P. 1
Os termos relativos ao segmento GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros) no contexto das Linguagens Documentárias

Os termos relativos ao segmento GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros) no contexto das Linguagens Documentárias

|Views: 3.156|Likes:
Esta monografia investiga a importância das palavras no contexto das linguagens, e do seu significado para as experiências de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. Foi organizada com o objetivo de abranger os campos de estudos relacionados a investigação à qual o título se refere. Para isso, verifica como a linguagem vem sendo estudada, o seu processo de formação e sua importância para a integração humana às molduras culturais. Produz um breve histórico das Linguagens Documentárias - LDs -, ressaltando que elas preservam características ideológicas. E recupera a historicidade das categorias referentes a sexo e gênero por meio do estudo de termos relacionados a práticas culturais. O passo seguinte serve para demonstrar a organização dos sistemas pensados por Melvil Dewey e por Charles Cutter, consecutivamente a CDD [Código Decimal Dewey] e a LCSH [Library of Congress Subject Heading], analisando-os a partir do projeto moderno. E finalmente, destacar as transformações ocorridas a partir dos anos sessenta, onde o surgimento de novos sujeitos políticos que, aliados aos bibliotecários, reconheceram a importância da guarda de materiais, de centros de documentação e a necessidade de novos sistemas face à fragmentação em diversas identidades – GLBT -, dando origem a um novo campo de reflexões sobre a análise da documentação diante das aceleradas transformações sociais.
Esta monografia investiga a importância das palavras no contexto das linguagens, e do seu significado para as experiências de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. Foi organizada com o objetivo de abranger os campos de estudos relacionados a investigação à qual o título se refere. Para isso, verifica como a linguagem vem sendo estudada, o seu processo de formação e sua importância para a integração humana às molduras culturais. Produz um breve histórico das Linguagens Documentárias - LDs -, ressaltando que elas preservam características ideológicas. E recupera a historicidade das categorias referentes a sexo e gênero por meio do estudo de termos relacionados a práticas culturais. O passo seguinte serve para demonstrar a organização dos sistemas pensados por Melvil Dewey e por Charles Cutter, consecutivamente a CDD [Código Decimal Dewey] e a LCSH [Library of Congress Subject Heading], analisando-os a partir do projeto moderno. E finalmente, destacar as transformações ocorridas a partir dos anos sessenta, onde o surgimento de novos sujeitos políticos que, aliados aos bibliotecários, reconheceram a importância da guarda de materiais, de centros de documentação e a necessidade de novos sistemas face à fragmentação em diversas identidades – GLBT -, dando origem a um novo campo de reflexões sobre a análise da documentação diante das aceleradas transformações sociais.

More info:

Published by: Claudio Roberto da Silva on Jun 28, 2009
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

08/02/2013

pdf

text

original

Claudio Roberto da Silva

Os termos relativos ao segmento GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros) no contexto das Linguagens Documentárias.

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Departamento de Biblioteconomia e Documentação da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo. Orientadora:Profa.Dra.Marilda Lopes Ginez de Lara

São Paulo 2004

A falta de gosto é uma antilinguagem, assim como a doença ou a criminalidade. A pessoa de mau gosto não aprendeu suas lições, como o homossexual, como o judeu, como o negro.

Hubert Fichte

2

AGRADECIMENTOS

Pensar sobre o percurso, é a melhor forma de agradecer a tantas pessoas que caminharam junto comigo durante a graduação. Tenho poucas certezas, mas uma delas é a de que cheguei aqui por não estar sozinho. A trajetória às vezes foi branda, às vezes agitada, mas revelou que se em alguns momentos o ficar comigo era necessário, noutros o contato com familiares, amigos, colegas e professores era muito importante. A colaboração surgiu através de caminhos diferentes, em épocas como a de hoje, até as máquinas transmitem afetividade, pois as palavras, trocadas sobre o tema, chegavam na tela do computador, ou eram passadas pelo telefone, tornando a escrita desse texto possível. As pessoas responsáveis por essa etapa, certamente, lotariam um palco enorme que ouviriam meus aplausos de agradecimento. Sou grato ao corpo docente do Depto. de Biblioteconomia e Documentação da Escola de Comunicações e Artes – USP - que forneceu a fundamentação teórica e acadêmica fundamental à realização dessa reflexão. Quero expressar meu agradecimento, em especial, às professoras Anna Maria Cintra e Johanna Smit que acompanharam meu percurso de montagem do projeto e de produção da monografia. Os debates ocorridos durante as disciplinas que ministraram estimularam uma reflexão apoiada num diálogo franco e que sinalizou questões que ainda não estavam suficientemente claras. Agradeço também ao professor José Augusto Chaves Guimarães por ter possibilitado o contato com o texto de Hope A. Olson, cuja leitura ajudou a sedimentar algumas das idéias presentes nessa monografia, e a professora Daisy Pires Noronha por me ajudar a sistematizar as normas ligadas às referências dos documentos utilizados e a apresentação padronizada deste trabalho. O encontro com Marilda Lopes Ginez de Lara foi definitivo para essa reflexão, os desdobramentos da formação que obtive nos anos da graduação e a decisão em abraçar essa área de estudos se devem a ela. Nas entrelinhas desse TCC reflorescem nossas conversas sobre o tema. Além disso, é importante que se diga: muito obrigado professora, você soube ser orientadora sem passar por cima da autonomia do seu orientando.

3

Menção especial deve ser feita à Sandra Hirashiki e Janaína Pissinato, com quem tenho compartilhado instantes de vibrações e desafios. Desde o primeiro ano ficamos juntos e - pelos laços da nossa amizade - nunca mais nos separaremos. Agradeço a todos os meus colegas de graduação, graças a nossa convivência vivemos experiências que tornaram esses anos de ECA inesquecíveis. Agradeço também aos amigos que foram meus interlocutores em diferentes fases da reflexão sobre as identidades de gênero e sexuais. Em especial a Regina Fachini que acompanhou o meu ingresso na Biblioteconomia. Com ela o debate sobre a questão GLBT criou vínculos sólidos, graças aos quais descobri afinidades e fui presenteado com sugestões de leituras e com constantes diálogos que se revelaram ricos às análises acrescentadas ao texto. Quero agradecer aos meus parentes que me ajudaram em diversos momentos, e de diversas formas, durante o andamento da graduação, proporcionando-me o conforto familiar tão caro ao meu bem estar como ao encaminhamento dos estudos. Eternamente, agradecerei, com saudosa memória, ao homem mais importante da minha vida, meu pai, Antônio Geraldo da Silva. Dedico o trabalho a duas pessoas encantadoras que estão sempre juntas comigo – a qualquer hora - e sempre prontas para me ajudar: Antônia Leles da Silva e Maria do Rosário da Silva Ferro (Minha mãe e minha irmã).

4

Fonte: SILVA, Claudio Roberto da. Os termos relativos ao segmento GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros) no contexto das Linguagens Documentárias. São Paulo: Escola de Comunicações e Artes – USP, 2004. Resumo: Esta monografia investiga a importância das palavras no contexto das linguagens, e do seu significado para as experiências de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. Foi organizada com o objetivo de abranger os campos de estudos relacionados à questão motivadora do trabalho. Para isso, verifica como a linguagem vem sendo estudada, o seu processo de formação e sua importância para a integração humana às molduras culturais. Também visa distinguir a linguagem natural da linguagem documentária, produz um breve histórico das LDs, ressaltando que elas preservam características ideológicas. Na seqüência, recupera a historicidade das categorias referentes a sexo e gênero através do estudo de termos relacionados a práticas culturais. O foco recai sob momentos distintos da história, desde termos do período pré-moderno, até termos modernos, e depois expõe a desconstrução das identidades sexuais binárias e a pluralização das categorias referentes às identidades sexuais e de gênero. O passo seguinte serve para demonstrar a organização dos sistemas pensados por Melvil Dewey e por Charles Cutter, consecutivamente a CDD e a LCSH, analisando-os a partir do projeto moderno, e como suas sistematizações sustentavam o discurso produzido, consecutivamente, no primeiro caso, pela autoridade acadêmica e científica, e, no segundo caso, pela singularidade cultural imposta por um público majoritário, para apresentar, depois, a incapacidade dos modelos deweyano e cutteriano em atender as necessidades de informação de segmentos cada vez mais específicos. E finalmente, destacar as transformações ocorridas a partir dos anos sessenta, onde o surgimento de novos sujeitos políticos que, aliados aos bibliotecários, reconheceram a importância da guarda de materiais, de centros de documentação e a necessidade de novos sistemas face à fragmentação em diversas identidades – GLBT -, dando origem a um novo campo de reflexões sobre a análise da documentação diante das aceleradas transformações sociais. Palavras-chave: Linguagens Documentárias; bibliotecário; GLBT (gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros)

5

Sumário
Apresentação.......................................................................................................................................7

1 Introdução.......................................................................................................................................9

2 A importância dos estudos da linguagem sobre a sedimentação da cultura............................11 2.1 As linguagens e seus signos..................................................................................................12 2.2 A Linguagem Natural e a Linguagem Documentária...........................................................18 2.3 Histórico das Linguagens Documentárias.............................................................................24 2.4 As implicações ideológicas dos termos que sedimentam as Linguagens..............................30

3 Uma história dos termos sobre sexo e gênero.............................................................................36 3.1 Sexo e gênero na antiguidade, palavras à guisa da compreensão da diversidade..................37 3.2 Sexo e gênero em nome da fé, a produção de termos em busca do controle do outro.........42 3.3 Sexo e gênero em nome da razão - sob nova vestimenta -, os novos termos de controle......48 3.4 Sexo e gênero no período contemporâneo, o retorno à compreensão da diversidade...........53

4 O tratamento da sexualidade nas Linguagens Documentárias no período moderno..............61 4.1 No molde do projeto moderno, a sistematização dos termos.................................................62 4.2 O tratamento da informação enquanto reiteração do saber competente................................67 4.3 A hierarquia dos “termos” modernos: Homossexualismo/ Psiquiatria..................................73 4.4 A transição: dos conceitos hierárquicos à dinâmica da desconstrução..................................80

5 O desafio das mudanças provocadas pela explosão da informação..........................................87 5.1 Quando novos sujeitos entram em cena: o segmento GLBT..................................................88 5.2 Experiências em centros de documentação ligados ao segmento GLBT...............................93 5.3 O profissional da informação face às necessidades de informação do segmento GLBT.......99 5.4 Linhas teóricas para pensar a análise da informação GLBT................................................105

6 Considerações Finais...................................................................................................................111

7 Referências...................................................................................................................................113

6

Apresentação

Certa vez - corria o ano de 2002 - e estávamos no horário do intervalo aguardando o início da segunda parte da aula de Lingüística e Documentação. Quando uma colega contou uma história que chamou nossa atenção. Ela estagiava na Câmara Municipal, e lá do local onde realizava suas atividades podia ouvir as sessões do plenário. Numa de suas audições, aconteceu um episódio que despertou sua curiosidade. Uma bibliotecária fora convidada para ajudar ativistas dos grupos homossexuais. Na ocasião, a profissional se referiu ao termo técnico – homossexualismo – como ponto de partida para o debate. Aquém do significado dessa palavra entre os ativistas, ela abriu um debate, muito conhecido nos grupos, segundo o qual o termo não poderia ser utilizado porque o sufixo “ismo” qualificava que a origem da palavra a associava à idéia de doença, além disso, homossexual, no senso comum, era um termo atribuído ao gênero masculino, assim era preferível usar gays e lésbicas, para dar visibilidade às mulheres, mas também havia a questão das travestis, que não se reconheciam nessas duas palavras. Teve início todo um debate na câmara que, provavelmente, não era do conhecimento daquela bibliotecária. Essa história foi ouvida e despertou nossa perplexidade, pois, questionávamos: e se fossemos nós que estivéssemos naquela situação? Esse TCC teve origem no dia que essa história foi contada, visto a importância das palavras na linguagem, e do seu significado para as experiências de vidas humanas como a de gays, lésbicas e travestis. Ele foi organizado com o objetivo de abranger os campos de estudos que reflitam sobre a complexidade da questão colocada para aquela bibliotecária. Para tanto, o primeiro capítulo se dedica a fazer a definição dos aspectos relacionados à linguagem, como ela vem sendo estudada pelos pensadores, o seu processo de formação e sua importância para a integração humana às molduras culturais. Também visa distinguir a linguagem natural da linguagem documentária, apresentar um breve histórico das LDs, pelo menos as mais utilizadas e, para concluir, ressaltar que é inevitável que as LDs preservem aspectos relacionados à sedimentação ideológica. O capítulo seguinte recupera a historicidade das categorias referentes a sexo e gênero - através do estudo de palavras relacionadas às práticas culturais - que se institucionalizaram no decorrer do tempo. O foco recai sob momentos distintos da história,

7

desde termos do período pré-moderno, tais como “pecado nefando”, cuja palavra marca o poder da Igreja Católica, até termos modernos como “homossexual”, a partir da produção literária e científica do século XIX, e depois concluir pensando como aspectos ligados a desconstrução das identidades sexuais binárias produziram um reconhecimento da diversidade humana – assim como o tratamento específico de seus temas –, pluralizando as categorias referentes às identidades sexuais e de gênero. Na seqüência, o capítulo seguinte acompanha a montagem dos sistemas pensados por Melvil Dewey e por Charles Cutter, consecutivamente a CDD e a LCSH, analisando-os a partir do projeto moderno, e cujas organizações sustentavam o discurso produzido pela medicina e pela jurisprudência, os quais ganharam hegemonia de ação - perpassados pela teoria do bom funcionamento da sociedade. No caso da CDD isso ocorria porque a autoridade acadêmica legitimava essa organização, enquanto que no caso da LCSH tal fato se devia ao emprego das palavras utilizadas pela singularidade de um público majoritário. Essa lógica se montou sobre uma estrutura binária e hierárquica que caminhava do universal para o específico. As novidades da cena contemporânea problematizaram esses sistemas, indagando sobre a incapacidade dos modelos deweyano e cutteriano em atender as necessidades de informação de segmentos cada vez mais específicos. E finalmente, no quarto capítulo, destacar as transformações ocorridas a partir dos anos sessenta, onde o surgimento de novos sujeitos políticos provocaram uma revolução ao redor do mundo. Pessoas que, aliadas aos bibliotecários, reconheciam a importância da guarda de materiais, assim como da montagem de centros de documentação para atender grupos com necessidades específicas. Essa postura esboçou uma novidade: a necessidade de novos sistemas face à fragmentação das identidades – GLBT -, pois o processo deflagrado colocou em xeque as idéias tradicionais, dando origem a um novo campo de reflexões, sobre a análise da documentação diante das aceleradas transformações sociais. O presente TCC não tem a pretensão de responder, plenamente, a complexidade da questão, mas tenta se aproximar o máximo possível da reflexão colocada pelos autores. A novidade do tema é visível e rica em possibilidades, pois compõe teias que se articulam, em diversos campos do conhecimento, ligando os estudos das linguagens, da história, da importância do bibliotecário, das identidades de gênero e de orientação sexual, num esforço de verificar o impacto das palavras que se referem ao segmento GLBT.

8

1 Introdução

Tradicionalmente, a percepção do corpo, assim como de suas formas de autorepresentação, se organizou a partir de categorias binárias utilizadas para investigar as identidades sexuais (homem e mulher, gay e lésbica). Desde os anos sessenta, porém, o movimento GLBT deu origem a uma linha de estudos que denunciou a falácia deste paradigma. Nasce assim a reflexão sobre a diversidade do gênero sexual humano, gerando a necessidade de investigar, noutros campos de conhecimento, a situação de gays, lésbicas, bissexuais e “transgêneros”. Aqui cabe apresentar a posição defendida por John Boswell.1 O pesquisador, quando fala sobre investigação histórica - referente à existência de gays em sociedades précapitalistas - sugeria que se os historiadores não prestavam atenção a como as fontes históricas descreviam um determinado fenômeno, isso não provava - de forma nenhuma que este não tivesse existido. Nesse caso, é possível tomar como base o argumento de Boswell, procurando pelas manifestações GLBT, mas não simplificando o estudo ao equiparar categorias do presente ao passado, e procurando, sim, contextualizar essa diversidade – enquanto potencialidades da natureza humana -, como um fenômeno dentro de um contexto moral, político, social que elaborou significados para essa diversidade, ao sabor do quadro cultural de cada época. Camille Paglia,2 também reflete a partir dessa perspectiva: de que a cultura, com suas instituições sócio-históricas, pode ser estudada como a luta do homem, através do tempo, contra o poder da natureza. Para entender as civilizações, é preciso entender suas posturas diante da natureza (numa tentativa de controlar suas manifestações ou para se reconciliar com elas). Segundo a autora, nenhuma civilização pôde subordinar os aspectos essenciais da natureza, mas apenas se relacionar com eles. Aqui se insere o universo do corpo e das relações que podem ser mantidas com outros corpos – iguais ou diferentes – e com a auto-imagem produzida sobre o próprio corpo. Esse caminho apresentou a cultura e a linguagem (especificamente a verbal), como
1

BOSWELL, John. Hacia un enfoque amplio. Revoluciones universales y categorías relativas a la sexualidad. In: BOYERS, Steinery Robert. Homosexualidad: Literatura y Politica. Madrid: Alianza Editorial, 1985. p. 38-74. 2 PAGLIA, Camille. Personas Sexuais: Arte e decadência de Nefertite a Emilly Dickinson. São Paulo: Companhia da Letras, 1992. p. 13.

