Dissertacao Antonio Marcos Da Rosa
Dissertacao Antonio Marcos Da Rosa
Cuiabá/MT
2024
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Cuiabá/MT
2024
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FICHA CATALOGRÁFICA
R789l
CDU: 37.370.71
PROGRAMA DE MESTRADO EM
ENSINO
Ao primeiro dia do mês de fevereiro do ano de dois mil e vinte e quatro, às quatorze horas, reuniu-se a
Banca Examinadora, composta por Profa. Dra. Edenar Souza Monteiro presidente da banca,
Profa. Dra. Edione Teixeira de Carvalho e Profa. Dra. Lisanil da Conceição Patrocínio
Pereira. A reunião teve por objetivo julgar o trabalho do aluno Antonio Marcos da Rosa, sob o
título “Letramento Geográfico e a Prática Docente: Um Estudo Sobre o Ensino de
Geografia no Municipio de Cuiabá”. Os trabalhos foram abertos pela presidente da banca. A seguir
foi dada a palavra ao aluno para apresentação do trabalho. Cada examinador arguiu o mestrando, com
tempos iguais de arguição e resposta. Terminadas as arguições, procedeu-se ao julgamento do trabalho,
concluindo a Banca Examinadora de Dissertação por sua APROVAÇÃO.
Houve sugestão de alteração do título da Dissertação pela Banca Examinadora? ( ) sim (x) não.
Título:_____________________________________________________________________
Nada mais havendo a tratar, foi lavrada a presente ata, que vai assinada pelos membros da Banca
Examinadora.
Examinadores:
EPÍGRAFE
"Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua própria
produção ou a sua construção." - Paulo Freire
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DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho primeiramente а Deus, pоr ser essencial еm minha vida, autor dе
mеυ destino, mеυ guia, socorro presente nа hora dа angústia, ао mеυ pai em Memória Simão
da Silva Rosa, minha mãе em Memória Maturina Rosena da Rosa.
Аоs meus, irmãos, minha esposa, minha filha е a toda minha família que, cоm muito
carinho е apoio, nãо mediram esforços para qυе еυ chegasse аté esta etapa dе minha vida.
Que este trabalho seja uma pequena homenagem ao apoio e influência de todos aqueles
que tornaram possível sua realização.
AGRADECIMENTOS
Gostaria de expressar minha sincera gratidão a todas as pessoas que tornaram possível
a realização deste trabalho.
Agradeço também aos meus amigos e colegas, que estiveram ao meu lado durante todo
o percurso, oferecendo apoio moral, troca de ideias e momentos de descontração que tornaram
esta jornada mais leve e prazerosa.
Por fim, expresso minha gratidão a todas as fontes de financiamento e instituições que
tornaram possível a realização deste trabalho.
A todos vocês, meu sincero obrigado por fazerem parte desta jornada e por contribuírem
para o sucesso deste trabalho.
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Resumo
Esta dissertação apresenta os resultados de uma pesquisa científica que teve por objetivo
central: Analisar a formação docente e sua atuação em sala de aula, sob o ponto de vista do
ensino de Geografia, a partir das noções que estruturam o Letramento geográfico. O Letramento
enquanto conceito não se limita aos componentes curriculares de linguagem, mas múltiplo, é
uma ferramenta importantíssima para a formação humana. A pesquisa foi alicerçada em um
arcabouço teórico que fundamentou e direcionou os trabalhos teóricos e empíricos por ela
desenvolvidos. Autores como Freire (1991, 2001, 2003 e 2017), Soares (1998 e 2004), Tardif
(2002) e Ferraz (2019) corroboraram para o desenvolvimento da pesquisa. De cunho
qualitativo, a pesquisa lançou mão do método Estudo de caso (Alves-Mazzotti, 2006), que
utilizou como técnica de pesquisa a entrevista semiestruturada, que fora aplicada a docentes de
Geografia, que atuam no 7º ano do Ensino Fundamental, de três escolas da Rede Municipal de
Ensino de Cuiabá/MT. De acordo com os resultados, ficou evidente que a maioria dos docentes
desconhecem o conceito Letramento fora do âmbito dos componentes curriculares de
linguagem e que têm dificuldade em conceituar o termo Letramento. Entretanto, ao voltar
olhares para a prática em sala de aula, é possível vislumbrar a preocupação em proporcionar
aos educandos a leitura do mundo, por meio da leitura das palavras nas aulas de Geografia.
Assim, o Letramento para boa parte dos docentes entrevistados se faz presente na prática
docente, mas ausente enquanto conceito explícito.
Palavras-chave: Ensino. Geografia. Letramento Geográfico. Letramento Cartográfico
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Abstract
This dissertation presents the results of a scientific study whose main objective was to analyze
teacher training and their performance in the classroom, from the point of view of teaching
geography, based on the notions that structure geographical literacy. Literacy as a concept is
not limited to language curricular components, but is multiple and is a very important tool for
human formation. The research was based on a theoretical framework that underpinned and
guided the theoretical and empirical work it developed. Authors such as Freire (1991, 2001,
2003 and 2017), Soares (1998 and 2004), Tardif (2002) and Ferraz (2019) corroborated the
development of the research. Qualitative in nature, the research used the case study method
(Alves-Mazzotti, 2006), which used semi-structured interviews as a research technique, applied
to Geography teachers who work in the 7th grade of Elementary School, from three schools in
the Municipal Education Network of Cuiabá/MT. According to the results, it was clear that the
majority of teachers are unaware of the concept of Literacy outside the scope of the language
curriculum components and that they have difficulty conceptualizing the term Literacy.
However, when looking at classroom practice, it is possible to glimpse the concern to provide
students with a reading of the world, through the reading of words in Geography classes. Thus,
for many of the teachers interviewed, Literacy is present in teaching practice, but absent as an
explicit concept.
Keywords: Teaching. Geography. Geographic Literacy. Cartographic Literacy
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Sumário
Introdução..................................................................................................................... 12
01 – Geografia e seu perimetrais constituintes............................................ 15
1.1 - Educação, Ensino e Didática......................................................................... 15
1.2 – Geografia...................................................................................................... 19
1.2.1 – Espaço......................................................................................... 20
1.2.2 – Paisagem...................................................................................... 21
1.2.3 – Lugar........................................................................................... 22
1.2.4 – Região............................................................................................. 23
1.2.4 – Território..................................................................................... 24
1.3 - Geografia no Ensino Fundamental: Estrutura Curricular............................ 24
02 – Letramento na e da Geografia............................................................ 32
2.1 - Letramento, Letramentos e multiletramentos............................................... 32
2.2 - Letramento Geográfico, Letramento Cartográfico e a prática docente........ 39
03 – Percurso Metodológico.......................................................................... 46
3.1 - Descrevendo a trajetória metodológica....................................................... 46
3.2 - Lócus, técnica e participantes da pesquisa.................................................. 47
Considerações Finais...................................................................................................
75
Referências...................................................................................................................
81
Apêndices.........................................................................................................................
92
Anexos..............................................................................................................................
93
12
Introdução
Não obstante, percebo que a prática docente nos anos iniciais do Ensino Fundamental II
tem ênfase na consolidação do processo de alfabetização, visando o desenvolvimento da leitura
e escrita. Desse modo, a Geografia, assim como outras disciplinas acabam não sendo preteridas,
tendo seus conteúdos trabalhados de forma superficial, o que não permite ao estudante uma
compreensão transdisciplinar. O Letramento é o “mediador entre o signo linguístico e a
capacidade crítico-reflexiva”, assim, o Letramento não necessita estar represado em apenas uma
disciplina, mas sim permear todas elas, por isso um Letramento transdisciplinar (Moreira, 2016,
p. 5).
Neste sentido, posso dizer que um indivíduo pode não saber ler e escrever, não ser
alfabetizado, e ainda assim ser letrado. A presença da leitura e escrita é um fato na vida deste
cidadão, mas suas práticas sociais não se limitam a elas (Soares, 1998). Podemos ter como
exemplo uma criança que, mesmo sem saber ler nem escrever, mantém contato constante com
livros e ouve histórias, sendo considerada letrada. Referente as fronteiras do Letramento,
corroboro com Dias e Mont’ Alverne (2020, p. 8) que diz: “[...] o Letramento perpassa pelas
diversas áreas do conhecimento e diversos componentes curriculares, estabelecendo conexão
com as necessidades, valores e práticas sociais de cada estudante”.
Não obstante, Dias e Mont’ Alverne (2020, p. 8), complementam dizendo que nesta
lógica; “[...] o Letramento se encarrega por fornecer 3 benefícios essenciais, como:
desenvolvimento intelectual, autonomia social, avanço profissional e cidadania”. Diante disso,
posso afirmar a relevância do Letramento no ensino da Geografia. Entretanto, tenho ciência de
que a prática docente vem sendo debatida nas instituições escolares. A formação inicial e
continuada do educador é um fator essencial para o processo de ensino-aprendizagem dos
estudantes, visando a melhoria da Educação e do ensino. O objetivo é proporcionar ao discente
uma Educação básica que os prepare para se tornarem profissionais comprometidos,
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Diante disso, foi conduzida uma pesquisa qualitativa que utilizou o método de estudo
de caso, sendo aplicada na Rede Municipal de Ensino de Cuiabá/MT. Utilizando a técnica de
pesquisa da entrevista semiestruturada, o estudo foi realizado em três escolas dessa rede,
entrevistando dois docentes de cada escola. Esses professores são formados em Geografia e
atuam no sétimo ano do Ensino Fundamental II, ministrando o componente curricular de
Geografia. Dessa forma, a pesquisa revelou dados relevantes sobre a formação e atuação dos
docentes, assim como a maneira como lidam com o letramento, especialmente no contexto da
Geografia.
[...] o homem não se faz homem naturalmente; ele não nasce sabendo ser homem, vale
dizer, ele não nasce sabendo sentir, pensar, avaliar, agir. Para saber pensar e sentir;
para saber querer, agir ou avaliar é preciso aprender, o que implica o trabalho
educativo.
Dessa forma, desde o âmbito familiar ao social e escolar a Educação acontece por meio
do trabalho educativo, ou seja, onde há Educação houve ou há ensino. Em uma outra perspectiva
formal, a Educação é um direito social fundamental garantido pela Constituição Federal de
1988 em seu artigo 205: “A Educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será
promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento
da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho”. Assim,
na carta magna do nosso país, é nítido que a Educação está vinculada à processos educativos
que permeiam a família, a sociedade e o Estado.
Não obstante, quando volto meus olhares para a LDB (Leis de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional), em seu primeiro artigo, a mesma deixa evidente que Educação e processos
formativos estão estritamente vinculados à trajetória existencial humana: “A Educação abrange
os processos formativos que se desenvolvem na vida familiar, na convivência humana, no
trabalho, nas instituições de ensino e pesquisa, nos movimentos sociais e organizações da
sociedade civil e nas manifestações culturais (LDB, 2017, p.8). Dessa forma, posso apresentar
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a definição de Viana (2006, p.130), que diz: “A Educação, em sentido amplo, representa tudo
aquilo que pode ser feito para desenvolver o ser humano e, no sentido estrito, representa a
instrução e o desenvolvimento de competências e habilidades”.
Deste modo, a Educação faz parte da existência humana, e vale a pena destacar que ela
é multifacetada e composta “por um conjunto complexo de perspectivas e enfoques” (Severino,
1991, p. 36). Neste contexto, recorro definir o conceito de Educação, nos escritos freirianos,
onde reconheço o que até aqui foi posto, contudo, evidencio as relações de poder e a
desigualdade sociais oriundas delas. Assim, a Educação ocorre neste palco complexo da
diversidade humana e de desigualdades sociais.
