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EMPREZA LITTERARIA DE LISBOA

HinomA OE rOBTEAL

SEXTO VOLUME

POR

MANUEL PINHEIRO CHAGAS

illiistracOes

DE

MANUEL DE MACEDO

^E. L,. de L,.-^

OFFICINA TTPOGRtPHIU

Empreza Litteraria de Liaboa

I a ;>, UViií ilt S. FramiKO. t j S

JLsX~VJEtO X

lí^eiíiado cie 1>. 3rai*ia I

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CAPITULO I

Reacção contra a politica do marquez de

.Pombal.A sahida dos presos. Perse- guição aos amigos e parentes do marquez.

Versos satyricos.Demissão do grande ministro. Humilhações e insultos. O

medalhão do Terreiro do Paço. Os jesuí- tas.Principio de uma contra-reacção.

Hoje, decorrido pouco inais de um século de-

pois da queda do marquez de Pombal, ao contem-

plaruios os innumeros benefícios que o governo do grande estadista fez ao paiz, ao admirarmos

a sua obra de regeneração social, ao pasmarmos do modo como Portugal se transformou debaixo

das suas mãos, para recair depois na atonia de que o arrancara aquelle privilegiado espirito,

mal comprehendemos o jubilo immenso que se

apoderou do paiz todo, quando a morte do rei,

que o protegera, deixou presenlir que eslava pró-

xima também a queda do intelligente ministro. E comludo é esta a eterna historia da huma-

nidade. Us grandes vultos, que a fazem progre-

dir, e melhoram a sua situação, nunca encontram

plena justiça no juizo dos seus contemporâneos.

Homo a perfeição é vedada á natureza humana,

como é impossível que se façam as grandes re-

formas sem se ferirem muitos interesses creados

e estabelecidos, como a energia é inielizmente

inseparável da rudeza e do despotismo, os que

padecem com isso não vêem senão a dôr imme-

diata e não os proveitos

de longe apparecem como as manchas invisíveis

.\s nódoas, que

futuros.

do sol, ao pé tomam proporções gigantes, os de- feitos pequeninos .escondem a grandeza do astro,

porque são mais perceptíveis aos olhos das me-

diocridades, do que as grandes obras e os gran-

des pensamentos, da mesma forma que uma pequeníssima rodela pode esconder aos nossos

olhos a vista do Monte Branco, unicamente por-

que se approxima da nossa pupilla.

(Juem comprehende ainda hoje a obra bené-

fica de Napoleão?

Por ora vè-se apenas o oppressor, o lyranno,

o conquistador implacável, e ninguém quer vêr

que esses princípios da revolução franceza, que,

cspalhando-se pelo mundo inteiro, transforma-

ram em breves annos o estado social da huma-

nidade, elle os podia levar nos rellexos scin-

tillantes das suas bayonetas. Se elle se limitasse

a ser um official fiel á Republica, a Republica

dissolver-se-bia no sangue do Terror e na lama

do Directório, e uma reacção formidável apngaria

por muito tempo a immensa luz que principiara

a raiar em 178'J.

Se se limitasse a ser um .Monk,

repetir-se-hiam as scenas da lleslauração íngleza.

Assim foi ura déspota, mas foi um déspota de-

mocrático. Com o Código Napoleão salvou a igualdade, com a Concordata salvou a liberdade religiosa, a liberdade do pensamento, c essas ó

que eram sobretudo as duas grandes conquistas da Hevolução.

Ah ! de certo seria mil vezes mais apreciável

o marquez de Pombal se fizesse tudo o que fez

de grandioso, sem ter levantado os cadafalsos

de Relem, e sem ter praticado os assassínios ju-

»

Historia de Portugal

diciarios que mancham a sua memoria. Mas, se

elle não quebrasse como um vime diante de si

todas as resistências, se elle não expulsasse os

jesuítas, se eiie não decapitasse a nobreza, nem uma só das suas reibrniíis teria vingado, porque

enconlrariti a cada insliuite a resistência dos cor-

pos privili'giados, [i;)i'qui' os jcsuilas continuariam

senliorcs omnipotcuits da instrucção. Mas, dir-sc-

ba, era indispensável que elle derraraa?se em tor- rentes o sangue, e enchesse os cárceres com as vi-

ctimas do seu despotismo? Não de certo, mas quem

pode marcar limites ú energia de um homem? To-

dos tíem, dizem os francezes, les défauts de ses qualitcs, e a energia, que é um predicado, tem

um defeito correspondente que é a crueldade. Na visinhança é isso o que mais avulta, por-

que ú isso o que mais se sente. Os grandes ho- mens são como as montanbas; vistas ao pé, não

patenteiam senão as asperezas e rugosidade?, parecem negras e sinistras, de longe é que se lhes aprecia o vulto severo e magestoso, ao longe

é que ellas se azulam como o firmamento, onde

immergem os píncaros altivos.

