diga

MULHER
Não me diga que deixou ela morrer?

CHICÓ
Eu não deixei não

MULHER
Graças a Deus

CHICÓ
Mas sabe como a bichinha é desobediente.

SACRISTÃO que tinha saído volta falando.


Mas um cachorro morto no pátio da casa .

PADEIRO
Morto?

MULHER, mais alto


Morto?

SACRISTÃO - ( Josias )
Morto, sim. Vou reclamar à Prefeitura.

MULHER
Ai, meu Deus, meu cachorrinho morreu.

CHICÓ
É verdade, a cachorra cumpriu sua sentença

Correm todos saem

Aparecem as ciganas

CIGANAS
A morte o único mal irremediável,
Aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra,
Aquele fato sem explicação
Que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo
morre.

Saem

MULHER, entrando.
Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai,ai,ai!

JOÃO GRILO, mesmo tom


Ai, ai, ai, ai, ai! Ai, ai, ai, ai, ai!
Dá uma cotovelada em

CHICÓ.

CHICÓ, obediente
Ai, ai, ai, ai, ai, Ai, ai, ai, ai, ai!

Essa lamentação deve ser um mal entendido a representada de propósito, ritmada como
choro de palhaço de circo.

SACRISTÃO, entrando com o padre e o padeiro Que é isso, que é isso? Que barulho é
esse na porta da casa de Deus?

PADRE
Todos devem se resignar.

MULHER
Se o senhor tivesse benzido o bichinho, a essas horas ele ainda estava vivo.

PADRE
Qual, qual, quem sou eu!

MULHER
Mas tem uma coisa, agora o senhor enterra o cachorro.

PADRE
Enterro o cachorro?

MULHER
Enterra e tem que ser em latim. De outro jeito não serve, não é?

PADEIRO
É, em latim não serve.

MULHER
Em latim é que serve!

PADEIRO
É, em latim é que serve!
PADRE
Vocês estão loucos! Não enterro de jeito nenhum.

MULHER
Está cortado o rendimento da irmandade.

PADRE
Não enterro.

PADEIRO
Está cortado o rendimento da irmandade!

PADRE
Não enterro.

MULHER
Meu marido considera-se demitido da presidência.

PADRE
Não enterro.

PADEIRO
Considero-me demitido da presidência!

PADRE
Não enterro.

MULHER
A vaquinha vai sair daqui
imediatamente.

PADRE
Oh mulher sem coração!

MULHER
Sem coração, porque não quero ver meu cachorrinho comido pelos urubus? O senhor
enterra!

Padre
Ai meus dias de seminário, minha juventude heróica e rme! MULHER
Pão para a casa do vigário só vem agora dormido e com o dinheiro na frente. Enterra ou
não enterra?

PADRE
Oh mulher cruel

MULHER
Decida-se, Padre João.
fi
PADRE
Não me decido coisa nenhuma, não tenho mais idade para isso. Vou é me trancar na
igreja e de lá ninguém me tira. Entra na igreja, correndo.

JOÃO GRILO, chamando o patrão à parte. Se me dessem carta branca, eu enterrava o


cachorro.

PADEIRO
Tem a carta.

JOÃO GRILO
Posso gastar o que quiser?

PADEIRO
Pode.

MULHER
Que é que vocês estão combinando aí?

JOÃO GRILO
Estou aqui dizendo que, se é desse jeito, vai ser difícil cumprir o testamento do cachorro,
na parte do dinheiro que ele deixou para o padre.

PADRE
Que é isso? Que é isso? Cachorro com testamento?

JOÃO GRILO
Esse era um cachorro inteligente. Antes de morrer, olhava para a torre da igreja toda vez
que o sino batia. Nesses últimos tempos, já doente para morrer, botava uns olhos bem
compridos para os lados daqui, latindo na maior tristeza. Até que o meu patrão entendeu
que ela queria ser enterrada como cristã. E o patrão, teve que prometer que em troca do
enterro, acrescentaria no testamento dela, três contos de réis pro padre.

PADRE, enxugando uma lágrima.