9

portadoras das identidades - elemento básico para se falar sobre problemas, necessidades e instituições através do tempo. Essa opção pode gerar a possibilidade do significado das palavras se tornarem anacrônicos, ou comprometidos ideologicamente, caso não sejam utilizadas adequadamente, motivando, assim, um cuidado maior sobre a necessidade em escapar dessas armadilhas. Nesse caso, os sistemas de classificação, originados no século XIX, são ferramentas terminológicas que se tornaram datadas, não atendendo mais as transformações ocorridas no decorrer do século XX. Hoje em dia, não é possível apresentar ao militante gay, por exemplo, palavras como “homossexualismo”, cujo significado se refere à idéia de desvio patológico – que teve origem na categorização médica - e que não tem nada a ver com a recente proposta que sustenta outra idéia, a de que não há nada de doentio na expressão da homossexualidade. A contemporaneidade, também, indica outras mudanças: essas se referindo ao entendimento da informação como instrumento de transformações em nível social e político. Neste contexto, o espaço do bibliotecário tornou-se estratégico no tocante aos fins do seu trabalho, cujos objetivos não estão ligados mais à mera disponibilização da informação, mas à reflexão sobre como sua atuação pode alterar qualitativamente as experiências sociais. O empreendimento dedicado à recuperação dos aspectos teóricos - que sedimentam os estudos lingüísticos e os da área de documentação -, assim como os aspectos históricos e ideológicos que cercearam as LDs, tornaram possível o diagnóstico de uma oscilação na organização dos sistemas, entre a legitimidade de uma identidade monolítica e o reconhecimento do valor de diversas identidades. Neste ponto, foi preciso compreender a importância dos centros de documentação, e dos bibliotecários (a partir de suas posturas teóricas e políticas) como agentes das transformações sociais. Para avaliar essas questões, a confecção desse trabalho envolveu duas fases, uma relacionada à pesquisa e coleta de dados sobre os estudos ligados às linguagens, à história, ao segmento GLBT, e a outra referente à leitura e fichamento desses estudos. A reflexão a partir desses dados - acompanhada pela orientação da professora Marilda Lopes Ginez de Lara – possibilitou uma análise com o objetivo de entender o funcionamento das palavras sob o contexto das linguagens, especificamente as veiculadas sobre o segmento GLBT .

10

2 A importância dos estudos da linguagem sobre a sedimentação da cultura

Os interesse em estudar a linguagem é antigo, mas sua versão atual pode ser verificada a partir de transformações no campo da lingüística, área que teve origem no século XIX, logo no começo do século posterior ao seu nascimento. Nesta época aconteceu o curso de lingüística geral de Ferdinand Saussure, ministrado entre os anos de 1906-1911 na universidade de Genebra. Este curso, depois da morte de Saussure, foi transformado em um livro a partir das anotações de alunos realizadas durante as aulas, por dois de seus discípulos: Charles Bally e Albert Sechehaye.3 Saussure é responsável pela clássica distinção entre língua e fala, segundo a qual o pensador possui uma concepção da língua como sistema, colocando ao lado desta uma outra distinção entre sincronia e diacronia. Face à qual, a lingüística deveria orientar seu interesse pelo estudo da língua ao aspecto sincrônico: a língua como um objeto de estudo num determinado momento. Ele privilegia essa perspectiva e coloca, um pouco de lado, as questões da língua em relação ao sujeito e em relação ao mundo. O corte saussureano, também, abre caminho a diferentes propostas no tocante à reflexão sobre a linguagem, especialmente no campo dos estudos sincrônicos que buscam incluir o sujeito no lingüístico. Estes trabalhos tiveram vários desdobramentos que se tornaram conhecidos no Brasil.4 Assim, do ponto de vista contemporâneo, podemos enumerar as seguintes correntes ligadas ao estudo da linguagem: uma ligada ao pensamento de Noam Chomsky, referente ao cognitivismo naturalista que localiza a lingüística no interior da biologia (enquanto ciência psicológica); outra ligada a posições derivadas do estruturalismo, onde o funcionamento da língua se dá porque a ela está marcada por formas próprias de funcionamento; outra ligada a posições que estabelecem diálogos entre as diversas disciplinas das ciências humanas; e, outras, ainda as posições ligadas à análise de discurso que põem em cena a questão de que não se pode reduzir o lingüístico nem ao social nem ao psicológico, visto que a linguagem é histórica.5

3

Ver: GUIMARÃES, Eduardo. Os Estudos Sobre Linguagens: uma História das Idéias. Disponível no: http://www.comciencia.br/reportagens/linguagem/ling14.htm. Acessado em 28 de junho de 2004. 4 Idem. 5 Ibidem.

11

O ponto em comum é que a língua surge como elemento básico para a integração do homem às molduras culturais. Através do seu estudo, é possível identificar o comportamento dos herdeiros da linguagem, assim como observar a origem das justificativas que institucionalizaram suas práticas e saberes. Esses esclarecimentos são fundamentais para se entender a influência dos estudos da língua sobre a produção teórica do campo referente às Linguagens Documentárias.

2.1 A linguagem e seus signos

É importante compreender a linguagem através de sua origem histórica e de sua instituição como instrumento de comunicação adotado pelo homem. No tocante ao primeiro aspecto, talvez nunca possamos saber com certeza o processo que deu origem à linguagem. Supõe-se que esse traço distintivo do homem começou a se desenvolver por volta de um milhão e meio de anos atrás com o Australopitecus, ou "macaco-homem".6 O estudo dos fósseis indica suposições de que esse primeiro hominídeo já se comunicava por meio de sinais sonoros, intencionais, e não de gritos automáticos, com seus contemporâneos. Era o primeiro passo para a verbalização da linguagem. Os estudiosos acreditam que há um milhão de anos ocorreu uma fase decisiva na elaboração da fala: o ensaio das primeiras palavras pelo Homo Erectus. Mas é com o Homo Sapiens Sapiens que a humanidade levará essa aventura às últimas conseqüências, completando, por volta de 40 mil anos atrás, o processo definitivo da conquista da linguagem.7 Essa aventura, entretanto, não se restringiu à capacidade diversa da linguagem em produzir sons, ela buscou uma forma de cristalizar as idéias sonoras através das formas de registro. Desde os primórdios, em que por meio da linguagem, o ser se tornou humano, o homem quis perpetuar imagens de fatos que vivenciava. Para tanto se preocupou em registrar fatos através de uma técnica, a qual denominamos escrita.8 Nas sociedades

6

MARX, K; ENGELS, F. Sobre o papel do trabalho na transformação do macaco em homem. In: Obras Escolhidas (1). São Paulo: Alfa-Ômega, 1977. v. 2, p. 61. 7 CHILDE, Gordon. A Evolução Cultural do Homem. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1981. p. 40-1. 8 MARTINS, Wilson. A Palavra Escrita: história do livro, da imprensa e da biblioteca. São Paulo: Ática, 1998. p. 33-6.

12

humanas, desde então, a escrita ocupou um lugar de tal importância que deve ser recuperado como possibilidade de compreensão da existência do homem através do tempo. Há cerca de seis mil anos, surgiu, na Mesopotâmia, o mais antigo sistema de escrita do qual se tem notícia: o sumeriano. Ele respondia à necessidade que os sacerdotes tinham de preservar as liturgias religiosas. O sistema sumeriano viria a ser o protótipo de outros importantes sistemas de escrita, como o egípcio, por exemplo. Antes de chegar ao ponto em que se encontra atualmente, a escrita passou por dois estágios. Inicialmente ela foi pictográfica — 9 para denotar um gato, por exemplo, fazia-se o desenho do animal. Com o tempo, os desenhos foram se simplificando, e passou-se a atribuir a alguns deles um significado arbitrário — um jarro com um traço representaria uma medida de cevada, com dois, uma medida de cerveja. Isso possibilitava a representação de idéias e palavras. Estava criada a escrita ideográfica.10 A mudança do sistema ideográfico para o silábico e o alfabético marcou o passo seguinte na evolução da escrita. Tal fato pode ter sido ocasionado pela necessidade de simplificar o código para atender a quantidade de registros, provenientes da língua falada. Assim, os sinais assumiram a representação dos sons. Os primeiros sistemas silábicos, contudo, ainda possuíam deficiências. A mais evidente era a enorme quantidade de sinais utilizados para representar os sons da língua. Assim, por exemplo, a escrita cuneiforme, proveniente da Mesopotâmia, possuía centenas de sinais (sua organização era silábica), esse aspecto não era fácil de ser aprendida pelas pessoas. O alfabeto produzido pelos fenícios, povo comerciante da antiguidade, era mais prático.11 A escrita foi simplificada devido à diminuição do número de sinais empregados. Aspecto que facilitava a aprendizagem assim como a tarefa de escrever. Os fenícios criaram um sistema de escrita composto por 22 sinais. Esse método revolucionou a escrita tradicional, pois em vez de diferentes sinais silábicos, os sinais alfabéticos passaram a ser a representação de unidades do som da língua. Assim, um conjunto de sinais formava palavras - como as que eram faladas. Dessa forma, a escrita se tornou fonética, passando a representar graficamente a riqueza da fala. Essa forma de registro se tornou preponderante enquanto sistema de registro adotado pelas civilizações.
9

Idem, p. 36. Idem, p. 41. 11 Idem, p.49-53.
10

13

Não podemos esquecer que desde a produção da escrita até os dias de hoje, a linguagem se tornou um sistema complexo que se modifica lentamente através dos séculos. Trata-se de um sofisticado instrumento de comunicação que se apoiou no uso de um sistema de signos convencionados.12 Os signos, particularmente, estão ligados aos objetos reais ou a realidades abstratas – denominados referentes -, cuja seqüência de sons e forma gráfica é denominado significante, o qual corresponde a uma idéia ou a um conceito denominado significado.13 Os signos estão inseridos num contexto que é o resultado de um acordo apreendido através de uma convenção cultural, de uma sociedade, não sendo, portanto, perenes, mas evoluindo com o passar das eras. Desde o nascimento, sujeitos, ligados a diferentes contextos culturais, experimentam vivências, cujos significados se desenvolvem a partir do aprendizado de um sistema lingüístico. A compreensão das pessoas assume uma organização, onde a mediação depende, em grande medida, dos signos culturais responsáveis pelo aparato que disponibilizará um arcabouço de leituras da realidade.14 A inserção do indivíduo no contexto cultural, portanto, depende de sua capacidade de dominar a linguagem e seus códigos. O valor da aprendizagem está em fazer o indivíduo tomar contato com um poderoso instrumento: a língua. Na fase de aquisição da cultura, com a evolução da linguagem, este instrumento se torna uma parte integrante do indivíduo. Nesse sentido, o universo da cultura não comporia a “linguagem dos animais”.15 Aqui cabe uma definição sobre essa diferenciação: o sistema de comunicação utilizado pelos animais não constitui uma linguagem, mas trata-se apenas de um componente da organização físico-biológica herdada com a programação genética da espécie. O homem aprende a sua língua a partir da cultura na qual está inserido. Esse limite contribui para esclarecer a complexidade desse campo de estudo, principalmente quando fica claro que as significações - que preenchem o conceito de língua e de linguagem - têm como base à cultura que lhes serve de subsídio.16
12 13

ECO, Umberto. O Signo. Lisboa: Editorial Presença, 1990. p. 21-22. BLECUA, José Manuel. Lingüística e Comunicação. Rio de Janeiro: Salvat Ed, 1979. p. 37-8. 14 TERRA, Ernani. Linguagem, língua e fala. São Paulo: Scipione, 1997. p. 12-7. 15 LOPES, Edward. Fundamentos da Lingüística Contemporânea. São Paulo: Cultrix, 1975. p. 35-8. 16 SCHAFF, Adam. Linguagem, Conhecimento e Cultura. In: Linguagem e Conhecimento. Coimbra: Almedina, 1974. p. 267-268.

14

A linguagem humana, por outro lado, pressupõe o aprendizado de códigos para que o indivíduo possa atuar no cenário de uma cultura, onde a língua se refere ao produto da convenção e dos valores sociais, da qual derivam as regras que tornam compreensíveis a comunicação entre os indivíduos. Aqui é preciso distinguir a idéia de língua da idéia de linguagem, cuja última tem a definição mais ligada à ampliação das formas de compreensão das mensagens. Nesse caso, não apenas as palavras orais e escritas abrangeriam essa idéia, mas ela afluiria também de outras formas de interpretação como, por exemplo, à linguagem corporal, ligada aos gestos, às expressões faciais, às reações orgânicas do corpo, além de outras formas, tais como os sinais de trânsito, à expressão artística, em síntese, à todos os meios relacionados à comunicação, sejam eles cognitivos, sócio-culturais, ou provenientes da natureza. Os estudos sobre como o indivíduo adquire a linguagem - e começa a fazer uso de seus signos - enfatizam um caminho integrado entre os aspectos orgânicos, os aspectos psicológicos e os aspectos sociais. A relação entre estes aspectos interfere no processo de formação da linguagem. Assim, esse pressuposto teórico se baseia na idéia de que a capacidade para a linguagem está preestabelecida no cérebro humano, emergindo na medida em que o organismo amadurece biologicamente.17 E relacionado à esse aspecto, os contextos ligados à família e à escola também têm sido analisados como espaços preferenciais para o desenvolvimento da linguagem. Por outro lado, também se considera a influência dos efeitos advindos de outros fatores. Nesse caso, a análise leva em consideração as diferenças sócio-culturais referentes a questão de raça, de gênero, de condição sócio-econômica, tendo em vista que a linguagem é uma atividade complexa e de natureza social, cujo desenvolvimento depende do contato com outras pessoas e que tem como objetivo habilitar o sujeito para o processo de comunicação.18 Esse processo acaba por se produzir dentro de padrões culturais que definem as possibilidades de interpretação do mundo.

17 18

PIAGET, Jean. Epistemologia Genética. São Paulo: Martins Fontes, 1990. VIGOTSKY, Lev Semenovitch; LURIA, Alexander Romanovitch; LEONTIEV, Alex N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícones, 1988.

