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Novela Literária

O documento apresenta uma introdução à teoria da novela literária, diferenciando-a do conto e do romance em termos de extensão, estrutura e profundidade temática. A novela é caracterizada por um único núcleo de conflito, uma economia narrativa e um tempo narrativo concentrado, resultando em uma experiência intensa e ambígua para o leitor. Exemplos como 'A metamorfose' de Kafka e 'Aura' de Fuentes ilustram essas características, destacando o desfecho aberto e a carga simbólica típica do gênero.
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Novela Literária

O documento apresenta uma introdução à teoria da novela literária, diferenciando-a do conto e do romance em termos de extensão, estrutura e profundidade temática. A novela é caracterizada por um único núcleo de conflito, uma economia narrativa e um tempo narrativo concentrado, resultando em uma experiência intensa e ambígua para o leitor. Exemplos como 'A metamorfose' de Kafka e 'Aura' de Fuentes ilustram essas características, destacando o desfecho aberto e a carga simbólica típica do gênero.
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Introdução aos estudos literários - EAD

anovelaliterária
Novela X Romance
Olá, pessoal!

Nesta semana vamos conhecer um pouco mais


sobre a teoria da novela literária. Vamos ver alguns
conceitos que nos ajudarão a compreender a
gênese do personagem literário e também
distinguiremos os conceitos de “novela” e
“romance”, gêneros que frequentemente são
confundidos.
Paracomeçar...
Embora os termos "novela" e "romance" sejam frequentemente usados como
sinônimos no cotidiano de alguns países hispânicos e mesmo no Brasil, do
ponto de vista da teoria literária, eles se referem a formas narrativas distintas,
com características próprias no que se refere à extensão, estrutura e
profundidade da abordagem temática.

