0% acharam este documento útil (0 voto)
202 visualizações28 páginas

Jaime Isidoro: Arte e Cultura no Porto

Enviado por

josehlio0902
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd
0% acharam este documento útil (0 voto)
202 visualizações28 páginas

Jaime Isidoro: Arte e Cultura no Porto

Enviado por

josehlio0902
Direitos autorais
© © All Rights Reserved
Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
Formatos disponíveis
Baixe no formato PDF, TXT ou leia on-line no Scribd

Directora: Nassalete Miranda / 13MAR’24 / N.

º 358 / Preço: 2 euros / Quinzenalmente às quartas

Publicação de interesse Cultural e Literário reconhecida


pelo Governo Português

Arte Bruta
ESPECIAL PÁGS. 14 e 15

"O Espírito Singular" FOTO: ANDRÉ ROCHA

Mose Tolliver. 1894


13MAR’24

Nassalete Miranda
Directora

SINGULAR PLURAL, LER ARTE & COMUNICAÇÃO, UNIPESSOAL, LDA.


Capital Social: 5.000 €
Número de Certidão: 0232-6801-3200
Conservatória do Registo Comercial de Vila Real

AS ARTES ENTRE AS LETRAS


Praceta Eng.º Adelino Amaro da Costa, 764-9.º Esq. 4050-012 Porto
Telf.: 226 063 556 (Custo de uma chamada para rede fixa nacional)
Telm.: 918 035 676 (Custo de uma chamada para rede móvel nacional)
Entre Sentidos
e-mail: [Link]@[Link] “Sou pintor sem certezas de ser artista ria 100 anos e seria grande a festa com
PUBLICIDADE
[…] Se atingir a linha do horizonte tudo ficará amigos e admiradores a encherem a sua
Praceta Eng.º Adelino Amaro da Costa, 764 - 9.º Esq. para trás. Se chegar ao além só me tenho a Galeria, a Alvarez, que em Outubro faz
Telf.: 226 063 556 (Custo de uma chamada para rede fixa nacional) mim, sem acreditar na morte nem na vida. É 70 anos, e a sua Casa da Carruagem, em
Telm.: 918 035 676 (Custo de uma chamada para rede móvel nacional)
e-mail: singplural@[Link] aliciante estar no imaginário e sentir que a Valadares.
vida não foi em vão”. Jaime Isidoro, repito-me, despertou o
FICHA TÉCNICA:
meu gosto e curiosidade pelas artes plás-
DIRECTORA: Nassalete Miranda
EDITORA: Isabel Fernandes // FOTOGRAFIA: Ângela Velhote Jaime Isidoro ticas.
GRAFISMO: Pedro Cunha // PAGINAÇÃO: Pedro Cunha Abril 2008 Olho para esses dias dos anos 70 e vejo o
SEDE DE EDITOR E SEDE DE REDACÇÃO
relógio de Dalí a derreter o tempo e a fazer
Contactos: Praceta Eng.º Adelino Amaro da Costa, 8 de Março de 2024 - Dia Internacional da líquidas as minhas memórias.
764 - 9.º Esq. // 4050-012 Porto Para Laura Castro: “Há um antes e um de-
Mulher e tanto para fazer em todo o lado,
Telf.: 226 063 556 (Custo de uma chamada para rede fixa nacional)
Telm.: 918 035 676 (Custo de uma chamada para rede móvel nacional) desde a família, espaço onde tudo começa, pois de Jaime Isidoro na cultura portuen-
e-mail: [Link]@[Link] até à sociedade, espaço onde não se pode, se e do nosso país”.
nem deve, permitir que tudo aconteça! Na página aqui ao lado, Guilherme d’Oli-
REGISTO NA ERC: 125685
Tanto a ser feito nas áreas laboral, política veira Martins recorda a importância do
IMPRESSÃO e religiosa. Tanto caminho ainda a percor- trabalho do pintor Jaime Isidoro, não só
Selecor - Artes Gráficas, LDA.
Rua Joaquim Ferreira, 70 - Armazém H // 4435-297 // Rio Tinto rer de cabeça erguida e de mãos dadas com pela qualidade da sua Arte mas também
Telf: 224 854 290 (Custo de uma chamada para rede fixa nacional) todos os que acreditam que é no respeito como galerista, dinamizador e agitador
Fax: 224 854 299 (Custo de uma chamada para rede fixa nacional) cultural que do Porto fez Escola.
pela diferença que se cumpre a igualdade.
Estatuto Editorial disponível no site [Link] Já o disse, e escrevi algumas vezes a pro- Pioneiro e percursor, o seu nome está
pósito deste dia, que nunca me senti des- ligado ao que de melhor se fez na Arte e
PROPRIEDADE: Singular Plural // NIF: 509578942
criminada e comecei cedo no jornalismo, pela Arte na Cidade, no País e fora dele,
TIRAGEM: 1250 exemplares // ISSN: 1647-290X // DL: 435812/17
profissão liderada pelos homens e onde com a circulação de artistas nacionais e
Interdita a reprodução, mesmo parcial, de textos, fotografias ou ilustrações as mulheres não entravam facilmente internacionais, com exposições que revo-
sob quaisquer meios, e para quaisquer fins, inclusive comerciais
nem eram bem vistas. Na banca ainda era lucionaram usos e costumes culturais.
CONSELHO EDITORIAL pior e foi um bálsamo ler há dias o teste- Bom Amigo, paciente com as minhas in-
Arnaldo Saraiva; António Vitorino d’Almeida; Carlos Fiolhais; munho da Dr.ª Maria Cândida Carregosa, termináveis perguntas, era com sorriso
Francisco Ribeiro da Silva; Helder Pacheco;
em entrevista dada ao jornal Público. Com gentil que me recebia na Galeria Alvarez,
Isabel Ponde de Leão; J. A. Gonçalves Guimarães; Levi Guerra;
Lídia Jorge; Mário Cláudio; Maria Luísa Malato; Miguel Cadilhe; coragem afirma que fez a sua carreira no e mais tarde na sua Casa da Carruagem
Rui Nunes; Salvato Trigo
banco sem sentir o peso da descriminação. em Valadares. Guardo com saudade o
COLABORADORES ESPECIAIS Assumidamente pertencemos ao grupo seu abraço e beijo aquando da compra do
Adelto Gonçalves; André Verissimo; António Ferro; das excepções, que se sabe serem apenas meu primeiro quadro sobre o Porto. Foi
António José Borges; António José Queiroz; António Oliveira; “amor à primeira vista”.
António Simões Neto; Armando Alves; Artur Serra Araújo; Carlos Cabral Nunes; Cristi- alguns milhares de uma regra inaceitável,
no Cortes; Diogo Alcoforado; Domingos Lobo; Francisco d'Eulália; absurda, injusta e anti-humana que atinge É a paisagem que me recebe diariamente
Guilherme d’Oliveira Martins; Gomes Fernandes; Hélder de Carvalho;
centenas de milhões de mulheres mundo em casa e onde permaneço.
Helder Pacheco; Inácio Nuno Pignatelli; Isabel Pereira Leite;
fora que sofrem humilhações e provações A Cooperativa Árvore, aquando dos seus
Isabel Ponce de Leão; Joaquim Saial; Jorge Castro Guedes;
José António Barreiros; José António Gomes; J. A. Gonçalves Guimarães; J. Esteves Rei; a todos os níveis só por serem Mulheres! O 50 anos, integrou nas comemorações, e
José Carlos Seabra Pereira; José Vieira; Levi Guerra;
8 de Março não é nem pode ser entendido com o apoio do Município de Matosinhos,
Luís Cabral; Lurdes Neves; Manuel Sobrinho Simões; Manuela Aguiar;
Margarida Negrais; Maria Antónia Jardim; Maria do Carmo Castelo Branco de Sequei- como um dia “comercial”. Existe inerna- uma grande exposição de homenagem a
ra; Maria Luísa Malato; Miguel Real; Paulo Ferreira da Cunha; Pedro Suárez;
cionalmente desde 1975 para lembrar que Jaime Isidoro. Foi um acontecimento inol-
Ramiro Teixeira; Rodolfo Alonso; Rodrigo Magalhães; vidável. Do respectivo catálogo que revi-
Rudesindo Soutelo; Rui Baptista; Silvina Pereira; Vasco Rosa 15 mil mulheres saíram às ruas de Nova
York em 1909 manifestando-se contra as sitei ontem à noite, cito Bernardo Pinto
16 horas diárias de trabalho durante 6 de Almeida: “Na verdade, Jaime Isidoro
dias por semana, às vezes sete, e o salário foi, nessa sua múltipla presença, um ser
inferior ao dos homens. Foi ali que tudo excecional quando visto face a um qual-
começou… a preto e branco… Hoje, século quer contexto seu contemporâneo mesmo
PARCERIAS:
XXI, a cores, e para as mulheres de todo o europeu. Dele então se poderia dizer, com
APOIOS:
planeta, a certeza de que o caminho ain- acerto, que foi um herói modernista. Foi
figura ímpar de um heroísmo boémio que
da não é uma auto-estrada, pelo que cada
ficou muito mais a dever àquela tradição
um, cada uma tem de continuar a fazer a
da modernidade europeia, eclética e expe-
sua parte!
rimentalista, da arte como da vida, do que
No próximo dia 21, diz o calendário que
aos mais tardios purismos da escola ame-
chega a Primavera, veremos em que
ricana, que não chegou verdadeiramente
NOTA tons…, diz também que é o Dia Mundial
a conhecer, e com que jamais se poderia
O jornal As Artes entre As Letras, da Poesia, mas não diz que Jaime Isidoro
identificar por natureza sua, estranha a
que ainda não adoptou o novo completaria 100 anos. É um calendário
Acordo Ortográfico, publica textos disciplinas normativas”.
muito incompleto. Felizmente que cada
de colaboradores que o aplicam, A todos boas leituras em artes feitas
respeitando, assim, o original.
pessoa tem o seu próprio calendário para
complementar o outro. Em 21 de Março
de 1924 nasceu Jaime Isidoro. Completa-
13MAR’24

Guilherme d’Oliveira Martins


Centro Nacional de Cultura

Jaime Isidoro: A Vanguarda do Porto


FOTO: DR
Se alguém na cidade do Porto compreen-
deu a importância da Arte como movi-
mento incessante e como necessidade de
incentivar caminhos de inconformismo
e inovação foi o pintor e galerista Jaime
Gaspar Isidoro (1924-2009), que estudou
pintura na Escola de Soares dos Reis, ex-
pondo a primeira vez em 1945. Em 1954
fundou a Galeria Alvarez, com signifi-
cativa influência na divulgação da Arte
Moderna em Portugal. Foi quem realizou
as Primeiras Exposições Póstumas de
Amadeo de Souza-Cardoso em 1956 e de
Eduardo Viana em 1967. Como aguarelis-
ta, dedicou-se sobretudo a pintar a cidade
do Porto, com os seus recantos e a confi-
guração do seu casario, num tema recor-
rente a que dedicou mais de mil quadros.
Mas não menos importante foi a sua ação do (1906-1942), que o tempo veio a tornar cuja organização estava a cargo da Acade-
de divulgador da arte e dos artistas, numa uma referência do panorama artístico por- mia Alvarez e de Jaime Isidoro, suscitaram
época, numa cidade e num país em que tuguês, de quem José-Augusto França dis- a criação de espaços de intervenção de
estes eram vistos como algo menor, e foi se: Alvarez pintou as ruas do Porto “não à rua, baseados no diálogo entre a arte e as
para isso que fundou, com António Sam- busca do pitoresco ou do folclore, mas da populações, através da mediação indis-
paio, a referida Galeria Alvarez, como de- verdade de casas articuladas numa topo- pensável dos artistas. A obra “A Arte Sou
pois, em 1978, ajudou a criar a Bienal de grafia delirante”. As ruas e os largos es- Eu” das Edições Afrontamento constitui
Artes de Cerveira. Está representado no tão povoados de gente, “silhuetas anóni- um testemunho impressivo que procura
Museu Nacional de Arte Contemporânea, mas [...], bêbados que vomitam diante projetar o importante legado de Jaime Isi-
no Centro de Arte Moderna da Fundação de uma taberna, músicos que afinam a doro no panorama cultural, principalmen-
Calouste Gulbenkian, e ainda nos mu- viola [...]. Alvarez aproxima-se às vezes te na segunda metade do século XX. Pode
seus Municipal Amadeo Souza-Cardoso, dessas figuras e dá-lhes então feições de dizer-se mesmo que o Porto conheceu um
Nacional Soares dos Reis, José Malhoa – gente [...]. São personagens que habitam período heroico mercê da ação de Jaime
Caldas da Rainha, Nacional Machado de o mundo expressionista que o pintor me- Isidoro na vida artística e cultural da ci-
Castro, e de Goa. Ao celebrarmos o cente- tia no seu ateliê miserável, improvisando dade com repercussões evidentes para
nário de Jaime Isidoro, temos de recordar telas, fabricando tintas”. Jaime Isidoro além da dimensão local. Na expressão
a obra “A Arte Sou Eu” (2017) da autoria compreendeu bem a importância dessa da Professora Laura Castro: «Perante nós
de António Quadros Ferreira (Afronta- expressão artística, como sinal de vitali- desvenda-se em Jaime Isidoro um pintor
mento), que evoca um percurso de vida dade e de compreensão do mundo. Para sedentário, refugiado no espaço do seu
no qual a capacidade criadora se ligou José Rodrigues foi “um grande animador” atelier, atento a uma pintura em transfor-
sempre a uma dedicação generosa à cau- da arte, que, enquanto chamava a atenção mação e motivado por um olhar mais ativo
sa da Arte como solidariedade e encontro, para as obras de nomes como Amadeo e do que nunca, interveniente e renovador,
e como realização de uma noção dinâmi- Alvarez, “dava a mão” a uma geração de o olhar de quem conhece as possibilidades
ca de património cultural, não centrado jovens artistas, entre os quais Jorge Pinhei- da pintura e a quem se abre todo um pano-
no passado, mas projetado na criativida- ro e Ângelo de Sousa, além do próprio José rama múltiplo de experiências». Ao assu-
de contemporânea. Rodrigues. “Ele fez a vanguarda no Porto”. mir subjetivamente protagonismo artístico
No percurso de Jaime Isidoro acrescen- e cultural, demonstrou ao longo de toda a
A sua história de vida articula memória tar-se-iam a criação da “Revista de Artes vida uma responsabilidade que a cultura
e liberdade, contribuindo decisivamente Plásticas”, a iniciativa dos Encontros In- não pode deixar de assumir de abrir cami-
para o enriquecimento da paisagem cultu- ternacionais de Arte em Portugal, e a Bie- nhos novos, capazes de fazer da criativi-
ral da cidade do Porto e de Entre Douro e nal de Vila Nova de Cerveira. Com mais dade e da inovação sinais de exigência e
Minho. Jaime Isidoro foi um pintor que se de quatro décadas de existência, a Bienal de desenvolvimento humano. Afinal, não
afirmou pela sensibilidade e pelo talento, Internacional de Arte de Cerveira é um podemos compreender o Porto Culto con-
mas também como dinamizador cultural marco na cultura contemporânea. Nasce temporâneo sem reservarmos um lugar de
e galerista e como apoiante ativo do meio na transição democrática de 1974, na qual destaque para o Mestre Jaime Isidoro.
artístico e dos artistas. Logo na década de prevaleceu a necessidade de intervenção
1950 destaca-se a homenagem a Domin- artística como expressão da liberdade. De
guez Alvarez, um pintor pouco reconheci- facto, os Encontros Internacionais de Arte,

NOTA
Texto publicado ao abrigo da parceria estabe-
lecida entre AS ARTES ENTRE AS LETRAS e o
Centro Nacional de Cultura.
13MAR’24

Maria Adelina Vieira


Dep.º CECLICO UFP

Vitorino Nemésio
- Emissário de uma voz de fogo.
Ah! Meu menino, minha estrela a arder de dia,
Não deixes que te mexam no traço virginal que aprendeste
Quando eras o fio de sol na escuridão que enchia
A tua mãe – bolhinha, enquanto te não desprendeste. (1986, p. 155)

Emissário de uma voz de fogo, “[o]nde o eterno levanta, com peque-


nos/ Sinais de tempo astral que a carne capta/ Uma águia de fogo
que me rapta”, Nemésio transporta uma força mística, uma trans-
cendência, que outros tinham por pueril, inconsistente e sem audá-
cia. Interditos estão, pois, para o autor, os caminhos da filiação na
atmosfera literária de então. O esteta fica, deste modo, mais liberto
para o sentir do corpus calidum das águas que alimentam a sua raiz
e expandem, em fecundação, o seu húmus onírico. No poema “De
Profundis”, retirado, à margem da corrente, constrói a sua ponte
pela qual estabelece um diálogo interno entre a “lama” de que é
feito e parte do céu que nela esplende:

Do profundo abismo em que me achei,


E em que não me lembro se saí ou fui precipitado,
Da lama fofa e a ferver de que me cozi, clamei
A vós, Senhor, surdo e infinito:
Sejas tu neste grito
Para todo o sempre louvado. (1989, p. 177)

