0% acharam este documento útil (0 voto)
19 visualizações19 páginas

Educação Escolar Indígena e Quilombola

Enviado por

moacirubirajara2
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
19 visualizações19 páginas

Educação Escolar Indígena e Quilombola

Enviado por

moacirubirajara2
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Márcio Oliveira de Castro Coelho

Educação escolar
indígena e quilombola
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Jeane Passos de Souza – CRB 8a/6189)

Coelho, Márcio Oliveira de Castro


Educação escolar indígena e quilombola / Márcio Oliveira de
Castro Coelho. – São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2021. (Série
Universitária)

Bibliografia.
eISBN 978-65-5536-638-9 (ePub/2021)
eISBN 978-65-5536-639-6 (PDF/2021)

1. Educação 2. Educação : Políticas públicas 3. Educação :


Inclusão 4. Educação : Diversidade cultural 5. Educação indígena
6. Educação antirracista 7. Identidade étnico-racial 8. Pedagogia
decolonial I. Título. II. Série

21-1273t CDD - 370.115


370.117
BISAC EDU048000
EDU020000
EDU023000

Índice para catálogo sistemático


1. Educação : Inclusão 370.115
2. Educação multicultural 370.117
INDÍGENA E QUILOMBOLA
EDUCAÇÃO ESCOLAR

Márcio Oliveira de Castro Coelho


Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
Administração Regional do Senac no Estado de São Paulo
Presidente do Conselho Regional
Abram Szajman

Diretor do Departamento Regional


Luiz Francisco de A. Salgado

Superintendente Universitário e de Desenvolvimento


Luiz Carlos Dourado

Editora Senac São Paulo


Conselho Editorial
Luiz Francisco de A. Salgado
Luiz Carlos Dourado
Darcio Sayad Maia
Lucila Mara Sbrana Sciotti
Jeane Passos de Souza
Gerente/Publisher
Jeane Passos de Souza (jpassos@[Link])
Coordenação Editorial/Prospecção
Luís Américo Tousi Botelho ([Link]@[Link])
Dolores Crisci Manzano ([Link]@[Link])
Administrativo
grupoedsadministrativo@[Link]
Comercial
comercial@[Link]
Acompanhamento Pedagógico
Ariádiny Carolina Brasileiro Maciel
Designer Educacional
Jussara Cristina Cubbo
Preparação e Revisão de Texto
Ana Luiza Candido
Projeto Gráfico
Alexandre Lemes da Silva
Emília Corrêa Abreu
Capa
Antonio Carlos De Angelis
Proibida a reprodução sem autorização expressa.
Editoração Eletrônica Todos os direitos desta edição reservados à
Cristiane Marinho de Souza
Leornardo Massaneiro Editora Senac São Paulo
Ilustrações Rua 24 de Maio, 208 – 3o andar
Cristiane Marinho de Souza Centro – CEP 01041-000 – São Paulo – SP
Leornardo Massaneiro Caixa Postal 1120 – CEP 01032-970 – São Paulo – SP
Tel. (11) 2187-4450 – Fax (11) 2187-4486
Imagens
E-mail: editora@[Link]
Adobe Stock Photos
Home page: [Link]
E-pub
Ricardo Diana © Editora Senac São Paulo, 2021
Sumário
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

Capítulo 1 Capítulo 4
Políticas para educação indígena Educação escolar quilombola, 49
e quilombola, 7 1 Pedagogia decolonial e educação
1 Educação indígena e educação antirracista nas competências
quilombola como modalidades da BNCC, 50
de ensino da educação escolar 2 Desenvolvimento curricular
brasileira, 8 intercultural nas escolas
2 Políticas públicas para quilombos quilombolas, 52
e áreas indígenas, 14 3 Gestão e projeto político-pedagógico
Considerações finais, 16 na escola quilombola, 55
Referências, 17 Considerações finais, 57
Referências, 59
Capítulo 2
Raça, etnia e territorialidades, 21 Capítulo 5
1 Identidade étnico-racial, 22 História e diretrizes legais sobre
2 Etnicidade e territorialidade os direitos indígenas, 61
quilombola e indígena, 26 1 História e cultura indígena
3 Educação para as relações no Brasil, 63
étnico-raciais na escola e a Base 2 Diretrizes legais da educação
Nacional Comum Curricular indígena, 67
(BNCC), 28 Considerações finais, 69
Considerações finais, 30 Referências, 70
Referências, 31
Capítulo 6
Capítulo 3 Educação escolar indígena, 73
Quilombos e sua história, 35 1 Interculturalidade e educação
1 História e organização social indígena, 74
dos quilombos, 36 2 Bilinguismo/multilinguismo, 76
2 Professores quilombolas – 3 Educação do indígena na escola não
descolonizando o conhecimento, 43 indígena e a questão da diversidade
Considerações finais, 45 na BNCC, 78
Referências, 46 Considerações finais, 81
Referências, 82
Capítulo 7 Capítulo 8

