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Projeto

PERGUNTE
E
RESPONDEREMOS
ON-LINE

Apostolado Veritatis Spiendor


com autorizacáo de
Dom Estéváo Tavares Bettencourt, osb
(in memoriam)
APRESENTAQÁO
DA EDigÁO ON-LINE
Diz Sao Pedro que devemos
estar preparados para dar a razáo da
nossa esperanga a todo aquele que no-la
pedir (1 Pedro 3,15).

Esta necessidade de darmos


conta da nossa esperanga e da nossa fé
hoje é mais premente do que outrora,
'.' visto que somos bombardeados por
numerosas correntes filosóficas e
religiosas contrarias á fé católica. Somos
assim incitados a procurar consolidar
nossa crenga católica mediante um
aprofundamento do nosso estudo.

Eis o que neste site Pergunte e


Responderemos propóe aos seus leitores:
aborda questóes da atualidade
controvertidas, elucidando-as do ponto de
vista cristáo a fim de que as dúvidas se
dissipem e a vivencia católica se fortaleca
no Brasil e no mundo. Queira Deus
abengoar este trabalho assim como a
equipe de Veritatis Splendor que se
encarrega do respectivo site.

Rio de Janeiro, 30 de julho de 2003.

Pe. Esteváo Bettencourt, OSB

NOTA DO APOSTOLADO VERITATIS SPLENDOR

Celebramos convenio com d. Esteváo Bettencourt e


passamos a disponibilizar nesta área, o excelente e sempre atual
conteúdo da revista teológico - filosófica "Pergunte e
Responderemos", que conta com mais de 40 anos de publicagáo.
A d. Esteváo Bettencourt agradecemos a confiaca
depositada em nosso trabalho, bem como pela generosidade e
zelo pastoral assim demonstrados.
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SFTF.MRRO DE 19£
umario

"OPCÁO SUPÓE CONHECIMENTO" 353

Que vém a ser


CANONIZACÁO E BEATIFICACAO ? 355

Aínda urna vez


"JESÚS CRISTO LIBERTADOR" 365

Quem diría ?
RESSURGIMENTO RELIGIOSO NA CHINA 375

RETIFICACÁO 380

A verdade a respclto de
CATOLICISMO E GOVEnriO COMUNISTA NA CHIMA 381

Mais um livro de atualidsde.:


'TORA DE CAMPO" por Raniero La Valle 393

LIVROS EM ESTANTE 336

COM APROVACÁO ECLESIÁSTICA

NO PRÓXIMO NÚMERO:

Marxismo e Teología. — Joáo Paulo II, Galileu e a ¡nfalibilidode


papal. — O caso Galileu. — Joao Paulo II aos camponeses. —
«Nezorin» de luis Buñuet.

«PERGUNTE E RESPONDEREMOS»

Número avulso de qualquer mes 32,00

Assinatura anual 320,00

Diregao e Redacto do Estéváo Bettencourt O.S.B.

ADMINISTBAgAO REDACAO DE PR
LhTaria Mtssionária Editora Caixa Postal 2 666
Rúa México, Ul-B (Castclo)
20.031 Rio de Janeiro (RJ) . 20M(> Rl° *> Janelro (BJ)
Tel.: 234-0059
«OP(ÁO SUPÓE CONHECIMENTO >
Na sua alocugáo sobre a catequese em Porto Alegre, aos
5/07/80, o S. Padre Joáo Paulo II abordou a objegáo: «Nao
se deve enslnar a mensagem da fé ás enancas, pois a fé é
urna opgáo a fazer-se em idade adulta».

A esta proposicáo respondeu S. Santidade: «A verdadeira


opgáo supde o conhedmento; e nunca poderá haver escolha
entre coisas que nao tenham sido sabia e adequadamente pro
postas».

Esta afirmativa sugere, entre outras, duas importantes


consideragóes:

1) É necessário que o fiel católico seja pessoa convicta


e tire das suas convicgóes as últimas conseqüéncias. Alias, a
ausencia de convicgóes é algo de antinatural, pois a inteligen
cia humana foi feita para a verdade e, quando descobre a ver-
dado, tende a aderir-lhe e a usufruir o gaudimn de veritate,
a alegría da verdade, de que fala S. Agostinho. Quem carece
de convicgóes, carece de referencial ou de motivacáo para os
seus atos. Ora, se esta falta de motivacáo nao se admite no
exercício de determinada profissáo ou atividade, muito menos
se entenderá no setor da religiáo, que, por sua índole mesma,
ó o mais profundo e significativo. Nao haja, pois, católico «de
tradigáo» ou «de convengáo familiar ou social»; o fiel católico
deve saber que recebeu de Deus a auténtica Palavra pela qual
o Senhor revela o seu designio e o seu convite aos homens.

Poder-se-á objetar que, entre aqueles que professam tal


fé, há falhas moráis... A observagáo é verídica, mas ela nao
torna inválida ou discutivel a verdade; a verdade nao é fungáo
do número ou da qualidade dos seus adeptos. Alias, é com-
preensivel ató corto ponto que a fraqueza humana desfalega
sob o peso e o fulgor da verdade; apesar disto, a verdade fica
sendo a Verdade, o Padráo, o Grande Referencial para todos
os homens. É necessário que o fiel católico possa, através de
leituras e explanagóes, reconhecer isto e tenha a coragem de
viver de acordó com esta premissa. A coragem leva ao mar
tirio (= tcstcmunho, em grego), que de modo geral ó exi
gente e doloroso, mas que suscita a satisfagáo da lisura e da
coeréncia.

A conviegáo da genuinidade singular da mensagem da fé


nao é polémica nem deve gerar discussóes; seria inconcebível
dividir os homens, filhos do mesmo Pai, por «amor» a esse Pai.
Essa conviegáo, porém, excluí relativismo ou o ceticismo reli-

— 353 —
Kioso, nao raro expresso pola fórmula: «Todas as religióes
sao boas».

Do quanlo acaba de ser dito, segue-se que os pais católicos


háo de so empenhar na transmissáo da mensagem da fó nos
seus filhos, como se empenham por dar-lhes a mais sadia ali-
mentagáo e a mais sólida educagáo. O conteúdo da fé é táo
vital quanto a nutrido do corpo e os bons costumes. Dizia
muito sabiamente Werner von Braun: «O homem precisa de
Deas como de pao, de luz e de ar».

2) So a mente humana foi criada para ter convienes,


entende-se que aqueles que nao professam a fé, o devam fazer
conscientemente. <A verdadeira opeáo supóe o conhecimento;
c nunca poderá haver escolha entre coisas que tenham nao
sido sabia e adequadamente propostas». A experiencia cnsina
que muitos dos que nao tcm fó, sao tais únicamente porque
nunca — ou só pálida e desfiguradamento — lhcs foi apresen-
tada a mensagem da fó; sofrem, porque procuram um refe-
rencial para a sua vida o nao o encontram. Alias, quem nao
adere á verdade, nao podo ter sólidas convienes. O ateu só
ó ateu porque quer ser ateu, e nao porque a evidencia ou o
fulgor do ateísmo o solicite a um Sim. Nao há provas de que
Deus nao exista.

Ve-se, pois, que apresentar ou apregoar a mensagem da


fé em termos claros, sem proselitismo ou coa?áo desonesta, mas
com a plena convicio que a Verdade suscita e exige, é ser-
vico prestado ao próximo; é também tarefa decorrente da so-
licitude que os pais tém para com os seus filhos. Diz Joáo
Paulo II:

"A educacáo da consciéncia religiosa é um direito da


pessoa humana. O jovem exige ser encaminhado para todas
as dimensóes da cultura e quer também encontrar na escola
a possibilidade de tomar conhecimento dos problemas funda
mentáis da existencia. Entre estes ocupa o primeiro lugar o
problema da resposta que ele deve dar a Deus. É impossivel
chegar a auténticas opcóes de vida quando se pretende igno
rar á religiáo que tem tanto a dizer, ou entáo quando se quer
restringi-la a um ensino vago e neutro e, por conseguinte,
inútil, por ser destituido de relacao a modelos concretos e
coerentes com a tradicáo e a cultura de um povo" (alocucáo
citada, n? 4).
É para desejar que a consciéncia de quanto foi proposto
explícita e implícitamente por Joáo Paulo II se arraigue no
povo brasileiro e dé copiosos frutos... em vista de días me-
Ihores!
E. B.
— 35-1 —
PERGUHTE E RESPONDEREMOS»
Ano XXI — N* 249 — Setembro de 1980

Que vém a ser

canonizado e beatificado?
£m abítese; Os santos sao heroicos amigos de Oeus e dos homens.
que a morte nao subtrai á comunhao com a Igreja militante e que, por
Isto, sflo considerados Intercessores do povo de Deus na gloria definitiva.
O seu aniversario de morte (día natalicio verdadelro, segundo os antlgos
cristfios) ó comemorado anualmente a fim de que os fiéis déem gracas a
Deus por quanto fez em seus santos e pecam as preces de que necessitam
para chegar á patria eterna.

A principio nao se Instituía processo jurídico de canonizacSo, mas o


povo de Deus proclamava e cultuava os seus heróls de maneira espontánea.
Todavía, dado que este procedimento posslbilitava engaños e llusñes, os
bispos a partir do século VI, ¡nstltuiram a canonizacáo episcopal, ou seja.
um exáme anterior á proclamacáo pública da santldade do servo de Deus.
A partir do século XII, o blspo de Roma atribuiu exclusivamente a si tal
funcáo, do qué resultou a canonlzacSo papal; esta, regida por legislares
sucessivas e cada vez mais severas, chegou ¿ sua forma definitiva em 1642,
sob Urbano VIII. Hoja distlngue-se urna etapa preliminar á canonizacfio, a
saber • a beatitlcacSo, que equivale ao reconheclmento público das eximias
virtudes do servo de Deus e constituí fundamento para que o povo de Deus
possa prestar a este um culto regionalmente limitado.
Apó9 o Concilio do Vaticano II a tgreja procedeu a urna revisSo do
seu Martirologio e da sua hagiografía; disto resultou que feitos outrora
brilhantes atribuidos a tal ou tal santo foram leconhecidos como lendá.ios
ou semilendários; tal atilude nao significa em absoluto "cassacao de santos",
pols a santldade nao é mero titulo, mas urna qualidade ¡nerente aos servos
de Deus. Proclamando a lendarledade de tais feüos, a Igreja apenas quis
evitar que a picdadc popular se apoiasso cm falsos prcssupostos.

Comentario : A beatificarlo do Pe. José de Anchiela S. J.


vcio despertar o intoresse do público para o significado dos
atos do beatificacüo e canonizacáo praticados solencmcnto pola
Igreja. Faz-se mister distinguir tais ccrimónias das apoteoses
que o Imperio Romano realizava cm favor dos seus Impera
dores e heróis, endeusando-os ou atribuindo-lhes honras divi
nas. Examinaremos, pois, abaixo 1) qual seja o sentido do
culto dos santos; 2) qual o alcance da bealificacáo e da cano
nizacáo de um servo de Deus.

— 355 —
■i iji:r(;Uí\tk k kksponderp:mos> 2-w/ioxo

1. Culto dos santos : significado

Antes do mais, importa pcrguntar: que é um santo ?


Chesterton respondería om scu estilo de impacto, mas nao
sem razáo: o santo 6 um pecador que reconhece o scu pecado.
Na verdade, pecar ó comum a todos os homens, mas reconhe-
cer o pecado e arrepender-so dele nao sao atributos de todos;
vóm a ser o inicio da caminhada ríos santos.

Completando o concento de Cheslerlon, dir-so-á que o


santo ó algucm no qual o amor a Dcur. e ao próximo se expan-
diu amplamente, superando o eyoísmo o as paixóes dcsreyra-
das. O Apostólo cnsina que o amor (no sentido bíblico de
atrape, amor benévolo e abnegado) ó o «vinculo da perfeic.áo»
(6*3,14).
É de notar que todas as sociedades tém seus heróis, que
sao comemorados anualmente e propostos á imitacáo dos pós
teros. Constituem a tradicáo da familia. — Ora o povo de Deus
tambem tem tais heróis. Acontece, porém, que os cristáos sa-
bem que os irmáos nao morrem; a morte nao rompe os vín
culos que unem os diversos membros do povo de Deus entre
si. Por isto os defuntos, na gloria do Senhor, podem ¡nterce-
der pelos seus semelhantes que aínda caminham peregrinos
sobre a térra. Tal concepeáo tem seus fundamentos na própria
S. Escritura; esta refere que Judas Macabeu, estando no sé-
culo II a.C. em luta contra os sirios, teve a visáo do Onias,
sumo sacerdote já falecido, o qual Ihe apontava Jeremías, o
profeta do século VI, que, com Onias, orava pelo povo de Deus:
"Eis a vlsfio que teve (Judas Macabeu): Onias, que tinha sido sumo
sacerdote,... exercllado desde menino na prátlca de todas as virtudes,
com as rnáos levantadas orava por todo o povo judeu. Apareceu-lhe tam-
bém outro varáo com os cábelos todos brancos, de aparéncla muito vene-
rável e nimbado de admirável e magnifica majestade. Ditlglndo a patavra
a Judas, Onias disse : 'Eis o amigo dos seus irmSos, aquele que muito ora
pelo povo e pela cidade santa, Jeremías, profeta de Deus'" (2Mc 15,12-14).

A tradicáo judaica, portanto, no fim da eia pré-cristá,


admitía que os justos, como Onias, Jeremías, Moisés, Elias.. .,
tendo passado desta vida para a outra, continuavam a ser os
grandes intercessores c o esteio dos seus irmáos militantes na
jterra.
A Tradicáo crista herdou tal concepeáo, que correspondía
ao desabrochamento da Revelacáo Divina em Israel. Em con-
seqüéncia, os cristáos desde as origens da Igreja passaram a
celebrar o aniversario da «morte» de seus heróis, tido como o

— 356 —
CANONIZACAQ E BEATIFICACAO 0

dies natalis, dia natalicio. A principio somente os mártires eram


assitn comemorados; o primeiro destes do gual se tenha noti
cia precisa, é S. Policarpo, bispo de Esmirna, que padeceu o
martirio em 156. A partir do século IV foram cultuados tam-
bém os heróis da fe que, sem derramamento visivel de sangue,
haviam sido notoriamente fiéis á sua vocagáo; a extensáo do
culto era assim justificada pelos doútores da Igreja:
"O servido, sem mancha, de urna vida devpta nao será um martirio
cotidiano?" (S. Jerónimo, t 421, Vita Paulae c. 31).

Sulpicio Severo (f 420) afirmava que o monge e bispo


Martinho de Tours (t 397), «sem derramar o sangue, sofrera
o martirio e que todas as suas privacóes, a fome, as vigilias, a
nudez, os jejuns equivaliam a verdadeiro martirio (epist. n,
Patrología Latina, ed. Migne, t. XX, col. 180A).

S. Gregorio Magno (f 604) asseverava:


"Aínda que nos falte a ocasiáo da perseguIcSo, a paz também tem
o seu martirio: nao colocamos nossa' cabec.a debalxo da espada, mas
exterminamos os desejos carnals pelo gládlo espiritual"' (hom. III \n Evan-
sollum).