Por isso, quando el-rei D. José se achava pró-

ximo a expirar, todos saudavam a sua morte como

um livramento, viam todos n'ella o fim de Uín longo despotismo. Havia tempo já que D. José i

estava gravemente doente. No fim de 1776 a doença tornou-se tão perigosa que foi indispensá- vel chamar á regência do reino a rainha D. Ma- rianna Victoria. Era inimiga pessoal do grande

ministro, mas isso em nada influio no seu animo.

Ou porque julgasse do seu dever conforraar-se em tudo com as intenções d'el-rei seu marido, (]ue ella conhecia, ou porque receiasse mesmo que, voltando el-rei ao seu estado normal, desse

de novo todo o poder ao seu inteiligenie favorito,

e este aproveitasse a auctoridade de que tornaria

a gosar, para se vingar de quaesquer desconside- rações que tivesse recebido, é certo que a rainha durante o curto periodo da sua regência não fez mais do que assignar de cruz os decretos que o grande ministro lhe apresentava. Os despachos

do ministro francez, marquez de Blosset, para o

seu governo confirmam plenamente este facto

(jue era conhecido por outras fontes.

k doença de D. José, porem, aggravou-se de dia paradia,eorei,cahindoemme]anchoiiaprofunda,

começou a sentir que o seu fim estava próximo.

A morte do patriarcha de Lisboa entristeceu-o

profundamente. Parece que murmurou: Sou eu

que me hei de seguir. Apesar das perturbações

da sua consciência, nem uma só vez se mostrou

menos alíciçoado ao marquez de Pombal, nem procnr('n atlribuir. an sou grande ministro a res-

ponsabilidade exclusiva das atrocidades que no

seu reinado se haviam praticado. A proximidade

da morte inspirou- Ibe sem duvida alguns actos

de clemência, e foi um d'elles a ordem que deu

para que fosse solto o bispo de Coimbra, D. Mi- guel da Annunciação que jazia encarcerado ha-

via largos annos. Este facto, desconhecido até ha

pouco tempo, foi-nos revelado pelo sr. Latino

Coelho n'uma nota final, no 1." volume íunico

publicado) da sua Historia politica e militar de

Portugal desde os fins do século xviii até 1814.

Diz o eminente escriptor:

«Appendice. Nota á pagina 88. ^Depois de

estampadas as reflexões criticas sobre a authen-

ticidade das Rccommendarões d'el-rei D. José de-

parou-se-nos no archivo do ministério do reino, em um maço com o titulo de Decretos, relativo

ao anno de 1777, confundido com innumeraveis diplomas de mercês, conferidas pela rainha nos

primeiros tempos do seu governo, a ordem em

que el-rei D. José manda soltar o bispo de Coim- bra e os seus cúmplices. É toda escripta pelo pró-

prio punho dosoiíerano, com letra que denuncia,

pela incerteza dos seus traços, a mão tremula do

enfermo. É datada de 21 de fevereiro e diz tex-

tualmente o seguinte:

«Perdoo ao bispo de Coimbra, e mando que

«se solte logo com todos os cúmplices que estão

«presos pelas culpas por que se prendeu o bispo.

«Rubrica de el-rei. 21 de fevereiro de 1777.»

« No mesmo maço está a portaria assignada pelo

marquez de Pombal, mandando dar execução á

ordem do soberano. Fica pois demonstrado que

o próprio D. José ordenou que se soltasse o bispo

de Coimbra e os seus cúmplices, e mais se con-

firma a plausibilidade de que as recommcnda-

rões exprimissem realmente a ultima vontade do

monarcha.

