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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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If it walks like a duck and it talks like a duck it’s a duck*

Caldas da Rainha, 2021 Distribuição Gratuita Edição #1

EDITORIAL

O
Jornal, if it walks like a duck and gratuita, queremos que exceda fronteiras LEONORANA: O GÉNERO
it talks like a duck it’s a duck é uma geográficas e temporais. Mesmo que os 250 DO PROGRAMA
publicação periódica sobre livros de exemplares esgotem o Jornal ficará acessível

A
artista e edição independente, é dedicado ao online, para outros investigadores e futuros convite das editoras deste novo
estudo e à divulgação da edição de autor, fo- alunos da [Link] ou de qualquer outra jornal escrevo sobre a revista LEO-
mentando a colaboração entre artistas, edi- instituição de ensino. NORANA, que publico desde 2016,
tores e investigadores, estudantes e profes- O tema da chamada de trabalhos -artigos começando por citar o nosso programa cuja
sores, que se debrucem sobre estes objectos. e imagem- para este número está relacio- função é naturalmente apresentar as nossas
A origem do Jornal, tem como referência nada com a dimensão política do acto de intenções e que pode ser lido nas primeiras
dois projectos editoriais desenvolvidos em publicar. Se publicar é tornar público, esse páginas de todos os números. A longa cita-
escolas de referência, como o Journal of Ar- gesto do eu para o colectivo tem inevita- ção justifica-se porque aqui será explorada
tists’ Books1 (ed. Columbia College Chicago) velmente uma dimensão política, a mostra de modo sucinto precisamente a questão do
e Sans Niveau Ni Metre2 (Cabinet du Livre e circulação de uma obra afirma ou questio- programa:
d’Artiste/Universidade Rennes 2). A publi- na a natureza da relação ética e poética que
cação dos três primeiros jornais está a cargo eu estabeleço com o mundo. Dado o tema A palavra que dá título a este projeto de re-
de Isabel Baraona, que definirá os temas das pareceu-nos essencial convidar a artista vista deve a sua origem ao “Livro III - LEO-
chamadas de trabalho, endereçará alguns e editora Isabel Carvalho para escrever so- NORANA (1965-70): Trinta e uma variações
convites e organizará os materiais recepcio- bre a revista LEONORANA, projecto edi- temáticas sobre o mote de um vilancete de
nados para a revisão entre pares, tarefa leva- torial que muito admiramos. Convidámos Luís de Camões”, de Ana Hatherly, publica-
da a cabo pela comissão científica compos- ainda Joana Nascimento que em “Com duas do no livro Um calculador de Improbabilida-
ta por Ana João Romana, Catarina Leitão pedras na mão – os livros de artista na edu- des (Quimera, 2001). Este projeto assume-se
e Susana Gaudêncio. Abraçamos a diversi- cação artística”, relaciona a prática artística como uma direta homenagem à autora e re-
dade de interesses e abordagens, e sabemos com o seu trabalho enquanto educadora. toma, atualizando, as preocupações centrais
o quão importante é dar voz a um alargado A comissão científica do Jornal selecionou, da sua obra no que diz respeito ao estudo
leque de projectos editoriais, portanto os por método de revisão cega entre pares, e à prática experimental da relação de com-
números seguintes serão da responsabilida- o ensaio “Poesia como arte insurgente” de plementaridade entre as linguagens verbal
de de outra colaboradora, ainda por definir. Amir Brito Câdor, artista, professor-investi- e visual, do jogo combinatório e da vertente
O layout integral do Jornal foi desenhado gador e fundador da Coleção Livro de Artis- lúdica do conhecimento, bem como da sua
pela Nayara Siller a.k.a Animal Sentimen- ta da Universidade Federal de Minas Gerais, transmissão. Pela sua extensa prática artís-
tal, pois apostámos em produzir um objecto no Brasil. A imagem das páginas centrais tica visual, literária e académica, Hatherly
gráfico bom de manusear, isto é, com um for- responde a uma chamada de trabalhos espe- simboliza a importância que a investigação
mato agradável, impresso em papel de qua- cificamente direcionada à comunidade aca- tem na prática artística e no modo como
lidade. No passado mês de Junho abrimos o démica da [Link] e intitula-se “looking esta é encarada como conhecimento (veja-
Instagram @[Link] e começámos at yourself being yourself” (2021) de Romie, -se, por exemplo, o trabalho de investigação
a introduzir conteúdos em [Link] aluna finalista do curso de Mestrado em histórica no âmbito da poesia desenvolvido
[Link], sendo que o Jornal Artes Plásticas, que nos últimos anos tem pela autora). Ainda que, em certos circuitos,
0, um número excepcional, já está integral- desenvolvido um complexo projecto entre a validade desta abordagem pareça hoje evi-
mente disponível para consulta. São diver- auto-retrato e auto-representação. dente, continua a ser imprescindível reforçar
sas as razões que nos levam a disponibilizar A chamada de trabalhos para Jornal, if it a ligação da investigação com a arte e o en-
graciosamente os conteúdos online e não se walks like a duck and it talks like a duck, its tendimento da arte como forma de conheci-
prendem apenas com as restrições do actual a duck #2 incide sobre auto-edição, autobio- mento. Refiro-me mais concretamente à in-
contexto pandémico: o Jornal é financiado grafia e as múltiplas narrativas de si... até vestigação que tem por base a criatividade e
pelo Lida – Laboratório de Investigação em muito breve, quack! o desejo de conhecimento, bem como da sua
Design e Arte e pela Fundação para a Ciência Isabel Baraona divulgação à comunidade artística e civil.
e Tecnologia (UIDB/05468/2020); e existin- Assim, esta revista pretende apresentar for-
do no contexto de uma escola, para além dos mas de investigação levadas a cabo por artis-
250 exemplares impressos e de distribuição tas (e criativos em geral, no sentido em que
usam a criatividade nas suas áreas de traba-
1
[Link] lho) que, na sua prática e pelo seu percurso,
2
[Link] fortaleçam esta presença da investigação
ques-poetiques/incertain-sens/[Link] e assumam a expressão artística como uma

