Questões práticas 5
António (A), Belarmino (B), Carminda (C), Daniela (D) e Elisabete (E)
constituíram e registaram uma sociedade anónima – Transportes à
medida, S.A. – com um capital social de € 50.000 e tendo por objeto a
exploração de aluguer de viaturas e motociclos. O referido capital
está representado por 50.000 ações tituladas e nominativas, com o
valor nominal de € 1 cada uma. A, B e C subscreveram, cada um
deles, ações representativas de 20% do referido capital social. D e E
subscreveram ações representativas, respetivamente, de 35% e de
5% do mesmo capital social.
Tendo-se tornado necessário obter um financiamento bancário (no
montante de 100.000 euros, a vencer juros à taxa anual de 6%) para
a instalação de um novo estabelecimento comercial de venda ao
público da sociedade, a instituição bancária exigiu garantias:
i. o sócio A prestou uma fiança em benefício da instituição
de crédito para garantia da obrigação de reembolso do
empréstimo e juros pela sociedade devedora;
ii. os sócios B, C e D prestaram, cada um, um aval
(mediante assinatura no verso) numa livrança subscrita em
branco (com pacto de preenchimento, autorizando a
instituição bancária à inscrição no título do valor total –
capital emprestado, juros, comissões – em dívida à data do
vencimento da livrança) pela sociedade em benefício da
mesma instituição bancária. Os três avalistas celebraram um
pacto de aval, estabelecendo que, nas relações entre si, é
igual a quota-parte de cada um na dívida/obrigação
garantida e estipulando o direito de regresso entre os
avalistas, no caso de algum ou alguns deles, acionados pelo
beneficiário da livrança, satisfazerem a obrigação garantida
além da sua quota parte.
iii. o sócio E constituiu uma hipoteca sobre um automóvel
de luxo, de que era proprietário, em benefício da instituição
de crédito.
Supondo que a sociedade entra em incumprimento
quanto ao pagamento das prestações (já estando em
falta prestações que equivalem a 1/7 do total do
montante emprestado), como pode proceder a
instituição bancária para obter o cumprimento por
parte dos garantes da obrigação garantida? Refira
quais os direitos dos garantes, no caso de satisfação
à instituição de crédito do valor em dívida por eles
garantido?
R.: Para cumprimento da obrigação de reembolso do montante
emprestado e dos juros (vencidos), a instituição de crédito pode
sempre executar o património da sociedade devedora (arts.
601.º, 817.º CC).
Existindo património e bens de terceiros vinculados à garantia
do crédito da instituição de crédito credora, esta pode executar 1
judicialmente tal património e/ou bens de terceiros (art. 818.º
CC) até obter a satisfação integral do seu crédito.
i. Fiança prestada pelo sócio A:
A fiança é uma garantia pessoal prestada por um terceiro,
que não o devedor, por meio da qual o fiador assegura com
o seu património a satisfação do direito do credor (art. 627.º,
1 do CC). A obrigação do fiador é acessória da obrigação do
devedor (art. 627.º, 2 do CC). Como acessória, a natureza
civil ou comercial da fiança dependerá do caráter (civil ou
comercial) da obrigação principal (art. 101.º Código
Comercial).
No caso concreto, tendo o empréstimo (bancário) 2 sido
obtido pela sociedade3 comercial por quotas para o exercício
da sua atividade comercial4, a obrigação de reembolso do
montante emprestado à sociedade é uma obrigação
comercial, pelo que a fiança é comercial, ainda que o fiador
(sócio A) não seja comerciante (art. 101.º). Assim, o fiador
(sócio A) não tem o benefício da excussão (prévia) dos bens
do devedor (previsto, como regra supletiva, para a fiança
civil5 no art. 638.º, 1 CC).
