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PONTIFÍCIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE CAMPINAS

CENTRO DE LINGUAGEM E COMUNICAÇÃO


FACULDADE DE PUBLICIDADE E PROPAGANDA

Comunicação de massa, gosto popular


e ação social organizada
Paul F. Lazarsfeld e Robert K. Merton
LAZARSFELD, Paul F. e MERTON, Robert K. In: ROSENBERG, Bernard e WHITE, David
Manning. Cultura de massa. São Paulo : Cultrix, 1973, p. 527-545.
Os problemas que prendem a atenção dos homens mudam, e não mudam ao acaso,
mas quase sempre de acordo com as mutáveis exigências da sociedade e da economia. [...]
Como indica uma multidão de conferências, livros e artigos recentes, o papel do rádio, da
imprensa e do filme na sociedade passou a ser um problema de interesse para muitos e uma
fonte de preocupações para alguns. Essa mudança que se verifica no interesse público
parece ser produto de várias tendências sociais.
Preocupação Social Com os Meios de Comunicação de Massa
Muitos estão alarmados pela ubiqüidade e pelo poder potencial dos meios de
comunicação de massa. Segundo uma impressão generalizada, os meios de comunicação de
massa constituem um poderoso instrumento, que tanto pode ser usado para o bem quanto
para o mal e, na ausência de controles adequados, a última possibilidade, de um modo
geral, é a mais provável. Pois estes são os meios de propaganda, e os norte-americanos têm
um medo todo especial do poder da propaganda. Como frisou recentemente, a nosso respeito, o observador inglês
William Empson: “Eles acreditam em maquinismos com mais entusiasmo do que nós; e a propaganda moderna é uma
máquina científica; por isso lhes parece óbvio que um simples homem que raciocina não pode enfrentá-Ia. Tudo isso
produz Uma atitude curiosa, donzelesca, em relação a quem quer que esteja fazendo propaganda. “Não deixem aquele
homem chegar perto de mim. Não o deixem tentar-me, porque, se ele o fizer, com certeza caire”.”
A ubiqüidade dos meios de comunicação de massa leva muita gente a uma crença quase mágica no seu enorme
poder. Mas existe outra base, provavelmente mais realística, para a tão difundida preocupação com o papel social dos
meios de comunicação de massa; uma base relacionada com os tipos cambiantes de controle social exercido por
poderosos grupos de interesse da sociedade. Os principais grupos de poder, entre os quais as empresas organizadas
ocupam o lugar mais espetacular, passaram a adotar, progressivamente, técnicas de manipulação do público de massa
através da propaganda em lugar de um meio mais direto de controle. As organizações industriais já não obrigam
crianças de oito anos a tomar conta de uma máquina durante catorze horas" por dia; adotam programas complicados de
"relações públicas". Colocam grandes e impressionantes anúncios nos jornais do país; patrocinam inúmeros programas
de rádio; aconselhados pelos assessores de relações públicas, organizam certames com distribuição de prêmios, fundam
instituições de beneficência e apóiam causas dignas de apoio. O poder econômico parece haver reduzido a exploração
direta, passando a um tipo mais sutil de exploração psicológica, conseguindo, em grande parte, pela disseminação da
propaganda através dos meios de comunicação de massa.
Essa mudança na estrutura do controle social merece um exame minucioso. As
sociedades complexas estão sujeitas a muitas formas diferentes de controle organizado.
Hitler, por exemplo, valeu-se da mais visível e direta dessas formas: a violência
organizada e a coerção de massa. Neste país, a coerção direta foi reduzida ao mínimo.
Se as pessoas não adotarem as crenças e atitudes advogadas por algum grupo de poder –
digamos, por exemplo, a Associação Nacional de Fabricantes – não podem ser
liquidadas nem metidas em campos de concentração. Os controladores das opiniões e
crenças da nossa sociedade apelam menos para a força física e mais para a persuasão de
massa. O programa de rádio e o anúncio institucional substituem a intimidação e a
coerção. A manifesta preocupação com as funções dos meios de massa baseia-se, em
parte, na observação válida de que esses meios assumiram a tarefa de fazer que os
públicos de massa se conformem com o status quo social e econômico.