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forma de conhecimento específico. Neste
sentido, é com alguma segurança que se po-
derá assumir esta revista como um espaço
aberto, de debate, de confronto de ideias,
práticas e estratégias, também de ensino e de
aprendizagem.

Acrescenta-se ao citado que cada número


da revista é temático e é sempre editado em
parceria com um ou mais convidados para
assegurar o desenvolvimento metodológico
específico ao tema. O corpo editorial tem
sido, portanto, variável: Luísa Mota coedi-
tou o primeiro número, dedicado às “Dietas”;
Sónia Neves e Tania Espinoza, o segundo, su-
bordinado ao tema “Famílias”; Ana Carvalho
foi a convidada do terceiro, sobre “Climas”;
e Catarina Rosendo foi corresponsável pelo
quarto, dedicado ao “Cuidar”. A participa-
ção da designer, Márcia Novais, está, desde
o início, aliada às várias decisões que são
tomadas, considerando-se de grande impor-
tância para o desenvolvimento dos conteú-
dos. Pois também ela desenvolve trabalho de
investigação ao aprimorar o design da revista
de forma a responder ao tema de cada nú-
mero. De igual modo também os colabora-
dores, ensaístas, escolhidos para abordarem
o tema, participam na discussão geral da re- número da revista que fui, pela primeira vez, sem neles me deter nas suas coerências. Não
vista quando o diálogo (que se pretende que questionada sobre o programa da revista. Ao é por outra razão que a LEONORANA es-
seja desafiante) sobre o seu ensaio em parti- contrário do que esperava, as questões levan- pelha uma complexidade de sujeitos e das
cular é encetado. Assim, quando me refiro tadas pelo autor do artigo não se dirigiam às suas identidades, de temas e de conteúdos, de
a este projecto de revista faço-o normalmen- orientações programáticas já expostas e re- processos e metodologias, e tem como foco
te no colectivo porque, ainda que o meu papel petidamente impressas em cada número — principal a investigação na prática artística,
seja o de direcção editoral (supervisionando a homenagem a Hatherly, a investigação na promovendo a análise de objectos culturais
o processo da sua concretização até à sua prática artística, a relação entre linguagens, que tratem de questões consideradas por
materialidade impressa), este é resultado de etc. Na realidade, o problema parecia ser todos importantes, mas insuficientemen-
inúmeros diálogos e colaborações, dos quais o de não haver nada claramente expresso nas te reconhecidas e debatidas publicamente.
resultam frequentemente mudanças signifi- orientações programáticas que justificasse Porém, “género”, seja ele literário, editorial,
cativas. É certo que incorporo a LEONORA- o facto de a revista ter tido até ao momento humano ou relativo à construção de catego-
NA como parte do meu trabalho artístico, uma participação maior, em termos numéri- rias sexuais, tem servido quase sempre para
mas, desde o início, assumi-o por completo cos, de mulheres (editoras e autoras). Por ou- marcar, dividir e hierarquizar, e foi histo-
como um projecto colectivo, de cariz colabo- tras palavras, o facto de haver uma presença ricamente usado para assinalar diferenças
rativo, através do qual simultaneamente me significativa de autoras do sexo feminino na (no sentido negativo) e, frequentemente,
cruzo com e participo de outros percursos revista parece ter suscitado a expectativa de para as desqualificar.
artísticos e profissionais. Mas para melhor que os conteúdos da revista fossem total- Na minha experiência editorial, académica
completar a descrição do ecossistema da mente determinados por essa circunstância. e artística, deparo-me repetidamente com
LEONORANA faltaria ainda aqui juntar Imagino que esta pergunta tenha resultado uma grande divisória entre o especializado
o papel do público leitor que, por vezes, sai do também de uma associação directa entre e o legítimo, e o não especializado e ilegí-
anonimato para nos enviar uma nota crítica. o género (e o sexo) do grupo de trabalho da timo, historicamente associada à definição
Este feedback acaba por nos resgatar de uma revista e o género da própria LEONORANA; de géneros. Em algumas ocasiões, procurei
prática que tende a ser isolada (circunscrita por isso, a única resposta que me pareceu deter-me sobre questões de género e sobre
a um colectivo formado a cada número da adequada foi a de que preside ao projecto a categoria de mulher no âmbito da edição,
revista) ao darmos por terminado o trabalho da revista o apreço pela investigação e pela mas, creio que — e é importante notar —
na publicação — apesar desta prosseguir pe- experimentação a todos os níveis. De facto, presidem aqui motivações distintas. A par
los trâmites normais de distribuição e ven- uma simplificação programática, concreta- de muitas outras experiências editoriais que
da. É também esta crítica que nos permite mente ancorada no género de objecto gráfico desenvolvi, fui sentindo uma forte necessi-
avançar para o próximo número, a adensá-lo, em que a LEONORANA se enquadra (e não dade de tomar conhecimento de projectos
e a ver com outro olhar todos os números an- no género das pessoas que nela trabalham) empreendidos por mulheres editoras (assim
tes publicados. Certamente que uma revista, leva-me a dizer que o género da “revista” — como por outras categorias sociais silen-
enquanto objeto tornado público, vive da enquanto publicação relativamente efémera, ciadas e ostensivamente despromovidas de
nossa confiança editorial na pertinência do mutável, em processo — e o do “ensaio” — adquirirem qualquer significado cultural)
que publicamos, mas também da sua/nossa tão próximo do pensamento especulativo e ainda não me canso de as procurar nos
relação com o público leitor. Admitimos, por — são géneros experimentais de natureza meandros da história da edição pelo contri-
isso mesmo, que a interacção com a crítica, complexa. Tal, é para mim extensível a tudo buto que trouxeram ao âmbito do conheci-
como razão reflexiva, e até a sua eventual in- a que remete para “género”. E se também mento público.
corporação nos próprios conteúdos da LEO- a “géneros” me refiro com frequência a pro- Natália Correia é, para mim, disso exemplo:
NORANA, nutre o projecto. pósito da LEONORANA por facilidade co- mesmo depois de ter enfrentado um pro-
Ora foi exactamente na preparação de um municativa, é com o intuito de os ensaiar cesso judicial pelas suas escolhas editoriais,
artigo crítico para um jornal, já no quarto para os explorar, problematizando-os, mas ainda assim decidiu publicar em 1972, Novas

