Insurgente: Arte e Publicação
Insurgente: Arte e Publicação
EDITORIAL
O
Jornal, if it walks like a duck and gratuita, queremos que exceda fronteiras LEONORANA: O GÉNERO
it talks like a duck it’s a duck é uma geográficas e temporais. Mesmo que os 250 DO PROGRAMA
publicação periódica sobre livros de exemplares esgotem o Jornal ficará acessível
A
artista e edição independente, é dedicado ao online, para outros investigadores e futuros convite das editoras deste novo
estudo e à divulgação da edição de autor, fo- alunos da [Link] ou de qualquer outra jornal escrevo sobre a revista LEO-
mentando a colaboração entre artistas, edi- instituição de ensino. NORANA, que publico desde 2016,
tores e investigadores, estudantes e profes- O tema da chamada de trabalhos -artigos começando por citar o nosso programa cuja
sores, que se debrucem sobre estes objectos. e imagem- para este número está relacio- função é naturalmente apresentar as nossas
A origem do Jornal, tem como referência nada com a dimensão política do acto de intenções e que pode ser lido nas primeiras
dois projectos editoriais desenvolvidos em publicar. Se publicar é tornar público, esse páginas de todos os números. A longa cita-
escolas de referência, como o Journal of Ar- gesto do eu para o colectivo tem inevita- ção justifica-se porque aqui será explorada
tists’ Books1 (ed. Columbia College Chicago) velmente uma dimensão política, a mostra de modo sucinto precisamente a questão do
e Sans Niveau Ni Metre2 (Cabinet du Livre e circulação de uma obra afirma ou questio- programa:
d’Artiste/Universidade Rennes 2). A publi- na a natureza da relação ética e poética que
cação dos três primeiros jornais está a cargo eu estabeleço com o mundo. Dado o tema A palavra que dá título a este projeto de re-
de Isabel Baraona, que definirá os temas das pareceu-nos essencial convidar a artista vista deve a sua origem ao “Livro III - LEO-
chamadas de trabalho, endereçará alguns e editora Isabel Carvalho para escrever so- NORANA (1965-70): Trinta e uma variações
convites e organizará os materiais recepcio- bre a revista LEONORANA, projecto edi- temáticas sobre o mote de um vilancete de
nados para a revisão entre pares, tarefa leva- torial que muito admiramos. Convidámos Luís de Camões”, de Ana Hatherly, publica-
da a cabo pela comissão científica compos- ainda Joana Nascimento que em “Com duas do no livro Um calculador de Improbabilida-
ta por Ana João Romana, Catarina Leitão pedras na mão – os livros de artista na edu- des (Quimera, 2001). Este projeto assume-se
e Susana Gaudêncio. Abraçamos a diversi- cação artística”, relaciona a prática artística como uma direta homenagem à autora e re-
dade de interesses e abordagens, e sabemos com o seu trabalho enquanto educadora. toma, atualizando, as preocupações centrais
o quão importante é dar voz a um alargado A comissão científica do Jornal selecionou, da sua obra no que diz respeito ao estudo
leque de projectos editoriais, portanto os por método de revisão cega entre pares, e à prática experimental da relação de com-
números seguintes serão da responsabilida- o ensaio “Poesia como arte insurgente” de plementaridade entre as linguagens verbal
de de outra colaboradora, ainda por definir. Amir Brito Câdor, artista, professor-investi- e visual, do jogo combinatório e da vertente
O layout integral do Jornal foi desenhado gador e fundador da Coleção Livro de Artis- lúdica do conhecimento, bem como da sua
pela Nayara Siller a.k.a Animal Sentimen- ta da Universidade Federal de Minas Gerais, transmissão. Pela sua extensa prática artís-
tal, pois apostámos em produzir um objecto no Brasil. A imagem das páginas centrais tica visual, literária e académica, Hatherly
gráfico bom de manusear, isto é, com um for- responde a uma chamada de trabalhos espe- simboliza a importância que a investigação
mato agradável, impresso em papel de qua- cificamente direcionada à comunidade aca- tem na prática artística e no modo como
lidade. No passado mês de Junho abrimos o démica da [Link] e intitula-se “looking esta é encarada como conhecimento (veja-
Instagram @[Link] e começámos at yourself being yourself” (2021) de Romie, -se, por exemplo, o trabalho de investigação