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
Educação especial e Educação escolar indígena
educação escolar quilombola e quilombola na prática, 97
e indígena, 85 1 Experiências de educação escolar
1 Educação especial enquanto em aldeias indígenas e em
modalidade que perpassa outras comunidades quilombolas, 98
modalidades de ensino, 87 2 Questões étnico-raciais na escola e
2 Pessoas com deficiência na escola a produção do fracasso escolar, 103
quilombola e indígena, 89 Considerações finais, 104
3 Direito ao AEE e à educação Referências, 105
para todos, 91
Considerações finais, 93 Sobre o autor, 107
Referências, 94

6 Educação escolar indígena e quilombola


Capítulo 1
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

Políticas para
educação indígena
e quilombola

A educação para os povos indígenas e comunidades quilombolas,


entendida como um processo próprio de ensino e aprendizagem, é fun-
damental para a formação da pessoa indígena e quilombola em seu
contexto sociocultural e representa um direito e um pressuposto para a
educação escolar, ou seja, a educação indígena e a quilombola deverão
ser compreendidas como pontos de partida para a construção de uma
educação escolar em seus territórios.

A implantação de escolas nesses territórios, um item importante na


pauta de reivindicações dessas comunidades junto ao governo brasilei-
ro, incluindo uma proposta curricular e um projeto político-pedagógico
específico e a formação de professores da própria comunidade, vem de
encontro não apenas à reivindicação de se ter uma escola, mas tam-
bém que tipo de escola essas comunidades querem em seus territórios.

7
Os povos indígenas e as comunidades quilombolas, compreendidas

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
enquanto parcelas das populações do campo1 e com direito a uma edu-
cação do campo, conforme o Decreto no 7.352/2010, distinguem-se das
outras parcelas das populações do campo por lutarem pelo direito de
reconhecimento a uma identidade étnica, constituída a partir de seu ter-
ritório, sua história, sua memória e cultura, sua língua materna e de um
modo próprio de ensinar.

A educação indígena e a educação quilombola se referem a proces-


sos próprios de transmissão e manutenção das culturas indígenas e
quilombolas, através da oralidade e de formas específicas de socializa-
ção dos componentes de cada grupo. O sentido dessa educação será
formar a pessoa indígena e quilombola, inserida em sua cultura, visando
à construção de sua identidade étnica e pertencimento.

1 Educação indígena e educação quilombola


como modalidades de ensino da educação
escolar brasileira

1.1 Educação indígena e não para o indígena

No livro Educação indígena e alfabetização (MELIÁ, 1979), encon-


traremos um quadro que apresenta uma relação entre a educação in-
dígena e a educação para o indígena, o qual também pode ser usado
para pensarmos a relação entre a educação quilombola e a educação
para o quilombola.

1 Decreto no 7.352/2010, artigo 1o inciso I: “Populações do campo: os agricultores familiares, os extrativistas,


os pescadores artesanais, os ribeirinhos, os assentados e acampados da reforma agrária, os trabalhadores
assalariados rurais, os quilombolas, os caiçaras, os povos da floresta, os caboclos e outros que produzam
suas condições materiais de existência a partir do trabalho no meio rural” (BRASIL, 2010).

