Jaime Isidoro: Arte e Cultura no Porto
Jaime Isidoro: Arte e Cultura no Porto
Arte Bruta
ESPECIAL PÁGS. 14 e 15
Nassalete Miranda
Directora
NOTA
Texto publicado ao abrigo da parceria estabe-
lecida entre AS ARTES ENTRE AS LETRAS e o
Centro Nacional de Cultura.
13MAR’24
Vitorino Nemésio
- Emissário de uma voz de fogo.
Ah! Meu menino, minha estrela a arder de dia,
Não deixes que te mexam no traço virginal que aprendeste
Quando eras o fio de sol na escuridão que enchia
A tua mãe – bolhinha, enquanto te não desprendeste. (1986, p. 155)
O Relógio de Bolso
FOTO: DR
Leio Psicologia da Arte e Imaginário (2023) de Ma- as personagens excêntricas enformam um espe-
ria Antónia Jardim e penso em Psicologia da Arte lho para os desafios emocionais e existenciais.
(1999) de Lev Semionovich Vygotsky, que, não A protagonista Alice, ao navegar por um mundo
abordando directamente o conceito de catarse, de absurdos, paradoxos e metamorfoses, espelha
evidencia a relação entre a arte e o desenvolvi- a complexidade da jornada humana obviando a
mento emocional, a sua importância na mediação exploração de questões como identidade, adap-
social, no processo de aprendizagem, no desen- tação e autoconhecimento, que proporcionam
volvimento de funções psicológicas superiores um fértil terreno de reflexão.
bem como o seu papel facilitador na compreensão O processo terapêutico através da literatura pre-
e expressão das emoções para além da palavra; sentifica a capacidade para estimular a empatia O diálogo simbólico entre o consciente e o in-
assim subjaz o conceito de catarse enquanto pu- e a compreensão, promovendo insights pessoais. consciente é uma jornada que convida à intros-
rificação emocional, permissiva à libertação de As experiências de Alice são metáforas de desa- pecção, à aceitação e ao entendimento mais pro-
sentimentos reprimidos com o fito no alívio emo- fios psicológicos que oferecem uma perspectiva fundo de si mesmo e do mundo que nos cerca, de
cional, a que não será alheio o papel do “outro”. única sobre questões como auto-aceitação e su- que Alice é instrumento simbólico.
A catarse artística não oferece apenas um meio peração. As experiências criativas que Maria Antónia Jar-
de purificação emocional, como também promo- A leitura que Maria Antónia Jardim faz deste dim enuncia são momentos enriquecedores em
ve a empatia e a compreensão entre diferentes País das Maravilhas, de regras ilógicas e perso- que a imaginação é libertada e a expressão pes-
indivíduos e culturas tornando-se um poderoso nagens peculiares, converte-se num questionar soal se ramifica. Ocorrendo em diversas formas e
veículo para a autodescoberta e a construção do de convenções sociais e numa desconstrução do contextos, impulsionando a inovação, a autodes-
significado da vida. ordinário; tal pode inspirar uma abordagem mais coberta, o prazer estético e, sobretudo, o poder
A isto se junta o imaginário, muitas vezes asso- flexível e criativa face a obstáculos. Trata-a, pois, curativo não só pela satisfação pessoal como tam-
ciado à matéria dos sonhos, que pode ser enten- como uma potente ferramenta terapêutica que bém pelo enriquecimento do quotidiano. Em tudo
dido como uma metamorfose hermenêutica, um estimula a auto-reflexão, a resiliência e a explo- reside o poder de maravilhar, força transcenden-
processo de transformação interpretativo profun- ração do imaginário como meio de enfrentar os tal que tem na capacidade de surpreender, encan-
da. A arte, nas suas diversas formas, serve como desafios da existência. tar e inspirar o seu ponto alto, assim associando a
um portal para o reino do imaginário, permitindo Psicologia da Arte e Imaginário estrutura-se à ética à estética em demanda da felicidade.
que a mente explore territórios desconhecidos e volta de dois grandes eixos – “O Maravilhar-se…” A obra encerra com uma série de poemas em inglês
se liberte das amarras da realidade tangível. e “… são deste lado as maravilhas” que, por sua inspirados por Alice e Paula Rego (anexos) e uma
Neste contexto, os sonhos, ricos em simbolismo vez, se desdobram e reencontram num processo consistente bibliografia sobre a capacidade cura-
e narrativas oníricas, tornam-se matéria-prima rizomático desde logo anunciado na pontuação tiva da arte. Nela se referenciam nomes incontor-
para a criação artística. Tal o caso da autora de utilizada. náveis destes estudos como são os de Bachelard,
Psicologia da Arte e Imaginário que recorre, as- No primeiro, Maria Antónia Jardim, começando Barthes, Damásio, Eco, Greimas, Jung, Leibniz,
sazmente, às artes plásticas para expressar o que por estabelecer uma ponte entre os modernismos Mosquera, Ricoeur ou o já citado Vygotsky.
às palavras poderá estar vedado. Interpretada português e brasileiro destaca Fernando Pessoa Trata-se de um excelente trabalho sobre a herme-
a obra de arte, à luz de experiências e emoções – autor muito presente nas suas publicações – e, nêutica do eu que explora as camadas mais pro-
ocorre a metamorfose hermenêutica qual espe- com ele, persegue o método comparativo na psi- fundas da identidade, significado e experiência
lho reflector e refractário da diversidade do ima- cologia da arte apoiando-se em teorias consisten- pessoal; uma abordagem filosófica e psicológica
ginário humano. tes. Perspectivando a arte como terapia, trata as que tenta desvendar os múltiplos significados e
Ao explorar os recantos da mente por meio diferentes linguagens expressivas, com especial contextos que moldam a compreensão de quem
da arte, Maria Antónia Jardim cria um espaço acuidade para as de Paula Rego e Lewis Caroll somos. Interpretação contínua, contextualiza-
mágico onde as fronteiras entre a realidade e a corolário da sua investigação. ção, diálogo interior, construção narrativa, diver-
fantasia se dissipam e demonstra que os seres Em “… são deste lado as maravilhas”, a prota- sidade de perspectivas, exploração existencial e
humanos podem experimentar uma profunda gonista é Alice, o seu mundo e o seu imaginá- influências filosóficas, como a fenomenologia e o
transformação, expandindo as suas perspecti- rio enquanto leit motiv do acto criativo. Com ela existencialismo, são os passos dados pela autora
vas e enriquecendo o significado de suas vivên- persegue a experiência tarótica qual mergulho nesta abordagem interpretativa complexa e refle-
cias. Releva, por outro lado, o poder inerente à profundo nas camadas simbólicas e metafóricas xiva para o entendimento do eu profundo.
criatividade de transcender limites e explorar os do Tarot. As cartas, as suas imagens e símbolos Olho a obra, o “Gato de Cheshire” acena-me e
reinos inexplorados tornando-a poderosa ferra- únicos, tornam-se espelho da complexidade da convida-me a entrar neste recanto do vastíssimo
menta nos estudos da psicologia clínica. existência humana. A sua leitura não é apenas jardim. Nele todos somos Alice. Com sabedoria,
Vem isto a propósito de Alice no País das Mara- um exercício de previsão, mas uma experiência jogaremos ao esconde-esconde. Ao fundo, esprei-
vilhas de Lewis Caroll, que Maria Antónia Jardim de auto-reflexão. Cada arcano revela facetas do tam a “Lebre de Março” e a “Tartaruga Fingida”.
trata com particular acuidade em Psicologia da inconsciente, desencadeando uma busca pela Desafia-me o “Coelho Branco”, em metamorfoses
Arte e Imaginário, proporcionando uma fasci- compreensão de padrões e dilemas pessoais. cromáticas; só o seu inseparável relógio de bolso
nante jornada literária que transcende a mera O Tarot torna-se, então, numa ferramenta tera- dirá do tempo.
narrativa fantástica, para se tornar numa poten- pêutica, qual epifania de questões emocionais e
cial ferramenta terapêutica. A narrativa surreal e espirituais.