Uma terceira causa de ampla preocupação com o papel social dos meios de
massa encontra-se nos seus hipotéticos efeitos sobre a cultura popular e o gosto estético do público. Afirma-se que, na
medida em que o tamanho desse público foi aumentando, o nível do gosto estético se deteriorou. E existe o temor de
que os meios de massa lisonjeiam deliberadamente os gostos vulgarizados contribuindo, assim, para uma deterioração
ainda maior.
Parece provável que estes sejam os três elementos organicamente relacionados da nossa grande preocupação
com os meios de comunicação de massa. Em primeiro lugar, muitos receiam a ubiqüidade e o poder potencial desses
meios. Já dissemos que isto não passa de um medo indiscriminado de um bicho-papão abstrato, nascido da insegurança
da posição social e de valores fragilmente esposados. A propaganda parece ameaçadora.

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Em segundo lugar, existe a preocupação com os efeitos atuais dos meios de comunicação de massa sobre o seu
público enorme, sobretudo a possibilidade de que as continuadas investidas desses meios acabem provocando uma
rendição incondicional das faculdades críticas e um conformismo que não pensa.
Finalmente, existe o perigo de que os instrumentos tecnicamente adiantados da comunicação de massa
constituam meio caminho andado para a deterioração dos gostos estéticos e dos padrões culturais populares. E, como
dissemos, há realmente uma razão substancial para a preocupação com os efeitos sociais imediatos dos meios de
comunicação de massa.
Uma análise do estado atual dos conhecimentos reais sobre o papel social dos meios de comunicação de massa
e seus efeitos sobre a comunidade norte-americana contemporânea é uma tarefa ingrata, pois os conhecimentos sólidos
que se possuem são impressionantemente escassos. Pouco mais se pode fazer além de estudar a natureza dos problemas
por métodos que, no correr de muitas décadas, nos fornecerão finalmente os conhecimentos que buscamos. Muito
embora não seja este um preâmbulo alentador, proporciona o contexto necessário à determinação da pesquisa e das
conclusões tentativas dos que se dedicam profissionalmente ao estudo dos meios de massa. Um reconhecimento do
terreno indicará o que sabemos, o que precisamos saber e localizará os pontos estratégicos que demandam investigações
adicionais.
Sair à procura dos “efeitos” dos meios de massa sobre a sociedade é tentar a solução de um problema mal
definido. Vale a pena destacar três facetas do problema e examinar cada uma de per si. lndaguemos, portanto, primeiro
que tudo o que sabemos a respeito dos efeitos da existência desses meios em nossa sociedade. Em segundo lugar,
examinemos os efeitos da estrutura particular da propriedade e da operação dos meios de massa neste país, estrutura
essa que difere apreciavelmente da que se encontra fora daqui. E, por fim, consideremos aspecto do problema mais
diretamente relacionado com as políticas e táticas que governam a utilização desses meios visando a propósitos sociais
definidos: os nossos conhecimentos relativos aos efeitos dos conteúdos particulares disseminados pelos meios de
comunicação de massa.
O Papel Social do Mecanismo dos Meios de Comunicação de Massa
Que papel pode ser atribuído aos meios de comunicação de massa pelo simples fato de existirem? Quais são as
implicações, para a nossa sociedade, de uma empresa de Hollywood, da Radio City ou de Time-Life-Fortune? Essas
perguntas, naturalmente, só podem ser discutidas em termos flagrantemente especulativos, visto que não há
possibilidade de experimentação nem de um rigoroso estudo comparativo. Os cotejos com outras sociedades que não
têm esses meios de massa seriam tão vagos que não forneceriam resultados decisivos, e os confrontos com uma época
anterior da sociedade norte-americana envolveriam afirmativas aproximadas em lugar de demonstrações precisas. Num
caso como esse, impõe-se claramente a concisão. E as opiniões devem ser enunciadas com cautela.
De acordo com o nosso julgamento tentativo, o papel social desempenhado pela própria existência dos meios
de comunicação de massa tem sido, em regra geral, superestimado. Quais são as bases de um julgamento assim?
É claro que os meios de massa atingem públicos enormes. Aproximadamente setenta milhões de norte-
americanos vão ao cinema todas as semanas; a circulação dos nossos jornais diários é de uns quarenta e seis milhões, e
nos trinta e quatro milhões de lares norte-americanos equipados com um aparelho de rádio, o norte-americano médio
ouve rádio durante três horas por dia, mais ou menos. Estas cifras são formidáveis. Trata-se, porém, pura e
simplesmente de cifras de fornecimento e consumo, que não registram o efeito dos meios de comunicação de massa.
