CURSO: GEOGRAFIA LICENCIATURA
DISCIPLINA: GEOGRAFIA DA POPULAÇÃO
PROFESSOR: JOSÉ NATAN GONÇALVES DA SILVA
ALUNOS: LUIS HENRIQUE FERNANDES DE OLIVEIRA; DANIELE TORRES LIMA.
DATA: 16/10/2024
ROTEIRO DE ANÁLISE DE FILME
Título: Central do Brasil
Ano: 1998 Direção: Walter Salles
Sinopse:
Longe das paisagens paradisíacas do Rio de Janeiro, bem no meio do
efervescente movimento de trabalhadores da Central do Brasil, Dora
(Fernanda Montenegro), uma professora aposentada, complementa a
renda escrevendo cartas para pessoas analfabetas que sentem
necessidade de comunicar-se com os seus. Moradora da periferia,
Dora é uma mulher calejada por um passado feito de saudades.
Testemunha de um cotidiano de desigualdades, de agentes da lei
exterminando meninos em prol da prevalência da propriedade sobre a
vida, a ex-professora se sensibiliza com o drama do menino Josué
(Vinicius de Oliveira), cujo desejo de conhecer o pai esbarra em
diversos contratempos. A morte da mãe amplia a orfandade dele. A
relutante que não prima pela entrega das missivas aos destinatários,
compadecida contra a própria vontade, assume a tutela da criança,
encarando as estradas poeirentas de um Nordeste profundamente
religioso e marcado pela exclusão social.
Atividade
1. A Central do Brasil é uma estação de trens metropolitanos localizada no centro da cidade do Rio
de Janeiro e operada pela Super Via Trens Urbanos. A primeira construção é datada de 1858,
quando foi inaugurada a Estrada de Ferro Dom Pedro II. No filme, ela é utilizada na ambientação
das cenas de encontro de Josué (Vinícius de Oliveira), Ana (Soia Lira) e Dora (Fernanda
Montenegro), uma professora aposentada, escritora de cartas para analfabetos (em sua maioria
migrantes) que, supostamente, não realiza o depósito das correspondências nos Correios. A
dinâmica na estação de trens traduz a rotina diária da mobilidade de trabalhadores urbanos,
conforme reportado nas figuras 1 e 2.
Figuras 1 e 2: Circulação de trabalhadores e trens superlotados na Estação Central do Brasil.
Fonte: Central do Brasil, Walter Salles, 1998.
Que tipo de migração podemos correlacionar com essa mobilidade? Como se caracteriza esse tipo de
migração?
R: A migração pendular pode ser correlacionada com a mobilidade feita nas estações de trem, como foi
visto no filme. Esse tipo de migração se caracteriza como uma migração entre cidades ou de uma zona a
outra em um mesmo município, é temporária, diária e instantânea. Pode acontecer do lar para o trabalho,
do lar para a escola/universidade ou em qualquer situação que exija uma migração temporária e que ocorra
todos os dias, ou com relativa frequência, além do mais, o retorno ao lar é feito no mesmo dia da ida. A
migração pendular é especialmente bastante realizada no Brasil, pois todos os brasileiros que precisam se
deslocar de suas casas para o seu trabalho, em razão da considerável distância um do outro, realizam essa
espécie de migração.
2. As cartas redigidas por Dora no Rio de Janeiro expõem assuntos diversos, mas, alguns denotam o
envio de mensagens e notícias de migrantes nordestinos para seus entes queridos (Figura 3).
Figuras 3: Dora escreve carta de Ana.
Fonte: Central do Brasil, Walter Salles, 1998.
O êxodo rural e a migração inter-regional marcaram, em diferentes temporalidades, o deslocamento de
migrantes, como a personagem Ana, do Nordeste para metrópoles e centros urbanos do Sudeste. Quais
dinâmicas econômicas, políticas e socioespaciais intensificaram a atração desses sujeitos para o
Sudeste a partir da década de 1950?