Dessa forma, para Freire (1991, 2003) a Educação deve ser transformadora e romper
uma Educação represada em apenas transferência de conhecimento, uma Educação que gere
“domesticação”. A Educação em Freire (1991, 2003), deve gerar no ser humano autonomia,
libertando-o do determinismo, indicando sua existência social e seu papel histórico. Ainda em
Freire (1991, 2003), é por meio da Educação que o ser humano toma consciência do mundo e
de si mesmo, isso em um processo permanente. Diante disso, a Educação está intrinsecamente
ligada ao processo formativo que busca transformar o ser humano, enquanto ser social, em um
cidadão. Assim, se há Educação há mudança de comportamento, há transformação, ou seja, se
há Educação, há ensino.
Existe entre ensino e Educação uma diferença basilar. Enquanto que o primeiro se
refere principalmente ao ensino de conteúdos e conhecimentos, o segundo possui
contornos mais complexos, que envolvem aprendizagens curriculares, mas também
valores e atitudes, que visam formar melhor o indivíduo na sua totalidade.
Neste sentido, é visível que o conceito de ensino não está rigidamente vinculado à
definição de conteúdos e conhecimentos programáticos, embora também possa se referir a isso.
Leva-se em consideração que a Educação e o ensino promovam uma combinação que resulte
em um corpo orgânico. (Marques e Oliveira, 2016, p.190). Assim, quando é proposto discutir
essa dinâmica Educação e ensino pode-se considerar o ensino formal, contudo não descartando
a formação integral do ser humano, pois, caso contrário:
será formado, por isso, indo rumo ao âmbito da formação escolar é plausível apresentar o
conceito de didática.
Diante disso, considero que o conceito de didática pode ser definido em duas frentes,
uma enquanto ciência, tendo como objeto próprio o ensino e a aprendizagem e outra como
componente curricular de cursos de licenciatura, promovendo o link entre teoria e prática dentro
do contexto de ensino e aprendizagem (Fonseca, 2016). Para Haydt (2011, p.13) enquanto
ciência: “A Didática é uma seção ou ramo específico da Pedagogia e se refere aos conteúdos
do ensino e aos processos próprios para a construção do conhecimento”. Não obstante, é
importante que a Didática exista e se desenvolva em um contexto social vigente. Ou seja, como
ensinar significa formar e que um cidadão será produto dessa formação, tanto o educando
quanto o educador não são neutros (Damis, 2013). Dessa forma:
questão está em que tipo de cidadão essa tríade visa formar. O que entendo é que neste processo
de formação emancipatória e autônoma não há neutralidade.
1.2 – Geografia
Para se compreender a Geografia hoje é preciso saber um pouco de sua história, desde
o início da ocupação humana na Terra. É fato que a ciência geográfica data do final
do século XIX, porém antes da institucionalização da ciência existia (e sempre existiu)
o conhecimento geográfico. Foram justamente esses conhecimentos geográficos
acumulados por séculos que permitiram o surgimento da nossa ciência. [...] a história
da Geografia não se inicia na instituição desta como ciência. A história da Geografia
começa quando as primeiras sociedades surgem no planeta e nele tecem relações que
permitem a sua sobrevivência. Pudemos entender que a nossa ciência, mesmo
mantendo o mesmo objeto de estudo, pode evoluir e mudar de paradigmas ao longo
de sua história. (Boudou, 2012, p.28).
Assim, a Geografia não surge com sua institucionalização enquanto ciência, mas sim,
enquanto conhecimento geográfico, ela existe desde a história do ser humano na Terra (Boudou,
2012). É interessante dar destaque a origem europeia, todavia, o conhecimento geográfico
nunca foi restrito à um pertencimento continental, muito embora certas condições levaram à
esse suposto pertencimento eurocêntrico:
Não pretendo aqui apresentar a história da Geografia, nem desenrolar suas diversas
concepções, entretanto, apresento os escritos de Boudou (2012) para evidenciar que a Geografia
enquanto conhecimento geográfico e como ciência é posse da ação humana. Dessa maneira,
como a cultura não está condicionada e limitada ao conhecimento acadêmico e à chancela da
academia, assim também o é a Geografia. No entanto, vale destacar que a visão eurocêntrica
sobre a Geografia, considero que não seja apenas uma questão de registro, mas também uma
questão de relação de poder, não ingênua, mas habitual (Santos, 2014).
1.2.1 Espaço
Neste sentido, o conceito de espaço foi se moldando à medida que a existência humana
também o foi. De acordo com Milton Santos (2006), o conceito de espaço passou por períodos
bem característicos, que podem ser definidos em três categorias. A primeira é a do meio natural;
onde o ser humano tem acesso à natureza e retira dela o que é preciso para sua sobrevivência
(Santos, 2006. p. 157). A segunda categoria é a do meio técnico, que é constituído pela produção
técnica cultural humana, ou seja, o meio mecanizado, o natural e o artificial compõem o espaço,
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materiais culturais, técnicos e naturais, coexistem (Santos, 2006, p. 158). Como terceira
categoria é definida o meio técnico científico informacional:
Essa união entre técnica e ciência vai dar-se sob a égide do mercado. E o mercado,
graças exatamente à ciência e a técnica, torna -se um mercado global. A ideia de
ciência, a ideia de tecnologia e a ideia de mercado global devem ser encaradas
conjuntamente e desse modo podem oferecer uma nova interpretação à questão
ecológica, já que as mudanças que ocorrem na natureza também se subordinam a essa
lógica (Santos, 2006, p. 159).
1.2.2 Paisagem
Diante disso, como ponto de partida, paisagem é tudo aquilo que o ser humano vê, e a
partir desta visão, interpreta por necessidade ou por contemplação. Todavia, essa interpretação
é resultante da percepção humana que faz uso dos seus cinco sentidos (visão, audição, olfato,
paladar e tato). Esta interpretação corrobora a compreensão do espaço (Lorena, 2022). Isto
posto, vale evidenciar que:
1.2.3 Lugar
Para que resista como um lugar, deve ser habitado. Viver em um lugar é experienciá-
lo, é estar ciente dele tanto nos ossos, como na cabeça. [...] O lugar, em todas as
escalas, da poltrona à nação, é um constructo da experiência; é sustentado não apenas
pela madeira, concreto e estradas, mas também pela qualidade da consciência humana.
Neste sentido, o lugar não é apenas um espaço, que pode ser habitado e contemplado
pela visão humana, mas sim porções de espaços carregados de significados oriundos das
vivências e experiências humanas (Lorena, 2022). Nesta lógica, justifica-se a diferença entre o
conceito de casa e lar, casa refere-se à construção, ao prédio, ou seja, ao construto de tijolos,
cimento, ferro, areia e pedras. Já o lar refere-se à um construto de sentidos, afetividades,
pertencimento e vivência (Tuan, 2018). Assim, a casa ocupa um espaço, já o lar, ocupa e
significa um lugar. Desta forma, o conceito de lugar reflete e é constituído das vivências,
experiências, interações e afetividades humanas.
1.2.4 Região
1.2.5 Território
Assim como o conceito de região vai além da localização e uma simples definição de
porção de área, isto é, também envolve questões políticas, sociais e econômicas, o conceito de
Território, representa domínio estritamente vinculado a ideia de poder. Partindo da noção de
espaço, mas não ficando nela, o conceito de território constitui o produto das relações de poder
e os desdobramentos das mesmas (Andrade, 2004). Diante disso, é importante ter certo que o
conceito de território não é sinônimo de espaço já que:
O conceito de território não deve ser confundido com o de espaço ou de lugar, estando
muito ligado à ideia de domínio ou de gestão de determinada área. Assim, deve-se
ligar sempre a ideia de território à ideia de poder, quer se faça referência ao poder
público, estatal, quer ao poder de grandes empresas que estendem os seus tentáculos
por grandes áreas territoriais, ignorando as fronteiras políticas (Andrade, 2004, p. 19).
Como apresentei nos tópicos anteriores, a Geografia é, de fato, uma ciência de extrema
relevância para a sociedade. Emanada das ações e presente nas relações humanas, a Geografia
corrobora para a leitura e compreensão do mundo em que vivemos e constantemente se encontra
em construção. Desse modo, é relevante apresentar como o poder público, por meio de suas
instituições específicas, oficialmente propõe o ensino de Geografia no Ensino Fundamental.
Não pretendo apresentar aqui um histórico da Geografia nesse âmbito, mas focarei na Geografia
nos documentos oficiais, especialmente na BNCC – Base Nacional Comum Curricular, que
define as aprendizagens essenciais para toda a Educação básica no nosso país. Assim:
25
Dessa forma, a BNCC tem caráter de lei, ou seja, é obrigatória e apresenta e define as
aprendizagens essenciais desde a Educação Infantil até o Ensino Médio, ou seja, para toda a
Educação Básica nacional. Contemplada na LDB – Lei de Diretrizes e Base da Educação
Nacional, a BNCC, é resultado de uma profunda análise de currículos brasileiros que fora
realizado por 116 especialistas indicados por secretarias de Educação e universidades, além de
consultas públicas com a participação da população, somando mais de 12 milhões de
contribuições para o texto do documento aqui em questão (BNCC, 2018, p. 08-09).
Assim, a construção da BNCC nos moldes anteriormente apresentado iniciou-se no ano
de 2015, no ano de 2017 o MEC – Ministério de Educação e Cultura, sistematizou o documento,
produzindo o texto introdutório que contemplava a Educação Infantil e o Ensino Fundamental,
sendo o Ensino Médio aprovado e incluído no documento no ano de 2018. Todavia, foi em
2020 que ocorreu a finalização da (re) elaboração dos currículos estaduais e a revisão do PPPs
– Projetos Políticos Pedagógicos das escolas a partir dos currículos.
Como a própria BNCC reconhece, há a necessidade de superar alguns desafios, como:
a formação continuada docente, adequação de materiais didáticos e reformulação de políticas
de avaliação e de acompanhamento de aprendizagem, tudo isso, promover dentro de sua
proposta que é a:
[...] superação da fragmentação radicalmente disciplinar do conhecimento, o estímulo
à sua aplicação na vida real, a importância do contexto para dar sentido ao que se
aprende e o protagonismo do estudante em sua aprendizagem e na construção de seu
projeto de vida (BNCC, 2018, p.15).
Não obstante, a BNCC atende à necessidade proposta pela LDBN e pelo Plano Nacional
de Educação – PNE, que consiste em oferecer uma base curricular comum para a Educação
Básica Nacional. Entretanto, parece viável definir aqui o que é Educação Básica e,
posteriormente, o que é Ensino Fundamental, uma vez que esses conceitos constituem o
contexto da pesquisa abordada nesta dissertação.
26
A Educação básica é um conceito mais do que inovador para um país que, por séculos,
negou, de modo elitista e seletivo, a seus cidadãos o direito ao conhecimento pela ação
sistemática da organização escolar. Resulta daí que a Educação infantil é a base da
Educação básica, o ensino fundamental é o seu tronco e o ensino médio é seu
acabamento, e é de uma visão do todo como base que se pode ter uma visão
conseqüente das partes. (Cury, 2002, p. 170).
Art. 4º O dever do Estado com Educação escolar pública será efetivado mediante a
garantia de:
ao Ensino Médio passa a ser obrigatória, por meio da Emenda Constitucional (EC) nº 59/2009.