Relacionam-se apenas com o que as pessoas fazem, e não com o impacto social e psicológico dos meios. O fato de
sabermos o número de horas em que as pessoas conservam o rádio ligado não nos proporciona indicação alguma do
efeito que exerce sobre elas o que elas ouvem no rádio. O conhecimento dos dados de consumo no terreno dos meios de
comunicação de massa está longe de demonstrar-lhes o efeito sobre o comportamento dos ouvintes, as suas atitudes e o
seu modo de ver as coisas.
Como dissemos há pouco, não podemos recorrer à experiência comparando a sociedade norte-americana
contemporânea que possui com a que não possui os meios de comunicação de massa. Tentativamente, porém, é possível
pôr em paralelo o seu efeito social e o efeito social, digamos, do automóvel. Não é improvável que a invenção do
automóvel e o seu desenvolvimento, que o transformou num artigo de massa, tenha tido sobre a sociedade um efeito
significativamente maior que a invenção do rádio e o seu desenvolvimento, que o transformou num meio de
comunicação de massa. Considerem-se os complexos sociais em que entrou o automóvel. A sua simples existência
exerceu pressão no sentido de se construírem estradas imensamente melhoradas e, com elas, a mobilidade cresceu
muitíssimo. A forma das aglomerações metropolitanas sofreu de maneira significativa a influência do automóvel. E é
possível admitir que as invenções que alargam o raio de movimento e de ação exercem maior influência sobre as
perspectivas sociais e as rotinas cotidianas do que as invenções que abrem caminho para as idéias -idéias que podem ser
evitadas pelo afastamento, defletidas pela resistência e transformadas pela assimilação.
Admitindo-se, por um momento, que os meios de comunicação de massa representam um papel relativamente
secundário na modelagem da nossa sociedade, por que são eles objeto de tanta preocupação e tanta crítica populares?
Por que tanta gente se aflige com os "problemas" do rádio, do filme e da imprensa e tão pouca com os problemas,

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digamos, do automóvel e do avião? Além das causas dessa preocupação, que já tivemos ocasião de assinalar, existe uma
base psicológica inconsciente de preocupação derivada de um contexto sócio-histórico.
Muitos fazem dos meios de comunicação de massa um alvo de crítica hostil porque se sentem ludibriados pelo
desenrolar dos acontecimentos.
As mudanças sociais imputáveis aos "movimentos de reforma" podem ser lentos e insignificantes, mas
acumulam-se. Os fatos superficiais são suficientemente familiares. A semana de sessenta horas deu lugar à de quarenta;
o trabalho dos menores foi progressivamente restringido; com todas as suas deficiências, a educação universal gratuita
institucionalizou-se progressivamente. Estas e outras conquistas representam uma série de vitórias dos reformistas. E
agora, as pessoas dispõem de mais tempo de lazer. Têm, ostensivamente, maior acesso à herança cultural. E como
empregam elas esse tempo livre, tão penosamente conseguido? Ouvem rádio e vão ao cinema. De uma forma ou de
outra, esses meios de comunicação de massa parecem ter fraudado os reformistas dos frutos das suas vitórias. Travou-se
a luta pela liberdade, pelo lazer, pela educação popular e pela segurança social na esperança de que, libertadas das
algemas que as tolhiam, as pessoas aproveitassem os principais produtos culturais da nossa sociedade Shakespeare,
Beethoven, talvez Kant. Ao invés disso, porém, elas se voltam para Faith Baldwin, Johnny Mercer ou Edgar Guest.
Muitos se sentem embaídos com o prêmio alcançado. Isto se parece, em vários pontos, com a experiência
inicial de um rapaz no difícil terreno da primeira paixonite. Profundamente perturbado pelos encantos da amada, ele
economiza a mesada por semanas a fio e, finalmente, consegue dar a ela uma bonita pulseira. Ela acha o presente
"simplesmente divino" -tão divino que, na mesma hora, marca um encontro com outro rapaz a fim de exibir a nova jóia.
As nossas lutas sociais têm tido um desfecho semelhante.
Durante gerações, os homens lutaram para dar às pessoas maior tempo de lazer e elas, agora, em vez de gastar
esse tempo com a Columbia University, gastam-no com a Columbia Broadcasting System.
Por menos que esse sentido de traição explique as atitudes preponderantes em relação aos meios de
comunicação de massa, cumpre notar, mais uma vez, que a simples presença dos citados meios talvez não influa tão
profundamente em nossa sociedade quanto se supõe.
