REVELLI – Revista de Educação, Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas ISSN 1984-6576 – v. 3, n. 1 – março de 2011 – p. 18-31 – www.ueg.

inhumas.com/revelli

O PROFESSOR COMO AGENTE DA CONSTRUÇÃO DA TEORIA E DA PRÁTICA THE TEACHER AS AN AGENT OF THE CONSTRUCTION OF THEORY AND PRACTICE
Charlene S. M. Meneses de Paula1
Resumo: Este artigo apresenta e discute alguns conceitos relacionados à prática de ensino, sobretudo ao professor que está inserido nesta prática. Busca-se ressaltar a importância de se rever o papel que o professor atualmente desempenha na conjuntura social, destacando algumas características que precisam ser desenvolvidas em prol da emancipação das estruturas opressivas, prejudiciais e tendenciosas às quais professores, alunos e sociedade em geral estão submetidos. A reflexão crítica e a aprendizagem crítico-colaborativa de professores são caminhos, destacados por vários autores, que conduzem a uma prática educativa mais igualitária e justa. Palavras–chave: Formação de professor. Reflexão crítica. Aprendizagem crítico-colaborativa. Prática pedagógica. Emancipação. Abstract: This article presents and discusses some concepts, related to the teaching practice, especially to the teacher who is in this practice. This work also intends to emphasize the importance of review the actually teacher’s role in the society, highlighting some characteristics that need to be developed in aid of the oppressive, harmful and tendentious emancipation, which teacher, students and the society in general are subjected. The teacher’s critical reflection and the collaborative and critical learning are ways, showed by a number of studious, which lead to a more equality and fair educative practice. Keywords: Teacher education. Critical reflection. Collaborative and critical learning. Pedagogic practice. Emancipation.

Considerações iniciais

Este artigo discorre sobre características que definem o professor, mostrando a importância do professor como um teórico e prático consciente e crítico, engajado politicamente e envolvido em todos os âmbitos educacionais, refletindo sobre eles. Para tanto, no segundo tópico deste artigo será feita uma diferenciação entre o tradicional professor

Especialista em Linguística Aplicada: Ensino de Línguas pela Faculdade Araguaia. Licenciada em Letras (Português / Inglês) pela Universidade Estadual de Goiás (UEG) – Unidade Universitária de Inhumas - GO. Professora de Língua Inglesa na UEG-Inhumas. E-mail: charlenestephany@yahoo.com.br.

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os alunos e a sociedade em geral. no tópico seguinte. atitudes e conhecimentos específicos. p. úteis e necessários para que indivíduos se integrem na máquina do sistema social global”. No quarto tópico. não o abandonando. torna-se cada vez mais urgente pensar no modelo de professor reflexivo e abandonar o modelo do professor visto como um mero técnico.ueg. Zeichner e Liston (1996). entre outras. Tal profissional. Pra tal. da reflexão colaborativa e de como esta pode influenciar aquela. são utilizados alguns teóricos educacionais. durante a sua prática – reflexão na ação – e sobre a reflexão que se deu na ação – reflexão sobre a reflexão na ação. Segundo Libâneo (1994. nas suas teorias pessoais e na sua prática.com/revelli técnico e o artista reflexivo. no entanto. para ilustrar a importância do conhecimento crítico da própria prática. responsável apenas por aplicar com rigor as regras que derivam do conhecimento científico. deve pensar antes e após a sua prática – reflexão sobre a ação –. 18-31 – www. mitos nos quais acreditam os professores. 1997). é preciso repensar o papel da educação sobre os indivíduos. Desta forma então. formação pedagógica. Gómez (1997). 28).inhumas. e ser capaz de teorizá-lo. tão exigido pela contemporaneidade e. como já defendeu Schön (1987 apud GÓMEZ. será apresentado mais detalhadamente. 3. n. visto que “à educação escolar [ainda] compete organizar o processo de aquisição de habilidades. visto que as diversas situações de ensino e eventos 19 . sistemático. o perfil do profissional conhecido como intelectual crítico e reflexivo. Este professor deve possuir o seu próprio conhecimento profissional. Freire (1996). questões relacionadas aos conflitos que enfrenta dentro e fora de sala de aula. 2002) às pedagogias críticas. baseado nas teorias produzidas por outros. a reflexão crítica será definida e no tópico posterior será apresentada uma crítica de Ellsworth (1989 apud CONTRERAS. No quinto tópico. Por fim.REVELLI – Revista de Educação. serão exibidas as considerações finais sobre este processo dinâmico e cada vez mais necessário. Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas ISSN 1984-6576 – v. normalizado e ditado pela elite dominante na solução de problemas previamente estabelecidos e esperados. O professor como técnico e o professor reflexivo A formação e a prática do professor são permeadas por questões relativas à sua consciência política. 1 – março de 2011 – p. questões ideológicas (língua / discurso como instrumento de alienação ou libertação sócio-cultural?). como: Contreras (2002). que é a reflexão crítica. será esboçada uma pesquisa realizada na área de formação de professor reflexivo. o conhecimento e a prática do professor reflexivo devem ultrapassar o conhecimento técnico. Smyth (1991). sucintamente abordado nas linhas iniciais destas considerações. entre outros. Diante disso.