O Ensino Fundamental, inicialmente compreendia 08 anos duração, contudo, em 2006, por
intermédio da Lei Ordinária 11,274/2006, que alterou a os artigos 29,30,32 e 87 da LDBN,
ampliou para 09 anos de duração. Assim, a criança passa a ter acesso ao Ensino fundamental a
partir dos seis anos de idade.
Dessa forma, o Ensino Fundamental compreende nove anos de duração sendo dividido
em anos iniciais e anos finais. Anos iniciais atendem crianças de 06 à 10 anos (1º ao 5º ano) e
os anos finais crianças de 11 à 14 anos (6º à 9) (BNCC, 2018). Cada ano letivo no Ensino
Fundamental tem de forma obrigatória respeitar no mínimo 200 dias letivos e uma carga horária
de 800 horas. Diante disso, neste momento é viável voltar o olhar para a BNCC.
De acordo com a BNCC (2018, p. 27) o Ensino Fundamental está organizado em cinco
áreas do conhecimento, que são: 1º Linguagens, que compreende os seguintes componentes
curriculares: Língua Portuguesa, Arte, Educação Física e Língua Inglesa (Exclusivo aos anos
finais); 2º Matemática, que compreende o componente curricular de Matemática; 3º Ciências
da Natureza, que compreende o componente curricular de Ciências; 4º Ciências Humanas, que
compreende os componentes curriculares de Geografia e História; 5º Ensino Religioso, que
compreende o componente curricular de Ensino Religioso.
Neste sentido, a pesquisa que desenvolvi teve como palco os anos finais do Ensino
Fundamental, mais especificamente a área de conhecimento de Ciências Humanas, delimitada
ao componente curricular de Geografia. Todavia, antes de apresentar a estrutura curricular para
os anos finais de Geografia, é relevante apresentar as dez competências 1 gerais previstas na
BNCC, visto que: “Ao longo da Educação Básica, as aprendizagens essenciais definidas na
BNCC devem concorrer para assegurar aos estudantes o desenvolvimento de dez competências
gerais, que consubstanciam, no âmbito pedagógico, os direitos de aprendizagem e
desenvolvimento” (BNCC, 2018, p.8). Desse modo eis as dez competências gerais da Educação
Básica:
1
“Na BNCC, competência é definida como a mobilização de conhecimentos (conceitos e procedimentos),
habilidades (práticas, cognitivas e socioemocionais), atitudes e valores para resolver demandas complexas da vida
cotidiana, do pleno exercício da cidadania e do mundo do trabalho” (BNCC, 2018, p.08).
28
criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes
áreas.
3. Valorizar e fruir as diversas manifestações artísticas e culturais, das locais às
mundiais, e também participar de práticas diversificadas da produção artístico-
cultural.
4. Utilizar diferentes linguagens – verbal (oral ou visual-motora, como Libras, e
escrita), corporal, visual, sonora e digital –, bem como conhecimentos das linguagens
artística, matemática e científica, para se expressar e partilhar informações,
experiências, ideias e sentimentos em diferentes contextos e produzir sentidos que
levem ao entendimento mútuo.
5. Compreender, utilizar e criar tecnologias digitais de informação e comunicação
de forma crítica, significativa, reflexiva e ética nas diversas práticas sociais (incluindo
as escolares) para se comunicar, acessar e disseminar informações, produzir
conhecimentos, resolver problemas e exercer protagonismo e autoria na vida pessoal
e coletiva.
6. Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de
conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações próprias do
mundo do trabalho e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu
projeto de vida, com liberdade, autonomia, consciência crítica e responsabilidade.
7. Argumentar com base em fatos, dados e informações confiáveis, para formular,
negociar e defender ideias, pontos de vista e decisões comuns que respeitem e
promovam os direitos humanos, a consciência socioambiental e o consumo
responsável em âmbito local, regional e global, com posicionamento ético em relação
ao cuidado de si mesmo, dos outros e do planeta.
8. Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-
se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com
autocrítica e capacidade para lidar com elas.
9. Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se
respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento
e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais, seus saberes,
identidades, culturas e potencialidades, sem preconceitos de qualquer natureza.
10. Agir pessoal e coletivamente com autonomia, responsabilidade, flexibilidade,
resiliência e determinação, tomando decisões com base em princípios éticos,
democráticos, inclusivos, sustentáveis e solidários.
Além das dez competências gerais, a BNCC traz competências específicas para cada
área do conhecimento que serão difundidas por todo o Ensino Fundamental. Para as áreas de
conhecimento que compreendem mais de um componente curricular, são definidas
competências específicas para cada componente. Assim, de acordo com a BNCC (2018. p. 28)
[...] devem, assim, estimular uma formação ética, elemento fundamental para a
formação das novas gerações, auxiliando os alunos a construir um sentido de
responsabilidade para valorizar: os direitos humanos; o respeito ao ambiente e à
própria coletividade; o fortalecimento de valores sociais, tais como a solidariedade, a
participação e o protagonismo voltados para o bem comum; e, sobretudo, a
preocupação com as desigualdades sociais. Cabe, ainda, às Ciências Humanas cultivar
a formação de alunos intelectualmente autônomos, com capacidade de articular
categorias de pensamento histórico e geográfico em face de seu próprio tempo,
percebendo as experiências humanas e refletindo sobre elas, com base na diversidade
de pontos de vista (BNCC, 2018, p.354).
Fundamental, uma vez que pesquisa abordada nesta dissertação foi desenvolvida
especificamente nos anos finais. É importante destacar, que devido a Área do Conhecimento de
Ciências Humanas possuir mais de um componente curricular, os mesmos, vem acompanhados
de competências específicas2. Dessa forma, apresento a seguir um quadro com as Unidades
Temáticas e os Objetos de Conhecimento do 7º ano do Ensino Fundamental.
GEOGRAFIA 7º Ano
2
É oportuno aqui apresentar as sete competências específicas de geografia para o ensino fundamental: 1 Utilizar
os conhecimentos geográficos para entender a interação sociedade/ natureza e exercitar o interesse e o espírito de
investigação e de resolução de problemas. 2. Estabelecer conexões entre diferentes temas do conhecimento
geográfico, reconhecendo a importância dos objetos técnicos para a compreensão das formas como os seres
humanos fazem uso dos recursos da natureza ao longo da história. 3. Desenvolver autonomia e senso crítico para
compreensão e aplicação do raciocínio geográfico na análise da ocupação humana e produção do espaço,
envolvendo os princípios de analogia, conexão, diferenciação, distribuição, extensão, localização e ordem. 4.
Desenvolver o pensamento espacial, fazendo uso das linguagens cartográficas e iconográficas, de diferentes
gêneros textuais e das geotecnologias para a resolução de problemas que envolvam informações geográficas. 5.
Desenvolver e utilizar processos, práticas e procedimentos de investigação para compreender o mundo natural,
social, econômico, político e o meio técnico-científico e informacional, avaliar ações e propor perguntas e soluções
(inclusive tecnológicas) para questões que requerem conhecimentos científicos da Geografia. 6. Construir
argumentos com base em informações geográficas, debater e defender ideias e pontos de vista que respeitem e
promovam a consciência socioambiental e o respeito à biodiversidade e ao outro, sem preconceitos de qualquer
natureza. 7. Agir pessoal e coletivamente com respeito, autonomia, responsabilidade, flexibilidade, resiliência e
determinação, propondo ações sobre as questões socioambientais, com base em princípios éticos, democráticos,
sustentáveis e solidários (BNCC, 2018, p. 366).
31
de um olhar críticos sobre as constituições sociais históricas e espaciais, ou seja, uma leitura de
mundo.
Neste sentido, compreendo que a proposta curricular para o Ensino de Geografia, não
destoa de uma visão transformadora, que defende desenvolver um ensino focado na formação
de cidadãos autônomos, que tenham uma visão crítica do mundo, que saibam ler a palavra e o
mundo e agir como agentes transformadores de suas realidades. Todavia, cabe ressaltar que não
destinei esforços em problematizar a aplicabilidade da BNCC e alguns pontos passíveis de
críticas. Não foi realizada tal ação, pois, ao considerar o foco do presente texto, o momento
crítico da análise dos dados coletados na pesquisa apresentada e discutida aqui relacionava-se
à aplicabilidade e viabilidade do currículo proposto pela BNCC. Por hora, neste capítulo
reconheço a relevância organizacional da BNCC.
32
02 – Letramento na e da Geografia
Para entendermos como a escrita atravessa a nossa existência das mais variadas
maneiras, criamos o termo Letramento, ou seja, designamos por Letramento os usos
que fazemos da escrita em nossa sociedade. Dessa forma, Letramento significa bem
mais do que o saber ler e escrever. Ele responde também pelos conhecimentos que
veiculamos pela escrita, pelos modos como usamos a escrita para nos comunicar e nos
relacionar com as outras pessoas, pela maneira como a escrita é usada para dizer e dar
forma ao mundo, tudo isso de maneira bem específica. (Souza e Cosson, 2011, p.102).
Dessa forma, o Letramento vem para expressar o sentido que atribuímos e recebemos
de volta na e da leitura, escrita e interpretação. O que proponho neste capítulo é abordar o
conceito de Letramento e seu desdobramento conceitual frente a temática que desenvolvi na
pesquisa científica aqui apresentada. Dessa forma, “[...]Letramento é o uso das habilidades de
leitura, de escrita e de raciocínio numérico para atingir objetivos, desenvolver o próprio
conhecimento e agir na sociedade”. (Macedo, 2006, p.1). Reconheço também em Soares (1998),
que Letramento vai além dos muros da escola e do conhecimento escolar, sendo coerente com
a afirmação freiriana, que a leitura do mundo precede a leitura da palavra. Já o conceito de
analfabetismo funcional “[...] é caracterizado, quando os alunos escolarizados ainda apresentam
dificuldades em buscar, avaliar e organizar informações de modo a aprender, resolver
problemas e tomar decisões para a vida.” (Matos, et al, 2021, p.575).
33
Considerando a lista dos tipos de Letramentos mais presentes nos trabalhos acadêmicos,
inicio pelo Letramento acadêmico. Munidos de seu arcabouço teórico, Silva e Gonçalves
(2021), explicam que o Letramento acadêmico está vinculado mais ao âmbito acadêmico de
nível superior. Todavia, considerando suas características, seria possível sua aplicabilidade
desde os anos iniciais do Ensino Fundamental até o Ensino Médio.
Dessa forma, é possível perceber que uma diferença latente entre o Letramento
acadêmico e escolar está no nível de “leitura” de mundo e da palavra. No entanto, as relações
de poder e outros fatores pertinentes emanam das palavras faladas, escritas e lidas. Uma questão
importante a ser destacada é a dificuldade cultural que muitas crianças enfrentam quando
34
adentram os muros da escola e se deparam com uma cultura escrita que não dialoga com a
cultura que ela carrega, fruto de suas interações familiares e relações comunitárias. A escrita e
leitura, não apenas emanam relações de poder, mas também representam as mesmas. Assim, o
Letramento escolar vem propor que barreiras sejam superadas e o Letramento possibilite
transpô-las emancipando e não catequizando estudantes (Zavala, 2010, Dalla Vecchia, 2019,
Silva e Gonçalves, 2021).
Reportando aos escritos freirianos onde é considerado uma relação de mútuo ensino e
aprendizagem entre educando e educador, lucidamente perguntamos; é possível promover o
Letramento sem exercê-lo? Ou seja, propor o Letramento acadêmico ou escolar sem reconhecer
as relações de poder pertinente na leitura, escrita e interpretação textual? Diante disso, é viável
apresentar o Letramento do professor, que está voltada para a formação continuada do mesmo,
considerando também, a formação inicial e a prática em sala de aula (Silva e Gonçalves, 2021).
