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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizagáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriarñ)
APRESEISTTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortalega
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Estevao Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Estevao Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.

A d. Estéváo Bettencourt agradecemos a confiaga


depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
índice
PftE

"Ó MORTE, ONDE ESTÁ A TUA VITORIA?" 473

Ecos do Congresso dos Bruxos :


O "SOBRENATURAL" E O PSIQUISMO HUMANO 475

Um novo documento:
AÍNDA A EXISTENCIA DO DEMONIO 490

No intimo das consciénsias :


PODE UM EXECUTIVO SER (E MANTER-SE) CRISTÁO ? 500

Um /lime que desafia :


"ROMA, CIDADE ABERTA" 514

LIVROS EM ESTANTE 518

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO ¡

Cultura de massa : fenómeno ambiguo. — Um livro polémico :


«Pedro nunca foi Papo I». — Missa aos domingos é dever ? —
Visao extra-ocular.

Em PR 190/75, p. 434, I. 32, leia-se 8/IX/1907, em lugar de


8/IX/1870.

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Assinatural anual Cr$ 50,00


Número avulso de qualquer mes Cr$ 5,0Ü

EDITORA LAUDES S. A.

REDACAO DE PR ADMINISTRADO
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ZC-00 20.000 Rio de Janeiro (RJ)
20.000 Rio de Janeiro (RJ) Tels.: 268-9081 e 268-2796

No Rio, á Rúa Real Grandeza, 108, a Ir. María Rosa Porto


recebe pedidos de assinatura da revista. Tel.: 226-1822.
"Ó MORTE, ONDE ESTÁ A TUA VITORIA?"
(1 Cor 15,55)

O mes de novembro é marcado pela Comemoracáo de nos-


sos mortos logo no seu segundo día. Esta data é respeitada
internacionalmente — o que bem mostra a atencáo que os
povos dedicam ao fenómeno «morte».

Na verdade, a morte sempre foi — e aínda é — o grande


enigma da existencia humana. Por sua brutalidade e inexora-
bilidade, desconcerta e desatina muita gente. Urna das expres-
s5es mais típicas e belas desse desconcertó encontra-se nos
escritos do famoso autor grego Sófocles (1406 a.C):

"Numerosas sao as maravilhas da natureza, mas de todas


a maior é o Homem. Singrando os mares espumosos, impelido
pelos ventos do sul, ele avanga e arrasta as vagas ¡mensas
que rugem ao redor! Gé (Térra), a suprema divindade, que
a todas as demais supera na sua eternidade, ele a corta icom
suas charrúas, que, de ano em ano, váo e vém, revolvendo
e fertilizando o solo, gracas á forga das alimárias I

A tribo dos pássaros ligeiros, ele a captura, ela a domina;


as hordas de animáis selvagens e de viventes das aguas do
mar, o Homem imaginoso as prende ñas malhas de suas
redes. E amansa, igualmente, o animal agreste, bem como
o dócil cávalo, que o conduzirá, sob o jugo e os freios, que
o prendem dos dois lados, bem assim como o touro bravio
das campiñas.

E a Ifngua, o pensamento alado, e os costumes morali


zados, tudo isso ele aprendeu I E, também, a evitar as intem
peries e os rigores da natureza! Fecundo em seus recursos,
ele realiza sempre o ideal a que aspira I Só a Morte, ele
nao encontrará nunca o meio de a evitar I Embora de mui-
tas doengas, contra as quais nada se podia fazer outrora, já
se tenha descoberto remedio eficaz para a cura.

Industrioso e hábil, efe se dirige, ora para o bem... ora


para o mal... Confundindo as leis da natureza e também
as leis divinas a que jurou obedecer, quando está á frente
de urna cidade, muita vez se torna indigno e pratica o mal
audaciosamente I Oh ! Que nunca transponha minha so le ira,

— 473 —
nem repouse junto ao meu fogo, quem nao pense como eu,
e proceda de modo táo infame!"
(Antígona 332-371)

Este texto desenvolve um paradoxo: mostra o homem


como senhor da natureza, capaz de dominar os mares, os ares
e até a deusa Térra (Gé), que é sempre fecunda e que ele
rasga todos os anos com o seu arado. Todavía diante da morte,
o homem sucumbe sem poder recorrer a instancia alguma...
Como parece contraditória a sorte do homem assim colocado!

A filosofía moderna faz eco a perplexidade de Sófocles


através de autores existencialistas, que denunciam eloqüente-
mente o absurdo da morte e a angustia do homem que sabe
estar voltado para esse fim. Martin Heidegger, por exemplo,
apresenta o homem como um «Sein zum Tode», um ser des
tinado 'á morte.

É oportuno reconstituir o desatino do homem ante a


morte para se poder evidenciar a resposta crista a tal pro
blema. Se o cristáo senté, como todos os homens, os lagos da
morte, ele tem a certeza de que a morte já nao é quebra ou
ruptura da vida, mas tornou-se passagem para a plenitude da
vida. A morte é consumacáo. Sim; diz a Escritura que «Deus
nao fez a morte, nem se compraz com a perda dos viventes»
(Sb 1, 13). A morte entrou no mundo em conseqüéncia do
pecado. Todavía o Filho de Deus feito homem assumiu a
morte e a «furou», ressuscitando, fazendo déla o canal da
vida definitiva. Por conseguinte, o cristáo que viva e morra
com Cristo mediante o Batismo e a Eucaristía nada tem a
temer; encara a morte como o chamado para o encontró
face-a-face com o Amigo que aqui na térra já lhe é conhecido
através de véus e sinais. «Aos teus fiéis, Senhor, a vida nao
é tirada, mas é mudada; e, urna vez dissolvida a sua mansáo
terrestre, é-lhes preparado no céu um eterno habitáculo» (Pre
facio da Liturgia dos defuntos).

Sao estas as idéias que o mes de novembro pode e deve


despertar nos cristáos. Juntamente com a perspectiva do
fim (fim do ano, fim da peregrinagáo terrestre), ele evoca a
consdéncia da ressurreicáo e da eterna juventude do discípulo
de Cristo. É essa eterna juventude que torna o cristáo sem
pre alegre e esperangoso!
E.B.

— 474 —
«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»
Ano XVI — NM 91 — Novembro de 1975

Ecos do Congresso dos Bruxos:

o "sobrenatural" e o psiquismo humano


Em sfnlese: O artigo prop&e as explicares que as ciencias natu-
rals (principalmente a biología, a psicología e a parapsicología) tem dado
a alguns fenómenos que, á primeira vista inexplicávels, costumam ser atri
buidos ás torgas do Além. Hoje em día, as observacSes e experiencias de
laboratorio enquadram dentro da realldade do psiquismo e da biología
natural do homem os "prodigios" de corpos que se movem á distancia
das pessoas, casas mal assombradas, "eficacia" dos ritos de magia, aura
dos corpos, etc.

Como se compreende, as ciencias naturais aínda estSo em fase de


pesquisas neste setor; propSem as vezes hipóteses mals ou menos fundadas,
ao lado de afirmacdes comprovadas. Como quer que seja, este estado de
coisas é suficiente, para que se conceltue melhor o auténtico sobrenatural
ou portentoso.

Comentario: O Congresso dos Bruxos realizado em Bo


gotá a partir de 24 de agosto pp., com a presenga de partici
pantes oriundos de diversas nagóes, chamou mais urna vez a
atengáo dos estudiosos para os acontecimentos portentosos que
vulgarmente sao atribuidos a seres do Além.

Últimamente tém-se multiplicado as pesquisas científicas


sobre os fenómenos mediúnicos — o que permite a compreen-
sáo cada vez mais apurada do «sobrenatural» ocorrente nos
ambientes de feitigaria e magia.

Sendo assim, ñas páginas que se seguem, apresentaremos


as experiencias íeitas e as explicacóes dadas pelos dentistas
mais abalizados a respeito de alguns portentos da bruxaria.

— 4.75 —
4 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

1. Observares preliminares

A fim de elucidar os fenómenos extraordinarios do psi


quismo humano, devem-se ter ante os olhos tres verdades
importantes:

1) O homem é um ser corpóreo, dotado de energias físi


cas e químicas, que funcionam no mundo e no universo; há
influxo recíproco entre essas energias contidas dentro do orga
nismo humano e as que o cercam. De modo especial, convém
notar que o cerebro humano emite ondas rítmicas eletro-
-magnéticas, que Hans Berger em 1928 conseguiu identifi
car claramente, realizando o primeiro eletroencefalograma.
Essas ondas sao classificadas segundo quatro tipos: alfa, beta,
delta e teta. O ritmo delta é o mais lento; compreende um a
tres ciclos por segundo, preponderando nos estados de sonó
profundo. O ritmo teta tem a freqüéncia de quatro a sete
ciclos por segundo. Os raios alfa tém oito a doze ciclos por
segundo; produzem-se geralmente na meditagáo distendida.
Quanto aos ritmos beta, apresentam entre treze e vinte e dois
ciclos por segundo; parecem confinados á zona frontal do cere
bro, onde se realizam complexos processos mentáis.

2) O ser humano, que é corpóreo, é também psicosso-


mático. Isto quer dizer que nao há atividade humana que seja
meramente corpórea, mas todas sao penetradas pelas energias
psíquicas do sujeito', como também nao há atividade psíquica
que nao envolva o funcionamento do orpo . Isto se verifica fre-
qüentemente na medicina; esta toma mais e mais consciéncia
de que as doengas sao psicossomáticas; mesmo mais de metade
das molestias humanas tem origem psíquica (assim as úlceras
de estómago, a asma, as infecgóes da pele, as verrugas, as trom-
boses coronarias, a cegueira histérica, até mesmo as fraturas
ósseas devidas a acidentes).

3) O psiquismo humano conserva apenas 1/8 de seus


conhecimentos na consciéncia, ficando 7/8 no subconsciente.
Isto implica que, em caso de suspensáo do controle consciente
do sujeito, o inconsciente possa prorromper em manifestares,
á primeira vista, estranhas, incompreensíveis. Isto leva facil-

1 Perguntam os estudiosos o que seja o psiquismo. Enquanto alguns


o concebem em termos materialistas, a filosofía crista afirma que a psyché
humana é de índole espiritual (ó ser real dotado de inteligencia e vontade,
sem extensáo nem peso ou volume).

— 476 —
«SOBRENATURAL» E PSIQUISMO HUMANO 5

mente a suspeitar que um espirito do Além interveio no pa


ciente, fazendo-o agir como se se lhe tivesse incorporado outra
personalidade.

O inconsciente (ou subconsciente) \ embora latente no ser


humano, é poderosamente ativo; percebe, inspira, move o su-
jeito, sem que este o saiba, com urna rapidez e eficacia que
ultrapassam muitas vezes as do consciente. Por isto muitos
cientistas e artistas, procurando aumentar a sua capacidade de
trabalho e a sua criatividade, colocam-se voluntariamente em
estado de hipnose ou quase 'hipnose; esta se lhes torna propicia.
Tal era, por exemplo, o caso de Newton (fl728), o grande
físico e matemático, que recoma ao sonó, recomendando ao
subconsciente que «ruminasse» determinado problema; assim
conseguiu entrar na pista ou na própria solugáo de espinhosos
problemas de cálculo enquanto dormía. Goethe (fl832), o
poeta alemáo, afirmou que grande número de seus melhores
poemas foram escritos em estado de sonambulismo; Mozart
(t 1791) dedarou que as suas inspiracóes musicais lhe vinham
á semelhanga de sonhos, independentemente da sua vontade.

Ora, se o subconsciente funciona naturalmente sem que o


saibamos, compreendemos que muitas pessoas se maravilhem
com certas intuigóes e percepgóes nao conscientemente prepa
radas pelo paciente; nao sabendo como chegaram a tais resul
tados, supóem ter recebido comunicagáo do Além, quando na
verdade o seu subconsciente percebeu, leu, intuiu o que estava
no consciente ou também no subconsciente de outra pessoa.
Essa outra pessoa, fonte de informagáo, também se admira
entáo pela clarividencia do receptor, nao compreendendo como
se deu a percepgáo se nao houve a comunicagáo. — Ora a lei-
tura exercida pelo subconsciente da pessoa A no subconsciente
da pessoa B explica fielmente o fenómeno estranho, dispen
sando qualquer explicagáo por recurso ao Além.

Passemos agora á consideragáo de alguns dos fenómenos


de bruxaria e feitico que mais costumam impressionar o
público.

iOs limites entre inconsciente e subconsciente nfio se podem assl-


nalar com precIsSo rigorosa. Por Isto também a terminología é oscilante
entre os autores: enquanto alguns usam a palavra Inconsciente, outros
preferem subconsciente para designar os mesmos fenómenos.

— 477 —
6 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

2. A «eficacia» dos ritos mágicos

Muitas pessoas receiam a apregoada eficacia dos ritos má


gicos. Por isto se perturbam quando ouvem dizer que um mau
despacho está sendo feito contra elas; estáo mesmo dispostas
a fazer um «contra-despacho» que seja também de «eficacia
segura». — Outras pessoas, vitimas de decepcóes e maiores
males contraídos na magia, nao ousam deixar os centros de
feitigaria, porque temem a vinganga dos magos e dos espíritos
invocados; referem que, em tal ou tal caso, o mago ameacou
de morte em oito días o seu paciente apóstata; e, de fato, este
veio a morrer exatamente dentro do prazo predito.

Estes fatos levam a perguntar: nao será que realmente os


trabalhos e maleficios mágicos sao portadores de desgragas
certas?

Eis a resposta devida:

— A sá razáo nao vé proporgáo entre os ritos mágicos e


os efeitos maléficos que se lhes atribuem.

A parapsicología e a biofísica, por sua vez, estudando o


ser humano, apontam duas possíveis explicacóes para a apre
goada «infalibilidades» da magia (na medida em que «infalibi
lidades ai existe):

2.1. O poder da sugesláo

Tenha-se presente a foroa da sugestao.

a) Se alguém me sugestiona ou se eu mesmo me suges


tiono, fazendo-me crer que, por causa de tal ou tal despacho
ou rito, serei vítima de doenca grave ou de morte, eu me pre-
disponho a esse mal; meu organismo se debilita, perdendo a
vitalidade necessária para resistir aos fatores de morte; irei
mesmo criando em mim as condigóes de excitacáo psíquica e
neurose propicias ao surto da doenga, que eu estarei prevendo
ou que estarei antecipando em meu espirito sugestionado.