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Cartas Portuguesas, das chamadas “Três Ma- PEDRA-PAPEL-ÁGUA, OS Joana Nascimento e Maria João Ferreira,
rias” (Maria Isabel Barreno, Maria Teresa apresentada na Galeria Cozinha da FBAUP,
Horta e Maria Velho da Costa). Consciente
LIVROS DE ARTISTA COMO no Porto. A exposição pode ser encarada
dos riscos que corria ao fazê-lo, Natália Cor- LUGARES DE ENCONTRO como uma instalação do livro em campo
reia não deixou de apoiar, contra tudo e con- expandido, que inclui imagens, ensaios, ob-

N
tra todos, uma obra que se debruçava sobre o âmbito da produção artística, os jetos, materiais do Workshop Líquido, livros
a guerra colonial, a condição da mulher livros concebidos por artistas no de artista (dos participantes), arquivos foto-
numa sociedade patriarcal asfixiante, a emi- início dos anos sessenta do sécu- gráficos (institucionais e pessoais), jerricans
gração portuguesa, o reclamar da sexualida- lo XX posicionam-se por direito próprio, e águas recolhidas no Porto, lançando o mote
de, enfim, a simples existência de um corpo. enquanto propõem um campo expandido para o encontro presencial de metodologias
Sei que recorro a uma categoria social, cultu- para a existência do livro. O livro de artista líquidas que haviam sido desenvolvidas em
ral e historicamente marcada pela opressão assume uma potência desestabilizadora do contexto online, imposto pela demanda de
que se desejaria ultrapassada, mas penso que conceito de livro e de leitura convencionais, isolamento social no início do ano de 2021.
é importante reconhecer que estas mulheres diz-nos Guy Schraenen1. Considerando o li- Para a investigação em curso, a colaboração
escritoras foram publicadas por outra mu- vro de artista desde esse período, desenvol- em Memória Líquida criou estímulo para
lher. De outro modo muito possivelmente ve-se uma investigação intitulada Livro de expandir a força expressiva, concetual e
não teriam sido trazidas a público as Novas artista (lugar e veículo): o campo comum entre material da água bruta, numa atividade ex-
Cartas. Este caso demonstra uma solidarie- arte e educação2 , que situa o livro no centro da ploratória dos caminhos da água na cidade
dade extremamente necessária e uma reu- experiência educativa. Mais do que acolher do Porto, das suas pedras graníticas, e dos
nião de objectivos comuns na luta por uma a autoridade do livro, importa a considera- papéis (arquivos fotográficos, documentos
existência com significado, para além de ção de uma metodologia que questione rela- impressos, folhas escritas de diário, entre
espelhar o mútuo reconhecimento da qua- ções possíveis entre nós, o objeto, e a propos- outros). Este estímulo alimenta a produção
lidade das intervenientes. Por esta razão, ta que ele carrega. artística pessoal, mas também abre premissa
uma contagem retrospectiva feita a partir Neste artigo, procura-se indagar os livros à experimentação em encontros educativos
da categoria de mulher tem ainda pertinên- de artista enquanto lugares de encontro - de a partir dos processos e livros gerados.
cia porque visa compreender e valorizar os aproximação relacional corpo-objeto-ma- Para refletir em torno do trabalho desen-
esforços empreendidos para dar espaço pú- téria-espaço, para refletir sobre o potencial volvido, proponho como ponto de partida
blico a vozes reiteradamente deslegitimadas. campo expandido da leitura proposto pelos a expressão Pedra-Papel-Água, que é uma va-
Se ainda me parece profundamente impor- seus autores, articulando ainda, prática artís- riação do jogo popular Pedra-Papel-Tesoura4 .
tante o questionar-se a identidade de quem tica, educativa e investigativa. Com um caráter laboratorial, experimen-
fala ou, neste caso, de quem publica, é porque tam-se possíveis relações entre os elementos
é necessário dar a ouvir e a ler o que várias Como pode o livro de artista constituir-se pedra, papel e água. No entanto, se no jogo
vozes têm a dizer a partir da sua diferença como um lugar de encontro? popular Pedra-Papel-Tesoura a pedra ganha
e complexidade. Hoje, o trabalho de edição à tesoura, amassando-a, a tesoura ganha ao
que pretende ser pertinente ainda leva a que No desenvolvimento do trabalho com livros papel, cortando-o, o papel ganha à pedra,