8 Educação escolar indígena e quilombola


As características da educação indígena, que vão se elencar no
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

quadro seguinte, estão tiradas, pela maior parte, da análise de Flo-


restan Fernandes sobre a educação dos Tupinambá. Mas essas
características se aplicam geralmente a muitas sociedades indí-
genas. As características assinaladas na educação para o índio
se desprendem implicitamente do que foi dito ao falar da edu-
cação missionária e da educação nacional. (MELIÁ, 1979, p. 51)

Vale ressaltar que ocorreram muitos avanços na legislação específi-


ca para a educação escolar indígena e quilombola, atendendo a reivin-
dicações das comunidades por uma política de educação voltada para
as realidades socioculturais e linguísticas dos povos indígenas e comu-
nidades quilombolas, as quais podem ser observadas nas Resoluções
CNE/CEB nos 5 e 8 de 2012, das Diretrizes Curriculares Nacionais para a
Educação Escolar Indígena e Quilombola, respectivamente.

Meliá (1979, p. 52) faz essa relação entre a educação indígena e a


educação para o indígena, com base em quatro pressupostos:

1. Processos e meios de transmissão do conhecimento, onde


destacamos a questão da oralidade e do uso de material
escrito; sem a estrutura escolar e com a estrutura escolar;
uma educação informal e assistemática e outra educação
formal e sistemática.

2. Condições de transmissão do conhecimento, neste caso


é preciso lembrar que na comunidade indígena há um
processo permanente de educação durante toda a vida e
na escola da aldeia a formação escolar ocorre durante um
tempo determinado.

3. Natureza dos conhecimentos transmitidos, quando são


construídas as habilidades necessárias para realizar
as tarefas cotidianas na comunidade e são passados
os conhecimentos sobre as tradições, por exemplo, as
religiosas que serão a resistência a conversão e a catequese
para uma nova religião.

4. Funções sociais da educação, a valorização e a preservação


do saber tradicional frente a adaptação contínua e imposta
a partir do contato com a sociedade nacional.

Políticas para educação indígena e quilombola 9


Neste capítulo, vamos refletir sobre os direitos e pressupostos edu-

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
cacionais para o desenvolvimento de uma educação escolar indígena e
quilombola, lembrando que essas modalidades da educação básica são
diferenciadas e representam um esforço de mediação entre a educação
indígena e quilombola e a educação para o indígena e quilombola.

Na nossa vida de antigamente a gente tinha o nosso jeito de ensi-


nar. Depois que os brancos chegaram, nossa vida mudou. Agora a
gente precisa fazer demarcação, a gente precisa aprender o portu-
guês, a gente precisa saber usar o dinheiro. Agora nós precisamos
entender o sistema de vida do branco. Por isso, nós precisamos
de escola. Por isso, nós pedimos escola! (CIMI, 1986, p. 150 apud
GRASSI, 2012, p. 80)

O direito a uma educação escolar diferenciada para os povos indí-


genas e comunidades quilombolas está assegurado pela Constituição
Federal (CF) de 1988, pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação
Nacional (LDBEN – Lei no 9.394/1996), e pela Convenção 169 da
Organização Internacional do Trabalho (OIT),2 bem como em ou-
tros documentos nacionais e internacionais, que estão descritos nas
Resoluções CNE/CEB no 5/2012 e no 8/2012, que estabelecem as
Diretrizes Nacionais Curriculares para a Educação Escolar Indígena e
Quilombola, respectivamente.

Em relação à educação escolar indígena, podemos dizer que essa


modalidade de ensino, na história da educação escolar brasileira, ini-
cia-se já no período colonial e foi desenvolvida pelas ordens religiosas,
principalmente por meio da Companhia de Jesus.

No século XX, o Serviço de Proteção ao Índio (SPI), criado em 1910,


inicia a implantação de escolas junto às aldeias indígenas, impondo
uma educação escolar que tinha por objetivo integrar o indígena à so-
ciedade, ensinando a língua portuguesa em detrimento de sua língua

2 A Convenção 169 da OIT foi promulgada no Brasil por meio do Decreto no 5.051, de 19 de abril de 2004.

10 Educação escolar indígena e quilombola


materna. Esse processo teve continuidade após a extinção do SPI e a
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

criação da Fundação Nacional do Índio (Funai), em 1967, que coorde-


nou as ações de educação junto aos povos indígenas introduzindo o
uso da língua materna na alfabetização através do ensino bilíngue, mas
ainda dando continuidade a uma política de integração do indígena à
sociedade nacional, conforme os artigos 49 e 50 da Lei no 6.001/1973,
Estatuto do Índio, que preconizava a orientação da educação do índio
para a integração na comunhão nacional, com a alfabetização feita na
língua materna e em português. Em 1991, a educação escolar indígena
passou a ser coordenada pelo Ministério da Educação (MEC).