Que animal inteligente! Que sentimento nobre!

JOÃO GRILO - Mas infelizmente não foi possível fazer o enterro, de modo que vai ser
difícil cumprir o testamento nessa parte. E agora a cachorrinha vai ser comida pelos
urubus.

PADRE - Comida ela? De jeito nenhum! (Real interesse) E o testamento, onde está?

JOÃO GRILO - Foi passado em cartório, é coisa garantida.

PADRE - Uma cachorra dessa não pode ser comida pelos urubus…

MULHER, duas vezes.


Ai, ai, ai, ai, ai!
JOÃO GRILO -Pobre da cachorrinha, vai virar assombração

PADEIRO
Assombração de cachorro? Que história é essa?

PADRE
Assombração de cachorro eu nunca ouvi falar.

CHICÓ
Mas existe. Eu mesmo já encontrei uma.

PADEIRO, temeroso
Quando? Onde?

CHICÓ
Na passagem do riacho de Cosme Pinto.

PADEIRO
Tinham me dito que o lugar era assombrado, mas nunca pensei que se tratasse de
assombração de cachorro.

CHICÓ
Se o lugar é assombrado, não sei. O que eu sei é que eu ia atravessando o sangrador do
açude e me caiu do bolso nágua uma prata de dez tostões. Eu ia com meu cachorro e já
estava dando a
prata por perdida, quando vi que ele estava assim como quem está cochichando com
outro. De repente o cachorro mergulhou, e trouxe o dinheiro, mas quando fui veri car só
encontrei dois cruzados.

MuULHER DO PADEIRO
Oi! E essas almas de lá têm dinheiro trocado?

CHICÓ
Não sei, só sei que foi assim.

PADRE - Olha só eu to é cando com medo é do Bispo aparecer.

JOÃO GRILO - O Bispo?

PADRE - Ééé… Bispo, um grande administrador… Uma águia a quem nada escapa…

JOÃO GRILO - Pode deixar tudo por minha conta que eu garanto…

PADRE - Você garante, JOÃO?

JOÃO GRILO - Garanto… Com esses grandes administradores eu me entendo que é


uma beleza.
fi
fi
PADRE
Então vamos ao enterro.

MULHER
Em latim?

PADRE
Em latim.

PADEIRO
E o acompanhamento?

JOÃO GRILO
Vamos eu e Chicó. Com o senhor e sua mulher, acho que já dá um bom enterro.

PADEIRO
Você acha que está bem assim?

MULHER
Acho.

PADEIRO
Então eu também acho.

CHICÓ
Se é assim, vamos ao enterro. (João Grilo estende a mão a Chicó, que a aperta
calorosamente.)

PADRE
Como se chamava o cachorro?

MULHER, chorosa
Xaréu.

SACRISTÃO, enquanto se encaminha para a direita em tom de canto gregoriano.


Absolve, Domine, animas omnium delium defunctorum ab omni vinculi delictorum.

TODOS
Amém.
Saem todos em procissão, atrás do sacristão, com exceção do padre, que ca um
momento silencioso, levando depois a mão à boca, em atitude angustiada, e sai correndo
para a igreja.
Aqui o espetáculo pode ser interrompido, a critério do ensaiador, marcando-se o m do
primeiro ato. E continua com a entrada das Ciganas

CIGANAS
Muito bem, muito bem, muito bem.
fi
fi
fi
Um marmota aqui

Um mentira acolá

Uma vantagem ali

E mais uma trapaça

Assim se conseguem as coisas neste mundo.


Por dinheiro, por combina e por poder

Enquanto os sem sorte, continuam andando por ai!


Mas um dia….
Um dia a ampulheta do mundo vira

(Se escondem no véu ou no xale)

CENA
(Aparece mendigo (disfarçado) andando pela plateia e pedindo esmola e de repente
aparece outros aramados de espingardas. Um deles toma afrente)

CANGACEIRO - Quer morrer, cabra!

MENDIGO (Severino) - (Se revela o chefe do Cangaço. Grita) Vou, mas levo tudo comigo!

