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Reabilitação Sustentável de Edifícios Industriais O caso da zona industrial do Bairro de Alvalade Rita
Reabilitação Sustentável de Edifícios Industriais O caso da zona industrial do Bairro de Alvalade Rita

Reabilitação Sustentável de Edifícios Industriais

O caso da zona industrial do Bairro de Alvalade

Rita Dias Barbosa

Dissertação para obtenção do Grau de Mestre em Arquitectura

Mestrado Integrado em Arquitectura

Júri

Presidente: Prof. Pedro Gameiro Henriques Orientador: Prof. Manuel de Arriaga Brito Correia Guedes Vogal: Prof. António Moret Rodrigues

Dezembro 2009

Resumo

A presente dissertação aborda o tema da reabilitação de edifícios industriais para novos usos, investigando as possibilidades de integração de preocupações de sustentabilidade em todo o processo. Procura-se identificar e caracterizar a Arquitectura Industrial, sua génese e evolução até ao abandono do edificado pelo uso da indústria. Introduzem-se e analisam-se os temas da reabilitação e sustentabilidade, sua importância e complementaridade no âmbito da construção. Descrevem-se as principais premissas, vantagens e desvantagens da opção e processo de reabilitação, bem como os critérios de sustentabilidade e conforto humano que actualmente balizam os níveis de exigência na arquitectura e construção, ilustrando diversas alternativas de reabilitação sustentável – em particular na óptica do design passivo – aplicáveis a edifícios industrias. Por fim, desenvolvem-se casos de estudo na zona industrial do Bairro de Alvalade (Lisboa), nos quais se estudam três edifícios industriais reabilitados para um uso não-industrial, procurando compreender de que modo cada uma das intervenções e respectivas opções influenciaram o desempenho energético-ambiental e funcional de cada um dos exemplos.

Palavras-chave: reabilitação sustentável; edifícios industriais; reconversão de usos

Abstract

This dissertation addresses the issue of the rehabilitation of industrial buildings for new uses, investigating the possibilities of integrating sustainability concerns throughout the process. There is an attempt to identify and characterize Industrial Architecture, its genesis and evolution until the abandonment of the buildings by the industrial use. The themes of rehabilitation and sustainability are introduced and analyzed, underlining its importance and complementarity within the construction sector. Here are described the key guidelines, advantages and disadvantages of the option and process of rehabilitation, as well as the criteria of sustainability and human comfort that outline the current levels of demand in the architecture and construction, illustrating various alternatives for sustainable rehabilitation – particularly under the perspective of passive design – applicable to industrial buildings. Finally, case studies are developed in the industrial area of Alvalade (Lisbon); three industrial buildings rehabilitated for non-industrial uses, intending to understand how each of the interventions and its choices influenced the energy-environmental and functional performance of each example.

Keywords: sustainable rehabilitation; industrial buildings; adaptive reuse

Índice

INTRODUÇÃO

1

1. ARQUITECTURA INDUSTRIAL

5

1.1. Valorização do património industrial

5

1.2. Enquadramento e evolução histórica

7

2. REABILITAÇÃO E SUSTENTABILIDADE EM EDIFÍCIOS INDUSTRIAIS

19

2.1. Abordagens de reabilitação

20

2.2. Critérios de sustentabilidade

31

A sustentabilidade da reabilitação

34

A reabilitação sustentável

36

2.3. Aplicação de estratégias de design passivo na reabilitação e reconversão de edifícios

industriais

44

3. CASO DE ESTUDO – ZONA INDUSTRIAL DO BAIRRO DE ALVALADE

59

3.1. Objectivos

59

3.2. Metodologia

59

3.2.1. Análise empírica ou qualitativa

59

3.2.2. Método LT

60

3.2.3. Ecotect

62

3.3. Caracterização do caso de estudo

63

3.3.1. Contexto histórico e urbanístico

63

3.3.2. Definição do objecto de estudo

64

3.3.3. Descrição dos exemplos estudados

66

3.4. Estudo de sustentabilidade de soluções de reabilitação

69

3.4.1. Edifício A

69

3.4.2. Edifício B

73

3.4.3. Edifício C

78

4. RECOMENDAÇÕES DE PROJECTO

83

CONCLUSÃO

85

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

87

ANEXOS

91

Índice de Figuras

Figura 1 – Silos de cereais fotografados por Bernd e Hilla Becher

5

Figura 2 – Testemunhos das condições de trabalho e processos produtivos

6

Figura 3 – Habitação operária: Vila Mendonça e Vila Paulo, S. Jorge de Arroios, Lisboa

6

Figura 4 – Edifício industrial demolido: Shobnall Maltings, Burton-on-Trent, Inglaterra

7

Figura 5 – Edifício industrial demolido: Fábrica de Borracha Brynmawr, Gwent, País de Gales. 7

Figura 6 – Ford River Rouge (1947): complexo industrial da Ford Motors Company

8

Figura 7 – Edifício industrial junto à água: armazém de navegação Calder and Hebble

9

Figura 8 – Edifício industrial junto à água: antiga central termoeléctrica de Lisboa

9

Figura 9 – Interior de uma fábrica com máquinas eléctricas

10

Figura 10 – Envelope neutro: exemplo de Edifício por Pisos e Mercado

11

Figura 11 – Envelope por medida: exemplos de diferentes moinhos

12

Figura 12 – Edifício-máquina: forno Hoffman da indústria de tijolos Dewulf, França

12

Figura 13 – Novas tipologias: Estação Ferroviária de King’s Cross | Mercado da Ribeira

13

Figura 14 – Edifício A.E.G. da autoria de Peter Behrens, em Berlim (1910)

14

Figura 15 – Chocolateria Menier, em Noisiel, França (1871)

14

Figura 16 – Edifícios industriais do séc. XX, em betão: Sede RTP | Museu do Oriente

16

Figura 17 – Piso industrial reabilitado e reconvertido em estúdio de dança

17

Figura 18 – Fábrica aeronáutica reconvertida para conferências, filmagens de TV e outros

17

Figura 19 – Antigo armazém (1933) em Xangai

18

Figura 20 – Fábrica de produtos químicos transformada em habitações

20

Figura 21 – Durabilidade dos vários “componentes” de um edifício

21

Figura 22 – Edifícios redundantes: antigas instalações da gráfica Mirandela

22

Figura 23 – Edifícios redundantes: antiga Fábrica Militar de Braço de Prata

23

Figura 24 – Efeito da manutenção e da reabilitação no desempenho do edifício

24

Figura 25 – Espaço amplo para uso amplo: teatro temporário instalado em edifício industrial . 26

Figura 26 – Duluth Heritage Sports Center

30

Figura 27 – Ciclo aberto e ciclo fechado de consumo de recursos nas cidades

31

Figura 28 – Uso dos recursos num edifício tradicional e num sustentável

32

Figura 29 – Complexo Ford River Rouge depois da reabilitação arquitectónica e ecológica

33

Figura 30 – Impactos da extracção e depósito de materiais para construção

35

Figura 31 – Antiga fábrica Vapor Aymerich, Amat i Jover (1909-1976)

36

Figura 32 – Factores que condicionam a percepção humana de conforto

37

Figura 33 – Parâmetros que influenciam o balanço térmico

38

Figura 34 – Dispositivos de sombreamento exterior: fixos e ajustáveis

40

Figura 35 – Níveis sonoros de situações frequentes

41

Figura 36 – Planta geral da Città della Scienza

44

Figura 37 – Museu Vivo della Scienza: vistas gerais; zona da entrada

45

Figura 38 – Museu Vivo della Scienza: planta do piso térreo e cortes

45

Figura 39 – Museu Vivo della Scienza: vistas interiores

46

Figura 40 – B.I.C., Centro de Formação e Espaço de Eventos: plantas e cortes

46

Figura 41 – B.I.C., Centro de Formação e Espaço de Eventos: vistas gerais

47

Figura 42 – Vistas exteriores gerais

47

Figura 43 – Planta do piso térreo, corte longitudinal e corte transversal

48

Figura 44 – Vistas interiores: galeria central e sala de leitura

48

Figura 45 – Esquema geral e de pormenor do funcionamento das chaminés solares

49

Figura 46 – Vista exterior diurna e ao anoitecer

50

Figura 47 – Vistas do interior

50

Figura 48 – Vista exterior antes e depois da reabilitação

51

Figura 49 – Planta do piso térreo e cortes

51

Figura 50 – Vista interior da galeria central

52

Figura 51 – Vistas do interior: entrada da biblioteca e de sala de aula | espaço de leitura

52

Figura 52 – Vista aérea do conjunto

53

Figura 53 – Vistas do interior: Foyer | Circulação Privada | Henry Jones Room

53

Figura 54 – Plantas do piso térreo e piso tipo; corte transversal pelo átrio

54

Figura 55 – Vistas do interior do IXL Atrium

55

Figura 56 – Vistas interiores de alguns quartos

55

Figura 57 – Vistas gerais: existente e proposta do atelier NL Architects

56

Figura 58 – Cortes do modelo 3D: Torre A | Torre B

56

Figura 59 – Esquemas funcionais dos dois silos

57

Figura 60 – Imagens dos espaços interiores propostos: Torre A | Torre B

57

Figura 61 – Modelo de balanço energético do Método LT

60

Figura 62 – Exemplo de determinação de áreas passivas e não-passivas

61

Figura 63 – Plano de Urbanização da Zona a Sul da Av. Alferes Malheiro, 1945

63

Figura 64 – Planta de divisão em células

63

Figura 65 – Esquema de distribuição dos diferentes tipos de edifícios

64

Figura 66 – Esquema de utilização do solo

64

Figura 67 – Delimitação do objecto de estudo: zona industrial de Alvalade

65

Figura 68 – Identificação dos três edifícios em estudo

65

Figura 69 – Fachadas principal e tardoz do edifício A, antes e depois de reabilitado

66

Figura 70 – Fachada principal do edifício B, em 1961 e actualmente

67

Figura 71 – Vista aérea de Nascente sobre o Edifício B

67

Figura 72 – Fachada principal do edifício C, em 1961 e actualmente

68

Índice de Quadros

Quadro 1 – Vantagens e desvantagens da opção e processo de

28

Quadro 2 – Síntese dos valores adoptados no Ecotect, comuns aos modelos efectuados

62

Quadro 3 – Diagnóstico empírico ou qualitativo das condições de uso, conforto e utilização de

recursos: edifício

69

Quadro 4 – Síntese da análise com o Método LT: edifício A

70

Quadro 5 – Análise de Iluminação Natural com o software Ecotect: edifício A

72

Quadro 6 – Diagnóstico empírico ou qualitativo das condições de uso, conforto e utilização de

recursos: edifício

73

Quadro 7 – Síntese da análise com o Método LT: edifício B pré-existente

74

Quadro 8 – Síntese da análise com o Método LT: edifício B reabilitado

75

Quadro 9 – Análise de Iluminação Natural com o software Ecotect: edifício B

77

Quadro 10 – Diagnóstico empírico ou qualitativo das condições de uso, conforto e utilização de

recursos: edifício

78

Quadro 11 – Síntese da análise com o Método LT: edifício

79

Quadro 12 – Análise de Iluminação Natural com o software Ecotect: edifício C

80

Índice de Anexos

Anexo 1 – Desenhos rigorosos – edifício A Anexo 2 – Desenhos rigorosos – edifício B Anexo 3 – Desenhos rigorosos – edifício C Anexo 4 – Método LT – Curvas LT “Office, 300 lux, 15 W/m2, Zone 2” Anexo 5 – Método LT – Folhas de cálculo para o edifício A Anexo 6 – Método LT – Folhas de cálculo para o edifício B Anexo 7 – Método LT – Folhas de cálculo para o edifício C

Introdução

A presente dissertação explora o tema da reabilitação de edifícios industriais para novos usos integrando premissas de sustentabilidade a vários níveis, procurando perceber o compromisso entre as valências arquitectónicas pré-existentes e a validação energético- ambiental e funcional da solução resultante para um futuro que se quer sustentável. Num tempo em que a reabilitação do património edificado e as preocupações ambientais

e de desenvolvimento sustentável conquistaram já o seu lugar entre as prioridades para o

futuro, interessa conhecer e explorar todos os mecanismos ao nosso alcance para conciliar ambos os objectivos no sentido de renovar e readaptar o nosso espaço construído às exigências que hoje lhe fazemos. Entre os vários estudos desenvolvidos nestes âmbitos, permanecem, no entanto, algo esquecidos os edifícios de carácter industrial. Tendo estes presenciado e suportado o grande crescimento e desenvolvimento das principais cidades actuais, com o tempo e o evoluir das tecnologias, das sociedades e dos modelos urbanos, a indústria foi progressivamente abandonando os centros urbanos em direcção às periferias, deixando para trás (normalmente ao abandono) um património construído, que é entretanto reabsorvido pela expansão dos centros, e que detém características muito próprias, das quais

é cada vez mais possível e aliciante voltar a tirar partido. Para isso, torna-se essencial o papel do Arquitecto na concepção e reabilitação das tipologias industriais, principalmente quando se pretende a adaptação a novos usos.

Com este estudo, pretende-se avaliar as implicações (oportunidades e condicionantes) do processo de reabilitação arquitectónica e sua conjugação com os princípios da construção sustentável no que diz respeito aos edifícios industriais. Neste sentido, estabelecem-se também os seguintes objectivos:

Compreender as premissas, vantagens e desvantagens de uma intervenção de

Conhecer e compreender as características da Arquitectura Industrial;

reabilitação; Elencar critérios de conforto e sustentabilidade;

Analisar diferentes estratégias e soluções de design passivo aplicáveis em reabilitação; Analisar e avaliar a aptidão das tipologias industriais para se adaptarem a novas funções e responder a parâmetros de conforto estabelecidos;

A dissertação inicia-se com a introdução ao tema da arquitectura industrial, desde a sua relevância no âmbito de um Património Industrial mais vasto, à caracterização da sua evolução no que diz respeito aos critérios de localização, às tipologias e usos associados, aos materiais utilizados, e às preocupações funcionais e estéticas – desde a sua origem até ao cenário

actual. É também introduzida a questão da viabilidade actual de construções industriais desactivadas e abandonadas e o papel do Arquitecto nesse processo. No segundo capítulo, são abordados os temas da reabilitação e sustentabilidade, apontando desde logo para a sua incontornável conjugação a curto prazo. São nomeados e definidos os conceitos e abordagens de intervenção num edifício existente; as premissas a ter em conta num processo de reabilitação; as vantagens e desvantagens do mesmo; e os critérios de conforto e sustentabilidade relacionados com o espaço construído. Ainda neste capítulo, são apresentadas algumas soluções de reabilitação disponíveis, dentro da lógica do design passivo, ilustradas em exemplos já executados de reabilitações de edifícios industriais e sua reconversão para novos usos. Concluído o enquadramento teórico-temático, apresenta-se o caso de estudo a desenvolver na zona industrial do Bairro de Alvalade, em Lisboa. É feita uma breve contextualização histórica e urbanística do conjunto, seguida da delimitação e caracterização do objecto de estudo, constituído por três edifícios industriais reabilitados para novos usos. De seguida, são analisadas e avaliadas as intervenções de reabilitação efectuadas nos três exemplos estudados, procurando compreender de que modo as opções tomadas contribuíram para a variação do desempenho energético-ambiental e funcional de cada um. Por último, é elaborada uma síntese de recomendações de projecto. A metodologia de trabalho divide-se, essencialmente, em duas partes, sendo a primeira

– correspondente aos capítulos 1 e 2 – apoiada em pesquisa bibliográfica e a segunda – capítulo 3 – desenvolvida com base em consulta bibliográfica e dos projectos de arquitectura, observações no local, entrevistas informais com os utilizadores ou projectistas, e nos métodos analíticos Método LT e software Ecotect.

No que diz respeito aos temas da reabilitação e sustentabilidade, em termos gerais, existe já um número considerável de estudos e publicações. Mais escassa é a bibliografia abordando ambos em simultâneo, e mais ainda no que se refere a edifícios industriais. Da pesquisa elaborada, destacam-se de seguida alguns títulos relevantes ao desenvolvimento da presente dissertação. O livro “L’héritage industriel, un patrimoine”, desenvolve um estudo profundo e documentado da história industrial através do conhecimento do seu património, apresentando essencialmente exemplos franceses mas ilustrativos duma realidade mais extensa. São abordadas questões como a definição e valorização do Património Industrial, as características

dos seus edifícios, o impacto na paisagem e desenvolvimento urbano, a influência nas expressões artísticas e as perspectivas de futuro para as antigas e novas construções. A tese de doutoramento “Arquitectura industrial y posible reutilización, AI & R” introduz, igualmente, as temáticas do património e arquitectura industriais, sua caracterização, evolução

e perspectivas futuras, incidindo depois mais especificamente na realidade Espanhola, em particular das Astúrias.

O livro “Reabilitação de Edifícios Antigos”, do Eng. João Appleton, embora abordando

especificamente os edifícios construídos sensivelmente até ao início dos anos 40 do século XX (antes do betão armado), fornece um conjunto de conceitos, estratégias e prioridades universais à prática da reabilitação que em muito contribuem para o entendimento do tema.

A tese de mestrado “Reabilitação Sustentável de Edifícios Industriais: estratégias de

design bioclimático para o complexo de Miraflores”, da Arq. Maria de Lurdes Duarte, aborda o tema da reabilitação sustentável de edifícios industriais, incidindo essencialmente na vertente do conforto térmico e consumo energético. Após um enquadramento histórico e teórico dos temas gerais, procura aplicar os conhecimentos na proposta de soluções de reabilitação energético-ambiental do complexo de Miraflores. Através de questionários aos trabalhadores e medições feitas no local, é feito o levantamento das necessidades e falhas de conforto que o espaço proporciona, e são então propostas e testadas, com o auxílio do software Ecotect,

soluções de melhoria do conforto do espaço interior.

O livro “Building Adaptation” desenvolve o tema da reabilitação de edifícios do ponto de

vista técnico e de gestão do processo, desde o início do projecto à gestão dos resíduos da construção, vocacionado para a realidade Britânica. São apresentados e analisados exemplos

de edifícios de funções variadas, nomeadamente comerciais, residenciais e industriais, sendo os últimos particularmente relevantes no âmbito da presente dissertação. A 2ª edição deste livro veio aprofundar a problemática da minimização dos consumos energéticos bem como a introdução de soluções recorrendo a fontes de energia renováveis, tal como a fotovoltaica, surgindo assim um novo capítulo dedicado exclusivamente à reabilitação sustentável.

O livro “Environmental Design: An Introduction for Architects and Engineers” sintetiza as

diferentes problemáticas do design ambiental, desde a compreensão do conforto e características físicas do ambiente, ao planeamento do edifício e sua inserção local, materiais, energia, luz, água e resíduos sólidos. Por fim, o livro “A Green Vitruvius: Princípios e Práticas de Projecto para uma Arquitectura Sustentável” pretende ser uma referência para os arquitectos, no que diz respeito à abordagem sustentável da arquitectura. Trata-se da tradução e adaptação à realidade nacional de uma série de “princípios e práticas” definidos a nível europeu no âmbito da construção sustentável.

1. Arquitectura industrial

1.1. Valorização do património industrial

O reconhecimento e a valorização do legado industrial enquanto património edificado,

tecnológico e cultural, hoje indiscutíveis, ocorreram em ritmos e moldes diferentes nos vários países industrializados. Comum aos vários percursos foi o interesse e envolvimento de

amadores e entusiastas na procura e reconhecimento dos vestígios da industrialização, simultâneo ou mesmo precedente ao desenvolvimento académico do tema. Este último acarreta, ao longo do tempo, diversas propostas de definição do âmbito e objecto de estudo, definição essa necessária para o devido reconhecimento por parte do Estado e de outras entidades colectivas do valor patrimonial em causa e sua responsabilidade na salvaguarda, recuperação e gestão do mesmo.

na salvaguarda, recuperação e gestão do mesmo. Figura 1 – Silos de cereais fotografados por Bernd

Figura 1 – Silos de cereais fotografados por Bernd e Hilla Becher, um casal de fotógrafos alemão que se distinguiu pelo seu interesse e trabalho fotográfico sobre tipologias industriais. (fonte: www.artnet.com)

Deparamo-nos, antes de mais, com dois conceitos distintos que surgem intimamente relacionados: o de Arqueologia Industrial e o de Património Industrial.