Ao celebrar o natalicio anual (ou a Páscoa) dos santos,


os cristáos tinham em mira :

1) glorificar a Deus por quanto realizava na pessoa do


santo; este era (e é) sempre cultuado em vista do Redentor,
que em cada um dos redimidos faz fratificar as gracas da
Redencáo ;

2) pedir a intercessáo do santo, que, como os justos do


Antigo Testamento, continua, na gloria de Deus, a ser o advo-
gado e patrono de seus irmáos.
A propósito podem-se citar as palavras que S. Cipriano (t 258), bispo
de Cariago, escrevia a S. Cornólio (t 253), bispo de Roma :
"So um de nos, por chamado divino, se (or desta vida em primeiro
lugar, continué diante de Deus a nossa amizade I E nño cesse a oraeflo
por nossos irmSos e IrmSs diante da misericordia do Pal!" (epist. LX S).
Escrevia outrossim S. Cipriano:
"No alto a mullidlo numerosa e densa nos deseja, já tendo a garantia
da sua vitória, mas ainda solicita pola nossa satvacfio" (De mortalltate VI).
Oestes dizeres se depreende bem que os santos sao intercessores do
povo de Deus junto ao Pai; nfio sSo lonte ou doadores de gracas. Só Deus
derrama gracas e beneficios sobre os homens; os santos implorar» tais
gracas mediante as suas preces;

3) estimular-se mediante a consideraeño do exemplo


do santo cultuado, visto que a melhor maneira de tributar

— 357 —
11 LPgRGUi\'TE K RESPONDEREMOS? 249/1980

honra a Deus é viver segundo o heroísmo e a magnanimidade


dos grandes amigos do Senhor. Di2ia, por exemplo, S. Agos-
tinho :

"Se amamos os santos, imilemo-los. Os santos mártires sequlram


Jesús Cristo ató derramar o seu sanguo, até sofror, como Ele, os mais
cruéis tormentos... Mas dopols dos mártires a ponte nfio fol cortada; a
(onte da sanlidade nfio secou... Há no jardim do Senhor nfio somonte as
rosas dos mártires, mas os lirios das virgens, a hera dos esposos, as vió
lelas das vtúvas... Aprendamos, portanto. de todos estes santos como,
mesmo sem padecer os sofrimontos do martirio, um crlstfio deve imitar Jesús
Cristo" (serm. III sobre S. Lourenco).

Desta maneira era incutida a vocacáo de todos á santi-


dade; pois nao há quem Deus tenha chamado para menos ;
a perfeicáo espiritual é a meta de todos os homens, a ser al-
cancada com a graca de Deus, como lembrava o Concilio do
Vaticano II (Const. Lumen Gentium, c. V).
O culto dos santos assim entendido foi-se implantando no
povo de Deus até os séc. Vil e VIII, quando se deu a contro
versia iconoclasta. Por influencia (em parte) do islamismo e
do judaismo', aJguns cristáos se puseram a duvidar da licei-
dade da exposicáo de imagens do Senhor ou dos santos ñas
igrejas. Principalmente os bizantinos defenderam o valor das
imagens; as disputas foram veementes, principalmente pelo fato
de que os Imperadores se imiscuiam ñas mesmas, ora defen-
dendo, ora combatendo o recurso as imagens. A controversia
terminou com o Concilio de Nicéia II (787), que reafirmou a
legitímidade da praxe crista antiga e enfatizou a distincáo entre
adorado (latréia) e veneragáo (doulía, em grego): a adora-
gao só a Deus pode e deve ser prestada, pois equivale a reco-
nhecer a absoluta e infinita perfeigáo do Senhor; a veneragáo,
porém, compete aos amigos de Deus ou aos santos; é home-
nagem que a estes se presta; tal homenagem indiretamente se
dirige a Cristo e ao Paí, visto que todo santo é a expressáo
da sabedoria e da santidade do Redentor e do próprio Deus.
Quanto as imagens, podem ser expostas, porque vém a ser
subsidios para os sentidos e os afetos dos fiéis; o ser humano,
psicossomático como é, costuma necessitar de sinais visiveis
para se elevar aos valores invisíveis; as imagens nao se presta
adoracáo, mas apenas veneracáo, veneracáo que é relativa ao
Senhor Jesús ou aos santos assim representados.
Examinemos agora a maneira como a Igreja reconhece e
proclama a santidade dos seus filhos.

'A era de Maomé cornaca em 622 d.C. Os maometanos, cómo os


judeus, recusam a confecefio de imagens no culto sagrado.

— 358 —
CANONIZACAO K SEATÍKICACAO 7

2. BeotificasSo e ccmoniza;6o

1. Nos primeiros séculos o povo do Deus cultuava os


mártires e os confessores da íé, sem realizacáo de processo
previo. O heroísmo da fé, o ardor da caridade e as demais vir
tudes dos amigos de Deus, reconhecidos por quantos com eles
conviviam, ocasionavnm a proclamacáo espontánea da santi-
dade de tais cristáos.

Todavía a partir do século VI o quadro da vida da Igrcja


no Ocidente foi assumindo características novas: dissolvia-se
cada vez mais a est natura do Imperio Romano e os povos bár
baros iam-se afirmando. De um lado, a violencia campeava •
de outro lado, porém, a santidade fiorescia. Nos séculos VI é
seguintes regislraram-se grandes bispos e monges missionários;
alguns reis se convertiam á vida monástica; rainhas e prince
sas fundavam mosteiros, nos quais ingressavam como monjas.
As populacóes eram jovens, entusiastas da fé crista, admira
doras dos heróis da caridade e da pureza evangélicas. Em tal
época, ao lado do culto dos mártires tomou vulto o culto de
novos santos: ao povo cristáo bastavam a fama de vida peni
tente, a fundagáo de um mosteiro com as suas benéficas con-
seqüéncias, notoria aeáo caritativa para com os pobres, a morte
violenta (ainda que nao por motivos de fé bem definidos) e,
principalmente, a fama de milagres, para que os cristáos des-
sem inicio ao culto de um dos seus antepassados. Recolhiam
entáo os dados biográficos referentes a estes e escreviam a
respectiva «Vida» sem preocupacóes suficientemente críticas.
Assim o calendario santoral e o Martirologio de cada diocese
importante iam-se enriquecendo com novos nomes; ñas igrejas
multiplicavam-se os altares dedicados a santos e o número de
festas santorais aumentava rápidamente. Estas notas da pie-
dade popular ocasionaram ilusóes e abusos, que as autoridades
da Igreja e do Imperio carolingio tiveram que reprimir. Carlos
Magno, por exemplo, teve que proibir «que os nomes de falsos
mártires fossem venerados e que se celebrasse a memoria
de santos incertos» (Monumento. Gcrmaniae Histórica. Capi
tularía n 56).

Tal situacáo levou os bispos a intervir desde o século VI


no procedimento de proclamar a santidade dos amigos de Deus,
instituindo a canonhacáo» episcopal. Esta foi-se estruturando,
de modo que nos séculos VI1I/IX compreendia tres elementos:
1 Canonizante significa lardar no canon ou no catálogo dos santos
e haróis da Igreja (ou, no caso, de urna diocese).

— 359 —
3 «PERGUNTE E RESPONDIÉREMOS» 249/19S0

1) existencia do pública fama de santidade e de mila-


gres (ou de martirio) do servo de Deus em pauta;
2) apresentagáo ao bispo ou ao Sínodo (diocesano ou
provincial) de um relato da vida, dos fcitos e dos milagres do
mesmo herói;
3) caso fosscm esses documentos aceilos pela, autoridade
eclesiástica, realizava-se a «elevado» ou a «trasladacáo», isto
é, colocavam-se os despojos mortais do santo em lugar de re-
levo (junto a um altar ou em igreja propria).
A canonizagáo episcopal esteve em vigor do século VI ao
século XÍI.
2. Aos poucos, poróm, o propino bispo de Roma ou o
Papa foi intervindo no procedimenlo das canonízaseos, dando
or.gem á canonizacáo papal.
A transicáo da prática da canonizagáo episcopal para a
papal foi quase impercepuvel. A canonizado papal ora esporá
dica; a princip.o, nao se lhe atribuía o valor üe ato que obri-
gasse a Igreja inteira. Conludo é certo que as canonizagóes
realizadas por um Papa gozavam de maior autoridade. isto
expnca que sempre mais os bispos e os fiéis pedissem ao Papa
a autorizagáo para ceiebrar o cuito ae um servo de Djus. A
canonizado papal seguía os mesmos trámites da canonizagáo
episcopal; mas na maioria dos casos o Papa se limitava a uar
o consentrnento ao cuito iniciado ñas dioceses.
Aos poucos, porém, a canonizagáo papal foi sendo mais e
mais valorizada do ponto de vista canónico. Adotava normas
e cautelas semprc mais r.gidas; finalmente, a partir do sú-
culo Xil tornou-se a única legitima.

A primeira canoniza áo papal de que se tenha documen-


tagüo segura, ó a de S. Ulr.co, bispo de Augsburgo, falccido
aos 4/07/973, e canonizado peo Papa Joüo XV uos 31/01/993
durante um sínodo celebrado cm Roma (Latráo).
A legislagáo papal instituida no decorrer da Idade Media
c depois só chegou h sua [orina definitiva e atual cm 1642,
quando o Papa Urbano VIII (1G23-1GM) publicou um volume
do normas prudentes, severas c minucio'ias, a respeiio da cano
nizagáo dos santos: <Urbani VIII Pont. O. M. Decreta servanda
in canonizatione et bealificaUone sanctorum. Accedunt ins-
tractiones e declaraliones quas Emi. et Rmi. S. R. E. Cardi
nales praesulesque Komanao Curiae ad id nmneris congregati
ex eiusdem Summi Pontificia mandato condiderunt».

— 3G0 —
CANONIZADO K BEAíxthav¿i

Em conseqüénda, a praxe hoje vigente na Igreja obedece


á seguinte tramitacáo:

O processo de canonizagáo comega na diocese onde o servo


de Deus * tenha passado a principal parte da sua vida ou onde
tenha morrido ou onde haja realizado milagros. O bispo manda
entáo proceder a tres inquéritos :

— a coleta de todos os escritos públicos e particulares do


servo de Deus, a fim de se averiguar o seu modo de pensar;

•— a indagado sobre os feitos e as virtudes do servo de


Deus; procura-se assim averiguar se houve, no modo de viver
da pessoa em foco, algum obstáculo serio á sua exaltacáo ;

— o inquérito sobre culto eclesiástico e público eventual-


mente prestado ao servo de Deus. É preciso que nunca tenha
ocorrldo tal. A razáo de tal exigencia é a necessidade de evitar
que o povo de Deus inicie, como outrora, a prodamagáo da
santidade de alguém sem criterios objetivos e sólidos, criando
assim urna situagáo irrevers'.vel ou, ao menos, embaragosa.
Por este motivo, sempre que se publicam a biografía ou os
escritos de um servo de Deus que tenha morrido em fama de
santidade, o autor da publicagáo costuma observar que, me
diante tal edi?áo, nao tenciona antecipar o juízo da Igreja a
respeito, nem quer suscitar, por sua iniciativa, o culto do santo.

Terminados com éxito estes inquéritos, o bispo envia todo


o material correlativo a Roma, onde a S. Congrega ¡áo para
as Causas dos Santos se encarrega de mandar examinar os
escritos do servo de Deus e os testemunhos referentes á sua
biografía.

A S. Igreja nao leva a causa adianto sem que ocorram


milagros - da parte de Deus para atestar a santidacs? da pes
soa em foco. Para que possa chegar á primeira conclusáo do
processo, que é a beatificagüo do servo de Deus, a Irreja re-

1 Tal é o titulo que se da a alguém logo que so ll".e lerna i-.:roduzido


o processo Ú3 ca.nor.izaiao.
- O m¡!33'G p.üo e uin show da Onipolcncia divina, mes •: er'.er.dido
pela S. Escri'.u.a e pelos leólogos como im sitial (semelon, e~: c-ego) ou
urna palavia nais eloqüenic de Deus preferida a fim de co-ü rr.sr ciguóm
ou uma si!ua;áo ou a lim de diiimir algurr.a djvida ou a tim Ce atender a
urna pessoa posta em aíli^áo. O milsg o, portarlo, é sempre ura ie;posla
do Senhor, que implica uma mensagem significativa para os tc~cs.
Dlstinga-se o milagro assim entendido dos fenómenos par^rurológicos
c psicológicos frcqüenlemeníe divulgados cem o nome do 'mi!¿;re".

— 3Q1 _
iopkrguntí: k

qucr dois milagres s>> as tcstemunhas da santidade do cristáo


cm paula sao ter.temunhas oculares ou tcstemunhas que ouvi-
ram de tcstemunhas oculares; requer, porém, quatro milagros,
si.- .i documentar;;! o cío processo so bascia a ponas sobro escritos
e robre tostenronhas oculares muí lo remotos (cf. Código de
Di ¡vilo Canónico, can. 21L7). No caso dos mártires que hajam
realmente padecido ¡;or causa da fú, a S. Igreja podo dispensar
os milagros. Estes, qu;.ndo exigidos, sao examinados severa-
mente por médicos e oulros peritos, que se dispóom a averi
guar se o pretenso milagro nao pode ser, de algum modo, ex
plicado pela medicina; caso esta iiipótcse se verifique, o futo'
lido como milagroso já nao é considerado pela Santa Só.

Urna vez preenchidas todas as exigencias em pauta, a


S. Igveja procede á cerimónia de beatificacáo do servo de Deus,
declarando-o bem-aventurado. Após tal solenidade, toma-se
licito prestar culto de veneragáo ao herói cristáo em determi
nado país ou em dioceses ou em alguma familia religiosa (o
culto fica restrito, e nao ó celebrado pela Igreja universal).

A próxima etapa, conclusiva do processo, é a canonizacáo,


para a qual a S. Igreja exige a realizagáo de mais dois mila
gres estritamente examinados e comprovados.

3. Distinga-se da canonizacáo formal assim descrita a


chamada «canonizado equipolente». Esta se refere a santos
que, antes das normas de Urbano VIII (1642), tenham sido
cultuados pelos fiéis sem previo processo jurídico. Nestes ca
sos, dos quais alguns poderiam apoiar-se em erros históricos,
a Igreja comeca por realizar um processo diocesano que exa
mina os escritos (se os há), a constante fama de santidade do
servo de Deus e o culto a este prestado. Os resultados sao
enviados a Roma, onde a Secgáo Histórica da Congregacáo
para as Causas dos Santos estuda atentamente, sob o aspecto
da historicidade, o material apresentado. Se este e outros exa
mes levam a conclusóes favoráveis, o Sumo Pontífice pode
decretar a beatificacáo equipolente do cristáo em pauta; as
virtudes heroicas deste ou o seu martirio sao entáo oficial
mente reconhecidos. Para a canonizacáo equipolente, reque-
rem-se tres milagres ocorridos após a beatificacáo equipolente;
em casos muito raros, o Sumo Pontífice pode dispensar os
milagres — o que só acontece quando se trata de pessoa cuja
santidade de vida ou cujo martirio sejam táo manifestos que
excluam qualquer dúvida.

— 362 — '
CANONIZAgAO E BEATIFICACAO 11

4. A canonizar áo dos santos vem a ser, na vida da Igreja,


um elemento importante, pois contribuí para evidenciar a san-
tidade da própria Igreja. Ora a santidade é nota distintiva da
Igreja de Cristo, como professa o Símbolo de fé niceno-cons-
tantinopolitano: «Creio na Igreja una, santa, católica, apos
tólica». A santidade há de ser perccptivel e controlavel aos
olhos do mundo. Nao se trata, pois, do santidade comum, mas
da santidade eximia, á qual chegam muitos cristáos.

Dentre os numerosos fiéis que viveram ou vivem heroi


camente, poucos apenas sao, por disposigáo da Providencia,
canonizados. A Igreja mesma nao faz questáo de multiplicar
o púmero dos santos canonizados, mas aguarda que a Provi
dencia mesma revele claramente os seus designios a respeito
de cada um.