Mais aínda: se me dizem que alguém está fazendo despa


chos contra mim, para que eu vá mal nos negocios ou no casa
mento ou para que seja atropelado por um veículo na rúa, e
se acredito que os despacham «pegam» mesmo, -estou-me con-

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«SOBRENATURAL E PSIQUISMO HUMANO 7

dicionando de tal modo que, sem o saber e querer, eu mesmo


me estarei precipitando na direcáo de um insucesso no matri
monio, nos negocios ou de um desastre de automóvel. Já terel
tragado meu programa no subconsciente e, sem o perceber,
seguirei esse esquema incutido pela sugestáo. O exame psico
lógico de individuos sugestionados revela que muitas vezes
«estáo 'á procura de um lugar propicio para o acídente».

b) Pode mesmo acontecer que pessoas venham a morrer


em virtude de auto-sugestáo. As estatísticas mostram que todos
os anos milhares de cidadáos morrem simplesmente porque
acreditam que estáo em perigo de morte e que esta é inevitá-
vel; assim condicionados, morrem nao por eficacia de algum
despacho que contra elas esteja sendo feito, mas únicamente
porque comegam a «funcionar» em vista de pretensa morte
iminente. Para comprovar esta afirmacáo, leve-se em conta
a seguinte experiencia:

Certos feiticeiros, desejosos de causar o mal a alguém,


fazem um boneco de paño, ao qual váo infligindo alfinetadas;
o boneco representa a pessoa vítima, enquanto as alfinetadas
significam os golpes mortais que os inimigos tencionam des-
ferir contra essa vitima. Ora as pessoas que sabem estar sendo
assim perseguidas, nao raro cedem ao desanimo e (inconscien
temente talvez) se entregam ao definhar e a própria morte
como se fossem presas de um destino incontornável. Todavia
tem acontecido que recuperam a coragem, caso alguém lhes dé
a crer que o boneco se perdeu ou o maleficio cessou. Em Lon
dres e Nova Iorque registram-se casos de tal tipo com pessoas
que, de resto, se mostravam sadias e equilibradas.

Eis outra explioagáo que se pode dar ao «éxito» das artes


mágicas:

2.2. Telepatía

Mesmo que a vítima ignore estar sendo perseguida por


um «despacho» (por conseguinte, ainda que nao esteja suges
tionada) , o mal pode acometé-la nao por eficacia do rito, mas,
sim, por efeito da telepatía.

Por «telepatía» entende-se o fato de alguém sofrer influen


cia de outra pessoa fora das condigóes normáis em que isto
acontecería. O pesquisador Joseph Rhine, na Duke University,

— 479 —
8 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

desde 1930 tem-se dedicado a numerosas experiencias que


demonstram a indiscutível ocorréncia de tal fenómeno. Na
Rússia, o grupo Popov, reunindo, entre outros, cientistas de
radiotécnica e eletrocomunicacáo, resolveu examinar o fenó
meno recorrendo aos processos de eletroencefalograma. Ave-
riguou entáo que a telepatia se deve ao fato de que o cerebro
da pessoa que influí, emite ondas eletromagnéticas correspon
dentes, ondas que a pessoa influenciada capta fielmente. Ao
receber urna imagem por telepatia, a atividade do cerebro da
pessoa receptora está localizada na regiáo ocipital (responsá-
vel pelas experiencias visuais), ao passo que, no caso de im-
pressóes sonoras, a atividade cerebral se sitúa na regiáo das
témporas (geralmente responsável pela audicáo). Está mesmo
averiguado que a telepatia só se verifica em certas condigóes
psicológicas, caracterizadas pela producáo de ondas cerebrais
de tipo alfa, de freqüéncia de oito a doze ciclos por segundo.

Ora o Dr. Milán Ryzl, médico tchecoslovaco residente nos


Estados Unidos, realizou urna serie de experiencias telepáticas,
em que a pessoa transmissora tentava comunicar emocóes.
Quando o tnansmissor se concentrava sobre sentimentos de an
gustia e sufocagáo, semelhantes as de crises asmáticas, a pes
soa receptora, a varios quilómetros de distancia, padecía inten
sos acessos de sufocagáo. Quando o transmissor se concentrava
em sentimentos lúgubres, o receptor passava a sentir violentas
dores de cabeca e náuseas que duravam horas; a reagáo do
eletroencefalograma respectivo correspondía a tais disturbios.

Tais fatos projetam nova luz sobre os resultados da magia


negra. Mostram que alguém pode ser afetado por males físi
cos e psíquicos sem que sofra sugestáo alguma, mas simples-
mente por efeito de telepatia; pode bastar que alguém (o fei-
ticeiro e, talvez, seu grupo) imagine tais males e os queira
dirigir sobre a vitima.

Para ilustrar quanto foi dito, pode-se citar William Sea-


brook, estudioso que viveu anos entre os negros malinkés da
antiga África Ocidental francesa. Refere este pesquisador que
a populacáo aborígene quis certa vez vingar-se de um cacador
belga, que a maltratava. Recorreram entáo á magia; os ne
gros foram buscar um cadáver de homem em aldeia vizinha;
revestiram-no com urna das camisas do belga; misturaram com
seus cábelos alguns cábelos do belga, e «batizaram» o cadáver
dando-lhe o nome do cacador. Puseram-se entáo a cantar e a
tocar tambor em torno desse corpo morto, concentrando todo

— 480 —
«SOBRENATURAL» E PSIQUISMO HUMANO 9

o seu odio malévolo sobre o homem branco que se achava a


quilómetros de distancia. Ora o cagador belga foi avisado repe
tidamente do que se estava fazendo contra ele. Sem demora,
veio a cair doente, e faleceu.

Pergunta-se: como explicar táo estranho fato?

Pode-se recorrer á auto-sugestáo. O cagador belga podia


crer (talvez apenas inconscientemente) que a magia era efi
caz. Isto bastaría para' provocar nele um estado de depressáo
psíquica e física mortal.

Mas é plausível também a explicagáo telepática. O fre


nesí do odio em torno do cadáver terá criado as condigóes
psicológicas adequadas á comunicagáo telepática; as emogóes
concentradas em torno do corpo morto terso exercido a sua
agáo nociva á distancia. Esta segunda explicagáo tem sua
grande verossemelhanca, dado que o cagador talvez nao acre-
ditasse (nem no seu inconsciente) nos efeitos da magia.

\ Observemos ainda o seguinte:

2.3. A sugestfio de massa

A forga da sugestáo (auto-sugestáo ou hétero-sugestáo)»


é muito mais atuante em urna assembléia do que em indivi
duos isolados. De modo geral, as forgas latentes dos individuos
se desencadeiam com mais facilidade quando estes se encon-
tram numa assembléia do que a sos. Numa massa de gente
o contagio do exemplo e o intercambio de forgas catalisam o
desencadeamento de processos subconscientes. Ésta observagáo
é verídica até mesmo entre os animáis: todo fazendeiro sabe
que um leitáo isolado nao engorda a contento; a engorda de
porcos, galinhas, coelhos é obtida ñas coletívidades de tais ani?
mais. Entre os homens, sabe-se que a sociedade influí podero
samente sobre o consciente e — mais ainda — sobre o incons
ciente dos seus membros; ela pode dar origem ao que se chama
«hipnotismo» ou «alucinagáo de massa».

Ora tal fenómeno ocorre freqüentemente nos centros de


magia. Da parte dos magos ou feiticeiros, a agáo conjunta ou
o «trabalho» coletivo provoca o desdobramento acelerado e

i Sugestáo que a próprla (auto) pessoa incute a si mesma ou suges-


-táo que outros (héterol) Ihe Incutem.

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10 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 191/1975

mais eficaz de suas facilidades naturais. Quanto aos pacientes,


a sugestáo de massa os condiciona fortemente. Com efeito;
tais pessoas, quando váo procurar o feiticeiro, acham-se geral-
mente traumatizadas e combalidas psíquicamente (lutaram pre
viamente para conseguir a solucáo de seus males ou molestias
por vias racionáis ou pela medicina, mas debalde); a magia, o
feitigo, o curanderismo vém a ser, para tais pessoas, a grande
esperanca, a única tábua de salvagáo (recomendadas, alias,
pela narracáo de casos maravillosos ocorridos com parentes
e amigos). Por isto tais pacientes estáo prontos a seguir cega-
mente o que o mago lhes venha a dizer: julgar-se-áo curados
caso o curandeiro lhes prometa a cura; ou aplicaráo qualquer
remedio, receita ou despacho, vivendo qualquer situacáo (por
mais alienante que seja), desde que o mesmo mago o mande.

Especialmente interessante é o que acontece com os curan-


deiros de verrugas, que existem em quase todas as partes do
mundo. Narram os peritos que no decorrer de uma experiencia
científica quatorze pessoas portadoras de verrugas por toda a
pele receberam a sugestáo de que ficariam boas ao menos das
verrugas de um lado do corpo. Ora isto de fato aconteceu
após dias de tratamento; desapareceram as verrugas de um
lado só desses pacientes. O fenómeno, estranho a primeira
vista, explica-se bem pelo fato de que as doengas da pele sao
as que mais ligadas estáo com perturbagóes ou sugestóes de
ordem psicológica. *

Consideremos de modo especial o que se chama

2.4. O «mau olhado» «u o «olho grande»

Há pessoas que se julgam totalmente prejudicadas desde


que um feiticeiro lhes lance um olhar de maldade. Contam
mesmo casos em que o «mau olhado» ou o «olho grande» teria
sido eficaz. Suposto que assim seja, perguntamo-nos: como
explicar tais casos?

Abstemo-nos da resposta por recurso 'á sugestáo (auto-


-sugestáo ou hétero-sugestáo), pois, embora plausível, esta res-
posta nao é especifica para o caso focalizado.

O que importa realcar aqui, é o seguinte: como dito, está


comprovado que as diversas partes do cerebro sao responsá-
veis por diversas fungóes, atitudes e expressóes do respectivo

— 482 —
«SOBRENATURAL» E PSIQUISMO HUMANO 11

sujeito; existe, sim, no cerebro urna regiáo associada á facul-


dade de falar; cutra, associada ao sentimento de dor; outra,
correspondente á atividade sexual, etc. Isto se tornou claro ao
máximo, quando em 1939 os frenólogos empreenderam certas
experiencias em macacos, amputando-lhes determinadas regióes
do cerebro a fim de averiguaren! os efeitos correspondentes
no comportamento desses animáis. Ora, em urna dessas inter-
vengóes apenas mexeram em um lado do cerebro; em conse-
qüéncia, verificaram que o macaco assim afetado era violento
e agressivo quando tinha apenas o olho esquerdo aberto, ao
passo que era indiferente e dócil quando olhava apenas com o
olho direito. — Estes fatos parecem fornecer a base anatómica
á antiga crenga de que os feiticeiros tém um «olho mau» ou
«olho grande», olho mau dotado de poderes próprios que o
outro nao tem.

A visáo realizada com tal olho mau (o direito ou o es


querdo, posto em relagáo com determinada regiáo do cerebro)
poderia desencadear a emissáo de ondas cerebrais eletromag-
néticas que produziriam os efeitos da telepatía já atrás men
cionados. Donde se vé que os resultados do mau olhar, quando
realmente existem, nao se devem a forca do Além.

É preciso agora notar que as pessoas dotadas de talentos


naturais especialmente importantes realizam os seus efeitos
«mitas vezes, pondo em agáo a sua extraordinaria forca de
vontade. Esta é freqüentemente a última responsável por fenó
menos extraordinarios, comumente tidos como sobrenaturais.

3. Forjo de vontade

1. As religióes orientáis (em especial, o budismo) mobi-


lizam fortemente a vontade dos seus adeptos, exigindo deles
exercicios físicos e psíquicos dos quais resultam auténticos
prodigios (prodigios, porém, contidos dentro da capacidade do
próprio sujeito).

Entre os monges tibetanos, por exemplo, é praticado o


tomo, exercicio destinado a combater o frió gélido ocorrente
aos 3.060 m de altitude dos planaltos do Tibe. Os jovens que
que se iniciam no monaquismo da regiáo, aprendem urna serie
de práticas de respiracáo e meditagáo, e retiram-se para luga
res afastados a fim de melhor se treinarem. Todos os dias,

— 483 —
12 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

banham-se em agua gelada e sentam-se ñus sobre a nevé, pen


sando em calor e fogo internos. Após o prazo de treinamento,
sao submetidos á prova final: em gélida noite de invernó, cada
discípulo é envolvido em lencol previamente mergulhado no rio
recoberto de carnada de gelo; o jovem deve conseguir secar
completamente esse lenijol apenas com o calor de seu corpo ao
menos tres vezes durante a mesma noite. Caso o alcance, o dis
cípulo já nao usará senáo urna túnica de algodáo em qualquer
estagáo do ano e a qualquer altitude. Varios expedicionarios
que galgam o monte Everest, relatam ter visto eremitas com
pletamente ñus colocados a grandes altitudes ñas neves eternas.

Os tibetanos praticam também o lung-gom ou a arte de se


deslocar com extraordinaria velocidade através dos planaltos
inóspitos e desertes do Tibe. O treinamento respectivo consiste
em viver na escuridáo e no retiro completos durante trinta e
nove meses dedicados a exercícios de respiragáo profunda. Ale-
xandra David-Neel diz ter visto em pleno vdo um monge do
mosteiro de Tsang famoso pela rapidez de sua corrida:

"Eu podía distinguir nítidamente o seu semblante impassfvel, perfei-


tamente calmo, e seus olhos largos abertos, fixos em algum objeto invi-
sfvel muito distante, situado ñas alturas do espaco. O homem nao corria.
Parecía leyantar-se ácima do solo e adiantar-se aos saltos. Parecía dotado
da elasticidade de urna bola e pulava de novo cada vez que seus pés
tocavam o ch§o" ("Mystiques et maglciens du Tibet". Paris 1929).

A forga de vontade chega a dominar certas fungóes do


sistema simpático do organismo em adeptos da Yoga, do Zen-
-budismo e de alguns cultos da África: o ritmo do pulso, a res
piragáo, a digestáo, as fungóes sexuais, a atividade renal...
podem ser influenciados pela vontade dos iniciados que o quei-
ram. Ao fim de anos passados em treinamento de reflexos
condicionados, os peritos conseguem reduzir a quase zero as
pulsacóes do coragáo, diminuir a temperatura do corpo até
quase a de um cadáver e prender a respiragáo espagando-a
por intervalos de dois ou tres minutos. Nessas circunstancias,
o organismo entra em estado de quase hibemagáo e pode ser
enterrado vivo durante dias sem efeitos nocivos. A irritabili-
dade do corpo pode ser extinta de tal modo que pregos e agu-
Ihas sejam enfiados nos membros, ñas faces ou na lingua do
paciente sem reacáo de dor; o sistema nervoso simpático pode
ser inibido no local respectivo, de sorte que nenhuma hemor
ragia decorra da experiencia. As pupilas dos olhos, que nor
malmente reagem á luz e as emogóes, podem ser igualmente
dominadas. Tais fenómenos sao descritos nos livros de Lobsang

— 484 —
«SOBRENATURAL» E PSIQUISMO HUMANO _13

Rampa, que muito vérn impressionando o público brasileiro.


Por si nada tém de sobrenatural; tém sido reproduzidos em
laboratorio em vista de pesquisas científicas. Como se com-
preende, para chegar a tais efeitos requerem-se pessoas espe
cialmente dotadas e sujeitas a longo treinamento.