Algumas Funções Sociais dos Meios de Comunicação de Massa
Prosseguindo no exame do papel social que se pode atribuir aos meios de comunicação de massa em virtude da
sua "simples existência", nós nos abstraímos temporariamente da estrutura social em que esses meios têm o seu lugar.
Não tomamos em consideração, por exemplo, os diversos efeitos dos meios de comunicação de massa sob os notáveis
sistemas de propriedade e controle, importante fator cultural que será discutido mais adiante.
Os meios de massa exercem muitas funções sociais que podem ser objeto de pesquisa aturada. Dessas funções,
destacamos apenas três.
A função de conferir status. Os meios de comunicação de massa conferem status a questões públicas, pessoas,
organizações e movimentos sociais.
Tanto a experiência comum quanto a pesquisa nos confirmam na opinião de que a posição social das pessoas
ou dos planos de ação sociais se eleva quando despertam a atenção favorável dos meios de massa. Em muitas áreas, por
exemplo, o apoio emprestado pelo Times a um candidato político ou a um plano de ação pública é considerado
significativo; esse apoio é tido como vantagem positiva para o candidato ou para o plano de ação. Por quê?
Para alguns, as opiniões editoriais do Times representam o acatado julgamento de um grupo de entendidos,
que, por isso mesmo, exige o respeito dos leigos. Mas esse é apenas um elemento da função de prestação de status
exerci da pelos meios de comunicação de massa, pois a simples atenção dos meios acentua o status, independentemente
de qualquer apoio editorial.
Os meios de massa outorgam prestígio e acentuam a autoridade de indivíduos e grupos legitimando-lhes o
status. O reconhecimento pela imprensa, pelo rádio, pelas revistas ou pelos noticiários cinematográficos é prova de que
alguém triunfou, de que alguém é suficientemente importante para destacar-se das vastas massas anônimas, de que o
procedimento e as opiniões de alguém são tão significativos que fazem jus à atenção pública.
Vê-se claramente como se opera a função de conferência de status no tipo de publicidade de recomendação de
um produto feita por "pessoas eminentes". No interior de amplos círculos da população (embora não se verifique o
mesmo em certos estratos sociais escolhidos), tais recomendações não somente aumentam o prestígio do produto mas
também refletem prestígio sobre a pessoa que as fez. Elas proclamam publicamente que o grande e poderoso mundo
comercial considera essa pessoa possuidora de um status tão elevado que a sua opinião é importante para muita gente.
Numa palavra, a sua recomendação é uma recomendação do próprio status.
A ilustração ideal, ainda que grosseira, desse padrão circular de prestígio encontra-se na série de propagandas
de Lord Calvert, centralizada nos "Homens de Distinção". A firma comercial e a testemunha comercializada do mérito
do produto empenham-se numa série infindável de batidinhas recíprocas nas costas. Com efeito, um homem distinto se
congratula com um uísque distinto, que, através do fabricante, se congratula com o homem distinto por ser dono de
tamanha distinção que é procurado para recomendar a distinção do produto. O funcionamento dessa sociedade de
admiração mútua pode ser tão falta de lógica quanto eficaz. Os públicos dos meios de comunicação de massa,

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aparentemente, endossam a crença circular: "Se você for realmente importante, estará no centro da atenção de massa e,
se estiver no centro da atenção de massa, será, sem dúvida, importante."
A função de concessão de status entra assim na ação social organizada, legitimando planos de ação, pessoas e
grupos que recebem o apoio dos meios de massa. Teremos ensejo de observar como opera essa função em conexão com
as condições que favorecem a máxima utilização dos meios para finalidades sociais específicas. Por enquanto, tendo
analisado a função de conferência de status, estudaremos outra: a imposição de normas sociais através dos meios de
comunicação de massa.