Neste poema subsistem referências próximas da passagem bí-


blica: “Deus disse façamos o homem à nossa imagem e seme-
lhança. Então Deus modelou o homem com lama e insuflou
nas suas narinas um sopro de vida e o homem tornou-se um
ser vivo” (Génesis, 1, 26; 2, 7). Conjugando no seu fazer poéti-
co uma emoção ao serviço das ideias e dos elementos, Nemé-
sio, poeta artesão, lapidário do verbo, “só no rigor do fogo”
confessa que o desejo de reinventar a ordem das palavras, es-
crevinhar ab ovo, lhe vem do tempo dos bancos da escola, “[p]
ois só no rigor do fogo/ Das palavras exactas e sofridas/ Abre
o estame, pólen do Logo,/ Que é maneira de Deus com nos- estado vivido particularmente encastrado no grande movimento da
sas vidas” (1989, p. 325). Assim se compreende também que, terra e do cosmos, sente a vida como uma ondulação permanente,
numa atitude contrária à corrente, o poeta disponibilize, no em que o “vácuo” alterna com a “maré cheia”. A sugestão onomato-
poema “Barcarola”, o ouvido para um tempo de resposta, ati- peica da leveza do ser face ao poder de um tempo em que o vácuo en-
tude que reforça, na sua lírica, uma nova categoria metafísi- che é conseguida pela aliteração da consoante fricativa “v”: “Vaga da
ca: a do vazio/cheio que tem como antecâmaras os corredores vida vácua”, “vagando em voga”. Figura de construção, a repetição
do silêncio e da ausência, estado em que sustenta a aceitação é uma das mais admiradas por Nemésio, como ele próprio explica:
da morte – “Vagando em voga (barca é a morte)” –, como pro-
cesso de purificação pela ascensão ao espaço do inteligível: A Vida faz-se na repetição e do retorno. Pouco importa a ma-
téria em que aprendemos o ofício; do repetir vai saindo o im-
Vaga da vida vácua a enche previsto e o melhor. Quando se volta atrás, não avulta o tempo
O nosso vago divagar perdido (isso é só mau costume calculista, ponto de vista eco-
Como maré cheia no mar. nómico). Quando se volta atrás, levanta-se o passado criador,
Vagando em voga (barca é a morte), o ingénuo pai do futuro. Pitoresco ou não, superficial ou pro-
Vamos com ela navegar, fundo, o que fizemos arranca dele. (1974, p. 38)
De nave à neve e à nova nuvem. (1989, p. 289)
De carácter estudioso, lúcida inteligência, espírito de recolhimen-
Pelo recurso à repetição, Nemésio pretende dar-nos a impressão si- to e de silêncio, Nemésio transporta em si uma inocência distraída
nestésica da celeridade da vida, mais que da sua fugacidade. Como que, não sendo tão grande como a de Caeiro, para quem “sentir é
13MAR’24

reza. Por isso, em Nemésio, quando se fala de dor de sentir, deveria


dizer-se “arder de outro modo”, já que todos os complexos relacio-
nados com o fogo que alimenta a poesia como força do sagrado
são complexos sacrificiais: “Com que torrentes de fogo me visitas/
Senhor!”. Com efeito, todas as ciências assumem consensualmente
que o fogo é o princípio vital do universo, o seu fluido animador.
FOTO: DR
Não será por acaso que, no poema em baixo transcrito os lexemas
“furnas” e “mãe”, elementos da fecundidade, abrem e encerram
circularmente o poema:

As furnas são nossas,


As pipas de vinho velho são nossas,
O leite das tetas que ordenhamos,
As pontas com muitos faróis e muita craca,
Os caminhos seculares mal calçados.
Os chafarizes com um tapete de bosta quente cheiram bem
Vamos salvar as Ilhas. Eu tenho lá os ossos de Pai e Mãe.
(1989, p. 139)

Poeta da navegação e do regresso, Vitorino Nemésio é também


o filho que regressa às origens, sua posse maior: “São nossas”;
“Eu tenho lá os ossos de Pai e Mãe”. Na expressão da terra, en-
quanto elemento erótico, o amante enraíza-se na profundidade
e na água: “Furnas”, “tetas” e “ilhas”. Os ícones eróticos pul-
santes são inúmeros conjugando o masculino com o feminino.
O “leite das tetas” e os “tapetes de bosta” apontam numa pers-
pectiva psicanalítica para o regresso à fase anal. Além da expres-
são do amor de filho e de amante, manifesta-se também o amor
fraterno. O poeta quer não só regressar às origens, como precisa
de o fazer com todos, num gesto de reintegração colectiva – “são
nossas”. Também no canto deste amor matricial, Nemésio está
fora do canto da Presença. Com efeito, embalado na ternura, Ne-
mésio tudo nega, pela preservação de uma inocência colectiva
primordial, uma felicidade integradora só possível pelo regres-
so ao encaixe uterino de um corpo noutros corpos: “À Ilha”, “à
furna”, “à Mãe” – “Bela no bosque! Se o sonhara/ A minha Mãe
no mar... (que fresca)/ É sempre à tarde aos pescadores)” (1989,
p. 209). Ternura ainda pela preocupação com o universo oníri-
co da criança e com todos os cuidados que a psicanálise já lhe
consagrou na Europa, desde Freud. Em “O menino desenha”, e
estar distraído”, se afigura antes como inocência, afinal, seu redu- noutros momentos aqui não contemplados, Nemésio não está
to de defesa de um homem tímido que confere poder sobre a terra alheio, neste tocante, do compromisso e do projecto do médico e
donde nasce e a que devolve seu ser: “Quando eu morrer, a terra pedopsicanalista João dos Santos que, embora se tivesse dedica-
aberta/ Me beba de um trago/ E esqueça./ Aos deuses minha oferta/ do à causa de corpo e alma, também a geração da Presença nele
É levar o que trago: eu dos pés à cabeça” (1989, p. 217). De facto, não repara, mau grado a grandeza e singularidade da sua obra:
Nemésio sentiu seu ser como pertencendo a uma “religião universal
que os homens não têm”, à semelhança de Caeiro: Ah! Meu menino, minha estrela a arder de dia,
Não deixes que te mexam no traço virginal que aprendeste
Se eu morrer muito novo, oiçam isto: Quando eras o fio de sol na escuridão que enchia
Nunca fui senão uma criança que brincava. A tua mãe – bolhinha, enquanto te não desprendeste. (1986, p. 155)
Fui gentio como o sol e a água,
De uma religião universal que só os homens não têm. (Pessoa/ Assim se compreende ainda por que motivo navega à margem do
Caeiro, 1981, p. 213) contexto literário do seu tempo, dentro do qual a sua poesia só pode
ser considerada piedosamente como a de um professor respeitável
Ao contrário de Caeiro, porém, Nemésio tem não só necessidade de pelo saber e pelo coração, que não incomoda o regime vigente, por-
sentir as coisas como de tocar o seu interior, sempre que treina a que se entretém com uma pena caseira e tosca a pintar retábulos
arte de descer à sua própria raiz, à sua profundidade. Este regresso místicos que não têm lastro nem provocam estragos.
ao plano matricial é alimentado, no poema “As furnas são nossas”,
pela sedução do calor íntimo que é fundação da sua própria natu-
13MAR’24

Isabel Ponce de Leão


prof. universitária UFP

O Relógio de Bolso
FOTO: DR

(EM TORNO DE PSICOLOGIA DA ARTE E IMAGINÁRIO DE MARIA ANTÓNIA JARDIM)

Leio Psicologia da Arte e Imaginário (2023) de Ma- as personagens excêntricas enformam um espe-
ria Antónia Jardim e penso em Psicologia da Arte lho para os desafios emocionais e existenciais.
(1999) de Lev Semionovich Vygotsky, que, não A protagonista Alice, ao navegar por um mundo
abordando directamente o conceito de catarse, de absurdos, paradoxos e metamorfoses, espelha
evidencia a relação entre a arte e o desenvolvi- a complexidade da jornada humana obviando a
mento emocional, a sua importância na mediação exploração de questões como identidade, adap-
social, no processo de aprendizagem, no desen- tação e autoconhecimento, que proporcionam
volvimento de funções psicológicas superiores um fértil terreno de reflexão.
bem como o seu papel facilitador na compreensão O processo terapêutico através da literatura pre-
e expressão das emoções para além da palavra; sentifica a capacidade para estimular a empatia O diálogo simbólico entre o consciente e o in-
assim subjaz o conceito de catarse enquanto pu- e a compreensão, promovendo insights pessoais. consciente é uma jornada que convida à intros-
rificação emocional, permissiva à libertação de As experiências de Alice são metáforas de desa- pecção, à aceitação e ao entendimento mais pro-
sentimentos reprimidos com o fito no alívio emo- fios psicológicos que oferecem uma perspectiva fundo de si mesmo e do mundo que nos cerca, de
cional, a que não será alheio o papel do “outro”. única sobre questões como auto-aceitação e su- que Alice é instrumento simbólico.
A catarse artística não oferece apenas um meio peração. As experiências criativas que Maria Antónia Jar-
de purificação emocional, como também promo- A leitura que Maria Antónia Jardim faz deste dim enuncia são momentos enriquecedores em
ve a empatia e a compreensão entre diferentes País das Maravilhas, de regras ilógicas e perso- que a imaginação é libertada e a expressão pes-
indivíduos e culturas tornando-se um poderoso nagens peculiares, converte-se num questionar soal se ramifica. Ocorrendo em diversas formas e
veículo para a autodescoberta e a construção do de convenções sociais e numa desconstrução do contextos, impulsionando a inovação, a autodes-
significado da vida. ordinário; tal pode inspirar uma abordagem mais coberta, o prazer estético e, sobretudo, o poder
A isto se junta o imaginário, muitas vezes asso- flexível e criativa face a obstáculos. Trata-a, pois, curativo não só pela satisfação pessoal como tam-
ciado à matéria dos sonhos, que pode ser enten- como uma potente ferramenta terapêutica que bém pelo enriquecimento do quotidiano. Em tudo
dido como uma metamorfose hermenêutica, um estimula a auto-reflexão, a resiliência e a explo- reside o poder de maravilhar, força transcenden-
processo de transformação interpretativo profun- ração do imaginário como meio de enfrentar os tal que tem na capacidade de surpreender, encan-
da. A arte, nas suas diversas formas, serve como desafios da existência. tar e inspirar o seu ponto alto, assim associando a
um portal para o reino do imaginário, permitindo Psicologia da Arte e Imaginário estrutura-se à ética à estética em demanda da felicidade.
que a mente explore territórios desconhecidos e volta de dois grandes eixos – “O Maravilhar-se…” A obra encerra com uma série de poemas em inglês
se liberte das amarras da realidade tangível. e “… são deste lado as maravilhas” que, por sua inspirados por Alice e Paula Rego (anexos) e uma
Neste contexto, os sonhos, ricos em simbolismo vez, se desdobram e reencontram num processo consistente bibliografia sobre a capacidade cura-
e narrativas oníricas, tornam-se matéria-prima rizomático desde logo anunciado na pontuação tiva da arte. Nela se referenciam nomes incontor-
para a criação artística. Tal o caso da autora de utilizada. náveis destes estudos como são os de Bachelard,
Psicologia da Arte e Imaginário que recorre, as- No primeiro, Maria Antónia Jardim, começando Barthes, Damásio, Eco, Greimas, Jung, Leibniz,
sazmente, às artes plásticas para expressar o que por estabelecer uma ponte entre os modernismos Mosquera, Ricoeur ou o já citado Vygotsky.
às palavras poderá estar vedado. Interpretada português e brasileiro destaca Fernando Pessoa Trata-se de um excelente trabalho sobre a herme-
a obra de arte, à luz de experiências e emoções – autor muito presente nas suas publicações – e, nêutica do eu que explora as camadas mais pro-
ocorre a metamorfose hermenêutica qual espe- com ele, persegue o método comparativo na psi- fundas da identidade, significado e experiência
lho reflector e refractário da diversidade do ima- cologia da arte apoiando-se em teorias consisten- pessoal; uma abordagem filosófica e psicológica
ginário humano. tes. Perspectivando a arte como terapia, trata as que tenta desvendar os múltiplos significados e
Ao explorar os recantos da mente por meio diferentes linguagens expressivas, com especial contextos que moldam a compreensão de quem
da arte, Maria Antónia Jardim cria um espaço acuidade para as de Paula Rego e Lewis Caroll somos. Interpretação contínua, contextualiza-
mágico onde as fronteiras entre a realidade e a corolário da sua investigação. ção, diálogo interior, construção narrativa, diver-
fantasia se dissipam e demonstra que os seres Em “… são deste lado as maravilhas”, a prota- sidade de perspectivas, exploração existencial e
humanos podem experimentar uma profunda gonista é Alice, o seu mundo e o seu imaginá- influências filosóficas, como a fenomenologia e o
transformação, expandindo as suas perspecti- rio enquanto leit motiv do acto criativo. Com ela existencialismo, são os passos dados pela autora
vas e enriquecendo o significado de suas vivên- persegue a experiência tarótica qual mergulho nesta abordagem interpretativa complexa e refle-
cias. Releva, por outro lado, o poder inerente à profundo nas camadas simbólicas e metafóricas xiva para o entendimento do eu profundo.
criatividade de transcender limites e explorar os do Tarot. As cartas, as suas imagens e símbolos Olho a obra, o “Gato de Cheshire” acena-me e
reinos inexplorados tornando-a poderosa ferra- únicos, tornam-se espelho da complexidade da convida-me a entrar neste recanto do vastíssimo
menta nos estudos da psicologia clínica. existência humana. A sua leitura não é apenas jardim. Nele todos somos Alice. Com sabedoria,
Vem isto a propósito de Alice no País das Mara- um exercício de previsão, mas uma experiência jogaremos ao esconde-esconde. Ao fundo, esprei-
vilhas de Lewis Caroll, que Maria Antónia Jardim de auto-reflexão. Cada arcano revela facetas do tam a “Lebre de Março” e a “Tartaruga Fingida”.
trata com particular acuidade em Psicologia da inconsciente, desencadeando uma busca pela Desafia-me o “Coelho Branco”, em metamorfoses
Arte e Imaginário, proporcionando uma fasci- compreensão de padrões e dilemas pessoais. cromáticas; só o seu inseparável relógio de bolso
nante jornada literária que transcende a mera O Tarot torna-se, então, numa ferramenta tera- dirá do tempo.
narrativa fantástica, para se tornar numa poten- pêutica, qual epifania de questões emocionais e
cial ferramenta terapêutica. A narrativa surreal e espirituais.
13MAR’24

José Vieira
professor universitário e crítico literário

Agustina encore et toujours.


A pintura rupestre da alma portuguesa
FOTO: DR
A existência na literatura portuguesa de uma
autora da magnitude de Agustina Bessa-Luís
seria suficiente para justificar a importância
das nossas letras em qualquer parte do mun-
do. Agustina é um dos mais prodigiosos mila-
gres de toda a literatura de língua portugue-
sa. É difícil esboçar uma árvore genealógica,
encontrar-lhe parentes e ascendentes, salvo
algum Camilo Castelo Branco e certos traços
longínquos encontrados em Aquilino Ribeiro.
Há quem se atreva a falar de Dostoievski, de
Kafka e de Musil.
Ainda assim, Agustina Bessa-Luís escapa sem-
pre às tentativas de categorização, o que reflete
e significa a força e vitalidade do pensamento
e da obra de uma mulher de génio, de alguém
que se fez, construiu, apareceu, venceu e con-
quistou a pulso, tudo por causa de uma escrita
que, tal como a pintura de Graça Morais, re- Lidos os testemunhos da filha e de um grande garridos como o de Agustina encontram-se não
gressa aos mitos fundadores da humanidade. amigo da autora, também ele escritor maior, só nas suas obras, veja-se José Midões ou Beli-
Tal como os nossos avoengos fizeram das gra- estou em crer que Agustina é portuguesa até ao na em O Susto, veja-se ainda Quina ou Germa
vuras rupestres um apanhado de uma época, âmago e até à dor, só que nela estão personifi- em A Sibila, ou mais recentemente Josefa em A
assim é a escrita de Agustina: uma pintura cadas as figuras do grande tempo do Douro e Ronda da Noite. Personagens profundamente
rupestre da alma portuguesa. A rocha, a fraga, do Norte e, por isso, de Portugal inteiro. Agus- portuguesas e paradoxais, todas elas perten-
a pedra e o mármore são e estão numa escrita tina é portuguesa até ao riso e à contradição. cem por fora à pobreza do Norte e do Douro e
que vive como um destino. Nela encontramos a nobreza e a aristocracia por dentro à aristocracia da condição humana.
Para este vosso criado Agustina é única. Desen- do Norte, assim como a pobreza desse mesmo São estas figuras, entre outras tantas, que ensi-
gane-se quem pensa encontrar nestas palavras Norte e do Douro, que é duro e cruel, mas sabe- nam e fazem antever o pensamento de Agusti-
um panegírico gratuito, baboso ou pejado de mos também que tudo aquilo que nasce naque- na Bessa-Luís.
segundas intenções. O que pretendo dizer, di- la terra é único, é miraculoso. Não é somente Invoco a figura de Josefa, do derradeiro roman-
zer bem, dizer muito bem, é que a autora de A a dor ou o sofrimento que estão em causa na ce, a empregada que irá acompanhar Martinho
Sibila escapará sempre a toda e qualquer ten- obra de Agustina e naquilo que conhecemos do Nabasco até ao final da narrativa. A certa altu-
tativa de definição, pois como escreveu Miguel seu temperamento, é a capacidade de sorrir e ra, olhando para “A Ronda da Noite”, Josefa de-
Esteves Cardoso, ela “disse não só coisas indi- de rir, da gargalhada sempre pronta e espontâ- cide lavá-la e baldeá-la com água e sabão, uma
zíveis, como todas as coisas indizíveis que se nea, da sentença aforística e daquele conheci- vez que o quadro estava muito escuro. O ato de
podem dizer”. mento ancestral que reside no povo português, Josefa leva ao apagamento e destruição de qua-
Há uns dias, por motivos relacionados com a mais do que na sua elite, e que é a capacidade se toda a pintura. Este é, para mim, o momento
memória e a literatura, assisti ao programa de não nos levarmos demasiado a sério. Diz triunfante e triunfal de Josefa, mas também de
Primeira Pessoa, de Fátima Campos Ferreira, Agustina: “Eu não me levo demasiado a sério. Agustina, que parece olhar para trás, para toda
entrevistando José Rentes de Carvalho. Depa- É a melhor maneira de viver. Aquele que se leva a Obra e perceber que afinal nada disto é assim
rei-me com a seguinte declaração do autor: demasiado a sério está sempre numa situação tão importante. É a gargalhada agustiniana, ja-
“Sou tão português que até dói”. A afirmação de inferioridade perante a vida”. mais despojada de um sentido trágico da vida,
de Rentes de Carvalho levou-me de imediato Se tal atitude causa espanto e admiração, que parece surgir por entre as palavras de uma
à entrada “Agustina por Agustina”, em Dicio- de certo modo até alguma estranheza, não Josefa, tão parecida com a “Susana e os An-
nário Imperfeito. Escreve a pitonisa: “A minha concordo com Mónica Baldaque e com Mário ciãos”, quadro do mesmo Rembrandt: “Josefa!
obra é portuguesa, constituída por sentimento Cláudio. Até no modo de ser, Agustina é pro- – disse Martinho, entre dentes. (...) Josefa só
e gente portugueses até à medula”. fundamente portuguesa. É portuguesa porque disse que não se lembrava. Quando Martinho
Já num outro Primeira Pessoa, sendo Mónica é paradoxal e desdiz-se e renasce sempre como voltava as costas, ela chamou-o.
Baldaque a entrevistada, a filha de Agustina fénix triunfal. É Álvaro de Campos quem es- – Eu pensava que gostava mais do quadro do
diz que a mãe “sentia-se mais espanhola na creve que “nunca um verdadeiro português foi que de mim. De mim e de tudo o que tem de ser
maneira de ser”; Mário Cláudio, por sua vez, português: foi sempre tudo”. Enquanto houver amado pelas pessoas para que possam viver. A
numa entrevista à RTP no exato dia do cente- quem discorde, haverá sempre motivos para vida faz-se com o amor dos outros” (277).
nário, afirma que Agustina “era uma mulher escrever. E pois muito bem. A unanimidade di- Bendita sejas, Maria Agustina Ferreira Teixeira
incapaz de cultivar agravos ou de arrastar ficilmente é boa conselheira e aprender exige Bessa, profundamente portuguesa e universal.
inimizades ao longo dos anos, e nisso era duvidar e colocar em causa.
pouco portuguesa”. Os temperamentos sanguíneos, vulcânicos e
13MAR’24

