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Programação na Cidade Natal

W.K. Kellogg se sentia em casa quando estava em uma obra. Ele adorava
escutar o barulho das escavadeiras e das máquinas de terraplenagem, sentir o
cheiro da madeira nova, ver o cimento girando na betoneira. E não era
apenas a perspectiva de novas estruturas que o animava; era o progresso que
elas significavam – idéias tomando forma, pessoas moldando o futuro.
Assim, se W.K. Kellogg passeasse hoje pelas ruas de Battle Creek, ele não
procuraria as marcas que deixou, mas os sinais de que a sua comunidade
continua construindo. Ele não se decepcionaria ao ver que os esforços para a
construção comunitária promovidos pela sua Fundação foram além dos
tijolos e da argamassa e se estenderam a programas que promovem o
verdadeiro crescimento e desenvolvimento.
Em Washington Heights, novos proprietários-moradores estão reivindicando
antigos casarões para diferentes gerações da mesma família. “Em qualquer
quarteirão, você encontra a mãe em uma esquina, sua filha na outra, e a neta
do outro lado da rua”, conta Nona Marie Johnson. “Eu moro em frente à
casa dos meus avós”, acrescenta. Houve um tempo em que as elegantes
fachadas pareciam velhas e abandonadas. Mas graças à Neighborhoods, Inc.,
a área está revitalizada – tornando-se um lugar de tinta fresca, varandas
reformadas, e gerando um novo sentimento de amizade entre os vizinhos.
“Isto realmente nos dá a sensação de segurança”, diz Johnson.
Em Washington Heights e em outras áreas da cidade, o verde nas esquinas e
nos jardins é outro sinal de crescimento. Por intermédio da Battle Creek
Green Association, jardineiros profissionais da Associação Leila Arboretum
estão ajudando jardineiros de primeira viagem a aprender sobre o chamado
“curb appeal”, ou seja a satisfação de se cultivar plantas perenes e coloridas
ao redor da casa. “As flores nos dão uma certa emoção”, diz Antonio
Rosario. Ele e seus vizinhos procuraram a Battle Creek Green para
embelezar sua avenida. Mas o trabalho coletivo também mudou alguma
coisa dentro deles. “Quando chego em casa e vejo minhas flores crescendo,
me sinto de bem comigo mesmo e com meus vizinhos”, afirma Rosario.
Fora da cidade, girafas passeiam por uma savana em pleno Estado de
Michigan, nos 50 acres da África Selvagem, que os voluntários do Binder
Park Zoo ajudaram a criar. Considerado uma das 10 maiores atrações
culturais do estado, mais de 300.000 pessoas visitam o Binder Park a cada
ano. “Battle Creek é uma das menores cidades da América do Norte a ter um
zoológico”, diz Greg Geise, presidente e CEO. “E um dos poucos que
operam sem receber um expressivo subsídio fiscal”.
W.K. Kellogg adorava Battle Creek e se orgulhava de ter nascido lá. É por
isso que as palavras “Battle Creek” apareciam em todas as caixas de
sucrilhos Kellogg. Foi o jeito que ele encontrou para colocar a sua querida
cidade natal no mapa. Nas suas doações locais, W.K. raramente perdia a
oportunidade de tornar sua cidade natal uma comunidade mais bonita e
vibrante.
No início, as circunstâncias ditaram a natureza das suas doações. Durante a
Depressão, moradores desempregados foram contratados para construir um
parque de 10 acres em um terreno da Kellogg Company. Os canteiros de
roseiras, as quadras de tênis, e o playground serviam de local de recreação
para os funcionários e suas famílias. Mais do que isso, o projeto também
garantiu meses de emprego aos trabalhadores locais. Projetos engajados
como este antecipavam o enfoque voltado para a construção comunitária,
que viria a ser adotado pela Fundação Kellogg – em Battle Creek e em
muitas outras terras natais.
Como cidadã corporativa, a Fundação tem uma relação especial com Battle
Creek. Entretanto, sucessos como a Neighborhoods, Inc. e o Binder Park
Zoo demonstram que os beneficiados das cidades natais podem atender às
necessidades locais ao mesmo tempo em que são um modelo a ser seguido
por comunidades em todo o país.
Além dos Tijolos e da Argamassa
Como outros industriais de sucesso daquela época, as primeiras doações de
W.K. Kellogg para Battle Creek foram centros comunitários e locais de
encontro. Muitos destes locais continuam de pé – como o Auditório W.K.
Kellogg, construído em 1925 e até hoje procurado como local de eventos.
Com o passar dos anos, a Fundação manteve essa tradição, doando fundos
para ajudar na construção dos seguintes locais: Centro Vocacional de
Calhoun, Kellogg Community College, Linear Park, Centro de Aprendizado