O objeto imediato da definicáo papal por ocasiáo de urna


canonizando é apenas o fato de que tal ou tal cristáo, tendo
praticado heroicamente a virtude, goza da bem-aventuranca
celeste. Os teólogos afirmam comumente que o Sumo Pontí
fice, ao proferir a sentenga de canonizagáo, goza de especial
assisténcia do Espirito Santo, de modo a exprimir sempre a
verdade. Se assim nao fosse, poderia ser proposto á imitacáo
e veneracao dos fiéis alguém que nao o merecesse, redundando
dai graves inconvenientes para o povo de Deus.

Resta agora dizer urna palavra sobre um fato recente,


que a voz popular dcsignou, de maneira totalmente inade-
quada, como

3. A «cassaqáo» dos santos

Visto que durante sceulos as ennonizagóes se faziam por


adamacáo dos fiéis, sem rigoroso processo ou inquérito pre
vio, comprcende-sc que tenham sido atribuidos a alguns ser-
vos de D3us feitos e milagres que na realidade eles nao reali-
zaram. A imaginacáo do povo lende fácilmente a engrandecer
os personugens de sua estima, afastando-se, nao poucas vezes,
da realidade histórica. Em conscqüéncia, a hagiografia cató
lica foi-sa avolumando, no decorrer dos sáculos, com narracóes
espurias (do ponto de vista histórico), narracóes que davam
ensejo a que o povo cristáo venerasse de modo especial tal
ou tal servo de Deus.

Ora o Concilio do Vaticano II (1962-1965) mandou pro


ceder a urna revisáo dos escritos hagiográficos. Este reexame

— 363 —
li_ _ .PKKGUNTK K RESPONDEREMOS* 240/19S0

dcu a ver que muitas das fa^anhas atribuidas a este ou aquelo


santo provavclmento nño oram históricas, mas lendárias. Con-
scqüenternente, a Igroju houvc por bcm diminuir o grau de
solenidadc da fesla fio nlguns santos. Isto nao implicava cm
«cassar>-lhcs o título de sontos, mas implicava numa nova
orientacfio da piedade popular; as autoridades cclosiais ten-
cionavam nao alimentar a devocáo dos fiéis com historias in-
certas. EL? por que o calendario da I*?reja passou por reforma
e simplif«cacao. É clrno que a santidade nño depende de pro-
clamaeáo e culto, pois é urna realidade inerento ao cristáo ;
mas o culto da santidade c dos santos deixou de ter funda-
menlacáo espuria o duvidosa cm a!:-uns casos, para sd tornar
mais fiel a verdade histórica.

Alias, já Pió XI, polo Motu proprio «Giá da qualche tempo»,


de 6/02/1930, instituiu na S. Congregado dos Ritos (de entáo)
a «Scc;áo Histórica», Departamento este que tinha por tarefa
examinar tudo o que se refere á historia e á crítica histórica
nos processos de beutificaí.-áo e canonizacáo; encarregar-se-ia
outrossim da revisáo das leituras do Breviario c dos livros litúr
gicos atinentes aos santos. A iniciativa de Pió XI so prendía
ao avivamento crcscentc do senso crítico dos historiadores ;
até época relativamente recente o povo de Deus era propenso
a aceitar de boa fé quanto se lia ñas narracóes da hagiografía.
Eis, porém, que a evidencia de varios documentos fez que a
Igreja resolvesse matizar o valor e a credibilidade de cortos tra.
eos das «Vidas dos santos». Note-se, alias, que estas nunca
foram objeto de fó ou de declaracáo dogmática da Igreja; por
isto, ao fazer a revisáo da hagiografía, a Igreja nao retocou
um só ponto do Credo.

É á luz destas verdades que a populacáo católica considera


a beatif¡cacao do Pe. José de Anchieta S. J.; o povo de Deus
pode estar certo de que aquele que marcou e acompanhou os
primordios da historia do Brasil, nao deixa e nao deixará de
seguir essa historia e o povo brasileiro nos tempos atuais e
vindouros.

A guisa de bibliografía:

LoW, G., C8itonlz2a2lore, In: Enciclopedia Cattollca III. Clttá del


Vaticano, cola. 569-607.
LOW, G., Beatf'lcazfone, in: Enciclopedia Cattollca II. Clttá del Vati
cano, cois. 1090-1100.
SÉJOURNÉ, P., Saints (eulle des), In Dictlonnal.e de Théologle Ca-
thollque, vol. XIV/1, Pafis 1939, cois. 870-978.

— 364 —
Aínda urna vez

"jesús cristo libertador"

£m síntese: O artigo abalxo faz eco ao de PR 246/1980, pp. 242-251,


no qual (ol publicada urna recensSo do lívro "Jesús Cristo Libertador" de
Freí Leonardo Boíl. O teólogo franciscano solicita a PR a publicado de
outra recensSo do mesmo livro a (Im de proporcionar aos leltores um Ins
trumental apto á formacao de um juizo sobre o assunto. — A recensSo do
Pe. Sesboüé é transcrita ñas páginas subseqüentes, com alguns comenta
rios : observa-se que as cbjecóes levantadas pelo Pe. Leroy em PR 246
nCo sSo consideradas nem relutadas, de mcdo que conservam todo o seu
vigor. Se PR traz o assunto de novo á baila, fá-lo em parte para corres
ponder ao dese¡o de Frei Leonardo e, em parte, porque se trata de valores
decisivos para o fiel católico como sSo as fórmulas de fé. O diálogo per
manece no plano das Idéias, sem feíir pessoas.

Comentario: Em PR 246/1980, pp. 242-251, foi publi


cada a recensáo do livro «Jesús Cristo Libertador» de Frei
Leonardo Boff, da autoría do Pe. Marie-Vincent Leroy O. P.,
dominicano francés; este teólogo apreciou a traducáo francesa
da referida obra, tradu?áo que corresponde ao original portu
gués publicado em sucessivas edicóes.

Frei Leonardo Boff julgou-se obrigado a esclarecer os lei-


tores a respeito dessa recensáo. Eis por que solicitou a publi-
ca^áo, em PR, de outra recensáo do seu livro, recensáo que o
próprio teólogo franciscano enviou a PR. Esta revista nao se
furta a publicar tal outra apreciacSo, que vai, a seguir, trans
crita com urna introdugáo redigida por Frei Leonardo.

1. Com a palavra Frei Leonardo

«Queremos colaborar pora que cada leilor forme a suo idéia


acerca do livro 'Jesús Cristo Libertador". Ouviu-se um lodo; que se
ouca o outro. Só as:im, efetivamente, ajudamos os leitores, a verdade
e íambém a S. Igreja. Como 'Pergunte e Responderemos' publicou
urna recensSo de um teólogo francés, negativa e condenatoria, que

— 365 —
H iPERGUNTK E RESPONDEREMOS» 249/1980 _^

se publique agora oulra recensáo de outro teólogo francés, conside


rado nos meios teológicos o melhor cristólogo atual da Franca: Ber-
nard Sesboüé. Sua aprcciacao, como os leilores poderao se dar conta,
nao deixa de ser crítica e aponlar as limitacocs da obra — por isso
também a e:colhemos, prescindindo de outras mais laudatorias —,
mas reconhece também os valores a ponto de 'recomendó-la pelo
senso da tradicao c pela qualidade de ínformacao sobre o conjunto
das pesquisas mais recentes'. A reguir, a publicando da reconsao
publicada na Recherches do Science Religieuse 03 (1975) 538-540
no 'Bulletin de Théologie Dogmatique", seceao 'christologie1. Com a
palavra Bornard Sesboüé :»

2. A recensSo de Bernard Sesboüé

Leonardo Boff. — Jésus-Chríst libérareur. Essai de Christologie


critique. Traduction du brésilien par F. Mal ley, Paris Ccrf 19/4,
272 pages.

«Leonardo Boff é um franciscano brasileiro, em que se percebe


claramente a formacao germánica. A Crislologio que eol porpoe tem
real valor. O título que Ihe dá, Jesús Cristo Libertador, mostra com
muita énfase que ele se preocupa em atualizar o rosto de Cristo e
que deseju contribuir para urna 'Crístotogia na América Latina' (p. 51,
trad.; 56, origin.). Mas nem por isso o autor cai em 'provincianismo'
teológico, e sua obra se recomendó pelo senso da tradicao e pela
qualidade de ¡nformacáo sobre o conjunto das pesquisas mais recen
tes. Acó I he, particularmente, aquilo que a Alemanha de melhor pro-
duziu nos últimos tempos. Além disso, o Autor possui real talento de
expressáo: sabe impostar urna questáo difícil com clareza e brevidade,
maniendo as nuances ¡ndkpensáveis. Sen livro será, por esse motivo,
abordável a um público mais ampio que as obras de pesquisa pura.

Os dois primeíros capítulos sao consagrados aos preliminares


relativos ao método : visáo sucinta das oscifacóes da atitude crítica
desde que os cristáos abandonaran! definitivamente a atitude de 'fé
tranquila', com a prioridade sucessivamcnte dada ao Jesús da histo
ria e ao Cristo da fé; mencao dos diversos horizontes da interpreta-
cao atual de Jesús e de suas 'imagens' dominantes nos diversos meios;
breve colocacáo do problema hermenéutica, lembrando os métodos
exegéticos atualmente empregados e a análise do sentido do 'círculo
hermenéutico'. Todo esse conjunto constituí urna pequeña obra-prima
de exposicáo pedagógica. Nesse quadro, o A. precisa as caracterís-

— 366 _
«JESÚS CRISTO LIBERTADOR» 15

ticas de unía Cristo logia da América Latina: primado do elemento


antropológico sobre o elemento eclesiológico, do elemento utópico
sobre o factual, do elemento crítico sobre o dogmático, do social
sobre o pessool, da ortopraxia sobre a ortodoxia. Essas declaracoes
de intencao devem, alias, ser lidas á luz de sua aplicacao desprovida
de ambigyidade.

O movimento da Cristologia proposta parte da pregacáo por


Jesús de Nazaré do Reino de Deus, apresentado nos termos de urna
nova ordem de coisas anunciada por Jesús e que ¡ó se está realizando
n'ele. A questáo se centra, entao, em torno da pe:soa do 'libertador
da condicao humana' e pergunta sobre a origínalidade de Jesús :

'A origínalidade de Jesús consiste, pois, em poder atingir aqueta


profundldade humana que concerne todos os homens Indistintamente...
Donde vem que Cristo ó asslm tao original, soberano e altanelro? Antes
de darmos títulos divinos a Jesús, os Evangelhos mesmos nos permitem
que talemos multo humanamente dele. A té nos diz que nele apareceu a
bondade e o amor humanitario de Deus (Tt 3,4)' (p. 102, trad.; 109/110,
origln.).

Tendo diante dos olhos o comportamento de Jesús, cujo alcance


teológico ó capital, estudam-se a morte e a ressurreícáo, morte de
Jesús no dom de um amor que vai até o extremo, e ressurreieao de
Jesús que é a realizacao de urna utopia humana pela 'radical trans-
formacáo e transfiguracáo da realidade terrestre de Je:us' (p. 12ó,
trad.,- 135, origin.). Pode-se entao dar urna rcsposta definitiva á
pergunta: Quem foi e quem é Jesús de Nazaré? Passa-se da Cristo-
logia indireta, que se atestava no senhorto de Jesús, á Cristologia
direta, isto é, ao 'processo de deeifracdo do significado e da reali-
dade de Jesús de Nazaré' (p. 144 trad.; 154 origin.). A hipótese
de urna 'Cristologia negativa', a dos adversarios de Jesús, é entao
definitivamente descartada e substituida pela 'Cristologia positiva'.

O processo de Cristologia direta comecou a se desencadear ñas


comunidades primitivas que exprimiram a identidade de Jesús com
os títulos e as categorías que Ihes pareciam mais expressivos. Todo
essa reflexáo quer dizer, de urna forma ou de outra: 'humano assím
como foi Jesús de Nazaré, na vida, na morte e na resrurreicáo, só
podía ser Deus mesmo' (p. 160 trad.; 171 origin.). Esse processo, que
em urna de suas etapas ¡ó tinha reflexdes sobre a preexistencia de
Jesús ¡unto ao Pai, continua a interrogor-se sobre as suas origens.
'... Quanto mais se medita sobre J?sus, mais se descobre seu mis
terio e mais se remonta para os orígens. Todo esse processo é fruto
do amor. Quando se ama urna pessoa, procura-se saber tudo déla'
(p. 165 trad.; 177 origin.). Tal o sentido dos relatos da infancia, em

— 367 —
16 «PERPUNTE E RESPONDEREMOS» 240/iagO

que o autor distingue as conlribucoes da teología e da historia, e


mostró a contribuiccio da concepeáo virginal, cuja principal preocupa-
Cao nao ó a virgtndade de Maria, mas 'o caráter sobrenatural, divino
dessa concepeáo' (p. 170 trad.; 183 origin. — citacáo do Pe. E. A.
Ponte).

O mesmo processo se prolonga no desenvolvimento da Crístolo-


gia dogmática que o A. estuda até Calcedonia. Malgrado a sua exa-
tidao global, este capitulo é um tanto breve, e sua informando la-
cunar, por vezes deficiente. (O reconseador aponta alguns defeitos:
classificar os ebionitas ¡unto com os docetas; nao citar Cirilo de
Alexandria no estudo da Cristologia alexandrina; mencionar EuKqucs
antes de Apolináno; nao c no Concilio de Nicéia, mas bem depois,
na época tía cisao ariana, cerca de 357/360, que se discute sobre
o ¡ota: homoousios ou homoiousios). Mus o comentario sobre Calce
donia leva na devida conta o seu valor doutrinol {'criterio de verdade
para cada interprctocao do misterio de Jesús1, p. 189 trad.; 205 ori
ginal), seu teor de complexidade e scus limites. O A. tenta entao,
pondo-se na esteira das pesquisas atuais sobre a pessoa, urna apre-
sentacao «íxistencial da uniao hiposlática, partindo da obertura total
de Jesús aos outros, seus ¡rmáos, e ao Outro por excelencia — Deus.
Gracaj a e:sa abertura, Jesús pode ser enchido por Deus com toda a
sua realidade, sem possuir hipóstase independente, o que constituí nao
urna "imperfeicao em Jesús, mas, pelo contrario, suo máxima perfei-
cáo' (p. 196 trad.; 212 origin.). Daí a fórmula que nos propóe o A.:

'Se alguém aceitar na té que Jesús foi aquele homem que de tal
forma pode se relacionar e estar em Deus, a ponto de sentlr-se de fato
seu Filho — aquí reside a Identidade pessoal de Jesús com o Filho
eterno — se alguém aceitar na té que Deus de tal forma pode esvazlar-se
de SI mesmo (cf. Fl 2,7), para planificar a total abertura de Jesús, a
ponto de se tornar Ele mesmo homem, entio esse aceita e professa aquilo
que nos, crlstfios, professamos e aceitamos como sendo a Encarnagáo:
a unldade Inconfundfvel e imutáve!, Indlvlslvel e Inseparável de Deus e do
homem num ou no mesmo Jesús Cristo, flcando Deus sempre Deus e o
homem radicalmente homem1 Tp. 197 trad.; 213 orlgin.).