R: Este processo êxodo rural teve como finalidade a busca por melhores condições de vida em grandes
centros urbanos, visto que o campo não proporcionava mais a renda mínima para o sustento destes
trabalhadores. Um dos principais motivos desse processo foi justamente a reforma agrária, ou melhor, a
falta de uma reforma agrária que contemplasse os pequenos agricultores e os trabalhadores sem-terra,
contribuindo para a desigualdade socioeconômica no campo. Outro grande fator foi a industrialização e a
urbanização nas cidades grandes, por meio das indústrias e fábricas eram gerados empregos nos quais os
migrantes eram direcionados. Pôde-se observar também, na mesma época, a chegada de maquinários no
campo, substituindo o trabalho manual, o que fez com que muitos trabalhadores perdessem suas funções
no trabalho agrícola.
3. Com uma rede de comunicação incipiente e pouco informatizada, até a década de 1990 as cartas
enviadas pelos Correios eram a principal forma de comunicação entre o migrante e seus familiares
e amigos. Os sentimentos afetivos, as decepções, a aquisição do trabalho, a estabilidade, a
composição de família, as dificuldades na terra estranha, o vislumbre com a cidade e a saudade
eram relatos que perfaziam essas cartas. Haesbaert (1999) menciona que o migrante
desterritorializado da terra de origem vive um dilema: desenvolve estratégias de territorialidade na
nova morada, mas também, mantém-se ligado à sua terra e, por consequência, carrega consigo
elementos simbólicos do seu território imaginário, que configuram molduras de sua vida. Você já
conhece ou já ouviu narrativas de migrantes? Relate prováveis dilemas vivenciados por eles, a
exemplo do contexto reportado por Haesbaert (1999).
R: São amplamente conhecidos os desafios de um imigrante em uma nova cultura. Particularmente, eu
tenho uma amiga que morávamos no mesmo município que se mudou para São Paulo, pois lhe foi
prometido emprego e moradia lá. Os relatos dela evidenciam que talvez, do seu ponto de vista, seja uma
terra difícil, agitada, e um pouco fria. Ela disse que ainda não conseguiu firmar fortes relações com
ninguém, desconfio que seja justamente pelas diferenças de culturas e vivências entre o Paulista e o
Pernambucano, e que sua vida é pura correria, em razão do seu trabalho. Pelo menos uma vez ao ano ela
retorna para casa no período das suas férias.
4. A violência urbana, notadamente expressa na ambientação da Estação Central do Brasil e na
atuação personagem Pedrão (Otávio Augusto), possui relação com o desemprego, a pobreza e o
propenso ingresso na criminalidade. Damiani (1996) sugere que essas situações denotam a
deterioração da vida urbana, que fazem surgir novos tipos de mortes e, por sua vez, endossam os
índices de mortalidade de jovens e adultos nos países subdesenvolvidos. A autora também retrata
que na periferia pobre, marcada pela ausência do Estado e a consequente insegurança, a morte tem
se transformado em um negócio privado. Os “justiceiros”, grupos de extermínio, militares,
milícias, seguranças e vigilantes civis utilizam-se da repressão, ameaça, tortura e morte como
métodos para eliminar possíveis entraves que coloquem em dúvida o seu poder sobre o território.
Retrate a cena do filme em que tal cenário está explícito.
R: A cena em que é retratada violência urbana no filme é justamente quando um rapaz negro rouba um
produto de uma barraca de fotografias e é perseguido pelo personagem Pedrão (segurança da estação), o
rapaz é alcançado e implora por sua vida, porém, ainda assim, o segurança dispara contra ele. Desta forma,
a cena reflete bem a sociedade liquidada difundida por Zygmunt Bauman, na qual a sociedade se mostra
individualista.
5. Durante o enredo do filme, a única carta entregue por Dora é a de Ana. Nesse mesmo contexto,
conforme pretendia, Josué chega a Bom Jesus do Norte (cidade fictícia de Pernambuco). De ônibus
e caminhão, ele realiza um trajeto que muitos migrantes realizaram de ida, mas também, de volta.