O termo Arqueologia Industrial aparece esporadicamente ainda em finais do século XIX

mas é apenas em 1955, em Inglaterra, berço da Revolução Industrial, que este é pela primeira

vez acompanhado de uma visão global do seu conteúdo 1 . Mais tarde, em 1964, Kenneth Hudson define a Arqueologia Industrial enquanto disciplina científica cujo âmbito é “a procura, catalogação e estudo dos restos físicos do passado industrial, para conhecer, através destes, aspectos significativos das condições de trabalho, dos processos técnicos e dos processos produtivos.” (Hudson cit. In Ríos Díaz, 2007)

processos produtivos.” (Hudson cit. In Ríos Díaz, 2007) Figura 2 – Testemunhos das condições de trabalho

Figura 2 – Testemunhos das condições de trabalho e processos produtivos. (fonte: internet)

Paralelamente à definição da disciplina desenvolve-se o processo de identificação e valorização do Património Industrial enquanto parte esquecida mas legítima do Património Cultural. Por Património Industrial entende-se, actualmente, o conjunto formado pelos edifícios, máquinas e equipamentos associados aos processos de fabrico e ao alojamento da população operária, bem como os testemunhos do papel da mão-de-obra humana no desenvolvimento industrial e suas inerentes características sociais (Cartier, 2002). Só assim, através de uma leitura global, se torna possível retratar a evolução da indústria e as suas implicações no desenvolvimento económico, social e urbanístico das sociedades industrializadas.

social e urbanístico das sociedades industrializadas. Figura 3 – Habitação operária: Vila Mendonça e Vila
social e urbanístico das sociedades industrializadas. Figura 3 – Habitação operária: Vila Mendonça e Vila

Figura 3 – Habitação operária: Vila Mendonça e Vila Paulo, S. Jorge de Arroios, Lisboa. (autor: Sónia Ildefonso)

Em suma, “a Arqueologia Industrial constitui o âmbito científico dedicado ao estudo do Património Industrial desde o momento em que, passada a Segunda Guerra Mundial, se reconhece valor patrimonial aos restos industriais.” (Ríos Díaz, 2007)

1 Definição feita por Michael Rix, da Universidade de Birmingham, num artigo da revista Amateur Historian.

O desenvolvimento da disciplina da Arqueologia Industrial e a consequente valorização, protecção e recuperação do Património Industrial não são cronologicamente simultâneos nos vários países industrializados, mas ocorrem, em geral, a partir da segunda metade do século XX. O papel precursor dos ingleses no (re)conhecimento, valorização e salvaguarda do seu passado industrial (através dos seus vestígios patrimoniais) deve-se, inicialmente, ao interesse de inúmeras associações de amadores pela arqueologia industrial, que vêm a dar lugar às instituições oficiais. A adesão dos populares a este tema é motivada pelo orgulho colectivo na sua revolução industrial e pelas primeiras destruições de edifícios desse mesmo período, que ocorrem em meados de 1950.

desse mesmo período, que ocorrem em meados de 1950. Figura 4 – Edifício industrial demolido: Shobnall

Figura 4 – Edifício industrial demolido: Shobnall Maltings, Burton- on-Trent, Inglaterra. (fonte: Binney et al., 1990)

Burton- on-Trent, Inglaterra. (fonte: Binney et al., 1990) Figura 5 – Edifício industrial demolido: Fábrica de

Figura 5 – Edifício industrial demolido: Fábrica de Borracha Brynmawr, Gwent, País de Gales. (fonte: Binney et al., 1990)

Por sua vez, a industrialização francesa desenvolveu-se sem revolução, progressiva e regularmente, apoiada na ruralidade e na tradição, e também o processo de estudo e protecção do património industrial surgiu tardiamente em relação ao inglês. Segundo Claudine Cartier (2002), ao contrário do que aconteceu com os Anglo-Saxões, a industrialização Francesa não constituiu um marco forte e prestigiante na sua história, o que mais tarde veio a obstruir de certa forma o reconhecimento e fomento do seu Património Industrial. Assim, é apenas a partir de 1970 que se começam a registar movimentações neste âmbito, estando os arquitectos entre os primeiros interessados neste novo domínio do património. Em Espanha, o interesse pela arqueologia Industrial surge em particular a partir de 1982 com a realização das 1 as Jornadas sobre Protecção e Revalorização do Património Industrial, em Bilbau (Ríos Díaz, 2007). Em Portugal, são fundadas a Associação Portuguesa de Arqueologia Industrial, em 1986, e a Associação Portuguesa para o Património Industrial, em 1997.

1.2. Enquadramento e evolução histórica

Incidindo a presente dissertação essencialmente sobre a componente edificada do património industrial, pese embora a importância da compreensão do seu papel enquanto

“parte do todo”, interessará de seguida aprofundar a caracterização desse mesmo património edificado desde a sua lógica de implantação no território, às suas características programáticas, formais e tipológicas, construtivas e materiais.

Não é possível entender os edifícios da indústria, como de resto quaisquer outros, sem conhecer o programa ao qual constituem resposta. No que respeita o programa industrial, em termos globais, talvez a sua principal exigência seja a sua rápida e constante redefinição de exigências. Por outras palavras, o sítio industrial – edificado ou não – está à partida condenado

à sua própria transfiguração evolutiva ao ritmo das transformações dos equipamentos, técnicas

e processos produtivos das indústrias que albergam. Segundo Claudine Cartier (2002), o sítio industrial resulta, essencialmente, de uma lógica económica e funcional, tendo em consideração factores como o acesso aos recursos energéticos, o abastecimento de matérias-

primas e a comercialização dos produtos finais, bem como, internamente, toda a organização do processo produtivo e respectiva maquinaria interveniente. “O espaço de trabalho, é antes de

(cit. In. Cartier, 2002). Neste sentido, a capacidade de uma

tudo o lugar das máquinas (

indústria sobreviver e evoluir depende da sua capacidade de acompanhar a evolução tecnológica dos processos de produção e respectivos equipamentos. O edifício e sua localização devem, portanto, permitir o máximo de adaptabilidade e capacidade de expansão.

)”

o máximo de adaptabilidade e capacidade de expansão. )” Figura 6 – Ford River Rouge (1947):

Figura 6 – Ford River Rouge (1947): complexo industrial da Ford Motors Company, construído entre 1917 e 1928, conseguiu expandir e evoluir, em pleno funcionamento, até aos nossos dias. Recentemente, foi alvo de profunda reabilitação arquitectónica e ecológica. (fonte: http://apps.detnews.com)

Os critérios de localização da indústria foram, também eles, variando ao longo do tempo. Até cerca de 1700, a fonte de energia e as matérias-primas foram o critério mais condicionante. Com a utilização da força da água, através do motor hidráulico, as primeiras indústrias viram-se forçadas a instalar-se ao longo dos cursos de água, normalmente em paisagem rural e segregada dos meios urbanos.

Figura 7 – Edifício industrial junto à água: armazém de navegação Calder and Hebble, Wakefield,

Figura 7 – Edifício industrial junto à água:

armazém de navegação Calder and Hebble, Wakefield, Inglaterra. (fonte: Binney et al., 1990)

Hebble, Wakefield, Inglaterra. (fonte: Binney et al., 1990) Figura 8 – Edifício industrial junto à água:

Figura 8 – Edifício industrial junto à água: antiga central termoeléctrica de Lisboa. (fonte: www.panoramio.com)

Com a disseminação da máquina a vapor, a partir da primeira metade do século XIX, as fábricas ganham uma autonomia de posicionamento, procurando agora os núcleos populacionais urbanos 2 , nos quais era possível completar o ciclo do capital (produção, distribuição e consumo) tirando partido da proximidade da mão-de-obra e do “mercado” onde escoariam os produtos (Ríos Díaz, 2007). Simultaneamente, o acesso às matérias-primas deixa de ser um factor crucial devido ao desenvolvimento da rede ferroviária que vem revolucionar o transporte de pessoas e mercadorias. Mais tarde surgem as preocupações higienistas e, como refere Claudine Cartier (2002):

“as actividades poluentes, ruidosas e libertadoras de odores desagradáveis têm uma

localização centrífuga. Elas são implantadas na periferia das cidades no fim do século XIX

ou início do século XX (

sendo depois recapturadas pela urbanização encontrando-se

[novamente] englobadas pela e na cidade.”

)

A descoberta da electricidade, depois de ultrapassado o problema das perdas durante o seu transporte, volta a libertar a localização das fábricas e, principalmente, o seu funcionamento e organização interiores. Enquanto que a utilização do carvão e todo o funcionamento da máquina a vapor constituem uma actividade pesada, perigosa, barulhenta e poluente, a energia eléctrica representa a sua antítese: limpa, mais silenciosa e fácil de transportar. O então chamado “carvão branco”, aludindo a uma certa pureza que lhe era atribuída, permite assim que cada máquina seja equipada com um motor eléctrico deixando de estar dependente da distribuição centralizada de energia, produzida por uma máquina central (hidráulica ou a vapor). Isto permite a existência de mais máquinas no mesmo espaço e a sua reorganização mais racional ao longo do mesmo (Cartier, 2002).

2 Esta nova situação acarreta o fenómeno do êxodo rural protagonizado pelas populações do campo que migram para a cidade à procura de trabalho, dando origem a uma nova classe social – o proletariado. (Rios Díaz, 2007)

Figura 9 – Interior de uma fábrica com máquinas eléctricas. (fonte: www.zunal.com) No início do

Figura 9 – Interior de uma fábrica com máquinas eléctricas. (fonte: www.zunal.com)

No início do século XX, com a difusão das ideias modernistas, surge no planeamento urbano o conceito de zonamento funcional, que vem dar origem a restrições de ordem regulamentar e legal à localização da indústria. A partir de então e até aos nossos dias, no mundo globalizado, as principais razões que levam à deslocalização das indústrias são a especulação imobiliária sobre os terrenos urbanos ou urbanizáveis, o custo da mão-de-obra e as restrições legais. Sendo estas condições geralmente mais favoráveis nos países em desenvolvimento, é para lá que tendencialmente se dirigem os núcleos produtivos das grandes indústrias. Assim, o que temos hoje é a Produção separada da Administração, situação viabilizada, sobretudo, pelo desenvolvimento das novas tecnologias informáticas e electrónicas que, em conjunto, deram forma à revolução das telecomunicações (Ríos Díaz, 2007). Este cenário potencia igualmente a separação e distinção física e arquitectónica entre o espaço de produção e a sede social de uma empresa, bem como a emergência da imagem corporativa, temas a aprofundar mais à frente.

Independentemente do carácter simbólico e representativo que o edifício industrial possa assumir a determinada altura, ele é, antes de mais, um abrigo funcional. A sua aparência, forma e, como já foi referido, implantação, estão primeiramente dependentes de factores funcionais e económicos que derivam do estádio evolutivo de uma indústria em particular, em determinado lugar e período. Neste sentido, as características da arquitectura resultante podem ou não ser uma consequência directa, no sentido de uma identificação estética e estilística, da função que albergam, sendo antes o resultado dos diferentes tipos de relação funcional que o edifício pode estabelecer com os seus ocupantes industriais. Nesta linha de pensamento, Claudine Cartier propõe uma abordagem comparativa dos vários exemplos edificados, ao invés de tentar estabelecer uma categorização cronológica, estética ou por tipo de indústria. Porque “cada caso é um caso”.

São então identificadas algumas soluções-tipo de edifícios industriais: o abrigo mínimo, o envelope neutro, o envelope por medida e o edifício-máquina. O abrigo mínimo encontrava-se essencialmente associado a pequenas indústrias, ainda

quase artesanais, e não era mais do que um espaço fechado que “abrigava” um conjunto de objectos técnicos e seus operários. Podia até estar associado à habitação dos proprietários, normalmente nos pisos superiores da fachada principal, sendo o uso industrial apenas detectável pelo eventual fumo ou barulho mais intenso. Por envelope neutro entende-se o edifício industrial cuja relação com a função que o ocupa é relativamente indiferente. Isto não significa que o uso industrial não imponha determinadas condicionantes ao espaço, mas sim que estas são garantidas “por excesso” sob

a forma de uma “caixa” neutra capaz de albergar a dita indústria como de, mais tarde, se

adaptar a uma outra. Esta neutralidade não se aplica à aparência dos edifícios em questão, sendo estes por vezes bastante decorados e ornamentados. Os exemplos mais representativos

e comuns do chamado envelope neutro são o edifício por pisos – surgiu em Inglaterra

associado à indústria têxtil a energia hidráulica (textile mill) – e o mercado 3 – difundido pelas

indústrias do ferro, vidro, metalurgia e cerâmica, bem como pela mecânica e, mais tarde, pelas indústrias automóvel e aeronáutica (Cartier, 2002). Trata-se de edifícios de um piso, com pé- direito generoso, onde se destacam grandes janelas verticais e/ou uma cobertura em dentes- de-serra 4 para assegurar uma boa e uniforme iluminação natural. Enquanto que a primeira tipologia – o edifício por pisos – já existia durante o século XVIII (Ríos Díaz, 2007), a segunda surge associada ao aparecimento e desenvolvimento dos novos materiais industriais – o ferro,

o vidro e, mais tarde, o betão armado – cujas características permitem executar vãos livres mais amplos e prescindir das paredes estruturais dando lugar a fachadas rasgadas e luminosas.

estruturais dando lugar a fachadas rasgadas e luminosas. Figura 10 – Envelope neutro: exemplo de Edifício
estruturais dando lugar a fachadas rasgadas e luminosas. Figura 10 – Envelope neutro: exemplo de Edifício

Figura 10 – Envelope neutro: exemplo de Edifício por Pisos e Mercado. (fonte: http://viewfinder.english-heritage.org.uk | www.liverpoolmuseums.org.uk)

3 Por mercado entenda-se, neste contexto, a tipologia de espaço amplo e desimpedido, e não necessariamente a função de mercado. 4 A solução em dentes-de-serra consiste numa “faixa” de cobertura de duas águas assimétricas que se repete transversalmente ao longo do corpo do edifício, sendo as vertentes viradas a norte materializadas em vidro captando, assim, a luz indirecta mas homogénea de norte.

A terceira solução-tipo – o envelope por medida – é a que faz corresponder a forma e volumetria do edifício ao processo produtivo específico que este alberga. Permite, assim, identificar o estádio de desenvolvimento tecnológico, processo produtivo e maquinaria de determinada indústria, em determinada altura, pelo seu reflexo no invólucro exterior. Como refere Cartier (2002), a indústria da moagem é um excelente exemplo disto mesmo: do tradicional e rural moinho de vento, cujas pás fazem girar as mós para moer os cereais, esta tipologia passa por várias transformações como, por exemplo, o aparecimento das torres elevatórias devido ao progresso do processo de moagem que passa a funcionar a vários níveis, de cima para baixo.

que passa a funcionar a vários níveis, de cima para baixo. Figura 11 – Envelope por
que passa a funcionar a vários níveis, de cima para baixo. Figura 11 – Envelope por
que passa a funcionar a vários níveis, de cima para baixo. Figura 11 – Envelope por

Figura 11 – Envelope por medida: exemplos de diferentes moinhos, conforme a localização e tecnologia da época. (autor: desconhecido (esquerda e centro) | Bernd e Hilla Becher (direita))

A materialização mais íntima da relação invólucro edificado / tecnologia industrial acontece quando o próprio edifício é a máquina industrial. A Figura 12 mostra um forno Hoffman, utilizado no fabrico de tijolos e telhas, onde se percebe esta noção notando que todo o edifício é o forno em si.

esta noção notando que todo o edifício é o forno em si. Figura 12 – Edifício-máquina:

Figura 12 – Edifício-máquina: forno Hoffman da indústria de tijolos Dewulf, em Allonne, França. (fonte: Cartier, 2002)

A Revolução Industrial está associada ao aparecimento de novos materiais e novas técnicas construtivas que, juntamente com as alterações sociais, demográficas e económicas vividas a partir desse período, possibilitaram e fomentaram transformações profundas no espaço e na imagem arquitectónicos, dando mesmo origem a novas tipologias de raiz – estações ferroviárias, grandes mercados, palácios de cristal, entre outros.

grandes mercados, palácios de cristal, entre outros. Figura 13 – Novas tipologias: Estação Ferroviária de
grandes mercados, palácios de cristal, entre outros. Figura 13 – Novas tipologias: Estação Ferroviária de

Figura 13 – Novas tipologias: Estação Ferroviária de King’s Cross, Londres | Mercado da Ribeira, Lisboa. (fonte: http://en.wikipedia.org | http://olhares.aeiou.pt)

A respeito dos novos materiais, Claudine Cartier (2002) defende que a indústria não foi a primeira a usá-los na sua arquitectura, apenas a primeira a assumi-los. Noutros programas onde foram inicialmente testados, estes materiais não eram vistos como “nobres” sendo, portanto, escondidos. As novas opções construtivas começaram por ser experimentadas em conjunto com as já conhecidas e testadas (em madeira, pedra, alvenaria, etc.), para progressivamente conquistarem o seu papel a solo, dando então origem a toda uma nova linguagem – o ferro e a Arquitectura do Ferro e do Vidro e, mais tarde, o betão armado associado ao Movimento Moderno. Assim o confirma Covadonga Ríos Díaz (2007):

“Um momento chave para transmitir uma nova e moderna imagem industrial será o

aparecimento do betão armado como material de construção. (

tempo com o uso do ferro nas construções industriais, o betão armado abria realmente novas possibilidades expressivas: maior ligeireza dos elementos básicos, uma escala diferente de proporções, iluminação e ventilação a preencher os espaços entre pilares e vigas externas com vidros contínuos.”

ocorreu no seu

)Como

Estamos, assim, no ponto de viragem para a lógica e estética modernistas que vêem no

modelo da fábrica – “(

intromissões” (Figueira et al., 2000) – a validação dos seus pressupostos.

)

uma construção apropriada à sua função, justa, auto-referencial, sem

Figura 14 – Edifício A.E.G. da autoria de Peter Behrens, em Berlim (1910). (fonte: http://en.wikipedia.org)

Figura 14 – Edifício A.E.G. da autoria de Peter Behrens, em Berlim (1910). (fonte: http://en.wikipedia.org)

As preocupações com a aparência estiveram sempre presentes também na arquitectura industrial, mesmo que com mais ou menos prioridade em cada caso. Durante o século XVIII, as Manufacturas Reais, que pela sua escala e organização económica, social e laboral se consideram já nos primórdios da indústria, são talvez o primeiro exemplo a assumir uma intencionalidade de imagem dos edifícios da indústria. A sua escala e ornamentação ostensivas tinham um objectivo claramente político e de representação do poder Real, relegando para segundo plano a componente funcional. É só a partir da segunda metade do século XIX que “o factor estético assume um valor comercial e como tal deve aplicar-se a todo o complexo industrial, fábrica, administração, habitações dos trabalhadores, equipamentos, etc.” (Ríos Díaz, 2007) Agora já não em benefício do poder Real mas sim da figura do industrial e sua indústria, surge a vontade de projectar a imagem de uma indústria activa, inovadora e produtiva, e de um industrial com uma distinta posição social, tudo com vista a atrair os clientes (Cartier, 2002). O edifício industrial assume, assim, o papel de imagem representativa da respectiva indústria que se quer inovadora, bem sucedida e prestigiada.

que se quer inovadora, bem sucedida e prestigiada. Figura 15 – Chocolateria Menier, em Noisiel, França

Figura 15 – Chocolateria Menier, em Noisiel, França (1871): ricamente decorada em cerâmica tendo como motivos o “M” de Menier e a flor de cacau. (fonte: Cartier, 2002)

São os primórdios da já referida imagem corporativa através da qual se atribui uma identidade à empresa, reconhecível depois nas suas várias facetas: espaços arquitectónicos, produtos, sistema administrativo, marketing, entre outras. Esta postura subsiste e consolida-se até aos nossos dias não só na indústria como em todas as empresas em geral, de maior ou menor escala, ultrapassando os limites da linguagem arquitectónica e tirando partido de outros suportes e mecanismos – gráficos, tipográficos, audiovisuais e afins (Ríos Díaz 2007). A já mencionada revolução das telecomunicações (ou revolução tecnológica), reforçada pela crise do petróleo de 1973, veio precisamente consolidar este processo. As novas indústrias de alta tecnologia libertaram-se da condição de poluente, característica da indústria tradicional. Este factor, entre outros, contribui para que estas se assemelhem cada vez mais ao sector terciário (Ríos Díaz, 2007). Actualmente, exceptuando as indústrias básicas ou ditas pesadas, a actividade industrial pode passar muito mais despercebida no território onde se instala. Isto, juntamente com as grandes alterações ao nível dos espaços, processos e condições de trabalho, faz com que uma boa parte das indústrias (principalmente entre as transformadoras e as de alta tecnologia) sejam agora encaradas como empresas (termo à partida mais vocacionado para o sector terciário) e partilhem das suas preocupações de marketing na definição cuidada da sua própria imagem. No caso das indústrias cujos espaços de produção se encontram já separados das suas sedes sociais (e sucursais), a opção tende muitas vezes para o investimento na imagem arquitectónica do espaço Sede (principalmente quando se trata de um edifício completo) assumindo os espaços de produção uma imagem arquitectónica mais neutra ou anónima, sendo a identificação da indústria feita pontualmente por via dos mecanismos gráficos referidos (p.e. logótipos, slogans publicitários).

Perspectivas futuras

Como vimos, a indústria e sua arquitectura conheceram já inúmeros e distintos estádios, prevendo-se que esta constante mutação tenderá a verificar-se a um ritmo cada vez mais acelerado, ao compasso do progresso tecnológico. Deste processo evolutivo, resultam inúmeras construções funcionalmente desactualizadas e condenadas ao abandono e consequente degradação. Esta condição é válida tanto para edifícios mais antigos e técnicas construtivas ditas tradicionais, como também para edifícios relativamente recentes e construídos com base em técnicas e materiais ainda hoje actuais, como é o caso da construção em betão armado. A estes últimos dizem respeito as citações seguintes:

“Muitas das realizações que se ergueram até finais dos anos sessenta encontram-se hoje desactivadas e surgem aos olhos dos cidadãos como um novo tipo de ruína, suscitando perplexidades várias. O seu desaparecimento por demolição e substituição ou a sua manutenção por reaproveitamento funcional ou museificação colocam desafios acutilantes para os quais não há respostas pacíficas.” (Guimarães, 2000)

Figura 16 – Edifícios industriais do séc. XX, em betão armado. Esquerda: Sede RTP (antiga
Figura 16 – Edifícios industriais do séc. XX, em betão armado. Esquerda: Sede RTP (antiga

Figura 16 – Edifícios industriais do séc. XX, em betão armado. Esquerda: Sede RTP (antiga DIALAP) | Direita: Museu do Oriente (antigo armazém de bacalhau). (fontes: www.ippar.pt | http://pt.wikipedia.org)

“À contemporaneidade foram legadas estruturas “híbridas” e adulteradas nos seus conteúdos primitivos. Com poucas excepções, as alterações realizadas aos projectos originais sucederam-se em tempos muito próximos das datas de construção. Para além de se terem rapidamente transformado em sistemas obsoletos de grande dimensão, com forte presença no território, as fábricas só “artificialmente” viram as suas configurações formais primitivas resistir. São condições que se intrometem como dificuldades adicionais às opções de preservação.” (Figueira et al., 2000)

Independentemente da classificação patrimonial do edificado em geral, e do edificado industrial em particular, é essencial o fomento da sensibilidade e do conhecimento que permitam reconhecer o potencial de um edifício para se tornar uma mais valia e não apenas alvo de demolição. Não é apenas o património classificado, ou de alguma forma singular, que justifica a sua preservação. Também os exemplos mais anónimos, individuais ou de conjunto, podem e devem ser estudados e interpretados caso a caso, à luz de uma nova perspectiva criativa, sustentável e viável de prolongamento da sua vida útil. No caso dos edifícios industriais, salvaguardadas as devidas especificidades, um denominador comum de versatilidade e viabilidade espacial é, frequentemente, a existência de vãos estruturais amplos, espaços desobstruídos e com pés-direitos generosos, e a abundância de luz natural, características que surgem da desde sempre necessária flexibilidade dos espaços da indústria. Mas, actualmente, não só o uso industrial privilegia a flexibilidade e adaptabilidade dos seus espaços, como também outras funções sentem a urgência de (cor)responder, com rapidez e eficácia, aos novos costumes, expectativas e necessidades sociais, culturais, económicas, etc., em constante e acelerada transformação. Assim, os programas alteram-se, redefinem-se e multiplicam-se, e com eles os espaços reinventam-se, adaptam-se e redescobrem-se.