W.J. McQuiston, Youth Building, Family Y Center, Parque Industrial Fort
Custer, entre outros.
Mas construir oportunidades é a maior paixão da Fundação. Assim, além de
construir prédios comunitários, usando tijolos e argamassa, a Fundação tem
promovido a construção de programas de capacitação para que as pessoas
atinjam seu pleno potencial. Ao fazê-lo, os beneficiados da Fundação
Kellogg dão continuidade ao legado que garante que as oportunidades de
aprimoramento estejam abertas para todos.
A Escola Ann J. Kellogg, batizada com o nome da mãe de W.K., foi a
primeira escola dos Estados Unidos a integrar alunos com necessidades
especiais – educando, na mesma sala de aula, crianças com e sem
necessidades especiais. Uma idéia inovadora em 1931, quando a escola foi
erguida. Ann J. Kellogg ajudou a tornar a integração de alunos com
necessidades especiais uma prática comum. O lindo prédio de tijolinhos
ainda convida professores e alunos de Battle Creek a fazer da educação
inovadora uma regra.
“Eu moro em Battle Creek, Michigan, freqüento a Escola Ann J. Kellogg, e
estou na quinta série”, diz JéJuanté Worthy, com pose e orgulho.
Na Escola Ann J. Kellogg, JéJuanté foi atraída pelo programa IMPACT –
Inner City Music Proving Arts Can Teach, que promove o ensino por meio
das artes. Sua mãe, Patty Pointer, conta que a confiança e a criatividade de
JéJuanté aumentaram muito depois que ela começou a ter aulas de música e
a cantar com o coral Sojourner Truth Choir.
“Ela chega em casa, nos mostra novos passos de dança e canta para nós”, diz
Patty. JéJuanté também faz parte da lista dos melhores alunos.
Relatório após relatório, pesquisadores mostram o poder das artes para
melhorar o desempenho geral dos alunos. Entretanto, restrições de ordem
econômica fazem com que a maioria das escolas públicas promova cortes
nas aulas de música, teatro e artes gráficas, restringindo a carga horária ao
mínimo.
Veja o exemplo do Music Center of South Central Michigan, um centro de
artes recém-criado que abriga o IMPACT, a Orquestra Sinfônica de Battle
Creek, a Escola Comunitária de Música, o Coral de Meninos de Battle
Creek, e o Coral de Meninas.
A estrutura da organização serve de modelo para a expansão e não para o
encolhimento das artes. De acordo com Marjorie Weil, diretora executiva do
Centro de Música, a significativa economia obtida com a unificação de
várias organizações sem fins lucrativos sob um mesmo teto tornou possível a
criação de programas como o IMPACT.
“Ao juntar essas organizações, pudemos ter um diretor executivo, um diretor
de marketing, um diretor financeiro, ao invés de ter esses serviços
duplicados nas diferentes organizações”, explica ela.
A fusão das organizações exigiu dois anos de negociações – às vezes
espinhosas – alguns membros temiam a perda de autonomia e de controle.
Mas no final, o bem geral venceu.
“Eles perceberam o potencial para o desenvolvimento de projetos artísticos
que anteriormente nunca poderíamos ter realizado”, diz Weil. “Antes
estávamos espalhados em 10 pontos diferentes da comunidade. A logística
era um pesadelo.”
A nova sede do Centro está inserida no Davidson Visual and Performing
Arts Center, no campus da Kellogg Community College. Mais de 1.000
artistas de todas as idades usam as salas e os estúdios do Centro.
Trata-se de um outro tipo de volta ao lar, graças à história da Fundação com
a Kellogg Community College. Em 1959, doações da Fundação propiciaram
a construção do campus da Avenida Norte e, mais tarde, ajudaram também a
erguer o Centro de Artes Davidson.
Muitas relações se entrelaçam em Battle Creek – prédios velhos e novos,
organizações sem fins lucrativos e programas. É exatamente como Patty
Pointer descreve o coral da sua filha – “uma grande família”.
Importar-Exportar
Em Battle Creek, o grau de envolvimento da Fundação freqüentemente
ultrapassa os limites da programação tradicional. Afinal de contas, Battle
Creek é o local onde muitos funcionários da Fundação constroem seus lares,
mandam seus filhos à escola, atuam como voluntários e rezam. Nessas
circunstâncias, é natural que os limites entre trabalho e comunidade sejam
tênues.
Para ser um bom cidadão corporativo, a Fundação contribui ativamente com
os projetos comunitários. Mas o povo de Battle Creek também contribui para
que a Fundação continue aprendendo. Por meio de múltiplas iniciativas nas
áreas de saúde, juventude e filantropia, os beneficiados de Battle Creek
freqüentemente trabalham em conjunto com colegas de outras comunidades,
a fim de conduzir projetos comunitários abrangentes. Esta singular relação