2. No Congresso de Bruxos realizado em Bogotá (agosto


1975), chamou especialmente a atencáo do público o israe-
lense Uri Geller, que tem faculdade de dobrar pegas de metal
(por exemplo, urna chave) á distancia mediante a forga do seu
pensamento. Uri Geller tem feito demonstragóes de suas facul
dades em emissoras de televisáo, granjeando assim fama
extraordinaria. Todavía o próprio «herói» nao apela para for
eas sobrenaturais a fim de explicar seus prodigios. Na ver-
dade, estes podem ser entendidos como expressóes da forca de
vontade de pessoa especialmente dotada de faculdades teleci
néticas.

A telecinesia é a mogao de corpos á distancia. Faz-se me


diante faculdades psiquicas ou ondas eletromagnéticas emitidas
pelo sujeito; dai o nome de psicocinésia que também se lhe dá,
usando-se entáo a sigla PK.

Os fenómenos de psicocinésia foram estudados com espe


cial interesse pelos dentistas russos, entre os quais se tornou
famosa a jovem Nelya Mikhailova. Esta, aos quatorze anos
de idade, combatía no exército russo contra os alemáes. Fe-
rida, foi hospitalizada — o que lhe deu a ocasiáo de mani
festar as suas estranhas faculdades. Declarou ela: «Um dia eu
estava muito irritada e transtornada. Caminhava na direcáo
de um armario, quando de repente um jarro se deslocou, caiu
e se quebrou em mil pedagos». Depois deste primeiro fato,
outros muitos ocorreram: os objetos se deslocavam espontá
neamente, as portas se abriam e fechavam, as luzes se acén-
diam e apagavam. Todavia Nelya diferia das pessoas que pro-
vocam tais fenómenos em casas «mal assombradas»: enquanto
estas ignoram que sao causadoras dos disturbios da assombra-
gáo (cf. PR 182/1975, pp. 81-92), Nelya tinha consciéncia de
que era ela a responsável pela mogáo dos corpos e as altera-
góes do seu ambiente; ela podia excitar e comandar conscien
temente a sua energía, que atuava em torno déla.

Um dos primeiros estudiosos dos talentos de Nelya foi o


biólogo russo Eduardo Naumov, da Universidade de Moscou.
Por ocasiáo de um teste realizado em seu laboratorio, Naumov

— 485 —
14 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

espalhou por cima de urna mesa o conteúdo de urna caixa de


fósforos; Nelya pos suas máos a girar por cima dos fósforos,
trémula pelo esforgo de concentragáo que fazia; finalmente os
fósforos todos se deslocaram para urna das margens da mesa
e foram caindo sucessivamente por térra. A finí de evitar as
correntezas de ar, os fios metálicos e outras interferencias,
Naumov recomegou a experiencia colocando um involucro de
vidro sobre os fósforos; nao obstante, os fósforos se move-
ram como dantes. Naumov colocou ainda cinco cigarros de-
baixo do vidro; Nelya mostrou que ela podía escolher entre os
cinco, de modo a só por em movimento um dos cigarros.

Vadim Marine, que jantou com Nelya, refere o seguinte:

"Achava-se um pedaco de pao sobre a mesa, a certa distancia de


Mikhallova. Concentrándose, ela o olhou atentamente. Passou-se um mi
nuto... depols outro... e o pedaco de pño comecou a deslocar-se...
Chegando á margem da mesa, moveu-se de manelra mais rápida e regular.
Mlkhailova balxou a cabeca, abrlu a boca e, como nos contos de fadas, o
pao mesmo (desculpem-me nao ter outras palavras para dlzé-lo) Ihe saltou
para dentro da boca" (o relato se acha no livro de S. Ostrander e L.
Schroeder: "Psychlc Oiscoverles Behind the Iron Curtaln". Englewood
Cliffs, N. J.: Prentlce-Hall 1971).

A mais impressionante das experiencias realizadas com


Milchailova consistiu em quebrar um ovo cru num solugáo
de agua e sal a 1 m 80 cm de Nelya. Esta concentrou-se heroi
camente sobre o ovo e, finalmente, ao cabo de meia-hora,
conseguiu separar, urna da outra, a clara e a gema do ovo.

Tal pessoa foi submetida a minuciosos exames médicos:


verificou-se que tinha em torno do corpo um campo magné
tico táo intenso que era apenas dez vezes menos potente do
que o da própria térra; emitía ondas cerebrais de tipo singu
lar, pois a voltagem produzida na parte de tras da cabeca era
cinqüenta vezes mais forte do que a da frente. Durante a
experiencia com o ovo, o eletroencefalograma de Nelya revelou
intensa excitagáo emocional; o eletrocardiograma apresentou
graves irregularidades, sinal de grande inquietude; o pulso se
elevou a 240 batidas por minuto, ou seja, urna cota quatro
vezes superior á normal; registraram-se elevadas porcentagens
de agúcar no sangue, além de outras perturbacóes endocrinas,
que todas caracterizam a estafa. Durante os trinta minutos de
experiencia, Nelya perdeu mais de um quilo; no fim do dia
estava fraca e temporariamente cega, sentía dores nos bracos
e ñas pernas, além de tonteiras.

_ 486 —
«SOBRENATURAL? E PSIQUISMO HUMANO 15

Ora os fenómenos ocorridos com Nelya MUthailova supóem


a agáo da forga de vontade da heroina a mover as facilidades
psicocinéticas (PK) da mesma pessoa. Quanto a Uri Geller,
seria necessário observar este personagem segundo criterios
científicos (a televisáo, no caso, nao fornece as bases seguras
para se construir alguma teoría científica); Uri Geller tenta
ría reproduzir seus fenómenos sob controle médico com a
exclusáo de qualquer possibilidade de truque ou interferencia
estranha... Depois disto é que se poderia proferir um pri-
meiro juízo sobre o caso; este se pode assemelhar aos fenó
menos conseqüentes da forga de vontade e da psicocinésia do
paciente.

A psicocinésia é realidade copiosamente estudada por


Rhine, o qual, após vinte e cinco anos de testes e experiencias
realizadas ñas mais diversas circunstancias, concluiu que «o
espirito possui efetivamente uma forga capaz de afetar direta-
mente a materia física». Rhine julga que o acervo de provas
em favor da psicocinésia é táo grande que «o simples fato de
repetir os testes PK com o mero objetivo de encontrar mais
provas do efeito PK seria inconcebível perda de tempo». Cf.
L. E. Rhine, «Mind over Matter», London, Macmilliam 1970.

4. Aura

Pode-se dar como certo que a esfera de influencia do corpo


humano nao cessa com a respectiva epiderme. Para explicar
o fato, nao poucos dentistas admitem um bioplasma emanado
do corpo. É este fenómeno que explica o que em linguagem
mediúnica se chama «aura» ou «corpo astral» ou «corpo eté
reo». O espiritismo se utiliza deste conceito para desenvolver
teorías matapsiquicas. Ora, abstraindo das teses espiritas (que
sao inspiradas por determinada filosofía religiosa, e nao ape
nas pela experiencia de laboratorio), pode-se dizer o seguinte,
na base de pesquisas que tém grande verossemelhanga (em-
bora estejam sujeitas a constante revisáo):

Todos os organismos vivos emitem uma energía vital. Esta


constitui um campo vital, que tem forma paralela a do corpo
donde emana, e goza de certa independencia em relagáo a este.
Na Rússia, as pesquisas sobre este fenómeno foram sistemáti
camente empreendidas por biofísicos e bioquímicos da Univer-
sidade de Kirov em Alma-Ata; servindo-se de um microscopio

— 487 —
16 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

eletrónico, identificaram esse campo vital com «uma especie


de constelagáo elementar do tipo plasma, constituido por par
tículas ionizadas»; a esta constelagáo deram o nome de «corpo
de plasma biológico».

Pergunta-se: e que significa «plasma» neste contexto?

«Plasma» é um gas táo ionizado que todos os elétrons


foram retirados dos núcleos de seus átomos. Isto se dá geral-
mente mediante uma reagáo termo-nuclear, quando a tempe
ratura é elevada a trezentos milhóes de graus C e as partí
culas gasosas sao aceleradas a velocidades tais que provoquem
a fusáo. Nao há prova de que um fenómeno semelhante possa
ocorrer á temperatura do corpo humano. Mas esta falta de
prova nao significa que ó fenómeno seja impossível dentro das
condigóes 'habituáis do corpo humano. Leve-se em conta que
tal ramo da Física é táo novo que ninguém sabe exatamente
o que dá origem ao plasma nem o que este é capaz de originar.
Pode-se dizer com certeza, sobre o assunto, que o único ele
mento capaz de conter eficazmente a energia do plasma é um
campo magnético; ora sabemos que o corpo humano possui
seu campo magnético.

A partir de 1939, o eletricista russo Semyon Kirlian em


em Krasnodar, perto do Mar Negro, tem-se dedicado á percep-
gáo do campo vital ou da aura que emana dos corpos vivos;
fabricou aparelhos diversos durante vinte e cinco anos. Em
1964, o casal Kirlian conseguiu chegar ao termo de suas inven-
góes: realizou um aparelho apto a fotografar a aura eletrica
procedente dos organismos.

Caso assaz interessante, a este propósito, verificou-se em


Moscou: com um aparelho Kirlian foi íotografada uma folha
vegetal intata; a seguir, os experimentadores cortaram uma
terga parte dessa folha, e tiraram outras fotografías desta.
Ora durante breve periodo após a ablacáo da terga parte da
folha, via-se na fotografia uma imagem semelhante a um «fan
tasma», que reproduzia o contorno completo e cintilante da
folha original inteira!

Acontece também que pessoas ás quais é amputada uma


perna, declaram que continuam a senti-la e se queixam de comi
chees nos artelhos ausentes. Ora isto se pode explicar ou pela

— 488 —
«SOBRENATURAL» E PSIQUISMO HUMANO 17

persistencia de esquemas sensoriais no cerebro ou — quigá


pela aura eletromagnética que tenha ficado no lugar da perna
amputada.

Há pessoas que dizem ver a aura de corpos alheios... Isto


nao parece de todo impossível nem fantasista. Na verdade, os
olhos humanos sao sensíveis á luz situada entre as ondas do
comprimento de 380 a 760 milimícrons. Grapas a fontes arti
ficiáis, de intensidade muito forte, podemos estender esses limi
tes para as zonas de raios infra-vermelhos e ultra-violetas. Há,
porém, pessoas mais sensíveis, que sao capazes de ver natu
ralmente ondas que outras nao véem; as que dizem ver a aura
do corpo humano, sao talvez sensíveis ao extremo infra-ver-
melho do espectro. As ondas deste comprimento ultrapassam
as capacidades das células em forma de cone da retina humana,
mas possivelmente estáo dentro dos limites das células em
forma de bastonete, que sao mais sensíveis aos raios de inten
sidade fraca.

Como quer que seja, embora naja ainda oscilagóes e hipó-


teses no tocante ao campo vital do organismo humano, pode-se
afirmar que este é algo de natural e deve ser explicado pela
constituicáo mesma do corpo vivo; por si nada tem que ver
com fenómenos sobrenaturais ou místicos.

Eis o que, dentre os muitos dados fornecidos pelas ciencias


contemporáneas, interessa realgar a fim de esclarecer porten
tos que, na falta da devida explicagáo, sao fácilmente atribuí-
dos a poderes do Além.

Na elaborado deste trabalho, multo nos valemos do llvro de Lyall


Watson: "Histoire naturelle du surnaturel". Albín Mlchel, 22 Rué Huyghens,
75014 París 1974. O tlvro merece ser Ildo, pols é autentica enciclopedia
que fornece ao leltor rico documentarlo proveniente dos estudos e da ex
periencia do seu autor, que ó um biólogo sul-afrlcano (portento alguém
que estudou a vida e suas manifestares em seus diversos graus).

Em portugués, recomenda-se especialmente a serle de llvros do Pe.


Osear Quevedo:

"A face oculta da mente". Sflo Paulo, 9? edlcfio 1966.

"As torcas físicas da mente". Sao Paulo 1968.

— 489 —
Um novo documento:

aínda a existencia do demonio

Em sintese: Dadas as recentes hesitares de pensadores sobre a


existencia e a acáo do demonio, a Sagrada CongregacSo para a Doutrlna
da Fé pediu a um de seus peritos estudasso o assunlo; donde resullou
um documento publicado no jornal "L'Osservatore Romano" de 4/07/75
(ed. francesa) pp. 5-8.

O autor, examinando o texto do Novo Testamento, observa que os


judeus nao tlnham crenca definida a respeito da existencia do demonio
(os fariseus a admitiam, ao passo que os saduceus a negavam); por con-
seguinte, nao se deveria dizer que Jesús, ao afirmar claramente no Evan-
gelho a realidade e a acSo do Maligno, se tenha adaptado á mentalidade
dos judeus. Cristo era assaz Independente em relacao a esta; veja, por
exemplo, o serm&o da montanha (Mt 5-7).

Passando á Tradlcáo crista, o autor se detém principalmente sobre o


texto do Concilio Ecuménico do Latráo IV (1215), evidenciando que se
trata de urna profissáo oficial de fé, e nao de urna declaracáo disciplinar
ou reformável da Igreja. De resto, o Concillo do Vaticano ti, ñas Constl-
tulcñes "Lumen Gentlum" e "Gaudlum et Spes", reiterou a crenca na
existencia e na acSo de Satanás.

Se hoje em dia a Igreja, fazendo eco á constante Tradicáo, reafirma


a. realidade do Maligno, Ela nao o faz para restaurar filósofos dualistas ou
crendlces e tese» de magia, nem para isentar o homem de suas respon
sabilidades. Apenas tenciona ser fiel ao Evangelho e lembrar ao homem,
fascinado pela técnica contemporánea, que nem tudo se explica natural
e científicamente; há, sim, o misterio da ¡nlqüidade, ao qual nenhum sur
humano sucumbe se nao o quer, pois foi libertado por Cristo, que venceu
o Príncipe deste mundo.

Comentario: O jornal «L'Osservatore Romano», em sua


edigáo francesa de 4/07/1975, publicou um estudo elaborado
por perito em nome da S. Congregagáo para a Doutrina da Fé
(Roma) a respeito da existencia do demonio. A mencionada
S. Congregagáo «recomenda vivamente esse estudo como base
segura para reafirmar a doutrina do Magisterio sobre o tema
'Fé crista e demonologia'» (1. c, p. 5).

Verdade é que a existencia e a agáo do demonio no mundo


nao constituem artigos centráis ou principáis da doutrina de fé
católica. Esta se volta, antes do mais, para Deus e a riqueza

— 490 —
AÍNDA O DEMONIO 19

de sua vida, Jesús Cristo, a S. Igreja, os sacramentos e sua efi


cacia santificadora, e a vida eterna. Trata-se de urna Boa-
-Nova, que eleva e regozija os homens. Todavía em 1973 e
1974 o romance e o filme «O Exorcista» puseram em foco o
demonio suscitando questóes bíblicas, teológicas, filosóficas,
psicológicas... relacionadas com o assunto. Eis por que a
Santa Sé houve por bem mandar elaborar a interessante pes
quisa publicada oficialmente no «L'Osservatore Romano». Eis
também por que nos parece oportuno comunicar aos nossos
leitores, em termos sucintos, o conteúdo desse ampio estudo.