Figura 17 – Piso industrial reabilitado e reconvertido em estúdio de dança. (fonte: Cartier, 2006
Figura 17 – Piso industrial reabilitado e reconvertido em estúdio de dança. (fonte: Cartier, 2006

Figura 17 – Piso industrial reabilitado e reconvertido em estúdio de dança. (fonte: Cartier, 2006 | www.ccn-roubaix.com)

É neste contexto de multiplicidade programática e funcional, juntamente com a já referida valorização do património industrial e as suas inerentes características espaciais e arquitectónicas de oportunidade, que surgem aos poucos, mas com grande sucesso, novas apropriações dos espaços industriais para os mais diversos usos – museus e espaços criativos, escritórios ou mesmo habitação, entre muitos outros – resultando novas espacialidades repletas de carácter e identidade, fruto do diálogo entre o aspecto do edifício industrial muitas vezes “bruto” e pragmático e a sua reinterpretação na linguagem contemporânea. É possível, assim, vislumbrar um futuro mais promissor para os edifícios industriais desactualizados ou, simplesmente, abandonados.

industriais desactualizados ou, simplesmente, abandonados. Figura 18 – Fábrica aeronáutica (1915) em Milão
industriais desactualizados ou, simplesmente, abandonados. Figura 18 – Fábrica aeronáutica (1915) em Milão
industriais desactualizados ou, simplesmente, abandonados. Figura 18 – Fábrica aeronáutica (1915) em Milão

Figura 18 – Fábrica aeronáutica (1915) em Milão reconvertida para conferências, filmagens de TV e outros eventos. (fonte: Tagliaferri, 2006)

Figura 19 – Antigo armazém (1933) em Xangai dá lugar a um atelier de urbanismo,
Figura 19 – Antigo armazém (1933) em Xangai dá lugar a um atelier de urbanismo,
Figura 19 – Antigo armazém (1933) em Xangai dá lugar a um atelier de urbanismo,

Figura 19 – Antigo armazém (1933) em Xangai dá lugar a um atelier de urbanismo, uma editora e uma livraria. (fonte: Tagliaferri, 2006)

O papel do arquitecto

Por fim, interessa referir os papeis do engenheiro e do arquitecto em todo o processo que vem sendo descrito. Como já ficou patente até aqui, ao falar de indústria fala-se, necessariamente, de desenvolvimento técnico e científico. Neste sentido, a figura do engenheiro assume, inevitavelmente, um papel de destaque a partir de meados do século XVIII (Ríos Díaz, 2007):

além do seu envolvimento nos progressos técnicos da produção industrial propriamente dita, o engenheiro é também a figura essencial na concepção do edifício industrial, com o seu programa a privilegiar os requisitos técnicos e funcionais em detrimento dos estéticos. Quando era chamado a participar, o arquitecto via-se incumbido “apenas” da tarefa de “decorar” o exterior. É sobretudo com o Movimento Moderno que o arquitecto assume um papel principal na arquitectura industrial, encontrando nela um objecto de experimentação e validação dos pressupostos modernistas da funcionalidade, depuração, sinceridade e racionalidade. O caso português é também exemplo desta situação:

“Quando o movimento moderno penetra em Portugal nada fazia prever o papel que os arquitectos portugueses iriam desempenhar na construção e caracterização estética das edificações fabris. Nessa altura, uma arquitectura industrial projectada e protagonizada por arquitectos era inexistente.” (Custódio, 2000)

Actualmente, a importância do papel do arquitecto é já evidente e independente da categoria funcional dos edifícios, sendo-lhe atribuída, além da responsabilidade do projecto de arquitectura, a coordenação e compatibilização das diversas outras especialidades intervenientes. Neste sentido, também no repensar da utilização futura dos edifícios industriais desocupados (com mais ou menos idade), o arquitecto deve ser chamado a participar.

2. Reabilitação e sustentabilidade em edifícios industriais

No presente capítulo abordar-se-ão, numa perspectiva conjunta, os temas da reabilitação e da sustentabilidade do espaço construído, com o devido destaque para os edifícios industriais. Despertadas por diferentes consciências, as noções de reabilitação e sustentabilidade entraram na ordem do dia e tendem, cada vez mais, a andar “de mão dada”. Se, por um lado, reabilitar se vem afirmando como uma acção construtiva sustentável, por outro, o processo de reabilitação em si vai incorporando, progressivamente, os actuais critérios de sustentabilidade. Esta interligação e mesmo interdependência entre as duas posturas parece justificar-se na existência de uma premissa comum: preservar o que recebemos do passado perpetuando o seu usufruto no futuro – seja essa herança natural ou construída. Reabilitação e sustentabilidade são dois conceitos de âmbito muito vasto no domínio da construção, bem como para além dele. Ambos suscitam problemáticas em diversas áreas, desde a economia à sociologia ou do ambiente ao urbanismo. As opções de reabilitação e os critérios de sustentabilidade são, assim, susceptíveis de se basearem em diferentes pressupostos e objectivos, podendo estes inclusive colidir entre si. Para o evitar, ou minimizar, é necessária uma abordagem global que procure definir e compreender esses inúmeros factores intervenientes, ponderando-os “lado a lado”, e avaliando os seus prós e contras para, então, de forma consciente e informada, optar pelo conjunto de soluções mais favorável. Desta abordagem global resulta uma noção essencial ao processo de reabilitação de edifícios e de sustentabilidade, aplicável também ao edifício industrial – a necessidade de uma solução de compromisso. Se no projecto de um edifício novo o compromisso é uma inevitabilidade – por razões económicas, técnicas, exigências do programa e do cliente, regulamentos, etc. – no projecto de reabilitação acrescem a estas as condicionantes inerentes ao edifício existente, que podem ser de ordem espacial, construtiva ou material, histórica ou patrimonial, e que, necessariamente, se manifestam na solução final. As características da construção existente podem ser tais que, justificando por inteiro a sua reabilitação do ponto de vista histórico-patrimonial, duma perspectiva espacio-funcional, regulamentar ou económica, por exemplo, estas limitem o desempenho do conjunto final ou impliquem um investimento avultado comparativamente a uma nova construção para o mesmo fim. Assim, também em relação à meta da sustentabilidade é facto que o desempenho final de um edifício reabilitado pode ser irrepreensível ou apenas o possível, sendo a intervenção validada, neste último caso, pelas mais valias económicas e ecológicas alcançadas pela opção de reabilitação em si, bem como pela sustentabilidade social e cultural que representa a conservação da identidade urbana (ou rural, conforme o contexto) através da imagem do seu edificado, singular e/ou anónimo. Não obstante, além de obstáculos e limitações, e até através deles mesmos, as pré-existências são igualmente fonte de oportunidade e criatividade, tornando o projecto de reabilitação num desafio aliciante e o seu produto único e carismático,

pela singularidade que resulta do diálogo entre o existente e a intervenção. Neste campo, os edifícios industriais destacam-se pelo cariz de solidez, funcionalidade e pragmatismo incutidos pelo uso industrial.

funcionalidade e pragmatismo incutidos pelo uso industrial. Figura 20 – Fábrica de produtos químicos transformada em
funcionalidade e pragmatismo incutidos pelo uso industrial. Figura 20 – Fábrica de produtos químicos transformada em

Figura 20 – Fábrica de produtos químicos transformada em habitações: diálogo entre o industrial e o contemporâneo. (fonte: Mostaedi, 2003)

Em suma, são já muitos os exemplos de intervenções de sucesso para que ainda se duvide do potencial e do alcance da reabilitação, da premissa da sustentabilidade, e, principalmente, da conjugação de ambas. Apesar da referida multiplicidade de saberes convergentes e necessários ao projecto de reabilitação e ao entendimento da sustentabilidade, o presente trabalho irá incidir, essencialmente, numa abordagem arquitectónica, construtiva e ambiental da reabilitação sustentável dos edifícios industriais, procurando perceber de que forma as características de desempenho espacial, funcional, ambiental e energético do existente se podem adaptar a um novo uso e suas exigências.

2.1. Abordagens de reabilitação

“The service life of every building is unique.” (Douglas, 2006)

É impossível saber à partida durante quanto tempo um edifício existirá ou cumprirá as funções para que foi concebido. Cada edifício era tradicionalmente pensado, projectado e construído para acolher um determinado uso respondendo às suas necessidades específicas, atingindo o seu fim de vida essencialmente quando, por falta de manutenção ou inevitável envelhecimento, entrava em

processo de deterioração e consequente ruína. No entanto, com a actual rapidez a que os usos

e respectivas exigências se criam, transformam ou desaparecem, o período de utilidade de um

edifício para determinado uso torna-se tendencialmente mais curto, ficando frequentemente aquém da vida útil da construção em si. A longevidade estrutural e material de uma construção

é passível de ser calculada com algum rigor, mas o período de existência de uma edificação,

no seu estado original ou já alterado, não depende apenas da sua durabilidade física mas também, e principalmente, da sua durabilidade útil.

mas também, e principalmente, da sua durabilidade útil. Figura 21 – Durabilidade dos vários “componentes” de

Figura 21 – Durabilidade dos vários “componentes” de um edifício. (fonte: Douglas, 2006)

Factores como as expectativas dos utilizadores, as exigências regulamentares, a melhoria dos padrões de qualidade da oferta de novas construções, a importância da localização como factor de valorização imobiliária, entre inúmeros outros factores externos ao desempenho do edifício em si, têm agora uma influência fundamental na definição do tempo de serviço de um edifício, tornando a sua previsão demasiado incerta. Como consequência, o mercado de intervenção em edifícios existentes e sua reocupação encontra com frequência imóveis parcial ou totalmente desocupados mas em boas ou mesmo excelentes condições físicas, como é muitas vezes o caso dos resistentes edifícios industriais.

O que determina a necessidade de intervir num edifício?

James Douglas (2006) refere a obsolescência e a redundância como sendo dois indicadores do fim da utilidade de um edifício no seu estado actual e consequente necessidade de intervenção.

Obsolescência é um processo que insere o factor “tempo” na análise de um edifício, determinando o momento de decisão entre a reabilitação ou demolição do mesmo (Douglas,

2006).

Um edifício diz-se obsoleto quando, na sua condição actual, não consegue responder às necessidades e/ou expectativas dos seus utilizadores – seja do ponto de vista económico, funcional, físico-ambiental, energético, sócio-cultural, legal ou estético (Douglas, 2006). A obsolescência é determinada pela desactualização das características e desempenho do edifício relativamente à nova oferta edificada para os mesmos fins e ao aumento das expectativas dos utilizadores, ditado ou não por alterações legislativas ou regulamentares. Mesmo dependente das expectativas da procura, a obsolescência pode ser controlável através do reajuste das características da oferta (o edifício), recorrendo-se, para isso, a acções de manutenção ou reabilitação. Um edifício obsoleto considera-se desactualizado em relação ao seu propósito de uso, desajustado, antiquado ou “fora de moda”. Neste sentido, um edifício deteriorado ou de alguma forma disfuncional, não está necessariamente obsoleto podendo, corrigidas as anomalias, continuar capaz de cumprir eficazmente os seus objectivos. A deterioração é um dos factores que pode acentuar o processo de obsolescência, mas não é seu sinónimo. Ainda assim, obsolescência e deterioração encontram-se frequentemente associadas, sendo a última mais fácil de prever e contrariar que a primeira (Douglas, 2006). A redundância, por seu lado, representa a perda de interesse numa propriedade motivada pelo excesso de oferta de outras semelhantes relativamente à procura. É uma circunstância essencialmente externa ao edifício em si, sendo determinada essencialmente pela procura (mercado) e não pela oferta (edifício). Ainda assim, a obsolescência de uma edificação pode muitas vezes despoletar a sua redundância. A maneira mais eficaz de prolongar a vida útil de um edifício redundante é a sua reconversão de uso (Douglas, 2006).

redundante é a sua reconversão de uso (Douglas, 2006). Figura 22 – Edifícios redundantes: nas antigas
redundante é a sua reconversão de uso (Douglas, 2006). Figura 22 – Edifícios redundantes: nas antigas

Figura 22 – Edifícios redundantes: nas antigas instalações da gráfica Mirandela encontra-se a LX Factory, empresa criada para viabilizar a utilização criativa temporária destes espaços abrangidos pelo plano Alcântara XXI. (fonte: http://epormodas.blogspot.com | www.flickr.com)

Em suma, a obsolescência é um indicador de desadequação das características da oferta em relação às exigências da procura, enquanto que a redundância, por sua vez, é um

indicador de excesso de oferta de um mesmo tipo de edifício em relação à quantidade de procura. “As causas de obsolescência e redundância podem ser ligeiramente diferentes mas os efeitos são os mesmos: um edifício é sub-utilizado ou torna-se totalmente inutilizado.” (Douglas, 2006) Os edifícios industriais, objecto do presente trabalho, são também exemplo disso

mesmo. Tradicionalmente “construídos para durar”, os edifícios industriais vêem repetidamente

a

sua indústria “hóspede” transformar-se ou expandir-se (não conseguindo mais conviver com

o

espaço e as instalações técnicas existentes), ou simplesmente deslocar-se ao ritmo das

orientações do mercado (Binney et al., 1990). O futuro destas construções, frequentemente desactivadas e abandonadas, fica assim em aberto, potenciando a necessidade de uma intervenção que pode ir da “simples” demolição à reocupação por uma nova indústria ou reconversão para novos e criativos usos.

nova indústria ou reconversão para novos e criativos usos. Figura 23 – Edifícios redundantes: desactivada nos
nova indústria ou reconversão para novos e criativos usos. Figura 23 – Edifícios redundantes: desactivada nos

Figura 23 – Edifícios redundantes: desactivada nos anos 90, a antiga Fábrica Militar de Braço de Prata funciona, desde 2007 (embora a título temporário), como pequeno centro cultural. (fonte: http://porosidade-eterea.blogspot.com | http://cheirabem.blogspot.com)

Tipos de intervenção e definição de conceitos

O tipo e grau de intervenção num edifício existente dependem, essencialmente, do estado de conservação do mesmo e das alterações que o futuro uso e respectivo programa exigirão. A intervenção num edifício existente pode implicar desde uma renovação “cosmética” a uma reconstrução profunda. Estes e outros termos – como requalificação, remodelação, restauro, reparação, reconversão, reforço, recuperação, adaptação e, principalmente,

reabilitação – são cada vez mais comuns no vocabulário da construção, não sendo estanques entre si mas antes frequentemente complementares. Genericamente, podemos considerar três modos de intervenção sobre edifícios existentes: manutenção, reparação e reabilitação.

o conjunto de operações preventivas

destinadas a manter, em bom funcionamento, a edificação e as suas partes constituintes, incluindo limpezas e pinturas, inspecções e pequenas reparações.” Constitui o instrumento mais eficaz e económico no prolongamento da vida útil de um edifício, do ponto de vista das

Appleton (2003) define a manutenção como “(

)

suas características físicas. A falta de uma manutenção correcta e regular permite que o

natural envelhecimento da construção se precipite, dando origem a patologias profundas, de mais difícil e dispendiosa reparação ou, no extremo, irreparáveis.

o conjunto de operações

destinadas a corrigir anomalias existentes, por forma a manter a edificação no estado em que se encontrava antes da ocorrência dessas anomalias.” (Appleton, 2003) Ambas as definições apontam essencialmente para a conservação e restituição das características físicas pré-existentes de uma edificação. É talvez neste ponto que se estabelece a distinção para o conceito de reabilitação: este compreende, além da noção de salvaguardar o existente, a intenção de o superar qualitativamente, local ou globalmente, actualizando o seu desempenho no presente segundo critérios definidos pensando no futuro.

Num estádio subsequente, a reparação constitui “(

)

1. Nível mínimo aceitável 2. Condição original 3. Nível óptimo 4. Manutenção 5. Reabilitação
1. Nível mínimo aceitável
2. Condição original
3. Nível óptimo
4. Manutenção
5. Reabilitação

Figura 24 – Efeito da manutenção e da reabilitação no desempenho do edifício. (fonte: adaptado de Douglas, 2006)

Reabilitação é, assim, um conceito mais vasto e abrangente que os anteriores e, por isso, mais frequentemente utilizado, aplicável não só à componente construída de um edifício, como também ao seu uso. Da etimologia da palavra, entende-se que reabilitar consiste em devolver a habilidade de, ou seja, neste contexto, reabilitar significa restituir ao edifício existente a sua aptidão e capacidade de corresponder às necessidades e expectativas que a sua utilização e respectivos utilizadores lhe impõem. Neste sentido, uma intervenção de reabilitação de um edifício existente pode ir da “resolução das anomalias construtivas”, à actualização do desempenho técnico-funcional e energético-ambiental da construção e às alterações espacio-funcionais que permitam a reutilização do edifício para o mesmo uso (mas cujas necessidades se alteraram) ou para uma nova função então mais pertinente. Entende-se, assim, que uma operação de

reabilitação pode englobar intervenções de parcial demolição ou ampliação, além das já referidas (restauro, reforço, reconstrução, reconversão, etc.) consideradas necessárias à referida habilitação do edifício para acolher de novo, e de forma sustentável, uma qualquer actividade.

Premissas de reabilitação

Segundo Appleton (2003), a reabilitação de um edifício deve procurar satisfazer três critérios primários:

reversibilidade

compatibilidade

durabilidade

A reversibilidade prevê que qualquer intervenção num edifício existente possa ser revertida, permitindo o retorno às características anteriores a essa mesma intervenção. Este princípio pretende salvaguardar o pré-existente da eventual ineficácia das soluções adoptadas. No entanto, a total reversibilidade é, na maior parte dos casos, impraticável, pelo que as propostas de intervenção devem garantir, pelo menos, a compatibilidade entre o que existe e o que é proposto, bem como a durabilidade das várias soluções adoptadas. A respeito da compatibilidade, o mesmo autor afirma que:

“É impossível projectar «sobre» um edifício existente como se ele não existisse (e, no entanto, este absurdo acontece com frequência), o que significa que o projecto tem de integrar o construído e, simultânea e prioritariamente, integrar-se com ele. Os materiais e tecnologias originais estão portanto, e desde logo, a fazer parte do próprio projecto de reabilitação. Naturalmente, os materiais e técnicas de reabilitação têm de ter isso em conta.” (Appleton, 2003)

À noção de compatibilidade técnica e material, Douglas (2006) acrescenta a importância da compatibilidade do uso. É essencial que a escolha do uso não se imponha à construção existente como uma ameaça ao seu carácter construtivo e arquitectónico mas que, pelo contrário, essa mesma escolha assente na identificação das potencialidades do edifício que permitam garantir a óptima apropriação do espaço pelo uso, com o mínimo de intervenção e transtorno. A opção do uso a que se destina determinado edifício pode ser um ponto de partida determinante para o sucesso ou fracasso de uma reabilitação e reconversão. Também nesta temática da compatibilidade do uso o edifício industrial se revela um exemplo de interesse, devido às especificidades dos seus espaços. Pareceria descaracterizador e pouco sustentável o esforço de, por exemplo, transformar um edifício industrial amplo e luminoso para um uso marcadamente compartimentado, ou o inverso.