Os artigos 49 e 50 da Lei no 6.001/1973 afirmam que a alfabetização


deveria ocorrer na língua materna e em português, mas naquele mo-
mento não havia material didático na língua indígena e os professores
não dominavam a língua do grupo com o qual trabalhavam.

Nesse sentido, é importante destacar que ocorreram vários proje-


tos de formação de professores indígenas, a partir dos anos 1990, por
meio de conversas com as comunidades indígenas, quando a escola,
enquanto instituição, vai sendo apropriada pelos povos indígenas.

Os processos escolares devem ser conduzidos pelos próprios ín-


dios, membros das respectivas comunidades onde a escola este-
ja inserida. Para tanto, professores indígenas têm sido formados
para atuarem nas escolas das aldeias, a partir de diferentes pro-
gramas de formação, primeiramente alavancados por organiza-
ções da sociedade civil de apoio aos índios, e hoje já assumidos
em muitos estados pelas Secretarias Estaduais de Educação.
(GRUPIONI, 2006, p. 48)

Na CF/1988, § 2o do artigo 210, ficou assegurado às comunidades


indígenas a utilização de suas línguas maternas e processos próprios
de aprendizagem.

Políticas para educação indígena e quilombola 11


PARA SABER MAIS

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
Os resultados do Censo de 2010 do IBGE revelaram um crescimento
significativo em relação à população indígena no Brasil, passando de
734 mil, no Censo de 2000, para 896 mil pessoas. O Censo de 2000 não
verificou o pertencimento a um grupo étnico e linguístico. O Censo de
2010 permitiu às pessoas que se declarassem indígenas pertencentes
a um povo ou etnia e se falavam uma língua indígena. Dessa forma, o
Censo de 2010 verificou a existência de 274 línguas indígenas faladas
por indivíduos pertencentes a 305 etnias diferentes (BRASIL, [s. d.]).

A LDBEN/1996, em seus artigos 32 e 78, amplia o que já estava asse-


gurado na CF/1988, garantindo aos povos indígenas, além da utilização
de suas línguas maternas, uma educação escolar bilíngue e intercul-
tural, com currículo, projeto pedagógico, material didático e formação
específica de professores. As diretrizes curriculares nacionais para a
educação escolar indígena, artigo 3o da Resolução CNE/CEB no 5/2012,
reafirma tudo isso, garantindo aos povos indígenas sua afirmação en-
quanto sujeitos coletivos de direitos.

Direito à autodeterminação e, por isso, à demarcação das terras, à


escola e a aprender o português para construir uma educação do indí-
gena e não para o indígena.

1.2 Educação quilombola e não para o quilombola

A educação escolar quilombola, enquanto modalidade de ensino da


educação escolar brasileira, começa a ser pensada nos anos 1980, prin-
cipalmente a partir da publicação da CF/1988, no contexto da celebra-
ção do Centenário da Abolição, com os artigos 215, § 1o, e 216, § 5o, e,
fundamentalmente, o artigo 68 do Ato das Disposições Constitucionais
Transitórias (ADCT), que estabeleceu a propriedade definitiva das terras
ocupadas pelos remanescentes das comunidades dos quilombos.

12 Educação escolar indígena e quilombola


Importante lembrar que a população negra, escravizada no Brasil,
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

não teve direito a uma educação formal, talvez pelo receio de ocorrerem
ameaças à estabilidade social do país.

O Brasil, Colônia, Império e República, teve historicamente, no


aspecto legal, uma postura ativa e permissiva diante da discri-
minação e do racismo que atinge a população afrodescendente
brasileira até hoje. O Decreto no 1.331, de 17 de fevereiro de 1854,
estabelecia que nas escolas públicas do país não seriam admitidos
escravos, e a previsão de instrução para adultos negros dependia
da disponibilidade de professores. O Decreto no 7.031-A, de 6 de se-
tembro de 1878, estabelecia que os negros só podiam estudar no
período noturno e diversas estratégias foram montadas no sentido
de impedir o acesso pleno dessa população aos bancos escolares.
(BRASIL, 2004a, p. 7)

Essa modalidade de ensino vai ser regulamentada pelas Diretrizes


Curriculares Nacionais, Resolução CNE/CEB no 8/2012, implantada
nas escolas inseridas nas comunidades remanescentes de quilombos.
Assim, a educação escolar quilombola passa a organizar seu currículo
tendo por base temas relacionados à cultura e à especificidade étnico-
-cultural de cada comunidade.