CANGACEIRO- Seu Severino?!

SEVERINO - E tu conhece outro com a minha cara?

CANGACEIRO - Ainda bem que o mendigo era o senhor, né? Só assim não tive que
matar ele…

SEVERINO - Cuidado com a tua froxura, cabra!

CANGACEIRO - Num gosto-me matar não… Mato, mas não gosto!

SEVERINO - Pra onde tavam indo sem o meu comando?

CANGACEIRO _ O senhor tava demorando, a gente ia lhe buscar…

SEVERINO - Rodei a cidade toda vestido de esmolé, não encontrei nenhum polícia… Mas
também não teve nenhum cidadão pra me dar uma esmola.

CANGACEIRO - É por isso que eu robo… Eu não gosto de rodar, não… Mas quando a
pessoa pede e não lhe dão…

SEVERINO- Mas foi até bom… Que eu ganhei mais raiva desse povo.

CANGACEIRO - Eita que desse jeito não vai escapar ninguém em Itaperoá!

SEVERINO - Vai ser mais fácil que dar tapa em bêbado (Ri)
CANGACEIRO - (Ri)

Saem

CIGANAS

E agora nos afastamos com prudência, porque que se aproxima dessa vizinhança os
representantes do auto escalão

De o lado a representação em carne e o osso da igreja


E do outro o senhor da carne do osso, das terras, do agro.
Grandes administradores
É sempre prudente manter distancia e mas sem perde-los de vista

Saem

CENA
(Aparece Bispo)

BISPO - Major Antonio Moraes! (Mostra a mão para que o anel seja beijado, mas o major
somente aperta)

MAJOR - Seu Bispo…

BISPO - Antes de entrar em Taperoá eu z questão de cumprimentar a sua gura mais


eminente…

MAJOR - (Sem paciência) Eminente pro senhor porque ainda pouco nosso amigo Padre
João destratou, desonrou minha família.

BISPO - Padre João lhe destratou?

MAJOR - Eu só não matei ele, por que matar padre dá um azar triste

BISPO - Mas, o que foi que ele fez?

MAJOR - Imagine Vossa Eminência que eu fui pedir pra padre João abençoar minha lha
que tá doente e ele… (Corta e oferece pão de queijo) Bispo, quer uma?

BISPO - (Aceita. Quando vai pegar, Major tira a bandeja)) Uma?

MAJOR - Nem tenho coragem de dizer…

BISPO - É coisa feia, É?

MAJOR - Horrível!! E ainda disse o mesmo de minha mulher…

BISPO - Não, mas o senhor me diga o que foi que eu tomo as providências…
fi
fi
fi
MAJOR - Chamou de…

BISPO - De…

MAJOR - Ai é até pecado uma coisa dessas… Não Bispo…

BISPO - Não o senhor diga que eu lhe dou absolvição por antecedência…

MAJOR - Começa com “C”…

BISPO - “C”?…

MAJOR- Agora vem um Ä”…

BISPO - “C"e A”?…

MAJOR - Depois vem um “X”…

BISPO - “X”?…

MAJOR - “C, A, X…”… Dois “RR" no m e um Ä”… Pronto, disse!

BISPO - (Corrigindo) Não mas, cachorra não é com “X”…

MAJOR - Nunca pensei que ouvi Vossa Reverência dizer uma palavra de tão baixo
calão…

BISPO - Não, mas eu disse, Cachorra com “X”, conforme o senhor ditou, e como cachorra
com “X"não existe logo não é pegado

MAJOR - Ah mas só que o padre só pode ter dito com “CH”.

BISPO - O senhor pode car tranquilo que eu vou tomar as providências. (Sentindo_se a
vontade em casa)

CENA
(Toca o sino.)

Entra João Grilo e o Padre

(Entrega um saquinho com moedas para o Padre)

JOÃO GRILO - Padre João! Está aí, toma.

PADRE - Não há pressa (Pega o saquinho)

JOÃO GRILO - O testamento foi cumprido

Entra o BISPO
fi
fi
BISPO - Era o senhor mesmo Padre que eu estava procurando

PADRE, nervoso

Não esperava Vossa Reverendíssima aqui agora, de modo que...