13MAR’24
José Vieira
professor universitário e crítico literário
Vasco e o Papagaio-do-Cabo
Nos 500 anos da morte de Vasco da Gama
Chamo-me Vasco. Nunca me achei diferen- De repente, virou-se de frente para mim, da Gama alcançou Calecute, no sul da Ín-
te dos outros miúdos que conheci. Recordo olhou-me fixamente, e algo de mágico acon- dia, em 20 de Maio de 1498. A Rota do Cabo,
a minha avó, que dizia que nunca se deve teceu: ouvi-o falar! Começou por querer con- seguida pelos portugueses, abriu, portanto,
dizer nunca e que, realmente, tinha toda a firmar se eu me chamava Vasco e se vinha de aos europeus, o caminho marítimo para a
razão. Posso provar porquê. Só hoje, bem Sines. Eu acenei que sim, com a cabeça, e ele Índia, o que, naquela altura, não podia ser
adulto, me atrevo a fazê-lo. Na verdade, pareceu-me aliviado, porque disse: “Final- mais importante, sobretudo do ponto de
acaba por ser a minha forma de homena- mente!” A partir daí, fez-me prometer que ia vista económico, e como ter poder econó-
gear o grande Almirante, agora, que passa ouvir tudo até ao fim e que, mal pudesse, es- mico também significa ter poder político,
meio milénio sobre o ano em que morreu. creveria o que ele contasse, porque era muito os portugueses tornaram-se os senhores
Tudo começou quando, numa inesquecí- importante. Mesmo não sabendo do que iria dos mares, respeitados e celebrados por
vel 4.ª feira, dia 19 de Junho de 20131, fui a ser capaz, e de olhos incrédulos, voltei a fazer essa Europa fora.
Lisboa, ao Oceanário, numa visita organi- sinal que sim, decidido a concentrar-me. Isto escrevo eu, agora, de uma forma muito
zada pelo agrupamento de escolas de que Aquele Papagaio-do-Cabo descendia de uma resumida, porque concentrei todos os meus
a minha fazia parte. Nunca lá tinha ido. Só nobre linhagem. Na sua família sempre exis- esforços no que o Papagaio me disse querer
conhecia bem a costa alentejana, porque tira o hábito de ir transmitindo os factos im- que eu registasse ao pormenor. Na minha ca-
nasci em Sines2. O mar, para mim, significa portantes de geração em geração. Era uma beça, evidentemente, não coube tudo, mas o
o mundo. Por isso é que, ainda hoje, gosto espécie de tradição oral. Andavam há séculos que escrevi no caderno que ainda hoje con-
tanto de ficar a olhar para ele. Não há dúvi- à espera que um deles conseguisse chegar a servo como um tesouro, foi o seguinte: que
da de que o mar sem fim é português. Lisboa para contar a alguém que se chamasse Vasco da Gama conseguira cumprir um plano
Mas o que interessa mesmo é que, naque- Vasco e tivesse nascido em Sines (eram estas, de 80 anos, um plano de que os portugueses
le dia, a minha vida mudou para sempre. como vim a saber, as condições indispensá- não desistiram, porque sempre acreditaram
É claro que o Oceanário é extraordinário e veis), o que queriam que ficasse registado. nele. Um plano iniciado com a descoberta da
que quase todas aquelas espécies que ali Embora eu, naquela altura, já tivesse ouvido ilha de Porto Santo, em 1418, por João Gon-
habitam são fascinantes. Naquela altura, é falar de Vasco da Gama e, vagamente, da des- çalves Zarco, no tempo de D. João I. Apontei
natural que houvesse algumas que hoje já coberta do caminho marítimo para a Índia, um comentário ingénuo, que aqui reproduzo:
lá não existem. d’Os Lusíadas, da importância, por alto, dos “Fixe, o Papagaio ter falado nisso, porque o
Estava eu sentado no chão, com o Paulo, o portugueses, da sua coragem e sabedoria e de meu pai diz que o chefe dele vai para lá com
Estevão, a Isabel, o Chico, o Pedro, a Tere- como tinham conseguido o impossível, numa a família, quando precisa de desanuviar a ca-
sa, o João e já não sei se mais alguém3, a época já longínqua, fiquei de boca aberta com beça, porque é um lugar onde a praia é boa, a
olhar para uma raia que era novidade lá no o que estava ali a ouvir. Tive uma ideia que água é quente e não há nada de especial para
Oceanário (por acaso até me lembro de que me pareceu brilhante e agarrei no meu iPad fazer.” Enfim, coisas de miúdo...
a raia se chamava Viola – de – Espinhos e para ir escrevendo, mas o Papagaio disse logo O que começou por ser o sonho de alguns,
de que era enorme e um tanto ou quanto que não era preciso, porque a memória tinha foi-se tornando realidade, à medida que os
esquisita, porque estava coberta de pintas de servir para alguma coisa e, naquela oca- grandes navegadores – capitães e marinhei-
e tinha espinhos enormes por todo o lado) sião, não havia tempo a perder. Ficou-me este ros – a par de geógrafos, cartógrafos, mate-
quando algo, no meio da vegetação, entre comentário para sempre. É na memória que máticos e astrónomos foram avançando nas
as rochas, me chamou a atenção. Olhei me- guardo o que leio e oiço. Estou já na fase final suas viagens e estudos. Foi-se comprovando
lhor e notei um certo movimento. Fosse o da minha dissertação de mestrado. que querer é poder e que, apesar das incontá-
que fosse, tinha-se escondido, mas, logo a No dia 8 de Julho de 1497, sendo D. Manuel veis dificuldades, quando se é persistente, o
seguir, voltou a aparecer. I Rei de Portugal, Vasco da Gama, que en- que parece impossível se realiza. Importante
Era um peixe, nem especialmente bonito, tão era Capitão-Mor, mais tarde Almiran- é acreditar, não ter medo, não confundir pre-
nem especialmente assustador. Começou te-Mor e, depois, Vice-Rei da Índia, partiu cipitação com determinação, estar preparado
um jogo de esconde-esconde comigo. Se de Belém com quatro naus, rumo ao sul de para enfrentar as adversidades, ser arrojado
não tivesse sido por isso, nem lhe teria África. Ele próprio comandava a nau S. Ga- sem deixar de ser sensato nas decisões. São,
dado importância. Começou a piscar-me briel. O objectivo era provar aquilo de que realmente, afirmações determinantes que
o olho, e eu fiquei pasmado. Pisquei-lhe o os portugueses tinham praticamente a cer- conservei em mim. Foram tão importantes no
olho também. Pareceu-me lógico. Ele vol- teza – que havia possibilidade de chegar à passado, como deveriam ser no presente.
tou a fazê-lo e aproximou-se. Nessa altura, Índia por mar, uma vez que o oceano Atlân- O Papagaio ainda fez questão de falar do In-
resolvi perguntar a quem ia a passar como tico e o oceano Índico estavam ligados. Era fante D. Henrique, o impulsionador dos des-
é que se chamava aquele peixe. Disseram- necessário contornar a costa, passando do cobrimentos; de Gil Eanes, o primeiro a do-
-me que era um Papagaio-do-Cabo, uma es- lado ocidental para o oriental, isto é, de um brar o Cabo Bojador, tão receado por todos,
pécie rara que só existe na costa da África mar para o outro, para, finalmente, se che- na costa ocidental africana; de Diogo Cão
do Sul. gar à terra pretendida. A armada de Vasco (embora, na altura, me parecesse estranho,
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porque não conhecia um único homem que O Papagaio-do-Cabo, que falava pelos cotove- pela cabeça que vou aturar segunda dose.
ladrasse), que navegou ao longo da costa de los, ficou tão excitado depois de ter cumprido – Então não atures. Anjo, queres vir comigo
África, recolhendo informações preciosas; a sua missão, que desatou a repetir “Vasco da procurar o Palhaço?
de Bartolomeu Dias, que chegou ao cabo das Gama; Vasco da Gama; Vasco da Gama” alto e – Vamos lá, Papagaio, mas achas que é im-
Tormentas, depois conhecido como Cabo da bom som. Enquanto andava por ali às voltas, portante?