Boff, oo concluir o trabalho, evoca os diversos lugares de encon


tró do Cristo hoje (em nota de rodapé, o recenseador considera
infeliz a fórmula empregada 'Nada repugna também que outras Pes-
soas divinas se tenham encarnado', p. 215 trad.; 234 origin.) e
esboca um ensaio de 'atribuicSo de títulos' a Jesús em linguagem
secular. E difícil fazer justica a e:se breve esboco que vai fluindo
através de diversos temos de atualidade. Suas referencias permane*
cem firmes, pois o pensamento se inscreve na perspectiva de admira-
vel intercambio : 'a vocacáo do homem é a diviniz.ac.5o. O homem,
para tornar-se homem, precisa extrapolar de si mesmo e (isto) supóe

— 368 —
«JESÚS CRISTO LIBERTADOR* 17

que Deus le hominlie' (p. 243 trad.; 265 origin.). O que se pode
apenas lamentar, é que este capítulo, que tentava ser táo criarivo,
termine pelo pobre Credo de Dorothee Solté. Sem dúvida, o esforco
de atualizacáo que anima toda a obra é oinda insaMsfatório, mas
comporta mui'os elementos bem elaborados, pelos quais devemos
agradecer ao Autor».

3. Refletirrdo. . .

A leitura do texto de Bernard Sesboüé sugere algumas


reflexóes

1) B. Sesboüé faz, do livro cm foco, urna apredagáo milito


mais genérica do que a de M. V. Leroy O. P. Nao desee aos
pormenores da obra, como desee o Pe. Leroy, que cita freqüen-
temente as páginas do livro e revela ter estudado minuciosa
mente o escrito de Frei Leonardo. Basta mencionar que Ses
boüé se refere apenas doze vezes as páginas de Frei Leonardo,
ao passo que Leroy cita cinqüenta e nove vezes trechos pre
cisos do livro que ele aprecia. Tem-se, pois, a impressáo de que
o exame de Leroy foi mais apurado e deudo do que o de
Sesboüé.

2) A recensáo de Sesboüé nao considera nem refuta as


objegóes levantadas pelo Pe. Leroy. Estas guardam o seu pleno
significado: o conceilo de encarnagáo em «Jesús Cristo Liber
tador» fica sendo ambiguo, pois parece ser o termo da evolu-
t,-áo do género humano ou da hominizaqáo. É certo que Frei
Leonardo nao quis negar a fé em Jesús Cristo Deus e homem.
Mas as expressóes que ele emprega, nao mostram suficiente
mente a diferenga entre : 1) o tornar-se homem (a homini-
za^áo) do primata primitivo; 2) a diviniza$áo do cristáo pela
graca, e 3) o ser Deus de Jesús Cristo; todo homem pode
vir a ser o que Cristo foi, como se depreenderia dos dizeres
da p. 221 ?

Vejam-se outros pontos controvertidos do livro na cxpla-


nagáo de PR 246/1980, pp. 249-251. Conservam o seu vigor,
visto que nao foram esclarecidos.

3) Mais urna vez desojamos frisar que, se trazemos o


assunto á baila, fazemo-lo, em parte, porque Frei Leonardo o

— 369 —
18 -PKRGUNTK K RESPONDEREMOS* 2-\% 19.S0

pediu e, em parte, porque nos colocamos táo somonte no plano


das idéias, plano no qual é licito tcr posicóes diversas sem ferir
a caridade nem violar a comunháo fraterna. Na verdade, nao
se trata de sutilezas, mas da expressáo dos artigos da fé.

Embora o teólogo conserve a reta fé, é importante que a


expresse de tal modo que o público possa aprender de seus
escritos a doutrina da fé límpida e fiel ás suas fontes origináis.
O valor da reta expressáo da fé já foi salientado pelo Papa
Paulo VI quando interveio na questáo do vocabulario relativo
á consagragáo eucaristica: em lugar de «transubstancia^áo»,
alguns autores holandeses propuseram os termos «tronsignifi-
cacao» e «transfiguracáo» para exprimir a conversáo do pao
e do vinho no corpo e no sangue do Senhor; embora tencio-
nassem guardar a reta fe, tais teólogos usavam palavras ambi
guas, nao exprimindo suficientemente a doutrina ortodoxa; ora
isto deixou o povo de Deus em dúvidas e no risco de perder a
autentica nocáo da verdade revelada. Foi o que motivou o
pronunciamento do Papa Paulo VI, que abaixo transcrevemos:

"Deve-se observar religiosamente a regra de falar, que a Igreja, du


rante tongos séculos de trabalho, asslstlda pelo Espirito Santo, estabeleceu
e foi confirmando com a autorldade dos Concilios, regra que murtas vezes
se velo a tornar slnal e bandeira da ortodoxia do fé. Nlnguém presuma
mudá-la, a seu arbitrio ou a pretexto de nova ciencia. Quem há de tolerar
que fórmulas dogmáticas usadas pelos Concilios Ecuménicos a propósito
dos misterios da Sanllssima Trlndade e da EncarnacSo sejam acusadas de
Inadaptado ¿ mentalldade dos nossos contemporáneos e outras Ihes sejam
temerariamente substituidas? Do mesmo modo, nfio se pode tolerar quem
pretenda expungir, a seu talante, as fórmulas usadas pelo Concillo Triden-
tlno ao propor a fé no Misterio Eucaristlco. Essas fórmulas, como as outras
que a Igreja usa para enunciar os dogmas de fé, exprimem conceitos quo
nao estfio ligados a urna forma de cultura, a determinada fase do pro-
gresso científico, a urna ou outra escola teológica, mas opresentam equilo
que o espirito humano, na sua experiencia universal e necessária. atinge
da realidade, exprlmlndo-o em termos aproprladoa e sempro os mesmos.
recebldos da llnguagem ou vulgar ou erudita. Sao portanto fórmulas inte-
ligíveis em todos os tempos e lugares.

Pode haver vantagem em explicar essas fórmulas com maior clareza


e em palavras mals acossivels, nunca, poróm, em sentido diverso daquele
em quo foram usadas. Progrida a Inteligencia da fé. contanto que se man-
tenha a verdade Imutável da fé. O Concilio do Vaticano I ensina que nos
dogmas se deve conservar perpetuamente aquele sentido que, de urna vez
para sem pre, declarou a Santa Máe Igreja, e que nunca é lícito afastarmo-
-nos desse sentido, pretextando e invocando maior penetracáo" (encíclica
"Mysterlum «del*" n<? 24s).

As palavras de Paulo VI conservam sua atualidade no pre


sente momento, em que se tenciona elaborar urna imagem de

— 370 —
«JESÚS CRISTO LIBERTADOR» 19

Cristo para as populacoes da América Latina: é mister que


a reformulacáo evite ambigüidades e exprima com toda a cla
reza (sem deixar margem a dupla interpretacáo) o conteúdo
da fé.

4) A guisa de ilustrado de quanto dizcmos, publicamos


oportuno artigo do Cardeal A. Renard, arcebispo de Liáo
(Franca), transcrito de «La Documentation Catholique» 1782/
/19S0, 16/03/80, pp. 280s.

4. «O que me surpreende. . .» '

cA imprensa escrita e fatada muilo se ¡nlcre:sa pela Igreja. Os


assunlos religiosos delém a curíosidade. As dificuldodes da Santa Sé,
dos Bkpos © dos teólogos sao propalados, remexidas, perscruladas.

O que me surpreende, nao sao as discussoes e as polémicas, se


bem que a insi:téncia nao me pareca sempre muito sadia. O que me
surpreende, é que o fundo da quesrdo se ¡a silenciado ou apenas assi-
nalado. Para a Igreja, nao se trata de menos do que do ámago da
fé : o Cristo Jesús, Pilho de Deus, Filho da Virgem Maria, morto e
ressuscitado para a salvacáo dos homens. Tal é a fé da Igreja e dos
Apostólos, que conheceram « escutaram o Cristo, a das primeiras
comunidades cristas, a das primeiras profissoes de fé, a de todos os
grandes Concilios dos quotro primeiros sáculos.

Como se poderío pensar que a Igreja, principalmente o Papa


e os Bíspos, fiquem indiferentes e nada digam, quando essa afirma-
cao radical é posta em dúvida, de urna maneira ou de outra? £ esta
urna grave questáo de fidelidade: 'um só Senhor, urna so fé, um
só batismo'.

Além disto, há o povo de Deus, principalmente os 'pobres' e


as enancas: podemos deixá-los sem defesa quando lemos num artigo
ou num livro que Jesús nao retsuscitou, que Maria nao é a Mñe de
Cristo guardando a sua virgindade, que a Eucaristía nao é o corpo
de Cristo, etc. ?

Urna fé inventada nao é a fé. A fé é um 'depósito' recebido,


confiado, transmitido; dado que ela vem da revelaeao de Oeus, nao

1 Publicado originariamente no boletim "Egllse á Lyon et Saint-Etienne",


6/02/80.

— 371 —
c possivel que e'a nao comporte olf|o c!e misterioto, mesino le pro
curamos, justificadamente, palavras novas para melhor opresentá-la
a quem procura a Deus.

Para a Igrcjo, c;:a f6 é vcrdade, a verdade do Cr'ilo, para a


¡'u.T.inacco o a liberdcdo do: fiáis. Jesús dizia : 'A verdodo vos tor
nará homjns iivres", livrei do erro, llvrcs do pecado: a vcrdade da fé
é a guia c a amplidao da liberdade dos filhos de Deus.

Aquele que cn;ir.a cin nomo da Igrcja, será licito ensinar teorías
próprias, que nao e:te¡am da ocordo com essa fé? Os leitores e
ouvintes nao leroo o direito de o sabsr? E a Igreja nao lem a obri-
gacáo de 'fazer a verdede na caridade', como diz Seo Pau'o? é
difícil cultivar, ao mesmo lempo, estas duas virtudes; é difícil tam-
bem conciliar o respeito do bem comum e o dos dircilos da pes:oa:
na Igreja toca a cada uní, denfro da sua missáo pessoal, tender com
paciencia a cssas toLcocs nsccssárias. Há coisas que só vemos bem
com o coracáo e o Espirito Sonto.. .»

(a) Ca.-deal A. Renard

É certo que o autor do «Jesús Cristo Libertador» nao ton-


ciona negar a ressarreigüo de Jesús nem a maternidade vir
ginal de Maria nem a ival pi-escnca de Cristo na Eucaristía...
Todavía o artigo do Cardcal A. Renard é importante porque
dá a ver de que é que se trata quando a Igreja se preocupa
com as fórmulas de fé; Ela é guarda de um depósito sagrado,
que lhe foi confiado polo Senhor o que deve ser transmitido a
todo o povo de Deus, inclusive aos fiéis mais simples ou mais
destituidos de senso critico, na sua integridade e pureza.

Verdade e caridncir'.. . £ preciso que estes dois valores


sejam guardados incólumes e cultivados na S. Igreja: nao se
queira apregoar a verdade em termos que firam a caridade ou
mediante ataques pessoais, como também nao se deve atender
apenas á caridade fomentando omissóes ou traieóes para com
a verdade. A concilia^áo dos dois valores nao é impossivel,
embora difícil, como observa o Cardeal Renard. Tentamos esta
iniciativa ardua, mas necessária, através de PR, numa atitude
de servigo ou no intuito sincero de sermos úteis á mensagem
do Evangelho e ao povo de Deus.

— 372 —
«JESÚS CRISTO LIBERTADOR» 21

APÉNDICE

Nao nos podemos furtar a transcrever outrossim um ar


tigo de Mons. A. Decourtray, bispo de Dijon (Franca), a res-
peito do papel dos teólogos na Igreja: as palavras do autor
contribuem do seu modo para projetar luz sobre o conteúdo
das páginas anteriores.

TEÓLOGOS

«Muito se tem falcdo dos teólogos nos últimos tempos. Mas o


público nao os conhece suficientemente. As controversias atuais de-
formam a sua ¡magem. Por conseguinte perguntamos : como a Igreja
Católica entende o servico dos teólogos? Que é um verdadeiro
teólogo ?

Arrisco urna definieño densa, que será bom ler.. . lentamente:


o teólogo é um hornero de fé e de ciencia, que procura compreender
e fazer compreender, com todos os recurros da razao humana, o
misterio de Jesús Cristo, Filho de Deus, tal como o desvendam as
Escrituras recebidas e interpretadas pela Igreja.

Esta dofinicáo focaliza de cheio a singularidade do teólogo no


mundo intelectual a que ele pertence.

Desse mundo de sabios, de pesquisadores, de pensadores ele


faz realmente parte.

É um erudito. Tem muitas vezes grande competencia em urna


ou mois disciplinas profanas: histó/ia, direito, filosofía. . . Universi
dades e Academias nao hesitan» em reconhecer seus servicos, e ísto
nao só de maneira honorífica.

É homem de método. Estima a precisáo da análise e o rigor do


raciocinio. Nao despreza o moderno instrumental de trabalho, mesmo
o das ciencias ditas humanas. Nada tem desse «prefeito de coisas
vagas» de que outrora falava Huxley.

Tem a paixáo da verdade: paixáo de saber, paixáo de estender


o campo de seus conhecimentos, paixao de desfazer ¡lusóes.

Tem o senso agudo cía honestidade intelectual. Nao faz trapaco


com os falo:. Nao confunde dados experimentáis e hipóteses de tra
balho, leí e teoria, tcoria e sistema. Desconfia das ideologías.

— 373 —
22 «PEKGUNTC K_Rf:SPONDEP.r:.\IOS ;>_24!Vl!}80

Deste ponto de visia, o teólogo é o irmuo de todo sabio, de


todo pesqu¡:odor, de todo autentico pensador.

Mas é precisamente ai que aparece, e mesmo explode, a dife-


renca. Esta é radical I

Com efeilo, esse homcni do ciencia que, lanio quanto ootro sabio,
eré na capacidade e na: exigencias da razao, eré também c ácima de
tudo em outra fonte de inteligencia, que ultrapasa infinitamente
toda inteligencia : a palavra inefávcl procedente do Pai das luzes, o
testemunho de Deus no coráceo do fie!, a un<;5o misteriosa do Eipí-
rito ds Deus, que se une ao Espirito do homom paro clamar : 'Aba !
Pai !' (cf. Uo 2, 27%; 5,9i¡ Rm 0,16. . . ). O verdadeiro teólogo per
manece tempie urna enanca deslumhrada pela manifestado de um
amor inacreditável, do qual ele só pode falar se o acolhc com humil-
dade e gralidao.

Esso homem que, para sondar as Escrituras, nao hesita em utili


zar todos os recursos que possam favorecer o mais objetivo conheci-
rnento das mesmas, é, em última análiso, guiado tao somente pelo
desejo (inspirado pelo Espirito de Deus) de ir mais odiante e mais
ao fundo na descoberta das insondáveis riquezas daquele a quem
ele dá um nome que está ácima de todo nome e diante de quem
ele se ajoelha e em prol de quem ele Irabalha !

Tal homem que, como verdadeiro sabio, quer tao somente obe
decer á verdade e nao admite autoridade olguma ácima de urna
conscíéncia reta, reconhece, como algo evidente por si mesmo, que
o misterio de Deus o ultrapassa por todos os lados. £ com fé plena
mente atento que ele ouve os irmáos a quem o Cristo cntregou o
encargo e prometeu a graca de vigiar pela integridade da mensa-
gom evangé.ica. Ele ama a Igreja e aceita o magisterio desta.

No mundo e nao do mundo I Jesús de antemao afirmou aos


seus que esta temáo marcaría toda a existencia dos mesmos até que
Ele voltasse! Tensáo necessária, que todo apostólo e todo fiel expe-
rimentam. Sinal de urna Igreja fiel ao seu Senhor e á sua mis.ao. Sinal
de verdadeiro servlco teológico prestado por filhos da Igreja, tcste-
munhas do Cristo e ¡rmaos dos homens. . .