BISPO
Deixemos isso, passons, como dizem os franceses. Mas há coisas que não posso deixar
de lado, com essa facilidade.

PADRE
Não estou entendendo.

BISPO, severo
Pois entenderá já. Quando eu lhe disser que Antônio Morais falou comigo...

PADRE, sorridente
Antônio Morais falou com o senhor!

BISPO
Falou sim, e foi para reclamar de seu procedimento para com ele.

PADRE
Não entendo o que Vossa Reverendíssima quer
dizer.

BISPO
Não vejo di culdade nenhuma em se entender isso, Padre João.
Antônio Morais veio a mim se queixar de sua brutalidade para com ele.

PADRE Como é?

BISPO
Vamos deixar de brincadeiras, O senhor sabe perfeitamente a que estou me referindo.
Por que chamou a mulher dele de cachorra?

PADRE
Eu?

BISPO
Sim, o senhor. Padre João?

PADRE
Não, nunca, Deus me livre. Mas juro que não chamei a mulher dele de cachorra.

BISPO
Chamou, Padre João.
fi
PADRE
Não chamei, Senhor Bispo.

BISPO
Chamou, Padre João.

PADRE
Não chamei, Senhor Bispo.

BISPO, elevando a voz Chamou, Padre João.

PADRE, resignado
Chamei, Senhor Bispo.

BISPO
A nal, chamou ou não chamou?

PADRE
Não chamei, mas se Vossa Reverendíssima diz que eu chamei é porque sabe mais do
que eu.

BISPO
Então não é verdade que ele veio pedir que o senhor lhe abençoasse a lha e que você
chamou ela e a mulher dele de cachorra?

PADRE
A lha?

BISPO
Sim, a lha dele que está doente!

PADRE
E é o la o dele que está doente?

BISPO
Claro que é, não é o que estou dizendo?

PADRE
O Grilo tinha me dito que era a cachorra!

BISPO - Valeria. - Frade Sophia


O grilo? Padre João, você quer brincar comigo? Que história de grilo e cachorro é essa?

PADRE
Vossa Reverendíssima perdoe, agora eu entendo tudo.

BISPO
Mas acontece que agora quem começa a não entender sou eu.
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PADRE
A culpa é de João Grilo.

BISPO
Quem é João Grilo?

PADRE
Um amarelo que mora aqui e trabalha na padaria.
Mas ele me paga.

Crianças (Entram num trenzinho ou brincando)

É Lampi, é Lampi, é Lampi


É Lampi, é Lampi, é Lampião 2 VEZES
Seu nome é Virgulino
O apelido é Lampião

Crianças - (Gritam) Évem Lampião!!!

Entra Padre João chamando - João Grilo

PADRE
João Grilo!

PADRE
João Grilo, querido João Grilo, estou satisfeitíssimos com você.

JOÃO GRILO
Quem sou eu, um pobre Grilo que não vale nada... É bondade de Vossa Reverendíssima.

PADRE
É mesmo, é bondade minha, porque você não passa de um amarelo muito safado!

JOÃO GRILO
Está ouvindo, Chicó? Eita, eu, se fosse você, reagia.

CHICÓ
Eu?

JOÃO GRILO
Sim, eu, se fosse você, reagia. Não admito que ninguém diga isso de um amigo meu na
minha frente.

CHICÓ
Mas o amigo é você!

JOÃO GRILO
E então? Reaja, Chicó, você não é homem?!

CHICÓ
Eu sou homem mas sou frouxo.

JOÃO GRILO

Muito bem, se é assim, eu falo. Por que


Vossa Reverendíssima me chamou de safado?

PADRE
Porque você é um amarelo muito safado.

JOÃO GRILO
Pois se esqueceram de botar isso na minha certidão de idade!

PADRE
Seu moleque como é que você veio me dizer que a cachorra de Antônio Morais estava
doente, fazendo-me chamar a lha e mulher dele de cachorra?