se corram riscos e que se ouse publicar o que de artista, surgiu a oportunidade de colabo- embrulhando-a, na experimentação com os
de outro modo nunca seria publicado. Mas ração no projeto Memória Líquida - Interseções livros de artista estas forças hierárquicas de
julgo, porém, que tais ousadias já não podem entre fotografia, curadoria e edição de Francis- uns elementos sobre os outros tornam-se me-
seguir as mesmas estratégias, nem remeter co Varela, em desenvolvimento no âmbito nos evidentes. O elemento água entra no jogo
para as mesmas questões abordadas de modo do Mestrado em Museologia e Curadoria da substituindo a tesoura, exprimindo o seu
expectável, tendo que prever já micro-pro- FBAUP. A colaboração materializou-se na potencial transformador no encontro com
cessos de silenciamento exercidos, bem mais participação em Entre Arquivo e Publicação: os outros elementos: a água amacia a pedra,
subtis, que exigem muito atentas e cuidadas Um Workshop Líquido dinamizado por pau- fragiliza o papel, mas é também conformada
reflexões. É certo que o cenário editorial la roush / msdm studio [mobile strategies of pelas arquiteturas subterrâneas nas ruínas
(e principalmente o da pequena edição) tem display & mediation]. O foco do workshop de granito da cidade do Porto, é retida nos
mudado e tem-se apresentado muito di- é a cocriação de uma publicação coletiva im- arquivos em papel, etc. Assim, Pedra-Papel-
verso; todavia, como tem sido manifestado pressa, em formato caixa-livro, designada -Água serve para pensar o referido encontro
por muitos dos implicados na edição e pu- por Liquid Memories onde participam vin- corpo-objeto-matéria-espaço, de um modo
blicação (editores, autores, etc.), parece que te e três artistas, editado por msdm studio, experimental na conceção de livros.
o problema não é já tanto o de publicar, mas London, 2021. Cada artista, com diferentes No projeto sobre o qual se pretende refle-
o de superar as mais recônditas hierarquias níveis de envolvimento, aborda um conjunto tir neste artigo5, os livros por mim criados,
de valorização que se estabelecem entre de arquivos fotográficos, experimentando, aproximam-se aos registos fotográficos e às
o que é ou não reconhecido com legitimidade combinando e partilhando estórias da água e descrições narrativas que pontuam o docu-
para existir e afirmar a sua existência. processos que dialogam com o conceito de li- mento de 1909, Contribuição para a Hygiene
Neste curto trajecto em torno da questão quidez sob múltiplas perspetivas. Durante o do Porto, de J. Bahia Júnior, disponibilizada
levantada sobre o programa vale a pena processo editorial para a publicação foi pos- pelo Arquivo das Águas do Douro e Paiva.
ainda dizer que a LEONORANA partiu de sível reunir numa exposição coletiva Traba- Acentua-se, desde logo, a urgência higienista
uma experiência situada em circunstâncias lhos líquidos e Jerricans3 , de Francisco Varela,
específicas, a qual moldou a minha pers- co entre 19-24 de maio de 2021
pectiva pessoal, mas que se abriu e se abrirá 1
Schraenen, G. (2015). Ulises Carrión. Dear 4
Jogo para duas pessoas. Os elementos
a uma pluralidade de outras perspectivas que reader. Don’t read. Madrid: MNCARS. pedra, papel e tesoura são representados
se entrelaçam, sem dúvida, em torno de uma 2
Investigação desenvolvida com o apoio por gestos da mão, feitos aos mesmo tem-
maior consciencialização feminista, enqua- financeiro da Fundação para a Ciência e a po pelos participantes, estabelecendo-se
drada nos problemas actuais com os quais Tecnologia – FCT, no âmbito do Fundo So- uma hierarquia predefinida de forças entre
este movimento tem vindo a confrontar- cial Europeu da União Europeia e do Progra- os elementos.
-se. Pois, ainda que o programa inicial não ma Operacional Regional Norte, Portugal 5
Algumas questões abordadas neste artigo,
o explicite, a LEONORANA é, neste sentido, 2020. surgem de uma comunicação no âmbito 8º
uma revista comprometida. 3
Programada no âmbito do 8º EPRAE, En- EPRAE, Encounter on practices of research
Isabel Carvalho counter on practices of research in arts edu- in arts education, em 21/05/2021, na FBAUP,
cation, a exposição esteve patente ao públi- Porto.