Isabel Pereira Leite


bibliotecária

Vasco e o Papagaio-do-Cabo
Nos 500 anos da morte de Vasco da Gama
Chamo-me Vasco. Nunca me achei diferen- De repente, virou-se de frente para mim, da Gama alcançou Calecute, no sul da Ín-
te dos outros miúdos que conheci. Recordo olhou-me fixamente, e algo de mágico acon- dia, em 20 de Maio de 1498. A Rota do Cabo,
a minha avó, que dizia que nunca se deve teceu: ouvi-o falar! Começou por querer con- seguida pelos portugueses, abriu, portanto,
dizer nunca e que, realmente, tinha toda a firmar se eu me chamava Vasco e se vinha de aos europeus, o caminho marítimo para a
razão. Posso provar porquê. Só hoje, bem Sines. Eu acenei que sim, com a cabeça, e ele Índia, o que, naquela altura, não podia ser
adulto, me atrevo a fazê-lo. Na verdade, pareceu-me aliviado, porque disse: “Final- mais importante, sobretudo do ponto de
acaba por ser a minha forma de homena- mente!” A partir daí, fez-me prometer que ia vista económico, e como ter poder econó-
gear o grande Almirante, agora, que passa ouvir tudo até ao fim e que, mal pudesse, es- mico também significa ter poder político,
meio milénio sobre o ano em que morreu. creveria o que ele contasse, porque era muito os portugueses tornaram-se os senhores
Tudo começou quando, numa inesquecí- importante. Mesmo não sabendo do que iria dos mares, respeitados e celebrados por
vel 4.ª feira, dia 19 de Junho de 20131, fui a ser capaz, e de olhos incrédulos, voltei a fazer essa Europa fora.
Lisboa, ao Oceanário, numa visita organi- sinal que sim, decidido a concentrar-me. Isto escrevo eu, agora, de uma forma muito
zada pelo agrupamento de escolas de que Aquele Papagaio-do-Cabo descendia de uma resumida, porque concentrei todos os meus
a minha fazia parte. Nunca lá tinha ido. Só nobre linhagem. Na sua família sempre exis- esforços no que o Papagaio me disse querer
conhecia bem a costa alentejana, porque tira o hábito de ir transmitindo os factos im- que eu registasse ao pormenor. Na minha ca-
nasci em Sines2. O mar, para mim, significa portantes de geração em geração. Era uma beça, evidentemente, não coube tudo, mas o
o mundo. Por isso é que, ainda hoje, gosto espécie de tradição oral. Andavam há séculos que escrevi no caderno que ainda hoje con-
tanto de ficar a olhar para ele. Não há dúvi- à espera que um deles conseguisse chegar a servo como um tesouro, foi o seguinte: que
da de que o mar sem fim é português. Lisboa para contar a alguém que se chamasse Vasco da Gama conseguira cumprir um plano
Mas o que interessa mesmo é que, naque- Vasco e tivesse nascido em Sines (eram estas, de 80 anos, um plano de que os portugueses
le dia, a minha vida mudou para sempre. como vim a saber, as condições indispensá- não desistiram, porque sempre acreditaram
É claro que o Oceanário é extraordinário e veis), o que queriam que ficasse registado. nele. Um plano iniciado com a descoberta da
que quase todas aquelas espécies que ali Embora eu, naquela altura, já tivesse ouvido ilha de Porto Santo, em 1418, por João Gon-
habitam são fascinantes. Naquela altura, é falar de Vasco da Gama e, vagamente, da des- çalves Zarco, no tempo de D. João I. Apontei
natural que houvesse algumas que hoje já coberta do caminho marítimo para a Índia, um comentário ingénuo, que aqui reproduzo:
lá não existem. d’Os Lusíadas, da importância, por alto, dos “Fixe, o Papagaio ter falado nisso, porque o
Estava eu sentado no chão, com o Paulo, o portugueses, da sua coragem e sabedoria e de meu pai diz que o chefe dele vai para lá com
Estevão, a Isabel, o Chico, o Pedro, a Tere- como tinham conseguido o impossível, numa a família, quando precisa de desanuviar a ca-
sa, o João e já não sei se mais alguém3, a época já longínqua, fiquei de boca aberta com beça, porque é um lugar onde a praia é boa, a
olhar para uma raia que era novidade lá no o que estava ali a ouvir. Tive uma ideia que água é quente e não há nada de especial para
Oceanário (por acaso até me lembro de que me pareceu brilhante e agarrei no meu iPad fazer.” Enfim, coisas de miúdo...
a raia se chamava Viola – de – Espinhos e para ir escrevendo, mas o Papagaio disse logo O que começou por ser o sonho de alguns,
de que era enorme e um tanto ou quanto que não era preciso, porque a memória tinha foi-se tornando realidade, à medida que os
esquisita, porque estava coberta de pintas de servir para alguma coisa e, naquela oca- grandes navegadores – capitães e marinhei-
e tinha espinhos enormes por todo o lado) sião, não havia tempo a perder. Ficou-me este ros – a par de geógrafos, cartógrafos, mate-
quando algo, no meio da vegetação, entre comentário para sempre. É na memória que máticos e astrónomos foram avançando nas
as rochas, me chamou a atenção. Olhei me- guardo o que leio e oiço. Estou já na fase final suas viagens e estudos. Foi-se comprovando
lhor e notei um certo movimento. Fosse o da minha dissertação de mestrado. que querer é poder e que, apesar das incontá-
que fosse, tinha-se escondido, mas, logo a No dia 8 de Julho de 1497, sendo D. Manuel veis dificuldades, quando se é persistente, o
seguir, voltou a aparecer. I Rei de Portugal, Vasco da Gama, que en- que parece impossível se realiza. Importante
Era um peixe, nem especialmente bonito, tão era Capitão-Mor, mais tarde Almiran- é acreditar, não ter medo, não confundir pre-
nem especialmente assustador. Começou te-Mor e, depois, Vice-Rei da Índia, partiu cipitação com determinação, estar preparado
um jogo de esconde-esconde comigo. Se de Belém com quatro naus, rumo ao sul de para enfrentar as adversidades, ser arrojado
não tivesse sido por isso, nem lhe teria África. Ele próprio comandava a nau S. Ga- sem deixar de ser sensato nas decisões. São,
dado importância. Começou a piscar-me briel. O objectivo era provar aquilo de que realmente, afirmações determinantes que
o olho, e eu fiquei pasmado. Pisquei-lhe o os portugueses tinham praticamente a cer- conservei em mim. Foram tão importantes no
olho também. Pareceu-me lógico. Ele vol- teza – que havia possibilidade de chegar à passado, como deveriam ser no presente.
tou a fazê-lo e aproximou-se. Nessa altura, Índia por mar, uma vez que o oceano Atlân- O Papagaio ainda fez questão de falar do In-
resolvi perguntar a quem ia a passar como tico e o oceano Índico estavam ligados. Era fante D. Henrique, o impulsionador dos des-
é que se chamava aquele peixe. Disseram- necessário contornar a costa, passando do cobrimentos; de Gil Eanes, o primeiro a do-
-me que era um Papagaio-do-Cabo, uma es- lado ocidental para o oriental, isto é, de um brar o Cabo Bojador, tão receado por todos,
pécie rara que só existe na costa da África mar para o outro, para, finalmente, se che- na costa ocidental africana; de Diogo Cão
do Sul. gar à terra pretendida. A armada de Vasco (embora, na altura, me parecesse estranho,
13MAR’24

porque não conhecia um único homem que O Papagaio-do-Cabo, que falava pelos cotove- pela cabeça que vou aturar segunda dose.
ladrasse), que navegou ao longo da costa de los, ficou tão excitado depois de ter cumprido – Então não atures. Anjo, queres vir comigo
África, recolhendo informações preciosas; a sua missão, que desatou a repetir “Vasco da procurar o Palhaço?
de Bartolomeu Dias, que chegou ao cabo das Gama; Vasco da Gama; Vasco da Gama” alto e – Vamos lá, Papagaio, mas achas que é im-
Tormentas, depois conhecido como Cabo da bom som. Enquanto andava por ali às voltas, portante?
Boa Esperança, cabo do qual fica pertíssimo um peixe meio estremunhado, ainda em pija- – Claro que é! Como ninguém o leva a sério,
a que é hoje capital da África do Sul: a Cidade ma, mandou-o calar: ele, entre palhaçadas, acaba por ouvir daqui
do Cabo. – Está calado, ó Papagaio. Incomodas-nos a e dali e depois, a brincar, a brincar, vai fican-
Falou de monstros, de sereias, de deuses todos! do a saber coisas muito importantes.
protectores e de deuses maléficos, da ina- – Qualquer Papagaio papagueia, ou tu não – Pensando melhor, acho que vou convosco,
creditável vida que existe no fundo do mar, sabes disso, seu ignorante? mas, pelo sim, pelo não, vou continuar de pi-
de tanta, tanta coisa que eu jamais seria – Sei sim, respondeu o Alcarraz-Pijama, mas jama.
capaz de descrever o que ouvi. O Papagaio estou farto de te ouvir! O Peixe-Porco-Palhaço inconfundível, estava
contou-me, ainda, que existia uma obra Antes que se armasse ali uma discussão, o a jantar.
importantíssima, o “Roteiro da Primeira Peixe-Anjo interveio: – Querem provar este pitéu? É delicioso, disse
Viagem de Vasco da Gama à Índia, 1497 a – Eu, por acaso, até nem ia dizer nada, mas ele, com um ar convidativo.
1499”, escrita por Álvaro Velho, nome es- gosto de paz e sossego e realmente… Aproximaram-se os três, mas o pitéu logo de-
tranho para mim, naquela altura. Continua – Realmente o quê? sapareceu. O Palhaço engoliu-o de uma vez.
a estar conservada na Biblioteca Pública – Realmente sou um Anjo e o que quero é que – Era bom, mas acabou-se, disse ele, a rir.
Municipal do Porto e integra a “Memória do todos se dêem bem, respondeu ele. Olhem – Seu palhaço! Seu alarve, comentou o Papa-
Mundo”. Ainda me disse, a correr, que nes- bem para as minhas manchas amarelas. É si- gaio, irritado.
se roteiro havia muita informação preciosa nal de que me devem respeito, sabiam? – Pois claro! Porco e Palhaço. É o meu nome.
e recomendou-me que não me esquecesse O Papagaio e o Alcarraz reviraram os olhos Estavam à espera de quê?
disso. De facto, nunca mais me esqueci. e nem responderam. O Anjo limitou-se a es- – Bem, esqueçamos a tua parvoíce, que é me-
Não parei de escrever sobre ele. Tem sido o perar. lhor, comentou o Anjo.
cerne da minha vida de investigador. – Eu sei montes de histórias. Ainda estás com – Ouviste alguma coisa sobre o segredo do
No meio disto tudo, houve uma história sono? perguntou o primeiro. Unicórnio, quis saber o Papagaio.
que fixei com pormenor, e que me deixou – Só um bocadinho, respondeu o segundo. Eu – Sobre o diamante mágico? É isso? respon-
angustiado: a do gigante Adamastor, um aguento, mas não me venhas outra vez com o deu o Palhaço.
monstro aterrador que nem por isso impe- tal Vasco! – Vamos por partes: é verdade que foi um an-
diu os portugueses de seguirem o seu cami- – Por mim, tenho toneladas de paciência. tepassado do Unicórnio que o encontrou? E
nho. Um mito, uma lenda, como acontece, Já vos aturo há que tempos, disse o terceiro. que, passados séculos, o Unicórnio o trouxe
por vezes, ainda hoje… Conta lá! para Lisboa? Para aqui mesmo?
Pensando bem, quando eu era pequeno, ou – Não é bem uma história. É um grande mis- – Parece que sim, e quando cá chegou ouvi
mesmo já não tão pequeno como isso, tinha tério e eu tenho a certeza de que o Unicórnio dizer que o escondeu algures…
medo de bruxas e de monstros e até acordava sabe alguma coisa importante. – Vamos procurá-lo! Não acham boa ideia?,
com pesadelos. A minha mãe vinha e dizia- – O Unicórnio?! perguntou o Papagaio.
-me que era só um sonho mau, porque, real- – Sim, aquele que tem a mania de meter o na- – E onde é que ele estará? Pensem bem, que eu
mente, eles não existem. Eu, antes de ador- riz onde não é chamado. Não sei se é de con- não estou para canseiras, replicou o Alcarraz.
mecer outra vez, punha-me a pensar que um fiança. Ouvi falar de um tal Pinóquio a quem – Empertigado como é, às tantas nem fala
dia, quando fosse grande, ia ser um fantásti- cresceu o nariz porque dizia aldrabices, mas connosco, comentou o Palhaço.
co mágico e encantar toda a gente. é coisa de miúdos. Nós somos peixes. Mesmo – Podemos sempre pedir ajuda ao Peixe-An-
Na verdade, sempre disseram, e continuam a assim, fiquei um bocadinho impressionado. jo-Real. É altamente influente e, por sorte, até
dizer, até os meus próprios filhos, que tenho – És mesmo um Papagaio. Deixa lá essa treta estou a vê-lo ali ao fundo. É só chamá-lo, su-
uma imaginação muito fértil, seja lá o que for de narizes e conta-nos o que sabes. geriu o Anjo.
que isso signifique. Eu até sou capaz de lhes – Se não me mandares calar, eu conto, mas Todos concordaram e este anuiu, pelo que
dar uma certa razão, mas se teimarem em afir- previno-te já de que o Vasco da Gama, aquele uma pequena comitiva partiu, então, em bus-
mar que o Papagaio-do-Cabo, que agora refi- tal, está metido nisto. ca do Unicórnio.
ro aqui, nunca existiu, eu zango-me a valer. – Ah sim! E como? indagou o Alcarraz. Continua
Demorei anos para cumprir a promessa que – Não sei bem, mas tenho a certeza de que al-
fiz àquele peixe, por isso, garanto-lhes que gures, por aqui, está escondido um diamante
me zango! Zango-me e chamo o Adamastor! mágico fabuloso.
– E o que é que o Vasco da Gama tem a ver
Naquele dia, Vasco voltou para a escola, inca- com isso, perguntou, curioso, o Anjo.
1
paz de dizer uma palavra. Tinha que pensar – Não é bem ele, percebes. É que havia um ir- 19 de Junho de 2013 – data em que o Rotei-
ro da Primeira Viagem de VG foi inscrito, pela
muito bem em tudo o que acontecera. Não mão chamado Paulo, que foi com ele à Índia. Unesco, na Memória do Mundo.
2
assistiu ao que, nessa noite, se passou no – Lá vens tu com essa história da Índia, dis- Sines – lugar de nascimento de VG.
3
Paulo, Estevão, Isabel, “Chico”, Pedro, Tere-
Oceanário. Se tivesse assistido, ia pensar que parou o Alcarraz. Eu ouvi tudo o que contas- sa e João, para além de outros – nomes de
estava doido… te àquele miúdo, hoje mesmo. Nem te passe irmãos e de filhos de VG.
13MAR’24