a introduzir conteúdos em [Link] aluna finalista do curso de Mestrado em histórica no âmbito da poesia desenvolvido
[Link], sendo que o Jornal Artes Plásticas, que nos últimos anos tem pela autora). Ainda que, em certos circuitos,
0, um número excepcional, já está integral- desenvolvido um complexo projecto entre a validade desta abordagem pareça hoje evi-
mente disponível para consulta. São diver- auto-retrato e auto-representação. dente, continua a ser imprescindível reforçar
sas as razões que nos levam a disponibilizar A chamada de trabalhos para Jornal, if it a ligação da investigação com a arte e o en-
graciosamente os conteúdos online e não se walks like a duck and it talks like a duck, its tendimento da arte como forma de conheci-
prendem apenas com as restrições do actual a duck #2 incide sobre auto-edição, autobio- mento. Refiro-me mais concretamente à in-
contexto pandémico: o Jornal é financiado grafia e as múltiplas narrativas de si... até vestigação que tem por base a criatividade e
pelo Lida – Laboratório de Investigação em muito breve, quack! o desejo de conhecimento, bem como da sua
Design e Arte e pela Fundação para a Ciência Isabel Baraona divulgação à comunidade artística e civil.
e Tecnologia (UIDB/05468/2020); e existin- Assim, esta revista pretende apresentar for-
do no contexto de uma escola, para além dos mas de investigação levadas a cabo por artis-
250 exemplares impressos e de distribuição tas (e criativos em geral, no sentido em que
usam a criatividade nas suas áreas de traba-
1
[Link] lho) que, na sua prática e pelo seu percurso,
2
[Link] fortaleçam esta presença da investigação
ques-poetiques/incertain-sens/[Link] e assumam a expressão artística como uma
N
tra todos, uma obra que se debruçava sobre o âmbito da produção artística, os jetos, materiais do Workshop Líquido, livros
a guerra colonial, a condição da mulher livros concebidos por artistas no de artista (dos participantes), arquivos foto-
numa sociedade patriarcal asfixiante, a emi- início dos anos sessenta do sécu- gráficos (institucionais e pessoais), jerricans
gração portuguesa, o reclamar da sexualida- lo XX posicionam-se por direito próprio, e águas recolhidas no Porto, lançando o mote
de, enfim, a simples existência de um corpo. enquanto propõem um campo expandido para o encontro presencial de metodologias
Sei que recorro a uma categoria social, cultu- para a existência do livro. O livro de artista líquidas que haviam sido desenvolvidas em
ral e historicamente marcada pela opressão assume uma potência desestabilizadora do contexto online, imposto pela demanda de
que se desejaria ultrapassada, mas penso que conceito de livro e de leitura convencionais, isolamento social no início do ano de 2021.
é importante reconhecer que estas mulheres diz-nos Guy Schraenen1. Considerando o li- Para a investigação em curso, a colaboração
escritoras foram publicadas por outra mu- vro de artista desde esse período, desenvol- em Memória Líquida criou estímulo para
lher. De outro modo muito possivelmente ve-se uma investigação intitulada Livro de expandir a força expressiva, concetual e
não teriam sido trazidas a público as Novas artista (lugar e veículo): o campo comum entre material da água bruta, numa atividade ex-
Cartas. Este caso demonstra uma solidarie- arte e educação2 , que situa o livro no centro da ploratória dos caminhos da água na cidade
dade extremamente necessária e uma reu- experiência educativa. Mais do que acolher do Porto, das suas pedras graníticas, e dos
nião de objectivos comuns na luta por uma a autoridade do livro, importa a considera- papéis (arquivos fotográficos, documentos
existência com significado, para além de ção de uma metodologia que questione rela- impressos, folhas escritas de diário, entre
espelhar o mútuo reconhecimento da qua- ções possíveis entre nós, o objeto, e a propos- outros). Este estímulo alimenta a produção
lidade das intervenientes. Por esta razão, ta que ele carrega. artística pessoal, mas também abre premissa
uma contagem retrospectiva feita a partir Neste artigo, procura-se indagar os livros à experimentação em encontros educativos
da categoria de mulher tem ainda pertinên- de artista enquanto lugares de encontro - de a partir dos processos e livros gerados.