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que é o âmago do documento, do início do menta melhor o chamado mundo sensível. aproximam-se os devires da infância e das
século XX, que intersecta a precipitação Valoriza o potencial exploratório do livro, intimidades. Acompanha-se Alan Prout7 na
no regresso ao ímpeto higienista atual, no individual e coletivamente. O tempo que assunção que crianças e adultos devem ser
contexto da pandemia no século XXI. Na serve o fazer de um livro, é um tempo que se vistos através da multiplicidade de devires
relação com a cidade, interessa o resgate de consagra a uma “conversa” com rastos de me- em que todos estão incompletos e dependen-
ruínas de lugares de água que fui habitando mórias, restos de paisagem, é um tempo de tes. Assim, pretende-se construir com crian-
e das narrativas que fui colecionando em passagem que nos serve e não que se serve de ças, desde os anos em que, obrigatoriamente,
torno das pedras, corpos que são tocados nós. Espera-se também que seja um processo iniciam o seu longo percurso em instituições
pela água, envolvendo paisagem e memória. aberto que vai lidando com uma inquietude educativas, um espaço para pensar ética e es-
Deste modo, do referido documento, uma se- que não se extingue. teticamente os devires.
leção de nove fotografias foi trabalhada com Começamos a construir a partir de segre- A relevância da experiência de encontro
fotografias do arquivo pessoal, por processos dos. Há o que as crianças me podem dizer com o livro, da ação com a sua materiali-
de colagem digital. No livro pedra líquida / e contar, mas também há tudo o que não dade, coloca em diálogo a especificidade
água bruta / escrita afluente dispõem-se foto- pode ser dito nem revelado (como em qual- da conceção e produção do livro de artista
grafias intercaladas: 10 páginas com as co- quer relação humana). Durante o período de e da apropriação dos livros-objeto para situa-
lagens e 12 páginas com fotografias digitais confinamento gerado pelas medidas de con- ções educativas, abrindo um enquadramen-
da autora tiradas entre 2015 e 2021 no Porto. tenção da pandemia, com as crianças traba- to novo para pensar o livro e a intimidade.
A sequência contínua das imagens em lepo- lha-se para que a rotina se torne intimidade, O conceito de intra-ação, avançado por Karen
rello, tem no verso 26 páginas de diário de no sentido de uma inquietação, uma incer- Barad, é pertinente para pensar esta aborda-
folhas marmoreadas, escritas ao longo do teza que reclama experimentação. Os livros gem: “A noção usual de interação pressupõe
processo de criação do livro. Os cartazes esses, nascem dos encontros dos lugares que que existem entidades cuja existência é indi-
com duas pedras na mão e percurso marmo- habitamos. Convém, neste processo, estar vidualmente independente ou agentes que
reado envolvem-se com a ação performativa por dentro da economia e das rotinas da preexistem uns aos outros. Pelo contrário,
e a ideia presente nos arquivos fotográficos casa, ou do lugar (onde se está confinado a noção de intra-ação arruína o sentido co-
de que a água nasce da pedra, convocando ou não) onde se podem gerar redescobertas mum de causalidade. (...) Indivíduos não
água e corpo para esses encontros com dife- entre imagens, matérias, sensações. É ne- preexistem como tais, mas sim materiali-
rentes materialidades. Em o princípio é igual cessário sermos amadores, na construção de zam-se na intra-ação.” 8
combina-se numa zine de quarenta páginas, narrativas de nós mesmos. O contato direto das crianças com os livros
fotografias a preto e branco marmoreadas No encontro com o grupo de crianças, o livro de artista convoca a desativação da hegemo-
com tinta branca, preta e dourada, em água de artista não impõe uma linguagem discur- nia do gesto, do corpo, do espaço, da matéria,
do Porto. siva, mas serve de mediação entre o indiví- da ação, da própria ideia de leitura. A expe-
Estes livros configuram encontros de dife- duo e a (sua) realidade. O debate da intimida- riência inventiva das leituras expande-se,
rentes naturezas, fluem entre a construção de através dos livros está em estreita relação integrando a hipótese de que os indivíduos
do livro num coletivo de artistas e a descons- com experiências primordiais do artista com só existem enquanto fenómenos (relações
trução do livro num grupo com crianças. a sua obra, da criança com o seu crescimento, materializadas / materializantes particu-
Embora estes livros sejam construídos sem em ambos os casos há ficção e realidade num lares), a sua reconfiguração contínua é uma
propósitos educativos, essa característica campo expandido de leitura. O encontro pequena parte de um emaranhado de outras
não diminui a sua propensão para fomentar educativo visa perspetivar a consciencializa- tantas relações com outras matérias. Neste
o pensamento critico com impacto no desen- ção deste espaço de intimidade, cuidando da sentido, Pavel Büchler adianta-nos que o “(...)
volvimento de narrativas significativas para sobrevivência daquilo que é intrinsecamen- Livro de artista pode ser visto como uma arte
a mudança das estruturas ideológicas do sis- te incompreensível, daquilo que se expressa de ação, uma espécie de happening ou teatro,
tema artístico e educativo. sem comunicar. A infância não é uma coisa considerando a situação em que o trabalho é
A experiência de encontro com crianças que de crianças; a intimidade não é uma coi- experienciado, e que exige a participação do
se procura no âmbito da educação artística, sa de adultos. A partir de João dos Santos6, leitor.”9 Isto é, parece veicular uma perfor-
compreende um impulso para fazer, mexer, 6
mance relacional, íntima na escala, cuidando
Santos, J. (1991). Ensaios sobre educação II
cheirar, comer, ouvir, ver, onde se experi- dos gestos e processos na produção de livros
– O Falar das Letras. Lisboa: Livros Horizonte.
coletivamente convocando o corpo para o
exercício intelectual, o conjunto de valores
estéticos, sociais, culturais, suscitados na
relação que cada um vai estabelecendo, e
como constrói uma conversa em torno dessa
relação.
O livro de artista é pensado como lugar de
encontro, partindo do trabalho enquanto
artista, educadora, investigadora, que reflete
sobre a experiência de construir o livro num
coletivo de artistas e a experiência de des-

7
Prout, A. (2005). The Future of Childhood.
Towards the interdisciplinary study of chil-
dren. London, New York: RoutledgeFalmer.
8
(tradução livre, Barad, 2012: 77)
Barad, K. & Kleinman, A. (2012). [Entrevista
Transcrita] Intra-Actions. Mousse Magazine,
34. (76-81).
9
(tradução livre, Büchler, 1986: 30)
Büchler, P. (1986). Turning Over The Pages:
Some Books In Contemporary Art. Cambri-
dge, England: Kettle’s Yard Gallery.

