A Didática nos Estudos Literários – Entre a Técnica e a Reflexão Crítica
A afirmação de Imídeo G. Nérici apresenta a Didática como parte essencial dos
Estudos Literários, defendendo-a não apenas como uma técnica de ensino, mas
como uma prática que envolve também reflexão e crítica. Esse trabalho propõe uma
análise detalhada dessa visão, discutindo a função da Didática na formação leitora e
na prática pedagógica da Literatura. Segundo Nérici (1991), "a Didática não se limita
a um receituário de técnicas eficientes de aprendizagem", ressaltando seu caráter
reflexivo e formador. A partir dessa premissa, buscamos refletir sobre o papel da
Didática no ensino da Literatura como arte e como prática educacional.
A Didática como ciência e prática educativa
A Didática, enquanto campo do conhecimento, busca compreender os processos de
ensino e aprendizagem, articulando teoria e prática. Segundo Libâneo (2013), ela “é
a mediação entre o conteúdo e o sujeito, visando à formação crítica”. Essa visão
ultrapassa a simples aplicação de métodos, propondo uma relação pedagógica
humanizadora. Na perspectiva dos Estudos Literários, a Didática atua como elo
entre a literatura e a prática de leitura crítica, promovendo uma experiência estética
e cognitiva.
Ensino de Literatura: técnica e arte
O ensino da Literatura exige mais do que o domínio técnico do professor; demanda
sensibilidade, criatividade e criticidade. Como afirma Lajolo (1993), “ensinar
literatura não é apenas interpretar textos, mas também formar leitores críticos”. A
Didática, nesse contexto, proporciona estratégias que valorizam tanto a técnica
quanto o prazer estético, permitindo que o aluno desenvolva competências de
leitura, escrita e análise textual.
O papel do professor como mediador
O professor de Literatura assume o papel de mediador entre o texto e o aluno, e
para isso precisa dominar as técnicas de ensino e, ao mesmo tempo, compreender o
contexto sociocultural do discente. Para Freire (1996), “ensinar exige reflexão
crítica sobre a prática”. Assim, a Didática não pode ser engessada em fórmulas
prontas, mas precisa dialogar com a realidade da sala de aula, promovendo a
construção do conhecimento de forma significativa.
A crítica ao ensino baseado em “receituários”
Imídeo G. Nérici critica a visão da Didática como simples “receituário” pedagógico.
Essa crítica é reforçada por autores como Zabala (1998), que aponta que “ensinar
não é aplicar receitas, mas tomar decisões pedagógicas conscientes e
fundamentadas”. O ensino da Literatura, portanto, deve ir além da repetição de
estratégias e buscar a formação do leitor crítico, que é capaz de interpretar e
questionar o mundo a partir dos textos literários.
Literatura como instrumento de formação humana
A Literatura tem o poder de formar o indivíduo em sua totalidade, estimulando
emoções, empatia e pensamento crítico. Conforme Candido (2000), “a literatura
humaniza porque amplia a capacidade de compreender o outro”. A Didática, ao
incorporar essa dimensão humanizadora, contribui para um ensino mais profundo e
transformador, que valoriza a experiência estética e ética do aluno.
A interdisciplinaridade nos Estudos Literários
A Didática da Literatura pode dialogar com outras áreas do conhecimento, como a
Filosofia, a História e a Sociologia, enriquecendo a leitura literária. Segundo Cosson
(2006), “o trabalho com literatura na escola deve ser interdisciplinar, valorizando a
pluralidade de sentidos do texto literário”. A prática didática que se abre à
interdisciplinaridade permite aos alunos uma compreensão mais ampla e crítica da
realidade.
A importância da especulação e da reflexão
A especulação, apontada por Nérici, refere-se à capacidade de questionar,
problematizar e refletir sobre o processo de ensino-aprendizagem. Para Tardif
(2002), o conhecimento docente é construído pela reflexão sobre a prática, o que
torna a Didática um campo dinâmico e em constante evolução. Assim, a especulação
se torna parte fundamental do processo de ensinar Literatura, afastando-se da visão
mecânica de ensino.
Metodologias ativas e práticas inovadoras
A Didática contemporânea propõe metodologias que colocam o aluno como
protagonista da aprendizagem. Segundo Moran (2015), “ensinar com métodos
ativos é envolver o aluno em tarefas significativas, em vez de apenas transmitir
conteúdo”. No ensino da Literatura, essas metodologias podem incluir projetos,
leitura compartilhada, dramatizações e debates, estimulando a participação ativa
dos alunos.
Desafios contemporâneos no ensino de Literatura
Ensinar Literatura em tempos digitais e de leitura fragmentada é um grande desafio.
A Didática precisa adaptar-se às novas realidades, sem perder sua essência
formadora. Para Chartier (2002), é necessário compreender os novos modos de
leitura e utilizá-los como aliados no processo educativo. O papel do professor é
repensar suas práticas, dialogando com a cultura digital e promovendo uma leitura
crítica dos conteúdos.
Conclusão
A Didática, conforme afirma Imídeo G. Nérici, é muito mais do que um conjunto de
técnicas: é um saber-fazer que se constrói na reflexão, na crítica e na criatividade.
No contexto dos Estudos Literários, ela representa a ponte entre o texto e o leitor,
entre a teoria e a prática, entre a arte e a educação. Ao compreender a Didática como
uma prática crítica, o professor amplia sua atuação e contribui para a formação de
sujeitos autônomos e conscientes. Como bem ressalta Nérici (1991), a Didática não
se limita a um receituário, mas se constitui como arte de ensinar com sentido e
sensibilidade.
Referências Bibliográficas
CANDIDO, Antonio. A literatura e a formação do homem. São Paulo: Fundação Itau
Cultural, 2000.
CHARTIER, Roger. A aventura do livro: do leitor ao navegador. São Paulo: UNESP,
2002.
COSSON, Rildo. Letramento literário: teoria e prática. São Paulo: Contexto, 2006.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa.
São Paulo: Paz e Terra, 1996.
LAJOLO, Marisa. Literatura: Leitura e produção de texto. São Paulo: Ática, 1993.
LIBÂNEO, José Carlos. Didática. São Paulo: Cortez, 2013.
MORAN, José Manuel. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá.
Campinas: Papirus, 2015.
NÉRICI, Imídeo G. Didática Geral. São Paulo: Atlas, 1991.
TARDIF, Maurice. Saberes docentes e formação profissional. Petrópolis: Vozes,
2002.
ZABALA, Antoni. A prática educativa: como ensinar. Porto Alegre: Artmed, 1998.