que o professor: → Examine as motivações e o contexto no qual os problemas estão inseridos. → Seja consciente do que faz e do porque faz.com/revelli em sua prática em sala de aula caracterizam-se em “zonas indeterminadas da prática – incerteza. dentre outras vantagens. ao mesmo tempo. mas que deve continuar refletindo para se aprimorar. Lima (2005) cita García (1999) para atestar a necessidade do fim do professor visto como técnico que executa propostas e conhecimentos elaborados por outros especialistas que. 20 . → Saiba que é falho. prático e pessoal. p. → Pense nas possíveis consequências de suas atitudes.REVELLI – Revista de Educação. reflexiva e colaborativamente. → Formule os propósitos e as finalidades de seu trabalho. como alguém que constrói. 1997. a reflexão crítica e colaborativa permite. 18-31 – www. singularidade e conflitos de valores” (SCHÖN. e do surgimento do professor reflexivo. não são previstas. buscando teorizar sobre eles e não reproduzir teorias de outros. o que nem sempre acontece visto que muitos professores não são preparados para refletir sobre o que fazem e para compartilhar as reflexões com os colegas. → Tente ser autônomo para (re)criar currículos e para resolver seus próprios problemas autenticamente e criticamente.ueg. com seus alunos e com o seu próprio e infindável desenvolvimento pessoal e profissional. pois deve-se procurar um balanço entre reflexão e rotina e entre pensamento e ação. não tem que refletir sobre tudo o tempo todo. 3. Segundo Smyth (1991). como Dewey (1933 apud CONTRERAS. 1 – março de 2011 – p. para ser reflexivo. 6-7 apud GÓMEZ. estão fora da sala de aula e não conhecem a realidade que os professores vivem e enfrentam. quase sempre. questionando os objetivos educacionais no contexto da sala de aula e da escola. no modelo da racionalidade técnica.inhumas. → Seja capaz de criticar teorias e ações e. encarado. Por ser capaz de manter um exercício reflexivo e de construir teorias próprias baseadas em experiências e na prática cotidiana. 2002) sugere. tendo em mente que sua prática pode ser justificada por suas ideias. decisões ou mudanças. → Se preocupe e se comprometa com seu ensino. Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas ISSN 1984-6576 – v. p. o professor reflexivo está preparado para quaisquer situações que. 101). n. como já expresso. crenças e teorias e de que é necessário conhecê-las para se entender melhor e contribuir com os colegas que precisam. 1987. informações baseadas em seu conhecimento teórico. O ensino reflexivo é o ideal esperado que todos os professores desenvolvam. → Entenda que. reconhecer a importância de cada uma.