A novela literária é uma forma narrativa intermediária entre o conto e o


romance. Apresenta uma extensão mais curta que o romance, mas maior que a
do conto. No entanto, a diferença principal não está apenas no número de
páginas, mas em critérios formais e estruturais.
Paracomeçar...
Márcia Abreu, em texto intitulado “Novela, conto ou romance:
designações da prosa de ficção na Europa e no Brasil no século XIX“
afirma que “a teoria literária contemporânea classifica a «novela» como
texto de média extensão, no qual haveria predominância do evento, ao
contrário do «romance», texto longo em que haveria um maior
detalhamento do universo em que vivem as personagens, com espaço
para tramas secundárias e paralelas, inexistentes nas novelas. Ainda
segundo essa perspectiva, o «conto» seria uma narrativa ainda mais curta
e sintética, em que um único conflito seria desenvolvido” (ABREU, 2021,
p.14)
CARACTERÍSTICAS
DANOVELALITERÁRIA
Unidadedeaçãoefoconarrativo
A novela literária caracteriza-se por uma concentração em um único
núcleo de conflito, com poucos personagens e uma estrutura
narrativa mais enxuta do que a do romance. Não há, como neste
último, a proliferação de tramas paralelas; o enredo tende à unidade,
o que confere à novela uma tensão interna constante. A novela
frequentemente privilegia a coerência estrutural e o foco em uma só
linha de ação. Veremos alguns exemplos na sequência. Carlos Reis
afirma que, “na novela, a ação desenvolve-se normalmente em ritmo
rápido, de forma concentrada e tendendo para um desenlace único”
(REIS; LOPES, 2002, p. 303 apud MASSARO, 2016, p.247)
Ambiguidadeesimbolismo
A novela é um terreno fértil para a ambiguidade e a sugestão
simbólica. Wolfgang Iser, teórico da estética da recepção, propõe
que textos literários que trabalham com lacunas e ambiguidades
exigem uma participação ativa do leitor, algo comum na novela. A
linguagem tende a ser mais evocativa do que descritiva, o que
contribui para uma atmosfera de mistério ou estranhamento.
Autores como Edgar Allan Poe e Franz Kafka são frequentemente
associados a esse tipo de narrativa densa e simbólica, que mobiliza
aspectos psicológicos e subjetivos.
temponarrativoconcentrado
A novela geralmente delimita o tempo da ação a um recorte estreito —
dias ou semanas — o que contribui para a intensidade dramática e para
a profundidade psicológica. Diferente do romance, que
frequentemente abarca longos períodos, a novela aposta na
condensação temporal como forma de intensificar o conflito e a
experiência do leitor. É comum a novela apresentar uma atmosfera de
mistério, ambiguidade ou tensão, com uma linguagem mais simbólica e
sugestiva do que descritiva. Muitas novelas trabalham com elementos
psicológicos e subjetivos, mergulhando na interioridade dos
personagens ou criando situações de estranhamento.
exemplos
Em “A metamorfose”, toda a narrativa gira
em torno da transformação física de
Gregor Samsa em um inseto e das
consequências dessa mudança no seio
familiar. Embora o tempo cronológico da
história se estenda por algumas semanas,
a narração evita dispersões e se
concentra no presente da condição
absurda vivida por Gregor. Essa
condensação temporal contribui para o
clima de angústia e estranhamento típico
da obra kafkiana.
Em Kafka, o ponto de vista é em
terceira pessoa, mas limitado à
perspectiva de Gregor. O leitor
acompanha seus pensamentos,
sensações e percepções, o que cria um
foco psicológico intenso e restrito. O
mundo externo é visto a partir de sua
experiência de exclusão e
desumanização, o que amplia a força
simbólica da obra.
Em “Aura”, o tempo narrativo é ainda
mais concentrado: a ação se desenrola
em apenas alguns dias, em um
ambiente claustrofóbico, com forte
presença do passado infiltrando-se no
presente. O tempo é fluido, quase
onírico, e por vezes se dissolve, criando
uma ambiguidade temporal que
reforça o caráter fantástico da
narrativa.
O foco narrativo é um dos aspectos mais
inovadores: Fuentes utiliza a segunda
pessoa do singular ("tú"), criando uma
imersão direta e inquietante na mente do
protagonista, Felipe Montero. Esse recurso
gera uma identificação perturbadora entre
leitor e personagem, intensificando o clima
de mistério. A focalização é extremamente
restrita: seguimos Felipe em sua entrada e
permanência na casa de Aura e Consuelo,
sem desvios para outros pontos de vista.
final
A conclusão das novelas costuma ser marcada por um desfecho
inesperado, aberto ou abrupto, uma espécie de “efeito de suspensão” —
uma interrupção que convida à reflexão e prolonga a experiência
estética do leitor. Essa característica também dialoga com a concepção
sobre o "duplo relato", em que uma história visível oculta uma outra,
subentendida, que só se revela no final. Aqui quem preenche as lacunas
é o próprio leitor: as explicações são dispensadas e uma nuvem
perguntas começa a pairar entre o leitor e as páginas do livro. O leitor
entra, então, em estado de, no mínimo, reflexão após estar submetido à
narrativa.
O final da novela de Kafka é incontestavelmente
impactante e ambíguo. Gregor Samsa morre de forma
silenciosa, após ser completamente rejeitado pela família.
A narrativa se encerra com a súbita sensação de alívio e
libertação dos pais e da irmã, que passam a planejar um
futuro mais leve, chegando até a vislumbrar um bom
casamento para Grete, como se a presença do irmão
tivesse sido um fardo a ser eliminado.
Esse desfecho é chocante porque não oferece redenção
nem reconciliação; ao contrário, acentua o absurdo da
existência e a alienação das relações humanas. O leitor é
forçado a encarar a frieza da família e a condição
existencial de Gregor, sem nenhum consolo narrativo. O
caráter abrupto e frio do final potencializa a função
inquietante da novela, deixando em aberto as questões
éticas e simbólicas envolvidas.
Em “Aura”, o final é enigmático e perturbador,
plenamente alinhado com o tom fantástico e misterioso
da narrativa. Ao final da história, o protagonista Felipe
Montero percebe que ele mesmo é, de alguma forma, a
reencarnação ou duplicata de um antigo amor de
Consuelo, e que Aura, a jovem por quem ele se
apaixonara, parece ser uma extensão mágica ou
fantasmagórica da própria Consuelo.
Essa revelação não é explicada logicamente — a
ambiguidade é mantida até o fim —, deixando o leitor
diante de uma ruptura das fronteiras entre tempo,
identidade e realidade. A sensação que fica é de
perturbação metafísica, típica das novelas fantásticas. O
final não fecha a narrativa, mas abre múltiplas
interpretações, o que é uma das marcas centrais do
gênero.
economianarrativa
Na novela há uma concentração de elementos narrativos: os espaços,
os personagens e os acontecimentos são reduzidos ao essencial, o que
exige do leitor atenção e sensibilidade para captar as nuances do texto.
Não há tempo nem espaço para personagens inoperantes e passagens
desnecessárias, então nada é por acaso e absolutamente tudo pode vir
a fazer sentido em uma perspectiva completa. Por se tratar de um texto
maior do que um conto e menor do que um romance, a novela
geralmente segue o fio de uma história cuja trama central é o foco
narrativo.
Conto Novela Romance