A imposição de normas sociais. Frases de efeito como "o poder da imprensa" (e de outros meios de massa) ou
"o clarão ofuscante da publicidade" referem-se presumivelmente a essa função. Os meios de massa podem iniciar uma
ação social organizada "expondo" condições que aberram da moral pública. Entretanto, não se deve supor
prematuramente que esse padrão consiste simplesmente em divulgar tais aberrações. Nesse sentido, alguma coisa nos
ensinam as observações feitas por Malinowski entre os seus queridos ilhéus de Trobriand. Entre estes últimos, refere
ele, só se inicia uma ação organizada em relação ao comportamento que aberra de uma norma social quando há um
anúncio público da aberração. Não se trata unicamente de inteirar os membros do grupo dos fatos do caso. Muitos
podem ter conhecido particularmente as citadas aberrações -como, por exemplo, o incesto entre os habitantes das ilhas
de Trobriand, ou a corrupção política ou comercial, a prostituição e o jogo entre nós -mas eles não insistirão para que
seja iniciada a ação pública. Entretanto, depois que as aberrações do comportamento se tornam públicas, a publicidade
gera tensões entre o "particularmente tolerável" e o "publicamente admissível".
O mecanismo da revelação pública parece funcionar mais ou menos da seguinte maneira. Muitas normas
sociais revelam-se inconvenientes para os indivíduos na sociedade, pois militam contra a satisfação de necessidades e
impulsos. E como as normas são incômodas para muita gente, existe certa tolerância na sua aplicação. Daí o
comportamento aberrante e a indulgência pessoal para com as aberrações. Mas isto só continua enquanto a pessoa não
se vê obrigada a assumir publicamente uma posição pró ou contra as normas. Ora, a publicidade, isto é, o
reconhecimento, por parte dos membros do grupo, da ocorrência das aberrações, exige que cada indivíduo assuma a sua
posição. Ele terá de formar ao lado dos inconformistas, repudiando assim publicamente as normas do grupo e afirmando
que também está fora da estrutura moral ou, sem dar atenção às suas predileções particulares, terá de formar ao lado dos
que apóiam a norma. A publicidade fecha o hiato entre as “atitudes privadas” e a “moral pública”. A publicidade exerce
pressão em favor de uma moral una e não de uma moral dupla, pois impede que se continue fugindo à questão. Provoca
a reafirmação pública e a aplicação (embora esporádica) da norma social.
Numa sociedade de massa, a função de revelação pública institucionalizou-se nos meios de comunicação. A
imprensa, o rádio e as publicações periódicas revelam as aberrações da opinião pública e, em regra geral, a revelação
impõe alguma ação pública contra o que, até então, fora particularmente tolerado. Os meios de massa, por exemplo,
despertam severas tensões em torno da "discriminação étnica polida", chamando a atenção do público para essas
práticas, que não se coadunam com as normas da não discriminação. Às vezes, os meios transformam as atividades
reveladoras numa "cruzada".
O estudo das cruzadas levadas a efeito pelos meios de massa ajudaria a responder a questões básicas sobre a
relação entre os meios de massa e a ação social organizada. É essencial conhecer, por exemplo, a extensão em que a
cruzada proporciona um centro de organização a indivíduos aliás desorganizados. A cruzada pode operar diversamente
entre os vários setores da população. Em alguns casos, o seu principal efeito não é tanto despertar a massa indiferente
de eleitores quanto alarmar os culpados, levando-os a tomar medidas extremas, que, por seu turno, alienam deles o
eleitorado. A publicidade pode embaraçar de tal maneira o malfeitor que é até capaz de fazê-lo fugir – como foi o caso,
por exemplo, de alguns dos principais partidários políticos do Tweed Ring depois da revelação feita pelo New York
Times. Ou os diretores da corrupção podem temer a cruzada apenas pelo efeito que imaginam que ela terá sobre o
eleitorado. Assim, com uma apreciação surpreendentemente realística do comportamento dos seus eleitores em matéria
de comunicações, Boss Tweed observou, malhumorado, a respeito das pungentes caricaturas de Thomas Nast em
Harper's Weekly: “Não dou a mínima importância aos seus artigos de jornal: os meus eleitores não sabem ler, mas não
podem deixar de ver aqueles malditos desenhos.”
A cruzada pode afetar diretamente o público, despertando a atenção dos cidadãos, até então letárgicos,
familiarizados com a corrupção predominante, para umas poucas questões dramaticamente simplificadas. Como
Lawrence LowelI observou a esse mesmo respeito, as complexidades geralmente inibem a ação de massa. É preciso que
os assuntos públicos sejam definidos em alternativas simples, em termos de branco e preto, para permitirem uma ação
pública organizada. E a apresentação de alternativas simples é uma das funções principais da cruzada. A cruzada pode
envolver ainda outros mecanismos. Mesmo que um governo municipal não seja inteiramente puro de coração, raras
vezes será totalmente corrupto. Quase sempre se encontram alguns membros escrupulosos da administração e do
judiciário no meio de funcionários sem princípios. A cruzada pode dar mão forte aos elementos corretos do governo,
forçar a mão dos indiferentes e enfraquecer a dos corruptos.