Boa Esperança, cabo do qual fica pertíssimo um peixe meio estremunhado, ainda em pija- – Claro que é! Como ninguém o leva a sério,
a que é hoje capital da África do Sul: a Cidade ma, mandou-o calar: ele, entre palhaçadas, acaba por ouvir daqui
do Cabo. – Está calado, ó Papagaio. Incomodas-nos a e dali e depois, a brincar, a brincar, vai fican-
Falou de monstros, de sereias, de deuses todos! do a saber coisas muito importantes.
protectores e de deuses maléficos, da ina- – Qualquer Papagaio papagueia, ou tu não – Pensando melhor, acho que vou convosco,
creditável vida que existe no fundo do mar, sabes disso, seu ignorante? mas, pelo sim, pelo não, vou continuar de pi-
de tanta, tanta coisa que eu jamais seria – Sei sim, respondeu o Alcarraz-Pijama, mas jama.
capaz de descrever o que ouvi. O Papagaio estou farto de te ouvir! O Peixe-Porco-Palhaço inconfundível, estava
contou-me, ainda, que existia uma obra Antes que se armasse ali uma discussão, o a jantar.
importantíssima, o “Roteiro da Primeira Peixe-Anjo interveio: – Querem provar este pitéu? É delicioso, disse
Viagem de Vasco da Gama à Índia, 1497 a – Eu, por acaso, até nem ia dizer nada, mas ele, com um ar convidativo.
1499”, escrita por Álvaro Velho, nome es- gosto de paz e sossego e realmente… Aproximaram-se os três, mas o pitéu logo de-
tranho para mim, naquela altura. Continua – Realmente o quê? sapareceu. O Palhaço engoliu-o de uma vez.
a estar conservada na Biblioteca Pública – Realmente sou um Anjo e o que quero é que – Era bom, mas acabou-se, disse ele, a rir.
Municipal do Porto e integra a “Memória do todos se dêem bem, respondeu ele. Olhem – Seu palhaço! Seu alarve, comentou o Papa-
Mundo”. Ainda me disse, a correr, que nes- bem para as minhas manchas amarelas. É si- gaio, irritado.
se roteiro havia muita informação preciosa nal de que me devem respeito, sabiam? – Pois claro! Porco e Palhaço. É o meu nome.
e recomendou-me que não me esquecesse O Papagaio e o Alcarraz reviraram os olhos Estavam à espera de quê?
disso. De facto, nunca mais me esqueci. e nem responderam. O Anjo limitou-se a es- – Bem, esqueçamos a tua parvoíce, que é me-
Não parei de escrever sobre ele. Tem sido o perar. lhor, comentou o Anjo.
cerne da minha vida de investigador. – Eu sei montes de histórias. Ainda estás com – Ouviste alguma coisa sobre o segredo do
No meio disto tudo, houve uma história sono? perguntou o primeiro. Unicórnio, quis saber o Papagaio.
que fixei com pormenor, e que me deixou – Só um bocadinho, respondeu o segundo. Eu – Sobre o diamante mágico? É isso? respon-
angustiado: a do gigante Adamastor, um aguento, mas não me venhas outra vez com o deu o Palhaço.
monstro aterrador que nem por isso impe- tal Vasco! – Vamos por partes: é verdade que foi um an-
diu os portugueses de seguirem o seu cami- – Por mim, tenho toneladas de paciência. tepassado do Unicórnio que o encontrou? E
nho. Um mito, uma lenda, como acontece, Já vos aturo há que tempos, disse o terceiro. que, passados séculos, o Unicórnio o trouxe
por vezes, ainda hoje… Conta lá! para Lisboa? Para aqui mesmo?
Pensando bem, quando eu era pequeno, ou – Não é bem uma história. É um grande mis- – Parece que sim, e quando cá chegou ouvi
mesmo já não tão pequeno como isso, tinha tério e eu tenho a certeza de que o Unicórnio dizer que o escondeu algures…
medo de bruxas e de monstros e até acordava sabe alguma coisa importante. – Vamos procurá-lo! Não acham boa ideia?,
com pesadelos. A minha mãe vinha e dizia- – O Unicórnio?! perguntou o Papagaio.
-me que era só um sonho mau, porque, real- – Sim, aquele que tem a mania de meter o na- – E onde é que ele estará? Pensem bem, que eu
mente, eles não existem. Eu, antes de ador- riz onde não é chamado. Não sei se é de con- não estou para canseiras, replicou o Alcarraz.
mecer outra vez, punha-me a pensar que um fiança. Ouvi falar de um tal Pinóquio a quem – Empertigado como é, às tantas nem fala
dia, quando fosse grande, ia ser um fantásti- cresceu o nariz porque dizia aldrabices, mas connosco, comentou o Palhaço.
co mágico e encantar toda a gente. é coisa de miúdos. Nós somos peixes. Mesmo – Podemos sempre pedir ajuda ao Peixe-An-
Na verdade, sempre disseram, e continuam a assim, fiquei um bocadinho impressionado. jo-Real. É altamente influente e, por sorte, até
dizer, até os meus próprios filhos, que tenho – És mesmo um Papagaio. Deixa lá essa treta estou a vê-lo ali ao fundo. É só chamá-lo, su-
uma imaginação muito fértil, seja lá o que for de narizes e conta-nos o que sabes. geriu o Anjo.
que isso signifique. Eu até sou capaz de lhes – Se não me mandares calar, eu conto, mas Todos concordaram e este anuiu, pelo que
dar uma certa razão, mas se teimarem em afir- previno-te já de que o Vasco da Gama, aquele uma pequena comitiva partiu, então, em bus-
mar que o Papagaio-do-Cabo, que agora refi- tal, está metido nisto. ca do Unicórnio.
ro aqui, nunca existiu, eu zango-me a valer. – Ah sim! E como? indagou o Alcarraz. Continua
Demorei anos para cumprir a promessa que – Não sei bem, mas tenho a certeza de que al-
fiz àquele peixe, por isso, garanto-lhes que gures, por aqui, está escondido um diamante
me zango! Zango-me e chamo o Adamastor! mágico fabuloso.
– E o que é que o Vasco da Gama tem a ver
Naquele dia, Vasco voltou para a escola, inca- com isso, perguntou, curioso, o Anjo.
1
paz de dizer uma palavra. Tinha que pensar – Não é bem ele, percebes. É que havia um ir- 19 de Junho de 2013 – data em que o Rotei-
ro da Primeira Viagem de VG foi inscrito, pela
muito bem em tudo o que acontecera. Não mão chamado Paulo, que foi com ele à Índia. Unesco, na Memória do Mundo.
2
assistiu ao que, nessa noite, se passou no – Lá vens tu com essa história da Índia, dis- Sines – lugar de nascimento de VG.
3
Paulo, Estevão, Isabel, “Chico”, Pedro, Tere-
Oceanário. Se tivesse assistido, ia pensar que parou o Alcarraz. Eu ouvi tudo o que contas- sa e João, para além de outros – nomes de
estava doido… te àquele miúdo, hoje mesmo. Nem te passe irmãos e de filhos de VG.
13MAR’24
Rui Batista
historiador
ISLA MUJERES que estes eram forçados a falar alemão. Foi que eles se haviam envolvido num rediço da
– “No fim, não nos lembramos das pala- numa dessas turmas onde então se conhece- primeira vez que Rachel esteve lá para o “Te-
vras dos nossos inimigos mas do silêncio ram pela primeira vez. Por seu lado a norte- lex de Cuba”.
dos nossos amigos.” – Alguém no barco -americana reencontrou o Sérgio, jornalista De pé, já de costas voltadas para os circunstan-
declama a frase de M. Luther King, a propó- brasileiro, com quem havia estado em mis- tes, Guilhermo professor em Santiago, após a
sito do que vem acontecendo em Gaza e na são humanitária num campo de refugiados reação exaltada que teve, saltou fora do barco
Ucrânia, na Europa, na Ásia e nas Áfricas, em Gaza, há cerca de um mês, portanto al- e dirigiu-se na direção das barracas de bebi-
de há muito tempo para cá. Continua a pre- gum tempo antes ou até muito próximo da das e desapareceu para nunca mais aparecer.
leção: – “Parece que os políticos mundiais aventura do passeio em Santiago, no bote da No dia seguinte foi encontrado morto junto
estão de mãos atadas e temos de ser nós, IA. Para perceber isto convém recuar atrás e às rochas de um novo malecón santiagueiro,
sem exclusões, a denunciarmos tanta dor, tentar entrar n’O Quarto de Marte, de 2018, construído para o quingentésimo Aniversário
porque a dor não tem valor, cabe-nos a nós romance em que Kushner conta a história de (500 anos em abril de 2022) da fundação da-
cidadãos do mundo, como noutros tempos mulheres no corredor da morte, num presí- quela Vila, ora cidade de Santiago.