Assim, neste caso de incumprimento pela sociedade
(devedora) da obrigação contratual de reembolso afiançada,
a instituição bancária (credor) pode optar por exigir
imediatamente ao fiador (sócio A) o cumprimento da
obrigação afiançada e, na falta de satisfação da obrigação,
executar os bens do fiador. Cumprindo o fiador (sócio A) a
obrigação afiançada, fica sub-rogado, na medida do seu
cumprimento, no direito do credor (art. 644.º CC), ou seja, o
fiador, que satisfaz o direito do credor, poderá depois
demandar (e executar o património do) o devedor para
cumprir a obrigação principal (na medida da satisfação dada
ao direito do credor), correndo desta forma o fiador o risco
da incapacidade patrimonial do devedor.
ii. Aval por três sócios
1
Recorrendo à ação executiva, prevista e regulada no Código de Processo Civil.
2
Os contratos bancários, sendo operações bancárias, são contratos comerciais (arts. 362.º e 363.º CCom.).
3
Que é comerciante (art. 13.º, 2º Código Comercial).
4
As sociedades comerciais têm por objeto social obrigatoriamente atos ou atividades comerciais (art. 1.º, 2 CSC).
5
O benefício da excussão significa que o credor só pode exigir do fiador civil o cumprimento da obrigação garantida
se o devedor já não dispuser de bens suficientes para a satisfação integral do crédito garantido. A fiança civil, a que
seja aplicável o art. 638.º, 1 CC obriga, assim, o credor a executar previamente o património do devedor antes de
reclamar do fiador o cumprimento em falta.
O aval é uma garantia pessoal do pagamento de uma
quantia inscrita num título de crédito / título cambiário. No
caso presente, os sócios B, C e D prestaram, cada um, um
aval (mediante assinatura no verso) numa livrança subscrita
em branco com pacto de preenchimento (o que é admissível
– cfr. art. 10.º e penúltimo parágrafo do art. 77.º da LULL)
pela sociedade devedora.
O pagamento da livrança subscrita pela sociedade comercial
foi assim garantido por três avales (art. 77.º, último
parágrafo da LULL), prestados pelos três sócios, que são
terceiros em relação ao subscritor da livrança (art. 30.º da
LULL).
Os avales consideram-se como resultando da simples
assinatura dos dadores de aval no verso da livrança (art.
31.º, 3.º parágrafo da LULL). Na falta de indicação da pessoa
por quem é dado o aval, entender-se-á que o aval é dado ao
subscritor da livrança (arts. 31.º, último parágrafo, em
conjugação com o art. 77.º, último parágrafo LULL), ou seja,
que é dado à sociedade comercial.
Enquanto garantia pessoal, pela prestação de aval, o
avalista vincula todo o seu património ao pagamento do
montante inscrito na livrança (ou a ser nela inscrito em
conformidade com o pacto de preenchimento da livrança em
branco). O avalista é responsável nos mesmos termos que o
subscritor da livrança avalizado (art. 32.º, 1.º parágrafo
LUUL).
O aval assegura que, em caso de incumprimento – isto é,
não pagamento do montante que resulta da livrança, ao qual
está associado, por parte do subscritor da livrança –, o
credor (portador do título na data do vencimento) poderá
exigir diretamente do avalista a satisfação do seu crédito.
Tendo havido a prestação de três avales, o subscritor da
livrança e os avalistas são todos solidariamente
responsáveis para com o beneficiário (e portador) da
livrança (art. 47.º, 1.º parágrafo LULL), a instituição de
crédito credora.
O beneficiário (e portador) da livrança (art. 47.º, 1.º
parágrafo LULL), a instituição de crédito credora, pode exigir
o pagamento da quantia incorporada na livrança de
qualquer dos responsáveis (coobrigados), individual ou
coletivamente (art. 47.º, 2.º parágrafo LULL), ou seja, do
subscritor da livrança e/ou dos três avalistas.
O avalista, que seja chamado a pagar e satisfaça a
obrigação cambiária inscrita na livrança, fica sub-rogado nos
direitos emergentes da livrança contra a pessoa a favor de
quem foi dado o aval, isto é, contra o subscritor (devedor) da
livrança (arts. 32.º, 3.º parágrafo, 77.º, último parágrafo
LULL).