Assim, um educador que desfruta de uma formação inicial e continuada, voltada para o
Letramento, tem uma presença fora e dentro em sala de aula mais problematizadora, que de
forma lúcida atua ciente das relações de poder que envolve o âmbito educacional e a
importância de uma postura letrada de si, de seus educandos e companheiros de profissão (Silva
e Gonçalves, 2021).
Não obstante, pensar Educação, ou seja, pensar a relação entre educador e educandos na
perspectiva do Letramento é compreender as relações de poder e as desigualdades e privilégios
delas emanadas. Dessa forma, é coerente apresentar outro tipo de Letramento que é o
Letramento digital. Neste raciocínio Castro e Coscarelli (2019, p.65) asseveram:
Pensar a Educação sob essa perspectiva nos leva a considerar, inevitavelmente, a noção
de multiLetramentos em suas concepções mais frequentes, ou seja, o trabalho com
vários canais de comunicação e mídias, o que leva ao trabalho com múltiplas
linguagens, assim como o trabalho e o respeito à diversidade linguística e cultural que
integram esses meios
Diante disso, tanto para o educador quanto para o educando o Letramento digital é
primordial, considerando a realidade vigente. É relevante destacar que como o Letramento vai
para além de uma simples interpretação textual, o Letramento digital também não se limita ao
acesso aos meios tecnológicos, mas sim ao uso consciente e crítico.
Prosseguindo, como último Letramento à ser definido aqui, está o Letramento científico.
Não é novidade que culturalmente é na Educação de nível superior que reconhecemos como
36
espaço de acesso e produção do conhecimento científico. É neste nível de ensino que o termo
ciência é difundido veementemente. Contudo, todos os níveis de ensino são expressam do
conhecimento científico, considerando que produções científicas resultaram em currículos e os
mesmos integram as grades curriculares de cada componente curricular presente em todos os
níveis de ensino. Esse breve desenrolar argumentativo, serve para expressar a importância do
Letramento científico evidenciando o quanto suas fronteiras são questionáveis. Assim:
Nesse sentido, tanto o Letramento científico, quanto os demais aqui definidos, refletem
a importância de cultivar e exercer práticas sociais por meio da escrita, leitura e interpretação
(Soares, 1998). Assim, frente a essas possibilidades de aplicabilidade do Letramento, é
importante entender que por mais que serem próximos, os conceitos de alfabetização e
escolarização não são sinônimos do Letramento, mas sim, fazem parte do contexto existencial
e se complementam. Dessa forma, Macedo (2006, p. 1) diferencia os referidos conceitos:
Assim, é relevante apresentar a diferença entre esses conceitos visto que na pesquisa
empírica é latente essa diferença, quase em uma linha gradativa que inicia na escolarização,
alfabetização e Letramento. É interessante perceber que em todos esses termos há diferentes
graus, ou seja, um educando em escolarização pode diferenciar de outro, ou seja, há diferentes
graus de escolarização. E isso, pode ser aplicado tanto para a alfabetização e Letramento.
Assim, é possível identificar educandos escolarizados e não escolarizados, alfabetizados e
analfabetos e letrados e iletrados (Macedo, 2006). Neste raciocínio Macedo (2006, p. 6 e 7)
explica:
Sendo assim, é importante destacar que os graus em sua maioria majoritária estão
condicionados as “oportunidades oferecidas ao indivíduo pelo meio” (Macedo, 2006, p.6).
Assim, o contexto socioeconômico, cultural e político são fatores que produzem esses graus,
essas divergências. Não ignoro questões específicas e individuais como as psicopatologias e
síndromes que resultam em dificuldades na aprendizagem, porém, o destaque para os fatores
anteriormente mencionados constitui o alicerce dos desafios que a Educação historicamente
vem buscando superar. Outra questão relevante que Macedo (2006, p. 6) assevera é o fato o
saber ler e escrever, ou seja, ser escolarizado, alfabetizado e letrado está intimamente ligado à
garantia de “liberdade e a mobilidade dos indivíduos”.
Diante disso, uma sociedade não letrada se distancia de um olhar crítico do mundo que
está inserida. Como menciona Matos et al (2021), o não Letramento promove uma limitação
social e intelectual, que prejudica o desenvolvimento de todo o país. Assim, reconhecer a
importância do Letramento em sua multiplicidade é consideravelmente importante, visto que
transcende os muros escolares e seus efeitos e consequências refletem a formação de cidadãos
e consequentemente a constituição de uma nação.
Dessa forma, sou reportado aos escritos freirianos, onde é proposta uma prática
educativa que parte do conhecimento do educando (conhecimento prévio trazido consigo). O
termo partir, no sentido de largada, ou seja, a partir do conhecimento prévio do educando até o
conhecimento científico a ser aprendido, construído mutuamente. Nesse sentido, reconheço que
o Letramento é indispensável na prática pedagógica, tanto na escola, quanto fora dela. Por isso,
fiz uso de um tipo específico de Letramento para desenvolver a pesquisa aqui apresentada, que
é o Letramento Geográfico, não ignorando o seu complemento, que é o Letramento
Cartográfico3.
3
“O Letramento Geográfico permite o desenvolvimento das noções de espacialidade do aluno, conduzindo-o à
leitura do seu mundo e reconhecimento do seu papel social na sociedade. O Letramento cartográfico complementa
o Letramento geográfico ao permitir a criação e identificação de símbolos e localização de lugares do cotidiano do
aluno, permitindo a compreensão de sua realidade e ampliando o seu entendimento de mundo” (Souza, 2013, p.
501 e 502).
39
A proposta inicial, quando me debrucei sobre a temática Letramento sob uma incursão
teórica, foi aderir ou propor um Letramento específico. Metodologicamente, enquanto docente,
o conceito de Letramento cartográfico é formidável para o ensino de Geografia. Todavia, é no
conceito de Letramento geográfico que encontrei o suporte para trilhar um caminho
argumentativo substancial para o desenvolvimento da pesquisa científica que aqui apresento.
Assim, considero que:
Dessa forma, balizado neste conceito de Souza (2013), que opto tanto pelo Letramento
geográfico quanto o Letramento cartográfico, visto que ambos se complementam e são
fundamentais para a atuação docente no ensino de Geografia. O conceito de Letramento
cartográfico que defino aqui é o que “[...] se refere à habilidade de leitura e da representação do
mundo e seus lugares através de mapas temáticos, iconografia, maquetes, plantas, imagens de
satélites (Cruz et al, 2008, p.8)”. Isso não quer dizer que o conceito de Letramento cartográfico
se limita à técnicas e metodologias pedagógicas, mas sim contempla uma perspectiva teórico-
metodológica. É importante evidenciar a importância de diferenciar a alfabetização e
Letramento cartográfica:
A Alfabetização Cartográfica se faz essencial para que o aluno se torne leitor de mapas
e o Letramento Cartográfico como sendo um termo amplo, que não somente admita
que o aluno seja um leitor do mapa, todavia, elenca a leitura do mapa, com a leitura
41
Diante disso, promover um ensino com tais características emancipatórias não é uma
tarefa simples, e ao educador disposto à essa tarefa, cabe ao mesmo uma postura de cultivo de
práticas humanamente críticas, ou seja, uma postura letrada (Freire, 1991, Soares, 1998). Dessa
forma, compreendo que é importante que aos educadores seja possibilitado o acesso ao
Letramento geográfico. Todavia, tenho ciência que a trajetória acadêmica de um educador
desde o início de sua escolarização até a colação de grau no ensino superior, exigiu em alguns
momentos uma leitura, escrita e postura crítica relacionando realidades pertinentes ao espaço
que está inserido. Esse raciocínio é crível visto a existência de um Letramento científico que
flui no âmbito acadêmico (Silva e Gonçalves, 2019).
42
Diante disso, a lógica evidenciada é que o ensino de Geografia não depende apenas de
novas metodologias e currículos atualizados e progressistas, mas também da atuação docente e
sua disposição favorável à promoção de um ensino emancipatório. É por isso que Tardif (2002),
defende que a formação docente deve ser de alto nível, ou seja, possibilitar ao educador saber
de formação que agregue aos seus saberes de experiências a ponto de corroborar para a
constituição de uma postura docente adequada às necessidades da promoção de uma formação
cidadã crítica, humana e autônoma. Assim, retomando o raciocínio referente a vivência com o
Letramento científico nos átrios da vida acadêmica universitária, posso ponderadamente supor
que o educador durante sua trajetória formativa teve acesso a algum tipo de Letramento.
Nesse sentido, a pergunta que nos inquieta, é o quando desta postura crítica, deste
Letramento científico vivenciado o educador passa para sua prática em sala de aula? E este
Letramento científico vivenciado e ou consolidado foi adotado como postura profissional e
pessoal, a ponto de refletir nas atuações em sala de aula? Mas por que tais indagações são
relevantes? São relevantes visto que para promover um ensino diferente, o educador tem que
ter uma postura diferente, ou seja, para promover um ensino emancipatório o docente tem que
refutar uma postura de único detentor do saber sala de aula e se reconhecer como um mediador
do conhecimento, tendo uma postura que legitime a dinâmica educador- educando e educando
educador. Assim, o educador reconhece que enquanto ensina aprende e enquanto o educando
aprende, ensina, ou seja, há um mútuo aprendizado e ensino (Freire, 1991, 2017, Souza, 2013).
Essa lógica argumentativa é viável considerando que:
Pensar em Geografia é estabelecer relação com um saber que ao longo do tempo vem
sendo acumulado a partir das relações vividas, das experiências dos homens com seus
lugares e paisagens; é pensar, também, em um saber que serviu aos homens nos seus
projetos de conquistas territoriais, pois, estes davam novas configurações espaciais
aos lugares e as paisagens. Essas disputas e conquistas mostravam cada vez mais como
o mundo é diverso, no que diz respeito às suas características naturais e, sobretudo,
humanas. Pensar em Geografia nos leva a pensar nas diversidades regionais do ponto
de vista das características humanas e naturais. Pensar em Geografia nos leva, enfim,
a pensar em um conhecimento escolar que por necessidade de novas descobertas, e
por ter uma definição do que era fazer Geografia e do para que serve esse
conhecimento, levou esse a ser sistematizada como conhecimento científico. A
Geografia desde então fez parte dos projetos de formação escolar nas políticas
públicas para a Educação. Assim como a História e a Língua Nacional, a Geografia é
reconhecida como disciplina importante na formação nacional. (Nogueira, 2020, p. 1)
Durante décadas a Geografia era vista como uma disciplina “decorativa, que só
transmita informações aos alunos, mas não existia uma preocupação como os
indivíduos liam aqueles dados, como entendias diferenças de lugares para lugares,
como povos de determinadas regiões eram construindo culturalmente, enfim, a
preocupação dos professores em lecionar Geografia, era mecânica, só transmitir dados
de livros, mas esses conceitos vêm sendo quebrado nos últimos anos, hoje, um aluno
pode ver uma imagem de algum lugar, e saber interpretar, a partir daquela figura,
construir ideias, seus questionamentos. Ler um mapa, e entender que em cada pedaço
daquele mapa existem pessoas com saberes diferentes, pensamento diferentes,
costumes diferenciados, culturas diferentes, assim essas pessoas podem exercer sua
cidadania, respeitando as demais pessoas. (Silva e Melo, 2014, p. 5).
44
autônomos. Em resumo, ler o mundo não se resume em ler mapas prontos e ter acesso à dados
quantitativos, mas sim ter acesso à mapas prontos, construí-los e compreender que os dados são
produtos de realidades sociais e resultados das relações e interações sociais que muitas vezes
representam desigualdade e injustiças sociais, raciais e de gênero, pertinentes e persistentes na
sociedade em que estão inseridos.