noutras causas coube às sufragistas lutarem dio feminino da Califórnia. A escritora este- – Voltemos às origens das religiões africanas
pelo seu direito de voto, lutarmos, agora e ve em Lisboa enviada pelo New York Times e à sua relação com o monoteísmo. – Disse
sempre, nós pelo direito à paz. Pois, até para se encontrar com Ruth Wilson Gilmo- Elimu, o homem de túnica branca, num inglês
parece que é coisa fora de moda falar nas re, que viajou para Portugal há cerca de um queniano, a caiar a conversa. Ninguém lhe
sufragistas e no seu movimento de mais de mês, a fim de resolver questões burocráticas deu importância porque, dada a malcriadez
cem anos, mas não é. Isto, porque o voto com o seu pedido de naturalização portu- de Guilhermo, a americana ficou em silêncio
democrático como o conhecemos não é algo guesa. Ruth Gilmore é uma abolicionista pe- com a sua “Ixchel” deusa do amor, no peito
comum em todo o mundo. Por exemplo, na nal norte-americana, diretora do Center for macio, e todos lhe seguiram o gesto por soli-
Arábia Saudita e Brunei, países da Ásia, Place, Culture and Politics e professora de dariedade. Trata-se de uma mulher bonita,
não há, nunca houve, eleições. Os referidos geografia em Ciências da Terra e do Ambien- mas arrasa, com a sua deusa ao peito, relíquia
países fazem parte de uma série de Estados te na City University of New York. As duas da arte pré-colombiana que trouxe da Ilha das
governados por monarquias absolutistas mulheres, Ruth Gilmore e Rachel Kushner, Mulheres (Isla Mujeres – como dizem os na-
que estão no poder há dezenas de anos, se- são inventoras de uma nova geografia carce- tivos). O nome é devido às muitas figuras de
não há centenas. E só há cerca de dez anos rária – trata-se de um complexo estudo das culto dessa deusa ali existentes.
outros estados terão sido arrastados para inter-relações entre o espaço, as instituições Como acima se refere, o acaso colocou-os fren-
o voto na “enxurrada” da Primavera Árabe e a economia política que moldam e defi- te a frente, depois de muitos anos num bote
– casos do Catar, Emirados Árabes Unidos, nem o encarceramento moderno. que os levou cerca de duas horas pelas águas
Omã, Bahrein, Jordânia e Marrocos. E ainda “A turnê mágica e misteriosa/está morrendo azuis a passear no mar do Caribe, frente a San-
temos a questão da legalidade democrática para te levar embora/morrendo para te levar tiago. Do outro lado a mancha verde da Sierra
que se prende na consciência do voto (como embora/te levar hoje”. Esta última quadra do Maiestra e as ideias de recordações antigas em
e em quem voto, que conhecimento tenho impressionante poema de “Magical Mystery ondas pacatas provocadas pelos daiquires,
eu para votar(?), mas isso é outra conversa). Tour” (1967) dos Beatles, por vezes ouve-se mojitos e outras bebidas alcoólicas à base de
O encontro aconteceu há cerca de dois me- em campos de refugiados e em cárceres. Dis- rum como é o caso da cuba libre. São dez pes-
ses. É uma aventura numa espécie de câma- cutiram muita coisa, como se viu, desde as soas de nacionalidades diferentes mas com
ra de IA (inteligência artificial) que é o que o questões sufragistas até às do emblemático línguas comuns como são os casos de Portu-
pequeno barco de passeio faz lembrar, por – porque num momento tão inoportuno, o gal e Brasil; Filipinas e Índia; Quénia e EUA;
tão estreito e fechado ser, coloca-os auto- filme de Alex Garland, norte-americano, de Espanha e Cuba, além de todos falarem inglês.
maticamente numa espécie de confrontação 2024, chegará às salas de cinema em ABRIL. A conversa só foi possível através do castelha-
tète à tète meio eletrónica. Depois de terem A temática é sobre uma nova “Guerra Civil na no, do português, do português do Brasil e do
chegado à fala, descobriram que há cerca América” que põe Estados contra Estados, e inglês americano. O que a princípio era coisa
de quarenta anos quase todos, à exceção de mais morte e mais terror, numa lógica abjeta pacífica, começou a incomodar a partir do
Guilhermo, o cubano, haviam estado na en- de Western (Kitsch) a que nos habituaram e momento em que Rachel Kushner começou
tão República Federal Alemã (sudoeste) na fazem para vermos, se formos bons rapazes e a falar do que sabia: do seu conhecimento do
década de 80 a estudar no Goethe-Institut se tivermos sorte. país já que ali estivera por seis vezes a fim de
in Staufen/Freiburg. E como foi isto possí- – Pois é. Ao chegarem à praia no lugar de recolher elementos para o seu romance “Te-
vel? Os alemães da banda de cá, à época, desembarque, a discussão entre eles atingiu lex de Cuba”, de 2008, cuja temática é sobre
tinham a boa filosofia de abrir cursos de dimensões assustadoras. a comunidade americana daquele país, em
língua alemã para licenciados estrangeiros, – Dado que eu nunca mais quero vê-la, a si di- tempos que levam à revolução de Fidel Castro.
e constituíam turmas apenas por alunos de go-lhe adeus. – proferiu Guilhermo dirigindo-
países com idiomas diferentes entre si, pelo -se à americana. – Soubemos, posteriormente,
13MAR’24
André Veríssimo
prof. universitário
CAPÍTULO 77:
Jacques Derrida:
as comunidades que vêm
A comunicação comunitária lida por ambiente virtual criado com as comu- lidade, os homens estão separados por
um meio como a internet, através de nidades virtuais. A comunidade virtual aquilo que os une” (Giorgio Agamben,
uma comunidade virtual, reedita uma que tomou de assalto os cibernautas A Comunidade que vem, Presença, Lis-
questão nos dias de hoje sobre um pen- pode assegurar uma nova forma de po- boa). Deleuze que também como crítico
samento que a sociedade da informação voar, habitar e participar na rede? Ques- da comunicação apontava para o facto
não consegue assistir. O pensamento de tões como estas são interessantes, mas de que não sofremos de falta de comu-
pequenos grupos que em comunidades parecem deslocar o pensamento de uma nicação, mas com o facto de não termos
dentro de comunidades trocam expe- democracia que leve em conta as indivi- grande coisa a dizer também parecia
riências e criam vínculos. Grupos que dualidades na pertença ao que se cha- tanger o pensamento sobre a questão da
ganham pujança e indicam, assim, uma ma de comunidades virtuais. O concei- comunidade. Essa comunicabilidade ou
nova forma possível de organização to de comunidades virtuais criado por falta do que dizer pode ser justamente
em um ambiente onde a democracia é Rheingold: Considerava as comunidades a marca enunciativa das comunidades
colocada em discussão. Assim as con- virtuais capazes de recriar o tradicional virtuais para uma nova constituição da
tribuições de Zygmunt Bauman, Gior- sentido de participação e envolvimento comunidade. O carácter frívolo, ideo-
gio Agamben e Jaques Derrida (Jacques das antigas comunidades, constituindo lógico, das “virtual communities” que
Derrida: tout autrement, in Les dieux uma revitalização da esfera pública e so- chama a atenção de alguns estudiosos
dans la cuisine, Vingt ans de philoso- cial e da política democrática através do da cibercultura pode ser justamente o
phie en France, Aubier, 1978, pp.105-11) recém-nascido ciberespaço. (Rheingold, encanto para se pensar a comunidade.