Que recommendações eram estas a que se re-

fere o sr. Latino Coelho? Elle mesmo noi-o vae

dizer:

"Pouco depois que se publicara na cidade ser

fallecido el-rei D. José, fez o governo dar à es-

Historia de Portugal

tampa um escripto, em que ollicialmente se dizia

cslarera formulados os coaselhos ( direcções i|uc

o moiiarcba moribundo legara á sua herdeira,

para que melhor podesse iniciar o seu reinado. Era, por assim dizer, o testamento politico do ho-

mem, que, prestes a deixar o mundo, intentara

premunir-se com tardia clemência contra a severa condeninação da posteridade. Continha seis ar-

tigos o papel attribuido a D. José. No primeiro confiava el-rei da virtude e religião da princeza

que ella haveria de reger em paz os seus vassal- los, no seu bem espiritual e temporal, observando

zelosamente as leis divinas e humanas, mantendo

as regalias da coroa, e enlaçando a Egreja e o Es-

tado pelos vínculos da sua protecção á verdadeira

que professava. A'o segundo artigo recomraen-

dava el-rei ã filial piedade e ao affecto fraternal

da princeza do Brazil a rainha viuva e as infan-

tas, fiando da sua virtude que lhes faria] tanto

bera quanto fora sempre o amor do soberano à

sua familia. No terceiro pedia el-rei a D. Maria

que entendesse em concluir a egreja da Memo- ria, que estava jà meia edificada e que elle fizera

voto de erigir pela mercê com que Deus lhe

salvara a vida na conjuração dos fidalgos re- bellados. No quarto artigo queria D. José que a filha solvesse varias sommas que elle não poderá

até então satisfazer porque o receio de uma guerra

próxima e violenta, a qual exigia graves quan-

tias de dinheiro, lhe não deixara occasião ao pa-

gamento. A quinta verba d'este singular e piedoso

testamento recommendava á rainha es servidores do soberano agonisante, e principalmente os que

ella sabia lhe haviam tido sempre devoção e fide-

lidade. O sexto artigo finalmente aconselhava a

D. Maria que concedesse perdão áquelles réus de

Estado, a quem houvesse por merecedores da sua

clemência. El-rei terminava o seu escripto, afir-

mando que por todos os crimes e offensas que d'estes culpados recebeu, elle próprio lhes havia

perdoado para que Deus lh'o tomasse em conta

na remissão dos seus peccados.»

Estas recommendações constituíam um dos

problemas da historia politica d'esse tempo.

Eram realmente authenticas ou tinham sido for- jadas para tirar ao movimento de reacção o ca-

racter de condemnação posthuma do próprio

soberano? Estava até hoje incerto o nosso juizo.

AUegara-se de um lado que todos os represen-

tantes das potencias estrangeiras não tinham

posto a iniiiiiua duvida era considerar como ge-

nuíno esse testamento politico, dizia-se poroulro

que o representante da Inglaterra, um dos raais

finos membros do corpo diplomático, Roberto Walpole, se ria maliciosamente da ingenuidade

dos crédulos. Notava-se que os escriptores je- suítas eram os próprios a acreditar na aulhen-

ticidade do documento, quando elles tinham

inleresse em mostrar que até ã hora da morte

fora D. José cruel e violento. Dizia-se por outro

lado que mais interesse tinham em fazer suppur

que elle se arrependera, e reconhecera humi-

lhado e contricto os seus erros e os seus crimes.

De um lado e do outro se equilibravam as razões. Havia um ponto em que realmente não en-

contravam fácil resposta os defensores da genuini-

dade das Recommendações. Aquelle paragrapho,

era que el-rei recommendava à munificência de

sua filha os seus leaes servidores, encerrava in-

contestavelmente uma transparente allusão ao marquez de Pombal, e os inimigos do ministro de certo não inventariam uma verba que não

faria senão prender-lhes as mãos. Ainda a isso se

respondia, que attribuir a D. José, sempre inalte-

ravelmente affecto ao marquez de Pombal, um tes-

tamento sem essa verba, seria de uma inverosi-

milhança palpável. O que vem, emquanto a nós,

dissipar todas as duvidas é incontestavelmente o

papel descoberto pelo sr. Latino Coelho. Por elle

se que tão poderosamente actuara no espirito do moribundo a necessidade de clemência, que nem o marquez de Pombal se atrevia a resistir-lhe,

pois que elle próprio assignara a portaria que

mandava pòr em execução a ordem d'el-rei.

Não teve tempo de se cumprir. Foi a morte

mais rápida do que a clemência do soberano.

A 22 de fevereiro quizera D. José que se cele-

brasse o casamento do seu auspicioso neto,

príncipe D. José, o discípulo querido do mar-

quez de Pombal, com sua tia Maria Benedicta.