A Resolução CNE/CEB no 8/2012, em seu artigo 1o, define que as


escolas quilombolas deverão se fundamentar a partir de uma memó-
ria coletiva; das línguas reminiscentes; das práticas culturais; das tec-
nologias e formas de produção do trabalho; dos acervos e repertórios
orais; dos festejos, usos, tradições e demais elementos que conformam
o patrimônio cultural das comunidades quilombolas de todo o país e da
territorialidade.

Podemos notar que a educação escolar quilombola tem uma inter-


face com a educação escolar indígena na construção de seu currículo e
que os quilombolas, assim como os indígenas, buscam sua afirmação
enquanto sujeitos coletivos de direitos.

Políticas para educação indígena e quilombola 13


Direito à autodeterminação e, portanto, à propriedade definitiva das

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
terras remanescentes de quilombos, à escola, ao resgate das línguas
africanas reminiscentes e ao fortalecimento da memória coletiva na
construção de uma educação do quilombola e não para o quilombola.

2 Políticas públicas para quilombos e áreas


indígenas
Em relação às políticas públicas nos quilombos e áreas indígenas, é
preciso destacar que, em um primeiro momento, tanto indígenas quan-
to quilombolas estavam voltados para uma luta de garantia de seus
territórios e, concomitantemente, passaram a lutar também por outras
demandas sociais.

Em 2007, por exemplo, fazendo parte do Programa Brasil Quilombola


(PBQ), criado em 2004, ocorreu o lançamento da Agenda Social
Quilombola, que foi coordenada pela Secretaria Especial de Políticas de
Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), para a qual foram destinados
recursos para atender às demandas por políticas públicas da população
quilombola. Nesse programa, “a educação recebeu um montante de R$
241,2 milhões” (CURITIBA, 2010, p. 17).

Com a educação escolar indígena e a quilombola já consolidadas,


passou-se a buscar melhores condições para o desenvolvimento do tra-
balho do professor. No estado de São Paulo, por exemplo, os professo-
res indígenas estão trabalhando na formação de um curso de licencia-
tura indígena, lembrando que entre 2005 e 2009 a Universidade de São
Paulo (USP), em parceria com a Secretaria da Educação do Estado de
São Paulo, realizou uma formação intercultural superior de professores
indígenas.

Importante destacar que os programas de ações afirmativas, ou sis-


tema de cotas, garantidos pela Lei no 12.711, aprovada em 2012, jun-
to às universidades e institutos federais, que depois acabaram sendo
adotadas pelas demais universidades públicas, permitiram que muitos

14 Educação escolar indígena e quilombola


indígenas e quilombolas pudessem ter acesso ao ensino superior.
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

Atualmente, algumas universidades federais também realizam vestibu-


lar diferenciado para indígenas, como a de Brasília (UnB), a do Amazonas
(UFAM), do Pará (UFPA), de Roraima (UFRR) e de São Carlos (UFSCar).

Saúde, programas de habitação, transporte público, cultura, meio


ambiente, além da educação, são exemplos de áreas em que indíge-
nas e quilombolas reivindicam políticas públicas, o que necessaria-
mente não precisa ser mediado por nenhuma instituição, tais como
o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), a
Fundação Cultural Palmares (FCP) e a Funai, mas exige uma capa-
cidade de organização política dessas comunidades. Por isso, a ne-
cessidade da escola, implantada no interior das terras indígenas e
quilombolas, demarcadas e regularizadas, com uma educação esco-
lar diferenciada com a interculturalidade, o uso de línguas maternas,
mesmo as reminiscentes, e processos próprios de aprendizagem, de
forma a permitir que essas comunidades possam assumir o controle
das políticas públicas a elas destinadas – principalmente as políticas
de educação indígena e quilombola.

