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TRATADO DAS ILHAS NOVAS

E

DESCOBIIIME.NTO

DELL.\S

li:

n~ITO POR

OUTRAS

COUZAS,

FRANCISCO

DE

SOUSA

FEITOU

D'ELREI

NOSSO

SENHOR

NA

CAPITANIA

DA

CIDADE

DO

FUNCHAL

DA

ILHA

DA

MADEIRA

E

NATUIIAL

DA

DITA

ILHA

E assym sobre a gente de nação Portuguera, que está em huma çrande Ilha, qu_e n'ella Joráo ter no tempo da perdrçáo das Espanhas, que ha tre!{entos e tantos

annos,

em que reinat•a E/Rei Dom Rodrigo.

DOS

POIITUGUEZES

QUE

FORÃO

DE

 

tllana t

das

~lhas dos ~(or~s

 

A

POVOAU

A

TERKA

~OVA DO

BACALHÁO,

VAY

El\1

SESSENTA

ANNIIS,

DO

QUE

SUCEDEO

O

QUE

ADIANTE

SE

TRATA

ANNO

DO

SENHOR

D~

1~70

;:>EGUNDA

j!:DIÇÂO

}tUGME.NTADA

1884

PONTA LELGADA-ILHA

DE

S.

MIGUEl.

TYl'. DO ARCHIVO DOS AÇORI!S

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)Is legendas, bem cedo formadas, sobre a existencia de importantes ilbas no vasto mar fronteiro ás coJtas do seu paiz, foram o maÚ poderoso incentiPo que determinou os portugue~ zes, durante todo o seculo decimo 9uinto e já. desde · o anterior, a fazerem explorações no Jltlantico septentrional. 3'oram . essas explorações a mais ampla profícua escola de napegaçào 9ue tiveram. Uma das suaJ mais proximas conse9uen·- cias, foi oreconbecimento doJ c{lçores, 9ue ·fi- caram serpzndo de ·estação para ulteriores in- pestigações ao occide1de do seu merediano.

e

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Ji lista dos emprebendedores n'esta dire- cção não é muito escassa. :Pnnos antes da primeira viagem de 'Co- lombo ás :Pntilbas, já em Portugal bavia conbecimenlo da existencia de parle das cos- tas da 4Jmerica do ]forte . .Os 'Corte· I(eaes, ultimos d'aqueUes em-

prebendedores, tornaram apenas mais positivo

e extensivo esse conbecimenlo. · .Os factos, porem, de serem essas navega- ções filbas de iniciativa particular, de serem seus resultados reaes sempre inferiores á espe- ctativa e oos que olferecia a costa occiden-

d' Jlfrica e promettia a passagem por longo

d'eUa, para o .Oriente, tornaram quasi igno- rados e deturpados por uma bisloria official os esforços dos portugueus n'aquella direcção. Por outra parle, a grande~a epica da empreza de 'Colombo, o explorador das re- giões da :Pmerica 'Central por eUe descobertas, aJ t'Ü{uezas immediatas d'ellas aufer·idas ptlas conquistas de opulentos imperios, a solidarie-

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dade reconbecida do TUJVO conlinente fizeram quasi obliterar a memoria daJ TUJSSaJ explo- rações TUJ sentido indicado~ e referit· ao gran- de navegador genopez a gloria exclwiPa da de;coberta do J;lovo Mundo. !/)eJJIÍado o genio portugun por uma di- recção suprema e srstemalica para aJ nave-

e conquiJtas do <Jriente ~ quando o cr-

clo da sua actividade

gações

ali

esfApa

quasi

fe-

cbada, eUe Polta de novo a sua altenção para o campo em que por tanto tempo o detiveram aJ mas crenças legendarias; embora já então

perlustrado por outros povos e sem fundamento para taes crenças. 9oi n'estas circunstancias que foi escripto o

opusculo ~ cujo pomposo titulo, idéa

tl'um traball)o muito maiJ importante do que

na realidade é. Uma noticia eontem elle imporlantissima, qual é a do estabelecimento de uma colonia por- tuguna na ill;a do Cabo-Jlretão~ nos fins do primeiro quartel do seculo decimo sexto.

presente

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,{}onbecido apenas, pelo que d'elle diz a

«';Bibliotbeca Lusitana ~ era jul9ado perdidq desde o terremoto de Lis-boa. 3felivnenle, porem, bavia mais exemplares nas bibliotbecas das Provincia.s. ]fo deposito de livros provenientes das li- vrarias de alfjUnS dos extinclos conventos~ e bo- je encorporados na ';Bibliotbeca da Universi- dade~ appareceram dois. ]fos papeis políticos

e b1:storicos~ ms. ~ n. 0 620 da actual numera-

ção, e 175 do anti9o deposito; e lambem na Miscellanea, ms. n. 0 135 do anlÍlJO deposito.,

Tendo conbecimento d'este facto, o nosso fallecido ami9o e illuslre açoriano, José de Torres, fez: nos d' elle communicaçào em maio

de 1865.

Logo nos dirigimos ao nosso conlerraneo ~ então estudante em Coimbra~ o sr. doutor Ma-

nuel 3ljnacio da Silveira

lbe uma copia d' elle; em breve nol-a remeteu

tirada pela sua propria mão . !lJestinava-mos effecluar a sua publicação,

';Borges~ pedindo-

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como annolação, na Memoria sobre (;aspar ·Corte 'E.eal~ que pedendemos dár á Út~;porem tendo-se caJualmenle sabido da Jua exiJtencia na noJsa mão~ fazemol-o agora em separado para- sapliJfazermos a certa eJpeclação e in- .slancias d"amigoJ

João Tei.xeira Soares de Sousa.

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ILHAS DE SANTA CRUZ

DOS REIS MAGOS

SÃO THOMÉ, BOM JESUS, S. BRANDÃO,

SANTA CLARA, DA GRAÇA, E A DR

S. FRANCISCO OIJ DAS SETE CIDADES.

A oeste da Ilha da Madeira 65 ou 70 legoas, está

uma grande Ilha que se chama Santa C

magos, que tem de comprido trinta legoas, e de lar- go no mais estreito quinze legoas, e poJa banda do sul está em 32 grao~. e corre athé 34- ao norte, e corre-se noroeste susueste, e tem por todas as faces grandes Bahias e enseadas, grandes arvoredos, e Ribeiras, e boas agoas, como d'isto mais largamente ·tenho as in-

formações dos antigos, e se arruma pola maneira aquy posta em uma carta Franceza, que tenho onde está aluminada, e presumesse que tem gado. Aliem della a oeste, obra de 4-5-:SO legoas em 32 graos pouco mais ou menos, está outra Ilha que se chama São Thomé, que tem de Leste Oeste, de com- prido passante de doze legoas, e largo dnco, uma for- moza Bahia ao Sul com um llheo, e na face do Norte uma Roca de Baxio, como me constou das ditas infor- mações, e aluminação da dita Carta Franceza. Aliem mais a oeste 75-80 legoas está outra Ilha que se chama o bom Jhus, em altura de 33 graos, pouco mais ou menos, e tem de Leste Oeste, de com- prido, quinze legoas, e de largo melhor de 7, com for- mozas Bahias por todas as faces e poJa banda do Sul. sobre a Bahia dos Jlheos e da banda do Sudoeste, ·a-

fastado deli a, um grande Jlheo, como

informações, e da dita carta aluminada.

me constou das

:ruz

dos Reis-

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No merediano da Ilha do Porto Santo, poJa ban- da do norte. em :J5 está uma Ilha ·que se chama São Brandão, tão larga como comprida. redonda, que tem uma legoa e meia para duas, e arriba della em 35 graos e dons terços está outra ilha, que se chama San- r.ta Clara, que tem de comprido para o Norte quatro legoas, e de largo de 1\:oroeste-Sueste tres legoas, e estão assim enfiadas uma na outra com o Porto Santo pelo Ilheo da Fonte da Aréa ou do ferro, e abaixo d'el- las em 33ijs de gráo está uma ilha debaixo d'agoa com baixio ao redor, que algumas vezes se vê da Ilha do Porto Santn a arrebentação do mar n'ella, segundo as informações que tenho e aluminação da dita carta, P. poJa maneira aqui posta; a qual a lugares tem 6, 7 braças na cr'oa; e p'ra credito das informações que tenho fui sobre ·t>lla, e tem grande roda com muito baixio, a lugares grande musgo do mar, onde vi mui tas diversidades de peixe, e a sondei por minha mão, e fui na Barca de Manoel Bayão, que Deus tem, e está a Noroeste-Sueste pela banda do llheo da fon- te d' Arêa, que está ao longo do dito Porto Santo, e está afastada d't>lla duas legoas pouco menos.