deveria estar no centro das políticas educacionais. considera resultados finais e não processuais. desqualifica a escola e desvaloriza o professor. e as condições de trabalho e de exercício profissional à qualidade de formação. em técnica. Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas ISSN 1984-6576 – v. de modo geral. Para Pimenta.REVELLI – Revista de Educação. para que haja a efetivação do conceito de professor reflexivo no Brasil é indispensável o acompanhamento das políticas públicas e o desenvolvimento de um projeto emancipatório. apesar de depender muito dos próprios professores. que deixe de culpar os professores como os únicos responsáveis pelos rumos da educação e do ensino. engajados politicamente e pesquisadores). depende também de políticas educacionais e sociais e da agência da sociedade de modo geral sobre elas. O professor como intelectual crítico e reflexivo no Brasil Pimenta (2002) vê a necessidade e propõe. da teoria. segundo a autora. 18-31 – www. pedagógicos e experiência e não um mero executor de decisões tomadas em outras instâncias por outros e que invista na formação inicial e continuada do profissional. conclui-se que é difícil ser um professor reflexivo. não investindo nele que. dotado de saberes científicos. Isso porque considera que o professor pode agir sobre as políticas educacionais deste país neoliberal que. Segundo Mateus (2009). 3. o fazer e o conhecimento cotidiano. a prática. do pesquisador. a superação da identidade dos professores reflexivos (pensantes) para intelectuais críticos e reflexivos (pensantes. do conhecimento científico sobre. no Brasil. ativos. é preciso que os professores tenham consciência de seu poder que. a pesquisa pode e deve promover a transformação da identidade dos professores. Para tanto. Sendo assim. de suas práticas. é preciso refletir e superar a legitimação social da hegemonia da universidade sobre a escola. Caso contrário. deve estar vinculada à universidade. entre outros. com o da sociedade. no contexto brasileiro. 1 – março de 2011 – p. bom salário e tempo para que a reflexão e a pesquisa social e colaborativa aconteçam em sua prática (incerta e sócio-historicamente prédefinida) e na escola. dos processos de ensino-aprendizagem nos quais estas ocorrem e produzir novas culturas e novos sentidos para aqueles que dela participam. n.inhumas. pois isso. o professor. É 21 . Esta. assim como a ciência e a pedagogia à prática. que reconheça no professor um intelectual crítico. o conceito de professor reflexivo transforma-se em um mero termo e a reflexão.com/revelli Diante disso e de várias outras atribuições ligadas à reflexão que poderiam ser citadas. respectivamente. sem esta agência. de forma a lhe possibilitar boas condições de trabalho. pode questionar e transformar este tradicional sistema. do saber. investe no desenvolvimento quantitativo.ueg. por sua vez e por isto.

mas dominando-o e implantando ações que. O conhecimento das teorias pessoais dos professores e as suas interpretações constituem o primeiro passo em direção às mudanças no campo educacional. pois muitos são os fatores e condições que as impedem. direta ou indiretamente. conversar e refletir sobre suas diferentes experiências e práticas rotineiras. o desvelamento de tradições ocultas e transformações institucionais e sociais é difícil. diante de tanto descaso e desrespeito em relação aos saberes e ao trabalho do professor. ouvir. 3. como: o isolamento. 220). Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas ISSN 1984-6576 – v. ignoram a complexidade do trabalho do professor. sobretudo o professor precisa saber “quais são os fins visados pela educação” (SNYDERS. é também preciso entender a diferente percepção de ensino e escola para professores e para aqueles que se encontram fora do processo. por isso.REVELLI – Revista de Educação. com certa frequência e continuidade. Então. a ansiedade. o entendimento de práticas. 1 – março de 2011 – p.ueg. 18-31 – www. que os beneficiam e perpetuam o seu poder. pois ignora-se a realidade e reproduz-se e reforça-se tradições e condições históricas. à sua autonomia e ao ambiente de ensino. o medo. segundo Smyth (1991) lhes permitem: → Se reunir. desconhecendo-o. Dessa forma. que se encontram fora do processo. n. às vezes. o trabalho do professor é simples e se resume a repassar conhecimento. 22 . observar. o imediatismo. 1974. entre outros. para aprender com outros professores. derivada do desenvolvimento de alianças colaborativas entre os professores. estudar. Para Vasconcellos (2000). A reflexão colaborativa e o pesquisador participante Provocar mudanças que promovam o desenvolvimento profissional. demonstrar. para que as mudanças aconteçam na prática de ensino e na instituição onde ela ocorre. p. segundo Smyth (1991). pesquisar. consideradas consagradas. o conhecimento deve ser construído em sala de aula. com vistas a desenvolver e emancipar o aluno. estão envolvidos no que se deseja conhecer e transformar. o egoísmo. Até mesmo teorias. libertando-o das estruturas injustas.com/revelli necessário e urgente um olhar dialético sobre estas tensões e a consideração imprescindível das vozes daqueles que.inhumas. como problematizar o que é comumente transmitido e supostamente neutro e construir novos conhecimentos com seus alunos. a crença de que é impossível fazer melhor. é necessário a reflexão crítica. o caminho que deve ser seguido pelos professores preocupados com o desenvolvimento e os efeitos de sua ação e interessados em melhorias e mudanças sociais é o de implantação e desenvolvimento de alianças colaborativas que. Para estes. Mas. falham.