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construir o livro com crianças. Pretende-se forma de arte mais acessível e mais próxima lhos a passarem uma temporada como hós-
expor dois compassos de tempo que se imbri- do cotidiano. O interesse dos artistas pela pedes, pelo tempo suficiente para aprender
cam e que assumem idêntica relevância para publicação estava geralmente associado com a operar o equipamento e produzir o próprio
a investigação de doutoramento em curso. a necessidade de comunicar mais diretamen- livro.
Voltando à questão, de como pode o livro te suas ideias a outras pessoas, fazer a arte O surgimento das publicações de artista,
de artista constituir-se como um lugar de circular em outros circuitos, chegar em ou- abrangendo cartazes, revistas, panfletos,
encontro, este artigo propõe algumas pos- tras pessoas. discos e livros, aconteceu simultaneamente
sibilidades. Desde logo, as características do A pesquisadora Anne Moeglin-Delcroix à constituição de uma comunidade inter-
processo colaborativo iniciado no Workshop (2015) aponta como antecedentes históricos nacional que hoje é conhecida como Mail
Líquido com vista a criação de uma publi- dos livros de artista dos anos 1960 os pan- Art ou Arte Correio. A rede foi a principal
cação conjunta. Iniciado num momento fletos políticos ingleses do século 17. De fato, forma de distribuição dos livros de artista,
adverso a quaisquer reuniões para além das conceitualmente os livros auto-editados por eles não eram apenas comercializados, mas
estritamente necessárias, os encontros re- artistas estão mais próximos dos panfletos também eram trocados com outros artistas.
gulares de artistas, interessados na partilha do que dos chamados livres d’artiste, os livros Pelo seu formato modesto, despretensioso,
e debate das suas práticas, produziram uma ilustrados por pintores e destinados a um o preço acessível e a troca constante entre os
possibilidade de aproximação, reivindicando grupo restrito de leitores. Mas existe outro artistas, podemos dizer que uma parte desta
um espaço dinâmico e realizando um campo antecedente histórico que é mais próximo produção hoje em dia se confundiria com o
comum para as suas produções, os seus li- dos livros de artista e costuma ser ignorado que conhecemos como zines, apesar de serem
vros. Por outro lado, o distanciamento social por alguns estudiosos, a chamada Revolu- chamados apenas de livretos ou pequenos li-
imposto lançou mais um desafio à pesquisa ção do Mimeógrafo após a Segunda Guerra vros por seus autores. A rede de arte correio
baseada na prática, centrada nos livros de (LUDOVICO, 2012). Os primeiros livros e contribuiu para que a circulação de infor-
artista, no trabalho educativo com crianças. revistas independentes dos poetas beatniks mações e ideias ocorresse mais rapidamente,
Os modos de fazer investigação académica, eram mimeografados, eles contribuíram modificando a estrutura metrópole-colônia,
as experiências que se podem imaginar no para o surgimento do que conhecemos hoje em que a arte dos países periféricos era con-
interior das contingências que a envolvem como contracultura, primeiro por meio da siderada uma imitação do que era feito nos
em incertezas inesperadas da crise pandé- literatura, depois por uma ética do “faça-vo- grandes centros. Não fazia mais sentido essa
mica mundial, obrigam a alterar procedi- cê-mesmo” que se difundiu entre a juventude distinção, pois os artistas estabeleceram uma
mentos habituais. O valor experiencial dos dos anos 1970. Ou seja, o acesso aos meios de via dupla, o que era feito pelos artistas do he-
procedimentos, a importância dos gestos de produção foi responsável por uma revolução misfério sul era tão importante, tão inven-
pequena escala e a necessidade de construir cultural. tivo ou experimental quanto o que era feito
a intimidade, mantiveram a sua pertinência. As manifestações da arte conceitual na Amé- por seus colegas do hemisfério norte.
Assim, os livros de artista constituíram-se rica Latina e no leste europeu nos anos 1970, O espírito de rede foi fundamental para
lugar e veículo de reflexão sobre os devires chamadas de conceitualismo, são marcadas a produção e a circulação das revistas pu-
da infância, intimidade e materialidade, le- por questões políticas que não são tão evi- blicadas por artistas. Com frequência os
gitimando-se nos diferentes encontros que dentes na produção dos pioneiros artistas colaboradores de uma revista tornaram-se
motivam, voltados para o presente. conceituais dos Estados Unidos e Europa, depois editores de outra publicação, como se
Joana Nascimento que estavam mais voltados para uma refle- observou nas revistas brasileiras no período
xão sobre a linguagem. O ambiente social de 1956 a 1988 (Cador, 2020). Nas revistas de
e político era bem diferente, marcado por artista, como Arte em São Paulo, Malasartes,
regimes autoritários, censura e perseguição, Real Life, Avalanche e outras, os textos críti-
POESIA COMO ARTE o que repercutiu também nos trabalhos des- cos eram assinados pelos próprios artistas,
INSURGENTE 10 ses artistas (FREIRE, 2015). Outra marca de em comunicação direta com o público.
distinção é a precariedade das produções, A arte correio mudou o foco do que tradi-
Resumo feitas em tiragens muito pequenas, muitas cionalmente chamamos “Arte” por um con-
Um panorama dos aspectos políticos vezes impressas pelos próprios artistas utili- ceito amplo de “cultura”, pois um projeto de
associados ao ato de publicar, desde os víncu- zando fotocópias, o que inclui edições feitas arte correio incluía a participação de deze-
los históricos com os panfletos e os protestos clandestinamente, com máquinas e equipa- nas de pessoas, artistas e não-artistas, que
na década de 1960 até os fatores sociais e eco- mentos emprestados de sindicatos e universi- respondiam a uma convocatória enviando
nômicos, como o acesso aos meios de produ- dades. Diferente das publicações similares de trabalhos ou propostas, o que podia incluir
ção e as formas alternativas de distribuição. seus colegas do hemisfério norte, a maioria poemas-visuais, cartazes, postais, livretos.
O texto destaca alguns artistas e editoras da dessas publicações não sobreviveu, algumas Com o tempo, os artistas assumiram “a coor-
América Latina que, apesar de seu importan- ainda existem em acervos de artistas e um denação de um complexo sistema de ativida-
te papel na história dos livros de artista, re- número muito pequeno delas encontram-se des que ocorrem em uma realidade social”,
ceberam reconhecimento tardio dos museus em instituições públicas. e passaram a incluir a organização e dis-
e críticos de arte. A política teve uma grande influência nas tribuição de sua obra como elementos da
publicações de artista, seja de forma direta própria obra, criando o que Ulises Carrión