entre comunidades tem ajudado a Fundação a promover uma verdadeira
inovação – mesmo no seu próprio quintal.
O Binder Park Zoo foi um desses projetos. Susan Mason, um dos membros
do conselho original, conta como foi o início do projeto, no final dos anos
70.
“Todos nós tínhamos filhos pequenos e não havia muitas opções de lazer
naquela época”, lembra. Assim, a divisão feminina da organização Jaycees
Auxiliary –– resolveu patrocinar um mini-zoo no Piper Park. A resposta
mostrou que estávamos no caminho certo. “A cidade inteira apareceu!”
lembra Mason.
Empolgados com o entusiasmo da comunidade, os voluntários começaram a
conceber um zoológico permanente – um local próximo, onde as famílias
pudessem ficar perto da natureza e aprender sobre os animais. Quando o
município de Battle Creek doou uma área próxima à cidade, criou-se a
Binder Park Zoological Society e o zoológico começou a tomar forma.
A maioria dos animais do Binder Park Zoo fica em espaços fechados que
lembram o seu habitat nativo. Na parte que destinada à África Selvagem,
zebras, avestruzes, girafas e gazelas pastam na encosta de uma colina
circundada por uma plataforma.
“Estamos trabalhando em um nível realmente emocional”, diz Greg Geise,
diretor executivo do Binder Park Zoo. “A sensação que as pessoas sentem ao
ver girafas soltas nas planícies ou lobos nas florestas lhes dá a idéia de uma
profunda ligação com a natureza.”
Há anos as instalações do Binder Park, bem como seus programas de
educação, conservação e pesquisa têm influenciado centenas de vidas. Doug
Kachman, de Battle Creek, começou a trabalhar como voluntário no
zoológico quando era adolescente. O trabalho começou como “alguma coisa
para fazer durante o verão”; mas em 6 anos ele já prestou 1.200 horas de
trabalho voluntário.
Kachman diz que o Binder Park moldou o seu caráter, por ser um lugar onde
ele trabalhava por amor – e não por dinheiro – apresentando as crianças ao
mundo animal. “Sem o zoológico”, diz ele, “eu não seria a pessoa que sou
hoje.”
Mais uma vez, os beneficiados de Battle Creek mostraram que mesmo em
uma cidade pequena, as pessoas podem ter grandes idéias. A Banda de
Metais de Battle Creek é um exemplo. A banda foi fundada pelos Drs. Jim e
Bill Gray – irmãos, músicos e podiatras de Battle Creek – que desejavam
criar uma banda de metais, segundo a tradição britânica. Desde o início, eles
não viam motivo para que a banda não fosse uma das melhores do mundo no
seu gênero.
“Sempre acreditei que a arte inspira profundamente as pessoas”, diz Jim
Gray. “Quando as pessoas perguntavam: ‘Por que em Battle Creek?’ Eu
respondia: ‘Por que não em Battle Creek?’”
A idéia do irmãos Grays atualmente atrai alguns dos melhores músicos do
mundo para o sudoeste de Michigan. Sam Pilafian, renomado jazzista e
professor de música, lembra a primeira vez em que ouviu a Banda de Metais
de Battle Creek tocar. Para Pilafian, foi um caso de amor ao primeiro acorde.
Ele ficou fascinado com o talento e a mistura perfeita de gêneros musicais –
clássicos com jazz, trilhas sonoras com música popular.
“Eu tocava metais há anos e nunca tinha escutado nada parecido”, diz ele.
“Era algo como o Carnegie Hall e o Blue Note na mesma noite – e o timbre,
a amplitude e a ressonância eram únicos.”
A Banda de Metais também se apresentou em concertos públicos e ao livre,
e para jovens no YMCA Outdoor Center, no Lago Sherman. O uso do YMCA
Outdoor Center cria mais um círculo dentro de outro para a Fundação
Kellogg. Em 1925, W.K. Kellogg comprou o acampamento do Lago
Sherman e o doou para os escoteiros de Battle Creek. Na década de 1980,
quando a posse das terras foi revertida para a Fundação Kellogg, surgiu a
idéia de um acampamento e centro de retiro da YMCA.
Quanto a Jim Gray, apesar de ter sempre acreditado no seu projeto musical,
ele ainda não consegue explicar o seu notável sucesso. “Às vezes”, diz ele,
“o raio fica preso na garrafa”. Qualquer que seja o nome que você dê a este
misterioso processo, ele prova que quando as pessoas se unem em busca de
excelência, é impossível deixar de enriquecer a comunidade que as cerca.
Laços que Unem
Nos últimos anos, a palavra comunidade se tornou um termo usado para
denotar praticamente qualquer agrupamento de pessoas ou idéias – por
exemplo, comunidade médica, comunidade educacional, ou comunidade
ambiental. Para a Fundação Kellogg, a palavra comunidade não é uma
abstração. Ela denota um lugar real, com ruas, casas, escolas e, obviamente,