46
03 – Percurso Metodológico
Diante disso, com as autorizações em mãos, fui às escolas e conversei com a equipe
gestora de cada uma delas, sendo muito bem recepcionado por todas. Contudo, por ser final de
ano letivo as escolas sugeriram que eu começasse as entrevistas com os educadores no próximo
ano, ou seja, no mês de fevereiro de 2023. Diante disso, acatei a sugestão das escolas e aguardei
o período indicado. Assim, enquanto aguardava o período para adentrar a campo, dei
continuidade à construção do arcabouço teórico da pesquisa e na escrita dos capítulos da
dissertação.
2008). Diante disso, considerando a perspectiva qualitativa, optei pelo método estudo de caso,
que segundo Alves-Mazzotti (2006, p. 650):
Dessa forma, optei pelo estudo de caso considerando que a rede municipal de ensino de
Cuiabá possui mais de cem unidades escolares e que a maioria não possui anos finais do Ensino
Fundamental. Outro critério foi a não disponibilidade de recursos, financeiros e de tempo, para
desenvolver uma pesquisa mais ampla e com uma postura quantitativa mais robusta. Isto posto,
ainda reforçando a especificidade do estudo de caso, posso destacar que a Rede Municipal de
Ensino de Cuiabá está gradativamente encerando o terceiro ciclo do Ensino Fundamental, ou
seja, as turmas finais do Ensino Fundamental, devido a que o referido nível de ensino é, de
acordo com a legislação vigente, encargo do governo estadual.
informar que a escola C está localizada em um bairro de classe média, já as escolas A e B estão
em bairro periféricos, onde residem em sua maioria pessoas de baixa renda.
É importante destacar o critério de escolha das escolas. Priorizei as escolas que oferecem
o ensino fundamental II e que trabalham os conteúdos da disciplina de Geografia com um
docente que seja exclusivamente responsável pelo componente curricular. Como participantes
da pesquisa foram seis professores que atuaram e atuam na ministração do componente
curricular de Geografia no Ensino Fundamental II, nas escolas pesquisadas. Assim, foram
entrevistados dois docentes da Escola A, dois docentes da Escola B e dois docentes da Escola
C. Para a coleta de dados optei pela entrevista semiestruturada, considerando a perspectiva
qualitativa, como Fraser e Gondim, (2004, p. 145) explicam:
Diante disso, a escolha pela entrevista semiestruturada representa não apenas a definição
de uma técnica de coleta de dados, mas também evidencia uma postura metodológica. A
flexibilidade existente na semiestruturação da entrevista concede espaço para a diversidade e
imprevisibilidade que emana da humanidade dos participantes da pesquisa. Desse modo,
entrevista semiestruturada é aquela que possui um roteiro previamente elaborado, contendo
perguntas fechadas e abertas, o interessante deste roteiro é que durante a entrevista o
pesquisador pode incluir questões que sejam oportunas, não ficando preso ao roteiro, mas o
tendo como uma referência (Manzini, 2004).
Dessa forma, fundado nas leituras bibliográficas que fiz, e ciente dos objetivos da
pesquisa elaborei o roteiro da entrevista semiestruturada. O roteiro elaborado conteve dezoito
(18) questões, sendo todas abertas, sendo essas questões divididas em duas seções, cada uma
com nove (9) questões cada. A primeira seção foi intitulada Dados de Identificação. Nesta seção
inicial estão questões referentes aos seguintes dados dos participantes da pesquisa, como: nome,
data e local de nascimento, data e local da entrevista, formação acadêmica, disciplinas que
ministram, nome, endereço, telefone e e-mail da escola que atua4.
Na segunda seção, também contendo nove (9)5 questões, foi intitulada Questões da
pesquisa. É importante ressaltar que no momento de aplicar a entrevista percebi ser interessante
alterar a ordem das questões, mais especificamente, a décima quinta questão6, que foi a primeira
a ser feita. Fiz isso porque, após analisar o roteiro e os objetivos da pesquisa, encontrei
viabilidade considerando a relação do Letramento, alfabetização e defasagem educacional no
Ensino Fundamental II, de majoritariamente estar relacionado ao não Letramento.
Desse modo, roteiro elaborado inicialmente e o aprovado pelo CEP, tem em sua segunda
seção as seguintes questões: O que é Letramento para você? Você acredita que é viável trabalhar
Letramento na disciplina de Geografia? Explique. Você conhece o Letramento Cartográfico?
Onde teve contato com o conceito? Defina Letramento cartográfico. Você considera-se um
docente que trabalha Letramento e Letramento cartográfico em seu trabalho pedagógico?
Explique. Quais os maiores desafios no trabalho pedagógico em sala de aula? Você considera-
se uma pessoa letrada? Justifique sua resposta. Na sua opinião sua formação acadêmica em
Geografia deu subsídios para trabalhar em uma perspectiva pedagógica que promova uma
aprendizagem emancipatória? Explique. Quais metodologias você utiliza em suas aulas para
4
Os dados de identificação foram suprimidos na análise dos dados, prezando pela garantia do sigilo das
identidades dos participantes da pesquisa. Contudo, os mesmo são válidos, na medida que servem para organizar
a leitura dos dados e o arquivamento dos mesmos.
5
É importante evidenciar que se tratando de entrevista semiestruturada, durante a aplicação das mesmas, foram
acrescidas algumas questões, as quais aparecem neste texto no momento da análise dos dados coletados. Diante
disso, será perceptível que no roteiro constam nove (9), todavia, na análise foram apresentadas e analisadas onze
(11) questões.
6
15 – Quais os maiores desafios no trabalho pedagógico em sala de aula?
50
O TCLE que apresentei aos docentes e por eles assinados concordando em participar da
pesquisa, contém, além das informações mencionadas no parágrafo anterior, que as entrevistas
seriam gravadas. Contudo, sempre considerando a vontade favorável do pesquisado. Assim,
após conversar com cada docente e cada um deles aceitarem participar da pesquisa, assinando
o TCLE, foram agendadas as entrevistas a partir do mês de março de 2023.
Dessa forma, foi na trajetória de construção dos capítulos de fundamentação teórica que
busquei compreender a temática aqui pesquisada, visando neste capítulo possibilitar uma
interpretação lúcida e científica sobre o que foi pesquisado. É importante os escritos de Minayo
(2012), para que o pesquisador não se esqueça da singularidade e coletividade síncrona de seus
pesquisados e que toda compreensão é inacabada, ou seja, consequentemente a interpretação
passível de ajustes e complementos.
Diante disso, os dados aqui apresentados são frutos das entrevistas semiestruturadas
realizadas com seis docentes que lecionam o componente curricular de Geografia em turmas do
Ensino Fundamental II, em três escolas municipais do município de Cuiabá/MT. Considerando
52
a importância de manter em sigilo as identidades dos docentes entrevistados, irei atribuir à cada
um deles um nome fictício que será utilizado toda a vez que referirmos aos mesmos.
[...] a escola deve ter por fundamento a meta de desenvolver as potencialidades dos
alunos a fim de que os mesmos sejam capazes de pensar e agir na realidade social, de
forma a exercer a cidadania da maneira mais ampla possível. Nesse sentido, a escola
é um espaço educacional responsável pela construção de saberes, formação de trocas
de informações entre pessoas, regulação de condutas e interação de indivíduos de
diferentes culturas, valores e crenças. E, mesmo que as primeiras redes comunicativas
formadas pelos estudantes sejam fruto dos grupos sociais mais imediatos a exemplo
da casa e vizinhança; para só depois serem expandidas para a escola. (LDB, 2017, p.
9).
7
Os excertos dos entrevistados serão destacados no texto por meio de aspas e estarão em itálico. Ficando assim,
mais fácil a identificação dos excertos.
54
Diante disso, escola e família são pares que necessitam dialogar para a formação de
cidadãos capazes de pensar e agir adequdamente, pois, não havendo o referido diálogo e
integração, o reflexo familiar implicará na escola e vice versa. Referente aos estudantes que vão
à escola para “brincar”, como mencionou a docente Priscila C, a escola pode representar um
espaço de experiências positivas e negativas, para os estudantes que sentem-se à vontade na
escola, eles podem estar construindo uma identidade, um pertencimento e assim, sentido prazer
no ambiente escolar e apego à ele (Araújo, 2016).
A segunda pergunta, fora de ordem pessoal, visando evidenciar como os docentes lidam
com Letramento enquanto conceito, sendo evocado na questão em um uso mais
tradicionalmente comum, ou seja, uma pessoa que possui conhecimento e estudo acadêmico,
no linguajar mais popular uma pessoa “culta” (Soares, 1998). Desse modo, a segunda questão
foi: Você se considera uma pessoa letrada? Dos seis docentes entrevistados, quatro
responderam essa questão de forma positiva. Entre as respostas positivas, destaco o docente
Enzo B baseou sua resposta considerando a quantidade de livros que leu nos últimos meses e
sua preocupação em estar atento ao mundo literário. Sua resposta evidencia um conceito de
pessoa letrada citada por Soares (1998, p. 32), quando traz o surgimento do conceito Letramento
e seu uso inicialmente, que fora da seguinte forma:
Letrado: versado em letras, erudito. Iletrado: que não tem conhecimentos literários
uma pessoa letrada = uma pessoa erudita, versada em' letras (letras significando
literatura, línguas); uma pessoa iletrada = uma pessoa que não tem conhecimentos
literários, que não é erudita; analfabeta, ou quase analfabeta.
Dessa forma, percebe-se que o docente Enzo B externa seu conceito de Letramento ao
definir-se letrado, alicerçando-se enquanto um leitor atualizado de obras literárias. Já os demais
docentes que que responderam positivamente à pergunta evidenciaram em suas respostas um
conceito de Letramento próximo ao Letramento Literário, que se refere ao desenvolvimento de
uma leitura literária, não mecanizada, mas problematizadora (Souza e Cosson, 2011).
56
Desse modo, como é evidente, a docente revela que mesmo reconhecendo sua formação
acadêmica, ela ainda demonstra insegurança em se definir uma pessoa letrada, e mesmo quando
tende a afirmar que não é letrada, no final da frase faz uso do advérbio “né” 8, que de acordo
com a entonação de sua fala, representa um pedido de aprovação do que está sendo dito. No
momento da entrevista a insegurança da docente ficou evidente, contudo, fiquei atento para não
direcionar as respostas da docente, assim, todas as vezes que ela buscou alguma forma de
confirmação evitei corresponder.
Continuando, o outro docente que respondeu negativamente à pergunta foi o docente
Francisco B, que tece uma crítica à alfabetização de sua época: “O Letramento é que a gente
não teve. Nós, da área, dificilmente temos aquele pensamento de Letramento. A gente não
tem. Por quê? Porque a gente não tem, porque a gente não estudou Letramento. Nós fomos
alfabetizados no método tradicional, né? É o b, a, ba, b, e, be, b, i, bi, b, o, bo. Depois a gente
começa a interpretar texto. Depois a gente começa, depois faz tudo isso sem aquela
necessidade de saber o quê, que aquele texto quer dizer, né? Letramento, segundo a concepção
que eu tenho, minha concepção, é você ter aquela necessidade de ler e você saber o que você
está lendo, segundo eu. Essa é a minha afirmativa. Agora, não sei se os pedagogos vão aderir
a isso, né?”