2.1 Interface entre as políticas educacionais – educação


indígena e quilombola

Vale ressaltar que a educação indígena tem avançado de forma acen-


tuada em relação à educação quilombola, talvez como conse­quência
de a demarcação das terras indígenas estar mais avançada que a certi-
ficação e a titulação das áreas quilombolas.3

A educação indígena passou a ser coordenada pelo MEC, em to-


dos os níveis e modalidades de ensino, a partir do Decreto no 26/1991,
até então essa modalidade de ensino estava sob a coordenação da

3 A legislação brasileira garante, inicialmente, a certificação da comunidade como remanescente de quilombo


pela FCP; depois, dá-se o processo de reconhecimento dos territórios e a titulação realizada pelo Incra
(SANTOS, 2012).

Políticas para educação indígena e quilombola 15


Funai. As ações referentes à educação indígena, definidas no Decreto

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
no 26/1991, passaram a ser executadas pelas secretarias estaduais e
municipais de educação, o que permitiu o reconhecimento oficial das
escolas indígenas como escolas diferenciadas a partir de 1999.

As escolas quilombolas foram oficialmente reconhecidas a partir


da publicação da Resolução CNE/CEB no 8/2012, Diretrizes Nacionais
Curriculares para a Educação Escolar Quilombola, como resultado de
inúmeras discussões que se iniciaram nos anos 1980. A Coordenação
Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas
(CONAQ)4 teve um papel fundamental nessa luta das comunidades qui-
lombolas pela conquista de direitos fundamentais (território e educação).

A educação escolar indígena e a quilombola trabalham com obje-


tivos comuns e dialogam entre si quando buscam autodeterminação,
emancipação, protagonismo, escolas inseridas nos territórios de suas
comunidades, pedagogia própria e um currículo com temas relaciona-
dos à sua cultura, afirmando suas diferenças e referências identitárias.

Considerações finais
Neste capítulo, tratamos do tema da educação escolar indígena e
quilombola, desenvolvida nas escolas inseridas nos territórios dos po-
vos indígenas e das comunidades quilombolas. Uma educação diferen-
ciada e alicerçada na educação indígena e quilombola com seus pro-
cessos próprios de aprendizagem.

Nas escolas, rurais e urbanas, por todo o país, o tema da história


e da cultura afro-brasileira e indígena passou a ser obrigatório a partir

4 Criada em 1996, a Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas
(CONAQ) tem como caráter central se constituir como movimento social, não se configurando como
outras formas organizativas, tais como organizações não governamentais, sindicatos ou partidos políticos
(CONAQ, [s. d.]).

16 Educação escolar indígena e quilombola


da Lei no 11.645/2008, em todos os estabelecimentos de ensino funda-
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

mental e de ensino médio, públicos e particulares. A questão indígena e


quilombola é uma temática que vem sendo trabalhada no currículo da
educação básica, bem como está presente nos livros didáticos.

Nesse sentido, destacamos a importância do conhecimento sobre a


questão indígena e quilombola na formação de professores, pois essa
diversidade cultural faz da escola um local privilegiado para refletirmos
sobre nós mesmos, nossa sociedade, construindo uma educação para
todos, independentemente de seu pertencimento: uma educação das
relações étnico-raciais em nosso país.

Referências
BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de
outubro de 1988. 27. ed. São Paulo: Saraiva, 2001.

BRASIL. Decreto no 5.051, de 19 de abril de 2004. Promulga a Convenção no


169 da Organização Internacional do Trabalho – OIT sobre Povos Indígenas e
Tribais. 2004. Disponível em: [Link]
2006/2004/decreto/[Link]. Acesso em: 14 set. 2020.

BRASIL. Decreto no 7.352, de 4 de novembro de 2010. Dispõe sobre a política


de educação do campo. 2010. Disponível em: [Link]
CCIVIL_03/_Ato2007-2010/2010/Decreto/[Link]. Acesso em: 14 set. 2020.

BRASIL. Lei no 6.001, de 19 de dezembro de 1973. Estatuto do Índio. 1973.


Disponível em: [Link] Acesso em:
14 set. 2020.

BRASIL. Lei no 9.394, de 23 de dezembro de 1996. Lei de Diretrizes e Bases da


Educação Nacional (LDBEN). 1996. Disponível em: [Link]
ccivil_03/leis/[Link]. Acesso em: 14 set. 2020.