1. O problema

A existencia do demonio, constantemente afirmada pela


Igreja através dos séculos, hoje em dia tem sido discutida.

1) Há os que, estudando as Escrituras Sagradas, nao


ousam afirmar ou negar algo a respeito, ao passo que outros
rejeitam explícitamente a realidade do demonio.

Em particular, há quem afirme que as palavras de Jesús,


em caso algum, sao suficientes para assegurar a existencia dos
anjos maus. O que os Evangelhos atribuem a Jesús sobre o
assunto, nao proviria de Jesús Cristo mesmo, mas de escritos
judaicos anteriores ou de idéias de cristáos posteriores a Cristo.

2) Outros estudiosos reconhecem o peso das afirmacóes


bíblicas concernentes ao demonio, mas julgam ser inaceitáveis
aos homens de hoje, mesmo aos cristáos. Por conseguinte,
rejeitam-nas.

3) Outra corrente assevera que a nocáo de Sata, qual-


quer que seja a sua origem, perdeu hoje a sua importancia.
Quem a queira hoje propor, cai em descrédito.

4) Há aínda aqueles para os quais os nomes de Sata e


diabo sao meras reminiscencias míticas, que significam de ma-
neira dramática a agáo do mal e do pecado sobre o género
humano. Procure-se outra maneira — dizem — de incutir aos
cristáos o dever de lutar contra as expressóes do mal no
mundo.

Tais teses, difundidas com aparato de erudigáo em revis


tas e dicionários de teologia, vém perturbando os cristáos. En-
quanto uns se sentem inseguros e vacilantes, os outros as rejei-

— 491 —
20 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 191/1975

tam e, perplexos, interrogan* a que ponto chegará o processo


de «desmitizacáo» empreendido em nome de certa corrente de
filosofía e hermenéutica.

A fim de elucidar a questáo, o estudioso comega por exa


minar os textos do Novo Testamento.

1. O testemunho do Novo Testamento

2.1. Observas5o preliminar

Seria precipitado afirmar que Jesús, ao falar do demonio,


se tenha simplesmente adaptado á mentalidade dos judeus con
temporáneos. Estes, na verdade, divergiam entre si sobre esse
assunto. Enquanto os fariseus admitiam os anjos e demonios,
os saduceus recusavam a realidade dos mesmos; cf. At 23, 8.
Donde se vé que nao se deveria crer fácilmente que Jesús, ao
expulsar os demonios, e os escritores do Novo Testamento, ao
relatarem tal fato, estavam simplesmente adotando concepgóes
e práticas do seu tempo. Embora Jesús compartilhasse a cultura
da sua época, ultrapassava-a como Deus e, quando necessário,
mostrava-se independente em relacáo a mesma; tenha-se em
vista, por exemplo, o sermáo da montanha (Mt 5-7), em que o
Senhor desconcerta os seus ouvintes, propondo urna «justíca
melhor» do que a dos fariseus e escribas.

Mais : se Jesús se tívesse acomodado a crendices de cor-


rentes judaicas antigás sem as abonar interiormente, teria
traído a sua missáo e o seu ser divino. Ele veio para dar tes
temunho da verdade, como o afirma em Jo 18,37.

2.2. O testemunho do próprio Cristo "'

Jesús iniciou o seu ministerio público aceitando ser ten


tado pelo demonio; cf. Mt 4,1-11; Me l,12s; Le 4,1-13.

Logo no sermáo da montanha (Mt 5-7), quis que os seus


discípulos se acautelassem contra o Maligno; cf. Mt 5,37. No
final do «Pai Nosso», aparece a cláusula «Mas livrai-nos do
poneróu», onde a palavra poneróu tem sido — e até hoje é —
entendida como alusáo ao Maligno; cf. Mt 6,13 e comentarios
(tanto modernos como antigos) do «Pai Nosso».

— 492 —
AÍNDA O DEMONIO 21

Em suas parábolas, Jesús atribuiu a Sata os obstáculos


encontrados pela pregacáo da Palavra de Deus, assim como o
joio disseminado no campo de trigo; cf. Mt 13,18. 28. 38s. O
pecado significa «fazer as obras do diabo», que é homicida e
mentiroso desde o inicio e ao qual se filia o pecador (cf. Jo 8,44).
Aproximando-se a Paixáo, Cristo declarou a Simáo Pedro que
Satanás pedirá os apostólos para os joeirar, mas Ele, o Senhor,
intercederá por Pedro, a fim de que a fé deste nao desfalecesse;
cf. Le 22, 31. Ao deixar o cenáculo, o Senhor afirmou que a
vinda do «Principe deste mundo> era iminente; sabia, porém,
que este já se achava condenado; cf. Jo 14, 30; 16, 11. Como
que para testemunhar esta verdade em termos sensiveis, Jesús
expulsava os demonios dos possessos; estas curas de endemoni-
nhados esclareciam o sentido da missáo do Senhor, como Ele
mesmo declarava : «Se é pelo Espirito de Deus que expulso os
demonios, chegou até vos o Reino de Deus» (Mt 12,28).

A esta altura, comenta o autor do estudo citado:

"Estes fatos e estas declaragOes... nSo sio o resultado do acaso.


Nao ó possfvet tratá-los como dados fabulosos que deverlamos desmltlzar.
Se nao, feriamos de admitir que nessas horas criticas a conscléncia de
Jesús (cuja lucidez e autodominio perante os julzes sSo atestados pelos
Evangelhos) era vítima de fantasías ilusorias e que a sua palavra carecía
de firmeza. Ora isto contradiría ás impressóes colhidas pelos prlmeiros
ouvintes e pelos atuais le llores dos Evangelhos. Por consegulnte, imp&e-se
a conclusSo: Sata, que Jesús enfrentou nos seus exorcismos,... que
Jesús encontrou no deserto e na sua Paixáo, nao pode ser o simples
produto da faculdade humana de forjar e projetar fábulas, nem é o res
quicio aberrante de urna linguagem de cultura primitiva" (art. citado, p. 5,
colunas 3 e 4).

2.3. Os dentáis escritos do Novo Testamento

Ñas cartas paulinas, Sata aparece como «o deus deste


mundo» (2 Cor 4,4). Age na historia através do que o apostólo
chama «o misterio da iniqüidade» (2Ts 2,7); exerce também a
sua influencia mediante a incredulidade que recusa o Senhor
Jesús (2Cor 4,4),... mediante a aberracáo dos ídolos (ICor
10,19s; Rm l,21s), a seducáo dos erros que ameacam a fide-
lidade da Igreja ao Cristo, seu Esposo (2Cor 11,3).

Quanto ao Apocalipsc, é o livro em que por excelencia o


leitor depreende o sentido da historia: esta vem a ser o grande
embate entre o Senhor Jesús e Sata, terminando com a vitória
do Cristo ressuscitado; leve-se em conta principalmente o ca
pítulo 12 desse escrito, em que os nomes e simbolos do Adver
sario sao elucidados.

— 493 —
22 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

Após a análise dos textos bíblicos, o documento em foco


considera os testemunhos da Tradicáo e do Magisterio da Igreja.
É o que passamos a transmitir em sintese.

3. Os testemunhos da Tradigáo

Os antigos escritores da Igreja, desde o século II, profes-


saram a convicc.áo, incutida pela Biblia, de que o demonio é o
adversario da obra de Cristo e do género humano.

Os escritores que elucidaram o designio de Deus sobre a


historia, puseram em foco a acáo do Maligno; muito especial
mente o fizeram S. Ireneu (f202 aproximadamente), Tertuliano
(f após 220), que refutaram o dualismo gnóstico e o marcio-
nismo. — Para S. Ireneu, por exemplo, o diabo é um anjo de
caído, que Cristo quis enfrentar desde o inicio do seu ministerio;
assumiu assim a luta que aos homens competía e compete tra-
var (Adv. Haer. V, 21,2; 24,3).

Pode-se mesmo dizer que quase nao há escritor antigo que


nao se tenha referido ao demonio, afirmando a sua agáo no
mundo.

No século V, S. Agostinho (f 430) apresentou a visáo das


duas cidades — a de Deus e a do diabo —, que tiveram origem
no instante em que os anjos maus se declararam infiéis ao
Senhor («De Civitate Dei» XI, 9). A sociedade dos homens
que pecam, parecia-lhe ser o «corpo místico» do diabo («De
Genesi ad litteram» XI, 24, 31) — imagem esta que ocorre
mais tarde nos «Moralia in Job» de S. Gregorio Magno (f 604).

Em suma, a doutrina dos Padres ou escritores antigos da


Igreja fez eco fiel ás diretrizes do Novo Testamento.

4. O Magisterio

No decorrer dos seus quase vinte séculos de historia, o


Magisterio da Igreja poucas vezes se pronunciou sobre o demo
nio em termos dogmáticos. A razáo disto é que tais pronuncia-
mentos supóem sempre especial ocasiáo (o surto de alguma
heresia, urna controversia...). Ora em duas fases houve, de
fato, motivo para que a Igreja proferisse explicitamente a sua

— 494 —
AÍNDA O DEMONIO 23

doutrina sobre o demonio: a primeira ocorreu no século VI


(563 ou 566), quando o Maniqueísmo e o Priscilianismo enseja-
ram urna afirmagáo solene do Concilio regional de Braga I (Por
tugal). A segunda se deu no século xm (1215), quando o Con
cilio ecuménico do Latráo IV se opós ao novo surto de Mani
queismo encabecado pelos cataros ou albigenses.

O Concilio de Braga I, retomando os ensinamentos dos


mestres dos sáculos anteriores (principalmente os de S. Leáo
Magno, t 461), assim se exprimía no seu canon 7 :

"Se alguém dlsser que o Dlabo nfio fol primeramente um anjo bom
felto por Deus e que a sua natureza nao foi a obra de Deus; se, ao
contrario, afirma que o diabo salu do caos e das trevas e que nfio tem
autor do seu ser, mas é ele mesmo o principio e a substancia do Mal,
como disseram Maniqueu e Prlsclllano, seja anatema" (Denzlnger-Schon-
metzer, "Enqulrldio" n? 457 [237]).

O Concilio nao tinha necessidade de afirmar a existencia


do demonio, pois esta nao era controvertida entáo; mas, supon-
do-a, professou que o demonio é urna criatura de Deus inicial-
mente boa; a sua perversáo 'há de ser explicada por abuso da
überdade de arbitrio desse anjo infiel a Deus.

No século XI o surto do Catarismo ou dos Cataros, tam-


bém ditos «Albigenses», que reavivavam o maniqueismo, pro-
vocou outra Declaracáo do Magisterio da Igreja, desta vez
reunido no Concilio ecuménico do Latráo IV (1215). Eis o
teor do documento entáo redigido :

"Oremos firmemente e professamos slmplesmente... um Principio


único do universo, Criador de todas as coisas visíveis e invislveis, esplrl-
tuals e corporais: por sua onipoténcia, desde o comeco do tempo, Ele
crlou do nada urna e outra criatura — a espiritual e a corporal —, a
saber: os anjos e o mundo. A seguir, criou o homem, que se constituí de
urna e de outra, pois é composto de espirito e corpo. Pois o diabo e os
outros demonios foram criados por Deus naturalmente bons, mas por si
mesmos tornaram-se maus. Quanto ao homem, pecou por InstigacSo do
dlabo" (Denzinger-Schonmetzer, "Enqu iridio" 800 [428]).

O problema ao qual esta declaragáo devia responder em


sua época, era, como foi dito, o do dualismo. Com efeito, os
herejes julgavam haver um principio subsistente do mal oposto
a Deus, que seria o principio do bem. Em vista disto é que o
Concilio declara haver um so Criador, ao qual se reduzem até
mesmo os anjos maus; estes, embora bons por natureza, se per-
verteram por abuso de sua liberdade. Assim o Concilio nao
define explícitamente a existencia dos demonios, mas supóe-na

— 495 —
24 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

aceita e indiscutida; apenas se interessa por explicá-la — o que


equivale implícitamente a urna afirmagáo da existencia dos
anjos maus.

O Concilio nao diz quantos sao nem como peearam nem


qual o alcance da sua agáo entre os homens, pois estas ques-
tóes ficavam fora do questionamento levantado pelos cataros.
— A afirmagáo do Concilio do Latráo IV é de importancia capi
tal; nao tem valor disciplinar apenas, mas seu estilo é o de urna
solene profissáo, que exprime estritamente a fé da Igreja ofi
cial e universal. Os precedentes desta formulagáo dogmática se
encontram esparsos por toda a Tradigáo crista (escritores e
Concilios), que o recente documento da S. Congregagáo para
a Doutrina da Fé passa em revista, minuciosa e exaustivamente.

O mesmo estudo cita ainda os Concilios ecuménicos de


Florenoa (1439-1445) e Trento (1545-1563), que se pronun-
ciaram em consonancia com o do Latráo IV. E finalmente
lembra que também o Concilio do Vaticano II professou a
existencia e a agáo do demonio, chegando mesmo a referir-se
aos milagres e exorcismos praticados por Jesús como sendo
sinais de que o Reino de Deus chegara sobre a térra :

"Urna luta Ardua contra o poder das trevas perpassa a historia uni
versal da humanldade. Iniciada desde a orlgem do mundo, vai durar até
o último día, segundo as palavras do Senhor (cf. Mt 24,13; 13,24-30. 36-43).
Inserido nesta batalha, o homem deve lutar sempre para aderlr ao bem r
nSo consegue alcancar a unidade interior senfio com grandes labutas e o
auxflio da graca de Deus" (Const. "Gaudium et Spes" n? 37).

"O misterio da Santa Igreja manifesta-se na sua próprla fundacáo..


Pols o Senhor Jesús inlciou sua Igreja pregando a Boa-Nova, isto é, o
advento do Reino de Deus prometido ñas Escrituras havla séculos... Este'
Reino manlfesta-se lucidamente aos homens na palavra, ñas obras e na.
presenca de Cristo. Pois a palavra do Senhor é comparada á sementé
semeada no campo (Me 4,14): os que a ouvem com fé e sfio contados no-
número da pequeña grel de Cristo (Le 12,32), receberam o próprio Reino;
depois, por sua própria torca a sementé germina e cresce até o tempo da
messe (cf. Me 4,26-29). Também os milagres de Jesús comprovam que o
Reino Já chegou á térra: 'Se expulso os demonios pelo dedo de Deus,
certamente é chegado a vos o Reino de Deus' (Le 11,20; cf. Mt 12,28).
Sobretudo, porém, o Reino é manifestado na próprla pessoa de Cristo,
Filho de Deus e Filho do homem, que veio 'para servir e dar a sua vida
em redengño por muitos' (Me 10,45)" (Const. "Lumen Gentlum" n? 5).