15

Nesse caso, ela não pode se desligar do contexto no qual se desenvolvem as ações comunicativas, considerando que os sujeitos estruturam sua linguagem de acordo com o ambiente no qual nasceram e cresceram.19 Para que haja comunicação é necessária a existência de um conhecimento comum entre os participantes nessa interação. A linguagem surge como objeto central para o entendimento desse processo, pois estrutura a formação do pensamento e estabelece comunidades lingüísticas diferentes na organização social, valores e tradições culturais. A linguagem, em outras palavras, é de importância central, pois através dela os signos – que não se referem exclusivamente às palavras - se transformam em instrumentos para efetivar a comunicação humana. Trata-se do estanque de saber, o lugar comum, onde os participantes se abastecem dos modelos interpretativos necessários ao processo comunicativo. Através da linguagem, os indivíduos regulam um conjunto de competências que o qualificam a torna-se sujeito. Esse mundo das relações cotidianas é o lugar das interações espontâneas, onde os indivíduos se encontram para produzir consensos sobre a forma como utilizar e interpretar esses signos,20 sedimentando as práticas sócio-culturais altamente estruturadas. Esse aprendizado, contudo, não garante uma univocidade de significados produzidos pelo discurso humano, tendo em vista que a linguagem expressa sentidos diversos de acordo com diferentes experiências e situações. Essas estão ligadas a compreensão de sobre como uma língua significa em um determinado contexto, seja ele sócio-regional ou historicamente afastado no tempo.21 Essa consciência dos limites da objetividade da linguagem enfatiza a idéia de que os “signos” dependem das relações construídas dentro de um determinado contexto. A funcionalidade de uma língua, dita noutras palavras, está pautada na necessidade de que os membros de uma comunidade estabeleçam um acordo em relação ao entendimento das palavras. A condição de inteligibilidade para a comunicação, portanto, é dada pela relação que esses signos estabelecem enquanto parte de um todo.22 Essa
19

ERWIN, Susan. A Linguagem na Psicologia Humana. TAX, Sol. (org.) Panorama da Antropologia. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1966. p. 62. 20 LADO, Robert. Introdução à Lingüística Aplicada. Petrópolis: Vozes, 1972. p. 152. 21 PETRI, Dino. Sociolingüistica: os níveis de fala. São Paulo: Edusp, 1997. 24-5. 22 BACCEGA, Maria Aparecida. Conhecimento, Informação e Tecnologia. Comunicação & Educação. São Paulo, (11): 07 à 16, jan./ abr. 1998. p. 8-9

16

constatação é importante, pois a análise dos signos se baseia numa compreensão da realidade social e histórica que os preenchem de significado. Uma vez que os signos participam de todas as atividades humanas, e é central para as mesmas, torna-se fundamental não deixá-los se perder nos meandros de um mundo que possui códigos peculiares, cujo desconhecimento pode inviabilizar a transmissão das experiências humanas acumuladas por segmentos cada vez mais específicos da sociedade. Ao se reconhecer a riqueza da linguagem, torna-se necessário aproximar-se de ferramentas de reflexão que facilitem a produção de um conjunto de regras de análise para evitar a dispersão de significados dos termos. A análise dos signos, nesse caso, exige um instrumental teórico que viabiliza um processo de investigação e interpretação. Para tanto, as definições de signos naturais e de signos artificiais podem ser compreendidas a partir do estudo da estrutura lingüística.23 Essas necessidades exigem a atuação de um profissional, ao qual cabe apresentar um controle mais eficiente desse dinamismo da linguagem. Nesse ponto, pode-se observar a importância da distinção entre a linguagem natural, inserida no âmbito da dinâmica cultural - sendo por isso amplamente dispersiva -, e a linguagem documentária, artificialmente construída com o objetivo de evitar a dispersão de significados.24 O papel da linguagem documentária, portanto, está no controle de um vocabulário que garanta uma compreensão unívoca dos termos. Em um começo de século onde significantes e significados se redefinem com freqüência no campo da comunicação, essas mudanças também se constituem como dados importantes para a reflexão, pois se trata de um começo de século onde a linguagem humana está se re-arranjando incessantemente. Esse é o desafio lançado ao profissional da informação: apropriar-se da contribuição dada pelas diferentes áreas do conhecimento, tendo a responsabilidade de devolver uma resposta que seja própria da área de biblioteconomia. É a partir dessas questões, colocadas ao profissional da informação, que surge o desafio de compreender a função da linguagem e de seus signos no âmbito da ciência da informação.

23 24

LOPES, Edward.Op. Cit.. São Paulo: Cultrix, 1975. p. 26-29. TÁLAMO, Mária de Fátima G. M. Linguagem Documentária. Ensaios APB, n. 45. p. 10.

17

2.2 A Linguagem Natural e a Linguagem Documentária.

A linguagem nasceu da necessidade de expressão e de comunicação do ser humano em sua relação com o mundo e com os outros. Trata-se de um sistema de signos, ou sinais, usados para expressão de idéias, valores e sentimentos que podem ser traduzidos através das palavras. Quando o homem se utiliza delas, ele faz uso da linguagem oral ou escrita, utilizando especificamente uma linguagem verbal, pois o código utilizado é a palavra.25 Esse código dá forma aos pensamentos e quanto maior for o domínio desse código (ou quanto maior for o domínio de vocabulário), maior será sua capacidade de raciocínio. Na dimensão da linguagem e da capacidade de raciocínio, é preciso enfatizar que os gregos faziam uso de dois termos para se referir à palavra e à linguagem: logos e mythos. O primeiro termo sintetizava três conceitos: fala, pensamento e realidade, ou

consecutivamente: palavra, idéia e ser. Tratava-se da palavra racional que definia o entendimento do real, sendo igualmente o discurso, ou, argumento e prova, o pensamento, enquanto raciocínio e demonstração, e a realidade. Mythos, também entendido como linguagem, era visto como o recurso que os homens faziam uso para organizar a realidade e interpretá-la mediante as palavras.26 Entendidas nessa perspectiva, palavra e linguagem verbal representam uma possibilidade de mediação que o ser humano construiu para representar o mundo social e o mundo individual. A linguagem verbal, especificamente, é uma forma de comunicação presente no cotidiano dos seres humanos.27 Mediante a palavra falada ou escrita, as pessoas expõe umas às outras idéias e pensamentos, visto que cada palavra se relaciona às experiências e aos valores construídos sócio-historicamente. Esse código está presente no falar, na leitura e na escrita. A linguagem verbal, portanto, é o meio através do qual as pessoas participam de um processo junto com outras pessoas sobre o significado dos objetos que as cercam ou das ações que executam,28 visando um entendimento que pode ser aceito ou contestado, e nesse último caso pode se iniciar um novo processo de comunicação. Essa linguagem faz uso de

25 26

BACCEGA, Maria Aparecida. Palavra e Discurso: História e Literatura. São Paulo: Ática, 1995. p. 9. CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo, Ática, 1995. p. 252- 262. 27 BACCEGA, Maria Aparecida. Op. Cit., p. 11. 28 Idem, p. 27.

18

metáforas, analogias e busca dar significados às atividades ligadas à família, ao trabalho, à religião, às artes, aos estudos, entre outras que compõe o dia a dia. A principal característica dessa forma de manifestação da linguagem é que suas palavras podem ser carregadas de muitos sentidos e pode ter mais de um significado. A Linguagem Natural pode ser associada linguagem verbal. De acordo com o contexto onde ela ocorre, o seu nível será acadêmico, poético, técnico. A partir dela pode haver a ocorrência, por exemplo, de termos que são sinônimos ou não, assim como de termos que podem ser genéricos ou específicos. Estas possibilidades ilustram a riqueza da construção de diferentes esquemas da LN. O uso da LN, apesar de não ser rigorosa no aspecto monossêmico das palavras,29 torna o processo de compreensão e de comunicação viável. A LN, contudo, ainda possui uma limitação referente à capacidade de pluralizar o significado das palavras, visto que a linguagem humana pode se caracterizar pela polissemia vocabular,30 ou seja, pela possibilidade das palavras assumirem diversos significados em função do contexto em que são empregadas. Por contexto, é possível considerar a ligação de uma palavra com outras numa frase, assim como as situações nas quais uma frase pode ser emitida. Sob essa questão, uma das passagens bíblicas mais emblemáticas e que se refere ao problema do uso da língua - e do entendimento monossêmico entre os seres humanos - é a história da Torre de Babel, segundo a qual Deus lançou a confusão entre os homens, fazendo com que perdessem a língua comum e passassem a falar línguas diferentes, que impediam uma obra em comum, abrindo as portas para todos os desentendimentos. O único aspecto não tratado por essa história mítico-religiosa se refere à idéia de que o desentendimento não se manteve apenas entre as diferentes línguas humanas, mas permaneceu na própria língua que era falada em comum. Coube ao profissional da informação escapar dessa confusão. Produzir uma linguagem que evitasse desentendimentos durante o processo de comunicação.31

29

CINTRA, Anna Maria Marques et al. Para Entender as Linguagens Documentárias. São Paulo: Polis, 1994. p. 28. 30 Idem, p. 55-56. 31 Ibidem.

19

Para tal tarefa, teve de fazer uso, ao mesmo tempo, da LN (enquanto linguagem corrente) e produzir uma linguagem controlada, o que permitiu o rigor e a eficácia na classificação da informação por um lado e a sua recuperação por outro. Aqui cabe salientar que essas linguagens são instrumentos que atendem as necessidades de informação das pessoas – ou dos clientes - dos Sistemas de Recuperação da Informação. Grosso modo, os SRIs, ou Sistemas de Recuperação da Informação, têm o objetivo de garantir o acesso aos dados presentes nos documentos cadastrados e sistematizados no seu interior.32 O tipo de linguagem de recuperação - estabelecida enquanto parâmetro de um sistema de informação - deve cumprir bem sua função: garantir a eficácia do processo de busca realizada pelo cliente no Sistema de Informação. Os referidos sistemas podem ser organizados, segundo suas necessidades específicas, em dois grupos: a partir das LDs que abrangem todas as áreas do conhecimento humano e a partir das linguagens específicas, cuja abrangência se refere a uma única área do conhecimento.33 Para isto, foram elaboradas ferramentas de controle de termos com o intuito de criar um vocabulário comum, para tornar mais fácil a comunicação entre o usuário e o sistema. É importante destacar que é fundamental estabelecer a relação entre a LN, utilizada pelo usuário, e a linguagem utilizada pelo sistema. É a partir do tratamento da informação para fins de recuperação que se encontra a definição de Linguagem Documentária (LD), ou seja, é uma linguagem construída em oposição à LN. A diferença entre Linguagem Natural (LN) e Linguagem Documentária (LD) consiste na idéia de que a primeira possui uma estrutura caracterizada pela riqueza de significados semânticos, tal qualidade não lhe permite dar conta de uma função objetiva da informação, pois ela traz em si uma dispersão dos sentidos que podem ser empregados por uma palavra; a segunda, porém, requer um esforço intelectual, cujo objetivo está ligado ao domínio do universo vocabular relacionado a uma determinada área. A LD é uma redução necessária do campo da LN. Para que isso seja possível, uma das fases se refere à montagem de um vocabulário, cuja função é a de ser um instrumento de controle terminológico.34 Este instrumento fará a tradução do conteúdo da LN nos

32

FOSKETT, A.C. Features of an Information Retrieval System. In: The Subject Approach to Information. London: Clive Bingley, 1977. p. 11-29 33 CINTRA, Anna Maria Marques et al. Op. Cit., p. 29. 34 Idem, p. 26-27.

20

documentos, assim como dos usuários e dos indexadores, para uma linguagem sistemática de recuperação da informação. O uso das LDs permite a comunicação entre o documento e o usuário, pois atua enquanto linguagem mediadora que possibilita a representação e a recuperação. A depender da especificidade da área de conhecimento, para se alcançar melhores resultados, é necessário o contato com os domínios terminológicos de uma determinada área, assim como com a sua literatura especializada, e com a linguagem utilizada pelas pessoas dentro do contexto de atuação. Tratam-se de condições para se fazer a análise documentária (AD), sendo importantes para se obter sucesso na fase de recuperação da informação. O trabalho documentário necessita de um diálogo com a Terminologia, a qual tem como objetivo organizar e harmonizar as noções, ou conjunto de noções, presentes nos domínios específicos do conhecimento. Essa atividade acontece através de processos sistemáticos que selecionam ou criam termos para as noções, relacionando-os através de definições. Assim são produzidas listas de termos especializados de um domínio particular, acompanhados de definições que remetem o termo ao referente. Desta forma, as terminologias compõe o universo das LDs, e embora sejam importantes para sua elaboração, não garantem o desempenho satisfatório da comunicação documentária.35 Os termos - mais do que as palavras -, se constituíram como a menor unidade de representação. Eles são constituídos por uma palavra ou por um grupo delas que descrevem um conceito. Diferentemente delas, esses termos têm seu significado assegurado, mesmo quando são utilizados isoladamente. São produtos de linguagens artificiais, assim chamadas porque não resultam de processo evolutivo natural e necessitam de regras explícitas para seu uso. Segundo Sayão,36 “estabelecem uma relação unívoca entre o termo e o conceito, isto é, entre o significante e o significado. Cada termo corresponde a um conceito do sistema de conceitos de uma área específica com que se está trabalhando.” Os conceitos de LD encontrados na literatura reduzem, por vezes, todas as formas de representação documentária à linguagem documentária. A explicação para tal fenômeno
35

LARA, Marilda Lopes Ginez de. O Unicórnio (o Rinoceronte, o Ornitorrinco ... ), a Análise Documentária e a Linguagem Documentária. DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação, v.2, n.6, dez/2001. 36 SAYÃO, Fernando. Bases de dados: a metáfora da memória científica. Ci. Inf., Brasília, v. 25, n. 3, set./dez. 1996. p. 315.

21

reside no emprego da terminologia, utilizada pelos campos teórico-conceituais da representação documentária, onde a indexação das palavras funciona como rótulos – a partir de uma visão estática e normalizadora dos termos - aplicados à análise dos documentos.37 A indexação se associa a rede conceitual de uma área especifica do conhecimento, sendo que os termos que representam estes conceitos constituem o vocabulário utilizado na indexação ou na linguagem documental específica. As LDs, então, realizam uma adaptação dos assuntos contidos e identificados nos documentos à classificação temática presente nas tabelas de classificação, nas listas de cabeçalhos ou nos tesauros.38 Dentre os vários tipos existentes, segundo Maria Célia Amaral,39 “podemos classificá-las em dois grupos: as pré-coordenadas, que combinam ou coordenam os termos no momento da indexação, como por exemplo, os sistemas de classificação CDD (Classificação Decimal Dewey), CDU (Classificação Decimal Universal), LC (Library of Congress), de Ranganathan, que são considerados as mais antigas linguagens documentárias. Abrangem todas as áreas do conhecimento e, representam os conceitos através de notações compostas de números, letras ou a mistura de ambos”, como os sistemas CDD ou CDU, ou alfabéticas, como os cabeçalhos de assunto ou os tesauros.40 As LDs têm a função, de ordenar a informação. Segundo a autora,41 as listas de cabeçalhos de assunto, também fazem parte das linguagens pré-coordenadas, “são listas gerais que arrolam termos de todas as áreas do conhecimento, alfabeticamente organizadas, com sinais como o traço, a vírgula e o parêntese para estruturar os cabeçalhos indiretos. Apresentam sinais de relação entre os cabeçalhos. No Brasil, as mais conhecidas são a Library of Congress Subject Headings” e a “Sears List of Subject Headings.” Amaral também cita “as linguagens de indexação pós-coordenadas que combinam ou coordenam os termos no momento da busca. As mais conhecidas são o sistema Unitermo, criado por Mortimer Taube em 1953, e os tesauros, que se baseiam nas classificações facetadas, apresentam relações de equivalência, hierárquicas (gênero/espécie;
KRIEGER, Maria da Graça. Terminologia Revisitada. D.E.L.T.A., São Paulo, v. 16, n. 2, p. 52. CINTRA, Anna Maria Marques et al. Op. Cit., p. 30-34. 39 AMARAL, Maria Célia. Lista de Assuntos FFLCH/ USP (relato de experiência ad elaboração). Disponível no: http://www.ufpe.br/snbu/docs/90.a.pdf. Acessado em 10 de agosto de 2004. p. 2. 40 VAN DER LAAN, Regina Helena; FERREIRA, Gloria Isabel Sattamini. Tesauros e Terminologia. Disponível no: http://www.biblioestudantes.hpg.ig.com.br/texto_104.pdf. Acessado em 20 de agosto de 2004. 41 AMARAL, Maria Célia. Op. Cit., p. 2.
38 37

22

coisa/tipo), relações parte/todo, poli-hierárquicas, relações associativas e/ou nãohierárquicas. Possuem sinais para indicar a função dos descritores, como por exemplo: TG (BT) = termo geral; TE (NT) = termo específico.”42 A elaboração desses instrumentos, segundo a autora,43 tem o objetivo de padronizar a linguagem para evitar ambigüidades na comunicação documentária. Para tanto, essa sistematização, como já foi dito, exige a utilização de técnicas combinadas de documentação e de terminologia com o objetivo de se obter representações semelhantes de um mesmo documento, o qual, ao ser submetido a diferentes analistas, não abrirá margens a diferentes interpretações. É preciso lembrar que uma linguagem controlada depende da normalização das palavras que a compõe, este cuidado garante a univocidade de compreensão das palavras utilizadas para a indexação e para a busca. Pensar sobre a LDs requer, portanto, um aprofundamento da idéia do que significa construir um vocabulário com palavras precisas e que possua regras bem definidas. A sistematização da linguagem se constitui em um dos instrumentos mais eficientes para evitar a dispersão de significados. Esses são alguns dos aspectos nos quais reside a importância das LDs construídas e utilizadas para o tratamento das informações. Além disso, face o caos surgido a partir da explosão de produção da informação, ocorre a necessidade, constante, de atualização das LDs devido às mudanças constantes na LN e nas áreas de especialidades. A compreensão desse aspecto pontua a historicidade das LDs, onde os propósitos de garantir a univocidade das palavras alicerçam significados e perpetuam idéias que podem sucumbir ao tempo. O aparecimento de novas questões que ainda não haviam se manifestado, do ponto de vista histórico-social, dão origem a novas compreensões das palavras, ou até mesmo dão origem a novas palavras, que tomam conta da linguagem. Uma vez que esse trabalho de estruturação do novo termo não seja realizado com competência, há o risco das LDs se tornarem instrumentos datados e que inviabilizam a comunicação do sistema de informação com os clientes. Esse aspecto tem desafiado a compreensão dos teóricos da área, visto que o período contemporâneo depende bastante dos sistemas de organização do conhecimento.