pessoas e famílias. E, para manter e melhorar uma comunidade são
necessárias habilidades reais – que vão desde o conserto de um telhado até a
criação de laços fortes com os vizinhos.
Em Battle Creek, a Neighborhoods, Inc. tem desenvolvido um trabalho
notável, ajudando as pessoas a renovar suas casas e reconstruir seus bairros.
Essa organização sem fins lucrativos tornou-se um modelo nacional para a
reenergização do mercado imobiliário de um bairro em declínio.
“Estamos criando áreas saudáveis, onde as pessoas sintam-se incentivadas a
investir seu dinheiro, tempo e energia”, diz Patricia Massey, ex-presidente da
Neighborhoods, Inc.
O ponto focal da abordagem da Neighborhoods, Inc. está nos financiamentos
flexíveis para compradores e proprietários de casas. Mas este não é o único
aspecto. Enquanto a Neighborhoods, Inc. ajuda as pessoas a obter um
financiamento e as habilidades necessárias para melhorar suas casas, ela
também motiva essas pessoas a se tornarem construtores comunitários. É aí
que entram os programas de mini-doações. Um mutirão de limpeza ou de
jardinagem freqüentemente se transforma em algo maior.
“É absolutamente necessário que haja liderança em cada quarteirão”, diz
Massey. “Nós saímos, fazemos piqueniques, reunimos as pessoas, e fazemos
com que elas falem sobre seus problemas – perguntamos o que elas podem
fazer agora mesmo. E então, lhes damos um dinheiro para começar e vemos
como mil e quinhentos dólares fazem uma diferença incrível no bairro.”
Nós Podemos!
A Fundação Kellogg tem concedido doações em Battle Creek desde 1930,
mas ainda há muito espaço para inovações. Esta filosofia guiou a Fundação
em 2001, quando reavaliou as doações destinadas a Battle Creek –
obviamente, com a ajuda de parceiros locais e moradores da comunidade.
Em função disso, a programação local da Fundação adotou um novo
enfoque: melhorar a educação e aumentar as oportunidades econômicas das
famílias.
A iniciativa que abrange esta estratégia chama-se Yes We Can!. No coração
da iniciativa Yes We Can! encontra-se o mesmo princípio que guia toda a
programação da Fundação: com as ferramentas e os recursos adequados, as
pessoas podem e irão melhorar suas comunidades.
À medida que trabalham para melhorar a educação e combater a pobreza, a
iniciativa Yes We Can! estimula os moradores a fazer aquilo que eles julgam
necessário para melhorar a comunidade. Mesmo que isto signifique
confrontar-se com sérios problemas. Foi assim que teve início o grupo
Neighbors Against Dangerous Buildings (NADB).
Como ocorre na maioria das comunidades urbanas, em Battle Creek há
imóveis abandonados e decadentes. Estes prédios estragam qualquer bairro
que esteja lutando para recuperar seu o orgulho e valor imobiliário. Os
membros do NADB tiram fotos e documentam os imóveis que estejam em
desacordo com os regulamentos da cidade e com as normas de segurança. O
grupo apresenta seus achados às autoridades municipais que, a partir daí,
trabalham com os proprietários dos imóveis para demolir ou consertar as
estruturas que apresentam riscos.
Numa tarde de verão, Barb Dobberfuhl está parado na calçada, perto de uma
casa abandonada que pegou fogo há quase dois anos, causando muita
fumaça e muito estrago. Um enorme buraco no teto foi recentemente coberto
com um plástico.
“Nossas famílias temem que um de nossos filhos se machuque ali. Então,
resolvemos que algo tem que ser feito”, disse Dobberfuhl. “Não se trata de
dizer ‘queremos que a sua casa seja demolida’. Nós queremos apenas que os
donos do imóvel saibam que também temos direitos e que eles se
sensibilizem com isto.”
Ao olhar a rua e as calçadas próximas fica claro que o que está acontecendo
vai muito além da renovação urbana. Um agrupamento espontâneo foi se
formando com pais, crianças e avós, e a sua conversa mescla facilmente o
inglês, o espanhol e alguma outra língua intermediária. Um sorveteiro passa
devagar, dispersando o ajuntamento de pessoas, e um vizinho generoso avisa
que o sorvete é por conta dele – mas só para as crianças.
Esta cena nos faz crer que a iniciativa Yes We Can! é uma premissa que pode
ser realizada. De acordo com um morador entusiasmado, a cena também
mostra “como estamos aprendendo a agir como vizinhos e não apenas como
um grupo de casas”.
W.K. Kellogg talvez teria descrito a cena como um exemplo de construção
comunitária por excelência – mudar a paisagem do presente, criando um
alicerce sólido para o futuro.
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Modelo Organizacional de Autogestão para Projetos Sociais: Uma