Podem-se citar ainda as Constituigóes «Lumen Gentium>


35a. 48d, «Gaudium et Spes» 37b e o decreto «Ad gentes» 3.14..
Examinemos ainda outro documentário da teología da.
Igreja.

— 496 —
AÍNDA O DEMONIO 25

5. O testermmho da Liturgia

Os textos (oragóes, hinos, invocagóes) utilizados no culto


divino ou na Liturgia sao expressóes da fé oficial da Igreja
ou do povo de Deus. Eis por que interessa averiguar o teste-
munho dos mesmos no tocante ao demonio :

A Liturgia oriental é, sem dúvida, exuberante em suas


alusóes a Satanás e á agáo diabólica entre os homens. A Litur
gia latina, que também era rica em tais mencóes, passou últi
mamente por reformas, que a simplificaran!.

Assim já nao se confere habitualmente o ministerio do


exorcismo (poder de expulsar os demonios), que antes da re
forma constituía urna Ordem menor. Apenas em casos esporá
dicos é facultado aos bispos pedir á Santa Sé a ordenagáo de
exorcistas para as dioceses respectivas. Isto, porém, nao quer
dizer que os sacerdotes nao possam ou nao devam praticar o
exorcismo, desde que as circunstancias o indiquem. Todavía a
reforma litúrgica neste ponto manifesta que a Igreja nao atribuí
aos exorcismos a importancia que eles tinham nos primeiros
sáculos.

No rito de batismo de criangas os varios exorcismos nao


foram de todo supressos, como se tem dito, mas, sim, substituí-
dos por urna única fórmula de exorcismo («oratio exorcismi»),
que antecede a ungáo pré-batísmal. Esta prece nao significa
que a Igreja julgue serem as criancinhas possessas do demonio;
mas Ela eré que, antes do Batismo, todo ser humano (adulto
ou crianga) traz em si a marca do pecado e da agáo de Satanás.

No ritual de iniciagáo crista dos adultos, também se regis-


tram modificagóes. O demonio nao é interpelado com a veemén-
cia de outrora. Todavía nao faltam ai preces de exorcismo
«maiores» e «menores» disseminadas por toda a extensáo do
catecumenato, sendo que algumas dessas preces foram ai intro-
duzidas precisamente pela reforma litúrgica.

No novo rito de Ungáo dos Enfermos, pede o sacerdote


que o paciente «seja livre de todo pecado e tentagáo». O óleo
santo é considerado «protegáo do corpo, da alma e do espirito».
As preces de encomendagáo dos agonizantes pedem a Cristo,
queira receber o moribundo entre as suas ovelhas e os seus elei-
tos; nao mencionam demonio nem inferno, a fim de evitar trau-

— 497 —
26 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

matismos desnecessários, mas aludem discretamente ao mis


terio da iniqüidade como a fé da Igreja sempre o entendeu.

Deve-se aínda referir que na Liturgia de varios domingos


do ano a Igreja 1§ secgóes do Evangelho que narram a agáo do
demonio e a luta de Jesús contra o mesmo; assim, por exemplo,
no primeiro domingo da Quaresma ocorre sempre o episodio
das tentagóes de Jesús.

Vé-se, pois, que também através da Liturgia se depreende


o pensamento da Igreja relativo á existencia e á sanha do de
monio neste mundo.

Resta agora, deste breve percurso de dados, tirar urna

6. Conclusáo

Nao há dúvida de que a Igreja tenciona hoje reafirmar,


como sempre fez, a realidade do Maligno e dos anjos maus que
o seguiram. A Igreja, com isto, nao deseja, em absoluto, res
taurar a mentalidade dualista ou maniquéia de épocas passadas,
mas apenas manter o auténtico conceito de Redengáo como foi
proposto pelas Escrituras, pelo próprio Cristo e por toda a Tra-
digáo crista. É questáo de fidelidade da Igreja ao Evangelho e
as suas exigencias. Tenham-se em vista as palavras de Paulo VI
proferidas aos 15/XI/72 :

"Afasta-se do quadro do enslnamento bíblico e da Igreja aquele


que recusa reconhecer a existencia do diabo ... Ou aquele que admite
seja este um principio existente por si, que nao teria origem em Deus,
como a tem toda criatura... Ou quem explica o demonio como sendo
urna pseudo-reaiidade, urna personificado conceitual e imaginarla das
causas desconhecldas de nossas miserias" (audiencia geral de 157X1/72;
ver também hornilla de Paulo VI aos 29/VI/72).

Professando consciente a existencia e a agáo de Satanás,


a Igreja nao deixa de afirmar a grandeza e a liberdade do
homem, assim como a responsabilidade deste diante das tarefas
que lhe incumbem. Sao contrarias á fé quaisquer teses de su-
perstigáo, magia ou fatalismo, como também qualquer teoría
que insinué a capitulagáo do homem perante o mal.

Mais: sempre que se fala de intervengáo diabólica, a Igreja


exerce o seu senso critico (como se dá também em se tratando
de milagres); reserva, prudencia e discrigáo sao indispensáveis

— 498 —
AÍNDA O DEMONIO 27

no caso, a fim de se evitarem concessóes á imaginagáo ou á


alucinacáo doentia.

Doutro lado, a Igreja julga que é sempre oportuna a exor-


tagáo de Sao Pedro Apostólo a que os fiéis se conservem sobrios
e vigilantes frente á agáo do Maligno. O fascínio das conquistas
da ciencia e da técnica sugere ao homem que já nao há miste
rios ou que todos os problemas da historia se explicam e resol-
vem racionalmente — o que é ilusorio. Despertando a conscién-
cia dos fiéis para o «misterio da iniqüidade» (2Ts 2,7), a Igreja
deseja incutir-lhes a modestia humilde, que é outra faceta da
procura da verdade e da auténtica conduta do homem inte
ligente.

Pertence ainda ao ensinamento da Igreja lembrar que Sa


tanás existe, mas é semelhante a um cao acorrentado, que pode
ladrar, mas nao morde senáo a quem dele se aproxima volun
tariamente (S. Agostinho). O demonio pode tentar, nao, porém,
arrancar o consentimento do homem; este estará sempre apto
a resistir-lhe, principalmente se recorrer á oracáo e á vigilan
cia, pois Deus nao permite seja o homem tentado ácima de
suas forcas (ICor 10,13). Toda tentacáo tem sentido providen
cial, contribuindo, nos designios de Deus, para acrisolar as vir
tudes e fortalecer a fidelidade da criatura humana.

Em suma, a crenga na existencia e na agáo do demonio nao


é verdade de primeira linha no horizonte da fé crista, mas é
fungáo da obra da Redencáo. É inseparável de firme confianca
no Cristo Jesús, que venceu o Príncipe deste mundo e a todos
os homens oferece a salvacáo adquirida por seu sangue.

«SE CADA UM DOS SEUS DÍAS

FOR UMA CENTELHA DE LUZ,

NO FIM DA SUA VIDA

VOCÉ TERÁ ILUMINADO O MUNDO»


(Tomás Merton)
— 499 —
No íntimo das consciéncias:

pode um executivo ser (e manter-se)


tristáo?

Em slntese: O presente artigo, da autoría do psicólogo Paulo C.


da Costa Moura, aborda o problema da coeréncla do crlstño com os prin
cipios da fé e da moral do Evangelho em se tratando de assuntos delica
dos que o dia-a-dia de urna empresa I he apresenta. Depols de expor o
problema (tentacáo de assumlr meias-atitudes inspiradas por me ¡as-ver
dades), o autor lembra que estamos num periodo de crlse de valores — o
que exige tenha o cristSo clareza e firmeza com relacSo a certos conceltos
e principios. Essas nocdes que, para o executivo cristáo, devem permanecer
intocáveis, referem-se a Deus e ao lugar primacial, absoluto, que Lhe com
pete na escala dos valores. A colocacfio do Senhor Deus em primeiro
plano há de inspirar ao crlstfio um procedlmento reto e benévolo na ges-
táo da sua empresa. Embora nfio seja fácil aplicar tais principios á prática
de cada dia, o autor lormbra que a vida crista ó, por sua natureza, exi
gente; isto, porém, nao deve dissuadlr o discípulo de Cristo de se empe-
nhar corajosamente por vivé-la com a máxima coeréncla, sustentado pela
graca daquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida.

Comentario: Na sua quase totalidade, os executivos bra-


sileiros foram educados segundo os valores cristáos. Quando
chegam á realidade profissional, muitas vezes, parece que os
valores que sao válidos na «igreja» tornam-se inaplicáveis no
escritorio. Este artigo é urna tentativa de abordagem desse
tipo de problema. Apresenta algumas respostas e muitas
questóes.

i "Executivo" é, no caso presente, o homem dotado de poder deci


sorio em determinada área; é o homem de cúpula (presidente de urna
sociedade, chele de empresa, coordenador de urna coletMdade de traba-
Iho...); vem a ser, por extensfio, também o senador, o deputado, o ve-
reador. ..
Este artigo ó o texto de urna palestra realizada pelo Dr. Paulo C. da
Costa Moura no Encontró de Líderes com Poder Decisorio (grupo de Ban-
queiros) aos 11 de julho de 1975, sob o patrocinio da arquidiocese do
Rio de Janeiro. Teve lugar no Centro de Estudos e Formacáo do Sumará
(Rio de Janeiro, RJ).
O autor ó VIce-Diretor do Grupo "Jornal do Brasil", psicólogo e
especialista em Desenvolvimento Organizacional.

— 500 —
O EXECUTIVO CRISTAO 29

1. As angustias do homem de cúpula

Urna das evidencias de nossa era atual é o fato de que


estamos todos sujeitos a pressóes mais ou menos permanentes.
Contudo talvez ninguém se sinta mais pessoalmente atingido
por esse fluxo e refluxo de pressóes do que o executivo. Prin
cipalmente o executivo de alto nivel, o homem-chave de urna
dada instituigáo.

É precisamente no dia-a-dia que o executivo sofre urna


terrível carga: das preocupagóes domésticas 'ás profissionais;
e destas ás sociais. É que, no desempenho do papel executivo,
ele participa, ouve, discute, pondera, opina, mas ácima de tudo
decide. E decide sobre pessoas, sobre grupos e sobre a organi-
zagáo. E decide, apesar de saber de antemáo que suas decisóes
sao baseadas em informagóes constantemente incompletas, ou
em fatos parcialmente ignorados. E decide sabendo das conse-
qüéncias de urna boa ou má decisáo, e que pessoas, a comuni-
dade e até a instituigáo inteira seráo afetadas. E decide sabendo
que sempre haverá quem se julgue prejudicado, e que nao lhe
perdoará urna decisáo contraria aos seus interesses. E decide,
em que pese seu poder ou autoridade formal, sabendo que é
um homem observado, vigiado, manipulado e condicionado, mas
essencialmente um solitario na responsabilidade de decidir. E
decide, mesmo que, pessoalmente, esteja num dia em que mais
precise de apoio do que possa dar apoio. E decide, finalmente,
porque a esséncia de sua funcáo é ser um tomador de decisóes.

Nao é, pois, de estranhar a ocorréncia de diversos proble


mas, muito mais de natureza ética do que propriamente técnica.
Entre alguns problemas típicos, podemos considerar os se-
guintes:

1) Ser solicitado a solugóes de compromisso, sem ceder


demasiadamente.

2) Ser solicitado a expor apenas parte da verdade de


certas condigóes, sem falsear esta verdade.

3) Ser solicitado a decidir, sem conhecer todos os fatos


relevantes.

4) Ser solicitado a assumir os erros dos subordinados,


sem ser complacente com a negligencia ou ineficiénda.

— 501 —
30 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS». 191/1975

5) Ser solicitado a manter uma imagem que o público e


seus subordinados esperam, sem excesso de concessóes
e sem perda da autenticidade.
6) Ser solicitado a agir simultáneamente como homem
de agáo e como homem de pensamento criador, sem
se perder na fantasía ou se afogar no cotidiano.

Creio que qualquer executivo expedente concordará em


que estas situacóes sao mais ou menos parte integrante dos
seus dilemas habituáis. Ora isso causa preocupagáo e, freqüen-
temente, angustia. Principalmente para o executivo dotado de
maior sensibilidade ética, que vé seus valores pessoais confron
tados com as decisóes que deva tomar. O problema mais se
agrava quando descobrimos que, mesmo entre esses tipos sen^
síveis, nao há uniformidade na apreciagáo dos problemas. Por
exemplo, relendo diversos artigos editados pela «Harvard Bu-
siness Review», inclusive através de uma pesquisa experimental
com 1531 «top-level men»,', verifica-se que :

1) Para certas práticas específicas, os executivos freqüen-


temente discordam sobre o que é ético e o que nao é
ético ñas decisóes.

2) Apesar de afirmarem possuir aspiracóes éticas para si,


os executivos revelam uma opiniSo nao favorável sobre
a ética do homem-médio no mundo dos negocios.

3) Os executivos concordam em que o homem mais pro


penso a manter um adequado padráo ético em seus
negocios é o que possui um código pessoal bem de
finido.

4) A quase totalidade eré que há muitas pressóes, inter


nas e externas, que os forgam as práticas náo-éticas
ou pouco-éticas, especialmente quando estáo em jogo
valores económicos em confronto com valores humanos
e sociais.

5) A grande maioria eré que as denominag5es religiosas


cristas se descuidaram de prover orientagáo útil na
condugáo do lado ético dos negocios.

6) Muitos executivos acham que simplesmente religiáo e


negocios nao se misturam, ou, pelo menos, sao áreas
estanques.

1 Homens de cúpula.

— 502 —
O EXECUTIVO CRISTAO 31

7) Alguns consideram que, embora válidas em si mesmas,


as crengas e os valores derivados da tradicáo judaico-
-cristá nao sao aplicáveis, ou sao de pouco valor prá-
tico, na tomada de decisóes.

8) A quase totalidade se mostra vivamente interessada


em conhecer mais e melhor a Mensagem Religiosa, es
pecialmente na sua aplicabilidade «aqui na Térra, neste
emaranhado de interesses divergentes e confutantes».

2. Crise de valores
Antes de abordar frontalmente esses aspectos levantados,
é preciso lembrar que, consciente ou inconscientemente, todos
nos temos um sistema de valores.

Estes valores podem ser implicitos ou explícitos, mas in-


fluem, e muitas vezes condicionam, as escolhas que fazemos,
as avaliagóes, os juízos, e a determinagáo de nossos objetivos
fináis. Existe urna hierarquia de valores, que varia para cada
ser, sendo alguns valores transitorios, e outros universais e
permanentes.

Nossa época é profundamente marcada por urna crise de


valores. Ao homem moderno, contemporáneo dos satélites, se-
nhor da geografía, nem sempre é claro o que é um valor per
manente e o que é apenas transitorio. E nao poucas vezes lhe
será mais fácil saber o que nao quer, do que o inverso. Somos
urna geragáo confusa, mais presa ao acidental do que ao essen-
cial. Nao é sem razáo que estamos táo interessados em ser capa-
zes de promover mudancas, e que, em toda a literatura sobre
Administragáo, o conceito-chave é o conceito de mudanga:
social, institucional, organizacional.1

i "Change Is the fundamental characterlstic of our soclety" (W.