A 24 de fevereiro fallecia el-rei, e a publicação

das Recommendações, cujo caracter era essen-

cialmente privado, parecia não ter outro fim

senão desviar do cadáver do monarcha as mal-

dições dos sobreviventes.

Ao mesmo tempo abriam-se as portas das

prisões, e sabiam as innumeraveis victimas que ali accumulãra o marquez de Pombal. O espe-

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Historia de Portugal

cliiculo era iristc o miserantlo, e não podia dei-

xar de im|iressionar profundamenle os qun o

preseiiciavaai; subiam defecados, veibos, trôpe-

gos, os que tinb-im entrado para esses cárceres cheios de mocidade e de vida. Muitas vezes as

famílias, que esperavam tornar a vi'r um pariMile

estremecido, fo recebiam ura cadáver. Não i^ue- renios attenuar em nada as culpas do mar(|uez

de Pombal, nem podemos deixar de nos associar

francamente aos que se revoltam contra o seu procedimento áspero e cruel, mas devemos con- fessar tambcm que a paixão politica exaggerava

a tragedia verdadeira e dava ccbos sem fim ás

queixas dos desgraçados.

Quando annos depois, todos os cúmplices da

revolução de MiuasGeraes foram punidos com a morte, a prisão eterna, ou o degredo, ninguém

ousou compadecer-se dos infelizes, e agora era pelo contrario o governo que provocava as mani-

festações. Houve portanto os exaggeros babi-

tuaes. Hoje por exemplo sabe-se, pela narrativa

de um dos presos, e de um dos presos mais irri-

tados 8 mais justamente irritados, o marquezde

Alorna, que o forte da .lunqueira não era uni er-

gástulo tão cruel como o pintavam, e que o pão

e agua, d'esse cárcere infecto de melodrama, se traduziam n'uni regimen de sopa, vacca, arroz e

prato de meio, que não seriam cosinhados por um

discípulo de Vatel, mas que offereciam aos pre.

SOS ura passadio regular. Reflecte-se lambem que as prisões arbitrarias não eram no século xviii

privilegio do marquez de Pombal, que a França

tinba as suas lettres de cachei, que também lá

fora como aqui, e em regimen mais tolerante, se

esqueciam os presos nos cárceres, de forma que

homens presos por culpas insigniBcanles passa-

vam larguíssimos annos nas cadeias, completa-

mente olvidados.

N'essa occasião não se pensava em coisa al-

guma. Estavam todos empenhados em affeiar as

culpas do marquez, e o clamor de piedade pelas

suas victimas era universal c alti-sonante. Os poetas populares crivavam-ii'o de seitas cruéis.

Um dizia:

Mandou soltar da masmorra

Os iniseros prisioneiros.

Que sem culpa padeciam

A força de um ódio cego.

Oiiant.is misérias então

o mundo, sente o peito.

Porque todos vão caindo

Uns mirrados esqueletos.

A mocidade já velha

Os anciãos já decrépitos.

Outro dizia que elle nem deixava que o povo chorasse o rei fallecido, porque tudo desappare-

cia anie o supremo jubilo da queda do ministro.

Pois não coiilente do que tinba junto,

Até tirou as laiirimas ao povo

r.ouj que chorar devia ao rei defunto.

Os principaes da corte eram os primeiros a

excitar o povo a essas manifestações, e faziam

da sabida de cada novo preso uma ovação, que

não tinha outro fim senão insultar o marquez

de Pombal. D. Miguel da Annunciação, o bispo de Coimbra, foi quasi canonisado em vida, ape-

sar das doutrinas da seita que elle protegera,

serem das mais immoraes e perversas. O mar-

tyrio bastaria para o purificar, mas o ódio a Pom-

bal é que lhe valia os Iriumphos de que era objecto. O desembargador Encerrabodes, preso

principalmente por ser amigo dos jesuítas, sahia

com oitenta annos do cárcere, e todos louvavam

o seu desembaraço, a viveza do seu espirito em

annos tão adiantados e depois de tantos infortú-

nios. Aos que estavam presos como cúmplices

no attentado dos Tavoras e Aveiro não ousou a

rainha liberlal-os desde logo, mas ordenou que

sahissem da prisão e fossem para longe da corte,

até que a sua ionocencia fosse regularmente provada. José de Seabra da Silva foi mandado

chamar do desterro onde estava, e isso antes

ainda da morte d'el-rei e durante a breve regên- cia da rainha D. Marianna Victoria. Foi Martinho

de Mello e Castro, porem, que expediu a ordem ao governador de Angola, provavelmente sem o

marquez de Pombal o saber. A o-dem era conce-

bida nos seguintes termos: «A rainha nossa se- nhora me manda participar a v. s." para que, logo

que receba esta, và sem perda de tempo buscar José de Seabra da Silva, seu ministro e secretario

d'Estado, e o faça conduzir para o seu governo

e residência, onde o tratará com a decência que

merece um ministro do seu caracter e estima-

ção; e o fará v. s." conduzir a este reino com

OUic. Tjp. lia Emprcza Lilleraria.