Ação de Design Cleuza Bittencourt Ribas Fornasier

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA


PROGRAMA DE PÓS GRADUACÃO EM ENGENHARIA DE
PRODUÇÃO

MODELO ORGANIZACIONAL DE AUTOGESTÃO PARA


PROJETOS
SOCIAIS: UMA AÇÃO DE DESIGN

Cleuza Bittencourt Ribas Fornasier

Orientação: Prof. Dra. Leila Amaral Gontijo


Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-graduação em Engenharia de
Produção da Universidade Federal de
Santa Catarina, como requisito parcial à
obtenção do título de mestre em
Engenharia de Produção.

Área de concentração: Gestão Integrada


do Design
Florianópolis, 2005

Cleuza Bittencourt Ribas Fornasier

MODELO ORGANIZACIONAL DE AUTOGESTÃO PARA


PROJETOS
SOCIAIS: UMA AÇÃO DE DESIGN

Esta dissertação foi julgada e aprovada em


sua forma final para a obtenção do título de
Mestre em Engenharia de Produção no
Programa de Pós-Graduação em
Engenharia de Produção da Universidade
Federal de Santa Catarina.

Florianópolis, maio de 2005.

Prof. Dr. Edson Pacheco Paladini


Coordenador do Programa

RESUMO

FORNASIER, Cleuza Bittencourt Ribas Fornasier. Modelo


organizacional de
autogestão para projetos sociais: uma ação de design. 2005.
Dissertação (Mestrado
em Engenharia de Produção) – PPGEP – UFSC – Florianópolis.
O presente estudo tem como objetivo apresentar um modelo de
gestão de design
aplicado a projetos sociais que visem a geração de renda em
comunidades carentes.
Está baseado na metodologia de natureza descritiva e seu
delineamento apóia-se em
uma pesquisa bibliográfica sobre o trabalho artesanal, industrial, a
produção e a
autogestão, como também relata as aplicações e relações do design
com outras áreas.
A revisão bibliográfica é necessária para elucidar a apresentação da
pesquisa Ex-post
facto, que ocorre por meio da descrição da experiência acadêmica
extensionista de
organização da gestão e da produção de uma confecção artesanal,
denominada Projeto
Vitória desenvolvido em uma comunidade carente, sem instrução.
Por meio de análises
qualitativas descritivas indutivas identificadas ao longo do
desenvolvimento do projeto,
verificou-se a possível criação de um modelo que não fosse
específico para a área de
confecção, embora permanecesse com os mesmos objetivos. Assim,
foi criado um
modelo organizacional generalizado, capaz de ser aplicado em
comunidades carentes
produtivas de diferentes áreas. Esta dissertação, portanto, formula
um modelo que tem
como objetivo organizar administrativa e produtivamente
empreendimentos sociais que
visem à autogestão e à auto-sustentabilidade. O modelo é um
método facilitador da
gestão e da comunicação, sustentado pelo sistema integrado de
códigos visuais (SICV),
que supre as necessidades da pessoa analfabeta, para o
entendimento de tarefas e
ações.