BRASIL. Lei no 11.645, de 10 de março de 2008. Altera a Lei no 9.394, de 20


de dezembro de 1996 [...]. 2008. Disponível em: [Link]
ccivil_03/_ato2007-2010/2008/lei/[Link]. Acesso em: 30 set. 2020.

Políticas para educação indígena e quilombola 17


BRASIL. Lei no 12.711, de 29 de agosto de 2012. Dispõe sobre o ingresso nas

Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.
universidades federais e nas instituições federais de ensino técnico de nível
médio e dá outras providências. 2012a. Disponível em: [Link]
br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/[Link]. Acesso em: 11 maio 2021.

BRASIL. Ministério da Educação. Diretrizes Curriculares Nacionais para a


Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura
Afro-Brasileira e Africana. 2004a. Disponível em: [Link]
leafro/pages/arquivos/DCN-s%20-%20Educacao%20das%20Relacoes%20
[Link]. Acesso em: 30 out. 2020.

BRASIL. Ministério da Educação. Resolução CNE/CP no 1, de 17 de junho de


2004. Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação das Relações
Étnico-Raciais e para o Ensino de História e Cultura Afro-Brasileira e Africana.
2004b. Disponível em: [Link]
pdf. Acesso em: 14 set. 2020.

BRASIL. Ministério da Educação. Resolução CNE/CEB no 4, de 13 de julho de


2010. Define Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais da Educação Básica. 2010.
Disponível em: [Link] Acesso
em: 14 set. 2020.

BRASIL. Ministério da Educação. Resolução CNE/CEB no 5, de 22 de junho


de 2012. Define Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar
Indígena na Educação Básica. 2012b. Disponível em: [Link]
[Link]?option=com_docman&view=download&alias=11074-rceb005-12-
pdf&category_slug=junho-2012-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 14 set. 2020.

BRASIL. Ministério da Educação. Resolução CNE/CEB no 8, de 20 de novembro


de 2012. Define Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Escolar
Quilombola na Educação Básica. 2012c. Disponível em: [Link]
br/programa-mais-educacao/323-secretarias-112877938/orgaos-vinculados-
82187207/18694-educacao-quilombola-sp-1000400393. Acesso em: 14 set. 2020.

BRASIL. Ministério da Justiça e Segurança Pública. Fundação Nacional do Índio.


Quem são. Funai, [s. d.]. Disponível em: [Link]
indios-no-brasil/quem-sao. Acesso em: 14 set. 2020.

CONAQ. Quem somos. CONAQ, [s. d.]. Disponível em: [Link]


historia. Acesso em: 10 maio 2021.

18 Educação escolar indígena e quilombola


CURITIBA. Secretaria de Estado da Educação do Paraná. Educação escolar
Material para uso exclusivo de aluno matriculado em curso de Educação a Distância da Rede Senac EAD, da disciplina correspondente. Proibida a reprodução e o compartilhamento digital, sob as penas da Lei. © Editora Senac São Paulo.

quilombola: pilões, peneiras e conhecimento escolar. Curitiba: SEED, 2010.


Disponível em: [Link]
cadernos_tematicos/cadernos_tematicos_educacao_escolar_quilombola.pdf.
Acesso em: 14 set. 2020.

GRASSI, Leila Gasperazzo Ignatinus. Arari’wa: escola na mata: desvendando


a educação escolar indígena. São Paulo; Rio de Janeiro: Livre Expressão, 2012.

GRUPIONI, Luís Donisete Benzi (org.). Formação e professores indígenas:


repensando trajetórias. Brasília, DF: MEC/Secadi, 2006. Disponível em: http://
[Link]/[Link]?option=com_docman&view=download&alias=645-
vol8profind-pdf&category_slug=documentos-pdf&Itemid=30192. Acesso em: 14
set. 2020.

MELIÁ, Bartomeu. Educação indígena e alfabetização. São Paulo: Edições


Loyola, 1979.

SANTOS, Simone Ritta dos. Comunidades quilombolas: as lutas por


reconhecimento de direitos na esfera pública brasileira. 2012. Tese (Doutorado
em Serviço Social) – Programa de Pós-Graduação da Faculdade de Serviço
Social da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, Porto Alegre,
2012.

Políticas para educação indígena e quilombola 19

Você também pode gostar