JOÃO GRILO
Ah, e a safadeza é essa? Isso é nada, Padre João! Muito pior é
enterrar o cachorro em latim, como se ele fosse cristão, e nem por isso eu vou chamá-lo
de safado.

PADRE, enorme grito Ai!

Entra o Bispo

BISPO
Que é isso?

PADRE
Uma dor que me deu de repente. Ai!

JOÃO GRILO
Coitado, não tem que ver o grito que minha patroa dava enquanto se fazia o enterro do
cachorro.

PADRE
Ai, João Grilo, meu querido, me acuda que estou morrendo.

JOÃO GRILO
Eu ? Quem sou eu para socorrer padre, eu, um amarelo muito safado!

PADRE
Eu retiro o que disse, João.

JOÃO GRILO
Retirando ou não retirando, o fato é que o cachorro enterrou-se em latim.
fi
BISPO
Uma cachorra? Enterrado em latim?

PADRE
Enterrado latindo, Senhor Bispo. Au, au, au, não sabe?

BISPO
Não sei não senhor, nunca vi cachorra morta latir... Que história é essa?

PADRE
Ai! Ai! Ai

JOÃO GRILO
Que a aperreio é esse, a desgraça agora que começou

BISPO
Então houve isso? Uma cachorra enterrado em latim?

JOÃO GRILO
E então? É proibido?

BISPO
Se é proibido? Deve ser, porque é engraçado demais para não ser. É proibido! É mais do
que proibido! Código Canônico, artigo 1627, parágrafo único, letra k. Padre, o senhor vai
ser suspenso.

PADRE
Ai!

JOÃO GRILO
Vossa Excelência Reverendíssima vai suspender o padre?

BISPO
Vou, por que não? Acha pouco o que ele fez? Uma vergonha! Uma desmoralização!

PADRE
Ai!

BISPO
Quanto o senhor, Senhor João Grilo, vai ver agora o que é administrar. O senhor vai-se
arrepender de suas brincadeiras, jogando a Igreja contra Antônio Morais. Uma vergonha,
uma desmoralização!

JOÃO GRILO
É mesmo, é uma vergonha. Uma cachorra safado daquele se atrever a deixar três contos
para o padre, seis para o Bispo, é demais.

BISPO, mão em concha no ouvido


Como?
JOÃO GRILO
Ah! E o senhor não sabe da história do testamento ainda não?

BISPO
Do testamento? Que testamento?

CHICÓ
O testamento da cachorra.

BISPO
Testamento da cachorra?

PADRE, animando-se.
Sim, a cachorra tinha um testamento. Maluquice de sua dona.
Deixou três contos de réis para a paróquia e seis para a diocese.

BISPO
É por isso que eu vivo dizendo que os animais também são criaturas de Deus. Que
animal interessante! Que sentimento nobre!

PADRE, arriscando
Para atender à vontade da dona, eu permiti acompanhasse o...

BISPO -
O enterro!

PADRE, sorridente
Sim, o enterro.

BISPO
Em latim?

JOÃO GRILO, gregoriano


Não sei quê, não sei quê, defunctorum.

CHICÓ, mesmo tom


Amém.

BISPO
É preciso deliberar. É assunto para se discutir com muito cuidado. Vamos reunir o
concílio.

Saem

Fica João e Chicó

CHICÓ
Você ainda se desgraça numa embrulhada dessas.

JOÃO GRILO -
Que nada Chicó
CENA
BISPO E MAJOR ENTRAM CONVERSANDO

BISPO - Na verdade Major, Padre João não chamou a sua lha de CACHORRA…

MAJOR - Chamou sim…

BISPO - Não chamou Major…

MAJOR - Chamou, Sr Bispo…

BISPO - Não chamou Major…

MAJOR - (Exaltado vai pra cima) Chamou, Sr Bispo…

BISPO - (Se rende) Chamou Major…

MAJOR - Chamou ou não chamou, Sr. Bispo?