Palavras-chaves: gestão de design, modelo organizacional,


autogestão, geração de
renda.

ABSTRACT

FORNASIER, Cleuza Bittencourt Ribas. Selfmanagement


Organization Model for
Social Project: A design action. 2005. Thesis (Master program in
Production
Engineering) – PPGEP – UFSC – Florianópolis.

The present study has the objective of presenting a model of


administration of design
applied to social projects that seek the generation of income in needy
communities. It is
based on the methodology of descriptive nature and its principles are
based on a
bibliographical research on the handmade and industrial work, the
production and the
self-management, and it also reports the applications and
relationships of the design with
other areas. The bibliographical revision is necessary to elucidate the
presentation of the
research Ex-post facto, that happens through the description of the
extended academic
of the administration organization and the handmade production,
denominated Projeto
Vitória (Project Victory) developed in a needy community, without
instruction. Through
inductive descriptive-qualitative analyses identified along the
development of the project,
it was verified the possible creation of a model which is not specific
for the production
area, although it kept the same objectives. In this way, a general
organizing model was
created, one which is possible of being applied in productive needy
communities of
different areas. This dissertation, therefore, formulates a model that
has the aim of
organizing administratively and productively social enterprises that
seek to the selfmanagement
and the self-sustainability. The model is a facilitating method of
administration and communication, sustained by the integrated
system of visual codes
(SICV), which supplies the illiterate person's needs for the
understanding of tasks and
actions.

1 INTRODUÇÃO

Este capítulo tem por finalidade apresentar e justificar o tema deste


trabalho, assim como seus objetivos, resultados esperados,
hipóteses traçadas, e a
estrutura do trabalho.

1.1 APRESENTAÇÃO DO TEMA

O mundo do trabalho, de acordo com Antunes (2002, p. 125),


vem
substituindo o trabalho braçal pelo trabalho dotado de “dimensão
intelectual”. Sabe-se
que a máquina não supre o trabalho humano, no entanto, para
operá-las, necessitase
de pessoas cada vez mais capacitadas e, conseqüentemente, os
trabalhadores
que não se encaixam nessas condições vivenciam situações de
desemprego, sem
expectativa de solução. Tais desempregados e desempregáveis, seja
por falta de
cultura, ou mesmo por estarem fora da faixa etária exigida pelo
mercado de trabalho,
são destituídos da integração social pelo trabalho e “impedidos de ter
uma vida
dotada de sentido” (ANTUNES, 2002, p.175).

Toffler (1983, p. 49) afirma que “seria uma tragédia se


construíssemos uma
economia em torno de habilidades cognitivas apenas”. No entanto,
nenhuma
sociedade anterior foi formada apenas de uma camada da
população. A sociedade,
para ser eficiente , deve oferecer variedades de empregos e
trabalhos estruturados
para diferentes tipos de pessoas (TOFFLER,1983).

Uma das tendências que Antunes (2002, p.113) aponta como


paliativa é a
inserção de empreendimentos de economia solidária que incorporem
parte desses
excluídos, “como mecanismo minimizadores da barbárie do
desemprego”, como
também a “expansão do trabalho em domicílio, propiciada pela
desconcentração do
trabalho produtivo” (ANTUNES, 2002, p. 114). Segundo Toffler (1983,
p.35), “a
Revolução Industrial arrancou do lar o trabalho remunerado e
colocou-o nas fábricas
e escritórios. Isto transformou a sociedade. Alterou a vida familiar”. A
atitude inversa
também vai transformar as famílias e as sociedades.