O
s livros de artista, desde sua origem ou indireta. Após uma violenta repressão aos chamou de estratégia cultural (2013, p. 130).
na década de 1960, são acompanha- estudantes mexicanos em 1968, o casal de A formação de comunidades de artistas ao
dos por debates sobre a democrati- artistas Martha Hellion e Felipe Ehrenberg redor das publicações é outra caracterís-
zação das obras de arte, pela ideia de uma exilaram-se na Inglaterra. Em 1971, depois de tica importante, o que resultou na criação
comprarem dois duplicadores em um ferro- de espaços de produção (Visual Studies
10
O título do artigo é uma homenagem ao -velho, criaram junto com seu amigo David Workshop, nos EUA), de comercialização,
poeta beat Lawrence Ferlinghetti (1919-2021), Mayor a editora Beau Geste Press, uma das exposição e debates, criados por iniciativa de
que criou a livraria e editora City Lights e primeiras editoras não-comerciais especia- artistas ou gerenciados por artistas (Other
resistiu por décadas contra as tentativas de lizada em publicações de artista (do outro Books & So, Printed Matter, Art Metropo-
censura. Seu poema apocalíptico, em forma lado do Atlântico já existia a Something Else le). Os artistas promoveram ações e eventos,
de manifesto, foi traduzido e publicado no Press, de Dick Higgins, desde 1963). Instala- organizaram mostras e constituíram acervos
Brasil em uma edição pirata que eu comprei dos em uma casa de campo com muitos quar- particulares com exemplares de um tipo de
em uma feira de livros de poesia. Sua men- tos disponíveis, os artistas convidavam os produção que ainda não havia encontra-
sagem é cada dia mais atual. amigos interessados em publicar seus traba- do espaço em museus — Martha Wilson