cia porque visa compreender e valorizar os aproximação relacional corpo-objeto-ma- Para refletir em torno do trabalho desen-
esforços empreendidos para dar espaço pú- téria-espaço, para refletir sobre o potencial volvido, proponho como ponto de partida
blico a vozes reiteradamente deslegitimadas. campo expandido da leitura proposto pelos a expressão Pedra-Papel-Água, que é uma va-
Se ainda me parece profundamente impor- seus autores, articulando ainda, prática artís- riação do jogo popular Pedra-Papel-Tesoura4 .
tante o questionar-se a identidade de quem tica, educativa e investigativa. Com um caráter laboratorial, experimen-
fala ou, neste caso, de quem publica, é porque tam-se possíveis relações entre os elementos
é necessário dar a ouvir e a ler o que várias Como pode o livro de artista constituir-se pedra, papel e água. No entanto, se no jogo
vozes têm a dizer a partir da sua diferença como um lugar de encontro? popular Pedra-Papel-Tesoura a pedra ganha
e complexidade. Hoje, o trabalho de edição à tesoura, amassando-a, a tesoura ganha ao
que pretende ser pertinente ainda leva a que No desenvolvimento do trabalho com livros papel, cortando-o, o papel ganha à pedra,
se corram riscos e que se ouse publicar o que de artista, surgiu a oportunidade de colabo- embrulhando-a, na experimentação com os
de outro modo nunca seria publicado. Mas ração no projeto Memória Líquida - Interseções livros de artista estas forças hierárquicas de
julgo, porém, que tais ousadias já não podem entre fotografia, curadoria e edição de Francis- uns elementos sobre os outros tornam-se me-
seguir as mesmas estratégias, nem remeter co Varela, em desenvolvimento no âmbito nos evidentes. O elemento água entra no jogo
para as mesmas questões abordadas de modo do Mestrado em Museologia e Curadoria da substituindo a tesoura, exprimindo o seu
expectável, tendo que prever já micro-pro- FBAUP. A colaboração materializou-se na potencial transformador no encontro com
cessos de silenciamento exercidos, bem mais participação em Entre Arquivo e Publicação: os outros elementos: a água amacia a pedra,
subtis, que exigem muito atentas e cuidadas Um Workshop Líquido dinamizado por pau- fragiliza o papel, mas é também conformada
reflexões. É certo que o cenário editorial la roush / msdm studio [mobile strategies of pelas arquiteturas subterrâneas nas ruínas
(e principalmente o da pequena edição) tem display & mediation]. O foco do workshop de granito da cidade do Porto, é retida nos
mudado e tem-se apresentado muito di- é a cocriação de uma publicação coletiva im- arquivos em papel, etc. Assim, Pedra-Papel-
verso; todavia, como tem sido manifestado pressa, em formato caixa-livro, designada -Água serve para pensar o referido encontro
por muitos dos implicados na edição e pu- por Liquid Memories onde participam vin- corpo-objeto-matéria-espaço, de um modo
blicação (editores, autores, etc.), parece que te e três artistas, editado por msdm studio, experimental na conceção de livros.
o problema não é já tanto o de publicar, mas London, 2021. Cada artista, com diferentes No projeto sobre o qual se pretende refle-
o de superar as mais recônditas hierarquias níveis de envolvimento, aborda um conjunto tir neste artigo5, os livros por mim criados,
de valorização que se estabelecem entre de arquivos fotográficos, experimentando, aproximam-se aos registos fotográficos e às
o que é ou não reconhecido com legitimidade combinando e partilhando estórias da água e descrições narrativas que pontuam o docu-
para existir e afirmar a sua existência. processos que dialogam com o conceito de li- mento de 1909, Contribuição para a Hygiene
Neste curto trajecto em torno da questão quidez sob múltiplas perspetivas. Durante o do Porto, de J. Bahia Júnior, disponibilizada
levantada sobre o programa vale a pena processo editorial para a publicação foi pos- pelo Arquivo das Águas do Douro e Paiva.