Rui Batista
historiador

Jacobeu e Cultura Portuguesa


– OS QUADROS HISTÓRICO GEOGRÁFICO E ECONÓMICO. O HOMEM E SUAS ESTRUTURAS SÓCIO-MENTAIS – 49

ISLA MUJERES que estes eram forçados a falar alemão. Foi que eles se haviam envolvido num rediço da
– “No fim, não nos lembramos das pala- numa dessas turmas onde então se conhece- primeira vez que Rachel esteve lá para o “Te-
vras dos nossos inimigos mas do silêncio ram pela primeira vez. Por seu lado a norte- lex de Cuba”.
dos nossos amigos.” – Alguém no barco -americana reencontrou o Sérgio, jornalista De pé, já de costas voltadas para os circunstan-
declama a frase de M. Luther King, a propó- brasileiro, com quem havia estado em mis- tes, Guilhermo professor em Santiago, após a
sito do que vem acontecendo em Gaza e na são humanitária num campo de refugiados reação exaltada que teve, saltou fora do barco
Ucrânia, na Europa, na Ásia e nas Áfricas, em Gaza, há cerca de um mês, portanto al- e dirigiu-se na direção das barracas de bebi-
de há muito tempo para cá. Continua a pre- gum tempo antes ou até muito próximo da das e desapareceu para nunca mais aparecer.
leção: – “Parece que os políticos mundiais aventura do passeio em Santiago, no bote da No dia seguinte foi encontrado morto junto
estão de mãos atadas e temos de ser nós, IA. Para perceber isto convém recuar atrás e às rochas de um novo malecón santiagueiro,
sem exclusões, a denunciarmos tanta dor, tentar entrar n’O Quarto de Marte, de 2018, construído para o quingentésimo Aniversário
porque a dor não tem valor, cabe-nos a nós romance em que Kushner conta a história de (500 anos em abril de 2022) da fundação da-
cidadãos do mundo, como noutros tempos mulheres no corredor da morte, num presí- quela Vila, ora cidade de Santiago.
noutras causas coube às sufragistas lutarem dio feminino da Califórnia. A escritora este- – Voltemos às origens das religiões africanas
pelo seu direito de voto, lutarmos, agora e ve em Lisboa enviada pelo New York Times e à sua relação com o monoteísmo. – Disse
sempre, nós pelo direito à paz. Pois, até para se encontrar com Ruth Wilson Gilmo- Elimu, o homem de túnica branca, num inglês
parece que é coisa fora de moda falar nas re, que viajou para Portugal há cerca de um queniano, a caiar a conversa. Ninguém lhe
sufragistas e no seu movimento de mais de mês, a fim de resolver questões burocráticas deu importância porque, dada a malcriadez
cem anos, mas não é. Isto, porque o voto com o seu pedido de naturalização portu- de Guilhermo, a americana ficou em silêncio
democrático como o conhecemos não é algo guesa. Ruth Gilmore é uma abolicionista pe- com a sua “Ixchel” deusa do amor, no peito
comum em todo o mundo. Por exemplo, na nal norte-americana, diretora do Center for macio, e todos lhe seguiram o gesto por soli-
Arábia Saudita e Brunei, países da Ásia, Place, Culture and Politics e professora de dariedade. Trata-se de uma mulher bonita,
não há, nunca houve, eleições. Os referidos geografia em Ciências da Terra e do Ambien- mas arrasa, com a sua deusa ao peito, relíquia
países fazem parte de uma série de Estados te na City University of New York. As duas da arte pré-colombiana que trouxe da Ilha das
governados por monarquias absolutistas mulheres, Ruth Gilmore e Rachel Kushner, Mulheres (Isla Mujeres – como dizem os na-
que estão no poder há dezenas de anos, se- são inventoras de uma nova geografia carce- tivos). O nome é devido às muitas figuras de
não há centenas. E só há cerca de dez anos rária – trata-se de um complexo estudo das culto dessa deusa ali existentes.
outros estados terão sido arrastados para inter-relações entre o espaço, as instituições Como acima se refere, o acaso colocou-os fren-
o voto na “enxurrada” da Primavera Árabe e a economia política que moldam e defi- te a frente, depois de muitos anos num bote
– casos do Catar, Emirados Árabes Unidos, nem o encarceramento moderno. que os levou cerca de duas horas pelas águas
Omã, Bahrein, Jordânia e Marrocos. E ainda “A turnê mágica e misteriosa/está morrendo azuis a passear no mar do Caribe, frente a San-
temos a questão da legalidade democrática para te levar embora/morrendo para te levar tiago. Do outro lado a mancha verde da Sierra
que se prende na consciência do voto (como embora/te levar hoje”. Esta última quadra do Maiestra e as ideias de recordações antigas em
e em quem voto, que conhecimento tenho impressionante poema de “Magical Mystery ondas pacatas provocadas pelos daiquires,
eu para votar(?), mas isso é outra conversa). Tour” (1967) dos Beatles, por vezes ouve-se mojitos e outras bebidas alcoólicas à base de
O encontro aconteceu há cerca de dois me- em campos de refugiados e em cárceres. Dis- rum como é o caso da cuba libre. São dez pes-
ses. É uma aventura numa espécie de câma- cutiram muita coisa, como se viu, desde as soas de nacionalidades diferentes mas com
ra de IA (inteligência artificial) que é o que o questões sufragistas até às do emblemático línguas comuns como são os casos de Portu-
pequeno barco de passeio faz lembrar, por – porque num momento tão inoportuno, o gal e Brasil; Filipinas e Índia; Quénia e EUA;
tão estreito e fechado ser, coloca-os auto- filme de Alex Garland, norte-americano, de Espanha e Cuba, além de todos falarem inglês.
maticamente numa espécie de confrontação 2024, chegará às salas de cinema em ABRIL. A conversa só foi possível através do castelha-
tète à tète meio eletrónica. Depois de terem A temática é sobre uma nova “Guerra Civil na no, do português, do português do Brasil e do
chegado à fala, descobriram que há cerca América” que põe Estados contra Estados, e inglês americano. O que a princípio era coisa
de quarenta anos quase todos, à exceção de mais morte e mais terror, numa lógica abjeta pacífica, começou a incomodar a partir do
Guilhermo, o cubano, haviam estado na en- de Western (Kitsch) a que nos habituaram e momento em que Rachel Kushner começou
tão República Federal Alemã (sudoeste) na fazem para vermos, se formos bons rapazes e a falar do que sabia: do seu conhecimento do
década de 80 a estudar no Goethe-Institut se tivermos sorte. país já que ali estivera por seis vezes a fim de
in Staufen/Freiburg. E como foi isto possí- – Pois é. Ao chegarem à praia no lugar de recolher elementos para o seu romance “Te-
vel? Os alemães da banda de cá, à época, desembarque, a discussão entre eles atingiu lex de Cuba”, de 2008, cuja temática é sobre
tinham a boa filosofia de abrir cursos de dimensões assustadoras. a comunidade americana daquele país, em
língua alemã para licenciados estrangeiros, – Dado que eu nunca mais quero vê-la, a si di- tempos que levam à revolução de Fidel Castro.
e constituíam turmas apenas por alunos de go-lhe adeus. – proferiu Guilhermo dirigindo-
países com idiomas diferentes entre si, pelo -se à americana. – Soubemos, posteriormente,
13MAR’24

André Veríssimo
prof. universitário

CAPÍTULO 77:

Jacques Derrida:
as comunidades que vêm
A comunicação comunitária lida por ambiente virtual criado com as comu- lidade, os homens estão separados por
um meio como a internet, através de nidades virtuais. A comunidade virtual aquilo que os une” (Giorgio Agamben,
uma comunidade virtual, reedita uma que tomou de assalto os cibernautas A Comunidade que vem, Presença, Lis-
questão nos dias de hoje sobre um pen- pode assegurar uma nova forma de po- boa). Deleuze que também como crítico
samento que a sociedade da informação voar, habitar e participar na rede? Ques- da comunicação apontava para o facto
não consegue assistir. O pensamento de tões como estas são interessantes, mas de que não sofremos de falta de comu-
pequenos grupos que em comunidades parecem deslocar o pensamento de uma nicação, mas com o facto de não termos
dentro de comunidades trocam expe- democracia que leve em conta as indivi- grande coisa a dizer também parecia
riências e criam vínculos. Grupos que dualidades na pertença ao que se cha- tanger o pensamento sobre a questão da
ganham pujança e indicam, assim, uma ma de comunidades virtuais. O concei- comunidade. Essa comunicabilidade ou
nova forma possível de organização to de comunidades virtuais criado por falta do que dizer pode ser justamente
em um ambiente onde a democracia é Rheingold: Considerava as comunidades a marca enunciativa das comunidades
colocada em discussão. Assim as con- virtuais capazes de recriar o tradicional virtuais para uma nova constituição da
tribuições de Zygmunt Bauman, Gior- sentido de participação e envolvimento comunidade. O carácter frívolo, ideo-
gio Agamben e Jaques Derrida (Jacques das antigas comunidades, constituindo lógico, das “virtual communities” que
Derrida: tout autrement, in Les dieux uma revitalização da esfera pública e so- chama a atenção de alguns estudiosos
dans la cuisine, Vingt ans de philoso- cial e da política democrática através do da cibercultura pode ser justamente o
phie en France, Aubier, 1978, pp.105-11) recém-nascido ciberespaço. (Rheingold, encanto para se pensar a comunidade.
são essenciais, para além de sua des- A Comunidade Virtual, 1994) A razão porque temos um mundo é a de
crição meramente ‘tecno-virtual’, sobre Sempre presente a discussão sobre a que a nossa consciência o abre até nós, o
o que é pensar uma comunidade com democracia e a cidadania que emerge faz significativo e o divulga. Resultando
os olhos da esfera virtual. As teorias de com a rede parece realmente ganhar deste interesse na percepção e na cons-
McLuhan e Deleuze são fundamentais força com as comunidades virtuais ou ciência (Lyotard, 1993), a fenomeno-
para uma análise séria sobre um modo estaríamos diante de mais uma vulga- logia rejeita a distinção do sujeito e do
de se conectar que pode ser explorado rização destes conceitos? É ao discutir objecto, desde que o sujeito constitui o
de inúmeras formas contendo de facto temas como liberdade e as alternativas objecto, o fenómeno, e sem sujeito não
a preocupação de uma outra concepção para modelos cristalizados e concei- poderia haver nenhum objecto. Um as-
inovadora de democracia. Um modo de tos ultrapassados no campo social que pecto relacionado da fenomenologia é o
se conectar que prima pela integração, fenómenos cibernéticos e cibersociais que se concentra nas condições da pos-
pelo vínculo entre sujeitos e que abarca podem ganhar alento. De um cosmos lú- sibilidade de percepção e que enfatiza o
o pensamento sobre as novas tecnolo- dico à seriedade de se pensar as comuni- ponto de Heidegger que não pode haver
gias de uma forma menos catastrófica. dades virtuais no sentido de criar novos nenhuma percepção (para nós) fora das
Pensar à luz de McLuhan a constatação vínculos entre os indivíduos-em-rede. realidades humanas – mesmo na ilusão
de que o ‘conteúdo de qualquer meio ou É diante deste quadro que passa des- ideológica que os políticos confeccio-
veículo é sempre um outro meio ou veí- percebido pela contemporaneidade que nam do mundo político. No político –
culo’ (McLuhan. Os meios de comunica- uma nova forma de subjectividade (Vd. diz Luís Carmelo – “degladiam-se ideias
ção como extensões do homem, São Pau- G. Lipovetsky, A Era do Vazio, PDQ, Lis- para o poder; (…) no técnico-científico,
lo, Cultrix, p. 22), leva-nos a pensar na boa) se cria, revelando as nuances que conflitualiza-se a pragmática dos inqué-
mensagem que corre pela rede através a cibercultura proporciona. Centrado ritos e teorias; finalmente, no artístico,
de comunidades virtuais. Pensar com na questão da globalização, Z. Bauman confrontam-se correntes, vanguardas,
Deleuze um ambiente rizomático con- discute comunidade pensando a questão voragens e estilos”. Em conclusão diz
vida-nos a perceber com mais finura a da segurança. As comunidades virtuais Luís Carmelo: “A cultura autonomiza-se
questão da comunidade virtual, como o podem ainda trabalhar nesse sentido da natura; o homem reinventa-se deci-
faz Pierre Lévy com o universo da ciber- dando ênfase a dimensão política que o didamente, enquanto sujeito, e, dentro
cultura. Dentro da “rede das redes”, a universo virtual pode movimentar con- de cada separada esfera de actividade,
comunidade pode voltar a constituir-se. duzindo a uma ciberutopia como esta. processam-se inevitáveis clivagens. (…)”
De início pensa-se sobre a constituição Giorgio Agamben em ‘Comunidade que [Luís Carmelo, A estética como descono-
da própria noção de comunidade depois vem’ discute de outra forma o conceito; tação praticada pela modernidade, Uni-
duma breve caracterização do fenómeno pensando a questão da comunicação versidade Autónoma de Lisboa].
traça-se uma outra forma de visualizá- em si, considerando que “o que impede
-lo. Por fim explora-se a ideia dum novo a comunicação é a própria comunicabi-
13MAR’24

José António Barreiros


advogado

Um pequeno pedaço
de uma obra inteira
FOTO: DR
Na primeira destas crónicas encontrei-me
com o acaso que me levou ao livro de me-
mórias de um mestre de História e Filoso-
fia do Direito, Luís Cabral de Moncada e a
propósito disso, incidentalmente, o tema
do positivismo jurídico; na segunda e na
terceira, em tom mais ligeiro, trouxe a re-
cordação do poeta Afonso Lopes Vieira, na
vez episódica em que envergou a toga de
advogado, para defender o seu camarada
integralista, Hipólito Raposo e, recuando,
achando-o nos tempos boémios da Coim-
bra em que estudou e de que troçou. Hoje
regresso ao sério.
Li a frase e suponho-a atribuída a Clari-
ce Lispector ou a alguém que escreveu
sobre a sua extraordinária obra literá-
ria: «Quem ama o Direito Criminal, não
é jurista, mas poeta».
A frase faz sentido em relação a Clarice, que
se licenciou em Direito com uma tese sobre
O Poder de Punir, mas que se desligou do
Direito para cedo iniciar uma obra notável
no campo da ficção.
Mas o dito admite excepções. E uma delas
ocorreu-me ao ler, durante uma viagem de
comboio, o “caderno” em que José de Faria
Costa compilou o que com ironia apodou de É essa faceta de um pensamento próprio que «qualquer doutrina, por mais brilhante
«escritos de aqui, de ali e de acolá». que ressalta nos artigos aqui compendia- que seja, leva em si a marca da sua própria
E ocorreu-me porque, ao ter assistido, a 26 dos, em que está presente do Direito uma precariedade».
do passado mês, no Grémio Literário, em visão porfiadamente humanista, assente O que há de interessante nestes escritos é o
Lisboa, ao lançamento desta breve colectâ- numa recorrência permanente a valores que neles se encontra de inesperados ins-
nea de estudos seus, editados pela Âncora, que são os do «mínimo ético» como funda- tantes em que o leitor suspende a leitura,
notei que no caderno antecedente, o mesmo mento legitimador da punibilidade, o ideal fazendo divagar o pensamento: é a noção do
autor reunira, sob o título Eu Também Sou iluminista revisitado «nem que seja em ter- Direito como pedaço de um «real construí-
Tudo Isto, o que se poderiam denominar mos de uma segunda Ilustração», enquan- do», a «semântica emocional» como condi-
aforismos, melhor talvez, reflexões soltas, to esteio da racionalidade, enfim, em não cionante da análise, mas afinal, método in-
mas que atribuiu ao seu alter ego Francisco menor medida, o critério da «decência» dissociável da razão, o critério do êxito não
d’Eulália, o mesmo que deu origem a uma como critério de aferição da bondade. num sentido consequencialista de cunho
obra poética, cuja génese situo em 2006 com Há na triangulação do bom do belo e do jus- utilitário, mas como algo que, como se numa
A Raiz do Teu Gesto e se espraiou por uma já to, que reitera nestes seus breves estudos, visão personalista, «acrescenta ser ao ser».
significativa produção, como a Poesia & Mi- uma geometria perfeita que, sendo afinal o Mundo circular, eis que encontro no livro
núscula Moralia, editada pela Modo de Ler, equilátero da ética e da estética, baliza um que aqui trouxe um artigo que o seu autor
do incansável resistente José da Cruz Santos, pensamento que, honradamente renega o fez publicar neste mesmo jornal, a 22 de
e tantos outros, a que um dia voltarei. «contorcionismo intelectual de modo a fa- Maio de 2022, intitulado Esperança: um fan-
E é excepção porque Faria Costa é precisa- zer com que os conceitos encaixem com os tasma iridescente. Texto enigmático, nele se
mente professor de Direito Criminal, com resultados», expediente tão típico de uma mescla algo de íntimo e de militante, con-
lições cuja matriz, mantendo o cânone certa forma de gerar Direito a partir de um vocando à liça os «zelotas do pensamento
académico, são, porém, atípicas na con- construtivismo meramente legitimador dos quadrado», afinal os «polícias do bem pen-
cepção dos problemas e, como tal, origi- a priori convenientes. sar», e de humana e fraterna compreensão
nais, com incursões, agora mais evidentes E, no entanto, mau grado o florentino de para com os «anarquistas hermenêuticos».
no que vem publicando, pelo domínio da uma forma de escrever em que transborda a
Filosofia do Direito. convicção, há, porém, a noção humilde de
13MAR’24

Isabel Patim
prof. universitária

‘O Retrato das Palavras’


– A PROPÓSITO DE ARTES PLÁSTICAS E LITERATURA

Associando-se novamente ao Correntes


d’Escritas, a Galeria d’Arte ORTOPÓVOA
promove a sua trigésima primeira Ex-
posição com uma mostra de pintura de
JORGE CURVAL, intitulada O RETRATO
DAS PALAVRAS. O projeto artístico e
curatorial subjacente, bem como o es-
paço expositivo, transcendem a mera
associação linear entre as Artes.
Nesta exposição, o Artista Plástico con-
vida-nos a revisitar a obra literária de
vários escritores portugueses, num dis-
curso de representação plástica único,
através da (des)construção do discurso
literário de cada escritor, feito tela, con-
ducente a uma narrativa do (des)amor,
por si Próprio e/ou pelo Outro.
Curval desafia-nos a (re)descobrir e (re)
ler textualidades (também visuais), ao
mesmo tempo que seduz o observador/
leitor com a sua obra artística, a repre-
sentação visível, num convite ao fruir
de um conceito harmoniosamente con-
jugado, seja a partir do retrato do escri-
tor ou da correspondente citação breve
que cuidadosamente selecionou para
cada quadro.
O mistério da (re)descoberta assim en-
cenado convida à contemplação, osci-
lando a memória entre o que recorda
das palavras e a representação pictórica
padronizada de cada escritor, desafian-
do-a em mestria. Esta harmonia sublime
da obra em exibição, que transcende a
mera representação, constrói uma nar-
rativa expositiva única, que corre além
dos tempos, numa paleta de frases e co-
res sóbrias. Para tal contribui a matéria
da composição em acrílico sobre cartão
que ora deslumbra, ora vislumbra. Sophia de Mello
Breyner Andresen
Neste palco de autores, Curval convida- vador/leitor, que constata a diferença do citações breves das pinturas exibidas,
-nos a revisitar a obra e o tempo de cada Eu, face à original, genial e provocadora como num diálogo entre escritores, mas
escritor, num outro terreno cultural, representação com que o Curval nos desa- sem a identificação do escritor autor.
artístico e social. Este conjunto de retra- fia o re/visitar, o re/ver e o re/ler. Um dos nossos objetivos foi revelar a
tos de escritores portugueses do Artista, Deixámo-nos seduzir pela paleta de ci- universidade intemporal da(s) temá-
feitos retratos da alma e da genialidade, tações breves dos escritores portugue- tica(s) conceptualizada(s). Outro é o
dispensam a diacronia da leitura linear ses representados no catálogo, cuida- desafio que vos coloco de habitar – em
dos escritores representados, ao mesmo dosamente selecionadas por Curval na CORRENTE, cruzando artes, autores,
tempo que convidam o observador/leitor sua narrativa plástica, e construímos tempos, e espaços – e usufruir do espa-
a usufruir do proposto diálogo entre as uma POÉTICA DE TÍTULOS que pode ço expositivo da Galeria e da Clínica, de
Artes, conducente à (re)descoberta, do Eu orientar a sua visita/observação. Este encontro à genialidade da arte exibida.
e do Outro. A linearidade da diacronia, registo de citações breves torna-se as-
nesta exposição, assiste apenas ao obser- sim texto, i.e. um poema feito com as
13MAR’24