Figura 25 – Espaço amplo para uso amplo: teatro temporário instalado em edifício industrial desocupado,
Figura 25 – Espaço amplo para uso amplo: teatro temporário instalado em edifício industrial desocupado,

Figura 25 – Espaço amplo para uso amplo: teatro temporário instalado em edifício industrial desocupado, EUA. (fonte: Tagliaferri, 2006)

O critério da durabilidade aspira à limitação das necessidades de manutenção, e consequentes impactos e custos, prolongando igualmente o prazo para uma futura intervenção. Desta forma, são rentabilizados os recursos necessários à presente intervenção bem como é reduzida a necessidade dos mesmos a curto prazo, entendendo-se por recursos os financeiros, materiais, energéticos e de tempo. Igualmente importantes enquanto premissas base, para reabilitação e reconversão, ou para nova construção, são os princípios da flexibilidade ou adaptabilidade, inspeccionabilidade, reparabilidade e sustentabilidade. É indispensável garantir a capacidade de adaptação de um edifício ao imprevisto – mudança de intensidade ou requisitos de um mesmo uso, alteração de uso, novas exigências regulamentares de segurança e conforto, entre outros – alargando, assim, as alternativas de longevidade útil da construção. Inspeccionabilidade e reparabilidade dizem respeito à possibilidade de inspecção e reparação das soluções adoptadas. Dentro do possível, há que garantir o acesso visual a pontos essenciais da construção (desde a estrutura, às redes técnicas e a materiais de enchimento ou revestimento) por forma a detectar precocemente quaisquer anomalias ou patologias, enquanto estas são mais facilmente resolúveis. Por outro lado, deve ser dada preferência a soluções que contemplem a possibilidade da sua reparação (mesmo que implicando a substituição de partes) em vez da sua substituição integral. Por fim, a premissa da sustentabilidade abrange de certa forma as preocupações anteriores e acrescenta uma multiplicidade de novas questões, das económicas às sociais e culturais, ou mesmo políticas, mas, fundamentalmente, e serão estas as mais focadas no presente trabalho, as questões ambientais, desde o controlo do ambiente interior e exterior requerido à construção, ao impacto de toda a intervenção no meio ambiente e recursos naturais em termos locais e globais. Os referidos critérios e premissas estão intimamente relacionados apontando, com frequência, na mesma direcção. Por exemplo, uma solução reparável implica a sua inspeccionabilidade para detectar atempadamente a necessidade de reparação. Por outro lado,

a reparabilidade é uma forma de prolongar ainda mais a durabilidade de uma solução que, por

sua vez, aponta já para uma visão sustentável da construção na medida em que reduz a necessidade de novas matérias-primas (e respectivos recursos naturais e energéticos, poluição

e desperdício associados à sua extracção e produção) optimizando, ao mesmo tempo, o

usufruto das já utilizadas. Este cruzamento de noções e saberes apenas acentua o já reconhecido carácter multidisciplinar e integrado duma acção de reabilitação.

Vantagens e Desvantagens

A opção de reabilitar um edifício industrial tem vantagens e desvantagens. Há, portanto, que ponderar, caso a caso, os prós e os contras deste tipo de intervenção no edifício em causa, tendo em conta o seu estado de conservação, valor patrimonial ou arquitectónico, características espaciais e funcionais intrínsecas e viabilidade de compatibilização das mesmas com os requisitos actuais e futuros, condicionalismos técnicos e económicos da intervenção, e mais-valias e sustentabilidade ambiental alcançadas com a mesma. Ainda assim, apesar da especificidade de cada intervenção, é possível enumerar algumas vantagens e desvantagens inerentes à opção e ao processo de reabilitação. Como aponta Appleton:

os edifícios antigos têm, qualquer que seja a sua idade, já cumprida a função

para que foram construídos, admitindo-se que o tempo médio esperado para a vida de um edifício será de 50 anos. Por isso mesmo, representam já uma parte do património construído, contêm em si mesmos uma parte da história do homem, para além de significarem também uma parcela significativa e mesmo imprescindível do parque construído, no que se refere às funções que têm de continuar a desempenhar, na habitação, no comércio, na indústria ou nos serviços.” (2003)

“(

)

Assim o é para os edifícios que o autor identifica como antigos (os anteriores à utilização do betão armado) como o vai sendo progressivamente para todos os edifícios posteriores que começam aos poucos a necessitar de intervenção, como é o caso dos edifícios estudados neste trabalho. Reabilitá-los, prolongando o seu tempo de serviço e adequando as suas

potencialidades às exigências contemporâneas, pode constituir, assim, uma mais-valia inerente

– rentabilizam-se em termos económicos e energético-ambientais os recursos já utilizados na sua construção; poupam-se esses mesmos recursos com a não demolição do existente e

construção de um novo edifício; reforça-se a identidade do sítio e a memória colectiva inerente

à imagem do seu edificado; rejuvenesce-se o edificado e com ele o espírito duma população;

dá-se continuidade à utilidade do edifício, transformando uma construção supérflua num edifício perfeitamente operacional, útil e rentável. As motivações históricas, patrimoniais, sociais e culturais são muitas vezes fulcrais na decisão de reabilitar um edifício. Por vezes valem só por si – caso de edifícios classificados ou protegidos de alguma forma, ou simplesmente acarinhados por uma população – outras vezes carecem do auxílio de outros factores de peso para apoiar essa opção. Noutros casos não

intervêm significativamente no processo, sendo com frequência apenas uma questão de rentabilidade financeira e viabilidade funcional.

Quadro 1 – Vantagens e desvantagens da opção e processo de reabilitação.

   

VANTAGENS

DESVANTAGENS

Históricas / Patrimoniais

 

conservação, revalorização e reutilização do património arquitectónico como memória construída do passado de uma sociedade;

intervenções pouco sensíveis podem pôr em causa a integridade e “veracidade” do património arquitectónico histórico;

maior controlo sobre o estado de conservação de um edifício quando este é utilizado – menos propensão para degradação prolongada;

intervenções demasiado sensíveis podem ficar aquém das expectativas técnicas, funcionais e de sustentabilidade;

conservação do testemunho de modos de pensar, produzir, habitar, trabalhar, entreter, construir, etc., inscritos na arquitectura e na construção;

Sociais / Culturais

 

manutenção da imagem urbana e sua intrínseca identidade sócio-cultural;

possível perda definitiva da identidade do edifício existente;

renovação do sentido de orgulho e estima pelo

património construído – é mais fácil de gostar e manter

o

que está “bem tratado” e funcional;

benefícios de saúde para os ocupantes, reduzindo a incidência de doenças relacionadas com o espaço

 

construído;

 

isenção de taxas;

a intervenção pode ser limitada por regulamentos ou planos de urbanismo, de protecção do património, entre outros, aplicáveis a construções existentes;

 

Regulamentares

apoios financeiros (fiscais, municipais ou outros)

Legais /

programas de apoio à reabilitação (RECRIA, etc.)

pode não ser possível o total cumprimento dos regulamentos aplicáveis a edifícios novos equivalentes, sendo necessária uma avaliação caso a caso;

 

técnicas e materiais aplicados já deram provas da sua durabilidade e comportamento específico – pontos fortes

edifícios mais antigos estão muitas vezes inseridos em zonas histórias (ruas estreitas e sinuosas) dificultando o acesso e a localização do estaleiro exterior quando necessário;

fragilidades, – reduzindo o risco por vezes inerente à experimentação de novas soluções;

e

Técnicas / Funcionais

 

menor necessidade de espaço de estaleiro;

possibilidade de contextualizar, reintegrar e reinterpretar espacialidades e técnicas construtivas actualmente em

a extensão do tempo de vida de um edifício reabilitado pode ser apenas até cerca de metade do tempo de vida de uma construção nova;

desuso;

possibilidade de constrangimentos impostos pelo existente – pé-direito muito baixo, disposição estrutural pouco flexível, planta muito profunda (difícil iluminação e ventilação naturais), etc.;

 

pode não ser possível garantir um desempenho técnico-funcional igual ao de uma construção nova para o mesmo fim;

   

VANTAGENS

 

DESVANTAGENS

 

reduz ou elimina a quantidade de demolições (menos desperdício/entulho, menor necessidade de transporte e respectivas emissões de CO 2 , menos energia consumida, menos poluição sonora e ambiental em geral, maior qualidade do ar);

reduz a pressão para urbanização de mais terrenos “verdes”, optimizando a rentabilização do parque construído;

alguns edifícios de mais fraca construção

podem ser difíceis de elevar qualitativamente

a

níveis aceitáveis de desempenho

energético-ambiental;

pode não ser possível garantir um desempenho energético-ambiental igual ao de uma construção nova para o mesmo fim;

Energéticas / Ambientais

menos matéria-prima necessária e respectivo transporte (possibilidade de aproveitamento de fundações, estrutura, redes e equipamentos técnicos, revestimentos, etc.);

menos energia incorporada necessária do que para uma

nova construção – rentabilização dos recursos e energia

utilizados;

menos tempo em obra;

possibilidade de optimização do consumo energético e de recursos (p.e. água) de exploração e manutenção do edifício existente;

 

possibilidade de optimização do ambiente e conforto interiores do edifício existente (térmica, acústica, iluminação, qualidade do ar, etc.)

oportunidade para eliminação de materiais tóxicos e perigosos para a saúde;

alguns edifícios (essencialmente os mais antigos) são de “construção pesada” (maior inércia térmica) e funcionam com base em iluminação e ventilação naturais, sendo mais fácil a obtenção de um edifício reabilitado e de um ambiente interior sustentáveis;

 

reduz ou elimina a quantidade de demolições;

mão-de-obra especializada possivelmente mais cara (por ainda haver pouca experiência

menos matéria-prima necessária (possibilidade de aproveitamento de fundações, estrutura, redes e equipamentos técnicos, revestimentos, etc.);

menos tempo em obra;

e

concorrência);

Económicas

técnicas de restauro, utilização de materiais e técnicas ”antigas” para maior compatibilidade, ou substituição de elementos antigos, difíceis de encontrar ou fabricar, podem encarecer a

obra;

reduz ou elimina a necessidade de estaleiro (a própria construção abriga os materiais e os trabalhos);

possibilidade de optimização dos custos de exploração

custos de exploração e manutenção de uma construção reabilitada podem não conseguir igualar os de uma construção nova;

 

e

manutenção do edifício existente;

valorização económica “real” do património existente após a sua reabilitação;

 

Do ponto de vista económico (que na prática é muitas vezes o factor de decisão), há que desmistificar a noção generalizada de que é sempre mais barato demolir e construir de novo, do que reabilitar. Tratando-se da integração e reaproveitamento de um edifício existente, há todo um conjunto de elementos a manter – fundações, estrutura, revestimentos, infra-estruturas técnicas, etc., – o que representa uma redução de custo relativa a esses mesmos elementos numa construção nova. Mais ainda, não deve ser desprezado o valor intrínseco de certos elementos existentes, considerando que o custo de refazer esse mesmo elemento no presente – se tal ainda for sequer possível – excede em muito o seu custo original ou a sua recuperação. Além da poupança em termos materiais, há que considerar também o custo “artificialmente elevado” das obras de reabilitação actualmente, devido ao insuficiente número e qualidade de empresas especializadas (Appleton, 2003). Quanto mais frequente for a prática

da reabilitação de edifícios, e mais diversificados os tipos de edifícios intervencionados, maior e melhor será a experiência prática adquirida pelos vários intervenientes, mais eficaz se torna todo o processo (do projecto à execução da obra) pela minimização do factor surpresa que muitas vezes faz disparar os custos totais, e maior a concorrência de qualidade – factor essencial para a redução de custos. Outra ideia que importa desmistificar é a de que as soluções ambientalmente sustentáveis são necessariamente mais caras. Para isso, basta realçar que algumas das principais vantagens económicas são simultaneamente critérios de sustentabilidade energético- ambiental. A minimização de trabalhos de demolição, em si dispendiosos e consumidores de energia, representa igualmente a redução de desperdício e entulho material, de poluição e de energia incorporada em todo o processo. A reutilização dos materiais existentes tem também como consequência directa a redução do recurso à extracção e processamento de novas matérias-primas, com o respectivo impacto ambiental (que vai desde a profunda alteração de paisagens naturais, ao risco de extinção da biodiversidade e de recursos materiais e energéticos não renováveis, e cuja produção e transporte implicam actividades poluentes). Também ao nível do conforto e desempenho interior do edifício, sustentabilidade ambiental é muitas vezes sinónimo de sustentabilidade económica. A aposta em soluções de design passivo – aumento da inércia e massa térmica do invólucro construído, maximização da ventilação e iluminação naturais, optimização de ganhos e perdas de calor, controlo de sombreamento de envidraçados, etc., – ou em soluções de poupança e reaproveitamento de águas, e outros sistemas mais activos pode, por vezes, implicar um maior investimento inicial mas, além de minimizar um investimento semelhante em equipamentos mecânicos para atingir os mesmos níveis de conforto, pretende garantir importantes poupanças na fase de utilização do edifício – a mais longa do seu ciclo de vida.

do edifício – a mais longa do seu ciclo de vida. Figura 26 – Duluth Heritage
do edifício – a mais longa do seu ciclo de vida. Figura 26 – Duluth Heritage

Figura 26 – Duluth Heritage Sports Center: edifício industrial reabilitado para um uso colectivo desportivo. (fonte: www.dsgw.com)

No que toca os edifícios industriais em particular, as frequentes características de amplitude espacial e flexibilidade do espaço interior, aliadas a uma generosa iluminação natural, fazem destes edifícios fortes candidatos a albergar programas mais singulares como, por exemplo, centros desportivos, galerias de arte, museus e outros espaços culturais ou de lazer de uso colectivo, que de outra forma estão sempre mais dependentes do recurso a nova construção.

As muitas vantagens e desvantagens apresentadas atestam que reabilitar é muitas vezes a opção mais viável e atractiva mas não o é sempre, em termos absolutos. Inúmeras vezes se encontrarão edifícios velhos, deteriorados, redundantes ou, simplesmente, de tão fraca qualidade, que a melhor opção a vários níveis será mesmo a sua demolição dando lugar a uma nova e mais apropriada construção (Douglas, 2006).

2.2. Critérios de sustentabilidade

Nos últimos anos, e actualmente de um modo mais incisivo, as preocupações ecológicas estão no topo das prioridades das directrizes políticas internacionais e das preocupações da opinião pública em geral. Entre outros acontecimentos e “alertas”, as Crises do Petróleo, o Buraco do Ozono e, actualmente, o Aquecimento Global têm servido de base a toda uma nova forma de pensar uma existência sustentável do ser humano na Terra.

pensar uma existência sustentável do ser humano na Terra. Figura 27 – Ciclo aberto e ciclo
pensar uma existência sustentável do ser humano na Terra. Figura 27 – Ciclo aberto e ciclo

Figura 27 – Ciclo aberto e ciclo fechado de consumo de recursos nas cidades. (fonte: Rogers, 1997)

Uma das ideias centrais para o desenvolvimento sustentável é a de repor a lógica de transformação da matéria de um sistema de ciclo aberto ou linear (extracção-produção-entulho) para um de ciclo fechado (extracção-utilização-reutilização-reciclagem), que se aproxima mais do modelo de funcionamento da Natureza – onde nada de cria, nada se perde, tudo se transforma 5 .

5 Lei da Conservação da Massa ou Lei de Lavoisier, enunciada pelo químico Antoine Lavoisier, em 1789.

Figura 28 – Uso dos recursos num edifício tradicional e num sustentável. (fonte: VVAA, 2001)
Figura 28 – Uso dos recursos num edifício tradicional e num sustentável. (fonte: VVAA, 2001)

Figura 28 – Uso dos recursos num edifício tradicional e num sustentável. (fonte: VVAA, 2001)

A campanha dos três R’s – reduzir, reutilizar, reciclar – aponta nesse sentido apelando à minimização do consumo de matérias-primas e recursos naturais não renováveis ou escassos, e à optimização da sua utilização. Na obra Cradle to Cradle (2009), Braungart e McDonough reforçam a importância desta atitude de contenção mas vêem-na como transitória, propondo como objectivo último zero impactos negativos na natureza e, inclusive, o retorno dos recursos naturais utilizados com efeitos benéficos aos vários ecossistemas. Encarando a diversidade e o desenvolvimento como salutares, à semelhança do que acontece na natureza, os autores defendem uma tese não de redução – que acreditam resultar apenas no adiamento das consequências e na frustração do prazer humano – mas de reformulação do sistema industrial, integrando-o nos ciclos biológicos de forma positiva, devolvendo à natureza exactamente o que dela é retirado, e anulando a produção de substâncias e resíduos que esta é incapaz de biodegradar. No âmbito da construção, esta tese aponta para edifícios e cidades que são

ecossistemas em si, contribuindo indispensavelmente para o equilíbrio ecológico local e global, sem descurar o seu funcionamento interno como sociedade humana – os edifícios podem purificar o ar à semelhança das árvores e gerar mais energia do que a que consomem; as cidades podem potenciar a salubridade e biodiversidade dos solos e águas, tornando-se auto- suficientes mas integradas no seu ambiente. Um dos exemplos de aplicação destes princípios em edifícios é a reabilitação do complexo industrial Ford River Rouge, do fabricante automóvel Ford.

industrial Ford River Rouge, do fabricante automóvel Ford. Figura 29 – Complexo Ford River Rouge depois
industrial Ford River Rouge, do fabricante automóvel Ford. Figura 29 – Complexo Ford River Rouge depois
industrial Ford River Rouge, do fabricante automóvel Ford. Figura 29 – Complexo Ford River Rouge depois
industrial Ford River Rouge, do fabricante automóvel Ford. Figura 29 – Complexo Ford River Rouge depois

Figura 29 – Complexo Ford River Rouge depois da reabilitação arquitectónica e ecológica. (fonte: www.mcdonoughpartners.com)

Apesar do destaque hoje atribuído à sustentabilidade ambiental, outros aspectos da vida humana em sociedade e, consequentemente, dos espaços construídos em que esta se desenvolve, não podem ser descurados sob pena de atingirmos apenas uma existência mais ecológica mas não verdadeiramente sustentável. Assim, também no que diz respeito ao património construído, da cidade à habitação unifamiliar, a sustentabilidade deve ser pensada e avaliada segundo a ponderação dos diversos critérios – ambientais, sociais e económicos.

No âmbito do presente trabalho, serão abordados mais a fundo os critérios de sustentabilidade ambiental e de uso do edificado, ficando porém a ressalva para a importância de outros critérios e, essencialmente, do equilíbrio do conjunto.

A sustentabilidade da reabilitação

A reabilitação de edifícios é em si um veículo para a sustentabilidade do ambiente natural, construído e socio-humano, na medida em que se enquadra, à escala do património edificado, na lógica de ciclo fechado – reutilizando o existente e transformando-o, sempre que necessário, por forma a dar continuidade à sua utilização e à sua eficaz correspondência às exigências renovadas. Para que tal seja possível, deve haver, à priori, quer em nova construção quer na própria reabilitação, a preocupação de dotar as construções dessa capacidade de persistir e evoluir continuamente, optando por materiais e sistemas construtivos duráveis, reparáveis e versáteis, para maximizar a compatibilização com futuras intervenções. Segundo o Green Vitruvius (2001), o impacto ambiental de um edifício deve ser analisado a dois níveis:

1. enquanto “estrutura física” ou “coisa morta” – o edifício é apenas “a soma de todas as suas partes” e inerentes impactos individuais resultantes de extracção, produção, transporte, aplicação, demolição e reciclagem ou depósito como resíduo inútil.

2. enquanto “máquina viva” – o edifício é todo um sistema activo, consumidor de recursos e gerador de desperdícios que permitem o seu funcionamento e traduzem o seu impacto ambiental ao longo de toda a sua fase de utilização.

No primeiro nível de abordagem contabilizam-se, essencialmente, os recursos e respectivos impactos incorporados, ou seja, tudo o que é necessário consumir (matérias- primas, energia, água, transportes, etc.) e produzir (emissões de CO 2 e outros gases, ruído, produtos secundários, resíduos e outras formas de poluição) para fabricar os materiais e elementos construtivos e aplicá-los em obra, bem como para os desmontar ou demolir e reutilizar, reciclar ou “deitar fora” no fim de vida da construção. A contabilização destes impactos engloba, essencialmente, a fase de obra e necessárias fases anteriores de preparação da mesma (p.e. o fabrico de materiais e seu transporte), bem como a fase de desmontagem ou demolição e posteriores transporte, reutilização, reciclagem, eliminação ou depósito em vazadouro dos desperdícios.

Figura 30 – Impactos da extracção e depósito de materiais para construção. (fonte: internet) Enquanto
Figura 30 – Impactos da extracção e depósito de materiais para construção. (fonte: internet) Enquanto
Figura 30 – Impactos da extracção e depósito de materiais para construção. (fonte: internet) Enquanto

Figura 30 – Impactos da extracção e depósito de materiais para construção. (fonte: internet)

Enquanto “máquina viva”, por outro lado, o edifício produzirá um impacto no ambiente (interior e exterior) que diz respeito ao funcionamento permanente e prolongado do edifício, com vista à garantia das condições de salubridade, conforto, segurança e funcionalidade que os utilizadores procuram. Este impacto inclui o conjunto de processos, sistemas e actividades necessários ao funcionamento da construção, como também os involuntários mas inerentes às soluções adoptadas (p.e. emissões químicas de materiais aplicados). Estando absolutamente dependente das opções iniciais de projecto e execução, a contabilização destes impactos estender-se-á por toda a fase de exploração do edifício (a mais longa de todo o seu ciclo de vida), podendo ao longo do tempo ser amplificados ou mitigados, fruto de diferentes intervenções e utilizações. Neste sentido, podemos dizer que a sustentabilidade intrínseca à opção de reabilitação de um edifício existente decorre da manutenção da sua “estrutura física”, o que rentabiliza a utilização dos recursos incorporados e reduz a necessidade de consumo de novos recursos e produção de novos impactos. Para além desta inerente sustentabilidade da reabilitação, é no programa e projecto de reabilitação em concreto – nas prioridades assumidas, soluções propostas e intervenção executada – que reside todo o potencial para uma reabilitação sustentável de toda a construção existente (elementos físicos e seu desempenho prolongado), minimizando os impactos negativos e maximizando os positivos.