ainda dizer que a LEONORANA partiu de sível reunir numa exposição coletiva Traba- Acentua-se, desde logo, a urgência higienista
uma experiência situada em circunstâncias lhos líquidos e Jerricans3 , de Francisco Varela,
específicas, a qual moldou a minha pers- co entre 19-24 de maio de 2021
pectiva pessoal, mas que se abriu e se abrirá 1
Schraenen, G. (2015). Ulises Carrión. Dear 4
Jogo para duas pessoas. Os elementos
a uma pluralidade de outras perspectivas que reader. Don’t read. Madrid: MNCARS. pedra, papel e tesoura são representados
se entrelaçam, sem dúvida, em torno de uma 2
Investigação desenvolvida com o apoio por gestos da mão, feitos aos mesmo tem-
maior consciencialização feminista, enqua- financeiro da Fundação para a Ciência e a po pelos participantes, estabelecendo-se
drada nos problemas actuais com os quais Tecnologia – FCT, no âmbito do Fundo So- uma hierarquia predefinida de forças entre
este movimento tem vindo a confrontar- cial Europeu da União Europeia e do Progra- os elementos.
-se. Pois, ainda que o programa inicial não ma Operacional Regional Norte, Portugal 5
Algumas questões abordadas neste artigo,
o explicite, a LEONORANA é, neste sentido, 2020. surgem de uma comunicação no âmbito 8º
uma revista comprometida. 3
Programada no âmbito do 8º EPRAE, En- EPRAE, Encounter on practices of research
Isabel Carvalho counter on practices of research in arts edu- in arts education, em 21/05/2021, na FBAUP,
cation, a exposição esteve patente ao públi- Porto.
7
Prout, A. (2005). The Future of Childhood.
Towards the interdisciplinary study of chil-
dren. London, New York: RoutledgeFalmer.
8
(tradução livre, Barad, 2012: 77)
Barad, K. & Kleinman, A. (2012). [Entrevista
Transcrita] Intra-Actions. Mousse Magazine,
34. (76-81).
9
(tradução livre, Büchler, 1986: 30)
Büchler, P. (1986). Turning Over The Pages:
Some Books In Contemporary Art. Cambri-
dge, England: Kettle’s Yard Gallery.
O
s livros de artista, desde sua origem ou indireta. Após uma violenta repressão aos chamou de estratégia cultural (2013, p. 130).
na década de 1960, são acompanha- estudantes mexicanos em 1968, o casal de A formação de comunidades de artistas ao
dos por debates sobre a democrati- artistas Martha Hellion e Felipe Ehrenberg redor das publicações é outra caracterís-
zação das obras de arte, pela ideia de uma exilaram-se na Inglaterra. Em 1971, depois de tica importante, o que resultou na criação
comprarem dois duplicadores em um ferro- de espaços de produção (Visual Studies
10
O título do artigo é uma homenagem ao -velho, criaram junto com seu amigo David Workshop, nos EUA), de comercialização,
poeta beat Lawrence Ferlinghetti (1919-2021), Mayor a editora Beau Geste Press, uma das exposição e debates, criados por iniciativa de
que criou a livraria e editora City Lights e primeiras editoras não-comerciais especia- artistas ou gerenciados por artistas (Other
resistiu por décadas contra as tentativas de lizada em publicações de artista (do outro Books & So, Printed Matter, Art Metropo-
censura. Seu poema apocalíptico, em forma lado do Atlântico já existia a Something Else le). Os artistas promoveram ações e eventos,
de manifesto, foi traduzido e publicado no Press, de Dick Higgins, desde 1963). Instala- organizaram mostras e constituíram acervos
Brasil em uma edição pirata que eu comprei dos em uma casa de campo com muitos quar- particulares com exemplares de um tipo de
em uma feira de livros de poesia. Sua men- tos disponíveis, os artistas convidavam os produção que ainda não havia encontra-
sagem é cada dia mais atual. amigos interessados em publicar seus traba- do espaço em museus — Martha Wilson