Quem tem medo da Arte Bruta


“L’ ART BRUT, LE MAL NOMMÉ”

FOTO: CORTESIA SIK-ISEA, ZÜRICH


No final do século XlX e no seguinte, os ar-
tistas fascinaram o público com revoluções
criativas e estéticas, choques visuais que
perturbaram os amantes de arte e a popu-
lação em geral.
Os “Salons” foram testemunhas de guerras
entre críticos, e o público apaixonava-se pe-
las novidades artísticas.
Impressionistas, cubistas, futuristas, ex-
pressionistas, “fauves”, “nabis”, surrealis-
tas, e outros, entre os quais o “ready made”
de Marcel Duchamp, instigaram um infinito
número de seguidores.
Os primeiros três quartos do século XX fo-
ram de uma riqueza criativa extraordinária.
E depois?
Instalações.
Fotografia.
Mais instalações!
Plastificaram-se cadáveres – considerado
por certos críticos, o supra-sumo da arte, os
mesmos que adoram a atual figuração.
Em geral só os doidos é que têm ideias fixas!
Estaria a Arte moribunda? Estaria congela-
da? Nada haveria de novo no horizonte?
Era o que se pensava entre as décadas de 80
a 90, do século XX.
Com a mundialização, as feiras bianuais,
trienais e outras afins criadas por esse mun-
do fora, a Arte fugiu dos ciclos ocidentais.
Perdidos, desamparados, os críticos de
arte, os diretores dos museus foram obriga-
dos a pôr em causa as suas certezas.
Todos os movimentos artísticos considera-
dos exclusivamente “brancos” foram pos-
tos em dúvida, pois semelhantes aparece-
ram “out of The West”.
Com o avanço da ciência permitiu a “autóp-
sia” das produções artísticas visando a sua
melhor compreensão. Aloïse Corbaz, Sphinx de Paris au Louvres
et Bonaparte d’Abrautès (frente/verso), c. 1951-1960 | Lápis de cor e sumo de
Todos os estilos artísticos definindo-se gerânio sobre folhas de papel costuradas, 140 x 50 cm
como progressistas tiveram paralelo mil,
dois mil, ou há mais anos, e permitem-nos A roda da vida gira e faz ressurgir das no passado, tenta uma nova incursão,
entender que a abstração fazia já parte de mansardas as modas outrora banidas. sem grande originalidade, diga-se, e é
uma vivência natural do homem. Fora com os conceptuais, os minima- aplaudida pelos especialistas.
Com a mundialização toda uma série de ar- listas para o sótão, os abstratos, abs- Hoje, a inteligência artificial, toda a
tistas, ocultados pela “cortina das certezas”, traem-se, e “do nada” surgem jovens tecnologia de transformar chumbo em
começaram a descobrir-se ou a aceitar-se. que redescobriram, ao que parece, a ouro e a arte computacional tenta re-
Surgem mulheres, africanos, asiáticos e figuração. duzir o que há de humano na criação
“não-artistas” que produziam arte sem terem Karl Lagerfeld afirmou que todas as artística.
a classificação de artistas, incluindo aqueles obras-primas foram já produzidas. Te- É aqui que as Artes Marginais, a Arte
que, algumas mentes desorientadas acharam ria ele razão? Singular, a Arte Bruta, a Arte Espírita,
por bem classificar de “Arte Bruta”. A figuração artística, tão repudiada a Arte “Hors Normes” saem do Purga-
13MAR’24

FOTO: CORTESIA CHRISTIAN BERST ART BRUT FOTO: ANDRÉ ROCHA


tório e obrigam a História da Arte a
corrigir-se ou reinventar-se.
Jean Dubuffet criou o termo de Arte Bruta e
definiu o conceito em 1946, assunto que já ti-
nha sido largamente debatido no século XIX.
A definição deste campo artístico como
“anti-cultura” tem evoluído segundo os co-
lecionadores, os curadores e os galeristas, e
a sua essência não pode ser eternizada em
mármore, pois não tem um fio condutor co-
mum, de contrário seria um estilo artístico
como qualquer outro.
Jean Dubuffet não foi o primeiro a penetrar
na “Terra Incógnita” pois a “Arte Bruta”
sempre existiu.
Em 1800, o francês Philippe Pinel, aper-
cebendo-se da criatividade dos doentes
mentais, luta pela mudança de tratamen-
Marco Berlanda - Autoritratto, 1989 | Carvão e pastel Dado (Miodrag Djuric). Apocalypse, 1966 | Óleo
tos, privilegiando a via artística. Em 1812, de óleo sobre papel, 69,8 x 49,7 cm sobre tela, 195,3 x 129,8 cm
o americano Benjamin Rush faz a primeira
coleção de obras criadas por «loucos». Em
1842, Vítor Hugo interessa-se pelas obras A galeria Drouin, em Paris, apresenta a pri- participam em numerosas exposições inter-
dos espíritas. O primeiro museu do género meira exposição de Arte Bruta. nacionais. Quem antes tinha medo da Arte
é criado pelo Dr. Josef Guislaine, em 1857, A coleção de Arte Bruta de Jean Dubuffet foi Bruta, quer agora entrar na dança.
na Bélgica, na cidade de Gand. exposta, entre 1951 e1962, em East Hamp- Mas há ainda atitudes protecionistas, pois
Dr. Charcot, em 1875, escreve sobre “A Arte ton, perto de Nova York, em colaboração as reservas estão cheias de obras “tradicio-
dos Possessos e dos Diabólicos”. com o pintor americano Alfonso Ossario. nais” que esperam comprador e os artistas
Em 1900, em Portugal, Júlio Dantas escreve O museu das Artes Decorativas, anexo ao marginais são raros, não chegando para to-
“Poetas e Pintores de Rilhafoles” (asilo psi- Louvre, apresenta, em 1967, uma exposição dos. As modas vão é muitas vezes voltam…
quiátrico), relacionado com o museu criado com 700 obras. como os “pompiers”.
pelo psiquiatra Miguel Bombarda, hoje de- O museu de Arte Bruta de Lausanne é inau- A Arte Bruta é a última aventura artística do
saparecido. gurado, em1976, passando a ser uma refe- século XXI.
Em França, 1907, o Dr. Paul Mercier escreve rência no mundo para este campo artístico.
“A Arte dos Loucos”, sob o pseudónimo de Galerias nos USA, na Alemanha, na Holan- É nessa aventura que o “templo” parisiense
Marcel Réja. da e em França, nomeadamente o galerista da Arte Bruta, a Halle Saint Pierre, recebe a
O Dr. Morgenthaler, na Suíça, publica a bio- Christian Berst, conseguiram outorgar “car- nossa coleção, Treger Saint Silvestre.
grafia do genial Adolf Wölfli, em 1907. tas de nobreza” aos artistas marginais.
Em 1915, o pai do surrealismo, André Bre- Duas excelentes coleções em Inglaterra, a António Saint Silvestre
ton, é colocado pelo exército como enfer- coleção James Brett, Museum of Everything
meiro do manicómio de Saint Didier para e, em França, a coleção Bruno Decharme,
se ocupar dos doentes e aí apercebeu-se da
energia criativa dos internados.
Na Alemanha, em 1922, O Dr. Hans Prin-
zhorn escreve “A Expressão da Loucura”, La Halle de Saint Pierre
e reúne muitas obras dos manicómios ale- 2, rue Ronsard, 75018 Paris
mães num museu em Heidelberg, o que
levou Hitler, mais tarde, a comparar estas apresenta
obras com a arte do seu tempo, classifican- L’Esprit Singulier
do-a de “Arte Degenerada”.
No Brasil, em 1933, Nilce da Silveira cria o Coleção Treger Saint Silvestre
manicómio “Praia Vermelha”, onde dá li- (em depósito no Centro de Arte Oliva, São João da Madeira, Por-
berdade aos doentes e os incita à criação ar- tugal)
tística, com a oposição dos outros médicos,
que a acusavam de ter livros de Karl Marx. De 12 de Março a 14 de Agosto de 2024
Fim da aventura!
André Breton e Jean Dubuffet criam, em Os dois fundadores, Richard Treger e António Saint Silvestre, con-
1946, “A Companhia da Arte Bruta”. duzidos pelo seu desejo, a sua intuição e as suas emoções reuni-
Zangam-se, mais tarde, e André Breton vi- ram desde 1980 uma das mais importantes coleções de arte bruta
ra-se para o surrealismo. e de arte singular europeias.
Esta exposição é composta por 86 artistas da sua coleção, sendo
a sua maior parte criadores autodidatas que se apresentam em
nome próprio, com os materiais e técnicas que cada um escolheu.
A inspiração nasce do seu percurso de vida...
“VIAGEM POSTAL”
A exposição de desenho e pintura 13MAR’24
“Viagem Postal”, de Raúl Valver-
de, está patente no Gabinete da
Bienal, em Vila Nova de Gaia. Esta
mostra, inserida no Projecto Onda
Bienal, é organizada por Artistas de
Gaia - Cooperativa Cultural com
o apoio da Câmara Municipal de
Gaia e pode ser visitada até 13 de
Abril (sábado). DUAS EXPOSIÇÕES
NA ALA ÁLVARO SIZA
“PAL K LÊ”
A Ala Álvaro Siza – o novo espaço A exposição de pintura de Luis
do Museu de Serralves, no Porto – Delgado “Pal K Lê” está patente na
abriu com a inauguração de duas Cooperativa Árvore, no Porto. A
exposições: “Anagramas Improváveis” mostra pode ser visitada nas salas
e “C.A.S.A. Colecção Álvaro Siza Ar- 2 e 3 até ao dia 6 de Abril (sábado).
quivo”. A primeira resulta das “visões
renovadas e frescas” de curadores de
Serralves, de várias gerações e conta
com vários trabalhos de artistas como
Juliana Huxtable, Zanele Muholi, Arthur
Jafa, João Pedro Vale & Nuno Alexan- MULHERES
dre Ferreira, João Maria Gusmão & INVOCADAS
Pedro Paiva, Alexandre Estrela, Trisha
EM ESPINHO
Donnelly ou Korakrit Arunanondchai.
“C.A.S.A. Colecção Álvaro Siza Ar- Espinho tem patente
quivo”, por seu lado, é uma colecção duas exposições que
“CONVERSAS QUE de nove segmentos – um para cada têm como objectivo
SEGURAM O MUNDO” década da vida do arquitecto que invocar as mulheres. “A
assinou a nova ala de Serralves. “Nela Verdade Dói” é uma ex-
José Saramago dizia que “além da podem descobrir-se, por exemplo, os posição-instalação e “dá
conversa das mulheres, são os desenhos do arquitecto desde a sua voz a inúmeras mulheres
sonhos que seguram o mundo na infância, quando fazia banda desenha- que viram as suas vidas
sua órbita”, como se este dom da da, ou a cozinha desenhada para a sua destroçadas por actos
comunicação fosse melhor exerci- avó”. A nova Ala Álvaro Siza contempla de violência”. Patente no
do pelas mulheres. Comemorando três pisos e reflecte um aumento de Centro Multimeios, mos-
o Dia Internacional da Mulher, He- 33 por cento na área de construção do tra 28 pares de sapatos
lena Duarte, Marília Resende, Marta Museu de Serralves. de mulheres vítimas de
Lima e Odete Pinheiro apresentam violência doméstica e
trabalhos de pintura, cerâmica, es- de género e cujos teste-
cultura e instalação em “Conversas munhos das situações
que seguram o mundo”, patente no de violência vivenciadas
Espaço Almad’Arte, no Porto, até acompanham cada par
ao dia 12 de Abril (sexta-feira). de sapatos. Pode ser visi-
tada, gratuitamente, até
28 de Abril (domingo).
O FACE - Fórum de Arte
e Cultura de Espinho, por
“JURASSIC DEUIL 2024” seu lado, recebe “Liber-
O Museu da Lourinhã co-organiza dade – 50 anos, 50 mu-
o certame “Jurassic Deuil 2024”, em lheres, 50 dias”, que abre
Deuil-La-Barre, Paris, que, até 24 de o programa comemora-
Março, apresenta uma exposição tivo da autarquia dos 50
com fósseis e réplicas de fósseis de “O Corpo da Paisagem”, de Ricardo de Campos anos da Revolução dos
dinossauros, uma mostra de ilus- Cravos. Esta colectiva
trações científicas, palestras, docu- XIV BIENAL DE PINTURA de 50 mulheres apre-
mentários e actividades didácticas DO EIXO ATLÂNTICO senta obras em diversas
à Paleontologia e distribuídas por áreas, como a pintura, a
cinco espaços distintos da cidade. Até ao dia 14 de Abril (domingo), o escultura, o desenho ou
A exposição “De l’oeuf au Fossile: Fórum da Maia acolhe a “XIV Bienal a fotografia e pode ser
Le Parcours d’un Lourinhanosau- de Pintura do Eixo Atlântico”, um visitada até 27 de Abril
rus” explora o Património Paleon- evento que promove a arte e a cria- (sábado).
tológico da Lourinhã. Tendo como ção artística, possibilitando simul-
peça central um bloco com ovos taneamente o intercâmbio cultural.
atribuídos a ‘Lourinhanosaurus Nesta 14.ª edição são apresentadas
antunesi’, descoberto nos anos 90, 25 obras inéditas, de uma ampla va-
que foi recentemente revisitado riedade de estéticas e técnicas, de
pela equipa de Paleontologia do artistas portugueses e galegos, selec-
Museu da Lourinhã e da Universi- cionadas entre as 104 submetidas a
dade Nova de Lisboa. concurso. A entrada é livre.
13MAR’24

António José Borges


professor e escritor

O estrangeiro
Iar Holo, natural do estrangeiro, e casado com Cabi Nano, fi-
lha do chefe de Váco, estabeleceu-se hoje na região onde é, hoje, o
estrangeiro.
Teve sete filhos. Seis ocupavam-se nos trabalhos da horta.
Balo Libi, o mais novo, preferia dar-se à caça, apesar de os pais não
gostarem. Todos os dias à tarde, ao voltar para casa, sujava-se, pro-
positadamente, de terra e sujava também os instrumentos para que Ilustração de Henrique
apresentando-se sujo como os irmãos parecesse que tinham andado
a trabalhar juntos. Mas, ou por suspeita ou porque os irmãos o de- No regresso, recomendou que o deixassem só com a pa-
nunciassem, o pai foi um dia à horta, de surpresa, para se certificar ciente, de contrário o remédio não seria eficaz. Livre de olhares
se ele trabalhava de facto. Não o tendo encontrado com os irmãos, curiosos, tirou o anzol com tanto jeito que ninguém, nem mesmo
embrenhou-se no mato. Surpreendeu-o a caçar, sem que ele desse a rainha, o viu. A rainha sentiu-se logo tão boa que se pôs a falar
por isso. e a comer. As suas primeiras palavras foram para garantir a Balo
À noite, para o castigar por essa razão, a mãe pôs-lhe fezes no Libi que lhe daria, em paga, quanto quisesse e pedisse e deram-
prato, debaixo da comida. Ao dar por isso, o rapaz chorou de raiva e -lhe logo arroz com leite.
foi morar só, em Acisum, na base do monte mais próximo do estran- Balo Libi que, desde a infância nunca mais bebera leite, gos-
geiro. Não teve outro remédio senão fazer uma horta onde cultiva- tou muito. Em face disso, a rainha disse-lhe
va, de preferência, sementes que lhe enganassem a fome, devido à volta para Acisum e faz lá sete currais cujo tamanho vá
abundância de água que havia no local. aumentando, gradualmente, de modo a que o sétimo seja o maior
Entretanto, casou-se. Depois de se ter casado, dedicou-se à Muito satisfeito com a incumbência, Balo Libi viu-se, de re-
pesca, no mar. Trocava por género o peixe mais precioso que apanha- pente, na praia pelo mesmo processo maravilhoso que o levara. Daí
va. Ora sucedeu que um peixe, de peso invulgar, se lhe prendeu um seguiu para Acisum onde trabalhou, afanosamente, na preparação
dia no anzol. Tentou puxá-lo para a terra mas debalde porque reben- dos sete currais. Depois de concluídos, desceu à praia a dizer que
tou a linha. Em virtude de semelhante infortúnio, voltou para casa ao um emissário da rainha que tinha terminado. O mesmo homem
tão triste que não dormiu nessa noite. Perdera o seu ganha-pão. Não que lhe roubara as sementes estava lá à sua espera. Voltou a dizer-
arranjaria tão cedo outro anzol igual. Para maior desgraça, notou de -lhe, com breve intervalo, que abrisse e fechasse os olhos. Assim fez.
madrugada que alguém lhe tinha roubado as sementes. Encontrou-se, num momento, diante da rainha que lhe falou assim
Na noite seguinte, pôs-se à espreita a ver se descobria o ladrão. agora, que já tens os currais feitos, volta a Acisum. Faz dois
Não apareceu ninguém. Apenas uma catatua pousou, ao amanhecer, cestos grandes. Enche um de feijão e deixa outro vazio. Antes do nas-
numa das árvores da semente que o leitor quiser e se transformou, cer do sol, coloca um à direita e outro à esquerda da entrada do pri-
com grande espanto seu, num homem que roubou, à vontade, quan- meiro curral, que deve ficar aberto bem como os outros seis. Aparece-
tas sementes quis, convencido de que não estava a ser visto. Caute- rão, pouco depois, animais (aqueles que o leitor quiser ir imaginando
losamente, Balo Libi aproximou-se dele o mais que pôde. Num tom à medida que a história se desenvolve em si) sem conta. Cada vez que
irado, mandou-o descer, sem demora, caso contrário atravessá-lo-ia entrar um no curral, deita um feijão do cesto cheio no vazio. Quando
com uma arma (a que o leitor quiser). O homem desceu. se acabar o feijão, acabam-se os animais.
daqui não sais enquanto não me pagares as sementes que me De novo em Acisum, do mesmo modo e pelo mesmo ca-
roubaste minho das vezes anteriores, Balo Libi tudo executou, durante a
O ladrão, agarrado firmemente por Balo Libi, vendo que não noite, conforme as instruções que recebera. Ao romper da aurora,
podia fugir, acabou por dizer-lhe ouviu ao longe um ruído enorme que se ia aproximando e aumen-
não roubei para mim, roubei para a rainha que está gravemen tando como se uma tempestade vinda do mar sacudisse a toda a
te ferida e precisa de sementes para se curar volta o palmeiral imenso. Eram animais de grande porte, com cer-
mentes, enquanto não me pagares não sais daqui teza. Não tardou que aparecessem e começassem a entrar, um por
se não acreditas em mim, vem comigo até à casa da rainha um, nos currais, sem que ninguém os conduzisse, durante muitas
Balo Libi concordou em ir mas levando-o preso. Partiram os dois horas – tantas quantas foram precisas para que se esvaziasse o
em direção à praia. Quando lá chegaram, o ladrão disse a Balo Libi cesto do feijão.
fecha os olhos Quando já só faltava um grão, o maior de todos os animais
Balo Libi fechou-os. Momentos depois, o ladrão disse-lhe outra vez entrou no sétimo curral. Os seus longos chifres roçaram com es-
abre-os trondo na entrada. Os sete currais estremeceram. As portas fecha-
Quando os abriu, viu-se em casa da rainha cercado de gente ram-se por si. A mulher de Balo Libi e uma criada, de nome Bua,
que acorrera com remédios para curá-la, mas sem efeito. Convidado recolheram os cestos e o feijão que passaram, daí em diante, a ser
a tentar, também, alguma coisa que lhe pudesse dar alívio, Balo Libi objetos sagrados e de ligação entre gerações e com o divino.
aproximou-se e verificou que ela tinha um anzol na garganta – nada
mais, nada menos do que o seu, perdido dois dias antes no mar. (Continua em abril)
No intuito de recuperá-lo, Balo Libi afirmou, com decisão
posso curá-la, vou ali buscar um remédio e já volto
13MAR’24