42 43

Idem, p. 3. Ibidem.

23

2.3 Histórico das Linguagens Documentárias É preciso traçar um roteiro das LDs que tiveram seus nomes associados a Melvil Dewey e Charles Cutter, assim como de outras que surgiram para compensar as insuficiências das primeiras. Não se trata de um detalhamento sobre o debate dos sistemas de classificação, mas de focalizar as linguagens mais abordadas nas etapas posteriores dessa reflexão. Esse levantamento ajudará a entender como os sistemas de classificação foram constituídos e como eles funcionam. Na verdade se tratam de diferentes propostas esboçadas na forma de LDs, diante da riqueza de significados da LN. Em 1873, Melvil Dewey criou um sistema de classificação inspirado no modelo filosófico criado por Harris que se baseava no raciocínio de que o homem, enquanto animal racional, apoiava-se primeiramente na razão (Filosofia); elevando seu pensamento a Deus (Religião); vivia em sociedade (Sociologia); comunicava-se com outros homens (Filologia); adquiria conhecimentos (Ciências puras); fazia uso desses conhecimentos (Ciências aplicadas); possuia meios de fazer criações de formas estéticas (Belas Artes), aplicadas também à escrita (Literatura); fazia registros temporais e espaciais (História e Geografia). Nesse sistema, as Obras Gerais reuniam todos esses assuntos e os encabeçavam44 Durante seis meses, Dewey aplicou-se intensamente aos estudos conseguindo ao final chegar a uma decisão sobre qual seria a melhor forma de classificação do conhecimento. Em 1876, sob autoria anônima, apareceu a primeira edição da Classificação Decimal sob o título “a classification and subjects index for cataloging and arranging the books and pamphlets of a library”45. A partir dessa data as edições começaram a ser publicadas. Somente após a décima sexta edição é que o nome do autor apareceu no título, especificamente como Classificação Decimal Dewey. Esse sistema é hierárquico e aplica o princípio decimal à subdivisão dos conhecimentos acumulados. Na divisão sucessiva do conhecimento, cada grupo – desde o mais amplo até o mais restrito – divide-se sobre uma base de dez dígitos. A primeira divisão se dá a partir de dez “Classes Principais”, as quais englobam, ou pelo menos tinha a
44

LENTINO, Noêmia. Guia teórico, prático e comparado dos principais sistemas de classificação bibliográfica. São Paulo: Polígono, 1971. p. 59-60. 45 Idem, p. 58.

24

pretensão de englobar todo o conhecimento e o trabalho intelectual humano. A classe 000 (zero) é reservada para as obras gerais. Enquanto as classe de 100 a 900 representam, cada qual, uma disciplina no seu sentido mais amplo: 100 – filosofia; 200 – Religião; 300 – Ciências Sociais; 400 – Línguas; 500 – Ciências Puras; 600 – Ciências Aplicadas; 700 – Belas Artes; 800 – Literatura; 900 – Geografia e História. Na prática, como podemos observar, essa notação contém no mínimo três números. Nesse caso, acrescenta-se zeros quando é necessário completar um número até que alcance os três dígitos estabelecidos pelo sistema.46 Cada “Classe Principal” contém dez “Divisões”, numeradas também do 0 ao 9. Esses números, indicadores das divisões, ocupam a segunda posição dentro da notação. Cada divisão, por sua vez, subdivide-se em dez “Seções”. Os números das seções ocupam a terceira posição. O sistema permite prosseguir na subdivisão até o grau desejado. A Classificação Decimal Dewey pode ser definida como um sistema simples, flexível e mnemônico,47 o qual facilitava o desenvolvimento da classificação. Por esses fatores, o sistema foi aceito rapidamente e penetrou nos diversos campos do conhecimento, por ser considerado simples por causa da sua notação que permitiria uma larga ampliação e, acreditava-se, um fácil entendimento pelos usuários. Além do fato de que a linguagem numérica era composta de sinais de domínio universal, assim ela representaria um fator de democratização da linguagem e do conhecimento para o público. Em 1895, a entidade precursora da atual Federação Internacional de Documentação (FID) chegou a um acordo com Melvil Dewey, adotando a classificação decimal como base para o índice internacional de assuntos. Esse fato deu origem à chamada Classificação de Bruxelas - traduzida para muitas línguas - e conhecida atualmente como Classificação Decimal Universal (CDU). No decorrer dos anos surgiram muitas diferenças entre a CDD e a CDU, em parte devido às exigências cada vez mais complexas relacionadas à classificação bibliográfica. A Classificação Decimal Universal, portanto, foi um desdobramento da Classificação Decimal Dewey. Essa história tem início quando ocorre a “Conferência Internacional de Bibliografia”, na qual nasceram duas organizações: o “Instituto

46 47

Idem, p.61-3. Idem, p. 60.

25

Internacional de Bibliografia” e o “Repertório Bibliográfico Universal” (R.B.U.), cujo plano de trabalho desta última se referia a elaboração de um grande levantamento bibliográfico feito em cooperação.48 A organização dessas bases ficou à cargo do advogado Paul Otlet, também conhecido como “Pai da documentação” , Henry La Fontaine e, posteriormente, Fritz Donker Duyvis. Para a realização desse projeto foi adotada a CDD, pois ela foi considerada a ferramenta mais adequada para a compilação de uma bibliografia universal. Uma ferramenta que abrangia todos os assuntos, todas as línguas e todos os períodos da história da humanidade. O Instituto Internacional de Bibliografia foi instalado no “Palais Mondial” em Bruxelas e por esse motivo, durante muito tempo, a CDU ficou conhecida por “Classificação de Bruxelas”.49 Por esses motivos, a CDU possui similaridades com a CDD, tais como a divisão em dez classes, porém ela também possui aspectos que lhe são específicos, como: não pode ser considerada uma classificação filosófica dos conhecimentos, pois é um sistema essencialmente prático para a codificação numérica da informação e tem o objetivo de facilitar sua localização; sua estrutura também possui um aparelhamento de sinais que amplia seu poder de detalhamento do assunto.50 Se por um lado ocorreu o processo de desenvolvimento de dois sistemas de classificação, cuja fundamentação, dada por Melvil Dewey, alimentou o relacionamento entre ambos. Por outro ocorreu o desenvolvimento de outro sistema, diferente dos que foram apresentados e que também se tornou muito conhecido. Em princípio, Herbert Puttnam quis adotar a CDD, modificando-a, se fosse necessário, para adequar a coleção da “Library of Congress”, fato com o qual Melvil Dewey não concordou. Então outro nome foi consultado, Charles Cutter, que teve seu sistema de “classificação expansiva” adotado pela LC com as referidas modificações.51 A “Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos”, ou simplesmente LC, foi criada no ano de 1800. No início o tamanho dos livros definia a ordenação que os mesmos teriam,
48 49

Idem, p. 209-210. Idem, p. 10. 50 Idem, p. 211-212. 51 Ver: KAULA, Prithvi N. Repensando os Conceitos no Estudo da Classificação. Disponível no: http://www.conexaorio.com/biti/kaula/. Acessado em 06 de novembro de 2004.

26

porém em 1812 a divisão já era feita em doze classes baseadas nas classificações do autor Francis Bacon, com a adaptação de filósofos do Iluminismo (como Diderot e D’Alembert).52 Esse sistema era usado pela “Benjamim Franklin’s Library Company of Filadelphia” e foi mantido após o incêndio ocorrido em 1814. O ano de 1887 foi marcado pela construção de um edifício para a Biblioteca do Congresso, o qual foi inaugurado em 1897 quando a coleção alcançou o número de um milhão de volumes. Nessa fase, já era evidente que a classificação em uso não era a mais adequada. O diretor da entidade, John Russel Young, propôs que os chefes da catalogação e da classificação, James Hanson e Charles Martel, estudassem a possibilidade de um novo sistema de classificação. A conclusão foi de que a construção de um novo sistema seria a solução mais adequada. Esse trabalho foi realizado por vários especialistas e classificadores que, individualmente ou em grupo, prepararam separadamente cada classe, cujos princípios foram inspirados na “Classificação Expansiva de Cutter”.53 Foi feito um esquema de cada classe – cuja extensão dependia do tamanho do acervo da Biblioteca do Congresso – e que foi se modificando e se expandindo conforme as necessidades da coleção. O sistema de classificação da Biblioteca do Congresso é utilitário e não possui base filosófica, é alfa-numérico, sendo que a notação da classificação é mista, constituída por letras maiúsculas, algarismos arábicos de 1 a 9999, na ordem aritmética, e um sinal gráfico: o ponto. Esta parte da notação é chamada de “Números-de-Cutter”. No sistema de classificação da Biblioteca do Congresso, o conhecimento está dividido em 20 classes, indicadas por letras maiúsculas, assim distribuídas: A - Obras Gerais; B – Filosofia e Religião; C – História e Ciências Auxiliares; D – História Universal; E-F – História e Geografia da América; G – Geografia, Antropologia, Folclore etc; H – Ciências Sociais; J – Ciência Política; K – Direito; L – Educação; M – Música; N – Belas Artes; P – Filologia e Literatura; Q – Ciência; R – Medicina; S – Agricultura; T – Tecnologia; U – Ciência Militar; V – Ciência Naval; Z – Bibliografia e Biblioteconomia. As letras I, O, W, X Y que ainda não foram utilizadas, tratam-se de letras vagas que podem representar futuras expansões, subdividindo-se de maneira alfabética ou decimal.54

52

PIEDADE, M.A. Requião. Introdução à Teoria da Classificação. Rio de Janeiro: Interciência, 1983. p. 153. 53 Ibidem. 54 Idem, p. 155-157.

27

Essa característica faz com que o sistema continue em permanente expansão, tarefa que é desenvolvida pelos classificadores da LC, os quais também se encarregam de atualizar a LCSH - “Library of Congress Subject Headings” -, uma lista de cabeçalho de assuntos que atende a organização da coleção da LC, assim à medida que os temas novos aparecem, eles vão sendo adequados. Essas atualizações podem ser sobre tópicos que ainda não haviam sido tratados, ou que, com as mudanças de contexto histórico, por exemplo, receberam denominações diferentes.55 A CDD possui uma organização diferente da LC, ela pressupõe que qualquer área do conhecimento pode ser subdividida em classes sucessivas. Essa forma de organização do conhecimento toma por modelo a “Árvore de Porfírio”, onde cada classe possui uma subclasse mais específica do que a anterior. Esse modelo alicerça-se no relacionamento gênero/ espécie.56 Desta forma, esse sistema de classificação emprega propostas de tratamento da informação que partiam do geral para o específico, dividindo o conhecimento a partir de suas características. Através de investigações, o bibliotecário Shiyali Ramanrita Ranganathan e o “Classification Research Group” demonstraram que as subdivisões também podiam originar-se de diferentes tipos de relacionamento: gênero/ espécie; todo/ parte; propriedade/ possuidor; ação/ paciente ou agente. Tal constatação alimentou a necessidade de criar outros sistemas de classificação que permitissem combinar relações variadas. Nesse caso, os sistemas de classificação não podiam seguir apenas os predicáveis de Porfírio. Foi assim que surgiu um novo tipo de classificação bibliográfica, idealizado por Ranganathan, que ficou conhecido pelos nomes de: Classificação em Facetas; Classificação Facetada; ou Classificação Analítico-sintética. Esse autor elaborou o único sistema de classificação facetado geral, chamado “Colon Classification”.57 Porém, existem vários sistemas de classificação seguindo esta técnica e que foram elaborados por membros do “Classification Research Group” Estes sistemas são constituídos de listas de termos representando conceitos denominados facetas, os quais podem ser combinados no ato de classificar para traduzir o tema dos documentos. A primeira etapa na elaboração de um sistema de classificação
55 56

KAULA, Prithvi N. Op. Cit. PIEDADE, M.A. Requião. Op. Cit., p. 78. 57 Idem, p. 79-81.

28

especializado é definir e delimitar os assuntos centrais ou assuntos do núcleo (core subjects) e determinar os assuntos marginais (fringe subjects). Os assuntos centrais são aqueles relacionados com o tema da classificação, enquanto os assuntos marginais são os temas de outras disciplinas que interessam àqueles que estudam os assuntos centrais. Após o estabelecimento das facetas, é realizada a ordenação. As classificações facetadas estabelecem a ordem de apresentação dos conceitos, assim como determinam a ordem de citação e de intercalação dos documentos e de entrada no sistema de classificação. Outro sistema de classificação que segue essa proposta se refere ao Thesaurus. Essa palavra vem do latim e foi empregada pela primeira vez por um inglês, Peter Mark Roget, em 1832. Este estudioso publicou o English Thesaurus of Words and Phrases, o qual reunia palavras pela ordem alfabética, de acordo com as "idéias que exprimiam seu significado".58 Entre os documentalistas, este termo começa a ser utilizado nos anos cinqüenta.59 Tecnicamente, um tesauro reúne palavras escolhidas, destinadas à indexação e recuperação de documentos e dados num determinado campo de saber. Não é dicionário, nem vocabulário controlado. Trata-se de um instrumento que garante aos documentalistas e pesquisadores a padronização da LD. Segundo Chaumier, em um tesauro cada palavra é um conceito. Sendo assim, tornam-se "termos", ou "descritores".60 Nele, todos os termos estão relacionados entre si; nenhum termo pode figurar no tesauro sem estar relacionado a algum outro, sendo essa relação determinada pelo seu significado. Assim, além do seu efeito organizador, ele tem também um efeito didático, não apenas ao utilizar conceitos específicos da área do conhecimento que contempla, como ao relacionar termos que têm entre si conexões pouco evidentes para o leigo. No começo do século XXI, a sistematização presente nas LDs levanta novos problemas, agora relacionados ao poder que se esconde sob a aura do saber. Nele, as palavras organizam o conhecimento, mas submetem a vida humana. Trata-se de uma sistematização do saber no qual a linguagem sofre restrições, tornando-se

institucionalmente aceita como verdadeira ou autorizada.

58

CHAUMIER, Jacques. As Técnicas Documentais. Mem Martins, Lisboa, Porto, Faro, Queluz: EuropaAmérica Ltda. p. 65-6. 59 SMIT, Johanna. O que é Documentação. São Paulo: Brasiliense, 1986. p. 52. 60 CHAUMIER, Jacques, Op. Cit., p. 70-1.

29

2.4 As implicações ideológicas das palavras e termos que sedimentam as Linguagens

As palavras que sedimentam as linguagens, tanto a Natural quanto a Documentária, ocupam um lugar estratégico quando refletimos sobre o processo ideológico. É preciso compreender o impacto da linguagem sobre as diversas esferas da sociedade. Essa necessidade se esboça na medida em que buscarmos compreender como a sistematização das palavras atinge a autonomia do indivíduo. A linguagem verbal institucionaliza, reitera ou reinventa palavras. Em cada período histórico, a depender das condições sócio-culturais onde circulam, algumas palavras adquirem significados que ninguém ousa questionar. São palavras que parecem ter o poder de condensar em si os sentidos da vida humana. Sob esse aspecto, o ser humano é falado antes de falar, e sua entrada no mundo das palavras é a entrada em um sistema que o remete a redes de significados determinados previamente. O ser se constitui na crença tanto de que possui o domínio da linguagem verbal quanto da ilusão de que o sentido prévio das palavras já existe enquanto tal.61 Compreendida enquanto efeito da ligação entre o ser humano e a linguagem, a ideologia não se manifesta para a consciência, mas está em todas as manifestações da vida. O senso comum que as pessoas produzem acerca das palavras gera ideologias,62 cujo processo de cristalização se dá a partir de tradições e costumes existentes em determinada sociedade ou setores sociais, sendo transmitida através dos códigos que sedimentam as linguagens. O ser humano trabalha com esses códigos para se comunicar. Estes códigos produzem acordos que propiciam os entendimentos no campo da comunicação, cuja validade está nas representações imaginárias que os seres constituem face às suas condições materiais de existência, representações que vão se naturalizando. Trata-se de um processo circunscrito aos processos de produção dos sentidos inerentes às formações discursivas e que garantem um efeito de literalidade para essas representações.63 A ideologia se instala nos processos de constituição e de assujeitamento do ser humano à linguagem, ou, mais precisamente, na identificação do sujeito à formação

61 62

BACCEGA, Maria Aparecida. Op. Cit., p. 34. CHAUI, Marilena. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1980. p. 25. 63 Ibidem.