A oeste das Ilhas fios AçorPs está uma llhêla que se chama a Ilha da Graça, e desta llhêta indo a oeste dusentas lt"goas e. outras dusentas da Ilha das onze mil virgens em altura de 39, iO e H gráos, pouco mais ou menos está uma grande Ilha que se chama São Francisco, que tem melhor de quarenta Iegoas de comprido de Norte-Sul, e de largo vinte e tantas, com grandes Bahias, Ribeiras d'agoas e arvoredos, se- gundo as informações que tenho d'ella e por via de França tive as mais das informações por os francezes continuarem á Terra Nova á pescaria, e á Costa do Brazil e Guiné, e navegam por fóra das nossas derro tas por causa das nossas armadas; e estas ilhas est~o em partes donde os Portuguezes não navegam se não

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-til-

fôr algum e.~garrodo, de que tambem ouvi informação,

porque os nav~gantes se vigiam disso muito pelos ru- mos porque navegam de não darem guinadas; quanto mais irem por rumos fóra de seus caminhos donde es- tam, e principalmente Ilhas que estam cobertas de ne- voas grossas por causa dos arvoredos e humidades do

vontade do Nosso Senhor.

viço d' elles e

No tempo que se perderam as Espanhas, que rei-

nava Dom Rodrigo, que vai para quatro centos ao- nos (I) que com as sêcas se despovoaram as gentes,

e pereceram com a grande esterilidade e da entrada dos Mouros, como mais largamente se trata nas Es- cripturas antigas, por a qual cauza do Porto de Por- tugal os mareantes e homens Fidalgos tendo noticia que para o Ponente havia terra que até então não fo- ra descoberta, sómente pelas informações dos antigos

e dos Espiritos tinham d'ella informação, determinarão de se embarcarem em sete náos com toda sua familia,

e de hirem correndo ao Ponente; confiados na miseri-

cordia de Nosso Senhor navegarão. e pela altura do Porto que está em 4.1 grãos correrão tanto que forão por barla-vento das Ilhas dos Açores, que inda não e- rão descobertas, e forão aportar na Ilha de S. Fran- cisco que está pela dita altura,· onde dizem as infor- mações que tenho, que forão n'ella dar; e eu por ra- são da navegação acho ser sua derrota assim; queira Nosso Senhor permittir se descubra esta Ilha como a- traz fica dito onde ella demora; e por irem em sete náos disem as informações que cada capitão com sua náo, tanto que aportarão, se repartirão cada um em sua parte da Ilha, e os antigos lhe chamão a esta Ilha as sete Cidades; mas outros por via de França lhe cha- mão a Ilha de S. Francisco, o qual, por quem é, queira rogar a Nosso Senhor dêmes com ella para valermos á salvação da gente que n'ella está, pois procede de Chris-

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-U-

tãos: e achei mais que é terra de boa abitação por ser grande A de muito proveito; e por rasão da virtUde

5. o clima, que dado dos Açores não o é

tanto como França, Inglaterra, porque é Ilha do mar

a ·que .o mar aquenta, e mais que nas faces fio sul é

habitavel os dois terços d'ella debaixo ·de boas zonas~

dos climas acho está situada no que seja mais frio que as Ilhas

Haverá 45 annos ou 50 (3) que de Vianna (&.) se ajuntarão· certos homens fidalgos, e pela informação que tiveram da terra Nova do Bacalhá.o se determina- ram a ir povoar alguma parte d'ella, como de feito fo• ram em orna náo e uma caravella, e, por acharem a terra muito fria,. donde ião determinados, correram para a costa de Leste Oeste té darem na de Nordes- te-Sudoeste, e ahi habitaram, e por se lhe perderem os Navios não houve mais noticia d'elles, sómente por

via de Biscainhos, que continuam na dita Costa a buscar

e a resgatar muitas coisas que na dita Costa há, dão

destes homt>ns informação e dizem que· lhé pedem di- gam cá a nós outros como estão ali, e que lhe levem

sacerdotes, porque o gentio é domestico e a terra mui-

to farta e boa, como mais largamente tenho as infor-

mações e é notorio aos homens que lá navegam; e is- to é no cabo do Britão (5) logo na entrada da costa que COfl'e ao Norte em uma formoza Bahia donde tem

grande povoação; e ha na terra coisas de muito preço

e muita nóz, castanha, uvas, e outros fructos, por on-

de parece ser a terra boa e assim nesta companhia foram alguns casais das Ilhas dos Açores, (6) que de caminho tom:tram como é riotorio: Nosso Senhor queira por sua misericordia abrir caminho como lhe vá soe-

corro, e minha tenção é hir á dita costa de caminho quando fôr á Ilha de S. Francisco, que tudo se póde ·

fazer d'uma viagem.

·

·

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-it5-.

Porque ao tempo que os· antigos dão informação

d'estas ilhas a navegação ainda não era apurada como agora .e, deve-se de buscar nas ditas partes, ou por mais um gráo ao Norte ou ao Sul, e para Oeste. e Les te, resolvendo-se, como os mariantes melhor o sabe- rão fazer, se Nosso Senhor não for servido que eu o faça, porque alem de saber a navegação tenho outras regras das sciencias Mathematicas e bom engenho pa- ra todo o necessario ao dito descobrimento; e Nosso Senhor ordene o que fôr mais .ao seu Santo

E escrevi isto, e o mais que em meus papeis tenho es-

cripto, porque não sei o que o Senhor Deus fará de mim ; e por tanto se isto a alguem prestar, peço

l'ogue a Deus por minh'alma como eu faço pelas dos que fizeram as informações que tenho; porque esta é·

a obrigação do bom .proximo e dos meus;. e tudo pó-

de ser assim como foi e é o mais que está habitado.

serviço~

'

JtOTEIJtO DO DESCOBRIMENTO DAS ILHAS NOVAS,

FEITO POR JOÃO AFFONSO, FRANCEZ {7) O QlJAL ESTEVE N'ELLAS E EM UMA EMKASTREOU UMA NÁO SUA, E TOMOU ALTURA E FEZ ROTEIRO

A oeste da Ilha que se chama da Madeira, 60 ou 70 legoas, está uma grande Ilha que. se chama-San- ta Cruz dos reis Magos, que tem de comprido 30 le- goas, e de largo no mais estreito tlllegoas; e da ban- da do sul está em 3!! grãos e 3 /3 ; -sic-e corre-se 3.&. ao Norte. e corre-se Noroeste Soeste, e tem por

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todas as faces grandes Bahias e enseadas, e grandt>s R•beiras de buas agoas, e arvoredos, e tndo isto affir- mo como quem esteve nella, e tenho uma carta, aon- de está por mim aluminada com outras que aqui di- ire; e esta primeira, de que faço nll'nção segundo· si- gnaes que vi n'ella, tem muito gadu. A oeste , alem d'ella obra de .\5 legoas. em :&~ grãos pouco mais on menos, está outra Ilha que se chama S. Tbumé, que tem de Leste Oeste passante de ti legoas d~ comprido e de largo 5, P tem uma formoza Bahia da banda do Sul com um llheo, e na face do Norte uma roca de Baixio, como está alumi- nada na dita carta por mim ·feita. · Alem mais a oPste 75 legoas d'esta llhll São Tlw- mé está outra Ilha que se chama o Bom Jhus. os quaes nomes furam postos por mim mesmo por serf'm os mesmos dias em que as descobria em altura de 33 gráos; e tl'm de Leste a oeste ou Su,.ste de comprido t5 legoas, e de largo mais de 7 conforme a!!' alturas que para isso tomei, e com formozas Bahias por to- das as faces, e pela banda do Sudoeste afastado d'ol- la um llhoo grande co~o consta da alominação da car- ta que tenho feito, em que se achará tudo isto qne di.- go muito certo.

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N"OTAS

(I) Frontespicio linha tO e pagina 13 linha tO.

ouo een&o• e mnlo•• deveria o autor dizer,em vez de trezentos e tantos annvs.

(!) Frontespirio linha u;.

tJe••enla-Barbosa na Bibliotheca Lusitana disse-lle-

lt•naa.

(3) pagina U linha 8.

A clu'Onologia indicada no tituio do presente optisculo

é clara e positiva, mas como conciliai-a com esta do texto ' eomo explicar tal divergencia em obra de tl'lo pequeno folego' Em todo o caso, esta é a preferível por mais explicita e na- turalmente mais pensada. Assim termos para data da coloni- saçl'lo referida o anno de US!O a lf'U, aproximadament~.

(i) pagina li tinha 8.

·O padre Antonio t!e Carvalho na sua Corograpbia por.

tugueza, tom. 1.• pag. 18!, (!.• edic. Braga 1868) e tom t.pag. 205 da t.• ediçl'lo tratando da Comarca de Viana, diz, a propo-

sito da frogut>zia de s. Julil'lo de Moreyra, concelho de Ponte .de Lima, o ~eguinte:

«N'esta fre{o(uezia é a casa do Outeiro, solar dos Fagundes, cuja fdmilia tem dado pessoas grandes de que descendem muitos fidalgos, e foram os prime1ros que com gente de Viana descobril'"dm a Terra Nova, e que n'ella tiveram fortificaçl'lo de que eram senhores, e por sua conta corria a pesca do ba- t~alhau em quanto Inglaterra a não tomou.• Conforme o mes- mo autor, os Fagundes alliaram-se com os Pereiras Pintos de Breti;.ndos. A p. li do Theatro Genealogico de D. Tivisco Na- záo Zarr.o etc. Igualmente se diz João Alvares Fagundes, Capi- tão da Terra Nova.

3

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-f8-

A representaçl!o d'estas familias está hojt• no senhor conde

dt> Bretiandos. Existirl!o ainda no archivo d'esta ca~a memorias ou docu- mentos relativos aos factos quP aponta o autor supracitado'!'