Livramento dos presos d'Estado

Historia de Portugal

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todas as coinmodidades e despeza que fOr pre-

cisa para o seu Iran.-porle. V. p.' assim o lenba entendido e a execute, por ludo ser do seu real

agrado. Palácio de Nossa Senhora da Ajuda em

15 de dezembro de 1776..Marlitibo de Mello e

Castro. Sr. D.

.Aolonio de Lencastre.»

Esta ordem foi reiterada, cora instancias no-

vas, assim que el-rei morreu.

Os meninos de Palbavâ, os bastardos reconbe- cidos d'el rt-i D. Juão v, que tinham querido af- fronlar o marquez de Pombal, e que por elle

tinham sido desterrados para o Bussaco, regres-

saram também assim que a nova rainha princi-

piou a reinar. Concedeu-se licetija a D. João de

Bragança, depois duque de Lafões, para que re-

gressasse a Portugal, porque estava servindo no

exercito austríaco, o que era ura exilio disfar-

çado, a que elle próprio se votara, para escapar ás perseguições do iraplacavel ministro. A reacção contra a obra do marquez affirma- vase assim de um modo completo, e, se parasse

n'isso, elogios se poderiam fazer á clemente

soberana. Infelizijiente a clemência, nas mãos

dos inimigos de Pombal, era apenas uma arma

de ódio e de vingança. A sensibilidade, que af-

feclavam, era uma coiuedia de hypocrisia. Cho-

ravam lagrimas de crocodilo sobre a desgraçada sorte das victimas do marquez aquelles mesmos

que assistiriam com

alegria a um auto de fé,

como os que se celebravam no tempo de D, João v,

se já fosse possível, quando se publicava a En-

cyclopedia, reaccender na Europa as fogueiras

inquisitoriaes.

.\ccusavam a crueMade do mar-

quez e tinham razão, mas não se lembravam que

fora elle quem arrancara os dentes e as garras

ao monstro odioso do Santo-Officio, citavam os

prezos que morriam encerrados nos cárceres, sem culpa verdadeira, mas não diziam que o

marquez de Pombal acabara com a escravatura

no continente do reino, raostravam-se horrorisa- dos com as atrocidades dos supplicios de Belém,

mas não estranhavam que historiadores corte-

zãos dessem a Luiz xv o epitheto de Bem-Amado,

apesar d'elle ter consentido que um pobre louco,

Damiens, que tentara feril-o com um canivete,

fosse esquartejado, depois de ter sido posto a tormentos, e de lhe deitarem, nas feridas abertas

das torturas, jorros de chumbo derretido, E este-

jam certos que esses mesmos que diziam que

Sebastião Jo.^é de Carvalho e ilrllo tinha cabellos

no coração, se alguém tentasse contra a vida de D. Maria i, aconselbariara su[iplicios idênticos,

porque era assim que se punia em pleno século

XVIII o crime, considerado como altamente sacrí-

lego, de Ifsa-raagestiide.

.Mas eniquanlo se fazia tudo isto, eiuquanio se

davam or.iens contrarias a tudo o que o aiarqui z

de Pombal deiermiiias.«e, não se demillia o mar-

quez, apesar das suas instancias. Já no tempo

da r^•g^ncia do D.

.Marianna Victoria o marquez

insistira pela sua demissão, e o estado del-roi

não cons''ntita que se tratasse d'este assumpto,

agora o marquez instava de novo, allegando a

sua provecta idade, e os seus longos e ímprobos

trabalhos. Não lhe respondiam, e não lhe res-

pondiam, porque ainda a sua sorte não estava

decidida, e reciiavam dar-lhe a deoiissão assim

de prompto, temendo que a demissão tivesse de

ser concebida em termos taes qije prejudicasse qualquer procedimento ulterior. No espirito da rainha, naturalmente clemente,

predominava talvez o desejo de satisfazer as

recommendaçOes d'el-rei seu pae, affastando o

marquez do governo sem desconsideração nem aggravo, mas por outro lado também não podia deixar de actuar no seu animo o rancor ao mar-

quez, já porque na sua extrema devoção o con-

siderava um ímpio, já porque suspeitava com

miras de verosimilhança que o marquez de Pom-

bal se esforçara por introduzir na legislação do

reino a lei salíca, aGmde aaffastaraelladothrono dando a coroa a seu tilho primogénito, que o marquez considerava como seu predilecto discí-

pulo.