Conto

Textos literários
em termos de
extensão* Novela

* (no geral, há exceções)

Romance

0 5 10 15 20
sobreaura
A novela Aura é um exemplo clássico desse gênero. Com pouco mais de
60 páginas, apresenta:
Um enredo concentrado (um único espaço: a casa de Consuelo);
Poucos personagens;
Atmosfera misteriosa e simbólica;
Um tempo narrativo restrito;
Um desfecho ambíguo que reforça a carga fantástica e psicológica
do texto.
Assim, Aura mostra como a novela literária pode ser intensa e complexa,
mesmo sem a extensão do romance tradicional.
Aspecto Novela Romance

Extensão Média Longa

Foco narrativo Um núcleo central Múltiplas tramas

Personagens Poucos, função bem definida Muitos, com histórias entrelaçadas

Tempo/ambiente Concentrado Amplo e dilatado

Estilo Conciso, simbólico Variado, detalhado

Efeito estético Intenso, concentrado Abrangente, analítico


Em síntese, nesta aula conhecemos
o gênero novela. Com a leitura de
“Aura”, teremos bem evidentes os
parâmetros que nos permitem
compreender como este gênero se
diferencia do conto (já visto) e do
romance (que veremos na semana
que vem).
Vamos ampliar o seu repertório?
Sugiro a leitura dos seguintes textos. Eles ajudarão a expandir as informações
que você teve neste material.

Novela, conto ou romance: designações da prosa de ficção na Europa e no Brasil


no século XIX, de Márcia Abreu. Disponível em
https://www.academia.edu/67262456/Novela_conto_ou_romance_designa%C3%A7%
C3%B5es_da_prosa_de_fic%C3%A7%C3%A3o_na_Europa_e_no_Brasil_no_s%C3%A9cu
lo_XIX

Um breve panorama das teorias da novela, de Felipe Karpinski Massaro.


Disponível em: https://editora.pucrs.br/anais/coloquio-de-linguistica-literatura-e-
escrita-criativa/2016/assets/24.pdf
"ABREU, Márcia. Novela, conto ou romance: designações da prosa de

referência ficção na Europa e no Brasil do século XIX. In: CHAVES, Vania Pinheiro et
al. (org.). Caminhos cruzados: os portugueses e Portugal na ficção
brasileira. Lisboa: CLEPUL, 2021."
CANDIDO, Antonio. A personagem de ficção. In: ________. A personagem
de ficção. 3. ed. São Paulo: Perspectiva, 1995. p. 11–52.
CHKLOVSKI, Viktor. A construção da novela e do romance. In: TOLEDO,
Dionísio de Oliveira (Org.). Teoria da literatura: formalistas russos. Porto
Alegre: Globo, 1971.
FORSTER, E. M. Aspectos do romance. Tradução de Maria Luiza X. de A.
Borges. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.
FUENTES, Carlos. Aura. Tradução de Olga Savary. 11. ed. Rio de Janeiro:
José Olympio, 2006.
KAFKA, Franz. A metamorfose. Tradução de Modesto Carone. São Paulo:
Companhia das Letras, 1997.
MASSARO, Felipe Karpinski. Um breve panorama das teorias da novela.
Disponível em: https://editora.pucrs.br/anais/coloquio-de-linguistica-
literatura-e-escrita-criativa/2016/assets/24.pdf Acesso em 20 abr
2025.
REIS, Carlos; LOPES, Ana Cristina. Dicionário de narratologia. Coimbra:
Almedina, 2002.
TODOROV, Tzvetan. Introdução à literatura fantástica. Tradução de
Artur Morão. São Paulo: Perspectiva, 2004.

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