(lS) pagina U. linha t~.

Sem pertendermos alterar a denomiuação aetual.«!'esta ilha, nem a esta indicar nova origem, lembraremos comtudo

a proposito da palaVI'a britão a 11eguinte passagem de Azura-

. «E j)Orqut: Pm terra eram tantos d•aquelles Guinem1, que por nenhum modo podiam sahir em terra de dia nt'm de noi- te, quiz Gomes Pires mostrar que queria sahir entre eiiPS· por

ra, na Chronica de Guiné, pag.

304 :

hem; e poz na terra um bollo e um espelho e uma folha de

papel no qual debuxou uma cruz. E elles quando vieram. e

;Jcharam alli

aquellas cou8a!l britaram o bollo e lançaram-no

a longe, e rom as uzagaias atirdram ao espelho até que o bri- taram Pm muitas pe~as e romperam o papel, mostrando que

dt• nenhuma d'estas cousas nflo curavam.•

(6) pagina U linha !9.

Ainda que o autor só flenericamente di). que reforça- ram a rolonia aii!UDS casal's tomados de pas11agem nas ilhas dos Açores, parecl'-nos que o seriam unicamente na ilha Ter-

e~treitas rela~Oes de familia e de commercio que

t'ntão havia t'ntre ella l' VIana.

cl'ira, pelas

A província do Minho foi das que mais concorreram para

u colonisação d'aqut'lla ilha. Sam diYersas as anti~as famllias

t~rce.irl'nses procPdidas e lifladas com fami~i.às de. Viima. ~·a­

proprm c~sli do Outeiro,

e dt>IIP procedeu larga e mui distincta postl'ridade.Sua terceira

nela Beatriz Fernandes de Carvalho, raBou em IM6, com Pe- dro Pinto de Viana; casa depois ali denominada da Carreira,

e hojl' repl'Psenlada pela exm.• senr.• D. Marin Izabt>J Fr:eire

d~Andrade, de Lisboa .• que por via d'aquella allian~;a ainda ho-

je possue n•aquella ilha e na de S. Jorge uma 'flrande casa.

· ti ml'smo sr. conde de Bretiandos ainda hoje pos!lue casa na Terceira, procedida de D. Maria de Sou11a mulher de Da- mião de ~ouza de Menezes, irmfl de Gon~:alo Vaz de Souza in- stituidor sem jlera~ão filhos ambos de Antonio de Souza Al-

coforado '~ de Cel'iha de Miranda da Ilha Terceira .

h

veJo RodriflO Alfonso Faflundes, da

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( 7) pagina 15 linha !0.

João Affonso. ·É este nome bem conhecido na historia marítima de Fr.m~:a, como marinheiro, hyd~rapho e Reogra-

pho. Deix<?u uma Hyd~gra~llia f1ll, hoje: existente na ·oiblio-

pubürou um Pxtracto t>m

tht>ea Nac1onill de P.dns. D ella se

1559, tempo Pm que já era morto o autor, com o titulo de-

YOfl!J(ltl avmtureua: dU capitaiflll Jean AlphOfl&e, Saintongeoil.

-FOI em ~ainton~P, pPrto de Cognac, que elle rstabeleceu o seu domicilio; d'ulu o appellido de SaintOflgtoia com gue o ve-

mos tratado depois de sua morte, qualificaçAo que ficou ser- yindo de titulo á pertt>nçl'lo frdnreza de o haverem por st>u conterrdnPO. Lt~n Guérin, tratando de JoAo Alfonso no seu livro iotitu- lado-Les Navigateurs Français,- nAo occulta que r.harlevoix •por falta de estudo a este respeito, e depois d'élle muitos au- tores traucezes, dizem ser nascido em Portu~al ou na Galliza, asserçl'lo esta, de que os estraogl'iros e em particular os por- tufluezes, altivos por sua antif.!a ~rloria marítima, se assenbo rearam para juntar este navegador aos que illustraram o st>u

paiz.•

. Charlevoix viveu nos annos que decorrem. de 1681 a f76f. As suas obras sobre as colonias e marinha de França demon-

stram bem que lhe oAo rattou estudo sobre a histona maríti- ma dt> seu paiz. NAo era elle homem que bmorasse a publira- çAo das Viap;ens aventureiras de João Alfonso. nem o trata- mt>nto de SaintOflgt'Oil que no titulo d'ellas lhe deu o editor, e que de leve privasse a sua patria da maternidade de tAo illus- ·

tre filho. Um escriptor mais, recente, o sr. Pierre Margry, no seu tra-

balhado livro-Les navigatioos trançaises-consagra a este na-

vegador uma boa parte da sua

.

.Nem uma palavra, porém

diz sobre a questlo da sua nacionalidade. Para o autor, JoAo Alfonso é Sl'U e todo SPu. Teve, porém, o sr. Pierre Mar~rv o cuidado de informar de es~çoos seus leitores da Hydrogrãphia de Joi'IO Alfonso. exhi- bindo extratos e olfel'l'cenóo juizos, que acceitamcs, 8obre os Jogares .que JoAo Alfonso descreveu por observaçlo propria. Por ali vemos que. quanto diz respeito ao Mar Roxo, costas do Malaba~ e de M~laca, e mesD;JO além d'esta.~,foi . fe],iz_rpente ·

pereorndo, exammado e descr1pto por Joi'IO Ora, é de notar que JoAo Alfonso escreveu o IWU--Iivro ~os aonos de 15M e Até âquelles annos os nossos escriptores das oousas da 1(1- dia apenas mencionam a ida âquelles mares e regiões de .tres navios francezes, no anuo de 1327, procedidos de Dieppe; um

obra.

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aportou na ilha de S. Lourenço (Madagascar); c:utro commao- dado por Estevão Dias, o Brigas de alcunha, portuguL'Z, que por travessuras que havia fl'ito no Rt>ino se havia lançado em França, chegou a Diu na entrada de junho d'aquelle anno,-on- de Mpois de obter seguro do mouro capitão da cidade, foi com tódos os seus prezo e mandado ao Sultão Badur, acabando ali miseravelmente, romo contam Barros, e Mendes Pinto na sua immortal •Peregrinação• cap. t6 e l!O.

terceira. commandada por outro portuguez, o Rozado,

natural de villa •lo Conde, tiJi perder-se na costa occidental de Çamatra Pm uma bàbia pt>rto de Paoaajú, cidade do tt'i dos Ba· tas, que d'elle houve alguma artilheria. Nota a historia de FI'BDÇa ainda, no anuo de t5t9, uma Sl'-

gunda expt>dição áquellas tt'Wões, a qual sabida de Dit>ppe tambem. tinha por termo as Molucas, e por commandante João Parmentier que foi morrt~r na mesma col'lta do sul de Çama-

tra,, pelo que fic«:>u mallograda a expedição e .o navio voltou ·

d'all a França.

· Se

tante, apontariamos o oecorrido' em Diu ao Brigas, para mos- trar o pt>rigo de qualquer navegação t>uropea isolada e trato

com os povos d'aquellas regiões, por aqueltes tempos. Por outra parte o zelo e vigilanciu (lo Governo Portugupz em repellir d'ali o concurso de ~ualquer outra nação da Eu- ropa não podião então ser excedtdos; as instrucções secretas

e verbaes dadas a Nuno da Cunha ao ir governar u India as- sãs provam o que levamos dito. Veja-se Sousa, nos Annal's de D. João III.

A passagem de Portuguezes conhecedores das nossas na-

vegações e conquistas ao serviço de França el"d então mui fre- qUflnte, uns pm· despeitados e mal premiados se passavam;

outros captivos por corsarios franct•zest que desde o reinado de D. João II, e por todo o de D. ManuPt e D. João III infesta- ram as costas do reino e os mares dos Açores

govt>rno Franc~>z (em nome da liberdade dos mal'(ls! I)

favorecia desfaçadamente taes actos. o caso occorrido com D. Pedro r.astello Branco e com Fran- çisco J de França. narrado por Couto, mostra bt'm as ideas d'es- te monarcha sobre taes actos. D. Pedro roubado por 1:orsariós francezt>s ao voltar da India, foi a França I'('Ciamar a sua fa- zenda. Francisco I não tevp p~>jo de uzar á vista d'efle d'umas estribeiras e d'un11 anneis pertencentes á faz~>nda gue fôra rou- bada. D. Pedro á vista das negativas e despejo d'el-rei, o teve lambem de lhe dizPr que aquellas estribeiras de que elle usa- ra no dia antt>rior, e aqut>llt>s anneis que elle tinha nos dedos, os mandara elle D. Pedro tàzt>r e eram fazenda sua. Por estes meios foram os francezes desde o comt>ço das nos-