Estas mudanças já estão ocorrendo. Já existe trabalho realizado


em
domicílio, embora outros ainda exijam a presença diária ou
esporádica no trabalho.
Algumas atividades necessitam de empregados com alta qualificação
acadêmica,
outras apenas em nível técnico. Para o Brasil, como um país em
desenvolvimento,
ainda é importante organizar empresas manufatureiras, já que existe
um contingente
significativo de pessoas, principalmente mulheres, consideradas
analfabetas
funcionais, ou seja, são capazes de escrever seu nome e ler, no
entanto, podem não
entender o que estão lendo.
Toffler (1983) recomenda aos países que não esperem por grandes
quantidades de empregos na manufatura por meio de treinamento e
salários baixos,
afinal, “o conhecimento transformou-se no recurso chave para todo o
trabalho”
(TOFFLER, 1983, p. 48). Assim, até que a maioria da população
tenha acesso à
educação, a manufatura se torna uma questão de sobrevivência. O
autor supõe que
os governos terão que ser criativos na tentativa de superar essas
diferenças e suprir
as necessidades desses excluídos, para que não ocorram maiores
conflitos sociais.
De acordo com Chiavenato (2000, p.43), manufatura significa
“estabelecimento fabril em que a produção é artesanal e há uma
divisão do trabalho
que é desempenhado por grande número de operários sob a direção
do empresário”.
No Brasil ainda existem várias empresas manufatureiras em
diferentes regiões que se
aproveitam, em razão da grande demanda por emprego, de pessoas
que aceitam
trabalhar em troca de um salário que apenas possibilita a compra de
alimentos.
Atualmente, faz-se uma vinculação entre o trabalho na manufatura e
o
artesanato. A miscigenação da população brasileira formou pessoas
criativas e com
diferentes habilidades manuais, o que propicia uma arte popular
diversificada.
Políticas nacionais1 têm procurado incentivar a melhoria dessa
produção, introduzindo
conceitos de design apenas para agregar valor e qualidade aos
produtos criados por
meio de projetos sociais. No entanto, as políticas e mesmo os
programas não
possuem uma metodologia que ajude a organizar a produção,
promovendo a
autogestão.
Diante disso, esta pesquisa propõe formular um modelo que ajude
a
organizar administrativa e produtivamente empreendimentos
manufatureiros que
tenham como objetivo a geração de renda e, assim, venham a
desmistificar o aspecto
efêmero que o design possui para a maioria da sociedade,
demonstrando os
benefícios sociais, produtivos e monetários que as aplicações de
conceitos de design
podem trazer a muitas organizações e a projetos sociais.

1.2 OBJETIVOS

1.2.1 Objetivo Geral

Propor um modelo organizacional de gestão integrada do design, por


meio de
um sistema de autogestão a ser aplicado em projetos sociais que
envolvam o design
e tenham como objetivo a geração de renda.

1.2.2 Objetivos Específicos

Analisar o papel social do design;


Demonstrar como este modelo pode ser um facilitador na
organização de projetos sociais que visam a geração de
renda, através da sua aplicação na confecção artesanal
Pedaço de Pano, realizada pela ação extensionista do
curso de Design de Moda da Universidade Estadual de
Londrina – denominado Projeto Vitória.
Apresentar um modelo de autogestão para projetos sociais
(sistema de identificação por códigos visuais).