A pertinência da reabilitação dos edifícios industriais em particular é reforçada neste contexto, na medida em que o contraste entre a robustez da sua “estrutura física” e o relativo curto/médio período de utilização por parte da indústria original, faz com que estes sejam com frequência abandonados em bom estado de conservação e, portanto, prematuramente tendo em conta o seu ciclo de vida ainda potencialmente longo (ver Figura 31). Como de resto é válido para toda a construção, quanto mais cedo se intervier, em melhor estado de conservação estará a construção e menor o dispêndio de recursos para a sua reactivação. Em contrapartida, é necessário referir que, em certos casos, o uso industrial pode ser bastante agressivo para com a construção resultando na sua degradação precoce (em indústrias mais pesadas pode mesmo haver contaminação com materiais tóxicos e outros resíduos). Noutros exemplos, a arquitectura industrial pode por vezes ter investido na solidez e resistência da estrutura, mas preterido os critérios de conforto dos utilizadores, optando por uma envolvente

construída de fraco desempenho para o ambiente interior. Nestes casos, será necessário um

esforço acrescido para corresponder aos requisitos de sustentabilidade – salubridade ecológica

e humana, conforto térmico, acústico e visual, poupança de energia, materiais e outros

recursos, viabilidade e retorno financeiro, etc., – esforço esse que deve ser sempre avaliado

tendo em conta todo o ciclo de vida do edifício, bem como o esforço necessário à sua demolição e nova construção para os mesmos fins.

à sua demolição e nova construção para os mesmos fins. Figura 31 – Antiga fábrica Vapor
à sua demolição e nova construção para os mesmos fins. Figura 31 – Antiga fábrica Vapor

Figura 31 – Antiga fábrica Vapor Aymerich, Amat i Jover (1909-1976), hoje Museo de la Ciencia y de la Técnica de Cataluña (mNACTEC) – longevidade física irá com certeza muito alem do seu uso original. (fonte: http://terrasacat.blogspot.com | www.flickr.com)

O risco de contaminação de solos e materiais ou mesmo a existência de materiais construtivos entretanto reconhecidos como tóxicos (p.e. amianto, chumbo, PVC) devem, ao

invés de adiar todo o processo sob um rótulo de “perigoso” ou, pelo contrário, precipitar a sua demolição indiscriminada, reforçar a urgência dessa análise e avaliação caso a caso, potenciando o benefício dos actuais e futuros utilizadores decorrente da eventual reabilitação

da construção e/ou de todo o complexo industrial, e estimulando a regeneração do meio natural

(solo, água, ar, biodiversidade) e social (investimento, emprego, bem-estar social) e inerentes mais-valias que daí advêm.

A reabilitação sustentável

Se o principal impacto ambiental dos edifícios ocorre durante a fase da sua exploração, que é também a mais longa, isso deve ser tido em conta durante a fase de projecto (quer de novos edifícios quer de reabilitação), dando prioridade às opções que tenham em vista a maximização dos benefícios em fase de utilização, promovendo assim a atractividade da exploração prolongada dos edifícios, a flexibilização de usos e, por consequência, o aumento da sua vida útil. Além dos benefícios ambientais num sentido mais global, a reabilitação sustentável de um edifício deve visar garantir que o mesmo responda, e supere, as expectativas dos futuros utilizadores a vários níveis – tipológico, espacial, funcional, estético, de conforto e salubridade do ambiente interior, energético e financeiro. No fundo, a reabilitação sustentável deve ter como resultado edifícios “à prova do futuro” (future proof) pensados com base na compreensão da evolução dos padrões de qualidade em termos globais e das

expectativas e necessidades específicas das pessoas que vão usufruir dos espaços – para habitação, trabalho, lazer, etc.

Design Passivo

Todos os elementos que cumpram a sua função ambiental através da sua própria existência ou da sua manipulação física (p.e. paramento opaco com elevada massa térmica ou sombreamento exterior móvel ou ajustável) são elementos de eficácia ambiental passiva, que actuam sem recorrer ao consumo energético. Forma, volume, orientação, áreas envidraçadas e seu sombreamento, materiais e sua aplicação enquanto solução construtiva, e todo o tipo de engenho arquitectónico ou natural para captação ou protecção de sol (luz e calor), vento, água, etc., são meios intrínsecos à arquitectura para se moldar ao ambiente envolvente e dele tirar o maior partido na criação de edifícios simultaneamente auto-suficientes e integrados no ambiente que os envolve. De entre as várias estratégias passivas, distinguem-se as chamadas “solares passivas”, sendo as que mais directamente se relacionam com o controlo e conforto térmicos e, provavelmente, as mais amplamente experimentadas e aplicáveis.

Características ambientais e de conforto

A percepção humana de conforto é influenciada por factores fisiológicos e psicológicos

do indivíduo – metabolismo, grau e tipo de actividade, vestuário, expectativas, idade, sexo, etc., – que são estimulados pelas características do ambiente envolvente – temperatura e velocidade do ar, temperaturas superficiais da envolvente, humidade relativa, ruído, luz, cor, odores, entre outros.

humidade relativa, ruído, luz, cor, odores, entre outros. Figura 32 – Factores que condicionam a percepção

Figura 32 – Factores que condicionam a percepção humana de conforto. (fonte: Olgyay, 2004)

A zona de conforto humano é aquela que reúne as condições em que o Homem

despende a menor quantidade de energia para se adaptar ao seu ambiente, libertando-a, assim, para a sua actividade produtiva (Olgyay, 2004).

Conforto térmico

O conforto térmico foi já alvo de inúmeros estudos e é dos factores que mais preocupações levanta quando se pensa em arquitectura bioclimática e sustentável – por estar na origem da necessidade de abrigo do ser humano, mas também por ser, em grande parte, da procura e controlo do conforto térmico que deriva o aparecimento, e proliferação até hoje, dos inúmeros sistemas mecânicos de climatização que muito contribuem para os elevados níveis de consumo energético e produção de poluição dos edifícios, bem como, paradoxalmente, para a própria redução da qualidade do ambiente interior. A abordagem aos critérios de conforto térmico distingue-se em duas teorias distintas: o Modelo de Balanço Térmico e a Teoria Adaptativa (Duarte, 2007). Segundo o Modelo de Balanço Térmico, são efectuados testes em ambiente controlado (câmara climática) através dos quais se definem valores ideais de conforto para parâmetros como a temperatura e velocidade do ar, a humidade relativa e a temperatura superficial dos elementos do espaço interior (ver Figura 33). O metabolismo, vestuário e a temperatura da pele do indivíduo são contabilizados como valores fixos, pré-definidos. Deste modelo, testado em ambiente artificial, resultam critérios bastante restritos e restritivos que definem o leque de condições ideais, ignorando variáveis como as especificidades de microclimas locais, as variações climáticas no exterior do edifício (diárias e sazonais) e as expectativas e capacidade adaptativa do ser humano. É essencialmente com base nestes critérios que hoje se verifica a utilização excessiva de meios mecânicos de climatização (i.e. AVAC), que visam garantir valores constantes de temperaturas e restantes factores higrotérmicos ao longo do dia e de cada estação do ano (independentemente das condições exteriores) e que, ao longo do tempo, consentiram a progressiva “dispensa” de soluções passivas de controlo climático.

de soluções passivas de controlo climático. Figura 33 – Parâmetros que influenciam o balanço

Figura 33 – Parâmetros que influenciam o balanço térmico. (fonte: VVAA, 2001)

Por sua vez, a Teoria Adaptativa considera, com base em trabalhos de campo, que uma pessoa tolera um leque mais alargado de temperaturas quando tem a possibilidade de controlar o seu meio ambiente. Alternativas como abrir uma janela, descer um estore, vestir ou despir uma peça de roupa e tomar uma bebida fria ou quente, entre muitas outras, ampliam a tolerância individual ao ambiente e reduzem a percepção de desconforto e insatisfação. A Teoria Adaptativa considera ainda que as expectativas de conforto de cada indivíduo podem variar conforme as condições climatéricas exteriores – por isso toleramos temperaturas interiores mais baixas no Inverno e mais altas no Verão. A possibilidade de ventilação natural revela-se também um factor de conforto, sendo a frescura proporcionada pela brisa natural (em tempo quente) capaz de compensar o efeito de uma temperatura mais elevada do que a que seria considerada confortável. Pelo contrário, o ambiente criado por sistemas mecânicos é frequentemente sentido como desconfortável provocando, por exemplo, sensação de garganta seca (Duarte, 2007). A Teoria Adaptativa permite, assim, compreender e aceitar a eficácia da concepção solar

passiva, na medida em que admite a maior variabilidade térmica interior existente nos edifícios solares passivos (relacionada com as alterações climatéricas no exterior), demonstrando que esta se enquadra nos limites de tolerância de conforto do ser humano. Pelo contrário, com base no Modelo de Balanço Térmico, corre-se o risco de sobrestimar as necessidades de

aquecimento e arrefecimento e, em resposta a esse erro, “(

métodos de design que tiveram um comportamento aceitável durante séculos (

pôr de parte estratégias e

(Correia

Guedes, 2000). As necessidades de controlo térmico distinguem-se entre necessidades de aquecimento e necessidades de arrefecimento, que em geral correspondem às estações frias e quentes do ano, respectivamente. Do ponto de vista do design solar passivo, as estratégias visam a

maximização de ganhos térmicos e o controlo de perdas térmicas na estação de aquecimento;

e o controlo de ganhos térmicos e maximização da sua dissipação na estação de arrefecimento.

)

)”

Conforto visual (iluminação natural)

Tendo em conta que a maioria das pessoas prefere a luz natural, e que a iluminação artificial é, em certos usos, um dos sistemas mais consumidores de energia num edifício (cerca

de 50% no caso dos escritórios), a optimização do uso de luz do dia é, necessariamente, um

objectivo essencial para um edifício sustentável (VVAA, 2001). As estratégias de iluminação natural devem procurar tirar partido da luz diurna natural (luz directa do sol e difusa do céu) sem comprometer, nomeadamente, o conforto térmico pelo excesso de ganhos solares no Verão e de perdas térmicas no Inverno através dos vãos envidraçados.

Figura 34 – Dispositivos de sombreamento exterior: fixos e ajustáveis. (fonte: VVAA, 2001) Como regra

Figura 34 – Dispositivos de sombreamento exterior: fixos e ajustáveis. (fonte: VVAA, 2001)

Como regra prática, considera-se que a iluminação natural só é significativa no interior de um espaço até uma distância de duas vezes a altura do topo do envidraçado nesse mesmo espaço (VVAA, 2001). O recurso a iluminação zenital revela-se bastante eficaz, sendo esta geralmente homogénea e possibilitando a sua distribuição de forma constante ao longo do espaço. Os dispositivos de iluminação zenital podem também ser estudados como complementos à ventilação natural, permitindo a extracção de ar quente nas estações de arrefecimento. A iluminação natural e o sistema de iluminação artificial devem ser complementares e planeados segundo a qualidade (temperatura ou cor da luz), quantidade e distribuição da luz. A qualidade da iluminação e a percepção da necessidade de ligar a iluminação artificial dependem muito da gama de níveis de luz existente de uma ponta a outra do espaço – se essa gama for muito larga, as pessoas mais longe da fonte de luz sentirão desconforto por excessivo contraste visual e terão tendência a acender as luzes, mesmo que o nível de iluminação no seu espaço seja o adequado (Thomas, 2006). As características reflectoras dos materiais de revestimento do espaço são também essenciais na caracterização da luz e sua distribuição no interior. Cores mais claras reflectirão mais a luz, cores mais escuras tenderam a absorvê-la, tornando o ambiente menos luminoso. Para que a iluminação natural e artificial funcionem de forma complementar, a iluminação artificial deve conseguir fazer a transição de um tipo de luz para outro, da forma mais subtil e confortável possível. Uma abordagem possível é a de garantir uma iluminação de fundo média mas homogénea e garantir localmente a possibilidade de acender luzes individuais sempre que necessário (Thomas, 2006). Tal como no que diz respeito ao conforto térmico, também aqui a percepção de controlo individual do utilizador é essencial na sua gestão do conforto pessoal.

Conforto acústico

O conforto acústico é imprescindível em qualquer edifício, podendo a sua não satisfação ter sérias consequências para a saúde física e psicológica dos seus utilizadores (VVAA, 2001).

física e psicológica dos seus utilizadores (VVAA, 2001). Figura 35 – Níveis sonoros de situações frequentes.

Figura 35 – Níveis sonoros de situações frequentes. (fonte: VVAA, 2001)

O ruído desconfortável pode ter origem no exterior do edifício, num espaço interior contíguo ou dentro do próprio espaço. O ruído exterior pode ser controlado através da orientação do edifício (ou dos espaços interiores, no caso da reabilitação), do uso de barreiras construídas ou vegetais e das características das fachadas expostas. O controlo do ruído interior é conseguido através da localização cuidada das actividades e sistemas mais ruidosos (p.e. uma cantina ou um sistema de AVAC), da massa dos elementos divisórios interiores e da área, materiais e acabamentos das suas superfícies. Em geral, superfícies lisas (p.e. polidas) tendem a ser reflectoras acústicas, enquanto que superfícies porosas tendem a absorver o som. Outra forma de absorção sonora é a absorção por membrana ou painel, da qual as soluções de tecto falso e chão flutuante são exemplos – a pressão das ondas sonoras é convertida em vibração (da membrana) e a restante dissipação faz-se na camada de ar atrás da membrana (Thomas, 2006). A existência de vãos exteriores móveis ou outro tipo de aberturas entre compartimentos para possibilitar a ventilação natural, por exemplo, pode pôr em causa o conforto acústico e a privacidade, pelo que devem ser consideradas e compatibilizadas estas questões na fase de projecto (VVAA, 2001).

Qualidade do ar

A qualidade do ar é um factor de extrema importância não só em termos ambientais mas também de saúde. Em espaços interiores, esta encontra-se intimamente relacionada com a questão da ventilação. A ventilação é necessária, à partida, para eliminar o excesso de CO 2 e vapor de água resultantes da respiração humana e repor o oxigénio necessário à mesma, mas não só. Outras fontes poluentes interiores tão variadas como fumo, comida e bebida, pó, emissões de materiais de construção ou de equipamentos e objectos, fibras têxteis, ou mesmo o odor humano, afectam a qualidade do ar e podem estar associadas ao Síndrome do Edifício Doente 6 (Thomas, 2006). O excesso de humidade, não sendo em si um poluente, é também um problema – causando condensações, fungos e bolores, bem como a degradação precoce de certos materiais e elementos construtivos, – que pode ser evitado ou minimizado com uma adequada ventilação natural. Na estação de arrefecimento, a ventilação natural combina a função de renovação do ar (restituindo a sua qualidade) com a de dissipação do calor existente no interior. Na estação de aquecimento, a ventilação natural (p.e. por janelas abertas) pode colidir com o conforto térmico pretendido, permitindo perdas de calor que, em tempo frio, se pretendem evitar. Neste caso, há que considerar, por exemplo, soluções que permitam o pré-aquecimento do ar que entra, possivelmente através do reaproveitamento do calor do ar que sai. Regra geral, os edifícios bem concebidos para ventilação natural são pouco profundos distando entre fachadas exteriores (incluindo as viradas para pátios), até cerca de cinco vezes o pé-direito (VVAA, 2001).

Impacto ambiental de materiais e soluções construtivas

Os materiais e a forma como são aplicados têm importantes implicações ecológicas e de saúde. As primeiras passam pelo consumo de matéria-prima, energia e água no fabrico, transporte, aplicação, utilização e demolição dos materiais, pela resultante poluição associada aos vários processos, e pela sua capacidade, ou não, de serem desmontados, reutilizados ou reciclados. As implicações de saúde devem ser contabilizadas desde o impacto dos processos de extracção das matérias-primas e fabrico dos materiais finais na saúde dos vários intervenientes, aos efeitos desses materiais, enquanto solução construtiva, no ambiente interior. Em reabilitação, boa parte (se não a maior) dos materiais já se encontram em uso. Pretende-se, então, potenciar a permanência dos materiais existentes, sempre que considerados adequados a futuros usos, por via de limpeza e reparação dos mesmos e de medidas de promoção da sua durabilidade e bom desempenho ambiental.

6 Em inglês, Sick Building Syndrome (SBS).

Do ponto de vista da sustentabilidade ambiental, devem ser considerados na escolha dos materiais critérios como a durabilidade, possibilidade de limpeza, manutenção e reparação, energia incorporada, a utilização de produtos ou processos químicos poluentes no seu fabrico bem como a emissão química durante a sua utilização, a capacidade de renovação da sua fonte de recursos ou a reciclagem de materiais como fonte de recursos, e a possibilidade da sua própria reutilização e reciclagem.

Redução e optimização de consumos energéticos

Consideram-se dois tipos de energia relativa aos edifícios: a energia incorporada e a energia operacional. A energia operacional é a que tem sido alvo de maiores preocupações de redução e, particularmente em reabilitação, representa o maior potencial nesse sentido. Minimizar as necessidades energéticas e satisfazê-las a partir de fontes de energia limpas e renováveis é um dos objectivos chave do desenvolvimento, urbanismo e arquitectura sustentáveis, e um dos principais contributos para a redução da produção de CO 2 .

A minimização das necessidades de energia operacional e, por consequência, do

consumo energético dos edifícios, está directamente relacionada com soluções de design passivo. Por sua vez, optimizar o consumo de energia significa, simultaneamente, optimizar os sistemas consumidores e as fontes geradoras de energia, isto é, aumentar a eficiência dos sistemas que consomem energia – para que funcionem melhor com menos energia, – e procurar, de forma progressiva mas consistente e definitiva, transitar do uso de fontes energéticas não renováveis e poluentes (p.e. petróleo, carvão, gás natural) para as renováveis e limpas – energia solar, eólica, hidráulica, geotérmica e biomassa. Nos edifícios em geral, os sistemas mais consumidores de energia são os relacionados com o aquecimento, arrefecimento e iluminação artificiais.

Consumo e reaproveitamento de águas

O consumo sustentável de água nos edifícios deve ter em conta a minimização das

necessidades de água (principalmente, de água potável), assim como o seu tratamento e reencaminhamento pós-utilização. A distribuição da rede de águas nos edifícios e, essencialmente, a necessidade de água quente têm implicações de consumo energético que também devem ser contempladas. Em reabilitação, o consumo de água pode ser reduzido através da utilização de

equipamento de consumo reduzido (p.e. torneiras com arejadores e autoclismos de descarga reduzida ou dupla-descarga) e, principalmente em usos não domésticos, utilizando sensores ou temporizadores de descarga para controlar os desperdícios (Douglas, 2006).

A separação entre recolha de águas pluviais, águas de sabão (ou águas cinzentas) e

águas pretas permite o seu tratamento e reutilização ou escoamento diferenciados, simultaneamente reduzindo a pressão sobre o consumo de água potável e sobre os sistemas

convencionais de tratamento de águas residuais (VVAA, 2001). As águas pluviais – armazenadas e recicladas sem grande processamento – e as águas de sabão – com um pouco mais de tratamento, – são reutilizáveis para rega, lavagens e outros usos exteriores, bem como para descarga de autoclismos e máquinas de lavar o que pode representar, conforme as situações, uma significativa redução do consumo de água potável (Douglas, 2006). O planeamento conjunto das redes e sistemas de abastecimento, recolha e escoamento de águas oferece um maior potencial se pensado de raiz, em nova construção, mas pode ser igualmente viável em esquemas de reabilitação ainda que, possivelmente, só se torne uma alternativa atractiva em edifícios ou intervenções de maior escala. Ainda assim, constitui mais um elemento no planeamento e projecto de sustentabilidade que deve, por isso, ser tido em conta.

2.3. Aplicação de estratégias de design passivo na reabilitação e reconversão de edifícios industriais

Uma vez verificada a obsolescência ou redundância de um edifício industrial enquanto tal, surgem genericamente duas opções: a demolição (dando ou não lugar a uma nova construção) ou a reabilitação do edificado com vista à sua reconversão para novas utilizações. No seguimento do enquadramento e evolução da arquitectura industrial, e da abordagem das questões da reabilitação e da sustentabilidade, apresentam-se de seguida alguns exemplos de edifícios industriais reabilitados tirando partido de diferentes estratégias de design passivo, procurando clarificar o papel que estes edifícios podem ainda desempenhar quando devidamente adaptados à nova realidade que os circunda.