→ Tentar recriar a si e a sua instituição. experimentando e substituindo práticas por outras mais eficazes. não a controlam. → Lutar em defesa dos oprimidos que embora mantendo a ordem social. → Avaliar com justiça e união o sentido do que praticam. → Reconhecer o poder da educação. ajudam a manter o status quo. 23 . 1 – março de 2011 – p. → Se preocupar em sempre melhorar. Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas ISSN 1984-6576 – v. com confiança. espontâneo e democrático. que afeta relações em várias instâncias: entre os professores. → Reconhecer suas próprias limitações e as identificar na prática do outro. mas de um processo genuíno. de difícil aceitação e desenvolvimento. Como pode ser visto. → Destacar e dividir pontos positivos. social e culturalmente.com/revelli → Ter controle sobre seu próprio ensino e reconhecer a necessidade. cada vez mais urgente. para que os objetivos sejam atingidos e a satisfação profissional e pessoal seja alcançada. → Iniciar e sustentar o processo de mudança.REVELLI – Revista de Educação. reais. → Descobrir pontos negativos. → Discutir maneiras de tentar conscientizar a escola sobre a importância de apoiar e desenvolver este tipo de aprendizagem. alunos e a família. 3. com sinceridade e sem competição. esse processo de reflexão colaborativa é complexo. → Se apoiar. existência e superação. que não se trata de uma forma de inspeção nem de controle de qualidade. → Ver o ensino histórica. dessa forma. n. de entender sua prática e sua realidade. → Elaborar caminhos para ajudar aqueles que ainda não conhecem ou não praticam a aprendizagem e a reflexão colaborativa. → Tentar mudar sua situação determinada pela sociedade histórica: a de técnicos que executam o que é criado pelo poder injusto e antidemocrático e que. → Tentar isolar as contradições das ações e construir novos conceitos baseados na aceitação da diferença e no dever social de respeitar e oportunizar os direitos igualitários a todos os cidadãos. refletindo sobre seu surgimento. respeito e criticidade. → Agir coerentemente com o diálogo e a reflexão crítico-colaborativa. mas só através dele o professor pode tornar seus ideais. acreditar em possibilidades e reconhecer que o processo de reflexão é infindável.ueg. 18-31 – www.inhumas.

mas também pelos saberes adquiridos na experiência e que se configuram em suas teorias pessoais. e. A sociedade é marcada por desigualdades e injustiças e os 24 . consequentemente. conceitos que a norteiam e a definem. necessitando serem trabalhadas. controladas e modificadas.com/revelli melhorar sua prática. transformar sua realidade. Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas ISSN 1984-6576 – v. essas mudanças ocorrem mais facilmente na prática do que nas teorias pessoais que. como crítico reflexivo. 1 – março de 2011 – p. n. é extremamente importante pesquisar e analisar a própria prática para ver nela influências. modificada. como pesquisadora participante e em processo de reflexão colaborativa.ueg. para ilustrar os benefícios da reflexão colaborativa. A conclusão de Lima foi que o estudo a ajudou a desvelar teorias pessoais e a compreender melhor sua prática. entender a força das tradições e burocracias das classes dominantes sobre si mesmo e seu ensino. Visto que o professor é formado não apenas pelas teorias acadêmicas. pensando na igualdade e na justiça. 18-31 – www. como produtor de teorias e como agente no processo de luta pela mudança. Não há colaboração sem aprendizagem e não deve haver reflexão sem ação. Para a autora. A autora. A pesquisadora observou. inclusive da sua. Como já antecipado nas considerações iniciais. as mudanças na prática. para mudarem. mudar relações sociais. que deve ser constantemente refletida e. examinou sua prática.REVELLI – Revista de Educação. decorrentes do processo de reflexão colaborativa precisam permanecer e não são imediatas. Segundo ela. investigou nela o confronto entre teorias pessoais e acadêmicas e descobriu falhas que passaram a ser monitoradas. lança-se mão da experiência de Lima (2005) que desenvolveu uma pesquisa acerca de como as teorias pessoais influenciam a prática pedagógica e de como a reflexão colaborativa pode influenciar e provocar mudanças na prática. A ideia do professor como investigador de práticas.inhumas. a prática pedagógica se move sempre entre incertezas e dilemas. a fim de desvelar qual é a abordagem utilizada e em quais concepções se acredita. aos poucos. com a ajuda de seus colegas e de sua orientadora. exigem reflexão. ainda precisa se tornar mais receptiva e prática e sua importância (re)conhecida. pressupostos. A ação reflexiva reconhece a necessidade de mudanças. O termo reflexão e a reflexão crítica Segundo Contreras (2002). tempo e trabalho. que as teorias pessoais interferem muito mais na sua prática do que as acadêmicas. 3. diferenças e pluralidade. conquistar sua autonomia.