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e a Franklin Furnace em NY, Mauricio uma monografia sobre Cildo Meireles, um Referências
Nannucci e a Zona Archives na Itália, Guy catálogo de exposição sobre performance
Schraenem e o Archive for Small Press Pu- e até Grapefruit de Yoko Ono. As traduções CADÔR, A. B. (2020). Publicamos para en-
blications na Bélgica. O reconhecimento e são feitas por artistas amigos e as fotografias contrar camaradas. ARS (São Paulo), 18(38),
a valorização deste tipo de produção estão originais foram substituídas por desenhos, 297 - 313. [Link]
vinculados aos esforços contra a dispersão para evitar problemas com direitos autorais [Link].2020.164764
desses colecionadores pioneiros. de imagem. Os livros são impressos em papel
A opção pela publicação como forma de ex- ordinário e vendidos a preço de custo. CARRIÓN, Ulises. El Arte Correo y el Gran
pressão parece garantir aos artistas maior li- A publicação pode ser um meio para conhe- Monstruo. Archivo Carrión vol. II. México:
berdade para falar o que pensam, para abor- cer outros artistas que tenham afinidade Tumbona, 2013.
dar qualquer tema ou assunto, algo que pode com seu modo de pensar, pode também ser
não ser bem recebido em um espaço institu- uma maneira de compartilhar conhecimen- DWORKIN, Craig; Thurston, Nick; et al.
cional do museu ou galeria se o que o artista to (FISCHER, 2014). Criado em Chicago em Faça ou Faça Você Mesmo. Trad. Regina Me-
tem para dizer desagradar patrocinadores, 1998, o coletivo Temporary Services é forma- lim. Florianópolis: par(ent)esis, 2018.
políticos ou membros da diretoria da insti- do por Brett Bloom e Marc Fischer, que pro-
tuição. Alguns livros de artista são pensados duzem exposições, eventos, projetos e publi- FISCHER, Marc. Against Competition. Chica-
como plataforma de debates sobre questões cações. Para eles, é irrelevante a distinção go: Temporary Services, 2014.
sociais, abordam temas polêmicos, que in- entre a prática artística e outras formas de
cluem a luta pela igualdade de direitos das criatividade. Em 2008 começaram a Half Le- FREIRE, Cristina (org.). Terra incógnita:
mulheres, a ação dos sindicatos e dos movi- tter Press, o braço editorial de suas ativida- conceitualismos da América Latina no acer-
mentos sociais pelos direitos dos trabalhado- des, responsável pela publicação de mais de vo do MAC USP. São Paulo: Museu de Arte
res, as denúncias de corrupção, os protestos uma centena de zines sobre os mais diversos Contemporânea da Universidade de São
contra a ditadura e a censura, o racismo e a temas. Algumas publicações ficam disponí- Paulo, 2015.
violência policial. veis para baixar gratuitamente na página da
A arte também pode ser uma forma de dar editora, em uma demonstração de generosi- GILBERT, Annette. Publishing as artistic prac-
visibilidade a grupos minoritários, reafir- dade. Outro braço das atividades é o projeto tice. 2nd. ed. Berlin: Sternberg Press, 2016.
mando seu direito à existência. A ação pode Public Collectors, que reúne colecionadores
ter como resultado uma obra em particular, que desejam compartilhar seus acervos par- LIPPARD, Lucy. “Double Spread”. Put About:
que contou com a participação de outras ticulares com pessoas interessadas, seja por A Critical Anthology on Independent Pub-
pessoas, ou pode ser um projeto editorial meio da digitalização de livros, seja pela visi- lishing. London: Book Works, 2004.
que tem como objetivo dar voz às pessoas, ta presencial em suas residências.
como acontece com as editoras cartoneras, Nos últimos anos, artistas, editores e pes- LUDOVICO, Alessandro. Post-Digital Print:
formadas em parceria com cooperativas de quisadores têm usado no lugar da expressão The Mutation of Publishing Since 1894. Ein-
catadores de papel. A primeira editora do “livro de artista” a palavra publicação, mais dhoven: Onomatopee, 2012.
tipo surgiu durante a crise econômica na Ar- abrangente e inclusiva, com a vantagem de
gentina em 2003 e depois espalhou-se para evitar o fetiche que ainda é associado aos li- MOEGLIN-DELCROIX, Anne. “Pequenos
outros países da América do Sul. Tais edito- vros de artista. Esta mudança no vocabulário livros & outras pequenas publicações”. Trad.
ras produzem obras de literatura com capa acompanha um deslocamento de interesse do Amir Brito Cadôr. Revista-Valise, Porto Ale-
de papelão usado, pintado com guache pelos objeto para a ação que o antecede e o sucede gre, v. 5, n. 9, ano 5, julho de 2015.
familiares dos catadores. Uma editora carto- (GILBERT, 2016), de onde vem a expressão
nera pioneira no Brasil, a Dulcineia Catadora “Publicação como prática artística”, reto- TEMPORARY SERVICES. What Problems
criou uma coleção de livros de artista, alguns mando uma ideia que já estava presente no Can Artist Publishers Solve? Chicago, IL,
deles produzidos em parceria com pessoas da início dos anos 1980 nas reflexões de Ulises Auburn, IN, Temporary Services, 2018.
cooperativa. Carrión sobre as estratégias culturais. É um
A figura do artista-editor hoje em dia é co- entendimento de que um trabalho impresso VALLÉS, Laura. entrevista a Damián Orte-
mum, pois a maioria dos livros são auto-pu- tem uma função agregadora associada, que ga. “Alias o las virtudes del apodo”. Concre-
blicados. Uma parte dos artistas mais jovens ele pode servir como pretexto para encon- ta - Sobre creación y teoria de la imagem.
parece preferir este caminho para garantir tros, conversas, debates, pode funcionar nº 00, Otoño 2012.
sua autonomia. Vejo isso também como re- como um nó em uma rede e ainda pode ser-
sultado de um conjunto de fatores, entre os vir como estímulo para o surgimento de no-
quais a facilidade de acesso a computadores e vas publicações.
programas de edição, as impressoras domés- Amir Brito Câdor
ticas e serviços de impressão sob demanda.
Algumas vezes publicar livros é só mais uma
forma de pagar as contas, enquanto para FICHA TÉCNICA
outros artistas a publicação é pensada de Editoras: Ana Romana, Catarina Leitão, Isabel Baraona
fato como uma atividade artística, mesmo e Susana Gaudêncio.
quando ele publica livros de outras pessoas. Imagem Central: Romie
O mexicano Damián Ortega, por exemplo, ISSN: 2184-884X
criou uma editora sem fins lucrativos cha- Designer: Nayara Siler a.k.a. Animal Sentimental
mada Alias que publica obras em espanhol Tiragem: 250 exemplares
que podem contribuir para a formação de jo- Contacto: [Link]@[Link]
vens artistas mexicanos e que ainda não ha- Este trabalho é financiado por fundos nacionais através da FCT -
viam sido traduzidas. O conjunto dos livros Fundação para Ciência e a Tecnologia, I.P., no âmbito do projeto
da editora Alias é um projeto de “escultura <<UIBD/05468/2020>>
pública” (VALLÉS, 2012, p. 56) ou “escultu-
ra social”, os livros possuem todos o mesmo
formato, a coleção não faz distinção entre *Lawrence Weiner, Books do furnish a room: Lawrence Weiner on artists’
livros de artista e livros sobre arte e inclui books, 1989. In, Umbrella, volume 13, n. 1, 1990.
um volume de entrevistas com John Cage,

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