Città della Scienza, Nápoles, Itália (1993-2003)

Città della Scienza, Nápoles, Itália (1993-2003) Figura 36 – Planta geral da Città della Scienza. (fonte:

Figura 36 – Planta geral da Città della Scienza. (fonte: http://europaconcorsi.com)

A Città della Scienza surge da reabilitação de um conjunto de edifícios industriais cortado a meio por uma estrada, a via Coroglio. O projecto, do atelier Pica Ciamarra Associati, prevê o redesenho de um troço dessa via, pensando o espaço construído e o não construído em simultâneo e procurando uma forte integração na paisagem, ao mesmo tempo extraordinária e fragmentada.

na paisagem, ao mesmo tempo extraordinária e fragmentada. Figura 37 – Museu Vivo della Scienza: vistas
na paisagem, ao mesmo tempo extraordinária e fragmentada. Figura 37 – Museu Vivo della Scienza: vistas

Figura 37 – Museu Vivo della Scienza: vistas gerais (esquerda e centro); zona da entrada (direita). (fonte: http://europaconcorsi.com | http://ulisse.sissa.it | www.culturacampania.rai.it)

Na área junto à água, é inaugurado em 2001 o Museu Vivo della Scienza, reinventando uma fábrica de meio do século XIX. A articulação plástica do solo, criando percursos contínuos e integrados, contrasta com a perspectiva regrada da cobertura, à qual se adicionam elementos de captação de luz natural e tecnologia diversa.

elementos de captação de luz natural e tecnologia diversa. Figura 38 – Museu Vivo della Scienza:

Figura 38 – Museu Vivo della Scienza: planta do piso térreo e cortes. (fonte: www.bioarch.tv)

Figura 39 – Museu Vivo della Scienza: vistas interiores. (fonte: www.pca-int.com) Em 2003, do outro
Figura 39 – Museu Vivo della Scienza: vistas interiores. (fonte: www.pca-int.com) Em 2003, do outro

Figura 39 – Museu Vivo della Scienza: vistas interiores. (fonte: www.pca-int.com)

Em 2003, do outro lado da via Coroglio, surgem um espaço de eventos, um auditório ao ar livre, escritórios, um centro de negócios e inovação (B.I.C.) e um espaço de formação. A sequência, em dois níveis, de laboratórios e salas de aula articula-se em torno de um espaço central de pé-direito total. Este espaço permite a ventilação cruzada, não entre fachadas, mas entre cada fachada e ele mesmo, facilitando as movimentações de ar por diferenças de pressão – ar frio “desce”, ar quente “sobe” – e a sua extracção pela cobertura (com ou sem auxílio mecânico). Ainda nesta área central, encontram-se árvores e jogos de água, elementos que caracterizam os princípios bioclimáticos que regem a intervenção e que complementam o sistema de ventilação natural e híbrida e a integração espacial e tecnológica pensados para este edifício.

espacial e tecnológica pensados para este edifício. Figura 40 – B.I.C., Centro de Formação e Espaço

Figura 40 – B.I.C., Centro de Formação e Espaço de Eventos: plantas e cortes. (fonte: www.pca-int.com)

Em ambos os edifícios é constante a presença da luz natural no interior, tanto através da modelação das coberturas – permitindo iluminar os espaços mais profundos em planta – como dos vãos verticais das fachadas. A utilização de vegetação e água, quer no interior quer no exterior, contribui para o ambiente e conforto dos vários espaços, proporcionando sombra e frescura no Verão e purificando o ar (complementando a ventilação natural, no caso interior).

(complementando a ventilação natural, no caso interior). Figura 41 – B.I.C., Centro de Formação e Espaço
(complementando a ventilação natural, no caso interior). Figura 41 – B.I.C., Centro de Formação e Espaço
(complementando a ventilação natural, no caso interior). Figura 41 – B.I.C., Centro de Formação e Espaço

Figura 41 – B.I.C., Centro de Formação e Espaço de Eventos: vista do auditório exterior (esquerda) e vistas interiores. (fonte: www.pca-int.com (esquerda e centro) | www.ecothermo.it (direita))

Biblioteca San Giorgio, Pistoia, Itália (2000-2006)

Biblioteca San Giorgio, Pistoia, Itália (2000-2006) Figura 42 – Vistas exteriores gerais. (fonte:
Biblioteca San Giorgio, Pistoia, Itália (2000-2006) Figura 42 – Vistas exteriores gerais. (fonte:

Figura 42 – Vistas exteriores gerais. (fonte: www.pca-int.com | http://europaconcorsi.com)

A Biblioteca San Giorgio encontra-se instalada no que foi outrora um edifício industrial em Pistoia, Itália. O projecto de reabilitação resulta de um concurso ganho pelo atelier Pica Ciamarra Associati e encara o edifício, inserido numa área industrial perto do centro histórico, como todo um novo quarteirão que pretende ser um elemento catalizador da recuperação de toda a zona. As preocupações de definição do espaço público em que se insere estão tão presentes como as questões de funcionalidade da biblioteca, do diálogo entre o pré-existente e o contemporâneo, e da sustentabilidade e conforto de todo o complexo.

Figura 43 – Planta do piso térreo, corte longitudinal e corte transversal. (fonte: http://europaconcorsi.com) O

Figura 43 – Planta do piso térreo, corte longitudinal e corte transversal. (fonte: http://europaconcorsi.com)

O edifício existente tem uma largura de cerca de 40m dividida em três naves longitudinais abobadadas, segundo o eixo Norte-Sul, que cobrem uma área de 4000m 2 . O projecto reutiliza a estrutura vertical, introduz planos horizontais com imensa luz e redesenha a cobertura abobadada com nervuras em madeira lamelada. O resultado é uma imagem longitudinal compacta que se desmaterializa nos extremos, pelo prolongamento do esqueleto que marca a forma pré-existente.

prolongamento do esqueleto que marca a forma pré-existente. Figura 44 – Vistas interiores: galeria central (esquerda
prolongamento do esqueleto que marca a forma pré-existente. Figura 44 – Vistas interiores: galeria central (esquerda
prolongamento do esqueleto que marca a forma pré-existente. Figura 44 – Vistas interiores: galeria central (esquerda

Figura 44 – Vistas interiores: galeria central (esquerda e centro) e sala de leitura (direita). (fonte: http://europaconcorsi.com (esquerda e centro) | www.pca-int.com (direita))

O espaço é estruturado por uma galeria central de pé-direito total para a qual se viram os espaços laterais, distribuídos por 2 ou 3 pisos. Ao longo das coberturas abobadadas, são criadas “chaminés solares” (ver Figura 45) que permitem, simultaneamente, encaminhar a luz natural para os espaços mais profundos da biblioteca e viabilizar a ventilação natural de todo o edifício. O ar exterior entra no nível mais baixo do edifício e sobe (por natural diferença de pressão) à medida que aquece – resultado da recolha das cargas térmicas interiores ao longo do seu percurso pelo edifício – sendo finalmente extraído pelas chaminés. Quando a pressão do vento não é suficiente ou o número de pessoas é muito elevado, um sistema de controlo sensível às variações de CO 2 acciona as ventoinhas instaladas no interior das chaminés, garantindo a correcta extracção do ar. Os espaços não directamente servidos por estes dispositivos ventilam através do espaço da galeria com o auxilio de uma árvore, um espelho de água e um pátio, que permite a entrada de luz natural e a circulação de ar para os espaços contíguos.

natural e a circulação de ar para os espaços contíguos. Figura 45 – Esquema geral e

Figura 45 – Esquema geral e de pormenor do funcionamento das chaminés solares, com dupla-pele em aço-inox e cobertura em vidro baixo-emissivo. (fonte: www.bioarch.tv)

No átrio central, mediateca e em todos os espaços térreos, é utilizado um sistema de aquecimento e arrefecimento por serpentinas embebidas no pavimento. Este sistema é particularmente indicado para espaços de altura considerável e havia já sido testado com sucesso na Città della Scienza.

Depósito de Água, Essen, Alemanha (2002)

Depósito de Água, Essen, Alemanha (2002) Figura 46 – Vista exterior diurna e ao anoitecer. (fonte:
Depósito de Água, Essen, Alemanha (2002) Figura 46 – Vista exterior diurna e ao anoitecer. (fonte:

Figura 46 – Vista exterior diurna e ao anoitecer. (fonte: www.inhabitat.com)

Este antigo depósito de água, classificado como edifício histórico e paisagem de interesse cultural, foi reabilitado e reconvertido dando lugar a um escritório no piso térreo, três habitações “duplex” nos pisos intermédios, e um espaço para conferências no “globo” superior, com uma vista panorâmica da paisagem envolvente. O projecto, da autoria do grupo Madako, tira partido da iluminação e ventilação naturais através de uma frente envidraçada (com vãos de abrir) a Sudeste, de uma organização espacial em planta fluida e ampla, e do generoso pé-direito dos vários pisos. Dadas as alterações mínimas no exterior, a inércia térmica proporcionada pela construção existente em betão é também aproveitada para o conforto interior dos novos utilizadores.

aproveitada para o conforto interior dos novos utilizadores. Figura 47 – Vistas do interior. (fonte: www.inhabitat.com
aproveitada para o conforto interior dos novos utilizadores. Figura 47 – Vistas do interior. (fonte: www.inhabitat.com
aproveitada para o conforto interior dos novos utilizadores. Figura 47 – Vistas do interior. (fonte: www.inhabitat.com

Figura 47 – Vistas do interior. (fonte: www.inhabitat.com | www.madako.de (direita))

A envolvente densamente arborizada garante sombreamento de Poente sobre o alçado envidraçado e as circulações verticais comuns, cuja localização no exterior, por sua vez, elimina a necessidade de iluminação e ventilação artificiais, em especial durante o dia.

Instituto Criar de TV e Cinema, São Paulo, Brasil (2004)

Instituto Criar de TV e Cinema, São Paulo, Brasil (2004) Figura 48 – Vista exterior antes
Instituto Criar de TV e Cinema, São Paulo, Brasil (2004) Figura 48 – Vista exterior antes

Figura 48 – Vista exterior antes e depois da reabilitação. (fonte: Tagliaferri, 2006 | www.institutocriar.org)

O Instituto Criar de TV e Cinema é uma Organização Não Governamental (ONG) cuja

sede se instalou num conjunto de construções de uma antiga fábrica. O instituto tem como objectivo a formação técnica de adolescentes de poucos recursos financeiros para as áreas da indústria de entretenimento, nomeadamente cinema e TV.

O projecto de reabilitação tem uma forte condicionante orçamental por forma a não

comprometer a manutenção futura da actividade do Instituto. Assim, os arquitectos Sílvio Oksman e Fernanda Neiva adoptaram uma estratégia de intervenção mínima, instalando os escritórios e parte administrativa nos edifícios mais recentes e focando as atenções no edifício do princípio do séc. XX que viria a acolher os espaços de formação.

do séc. XX que viria a acolher os espaços de formação. Figura 49 – Planta do
do séc. XX que viria a acolher os espaços de formação. Figura 49 – Planta do

Figura 49 – Planta do piso térreo e cortes. (fonte: Tagliaferri, 2006 | www.arcoweb.com.br)

A intervenção mais extensiva foi a decapagem dos vários revestimentos acumulados ao longo do tempo, expondo as paredes de tijolo que acentuam o carácter industrial da construção e contribuem para a identidade do estúdio-escola. Ampliaram-se janelas e reabriram-se arcos originais entretanto tapados para, juntamente com as entradas de luz zenital, aumentar a iluminação e ventilação naturais no interior.

Figura 50 – Vista interior da galeria central. (fonte: www.institutocriar.org) O edifício funciona com duas

Figura 50 – Vista interior da galeria central. (fonte: www.institutocriar.org)

O edifício funciona com duas alas longitudinais de salas de aula organizadas a partir da galeria central de pé-direito total. Uma das alas engloba a biblioteca no piso térreo e um espaço de leitura no piso 1. As salas de aula são definidas por blocos estruturais de betão rematados por perfis metálicos, mas é mantida a transparência entre as aulas e a galeria, e entre uma das alas e o exterior, facilitando a comunicação e vigilância entre espaços bem como a sua iluminação e ventilação naturais, através de janelas móveis.

e ventilação naturais, através de janelas móveis. Figura 51 – Vistas do interior: entrada da biblioteca
e ventilação naturais, através de janelas móveis. Figura 51 – Vistas do interior: entrada da biblioteca

Figura 51 – Vistas do interior: entrada da biblioteca e de uma sala de aula | espaço de leitura no piso 1. (fonte: www.institutocriar.org)

IXL Development - Henry Jones Art Hotel, Tasmânia, Austrália (2004)

- Henry Jones Art Hotel, Tasmânia, Austrália (2004) Figura 52 – Vista aérea do conjunto. (fonte:

Figura 52 – Vista aérea do conjunto. (fonte: http://maps.live.com)

O IXL Development, da responsabilidade do arq. Robert Morris-Nunn, visou rejuvenescer uma parte de um quarteirão industrial 7 situado junto às docas em Hobart, na Tasmânia. O plano dá continuidade ao processo de regeneração urbana iniciado em 1986 com a relocalização da Tasmanian School of Arts no edifício mais recente da fábrica (datando de 1911), e demonstra a convicção de Morris-Nunn de que estruturas comercialmente viáveis podem e devem beneficiar a comunidade mais alargada e garantir, ao mesmo tempo, um funcionamento ambientalmente responsável a longo prazo.

um funcionamento ambientalmente responsável a longo prazo. Figura 53 – Vistas do interior: Foyer | Circulação
um funcionamento ambientalmente responsável a longo prazo. Figura 53 – Vistas do interior: Foyer | Circulação
um funcionamento ambientalmente responsável a longo prazo. Figura 53 – Vistas do interior: Foyer | Circulação

Figura 53 – Vistas do interior: Foyer | Circulação Privada | Henry Jones Room. (fonte: www.puretasmania.com.au)

7 Trata-se, mais especificamente, de um conjunto de edifícios pertencentes à antiga fábrica de compotas IXL, propriedade de Henry Jones & Co.

As premissas base do projecto assentavam na manutenção do carácter histórico-cultural dos edifícios, intervindo apenas onde necessário e com o mínimo de alterações; no máximo aproveitamento das qualidades construtivas do existente – entre elas a elevada massa térmica das construções em tijolo e pedra e o equilíbrio entre envolvente opaca e envidraçada; a utilização das novas tecnologias como complemento às características existentes, por forma a garantir soluções ambientalmente sustentáveis a longo prazo; a colaboração com diversas entidades artísticas, em particular com a Hobart Art School, para repensar e melhorar as qualidades dos vários espaços.

para repensar e melhorar as qualidades dos vários espaços. Figura 54 – Plantas do piso térreo
para repensar e melhorar as qualidades dos vários espaços. Figura 54 – Plantas do piso térreo
para repensar e melhorar as qualidades dos vários espaços. Figura 54 – Plantas do piso térreo

Figura 54 – Plantas do piso térreo (esquerda) e piso tipo (direita); corte transversal pelo átrio. (fonte: Tagliaferri, 2006)

O projecto do Henry Jones Art Hotel envolve a reabilitação de oito edifícios, utilizados anteriormente como armazéns e fábrica de compotas, e a sua reconversão em hotel de cinco estrelas, com a particularidade de todo ele funcionar como galeria de arte, do foyer aos quartos. Associada ao hotel, é concebida uma grande praça pública coberta, pensada como ponto de encontro para a comunidade em geral e como palco para eventos de artes performativas e visuais.

Figura 55 – Vistas do interior do IXL Atrium . (fonte: www.specifier.com.au | www.archmedia.com.au) As
Figura 55 – Vistas do interior do IXL Atrium . (fonte: www.specifier.com.au | www.archmedia.com.au) As

Figura 55 – Vistas do interior do IXL Atrium. (fonte: www.specifier.com.au | www.archmedia.com.au)

As preocupações de sustentabilidade dão origem a um sistema de cobertura em vidro, madeira e aço, que funciona como um grande espaço de atenuação climática, permitindo o pré-aquecimento do ar exterior (resultado do efeito de estufa criado pelo vidro 8 ), e sua posterior captação e encaminhamento para os espaços interiores, através de três cones têxteis situados num dos extremos do átrio. Conjugada com a elevada inércia térmica da construção, esta solução garante o conforto dos utilizadores no interior que em geral prescindem da utilização do ar condicionado nos quartos. No átrio, longas faixas de tecido suspensas horizontalmente filtram a luz directa do sol garantindo o conforto também no espaço público, onde a vegetação e elementos de água estão igualmente presentes.

e elementos de água estão igualmente presentes. Figura 56 – Vistas interiores de alguns quartos. (fonte:
e elementos de água estão igualmente presentes. Figura 56 – Vistas interiores de alguns quartos. (fonte:
e elementos de água estão igualmente presentes. Figura 56 – Vistas interiores de alguns quartos. (fonte:

Figura 56 – Vistas interiores de alguns quartos. (fonte: Tagliaferri, 2006 | www.archmedia.com.au | http://karmakars.com)

Quanto aos materiais, as estruturas e revestimentos foram mantidos na sua maior parte, tirando partido da cor e textura do seu envelhecimento natural.

8 Este grande átrio situa-se a Norte do hotel gozando de óptima exposição solar, dada a localização geográfica no hemisfério Sul.

Silos (Proposta para Concurso), Amesterdão, Holanda

Silos (Proposta para Concurso), Amesterdão, Holanda Figura 57 – Vistas gerais: existente e proposta do atelier
Silos (Proposta para Concurso), Amesterdão, Holanda Figura 57 – Vistas gerais: existente e proposta do atelier

Figura 57 – Vistas gerais: existente e proposta do atelier NL Architects. (fonte: www.nlarchitects.nl)

A cidade de Amesterdão lançou um concurso para definir qual o futuro uso de dois de

três silos de tratamento de esgotos abandonados. Uma das propostas apresentadas foi a do atelier NL Architects e propunha transformar os dois edifícios cilíndricos num núcleo de cultura e desporto, nomeadamente, escalada. Embora não tenha sido o projecto vencedor, é um exemplo da criatividade que as tipologias industriais podem despoletar.

criatividade que as tipologias industriais podem despoletar. Figura 58 – Cortes do modelo 3D: Torre A

Figura 58 – Cortes do modelo 3D: Torre A | Torre B. (fonte: www.nlarchitects.nl)

O programa da proposta definia um silo “escalável” e um silo cultural que englobavam

áreas de escalada interior e exterior, um hotel, restaurante, café, salas de espectáculos,

espaços de exposições e multi-usos. Previa-se a extensão em altura dos dois edifícios e a sua ligação através de um passadiço à cota da cobertura existente. O interior da Torre A seria um átrio de escalada com 40m de altura, modelado de forma a criar percursos variados e de diferentes níveis de dificuldade. Na torre B encontrar-se-iam, nos níveis mais baixos, as salas de espectáculos e, nos pisos superiores, os restantes usos tirando maior partido das vistas.

os restantes usos tirando maior partido das vistas. Figura 59 – Esquemas funcionais dos dois silos.

Figura 59 – Esquemas funcionais dos dois silos. (fonte: www.nlarchitects.nl)

Nesta fase da proposta, as estratégias de iluminação e ventilação naturais são distintas mas bem definidas em ambos os edifícios: na Torre A os espaços habitáveis (nos pisos superiores) beneficiariam de aberturas quer na fachada exterior quer para o interior do átrio de escalada (ao ar livre); na Torre B a opção seria criar uma segunda pele pelo interior, plasticamente moldada, que serviria tanto para a distribuição de luz e ar, como para as circulações verticais.

de luz e ar, como para as circulações verticais. Figura 60 – Imagens dos espaços interiores
de luz e ar, como para as circulações verticais. Figura 60 – Imagens dos espaços interiores
de luz e ar, como para as circulações verticais. Figura 60 – Imagens dos espaços interiores
de luz e ar, como para as circulações verticais. Figura 60 – Imagens dos espaços interiores

Figura 60 – Imagens dos espaços interiores propostos: Torre A | Torre B. (fonte: www.nlarchitects.nl)

3. Caso de Estudo – Zona Industrial do Bairro de Alvalade

3.1. Objectivos

O presente capítulo tem como objectivo o entendimento prático dos temas até aqui abordados procedendo-se, neste sentido, a uma análise e avaliação do desempenho funcional, ambiental e energético de diferentes opções de reabilitação, com base no estudo de três exemplos concretos sitos na Zona Industrial do Bairro de Alvalade, em Lisboa. Pretende-se, com este estudo, e através do auxílio de diversos métodos, obter conclusões sobre o impacto das soluções de reabilitação executadas no desempenho de cada edifício, com vista à elaboração de recomendações de projecto para a sua melhoria – com aplicação específica aos exemplos estudados e generalizável a outros edifícios industriais.

3.2. Metodologia

Para este estudo, optou-se por seleccionar três edifícios, cujas características comuns são a localização – na Zona Industrial do Bairro de Alvalade, – a sua concepção original para uso industrial, e terem sido alvo de reabilitação e conversão para um uso diferente do pré- existente. Procedeu-se à identificação e caracterização do objecto de estudo e posterior análise e avaliação do desempenho funcional, ambiental e energético de ambas as situações, “pré- existente” e “reabilitada”, de cada edifício recorrendo, para o efeito, a:

Pesquisa bibliográfica Consulta dos projectos de arquitectura Observações in situ Análise empírica ou qualitativa Método LT (análise energética) Software Ecotect (análise de iluminação natural)

3.2.1. Análise empírica ou qualitativa

Antes de proceder à utilização dos métodos analíticos que a seguir se descrevem, optou- se por elaborar um quadro síntese para cada um dos edifícios estudados expondo um diagnóstico das condições de uso, conforto e utilização de recursos, elaborado com base nas observações in situ, em entrevistas informais aos utilizadores e no estudo dos elementos desenhados de cada projecto. Este diagnóstico procurou, uma vez mais, perceber as condições pré-existentes e actuais, percebendo o papel da reabilitação nas eventuais alterações.

Foram considerados os seguintes critérios:

inércia e isolamento térmicos exposição /sombreamento solar acessibilidade / mobilidade materiais energia água

3.2.2. Método LT

O Método LT (Lighting and Thermal) é um método matemático de cálculo rápido que permite estimar o consumo energético relativo a aquecimento, arrefecimento e iluminação de um edifício. O modelo de cálculo assume valores fixos para uma série de parâmetros, sintetizados nas Curvas LT 9 , ficando em aberto as variáveis relativas à forma do edifício (profundidade da planta, corte, orientação, etc.) e ao desenho de fachada (área e distribuição dos envidraçados). Como resultado, obtém-se o Consumo Anual de Energia Primária, expresso em kWh/m 2 ano.

Anual de Energia Primária, expresso em kWh/m 2 ano. Figura 61 – Modelo de balanço energético

Figura 61 – Modelo de balanço energético do Método LT. (fonte: The LT Method 3.0)

O Método LT não pretende ser um método de cálculo rigoroso do desempenho energético de edifícios mas antes uma ferramenta de projecto que permite, de uma forma expedita, analisar e comparar diferentes soluções de design passivo e avaliar o seu impacto nas necessidades de consumo energético.

9 As Curvas LT são gráficos que sintetizam o consumo anual de energia primária por m 2 (correspondente a iluminação, aquecimento, arrefecimento e ventilação, e o total das várias) associado às diferentes orientações de fachada – Norte, Este, Sul e Oeste, – e cobertura – horizontal.