30

discursiva na qual ele se constitui.64 Linguagem e ideologia estão intimamente relacionadas, de tal forma que a linguagem representa o principal forma de expressão da ideologia, que, por sua vez, se reitera nas palavras e se reproduz na linguagem. Ao se refletir sobre a linguagem para buscar por seus valores ideológicos, a análise revela que se trata de um conjunto de referências políticas e sociais próprias da tradição cultural na qual se constituiu. A reflexão procura desvendar as convenções que conferem a linguagem a sua função na sistematização do conhecimento, tentando demonstrar que há um ordenamento que institucionaliza a linguagem, conferindo-lhe uma determinada configuração: uma norma pela qual se atribui um significado e uma ordenação ao universo caótico das palavras. Um processo de atribuição de sentido que implica numa convenção sobre a produção das instituições, entre as quais estão os saberes acumulados. 65 Os saberes se referem a produtos do homem, integrante de um grupo social, e também estão inseridos no processo histórico. Aqui é interessante levantar o problema da fragmentação, característica da sociedade moderna, onde a vida humana passa a ser representada através de mecanismos que constrangem as pessoas a se submeterem ao saber do especialista.66 O vocabulário utilizado pelos grupos seletos de pensadores, devido aos meios de comunicação que veiculam suas terminologias, acaba confundindo mais ao leigo do que o auxiliando a compreender os termos divulgados. O interesse pela organização do saber teve origem com o aumento da produção dos cientistas dos séculos XVIII e XIX, basicamente por causa da proliferação de conceitos, de novas áreas de especialização, tudo advindo do desenvolvimento científico.67 Esse sistema de representação do saber, ao submeter todas as esferas sociais às suas regras, transforma termos em instrumentos que regulam a vida humana. Trata-se de evocar a reflexão de Marilena Chauí sobre o “saber competente”:68 um saber no qual a linguagem sofre restrições, tornando-se institucionalmente aceita como verdadeira ou autorizada. Essa institucionalização manifesta um procedimento ideológico,
64 65

Idem, p. 35. GRAMSCI, Antônio. Os intelectuais e a organização da cultura. São Paulo: Cículo do Livro, s.d. p. 116-7. 66 CHAUÍ, Marilena. Cultura e Democracia: o discurso competente e outras falas. São Paulo: Moderna, 1981, p.11-2 67 CABRÉ, Maria Teresa. La Terminologia: teoria, metodologia, aplicaciones. Barcelona: Antardida/ Empuries, 1993 apud: VAN DER LAAN, Regina Helena; FERREIRA, Gloria Isabel Sattamini. Op. Cit., p. 4 68 Ibidem.

31

através do qual o poder e o saber encontram uma forma de articulação. Essa linguagem se torna ideológica quando se recusa a ser reflexiva. Dito de outro modo, quando não se vê como resultante de um processo histórico. Essa proposição recupera a importância da organização do saber, enfatizando pontos como o domínio de uma linguagem sistematizada, assim como a contextualização histórica da origem dessa sistematização. Essa característica pode ser apontada na classificação, “na divisão e na delimitação da apreensão social, ou seja, no conhecimento e nas representações do saber. A maneira de se perceber o real não pode ser considerada neutra, assim como suas representações também não”.69 Elas se transformam em instrumentos de poder e dominação porque tentam impor sua visão de mundo e seus valores. As ferramentas para classificar não escaparam a essa lógica, pois também são as representações construídas pelos homens que vivem em sociedade. Na descrição do conteúdo de um livro ou documento são utilizadas palavras que condensam o assunto e o identificam com o objetivo de facilitar a recuperação e a transferência do saber. Estas palavras são representações de representações. São condensadas em classificações documentárias que, além de serem utilizadas na arrumação de documentos e livros em arquivos e estantes, pretendem organizar o saber nelas reproduzido. No século XVIII, os estudos dedicados ao homem e à natureza, através da experimentação e da dedução, promoveram o progresso das ciências. Esse contexto dá origem, ao Movimento Iluminista que propõe determinar os campos do pensamento. O Iluminismo propicia a especialização das ciências que culminam em uma acelerada produção de conhecimentos. Os sistemas tradicionais de classificação tiveram origem com o sistema criado por Melvil Dewey, cujo pensamento sofreu influência tanto do Iluminismo, visto que os esquemas de classificação se basearam na proposta idealizada por Jean d'Alembert e Diderot para organizar a informação da Encyclopédie, quanto do positivismo, doutrina filosófico-científica que pregava a capacidade humana de perceber a estrutura do

69

MORAES, Alice Ferry de; ARCELLO, Etelvina Nunes. O Conhecimento e sua Representação. Disponível no: http://www.informacaoesociedade.ufpb.br/1020004.pdf. Acessado em 21 ago. 2004.

32

conhecimento, reforçando assim a hegemonia das tabelas classificatórias.70 Elas buscavam representar o conhecimento segundo normas que refletissem a crença na rigidez e na imutabilidade da ciência, além de encarnarem a eternidade, neutralidade e universalidade do saber. No decorrer dos séculos XIX e XX essa pretensão foi colocada de lado pelos pensadores. O rigor semântico da linguagem científica não era capaz de apreender a essência do real, uma vez que se reconheceu como as práticas sociais, políticas e discursivas refletiam ou camuflavam a realidade. A linguagem utilizada nos sistemas de representação científica estava longe de ser neutra, ela enfocava mais a legitimação de um padrão cultural, e principalmente, o domínio de uma ideologia que justificava os valores de uma classe social.71 Além disso, foi preciso reconhecer que qualquer linguagem era uma forma de poder e de dominação e que as LDs não eram uma exceção à essa regra. Elas exerceram um poder uniformizador que eliminava as diferenças

desagregadoras, que garantiam a ordenação e a organização da produção literária, especialmente a científica. Essa propriedade de controle foi o sustentáculo de identidades, do poder de ordenação e de classificação, e foi, sobretudo, o canal de expressão da ideologia que a ciência representava. Com o passar dos anos, os sistemas de classificação tradicionais geraram insatisfação, visto sua inflexibilidade, sua insuficiência estrutural, ou mesmo sua incapacidade em não reconhecer a diversidade de saberes advindos da pluralidade humana.72 Esses sistemas se defrontaram com questões pautadas pela idéia de que somente se consegue trabalhar com o universo do conhecimento quando se admite o relativismo do saber, ou seja, que não existe um conhecimento humano absoluto, tudo é relativo face à pluralidade de leituras possíveis. Na contemporaneidade se admite a inexistência de uma teoria da representação que dê conta da totalidade, visto a possibilidade de se efetivarem várias leituras do mundo. Assim, tudo, categoricamente, é relativo.73 É possível refletir a partir de determinações de saberes locais e contra a universalização auferida pela proposta Iluminista/positivista do
CAMPOS.Astério Tavares. Linguagens documentárias. Revista de Biblioteconomia de Brasília. v. 14, no.1, p. 85-8, jan./jun. 1986. apud: MORAES, Alice Ferry de; ARCELLO, Etelvina Nunes. Op. Cit., p. 09. 71 SAYÃO, Fernando. Op. Cit., p. 314-8. 72 MORAES, Alice Ferry de; ARCELLO, Etelvina Nunes. Op. Cit.. p. 9. 73 Idem, p 9-10.
70

33

saber. Segundo a perspectiva relativista, é impossível haver uma linguagem que transcenda localidades e a temporalidade. Desta forma, assumiram destaque: a análise da produção do sentido e da construção de significação a partir dos contextos étnicos, sociais e históricos. Atualmente, no campo das chamadas LDs, verifica-se o fenômeno generalizado de rejeição dos tradicionais sistemas de classificação. A crise, contudo, não se dá apenas por serem linguagens estruturadas. As listas de cabeçalhos, elaboradas sem estruturas, também não são satisfatórias para a recuperação e organização da informação. A atualização de tabelas busca soluções, mas o ritmo de sua confecção e distribuição é muito lento. O próprio sistema de classificação de Ranganathan, considerado o mais flexível, por usar facetas e trabalhar com representação em nível das idéias, no plano verbal e no plano notacional, apresenta problemas de uso. Nele se observam influências culturais e ideológicas na listagem dos grandes assuntos representados por letras, no privilégio das ciências exatas em restrição das ciências sociais e no uso do símbolo religioso na Índia, o delta. Os tesauros, do mesmo modo, possuem influências históricas, ideológicas e culturais nas relações entre os termos, nas notas de escopos (NE) ou nos termos substitutivos (UP), e além do impacto da linguagem científica.74 O problema das classificações, listas, tesauros, da linguagem documentária em geral, está em suas bases epistemológicas. Na contemporaneidade, porém, é preciso aceitar a possibilidade de representações distintas, viabilizadas por códigos específicos (e diferenciados em razão da dinâmica sócio-histórica), colocando de lado o determinismo universal para dar enfoque à representação contextualizada, originada em diferentes segmentos da sociedade.75 Parte-se do princípio da organização do saber é relativa e atende a necessidades limitadas pelo contexto. Essa perspectiva leva em consideração que o homem quando nasce já está dentro de uma realidade que lhe é dada. Tudo é determinado pelas relações sociais que constroem totalidades. No mundo atual, essa estabilidade está cada vez mais provisória e aberta a contestação. A padronização do vocabulário contrapõe-se à dinâmica da língua e da circulação da informação. No começo do século XXI, as palavras circulam nervosamente

74 75

Idem, p. 10. Ibidem.

34

por diferentes meios, nutrindo indagações que se direcionam às diferentes áreas especializadas na representação do saber. O relativismo esboçou a idéia de que o entendimento das palavras e dos termos depende dos diferentes contextos. Os estudo histórico da representação de segmentos sociais específicos pode aventar questões tais como: até que ponto os membros dos chamados grupos minoritários – como aqueles pertencentes à comunidade GLBT – foram, ou não, representados pelas palavras que veicularam no decorrer do tempo? Ou como o significado presente nessas palavras se constituía dentro do sistema de relações sociais, políticas e culturais? Essa preocupação reconhece o caráter dinâmico e relativo das palavras, assim como de seus significados, que foram construídos e, depois, desconstruídos quando se reflete sobre a sistematização das linguagens.

35

3 Uma história dos termos sobre sexo e gênero

O entendimento da historicidade das categorias GLBT, através do estudo de vocabulários específicos, ajuda a compreender as práticas culturais que se

institucionalizaram a esse respeito no decorrer do tempo. O foco principal recai sobre as experiências masculinas (homens ou rapazes) e sobre suas redes sociais, em diferentes momentos da história, devido à multiplicidade de fontes e estudos. A quantidade de informação ajuda a contextualizar palavras ligadas a momentos distintos da história. É possível recuperar sistematizações elaboradas desde o período pré-moderno até a produção literária e científica do século XIX. No caso das mulheres, o silêncio das fontes só se justifica porque as relações afetivas entre mulheres não faziam com que fossem percebidas como um grupo social distinto. Por esse motivo, no decorrer da história, os seus relacionamentos foram ignorados: tanto no campo legal quanto no eclesiástico.76 Somente após o advento da Idade Contemporânea as mulheres começaram a ser percebidas como um grupo social distinto, por isso foram criadas as idéias - apoiadas no saber médico - que bipolarizaram o tratamento histórico da questão de gênero. Essa percepção binária, contudo, colocou limites à percepção sócio-histórica que escondeu experiências humanas referentes à bissexualidade e a “transgeneridade”. No caso desta última, durante o século XIX, essa sistematização produziu sua invisibilidade, onde os casos, vistos à luz da medicina, foram tratados como uma variante do “homossexualismo”. A história do grupo – e de seus temas específicos - desapareceu sob as categorias de sexo e de orientação sexual. As pessoas que cruzavam a fronteira do gênero, assumindo a aparência do outro, eram vistas como “raridades”. A recuperação desta trajetória é fundamental para avaliar como diferentes sociedades assimilaram ou oprimiram as manifestações da diversidade humana. Para tanto, é preciso observar quais as relações institucionais foram construídas e como essas se relacionavam com a pluralidade humana. Aspectos que vistos sob a perspectiva histórica, podem esclarecer a importância de se compreender a origem e a contextualização das

76

BROWN, Judith C. Brown. Immodest Acts: the life of a lesbian nun in Renaissance Italy. Oxford University Press, 1986.

36

palavras, assim como o entendimento da sua relação com as diferentes instituições sociais, políticas e culturais através do tempo.

3.1 Sexo e gênero na antigüidade, palavras à guisa da compreensão da diversidade

Caminhando em meio à natureza, os homens da Idade Antiga reconheceram a diversidade, a identificaram, nomearam e construíram explicações para a pluralidade de experiências possíveis ao ser humano. Para fazê-lo, as primeiras civilizações recorreram a eventos mitológicos para contar as origens das manifestações da “natureza”, externa e interna da espécie humana. Os feitos de deuses, de heróis e as lendas fabulosas, compuseram o elenco de mitos que - segundo Didier Anzieu77 - eram a transcrição dos ritos mais antigos, cujas práticas aconteceram durante séculos, e sustentavam as instituições dos povos da antiguidade. Os códigos produzidos através das narrativas mitológicas, das primeiras civilizações, ainda se relacionavam com os fenômenos da natureza: não no sentido de dominá-la, mas de compreendê-la a partir de sua diversidade. É possível enumerar épicos que contam aventuras de heróis, que são companheiros devotados, e que podem ser considerados como arquétipos de casais da Antigüidade Oriental. As instituições religiosas, associadas aos mitos de deuses e heróis, contam com sacerdotes e sacerdotisas que se relacionam ou entre si, ou com os deuses, ou com os fiéis. A maior parte das fontes históricas, referentes às culturas da Antigüidade Oriental, é composta por textos que, tradicionalmente, não estão no papel, mas em suportes como papiro, argila ou blocos de pedra, e em uma parcela de material artístico. Em alguns casos, a parte escrita é tão pequena que os comentários possíveis se restringem à própria narrativa, sendo que pouco pode ser dito sobre a sociedade que os produziu. Nessa categoria, estão as dados provenientes da Mesopotâmia e do Egito. No caso da Mesopotâmia, o número de fontes relevantes é considerado pequeno, quando se pensa na extensão da história de uma civilização com 4000 anos de idade. Essa situação é similar a da civilização egípcia, tão perene em temporalidade quanto à Mesopotâmia. 78
77

ANZIEU, Didier. Edipe avant le complexe. Les Temps Modernes, vol 22, no 245, oct. 1966, p. 675-715. apud: D’EAUBONNE, Françoise. Éros Minoritaire. Paris: André Balland, 1970. p. 25. 78 LEWINSOHN, Richard. História da Vida Sexual. Lisboa: Livros do Brasil. p. 32-36.