8
Né – Advérbio - Forma contraída da expressão "não é", geralmente usada para confirmar o que foi falado
anteriormente ou para pedir aprovação sobre alguma coisa: você quer um suco, né? Você conversou com seu pai,
né? Etimologia (origem da palavra né). Contração de não + é. Disponível: [Link]
4/#:~:text=Significado%20de%20N%C3%A9,Contra%C3%A7%C3%A3o%20de%20n%C3%A3o%20%2B%20
%C3%A9. Acesso: 28 set. 2023.
57
Assim, Letramento e alfabetização são diferentes e não divergentes. Outro fator a ser
destacado na resposta do docente Francisco B, é a tendência de vincular um pertencimento do
conceito de Letramento aos pedagogos, como se ele não tivesse liberdade de conceituar o
referido conceito. Um dos desafios que encontrei quando debrucei sobre o Letramento e sua
existência conceitual múltipla, foi sua suposta pertença exclusiva às ciências de linguagem.
Contudo, o Letramento vai além de um uso exclusivo conceitual frente à um componente
curricular, mas enquanto múltiplo tem sua aplicabilidade em diversas áreas do conhecimento
científico. Assim, o Letramento em sua perspectiva múltipla, propõe uma metodologia
pedagógica que considera não apenas os saberes científicos e culturais legitimados no currículo,
mas também considera o conhecimento prévio do estudante (Rojo e Moura, 2012).
Nesse sentido, o docente Francisco B não erra quando aponta o distanciamento entre a
alfabetização e Letramento ser uma realidade e estar embuída em sua trajetória acadêmica.
Contudo, o equívoco está em considerar suas experiências dentro e fora do ambiente escolar
que o possibilita em fazer tal análise.
Não obstante, referente a resposta da docente Priscila C, posso destacar que ela se
considerou uma pessoa não letrada, entretanto, defende que Letramento é possível sem ser
alfabetizado, ou seja, não estando atrelado necessariamente ao contexto escolar. De certa forma
há uma incongruência em suas repostas. Se eu considerar a resposta da docente à terceira
questão, posso, afirmar que ela tem grande possibilidade de ser letrada, visto que a construção
argumentativa da resposta vai ao encontro das definições de Soares (1998, p. 24), que
menciona:
59
[...] um indivíduo pode não saber ler e escrever, isto é, ser analfabeto, mas ser, de certa
forma, letrado (atribuindo a este adjetivo sentido vinculado a Letramento). Assim, um
adulto pode ser analfabeto, porque marginalizado social e economicamente, mas, se
vive em um meio em que a leitura e a escrita têm presença forte, se se interessa em
ouvir a leitura de jornais feita por um alfabetizado, se recebe cartas que outros leem
para ele, se dita cartas para que um alfabetizado as escreva (e é significativo que, em
geral, dita usando vocabulário e estruturas próprios da língua escrita), se pede a
alguém que lhe leia avisos ou indicações afixados em algum lugar, esse analfabeto é,
de certa forma, letrado, porque faz uso da escrita, envolve-se em práticas sociais de
leitura e de escrita. Da mesma forma, a criança que ainda não se alfabetizou, mas já
folheia livros, finge lê-Ios, brinca de escrever, ouve histórias que lhe são lidas, está
rodeada de material escrito e percebe seu uso e função, essa criança é ainda
"analfabeta", porque não aprendeu a ler e a escrever, mas já penetrou no mundo do
Letramento, já é, de certa forma, letrada.
Continuando, a quarta questão foi: Você acredita que é viável trabalhar Letramento na
disciplina de Geografia? Todos os seis docentes entrevistados responderam positivamente a
pergunta. O docente Noah C considera fundamental o trabalho do Letramento na Geografia e
alerta a necessidade do docente saber interpretar os materiais didáticos para levar um
conhecimento em uma linguagem acessível aos estudantes, para que entendam e aprendam. A
docente Priscila C disse que é viável o trabalho com Letramento no componente curricular de
Geografia, contudo, não conseguiu explicar o porquê da viabilidade.
interpretação, você não consegue visualizar isso, você não consegue, no caso, interpretar. E
você pode ser uma pessoa que sabe ler, mas não tem um diagnóstico claro da sua realidade.
Dessa forma, para o docente Enzo B, o Letramento corrobora junto à Geografia, na intepretação
da realidade, ou seja, como disse Freire (1991).
Dessa forma, a resposta da docente Roberta A se legitima, não apenas nos escritos de
Silva e Gonçalves (2021), mas também na postura do docente Francisco B, que tende a refutar
o trabalho com o Letramento em suas aulas de Geografia. A formação inicial e continuada são
fatores importantes para o Letramento ser trabalhado em sala de aula, contudo, também é
necessário a decisão docente em trabalhar.
Assim, as respostas seguiram uma lógica interessante, considerando o aspecto que todos
os entrevistados disseram não conhecer o conceito Letramento Geográfico. Contudo, quando
fiz a sexta questão todos responderam e buscaram definir o conceito em questão. A sexta
questão foi: Defina o que é Letramento Geográfico. No primeiro docente entrevistado eu pensei
em não realizar a sexta questão, mas reformulei ela da seguinte maneira: Mesmo que não
conheça o conceito, o senhor conseguiria dizer o que poderia ser Letramento Geográfico?
62
Diante disso, o docente Noah C respondeu: “Bom, se for pensar na minha prática, para mim,
Letramento Geográfico são aquelas habilidades necessárias ao aluno começar a entender o
ambiente, o universo da Geografia. Então, não teria condições de eu fazer qualquer coisa com
o aluno. Vamos dizer assim, um estudo de caso, sem que o aluno tivesse habilidades básicas
para que ele começasse a entender isso.”
Dessa forma, nas outras entrevistas decidi realizar essa sexta questão da forma como
estava no roteiro, ou seja, nesta estrutura: Defina o que é Letramento Geográfico. A docente
Priscila C, não conseguiu conceituar, porém deixou nítido que acredita ser um conceito que vai
além do básico, se referindo aos conteúdos de Geografia. Já o docente Francisco B respondeu,
inicialmente com um tom de voz debochado: “Letramento geográfico, essa para mim é nova!
Essa palavra é nova. Geralmente a gente aplica conceito de Geografia, os conceitos que a
gente realmente é necessária, pelo menos que a criança tenha aquela necessidade, daquele
conceito, tipo lugar, paisagem. E creio que é isso aí, Letramento geográfico, creio que é isso
aí, noções de Geografia que ele tem que pelo menos saber.
Dessa forma, ora com tom de deboche, ora com tom de desprezo, o docente Francisco
B demonstra que considera o conceito Letramento em Geografia algo desnecessário, ou ao
menos irrelevante, tendo em vista que para ele o componente curricular de Geografia tem outras
prioridades a serem trabalhadas. É perceptível que o docente Francisco B considera o
Letramento um conteúdo à mais para ser trabalhado. Ele não compreende o papel metodológico
do conceito. Todavia, ao término da resposta, fiz a seguinte pergunta, a qual não consta no
roteiro: Então esse é o conceito de Letramento Geográfico para o senhor? De imediato o tom
de deboche e desprezo, saiu de seu rosto e passou a demonstrar preocupação e disse: “Na minha
sincera opinião, Letramento geográfico seria alguém que não conhece o Letramento. Seria
mais ou menos a criança ter a percepção na sua vivência de locais. Por exemplo, ele vai fazer
uma compra, aí tem que levar essa compra na casa dele, ele vai falar, apesar de não conhecer
os conceitos geográficos, ele vai falar, minha casa fica lá para a tinta, casa verde, só para
seguir essa rua. Seria mais ou menos isso, seria Letramento geográfico”.
segundo Freire (1991), o conhecimento prévio do estudante deve ser o ponto de partida para o
processo de ensino-aprendizagem, o docente deve partir do conhecimento prévio do estudante,
buscando levar esse estudante aos demais conhecimentos, principalmente os conhecimentos
acadêmicos (Freire, 1991).
A docente Roberta A, com certa ponderado respondeu: “Bom, eu não sei o conceito
específico de Letramento geográfico. Eu suponho que Letramento geográfico seja a
capacidade ou a habilidade de se converter os ensinamentos teóricos, os conceitos da
Geografia, converter isso para a realidade, para a compreensão do mundo real. Seria isso,
ter essa capacidade, essa habilidade de compreensão do mundo”.
Diante disso, os docentes mesmo afirmando que não possuíram contato com o conceito,
ao tentar defini-lo demonstraram certa noção, principalmente os docentes Carlos A, Roberta A
e Enzo B. Assim, para a presente pesquisa: “Letramento Geográfico permite o desenvolvimento
das noções de espacialidade do aluno, conduzindo-o à leitura do seu mundo e reconhecimento
do seu papel social na sociedade (Souza, 2013, p. 501).” Nesse sentido, Letramento Geográfico,
contribui para o estudante fazer a leitura do mundo tanto no aspecto físico, social, político e
econômico, compreendendo melhor o espaço que vive.
O docente Francisco B, respondeu dessa forma: “Na minha sincera opinião, acho que
Letramento cartográfico seria a maneira de você apresentar aos alunos os conceitos de
Geografia. Como dito anteriormente, conhecimento de mapa, conhecimento de escala, para
que saia uma escala, para ter noção de espaço, dimensão de espaço, não só dentro do mapa,
mas também saber o que é lateralidade, direita e esquerda, isso é muito importante para que
eles não se tornem um péssimo motorista, que vai sinalizar para a direita e depois entra para
a esquerda.”.
Assim, é interessante perceber o quanto o conceito de cartografia deu maior
embasamento aos docentes em suas respostas. Salvo a docente Priscila C, todos responderam
com maior confiança. É interessante perceber na resposta do docente Francisco B que ele
vincula o conceito de Letramento cartográfico às práticas sociais, indo de encontro com a
propositura do conceito de Letramento que a presente pesquisa adota. Outro destaque é que no
início da entrevista o referido docente demonstrou desinteresse e até desprezo ao conceito, mas
nesta questão de certa forma atribui importância ao conceito quando especificado à cartografia.
Dessa forma, posso apresentar as respostas do demais docentes. Para o docente Carlos
A o Letramento Cartográfico está voltado para uma interpretação crítica dos mapas,
considerando as realidades sociais e econômicas. Já para o docente Enzo B: “Bom, acho que
Letramento cartográfico, para mim, seria justamente, digamos, toda essa normativa que nós
criamos em relação a algumas figuras, algumas, digamos assim, linguagem cartográfica, que,
65
é lógico, a gente sabe que existe uma norma para nos orientar, para facilitar, no caso, a nossa
leitura, mas essa leitura não significa que ela é embasada em um conhecimento. Então, o que
a gente passa a reproduzir determinados símbolos, determinadas imagens, representa rios,
relevos. Então, seria nesse sentido, que seria, digamos assim, um conceito normativo.”
Diante da resposta do docente Enzo B pode-se destacar que o Letramento cartográfico,
não se limita a aplicabilidade de conceitos normativos, mas propõe a leitura e interpretação dos
mapas e para além dele do espaço em que os leitores vivem, os fatores que levaram as divisões
territoriais e as questões sociais, culturais, políticas e econômicas que resultaram e resultam
nesta organização territorial (Souza, 2013). A docente Roberta A, mesmo apresentando uma
resposta curta demonstra entender que Letramento Cartográfico vai além de decodificar
conceitos normativos; “Posso supor que Letramento Cartográfico não seja apenas a
capacidade do aluno decodificar símbolos, mas sim de interpretá-los, na medida da
necessidade de interpretar a realidade.”