(a) Mons. A. Decourtray

bispo de Dijon»

— 37-1 —
Quem diría ?

ressurgimento religioso na china

Em sinlese : Embora a Conslituicao chinesa garanta teóricamente a


liberdade do crenca religiosa a todos os cristSos, esta nunca fol respeitada,
momento a partir da "Revolucflo Cultural" (1965). Eis, porérn, que em
1978 comecaram a se registrar indicios de ressurgimento religioso da parte
do povo chines, que passou a gozar de algum apoio do Governo comunista.
Especialmente digna de a:en;So foi a reuniáo de um Conselho Consultivo
do Governo em fevereiro de 1978, da qual tomaram parte líderes religiosos
budistas, maometancs e cristSos. As reafirmacees religiosas do povo chinés
so explicam pela evidente insuficiencia da Ideología marxista, cujas promes-
sas, além do ficar aquém de quanto o ser humano almeja espontáneamente,
jamáis se cumprlram. Para a Igreja Católica, a nova atitude do Qoverno
marxista chinés é ambigua, pois, em rclacSo ao Caloticismo, se torna nova
forma de persegulc&o; com eteito. o regime de Pequim favorece a criacSo
de urna Igreja Católica Patriótica, a qual, conservando os rótulos e as
insignias do Catolicismo, só serve para esvazlar a este, pols Ihe tira a
sua unldade e vltalidade.

Comentario: Os jomáis vém noticiando um surto reli


gioso na China comunista, de modo que a situacáo parece tor-
nar-se menos hostil para os próprios cristáos naquele país. A
bem da verdade, é preciso reconhecer que realmente as ex-
pressóes de fé religiosa váo conseguindo alguma liberdade na
China. Esta se deve, em grande parte, ao fato de que os inte-
lectuais e estudantes, chineses percebem o vazio da mística
marxista e procuram nos valores transcendentais — inclusive
no Cristianismo — a resposta que o materialismo nao lhes dá
nem pode dar. Todavía para os fiéis católicos tal ressurgimento
é ambiguo, pois está implicando em nova forma de persegui-
cao á Igreja Católica. Abaixo exporemos os indicios do surto
religioso chinés promovido pela populacáo civil; a seguir, di
remos algo sobre as atitudes do Governo frente a tal fato.

1. O surto religioso na China

1. O art. 46 da Constituicáo Chinesa reza que «os cida-


dáos gozam da liberdade de crenca religiosa assim como da

— 375 —
24 PEUGUNTR K RESPONDEREMOS* 2-19/1980

liberdade de nao crer e de propagar o ateísmo». Todavía até


o comeco de 1978 nenhum cidadáo chinés teria ousado prati-
car publicamente algum rito religioso ou declarar sua fé em
Deus. Os oficiáis do Govcrno, interrogados a respeito, sempre
respondiam que na China a Religiüo fora totalmente extir
pada e, por eonseguintc, todos os templos religiosos (budistas,
taoistas, confucionistas, mugulmanos, cristáos...) haviam dei-
xado de funcionar. Na verdade muitos destes foram destruí-
dos, principalmente durante a Revoluyáo Culturalx, outros fo
ram convertidos em museus, escolas, depósitos, etc.

Os agentes do Governo reconheciam apenas a persistencia


de certos «costumes», como o de nao comer carne de porco
ou o de usar o pentcadq tradicional, mas asseveravam que nao
havia um chinés que nao estivesse interessado em dedicar to
das as suas forcas ao estudo das obras do presidente Mao-Tsé-
-Tung.

Ora a noticia oficial do desaparecimento da Religiáo, am


pia e generalizada como era, nao podía deixar de ser suspeita.

Quatro anos após a morte de Mao-Tsé-Tung, as coisas


mudaram... Em conseqüencia de movimentos democráticos e
da reiterada proclamado dos direitos do homem, sao cada vez
mais numerosos os cidadáos chineses que infrigem as orienta-
cócs do Partido Comunista c váo restaurando hábitos do pas-
sado, principalmente no tocante a Religiüo.

As informacóes ti tal respeito sao escassas e fragmenta


rias. Mas podem-se reconhecer algumas nítidas manifestacóes
de tal ressurgimento religioso.

Nos antigos templos secularizados ou laicizados, os devo


tos tornam a queimar incensó e a palmilhar o chao com a
expressáo de seus votos escritos. O museu provincial de Xian
tornou-se centro de peregrinacóes dos camponeses da vizi-
nhanca; os devotos se inclinam profundamente diante de cada
estatua de Buda ou de Guan Yin e, de máos juntas," recitam as
fórmulas rituais. Alguns desses peregrinos viajam seis ou seto
horas de ónibus para poder assim cumprir as suas devo?6es ;
nao raro os mais velhos silo acorrí pan hados por seus filhos.

1 "Rcvolu?3o Cultu'al" 6 o movimcnlo de extrema esquerda que, a


partir de 1965; tentou implantar o marxismo no ámago da cultura c tía vida
do povo chinés.

— 376 __
iíi:ssi;i{<:i.mi:nto religioso na china, 25

Na ciclado cb Chongdu, capital da provincia de Sichuan,


o repórter W. Zaffanolli encontrou uma cápela fúnebre mon
tada cm plena rúa c feila de len<,o¡s. Na entrada dessa cape-
linha uina in.st:ri(,-ao uxplicava tjue o defunlo -r- velho opera
rio consagrara todas as suas forgas á constituigáo do socia
lismo eliim's; ¡10 inteiior, porém, dessa cápela havia o retrato
do tnorto, o, abaixo, uma mesinha na qual estavam deposita
das as oíorendas riluais que alimentariam o espirito do de-
funlo : tomates, bananas, doces. . .

Os muculinanos, sob a denomina<;áo Ilui, receberam de


voita as suas mosquitas. Aiiás, lutaram duramente contra a
presto anti-reli^iosa; por excmplo, na provincia do Yun'nan
üs camponeses Ilui foram obrigados a criar porcos e comé-los;
em consoqü'Jncia, revollaram-m; contra as autoridades e ini-
ciarnvn a yuerrilha.

Tumliém o Cristianismo revive na China, o que, cm parte,


se deve lambém ao interosse que os chineses tém atualmente
pela cultura ocidontal... Assim, por exemplo, um dos livros
estrangeiros r.iais solicitados polos estudantes na China é a
Biblia : certa vez, um casal de professores de ingles em Pe
quim explicou aos jovens solicitantes que era oportuno ler a
Biblia, pois esta tem grande valor literario; cntáo um dos es
tudantes respondeu calmamente que ele quería ler a Biblia
porque pensava em abracar a fé crista. O Cristianismo é pro
pagado principalmente na China do Sul pelos chineses do su
deste asiático e de Hong-Kong... Mais: muitos dos jovens que
contcstam o Governo comunista chines se voltam com inte-
resse e simpatía para a mensagem crista, pois esta é essencial-
mente oposta á sufocagáo do homem pelo homem efetuada
pelo marxismo. Assim aos 8/03/79 apareceu em Pequim urna
nova revista intitulada Degelo que trazia em scu editorial a
seguinte declaracáo:

"Preconizamos que se tomem como modelos a cultura e a civilizacfio


exaladas pelo espirito de Cristo e que nos inspiremos na política democrá
tica fundada sobro a paz, a misericordia, a tolerancia e o amor do próximo
ensinados por Cristo".

Comprecnde-se que, após longos anos de fanatismo e de


odio entre as classos, alguns jovens intdectuais sejam atraídos
por uma mensagem que prega o contrario da sufocagáo do
homem !

Assim o Cristianismo parece ser a corrente religiosa mais


beneficiada nesta fase de abertura política do regime chinés.

— 377 —
2G «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 249/1980

Há de se notar bem que aqueles que o procuram e apregoam,


sao jovens educados sob a orientac.áo do ateísmo militante e
agressivo, Jovens que nao receiam voltar-se para urna crenga
religiosa que, por suas origens, poderia parecer cstranha á
China.

Em suma, o ressurgimento religioso chinés, especialmente


no tocante ao Cristianismo, é sinal do profundo desatino ideo
lógico e político que aleta grande parte da populacáo chinesa,
após doze anos de supremacia absoluta do pensamento maois-
ta, expresso e aplicado pela Revolugáo Cultural.

2. De resto, tém sido empreendidos recentementc alguns


estudos sobre o sagrado e os valores sagrados.

Sabe-se que últimamente, sob o influxo da secularizacáo,


os homens tcm procurado esvaziar tais conceitos, tentando
rcduzi-los a categorías de culturas transitorias fadadas a desa
parecer. Ora veriíica-se hoje que todas as tentativas de erra
dicar do homem o senso do sagrado tém sido frustradas, até
o presente momento e nao prometem melhor éxito no futuro.
Muito a propósito escreve o Prof. F. Ferrarotti, da Universi-
dade de Roma, no inicio de urna avantajada pesquisa sobre o
assunto:

"O paradoxo do sagrado — reduzldo ao essenclal — ó o seguinte:


o sagrado ó o meta-humano que mala ocorre na convivencia humana. Erra-
dicá-lo significa esvaziar de senlido a vida e perder o 'sentido do problema\
ou seja, perder o que há do propiamente (únicamente) humano no homem."

Com outras palavras: renunciar ao sagrado significa re


nunciar a colocar o problema do último fim, o mais importante
dos problemas que o homem tem que enfrentar, problema de
cuja solucáo depende o sentido ou o nao sentido das atividades
do homem sobre a térra. Por isto pode-se assegurar com cer
teza que o cultivo dos valores sagrados jamáis desaparecerá,
pois é imposslvel que o homem nao pergunte a si mesmo por
que existe. Para que se ponha tal pergunta, basta o fato coti
diano da morte.

Como se comprcende, junto com genuinas expressóes de


fé, registram-se na China contemporánea manifestagóes de
crendice e supersti^áo.

Assina, por exemplo, em 1979 o jornal «Quotidiano do Sul»


queixou-se da recrudescencia de práticas religiosas e mágicas

— 378 —
RESSURGIMENTO RELIGIOSO NA CHINA 27

na provincia de Guandong. Segundo o jornal, charlatáes ven-


diam remedios «milagrosos», os adlvinhos pretendiam possuir
poderes sobre o destino ou sobre os nascimentos de meninos
ñas familias, conscguindo desta forma extorquir quantias ele
vadas das pessoas simplórias. Nos arredores da cidade de
Jiangmen (provincia de Guandong), sao numerosos aqueles
que se reunem para adorar os espíritos, a ponto que as auto
ridades locáis- Inés impuseram o pagamento de urna taxa de
manutengo da ordem. Na mesma regiáo existem individuos
e grupos que vendem em público velas a ser acesas sobre o
altar dos antepassados.

Interessa agora observar a atitude do Govemo perante tal


fenómeno do ressurgimento religioso.

2. A posi$ao do Govemo

O próprio Govemo de Pequim tem contribuido para tomar


mais ou menos oficial a abertura religiosa.

Em fevereiro de 1978, por exemplo, realizou-se importante


reuniáo de um Comité Nacional destinado a funcionar como
Conselho do Govemo, reuniáo da quaJ participaran! diversos
líderes religiosos : budistas, mugulmanos, o Secretario Geral
da Conferencia das denominares protestantes da China, Prof.
Lin-Liang-mo, e o «arcebispo patriota católico» J de Mukden,
Sr. Pi-Shu-Shih. Desde 1965, ou seja, desde o comeco da Re-
volugáo Cultural, esse Comité Nacional Consultivo nao se
reunía. O fato foi interpretado pelos observadores abalizados
como o primeiro sinal oficial de réplica á Revolucáo Cultural.

Desde entáo houve noticias de reabertura, cá e lá, de


algumas igrejas, mesquitas o pagodes; o «Instituto para as Re-
ligióes>, fundado em Pequim em 1978, foi intensificando suas
atividades. Os sacerdotes (inclusive chineses) que, residentes
no estrangeiro, tém visitado a China, referem-se a um clima
diferente, ou seja, menos hostil á Religiáo, existente nao só em
Pequim, mas também ñas provincias, mormente em Changai.
As atividades governamentais manifestam certa curiosidade
pela realidade religiosa do Ocidente.

iA respeito do clero "patriota" veja-se o artigo seguinto dests fas


cículo.

— 379 —
28 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS- 219/19S0

Chegou a ser propalada a noticia de que fora posto em


liberdade o arcebispo católico romano (nao «patriota») de
Changai, Mons. Kung Ping-mei; todavía parece tratar-se de
falso rumor, pois a noticia nao foi confirmada; ha mesmo
indicios do contrario, como se depreende do artigo subseqüente
deste fascículo.

De modo geral, o Governo chinés tem reafirmado sua in-


tencáo de promover urna «política de liberdade religiosa», como
determina a Constituicáo (a qual, porém, reconhece a cada
cidadáo o direito de propagar o ateísmo).

Alguns representantes do Partido Comunista e do Govemo


chinés reconhecem ter havido violacóes dessa liberdade e per-
seguicóes aos cidadáos erentes; estes fatos, de resto, sao atri
buidos á política do «Bando dos Quatro», que já encerrou sua
época, dizem as autoridades.

É neste contexto que nos interessa considerar as noticias


mais recentes de distensáo das relagóes entre Catolicismo e
Governo Comunista na China. Tal será o objeto do artigo
subseqüente.

A propósito veja :

U.E., Hoffnungen und Sorgen um dle Christen Chinas, In Herder-Kor-


respondenz, Ho», 9, Soptember 1973, pp. 440-442.

ZAFANOLLI W., Le relour des religlons, in : Crolssance dea Jeunes


Nations, 210, octobre 1979. pp. 4-7.

RETIFICACAO

Com vistas ao artigo «Como se faz um Papa» publicado


em PR 248/1980, pp. 346-351, observe-se que Andrew Greeley,
autor do livro em foco, nao é membro da Companhia de Jesús,
como fez notar á Redacáo de PR o provincialato da Compa
nhia sediado em Belo Horizonte.

— 380 —
A verdade a respeito de

catolicismo e governo comunista na china

Em síniejc: O marxismo é, por sua esséncia mesma, Infenso a


Reliqiáo e, por isto, t Igreja Católica. Urna das tálicas de perseguicSo ado
tadas após a guerra de 1939-1945 (ol a criacño de tgrejas Católicas Naclo-
nais ou patrióticas; separadas da Santa Sé, estas gozam do apolo do
Governo; assim guardam rotules, mas pordem vitalidade. Ora o ressurgi-
menio religioso na China Comunista em 1978 e 1979 deu novo impulso a
tal tipo de Igreja Católica; apesar do insistentes apelos do Papa JoSo
Paulo II, foi ordenado bispo de Pequim em 21/12/79 o padre nacionalista
Michaal Fu Tieshan, que o Governo havia nomeado. A ordenacao fol efe-
tuada peto "bispo" Michael Gaojin, pertencente á Igreja patriótica. A Santa
Sé declarou, de ¡mediato, nao reconhecer tal ordenacao, pois loi efetuada
contra todas as normas canónicas.