A essência e a orientação da reflexão. principalmente no sentido em que o termo “reflexão” está sendo usado. sem a ação. através de preconceitos e reprodução de valores. juntos. mas. conscientes e críticos. 1987:75) que lhes permitiria analisar e questionar as estruturas institucionais em que trabalham. que o professor saiba relacionar sua cultura Para ilustrar e esclarecer algumas contradições e contrariedades apresentam-se dois exemplos válidos e incidentes: 1º . A imagem distorcida da reflexão como prática individual faz com que muitos professores limitem sua ação à sala de aula. não tenham consciência de que estes problemas estão “profundamente incrustados nas desigualdades sociais. 2 25 . p. Mas ela mesma. nega estas pretensões e mantém e reforça as desigualdades.com/revelli professores vivem pressionados. conduz a construção de conhecimento profissional específico e ao desenvolvimento pessoal e profissional em situações conflituosas e incertas. econômicas e políticas” (SMYTH. se responsabilizem por muitos problemas existentes na educação.ueg. comprometida com a igualdade e a justiça. 2º . é preciso que. mas supõe também “uma forma de crítica” (KEMMIS. infelizmente. por vezes. ao qual a reflexão se opõe. 162). Ela é institucional e social. p.O discurso da escola é que visa-se o preparo de cidadãos críticos e autônomos para uma sociedade plural. Por isso. 138) e nem intervenham nestas instâncias com o propósito de transformá-las. sobre eles. Mas ela própria desconfia deles. reflitam criticamente. 2002. 1992. vazio de conteúdo e significando qualquer processo que suponha o pensar com dedicação. n. 3. porém necessário. se diluiu e até o raciocínio técnico. Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas ISSN 1984-6576 – v. p. por si só.inhumas. Segundo Contreras (2002. no sentido utilizado por Schön. típicas da prática docente. monitora-os e. a diferença fundamental em relação à proposta [já vista] sobre a reflexão é que a reflexão crítica não se refere apenas ao tipo de meditação que possa ser feita pelos docentes sobre suas práticas e as incertezas que estas lhes provoquem. 1 – março de 2011 – p. autônomos. quase sempre. ainda continuam desconhecidas por muitos professores. Contreras considera difícil. submetidos e presos por contradições e contrariedades2 que. pesquisem e tentem detectar os limites que não se dirigem à possibilidade de emancipação e. como viu-se. não conduz à busca de uma prática educativa mais igualitária e libertadora. A reflexão sobre a prática é função essencial do docente no exercício de seu trabalho. muitas vezes.REVELLI – Revista de Educação. A reflexão crítica. O significado inicial do termo.O discurso da escola é que os seus professores são bem formados. Visto que a instituição escola está carregada de contradições e contrariedades. 18-31 – www. não são captadas com lucidez. 287 apud CONTRERAS. se apresenta como reflexão. professores nela se envolvam. julga-os incapazes.

os professores podem desenvolver o presentismo (preocupações concentradas nas próprias aulas). os professores [podem] exercer um papel ativo. Com a existência desta possibilidade. 18-31 – www. O desenvolvimento destas três características resulta na perda dos próprios valores (os professores aceitam os valores da escola e abrem mão dos seus) ou na individualização desses valores (os professores não abrem mão de seus valores. p. 1 – março de 2011 – p. E. propostas por Dewey (apud ZEICHNER. 3. Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas ISSN 1984-6576 – v. que integram a reflexão: a abertura de espírito. Sendo assim. 93). mas não os apresentam nem os dividem).com/revelli (perspectivas. reforçam o poder do sistema”. 2002). n. os professores se sentem responsáveis e culpados. 1996. Em decorrência do não desenvolvimento de perspectivas críticas em relação à instituição e ao próprio trabalho. e acabam transferindo um pouco desta culpa para os alunos. acabam se isolando em sala de aula. p. teorias pessoais e práticas) à da instituição em que trabalha (mentalidade tecnocrática. Por isso. e. reflexivos. 1993). mesmo do acerto de seu ponto de vista é possível que a razão ética nem sempre esteja com ele” (FREIRE. Segundo Paulo Freire. autônomos e transformadores. o conservadorismo (discussões e reflexões sobre o que ou como se ensina ou em relação às normas institucionais são evitadas e mudanças são temidas) e o individualismo (o trabalho individual é privilegiado. irrepreensível e pré-estabelecida). Diante de tantas contradições e contrariedades. acabam se esquecendo que estes problemas são de ordem institucional e social e que o necessário. de acordo com Contreras (2002). organizando-se junto com os pais e mães e outros setores da comunidade. com o objetivo de excluir do poder aquelas instituições e grupos políticos e econômicos que exercem uma 26 .inhumas. a sinceridade e a responsabilidade. uma das condições necessárias para o pensar certo é não estar demasiado certo das próprias certezas e mesmo possuindo um ponto de vista. como profissionais críticos. errônea e infelizmente. os colegas e para a escola. expectativas. aliando-as e transformando-as. segundo Lortie (1975 apud CONTRERAS. pois teme-se o julgamento e a crítica dos colegas). deixar de reduzir seu trabalho aos problemas mais próximos que exigem solução instantânea e problematizar sobre as estruturas que tentam definir seu ensino. ambiguidades e falta de respostas. difusões. 16).REVELLI – Revista de Educação. é errado “absolutizá-lo e desconhecer que. vale lembrar da importância das três atitudes. onde se sentem seguros e capazes de controlar e solucionar problemas imediatos. segundo Paulo Freire (1996. “enquanto [os professores] sentirem assim. pensarem assim e agirem assim. é colocar em questão as bases sobre as quais sustentam seu ensino.ueg. quando há reflexão social e crítica é possível ao professor atender a esferas da educação cada vez mais complexas.