a historia da nossa dominação no Orit>nte não fos11e bas-

A

O

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!taS navegações lonl!fqua~. sPnhores dos nossos roteiros, car- tas e dianos marítimos, marinht>ÍI'Os e pilotos. Como disSt>mos, o sr. PiPrre MarJ!ry n.>conlwce QUI' João Aftonso descrevPra por ObS('I'Va~;ão propria, o que o mesmo João Atronso confessa nos extractos olft>recidos por aquelle sr., o Mar Roxo, as costa~ do Malabar c de Malaca. Ora, perguntan.>mos em boa ronsciencia ao sr. Pit>rre .Mar- J!rV, fez João Atronso es~es exames n'aquelles mares e n.>lriões ao· serviço de Frdnça'f O que o levaria ao Mar Roxo, onde os nossos capitães só então iam com fins puramente militan.>s 'f Acaso leria então o !'leu Governo vrstas sobre o córte do Suez e a navigabilidade d"aquelle mar 'fI! · Quem lhe daria a audacia de ex:tminar no sl'rviço de Fran- ça, as costas do Malabar e as de Malaca, t'lltão os loJ!ares mais frequentados pPios portuguezes'f Nós não hesitamos, nem comnosco os quP tiveram alguma idéa da nossa dominação da lnflia por aquPIIes tempos, em ar- firmar que as naveJ!ações de João Alfonso por aqUt•llas regiÕf's só poderiam ter lo~rar ao serviro de Portugal, sua patna, l' nun- ca Jamais ao de França, onde depois se laru:ou. Tão longa, mi- nuciosa, fPliz e então ignorada e não s;•bida navega~;ão aú S('rviço de l''ran~:a é inadruissivell' insustentavel. João Atronso foi um por·tuguez lançado em Fr-duça; as~ás o lemos demonstrado. A historia vem aiuda em auxilio da nossa argumentação, ·

mas a historia irrefr·agavel. Não é IM'nhum el'criptor vaidoso das nossas glorias mari-· limas que se aproveitasíle da sinceridade de Charlevoix,quem nol-o affirma. É, nem maitJ, nem menos, o nosso querido frt>i Luiz de Sousa, escriptor muito anterior a Char·levoix, quPm nol-o diz 11as se~ruintes palavras, fallando, Pm 11uas memorias e documentos para os Annaes de D. João III, ao anno de t333. oPor carta de Elrey, de 3 de fevereiro di' t333, con11ta d1• um João Atlonso q11e andava levantando com rrancezes; e que no mesmo tempo andava Duarte Coelho rom armada na costa da Malagueta, e que el-rci lhe mandava que viesse a eFperar as naus da lndia Por aqui vemos mais que João Alfonso se tinha ao serviço de França tornado respeitavel a l"ortugal. Na verdade as quei- xas do nosso Governo contra Plll', chelo!aram a obri1.mr o GOver- no Francez a lei-o por· allo!Um tPmpo pn•so 1•m t•oitiers. Fique, pois, João Alfonao d'hoje em diante havido por por- tuJ{uez,-porém não fia lealdrtde, e sirva a qualiflcaçilo de Saint011geois, que rlle j;\mais usou, mas que lhe foi dai:ta depois de morto, apenas para indicar que elle tomára por patria adoptiva Saintonlle; ou então sirva pa- ra mostrar o quanto os francl'll.es de então, como os d'hoje, o

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ambicionavam seu, e o pouco escrupulo em forjar os mf'ios de prova com que podessem sustt>ntar suas aereas pretensões. Terminando este artigo da presente carta, lembraremos a grande possibilidade de encontrar na propria Hvdrographia manmt:ripta de João Alfonso a confissllo da sua qualidade de portuguez.

do sr. Piérre Margry, no extracto que d'ella of-

ferece. á cerca dos portos e costas de l:lortugal, coufes~>amos

que nos parece bem suspeitoso.

O silencio

Extracto da carta ao .exm.redactor do-JoNUJl do Commer- rio-José Maria Latino Coelho, por João Teixeira Soares. Sobre a qualidade de portuguezes de tres grandes rumegadores do 11eculo XVI; João Af{onso ao llei'Viço de França, João Femande11 e Pe- dro Fe1'nandes de Queit·oz, ao de 1Ie11panlaa. Publicado no11 follte- tins do-Jorgense-n.•• 90 e. 91 de 1875.

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ADDITAMENTOS E NOTAS D'ESTA EDIÇÃO

A publicação do Tractado das Ilhas Novas Pm t877, apezar

de ~la maior parte, só conter noticias de ilhas phantasticas, ainda assim, provocou varios Pstudiosos a fazer indag-dções com o fim de determinar melhor os factos apontados por Fran- cisco df.> Sousa, com relação á colonia portugueza estabeleci- da no Cabo Bretão no primeiro flUartel do seculo XV I. SPguida a pista indicada, foi na farnilia do sr. conde de Bretiandos, rep1·e~entante dos Fagundes de Vianna, flUe se

de Doação a Julio Alvares Falltlndes das ter-

ras por elle descobertas; e nos archivos da mi-som cidade se encontraram alguns outros dados valiosos publicados nos n.••

e 3 do Boletim da Sociedade de Geograpbia de Lisboa. Em proveito dos Pstudiosos aqui se reproduzem os docu- mPntos então achados e que tem immediata relação com a no- ticia veridica, posto que vaga, da rolonia portul(ueza do Cabo Brt•tão incluída no Tractado das Ilhas Nor!Us. Todos estes Plementos foram aprovPitados por M.• R. G. Haliburlon, durante a sua visila a S. Miguel, no inverno de t88.\, para uma memoria,· que leu em setembro ultimo em Montrí'al na 56.• spssão annual da British Associntion, que em breve. será publicada pela Royal Geographical Society oC Lon- don. O conhecimento das localidades, aonde por largos annos tem residido o autor, habilitou-Q !1 esclarí'ce•· o assumpto, co- n'Io tambPm a tornar conhecidos alguns factos conservados pela tradicçAo local, comprovath·os da occupaçClo portugueza ilo Cabo Bretão. · . A doação a João Alvares Fagundes das terras po1· elll' de~;­ cobertas antes dE' t5it, foi pela primeira vez public~da pelo !'r. E. A. de Bettencourt ( t) a quem se deve o seu dPseJado ap- parecimento.

encontrou a f arta

i

. (I J Na lli8t. d<Jt descobrime~~tos guerra~ e C01U[Ui8ttu do. Portuguues, mn terras do ultramuJ,r 'IUJ8 1eculos XV e XVI. Lisboã, 1881-1882, in-folio. Ly-

tbographada, p. 132.

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Estas terra!l descobrio Joam ClllJ•ares por um seu pilolo que elle descobrio (1) •••• Capitães da ilha d4 Madeira.

•Saibam quantos este estormento de trellado de doaçam dado em pubrica forma per mandado e autoridade de justiça virem que no anno do nacimento de nosso Senhor Jesu Christo de mil vexxi ( I521) annos aos xxij dias do mes de mayo em a praça da villa de Viana de Foz de Lima perante Alfonso Lopes vereador e loguo tente (loco tenente} de juiz em a dita villa em ausencia do doutor Francisco Mendes juiz de fora com alçada em a dita villa e sseu termo por elrrei nosso senhor &. pareceo Joam alvares ffagundes cavaleiro da casa do dito senhor e apresentou e per mim tabaliam leer e pubricar ffez ao dito loguo tente de juiz huma carta de doaçam escripta em pergaminho e assinada com o pro- prio sinall d'elrrei nosso senhor e aseellada do sseu seello pendente da quall o trellado de verbo a verbo tal he como sse ssegue:

" D. Manuel per graça de Deus Rey de Purtugall e dos Alguarves daaquem e daalem mar em Affrica Senhor de Guinee e da conquista navegaçam comercio d'Etiopia Ara- bia, Persia c da India etc. a quantos esta nosa carta virem ffazemos saber que nos demos a Joam Alvares Fagundes ca- valeiro da nossa casa huum nosso alvará em que sse·contem que sintindo nos asy por servyço de Deus e nosso e por lhe trazermos merece nos praz que indo elle descobrir terras lhtt darmos e ffazermos merece da capitania de todas aquellas ilhas e terras que elle descobrisse asy e pella maneyra que sam dadas aos capitães das nossas Ilhas da Madeira e Aço- res e asy nos prazya por quanto elle nom tinha ffilho macho ssenam uma ffilha que a dita sua ffilha e todos sseus ssoces- sores asy por linha mascolina como ffemenina podessem her- dar a dita capitania sscm embarguo da ley mentall e que is- to sse entendesse naquellas cousas de que já nom ffosse pa- sada alguma carta de merece. E que nom podesse ir nem