são essenciais, para além de sua des- A Comunidade Virtual, 1994) A razão porque temos um mundo é a de
crição meramente ‘tecno-virtual’, sobre Sempre presente a discussão sobre a que a nossa consciência o abre até nós, o
o que é pensar uma comunidade com democracia e a cidadania que emerge faz significativo e o divulga. Resultando
os olhos da esfera virtual. As teorias de com a rede parece realmente ganhar deste interesse na percepção e na cons-
McLuhan e Deleuze são fundamentais força com as comunidades virtuais ou ciência (Lyotard, 1993), a fenomeno-
para uma análise séria sobre um modo estaríamos diante de mais uma vulga- logia rejeita a distinção do sujeito e do
de se conectar que pode ser explorado rização destes conceitos? É ao discutir objecto, desde que o sujeito constitui o
de inúmeras formas contendo de facto temas como liberdade e as alternativas objecto, o fenómeno, e sem sujeito não
a preocupação de uma outra concepção para modelos cristalizados e concei- poderia haver nenhum objecto. Um as-
inovadora de democracia. Um modo de tos ultrapassados no campo social que pecto relacionado da fenomenologia é o
se conectar que prima pela integração, fenómenos cibernéticos e cibersociais que se concentra nas condições da pos-
pelo vínculo entre sujeitos e que abarca podem ganhar alento. De um cosmos lú- sibilidade de percepção e que enfatiza o
o pensamento sobre as novas tecnolo- dico à seriedade de se pensar as comuni- ponto de Heidegger que não pode haver
gias de uma forma menos catastrófica. dades virtuais no sentido de criar novos nenhuma percepção (para nós) fora das
Pensar à luz de McLuhan a constatação vínculos entre os indivíduos-em-rede. realidades humanas – mesmo na ilusão
de que o ‘conteúdo de qualquer meio ou É diante deste quadro que passa des- ideológica que os políticos confeccio-
veículo é sempre um outro meio ou veí- percebido pela contemporaneidade que nam do mundo político. No político –
culo’ (McLuhan. Os meios de comunica- uma nova forma de subjectividade (Vd. diz Luís Carmelo – “degladiam-se ideias
ção como extensões do homem, São Pau- G. Lipovetsky, A Era do Vazio, PDQ, Lis- para o poder; (…) no técnico-científico,
lo, Cultrix, p. 22), leva-nos a pensar na boa) se cria, revelando as nuances que conflitualiza-se a pragmática dos inqué-
mensagem que corre pela rede através a cibercultura proporciona. Centrado ritos e teorias; finalmente, no artístico,
de comunidades virtuais. Pensar com na questão da globalização, Z. Bauman confrontam-se correntes, vanguardas,
Deleuze um ambiente rizomático con- discute comunidade pensando a questão voragens e estilos”. Em conclusão diz
vida-nos a perceber com mais finura a da segurança. As comunidades virtuais Luís Carmelo: “A cultura autonomiza-se
questão da comunidade virtual, como o podem ainda trabalhar nesse sentido da natura; o homem reinventa-se deci-
faz Pierre Lévy com o universo da ciber- dando ênfase a dimensão política que o didamente, enquanto sujeito, e, dentro
cultura. Dentro da “rede das redes”, a universo virtual pode movimentar con- de cada separada esfera de actividade,
comunidade pode voltar a constituir-se. duzindo a uma ciberutopia como esta. processam-se inevitáveis clivagens. (…)”
De início pensa-se sobre a constituição Giorgio Agamben em ‘Comunidade que [Luís Carmelo, A estética como descono-
da própria noção de comunidade depois vem’ discute de outra forma o conceito; tação praticada pela modernidade, Uni-
duma breve caracterização do fenómeno pensando a questão da comunicação versidade Autónoma de Lisboa].
traça-se uma outra forma de visualizá- em si, considerando que “o que impede
-lo. Por fim explora-se a ideia dum novo a comunicação é a própria comunicabi-
13MAR’24
Um pequeno pedaço
de uma obra inteira
FOTO: DR
Na primeira destas crónicas encontrei-me
com o acaso que me levou ao livro de me-
mórias de um mestre de História e Filoso-
fia do Direito, Luís Cabral de Moncada e a
propósito disso, incidentalmente, o tema
do positivismo jurídico; na segunda e na
terceira, em tom mais ligeiro, trouxe a re-
cordação do poeta Afonso Lopes Vieira, na
vez episódica em que envergou a toga de
advogado, para defender o seu camarada
integralista, Hipólito Raposo e, recuando,
achando-o nos tempos boémios da Coim-
bra em que estudou e de que troçou. Hoje
regresso ao sério.
Li a frase e suponho-a atribuída a Clari-
ce Lispector ou a alguém que escreveu
sobre a sua extraordinária obra literá-
ria: «Quem ama o Direito Criminal, não
é jurista, mas poeta».
A frase faz sentido em relação a Clarice, que
se licenciou em Direito com uma tese sobre
O Poder de Punir, mas que se desligou do
Direito para cedo iniciar uma obra notável
no campo da ficção.
Mas o dito admite excepções. E uma delas
ocorreu-me ao ler, durante uma viagem de
comboio, o “caderno” em que José de Faria
Costa compilou o que com ironia apodou de É essa faceta de um pensamento próprio que «qualquer doutrina, por mais brilhante
«escritos de aqui, de ali e de acolá». que ressalta nos artigos aqui compendia- que seja, leva em si a marca da sua própria
E ocorreu-me porque, ao ter assistido, a 26 dos, em que está presente do Direito uma precariedade».
do passado mês, no Grémio Literário, em visão porfiadamente humanista, assente O que há de interessante nestes escritos é o
Lisboa, ao lançamento desta breve colectâ- numa recorrência permanente a valores que neles se encontra de inesperados ins-
nea de estudos seus, editados pela Âncora, que são os do «mínimo ético» como funda- tantes em que o leitor suspende a leitura,
notei que no caderno antecedente, o mesmo mento legitimador da punibilidade, o ideal fazendo divagar o pensamento: é a noção do
autor reunira, sob o título Eu Também Sou iluminista revisitado «nem que seja em ter- Direito como pedaço de um «real construí-
Tudo Isto, o que se poderiam denominar mos de uma segunda Ilustração», enquan- do», a «semântica emocional» como condi-
aforismos, melhor talvez, reflexões soltas, to esteio da racionalidade, enfim, em não cionante da análise, mas afinal, método in-
mas que atribuiu ao seu alter ego Francisco menor medida, o critério da «decência» dissociável da razão, o critério do êxito não
d’Eulália, o mesmo que deu origem a uma como critério de aferição da bondade. num sentido consequencialista de cunho
obra poética, cuja génese situo em 2006 com Há na triangulação do bom do belo e do jus- utilitário, mas como algo que, como se numa
A Raiz do Teu Gesto e se espraiou por uma já to, que reitera nestes seus breves estudos, visão personalista, «acrescenta ser ao ser».
significativa produção, como a Poesia & Mi- uma geometria perfeita que, sendo afinal o Mundo circular, eis que encontro no livro
núscula Moralia, editada pela Modo de Ler, equilátero da ética e da estética, baliza um que aqui trouxe um artigo que o seu autor
do incansável resistente José da Cruz Santos, pensamento que, honradamente renega o fez publicar neste mesmo jornal, a 22 de
e tantos outros, a que um dia voltarei. «contorcionismo intelectual de modo a fa- Maio de 2022, intitulado Esperança: um fan-
E é excepção porque Faria Costa é precisa- zer com que os conceitos encaixem com os tasma iridescente. Texto enigmático, nele se
mente professor de Direito Criminal, com resultados», expediente tão típico de uma mescla algo de íntimo e de militante, con-
lições cuja matriz, mantendo o cânone certa forma de gerar Direito a partir de um vocando à liça os «zelotas do pensamento
académico, são, porém, atípicas na con- construtivismo meramente legitimador dos quadrado», afinal os «polícias do bem pen-
cepção dos problemas e, como tal, origi- a priori convenientes. sar», e de humana e fraterna compreensão
nais, com incursões, agora mais evidentes E, no entanto, mau grado o florentino de para com os «anarquistas hermenêuticos».
no que vem publicando, pelo domínio da uma forma de escrever em que transborda a
Filosofia do Direito. convicção, há, porém, a noção humilde de
13MAR’24
Isabel Patim
prof. universitária
O estrangeiro
Iar Holo, natural do estrangeiro, e casado com Cabi Nano, fi-
lha do chefe de Váco, estabeleceu-se hoje na região onde é, hoje, o
estrangeiro.
Teve sete filhos. Seis ocupavam-se nos trabalhos da horta.