Na presente dissertação, este método é aplicado para comparar as necessidades energéticas do edifício pré-existente com as do reabilitado, com o objectivo de compreender o impacto das soluções de reabilitação adoptadas na capacidade de funcionamento passivo do edifício e de tirar conclusões para a sua melhoria. Para a aplicação do método, são convencionadas as zonas passivas e não-passivas, em planta, e recorre-se à consulta das Curvas LT para determinar os valores aplicáveis conforme a zona climática, o uso do edifício e a orientação dos envidraçados. As Curvas LT estão organizadas em seis conjuntos conforme o uso – residencial, office e retail – e a zona climática – 1 e 2. As zonas climáticas são definidas segundo a temperatura mensal média. A zona 1 corresponde a temperaturas inferiores a 6ºC em Janeiro e 24ºC em Julho, e a zona 2 ao inverso.

a 6ºC em Janeiro e 24ºC em Julho, e a zona 2 ao inverso. Figura 62

Figura 62 – Exemplo de determinação de áreas passivas e não-passivas, para 3m de pé-direito. (fonte: The LT Method 3.0)

As zonas passivas correspondem às áreas livres contíguas à fachada até uma distância de duas vezes o pé-direito (podendo também ser considerada a distância fixa de 6m). Representam os espaços que podem ser iluminados e ventilados naturalmente, bem como obter ganhos solares, benéficos no Inverno mas prejudiciais no Verão. As restantes áreas são denominadas não-passivas e carecem de iluminação e ventilação artificiais. As zonas passivas são definidas individualmente conforme a orientação solar, distinção que não se verifica nas zonas não-passivas. A proporção de áreas passivas na área total é geralmente um bom indicador do potencial de eficiência energética do edifício.

3.2.3. Ecotect

O Ecotect 10 é um software de análise do desempenho ambiental de edifícios,

nomeadamente ao nível do comportamento e conforto térmicos, iluminação natural e consumos energéticos. A sua utilização tem-se mostrado relevante enquanto ferramenta de simulação na fase de projecto e para uma análise comparativa de diferentes soluções. Trata-se de um software de interface e utilização acessíveis, que produz resultados de fácil interpretação sob a

forma de valores numéricos e análises policromáticas sobre o modelo tridimensional.

No âmbito da presente dissertação, optou-se pela utilização do Ecotect para analisar e

avaliar as características de iluminação natural dos exemplos em estudo, tendo em conta a relevância deste factor de conforto ambiental nos edifícios industriais e o seu potencial de utilização. São modelados e analisados os vários edifícios, antes e depois da reabilitação executada em cada um, com o objectivo de perceber as alterações das características de iluminação natural (intensidade e distribuição) induzidas por determinada opção de reabilitação sobre as condições pré-existentes.

Parâmetros

Valores adoptados

Localização geográfica

Portugal, Lisboa, 38ºN, -9ºW

Ficheiro de clima

Lisbon.wea (www.eere.energy.gov)

Fuso horário

GMT Londres

Tipo de terreno

Urbano

Tipo de análise

Full daylighting-only analysis

Modelo de iluminação do céu

CIE Overcast

Iluminância do céu

7000 lux

Quadro 2 – Síntese dos valores adoptados no Ecotect, comuns aos modelos efectuados.

Para a análise de iluminação natural, a modelação e simulação passa pela definição dos parâmetros exteriores ao modelo (localização geográfica, clima e condições do céu); pela modelação tridimensional do edifício e respectivos espaços em estudo; e pela definição das características dos materiais no que diz respeito à capacidade de absorção e reflectividade da luz. Como resultado das análises, obtêm-se o Factor Luz de Dia (%) e a Iluminância (lux) nos espaços interiores analisados. A iluminância (lux) corresponde à razão entre a incidência perpendicular de determinado fluxo luminoso numa superfície, e a área unitária dessa superfície – 1 lux resulta da incidência de um fluxo luminoso de 1 lúmen (lm) numa superfície de 1 m 2 . O factor luz de dia (FLD) é o parâmetro de medição quantitativa da luz natural. Corresponde à iluminância num ponto interior, produzida pela luz recebida directa e indirectamente do céu, expressa como uma percentagem da iluminância num plano horizontal exterior proveniente do mesmo céu, sem obstruções (Thomas, 2006).

10 Utilizou-se a versão 5.20 do Ecotect.

3.3. Caracterização do caso de estudo

3.3.1. Contexto histórico e urbanístico

O caso de estudo da presente dissertação insere-se no Bairro de Alvalade, em Lisboa, concebido com base no “Plano de Urbanização da Zona a Sul da Avenida Alferes Malheiro” (actual Av. do Brasil), da autoria do arquitecto Faria da Costa (ver Figura 63). Este plano, aprovado em plena consolidação do Estado Novo, em 1945, e concluído no final dos anos 50, assenta em várias ideias do urbanismo modernista, entre elas a de zonamento (Costa, 2006).

modernista, entre elas a de zonamento (Costa, 2006). Figura 63 – Plano de Urbanização da Zona

Figura 63 – Plano de Urbanização da Zona a Sul da Av. Alferes Malheiro, 1945. (fonte: Costa, 2006)

Da estrutura viária principal resulta a definição de 8 células que constituíram unidades de urbanização distintas (ver Figura 64). A área correspondente ao caso de estudo insere-se na célula 3 – delimitada pelas avenidas de Roma, da Igreja, Rio de Janeiro e do Brasil, – e foi prevista pelo plano para artesanato e indústria ligeira (ver Figura 65 e Figura 66).

artesanato e indústria ligeira (ver Figura 65 e Figura 66). Figura 64 – Planta de divisão

Figura 64 – Planta de divisão em células. (fonte: Costa, 2006)

O referido plano de urbanização visou uma expansão da cidade que hoje se encontra

consolidada e profundamente integrada na malha e funcionamento urbanos da cidade de Lisboa. A zona destinada a indústria foi localizada numa área limítrofe do plano que entretanto deixou de ser periferia para integrar o centro alargado da cidade. Verifica-se, assim, o já referido fenómeno de absorção duma zona de indústria pela proliferação urbana, dando lugar a novas motivações e novos usos que procuram agora esta localização e seus edifícios.

que procuram agora esta localização e seus edifícios. Figura 65 – Esquema de distribuição dos diferentes

Figura 65 – Esquema de distribuição dos diferentes tipos de edifícios. (fonte: Costa, 2006)

dos diferentes tipos de edifícios. (fonte: Costa, 2006) Figura 66 – Esquema de utilização do solo.

Figura 66 – Esquema de utilização do solo. (fonte: Costa, 2006)

O bairro de Alvalade tem um forte carácter habitacional complementado por vários

serviços, equipamentos e comércio locais. As características favoráveis de acessibilidade por transportes públicos (Metro, Carris e Rodoviária) e o consolidado bom ambiente do bairro em geral, são factores de peso na opção de investir nesta parte da cidade. Na zona industrial em estudo, tem vindo a verificar-se a reocupação dos edifícios existentes (quase todos ainda os originais, construídos até 1960) por escritórios, comércio ou serviços, mantendo-se ainda algumas das indústrias originais.

3.3.2. Definição do objecto de estudo

A área em estudo, prevista no plano como de artesanato e indústria ligeira, é constituída pelos edifícios com frente para a Rua Aprígio Mafra (lado Sul), Rua João Saraiva, Rua do Centro Cultural, e extremo Norte da Rua Acácio de Paiva (ver Figura 67).

A maioria dos edifícios existentes são os construídos originalmente e datam dos anos

50, princípios de 60.

Figura 67 – Delimitação do objecto de estudo: zona industrial de Alvalade. (fonte: www.bing.com/maps, montagem

Figura 67 – Delimitação do objecto de estudo: zona industrial de Alvalade. (fonte: www.bing.com/maps, montagem do autor)

Foram escolhidos três edifícios, em frentes distintas, para uma análise mais aprofundada (ver Figura 68). Todos os exemplos foram reabilitados e estão actualmente a funcionar para um uso diferente do original.

actualmente a funcionar para um uso diferente do original. Figura 68 – Identificação dos três edifícios

Figura 68 – Identificação dos três edifícios em estudo. (fonte: www.bing.com/maps, montagem do autor)

3.3.3. Descrição dos exemplos estudados

Edifício A

No edifício A funcionou uma indústria de tecelagem até à sua aquisição e reabilitação

para o actual uso – um espaço de exposições e eventos nos pisos 0 e -1, e escritórios nos restantes pisos.

nos pisos 0 e -1, e escritórios nos restantes pisos. Figura 69 – Fachadas principal e
nos pisos 0 e -1, e escritórios nos restantes pisos. Figura 69 – Fachadas principal e
nos pisos 0 e -1, e escritórios nos restantes pisos. Figura 69 – Fachadas principal e
nos pisos 0 e -1, e escritórios nos restantes pisos. Figura 69 – Fachadas principal e

Figura 69 – Fachadas principal e tardoz do edifício A, antes e depois de reabilitado. (Appleton e Domingos, Arquitectos Lda. | autor)

O edifício tem cinco pisos acima do nível da rua e um subterrâneo. Está inserido numa frente urbana virada a Nascente, com alçados a Este, Norte e Oeste.

O projecto de reabilitação seguiu uma estratégia pouco intrusiva, mantendo e

recuperando toda a estrutura do edifício (em betão armado), bem como o núcleo de escadas e o desenho dos alçados, que sofreram apenas alterações pontuais. Também a cobertura de telha (com estrutura de madeira) foi mantida e devidamente isolada termicamente para,

juntamente com a abertura de três vãos, permitir a utilização permanente do último piso como escritório. A intervenção focou-se, assim, na reordenação do espaço interior: demolindo paredes divisórias, aumentando o núcleo do elevador e agregando-lhe as I.S. de cada piso. As novas divisórias são feitas, principalmente, por vidro e mobiliário, sendo este branco e o revestimento de paredes e tectos em cor cinza claro, marcando o carácter industrial da construção original.

Ao nível do último piso, foi acrescentado um lanço de escada por forma a elevar a cota

do antigo espaço de “casa das máquinas” do elevador, permitindo a sua utilização como sala de reuniões e tirando partido das janelas existentes, que assim passam a estar ao nível dos olhos.

Edifício B

O edifício B é constituído por dois edifícios distintos (construídos em 1950 e 1960,

sensivelmente), que albergaram uma fábrica de cápsulas (“caricas”) até à sua aquisição e

reabilitação para a actual sede de uma empresa de iluminação.

para a actual sede de uma empresa de iluminação. Figura 70 – Fachada principal do edifício
para a actual sede de uma empresa de iluminação. Figura 70 – Fachada principal do edifício

Figura 70 – Fachada principal do edifício B, em 1961 e actualmente. (fonte: Arquivo Fotográfico da CML | autor)

O edifício original, adiante denominado B1, constitui a frente urbana do lote, de dois

pisos, virada a Norte. Para trás destes dois pisos, o espaço foi pensado em um piso térreo de pé direito duplo, coberto por um sistema de dentes-de-serra autoportante, com as faces a Norte

envidraçadas. A segunda construção, B2, é acoplada a Sul da original, preenchendo a totalidade do lote rectangular. É constituída por três pisos, sendo o terceiro o desvão da cobertura. Apesar da proximidade às construções dos lotes contíguos, este edifício tem alçados a Nascente, Sul e Poente. A estrutura, de betão armado, é em pórtico com malha de pilares de 5,60x5,25m.

armado, é em pórtico com malha de pilares de 5,60x5,25m. Figura 71 – Vista aérea de

Figura 71 – Vista aérea de Nascente sobre o Edifício B (B1 à direita, B2 à esquerda). (fonte: www.bing.com/maps)

O projecto de reabilitação visou instalar no edifício B1 os espaços administrativos e

comerciais, com destaque para um showroom dos produtos de iluminação artificial comercializados. No edifício B2 localizam-se um refeitório e cozinha, espaços oficinais, estacionamento (no piso 0) e arquivo/armazém (no piso da cobertura). A estratégia foi de manutenção e recuperação das estruturas existentes, com algum acréscimo de área útil no edifício B1, através da criação de duas alas (Nascente e Poente) de dois pisos. A opção mais

intrusiva (embora de fácil retrocesso) foi a da colocação, no edifício B1, de um tecto falso sobre toda a área de pé direito total e ala Nascente de dois pisos, obstruindo a relação directa entre estes espaços e a cobertura em dentes-de-serra. Esta solução justifica-se na necessidade de obscurecer o espaço central para possibilitar a sua utilização como showroom de iluminação artificial. Os restantes espaços de trabalho no piso 1 deste edifício tiram partido de iluminação e ventilação naturais, provenientes da orientação Norte (da fachada ou da cobertura em dentes-de-serra).

Edifício C

O edifício C foi construído, originalmente, para funcionar como fábrica de chapéus e

vestuário. Tinha dois pisos acima do nível da rua e um subterrâneo, tendo sido, ainda com o uso industrial, aumentado em mais três pisos acima dos existentes, conforme se encontra hoje.

três pisos acima dos existentes, conforme se encontra hoje. Figura 72 – Fachada principal do edifício
três pisos acima dos existentes, conforme se encontra hoje. Figura 72 – Fachada principal do edifício

Figura 72 – Fachada principal do edifício C, em 1961 e actualmente. (fonte: Arquivo Fotográfico da CML)

O imóvel é de planta rectangular inserida numa frente de rua virada a Sul e com alçados

a Sul, Nascente e Poente. Os actuais proprietários – uma empresa de iluminação artificial e domótica – reabilitaram

um edifício que já se encontrava a ser utilizado como escritórios mas que mantinha, no entanto, as principais características do edifício industrial. A intervenção passou pela remoção das divisórias leves retomando a espacialidade original do uso industrial – em planta livre – como ponto de partida.

O edifício funciona actualmente como loja e armazém nos pisos -1, 0 e 1, showroom no

piso 2, e escritórios nos pisos 3 e 4 (este último albergará ainda uma área de cozinha para apoio ao showroom). O projecto de reabilitação manteve a estrutura em betão armado bem como os núcleos de circulações verticais e instalações sanitárias, com apenas algumas alterações pontuais – abertura de vão em vidro entre o núcleo de escadas e o espaço dos pisos; criação de um monta-pratos do piso 2 ao 4; criação de um lanço de escadas junto ao alçado tardoz, entre os pisos de armazém, 1 e -1. A envolvente exterior foi reparada sem qualquer alteração de desenho, e apenas com a substituição de alguns vãos. No piso 2 foi criada uma envolvente em gesso cartonado que procura, simultaneamente, ocultar os vãos existentes a Este e Oeste, e permitir o suporte de painéis expositivos, parte essencial do showroom. Foram previstos dois postos de trabalho junto ao alçado Sul, sendo

este, no entanto, obscurecido por estores interiores de rolo têxtil preto – procurando realçar a iluminação artificial em exposição. Os pisos de escritórios foram previstos para funcionar em open space, com salas de reuniões ou gabinetes individuais junto à fachada Sul, separados por divisórias de vidro por forma a não bloquear a entrada de luz natural.

3.4. Estudo de sustentabilidade de soluções de reabilitação

3.4.1. Edifício A

Análise Empírica ou Qualitativa

Quadro 3 – Diagnóstico empírico ou qualitativo das condições de uso, conforto e utilização de recursos:

edifício A.

 

EDIFÍCIO P-EXISTENTE

EDIFÍCIO REABILITADO

 

Construção em estrutura de betão armado e paramentos em alvenaria de tijolo constituindo, à partida, elementos de boa massa térmica, logo, maior inércia térmica;

Manutenção da estrutura e paramentos;

Inércia e isolamento térmicos

Colocação de isolamento térmico pelo exterior no volume acima da cobertura (sala de reuniões);

Caixilharias exteriores de carpintaria ou serralharia com vidro simples.

Colocação de isolamento térmico da cobertura, pelo interior das telhas.

Cobertura não isolada termicamente e não utilizada de forma permanente.

Revestimento de pisos em micro-betão, reforçando a massa térmica;

Colocação de caixilharias exteriores com vidro duplo, em alumínio, com corte térmico (à excepção do alçado Este do piso 2 onde são reparados e mantidos os vãos de serralharia):

Exposição / sombreamento solar

Envidraçados a Este, Norte, Oeste e Sul;

 

Sombreamento exterior fixo nos vãos a Norte, Oeste e Sul;

Sombreamento exterior móvel nos vãos a Este (pisos 3 e 4).

Colocação de estores de rolo blackout nos vãos Poente do piso 0 – espaço da galeria;

Mantêm-se os elementos verticais fixos de sombreamento exterior nos envidraçados a Norte, Oeste e Sul;

Colocação de estores de rolo têxtil pelo interior nos vãos a Norte, Oeste e Sul;

Abertura de vãos na cobertura, com sombreamento exterior e interior de rolo;

Estores exteriores de lâminas horizontais orientáveis na sala de reuniões (último piso).

Acessibilidade / mobilidade

Mobilidade total ao nível do piso térreo (existência de rampa mas não de degraus);

Criação de dois degraus no espaço de entrada do edifício dificulta o acesso ao elevador e ao espaço expositivo no piso 0;

O núcleo e cabine do elevador foram aumentados permitindo, assim, o acesso de uma pessoa em cadeira de rodas até ao piso 4;

Elevador demasiado pequeno para uma cadeira de rodas, inibindo o seu acesso aos pisos superiores e inferior.

Piso 5 e respectiva sala de reuniões apenas acessíveis por escadas;

Plantas dos pisos superiores sem qualquer obstáculo à mobilidade.

 

EDIFÍCIO P-EXISTENTE

EDIFÍCIO REABILITADO

 

Revestimento de pavimentos em betonilha;

Revestimento de pavimentos em micro-betão;

Materiais

Paredes e tectos rebocados e pintados;

Paredes e tectos rebocados com acabamento estanhado em pasta de cimento;

Degraus e lambrim da escada em marmorite.

 

Degraus e paredes da escada em marmorite.

 

- sem informação.

Sensores de detecção de movimento para activação da iluminação das escadas, por piso;

Energia

Controlos individuais de iluminação;

Sistemas de ar condicionado independentes (permitindo a sua activação apenas quando e onde necessário, e evitando a criação de tectos falsos para passagem de condutas);

Água

- sem informação.

Torneiras de lavatórios accionadas por pedal (evitando o esquecimento de as fechar);

Método LT

Para a aplicação do Método LT, definiram-se as áreas passivas e não-passivas e, com o auxilio do conjunto de Curvas LT correspondente a “Office, 300 lux, 15 W/m2, Zone 2” (ver Anexo 4), preencheu-se a respectiva folha de cálculo (ver Anexo 5). Com base nesta análise elaborou-se o seguinte quadro síntese:

Quadro 4 – Síntese da análise com o Método LT: edifício A.

 

Rácio de áreas passivas (%)

Consumo de Energia Primária

Áreas passivas e não-passivas

Ilumin.

Aquec.

Vent. e Arref.

Ilumin. Aquec. Vent. e Arref.
 

(kWh/m 2 )

(kWh/m 2 )

(kWh/m 2 )

norte

|

este

| sul | oeste | não-passiva

 

66,68

75,21

18,84

73,30

  66,68 75,21 18,84 73,30

PRÉ-EXISTENTE

44,9%

11,3%

43,8%

 

167,34 kWh/m 2

 

31,75 MWh

 

Rácio de áreas passivas (%)

Consumo de Energia Primária

Áreas passivas e não-passivas

Ilumin.

Aquec.

Vent. e Arref.

Ilumin. Aquec. Vent. e Arref.
 

(kWh/m 2 )

(kWh/m 2 )

(kWh/m 2 )

norte

|

este

| sul | oeste | não-passiva

 

73,87

75,60

20,60

76,50

  73,87 75,60 20,60 76,50

REABILITADO

43,8%

11,9%

44,3%

 

172,70 kWh/m 2

 

32,78 MWh

Em termos globais, a reabilitação do edifício A piorou, ainda que ligeiramente, o seu desempenho energético, passando de 167,34 kWh/m 2 ano para 172,70 kWh/m 2 ano, por piso tipo. No entanto, o piso tipo do edifício pré-existente apresentava cerca de 67% de área passiva que aumentou para 74% após a reabilitação. O aumento das necessidades energéticas totais por m 2 verifica-se, essencialmente, devido à redistribuição das áreas passivas, resultado da reorganização interior do espaço mas também de uma pequena alteração na fachada Sul. Analisando as parcelas individualmente, conclui-se que o aumento das necessidades de arrefecimento e ventilação resulta da redução da área passiva a Sul e correspondente aumento da área passiva a Oeste, mais propensa ao sobreaquecimento no Verão. Esta alteração, juntamente com o aumento da área passiva a Norte, que não beneficia de ganhos solares directos, explica igualmente o ligeiro aumento das necessidades de aquecimento no Inverno. A energia necessária para iluminação sofre um pequeno aumento que resulta, essencialmente, da diminuição da área envidraçada a Sul que, no entanto, é contrabalançada pela redução das áreas não-passivas (totalmente dependentes de iluminação artificial) e consequente quase duplicação da área passiva a Norte, orientação que constitui uma boa fonte de iluminação natural.