Bennis).
"Change Is this century's key concept" (Chrls Argyrls).
"Planned change — that's what buslnessmen need to cope wlth"
(R. Tannenbaum).
Ou:
"Mudanca é a característica fundamental da nossa socledade" (W.
Bennis).
"Mudanga é o concelto-chave deste século" (Chrls Argyris).
"Mudanca planejada: é Isto que os homens de negocios tém de
enfrentar" (R. Tannenbaum}.

— 503 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS> 191/1975

Na verdade, o mundo sempre mudou, mas hoje essas mu-


dangas sao mais rápidas e nos atingem mais profundamente.
Elas sao táo desconcertantes, a julgar pelos velhos padróes,
que verdadeiramente podemos falar de «explosóes». É neste
sentido que se fala de explosóes fundamentáis:

— de novos conhecimentos,
— de tecnología,
— de processos e meios de comunicagáo,
— de fatores económicos,
— de condicóes sociais,
— de novos valores no trabalho humano.

Analisando essas varias mudancas, o Concilio Vaticano n,


no preámbulo da sua Constituigáo Pastoral «Gaudium et Spes»,
traz as seguintes observagóes:

"A perturbado atual dos esp fritos e a mudanza das condlcSes de


vida estáo vinculadas a urna transformacáo mais ampia das coisas. Esta
faz com que as ciencias matemáticas e naturals ou as que tratam do
próprio homem, adqulram preponderancia crescente na formacáo do pen-
samento, enquanto a técnica, derivada daquelas ciencias, Influencia na
ordem da agáo. Este espirito científico produz um sistema cultural e modos
de pensamento diferentes dos anteriores. A técnica progride a ponto de
transformar a face da térra e já tenta conquistar o espaso Interplaneterio.

A Inteligencia humana dilata de certa manelra o seu dominio sobre


o tempo: sobre o passado, pelo conheclmento histórico; sobre o futuro,
pela prospectiva e planificado. O progresso das ciencias biológicas, psi
cológicas e sociais nSo só contribuí para que o homem se conhega melhor,
mas fornece-lhe também os meios de Influenciar dlretamente a vida da
sociedade, usando métodos técnicos. Ao mesmo tempo, o género humano
se preocupa, e isto em medida sempre crescente, com prever e regular o
próprio cresclmento demográfico.

A próprla historia acelera-se tfio rápidamente em seu curso que os


homens só conseguem segui-la com dlficuldáde. Torna-se una a sorte da
comunldade humana, e nao mais diversificada como que entre varias his
torias. Asslm a humanldade passa de urna nocSo mais estática da ordem
das coisas para urna concepcSo mais dinámica e evolutiva. Nasce dal,
Imenso, um complexo novo de problemas que provoca nova9 anállses e
slnteses" (n? 5).

Teólogos, filósofos, psicólogos, dentistas, políticos, econo


mistas, educadores, país, governantes, empresarios, jovens etc.,
todos estáo profundamente preocupados com o fenómeno de
mudancas, suas características e seus efeitos. E, de algum
modo, todos se sentem perplexos, mal preparados nao só para
compreender, mas para enfrentar o problema.

— 504 —
O EXECUTIVO CRISTAO 33

É claro que um táo grande número de mudangas, em velo-


cidade crescente, faz com que vivamos num tempo de incer
tezas, e nos induz á confusáo de valores. E isso gera conflitos.
Principalmente porque a idolatria da técnica nos encaminha a
substituir Deus pelo Homem, e este pela Máquina. É como se,
para o homem moderno, a religiáo devesse ser substituida pela
ciencia, e a emogáo pela razáo. Nao que religiao e emo$ao se-
jam conceitos sinónimos, ou mesmo complementares, mas por
que ambos sao necessidades naturais do ser. Vivemos numa
era em que mais importa ter do que ser, mas em que a abun
dancia nao gera satisfagáo. Os deuses modernos parecem ser
a ciencia, o poder e a aceitagáo social. E, neste culto, o compu
tador é urna especie de altar em que o homem, reduzido á dig-
nidade de um cartáo perfurado, é passivel de qualquer pro-
gramagáo.

Dá-se mais valor a um cientista atómico do que a um filó


sofo, esquecendo-se que só o primeiro é capaz de fazer a bomba,
mas é o segundo quem vai deflagrar o processo de apertar o
botáo.

A técnica nao é um mal. Muito ao contrario, ela repre


senta um dos maiores momentos da realizacáo humana. — Nem
sao más as riquezas ou o poder, por si mesmos. O que é pés-
simo, é nao hierarquisar as coisas, e nao ser capaz de usar o
poder, a riqueza ou a técnica a servigo do homem e de sua
realizagáo plena. — É muito bom ter os meios para atingir os
fins. O que nao é bom, é fazer prevalecer os meios sobre os
fins.

Quando nos damos conta desses conflitos (e quantos se


dáo conta efetiva?), nos nos encaminhamos a buscar solugáo.
E ai a maior ajuda consiste em encontrar raízes firmes, prin
cipios duradouros de agáo, que possam ser aplicáveis ao longo
da vida, tanto em casa como no escritorio, tanto aos domingos
quanto nos dias de semana.

3. A resposta crista

É aqui que entra a Igreja, como «Mater et Magistra»


(Máe e Mestra). Mestra, porque ensina, orienta, conduz. Mae,
porque acolhe, protege, alimenta. É certo que a doutrina da
Igreja nao é um repertorio de solugóes executivas pré-fabri-

— 505 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

cadas, como se fosse um catálogo das coisas que se devem e


nao se devem fazer. Ao contrario, a doutrina é um todo, que,
congruente com urna visáo fundamental do homem, nos dá
principios universais aplicáveis á totalidade do ser e da vida.
Muitas vezes esses principios nos traráo mais questionamentos
do que respostas, mais desafios do que solugóes, mais anseios
do que paz. E tudo isso exige um mínimo de humildade, urna
virtude cada vez mais rara no adorador do bezerro de ouro.

Muitos homens nao teráo maior dificuldade de entrar num


templo e até ajoelhar-se numa atitude de respeito. Muito mais
difícil, porém necessário, é ajoelhar-se intelectualmente, den
tro ou fora do templo, reconhecendo suas limitagóes, buscando
apoio e assumindo suas responsabilidades.

Conhecer urna doutrina implica em conhecer um todo.


Qualquer conceito parcial, por verdadeiro que seja, nao pode
dar a visáo integrada. Contudo, em nosso caso, alguns con-
ceitos merecem ser analisados, ainda que rápidamente. Nao
nos vamos referir a apreciagóes teológicas, mas essencialmente
as implicagóes práticas para o dia-a-dia do executivo.

3.1. Deus, principio e fim de todas as coisas

A crenga em Deus é o conceito fundamental, nao obstante


o misterio que isso envolve. Na doutrina crista, o conceito de
Deus está intimamente ligado ao de um Ser pessoal e trans
cendente, cuja verdadeira natureza nao nos é dado conhecer,
mas que se revela (isto é, tira os véus) na pessoa do Cristo
(«E o Verbo se faz carne...»).

Logo Deus nao é apenas urna forga, nem um processo,


mas verdadeiramente um Ser que se preocupa, que rege e que
criou todas as coisas e seres. Como Criador, é essencialmente
o Pai generoso que ama suas criaturas por urna forma divina,
portante sem limites. Mas é também um Ser transcendente,
absoluto, ácima e além da nossa compreensáo ou alcance ¡me
diato. É o principio e o fim de tudo, e assim Deus está no
centro da existencia, sendo o Valor dos valores.

Qual a implicagáo prática do conceito de Deus na ativi-


dade executiva?

— 506 —
O EXECUTIVO CRISTAO 35

Se aceitamos o conceito exposto, para sermos coerentes


teremos que colocar tudo, absolutamente tudo, subordinado a
Deus e orientado para Ele. Deus será o valor absoluto, e isso
terá que se concretizar através da ordenagáo prática nao só
das opinióes intelectualizadas, mais ou menos sem compro-
misso. O executivo cristáo nao poderá, portanto, idolatrar ou
deificar nada, nem mesmo outros valores legítimos, tais como
a patria, a familia, a empresa, e até seus interesses pessoais
mais profundos. Na prática, infelizmente, parece que muitos
executívos que se dizem cristáos, transferem o centro real de
suas prioridades para o lucro, para o individualismo ou o colé-
tivismo, para a necessidade de competigáo, etc. Embora pos-
sam até nao o perceber, nesses casos estaráo muito mais perto
do marxismo do que talvez imaginem.

Um teste da nossa coerencia crista poderia ser a resposta


á pergunta:

Quando tomo decisóes, qual é o meu criterio final: minha


carreira, o bem da organizacáo, o lucro, ou qué?

Respondendo ao teste, cada um de nos pode descubrir se,


na realidade concreta em que vivemos, Deus é apenas um con
ceito, ou tem, de fato, urna posigáo central.

3.2. Críasete

O conceito de que tudo foi criado por Deus tem imediato


interesse prático, pois se liga a todas as questóes, inclusive aos
problemas de economia e de produgáo.

E, se foi Deus o Criador de tudo, isso também significa


que nao sao apenas as coisas espirituais que sao boas. No
pensamento biblico, nao só Deus criou tudo, mas ainda achou
boas essas coisas e ordenou ao homem o dominio das mesmas.

Nao há, portanto, razáo para desprezar o lado material,


nem para sentir-se culpado por possuir bens. O Cristianismo
nao nos obriga a renunciar ao mundo, embora nos pega que
nao nos apeguemos ao mundo. Isto, de resto, serve para legi
timar a propriedade privada e, por extensáo, o próprio Capi
talismo.

— 507 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

Se Cristianismo nao é sinónimo de Capitalismo, também


nao lhe é antagónico, pois nada os obriga a serem incompatí-
veis, quando bem ordenados e compreendidos. O Cristianismo
nao é doutrina económica, e o Capitalismo tanto pode ser sadio
como pode ser gravemente distorcido na sua dimensáo ético-
-social. No lado sadio existem objetivos cristámente válidos,
apesar da nítida separagáo entre os dois campos:

1) O desejo de um melhor e mais aperfeigoado nivel de


vida para todos.

2) O desejo de assegurar liberdade e seguranga econó


mica.

3) A produgáo de acordó com as necessidades.

4) A justa distribuigáo da riqueza.

A excegáo do segundo ponto (liberdade), os demais nao


sao privativos do Capitalismo, mas nao excluem o Capitalismo,
que ainda pode assegurar liberdade, um valor essencialmente
cristáo. É claro que isso nem sempre é seguido e que, muitas
vezes, o mau uso do sistema encobre formas incompatíveis com
a dignidade humana. Mas, quando conduzido com justiga, pro
cura o melhor bem-estar possível para o homem e para a
sociedade. E isso é cristáo.

O Cristianismo ultrapassa o Capitalismo, pois suplanta a


simples visáo económica, já que diz respeito á totalidade da
vida, quer individual, quer social. Se o desenvolvimento eco
nómico só puder ser feito com o prejuízo de outros aspectos
do bem-estar humano, como quando se subordina o homem ao
Estado, entáo haverá confuto com a doutrina crista. Mas, se
o progresso económico nao obriga ao sacrificio de outros valo
res 'humanos, entáo nao há contradigáo (embora haja auto
nomía) .

O empresario cristáo tem assim ainda maior responsabi-


lidade, pois está moralmente obrigado a pensar na totalidade
do ser humano, e nao apenas no seu aspecto económico ime-
diato. O cristáo sabe que é apenas um «dono temporario» dos
bens que lhe foram dados, em última análise, por Deus. E,
como mostra a parábola dos talentos, um día prestaremos con-
tas do bom uso que tívermos feito dessas coisas que, pela
graga de Deus, recebemos; cf. Mt 25,14-30.

— 508 —
O EXECUTIVO CRISTAO 37

Isso nos abre a dimensáo da responsabilidade social, isto


é, a responsabilidade gerada pelos efeitos de cada decisáo sobre
os homens, a comunidade e a sociedade humana, como um
todo.

— Se tudo foi criado por Deus, e se a posicáo e os bens


que tenho me foram doados, até onde é lícito atender aos inte-
resses meus ou de minha organizagáo, quando isso pode amea-
car ou prejudicar o bem comum?

3.3. Criatura

Somos todos criaturas, geradas á imagem e semelhanga do


Pai. Mas somos todos diferentes uns dos outros, física e psico
lógicamente. A inteligencia, as aptidóes, a personalidade, tudo
varia de individuo para individuo, tanto quanto varia a carga
hereditaria de cada um.

Essas diferengas, que refletem as infinitas possibilidades


do Criador, devem ser usadas para nos enriquecer e nao para
nos dividir. Nasce daí, dessa origem comum e dessas neces-
sidades individuáis, a nossa solidariedade mais auténtica. Para
o cristáo, o outro é mais do que um semelhante. É um irmáo.
Por outro lado, enquanto criaturas, somos todos limitados e
um complexo de atitudes positivas e negativas.

O homem é um misterio de riquezas, capaz do melhor,


mas também do pior. A natureza humana é boa, mas nao é
perfeita. Somos pecadores, mas podemos ser santos. Temos
urna vocacáo de santidade, mas estamos presos ao pecado.

Pelo que temos de bom, cada homem é, por si só, dono


de urna dignidade transcendental, que supera de muito a dig-
nidade do Estado. Merece, no mínimo, ser respeitado, já que
ó urna pessoa humana. Esse respeito exige que cada um, nao
importa quáo modesta seja sua posigáo, riqueza, ou fungáo
social, seja tratado como pessoa, mais do que como individuo
ou engrenagem da máquina empresarial. Perante Deus, im
porta menos saber se sou operario ou empresario, e muito mais
que tipo de homem sou. Portanto, quando trato alguém como
pega ou como número, em verdade estou-me desrespeitando a
mim mesmo.

— 509 —
38 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

Crer no Criador é também crer ñas suas obras. O exe-


cutivo cristáo nao pode deixar de ter um profundo respeito
pela pessoa humana, embora isso nao implique em qualquer
igualitarismo utópico.

Mas o homem é também limitado e pecador. É parte de


nossa liberdade a oapacidade de romper a ligacáo harmoniosa
que podemos ter com o Criador. Principalmente quando a cria
tura quer ultrapassar o Criador. As solicitagóes do mundo, a
busca de facilidades a qualquer prego, sao fatores que nos
induzem a essa ruptura. O executivo ambicioso pode estar
neste processo, ainda que nao se dé conta imediata disto, prin
cipalmente quando sua motivacáo real (nao a aparente) é a
procura do ganho, do poder, ou quando sua responsabilidade
social está procurando formas disfargadas para dominar os
«favorecidos», ou ainda quando manipula seus subordinados a
servigo de suas ambigóes pessoais.