1I) Talvo>z aqui se disi():lse: e teve a muma capitaflfa com a jurildição

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se entendesse esta mercee da primeira terra do Brasill da banda do norte des contra o sull senam pera o norte se- gundo vimos per o dito alvara elle ffoy a descobrir e ora nos ffez certo por testemunhas dinas de ffee que elle achara as terras e ilhas seguintes, asaber :=a terra que se diz ser ffir- me que he des a demarcaçam de Castella que parte da ban- da do sull com a nossa demarcaçam atee viir partir com a terra que os Corte Reaes descobriram que hee da banda do norte aas tres ilhas na baya d'Auguada na costa de nordeste

e sudueste e as ilhas a que elle poz nome Fagundas sam es--

tas, a saber-Sam João e Sam Pedro e Samta Ana e Santo Antonio, e as ilhas do arcepelleguo de Sam Panteliom com

a ilha de pitiguoem e as ilhas do arcepelleguo das onze mill

virgeens. E a ilha de Santa Cruz que esta no pee do banco. E outra ilha que se chama tanbem de Santa Ana Que foy vista e non apadroada, das quaes terras e ilhas lhe ffazemoi doaçom e niercee da capitania dellas asy e pella maneira que teemos dadas as capitanias da nossa ilha da Madeira e das outras ilhas com todas as craussolas e condições, decla- rações, graçü, mercees, privilegias e liberdades conteudas e declaradas .nas cartas das ditas capitanias asy no que toca haa jurdiçam como aas rendas, e em todo o mais nellas con-r teudo. E quanto ha ssocesam avella ha como no dito alvara ffiz mençam ·e.m~s nos praz de lhe ffazermos mercee e do~ çam pela mesma maneira ssobredita :tas saboarias brancas e pretas de juro e derdade das dita'! terras e ilhas. E porem mandamos aos veedores da nossa ffazenda e a todollos nos· sos corregedores juizes e justiças, contadores vizinhos e mo- radores das ditas ilhas e terras que ora sam e ao diante fo- rem que cunpram e guudem e façam em todo comprir e goardar esta nosa carta ao dito Joam Alvares Fagundes e a sseus ssoce!.SOres e o metam em posse dellas ssem lhe nisso , poerem duvida nem embarguo algum por que asi he nosa mercee avendo respeito a sseus sserviços, e como a ssu11 pro· pria custa e despesa elle descobrio as ditas terras e ilhas e

ffez nisso muito gasto e despesa. E por ffirmeza de todo lhe mandamos dar esta carta per· nos .asinada e asseellada do

'

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nosso ssello pendente. Dada em a nosa mui nobre e sempre lleal cidade de Lixboa, aos xüj (13) dias de março, Manuell da Fonsseca a fez, anno do nacimento de nosso Senhor Jesu

Christo de mill v"Xxj (r 52 r). E quando haa jurdiçam q~e to- ca ao civill entenderssea que a aja e que usara della asi e na maneira que ora usam os capitães da ilha da Madeira e lhe

he limitado por nos. A qual carta asi apressentada o dito Joam Alvares rre- quereo ao dito loguo tente de juiz que lhe mandasse della dar o trellado em pubrica forma por que lhe era nec.esario.

E visto per o dito loguo tente de juiz sseu dizer~ a dita doa-

çam como era carecente de todo vicio e ssospeiçam inter- pos em mim tahalliam sua autoridade hordinaria e mandou

que lhe desse o trello (sic) que pidia em pubrica forma, o qual mandava que vallesse e fizesse inteiramente fee como

o proprio original!. Testemunhas que eram presentes Gon-

çallo Pereira cavalleiro, E~as Lopes

publico e judicial

senhor que esta escrevi e aqui meu

pubrjco sinall. (Loga1· do signal Publico.)

.

Anes Piloto

No rnappa lia Arn•·rica do Atlas de Lazaro I.uiz de 1563 (I) ha junto ao Cabo Bl't'tlio uma região com a leg~nda- A len-a

do faV1·ador que descob1·io J011om Aluert>s, e ao íar~to ~otre iS e

6.9 flrâos de latitude do norte urna ilha denomioada-J.• Alvez (João Alv81'el'l) a qual em outros mappas tem o nome de Fa- ~unda, o que dt>rnonstra nAo só havt>r idt>olidade do nome, ruas tambPm ter-se com~ervadot>rn Portugal a noticia das dt·s- cobel1as t>tl"ectuadas, pPio fidalgo de Viaona.

I I I Cujo Fac-tiimile acQillpanba a Hill. dw DeMXJbri'llll!fltw do sr·. lt A. Bettencourt.

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JOÃO

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ALVARES

FAGUNDES

Um dos descobridores da Terra Nova

QuerPm alguns gen.ealogicos que Pste intrepido aventureiro vianez proceda dos celebrados Facundios ou Fagundes, fidal- gos portuguezes muito encareci•los em nobiliartos e que pa- t·ece devem sua origem a uma fraqueza amorosa de um cardeal s. Facundo com uma illustre dama romana, de nome lzabel de Bolonha (I). Esta opinião é a que mais commumente se ve- rifica das arvort•s genealo,ricas de algumas fdmilias distinctas do Minho, nas guaes, se bem que por um modo extremamente vago e sem indtcaçõeiJ chronologicas. apparece o nome do ou- sado navegador com estes títulos Cap;tão da Terra Nova e Se- nhor e Descobridor da& Ilhas do Bacalhau. Assim o encontramos na arvore llenealogka de Antonio Pereira Cyrne de Caslt'O da Silva Bezerrd Fagundes, de Vian- na, na qualidade de irmão de Catharina Alvares Fagundes.e,;- posa de Pero ou Pedro Gomes Pt>reira do Lago, senhor.do pra- so de S. Salvador da Torre. Na casa de Calheiros, uma da;; mais antiJrnS da ribeit·a Lima, apparere o nome de João Alvares Fagundes, •senhor da ilha do Bacalhau e seu de,;cubridor.• na ·qualidade de avô de Francisco FagundPs e este, pae de Gembra Jacome Fagun- des, casada com Garcia Lopes Calheiros. Estas referencias, porém, npparecem, como dissemos, des- pidas de toda a indicação chronologica, sPm authoridatle. sem esclarecimentos e não faltando guem com bons fundamentos duvide da veracidade d•eiJas. N estes termos, pois, não nos ba!ltam estas allusOes partieulares, escriptal! no seio das fa- mílias e quasi sempre por chronistas apaixonados ou eo~tipen­ diados, par.1 considerdr-mos João Alvares Fagundes desceu-

III É tradicão constante que ao tempo do contracto (era de t2á8. vul-

do Lima) um cardeal do ti-

tulo de 11. Facundo ou Fagundo, gue de Roma viera fugindo ao castigo que n'elle queria executar o papa,. pelo msulto que commettera de tirar d'um con-

vento umll donzella chamada li:ilbel de Bolonha, de quem tivera filhos e d'estea procedem os Fa.gundes d'esta villa que permllllCCIIm com esplendor de nobre-

za antiga, desde esse tempo e lhe deu El-Rei

!Alfonso IIII a superintendencia

concedendo-lhe por armas

cinco chaves de oiro um campo azul, em memoria oas cinco portas da muralha, conl'orme ueam seus descendentes. Não consta o anno certamente em que se passou isto nilo obstante dizer t:ardoso iAglolog. Lus., p, I, dia 6 ile fevereiro, p. 86_0) que no de 1253 dera o foral ll nossa villa, por que n 'esse anno se ce:e- br,ana o contracto oneroso.)

da obra lfeehar a villa com muros) e a seus ftlhos

gar t 296,~) se achava n 'esta vilfa Ide Vtanna Foz

1

Memorial Anti~ da YillG de ViaMa foz do Li111a

por Antomo Machado Vlllas-boas (medito).

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dente d'aquelles fidalflos, que já no seculo Xlll acudiam com

;\ obra q_ue Alfonl!O III emprehendera em

Vianna. Em escriptos de mator credito o vemos trnctado apt>- nas por /ldalgo t'lanl'z, caralleiro da caMJ de El-Rei, claefe da familia Fagundes e como tal declarado por D. João m no bra-

d'armas que deu a Pero Pinto sobrinho -do illustre aven-

são

tureiro, a 9 de- st>tt•mbro de 1527, em ·f:Oimbra (I). Esta rt>fert!ncia, ft>ita 'por o ~uctordos Solarts e pondo mes-

mo de parte a qualidade de ~ent>alo~Zico imparcial e o cunho de Vl'racidade que apparece em todos os seus e!ieriptos, affi- gura·s€'-me bastanlll para provar que João Alvares Fagundes,

Pm ra!'ão do ft>ito por t>lle prdtticado constituiu de per si uma outra familia, indept>ndente da que houverd sido nobilitada por Altonso Ili em 1253.

O que se me afti:mrd exacto é que os antigo~ 8t'nhores do

appellido FallUtldl's, vt>ndo os favores que do sobt>rano rece- bera em 1527 o intrepido na,·egador não hesitaram contai-o

entre os illu~tres de sua estirJW, procei!so facil, por meio do qual os annaes de familia pod1am adquirir mais profundo lu- ztmento. Querem tambt>m alguns escrwtores que João Alvares Fa-

gundes sahisse

do solar do Outeiro, oa rregut>zia de Moreira,

conct>lho de Ponte do Lima. Não me parece com muito funda-

mento esta asst>rção. ·

do Outeiro, situada na freguezia de Moreira do

donativos valiosos

A casa

Lima, no loJrar dus Lages, no extremo do qual fica um outro com o nomr ele Roubão, é obra de Rny Fagundes, arcyprt'Ste

de Vianna e lllho de Rodrigo Ennes Fa(lundes,

t'gualmente arcypreste da mesma collt>gtada. t<:ste Ruy Fagun-

vt>io a instituir vinculo por mando ou testamento de 5 de

des

setembro de 1M3, éroca, aproximadamente que deve ser to-

mada como da fundação da casa. cujas ruínas ainda ~e osten- ta em ré. Por 0111a dete1•minação espt•cial nomeou Ruy Fagun-

des

por admini11trador de SI'U vinculo a seu Olho Balthazar

Fa~&undf's, morador em Vianna, pessoa de muitos creditos, fl"O- vernador do castello, qualidade que et~te fl.dalflO não om1tte em seu testamento, escripto n'aquella villa a 6. de janeiro de

1596

Até o tt>mpo em qut> D. Diogo de Lima foi feito govl'rna- dor do castello estiveram n'elle esculpidas as armas dos Fa- ~undes, como t•videotemt>nte o affirma o padre Antonio Macha- do Villas-boas em seus apontamentos. Ostentam ainda hoje as ruinas d'este solar do Outeiro va-

da cotlegiada

11) Solares-manusct•ipto da livrat·ia de Antonio de Fat·ia da Costa Vil- las-boas, da casa da Agrella, na villa da Barca.