Balo Libi, o mais novo, preferia dar-se à caça, apesar de os pais não
gostarem. Todos os dias à tarde, ao voltar para casa, sujava-se, pro-
positadamente, de terra e sujava também os instrumentos para que Ilustração de Henrique
apresentando-se sujo como os irmãos parecesse que tinham andado
a trabalhar juntos. Mas, ou por suspeita ou porque os irmãos o de- No regresso, recomendou que o deixassem só com a pa-
nunciassem, o pai foi um dia à horta, de surpresa, para se certificar ciente, de contrário o remédio não seria eficaz. Livre de olhares
se ele trabalhava de facto. Não o tendo encontrado com os irmãos, curiosos, tirou o anzol com tanto jeito que ninguém, nem mesmo
embrenhou-se no mato. Surpreendeu-o a caçar, sem que ele desse a rainha, o viu. A rainha sentiu-se logo tão boa que se pôs a falar
por isso. e a comer. As suas primeiras palavras foram para garantir a Balo
À noite, para o castigar por essa razão, a mãe pôs-lhe fezes no Libi que lhe daria, em paga, quanto quisesse e pedisse e deram-
prato, debaixo da comida. Ao dar por isso, o rapaz chorou de raiva e -lhe logo arroz com leite.
foi morar só, em Acisum, na base do monte mais próximo do estran- Balo Libi que, desde a infância nunca mais bebera leite, gos-
geiro. Não teve outro remédio senão fazer uma horta onde cultiva- tou muito. Em face disso, a rainha disse-lhe
va, de preferência, sementes que lhe enganassem a fome, devido à volta para Acisum e faz lá sete currais cujo tamanho vá
abundância de água que havia no local. aumentando, gradualmente, de modo a que o sétimo seja o maior
Entretanto, casou-se. Depois de se ter casado, dedicou-se à Muito satisfeito com a incumbência, Balo Libi viu-se, de re-
pesca, no mar. Trocava por género o peixe mais precioso que apanha- pente, na praia pelo mesmo processo maravilhoso que o levara. Daí
va. Ora sucedeu que um peixe, de peso invulgar, se lhe prendeu um seguiu para Acisum onde trabalhou, afanosamente, na preparação
dia no anzol. Tentou puxá-lo para a terra mas debalde porque reben- dos sete currais. Depois de concluídos, desceu à praia a dizer que
tou a linha. Em virtude de semelhante infortúnio, voltou para casa ao um emissário da rainha que tinha terminado. O mesmo homem
tão triste que não dormiu nessa noite. Perdera o seu ganha-pão. Não que lhe roubara as sementes estava lá à sua espera. Voltou a dizer-
arranjaria tão cedo outro anzol igual. Para maior desgraça, notou de -lhe, com breve intervalo, que abrisse e fechasse os olhos. Assim fez.
madrugada que alguém lhe tinha roubado as sementes. Encontrou-se, num momento, diante da rainha que lhe falou assim
Na noite seguinte, pôs-se à espreita a ver se descobria o ladrão. agora, que já tens os currais feitos, volta a Acisum. Faz dois
Não apareceu ninguém. Apenas uma catatua pousou, ao amanhecer, cestos grandes. Enche um de feijão e deixa outro vazio. Antes do nas-
numa das árvores da semente que o leitor quiser e se transformou, cer do sol, coloca um à direita e outro à esquerda da entrada do pri-
com grande espanto seu, num homem que roubou, à vontade, quan- meiro curral, que deve ficar aberto bem como os outros seis. Aparece-
tas sementes quis, convencido de que não estava a ser visto. Caute- rão, pouco depois, animais (aqueles que o leitor quiser ir imaginando
losamente, Balo Libi aproximou-se dele o mais que pôde. Num tom à medida que a história se desenvolve em si) sem conta. Cada vez que
irado, mandou-o descer, sem demora, caso contrário atravessá-lo-ia entrar um no curral, deita um feijão do cesto cheio no vazio. Quando
com uma arma (a que o leitor quiser). O homem desceu. se acabar o feijão, acabam-se os animais.
daqui não sais enquanto não me pagares as sementes que me De novo em Acisum, do mesmo modo e pelo mesmo ca-
roubaste minho das vezes anteriores, Balo Libi tudo executou, durante a
O ladrão, agarrado firmemente por Balo Libi, vendo que não noite, conforme as instruções que recebera. Ao romper da aurora,
podia fugir, acabou por dizer-lhe ouviu ao longe um ruído enorme que se ia aproximando e aumen-
não roubei para mim, roubei para a rainha que está gravemen tando como se uma tempestade vinda do mar sacudisse a toda a
te ferida e precisa de sementes para se curar volta o palmeiral imenso. Eram animais de grande porte, com cer-
mentes, enquanto não me pagares não sais daqui teza. Não tardou que aparecessem e começassem a entrar, um por
se não acreditas em mim, vem comigo até à casa da rainha um, nos currais, sem que ninguém os conduzisse, durante muitas
Balo Libi concordou em ir mas levando-o preso. Partiram os dois horas – tantas quantas foram precisas para que se esvaziasse o
em direção à praia. Quando lá chegaram, o ladrão disse a Balo Libi cesto do feijão.
fecha os olhos Quando já só faltava um grão, o maior de todos os animais
Balo Libi fechou-os. Momentos depois, o ladrão disse-lhe outra vez entrou no sétimo curral. Os seus longos chifres roçaram com es-
abre-os trondo na entrada. Os sete currais estremeceram. As portas fecha-
Quando os abriu, viu-se em casa da rainha cercado de gente ram-se por si. A mulher de Balo Libi e uma criada, de nome Bua,
que acorrera com remédios para curá-la, mas sem efeito. Convidado recolheram os cestos e o feijão que passaram, daí em diante, a ser
a tentar, também, alguma coisa que lhe pudesse dar alívio, Balo Libi objetos sagrados e de ligação entre gerações e com o divino.
aproximou-se e verificou que ela tinha um anzol na garganta – nada
mais, nada menos do que o seu, perdido dois dias antes no mar. (Continua em abril)
No intuito de recuperá-lo, Balo Libi afirmou, com decisão
posso curá-la, vou ali buscar um remédio e já volto
13MAR’24
Lurdes Neves
PHD, docente universitária UP
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Desafios da Escola
A Felicidade nas Organizações Educa- soais, reconhecimento e feedback cons- bientes de aprendizagem dinâmicos e
tivas em Portugal: como construir o trutivo são elementos que solidificam atrativos.
bem-estar do contexto educativo uma cultura organizacional voltada para A participação ativa dos alunos nas de-
Em Portugal, a busca pela felicidade nas o bem-estar. cisões relacionadas ao seu percurso edu-
organizações educativas tem ganho des- O envolvimento dos diversos atores do cativo é um ponto crucial para incentivar
taque, reconhecendo a interligação entre contexto educativo na tomada de decisões a expressão de opiniões, a liderança es-
o bem-estar dos colaboradores e o alcan- e na definição de objetivos institucionais tudantil e a criação de espaços demo-
ce de objetivos institucionais. Neste cená- é uma prática promissora e as experiên- cráticos de diálogo contribuem para um
rio, é fundamental compreender como as cias bem-sucedidas de participação ativa, ambiente mais inclusivo e positivo. Os
instituições de ensino podem fomentar têm impactado positivamente a dinâmica alunos satisfeitos não apenas alcançam
um ambiente propício à felicidade, pro- organizacional. Este envolvimento não só melhores resultados académicos, mas
movendo não apenas o desenvolvimento fortalece o sentimento de pertencimento, também se tornam agentes ativos na
académico, mas também o equilíbrio e mas também potencializa a contribuição construção de uma cultura de aprendiza-
satisfação dos membros da comunidade individual para o alcance dos objetivos gem colaborativa e enriquecedora.