e construir um processo de reflexão crítica pelo qual estas podem ser teorizadas e superadas”. 1984 apud CONTRERAS. 2002. construam um ensino dirigido pela pedagogia crítica para a formação de cidadãos críticos e ativos. Como afirma Contreras (2002. 179). é preciso “identificar de forma clara as contradições e contrariedades nas quais vivem professores e estudantes. os professores devem ser vistos como uma “autoridade emancipadora” e considerados “intelectuais transformadores” que. defende que o papel do professor no mundo não deve ser só o de quem constata o que ocorre. Paulo Freire. Tornar-se um intelectual crítico não é um processo espontâneo que se produz naturalmente. preconceitos. 1996. p. Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas ISSN 1984-6576 – v. irracionais e injustas. que excluam do poder grupos que ignoram todo o complexo escolar. hábitos. n. igualdade e democracia: problematizem “os pressupostos por meio dos quais se sustentam os discursos e valores que legitimam as práticas sociais e acadêmicas” (CONTRERAS. p. mas também o de quem intervém como sujeito de ocorrências. pressupostos e formas de dominação. 1 – março de 2011 – p.ueg. 160). p. analisar sua realidade e agir sobre ela. 3. e fundem uma ordem social e educacional mais justa. Paulo Freire concorda que é preciso lutar em prol da exclusão das “injustiças a que são submetidos os esfarrapados do mundo” (FREIRE. transformando-a e o emancipa das tradições. 1996. p. Para Giroux (1991 apud CONTRERAS. pois depende de vontade própria. 2002. 2002). 15). 158).inhumas. e de coragem e persistência para enfrentar os desafios e incertezas sobre os quais está assentada a reflexão crítica. 27 . livre. valendo-se do conhecimento crítico que portam e dos ideais da liberdade.REVELLI – Revista de Educação. O autor afirma também que “mudar é difícil. idealizada e carregada de esperança e possibilidades. 2002). de esforço para se unir a outros professores e tentar obter descobertas. assim como Giroux. Para Habermas (1982. 50). por meio da exclusão dessas formas de dominação opressoras. um dos que melhor desenvolveu a ideia dos professores como intelectuais baseando-se nas ideias de Gramsci. criem movimentos sociais. 18-31 – www. p. mas é possível” (FREIRE. excluindo-os ou transformando-os. com o processo de mudança. a teoria crítica se compromete com a emancipação. com grupos que interpretam a si mesmos e às suas deformações ideológicas nas formas de dominação a que estão submetidos e que refletem possibilidades de ação que objetivam a transformação.com/revelli influência excessiva e prejudicial sobre o currículo e a política escolar (CONTRERAS. A reflexão crítica permite ao professor superar e reconhecer as diferenças. As discussões apontadas sobre a reflexão crítica são fundamentadas nas ideias de Habermas e na Teoria Crítica. costumes.