Esta questão, que ainda até hoje não está per- feitamente elucidada, é tratada com bastante in-

dividuação na Historia politica e militar de Por-

tugal. Vamos pois substituir a nossa humilde

prosa por essa prosa de oiro.

"II duque de Chátelet, que viajou em Portugal em 1777, e cujo testemunho, pela habitual leveza

do seu juízo, e pela inexacção das suas informa-

ções, se não pode admittir sem todas as precau-

ções da crítica severa, relata no seu livro que o

marquez de Pombal, buscando emancipar o reino

da tutella da Grã-Bretanha, e querendo appro-

ximar-se da França e dos Bourbons, concebera

o desígnio de cazar o príncipe da Beira com uma

10

Historia de Portugal

das firincozas d'aquella dynaslia, e qm- nVssf

levoleneias e de intrigas. O clero, afora alguns

sentido havia dirigido as suas propostas á corte

clientes e feitorias do marquez, tinha-o na conta

de Versaiiles. Refere mais que, por desatar a

de um Juliano o Apóstata, ou de um Cranmer, tão

principal objecção levantada pelo gabinete fran-

impenitente e obdurado nas perseguições contra

cei! contra a alliança projectada, o marquez de

a

egreja como o severo arcebispo de Cantuaria.

Pombal determinara el-roi a induzir a princeza

O

marquez de Pombal já tivera occasião de ex-

do iirazil a Grmar uma solemne rcnunciação do

perimentar mais de uma vez que os seus inimi-

seu direito á soberania em favor do prinripe da

gos espiavam anciosos as occasiões de grave

Beira. Allirma (Ibàielet i]Ue se rlipgara a formu-

doença do monarcha, para erguer o collo e has-

lar o acto da renuncia, que, eslaiido a ponto de

tear uffbitamente a bandeira da reacção. Se o

levar-se a bom tei-aio o plano do marqurz, de <|Uc'

tlirono viesse a pertencer á princeza do Brazil,

eram apenas sabedores o monarclia, o embaixa-

tendo a seu lado o fanático D. Pedro, como seu

dor da França e o ministro ajudante de Pombal,

guia e conselheiro, podia o marquez ter por se-

viera a inGdelidade de Seabra desconcertar aquella

guro que findaria o seu poder, e haveriam de co-

traça e attrabir ao delator a severa expiação. Esta

meçar contra elle as mais acerbas humilhações.

antdocla, na parte pelo menos em que interessava

É

pois não plausível, mas naiural, que o astuto

o gabinete de Versaiiles, não parece verosímil,

ministro de D. José empregasse o seu poder e

pelas circurastancias de que, se o marquez de Pom-

valimento para tentar uma solução que lhe desse

bal era bem avaliado quanto aos seus talentos e

maiores probabilidades de repouso senão de

predicados de estadista pelo governo francez, pe-

iiilluencia, depois que el-rei tivesse failecido.

los seus representantes em Lisboa, não era con-

Se o marquez de Pombal buscava antes de tudo

ceituado por seu amigo e partidário, como resulta

premunir a sua pessoa e a sua família contra os

claramente da correspondência olficial entre a le-

golpes futuros dos seus adversários, não é me-

gação de França e o ministério dos negócios es-

nos certo que o haveria de magoar profundamente

trangeiros em Paris. Em 1774, futurando o conde

a

certesa de que, sob o reinado da princeza do

de Vergennes, que dirigia então aquella secreta-

Brazil, lhe iriam pouco a pouco derrocando o

ria, a próxima queda de Pombal, por se julgar

edificio grandioso, que nas leis e no governo

inevitável o fallecimento do soberano, asseverava

não podia ser lastimada pela França e pela Grã-

estivera alevantando por tão dilatados annos de

com formal antipatbia que a desgraça do marquez

estudo e de trabalho. V., por muito que sejam egoístas os grandes homens que dirigem os ne-

liretanha, porque o estadista pprtuguez só cau-

gócios das nações, e por mais que os