Nesse sentido, a leitura e interpretação cartográfica é tão importante quanto relacionar
a realidade espacial, regional e territorial à fatores sociais, culturais, políticos e econômicos,
construindo uma postura crítica sobre a realidade em que se vive e isso, torna-se uma
possibilidade tendo o Letramento Cartográfico como instrumento metodológico (Souza, 2013,
Romão, 2019).
Letramento. Aqui há um possível impasse, visto que a mesma docente se autodeclarou não ser
letrada e nesse momento da entrevista, mesmo com certa insegurança, afirma que trabalha
Letramento em suas aulas. Esse tipo de impasse não ocorreu com o docente Francisco B, que
confessa: “Se eu trabalho Letramento eu não estou sabendo”. O referido docente, questiona
que não aparece nos livros didáticos o conceito Letramento, por isso não trabalha. Já o docente
Noah C, mantem a lógica de vincular Letramento exclusivamente em partir do conhecimento
prévio do estudante, possibilitando um ensino acessível (Freire, 1991).
Uma Educação emancipatória exige docentes dispostos e preparados para tal tarefa.
Ética e preparo científico devem ser ingredientes indispensáveis para um docente que almeja
promover uma Educação emancipatória (Freire, 2017). A superação de uma Educação não
crítica refutando a realidade opressora, promovendo estudantes críticos, deve ser o caminho
trilhado por uma Educação emancipatória (Oliveira, 2022). Assim:
O educador democrático não pode negar-se o dever de, na sua prática docente, reforçar
a capacidade crítica do educando, sua curiosidade, sua insubmissão. Uma de suas
tarefas primordiais é trabalhar com os educandos a rigorosidade metódica com que
devem se aproximar dos objetos cognoscíveis. É nesse sentido que ensinar não se
esgota no “tratamento” do objeto ou do conteúdo, superficialmente feito, mas se
alonga à produção das condições em que aprender criticamente é possível. E essas
condições implicam ou exigem a presença de educadores e de educandos criadores,
instigadores, inquietos, curiosos, humildes e persistentes (Freire, 2017, p.14).
Diante disso, a nona questão realizada aos docentes participantes da pesquisa visou
indagar se a formação inicial em nível superior recebida possibilitou a eles uma atuação docente
67
emancipatória. Desse modo a nona questão foi: Na sua opinião, professor (a), sua formação
acadêmica em Geografia deu subsídios para trabalhar em uma perspectiva pedagógica que
promova uma aprendizagem emancipatória? O docente Enzo B respondeu: “Olha, eu diria que
não. Infelizmente, a Cátedra nos proporciona muitos conhecimentos e saberes, mas nesse
contexto de você conseguir ter essa leitura, não. Eu acredito que realmente é o dia a dia, a sala
de aula. Não só hoje, mas sempre a Cátedra esteve muito afastada da realidade do chão de
sala de aula. Muitos dos nossos conhecimentos são necessários, foram importantes, mas na
hora do dia a dia você tem que ter mais esse jogo de cintura e esse eterno desejo de estar
aprendendo.”
O docente Francisco B, respondeu externando a realidade por ele enfrentado em sala de
aula: “Nós sabemos, como professores, que muitas vezes, quando o aluno não quer aprender,
a gente sabe que ele não quer aprender, mas a gente tenta levar esse aluno ao conhecimento
do espaço, propriamente dito, o espaço do ser humano, onde o ser humano está, até nas suas
dimensões ambientais. A gente tenta levar essas coisas, esses conceitos. Agora, se ele não
quiser aprender, é complicado. Mas a gente tenta levar o aluno à emancipação. Para que
serve isso aqui? Você vai utilizar isso aqui para isso, isso, isso e mais aquilo? No dia a dia,
você vai precisar disso aqui, quando você for um bom motorista, principalmente lateralidade,
quando você vai ser um excelente motorista, você vai saber o que é direita, o que é esquerda.
A gente tenta.”
Diante disso, percebe-se que o docente Enzo B vê a possibilidade de uma atuação
emancipatória na prática em sala de aula e que por mais proveitoso que fora sua formação
inicial, ela não proporcionou essa base para uma atuação emancipatória. Já o docente Francisco
B, desabafa o quanto é um desafio a sala de aula, atribuindo ao estudante a culpabilidade da
não aprendizagem, da não emancipação. A docente Priscila responde positivamente à questão:
Sim. Sim, ela me deu a emancipação para trabalhar na Geografia. Quando a gente se forma,
a gente passa por um processo de estágio, de estágio para a gente ter experiência com os
alunos. Então, a gente teve tudo isso na possibilidade pedagógica, aprendendo primeiramente
para a gente poder entrar dentro de uma sala de aula. Então, por isso, ela me deu essa
emancipação de aprendizagem. Porque a gente primeiramente, antes da formação, a gente
passa para o processo de sala de aula para a gente depois pegar a sala de aula mesmo com os
alunos.”
Como é possível vislumbrar na resposta da docente Priscila C, ela vincula a
possibilidade de promover uma aprendizagem emancipatória vinculada às experiências que o
estágio supervisionado a proporcionou. Assim, é possível supor que a distância em conhecer e
68
Dessa forma, dentre as questões realizadas junto aos docentes participantes da pesquisa,
foi a que causou muito desconforto e a qual os docentes, de certa forma, esquivaram -se em
responder. O docente Francisco B respondeu: “Se o aluno realmente gosta, ele vai ter aquela
noção, vai escutar. Eu trabalho, às vezes, em grupo, em grupo para tentar, um aluno que sabe
muito pouco, talvez o aluno que sabe um pouco melhor vai sentar junto com esse que sabe
pouco e vai tentar ajudá-lo. O que mais? Exercícios, atividades, atividade livre, atividade
reforçada, para que ele tenha um pouco mais de visão, além daquele texto. A gente tenta,
tenta.” Em seguida perguntei ao docente Francisco B se ele teria alguma metodologia em
específico para detalhar, mas a resposta foi negativa e disse: “É da forma que expliquei, trabalho
em grupo e atividades diversas”.
Não obstante, a docente Priscila C responde pautando – se na sua formação e em sua
dinâmica metodológica, mas também sem denominar metodologias e evidenciá-las com
precisão: “Bom, na minha graduação, primeiramente, a gente passa para o processo de estudar
cada metodologia de ensino para a gente passar para os alunos depois, como a gente passou
pelo estágio. Então, aí a gente tem vários métodos de ensinamento. Vários métodos. E na
minha formação eu aprendi isso e dentro da minha sala de aula eu uso também vários métodos
para estar ensinando o aluno. Porque você vê que uma metodologia, você vai com uma
metodologia para uns alunos, se ele não está aprendendo daquele jeito, então eu uso outro
método para ver se ele aprende, que melhora a sua aprendizagem. Então a gente, na área que
eu aprendi, que a gente tem que usar vários métodos. Se não está indo por esse método, vamos
usar outro método para melhorar a aprendizagem do aluno.”
O docente Noah C menciona a realidade dos últimos anos, mas confessa sua dificuldade
frente as tecnologias e que busca formas de trabalhar com o que tem disponível: “Bom, você
sabe que eu sou professor de escola pública. E apesar de muito recurso, porque ao longo dos
anos a gente vem... A gente viu a injeção de recursos na Educação, mesmo na Educação
pública, ela é mais limitada, mas ela tem... eu sou obrigado a dizer que os últimos quatro anos
foram atípicos, mas, mesmo assim, anteriormente a isso, eu vi muito recurso sendo colocado à
disposição dos professores da Educação pública. Mas isso não foi o bastante para sanar. A
minha metodologia sempre coloca... Sempre vou buscar os conteúdos e colocá-los da forma
mais... como é que eu vou dizer? Mais simples possível, para que eu não tenha dificuldades a
nível de meios tecnológicos para ensinar esses alunos. Então, eu sempre procuro me preparar
enquanto professor para fazer abordagem por meios de textos, de imagens com os meus alunos.
E, dentro desse contexto, trabalhar bastante o debate, o diálogo, o esclarecimento, para que
70
esses alunos se sintam à vontade no aprendizado e eles vejam o pragmatismo disso na vida
real.”
Outro excerto interessante é o do docente Enzo B. O docente cita a proximidade de sua
prática em sala de aula, aos escritos de Freire (1991). Todavia confessa o impacto da prática
em sala de aula, visto que o que é aprendido na universidade não contempla a realidade escolar.
Desse modo, respondeu Enzo B: “Em relação ao uso dessas metodologias, principalmente na
questão do EJA, o nosso conhecimento em relação ao nosso grande educador Paulo Freire foi
de fundamental importância. Porque a gente realmente observa que o aluno não só aprende,
mas ele também transmite conhecimento. Já para o ensino fundamental, digamos assim, dentro
da faixa etária adequada, eu acredito que a minha universidade deixou muito a desejar, porque
a gente vive nesses 25 anos sobre uma realidade, uma metodologia de uma prática de avaliação
chamada ciclo e as metodologias que a gente absorveu na universidade não nos permite
desenvolver com uma certa qualidade esse tipo de avaliação. Então, a gente foi preparada
para um tipo de prática e o mercado pratica outro. E aí eu acredito que nessa parte tenha
ocorrido uma falha muito grande. Não me deixo tão engessado, porque o interesse em estar
cada vez mais aprendendo nos leva a ter essa dinâmica de não só ficar no livro didático, não
só ficar nas políticas predeterminadas pelo sistema, mas procurar no máximo trabalhar com
todas as formas de pensamento e de entendimento.”
Considerando o objetivo central da presente pesquisa que é analisar a formação docente
e sua atuação em sala de aula, sob o ponto de vista do ensino de Geografia, a partir das noções
que estruturam o Letramento geográfico, é possível vislumbrar que o Letramento Geográfico
não tem sido sistematicamente trabalhado pelos docentes pesquisados. Todavia, noções foram
parcialmente identificadas nas respostas de alguns participantes da pesquisa. Como é possível
verificar na resposta do Francisco B, que de certa forma, o bom andamento de suas aulas está
condicionado ao interesse do discente, e evidenciando que tem um modelo fixo de atuação em
sala de aula. É interessante destacar que reduzir o processo de ensino-aprendizagem à técnicas
fixas e permanentemente definida, possibilita a gerar um ensino fadado ao puro treinamento,
que fortalece relações verticalizadas, ou seja, a relação docente – discente se constitui
puramente uma relação de poder (Marques e Oliveira, 2016).
O docente Noah C demonstrou preocupação com o aprendizado de seus estudantes. A
postura metodológica e didática vai ao encontro das orientações de Freire (1991), sobre a
importância de partir do conhecimento prévio do estudante. Outro fator interessante na resposta
do docente Noah C é seu temor em não dominar meios tecnológicos e devido isso, organiza sua
dinâmica docente considerando essa realidade. Não obstante, o docente Enzo B evidencia que
71
sua prática docente está focada na aprendizagem do estudante. No entanto, desabafa que para
ele, sua formação inicial foi boa, mas distante da realidade cotidiana em sala de aula. Referente
ao docente Noah C é interessante sua postura, mesmo diante algumas limitações, busca atuação
focado na aprendizagem de seus estudantes, porém, sobre as tecnologias é importante atentar a
quinta competência geral contida na BNCC (2018, p. 8):
Diante disso, considerando a resposta do docente Enzo B, recorro aos escritos de Tardif
(2002), que menciona que o docente é formado pelos saberes da formação e saberes das
experiências. Dessa forma, a vivência na formação é complementada pelas experiências antes
e pós formação, ou seja, a sala de aula e as realidades nela enfrentada corroboram e nem sempre
são previsíveis.