educativa. comuns. Em síntese, a felicidade nas organizações
A cultura organizacional desempenha Além disso, a formação contínua de pro- educativas em Portugal está intrinseca-
assim um papel crucial na construção de fessores e o desenvolvimento profissio- mente ligada à construção de uma cultura
ambientes felizes nas instituições educa- nal são essenciais para a promoção da organizacional sólida, à participação ativa
tivas e observa-se uma tendência ao forta- felicidade nas organizações educativas. dos educadores e pessoal não docente e ao
lecimento de valores como colaboração, Programas de capacitação, mentorias e desenvolvimento de ambientes de aprendi-
respeito e inovação. As organizações que oportunidades de crescimento estimulam zagem inovadores e envolventes. Promover
cultivam uma cultura inclusiva e trans- a motivação e a satisfação no trabalho, o bem-estar não é apenas uma responsa-
parente estabelecem um terreno propício refletindo diretamente na qualidade do bilidade social, mas uma estratégia eficaz
para a satisfação e desenvolvimento pro- ensino e no ambiente educativo. para alcançar metas educacionais e formar
fissional. A felicidade nas organizações educa- cidadãos mais realizados e comprometidos
As iniciativas que promovem a qualidade tivas não se restringe educadores e com o processo de aprendizagem. O inves-
de vida no trabalho têm sido adotadas impacta diretamente os alunos. A im- timento contínuo na felicidade nas orga-
por diversas instituições como horários plementação de práticas pedagógicas nizações educativas não apenas molda o
flexíveis, programas de saúde mental e inovadoras, como o uso de tecnologias presente, mas também contribui para um
espaços de relaxamento contribuem para educacionais, metodologias ativas e futuro mais promissor e sustentável.
o equilíbrio entre vida pessoal e profissio- projetos interdisciplinares, tem sido
nal. O investimento nas relações interpes- uma estratégia adotada para criar am-
13MAR’24
Encruzilhadas da ação
FOTO: DR
Há constrangimentos que devem ser acei-
tes com estoicismo, enquanto outros devem
despertar-nos forças para que nos oponha-
mos às suas peias, limitações, cerceamen-
tos ou bloqueios. Saber quais uns e outros
é, porém, muito complexo.
Albert Camus foi dos que defendeu esta
perspetiva. Mas ela comporta dois proble-
mas:
1) Não sabemos de antemão o que
se poderá ou não alterar. Teremos de pro-
ceder com recurso a alguma adivinhação,
ou, pelo menos, intuição prospetiva. E tal é
sempre muito falível. A alternativa é seguir
o conselho de Engels, no Anti-Dühring: “A
prova do bolo é comê-lo”.
2) Mesmo o esforço pela mudança sos contemporâneos perdidos? Não creio. quecendo agravos aos outros – mas dificil-
de coisas inalteráveis pode ser que não as Provavelmente, alguns acreditarão tam- mente olvidando os que tiveram que sofrer.
mude, sim, mas que provoque algum efeito bém num outro mote do nosso tempo, se- Nesse último caso, já costuma vir à tona a
positivo colateral, ou reflexo. Por exemplo, gundo o qual tanto faz o caminho que se es- revolta e lá se vai a crença no “não julgarás!”.
pode ser que, não mudando um quid imutá- colha. Afinal, não é tudo uma ilusão? Chega Sem (auto)flagelações, remorsos corrosi-
vel, todavia nos mude a nós, que tentámos a ser interessante a versão rudimentar que vos, mas um manto de “(auto)perdão” (este
algo impossível de alcançar, nos esforça- alguns fazem de altas teses das sabedorias muito na moda) seria muito melhor, como
mos e assim nos melhorámos... Há muitas orientais, por exemplo. São os custos da se diz na liturgia católica, que “reconhecês-
narrativas sapienciais e edificantes que profanação e da proliferação: banalização semos os nossos pecados”. Claro que a pró-
apontam nesse sentido: o caminho é que é e deformação. pria ideia de “pecado” é para alguns tabu,
o destino, não o aparente destino em si. A verdade é que há bastantes indivíduos associada a um casulo teológico-metafísico
Estamos às escuras. Pode dizer-se que nos que decidiram viver à custa do alheio e, e obscurantismos que se gosta de batizar de
encontramos em tempos de desumaniza- vai daí, atuam até incansavelmente, que- “medievais” – o que faria o escândalo de
ção, o que adensa a escuridão. Essa engen- rem muito afincadamente, dir-se-ia que Jacques Le Goff.
dra inconsistência social e política. O Ho- rangendo os dentes, e assim fartam-se de Encontramo-nos, pois, perante um confu-
mem é a medida de todas as coisas – diziam “trabalhar”. Embora para mal dos outros so, mas de algum modo titânico, conflito de
os Antigos. e, se forem apanhados e condenados, em propostas gerais para determinar a conduta
Existem, é certo, teorias esotéricas ou de princípio não se irão comprazer com as im- das pessoas (embora algumas possam pa-
autoajuda que nos incitam ao que chamam plicações sancionatórias dos seus atos. recer bagatelas, chinoiseries e sumamente
“proatividade” (como o mundo era tran- Se a letargia é um mal (recordo a distopia ridículas), mesmo em questões vitais, pes-
quilo sem estas palavras que nos fazem em que a Humanidade se cansou, e pas- soal e socialmente.
tropeçar a língua – e a cabeça). Por detrás saram a ser os cães a governar), nem toda A profusão de obrigações e interditos que
desse empurrão indiscriminado, julgo estar a ação é benéfica. Também as teorias que alguns querem impor, muito para lá (e até
uma ideia de que as pessoas são passivas equivalem todos os tipos de ação se reve- contra) (d)as leis vigentes é espada de Dâ-
e seguidistas, e, mal por mal, não lhes tra- lam esplendorosamente erróneas e podem mocles a ponderar. Algo terá de ser feito pe-
ria senão vantagem passarem a assumir as levar a consequências nefastas. las pessoas comuns, cidadãos cumpridores
rédeas da sua existência, e atirar-se para a A ideia de não julgar as atitudes, em geral, da ética corrente e do Direito, que querem
frente. Na medida em que a passividade e sem ferrete contra o indivíduo x ou y, mas ser deixados em paz na sua vida já labo-
o comodismo são traços da sociedade de eventualmente ainda com um juízo moral riosa e difícil, sem tempo e motivação para
consumo e de indiferença, acabam por ser digamos abstrato (e depois até jurídico, florilégios intelectuais e políticos, por vezes
elemento positivo, porque despertador. desde se o preceito ético for recebido pelo de grande imaginação, reconhece-se, mas
Problema é se não passam os amorfos a Direito e por ele punido), pode ser agradá- muito escasso bom senso.
cultivar um “instinto assassino”, ativo, mas vel para quem tema ser mal visto pelos seus Enquanto a ideia de Humanidade é univer-
completamente desapiedado dos outros, atos, e, no fundo, talvez deles não arrepen- sal, o que se eleva como novas ideologias
sem a mais leve réstia de solidariedade ou dido, mas sabendo da sua geral reprovação são sectarismos anti-humanistas e anti uni-
responsabilidade social. social, se gostaria de furtar à má apreciação. versalistas. Aguardemos novidades bem
Estarão estas conjeturas no subconsciente Pode ser também uma vaga de inconsciên- melhores.
ao menos de tantos gurus que sabem de cia, niilismo, ou boa vontade para que as
ciência certa o que salvará a vida dos nos- pessoas não se torturem com remorsos, es-
José Carlos Seabra Pereira
CIEC - Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos
13MAR’24
Rudesindo Soutelo
compositor e mestre em
Educação Artística e Ensino de Música
Mudança ou conforto
FOTO: DR
Quando há mais politólogos a interpretar o aos sucessores. “A esse servo inútil, lan-
acontecido que políticos a fazê-lo aconte- çai-o nas trevas exteriores”, proclama o
cer, temos um problema difícil de resolver. evangelista, por estar a impedir que as
É importante interpretar o passado para gerações vindouras possam usufruir das
tirar lições, mas mais importante é ter su- criações do nosso presente.
ficientes efetivos a fazer o presente com o Quando isso acontece, só nos resta repetir
qual se possa pagar a dívida contraída com o passado, mas Jacques Attali interpela-
as próximas gerações, pois, já à nascença, -nos: “O que é a decadência senão a con-
vão ter pesados encargos, comprometidos Laurence Olivier interpretando Hamlet (1948) fusão entre memória e repetição?”10, e o
pela nossa ambição, que limitarão o seu filósofo Walter Benjamin lembra-nos que
progresso. Aqueles que consideram não de- introduzir na raiz mesma do pensamen- “o valor singular da obra de arte ‘autên-
ver nada a ninguém e destroem a herança to o acaso, o descontínuo e a materiali- tica’ tem o seu fundamento no ritual em
que receberam para entregar às gerações dade”6. que adquiriu o seu valor de uso original e
vindouras, achando que acontecerá um mi- O “nosso tempo busca muito mas encon- primeiro”11. Daí que a afirmação de Pierre
lagre, só levam ao caos e a uma profunda trou, antes de tudo, uma coisa: o confor- Schaeffer, no Tratado dos objetos musi-
crise social. É preciso, pois, mais políticos to”. Esse conforto, assinala Schoenberg, cais, “se só fazemos a música que sabemos
que politólogos para introduzir as mudan- instalou-se também no mundo das fazer, não fazemos mais do que perpetuar
ças necessárias a fim de que se assegure um ideias, “tornando-nos tão acomoda- a banalidade”12, seja demolidora.