Migrar, em tempos mais remotos, e voltar, em tempos mais recentes, tem sido uma dinâmica
apresentada por nordestinos que resolvem retornar para a sua terra natal ou sua região de origem.
Quais fatores motivam a realização da migração de retorno por esses sujeitos?
R: Há diversos fatores que podem ajudar a motivar os sujeitos a retornarem a sua terra de origem. Um
deles, talvez o mais comum, pode ser a simples saudades de casa, de rever ou visitar a família, ou, como
ocorreu com Josué, a vontade de conhecer um parente específico a qual nunca tenha conhecido. Muito
pode ocorrer também a uma pessoa objetivar migrar para tentar melhores condições de vida e, quando a
tenha obtido, retornar para casa e viver do capital que adquiriu lá, ou, ainda, construir um negócio a partir
desse capital. A migração de retorno também vem sendo muito observada em decorrência da constante
urbanização do nordeste brasileiro, pois, se antes havia poucas oportunidades de se crescer
economicamente, hoje a situação vem sendo aos poucos modificada, e os que uma vez migraram, hoje
podem querer retornar. Enfim, a dinâmica populacional da migração é tamanha que os possíveis motivos
para a ela, seja de ida, de retorno, sazonal, permanente, temporária, pendular, peri urbana e etc, são
diversos, á rigor de cada pessoa que a realiza.
6. Quem assiste o filme Central do Brasil, também “pega a estrada” no sertão nordestino. As rodovias
que cortam esse território exprimem a intervenção do Estado no financiamento de infraestruturas,
em favor dos atores hegemônicos que controlam os circuitos espaciais de produção.
Contraditoriamente, essas mesmas rodovias viabilizam a expansão das redes de transportes,
comunicação e informação, que contribuem na difusão das mobilidades populacionais. Há
passagens do filme que retratam as travessias de retirantes nordestinos nas rodovias do sertão
(Figura 4).
Figura 4: Retirantes nordestinos.
Fonte: Central do Brasil, Walter Salles, 1998.
No contexto social do Nordeste, quem são esses sujeitos e o que motiva a sua mobilidade, por mais das
vezes, itinerante?
R: Por conta da falta de oportunidades de se estabilizar e ter uma vida digna, muitas pessoas no nordeste
brasileiro deixam sua terra natal em busca de melhores sustentos nas cidades grandes. Os retirantes
consistiam em grupos de trabalhadores e suas famílias que se deslocavam de seu local de origem por
diversos motivos como a falta de trabalho ou por encontrar dificuldades de se manter com as poucas
safras, a desvalorização dos produtos agrícolas, a dificuldade de possuir sua própria terra para a lavoura e
o pastoreio e, por fim, em razão da seca, que impossibilitava a produção agrícola e abatia os animais no
pasto.
7. Um dos desafios nos estudos da população é compreender a sua diversidade em termos étnico,
linguístico, social, econômico, cultural e religioso. No tocante as manifestações religiosas do
Nordeste brasileiro, Darcy Ribeiro (2006) menciona que nessa região formou-se ao longo do
tempo um “messianismo popular”. Para o referido antropólogo, no Nordeste a religião entrelaça-se
com lendas, folclore e uma relação de intimidade entre os devotos e os santos. Considerando a
religião um elemento simbólico, identitário, de pertença e diferenciação entre os grupos sociais,
como podemos caracterizar o catolicismo popular do nordestino expresso no filme?
R: No filme há diversas cenas e falas em que as personagens expressam sua religião, em especial o
catolicismo, principalmente nos momentos que se passam no sertão nordestino. Nas cenas, é notável a
forte ligação do povo nordestino para com a religião, que, por serem em sua maioria um povo muito
humilde e sofredor, se agarram na crença de santos e nesse “messianismo”, em busca da esperança de uma
vida melhor. Pode-se caracterizar o catolicismo no nordeste brasileiro como um amparo necessário para o
povo, e é essa a razão de sua força. As comunidades e municípios o celebram sua fé através de missas,
novenas, procissões, festejos aos santos e santas padroeiros/as, rezadeiras, símbolos de significados fortes,
benções e etc.