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rias Je~rendas que, mais por curio!las iJue por fazerem parte do objecto principal d esta noticia, aqui deixo apontadas. Sobre o portão que dá serventia para o rocio ou tern•iru está um escudo coroado com O" llymoolo tímbrico dos FPI't'i- ras, isto é, uma cruz no meio de duas alias ou azas. No corpo do. brazão que é espheric.o estão repl't'!lentados os appellidos Pel'l'iras e Fagundes, St'm mais ornato Dt'lll DPnlro do rocio e sobre uma peqoPna porta que dá ingres- so para um caminho da quinta l'Stá outro brazão com os ml.'s- mos uppellidos, diversificando apenas no timbre pela auzencia tias alias. A cruz que l'ncerra o e!lcudo tem esculpturada a imagem de Christo. Serve de appoio a este emblema ht'raldi- co uma espl'cie de aUicos, sem ornamMto!l nem primores, no corpo dos quaes se lê claramente l'Sta inscri~ão:

MORGADO DOS FAGUNDES.

QVE INSTITVIR -<r FAGVDI•:S ANO 1003. FOI PRIMEIRO ADMINISTRADOR B.Aa FAGUNDES SEU FILHO QVE ESTA OBRA E CAZAS FEZ.

HA ·INSTITVICAO ESTA NA· CAMARA DA DE VIANA CACECA DO MORGADO

158:J.

VILLA

No ·extl't.'mo norte da quinta, já !!Obre o togar de; Roubão e l'm parede poueo ell~Vada l'Stá entalhado Ulll eSCUdO, já não oval,_ com o symbolo heraldico dos 1-'agundes c a inscripção ·

P. A.-B. F.

segmnte:

MORGADO DO!' FAGVNDE~

1591

isto (•=primeh·o adminislrador=e=Balthazar Fagundes. Este Balthazai' Fagundes parece quP, depois de enviuvar, vl'io a fazl'r-se cll'rigo, obtendo mais tarde a abbadia de Mo- rl'ira, onde fallcceu. D'este Balthazar Fagundes ficou uma H- lha de nome Maria Fagundes, que casou com Fl"cmcisco l>erl'i- 1'11 l'mlo, senho1· do Sl'gundo morgado de Berliandos.

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.,--

,./

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Aqui temos pois tres ramos Fagundes, todos f'I"Jahnente distinctos, e entre os quaes não N'pugna a ideia de algum pa- rentesco, como parece ha vivo interesse por parte de alguns nobiliarchistas, mas que podinm muito bem não o terem.

D. João III em 100:1 deu carta de fi!lalguia a um

Quando

descendente de João Alvares, é de presumir que este ramo nAo

tosse o que tres seculos antes havia merecido l'flllal distincção a Atronso IJI. O que póde bem ser é que entre os areyprestes

de Vianna 1\uy e Halthazar Fa:.rundes e o intrt'pido navegador.

t•xislisse algum parentesco, como alguns se t>mpenham em pi'OVar. Nada d"isto importa rrincipalmente ao nosso assumpto. O vulto de João Alvares Fagunde~ dezenha-se drtttincto st•mpre na sociedade do seu temJio e pt•na é que as monogra- phias genealogicas mais se empt•nhem em revindical-o do que

t•m seguir-lhe os passos antl'S e dP.pois do temerario feito. O mais que d'ella podemos aqui averi~Wnr é o se~ruintl',escripto por um narrador que escreVI'U linh;ureus de familias illustres, cujo manuscripto existe na casa da Agrt'lla, na villa da Barca.

São estas as suas palavras :

. «João Alvares Fagundes é numerado entre os varões ce- lebr-es que procreou esta notavel villa de Vianna, pelos ser-

fez á coroa de Portuflal. Descobriu á sua custa a

viços que

Term Nova do Bàrnllaau. s~>ndo elle mesmo o cabo que ICOVer- nava O!ó! ~eus navios. Por esta iminentt> acção se lhe conferiu

a mercê da capitania d'ella e das mais ilhas que n'aquelles

mares del!cubrisse, na fórma e maneira que se unha concedi- do aos capitães da ilha da Madeira e Açôres, com todas as dausulas, condições, graças, privile~os e liberdades declara- das .em suas doa~;ões, de que ellt•s uzam. Passaram por tem-:

pos estas terras á dominação dos ingll'zes, dizem que por ven- da que fizeram t!eus herdeiros, por serem dl'maziado frias. Vivia este lu~roe ainda na sua patria pl'los armos de um;

e foi sepultado na sua capella do Santo Christo que tinha na

t:OIIeJ.[iada da egreja matriz, que é enterro antigo da família tios Fagundes, dtl que t•lle era chefe nobilíssimo, onde se v~em

suas armas, sem ilivisa. Hoje a possuem seus descendt>ntes, co'D os nobn•s monummrtos que ahi estAo. • Em outr·o manusrripto existente na livr;u·ia da Agrella

está a memm·ja do illustre navegador traduzida n'estas pala-

vras:

•l<'oi este grande capitão heroe nobilissimo a quem deve este reino o de~cubrimento da Terra do Bacalhau, de cuja ca- pitania se lhe fez mercê, com os P.rivilegios, franquezas e li- berdades que tem o~ capitães dM Ilhas da Maddra e dos A~o­ res, assim como elles tem nas cartas das ditas capitamas. El!la terra do Bacalhau é á ilha de S. Lourenço a que chama

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o Atlas •terra nova• e diz qUl' os porlUilUPzes a povoaram, ma~ pela inclemencia dos ares e sua grande frialdade a TJeram a

largar. ulsto

tanto.trabalho a descobriu e que tão livremente foi aoondona-

da e acct•itarmn os iDf[IPze~. onde

que por nPjlocio o trazl'm aos sPus descobridores. •O tempo t•m que fallect>u estt' capitão não o sabt>mos.

!õ'ua mPmorJa achamos no anuo de USIO, que com outros ca-

valleiros

!'ant'Anna da dila vllla t~l de janeiro de UHO) até o de 1515 somente. •Tt-m esta familia po1· arma~.

Parece que João Alvares Fagundes mra casado, e qut> d'eilte matrimonio houvera uma filha do nome (). Violanh•, a

qual

a t6 de abril de IMS fundaram uma capt>llu na t>greja matriz

de Vianna, em cuja instituição (I) t~e lt>em as palavJ•as seguin-

tes:

Violante, que se t·anta na Egreja da Villa de Viana, na capei-

la do Crucifixo,

•Aos 16 de abril de IM8, na villa de Viana do .Minho. ca- da morada dt• João de l'ousa, fidaljro da casa d"EI-lll•i e sua mulher O. Violante fizeram seu testamento em 9ue dt>tl'r- miuava serem seus corpos ent«.>rrados na Egn•ja d esta villa na capella do Cruxiflxo, elle João de Sousa no moimento uo

sas

uCapella que instituiu João de Sonsa P sua mulher D.

hoje fazem tanto bacalhau

é obra do nosso João Alvares Faf(undes, que com

de Viaona se achou na fundação do mósteiro de

u

vit>ra a casar com João de Sousa. Ambos t>stt•s fidalgos,

e de que ~ão adminiiltradort•s SPus filhos.

m·co que parte com a capella-mor da EJereja, uondl' et~tú a tampa de st-u sogro, e o. Violautl' no outro moimt•nto que I'S-

to st•u testamt>nto muito tempo antes de falll'Cl'r. no qual avm-

culava todo o V;JI-vt•rde (i) e casas .em que dt>ixava 1sto ú ca-

pella do Crnxifixo na Egreju-matriz, com seus tlllCHrjlOS pios, como melhm· e maiK claramente constar do ~o~t•n teKtamt>uto do

dito Fagundes e dt>pOIS de fl'ito, roi dt>scobrir a Tl'l"rd Nova,

tomando dinheiro emp1-e:~tado, de que

ficaram muitas dividas por sua mm·te não sendo possivel ao filho dar cumprimento ao tl'stamPnto do pat> por ficar muito Pmpenhado, porém elles tt-stadores havt-ndo dei!em{l('nhado os

fazendo muita despeza e

do lado da Suchristia do Senhor Jesus. IJisseram qut! seu p;~e João Alvares Fagundes havia l!•i-

bt>ns de seu fallecido pae, novamente tomavam o dito "\'ai- "

Verdt>, assim como está, ce1'Cado com sua horta, ete

I t )

I21 E uma quinta qut~,

No archivo do govtil'no civil de Vianoa, secc4o de Provedona1.

por compra, pertence hoje ao desembargador

-

Antonio Emllio Col'l'éa de Si Brandia.