A LULL não prevê o direito de regresso entre os avalistas,
caso a livrança tenha sido garantida por vários avales e um
dos avalistas venha a pagar a obrigação cambiária inscrita
na livrança. Todavia, tendo sido celebrado um pacto de aval
entre os três avalistas a estabelecer o direito de regresso
entre eles, o avalista que seja chamado a pagar e satisfaça a
obrigação cambiária ao beneficiário da livrança tem direito
de regresso contra os outros dois avalistas (1/3 a cada um
dos dois avalistas).
Os avalistas que, nas relações internas, tenham entre si realizado
o regresso, continuam a poder, quanto à sua quota parte, sub-
rogar-se nos direitos emergentes da livrança contra a pessoa a
favor de quem foi dado o aval, isto é, contra o subscritor
(devedor) da livrança (arts. 32.º, 3.º parágrafo, 77.º, último
parágrafo LULL).
iii. Hipoteca sobre um automóvel, prestada por terceiro
(sócio E):
A hipoteca é uma garantia real, que pode ser prestada pelo
devedor ou por terceiro, por meio da qual uma coisa imóvel
ou móvel sujeita a registo (como é o caso dos veículos
automóveis) é afeto para garantia do cumprimento de uma
obrigação (arts. 686.º, 1, 688.º, 1 CC) e só produz efeitos
entre as partes depois do respetivo registo, neste caso, no
registo automóvel (art. 687.º CC). O credor hipotecário
(beneficiário da hipoteca) tem o direito de ser pago pelo
valor das coisas imóveis ou coisas móveis sujeitas a registo,
com preferência / prioridade sobre os demais credores (do
devedor) que não gozem de privilégio especial 6 ou de
prioridade7 de registo (art. 686.º, 1 CC).
No caso de incumprimento de obrigação garantida por
hipoteca prestada por terceiro, o credor hipotecário pode
executar logo o bem hipotecado, sem ter de executar
primeiramente o património do devedor.
Então, neste caso de incumprimento pela sociedade
(devedora) da obrigação contratual de reembolso afiançada,
a instituição bancária (credor) pode executar imediatamente
a hipoteca8 (obtendo judicialmente a satisfação do seu
crédito pelo produto da venda judicial do bem objeto da
hipoteca), ainda que a titularidade/propriedade sobre o bem
6
É o que sucede com os privilégios imobiliários especiais por força do art. 751.º CC, que são garantias reais que
prevalecem sobre a hipoteca, mesmo que esta tenha sido anteriormente registada.
7
Sendo o bem objeto de mais do que uma hipoteca, estas graduam-se pela data do seu registo, sendo o credor da
primeira hipoteca a ser pago em primeiro lugar. Isto no que toca ao concurso entre dois credores hipotecários cuja
garantia incida sobre o mesmo bem.
8
Existindo outras garantias reais sobre o mesmo bem, que prevaleçam ou tenham prioridade, o credor hipotecário
corre o risco de o seu crédito não ser (parcial ou totalmente) satisfeito pelo valor do bem hipotecado.
hipotecado tenha sido transmitida a outrem em momento
subsequente à prestação e registo da hipoteca. O terceiro
garante (sócio E) fica sub-rogado (sub-rogação legal), na
medida do seu cumprimento, no direito da instituição
bancária credora (art. 592.º e 593.º CC). Tendo o bem
hipotecado sido executado (e vendido à ordem do tribunal),
o sócio E poderá depois demandar (e executar o património
do) o devedor (sociedade) para cumprir a obrigação
principal, correndo desta forma o risco da incapacidade
patrimonial do devedor.
O regime do penhor civil (incluindo do penhor de quotas e
ações) é semelhante9 ao regime da hipoteca, pelo que, se
em vez da hipoteca sobre o automóvel, se tratasse de um
penhor sobre um quadro, a solução do caso seria a mesma.
9
Com as necessárias adaptações...arts. 678.º, 679.º CC.