O grande pecado, nesta linha, é o nao estar a servico, é


o nao reconhecer suas próprias limitagóes, é o sufocar a reali-
zagáo alheia pelo medo da competigáo, é o «procurar o cisco
no olho do irmáo sem ver a trave nos seus próprios olhos»,
cf. Mt 7,3-5.

3.4. Caridade e perdáo

Por si só, o homem nao pode perdoar, nem ser perdoado.


A experiencia humana nao nos autoriza ao perdáo. As injus-
tigas do mundo, o sofrimento dos inocentes, a impunidade dos
erros mais graves, a violencia e a opressáo, tudo isso só pode-
ria nos conduzir a um justo e profundo sentimento de revolta,
onde nao se abre espago para o perdáo. Só pode perdoar, quem
é capaz de doar. E a forma mais sublime de doagáo é a auto-
-doagáo, principalmente partida do Cristo, o único isento de
pecado, absolutamente justo e inocente, sem erro e sem má
cula, mas que, por amor, se doou ensinando o perdáo. A par
tir dai, o perdáo tomou-se nao só possível, mas necessário.

Por isso os dilemas da vida nao carecem de solugáo, e sim


de perdáo. Para o Cristo, o perdáo fica testemunhado a partir
da morte do Cristo, e sobretudo da Sua (e nossa) ressurreigáo.
E o perdáo é que traz a redengáo. Vivemos da esperanga de
sermos redimidos pelo perdáo do Cristo e dos irmáos. Essa

— 510 —
O EXECUTIVO CRISTAO 39

esperanga, urna certeza antecipada, é a mola que movimenta


o amor, sob a forma de oaridade. «Se eu tiver fé, a ponto de
transportar montanhas, mas nao tiver caridade, nada sou...»,
Sao Paulo, 1 Cor 13,2.

A caridade, na realidade do trabalho executivo, nao é


apenas o auxilio material ao menos favorecido, quase sempre
cedendo o que nos é supérfluo, ou dando para nos livrarmos
do pedinte... Nao é urna questáo de ceder. É de doar. Mais
do que isso:... de doar-se, e por amor. Doar, na dimensáo de
amor e de perdáo, implica na ajuda efetíva para evitar os erros
e todas as situagóes contrarias á ordem natural.

Por isso, o executivo cristáo é moralmente responsável


pelo melhor desenvolvimento pessoal e profissional dos seus
subordinados, pela memoria dos métodos e condigóes de tra
balho, pelo aconselhamento pessoal e por todas as medidas
pertinentes á promogáo humana e social de quantos dependam
dele.

Perdoar nao é ser complacente com o erro, nem adotar


atitude paternalista ñas relacóes com subordinados. Perdoar
é ajudar os individuos a se levantar de suas fraquezas e imper-
feigóes, de forma positiva e construtiva, sem diminuir o auto-
-respeito de quem é ajudado. O executivo cristáo nao deve ser
do tipo frouxo; ao contrario, será até mais exigente, sendo
lícito adotar formas gradativas de punigáo, até as mais extre
mas. Mas fará tudo com amor. Compactuar com o erro é falsa
caridade e, como nos dilemas moráis nao podemos ter solugóes
processadas em computador, o executivo cristáo pode buscar
no conceito de caridade urna fonte de inspiragáo.

3.5. Voca£Óo de servido

A mais superficial análise da vida terrestre do Cristo reve


lará urna constante licáo de servico. Se Ele «nao veio para
ser servido, mas para servir» (cf. Me 10,45), também os cris-
táos estáo obrigados á mesma disponibilidade, continuando a
obra da construgáo do Reino.

A posigáo social ou profissional nao é senáo mero aci-


dente, que as injuncóes da vida criaram, numa mistura (nem
sempre muito clara) de oportunidades e esforgo próprio. Quem
recebeu mais, é mais responsável do que quem recebeu menos;

— 511 —
40 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

por isso, cabe aos que mais receberam, ser a vanguarda da


legiáo dos que formam «o sal da térra». Esses dons, porém,
acabam conosco. O que nao acaba, e do qual se prestará con-
tas, é o uso do que tivemos, para construir um mundo meihor.

Estar a servigo impóe deveres, a comegar pela própria


organizagáo do executivo. Nao é apenas urna qualidade; é um
dever cristáo, ser eficiente, responsável, honesto com a insti-
tuigáo a que prometemos servir. Mas impóe, igualmente, o
dever de valorizar o trabalho alheio e reconhecer os méritos
de seus auxiliares. O executivo cristáo nao exerce urna fun-
cáo; ele cumpre urna Missáo.

Se estou táo voltado para o meu trabalho que já nao


tenho tempo para ser pai, esposo, amigo ou cidadáo, entáo há
qualquer coisa de profundamente errado comigo. Se já nao
consigo ver as pessoas senáo como unidades de produgáo, entáo
já perdi o senso de missáo. Se tenho amigos, mas nao sou
amigo; se tenho filhos, mas já nao soú pai; se tenho inte-
resses, mas nao sou responsável, entáo eu duvido de que seja
cristáo.

3.6. Caminho, Verdade e Vida. .. nos negocios

É possível que, lendo as reflexóes anteriores, muitos exe-


cutivos estejam pensando que, afinal, mesmo admitindo a rele
vancia dos conceitos religiosos, nao é fácil conciliar tudo isso
com as pressóes normáis do ambiente de trabalho. Aqui só
cabe urna resposta: Deus nao prometeu facilidade, e, sim,
felicidade.

Ninguém vive sem fé, e, quando acreditamos firmemente


em algo, nos agimos de acordó com nossas crengas. Se creio
que haverá guerra, eu me preparo para ela. Se creio numa
nova oportunidade de negocios, procuro agir de acordó.

O inverso é também verdadeiro. As minhas acóes sao con-


seqüéncia de minhas atitudes e crengas. O sistema de valores
de cada um determinará sua filosofía administrativa, e esta é
que vai inspirar todas as agóes e decisóes, nao importa se muito
ou pouco importantes.

Se somos cristáos, isto é, individuos marcados pelo Cristo,


entáo temos que ser e agir de acordó com nossa crenga funda-

— 512 —
O EXECUTIVO CRISTAO 41

mental. Inclusive temos que fazer transparecer a fé que con-


fessamos na vida empresarial, na verdade dos negocios, nos
caminhos do trabalho.

Se eu só posso ser sinal dentro do templo, eu me arrisco


a nao encontrar-me comigo mesmo, nem corn Deus. Se posso
ir ao templo para refazer-me e dali voltar á vida, coerente e
renovado, entáo poderei agir. Porque entáo eu serei. Serei
um homem e, mais do que isso, um cristáo.

A resposta á pergunta-título, se pode um executivo ser


e manter-se cristáo, é positiva, mas deve mudar de verbo. Nao
é questáo de poder, e sim de dever.

Referencias Básicas:

Harvard Buslness Revlew: Ethlcs for Executlves


(Reprlnts)

— Can the Buslnessmen Apply Chrlstlanity ?


(Harotd Johnson. Oct, 1957, p. 72-81).

— Moral Hazards of an Executive


(Loufs Norris. Sept, 1960, p. 28-35).

— How Ethlcal are Buslnessmen ?


(Raymond Baumhart, SJ. Jul, 1961, p. 36-51).

— Capitallsm and Chrlstlanity


(Thomas Campbell Jr. Jul, 1957, p. 101-109).

Constltuic&o Pastoral "Gaudlum et Spes" (Concillo Vaticano II).

Decreto "Ad gentes" (Concillo Vaticano II).

• * •

«NA VIDA TEMOS NECESSIDADE

DE ALGUÉM QUE NOS FA£A FAZER


AQUILO QUE PODEMOS.

E F ISTO QUE FAZ O AMIGO»


(R. W. Emerson)

— 513 —
Um filme que desafia:

"roma, cidade aberta"

É sempre com prazer que registramos a apresentagáo de


filmes que nao sejam meros «passa-tempos», mas ajudam o
público a refletir sobre a realidade da vida e as interpelacóes
que ela dirige a quem a considera. Tal é, sem dúvida, o caso
de «Roma, cidade aberta», obra de Roberto Rosselini, que yol-
tou recentemente ao cartaz no Brasil.

O filme refere episodios ocorridos durante os nove meses


de ocupagáo nacional-socialista em Roma (setembro 1943 a
maio 1944), meses de fome, frío e, principalmente, de medo
diante de arbitrariedades e violencias cometidas pelos ocupan
tes. Enquanto parte da populacho (os adeptos de Mussolini,
entre os quais muitos militares) se entregavam á colaboragáo
com as tropas de Adolf Hitler, outros se organizavam em resis
tencia, correndo serio risco de vida.

Precisamente, Rosselini apresenta o enredo imaginario de


um grupo de homens e mulheres que, com o auxilio de abne
gado e dedicado sacerdote, lutava, as ocultas, contra os nacio
nal-socialistas. Os principáis heróis (dois militantes, urna mu-
lher e a bela figura do padre Don Pietro) acabam morrendo,
após ter sido descobertos mediante a atitude traidora e espiá
de mulheres italianas que, para sobreviver, se punham a ser-
vico dos nazistas.

Nesses conjunto de fatos e figuras, tornam-se merecedores


de especial comentario alguns tópicos mais salientes do filme:

1. Os tragos sombríos da historia


1. O público é colocado em presenga das atrocidades da
guerra... «O invernó nao acaba... Nao agüente mais... Nao
há pao... Vamos tirar a barriga da fome...» A penuria, o
frió, o clima de terror, atormentaram a populacáo civil em
Roma, explorada pelos beligerantes. Para sobreviver, tanto os
militares como os civis se entregavam a crimes de roubo e
morticinio; as mulheres se vendiam á prostituigáo e á traigáo,
embora se sentissem elas mesmas envergonhadas de tal proce-
dimento.

— 514 —
«ROMA, CIDADE ABERTA» 43

Nessas circunstancias, entendem-se as afirmagóes emitidas


por personagens do enredo: «A vida é algo de sujo, feio», «Eu
nao amo ninguém». O filme nao termina em sorrisos, abracos
ou beijos, como nao é raro ver-se no cinema. Ao contrario,
encerra-se com a cena terrivelmente austera da morte do sacer
dote fuzilado pelos carrascos; um grupo de meninos conster
nados contempla o ato, e se retira de cabega baixa, apoiando-se
uns nos outros.

No contexto de sofrimentos que o filme propóe, as vozes


dos cristáos perguntam ao sacerdote Don Pietro: «E Cristo
nao vé?» De fato, a dor sugere geralmente a questáo: conci-
liam-se as calamidades com a bondade de Deus? — Responde
o padre, lembrando que os homens nao costumam viver se
gundo a lei de Deus, nem deixam de pecar; seria, pois, justo
que padecessem em expiacáo de suas faltas. «Cristo perdoará,
sem dúvida, acrescenta o padre; Ele saberá ter piedade!» A
Sra. Pina, ao ouvir isto, abaixa a cabega e consente na res-
posta.

A guisa de comentario, notamos que a resposta de Don


Pietro, embora possa ser levada em consideragáo quando se
trata de explicar o sofrimento no mundo, nao é a mais cabal
nem genuina; ela poderia sugerir a imagem de um Deus justi-
ceiro, tirano, carrasco vingativo. Ora é preciso reconhecer que
os males moráis, principalmente os da guerra, se devem ás
paixóes, ambicóes e odios dos homens; sao estes que provooam
os flagelos dos morticinios e das destruigóes bélicas, com a
fome e a doenga conseqüente. Quanto á justiga de Deus, ela
age, de modo geral, na historia, nao, porém, como «polícia»
da sociedade. Se é a justioa do Senhor, é a justiga do Amor.
Por conseguinte, em vez de se realgar simplesmente a justica
de Deus na historia, diga-se: Deus é Amor, e esse Amor é Jus
tiga, é Misericordia, é Bondade, é Sabedoria, é Onipoténcia...
Felizes aqueles que se entregam ao Amor Justo! Diz S. Agos-
tinho que Deus nunca permitiría o mal se nao soubesse tirar
dos males bens ainda maiores. Com efeito, permitindo que a
justiga se exerga, Deus, em sua sabedoria, proporciona ao ho-
mem, através das próprias sangóes da justiga, remedios e oca-
sióes de crescimento na sua estatura definitiva.

2. O racismo nao podia deixar de ser caracterizado no


filme... A pretensáo de constituir urna super-raga levou os
nacional-socialistas ao odio, suscitando vitimas em toda a
Europa.

— 515 —
44 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

O racismo nazista tornou-se um mito, como o designa o


mentor do nacional-socialismo Alfred Rosenberg no seu livro
«O mito do sáculo XX».

A propósito, observe-se o seguinte: mesmo no sáculo XX,


em que imperam a ciencia e a técnica inspiradas pelo cultivo
da razáo, registram-se expressóes de mentalidade mítica ou
mitológica. O mito simboliza concretamente as aspirares, con-
génitas em todo ser humano, ao transcendental ou á plenitude
dos valores que as coisas transitorias só parceladamente ofe-
recem. A tendencia ao mito é, pois, indelével no homem;' con-
tudo faz-se mister orientá-la segundo as luzes da razáo e da
Palavra de Deus, para que nao degenere em ficcóes fantasistas
ou loucas, como foi o mito nazista da super-raga ou como é
qualquer outra forma de racismo.
Ao lado de tais pontos negros, o filme de Rosselini póe em
relevo dois tópicos positivos, cuja apresentagáo desperta no
espectador simpatía e prazer, pois abordam valores fundamen
táis para a construcáo de qualquer personalidade como tam-
bém da sociedade:

2. Os auténticos valores do homem e da Igreja


1. O brío dos heróis que resistiram ao nacional-socia
lismo, é posto em foco; antes a tortura extrema e a morte do
que a traigáo á patria e aos companheiros! Verdade é que o
protagonista da resistencia no filme, o engenheiro Manfredi, é
apontado como comunista, ex-combatente vermelho nos cam
pos de batalha da Espanha. Nao há dúvida, genuinos patrio
tas e comunistas italianos se encontraram lado a lado na luta
pela mesma causa, que era a remogáo do jugo fascista ou da
folia nacional-socialista, como, alias, americanos e russos em
1942-1945 se deram mutuamente as máos no combale ao hitle
rismo-fascismo. Urna vez, porém, vencido o inimigo, os genui
nos demócratas souberam distinguir-se nítidamente dos comu
nistas. O filme de Rosselini pode ser entendido sem que se
lhe atribuam insinuacóes políticas, de mais a mais que a figura
do padre Don Pietro e os valores religiosos ai sao apresentados
com respeito e dignidade, em clima de fé e abnegacáo cristas.
2. Um sacerdote aparece em primeiro plano no filme.
Mais urna vez, alias...! O cinema, como em geral os meios de
comunicagáo social, vem focalizando a figura do padre; te-
nham-se em vista as películas «O padre que quería casar-se»,
«A filha do padre», «As sandalias do pescador», «Irmáo Sol,

— 516 —
«ROMA, CIDADE ABERTA» 45

Irma Lúa»... O fenómeno nao deixa de ser estranho, pois se


diz nao raro que a religiáo já fez época ou «já era». Em boa
parte, a explicacáo do curioso fato está em que, por defini-
gáo, o padre é o «embaixador do Absoluto» (legado de Cristo,
diz S. Paulo em 2Cor 5,20); é, sim, portador de urna mensa
gem diferente da do médico, da do engenheiro, da do eco
nomista ...; ele diz trazer a Palavra de Deus, do Eterno e De
finitivo; ora, apesar de quanto parece, essa Palavra continua
a despertar profundo interesse (consciente ou inconsciente) no
homem contemporáneo, que cada vez mais se senté subjugado
pelo peso bruto da máquina e da automagáo... É por isto que
o sacerdote é posto em foco: os seus irmáos o observam a fim
de lhe cobrar a mensagem que ele diz trazer da parte do Ab
soluto; querem ver se é auténtica, cabal e, caso o seja, que-
rem cobrar do padre a apresentacáo fiel e coerente da mesma.
Em conseqüéncia, diversos tipos de sacerdote vém sendo apre-
sentados ao público ñas telas, ñas revistas e novelas; certos
autores de enredo se comprazem em descrever o padre que
corresponde á sua missáo e que, por isto, vem a ser das prin
cipáis figuras da «estória», enquanto outros autores tendem a
exprimir a triste imagem daquele que por fraqueza humana
ficou aquém da sua difícil tarefa; expressando o negrume da
imagem respectiva, tais escritores ajudam o público a com-
preender a importancia e a grandeza da missáo do sacerdote;
quando este faina, seus irmáos sentem tremendamente a lacuna
e a decepeáo deixadas, entregando-se ao protesto amargo.