Lurdes Neves
PHD, docente universitária UP

FOTO: DR

Desafios da Escola
A Felicidade nas Organizações Educa- soais, reconhecimento e feedback cons- bientes de aprendizagem dinâmicos e
tivas em Portugal: como construir o trutivo são elementos que solidificam atrativos.
bem-estar do contexto educativo uma cultura organizacional voltada para A participação ativa dos alunos nas de-
Em Portugal, a busca pela felicidade nas o bem-estar. cisões relacionadas ao seu percurso edu-
organizações educativas tem ganho des- O envolvimento dos diversos atores do cativo é um ponto crucial para incentivar
taque, reconhecendo a interligação entre contexto educativo na tomada de decisões a expressão de opiniões, a liderança es-
o bem-estar dos colaboradores e o alcan- e na definição de objetivos institucionais tudantil e a criação de espaços demo-
ce de objetivos institucionais. Neste cená- é uma prática promissora e as experiên- cráticos de diálogo contribuem para um
rio, é fundamental compreender como as cias bem-sucedidas de participação ativa, ambiente mais inclusivo e positivo. Os
instituições de ensino podem fomentar têm impactado positivamente a dinâmica alunos satisfeitos não apenas alcançam
um ambiente propício à felicidade, pro- organizacional. Este envolvimento não só melhores resultados académicos, mas
movendo não apenas o desenvolvimento fortalece o sentimento de pertencimento, também se tornam agentes ativos na
académico, mas também o equilíbrio e mas também potencializa a contribuição construção de uma cultura de aprendiza-
satisfação dos membros da comunidade individual para o alcance dos objetivos gem colaborativa e enriquecedora.
educativa. comuns. Em síntese, a felicidade nas organizações
A cultura organizacional desempenha Além disso, a formação contínua de pro- educativas em Portugal está intrinseca-
assim um papel crucial na construção de fessores e o desenvolvimento profissio- mente ligada à construção de uma cultura
ambientes felizes nas instituições educa- nal são essenciais para a promoção da organizacional sólida, à participação ativa
tivas e observa-se uma tendência ao forta- felicidade nas organizações educativas. dos educadores e pessoal não docente e ao
lecimento de valores como colaboração, Programas de capacitação, mentorias e desenvolvimento de ambientes de aprendi-
respeito e inovação. As organizações que oportunidades de crescimento estimulam zagem inovadores e envolventes. Promover
cultivam uma cultura inclusiva e trans- a motivação e a satisfação no trabalho, o bem-estar não é apenas uma responsa-
parente estabelecem um terreno propício refletindo diretamente na qualidade do bilidade social, mas uma estratégia eficaz
para a satisfação e desenvolvimento pro- ensino e no ambiente educativo. para alcançar metas educacionais e formar
fissional. A felicidade nas organizações educa- cidadãos mais realizados e comprometidos
As iniciativas que promovem a qualidade tivas não se restringe educadores e com o processo de aprendizagem. O inves-
de vida no trabalho têm sido adotadas impacta diretamente os alunos. A im- timento contínuo na felicidade nas orga-
por diversas instituições como horários plementação de práticas pedagógicas nizações educativas não apenas molda o
flexíveis, programas de saúde mental e inovadoras, como o uso de tecnologias presente, mas também contribui para um
espaços de relaxamento contribuem para educacionais, metodologias ativas e futuro mais promissor e sustentável.
o equilíbrio entre vida pessoal e profissio- projetos interdisciplinares, tem sido
nal. O investimento nas relações interpes- uma estratégia adotada para criar am-
13MAR’24

Paulo Ferreira da Cunha


lusofilias@[Link]

Encruzilhadas da ação
FOTO: DR
Há constrangimentos que devem ser acei-
tes com estoicismo, enquanto outros devem
despertar-nos forças para que nos oponha-
mos às suas peias, limitações, cerceamen-
tos ou bloqueios. Saber quais uns e outros
é, porém, muito complexo.
Albert Camus foi dos que defendeu esta
perspetiva. Mas ela comporta dois proble-
mas:
1) Não sabemos de antemão o que
se poderá ou não alterar. Teremos de pro-
ceder com recurso a alguma adivinhação,
ou, pelo menos, intuição prospetiva. E tal é
sempre muito falível. A alternativa é seguir
o conselho de Engels, no Anti-Dühring: “A
prova do bolo é comê-lo”.
2) Mesmo o esforço pela mudança sos contemporâneos perdidos? Não creio. quecendo agravos aos outros – mas dificil-
de coisas inalteráveis pode ser que não as Provavelmente, alguns acreditarão tam- mente olvidando os que tiveram que sofrer.
mude, sim, mas que provoque algum efeito bém num outro mote do nosso tempo, se- Nesse último caso, já costuma vir à tona a
positivo colateral, ou reflexo. Por exemplo, gundo o qual tanto faz o caminho que se es- revolta e lá se vai a crença no “não julgarás!”.
pode ser que, não mudando um quid imutá- colha. Afinal, não é tudo uma ilusão? Chega Sem (auto)flagelações, remorsos corrosi-
vel, todavia nos mude a nós, que tentámos a ser interessante a versão rudimentar que vos, mas um manto de “(auto)perdão” (este
algo impossível de alcançar, nos esforça- alguns fazem de altas teses das sabedorias muito na moda) seria muito melhor, como
mos e assim nos melhorámos... Há muitas orientais, por exemplo. São os custos da se diz na liturgia católica, que “reconhecês-
narrativas sapienciais e edificantes que profanação e da proliferação: banalização semos os nossos pecados”. Claro que a pró-
apontam nesse sentido: o caminho é que é e deformação. pria ideia de “pecado” é para alguns tabu,
o destino, não o aparente destino em si. A verdade é que há bastantes indivíduos associada a um casulo teológico-metafísico
Estamos às escuras. Pode dizer-se que nos que decidiram viver à custa do alheio e, e obscurantismos que se gosta de batizar de
encontramos em tempos de desumaniza- vai daí, atuam até incansavelmente, que- “medievais” – o que faria o escândalo de
ção, o que adensa a escuridão. Essa engen- rem muito afincadamente, dir-se-ia que Jacques Le Goff.
dra inconsistência social e política. O Ho- rangendo os dentes, e assim fartam-se de Encontramo-nos, pois, perante um confu-
mem é a medida de todas as coisas – diziam “trabalhar”. Embora para mal dos outros so, mas de algum modo titânico, conflito de
os Antigos. e, se forem apanhados e condenados, em propostas gerais para determinar a conduta
Existem, é certo, teorias esotéricas ou de princípio não se irão comprazer com as im- das pessoas (embora algumas possam pa-
autoajuda que nos incitam ao que chamam plicações sancionatórias dos seus atos. recer bagatelas, chinoiseries e sumamente
“proatividade” (como o mundo era tran- Se a letargia é um mal (recordo a distopia ridículas), mesmo em questões vitais, pes-
quilo sem estas palavras que nos fazem em que a Humanidade se cansou, e pas- soal e socialmente.
tropeçar a língua – e a cabeça). Por detrás saram a ser os cães a governar), nem toda A profusão de obrigações e interditos que
desse empurrão indiscriminado, julgo estar a ação é benéfica. Também as teorias que alguns querem impor, muito para lá (e até
uma ideia de que as pessoas são passivas equivalem todos os tipos de ação se reve- contra) (d)as leis vigentes é espada de Dâ-
e seguidistas, e, mal por mal, não lhes tra- lam esplendorosamente erróneas e podem mocles a ponderar. Algo terá de ser feito pe-
ria senão vantagem passarem a assumir as levar a consequências nefastas. las pessoas comuns, cidadãos cumpridores
rédeas da sua existência, e atirar-se para a A ideia de não julgar as atitudes, em geral, da ética corrente e do Direito, que querem
frente. Na medida em que a passividade e sem ferrete contra o indivíduo x ou y, mas ser deixados em paz na sua vida já labo-
o comodismo são traços da sociedade de eventualmente ainda com um juízo moral riosa e difícil, sem tempo e motivação para
consumo e de indiferença, acabam por ser digamos abstrato (e depois até jurídico, florilégios intelectuais e políticos, por vezes
elemento positivo, porque despertador. desde se o preceito ético for recebido pelo de grande imaginação, reconhece-se, mas
Problema é se não passam os amorfos a Direito e por ele punido), pode ser agradá- muito escasso bom senso.
cultivar um “instinto assassino”, ativo, mas vel para quem tema ser mal visto pelos seus Enquanto a ideia de Humanidade é univer-
completamente desapiedado dos outros, atos, e, no fundo, talvez deles não arrepen- sal, o que se eleva como novas ideologias
sem a mais leve réstia de solidariedade ou dido, mas sabendo da sua geral reprovação são sectarismos anti-humanistas e anti uni-
responsabilidade social. social, se gostaria de furtar à má apreciação. versalistas. Aguardemos novidades bem
Estarão estas conjeturas no subconsciente Pode ser também uma vaga de inconsciên- melhores.
ao menos de tantos gurus que sabem de cia, niilismo, ou boa vontade para que as
ciência certa o que salvará a vida dos nos- pessoas não se torturem com remorsos, es-
José Carlos Seabra Pereira
CIEC - Centro Interuniversitário de Estudos Camonianos

13MAR’24

Vida e Figura de Camões (I)


FOTO: DR
Não vale a pena, por ora, voltar à explo- milícia» no Norte de África, perdendo
ração poética do tópico do eclipse em um olho em combate na praça de Ceuta.
Camões, apesar de alguns leitores me Doravante «manqueja dum olho», como
haverem incentivado a que tal fizesse. dirá com rasgo de humor em causa pró-
Basta, para já, lembrar que na memória pria; mas já então os lumes do espírito
cultural de Camões as relações inter- e a lucidez da visão do mundo se desta-
textuais do primeiro verso do soneto «O cam, desde a extraordinária carta «Esta
dia em que naci, moura e pereça» re- vai com a candeia na mão morrer nas de
montavam pelo menos ao Livro de Job, V. M.», enviada de Ceuta, até à magnífi-
no Antigo Testamento, onde se habitua- ca complexidade da elegia «Aquela que
ra a ler pela Vulgata: «Pereat dies in qua de amor descomedido», que ali compõe.
natus sum...». Regressado a Lisboa, 1551-52 serão anos
Vejamos agora alguns dados da biogra- de retorno à existência de pequeno e
fia de Camões que, por entre acertos e «discreto» fidalgo, sem ofício mas com
equívocos, incertezas e confirmações, jeito para expedientes (talvez já en-
podemos ter por seguros. Como veremos saiando os dotes de “escrivão do Pelou-
nas próximas saídas desta Página Camo- rinho” a que poderá recorrer mais tarde
niana, em torno desses dados e em cada em Goa), inacomodado e inadaptado,
período da vida de Camões surge matéria de temperamento expansivo e brigão,
para comentários e interrogações atinen- Resende, entre contactos com figuras e de língua chistosa e espada atrevida.
tes ao contexto e às razões dos seus lan- saraus da Corte e boémia em baixos am- Como veremos, ele mesmo nos ia dei-
ces biográficos, mas também proporcio- bientes populares. Ao mesmo tempo, a xando testemunhos vivazes dessa am-
nando algumas luzes sobre aspectos da arte de retomar velhos cantares popula- bivalência na condição sócio-cultural
sua figura e da sua obra. rizados, em vilancetes e cantigas, per- e na situação económico-social: refi-
Opto, pois, por uma primeira aproxima- mitiam-lhe também glosar motes dados ro-me sobretudo à carta «Uma vossa
ção, conscientemente lacunar ou dubi- por damas de alta estirpe. me deram», enviada de Lisboa a um
tativa, e deixando espaço para posterio- Em todo o caso, Camões ia assegurando seu amigo da «boa Coimbra» e a outra
res desenvolvimentos e aferições. alguma notoriedade, que haveria de se correspondência epistolar «De Lisboa
reflectir em textos como os de Anedotas a um seu amigo, em que lhe dá novas
Luís Vaz de Camões é oriundo de famí- Portuguesas e Memórias Biográficas da da Cidade»; mas refiro-me também à re-
lia originária da Galiza e seguidamente Corte Quinhentista. Histórias e ditos ga- presentação, em casa do cortesão Está-
em parte radicada no norte de Portugal lantes que sucederam e se disseram no cio da Veiga, do auto camoniano El-Rei
e em Lisboa, para depois se espalhar Paço. (manuscrito que foi editado só em Seleuco.
por outros lugares, com ramos de pro- 1980 pelo Professor americano Chris- A arte de ir vivendo entre os insatisfa-
fissões e estatutos vários em Coimbra, topher Lund), onde se lê que dava azo tórios prenúncios de superior reconhe-
em Alenquer e mais a sul. a este retrato físico e psicológico: «Foi cimento dos seus dons e as compensa-
Nasce muito provavelmente em Lisboa, nas feições do corpo alto de estatura, ções falazes na estúrdia vê-se sancio-
por 1524 ou 1525, em estrato social de largo das espáduas, de cabelo ruivo, nada ainda em 1552: envolvido em rixa
pequena nobreza empobrecida, filho de no rosto sardo, e torto dos olhos, era ribeirinha, Camões é preso em Junho
Simão Vaz de Camões e da escalabitana de entendimento agudo, do juízo claro por agressão a um arrieiro da Casa real.
Ana de Sá (de Macedo) – progenitores e raro engenho, na humanidade visto, Só nove meses volvidos receberá Ca-
de que voltaremos a falar. na ciência versado, nas armas destro, mões «Carta de perdão» (datada de 7 de
Em Lisboa decorreu certamente a in- no ânimo valente; concorreram com ele Março de 1553), indissociável da partida
fância e parte da juventude. Mas entre muitos homens de habilidade, os quais para a Índia (a 24 de Março) com seu es-
a adolescência e os anos da primeira ora em casa de um ora em casa doutro tipêndio de soldado, na nau São Bento
juventude, Camões terá vivido também passavam alegremente a vida em dispu- da armada de Fernão Álvares Cabral.
em Coimbra, onde residia, entre outros tas curiosas, ditos galantes, deleitosa Eis que chegava para Camões, soube-o
familiares, o tio Dom Bento, prior do conversação; os poetas davam-se motes melhor ele mais tarde, o marco decisi-
mosteiro de Santa Cruz (com seu colé- e grosavam-nos de repente; os que o vo na sua existência, a que não faltou
gio de Humanidades) e cancelário da não eram julgavam de melhor compo- aventura nem desventura, sob o signo
Universidade. sição.» da viagem e do «apartamento» – «agora
Foram anos juvenis de formação huma- Todavia, em 1550 começa para Camões peregrino vago e errante, / vendo na-
nística e de vida solta, plausivelmente a experiência de soldado expedicioná- ções, linguages e costumes, / céus vá-
no meio estudantil coimbrão à volta de rio do Império, que será seu modo de rios, qualidades diferentes, /...».
1540, seguramente depois em Lisboa, vida por larga parte da sua existência.
usufruindo do magistério de André de Com efeito, realiza então sua «primeira
13MAR’24