Continuando, a docente Priscila C evidencia em sua resposta que a formação inicial
recebida a subsidiou a ponto de compreender que o objetivo docente é a aprendizagem do
estudante. Não são diferentes as respostas dos docentes Carlos A e Roberta A, que de forma
sucinta evidenciaram que antes de iniciarem o conteúdo do componente curricular realizam um
diagnóstico e a partir deste diagnóstico, planejam e lecionam levando em considerações
necessidades coletivas e individuais das turmas. É possível perceber que esses docentes, Priscila
C, Carlos A e Roberta A, tem uma postura metodológica flexível, focando sua atuação na
aprendizagem do estudante e que prezam por uma boa didática, principalmente quando me
reporto as respostas da décima primeira questão.
A décima primeira e última questão foi direcionada com o intuíto de evidenciar a relação
formação e atuação em sala de aula. Tanto a décima, quanto a décima primeira questões foram
elaboradas também com a expectativa dos docentes evidenciarem práticas voltadas para o
Letramento Geográfico. Todavia, ao questionar sobre prática em sala de aula, foi vísivel o
72
desconforto de alguns entrevistados, ora demonstrando estarem sendo invadidos, ora certo
temor. Assim, invadido no sentido de privacidade e temor no sentido de julgamento. Diante
disso, busquei explicar o motivo das questões e a constituição ética da pesquisa frente a proteção
de suas identidade e o interesse enquanto pesquisador de prezar por uma análise de dados
cientificamente ética, que refute julgamentos pessoais. Desse modo, a décima primeira questão
foi: Dentre as metodologias citadas, quais foram aprendidas na vossa graduação e quais foram
sendo aprendidas na trajetória profissional? Você utilizou de várias metodologias. Qual você
conseguiu aprender, desenvolver na graduação e também na sua trajetória profissional?
O docente Noah C explica: “Para mim, a gente acaba ficando com a situação mais
prática. Dentro da graduação, quando começamos a ser orientados, apresentados para o
universo da Geografia, por meio da literatura, por meio da leitura de textos dos autores, por
meio da prática de campo, isso eu aprendi na universidade. E isso eu coloquei também na
minha prática da sala de aula. A prática de campo na sala de aula acaba não sendo uma
realidade tão... acaba não sendo tão constante, porque depende muito do ambiente em que
você está, depende muito de gestão, tem escola que você tem mais liberdade, tem escola que
você tem menos. Então, ela esbarra nessa situação. A questão da tecnologia, disposição das
metodologias também ficam muito a desejar. Eu, por exemplo, até hoje, não utilizo recursos
visuais tecnológicos, porque o que a escola tem nem sempre me atende. Então, para eu utilizar
isso, eu teria que me tornar autônomo no que diz respeito a eu ter o meu próprio equipamento.
Então, como até hoje eu não fiz, agora que estamos chegando a uma... vamos dizer assim, a
uma condição tecnológica da pessoa poder portar na sua mochila um retro... como é que eu
vou dizer? Um transmissor de imagem, um projetor de imagem, porque eles eram grandes,
para carregar ele você precisava de uma bolsa só para ele. Se você tivesse que colocar um
dispositivo de áudio, ele também precisava ser grande. Agora que a tecnologia tem diminuído
bastante esses equipamentos, a realidade das redes sem fio, agora é que o ambiente vem se
tornando mais viável para o emprego de novas metodologias que envolvam a tecnologia da
73
informação. Mas até aqui a gente dependia muito de escola, e toda vez que eu investi nisso eu
quebrei a cara. Eu planejei uma aula, vamos dizer assim, cheguei lá e não tive a disposição.
Então, essas coisas eu fui aprendendo na sala de aula. Essa é a parte da metodologia que eu
tive que ir para a sala de aula, para o cotidiano escolar, para poder entender, classificar e
utilizar mais ou menos.”
Assim, o docente Noah C desabafa sobre as limitações de recursos que sua escola
enfrenta e que isso torna-se um empecilho para sua atuação em sala de aula. Questionei o
docente sobre sua citada dificuldade em lidar com recursos tecnológico e ele disse que é real,
mas destacou que essa dificuldade se limita ao manuseio de computadores e programas
complexos, mas que utilizar um projetor é uma tarefa simples, mas que ajudaria muito na
transmissão de vídeo e visualizações de mapas.
fizer qualquer coisa lá, aquilo lá passa a ser um espaço do homem também. Mas a gente ainda
acha que no futuro bem próximo a gente vai conciliar essa coisa. E tecnologia com pedagogia,
conhecimentos.”
A fala do docente Francisco B reflete o quanto a realidade dos celulares em sala de aula
o incomoda. O empasse entre tecnologia e sua utilização em sala de aula é um desafio, contudo,
não envolve apenas a postura docente, mas também postura política, se tratando de políticas
públicas que fomentem o uso adequando em potencial destas tecnologias.
Considerações finais
Dessa forma, a sala de aula enquanto espaço de aprendizagem, exige do docente uma
postura que refute a estagnação fazendo com que o docente preocupado com a formação do
estudante não se prenda apenas na ministração de conteúdos específicos de seu componente
curricular, mas sim ciente das condições pedagógicas de seus estudantes, posso mediar o
conhecimento a partir das condições dos estudantes. Diante disso, se o desafio comum está na
consilidação da alfabetização e Letramento, até que medida os docentes pesquisados
76
Diante disso, corro o risco da incoveniência, mas não me furto à ousadia de aqui nas
considerações finais desta pesquisa refletir sobre os referidos docentes que se sutodeclararam
não letrados. Esses docentes, mais especificamente, os docentes Priscila C e Francisco B,
ofertaram dados peculiares, primeiramente Priscila C que demonstrou insegurança em sua
resposta e posteriormente Francisco B que exalou uma postura de rejeição a temática abordada
pela pesquisa.
Nesse sentido, apesar dos dois docentes considerarem não letrados, a postura deles são
divergentes e possibilita diferenciá-los. A docente Priscila C evidenciou uma insegurança nas
respostas durante a pesquisa e essa insegurança tendeu várias vezes o evidenciar de uma crise
da SI – Síndrome do Impostor, que é: “[...]um evento psíquico caracterizado por fortes dúvidas
sobre si mesmo e suas capacidades, de forma constante. A SI também é definida por uma
incapacidade de internalizar o sucesso[...]” (Molina, 2023, p.2).
Não obstante, vale ressaltar que não tenho a intenção de supor um aspecto patológico
ao comportamento da docente pesquisada, todavia, não posso ignorar a postura dela, que
esquivando-se nas respostas evidenciou por diversas vezes insegurança sobre si e sobre sua
atuação em sala de aula. Confesso que durante o decorrer da entrevista com a docente, pensei
que ela estava ponderando exercendo uma certa humildade, contudo, a cada resposta a
insegurança era evidente.
perceber e posterior à entrevista, ele confessou que o que mais o irritava era a constante
insistência da gestão em impor pedagogias e metodologias “goela abaixo”9, ou seja, propostas
que para o docente são impostas sem diálogo.
Dessa forma, a postura indiferente e de rejeição por parte do docente Francisco B, pode
ser supostamente justificada pelas frustrações vivenciadas durante sua trajetória profissional
frente ao que ele denomina pedagogias de “goela abaixo’’ e a falta de interesse ao ensino por
parte dos estudantes. Assim, é desconfortante a postura do docente Francisco B, visto que por
sua ótica o pessimismo é o modo operante de seu devir pedagógico.
Nesse sentido, evidencio aqui tanto a docente Priscila C, quanto o docente Francisco B,
não com a intenção de expor, visto que suas identidades e de suas instituições escolares, por
uma postura ética, não foram reveladas. O evidenciar destes profissionais se fez necessário para
explicitar casos não raros vivenciados por docentes na Educação pública brasileira (Pereira,
2017). Assim, a insegurança, uma tendência à SI e um pessimismo pedagógico são fatores
presentes de forma nociva no cotidiano profissional de muitos docentes e esses fatores foram
nitidamente percebidos nos dados coletados (Molina, 2023, Pereira, 2017, Silva e Gonçalves,
2021).
9
‘A expressão “empurrar de goela abaixo”, por exemplo, é utilizada na militância sindical com referência às
situações em que as decisões políticas ou administrativas são impostas à população de cima para baixo, nos moldes
autoritários da gestão institucional (Santos, 2006, p. 142).’
10
“Os sintomas mais comuns relatados são de ansiedade generalizada, falta de autoconfiança, depressão,
rejeição, frustração, indecisão, despersonalização, evasão de responsabilidades, autossabotagem, incapacidade
de delegar, adiamento de prazos, longas jornadas de trabalhos, esgotamento profissional, problemas de
autoestima e entre outros” (Molina, 2023, p.2).
78
Voltando o olhar para o Letramento e a concepção que os docentes têm do mesmo, foi
perceptível enxergar que todos consideraram o conceito relacionado ao conhecimento prévio
do estudante e alguns complementaram sobre o exercício de relacionar teoria com prática. É
evidente que a noção freiriana de partir do conhecimento prévio do estudante enquanto
estratégia de ensino ecoou nas respostas dos docentes. Esse ecoar se consolida quando os
docentes reconhecem a relevância do Letramento no ensino de Geografia, apresentando um
conceito de Letramento para além do conhecimento prévio, mas alicerçado em uma
interpretação textual fluente e uma leitura de mundo consciente.
Dessa forma, mesmo os docentes não terem definido o conceito de Letramento de forma
precisa, durante a pesquisa eles evidenciaram a relevância e o cerne conceitual do Letramento.
Vale ressaltar que tanto o conceito de Letramento Geográfico, quanto o conceito de Letramento
Cartográfico eram desconhecidos pelos docentes pesquisados. O que ocorreu no momento da
coleta de dados é a tentativa ora positiva, ora negativa de deduzir os referidos conceitos.
Não obstante, durante a entrevista, um dos pontos mais tensos foi no momento que
perguntei sobre que metodologias os docentes utilizavam para promover uma aprendizagem
emancipatória. Em sua maioria as respostas foram amplas e não definiam especificamente
metodologias desenvolvidas, porém, um fator relevante é a evidente consciência que a maioria
dos docentes tem de que o foco é na aprendizagem do estudante. Aos docentes que se
aproximaram em apresentar sua postura metodológica, foi evidente o ecoar dos conceitos
freirianos de Educação. Quando questionei se em sala de aula as metodologias utilizadas
ecoavam as estudadas na universidade, os docentes em sua maioria mencionaram que as
metodologias foram definidas, foram desenhadas no cotidiano da prática docente.
perder o vasto horizonte, como observa-se, da atuação metodológica aos preocupantes indícios
de sofrimento mental.
Assim, considero uma possibilidade viável que na formação inicial e continuada docente
que o Letramento em seu caráter múltiplo e metodológico esteja presente, possibilitando assim,
potencializar a real presença do Letramento em sala de aula, ou seja, na formação do estudante,
pauta de forma explícita nos princípios freirianos, que possibilitará a substituição de um
sofrimento mental docente, fundado em um pessimismo, por uma pedagogia da esperança11 em
Freire (2001).
11
“[...] a esperança é uma escolha política, não apenas porque ela nos ajuda a suportar o terror autoritário, mas
também porque ela nos direciona de maneira tática para o amanhã – que esperamos, será maior e melhor”.
(Pinheiro-Machado, 2019, p. 25).
81
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89
Apêndices
Entrevistado (a):
1 – Nome:
2 – Data e local de nascimento:
3 – Data e local da entrevista:
4 – Formação acadêmica:
5 – Disciplinas que ministra na escola:
Escola:
6 – Nome:
7 – Endereço:
8 - Telefone:
9 – E-mail:
Questões da Pesquisa
Anexos
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