Ora na película de Rosselini, Don Pietro é o tipo do padre


que, renunciando a si, aos seus horarios, á sua própria vida,
se dedica totalmente ao Reino de Cristo e ao bem dos irmáos;
é realmente o pai, que sabe jogar bola com as enancas, como
também socorrer ao enfermo paralítico no último andar de um
predio cercado de soldados, atender á noiva aflita, reconfortar
os homens que lutam em guerra e se sentem prostrados pelo
desánimo, etc. É um padre que, interrogado pelo oficial na
zista, responde que nada tem a dizer: o pouco que ele sabe
sobre os seus companheiros, ele o sabe em segredo de confis-
sáo, segredo que é de todo inviolável. Ele se mantém intré
pido, porque tem consciéncia de estar caminhando ñas sendas
do Senhor.

Quando levado para o fuzilamento, mostra a paz e a sere-


nidade que resultam de urna existencia decorrida em fideli-
dade e sacrificio; a quem o quer preparar para a morte, ob
serva: «Nao é difícil morrer bem. Difícil é viver bem!» As

— 517 —
46 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

suas últimas palavras, depois de ferido totalmente, sao de per-


dáo a seus carrascos, á semelhanga do que fez o próprio Cristo.
Sao estes tragos que dáo ao filme «Roma, cidade aberta»
um valor inconfundivel; é tremendamente serio, mas também
delicado e alentador. A apresentagao das sombras do passado
é apta a despertar os homens para renovada consciéncia dos
males desencadeados pelo odio e a guerra — fantasmas que
pairam constantemente sobre a humanidade. Por sua vez, as
notas positivas do enredo levam a ver que grandeza e nobreza
genuínas nao estáo no poderío desumano e brutal, mas, sim,
no servic.o incondicional a Deus e aos irmáos sob a inspiragáo
do Evangelho.
A propósito do mito nacional-socialista e outros, pode-se ler a obra
de Raphael Patai: "O mito e o homem moderno". Ed. Cultrlx, S. Paulo 1974.
Estéváo Bettencourt O.S.B.

livros em estante
Entender... moral, pecado a confissio, por Eliane Morelra, Eliane
Pimenta e Claudio van Balen. — Ed. Vozes, Petrópolis 1975, 135 x 210 mm,
98 pp.
Este livro, segundo os autores, destina-se a renovar os conceitos de
Moral, pecado e Confissáo sacramental, que hoje em dia sao constante
mente tocalizados ñas familias e ñas escolas. Nota-se urna nítida aversSo
ao legallsmo, á religlSo do medo e dos escrúpulos. Os progressos da
psicología e da sociología descortlnam novos horizontes do ser humano e
concorrem para se entender mais profundamente o comportamento ético
do cristSo.
É Justamente levando em conta esta situacáo que os tres autores
citados empreenderam a redacSo do llvro ácima. Em termos concretos,
ajudam o leltor a ver o que há de deficiente no juridismo e no formalismo
religioso. Póem em foco o amor a Deus e ao próximo como sendo o
dinamo da vida crista; ó em funcSo deste que se devem julgar os atos
moráis do crlstéo. A Intencáo dos tres catequistas é louvável. Todavía
parece-nos ter havido exagero por parte dos mesmos. Sim ; de um lado,
a realídade da catequese do passado é descrita em estilo de caricatura,
só mostrando deficiencias e sugerindo ceticlsmo ou descrédito em relacSo
ao que se ensinava amigamente. De outro lado, as novas concepcdes nSo
parecem levar em conta suficiente os requisitos da doutrlna da Igreja até
hoje vigente.
Com efelto. No que diz respelto á nocáo de Moral, note-se a con-
cepcáo proposta & p. 39 : "A Moral funciona como urna insplracáo que
vem de dentro do individuo, enquanto ele se faz dócil ao Espirito e
procura urna orientacáo ñas bem-aventurancas, buscando ouvir os apelos
da realídade em que vive". Esta concepcSo faz da moral um diálogo entre
o sujeito e a sua situacáo. O sujelto é Inspirado pelo Espirito Santo em
seu Intimo; deve gular-se pelas bem-aventurancas evangélicas. — Nflo há
dúvida, trata-se de urna concepcáo multo bela, mas difícilmente inteliglvel
para quem nSo tenha profunda vivencia evangélica. Por que nfio mencionar

— 518 —
LIVROS EM ESTANTE £T

os mandamentos de Deus e da Igreja, que sempre foram parámetros con


cretos da conduta do cristáo? Explique-se o sentido desses preceitos á
luz do Evangelho, e ter-se-á evitado tanto o extremismo do Jurldismo como
o do relativismo subjetivo.

As pp. 86-92, os autores menclonam tres modalidades na celebracSo


da Confissáo sacramental: 1) a confissSo auricular ou privada; 2) a cele-
bracio comunitaria da penitencia (com a confissSo auricular inserida no
rito comunitario); 3) a confissSo comunitaria, sem acusacfio auricular e
com absolvicSo colativa... Todavía o llvro nao menciona o fato de que
esta terceira modalldade so pode ser celebrada com a autorizac&o do
blspo local em dias determinados do ano, em que reconhecldamente haja
grande afluencia de fiéis (se algum sacerdote Julga haver tal sltuacSo em
día nao previsto pela autorldade diocesana e quelra aplicar entSo o rito
da confissSo comunitaria e absolvicSo colativa, ó obrlgado a comunicar
o ocorrido ao blspo respectivo). Nem 03 nossos autores menclonam o
fato de que os fiéis absolvldos comunitariamente em sltuacSo de emer
gencia tém a obrigacSo de fazer a confissSo auricular dos pecados absol
vldos dentro do prazo de um ano, de tal modo que nSo podem receber
nova absolvicSo coletlva caso nSo tenham felto a acusacSo auricular cor
respondente k absolviólo passada. Estas omlssoes se tornam notorias
depois do decreto da Santa Sé que em 1972 regulamentou definitivamente
as tres modalidades da ConfissSo. O novo Ritual da Penitencia, apresen-
tando tais modalidades, já se acha traduzldo e publicado por ordem da
Conferencia Nacional dos Blspos do Brasil.
Els por que jutgamos que o llvro em foco merece restricOes. NSo há
dúvida, a leltura do mesmo contribuí para esclarecer facetas dos assuntos
abordados; todavía o teor geral da obra nos parece exagerar contrastes e
dlssemlnar Inseguranca ou descrédito sem propósito.
Dianle de Deus e para os homens. O projeto dos Religiosos, por J.
M. R. Tlllard O. P. TraducSc- do francés. — Ed. Loyola, SSo Paulo 1975,
140 x 210 mm, 423 pp.

O Pe. Tlllard, dominicano, é um dos teólogos mals abalizados em


questóes de Vida Religiosa consagrada a Deus pelos classlcos votos.
Oferece-nos no livro ácima urna exaustiva visño da Vida Religiosa dentro
do contexto de nossos días, em profundas perspectivas teológicas. De
modo especial, merece atencfio o desejo que anima o autor, de n&o dis
tinguir dois tipos de vocac&o crista: urna, para a santidade e a perfeicSo,
que serla a dos Religiosos; e outra, para a "mediocridade", que seria a
dos cristSos chamados á vida secular. Hé, na verdade, urna só vocacBo ¿
santidade, comum a todos os cristSos; ó vocacSo á radlcalldade ou á
entrega de tudo ao Senhor. Todavía os cristSos no século sSo chamados
a urna mlssáo que Ihes permite ou mesmo Ihes ImpSe usar de cortos bens
transitorios como propriedade sua (tais sSo o dinhelro, o carinho da familia,
a vontade própria...); eles tém dlsponlbllidade Intima para a renuncia
total e Incondicional desde que o Senhor a peca no decorrer da sua vida
secular. Os Religiosos sSo chamados a viver essa renuncia n&o somante
em sua disponibllldade intima, mas em seu quadro de vida exterior, dando
assim um testemunho sensfvel das notas profundas que devem caracterizar
a vida de qualquer cristSo; cf. pp. 133-190.

O autor nSo somente básela a Vida Religiosa nos fundamentos das


Escrituras, mas também aponta seu lugar da Igreja de hoje, discorrendo
sobre a mlssSo profética, o sentido dos votos e da "ruptura" dos Religiosos
em retacSo ao mundo.

— 519 —
48 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 191/1975

Só podemos saudar com carinho a edlcfio brasllelra dessa obra, que


se recomenda nSo somente a todos os Religiosos, mas também a todos
os que aspiram a conhecer melhor a vocacSo do crístáo á perfeicáo. Pre-
facla-a em tom elogioso o Pe. Marcello de Carvalho Azevedo S.J., Presi
dente Nacional da Conferencia dos Religiosos do Brasil (CRB).
A voz de Deus ñas; vozes do mundo, por P.-R. Régamey O. P. Tra-
ducáo de Luiz Joáo Galo. — Ed. Paulinas, Sao Paulo 1975, 110 x 190 mm,
271 pp.

Eis mals um livro que aborda a Vida Religiosa e suas facetas nos
dias atuais. Leva em conta principalmente a situacáo de crise que dentro
das comunidades religiosas foi gerada pelas mudancas dos tempos recen
tes : mudancas no mundo, mudancas no homem (será este aínda capaz
de assumir um compromisso por toda a vida 1 ... e de viver em quadros
comunitarios ?), mudancas na Igreja (com relacao principalmente ao con-
ceito de obediencia). Enfrenta as contestacóes radicáis que ameacam hoje
os Religiosos: a secularizado (que o autor analisa com exatidáo e
seguranca), a crise de fé (para a qual concorrem Marx, Nletzsche e Freud,
lancando a mordida da "suspeita"), a crise do homem (sacudido entre Eros
e Oionysios) e as dificuldades que surgem ñas casas religiosas como eco
da tormenta geral que abala a humanidade contemporánea (contesta-se tudo,
tanto o apego ao passado quanto o afá de adaptacáo ao presente ; as
tradicdes, os votos, a vida contemplativa sSo postos em revista por um
novo espirito critico...).
Em sua parte final, o autor langa prospectivas positivas, que ajudam
a abrir caminho para os Religiosos em nossos dias ; apela para o discer-
nimento e para o cultivo dos valores interiores, sem os quais os Religiosos
correm o risco de ser tragados pela vida de nossos dias.
O autor, mediante esse livro, continua a obra já iniciada com o
título "L'exigence de Dieu", lancado em Franca no ano de 1969, e promete
continuar seus estudos num terceiro volume intitulado "La Rénovation dans
l'Esprit" ; este volume consumará o projeto de reconstrucáo oferecido por
Régamey aos Religiosos. Este fator, porém, nao deprecia o volume aquí
recenseado, portador de valiosas reflexóes sobre o ideal da vida consa
grada hoje.
E. B.
X
CARO LEITOR,
APROXIMA-SB O NATAL. DÉ AOS SEUS AMIGOS UM
PRESENTE QUE O TORNE PRESENTE A ELES O ANO
INTEIRO: UMA ASSINATURA DE PR.

ENVIÉ OS ENDERECOS RESPECTIVOS E O SEU ENDE-


RECO PESSOAL A EDITORA LAUDES, QUE COMUNICARÁ
AOS AMIGOS O NOME DAQUELE QUE PRESENTEIA.

Ed. Laudes
Rúa Sao Rafael, 38
20000 Rio de Janeiro (RJ) ZC-09

— 520 —
PÁGINA LITERARIA
Em PR 189/1975, 3" capa, propusemos aos nossos leitores
a poesía de T. Brotel intitulada «L'Echo», sugerindo-lhes urna
tradugáo brasileira da mesma. Ora, dentre as diversas tenta
tivas de realizar táo ardua tarefa, salientamos a seguinte, que
se deve a urna autora anónima :

O ECO

Andando triste e solitario


Na floresta do mundo lendário,
Gritei, a alma amargurada :
«Deus I Como a vida é má I»
O eco me respondeu : «Da I»

Depois, numa voz tocante :


«Eco, como a vida é extenuante !»
O eco me respondeu : «Cante I»

«Eco, eco da imensidao,


Por demais dura é minha míssao !
Nem mais conheco o bem querer 1»
O eco me respondeu : «Crer!»

«O odio em mim vai vingar,


Devo rir ou blasfemar ?»
O eco me respondeu : «Amar!»

Como o eco, no meu pranto,


Me aconselhou fazer,
Dou, creio, amo e canto,
E é feliz todo o meu ser 1
OS HOMENS FORAM Á LÚA E OS BRUXOS ... A BOGOTÁ

OS BRUXOS ESTÁO FAZENDO «AQUELA» CONFUSÁO.

de uma garrafa váo tirando tudo o que o povo quer :

cerveja e vinho, champagne ou licor;

tem gente que prefere coca-cola. . .

serram mulheres pelo meio

e transformam cravo em girassol.

seus bruxos, que vontade de pedir

a mágica dos meus sonhos :

aquele amor em cuja busca

eu marcharía leguas, sem parar \

seu bruxo, desmanchar um em muitos

EU TAMBEM SEI FAZER :

DISSIPAR-ME, DIMINUIR-ME, FRAGMENTAR-ME.

FACA O INVERSO, SE É CAPAZ, SENHOR BRUXO :

JUNTE OS PEDACOS, SALVE DA DISPERSÁO,

TORNE-ME E TORNE-SE UM !

(Poesía atribuida a D. HELDER CÁMARA)