Rudesindo Soutelo
compositor e mestre em
Educação Artística e Ensino de Música

Mudança ou conforto
FOTO: DR
Quando há mais politólogos a interpretar o aos sucessores. “A esse servo inútil, lan-
acontecido que políticos a fazê-lo aconte- çai-o nas trevas exteriores”, proclama o
cer, temos um problema difícil de resolver. evangelista, por estar a impedir que as
É importante interpretar o passado para gerações vindouras possam usufruir das
tirar lições, mas mais importante é ter su- criações do nosso presente.
ficientes efetivos a fazer o presente com o Quando isso acontece, só nos resta repetir
qual se possa pagar a dívida contraída com o passado, mas Jacques Attali interpela-
as próximas gerações, pois, já à nascença, -nos: “O que é a decadência senão a con-
vão ter pesados encargos, comprometidos Laurence Olivier interpretando Hamlet (1948) fusão entre memória e repetição?”10, e o
pela nossa ambição, que limitarão o seu filósofo Walter Benjamin lembra-nos que
progresso. Aqueles que consideram não de- introduzir na raiz mesma do pensamen- “o valor singular da obra de arte ‘autên-
ver nada a ninguém e destroem a herança to o acaso, o descontínuo e a materiali- tica’ tem o seu fundamento no ritual em
que receberam para entregar às gerações dade”6. que adquiriu o seu valor de uso original e
vindouras, achando que acontecerá um mi- O “nosso tempo busca muito mas encon- primeiro”11. Daí que a afirmação de Pierre
lagre, só levam ao caos e a uma profunda trou, antes de tudo, uma coisa: o confor- Schaeffer, no Tratado dos objetos musi-
crise social. É preciso, pois, mais políticos to”. Esse conforto, assinala Schoenberg, cais, “se só fazemos a música que sabemos
que politólogos para introduzir as mudan- instalou-se também no mundo das fazer, não fazemos mais do que perpetuar
ças necessárias a fim de que se assegure um ideias, “tornando-nos tão acomoda- a banalidade”12, seja demolidora.
futuro melhor. Mas o que é a mudança? dos como jamais poderíamos supor”. O Afinal, como argumenta Agostinho de Hi-
Mudança implica movimento, procura, conforto foge do movimento e é, pois, pona nas Confissões, Livro XI, “não existe
imprecisão, inexatidão, o vago, o inde- imobilismo, contrário à mudança; ele é agora aquilo que está para vir nem aquilo
terminado, o fluido, o que se repete só “a paralisação que nada produz”7. Elu- que passou”, portanto o presente é a única
aproximativamente, tudo o que as ciên- cidando, ainda, “que a harmonia não é realidade na qual podemos conceber o pas-
cias da natureza excluem por derivação a imobilidade de fatores inertes, porém a sado e o futuro, e é imperativo dar vida aqui
negativa da ideia de precisão. Mudança ponderação de forças numa tensão má- e agora aos bens materiais e imateriais que
também é, segundo escreve Herbert A. xima” e conduz o ensino à vida, “na qual nos representam e que queremos acrescen-
Simon, o que toda a matemática mostra existem tais forças e semelhantes bata- tar ao património que vamos a transmitir.
nas suas conclusões e que já estava im- lhas”. O objetivo é claro: “Representar a Algo ia mal naquele reino shakespearia-
plícito nas premissas, pois “toda a infe- vida na arte”8. no onde muito provavelmente, haveria
rência matemática pode ser considerada Schoenberg assume a tarefa de despertar mais pró-politólogos que políticos, mais
simplesmente como uma mudança de re- no aluno a compreensão para o passado pró-filólogos que escritores, mais pró-e-
presentação que torna evidente o que já e, ao mesmo tempo, abrir-lhe perspe- conomistas que empresários, e até mais
antes era verdadeiro, embora obscuro”1. tivas para o futuro ensinando a única pró-musicólogos que compositores. A
No ensino, a mudança de representação coisa que é eterna: a mudança; e o que ambiguidade existencial do ‘Ser ou não
é assinalada por Schoenberg, em 1911, é transitório: a existência9. Interpretar ser’ deve ser iluminada com uma per-
quando afirma que “o que verdadeira- o passado gera um certo conforto espi- gunta mais transparente: Queremos um
mente o aluno aprende de um professor ritual. Esse património do passado, que presente-futuro ou um presente-passa-
já nele se encontrava antes de vir à cons- nos foi confiado sem qualquer custo, é do? Mudança ou conforto.
ciência”2. À mesma conclusão chegará para usufruirmos temporalmente como
Lev S. Vygotsky, em 1930, quando corro- um empréstimo, ou dívida pública, e es-
bora que “A verdadeira educação consis- tamos obrigados a pagar os juros e devol-
te em despertar na criança aquilo que ela ver o principal, com algum acréscimo, às
já tem em si e ajudá-la a desenvolvê-lo”3. gerações vindouras.
1
Noutro ponto, Schoenberg esclarece que Para não pagar a dívida há quem opte Simon, H. A.: As ciências do artificial. Coim-
bra: Arménio Amado, 1981, p. 228.
“a ordem não vem exigida pelo objeto, por destruir o património que lhe foi 2
Schoenberg, A.: Harmonia. São Paulo:
mas pelo sujeito”4, ao que Simon acres- transmitido, e também há os pregui- UNESP, 2001, pp. 572.
3
Vygotsky, L.S.: Imaginação e Criatividade
centa “resolver um problema não signi- çosos que, como na parábola dos três na Infância. Lisboa: Dinalibro, 2012, p. 87.
fica mais que representá-lo de modo a servos (Mt 25: 14-30), escondem o seu 4
Schoenberg, A.: Op. Cit. p. 72.
5
tornar transparente a solução”5. ‘talento’ para não correr riscos e des- Simon, H. A.: Op. Cit. p. 228.
6
Foucault, M.: A Ordem do Discurso. Lisboa:
Michel Foucault clarifica: “É preciso leixam a obrigação de acrescentar algo Relógio d’Água, 1997, p. 44.
7
aceitar introduzir o alea como categoria ao recebido. Essa omissão criadora de Schoenberg, A.: Op. Cit. pp. 32-33.
8
Ibid.: p. 74.
na produção dos acontecimentos”, e, de- património – seja político, social, am- 9
Ibid.: p. 72.
10
pois de sentir a ausência de uma teoria biental, económico ou cultural – é, em Attali, J.: Ruidos. Ensayo sobre la econo-
mía política de lamúsica. Valência: Ruedo
que permita pensar as relações do casual si mesma, uma destruição da herança Ibérico, 1977, p. 175.
e do pensamento, conclui: “que permita que toda a geração tem o dever de passar 11
Benjamin, W.: A obra de arte na era da
sua reprodutibilidade técnica. In Sobre Arte,
Técnica, Linguagem e Política. Lisboa: Reló-
gio D’Água, 1992, p.82.
12
Schaeffer, P.: Tratado de los objetos mu-
sicales (3ª ed.). Madrid: Alianza Editorial,
2008, p. 335.
13MAR’24

Levi Guerra
médico; prof. catedrático de Medicina, jubilado, UPorto

O Professor Alexandre Linhares Furtado:


O Cirurgião e o Homem
FOTO: DR
Para nós, já no extremo da vida, traz-nos ele fizerem equipa, mas também aos en-
o consolo espiritual da admiração percor- fermeiros e outros técnicos. É de salien-
rer a sua autobiografia. Para os que estão tar a gratidão que manifesta ao Professor
no começo da profissão, é um exemplo lu- Catedrático que o convidou para a vida
minoso. E, digo luminoso, porque Linha- académica, o orientou e o apoiou sempre,
res Furtado, da sua vida, faz refulgir a luz o Professor Bártolo Vale Pereira que, da
do que é ser-se Médico: a competência, Faculdade de Medicina do Porto – onde,
aliada a uma devoção ao doente, sem tré- no meu Curso, o tive como assistente de
guas, numa disponibilidade plena, acima Clínica Cirúrgica – foi para a Faculdade
de interesses financeiros. Este livro deve- de Medicina de Coimbra onde procedeu,
ria ser divulgado entre os novos médicos! segundo Linhares Furtado, à “renovação
Direi que Ele, como médico, confirma a da cirurgia”.
definição de Abel Salazar quando procla- À heroicidade praticada no alcance dos
mou que “um médico que só sabe Medici- fins atingidos, junta-se e revela-se uma
na, nem Medicina sabe”. Deu-se também genialidade de espírito indesmentível,
à Música e à Pintura. que o orna.
Alexandre Linhares Furtado é um huma- Viveu uma conjugalidade matrimonial
no de superior inteligência e de admirável apaixonada com sua esposa, a Dra. Ar-
habilidade manual, o que lhe possibilitou minda, de que geraram quatro filhos e
realizar extraordinárias cirurgias, como vários netos. Dolorosamente viúvo, vê-se
fez. cercado e bem amparado, psicológica e
O pioneirismo que protagonizou no âm- afetivamente, pelos familiares gerados, o
bito das transplantações de órgão (rim, que é uma graça que lhe é expressa por
fígado, pâncreas e intestinos), foi o resul- amor e gratidão dos seus.
tado dessas faculdades que condiciona- Quis, Linhares Furtado, em certo momen-
ram gestos de heroicidade que praticou, to da obra, dizer que não é religioso, o
verdadeiramente notáveis, em ousadias que confirma a sua autenticidade de ser
de improvisação, quando foi caso disso, na vida. Por ele haverá quem a Deus O
nos dias e noites, por vezes seguidas sem agradeça ter existido e ter sido a pessoa
dormir, para atuar na sala de operações que foi, sobretudo os doentes que salvou,
quer na vigilância dos pós-operatórios além dos seus familiares!
quer nas sessões de diálise em execução. Estamos, pois, aqui em Portugal, ante
Deu vida a centenas de doentes. um cirurgião de extraordinária estatura.
Teve uma visibilidade muito honrosa na Deixou, como Mestre, quem lhe sucedeu,
cena científica internacional. com muito valor, e ainda bem! Não é Mes-
Foi, até hoje, já muito justamente home- tre quem não deixa sucessor competente
nageado, com altas condecorações do no ministério...
Estado e em sessões públicas de institui- Na modéstia das minhas palavras quis di-
ções culturais e científicas no Continente, zer aqui que Alexandre Linhares Furtado
Alexandre Linhares Furtado publicou a no estrangeiro. Também nos Açores, onde é, pelo que foi a sua vida, um herói da Me-
sua história pessoal. É uma obra que es- nasceu e viveu até vir para a Faculdade de dicina, de grande sabedoria e com fundos
pelha verdade, a verdade dum homem Medicina de Coimbra. Na sua terra natal, laivos de génio.
autêntico. a Fajã de Cima, a Escola Primária tem o Fica na História da Medicina Portuguesa
E este Homem é, para nós humanos e seu nome, e, no Liceu Antero de Quental, com um nome entre os maiores!
seus pares, um grande motivo de admira- em Ponta Delgada, uma placa assinala a
ção pelo que foi e pelo que fez de extraor- sua passagem por lá.
dinário na sua vida, como médico e como Diga-se ainda que é um cidadão honra-
cidadão. do e agradecido, que a gratidão marca o
Diz que, depois de muito solicitado, es- timbre do caráter de cada um! Assim pro-
creveu esta sua autobiografia para ser cedeu para com seus Pais e para com os
NOTA
útil. E fez bem! É e será muito útil, que seus Professores, nos diversos escalões Memórias e Reflexões: do Cirurgião/do
grandes homens muito ensinam pelo que do processo de aprendizagem por que Cidadão, livro de A.J. Linhares Furtado, será
apresentado no Porto, na sede do Centro Re-
foram e fizeram. passou. Agradece aos colegas que com gional do Norte da Ordem dos Médicos, no
próximo dia 23 de Março às 17h30.
13MAR’24

Aires Henrique Pereira


presidente da CMPV

“Ide só por onde vos levam


os vossos próprios passos”
É, uma vez mais, para a importância da pala- em causa: basta que descortinem “indignida- fossem medidas pelos padrões dos séculos
vra (concretamente na relação entre a lingua- de” (seja lá isso o que for) no processo criati- anteriores” – escreveu Hannah Arendt, no
gem e a verdade, na vida social e na vida polí- vo – como fizeram, recentemente, com Victor prefácio à 1.ª edição de “As origens do Totali-
tica) que aqui me apresento. A palavra – que Hugo, Tolstoi, Mark Twain, Flaubert, e tantos tarismo”. Notem: este texto da grande filóso-
é o instrumento de comunicação que, em dife- outros…; ou incorreção moral ou política – fa judia, que diríamos escrito hoje, é de 1950,
rentes planos, com diferentes objetivos e, por- como nos álbuns do Tintim, do Astérix…; ou do imediato pós-segunda grande guerra, da vi-
tanto, por diferentes modos, partilhamos: eu, racismo – como n’“Os Maias”, do nosso Eça; tória das democracias sobre os totalitarismos.
no serviço aos cidadãos, gerindo a sua polis; ou colonialismo – como em Shakespeare… Não aprendemos nada, de facto. E por isso
vocês, lendo e interpretando a sociedade, no Todos estes autores (e muitos outros) foram estamos hoje perante o mesmo diagnóstico, se
exercício livre da criação literária – a palavra, recentemente submetidos ao processo purifi- bem que num contexto, a todos os títulos, mais
dizia, vem sendo crescentemente maltrata- cador a que nem Homero, nem a Bíblia es- complexo e perigoso: é que agora os mais per-
da e desacreditada. caparam…. Tende, pois, muito cuidado! – que meáveis às sereias do novo paradigma so-
Não deixou de ser uma arma. Bem pelo con- tudo está em revisão à luz deste novo cânone… cial e político são as camadas mais jovens,
trário, é cada vez maior o seu poder, mas O “Grande Irmão” que Orwell anteviu está, de que nos são apresentadas como “as mais qua-
não ao serviço da proximidade e do encontro há muito e cada vez mais, vigilante entre nós, lificadas de sempre” – em áreas tecnológicas,
de pessoas, culturas e povos. sempre pronto a atuar, a censurar, a policiar o seguramente, mas não nas Humanidades, pelo
Não deixou de ser uma arma – só que não é, pensamento, a cancelar. Que a nossa reação que não têm memória nem conhecimento
como historicamente foi, a grande ferra- nunca seja de autocensura, a castração da do caldo de culturas que gera a degenerescên-
menta de combate pela liberdade, pela he- liberdade de expressão e da criação artística! cia social e os conflitos.
terogeneidade e pela alteridade, capturada Se me permitem um conselho (que sei avisado, Estas são as gerações que formámos num “sis-
que está, progressivamente, por um higie- porque vem de um vosso antigo confrade, e tema educativo” simpático e facilitador, que
nismo cultural que, em nome de ideários po- foi, muito provavelmente, nascido na inspira- não incutiu nos jovens o gosto pela arte mais
líticos de vocação totalitária, lhe empobrece ção – talvez mesmo na respiração – do nosso formativa de todas que é a Literatura, deixan-
e apouca a capacidade criadora e signifi- mar, pois o seu autor, o nosso vizinho Régio, do-os portanto permeáveis à manipulação
cante. abancava com regularidade no nosso Diana, da sua grande fonte “informativa” que são
A palavra está, hoje, crescentemente condi- onde passava longas horas a refletir e a es- as redes sociais, onde campeiam mensagens
cionada por grupos de vigilantes do pen- crever) – se me permitirem um conselho, ele manipuladas que são apreendidas como ver-
samento, que só lhe consentem o uso que a aqui vai, decalcado do seu “Cântico Negro”: dadeiras, por quem, por opção, não lê jornais,
converte em instrumento de manipulação “Não, não vades por aí! Ide só por onde/Vos não ouve rádio, não vê telejornais, que são
de massas, na vastidão de um espaço público levam os vossos próprios passos…”. plataformas de informação mediadas por jor-
cuja tribalização é, hoje, uma ameaça real à É que os passos de quem pretende conduzir- nalistas e que, ao contrário das redes sociais,
liberdade e, portanto, à democracia. -nos (sim, a todos nós) levar-nos-iam a sítios permitem tempo e aprofundamento da leitu-
Urge, pois, que despertemos da letargia onde o mundo já esteve e não foi feliz. Marx ra. Aqui radica a crise da imprensa – e é sabido
que (através de subtis e capciosas formas de ensinou-nos que a história se repete – e não que há uma relação direta entre a saúde da
condicionamento do pensamento livre e de modo agradável, como se vê. Hegel disse o imprensa e a força da democracia.
crítico, às mãos destes novos inquisidores) mesmo, por outras palavras: “Aprendemos Correremos o risco de perder uma e outra?
não só cancela a liberdade criadora dos com a História que não aprendemos com a Dados recentes indicam que os jovens com ida-
autores contemporâneos, como se atreve História”. de entre os 15 e os 34 anos foram o segmento
a corrigir o passado, submetendo-o a uma E, por isso, ignorando de onde vem, e can- etário que, há um ano, mais livros comprou em
limpeza moral que distorce a história e sadas da liberdade e da fragilidade (se não Portugal, quer em papel, quer nas novas plata-
os seus contextos sociais e políticos. Uma mesmo da impotência) das democracias, as formas tecnológicas – que se complementam,
simples palavra, uma vaga ideia, um frágil nossas sociedades (que pensávamos defini- pois o que importa é a reconstrução da relação
rumor – tudo, seja lá o que for, que estes tivamente livres) predispõem-se a abraçar entre ler e refletir, entre saber e dialogar.
novos zelotas considerem moral ou politi- poderes autoritários. O ano que vivemos Sabemos que aqui, na Póvoa de Varzim, muito
camente incorreto, e em que vislumbrem – curiosamente, o 50.º do atual ciclo demo- por efeito das políticas de incentivo à leitura
qualquer desvio do seu código purificador crático português – é, a nível mundial, par- (que têm início e epicentro nas escolas e ex-
– será (está a ser) causa bastante para a in- ticularmente sensível para as democracias, pressão maior aquando do Correntes), o amor
clusão, no seu Índex, de autores e obras que várias delas ameaçadas por uma onda auto- aos livros acompanha a formação dos jovens e,
são referências maiores da civilização e da ritária que se apresenta (e é crescentemente através deles, chega às suas famílias. Por isso,
cultura universal, mas que, por convidarem aceite) como a nova normalidade. entre nós, as livrarias não fecham – nos últi-
à reflexão, se tornam intoleráveis neste novo Como chegámos aqui? mos anos até abriram mais duas. E as sessões
mundo que não consente o debate, a dúvi- “Nunca antes o nosso futuro foi mais impre- de lançamento de livros são, aqui, um ato cul-
da, a dificuldade, muito menos a contra- visível, nunca dependemos tanto de forças tural frequente e muito participado.
riedade. políticas que podem, a qualquer instante, Haja, pois, esperança!
Estai, portanto, alerta, caros amigos! A li- fugir às regras do bom senso e do interesse
berdade com que oficiais está seriamente público – forças que pareciam insanas se
13MAR’24