Finalmente, é possível que uma cruzada bem sucedida se converta num processo circular, auto-suficiente, em
que a preocupação do meio de comunicação de massa pelo interesse público coincida com os seus próprios interesses. A
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cruzada triunfante acentua o poder e o prestígio do meio de massa, fortalecendo-o para as cruzadas subseqüentes, as
quais, bem sucedidas, lhe acrescentarão o poder e o prestígio.
Sejam quais forem as respostas a essas perguntas, os meios de comunicação de massa servem, evidentemente,
para reafirmar normas sociais, expondo as aberrações dessas normas aos olhos do público. O estudo da série de normas
assim reafirmadas proporcionaria uma clara indicação da extensão em que tais meios lidam com problemas periféricos
ou centrais da estrutura da nossa sociedade.
A disfunção narcotizante. As funções de conferência de status e reafirmação das normas sociais são
manifestamente reconhecidas pelos operadores dos meios de comunicação de massa. Com outros mecanismos sociais e
psicológicos, tais funções prestam-se a diversas formas de aplicação. O conhecimento delas é poder, e o poder pode ser
usado em favor de interesses especiais ou em favor do interesse geral.
Uma terceira conseqüência social dos meios de comunicação de massa tem passado, em grande parte,
despercebida. Pelo menos, não recebeu muitos comentários explícitos e, aparentemente, ainda não foi sistematicamente
utilizada para favorecer objetivos planejados. Podemos denominá-la a disfunção narcotizante dos meios de massa.
Chamamo-la disfuncional e não funcional por supormos que não interessa à complexa sociedade moderna ter grandes
massas da população politicamente apáticas e inertes.
Como funciona esse mecanismo não planejado?
Estudos dispersos têm mostrado que uma proporção cada vez maior do tempo dos norte-americanos é dedicada
aos produtos dos meios de comunicação de massa. Com distintas variações em diferentes regiões e entre estratos sociais
diferentes, o fluxo dos meios permite presumivelmente ao cidadão norte-americano do século XX, "acompanhar a
evolução do mundo". Há quem diga, todavia, que esse vasto suprimento de comunicações só pode trazer à tona uma
preocupação superficial com os problemas da sociedade, e que esse superficialismo encobre freqüentemente a apatia da
massa.
A exposição ao fluxo de informações tende mais a narcotizar do que a revigorar o leitor ou o ouvinte comum.
Visto que uma quantidade cada vez maior de tempo é consagrada à leitura e à audição, a cota disponível para a ação
organizada é cada vez menor. O indivíduo lê resenhas de questões e problemas e talvez até discuta alternativas de ação.
Mas não se ativa essa ligação intelectualizada, remota, com a ação social organizada. O cidadão interessado e
informado poderá congratular-se consigo mesmo pelo seu profundo interesse e pela sua extensa informação, mas
esquecerá que se absteve da decisão e da ação. Em suma, para ele, o contato secundário com o mundo da realidade
política, as leituras, audições e reflexões são uma atividade vicária6. Ele chega a confundir o conhecimento dos
problemas do dia com a ação em relação a eles. A sua consciência social permanece imaculadamente limpa. Ele está
preocupado. Está informado. E tem uma série de idéias a respeito do que se deveria fazer. Mas, depois de jantar, depois
de ouvir os programas favoritos de rádio e ler o segundo jornal do dia, já é hora de ir para a cama.
Nesse sentido, as comunicações de massa podem ser incluídas entre os mais respeitáveis e eficientes narcóticos
sociais. E são, às vezes, tão eficazes que não deixam o viciado reconhecer a própria moléstia.
É incontestável que os meios de comunicação de massa elevaram o nível de informação de grandes
populações. No entanto, sem nenhuma intenção preconcebida, as dosagens sempre maiores de comunicações de massa
talvez estejam desviando inadvertidamente as energias dos homens da participação ativa para o conhecimento passivo.
A ocorrência dessa disfunção narcotizante não pode ser posta em dúvida, mas ainda não se determinou a
extensão em que ela opera. A pesquisa sobre o problema continua a ser uma das muitas tarefas com que se defronta o
estudioso das comunicações de massa.

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