A área útil do piso tipo mantém-se, sendo que a intervenção procura, essencialmente, desobstruir o espaço interior para um maior aproveitamento da luz natural nos espaços mais profundos. Neste sentido, as poucas divisórias interiores são quase todas em vidro, o que garante a privacidade acústica entre espaços permitindo a comunicação visual e a continuidade da iluminação natural. A organização funcional faz corresponder as áreas de ocupação mais permanente às áreas passivas, com capacidade de serem iluminadas e ventiladas naturalmente. As áreas não-passivas (centrais em planta) são, essencialmente, de

Iluminância (lux)

Piso Tipo

Factor Luz de Dia (%) Piso Tipo

circulação, I.S. ou arrumos, reduzindo as exigências energéticas nas zonas em que estas têm de ser satisfeitas por meios mecânicos. Algumas opções positivas que o Método LT não considera, mas que interessa referir por poderem influenciar os consumos energéticos (referentes ao piso tipo), são: a aplicação de caixilharias exteriores oscilo-batentes, com vidro duplo e corte térmico; estores interiores de tecido branco, complementando o sombreamento vertical exterior a Poente, evitando o encandeamento; revestimentos e mobiliário em tons claros (cinza e branco); utilização de sensores de movimento nas circulações verticais para activação da iluminação artificial.

Ecotect

Considerando entre 300 e 500 lux o valor de referência para a iluminância em espaços de escritórios (Thomas, 2006), é possível concluir, da análise no software Ecotect, que os espaços de trabalho e permanência previstos pelo projecto de reabilitação beneficiam de iluminação natural adequada. Nos espaços a Nascente, regista-se um excesso de iluminação junto à fachada que pode, no entanto, ser controlado através dos estores exteriores previstos para o efeito.

Quadro 5 – Análise de Iluminação Natural com o software Ecotect: edifício A.

EDIFÍCIO P-EXISTENTE

EDIFÍCIO REABILITADO

A. E DIFÍCIO P RÉ - EXISTENTE E DIFÍCIO R EABILITADO Comparativamente à situação pré-existente, é
A. E DIFÍCIO P RÉ - EXISTENTE E DIFÍCIO R EABILITADO Comparativamente à situação pré-existente, é
A. E DIFÍCIO P RÉ - EXISTENTE E DIFÍCIO R EABILITADO Comparativamente à situação pré-existente, é
A. E DIFÍCIO P RÉ - EXISTENTE E DIFÍCIO R EABILITADO Comparativamente à situação pré-existente, é

Comparativamente à situação pré-existente, é possível confirmar que a intervenção reduziu os espaços dependentes de iluminação artificial potenciando, assim, uma distribuição mais contínua da luz natural, evitando situações de forte contraste luminoso no interior do piso e, portanto, aumentando o conforto visual. Os espaços servidos exclusivamente por iluminação

artificial passam a ser apenas as circulações verticais, arrumos e I.S., cuja utilização é mais pontual do que a dos restantes espaços. As análises do Factor Luz de Dia reiteram as conclusões anteriores indicando, na generalidade dos espaços de permanência, valores acima dos 5%, valor médio de referência para escritórios (Thomas, 2006).

3.4.2. Edifício B

Análise Empírica ou Qualitativa

Quadro 6 – Diagnóstico empírico ou qualitativo das condições de uso, conforto e utilização de recursos:

edifício B.

 

EDIFÍCIO P-EXISTENTE

EDIFÍCIO REABILITADO

Inércia e isolamento térmicos

Construção em estrutura de betão armado e paramentos em alvenaria de tijolo constituindo, à partida, elementos de boa massa térmica, logo, maior inércia térmica;

Manutenção das estruturas e paramentos;

Colocação de isolamento térmico acima do tecto falso, no edifício B1;

Cobertura do edifício B1 metálica, sem isolamento térmico e com vidros simples virados a Norte;

Cobertura do edifício B2 sem isolamento térmico.

Exposição /

sombreament

Envidraçados a Este, Norte, Oeste e Sul;

Mantêm-se as áreas envidraçadas em geral, com aumento das mesmas no alçado Norte;

Colocação de sombreamento interior de lâminas horizontais orientáveis nos vãos do piso 1 virados a Norte;

Inexistência de sombreamentos exteriores ou interiores, além dos provocados pelas construções envolventes;

Acessibilidade /

mobilidade

Mobilidade total ao nível do piso térreo (inexistência de degraus).

Mantêm-se as condições anteriores acrescentando-lhes a existência de degraus a vencer desníveis ao nível do piso 1.

Acesso ao piso 1 (e 2, no edifício posterior) apenas por escadas.

Materiais

 

Revestimento de pavimentos em betonilha, com manchas de óleo e outros ao nível do piso térreo;

Revestimento de pavimentos em microbetão;

Divisórias leves em gesso cartonado;

Paredes e tectos rebocados e pintados.

Paredes e tectos rebocados e pintados.

Energia

- sem informação.

- nada a assinalar.

Água

- sem informação.

- nada a assinalar.

Método LT

Para a aplicação do Método LT, definiram-se as áreas passivas e não-passivas e, com o auxilio do conjunto de Curvas LT correspondente a “Office, 300 lux, 15 W/m2, Zone 2” (ver Anexo 4), preencheu-se a respectiva folha de cálculo (ver Anexo 6). Com base nesta análise elaboraram-se dois quadros síntese para as duas situações: pré-existente e reabilitado.

Quadro 7 – Síntese da análise com o Método LT: edifício B pré-existente.

 

Rácio de áreas passivas (%)

Consumo de Energia Primária

Áreas passivas e não-passivas

Ilumin.

Aquec.

Vent. e Arref.

norte | este | sul | oeste | cobert. | não-passiva

norte | este | sul | oeste | cobert. | não-passiva

 

(kWh/m 2 )

(kWh/m 2 )

(kWh/m 2 )

 

Edifício B

 
  Edifício B  

80,37

73,11

18,44

81,23

42,3%

10,7%

47,0%

 

172,78 kWh/m 2

 

271,39 MWh

 

Edifício B1

 

PRÉ-EXISTENTE

83,72

79,93

23,48

76,93

piso 1

     

44,3%

13,0%

42,7%

44,3% 13,0% 42,7%
   

180,34 kWh/m 2

 

108,76 MWh

 

Edifício B2

 

78,28

69,56

15,30

83,97

41,2%

9,1%

49,7%

 

168,83 kWh/m 2

 
 

163,36 MWh

piso 0

Quadro 8 – Síntese da análise com o Método LT: edifício B reabilitado.

 

Rácio de áreas passivas (%)

Consumo de Energia Primária

Áreas passivas e não-passivas

Ilumin.

Aquec.

Vent. e Arref.

norte | este | sul | oeste | cobert. | não-passiva

norte | este | sul | oeste | cobert. | não-passiva

 

(kWh/m 2 )

(kWh/m 2 )

(kWh/m 2 )

 

Edifício B

 
  Edifício B  

58,05

90,61

17,95

64,90

52,2%

10,3%

37,4%

 

173,46 kWh/m 2

 

294,42 MWh

 

Edifício B1

 

REABILITADO

28,37

116,47

21,42

39,29

piso 1

65,7%

12,1%

22,2%

65,7% 12,1% 22,2%
   

177,18 kWh/m 2

 

125,52 MWh

 

Edifício B2

 

79,31

72,10

15,56

83,31

42,2%

9,1%

48,7%

 

170,96 kWh/m 2

 

169,07 MWh

piso 0

Globalmente, a reabilitação do edifício B aumentou as suas necessidades energéticas absolutas – de 271,39 MWh/ano para 294,42 MWh/ano – e por m 2 – de 172,78 kWh/m 2 ano para 173,46 kWh/m 2 ano (as segundas aumentaram apenas ligeiramente, uma vez que a área útil total também aumentou). Dadas as características específicas de cada um dos edifícios do conjunto B, optou-se por analisar o conjunto bem como ambos os edifícios individualmente, sendo as conclusões a retirar distintas para cada um deles.

As alterações mais significativas ocorreram no edifício B1, verificando-se o aumento da área útil em cerca de 100m 2 e a redução do seu rácio de áreas passivas para um terço do pré- existente – de 84% para 28%. Esta redução deve-se, principalmente, à obstrução da relação com a cobertura em dentes-de-serra, através da colocação de um tecto falso sob a mesma. Como resultado, toda a área central de pé-direito total, bem como a ala Nascente de dois pisos, não beneficiam de iluminação ou ventilação naturais, impondo o recurso a meios artificiais para esse efeito. Em termos absolutos, as necessidades energéticas do edifício B1 aumentaram de 108,76 MWh/ano para 125,52 MWh/ano. Relacionando com a área útil, no entanto, o consumo energético reduziu ligeiramente, de 180,34 kWh/m 2 ano para 177,18 kWh/m 2 ano. As necessidades energéticas de iluminação, aquecimento e arrefecimento das áreas não-passivas quintuplicaram com o proporcional aumento destas últimas. Nas áreas passivas a Norte, por sua vez, o aumento do rácio de envidraçados (devido ao alargamento dos vãos nesta orientação) e a ligeira diminuição da área reduziram, essencialmente, as necessidades de energia para iluminação, – quase em metade, – confirmando a iluminação como um ganho importante a Norte. A intervenção no edifício B2 foi mais pontual que no anterior, o que se reflecte nos resultados da sua análise. O rácio de áreas passivas mantém-se elevado na ordem dos 80%. Também as necessidades energéticas anuais totais e por m 2 não sofreram alterações significativas, assim como a proporção de cada uma das parcelas (iluminação, aquecimento e arrefecimento). De notar é a proximidade dos valores das necessidades energéticas entre ambos os edifícios, antes e depois de reabilitados, – entre os 168 kWh/m 2 e os 180 kWh/m 2 , – sugerindo um comportamento energético bastante semelhante, apesar das suas características arquitectónicas distintas. Assim, verifica-se que as necessidades energéticas por m 2 do conjunto B se encontram sensivelmente na mesma ordem de grandeza, – 173 kWh/m 2 , – com o consumo anual total a aumentar de 285,89 MWh/ano para 309,16 MWh/ano com a reabilitação, correspondendo ao aumento de área útil.

Algumas opções positivas que o Método LT não considera, mas que interessa referir por poderem influenciar os consumos energéticos, são: a aplicação de caixilharias exteriores oscilo-batentes, com vidro duplo e corte térmico; estores interiores de lâminas horizontais orientáveis, a Norte, permitindo o controlo da iluminação natural, nomeadamente a reflectida pelos edifícios em frente; substituição de vidros foscos ou martelados por vidros lisos, aumentando o usufruto da luz natural; colocação de janelas móveis na cobertura em dentes- de-serra, nos espaços de escritórios que com ela contactam, permitindo a ventilação natural além da iluminação; aplicação de isolamento térmico em toda a superfície superior do tecto falso, no edifício B1, mitigando as fortes variações térmicas potenciadas pela cobertura metálica.

Piso 1

Iluminância (lux)

Piso 0

Ecotect

Da simulação e análise de iluminação natural do software Ecotect, conclui-se que a reabilitação do edifício B1 reduziu notoriamente o seu benefício da luz natural.

Quadro 9 – Análise de Iluminação Natural com o software Ecotect: edifício B.

EDIFÍCIO P-EXISTENTE

EDIFÍCIO REABILITADO

B. E DIFÍCIO P RÉ - EXISTENTE E DIFÍCIO R EABILITADO Factor Luz de Dia (%)
B. E DIFÍCIO P RÉ - EXISTENTE E DIFÍCIO R EABILITADO Factor Luz de Dia (%)
B. E DIFÍCIO P RÉ - EXISTENTE E DIFÍCIO R EABILITADO Factor Luz de Dia (%)
B. E DIFÍCIO P RÉ - EXISTENTE E DIFÍCIO R EABILITADO Factor Luz de Dia (%)

Factor Luz de Dia (%)

Piso 1

Piso 0

Factor Luz de Dia (%) Piso 1 Piso 0
Factor Luz de Dia (%) Piso 1 Piso 0
Factor Luz de Dia (%) Piso 1 Piso 0
Factor Luz de Dia (%) Piso 1 Piso 0

Principalmente ao nível do piso 0, a obstrução da iluminação captada através da cobertura obscurece quase totalmente o espaço. O alargamento dos vãos da fachada a Norte, no piso térreo, permitem iluminar apenas a zona da entrada e o gabinete junto à mesma. No

piso 1, é de notar que a luz natural é devidamente aproveitada nos espaços de trabalho, à excepção da sala de reuniões. O edifício B2, antes e depois da reabilitação, proporciona uma distribuição bastante homogénea da iluminação natural em ambos os pisos analisados beneficiando, para isso, da planta desobstruída e da continuidade dos vãos envidraçados ao longo do perímetro do edifício. Observa-se, ainda, que os níveis de iluminação no piso 0 deste edifício são ligeiramente inferiores aos obtidos no piso 1, facto que se justifica pela obstrução causada pelos edifícios envolventes, assim como pela existência de iluminação também de Norte no piso 1 (e sua ausência no piso 0).

3.4.3. Edifício C

Análise Empírica ou Qualitativa

Quadro 10 – Diagnóstico empírico ou qualitativo das condições de uso, conforto e utilização de recursos:

edifício C.

 

EDIFÍCIO P-EXISTENTE

EDIFÍCIO REABILITADO

 

Construção em estrutura de betão armado e paramentos em alvenaria de tijolo constituindo, à partida, elementos de boa massa térmica, logo, maior inércia térmica;

Manutenção da estrutura e paramentos;

Inércia e

isolamento

Reparação da caixilharia existente ou substituição por nova, de serralharia, com vidro simples.

Caixilharias exteriores de serralharia com vidro simples.

Exposição /

sombreame

Envidraçados a Este, Sul e Oeste;

Colocação de estores interiores de rolo têxtil (branco ou preto) nos vãos a Sul;

Inexistência de sombreamentos exteriores.

Colocação de estores interiores de lâminas horizontais orientáveis nos vãos a Este e Oeste.

Acessibilidade / mobilidade

 

Mobilidade total ao nível do piso térreo e acesso ao piso -1 através de rampa, (embora um pouco íngreme);

Mantêm-se as condições pré-existentes.

Monta-cargas circula entre o piso -1 e 1;

Elevador circula do piso -1 ao 4, mas não é acessível a partir do piso 0 – é preciso subir ao piso 1 ou descer ao -1, de escadas, para o apanhar;

Plantas dos pisos sem qualquer obstáculo à mobilidade;

Materiais

 

- sem informação.

Pavimentos em micro-betão ou “auto-nivelantes”;

Paredes e tectos rebocados e pintados.

Energia

- sem informação.

- nada a assinalar.

Água

- sem informação.

- nada a assinalar.

Método LT

Para a aplicação do Método LT, definiram-se as áreas passivas e não-passivas e, com o auxilio do conjunto de Curvas LT correspondente a “Office, 300 lux, 15 W/m2, Zone 2” (ver Anexo 4), preencheu-se a respectiva folha de cálculo (ver Anexo 7). Com base nesta análise elaborou-se o seguinte quadro síntese:

Quadro 11 – Síntese da análise com o Método LT: edifício C.

 

Rácio de áreas passivas (%)

Consumo de Energia Primária

Áreas passivas e não-passivas

Ilumin.

Aquec.

Vent. e Arref.

Ilumin. Aquec. Vent. e Arref.
 

(kWh/m 2 )

(kWh/m 2 )

(kWh/m 2 )

norte

|

este

| sul | oeste | não-passiva

 

62,96

99,19

17,05

75,14

 
  62,96 99,19 17,05 75,14  

PRÉ-EXISTENTE

51,8%

8,9%

39,3%

 

191,38 kWh/m 2

 

59,16 MWh

 

58,71

103,92

17,51

69,39

 
  58,71 103,92 17,51 69,39  

REABILITADO

54,5%

9,2%

36,4%

 

190,82 kWh/m 2

 

58,37 MWh

Em termos globais, a reabilitação do piso tipo do edifício C praticamente manteve o seu desempenho energético, passando de 191,38 kWh/m 2 ano para 190,82 kWh/m 2 ano. A inexistência de alterações formais ao nível da envolvente e as intervenções mínimas no interior reflectem-se no desempenho energético mas também no rácio de área passiva que reduziu apenas de cerca de 63% para 59% após a reabilitação.

Iluminância (lux)

Piso Tipo

Factor Luz de Dia (%) Piso Tipo

A fachada cega a Norte minimiza as perdas térmicas típicas desta orientação e explica

as reduzidas necessidades de aquecimento no Inverno. Os baixos rácios de envidraçado a Este e a Oeste (as fachadas mais longas) justificam as necessidades de iluminação, sendo que

o facto de não ser utilizado qualquer sombreamento exterior nas várias orientações leva a que todos os ganhos luminosos sejam igualmente ganhos térmicos, elevando, assim, as necessidades de arrefecimento nas estações quentes.

Algumas opções que o Método LT não considera, mas que interessa referir por poderem influenciar os consumos energéticos, são: a insuficiente disponibilidade de luz natural e a sua irregular distribuição ao longo do espaço, fazem com que os utilizadores prefiram ter os estores interiores (de tecido branco, a Sul, e de lâminas horizontais orientáveis, a Nascente e Poente), frequentemente “fechados”, recorrendo totalmente à iluminação artificial; o mesmo se aplica, por consequência, à ventilação natural.

Ecotect

A

simulação e análise de iluminação natural do software Ecotect permite concluir que os

níveis de iluminação natural deste piso não se alteraram com a reabilitação e são insuficientes.

Quadro 12 – Análise de Iluminação Natural com o software Ecotect: edifício C.

EDIFÍCIO P-EXISTENTE

EDIFÍCIO REABILITADO

C. E DIFÍCIO P RÉ - EXISTENTE E DIFÍCIO R EABILITADO A nova utilização tira partido
C. E DIFÍCIO P RÉ - EXISTENTE E DIFÍCIO R EABILITADO A nova utilização tira partido
C. E DIFÍCIO P RÉ - EXISTENTE E DIFÍCIO R EABILITADO A nova utilização tira partido
C. E DIFÍCIO P RÉ - EXISTENTE E DIFÍCIO R EABILITADO A nova utilização tira partido

A nova utilização tira partido da amplitude do espaço optando por uma organização

espacial em open space, situando as zonas de circulação horizontal na zona central da planta

e encostando as zonas de trabalho às fachadas Este e Oeste que, no entanto, não fornecem

luz natural em quantidade ou qualidade necessárias ao seu usufruto de forma confortável. Apenas junto à fachada Sul – espaços destinados a reuniões ou gabinetes individuais de trabalho – se conseguem valores de iluminância dentro dos parâmetros de conforto para o uso de escritórios (300 e 500 lux), encontrando-se o restante espaço com uma luz natural homogénea mas fraca. Reitera-se, assim, que a diferença de luminosidade entre os espaços junto à fachada Sul e os restantes, que desfrutam de total contacto visual entre si, é passível de provocar um contraste excessivo com consequente desconforto visual. É igualmente interessante verificar o efeito nulo sobre a quantidade e distribuição da luz provocado pela colocação das divisórias opacas perpendiculares à fachada principal e das transparentes paralelas à mesma. Esta opção seria totalmente válida conjugada com outras que garantissem, nos restantes espaços de trabalho, semelhantes níveis de iluminação.

4. Recomendações de projecto

Com base na pesquisa e análises efectuadas, pretende-se, neste capítulo, sintetizar um

conjunto de recomendações de projecto a ter em conta como estratégias aplicáveis a

intervenções de reabilitação e reconversão de usos em edifícios industriais, assim como a

posteriores melhoramentos das intervenções estudadas, tendo em vista a meta da

sustentabilidade.

1. Procurar um espaço para um uso ou um uso para um espaço, de modo que o espaço

se adapte à nova utilização com o mínimo possível de alterações: potenciar as valências arquitectónicas características dos edifícios industriais como a robustez, amplitude espacial, pés-direitos generosos e abundante iluminação natural.

2. Reparar e reaproveitar o máximo da estrutura e materiais existentes, procurando

conservar e tirar partido da tipologia e carácter arquitectónicos particulares de cada edifício, bem como das características físicas e ambientais dos próprios materiais sem, no entanto, comprometer o futuro desempenho funcional e ambiental da construção.

3. Não sendo possível reorientar o edifício existente, esta lógica deve transpor-se para a

orientação e organização dos espaços interiores: favorecendo a iluminação e ventilação naturais, conciliadas com a protecção acústica, dos espaços de permanência em detrimento, se necessário, dos espaços de circulação ou de utilização mais pontual.

4. O reforço do isolamento térmico de toda a envolvente é mais eficaz quando feito pelo

exterior, sendo também possível fazê-lo pelo interior. No entanto, no caso de construções com boa massa térmica, como são frequentemente os edifícios industriais, o isolamento pelo interior

pode anular os benefícios da inércia térmica existente, revelando-se uma opção pouco eficaz.

5. As coberturas dos edifícios industriais constituem, com frequência, a maior área de

envolvente exterior do edifício. Como tal, estas devem estar na base da estratégia de melhoria de desempenho do conjunto – através da colocação ou reforço do isolamento térmico; da criação ou optimização de mecanismos de captação de luz natural (zenital ou de Norte); da integração de mecanismos de ventilação natural, nomeadamente para extracção do ar quente; possibilidade de instalação de cobertura vegetal ou de localização de painéis solares ou

fotovoltáicos; captação e transporte de águas pluviais.

6. Substituir os vãos existentes (excepto se de valor arquitectónico ou patrimonial

inegável) por caixilharia de corte térmico com vidro duplo de baixa emissividade – quanto maior

a área de envidraçados, maior o impacto no desempenho ambiental do edifício.

7. Manter ou criar dispositivos de sombreamento exterior dos envidraçados a Sul,

Nascente e Poente, passíveis de serem complementados por outros de sombreamento interior

– controlam os ganhos térmicos da radiação solar e melhoram a distribuição da iluminação

natural no interior, difundindo-a uniformemente, reduzindo o contraste e o brilho, e aumentando

a sua área de influência.

8. Sempre que oportuno do ponto de vista estético e de integração local, optar por cores claras para a envolvente exterior dos edifícios, provocando a reflexão da luz do sol que contribui para a redução de ganhos