37

O único povo da Antigüidade Oriental que possui dados suficientes para a contextualização de seus costumes e cujos elementos compõem um dos braços culturais da sociedade ocidental contemporânea, são os judeus. O Velho Testamento bíblico conta a história de um pequeno povo que tinha de conviver com os rigores do deserto. Uma região que exigia um rígido estatuto disciplinar, cuja justificativa estava na sobrevivência dessa nação face às demais civilizações da Antigüidade Oriental. Nesse caso, desperdiçar o sêmen implicava em diminuir as possibilidades desse povo continuar a existir. Os antigos judeus, então, eram incitados a crescer e se multiplicar, procriar e encher a Terra, assim o sêmen só podia ser depositado no útero das mulheres. A religião hebraica traçou um código sagrado para os hebreus (porque não dizer um estatuto disciplinar), o qual funcionava sobre um sistema de oposições, onde a ordem era considerada pura e a desordem impura. Nessa organização, objetos como peças ou vestuários foram separadas por gênero, definindo-se que a mulher não usaria o que fosse do homem e nem o homem o que fosse da mulher. Como ocupavam a Ásia Menor, tiveram contato com os mesopotâmicos e os egípcios em diferentes épocas.79 Durante esses períodos, eles rejeitaram a cultura dos povos vizinhos - se mantendo fechados a qualquer influência -, almejando estabelecer a própria independência cultural enquanto nação. Esses códigos sagrados atravessaram o tempo, sendo recuperados com o nascimento de outras religiões que reiteraram seus aspectos disciplinares. Essa aproximação ajuda a compreender como os tabus em torno do corpo, das vestimentas e dos relacionamentos entre as pessoas foram sendo construídos, permanecendo vivos, no decorrer da história, e alimentando a força dos argumentos fundamentalistas, existentes em determinados segmentos religiosos, até os dias de hoje. Ao se comparar a quantidade de fontes provenientes das civilizações da Antigüidade Oriental com as da Antigüidade Clássica, observa-se uma visível desproporção em relação à quantidade de informações. Essa riqueza de dados viabiliza uma compreensão mais aprofundada das instituições, dos costumes e práticas que os gregos e os romanos desenvolveram. Os primeiros conhecimentos são dados pelos poemas épicos e pela mitologia. Essas fontes ajudam a compreender as representações que os gregos produziram acerca da complexidade da alma humana.
79

SPENCER, Colin. Homossexualidade: Uma história. Rio de Janeiro: Record, 1996. p. 32-36.

38

Nesse sentido, a mitologia grega possui um personagem no tocante à transposição de gêneros: trata-se da história de Tirésias. Ao atingir a época das provas de caráter iniciático, Tirésias escalou o monte Citerão e viu duas serpentes que se acoplavam. O jovem grego as separou, matando a serpente fêmea. O resultado dessa intervenção foi a transformação do jovem em mulher. Sete anos mais tarde, subiu ao mesmo monte e encontrou outro casal de serpentes, as separou novamente, mas desta vez matou a serpente macho, recuperando então a forma masculina. Como Tirésias possuía a experiência de ser homem e ter sido mulher, foi chamado no Olimpo para arbitrar sobre uma controvérsia levantada entre Zeus e Hera. A discussão versava sobre quem teria maior prazer durante o intercurso sexual. Tirésias, ao responder sem hesitar que era a mulher, despertou a ira de Hera que implacavelmente o cegou. A deusa julgou que ele tinha denunciado a superioridade do homem. Tal fato criava a justificativa do controle do homem sobre a mulher. É o autor Thomas Laqueur que recupera a idéia de que o modelo físico de representação do sexo, entre os gregos, era o que via a mulher como um homem invertido e inferior, portanto passível de ser dominado.80 Nesse modelo, havia apenas um sexo, sendo possível afirmar que havia machos com os órgãos genitais para fora do corpo e machos com os órgãos genitais para dentro do corpo. Essa diferença anatômica era percebida e hierarquizada, mas não se tratava de uma distinção entre macho e fêmea. A mulher, na verdade, era um macho inferior, cujo corpo não alcançara a perfeição. É nesse sentido que podemos afirmar que a sexualidade, da maneira como conhecemos hoje, é uma construção cultural recente. Na Antigüidade Clássica é mais adequado não falarmos de relações sexuais, mas em relações amorosas. O amor possuía duas definições - o de “Eros”, associado ao amor carnal, e o de “ágape”, associado ao amor espiritual.81 Essas duas faces eram inspiradas pela deusa Afrodite que, segundo a mitologia grega, atribuía ao amor um caráter múltiplo e heterogêneo.82 Esse termo não guarda nenhuma equivalência com o nosso vocabulário contemporâneo. A multiplicidade das relações amorosas - que caracterizam a palavra 80

LAQUEUR, Thomas. Inventando o Sexo: Corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: RelumeDumará, 2001. p. 122-31 81 HUNT, Morton M. Dilema na Grécia: A invenção do Amor. In: Sexo: Teoria e prática. São Paulo: IBRASA, 1974. p. 11. 82 SERGENT, Bernard. L’homosexualité dans la mythologie grecque. Paris: Payot, 1984.

39

pode ser observada nos encontros entre homens e rapazes e mulheres e mulheres e homens. Por princípio, o amor espiritual era virtuoso, gerando assim uma hierarquia entre as relações amorosas. A “Pederastia”, ou o “amor pelos efebos”, é apresentada como a única forma de amor verdadeiro, uma benevolência ardente que levava o amante – chamado erasta - a querer a felicidade para o amado – chamado eromenos. Na Grécia clássica, o pederasta era o amante de “païs”, ou rapaz ainda não adulto e idealizado como objeto de amor. O erasta que tomasse um eromeno deveria garantir ao jovem afeição e ternura, como fatores essenciais à sua educação.83 A união desse casal deveria ordenar a fecundidade do espírito, pois o amante deveria treinar seu amado nos nobres princípios da sabedoria, da honra e da valentia. O amor celebrado com tais características não era possível de ser experimentado, com tanta intensidade, junto às mulheres. Elas eram consideradas inferiores a todos esses assuntos. Aqui surge o caráter heterogêneo do amor que se referia ao “Eros”, ou à expressão do amor carnal. Os gregos sentiam-se fascinados pelas mulheres que vendiam seus favores. Desde as cortesãs elegantes, chamadas “hetairas”, até as inquilinas comuns de lupanares, chamadas “pornaï”.84 As esposas gregas, exclusivamente, eram vistas como vassalas, dominadas e não confiáveis, necessárias para proporcionar uma descendência legítima e cuidar da casa.85 Na Grécia o casamento era um dever do cidadão. Esse costume padecia com um grande desprestígio, mas, como era uma obrigação, os homens casavam-se somente quando não podiam mais adiar esse compromisso com o Estado. Deste modo, na Grécia clássica, o amor não se encontrava nos lares, mas fora deles. No tocante a pederastia masculina, um ponto de acordo referia-se ao ciclo desta relação: o erasta não poderia permanecer com seu jovem amado quando a barba do efebo se apresentasse. Amar um menino passada a fase da puberdade excitava a caçoada e o desprezo da sociedade. Os meninos que atingiam essa fronteira, prosseguindo no papel de amados, negando-se a assumir o papel de amantes, eram ridicularizados com palavras como

83

BUFFIÈRE, Félix. Eros adolescent: la pédérastie dans la Grèce antique. Paris: Societe d’edition “Les Belles Lettres”, 1980. 84 SALLES, Catherine. Nos submundos da Antigüidade: les bas-fonds de l’antiquité. São Paulo: Brasiliense, 1987. 85 SPENCER, Colin, Op. Cit., p. 44-46.

40

“Cinèdes” ou “Katapygones”: termos degradantes da moral dos homens que gozavam do papel passivo na relação, ou que adotassem vestimentas femininas.86 Além das proibições referentes à esses aspectos, é preciso prestar atenção aos aspectos legais que previam como os cidadãos podiam se dedicar ao amor dos rapazes, desde que fossem da mesma condição social para evitar que a relação resultasse em obrigação pecuniária. Nesses casos, a pena imposta ao homem que não soubesse fazer uso de seus prazeres era a privação dos seus direitos de cidadão. Face à essas restrições, havia os delatores profissionais, chamados “sincofantas”, que faziam chantagem com esses cidadãos, ameaçando tornar público os atos por eles cometidos.87 Nas assembléias dos cidadãos, caso os homens fossem delatados por venderem seus favores como prostitutos, ou por assumirem uma atitude passiva no encontro amoroso, tinham seu direito de fala interditado. Por isso essa acusação entre adversários políticos era comum. Excesso de prazeres ou a passividade nos encontros amorosos eram atitudes consideradas indignas que implicavam na perda do "status" social. No tocante à civilização romana, devemos observar algumas mudanças na dinâmica dos relacionamentos amorosos. Segundo Paul Veyne,88 é preciso prestar atenção a quem ocupa a condição de passivo ou ativo e a condição de homem livre ou escravo na relação amorosa em Roma. Para o romano de condição livre, ser ativo em relação a seu escravo era um ato inocente e sem qualquer censura, por outro lado era monstruoso que um romano assumisse a posição passiva, pois tal atitude não estava de acordo com as regras sociais. Um desprezo colossal recaía sobre o homem adulto e livre que fosse passivo. Nessa sociedade, ele era chamado de “Impudicus” ou “Diatithemenos”.89 Em Roma, a lei protegia as mulheres casadas cujo esposo tratava com mais consideração, visto que diferente da mulher grega, a romana tinha mais direitos, como, por exemplo, o de se divorciar. A relação amorosa onde só participavam mulheres era considerada uma afronta à masculinidade romana. Para o homem romano se tratava de uma tentativa da mulher roubar o papel do homem. Entendia-se que uma mulher que dominasse outra, na privacidade do quarto, poderia dominar também os tribunais e comandar nos
86 87

BUFFIÈRE, Félix. Op. Cit., p. 617. SALLES, Catherine. Op. Cit., p. 77. 88 VEYNE, Paul. A Homossexualidade em Roma. In: ARIÈS, Philippe; e BÉJIN, André (Orgs.). Sexualidades Ocidentais. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 39-49. 89 LEVER, Maurice. Lês Bûchers de Sodome: Histoire dês “Infames”. France: Fayard, 1985. p. 29

41

campos de batalha.90 Nessa sociedade, o jovem romano devia ser respeitado. Ele era educado para dominar o mundo. Desde a infância tinha de se impor e não aceitar nenhuma submissão que afetasse sua virilidade. Nesse cenário, a penetração está ligada à questão da posição social. Para os romanos, a virilidade tem a ver com a idéia da conquista, da expansão do seu império e da subjugação da vítima em todos os sentidos.91 Os romanos, diferente dos gregos, não possuíam o mesmo nível de refinamento, ou de ideal amoroso, no tocante à relação amorosa entre um homem e um rapaz: a motivação estava mais ligada à satisfação física. Ao recuperarmos o modelo amoroso da sociedade greco-romana, não podemos deixar de retomar a reflexão feita por Michel Foucault em “O Uso dos Prazeres”,92 na qual o autor apresenta o homem da Antigüidade Clássica como um sujeito constituído pelo governo de si. Nesse sentido, o sujeito vai dirigir suas investidas amorosas, respeitando as leis e os costumes. Esse controle passa pela reflexão que o cidadão deve fazer, pois ele terá que possuir sabedoria para comandar a si mesmo, assim como para levar em consideração seus prazeres a partir da necessidade e do “status”.

3.2 Sexo e gênero em nome da fé, a produção de termos em busca do controle do outro

A transformação dos valores culturais - entre o período antigo e o medieval - pode ser observada a partir do declínio do Império Romano, cujo final se dá com as invasões bárbaras. Nessa fase ocorre a ascensão do cristianismo, numa primeira etapa, quando o imperador Constantino, pelo Édito de Milão, em 313, concede liberdade a esse culto religioso e igualdade em relação aos outros. E, posteriormente, em 392, quando o imperador Teodósio torna o cristianismo a religião oficial do Império Romano. Desta forma, o cristianismo, principalmente após sua instituição enquanto religião oficial, começa a realizar conquistas notáveis que deslocam os tradicionais padrões do uso dos prazeres da sociedade greco-romana.93

90 91

COLIN, Spencer. Op. Cit., p. 69-70. Idem, p. 67. 92 FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade II: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal. 1988. p. 77. 93 FILHO, Amílcar Torrão. Tríbades Galantes, Fanchonos Militantes: homossexuais que fizeram história. São Paulo: Summus, 2000. p. 89-90.

42

A terminologia sobre esse tema foi deixada pelos autores eclesiásticos e pelos legisladores laicos. No período contemporâneo é possível trabalhar esse tema, predominantemente, através de três maneiras: das biografias; dos textos eclesiásticos com visões sobre as relações entre homens; e dos textos laicos sobre a perseguição que eles sofreram.94 O menor ganho informativo estão nos estudos biográficos devido ao pequeno contexto das experiências do sujeito em relação às instituições. Os estudos que revelam as estruturas do período medieval e sua relação com os indivíduos, produzidas pelos medievalistas entre os anos cinqüenta e setenta do século XX, tenderam a priorizar as atitudes da Igreja e da sociedade em relação ao controle da “natureza humana”. Essa perspectiva leva em consideração a visão eclesiástica e a legislação secular. Outra forma de estudo que ajuda a entender o controle da pluralidade da “natureza humana”, tem a ver os estudos ligados à perseguição e a opressão. Essas reflexões desenham a construção de instituições ocidentais, morais, legais e religiosas, para o controle da diversidade. A transição dos valores, cujo reflexo mais notável está na renúncia aos prazeres em favor do elogio à castidade, tem início nos primeiros séculos da Idade Média. Nessa época, milhares de homens e mulheres se afastam da vida em comunidade para viver solitariamente. Tal abstinência estendeu-se por diversos campos, não estava reduzida apenas a abster-se da convivência com outras pessoas, mas também à comida e ao sono: o objetivo mais premente estava na luta desenvolvida contra a luxúria. Essa batalha produziu um estado de espírito belicoso, onde a satisfação não se limitava apenas ao controle dos próprios prazeres, ela ia além, se estendia ao controle do prazer dos outros homens.95 Nos antigos escritos cristãos, nada era mais louvado do que a castidade, ao passo que o casamento era apenas permitido, visto que a menor parte dos cristãos obtinha êxito em levar uma vida de abstinência amorosa. Dessa maneira, iniciou-se o caminho em direção à monogamia e à indissolubilidade do casamento. O processo, contudo, foi lento, e passou a formular toda uma jurisdição que invadiu o leito dos casados. Nela, o intercurso conjugal só estaria livre do pecado se não houvesse a participação do prazer e se fosse feito exclusivamente para fins ligados à procriação. Neste contexto, um contato entre os corpos
94

HALSALL, Paul. People with a History: an on-line guide to lesbian, gay, bisexual and trans* History. Disponível no: http://www.fordham.edu/halsall/pwh/. Acessado em 24 jun;. 2004. 95 HUNT, Morton M. “A Luta contra a Luxúria”. In: Op. Cit., p. 97-104.

43

que levasse à dissipação da semente do nascimento era considerado pecaminoso, pois não tinha o objetivo de gerar nada que não fosse o prazer carnal. Qualquer experiência que não tivesse esse objetivo era merecedora de censura e de controle. As doutrinas do cristianismo exerceram um enorme efeito sobre a regulamentação dos prazeres. Nesse sentido, três aspectos devem ser levados em consideração: a importância dos textos fundadores do cristianismo; os fatores sociais que determinaram a opinião dos cristãos; e as objeções teológicas ao prazer carnal formuladas pela Igreja Católica.96 Joaquim Brasil Fontes possui um artigo no qual discute a origem das doutrinas assumidas pela Igreja, analisando as palavras que compõe o seu vocabulário.97 O autor cita especificamente Santo Agostinho, quando este faz uso da expressão “contra naturam” que tem origem na tradução do termo grego “contra phýsin”, presente na Epístola de Paulo aos Romanos. Nela, o apóstolo fala sobre a punição de Deus aos homens e às mulheres que mudaram o modo de suas relações íntimas por outro “contrário à natureza”. Além desse texto presente na Bíblia, outros serão evocados para fazer a justificativa do controle sobre o prazer do outro. O antigo testamento, por exemplo, será responsável pela perenidade de tradições do povo judeu, cujos valores vêm ao encontro dos ideais do cristianismo triunfante, vista a preocupação dos patriarcas judeus - em relação à sobrevivência e multiplicação de suas tribos no deserto – tornaram-se normas cristãs que definiam os limites entre as virtudes e os vícios no campo do prazer.98 Nos textos sagrados dos judeus, Javé matou Onan por ter desperdiçado a semente responsável pela origem da vida. E o casamento era apresentado como uma obrigação religiosa, no seio do qual a fecundação representava a benção de Deus. Os primeiros padres da Igreja – Clemente, Jerônimo, Orígenes e Agostinho - se ocuparam em desenvolver um código de ética sexual, onde qualquer atividade que não conduzisse à procriação era considerada uma violação, um crime contra a natureza. Essas posições se tornaram lei quando o Império Romano adotou o cristianismo como religião oficial. Esse fato ocorreu durante o século VI, no governo do imperador Justiniano:
96

BOSWELL, John. Christianisme, tolerance sociale et homosxualité: les homosexuals en Europe Occidentale des débuts de l’ère chrétienne au XIVe. Siècle. France: Gallimard, 1985. p. 127-128. 97 FONTES, Joaquim Brasil. Contra Naturam. Disponível no: http://www.lite.fae.unicamp.br/revista/sex01.htm. Acessado em 5 jun. 2002. 98 COLIN, Spencer. Op. Cit., p. 53-65.