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Ahi licu, com verdade o que existe escripto sobre o iotre- pido navel{ador. Podia a phantazia fifl'urar muito nos espaços por averiguar e que nAo pouC() larfl'amente sP descobl'iSI!e, mas nem isso é usado em escriptos d'P.I!ta índole. nem, quando o fosse a memoria do illustre lldalgo lucraria com os Improvisos do romance.

JOSÉ CALDAS,

socio correspondente

da Sor.ü.dade tk Geographia de Lilboa.

!Boletim da Socil>dade de Geogl""dphia de Lisboa. N.• !, de Dezl'mbro de 1877.)

TESTAMENTO DA

FILHA ·DE JOÃO FAGUNDES

ALVA~ES

Em .Nome de Deus, Aml'n. Saibam q•tantos esta manda e testamento virem como nós João de ~uza e D. Violante, mo- radon•s em tsta villa de Vianna, estando l'm todo o nosso sizo P. entt>ndimt•nto cumprido assim como Nosso Senhor Jesus

r.hristo noM deu, dissemos que por descargo de nossas cons- ciPncias, f.IZemos. nossa mdnda e tl'stamentO pl'la maneira se- J!Uinte: Primeiramente encommendamos no11sas almhs a Jl'sus Cht·isto No,;so ~t·nhor que as creou e reO'Iiu por sua Santa Morte e Paixão que haja miserir.ordia tle nos· perdoor not~IIOS peccados que contra Elle temos commeUido; e assim pedimos

a sua Madre Santa Maria e a toda a côrte dos Ceos que lt•nham

por bl'm de lhe ro!{llr que de nossas almas se quf.'ira am,•rl'ct•r,

Amen. Mandamos que quando NoSS(t &>nhor se aprouver de levar nossos almas, que nossos corpo11 sejam ·enterrados na Egreja d'esta vi lia, na capella do Cruxiftxo: PU JoAo de Sou8a, no moimento, no arco que parte com a C<tflt'lla-mór onde está

a cumpa de meu 110gro (t); e eu O. Violante, no outro moi-

.Mandamos que

nos entt:'rrem com o habito ~e S. Francisco, e darão de es-

mento que t>stá contl"d a sachristia de

Jesus.

111 NilO tem este moimtÍnfD, hoje em dia, nenhuma inaignla ou legenda

que authentiqoe tio imporla!lte reterencifl. DeCóra-o, na J)IU'te s!IJII!I'Ior, ums

estatoa de cavallelro, ve~tlndo tunlca mortuaria e gorro de Jl!'Ofe8ao, e segu- rando sobre o peito uma espada embebida no estojo. Na paréde que sene de

na posi-

apoio li. pequena abóbada e a onde" os pés da estatua vlo embeher

ae,

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mola a cada um dos mosteiros ••

no· illil.de nossos fallecimentos, a cacJa um de nós, nos digam cenr missas com todo o ofticio dP- mortorio de nove lições e

ladainha :

bradaclio, doze alqueires de trilo(O e doze cantaros de vinho e ~eis tlu~ias de _pl•squadas, repa_rtidas Jll:la maneira seA"llinte:

A' egreJa da .vil la quatro alqut•JN'S de tngo e quatt9 cantaros de vinho e duas duzias de petlquadas. A' .Miser1cordia tres al-

queires de.trigo f' tres cantaras de vinho e uma duiia de pes:

quadns~ ·e· a l'. Francisco tr"es alqut•ires de trigo, Ires cantaros de vinho e. duzia e meia de pesquadas: e ás freir-.1s de S. Ben-

to dons alqueiJ-es df' tri~o l' uma duzia de

!'aJitaros tle vinho. Mandamos quE> no anno 11omente de nosso- titllecimento nos digam e façam a cada um de nó;~ COIJ!O ao presentl' ·e repartido da mesma nmnPira; e mandamos que a ··adll um de nós nos dig:tm um sabbadal, unia _lnissa cada subbado com sua olferta de pão, peixe e vinho como é cpstu::

me

seu triutarió de Sihlto Amador~ matidamos que dt'em á confra-

ri!J da. Mis~ri~o~~i~ d'esta \'i.lia, de:t'smola p<.!r {'atia ur~1 de nós,

nnl ren;; à ronft'i\Ma do Esp1rito Santo, qumlwntos rt'IS por Cii·

da um de nós; mandamos por· cada um de nós nos vistam çin-

co pobres

se fOJ't'rn mullll'rfls, saias e sahinhos. Mqis dizemos que nosso

Pae Jo~o Al~es Fagund~.>s~que Santa. Gloria Hajq fez sua mao-

da; mm to: temp_o antt>s ·df' seu

tnmn"a parar sr· todo· o V:li-Verde 11) ll outros pr-.tzos, e que deixou. isto á C'apelln do .Cl·Udlixo qu1• está .o'(lsta egrejo, r.om c~ertas·obl'iJEaçõcs de missas ~·outras cousas. s~,l!'undo se coo tem no iestamento do dito JoAo Alv~s; e df'POiS d11 tstat· ó ditô fPitaiM,to feito foi 'desc(lbrit·. a 'ferra Nova, em qtte fez mttitff tlespeza e tomou dinh.eit·o empreitrldo, do q1re ~aram muitas. di"

tJidtu, o mais nosso casamt'uto assim, que)Jua.J1do veio, por su~ morte, além do nosso cllsllmento e dos dmlteJros que se pag~~ •·am, cousa nt•nhutna por onde se podesse fnz~.>r nenhum cum- prim~nlo·que elltJ. mandava t> d~ixava que lhe fiiesst>m na di-

cruzados. Mandamos que

ao dito dia lhe darão por cada .um de nós, de o-

pt>squadas e dons

em uin armo; - matidliinos qtie· nos digam a cada um

de oIanda; se. furem homens lhes darão pellótes; e

falleC'Jmento; t>m a qual madda

~ãode IÍomem lei !(O, está uma legenda que diz:. uAt/ui jaz Joham de Soo;à

dAJ MugaUwli& e•eu fiUw eo.me de Sovzt.t. ~bre 1'8tas palavras está aberto o

t•>~eudo de Souza& Magalhães, com seu timbn• e paquires. ornamentaes. No JlO'"

lál" I'Xteriot• da capella; ila banda do Enngelho, 111-iltl a se~minte legenda, :~~ua­

si

apa!tada. Tem olwi~ elta ca:pella de I~ 7/IÜAM cada semaoo e di.•:.

cadã mez, pela alma de Jolwim de ·sov;ta lflagiJl/uiü e 3U(I. mulher. ViOlante

e,_ stu fillw Cllmw de Sovza; Em Perpetro.

·

.

fi) Vw-Verde é o nome de,uma·.quinla no Jogar da Arquinba proximo

a Viánna, <rue d'll$ta ramllia, passou por compra, a ser proprieilade doi! coné'-

IWS regrantes de S. AgOBtinbo, e d 'este8 por lli!IJal titulo li casa de Terenna.

boje· propriedade do dtisembargadpr Antonio Emillo Corrêa de Branditu.

alguma coisa de cu-

rioso em o n.• ;203 da Actualidilde do Porto, d'este anno oe 1877.

Solire a historia d 'esta quinta e.sc•-eveu, quem ist,o refere

1

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ta capella, nem a manda, n'esta parte, não houve etl'eito, por

n~o haver alli por onde se fizesse; porém nós dizemos que nós outros tpmámos o dito Val~Verde, assim como está cercado,

com sua horta e casa, em nossos terços, o qual tomamos para

sempre em quanto o mundo durar, que nunca possa vender

nem alheiar nem descambar e nossos herdeiros e succes-

sores

xamos a nossos filhos Cosme de Souza e Damião de Souza am- bos, que estes o haJam em suas vidas, e por suas mortes o

hajam seus filhos d t>lles, O!! mais velhos de t·ada um d'elles sempre atê o fim do mundo fique sempre aos filhos mais ve-

lhos

quelle que o tivPrem e que ~endo caso que alg11ns destes her-

dt>iros que assim o houverem falleta sem ter filho herdeiro e IPgitimo que herde a _parte d"elle que tinha o pae, em tal caso ficará todo ao que v1vo fôr; e o deixamos assim como nosso

a filhos como aos que d'elles succederem, com esta condição

e obrigação, que elles cada semana mandarão dizer tres missas na capefla do Cruxifixo; uma pela alma do dito João Alves e duas pelas nossas almas, por cada um de nós sua missa, e mais alumiarão o lume da alampada de azeite á dita capella, sempre, todos os dias, em quauto se disserem as missas na Egreja; e se algum liuccessor do dito Vai-Verde vender e a~ lheiar, descambar a sua parte, mandamos que a perca e a ha-

ja

.Mandamos que tudo o atraz se cumpra por

nossos terços, e deixamo11 por cumpridor de tudo· isto um

ao outro o que de nós vivo ticar e mais nossos filhos Cos-

de Souza e Damião de Souza. Mandamos que tudo mais

remanescer de nosso terço de ambos que, além do que a-

mandamos fazer o haja nossa filha D. Francisca que está

casa do senhor Duque dt> Aveiro. á gual deixamos para

herdar se não da maneira seguinte. Que nós a dei-

de toda a nossa geração de um e outro, os dois filhos d'a-

o outro que n•eue tiver a dita parte; e cumprir.\ tudo o que

mandamos fazer.

