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TESTEMUNHO MISSIONÁRIO

do P. José Vieira, missionário comboniano

O Privilégio da Missão

"Depois de sete anos de jornalismo missionário, estou finalmente a cumprir o sonho de fazer uma
experiência missionária em primeira mão.
É verdade que dois anos e meio depois de chegar à Etiópia ainda me considero aprendiz de
missionário, mas os últimos anos têm sido do melhor que vivi! Deixar familiares e amigos, mudar
de ambiente geográfico, humano e de trabalho, reaprender a viver e voltar a ser criança tem alguns
custos, mas o preço a pagar vale a pena.
A missão tem sido antes de mais uma jornada de fé. Vim para evangelizar e tenho sido
evangelizado. Deus tem-se feito bem próximo de mim através da Palavra e do contacto estreito com
as pessoas e com a natureza. Quem não gosta de ser acolhido em terra estranha com amor? Quem
não aprecia o silêncio tão cheio e vivo da noite africana? Quem não se dá conta de Deus na beleza
singela de uma orquídea selvagem? Quem não se extasia numa noite de lua cheia?
Depois, a missão tem sido sobretudo uma experiência de fraternidade com Jesus pelo meio. Vim
como irmão para partilhar com gujis e guedeos o tesouro maior, Jesus. E sou aceite como irmão
(embora continue sendo farenji, estrangeiro) quando tentam compreender o que pretendo
comunicar; quando me convidam para partilhar do milho assado ou cozido e do café temperado
com sal; quando rezamos juntos por alguém que morreu e juntos cantamos e dançamos a dor;
quando partilha mós a alegria das bodas de um novo casal; quando vivemos e reflectimos juntos os
mistérios da vida de Jesus, da vida da comunidade e da vida de cada cristão na festa dos sacramen-
tos.
Reconheço que dei alguma coisa: muitas lágrimas e a melancolia da saudade; o esforço para
aprender o dialecto guji; o cansaço e suor de horas e horas a calcorrear este vaivém de colinas e
vales; o incómodo da aclimatação. Mas também tenho recebido mais, imensamente mais do que o
que dei, dos colegas e dos povos guji e guedeo que me acolheram e dos familiares, benfeitores e
amigos que de longe me têm acompanhado com a amizade da oração e com o carinho da
solidariedade e da palavra amiga vertida em cartas.
A missão pode parecer um jeito estranho de vida, mas é um privilégio que me deslumbra! Ela faz de
cada missionário -leigo ou consagrado, voluntário ou a tempo inteiro - traço de união entre culturas
e povos, sinais da fraternidade estabelecida por Jesus".