Em Formosa, os bispos lancaram um apelo nos bispos católicos do


mundo inteiro, solicitando apoio é populacfio da ilha a (im de que nfio fique,
politicamente, de todo isolada nem seja tragada pela acao comunista do
Governo de Pequim. Todavía os horizontes vfio-se obscurecendo também
em Talwan, pois o Governo local preparou um projeto de Estatuto para as
confissSes religiosas da ilha, que Ihes restringe notavelmente a llberdade.
Negociares já foram iniciadas entre os líderes religiosos e o Governo de
Foimosa a lim de obter mlligacóes desse Estatuto sufocador; acontece,
porém, que o Governo de Formosa usa de linguagem ambigua ou de mé ié,
mostrando-se assaz Irredutlvel em sua opefio. é o que leva a prever novas
vlolacdes dos dlieitos humanos, desta vez na Ilha mesma de Formosa.
Tratar-se-á de influencias do Governo de Pequim sobre o de Taiwan?

Comentario: Dentro do quadro geral do ressurgimento


religioso da China, interessa considerar o que ocorre especial
mente com a Igreja Católica. Na realidade, esta vai sendo
perseguida de modo tal que visa, sob a aparéncia de libera
lismo e patriotismo, a extingui-la por completo dentro das fron-
teiras da China Comunista. Os perseguidores tém-se revelado
perspicazes e decididos em sua sanha destruidora do verda-
deiro Catolicismo. Eis os fatos que justificam tal afirmativa:

— 381 —
30 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 249/1980

1. As «Igrejas Populares Progressistas»

Antes do mais, importa-nos apresentar urna tática de or-


dem ferina que varios Governos comunistas vém adotando
apos a guerra de 1939-45.

Como se sabe, o comunismo é, em cocréncia com os seus


principios, avesso a qualquer forma de religiáo, de modo que
nao se pode jamáis pretender chegar a um acordó entre regime
comunista e Igreja, a nao ser que um ou outro destes conten-
dentes se desdiga e desvirtué por completo. Sao palavras do
próprio Lenine:

"O que constituí a base filosófica do marxismo ó o materialismo dla-


[ético... materialismo absolutamente ateu, resolutamente hostil a toda rell-
gl&o" (Obras, t. XV pág. 371).

Sendo assim, o marxismo é fiel a si mesmo quando em-


preende a extirpagáo das crencas e práticas religiosas ñas
populagóes que ele abrange; as suas vistas se dirigem princi
palmente contra o Catolicismo, grupo religioso cujos princi
pios se lhe opóem com mais rigidez.

Nos últimos tempos, porém, os Govemos marxistas nao


tém sempre movido perseguigáo religiosa declarada e violenta;
preferem usar de requintes que dáo as suas táticas urna apa-
rénda de justica e legalidade capaz de iludir a opiniáo pública.
«Dando dois passos para diante e um para tras» (programa
enviado de Pequim para Cuba), isto é, adotando medidas apa
rentemente desencontradas frente á Religiáo, os chefes mar
xistas váo executando um plano bom tracado, que caminha
certeiramente para a dcstruic.áo da Roligiño.

Procuraremos abaixo enunciar algumas das táticas mais


marcantes dessa política anti-religiosa, principalmente como
ela se dirige contra o Catolicismo.

1) Antes do mais, os dirigentes marxistas esforc.am-se


por criar um ambiente hostil 'a Igreja, tentando dcsprestigiá-la
e difamá-la junto ao novo.

Costumam afirmar, por exemplo, que a Igreja favorece


os capitalistas e se opóe as reivindicacóes dos trabalhadores
desejosos de melhorar as suas condigdes de vida.

Em particular, o Papa é apresentado como o Chefe de um


dos maiores poderes económicos do mundo, coordenando vasta

— 382 —
IGHEJA E GOVERNO NA CHINA 31

rede de entidades internacíonais; seria fautor da guerra, c nao


da paz... da paz táo estimada pelo marxismo!

A doutrina da Ipreja ó apresentada como moral que ex


plora e escraviza o pobre em favor do rico; cnsinando humil-
dade, paciencia e desprendimenlo, o Catolicismo seria por ex
celencia o «opio do povo», instrumento aptíssimo para impedir
qualquer tentativa de elevadlo das classes necessitadas.

Por fim, o Catolicismo, com a sua nota de universalidade,


seria um perigo para a autonomía nacional, pois daría ensejo
á intromissáo de interesses estrangeiros e antipatrióticos em
cada país, assim como a espionagem anti-governamenta!.

A tais acusacóes acrcscenlam os comunistas a solene afir-


masáo de que nao sao contrarios á Religiño como tal, mas
apenas querem combater os «abusos» cometidos pela Religiáo
(distinqáo esta que pode ter seu fundamento na reaiidade, mas
nao deixa de ser muito sutil e subjetiva, abrindo a porta a
muitos procedimentos arbitrarios).

E, para provar que nao sao infcnsos á Religiáo, os gover-


nos comunistas contemporáneos se arvoram em promotores e
tutores de «Igrejas Populares, Progressistas, Nacionais...».

2) A fundagáo de uma «Igreja Católica Popular, Nacio


nal...» é preparada pela difusáo de uma onda de suspeitas e
divisóes entre sacerdotes ou mesmo entre os fiéis católicos em
geral. Constituem-se associacócs de sacerdotes dotadas de
belos títulos, sacerdotes que se diferenciam dos demais «úni
camente» por jurarem fidelidade incondicional ao Governo, sa
crificando o vínculo que os prende ao Sumo Pontífice o Papa.

Tais sacerdotes passam a gozar de favores especiáis por


parte das autoridades civis, ao passo que os demais membros
do clero sao ti dos como refratários, antinacionalistas, conspi
radores, etc.

A titulo de exemplos, sejam aquí citadas a «Uniáo dos


Padres Nacionais» da Tchecoslováquia, a «Uniáo dos Padres
Católicos da Paz» da Hungría, o «Movimento dos Padres par
tidarios da Paz» na Ruménia, a «Associagáo dos Padres pa
triotas» da China, a «Uniáo dos SS. Cirilo e Metódio» na
Eslovénia...

— 383 —
32 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 249/1980

Os governos chegam mesmo a fundar e dirigir Seminarios


para a formacáo dos sacerdotes nacionalistas !

3) O avango progride... No momento oportuno, as


autoridades apresentam um Estatuto ou urna legislacjio pró-
pria para a Igreja, visando a desprendé-la de qualquer vinculo
com o estrangeiro e reduzindo-a a órgáo ou instrumento do
Estado. Em certos países, como a Polonia, a Hungría, a Tche-
coslováquia, foi criado um «Bureau para os Afazeres Ecle
siásticos».

O rótulo sedutor desse Estatuto eclesiástico ó o patrio


tismo ou o nacionalismo. Dá a entender que o Governo quer
salvar ou mesmo incentivar tudo que é próprio da Religiáo no
país, tratando apenas de dar a tais afirmacóes um cunho estri-
tamente patriótico (tática esta quo se diría muito legítima ou
mesmo muito nobre).

Na China, por exomplo, o Estatuto Governamental tem


por lema a chamada «Tríplice Autonomía» :

a) Autonomía de Governo («Self-government» ou «Tze-


-Chin»): a Igreja deveria ser administrada por eclesiásticos
chineses, nao nomeados pelo Papa, os quais tratariam de lhe
dar nova legislacáo religiosa e nova Liturgia ;

b) Autonomía Económica («Self-support» ou «Tze-


-Yang»): a Igreja nao seria licito receber subsidios do estran
geiro («o dinheiro dos imperialistas»); o Governo comunista
se encarregaria «benévolamente» de prover 'ás suas neces-
sidades;

c) Autonomía de doutrína e pregacáo («Self-propaga-


tion» ou «Tze-ch'uan»): a Igreja nao contaría mais com mis-
sionários estrangeiros; todos os seus porta-vozes seriam na-
cionais; a sua pregar;áo, adaptada á mentalidade chincsa e ás
circunstancias da nova China; cm conseqüéncia, far-se-ia urna
revisáo da Teología, conformando-a á ideología professada
polo Governo.

4) Como se compreende, a apresenta"áo do Estatuto nos


países da Cortina de Ferro ou de Bambú provoca atitudcs va
riadas: urnas favoráveis, outras contrarias. Dai o cisma ou a
divisáo entre os católicos, dando ansa a formagáo de urna
«Igreja Católica Nacional» ou «Popular» ou «Progressista».

— 384 —
IGREJA E GOVERNO NA CHINA 33

Esta vem a ser verdadeiro Departamento Administrativo do


Estado, para o qual o Governo cria urna hierarquia própria,
atributado a si o dircito de nomear bispos e de os mandar
sagrar (infelizmente encontraram-se bispos coniventes, que se
prestaram a fazer sagragóos episcopais nessas circunstancias).

Na China, o Ritual de sagragáo, para tais casos, foi cui


dadosamente munido do um preámbulo, que consta do seguinte
diálogo entre o bispo sagrante e o candidato a ser sagrado:

Diz um asslstcnte do sagrante : "Revino. Sr. Bispo, a Ig'eja Nossa


Máo vos peda sagrar como bispos os sacerdotes aqui presentes".

Sagrante : "Foram eteitos pelo povo ?"

AsEistente: "Slm".

Sagrante: "Demos gracas a Oeus".

Olrlgindo-so aos candidatos, pergunta o aaq-antn: "Queréis Imitar


o bom exemplo de Jesús, sob a direcSo do Partido Comunista e do Go
verno Popular, levar os sacerdotes e os cristáos a participar alivamente na
construcáo socialista?"

Resposta: "Queremos".

Sagrante: "Em conformldade com o principio de unISo entre o amor


á Patria e o amor á Rellgláo, para a malor gloria de Deus e a satvacfio
das almas, queréis colaborar para o progresso da Igreja de maneira autó
noma e Independente?"

Resposta: "Queremos".

Sagrante: "Queréis, segundo os vossos talentos naturais, e com toda


a vossa sabedorla, conformar-vos ao que está prescrito peta Sagrada Es
critura f" ¿

Resposta: "Queremos submeter-nos inteiramente em todas as coisas".

Ñas dioceses cujo bispo nao adere á «Igreja Popular Pro-


gressista», os governos tentam nomear os oficiáis para os prin
cipáis cargos: vigários gerais, vigários capitulares, recrutados
entre os «padres patriotas» e controlados por funcionarios do
Estado. Tais nomeacóes suscitam ambigüidade e graves crises
de consciéncia para os católicos bem intencionados. Em par
ticular, os fiéis á Igreja Universal se véem diante de terrivel
dilema: ou rejeitam os candidatos do Governo (estesentáo sao
nomeados sem o seu consentimento, criando confusáo na dio-

— 385 —
34 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 249/1980

cese) ou os aceitam, correndo o risco de ver os principáis pos-


tos de governo da diocese ocupados por pessoas que carecem
de idoneidade para tanto.

5) Mais ainda: as «Igrejas Nacionais» e as «Associa-


g5es de sacerdotes patriotas» sao fomentadas por intensas
campanhas e requintados métodos de propaganda, que visam a
fazer a «reeducacáo» do clero, dos fiéis e da opiniáo pública
em geral; tem efeitos particularmente nocivos a chamada «la-
vagem de cránio», mediante a qual os órgáos do Governo
visam a mudar por completo a personalidade (modo de pensar
e agir) dos respectivos cidadáos (a propósito desta tática),
cf. PR 37/1961, pp. 3-9.

6) A conseqüéncia disso tudo é que parece hayer no país


liberdade de culto, como, alias, a pretendem garantir todas as
Constituic.óes de inspiragáo marxista. O Estado pode até apre-
goar que patrocina a Religiáo, dando-lhe apenas urna modali-
dade nova, aparentemente periférica e inofensiva (para nao
dizer: simpática), isto é, um cunho patriótico, popular pro-
gressista. Entrementes, porém, o Governo vai promovendo
intensa propaganda anti-religiosa; procura também servir-se
das instituigóes religiosas para destruir a própria Religiáo, de
modo que, enquanto as aparéncias e os títulos ficam, a verda-
deira alma religiosa dos cidadáos é totalmente desviada ou
sufocada. O fator «tempo» ou o decorrer dos anos se encar-
rega de garantir o Éxito de tal política.

Para ilustrar quanto acaba de ser dito, eis, á guisa de


exemplo, trechos da «Lei sobre as Confissóes Religiosas» pro
mulgada na Bulgaria aos 17 de fevereiro de 1949 :

Após o artigo 1?, que pretende garantir überdade de conscléncia e de


culto, lé-se:

"Artigo 9? — Toda Conflssfio deve ter uma direeflo responsável pe-


ranto o Estado. Os ministros do culto podom permanecer em funefio. ser
revogados ou mudados, dcpols do oblorem o nlhll obsta! do Ministerio dos
Negocios Estrangelros. Os ministros do culto pertencentes a uma Conllssáo
que tenha relac6es económicas com o estrangelro, só podem ser nomeados
após aprovacáo do Ministerio dos Negocios Estrangeiros. Por ocasiáo da
sua entrada em funefio, sao obrlgados a fazer solenemente uma promessa
de (¡delidade ao Governo da República.

Artigo 19? — Em consideraefio á suprema autoridade do Estado e


dos seus organismos, nSo podem ser organizadas pelas diferentes comuni-

— 386 —
ÍOUEJA K ÜOVKRNO NA CHINA 3Ti

dados religiosas cerimdnias e sclenidades que nao tenham aldo próvia e


oxpressamente aprovadas pelo Ministerio dos Negocios EstrangeJros.

Artigo 21? — A formacSo de assoclac&es religiosas, a sua organi


zado, assim como a ¡mpressáo de livros de cultura religiosa, estSo sujel-
tas ás teis gerato e ás disposicces administrativas. A educagáo e a orga-
nizacSo da Infancia e da juventude s3o especialmente reservadas ao Estado
e nfio dizem respeito ás ConfissCes e aos seus ministros.

Artigo 229 — As ConfissSes nfio podem abrir hospilais, orfanatos nem


outras Instltulcóes semelhanies. As obras desse género existentes no
momento da entrada em vigor da presente leí devem ser tomadas a seu
cargo pelos Ministerios da Saúde Pública, do Trabalho ou da Providencia
Social. Os seus bons mobiliarios ou ¡mobiliarios tornam-se propriedade do
Estado. O Minlstéiio dos Negocios Estrangeiros nomeará urna Comissao
que substituirá os proprielários desses bens; essa Ccmissüo compreenderá
um representante do Conselho Popular em cuja zona se achem esses bens.

Artigo 24? — As Contissfies poderSo manter relacces com Confissdes,


Instituidles, organizares ou personalidades com sede ou domicilio fora
do país, mas somonte com a aprovacáo previa do Ministerio dos Negocios
Estrangeiros.

Artigo 25? — As Confiss6es ou as suas Ordens, Congregares, Mis-


s&es, etc., que tém a sua sede no estrangeiro, nao podem abrir casas na
República Popular Búlgara. Todas as que existem ser&o fechadas no prazo
de um mes seguirte á entrada em vigor da presente leí".

Nao será necessário alongar aqui a descrigáo das táti-


cas anti-religiosas dos governos marxistas. Interessava-nos
fixar de perto a instituigáo de «Igrejas Católicas Progressis-
tas», pois estas, sem ferir aparentemente a Religiáo, parecem
acrescer-se de urna nota simpática e sedutora.

2. Os mais recentes acontecimentos na China

1. Em 25 de julho de 1979 o Sínodo dos Católicos Pa


triotas da China escolhcu para bispo patriota de Pequim o
sacerdote Fu Tie-Shan, de 47 anos de idade; tomaría o lugar
do bispo Joseph Yao Guangyu, falecido em 19S4. O mesmo
Sínodo anunciou que em breve procedería a nova eleicáo des
tinada a preencher a sede episcopal de Mudken, vaga desde
a morte, em 1978, do bispo patriota Pi Shushih; este era o
presidente das Associagóes Religiosas Patrióticas da China. Em
relacáo com estes fatos, as autoridades governamentais de
Changai declaravam publicamente que tencionavam dar apoio

_ 387 —
36 «PERGUNTE E RESPONDEREMOS? 249/1980 '__

as agremiares religiosas nacionalistas que quisessem reativar


os seus programas de aguo.