me

que

qui

cm

seu

!\aS bençãos. Mais dizemos que nõs por descargo de nossas

consciencias mandamos que do monte mór de no~sa fazenda,

antes de ser partilha feita se tomarão o campo do Vaxo (lic) (de baixo) das poças e ponturas. com horta, cerrado e cer~

cado e

to das Freiras e se ajunte ao praso que tem nosso filho Cosme de Sousa com as mais herdades do dito mosteiro e assim se tomará uma leira de vinha que comprei a Antonio

de Sousa, que jás com vinha do praso e se ajuntará a eUe e

tudo deixamos e assim que ficam da partilha; e manda-

isto

mos ao dito Cosme de Souza gue faça apegar e atombar ao.

praso o dito campo e vintia para que se ~e mais ao

dito mosteiro; e o dito campo e vinha

P. for avãliado. Man-

dito

damos que de todo o monte mor dêem a Branca, que foi nos-

casamento, gue o herde com sua legitima, e com as nos~

o d~em ao mosteiro de S. Bento do Porto, de S. Ben~

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sa ama quatro mil reis e se pague aos herdeiros de Diogo Rodrigues, meu ct-eado, mi1 reis, do serviço do dito Diogo Rodrigues; mais tive um creado que se chamava Jolio Gaspar, de Brâga. ao qual tomamos encargo de quinhentos rs.;-man-_ damos que se saiba se tem o dinheiro, e se o não tiver, lhe (!aguem os ditos quinhentos reis, e nã~ os tendo que os diga de missas por sua alma. Mais mandamos que dêem a Catha- rina Pires, ama, mil reis. para uma fdldrilha, e isto por ser- viço que nos fez~-Mais mandamos que de todo o monte mór se diga, pela alma_ do Qosso pae João Alves Fagundes dons trintarios de finados. E por aqui dizemos que nós havemos nossa manda e testamento pot• acabada. E mandamos que to- das as outras mandas e testamentos que atraz forem. que nós fizessemos ou cada um de nós outros, d'esses que não valham em juiso e fóra d'elle, por quanto todos os havemos por revo- gados, somente este que mandamos que valha, por esta ser nossa dm·radeira vontade; e por assim ser nossa ultima von- tade, ro~amos a Aflonso Alves, abbade de Parada que esta nos fizesse, a qual eu João de Souza assignei. Alfonso Alves, a rOJCO da dita D. Violante, assignou ao commigo; E eu dito Alfonso Alves, que a rogo do dito João de ~ma e de D. Vio- lante esta manda lhe fiz, e aq~i ao pe d'ella assignei, por ella não sabet· assijmnr aos t6 de ~ril de IMS. (Seguem-se as approva~:ões e outras formalidades.)

(Documento existente no Tombo da antiga pro- vedoria da comarca de Vianna, communicado _por cópia, -pelo socio correspondente o snr. JOilé Cal-

duJ

(Boletim da Sociedade de Geographia de J.isboa, M• 3, de Junho de 1878.)

O fallecimento do Dr. João- Teixeira Soares, em julho de 188!, não lhe ()et'mittio esct•twet• a memoria sobre os Corte Reae:!, pt-omettida na Prefaçào.

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. Ilhas

phantasticas

. ~ão abona muito a critica e os conhecimt•ntos de Fran-

cisco

dade do mappa francez, collocando tão proximo da ilha dn Madeiro~, sua patria, e ·da· de Porto ~anto,umas poucas d'ilhas

que jamais existiram seliAo na imàginação dos l".artographos. Na ilha da Madeira, como nos Açores, é fffi)uente o phenorue- no meteo11ologico a que se dá o nome de mira~Zem, ou refle- xão de imagens tl'rrestes nas nuvens. A p~funda ignorancia das leis da optica, ori~,'inou nos povos ins1,llanós uma viva e não interrompida crença em ilhas encantadas e encobertas, que Tistas, de lon,re, por numerosas testem~nhas,· se desva-

de Sousa, a facilidade com que acet'itou a authori-

neciam co~plelanwnte:quando anciosos as b~scavam.

As lendas das ilhas das Sett>PCidades, de !). Brandão e da Antillia conservaram-se até os tempos mOdernos alimenta-

rias pela l"rença supersticiosa da existencia <(o 'infeliz D. Sebas-

tião,

cos restam ainda documentos que provam' os .auxilii>s presta- dos pela fazenda real, para a 'busca de 11uppostas · ilh~s; d'esta

natureza

Governador dos Açores em 1591, a carta do inquisidor J:t'ronv- mo Teixeira escripta d'Angrd ao mesmo Govétnadoreii1 1593, sobre uma ilha nova g_ue apparecia a 80 lefll)âs· ao sul da ilha

do Fayal. Da ilha Antillia el!creveo Pedro Medina nas GRANDE-

em uma das toes ilhas encobertas. Nos Archivos Publi-

sAo: a provisAo dirigida a GonçalO .Vaz Coutinbo,

ZAS DB HBSPAICHA, que se acltava não m,Pto distante da illta da

Madeira.

· Em 164.9 escrevia Frey João da Trindade, Franciscano dos

Açores, o seu Memorial em que propunha a D. João IV desco- brir uma das quatro ilhas, que tmha visto ·e marcado proximo ·

dos Açores.

A relação assignada por Fr. Antonio de Jesus e Fr. Fran- cisco dos Martnes de terem aportado a uma ilha desconhL'- cida a dois. dias· de viagem da ilha da Madeira em 1668, vindo do MaranhAo para Lisboa, é recheada de falsidades inventadas com o fim de fazerem acreditar na existencia de D. Sebastião,

·

apezar d'isso. foi subscripta pelos dois. in verbo sacerdotis I Em 1770, aind;,t D. Antão i:I'Aimada I'J·etou um navio para ir descobrir a ilha ·nova que se diziá apparecer ao norte da. ·

e

Ilha Terr.eira.(t)

·

(I) Bernardino Jose de Senna Freitas, lllmnoria HistCYricn. BOIIf'e o inlen- tado descobrimento de wma suppo&ta ilha ao 1Wrle da Terceira. Lisboa, 11145.

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-37-

~·nota 6, de pag, 18, pode accresceotar-se: que-D. ·João Ul-f'.oncedeo a Pedro.Pinto, carta.de Brazão d'armas, dada em Coimbra aos 9 de llf't~mbro de I M7, na q~l declara, ser Jbiio

Alwwes F(.rgundn eA'{ula fanulia tl"llq'IUUe appellido em atten·

t;.ão aos dest:dwimentos

qMe ~zera. (I)

·

Pag. 11.) mia de Santa Cruz dos Reis Magos, paret.-e ser

uma reminiscencia da ilha de Santa Cruz, que figura na car-

ta de Doação das terras descobertas por JoAo Alval't's Fagun.:

d_es.

Pa~r. tt.) Ilha da Gt-m.YI: parece estar deturpado este nome, devendo talvez ser a 1. da Garça, de que se falia no ,tvará de !3 d'agosto de 1511, pelo qual D. ManOPl fez mercê de Ct'rtos officios da mesma ilha a Vasco Anm•s Corte Rt'al S(>U Vt'dor

que então a mmulára descobti,·. (.!)

João A.ffonso, piloto portugue:r.

Ás provas adduzidas pelo dr. João Teixeira Soares. a res- l>eilo da nat01·alidade do piloto JoAo Atl'onso, po<Je juntar-se

o que a D. João III escreveo o Dr. Gaspar Vaz, embaixador de Portugal em França, aos 19 d'outubro de t53t,sef{Undo o extra- cto que o Visconde de Santarem, publicou no seu Quadro Ele- meRtar (3) aonde diz: uProseguindo o mt>Bmo embaixador em sua narrativa, faz ver quAo pouco fundamento se devia fazt'r d'~quellas promessas, pois sem embal'l{o d'aquellas apparen- cias d'amisade eram partidas de Harfteur as 4. náos de que jã havia dado conta a elrei, (referia-se a quatro nãos armadas por João Ango., para ir a GuinP) n'uma das quaes (ôra por pi-

loto'"" Portugvez por ttomt João .lffonso Na Historia Geral do Brazil (6.1 diz o Sr. Vamhllllt'D, que

o flOVerno portuguez, exgotados todos os recursos,se vio obri-

gado a trauigir e a negoeiar com os mais noltJfJeil corsarios.

qtce emm João Alfonso e o t:eleb1·e João Ango, ao depois Viseon-

tletle ~-

ltl Na citada obra: llilt tl01 ~01,

121

131

141

Archit10 doi Ajlore.t, Vol. I V, p. 534.

T. III, p. 244.

T.

I, p. 37.

Plllf· 12.~.

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· Das negociações relativas aos corsarios francezes deó am-

pla noticia o Snr. Fernando Palha. bazeada na correspondencia de D. João III, eom D. Antonio d'Athayde, seu embaixador ept

França, com o titulo:

A Carta de .varca de João Afl{IO, exposi-

ção summmia dos factos extrahida de documentos originaes ine-

ilitos. Lisboa, 188i.

Por lapso se omittio lplijr. !3) o titulo da Memoria de Mr. R. G. Haliburton, o qual.é: A Seach in British North America

for lost colonies o( Northmen and Portuguese.

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