bem como a de seus teóricos. que deve ser problematizado. Zeichner (1993. A fim de também ilustrar e esclarecer a relatividade da emancipação tem-se os seguintes exemplos: 1º . limitado. 18-31 – www. Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas ISSN 1984-6576 – v. Por isso.Há o dia internacional da mulher. Além disso. “minam a intenção de emancipação expressa pelos reformadores” (ZEICHNER. inacabado. 67).com/revelli Críticas às pedagogias críticas Ellsworth (1989 apud CONTRERAS. partidário. é por ser parcial. Para Ellsworth. p.Há cotas estabelecidas para negros na universidade. segundo ele. 2º .A pedagogia crítica é opressiva para aqueles grupos de poder aos quais ela se opõe. tendencioso. pois este. pois a universalidade e os pressupostos racionalistas que dominam a pedagogia crítica podem ser opressivos e acabar estabelecendo exclusões. 1996. ao pensar que está em exercício reflexivo. quanto mais lida-se com as diferenças. A reflexão crítica. 1 – março de 2011 – p. pode estar mantendo uma posição subserviente e deixando de praticar e construir seu próprio conhecimento. 22). pode ser opressivo para outros3. Mas. como todas as formas de conhecimento. “não há outra saída diante desta situação. mas não para brancos. p. imperfeito. 3 28 . 2002. 3º . também é necessário saber se o que se dá antes. melhor conhece-se a si e constrói-se o próprio perfil. 2002) critica as “pedagogias críticas” que prometem emancipação chamando-as de “mitos repressivos”.inhumas. p. como defende Paulo Freire. visto que não há uma definição universal sobre o que é opressão ou liberdade e o que é emancipatório para alguns. 1993. n. A problematização permite a crítica e o reconhecimento da existência de vários conhecimentos e da possibilidade de que um possa ser opressivo para outro. E. a não ser a aceitação de que todo conhecimento é problemático e parcial” (CONTRERAS.ueg. mas não o do homem. lutar contra eles “é um dever por mais que se reconheça a força dos condicionamentos a enfrentar” (FREIRE. p. são imorais. 3. segundo o autor. 22-23) alerta para a atenção que se deve ter em relação à ilusão de desenvolvimento do professor. tem suas próprias contradições e incoerências e não está assentada sobre uma base firme para todos os envolvidos e a sua própria posição.REVELLI – Revista de Educação. durante e após a prática é a reflexão propriamente dita. Considerações Finais Assim como há que se destacar a importância e o valor da reflexão para a vida e o crescimento do profissional. 180). o preconceito e a exclusão negam radicalmente a democracia. O autor destaca quatro características que. está afetada por uma determinada localização social e precisa ser desvelada e compreendida.

compromete-se com a sociedade e participa de movimentos sociais e democráticos em prol da melhoria da educação que.inhumas. da construção. o intelectual crítico está continuamente buscando autonomia e sabe que esta. contra a deslealdade. Enfim. como afirma Paulo Freire. na raiva que protesta contra as injustiças. inúmeras decisões.com/revelli São elas: imitar práticas sugeridas por aqueles que negligenciam as teorias e saberes implantados na prática do professor. justos e democráticos. de acordo com Freire (1996. é tida como um processo progressivo de emancipação. O intelectual crítico é o agente que tenta descobrir o oculto. 10 apud COX. aceitar decisões que não são estabelecidas pelos próprios professores. 18-31 – www. 1996. aceita que os processos e experiências de emancipação podem ser variados. Ele também preocupa-se com aqueles que sofrem. limitar a atenção ao que se passa dentro da sala de aula. 45). citado por Cox e AssisPeterson. é indispensável que o professor torne-se um agente “no processo da teoria. Acima de tudo. 1 – março de 2011 – p. n. p. aquele comprometido com várias instâncias do saber a um só tempo. com uma infra-estrutura adequada para o ensino / aprendizagem. com a reformulação dos currículos. p. que se preocupa com sua formação contínua. 1996. p. p. busca mudanças. nem se deixa subornar. está errada se “não reconhece na justa raiva. com a criação de associações de professores. 1994. 40). 2001.ueg. que vão sendo tomadas” e. O intelectual crítico ainda luta para que a educação deixe de ser utópica. Para Clarke. mostra as limitações da reflexão crítica. 3. luta por transformações. o que pode se dar graças a formação de alianças colaborativas que. promovem o conceito de professor como intelectual. não suborna. entre outros. mas por terceiros que estão fora da sala de aula. com o material didático utilizado. 120). do planejamento de currículo e do desenvolvimento de política de [conteúdos]” (CLARKE. questiona as bases sobre as quais sustenta seu ensino e aponta aquelas sobre as quais deveria se sustentar. p. deve enxergar a educação como um 29 . para que se fale mesmo “de uma educação de anjos e não de mulheres e de homens” (FREIRE. é consciente de sua inconclusão e seus limites. pesquisa as raízes históricas e sociais do que é comumente visto como natural. Ele também reconhece diferenças. é importante conhecer a reflexão e praticá-la. ASSIS-PETERSON. sabe ao que deve resistir e o que deve aceitar. 29). contra a exploração e a violência um papel altamente formador” (FREIRE. “vai se constituindo na experiência de várias. e refletir individualmente. está sempre lutando por ideais igualitários. Dessa forma. de fato.REVELLI – Revista de Educação. nunca se dá por satisfeito ou considera sua missão cumprida. por isso. Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas ISSN 1984-6576 – v. o professor como intelectual crítico reflexivo deve estar voltado para uma pedagogia crítica emancipatória e transformadora. contra o desamor. tenta compreender os dos outros e desconfia sempre da verdade.