Diante de tais not'cias, o Vaticano comunicou ao público


que, «na base da doutrina da Igreja e das disposigóes do Di-
reito Canónico, nao é licito reconhecer como válida qualquer
nomea;áo de bispo que nao tenha a aprovagáo e a confirma-
gáo da Santa Sé». A estas palavras os católicos «patriotas» de
Pequim replicavam, lanzando um protesto contra «o intrometi-
mento do Vaticano». Nao obstante, dias mais tarde, em CasteJ
Gandolfo, o Papa Joño Paulo II dirigiu ao Governo Chinés um
apelo solicitando «mais ampia liberdade religiosa e esperando
plena convergencia com a Santa Sé» (Cf. L'Oss. Romano
20/21.08-79).

O apelo de Joáo Paulo II nao logrou efeito no tocante ao


novo «bispo» de Pequim, pois este íoi ordenado na Catedral
da Imaculada Concci áo daquela cidade aos 21/12/79 pelo
bispo patriota Michael Yang Gaojin, numa cerimónia cele
brada cm latim (embora o prelado seja membro da Igreja
patriótica e nacionalista chinesa!). Imediatamente a Santa Sé
declarou que nao reconhecia o novo prelado.

Vé-se assim que, se, de um lado, o Governo chinés se mos-


tra interessado em conceder liberdade religiosa aos seus cida-
dáos, de outro lado, no tocante á Igreja Católica, o mesmo
Governo desenvolve urna política conscientemente hostil e
desagregadora. Sarcasticamentc, isto é, conservando a aparén-
cia de simpáticas á causa católica,^as autoridades comunistas
chinesas causam enorme daño á Igreja Católica na China.

2. Alguns casos complementares ao quadro podem ser


aquí acroscentados.

No comego de 1979 um membro da Embaixada da China


em Roma informou o Pe. Franco De Marchi, professor de
Sociología da Universidade de Trento, a respeito das relagóes
China/Vaticano. O Governo chinls, deelarava o diplomata, fi-
zera saber á Santa Só que qualquer tentativa de negociagóes
entre Pequim e o Vaticano dependía exclusivamente do Vati
cano; caso este deixasse de reconhecer o Governo Chinés do
Formosa, a estrada estaría aberta para o diálogo com Pequim!
— Posteriormente, os íatos relacionados com o bispo patriota
de Pequim devem ter de novo obscurecido os horizontes! De
resto, os bispos de Formosa, cientes do perigo que os amea-
cava, manifestaram-se a propósito, como veremos a seguir.

— 383 —
IGREJA E GOVERNO NA CHINA 37

Aínda é de notar que em mar-o de 1979 se espalhou na


Europa a noticia de que os jesuítas haviam sido interpelados
pelo Governo Chinés a respeito da possibilidade de reassumi-
rem cátedras docentes na Universidade Aurora de Changai
fundada pela Companhia de Jesús em 1903 e oficialmente re-
conhecida em 1908 (em julho de 1951 os jesuítas foram expul
sos da sua Universidade) J.

A curia dos jesuítas em Roma confirmou a nofcfa de um


convite discreto. É justo, porém, observar que tal convite visava
apenas ao preenchimento de vagas no magisterio, principal
mente no setor das ciencias naturais e da Medicina, nao atin-
gindo funcóes de administrac.áo e diregáo da Universidade.

Até o momento presente, nada de novo ocorreu a tal pro


pósito.

É, pois, esta a situagáo recente do Catolicismo na China


Comunista. Faz-se mister agora considerar as ocorrcncias em
Formosa ou na China dita livre.

3. Em Formosa (Taiwan)

3.1. Apelo dos bispos

No mes de junho de 1979 os bispos católicos de Taiwan


(Formosa) dirigiram um apelo escrito aos bispos do mundo
inleiro, em que lamentavam vivamente o isolamento em que

> Antes de partir da China, o Pe. Dumas, Reitor da Universidade,


escreveu urna caria aos padres e iimáos da Ccmunidade, da cual vai aquí
transcilto um trecho muilo significativo:
"Na véspera da nossa dteperafio, resta-rre agradecer a todos vos,
em nomo da Compant.la de Jesús, a colaborado que p;e:tasles a esta
bela obra da Aurora.
Trabalhamoa Juntos du-ante dols anos; suportamos diversos p-obte-
mlnhas mtee-avels. Mas em meló ás di ¡suldades quase cotidianas pudemos
gua dar toda a nossa se enidade, hau indo da solida:1edade (rala na o
sustento de que p.ccisáva.T.oa... A renovacSo da vida Inte ior de no3SO3
exudantes, a sua co.agem e a sua cor.jt ancla na delesa da le, eU a nessa
methor lecompcnsa... Eslou celo de que, como eu, vos gua.-da eii urr.a
Icmb.'a.ica indelével da nossa Uni/c.iidade, dos scus eiluda.iiej, dos seu3
profo5so.es e principalmente da nossa comunidade, que constltüa urna táo
bela equipo".

(Extraído do artigo de Joseph Dehergno : Notes sur la breve histei;©


de l'Auroro (1903-1951), em Eludes, t. 350/5, mai 1979, pp. 613-617).

— 389 —
38 PKKGUNTE E RESPONDEREMOS» 249/1980

cada vez mais é deixada a populagáo de Formosa e admoes-


tavam seriamente contra os perigos do Comunismo. Eis alguns
trechos do;; mais importantes desse notável documento :

"Em consonancia cem a no'sa populacSo, reconhecemos urna so


Chi^a, urna só cultura, urna so nacSo e um só terrilório. mas rejeitamos
cem toda a éntase o regimo que no continenlo mantém os nossos ¡rm3o3
em servidSo.

N3o pedimos privilegio algum. nem desojamos favores; nao tenciona-


ms fugir ao sofrimenío ouo afeia cz hemens em geral. Numa palavra,
q.eremos apenas que n3o nos recusem o ¡nalienávol direito que a todo
hemom compelo, do vivci em libsfdodo c conformo a nossa consciéncia.
A!rav6s do nosso trabalMo conseguimos ccnslruir urna sociedade quo, so
anda é Imporfoita. ofereco a cada um do nos a possibilidade de sor elo
mesmo o de respsíiar ot. sous ^umoiiianics. Desojamos defendor essa
sociedade em tavor de nos mesmos e das geracóos vindouras o, caso islo
alguma vez se torne viávol, oferecé-la como modelo aos nossos compatriotas
no continente".

A tonalidade deste apelo bem mostra como os bispos se


empsnham pela defesa de sua térra frente as amea^as de Pe-
quim. Repetidamente rejeitam a objecáo segundo a qual esta-
riam apenas defendendo um bem-estar que nao é dado aos
compatriotas na China Comunista :

"8 pobreza nao nos assusta, ainda que nos venha a ser Injustamente
imposta. Somos capazes do suportar opressáo física e as mais duras pri-
vacóes... Mas nSo queremos que nos tirem a liberdade de pensar o que
a nossa razáo e a nossa consciéncia nos apontam como verdade..."

Por conseguinte, os bispos e sua comunidade recusam


peremptoriamente toinar-se joguetes de alguma ideología em
oposicáo aos ditames da sua consciéncia pessoal.

No tocante á evoluyáo da política religiosa c nacionalista


do Governo de Pc-quim, os bispos declaram nao ter ilusáo al
guma a respeilo da «democratizacáo» do regime comunista ;
por isto rejeitam qunlquer forma de diálogo com a cúpula mar-
xista, e protestam enérgicamente contra «o jogo sutil e per
verso», que tende a colocar Tahvan diante de odioso dilema :
«ou aceitar o diálogo com Pequim e, conseqüentemente, dei-
xar-se devorar, ou íejeitar o diálogo e, por conseguinte, mere
cer o desprezo das nagóes do mundo».
IGREJA E GOVERNO NA CHINA 3?

Dirigindo-se, dcpois, mais explícitamente aos bispos do


mundo inteiro, escrevem os pastores de Taiwan:

"Nfio permitáis que urna parle da humanldade, por menor que saja,
venha a ser exposta a urna situado de escravidfio espiritual e religiosa,
indigna do homem criado por Oeus e remido em Cristo... Por-amor ao
Senhor, fazel tudo que esteja ao vosso alcance, para que o nosso povo
nfio incona na servldflo aniquiladora a que ele se vé ora exposto",

Como se vé, o apelo é candente e supóe a iminéncia de


alteracóes politicas na ilha de Formosa (Taiwan).

3.2. Preoáo «statal

Acontece, porém, por mais paradoxal que pareja, que


tambóm o Governo de Taiwan vai exercendo crescente pres-
sao sobre as comunidades religiosas da ilha. Com efeito, está
sendo debatido entre o Governo e os líderes religiosos de For
mosa um Projeto de «Estatuto para pagodes, templos e igre
jas». Se tal projeto adquirir forga de lei sem mudanga alguma
(e o Governo parece nao estar disposto a fazer concessóes),
as comunidades religiosas cairáo sob controle severo do Estado.
Na verdade, tal projeto de Estatuto estabelece:

— restrigóes ao direito de pregar mensagens religiosas e


de realizar cerimónias rituais em pagodes, templos e igrejas ;

— obrigacáo de pregar apenas ñas casas de culto oficial


mente reconhecidas pelo Governo, e táo somente em lingua
chinesa, ficando excluido o idioma próprio de Formosa ou
qualquer outro dos primitivos habitantes da ilha;

— os templos, pagodes e igrejas deveráo associar-se em


sociedades de direito civil;

— essas organizacóes religiosas háo de prestar contas ao


Estado no tocante as suas finangas;

— ao Estado é reconhecido ampio direito de intervir ñas


comunidades religiosas, promovendo a contratagáo ou a dis
pensa dos respectivos administradores e servidores.

Em vista de tal projeto, as denominagóes protestantes e a


Conferencia dos Bispos de Formosa realizaram sessóes de es-
tudo no comego de julho de 1979 e entraram em debates com

— 391 —
40 ■JPL'RGUNTE E RESPONDEREMOS* 2-19/1980

representantes do Governo. Da parte deste, parece haver iin-


guagem intiencionalmente ambigua e de má fé; com efeito, aos
cristáos, os defensores do Projeto declararan! que se trata de
medidas que visam a evitar abusos existentes em pagodes e
em comúnipades nao cristas; aos taoistas e budistas, porém,
os mesmos funcionarios explicam que tém om mira um con-
trole mais. severo sobre ns comunidades cristas.

Como ^e vé, o Governo de Taiwan assume atitudes inten-


cionalmente anti-religiosas sem querer declarar propriamente
os porqués da sua nova política. Estaría desde já cedendo ás
influencias de Pequim? Estará tentando «vender» a Pequim
a liberdade religiosa de Taiwan para obter concessóes ou miti-
ga£áo da pressáo dos comunistas sobre o Governo de Formosa?

A situalcáo permanece um tanto misteriosa. Mas, a quanto


parece, tampém Formosa está para cair sob o regime da sufo-
cacao da lib rdade religiosa a que até os últimos tempos pudera
ficar subtraida

Os cristáos nao podem deixar de considerar pesarosos tais


violagóes dos direitos humanos e pedir ao Senhor ilumine a
mente dos ifesponsáveis pela política religiosa tanto da China
continental como de Formosa. Nao permita ocorram novas
perseguicoesi, que venham a manchar novas partes do globo
terrestre!

Bibliografía:

DEHERGNE, J., Notes sur la breve hhlolre de l'Aurore (1903-1951)


¡n : Eludes 350/5, ma¡ 1979, pp. 613-617. '

WEI TSING-SING, "L'£gl>se de Chine existe. Je I' al renconlróe";


¡n : Croteaancel des Jeunes natlons, n° 206, mal 1979, pp. 4-7. O autor é
sacerdote chinés católico, que narra sua visita a organismos e represen-
tantos da lAssociacao dos Católicos Chineaos Patriotas.

O GLOBO, 22/12/79, 1? cad., p. 18.

U.E., Hofínungen und Sorgen um dle Chrlsten Chinas, In : Herder-


-Korrospondenz, 33. Jahrgang, Helt 9, September 1979, pp. 440-442.

— 392 —
Maia um livro de atualidade:

«fora de campo»
por Ranlero La Valle

Apareceu, há meses, em portugués um livro de Raniero


La Valle, intelectual e político italiano, que foi eleito senador
independente na legenda do Partido Comunista Italiano. Inti
tulado no original italiano «Fuori dal Campo», traz o título
brasileíro «Fora de Campo. A fidclidade á carne e ao sangue
do homem, ao abrigo o na expectativa de Deus» l.

O título «Fora de Campo» faz alusáo ao texto de Hb


13,11-14. Nesta passa^em o autor sagrado afirma que Jesús
padcceu fora dos muro-; de Jerusalém, e, por conseguinte, os
cristáos devem tambcm deixar-se sacrificar fora do campo na
scqüela do Cristo.

1. O teor do livro

Em sintese, o autor manifesta ao leitor o problema dos


católicos do seu pais solicitados a colaborar com os comunis
tas. Análoga situagáo, alias, ocorre em outros países, inclusive
no Brasil.

Raniero La Valle exprime claramente a sua posigáo no


capítulo «Continuidade ou Ruptura?» (pp. 195-209). De um
lado, afirma a continuidade na mesma fé e na mesma Igreja,
recusando explicitamente constituir outra Igreja que nao a
Católica (cf. pp. 110-114). Doutro lado, preconiza ruptura,...
ruptura com certas atitudes assumidas pela hierarquia da
Igr eja em casos como o do divorcio c o do aborto (cf. pp.
99-102s). O autor nao vé por que nao colaborar com o comu
nismo, desde que este nao impega o católico de guardar e pro-
fessar a sua fé (cf. pp. 74-82); assume assim a posicáo de «ca
tólico de esquerda», que é a dos «cristáos para o Socialismo»
(como se diz nos países do Terceiro Mundo). A fé seria mesmo
o estímulo a militáncia comunista (cf. p. 208). Tal posigáo
filosófico-política ter-se-á verificado, por excelencia, no caso
de Frei Tito de Alencar Lima, frade dominicano brasileiro,

1 Ed. Civilizado Brasileira, Rio de Janeiro 1980, 140 x 210 mm, 263 pp.

— 393 —
42 ¿PERGUNTE E RESPONDEREMOS» 249/1980

que foi preso por colaborar com os comunistas e acabou por


suicidar-se na Franca, onde se achava exilado em agosto de
1974; Raniero La Valle chega a comparar a imagem de Frei
Tito com a do Servidor de Javé, vitima da sua fidelidade ao
Senhor, conforme Isaías 42. 49. 50. 53; cf. p. 70.

De modo especial, Raniero La Valle alude ao que se chama


«Euroeomunismo» ou as tentativas comunistas de concilia'iáo
ou de alianza com os cristáos da Italia, da Franca e da Es-
panha. As promessas, feitas pelos marxistas, de respeitar a fe
dos cristáos que desejem aderir ao comunismo, tém aliciado
nao poucos cristáos. Estes julgam viável a coíaboraeáo, em
plano de igualdade, entre comunistas e cristáos. A propósito
La Valle cita uma Declaragáo do Partido Comunista Espanhol
datada de 1975 sob o titulo «A militáncia dos Cristáos no Par
tido Comunista Espanhol>, documento onde se le :

"O Partido Comunista Espanhol aceita a presenga dos comunistas


cristáos em suas fileiras e nos vatios órgSos dirigentes do Partido, sem
nenhum tipo de discrlminacáo, com os mesmos direitos e deveres de todos
os outros militantes" (p. 209).