futuro melhor. Mas o que é a mudança? dos como jamais poderíamos supor”. O Afinal, como argumenta Agostinho de Hi-
Mudança implica movimento, procura, conforto foge do movimento e é, pois, pona nas Confissões, Livro XI, “não existe
imprecisão, inexatidão, o vago, o inde- imobilismo, contrário à mudança; ele é agora aquilo que está para vir nem aquilo
terminado, o fluido, o que se repete só “a paralisação que nada produz”7. Elu- que passou”, portanto o presente é a única
aproximativamente, tudo o que as ciên- cidando, ainda, “que a harmonia não é realidade na qual podemos conceber o pas-
cias da natureza excluem por derivação a imobilidade de fatores inertes, porém a sado e o futuro, e é imperativo dar vida aqui
negativa da ideia de precisão. Mudança ponderação de forças numa tensão má- e agora aos bens materiais e imateriais que
também é, segundo escreve Herbert A. xima” e conduz o ensino à vida, “na qual nos representam e que queremos acrescen-
Simon, o que toda a matemática mostra existem tais forças e semelhantes bata- tar ao património que vamos a transmitir.
nas suas conclusões e que já estava im- lhas”. O objetivo é claro: “Representar a Algo ia mal naquele reino shakespearia-
plícito nas premissas, pois “toda a infe- vida na arte”8. no onde muito provavelmente, haveria
rência matemática pode ser considerada Schoenberg assume a tarefa de despertar mais pró-politólogos que políticos, mais
simplesmente como uma mudança de re- no aluno a compreensão para o passado pró-filólogos que escritores, mais pró-e-
presentação que torna evidente o que já e, ao mesmo tempo, abrir-lhe perspe- conomistas que empresários, e até mais
antes era verdadeiro, embora obscuro”1. tivas para o futuro ensinando a única pró-musicólogos que compositores. A
No ensino, a mudança de representação coisa que é eterna: a mudança; e o que ambiguidade existencial do ‘Ser ou não
é assinalada por Schoenberg, em 1911, é transitório: a existência9. Interpretar ser’ deve ser iluminada com uma per-
quando afirma que “o que verdadeira- o passado gera um certo conforto espi- gunta mais transparente: Queremos um
mente o aluno aprende de um professor ritual. Esse património do passado, que presente-futuro ou um presente-passa-
já nele se encontrava antes de vir à cons- nos foi confiado sem qualquer custo, é do? Mudança ou conforto.
ciência”2. À mesma conclusão chegará para usufruirmos temporalmente como
Lev S. Vygotsky, em 1930, quando corro- um empréstimo, ou dívida pública, e es-
bora que “A verdadeira educação consis- tamos obrigados a pagar os juros e devol-
te em despertar na criança aquilo que ela ver o principal, com algum acréscimo, às
já tem em si e ajudá-la a desenvolvê-lo”3. gerações vindouras.
1
Noutro ponto, Schoenberg esclarece que Para não pagar a dívida há quem opte Simon, H. A.: As ciências do artificial. Coim-
bra: Arménio Amado, 1981, p. 228.
“a ordem não vem exigida pelo objeto, por destruir o património que lhe foi 2
Schoenberg, A.: Harmonia. São Paulo:
mas pelo sujeito”4, ao que Simon acres- transmitido, e também há os pregui- UNESP, 2001, pp. 572.
3
Vygotsky, L.S.: Imaginação e Criatividade
centa “resolver um problema não signi- çosos que, como na parábola dos três na Infância. Lisboa: Dinalibro, 2012, p. 87.
fica mais que representá-lo de modo a servos (Mt 25: 14-30), escondem o seu 4
Schoenberg, A.: Op. Cit. p. 72.
5
tornar transparente a solução”5. ‘talento’ para não correr riscos e des- Simon, H. A.: Op. Cit. p. 228.
6
Foucault, M.: A Ordem do Discurso. Lisboa:
Michel Foucault clarifica: “É preciso leixam a obrigação de acrescentar algo Relógio d’Água, 1997, p. 44.
7
aceitar introduzir o alea como categoria ao recebido. Essa omissão criadora de Schoenberg, A.: Op. Cit. pp. 32-33.
8
Ibid.: p. 74.
na produção dos acontecimentos”, e, de- património – seja político, social, am- 9
Ibid.: p. 72.
10
pois de sentir a ausência de uma teoria biental, económico ou cultural – é, em Attali, J.: Ruidos. Ensayo sobre la econo-
mía política de lamúsica. Valência: Ruedo
que permita pensar as relações do casual si mesma, uma destruição da herança Ibérico, 1977, p. 175.
e do pensamento, conclui: “que permita que toda a geração tem o dever de passar 11
Benjamin, W.: A obra de arte na era da
sua reprodutibilidade técnica. In Sobre Arte,
Técnica, Linguagem e Política. Lisboa: Reló-
gio D’Água, 1992, p.82.
12
Schaeffer, P.: Tratado de los objetos mu-
sicales (3ª ed.). Madrid: Alianza Editorial,
2008, p. 335.
13MAR’24
Levi Guerra
médico; prof. catedrático de Medicina, jubilado, UPorto
Onde estão? Funchal, 17/11/ 2020 Há o avesso das coisas a germinar, incólume,
Onde estão os corvos de Lisboa? Fátima Pitta Dionísio no assombro dos pássaros alinhados ao vento
a soprar sempre do mesmo quadrante,
Agora só os encontro no brasão da cidade, sem reprimenda que valha o renascer das cinzas.
em bonecos nas lojas de souvenirs Como uma deusa ao sol
e nos postais ilustrados, suspirei em tempo novo Que é feito do pacato país das cinco quinas
sob o som monótono do rodado dos tróleis dos turistas. Procurando o amor universal já gastas de intenções perfeitas e inúteis?
de S. Francisco Qual farol indicará o melhor caminho?
Que São Vicente os proteja e os traga de novo, meu modelo e poeta
os corvos de Lisboa. de elevada inspiração. Nesta disforia de cenários constantes
de caos humano, confuso e hostil,
In “Poemas para a Hora de Ponta”, Funchal, 25 de novembro de 2020 vamos cerceando as sombras
ed. Cordel de Prata, Lisboa, 2020 Fátima Pitta Dionísio para que o trigo cresça nas searas.
Procura-se a cura de horrores,
a delicadeza do silêncio
onde acordemos a luminescência das rochas,
O escritor de livros policiais para despontar a alegria no ladrilhar da vida.
Resta-nos vaticinar no tempo, um novo tempo,
Era famoso, como escritor de policiais, para que se cumpra a poesia.
acima de 40 publicados, alguns premiados.
Filomena Fonseca
Inventava os mais extravagantes enigmas 17/7/2022
e resolvia-os com habilidade de mestre.
Joaquim Saial
13MAR’24
À VENDA: PORTO // Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes, Museu Nacional Soares dos Reis, Árvore, \, Tabacaria Batalha (Praça da Batalha, 151),
Tabacaria Maria Margarida (Rua Antero de Quental, 472), Tabacaria O Papelão (Rua da Contituição, 15), Pico - Papelaria - Tabacaria (Av. Fernão Magalhães, 629)
GONDOMAR // Papelaria Juvenil (Rua Route Crasto, 71/75) GAIA // El Corte Inglês, Livraria Velhotes (Rua Gil Eanes) V. N. FAMALICÃO // Pipes bazar (Av. 25 de Abril, 124) 13MAR’24
PÓVOA DE VARZIM // Tabacaria Kip 4 u (Praça Marquês do Pombal) VILA REAL // Livraria Traga-Mundos AMARANTE // Livraria Zé (Av. Joaquim Leite de Carvalho, 16)