Bispo - Chamou… e não chamou… O senhor tava vindo com sua lha e Padre João
pensou que fosse uma cachorra…

MAJOR - Benção pra cachorra? E pode?

BISPO - Pode, pode, pode, pode, pode… Código canonico, paragrafo 936, artigo terceiro,
letra C…

MAJOR - Esse negócio de benção tá muito desmoralizado… Se padre pode benzer até
cachorra, eu é que não vou querer que ele benze a minha lha.

BISPO - Não se preocupe, eu pessoalmente benzerei a sua lha. Amanhã é dia da


padroeira, eu vou rezar a missa em Taperoá.

(Sae entra grilo)

CENA
JOÃO FOI PEDIR TRABALHO PRO MAJOR.

JOÃO - Oi Mario será que tem um emprego, trabalho, serviço, tarefa, qualquer coisa
serve,…

MAJOR - Tua reputação não é das melhores…

JOÃO - Ah Sr Major, vivem querendo que pobre não tenha defeito…

MAJOR - E que você é um embrulho, abusado, cheio de nove horas…

JOÃO - É tanta qualidade pra gente, pra dar emprego que eu não conheço um patrão
com condições de empregado
fi
fi
fi
fi
MAJOR - Vou fazer uma aposta com você, e faço três perguntas e se você acertar…
Ganha o emprego!

JOÃO - Agora!!! Num tenho nada a perder.

MAJOR - Tem sim… Se errar, arranco uma tira de couro das suas costas

JOÃO - (Apavorado) Danou-se!

MAJOR - Como é?

JOÃO - Eu topo, só vou convencer minhas pernas que tão me tremendo toda….

MAJOR- Muito bem, lá vai a primeira… Qual é a distância de uma ponta do mundo a
outra?

JOÃO- É… Um dia de jornada, que é o tempo que o sol leva pra percorre-la.

MAJOR- Que que existe acima de um rei?

JOÃO- A coroa.

MAJOR- No que que eu to pensando agora?

JOÃO- Em me ganhar.

MAJOR- Muito bem João Grilo. Conheci que você é sabido mesmo.

JOÃO- Mais sabido é o senhor que agora manda em mim.

MAJOR- Então vá a Taperoá buscar minha lha que tá chegando do Recife


E hoje é dia da padroeira e vai ter é muita gente por lá, leve ela direto para igreja que o
bispo mesmo vai benzer.

JOÃO -
É pra já.

CENA Ciganas

A noite é de festa
As luzes das estrelas e das lamparinas ilumina o vilarejo
No céu a lua dança
É dia da padroeira
Que advogada é
Que roga por todos de boa fé

Entra em Cena as crianças em posição de maria.


fi
Música -

Um anjo apareceu e alegre me falou


Que fui a escolhida pra servir a Deus
Eu tenho aqui em mim aquele que virá
Pra transformar o mundo e semear amor e paz

Jesus será seu nome e pra sempre reinará


Feliz eu vou cantando pois a graça em mim está
Jesus será seu nome e pra sempre reinará
Feliz eu vou cantando pois a graça em mim está

Vejam só, lá vai maria que no ventre traz Jesus


É bendita entre as mulheres quanta graça e quanta luz!

https://www.google.com/search?
client=safari&rls=en&q=Ciranda+da+VIRGEM+MARIA&ie=UTF-8&oe=UTF-8#fpstate=ive
&vld=cid:3bb90251,vid:T94peipkUcs,st:0

(As crianças saem)

APARECE CONVERSANDO VICENTÃO, EURICO E DORINHA.

VICENTÃO - Tais conversando, homem? Dava-lhe uma chapoletada que esse Severino
de Aracaju se mijava todinho. (Dorinha amolece assanhada)

DORINHA - Aiiiiiiii…..
VICENTÃO - Resolvia tudo com um arroto

DORINHA - Aiiiiii…

EURICO - É, foi bom mesmo o senhor ter viajado pra não cometer nenhuma
temeridade… Disseram que tinha pra mais de dez caras armados até o gogó…

VICENTÃO - E eu sou homem, de enganchar, seu Eurico?