João Ribeiro, 2011

Os corvos de Lisboa É URGENTE A POESIA

Onde estão os corvos de Lisboa? Ao mergulhar nos invólucros do tempo,


Onde estão os que eu via saltitar no passeio, avivo os olhos e os ouvidos
junto à tasca do Sr. Hipólito, na Mouraria, para a trama da máquina que diariamente
onde os homens se iam embebedar à tarde, nos consome os nervos e vai gretando
depois de saírem do trabalho? as nuvens num céu ressequido.
A quem dar os beijos
Onde estão os corvos que subiam os degraus da Sé das manhãs perfumadas O horizonte a desfazer-se
e comiam pedacinhos de pão atirados pelas beatas, do estio? em demasiadas cores quentes
pelo coxo que pedia esmola e pelo cura? De um sol e teimosos tumultos a aferir intentos
permanentemente aceso? malévolos, vadios e traiçoeiros.
Onde estão os corvos que eu via na margem do Tejo, De um mar Doem as imagens negativistas do vírus
em despique com as gaivotas e os pombos? cantar ininterrupto? à guerra, da guerra aos incêndios…

Onde estão? Funchal, 17/11/ 2020 Há o avesso das coisas a germinar, incólume,
Onde estão os corvos de Lisboa? Fátima Pitta Dionísio no assombro dos pássaros alinhados ao vento
a soprar sempre do mesmo quadrante,
Agora só os encontro no brasão da cidade, sem reprimenda que valha o renascer das cinzas.
em bonecos nas lojas de souvenirs Como uma deusa ao sol
e nos postais ilustrados, suspirei em tempo novo Que é feito do pacato país das cinco quinas
sob o som monótono do rodado dos tróleis dos turistas. Procurando o amor universal já gastas de intenções perfeitas e inúteis?
de S. Francisco Qual farol indicará o melhor caminho?
Que São Vicente os proteja e os traga de novo, meu modelo e poeta
os corvos de Lisboa. de elevada inspiração. Nesta disforia de cenários constantes
de caos humano, confuso e hostil,
In “Poemas para a Hora de Ponta”, Funchal, 25 de novembro de 2020 vamos cerceando as sombras
ed. Cordel de Prata, Lisboa, 2020 Fátima Pitta Dionísio para que o trigo cresça nas searas.
Procura-se a cura de horrores,
a delicadeza do silêncio
onde acordemos a luminescência das rochas,
O escritor de livros policiais para despontar a alegria no ladrilhar da vida.
Resta-nos vaticinar no tempo, um novo tempo,
Era famoso, como escritor de policiais, para que se cumpra a poesia.
acima de 40 publicados, alguns premiados.
Filomena Fonseca
Inventava os mais extravagantes enigmas 17/7/2022
e resolvia-os com habilidade de mestre.

Nunca deixava assassinatos por resolver,


ladrões e assaltantes fora da cadeia,
vigaristas e escroques sem castigo. UM SONHO
para Luandino
Até os polícias lhe pediam conselho,
as secretas, a sua avisada consultoria, Uma noite sonhei que S. Francisco de Assis falava com as aves
as empresas de segurança, apoio. quando elas acordavam.
Sonhei uma vez e não mais, porque as aves agora cantam sempre.
Apareceu morto num domingo de Páscoa, Elas respiram o que ouviram, cumprem o que muito aprenderam com
estendido na doca 7 do porto de Lisboa, Francisco: transmitem a santidade livre da natureza.
navalha longa trespassando-lhe o coração, O sopro musical das aves principia quando o sopro do ar é matinal.
ómega no pulso, carteira intacta no bolso.
As criaturas que poisam nos braços dos humanos, que se refugiam
Quem diria, pois, que esta estranha morte nos ramos das árvores e voam pelos ares parecem fragmentos de música.
seria afinal o único grande mistério Lembram os louvores de existir. São as legendas maiores da alegria.
(o único verdadeiro) da sua vida, As aves sustentam um reino de bem e paz. Um reino de santidade
jamais resolvido? livre.

Que coisa!... J. Alberto de Oliveira

In “Quando, Enfim, Fores a Berlim”,


Livro inédito

Joaquim Saial
13MAR’24

ATÉ SEMPRE A-PV


Estamos no fim dos anos 50 do sécu-
lo passado em Lisboa. Éramos um gru-
po de amigos, costumávamos encontrar-
-nos no café San Remo para falarmos de
cinema. Três de nós – o João César Mon-
teiro, o Carlos Saboga e eu – éramos
figueirenses, o António-Pedro Vascon-
celos nascera em Leiria, mas passava
férias na Figueira da Foz, o quinto era
Seixas Santos. Éramos amigos de Ernesto
de Sousa e alguns de nós colaborávamos
na revista Imagem. O António-Pedro e
eu frequentávamos a Faculdade Direito,
sem qualquer gosto ou vocação para
estudar leis, e pertencíamos ao Cineclu-
be Universitário de Lisboa; ele com muita
intervenção nos textos dos programas,
eu com uma participação no Ciclo sobre
Racismo, graças à experiência adquirida
no Cineclube da Figueira da Foz.
Escrevo estas palavras para recordar o Kai-Wai, e Nicholas Ray de quem citava de filme. E assim andámos a ver o
A-PV falecido no dia 5 de Março, cinco a frase “o cinema é a melodia do olhar”. cinema possível, a ler Dickens, algum
dias antes de fazer 85 anos. Dos portugueses contemporâneos afir- Marx, Roger Vailland, Sartre. E a
Rosselini era o realizador preferido mava, mais tarde, ser o João César perder noites, a descer a Avenida da
do António-Pedro Vasconcelos, ao Monteiro muito interessante. Liberdade, a ir até Algueirão, passar
qual juntava os neo-realistas italianos “O que me interessa é a ficção”, di- a noite na casa desabitada da família
do pós-guerra, John Ford, Capra e zia. Cujo paradoxo, segundo ele, era do Seixas, a esperar as dançarinas do
Samuel Fuller nos norte-americanos, “alimentar-se do mal”. Era peremptó- Monumental que nunca apareceram
Jean Renoir nos franceses, Truffaut e a rio: “O bem conquista-se”. Em Shakes- até o António-Pedro ir para Paris, o
“nouvelle vague”, os primeiros filmes de peare encontrava base bastante para César para Londres, o Saboga para
Godard que ele classificava como um a certeza da constante maldade, da Itália (a salto), o Seixas já não recor-
“anarquista de direita convertido em compreensão do mundo em que do para onde, eu regressar à Figueira.
maoista”, Akiro Kurosava, Kenji Mizo- todos vivemos. Para ele, o Céu não
guchi, Yasujiro Osu e mais tarde Wong daria argumento para fazer um gran- António Augusto Menano

Candidaturas à Bolsa Candidaturas Concurso aberto


Amélia Rey Colaço ao prémio nortear para o Oceanos
O Teatro Nacional D. Maria II (Lis- Estão a decorrer, até ao dia 19 de Julho, As inscrições para o Oceanos - Pré-
boa), A Oficina/Centro Cultural Vila as candidaturas ao Prémio Literário Nor- mio de Literatura em Língua Portu-
Flor (Guimarães), O Espaço do Tem- tear 2024. O concurso destina-se a jovens guesa para 2024 estão a decorrer
po (Montemor-o-Novo) e o Teatro da Eurorregião Galiza - Norte de Portu- até 24 de Março. Podem ser inscritos
Viriato (Viseu) voltam a associar-se gal, entre os 16 e os 36 anos, que tenham romance, poesia, conto, crónica e
para a 7.ª edição da Bolsa Amélia escrito uma obra original em português dramaturgia, editados em qualquer
Rey Colaço, uma bolsa de criação ou em galego. O prémio conta com uma lugar do mundo, desde que escritos
destinada a apoiar a produção de dotação financeira de três mil euros e a originalmente em Língua Portuguesa
espectáculos de jovens artistas e publicação da obra em ambas as línguas. e publicados entre 1 de Janeiro e 31
companhias emergentes. As candi- Este prémio é uma iniciativa conjunta do de Dezembro de 2023. [[Link]
daturas já estão abertas e podem Agrupamento Europeu de Cooperação [Link].
ser submetidas até ao dia 23 de Abril Territorial (AECT) da Eurorregião Galiza org/2024/apresentação]
[[Link] - Norte de Portugal, da CCDR Norte, da
-bolsa-amelia-rey-colaco/]. Consellería de Cultura, Educación, For-
mación Profesional e Universidades da
Xunta de Galicia. Concurso bolsas de investigação
para doutoramento
A edição de 2024 do Concurso Anual de Bolsas de Investi-
gação para Doutoramento já abriu. O período de submissão
de candidaturas decorre entre 18 de Março e 18 de Abril.
[Informações: [Link]
Concertos Promenade: “...
Até ao Mar”
Está de volta o ciclo Concertos Promenade ao Coliseu do 13MAR’24
Porto, com direcção artística do maestro Cesário Costa, e
que, em 2024, contará com seis espectáculos dedicados a
descobrir tudo sobre obras emblemáticas, como “Romeu
e Julieta”, de Tchaikovsky, “O Bolero”, de Ravel ou “Um Apresentação de
Americano em Paris”, de Gershwin. Um domingo por mês,
às 11 horas, miúdos e graúdos são convidados a entrar no
livro sobre Rui Vilar
ambiente de uma ou mais obras emblemáticas e a descobrir A Fundação de Serralves, no Porto,
todas as curiosidades, com os comentários do musicólogo recebe a apresentação do livro
Jorge Castro Ribeiro e o design multimédia de Sara Botelho. Os 50 anos de Abril “Emílio Rui Vilar | Memórias de Dois
O primeiro Concerto Promenade acontece a 24 de Março:
Pulsat Percussion Group apresenta “... Até ao Mar”, uma
na AJHLP Regimes”, de António Araújo, Pedro
Magalhães e Maria Inácia Rezola. A
viagem musical baseada na curta-metragem infantil “Paddle Memórias pessoais de jornalistas que apresentação estará a cargo de Artur
to the Sea”. viveram o dia 25 de Abril de 1974. Várias Santos Silva no dia 18 de Março (se-
exposições, debates e a edição do livro gunda-feira), às 18 horas.
“O Mundo Todo no Coração” – cartas da
prisão de Óscar Lopes a Maria Helena,
“Descobrir Paredes” sua companheira, com organização e
O município de Paredes dará início, a 23 de Março (sábado), notas de Manuela Espírito Santo, inte- Mostra de
à V edição do “Descobrir Paredes”, que pretende “dar a
conhecer locais pouco comuns do concelho, descobrindo
gram a comemoração dos 50 anos da
Revolução promovida pela Associação
Teatro de Amadores
pormenores e encantos do território”. O Trilho das Carque- de Jornalistas e Homens de Letras do De 22 a 27 de Março, o Fórum da
jeiras, em Aguiar de Sousa, é a proposta para este primeiro Porto (AJHLP). Que lembranças guardam Maia será palco de mais uma Mostra
passeio aberto a 40 participantes, no máximo. As inscrições os jornalistas dos acontecimentos revo- de Teatro de Amadores, que se in-
estão a decorrer até 20 de Março. A organização alerta para lucionários ocorridos no dia 25 de Abril sere na programação da Primavera
que se as condições meteorológicas não forem as ideais, a de 1974? César Príncipe, Fernando Alves do Teatro – ambas as programações
actividade não se realizará. e Jorge Campos vão contar-nos as suas estão incluídas na Programação das
memórias pessoais de “O Dia Mais Lin- Comemorações dos 50 anos do 25
do”, amanhã (14 de Março), às 18h15, no de Abril da Câmara Municipal da
auditório da AJHLP. Maia. A Mostra de Teatro contará
Porto celebra Dia Nacional “O Dia Mais Lindo” é uma iniciativa in- com a presença de seis associações

dos Centros Históricos tegrada no programa “É Bom Ser Livre”,


tributo aos 50 anos da Revolução de
e grupos culturais do concelho da
Maia, num total de oito espectáculos
O Dia Nacional dos Centros Históricos assinala-se, oficial- Abril. Terá mais duas sessões, em Maio e de teatro. [Programa e outras infor-
mente, a 28 de Março. No Porto, a celebração antecipa-se Junho, com as participações já confirma- mações: [Link]
para o fim-de-semana anterior, dias 23 e 24, e convida a das de Germano Silva e Jaime Froufe de [Link]/17%C2%AA-primavera-do-
descobrir o Centro Histórico da cidade, entre visitas guia- Andrade. -teatro-/-15%C2%BA-maia-ao-palco]
das, exposições, workshops, música, teatro, dança e oficinas As comemorações dos 50 anos do 25 de
diversas. O programa, constituído por mais de 80 activida- Abril da AJHLP abriram com a publicação
des, engloba iniciativas para todos os públicos, incluindo do livro “O Ápis”, de Mário Sacramento e
crianças e famílias. Museus, monumentos, igrejas e outras ilustrações de Roberto Machado, e uma Revista de Filosofia
instituições vão abrir as portas à população e visitantes,
com iniciativas promovidas por 33 entidades, sob a coor-
exposição de livros proibidos pela dita-
dura – “O Leitor do Lápis Azul”. Entretan-
do Direito
denação da Direcção Municipal de Cultura e Património da to, foi também inaugurada a exposição Será lançada oficialmente no dia
Câmara do Porto e a colaboração da empresa municipal “Afrontamento - Ousar Editar a Partir de 25 de Abril, na Câmara Municipal
Ágora. 1963” e que pode ser visitada até ao dia do VII Arrondissement de Paris, a
A grande maioria das actividades é gratuita, mas sujeita 12 de Abril (sexta-feira). É uma mostra nova Revista de Filosofia do Direito
a inscrição prévia. Todas as iniciativas têm acesso livre, dos livros mais emblemáticos desta edi- [“Revue de Philosophie du Droit”], a
mediante as lotações do espaço de algumas das apresenta- tora portuense, que afrontou a ditadura cujo comité Paulo Ferreira da Cunha
ções em espaço fechado. [Programa: [Link] e resiste agora ao assédio dos grandes pertence e cujo número inaugural
documents/Programa_completo_do_Dia_Nacional_dos_Cen- grupos editoriais. conta com um artigo da sua autoria.
tros_Hist%C3%[Link]] “É Bom Ser Livre” desenrola-se ao longo [[Link]
de 2024, destacando-se da programação -de-philosophie-du-droit]
a arruada poética, com partida do Museu
Militar, antiga sede da Pide, tendo a par-
XI Festeatro ticipação do Teatro do Bolhão e outras
O Grupo Dramático de Vilar do Paraíso apresenta sexta-feira escolas de teatro do Porto. Terá lugar no Roteiros queirosianos
(15 de Março), no XI Festeatro - Festival de Teatro Amador
de Vila Nova de Gaia, “Fando e Lis”, de Fernando Arrabal.
dia 23 de Abril.
na Sala de Convívio
A AJHLP editará ainda uma antologia
Para M/16, “é uma peça de teatro absurdo e surrealista que poética e um número especial da revista do Lote 398
conta a história de Fando e a sua amante Lis, numa jornada Gazeta Literária dedicado aos que abri- A Sala de Convívio do Lote 398
por um mundo caótico e desolado”. No dia seguinte, é com ram as portas de Abril. Está ainda previs- promove e recebe, na próxima sex-
uma questão que a Associação Recreativa de Perosinho par- to um ciclo de debates sobre liberdade ta-feira, dia 15 de Março, às 21 horas,
ticipa no XI Festeatro, que encerra a 22 de Março. “De quem de imprensa, justiça e literatura. Uma novo encontro cultural. Sob o tema
é a casa?”, com encenação de José Custódio, é para M/12. Os exposição de pintura, de Marta Nunes, a “Roteiros queirosianos em Portugal e
espectáculos iniciam-se às 21h30. inaugurar a 10 de Abril, e uma mostra in- no estrangeiro”, terá como orador o
O Festeatro é uma iniciativa da Federação das Colectivida- ternacional de arte postal, em Setembro. historiador, arqueólogo e professor
des de Gaia, que conta com o apoio do município de Gaia, J. A. Gonçalves Guimarães. Fundada
a decorrer no Auditório Municipal de Gaia, reunindo 10 em 1976, a Sala de Convívio do Lote
companhias de teatro gaienses, e culminando com a festa 398, na Rua Vila de Catió, nos Olivais,
de encerramento e homenagem a uma personalidade do Lisboa, assume-se como Um Espaço
teatro. [Programação: [Link] de Cultura de Vida em Condomínio e
cultura/2024/2024_02/2024_02_20_festeatro_2024.pdf] este é já o 30.º tema em partilha.
13MAR’24
Para assinar online: [Link]

À VENDA: PORTO // Instituto Cultural D. António Ferreira Gomes, Museu Nacional Soares dos Reis, Árvore, \, Tabacaria Batalha (Praça da Batalha, 151),
Tabacaria Maria Margarida (Rua Antero de Quental, 472), Tabacaria O Papelão (Rua da Contituição, 15), Pico - Papelaria - Tabacaria (Av. Fernão Magalhães, 629)
GONDOMAR // Papelaria Juvenil (Rua Route Crasto, 71/75) GAIA // El Corte Inglês, Livraria Velhotes (Rua Gil Eanes) V. N. FAMALICÃO // Pipes bazar (Av. 25 de Abril, 124) 13MAR’24
PÓVOA DE VARZIM // Tabacaria Kip 4 u (Praça Marquês do Pombal) VILA REAL // Livraria Traga-Mundos AMARANTE // Livraria Zé (Av. Joaquim Leite de Carvalho, 16)

Você também pode gostar