) Os professores e sua formação. In: GHEDIN. 9. Solta a voz. COX. S. Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas ISSN 1984-6576 – v. Buckingham: Open University Press. 2007. ZEICHNER. PIMENTA.pdf MATEUS. G.ueg.. FREIRE. E. 1997. 91-107. Pedagogia progressista. 1994. 30 . 11-36. LIMA.REVELLI – Revista de Educação. S. São Paulo: Loyola. O professor como prático reflexivo. 1991. 2010. 1974. G. p. O professor de inglês: entre a alienação e a emancipação. A. ed. In: ______. Lisboa: Publicações Dom Quixote. v. 2000. Contradições e contrariedades: do profissional reflexivo ao intelectual crítico. A. E. 1. Teachers as collaborative and critical learners. Teachers as collaborative learners: challenging dominant forms of supervision. pesquisas. p. 1. de. tendo em vista a autonomia de seus alunos e a sua própria e a valorização da cultura que os constituem como sujeitos. 1. Professor reflexivo: construindo uma crítica.ufsc. VASCONCELLOS. n. 2. p. descobertas para criar essa pedagogia.inhumas. P. São Paulo: Paz e Terra. In: ______. Lisboa: Educa. Democratização da escola pública: a pedagogia crítico-social dos conteúdos. Coimbra: Almedina. Construção do conhecimento em sala de aula. p.ufmg. I. n. São Paulo: Libertad. 4. 1993. 18. N. 1996. K. C. GÓMEZ. 11. p. Revista Brasileira de Linguística Aplicada.pdf>. P. 8. 307328. Disponível em: www.com/revelli ato político. In: NÓVOA. n. deve pensar em que sentido o que ensina é relevante para situar seu aluno no mundo. (Coord.br/~c/afpl/53_Nilvania_Lima. 1 – março de 2011 – p. J. v. 3. p. Torres de Babel e línguas de fogo: Um pouco sobre pesquisa na formação de professores de inglês. G. M. Referências CONTRERAS. ed. A. São Paulo: Cortez. M. O pensamento prático do professor: a formação do professor como profissional reflexivo. A formação reflexiva de professores: idéias e práticas.br/rbla/2009_1/14-Elaine%20Mateus. 2001. J. 83-104. PIMENTA. Acesso em: 10 mar. deve refletir sobre suas ações e o que está por trás delas e se utilizar de todas estas reflexões. 18-31 – www. ed. L.. 2002. SMYTH.) Professor reflexivo no Brasil: gênese e crítica de um conceito. LIBÂNEO. 2002. 13-28. D. SNYDERS. Linguagem e ensino. A. P. A reflexão colaborativa como instrumento para desvelar teorias pessoais e desenvolver a prática pedagógica. J. São Paulo: Cortez. 95-114. p. (Orgs. A autonomia de professores. v. In: ______. 133-169. p. ASSIS-PETERSON. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. Disponível em: <http://www.cce. n. 17-47.letras. 2009. C.

REVELLI – Revista de Educação. New Jersey: Lawrence Erlbaum Associates. K. Linguagem e Literatura da UEG-Inhumas ISSN 1984-6576 – v. 1996.ueg. 3. Understanding reflective teaching. 1-7. Texto recebido em 30/03/10. 31 . LISTON. 1 – março de 2011 – p. Aprovado em 06/08/10.inhumas..com/revelli ZEICHNER. Reflective teaching: an introduction. 18-31 – www. Z. D. P. In: ______. p. n.

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