EURICO - É melhor não facilitar, né? Já telegrafou pra capital, hoje mesmo estará
chegando o destacamento de polícia.

DORINHA -Olha lá, não é que o soldado chegou.

CENA
SOLDADOS MARCHANDO

Cabo 70-
Esquerda, direita, esquerda, direita… Soldados auto! Vigésimo pelotão de infantaria se
apresentando pro povo da cidade.

DORINHA (ENCANTADA)-
Eita que Taperoá já pode declarar guerra ao Brasil.

CABO 70
- Cabo 70 pra servi-la no que for preciso.

DORINHA-
Aí, não fala assim não que eu aceito.

VICENTÃO (PARA EURICO)-


Tudo froxo, conheço essa raça.

EURICO- Onde já se viu cabra ter que usar uniforme pra provar que é macho.

DORINHA- Cabo deixe eu lhe apresentar o pessoal daqui. (APONTA PRA EURICO)
Eurico meu marido. Vicentão o meu… Nosso amigo.

ROSINHA APARECE.

VICENTÃO E EURICO- Muito prazer…

EURICO- Rosinha como você cresceu, embonitou, cou mais apanhada e…

( DORINHA OLHA PRA EURICO)

ROSINHA-
Bondade sua seu Eurico.
Eu tive até meio adoentada e não é por isso que eu vim passar um tempinho aqui em
Taperoá.

DORINHA- E quando é que vai embora?

ROSINHA- Hã?

DORINHA- Quer dizer.. Eu digo quanto tempo ca entre nós?

ROSINHA- Por mim eu não saía daqui, mas minha só quer saber da capital.

DORINHA- Oxe, pois eu se pudesse vivia por lá, que isso aqui tá cheio de cabra safado.

(JOÃO GRILO APARECE E SAÍ CORRENDO LOGO EM SEGUIDA)

ROSINHA- Com licença, antes de ir pra fazenda vou passar na igreja,

GRILO - É o bispo vai dar a benção, Vamos Rosinha. ( SAÍ CORRENDO)

VICENTÃO- Bispo é? Homem, é até um pecado perder uma missa dessa.


(FALA E SAÍ NA MESMA DIREÇÃO QUE DORINHA)

CABO 70- Com licença dona Dora a autoridade militar vai saldar as autoridades
religiosas. (SEGUE VICENTÃO)
fi
fi
EURICO- Hoje não é dia de novena

DORINHA- Mas o senhor está dispensado.

EURICO- Oxe…

CENA
DORINHA E CHICÓ

(CHICÓ E DORINHA ESTÃO ANDANDO PELO PARQUE QUANDO COMEÇA A SOLTAR


FOGOS DE ARTIFÍCIO E JOÃO GRILO APARECE)

JOÃO GRILO- Oi, Chicó!

(CHICÓ E DORINHA SE OLHAM E SE APAIXONAM)

JOÃO GRILO- Eita que homem folgado, aproveitando a festa e eu aqui trabalhando, né?

CHICÓ (AINDA OLHANDO A DORINHA)- Ih é.

JOÃO GRILO- Oxe, andou bebendo foi?

CHICÓ- É o que?

JOÃO GRILO- Nada não. (PUXANDO ROSINHA) A missa já vai começar.

DORINHA- Quen é ele?

JOÃO GRILO- E não é Chicó?

DORINHA- Chicó do que?

JOÃO GRILO- Não sei não. É só chamar Chicó que ele vem.

DORINHA- Me deu uma vontade de comer um confeito. João vai comprar um canudo.

JOÃO- E a missa?

DORINHA- Quando dá essas vontades tem que ser na hora.

(DORINHA VAI EM DIRECÃO Á CHICÓ, MAS VICENTÃO APARECE)

VICENTÃO- Desistiu da benção foi?

DORINHA- Tenho que comprar um confeito.

VICENTÃO- Deixe que eu compro pra senhora.

(DORINHA CONSEGUE ESCAPAR DE VICENTÃO, MAS APARECE O CABO 70)

CABO- Rosinha, mande as ordens.