1.3 JUSTIFICATIVA

O Brasil possui um grande contingente de pessoas de baixa renda


e uma
sociedade muito desigual. Somente depois da metade do século XX
o Brasil “deixou
de ser uma grande fazenda geradora de produtos primários para
transformar-se no
oitavo produto industrial do mundo” (POCHMANN, 2002, p.58).
Essa experiência bem sucedida do ponto de vista econômico foi
combinada com o fracassado modelo de desenvolvimento social,
promotor não apenas de desigualdade extremas, mas também
responsável pela geração de uma massa de excluídos, mais
conhecida
por ser despossuída dos frutos do crescimento econômico ocorrido
durante o ciclo da industrialização brasileira (POCHMANN, 2002,
p.61).
Em 1990, a situação do país agravou-se com a crise mundial,
aumentando o
quadro da pobreza. “Os 20% mais pobres se apropriam de 2% da
renda do país
enquanto que os 20% mais ricos se apropriam de 64%. São dois
Brasis: um
despossuído e outro abastado” (CONFEDERAÇÃO NACIONAL da
INDÚSTRIA, 2002.
p.131). Esta disparidade ocorre pela falta de acesso à educação e,
conseqüentemente, à renda. Paes de Barros, Henriques e Mendonça
dizem:
Cerca de 32% dos brasileiros estão na pobreza por viverem com
uma renda
per capita de menos de R$ 80,00 por mês (linha da pobreza) [...].
São cerca
de 53 milhões de pessoas. Dentro desse grupo, porém, há 23
milhões que
vivem com uma renda per capita de menos de R$ 25,00 por mês, o
que não
atende às necessidades alimentares, o que caracteriza a condição
de miséria
(CONFEDERAÇÃO NACIONAL da INDÚSTRIA, 2002, p.130).
A pobreza existe, em geral, nas zonas rurais do Norte e do
Nordeste do país.
Entretanto, podem-se encontrar pobres no Brasil todo - nas periferias
das cidades
grandes e na zona rural, nas áreas menos e mais desenvolvidas. Os
destituídos
convivem com os abastados, num cenário de imensa desigualdade.
A sociedade
brasileira e muitas organizações internacionais criaram instituições
filantrópicas na
década de setenta, em plena ditadura militar, abrindo novos
caminhos nas políticas
sociais para ajudar na recuperação dos níveis de vida da população
e diminuir os
riscos de violência social.[...] a sociedade civil organizada assumiu
novas responsabilidades pela
proteção e defesa de direitos, antes inseridas na órbita exclusiva do
Estado
(Primeiro Setor), posto que, até aquele momento, a empresa privada
(Segundo Setor) entendia que sua função social era limitada ao
pagamento
de impostos e geração de empregos. O crescimento do número de
organizações da sociedade civil organizada [...] fez surgir um novo
ator
social, o denominado Terceiro Setor, o conjunto de agentes privados
com
fins públicos, cujos programas visavam atender direitos sociais
básicos e
combater a exclusão social [...] (SZAZI, 2003, p.22).
Mas, como combater a exclusão social, se na sociedade pós-
industrial,
aceitando-se a teoria de De Masi (2000b), na qual a transformação
tecnológica está
mudando todos os setores da vida, as formas de trabalho vêm-se
modificando? Para
se exercer um trabalho exige-se cada vez mais capacitação. Deve-se
entender que o
trabalho bruto será realizado por máquinas automatizadas cada vez
mais sofisticadas,
e que, portanto, aqueles sem instrução, que mantinham seu emprego
às custas da
força física, estarão correndo o risco de serem os novos excluídos.
De acordo com o
IBGE, quanto menos instrução possui, menos possibilidade tem a
população de
conseguir um emprego (INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA
E ESTATÍSTICA
b, p.1).
Como a maioria dos adultos brasileiros não concluiu o curso2
primário e,
conhecendo-se o seu baixíssimo nível, podemos concluir que 50
milhões de
adultos são analfabetos funcionais (embora sabendo desenhar o
nome, são
incapazes de seguir instruções ou adquirir conhecimentos através da
palavra
escrita). Somando-se a estes os analfabetos oficiais, temos quase a
metade
da população considerada analfabeta (NORT, 1997, p.384).

O Censo Demográfico estimado do IBGE, realizado na cidade de


Londrina
em 2002, aponta cerca de 480 mil habitantes, dos quais, estima-se,
que 34 mil sejam
analfabetos, vale dizer, não sabem escrever nem o próprio nome. Os
analfabetos
funcionais dificilmente poderão ser estimados com segurança, mas,
se concordamos
com Nort, será considerado analfabeto funcional aquele que possui
apenas três anos
de estudo, portanto haverá um contingente maior de analfabetos do
que as
estatísticas relatam. Essas pessoas terão dificuldade em conseguir
um emprego fixo
ou mesmo ter uma renda suficiente para a subsistência.

Outro dado alarmante referente ao Brasil é a quantidade de


mulheres
responsáveis por domicílios: são 11.160.635, sendo 37,6% ,ou seja,
4.196.398, sem
nenhuma instrução ou com apenas três anos de estudo (INSTITUTO
BRASILEIRO
DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA a).
Danilo Santos de Miranda, apresentando o livro de De Masi
(2000b), indica
caminhos para a redução do analfabetismo e da exclusão social, e
destaca o
incentivo à responsabilidade social como a primeira prioridade para
uma política de
instrução e educação a ser implementada por organismos sociais
como o “Estado, a
empresa, a escola e as igrejas” e outros que tenham como missão a
educação. ”O
desenvolvimento cultural proporciona aos indivíduos no vos modelos
de interpretação
da realidade, novos repertórios para detectar as conexões que
determinam suas
condições de vida, tornando-os cidadãos participativos num mundo
em contínua
transformação” (DE MASI, p.III, 2000 ).
Quanto à primeira questão tratada por Miranda - analfabetismo -,
esta cabe
ao Estado, às empresas, às escolas e às igrejas. Diante da
quantidade de projetos
existentes na área e frente ao declínio dos índices do analfabetismo,
pode-se dizer
que de alguma forma o problema está sendo tratado. Não cabe a
esta pesquisa
discutir esta questão, mas é necessário encontrar uma forma prática
e viável de
comunicação entre (e para) analfabetos, para que essa realidade
não interfira no
andamento dos trabalhos de capacitação.