Semelhante Declaragáo foi publicada pelo Partit Socia


lista Unificat de Catalunya (Partido Comunista Cataláo) em
setembro de 1976, com o teor seguinte, mais explícito do que
o anterior:

"O caráter complexo da oscSo que move e encoraja a militáncia de


crlstSos cue vém ao Partido, admite-os e reconhece-os com sua lé, supe
rando asslm a velha dissociatjáo em virlude da qual se pretendía que o
cristfio comunista abandonarse a sua crenija quando entrava no Partido ou,
no melhor dos casos, quo a maiüvesse na estera do privado, sem Ihe dar
qualquer expressáo social... Disamos que sua té, isto é, o pleno respeito
a suas convlccfies cristas, nao scmenle deixou de ser um obstáculo á agáo
revolucionarla, mas se constiluij num estimulo a sua militáncia" (p. 208).

Conseqüentemente, o autor é favorável á tese de um Cris


tianismo dessacralizado ou secularizado, ou ^ja, despojado do
suas cxpressóes típicamente inspiradas pela fé e pelos valores
transcendentais. Ao conceito de sagrado (= separado, reser
vado para Deus) R. La Valle opóe o de comunháo, koinonia,
segundo o qual os cristáos deveriam asscmelhar-se a lodos os
demais homens no exercicio de todas as lutas políticas (cf.
pp. 191-193). O sinal, por excelencia, do anuncio do Reino de
Deus seria a promogáo dos homens no plano temporal (cf. p.
194). O autor fala da «laicidade da opgáo política dos cristáos»
(cf. p. 204).

— 394 —
«FORA DE CAMPO» 43

2. Urna apreciando

O livro de R. La Valle é muito atual e presta-se a longas


reflexóes.

Nao há dúvida, contém páginas de alto valor como aque-


las pp. 183-187, etn que chama a atencáo para os perigos de se
acobertarem determinadas op;óes políticas com a autoridade
de preceitos da Religiáo; as posicóes políticas entáo se tornam
dogmáticas e totalitarias porque apresentadas como religiosas;
a gana ambiciosa do poder impóe-se assim com o rótulo dos
valores religiosos. Na verdade, nenhum fiel católico bem for
mado justificaria a tutela de op;óes políticas partidarias por
parte dos ditames da fé. O Documento de Puebla exorta os
católicos a que «evitem comprometer seu movimento apostó
lico com determinado Partido político» (n' 80) ou ainda: «Os
leigos dirigentes de agáo pastoral nao devem empregar sua
autoridade em fungáo dos Partidos ou ideologías» (n* 530).
Isto nao quer dizer que nao possa haver Partidos políticos
cristáos (como, por exemplo, a Democracia Crista da Italia),
mas significa que é preciso reconhecer sempre o valor relativo
de cada opgáo política e nao querer atribuir-lhe todo o peso
que compete á Palavra de Deus abrasada numa atitude de fé.
— R. La Valle também tem razáo quando afirma que nao se
deve dar ao mundo menos do que Cristo (cf. p. 80).

, Todavía, ao lado de belas páginas, o livro apresenta outras


discutiveis, porque propdem teorias que urna coerente vlsáo
do mundo e da historia nao abonaría. Tais sao, por exemplo,
aquelas em que preconiza a laicizagáo ou dessacralizacáo do
Cristianismo. Na verdade, a nao identifica; áo do Catolicismo
com algum Partido poUtico nao quer dizer que nao deva haver
cxpressoes típicamente cristas na configuracáo da vida social
e política de um povo; a categoría do «sagrado» nao pode ser
apagada, na medida em que ela significa presen;a do Trans
cendental ou do Divino explícitamente reconhecido ou, aínda,
urna visáo nova ou sobrenatural das realidades temporais. É
mesmo para desejar que os católicos, no exercício da sua mis-
sáo temporal, procurem santificar o mundo, tentando comuni-
car-lhe as características do Reino de Deus. Este nada tem de
fanatismo, pois implica respeito á pessoa humana e aos seus
direitos naturais, como lembrou oportunamente o Concilio do
Vaticano II no seu documento sobre a Dignidade Humana.

Para instaurar a justiga e a colaboragáo entre os homens,


o Cristianismo nao precisa de recorrer a doutrinas heterogé-

— 395 —
44 cPERGUNTE E RESPONDEREMOS* 249/1980

neas como seria o marxismo. Nos próprios principios do Evan-


gelho o cristáo encontra sólida fundamentagáo para propug
nar urna sociedade justa e fraterna. Dizia Joáo Paulo II na
abertura da assembléia de Puebla :
"A Igreja n3o precisa de recorrer a sistemas Ideológicos para amar
e defender o homem e colaborar na sua promocáo; no centro da mensagem
de que Eia ó depositarla e arauta, encontra a Insplrac&o para atuar em prol
da fralernidade, da justica e da paz contra todas as dominaefies, escra-
vidóos, discrimlnacñes, violencias, atentados a I i bardade religiosa e agres-
s6es contra o homem e, enfim, contra tudo aquilo que atenta contra a
vida" (III 2).

Por conseguinte, a colaboragáo com o comunismo nao


somente é desnecessária ao cristáo, mas vem a ser inviável,
pois nao há conciliagáo entre Cristianismo e materialismo. O
Documento de Puebla rejeitou o recurso ao marxismo, mesmo
que apenas & análise marxista da sociedade; esta é insepará-
vel da filosofía atéia do sistema comunista:

"Alguns créem possivel separar diversos aspectos do marxismo, em


particular sua doutrina e sua análise. Recordamos... que serla ilusorio e
perlgoso chegar a esquecer o nexo Intimo que os une radicalmente, aceitar
os elementos da análise marxista sem reconhecer suas relacóes com a
ideología, entrar na prática da lula de classes e de sua interpretado mar-
xista, deixando de perceber o tipo de sociedade totalitaria e violenta a que
conduz tal processo" (n"? 544).

Eis, em poucas frases, os comentarios que a leitura do


livro de Raniero La Valle sugere. A obra, em tom elevado e
erudito, representa urna corrente de pensamento cristáo que
se abre para a esquerda política, numa atitude que corre o
risco de deixar prevalecer elementos heterogéneos sobre os
valores genuinamente cristáos.

Estéváo Bettenooort O.S.B.

livros em estante
Introducto d Sagrada Escritura, por Josef Scharbert. Traducfio do
texto alemfio pelo Pe. Fredorlco Dattler S.V.D. — Ed. Vozes, Petrópolis
1980, 160 x 230 mm, 212 pp.

Este volume é a terceira edlc3o de urna obra publicada em 1962 com


o mesmo titulo e republicada cm 1974 com o titulo "O mundo da Biblia".
A Editora Vo2es reedita esta obra em substituicSo á de Perrella-Vagaggini,
que constituía o primeiro volume da colecáo "Introducflo á Biblia" de T.
Bailarín!, atualmente esgotado.

O llvro apresenta os quatro tratados de Introducáo Geral á Biblia :


Insplracáo, Historia do Canon, Historia do texto sagrado, Hermenéutica.

— 39G —
Além disto, aborda a origem e o cometido des livros bíblicos em linguagem
relativamente sucinta, mas clara e de coníeúdo sólido. Tal obra, pela ampli-
dao dos temas que abarca, vem a ser urna pequeña enciclopedia de Inicia-
cao bíblica, que todos os estudiemos terSo em alto apreco.
Entre os apéndices do volume, salientamos duas sinopses" das carnadas
literarias do Pentateuco, em que é apresentada a combinacSo das tontes
jnvisla (Ji, elolsla (El e sacerdotal 'P> nos quatro primeiros livros de
Moisés ; tais quadros nio so encontram com (acilidade e vém a ser pre
cioso instrumental didático. Alcm disto, a bibliografía escriturfslica brasileira
o.-ganizada por Frei Ludovico Garmus <pp. 204-212) eferece ao leitor um
conspeelo atualizado de quanto se tcm publicado no Brasil sobre a S.
Escritura.
Desecamos chamar a atencáo para o conceito de inspiracao bíblica
proposto pelo autor em termos que corresponden! a constante doutiina da
Igreja (pp. 117-130): Scharbert ressalva a obra de Deus e a do autor
humano, servindo-se mesmo de significativa comparado, é sabia também
a posigáo de Scharbert no locante á autenticidade paulina da epístola aos
Elésics e das Pastorais: pondera es pros e os contra e evita solu?Ses diri
mentes, que, no caso, seriam precipitadas; nao se justifica o abandono da
Tradigáo sem razces suficientes para lal.
A guisa de manual didático e de compendio enciclopédico, o livro
merece plena recomendado.

A (é explicada aos |ovens e adultos, por Rey-Mermet. Vol. II: Os 9a*


crementos. Traducáo do francés por Joáo Pedro Mendes. — Ed. Paulinas,
Sao Paulo 1980, 180 x 265 mm, 344 pp.

Este livro continua a obra cujo prlmeiro volume (sobre os artigos do


Credo) já foi analisado em PR 245/1980, 4? capa. Versa sobre os sacra
mentos c a oracáo deminieal (Pai Nosso). pois na Igreja antiga a cate-
quese se voltava primeiramenle para as verdades da té (o Credo) e, depois,
para os sacramentos e o Pal Nosso. O volume em foco é bem estruturado:
comeca cem urna Introducto Geral nos sacramentos, em que a Igreja é
apresentada como o primeiro sacramento do encontró com Cristo; a seguir,
cada sacramento é explanado de maneira a se abordarem questóes atuals;
finalmente, o autor propce um capítulo sobre a oracáo dos cristáos em
geral e outro sobre o Pai Nosso.
Certas expressdes do livro hio de ser devidamente entendidas; urna
obra esciita direlamente no Brasil para o público brasileiro usaría, por
vezes, outro modo de talar. Assim, por exemplo, ás pp. 181s, Rey-Mermet
fala do preceito da Missa aos domingos; tenciona, sem dúvida, afirmar que
a S. Missa se impde ao cristSo como urna necessídade vital; nao há quem
conheca o valor da S. Missa e nSo se sinta interiormente obrlgado a déla
participar; a Igreja tem em mira ajudar todo cristáo a corresponder a essa
necessidade vital; ela nao impSe um preceito arbitrario ou artificial ou alheio
a vida dos fiéis católicos, é o que o autor quer dizer em termos que reque
ren) boa compreensáo para nao ser desviados do seu objetivo, pois continua
de pé o imperioso convite (ou preceito) a que todos os liéis, independen-
temente de disposicóes sentimentais, participen! da Missa deminieal.
Algo de semelhante se dá ás pp. 205-219, onde o autor fala do sacra
mento da Reconciliacao: analisa a historia do sacramento ás vezes de
modo unilateral ou em espirito crítico, que pedería ser mais objetivo e pon
derado, mas nSo nega o valor da conlissáo sacramental, que pode ser feita
mesmo a titulo de devocio sem que o penitente esteja em pecado grave. A
seccSo relativa ao sacramento da Penitencia é, a nosso ver, a que mais
mereceiia ser retocada, embora possa ser devidamente entendida por quem
contiena bem a temática. •
Feitas estas obsérvaseles, reconhecemos que o livro pode ser pro-
veitoso para a catequese: será necessário, porém, que o leitor nao iniciado
no assunto procure quem o ajude a compreender esta ou aquela passagem
da obra em foco.
Por que parábolas?, por Jacques Dupont. Tradugüo do Mosleiro da
Virgem. — Ed. Vozes, Petrópolls 1980, 130 x 180 mm, 90 pp.

Jacques Dupont O.S.B. é famoso exegeta, professor do Pontificio


Instituto Bíblico de Roma, já conhecido entre nos n§o so por suas obras,
mas por recentes cursos e ciclos de palestras realizadas no Brasil.
Publica Interessante estudo sobre as parábolas, onde demonstra que,
para tentar compreender as parábolas do Evangelho, ó necessário respon
der a tres perguntas: De que falam elas? A quem se dlrigem? Como atin-
gem o seu objetivo?
Ora as parábolas de Jesús versam mais sobre o agir do que sobre as
idéias. Ou elas tém em mira Inculcar nos ouvintes um comportamento a
seguir ou a evitar, ou pretendem relletír um comportamento de Jesús ou de
Deus. Dirigem-se a ouvintes com os quais o parabolista se encentra em
desacordó e nao deseja entabular urna discussfio direta. Apresentam-se,
pois, como um meio de diálogo. O poder que elas tém de persuasáo se
deve, antes de tudo, á experiencia vivida sobre a qual se baseiam: expe
riencia dos ouvintes, mas também experiencia pessoal de Jesús. Em razáo
desta última característica, elas sao para nos um caminho privilegiado para
chegarmos á consciéncia que Jesús tinha de si mesmo e de sua missáo
divina.
O livro pode ser tido como válido subsidio para o estudo dos Evan-
gelhos e da Crlstologla.

Comentarlo ao Evangelho de Sao Mateus, por Angelo Lancellotti. Tra-


ducfio de Antonio Angonese (Introducto) e Ephralm Ferreira Alves (co
mentarlos exegéticos). — Ed. Vozes, Petrópolis 1980, 137x210mm, 262 pp.

Este Mvro continua a serle de comentarios ao Evangelho, da qual já


sairam os comentarios de Marcos e Lucas, na Editora Vgzes. Aprésenla
Introducto Geral a Mateus, seguido do texto comentado. O autor tem em
mira leitores interessados em aprofundar a vida espiritual e difundir a
mensagem evangélica em cursos e pregacfies; procura, pois, transmitir em
linguagem acesslvel o resultado de pesquisaatlingülstlcas, históricas e teo
lógicas de serio valor científico. Merece real^ a explanacáo proposta por
Lancellotti aos textos de Mt 5,32 e 19,9 referentes á dissolucáo do casa
mento. Eis o versículo em pauta:

"Eu, porém, vos digo : todo aquele que se divorciar de sua mulher
— exceto em caso de prostituido — a induz ao adulterio, o aquete que
se casar com ela, comete adulterio" (Mt 5, 32).

Assim comenta Lancellotti:

"Com este inciso parece que Jesús deseja introduzir urna excecáo a
regra geral. por ele sancionada, da indissolubilidade do matrimonio. Mas
ele se refere provavelmente aos casos de matrimonios contraídos entre
párenles, proibidos pela leí mosaica (cf. Lv 18), admitidos porém no direito
greco-romano. Esses matrimonios eram condenados pelos rabinos com o
termo pejorativo zenit 'impudicicia, preslituicáo', ou seja, em linguagem
mcáerna, concubinato. A cláusula, própria do 1? Evangelho, refere-se por
tarlo apenas ao ambiente judaico e por islo está ausente em todos os
ouí'os passos neotestamentários que abordam o mesmo problema (cf.
Me 10.1-12; Le 16,18 e 1Cor 7,10-111. A lei da indissolubilidade, portante
conforme Mateus, nao deve ser eslendida aos casos de pseudomatrimónio,
ou seja, ás unióes nao ligadas por Deus. — Comete adulterio : segundo
a mentalidade entáo córreme, só a infracáo da mulher era considerada
adulterio e punida com as penas mais severas (cf. Jo 8,3-7). Mas, para
Jesús, hemem e mulher eslió no mesmo plano e tém as mesmas responsa
bilidades morajs" (p. 681.
Seria para desejar que a colecSo em foco encontrasse ampia aceita-
cao por parle do público.
E B.