ROSINHA- Vai comprar um confeito.

CABO- Um confeito?

ROSINHA- É, direita vão ver.

(ROSINHA CONSEGUE ENCONTRAR CHICÓ QUE ESTÁ COM UM CANUDO DOCE


NAS MÃOS)

CHICÓ- Trouxe um confeito pra senhora

DORINHA- Obrigada, Chicó.

CHICÓ- Como sabe meu nome?

ROSINHA- Eu adivinhei.

JOÃO - Tome seu confeito

ROSINHA - Você demorou tanto que Chicó já me trouxe

JOÃO - Como se a Senhora pediu foi pra mim

ROSINHA - Ele adivinhou

Entra o Cabo e Vicentão

Dona Rosinha, aqui está.

ROSINHA - Obrigada.

JOÃO - Eitcha, que todo mundo lê pensamento. Vamos andando Dona Rosinha! A missa
já começou.

Todos entram na igreja .

CIGANAS

Um dia, há milhões de anos atrás,


O mar beijou o rio São Francisco.
Dava gosto de ver, o verde verdejante verdejando tudo que era canto,
onde hoje a seca rabisca o chão.
Era o sertão virando mar...

Cena Major entra com Rosinha conversando

MARJO - Rosinha, precisamos cuida do seu casório, você só sai daqui casada.

ROSINHA - Eu meu pai?


MARJO - É, você mesma, e não se faça de lesa... Sua nada bisavó, deixou uma porca
cheinha de dinheiro...

JOÃO - Eu rogo a Deus que essa senhora tenha vivido muito.

MARJO - Ela viveu quase 100 anos. Agora só falta achar um cabra que seja doutor e
valente, para casar com você.

ROSINHA - Como meu pai, se eu não gosto de ninguém?

MARJO - Besteira, com o tempo você acaba gostando…

ROSINHA - Ai minha nossa senhora, agora vou ter que casar obrigada

JOÃO - Não se aperrei não. A Senhora vai encontrar alguém para querer bem. Com essa
beleza que a senhora tem e essa porca, pretendente é que não vai faltar.

De um alado parece o Cabo e do outro Vicentão


E as ciganas ao centro

Ciganas
Onde há dinheiro há desejo
Onde há amor há esperança

Vicentão - A sorte quer juntar minha vida com de Rosinha.

Ciganas
Onde há amor também há corações partidos

Cabo - Ai como sofro, eu só queria que Rosinha me quisesse e gostasse de mim.

Ciganas - As ilusões criam situações

Cabo e Vicentão - Vou mandar entregar a Rosinha esse presente.

Ciganas
E o destino segue, cruzando o o da vida em teia que nem um vento pode desfazer.

Entra Rosinha e Chicó

ROSINHA - Que jóias lindas, Chicó! Quem mandou?

CHICÓ - Alguém da cidade que é doido pela senhorita!

ROSINHA - Oxi, que história, ninguém gosta de mim.

CHICÓ - Esse gosta por demais...


fi
fi
ROSINHA - E quem é ele?

CHICÓ - Posso dizer não que ele pediu...

ROSINHA - É bonito?

CHICÓ - Posso dizer não que sou modesto...

ROSINHA - É você Chicó?

CHICÓ - Já que a senhora adivinhou, não vou negar que desde que te conheci vivo pra
morrer... Só não morro porque vivo pensando na senhora.

ROSINHA - Não posso aceitar não, Chicó.

CHICÓ - É porque sou pobre?

ROSINHA - Não é nada disso... Se você ao menos fosse valente?

CHICÓ - Mas eu sou o cabra mais valente de Taperoá.

ROSINHA - Que nada, os mais valente da cidade é o cabo 70 e Vicentão?

CHICÓ- Pois eu tô doido para acabar com os dois, boto eles pra correr dessa cidade.

ROSINHA - Isso eu queria ver.

CHICÓ- Então vai ver.

CIGANAS

Naquela noite um arranjo foi feito em nome do amor e do dinheiro.


Um duelo foi marcado entre 3 corações apaixonados.

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