8. Dora, Irene (Marília Pêra) e César (Othon Bastos) formam famílias unipessoais, que são compostas
por apenas uma pessoa. As famílias unitárias ou com poucos membros é uma característica
populacional que tem se consolidado no Brasil, diferenciando de cenários observados até a década
de 1970, quando as famílias com vários membros eram predominantes. Quais fatores motivaram
essa mudança na composição das famílias brasileiras?
R: A composição da família de apenas uma pessoa ocorre na sociedade brasileira a partir de fatores como:
o divórcio (no caso de ambos não terem filhos), viuvez, principalmente em casos de idosos, ou, ainda,
pode-se dar pela própria decisão de estar só, no contexto de autonomia e auto sustento, de maneira que a
pessoa procura viver confortavelmente com a sua própria renda, na qual a inclusão de mais indivíduos no
seu núcleo familiar implicaria tanto nos gastos da casa quanto na rotina pessoal dessa pessoa.
9. Durante a trama do filme, os personagens Pedrão, Dora e Iolanda (Stella Freitas) se envolvem em
um conflito motivado por um suposto crime em torno da tutela de Josué. Grife em negrito o único
enunciado que pode ser correlacionado a esse crime.
a. “O número de denúncias de intolerância religiosa no Brasil aumentou 106% em apenas um ano.
Passou de 583, em 2021, para 1,2 mil, em 2022, uma média de três por dia” (BBC News Brasil,
por André Bernardo, 2023)
b. “No Brasil, tramitam mais de cinco mil processos de adoção, atualmente. Mais de 300 deles
envolvem grupos de irmãos adotados por uma mesma família. Apenas 73 envolvem adolescentes
acima de 16 anos. E menos de 15% são de crianças negras” (Fonte: Agência Brasil, por Sayonara
Moreno, 2023).
c. “Dados obtidos com exclusividade pelo UOL junto ao Ministério do Trabalho e Emprego apontam
que foram resgatados no país 980 crianças e adolescentes em condições de trabalho degradantes,
um dos elementos constituintes do trabalho análogo à escravidão” (Fonte: Uol, por Fabíola Perez,
2023);
d. “O preconceito contra nordestinos dentro e fora das redes sociais afeta crianças e reforça a
importância do debate para não perpetuar estereótipos, discriminações e xenofobia” (Fonte:
Lunetas, por Edvan Lessa, 2023);
e. “Para cada três pessoas traficadas no mundo, uma é criança. De acordo com o relatório da
Organização das Nações Unidas (ONU), os motivos para esse crime passam por trabalho
infantil, adoção ilegal, remoção de órgãos e exploração sexual” (Fonte: Lunetas, por Célia
Fernanda Lima, 2023).
10. Além dos assuntos relativos à População, grife em negrito os temas e os conteúdos de interesse da
Geografia que podem ser explorados mediante a análise do filme.
Religiosidade Domínio morfoclimático da caatinga Redes, circulação e transporte
Hidrografia do Brasil Paisagem Cultura e identidade Geopolítica
Trabalho Modernização da agricultura Urbanização Território
Povos indígenas Problemas climáticos urbanos Divisão Territorial do Trabalho
Referências
CENTRAL do Brasil. Direção: Walter Salles Júnior. Produção: Martire de Clermont-Tonnerre e Arthur
Cohn.
DAMIANI, Amélia Luisa. População e Geografia. 7 ed. São Paulo: Contexto, 2002.
HAESBAERT, Rogerio da Costa. Identidades territoriais. In: ROSENDAHL, Zeny; CORRÊA, Roberto
Lobato. (Org.). Manifestações da cultura no espaço. Rio de Janeiro: Ed. UERJ, 1999. p.169-190.
RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia de Bolso, 2006.