44

legislador bizantino que se considerava como o próprio representante de Deus na Terra.99 Tratava-se da imposição de um rigoroso código de leis morais, no qual a pena para atos onde houvesse intercurso entre homens era a morte na fogueira. Justiniano tinha a visão de que se tratava de atos que violavam a natureza, a qual, em contrapartida, provocava retaliações como a esterilidade da terra, períodos de fome, terremotos, pestes e guerras. Com a dissolução do Império Romano e a instituição dos Reinos Bárbaros entre os séculos VIII e IX, os governantes, por falta de interesse, deixaram de legislar sobre assuntos morais, passando-os para a jurisdição da Igreja. Para interpretar esse desinteresse temos que retomar o século V, quando diversos grupos, tais como os francos, os visigodos, os vândalos, os anglo-saxões e os germânicos, invadiram o Império Romano. Não se sabe exatamente qual a postura de todos os grupos bárbaros no tocante ao relacionamento entre homens (ou entre mulheres). Os germânicos, especificamente, denegriam as mulheres e os homens passivos, mas em contraponto exaltavam a bravura dos guerreiros e o amor entre camaradas.100 Tal fator pode indicar o motivo de seus futuros governantes em não ter interesse pelo tema. No decorrer da Idade Média a interpretação dos textos dos primeiros padres da Igreja também ajudará a constituir um léxico para os pecados, dando origem a termos associados às relações “contra naturam”, ou sem fins procriativos, como por exemplo: sodomia, sodomita, sodomizar e somítico. A origem dessas palavras está associada ao relato bíblico da destruição das cidades de Sodoma e Gomorra por causa dos excessos de seus habitantes no campo dos prazeres carnais.101 É possível compreender as atitudes da Igreja Católica, até o século XIII, através do estudo dos “penitenciais”, guias de confessores que instituíam as penitências a partir do dizer de Cristo “Vai e não peques mais”.102 Essa postura propiciava aos penitentes a chance de refletir sobre seus pecados e pelo livre arbítrio de não cometê-los novamente, sendo que as penitências variavam em função da idade, do status, do gênero e de sua condição de leigo ou eclesiático.
99

RICHARDS, Jeffrey. Sexo, Desvio e Danação: as minorias na Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 1993. p. 136-152. 100 SPENCER, Colin. Op. Cit., p. 94-6. 101 BAILEY, Derrick Sherwin. Homosexuality and the Western Christian tradition. London-New YorkToronto: Longmans, green and Co, 1955. p. 1-28. 102 RICHARDS, Jeffrey, Op. Cit., p. 140.

45

O fato é que surge uma obra clássica, escrita por São Pedro Damião, entre 1048 e 1054, chamada Liber Gomorrhianus que trata das formas de relações sodomíticas entre homens, das circunstâncias como ocorriam, das transgressões clericais – como a de padres que cometiam o pecado se confessarem e se absorverem entre si -, das medidas propostas contra tal comportamento e daquelas relativas à reforma do clero.103 No decorrer sos séculos XII e XIII, o Terceiro e Quarto Concílio Laterense, tomaram providências, impuseram punições aos homens sodomitas, como: a destituição das atividades sacerdotais e aprisionamento em mosteiros para os clérigos; e a excomunhão para os leigos. Em seguida, reforçaram essas medidas com o claro objetivo de segregar, isolar e rotular os dissidentes e para prevenir que a prática se estendesse entre os cristãos. O Concílio de Tours, em 1163, introduziu os autos judiciais de inquisição através de processo formal. Com a abertura da ação pelos funcionários por meio de denúncias, se fazia a coleta de evidências e se ouvia o depoimento de testemunhas que eram utilizadas para o julgamento. Enquanto produção intelectual, surge o Decretum, de Graciano, texto que aproveita a definição de Santo Agostinho sobre pecados contra a natureza. O documento é considerado a pedra angular que fez com que os “penitenciais” fossem substituídos pelos Summae - manuais mais sistemáticos para confessores - que se apoiavam na proposição agostiniana.104 Essa idéia é reiterada na Summae Theologiae, de São Tomás de Aquino, em 1266, quando o autor, além de concordar com Santo Agostinho, enfatiza que mesmo que o pecado fosse praticado através de consentimento mútuo, não prejudicando a ninguém, aquilo era uma injúria aos olhos de Deus.105 Até o ano de 1033, exatamente mil anos após a morte de Jesus Cristo, se esperou pelo apocalipse. Desde então, a Europa entrou em um período de revitalização espiritual, econômica e intelectual, com a ascensão das cidades e a formação das monarquias nacionais. Nas cidades surgiram, inicialmente, escolas que depois se transformaram nas primeiras universidades que passaram a promover debates filosóficos, teológicos e jurídicos. Nesse campo, particularmente, ocorre uma redescoberta dos códigos romanos que

103 104

Idem, p. 143. Idem, p. 144. 105 Idem, p. 145.

46

produziu uma casta de profissionais: os legistas. Eles saíam das universidades para entrar nos sistemas burocráticos das monarquias nacionais e do papado. Finalmente, a redescoberta do Direito Romano – que revelava o papel que os legistas tinham exercido no campo da moral -, passou a ser vista pelos monarcas como forma de impor a centralização Estatal e enfatizar o seu papel enquanto fonte de justiça, reportando os crimes aos tribunais reais. Nesse processo é recuperado o Código de Justiniano,106 aquele mesmo que prescrevia a morte na fogueira para quem praticasse atos contra a natureza. Essa revitalização das leis romanas – instituídas com a introdução da religião cristã – serviu como modelo para as nascentes monarquias nacionais. No século XIII, segundo o autor Jeffrey Richards,107 as autoridades, tanto da Igreja Católica quanto dos Estados, baseados no poder monárquico centralizado, deram início à supressão da individualidade em favor da comunidade, em todas as esferas da vida na Europa Ocidental. Em nome da justiça do rei eram enviados juizes, registrados autos e codificadas leis. Elas eram feitas pelo monarca que impunha o cumprimento. Esse sistema unificou os reinos e centralizou a autoridade. A sodomia começou a ser tratada como uma ofensa à sociedade, sendo punida através de uma escala em diferentes níveis de degradação física, do acusado para a manutenção da ordem defendida pelo rei. Uma das expressões mais francas do controle do outro exercido pela Igreja Católica está nas ações promovidas pela Inquisição, uma instituição criada no século XIII com objetivo de impedir os desvios da fé. Esse órgão, contudo, ultrapassou largamente o seu objetivo inicial, estendendo seu campo de ação aos planos político, social e cultural.108 Em meados do século XIII, os dispositivos da repressão tinham se estabelecido, funcionando como fortes instrumentos de perseguição para aperfeiçoar o controle sobre a vida para manter a uniformidade de princípios religiosos, políticos e sociais. Na mesma época das Cruzadas, da segunda metade do século XIII até o final do século XV, o conjunto composto por textos e leis da Igreja Católica e dos recém formados Estados da Europa possuía um discurso repressivo e de uma impressionante violência. A terminologia, carregada de significados que radicalizavam os argumentos cristãos estava constituída, aumentando a “dificuldade de se aceitar a diferença”. No final desse período,
106 107

Idem, p, 147. Idem, p. 13-32. 108 Idem, p. 148.

47

os instrumentos de controle do “outro” se sofisticaram, começando a deixar o campo da fé para ocupar o campo da razão.
3.3 Sexo e gênero em nome da razão - sob nova vestimenta -, os novos termos de controle

Para compreendermos a questão dos termos na transição do período moderno para o contemporâneo, é preciso recuperar uma tradição presente entre as práticas da Igreja Católica, segundo a qual a sodomia deveria ser mantida na categoria de “pecado mudo”. Essas práticas não poderiam sequer ser denominadas e, paradoxalmente, produziram o termo “nefando”. Essa expressão apoiava-se numa frase, expressa pelo apóstolo Paulo na epístola aos Efésios, quando este escreve que os pecados ligados à sodomia não deveriam nem mesmo ser nomeados.109 Não denominar o tema, ou tratá-lo exclusivamente como assunto da Igreja, ajudava a manter o controle sobre o vocabulário do outro. Nesse caso, o silêncio constituía-se numa arma eficaz do pensamento, pois no nível de palavras definia o que podia e o que não podia ser proferido. Era assim que os preceitos religiosos prescreviam as condutas de homens e mulheres, estabelecendo que os pecados podiam ocorrer através dos atos, palavras e pensamentos.110 Essa proibição ganhará outro contorno na transição entre o século XVI e XVII. O pensamento - em relação ao “pecado mudo” - sofrerá alterações no que se refere ao seu tratamento. O silêncio dará lugar às palavras, compondo uma taxonomia que fazia a catalogação dos pecados contra a natureza. A projeção dos valores cristãos presentes no interior desse vocabulário será preservada e veiculada com a ascensão do pensamento científico – o qual dará origem aos discursos médicos – e, por sua vez, fará a catalogação dos desvios sexuais. No decorrer do século XVIII, segundo Michel Foucault,111 a tradição eclesiástica deu início ao projeto de “colocação do sexo em discurso” e fez disto uma regra. O ato da confissão católica, prática depositada no coração do homem, foi o meio através do qual se fez da enunciação do desejo um discurso. O homem ocidental, por três séculos, permaneceu
109 110

BAUDRY, André & DANIEL, Marc. Os Homossexuais. Rio de Janeiro: Artenova, 1977. p. .36-39. BELLINI, Lígia. A Coisa Obscura: mulher sodomia e Inquisição no Brasil colonial. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 16. 111 FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal. 1988. p. 24.

48

atado à tarefa que consistia em dizer tudo sobre o sexo. No século XVIII, o sexo não cessou de provocar uma espécie de erotismo discursivo generalizado. Para Foucault nenhuma outra sociedade jamais conseguiu acumular, num período histórico tão curto, uma tal quantidade de discurso sobre o sexo.112 Com o advento da Idade Contemporânea, o comportamento sexual será extraído do corpo do homem e da mulher. A medicina, a jurisprudência e a literatura serão as áreas responsáveis pela produção de uma série de discursos que permitiram, ao mesmo tempo, um avanço dos controles sociais na região da “sexualidade”. Samuel Auguste Tissot é considerado o primeiro médico a tratar a sexualidade como um tema de investigação. Tissot se tornou célebre na Europa, por causa de seus tratados de medicina, atendendo clinicamente, entre outras personalidades, filósofos ligados ao Iluminismo. Em 1760, o médico publica “Ensaios sobre as Doenças produzidas pela Masturbação”, onde afirma que o onanismo, além de ser uma doença, era um crime. Desde então, Jean-Jacques Rousseau se torna um fervoroso admirador das idéias médicas de Tissot.113 O pensamento médico-científico observará metodicamente o comportamento sexual, não sendo capaz de inventar novos prazeres, nem descobrindo vícios inéditos, mas catalogando meticulosamente tudo o que podia. A prática da sodomia, então, assumiu outro significado, sendo fragmentada, transformando-se em diversas espécies e subespécies de práticas. Assim surgiu o homossexual, uma personagem criada para o vocabulário científico que denominava uma das categorias sexuais. Como também se tornaram categorias todos os atos sexuais que os psiquiatras e psicanalistas do século XIX entomologizaram, atribuindo-lhes estranhos nomes de batismo: exibicionistas, fetichistas, zoófilos, autonomossexualistas, mixoscopófilos.114 A partir de então o homem abraçou a razão com a certeza de que, através do conhecimento científico, dominaria todos os seus elementos, inclusive a pluralidade da “alma humana”: catalogada para que a ciência exercesse seu poder de corrigir os “desvios” e preservar a espécie. No século XIX, surgiu na história do pensamento um novo tipo de intelectual: o

112 113

Idem, p. 34. Le Triomphe de la Medecine sur l'amour. In: REGARDS SUR L’AMOUR ENTRE HOMMES Disponível no: http://www.lambda-education.ch/content/menus/histoire/planhistoire.html. Acessado em 26 jul. 2004. 114 FOUCAULT, Michel, Op. Cit., p. 43-44.

49

sexólogo.115 Paul Robinson definiu a sexologia como uma ciência moderna que representava uma reação a esse controle. Os sexólogos dos anos de 1860-1870, segundo o autor, apresentaram a teoria de que o “homossexualismo” era “um erro cometido pela natureza”, pois a mesma havia colocado dentro de um corpo masculino uma alma feminina”.116 E desde 1894, Edward Carpenter, por outro lado, assinalou a existência de “gradações” ligadas ao comportamento homossexual.117 No mesmo sentido, Haverlock Ellis refletiu sobre o fato da masculinidade e da feminilidade dependerem de uma complexa química do corpo. No que se refere ao trabalho deste autor, ele deu inicio ao processo de tolerância dos estudos sobre a sexualidade humana,118 o que propiciou uma atmosfera favorável para se falar sobre sexo, na qual os sexólogos posteriores prosseguiram com suas pesquisas. Em 1892, Charles Gilbert Chaddock recebeu os créditos do Oxford English Dictionary por haver introduzido a palavra “homo-sexuality” na língua inglesa,119 sendo que os termos “homossexual” e “homossexualidade” apareceram impressos pela primeira vez em 1869, em dois panfletos anônimos publicados em Leipzig, compostos, aparentemente, por Karl Maria Kertbeny. No que se refere ao período que precede 1892, não havia recorrência ao termo homossexualidade, mas à expressão “inversão sexual”. Neste ponto, a referência a Jurandir Freire Costa é importante, pois o autor possui dois estudos ligados a essa forma de reflexão. Neles podemos acompanhar o processo de origem da idéia de homossexualidade masculina como uma criação do século XIX. O autor rastreia as obras literárias de André Gide, Michel Proust e Oscar Wilde, procurando demonstrar, num primeiro estudo, como o imaginário da literatura120 e, num segundo estudo, como imaginário da ciência novecentista, 121 lentamente moldaram a figura social e o tipo psicológico do homossexual. Só depois desse processo de construção de uma subjetividade se tornou evidente a existência da categoria homossexual, principalmente no tocante à definição de um ser com uma “natureza” específica dentro do universo da
115

ROBINSON, Paul. A Modernização do Sexo: ensaios sobre Ellis, Kinsey, Máster & Johnson. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1977. p. 7. 116 BAUDRY, André & DANIEL, Marc . Op. Cit. p. 60. 117 ROBINSON, Paul. Op. Cit., p. 50. 118 Idem , p. 23. 119 HALPERIN, David M. One Hundred Years of Homosexuality. New York: Routledge, 1990. p. 15. 120 COSTA, Jurandir Freire. A Inocência e o Vício: estudos sobre o homoerotismo. Rio de Janeiro: Relume- Dumará, 1992. 121 COSTA, Jurandir Freire. A face e o Verso: Estudos sobre o homoerostismo II. São Paulo: Escuta, 1995.

50

sexualidade novecentista. Para John Money,122 o termo homossexual tornou-se o mais utilizado provavelmente porque foi empregado por Havelock Ellis e Magnus Hirschfeld no final do século XIX e nos anos iniciais do século XX. Nenhum dos dois escritores, contudo, reconheceu na expressão cunhada por Kertbeny, a possibilidade da palavra poder apagar outras experiências existentes em nível cultural e histórico. Neste último exemplo, podemos afirmar que somente nas sociedades da época moderna é possível falar da palavra “homossexual”, sendo inútil e equivocado atribuir seu significado a períodos anteriores da história da humanidade. Nesse período, o saber médico ganhará hegemonia de ação - perpassado pela teoria de que o bom funcionamento da sociedade dependia de um organismo composto por indivíduos saudáveis.123 Até a metade do século XX, o espaço das instituições médicojurídicas irá além dos limites dos discursos sobre “homossexualismo”, transformando corpos em espécimes doentes aprisionadas em sanatórios e hospitais. Este fato dará origem a uma ação conjunta da medicina com as instituições jurídicas.124 O efeito dessa aliança provocou o exílio de alguns sujeitos do contexto social, apresentados, à luz da medicina, com tendências à prática criminosa e anti-social. Nesse sentido, a medicina-legal elegeu “tipos” para empregar seus métodos e atuar contra o que entendia ser as causas da “degenerescência do sistema social”.125 Os regimes onde o autoritarismo se manifestou foram implacáveis quando lidavam com os “desvios sexuais”, vistos como inimigos do corpo, da família e até mesmo do Estado. Ainda que o termo homossexual livrasse o comportamento de ser um pecado, ele se prendeu estreitamente à idéia de que o sujeito estava ligado a um desvio patológico.126 A ascensão dos regimes totalitários, na década de trinta, foi marcado pela justificativa de que o “homossexualismo” representava uma ameaça a ser extirpada, pois se tratava de um
122

MONEY, John. Gay, Straight and In-Between: the sexology of erotic orientation. New York: Oxford University Press, 1988. p. 9. 123 SHOWALTER, Elaine. Anarquia Sexual: sexo e cultura no fin de siècle. Rio de Janeiro: Rocco, 1993. p. 252. 124 TREVISAN, João Silvério. Devassos no Paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. Rio de Janeiro-São Paulo: Record, 2000. p. 187-192. 125 GUIMARÃES, Celeste Zenha. Homossexualismo: Mitologias Científicas. Tese de doutorado apresentada ao Depto. de História da IFCH-UNICAMP, em maio de 1994. 126 SOUZA, Pedro. Confidências da Carne: o público e o privado na enunciação da sexualidade. Campinas: Tese de doutorado apresentada à comissão examinadora da Unicamp, 1993. p. 14.

51

perigo que devia ser cerceado através das instituições encabidas de manter a ordem pública, desencadeando, assim, uma série de perseguições que transformou esse personagem em um bode expiatório. Entre 1939 e 1945, sob a tutela de Heinrich Himmler, as campanhas de eugenia são conduzidas pela ditadura nazista que dominava a Europa. Durante esse período, judeus, ciganos, deficientes, comunistas, testemunhas de Jeová, anões, epiléticos, surdos-mudos e homossexuais são vítimas da barbárie hitlerista, sendo mandados em massa para os campos de concentração. Os homossexuais, especificamente, portavam um triângulo rosa invertido sobre o uniforme de prisioneiro.127 Calcula-se que entre 5.000 e 15.000 homossexuais foram detidos. No final da Segunda Guerra Mundial, após serem libertados, alguns ainda foram postos na prisão acusados por deboche. Essa libertação ainda possui um gosto amargo para grande parte dos homossexuais que foram aprisionados, pois, até hoje, é o único segmento ao qual foi negado o reconhecimento e o reparo do crime do qual foram vítimas.128 Após o final da Segunda Grande Guerra, o autoritarismo nazista foi vencido, dando início ao período da bipolarização que evidenciou o antagonismo, político-ideológico, entre americanos e soviéticos. Os homossexuais, contudo, sofreram tanto com a opressão da sociedade comunista, sob a égide stalinista na União Soviética, que enviou dezenas de milhares de homossexuais para a Sibéria, quanto como na sociedade capitalista, com o Mccarthismo nos Estados Unidos, cujo ataque aos gays foi tão violento quanto o ataque aos comunistas. Desde março de 1934, a homossexualidade, sob a alegação de ser uma “degenerescência burguesa”, tornou-se crime na Rússia.129 De acordo com o artigo 121 do código criminal da Federação Russa, a pena era cinco anos de prisão. As autoridades e a KGB, durante a Guerra Fria, o utilizavam para perseguir os dissidentes do sistema socialista, aumentando suas penas e os mandando para os campos de trabalho na Sibéria. Nesses casos, a aplicação da lei servia para assustar as pessoas. Calcula-se que de 1934 até o final dos anos oitenta do século XX, mil pessoas eram processadas a cada ano.
127 128

SPENCER, Colin, Op. Cit., p. 295-301. HAEBERLE, Erwin J. “Swastika, pink triangle, and yellow star: the destruction of sexology and the persecution of homosexuals in Nazy Germany.” In: DUBERMAN, Martin et al. (Ed.). Hidden from History: reclaiming the gay e lesbian past. NewYork: Meridian, 1989. p. 365-379. 129 KARLINSKY, Simon. “Russia’s Gay Literature and Culture: The impact of the October Revolution” In: DUBERMAN, Martin et al. (Ed.). Op. Cit., p. 361-364.

52

Nos Estados Unidos, durante a Guerra Fria, a perseguição aos homossexuais, iniciada pelo Senador Joseph McCarthy, do Partido Republicano, se deveu à acusação de que gays e lésbicas representavam uma ameaça ao governo norte-americano, pois poderiam ser chantageados pelos comunistas – devido à sua “fraqueza moral” -, podendo revelar segredos de Estado.130 Os focos de ação eram a investigação e a remoção de homossexuais e comunistas do aparato governamental. Os funcionários do serviço de segurança do governo interrogavam os servidores públicos sobre suas vidas sexuais. Essa política atingiu, aproximadamente, três milhões de pessoas nos Estados Unidos entre 1943-1953. Em 1948, a discussão sobre a homossexualidade tomou uma nova dimensão. O célebre “Relatório Kinsey” era publicado e seu autor reconhecia o fato de que a função sexual e a função reprodutiva estavam radicalmente separadas. A divisão da humanidade em duas categorias não fazia sentido segundo a análise de Kinsey.131 O principal motivo de Kinsey, ao demolir a noção de identidade sexual, foi o desejo de combater o estereótipo popular que se construiu sobre a personalidade do homossexual. A principal alegação teórica de Kinsey era que o “homossexualismo” não existia, não era uma síndrome clínica e nem uma degenerescência social. Com esses argumentos, Kinsey ajudava a criar uma atitude mais tolerante em relação à homossexualidade. 3.4 Sexo e gênero no período contemporâneo, o retorno à compreensão da diversidade Na primeira metade do século XX, a ciência estendeu seus domínios sobre todos os aspectos da vida humana; na segunda metade essa ilusão acerca do poder da razão humana fora abalada: as guerras, campos de concentração, extermínio de vidas humanas. Essas tragédias despertaram a descrença no poder da ciência e da razão, pois elas não conseguiram proteger a espécie humana de sua própria “natureza”. Na segunda metade do século XX, começaram a ocorrer movimentos de reconciliação com a “diversidade da natureza humana”. Na Europa ocidental a luta contra a discriminação se tornou mais radical. Entre as organizações gays e lésbicas que se formaram estavam as: Der Kreis, na Suíça, Arcadie, na França, a COC – Centro de Cultura

130

D’EMILIO, John. Making Trouble: Essays on gay history, politics and the university. New York, London: Routledge, 1992. p. 58-63. 131 ROBINSON, Paul. Op. Cit., p. 94.

53

e Lazer, na Holanda, e Forbundet/48, na Dinamarca. Em alguns países, esses grupos tiveram que enfrentar um ambiente hostil e fechado, por vezes em nível legal, ao debate sobre a questão dos direitos homossexuais. Nos Estados Unidos, apesar do clima de repressão orquestrado pelo senador republicano McCarthy, surgiram os grupos Matachine Society (1950) e Daughter`s of Bilites (grupo de lésbicas, em 1953). À frente do Matachine estava Harry Hay, considerado seu principal ideólogo.132 Ele era um comunista categórico e um teórico gay eloqüente que defendia a idéia da identidade sexual minoritária, se adiantando em apresentar o segmento homossexual como uma categoria em si, e advogar em favor de uma cultura homossexual separatista. Durante essa fase, tanto na Europa quanto nos Estados Unidos, esses grupos prepararam o caminho para os acontecimentos ligados aos anos sessenta. Suas lutas se somaram ao grande caldeirão cultural de manifestações contra os sistemas sociais, culturais e políticos existentes no mundo até os anos sessenta. No decorrer da Guerra Fria, a bipolarização, entre Estados Unidos e União Soviética, restringiu as escolhas pessoais no campo econômico, político e cultural a duas alternativas: o estilo de vida norte-americano que apresentava o padrão da camada média de sua sociedade, exibindo o acesso de seus membros aos bens de consumo, mas que despertava críticas por excluir setores sociais podados do sistema capitalista por não contribuírem para a reprodução do capitalismo;133 e o modelo soviético que garantia a proteção estatal, fornecendo emprego, moradia, educação e lazer à população, mas que com a emergência de uma burocracia detentora do poder, após o advento do golpe stalinista, restringiu os ideais de liberdade propagados pela Revolução Bolchevique. É preciso enfatizar que durante o período inicial da Revolução Russa, as leis garantiam o direito à livre expressão da sexualidade. Dennis Altman, ao comentar o paralelismo entre as lutas de libertação de classe e a de libertação sexual, lembra que apesar dos desvelos de Lênin em favor da liberdade sexual - as restrições penais aos atos homossexuais foram revogadas em dezembro de 1917, com a promulgação do novo código penal revolucionário. Com o advento do golpe stalinista, ocorreram mudanças de atitude em relação ao tratamento da homossexualidade. A contra-revolução subordinou todos os
132 133

D’EMILIO, John. Op. Cit., p. 18-31. FRASER, Ronald (org). 1968: a student generation in revolt. New York: Pantheon Books, 1988. p. 15-16.

54

aspectos da liberdade pessoal e sexual às prioridades determinadas pela burocracia que ascendeu com Stalin.134 Durante os anos sessenta, pessoas do mundo inteiro se mobilizaram para questionar ou apoiar um destes modelos, ou para contestar a ambos. As amarras tradicionais do círculo familiar começaram a ser desatadas e os jovens a se organizar através de novas redes culturais. Nos Estados Unidos, inicialmente, o fenômeno foi caracterizado por sinais mais evidentes: cabelos compridos, roupas coloridas, misticismo, drogas e pela vida em comunas. Aos poucos, a mídia começou a veicular uma nova palavra: contracultura.135 O termo foi considerado adequado por sintetizar as características de um fenômeno que se expressava através de diferentes formas de oposição aos sistemas sociais, políticos e culturais oficializados. Paralelamente à difusão da contracultura, os estudantes universitários de países como os Estados Unidos, França e Alemanha deram início a uma grande mobilização para demonstrar sua insatisfação.136 Eles reivindicavam mudanças como a menor tendência ao tecnicismo e a não submissão do ensino aos interesses do capitalismo. Os movimentos de protesto se espalharam por todos os continentes através da difusão de normas, valores, gostos e padrões de comportamento. Na China, Mao Tse Tung e a Revolução Cultural apontavam novos caminhos em busca de um socialismo com características menos centralizadoras. Esse clima contribuiu para a eclosão de novas formas de atuação política, onde a ênfase recaia sobre a afirmação da liberdade.137 Os novos movimentos rechaçavam a sisudez da esquerda tradicional, questionando suas normas de disciplina e de organização. Esse espírito resvalou críticas sobre todas as estruturas que suprimissem o valor positivo da liberdade. Com a ampliação do conceito de política, as lutas por direitos ganharam espaço nas relações cotidianas da vida social.138 O contorno dos movimentos sociais, com caráter fortemente libertário, começou a ganhar força após as manifestações da

134

LÖWY, Michael. Para uma Sociologia dos Intelectuais Revolucionários. São Paulo: LECH, 1979. p. 234-235. 135 PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. O que é Contracultura. São Paulo:Brasiliense, 1986.p.18-19. 136 MATOS, Olgária. Paris 1968: as barricadas do desejo. São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 25. 137 REIS FILHO, Daniel Aarão. A construção do Socialismo na China. São Paulo: Brasiliense, 1981. p. 48-9. 138 COELHO, Cláudio N. Pinto. Os Movimentos Libertários em questão. Petrópolis: Vozes, 1987. p. 11.

55

cultura jovem, abrindo caminho para os movimentos em favor dos direitos civis de mulheres, negros e homossexuais. As lésbicas, nesse período, particularmente, tiveram que se dedicar a uma questão polêmica, cujo mote era: ou escolhiam entre se juntar aos gays, em sua luta pela emancipação homossexual, ou às feministas e sua luta pelos direitos das mulheres, ou, ainda, montar organizações separadas para se protegerem do sexismo dos homens gays e da homofobia das feministas heterossexuais. Ao longo desse debate, elas experimentaram todas as combinações possíveis,139 algumas vezes com resultados surpreendentes, como por exemplo, quando as mulheres heterossexuais exigiram que as lésbicas adotassem uma postura política contra os machos opressores. No dia 28 de junho de 1969, em um bar de Greenwich Village, Nova Iorque, homossexuais – gays, lésbicas e transgêneros – deram início a um movimento de resistência às investidas da polícia que duraram três noites. Esse fato que ficou conhecido como a rebelião de Stonewall, marcou definitivamente a transformação do personagem homossexual: agora livre de seus temores e de sua marginalidade.140 Os grupos dos anos cinqüenta e sessenta deixaram o campo preparado para uma geração mais radical que deu origem centenas de grupos e publicações – como o Gay Liberation Front –,141 que proclamavam vigorosamente o discurso sobre a transformação viceral da sociedade. Numa defesa do desmantelamento de instituições como o casamento e a família burguesa, o exército e a cultura de consumo. Os ativistas colocaram as questões da emancipação homossexual ao lado da liberação feminista e de outros movimentos de luta, como: contra o racismo – inclusive, apoiando grupos radicais como os Black Panthers -; contra o eco–terrorismo da sociedade industrial; e contra a hegemonia do poder militar. Os sujeitos dessa emancipação, segundo Michel Misse,142 caminharam no sentido da luta contra as sanções morais e legais consideradas opressivas e anacrônicas. As reivindicações do movimento começaram a produzir uma crítica sem precedentes, advogando uma postura mais radical e questionadora

139 140

MARCH, Sue. Libertação Homossexual. São Paulo: Nova Época Editorial, 1981. p. 66-9. HOCQUENGHEM, Guy. A Contestação Homossexual. São Paulo: Brasiliense, 1980. p. 13. 141 SPENCER, Colin. Op. Cit., p. 348-353. 142 MISSE. Michel. O Estígma do Passivo Sexual. Rio de Janeiro: Achiamé, 1979. p. 11.

56

da sociedade. O debate não se limitou à visibilidade pública, mas passou a contestar as restrições morais, médicas, jurídicas. Por um lado, enquanto o Gay Liberation Front foi concebido como parte de um movimento maior de liberação, sendo um dos segmentos mais radicais de luta contra a opressão, por outro, quando esse segmento encerrou suas atividades em 1972, a Gay Activists Alliance, composta por membros que saíram do próprio Gay Liberation Front, defendeu propostas, como a de usar o sistema político para transformar direitos dos segmento numa realidade social e política, colocando medidas em prática e formando complexas redes de interesses culturais e políticos que, ao longo do tempo, se difundiram para milhões de pessoas, em diferentes locais do planeta. O interesse do movimento passou a residir, precisamente, no fato de formalizar institucionalmente as condições para as mudanças, denunciando as insuficiências da igualdade formal quanto ao direito e de utilizar, inclusive, todos os recursos para se tornar um dos grupos aos quais a lei deveria dispensar ajuda e proteção.143 Essa transformação alcançou os meios de comunicação social e a academia, setores que alteraram suas concepções sobre a homossexualidade. Em 1973, a Associação Americana de Psiquiatria retirou a homossexualidade da lista de doenças mentais.144 E no decorrer dos anos setenta, gays e lésbicas organizaram manifestações para pedir mais liberdade e direitos iguais, culminando, em outubro de 1979, com a Primeira Marcha Gay em Washington. A partir de então a relação entre homossexualidade e doença caiu em desuso. Antes do completar uma década dos grupos de gays e lésbicas virem a emergir no cenário político, a mídia começa a veicular notícias sobre a AIDS. Isso provocou um refluxo: a questão homossexual começou a ser atropelada pela crise da AIDS. A síndrome fazia suas primeiras vítimas nesse meio.145 Qualquer discussão mais sofisticada sobre o modo de vida homossexual passou a ser associada ao perigo de propagação do vírus.146 Todo o debate sobre liberdade, resultante do período da Contestação, parecia estar

143 144

HOCQUENGHEM, Guy. Op. Cit., p. 18. MONEY, John. Op. Cit., p. 152-154. 145 FILHO, Amílcar Torrão. Op. Cit., Op. Cit., 206-207. 146 POLLAK, Michael. Os Homossexuais e a AIDS. São Paulo: Estação Liberdade, 1990. p. 13.

57

comprometido. Tudo começava a mudar: a AIDS transformava a homossexualidade masculina numa questão de saúde. A AIDS entrou no mercado de informações como uma “peste gay”,147 sendo divulgada de forma exaustiva e sensacionalista. Era percebida, inicialmente, como uma doença exclusivamente homossexual e masculina, o que estabeleceu um grupo de altíssimo risco e transformou-se num elemento de discriminação. O tom das notícias criou pânico entre a população que se via ameaçada pelo risco de contaminação pelos homossexuais. Além disso, havia o alarde de que a AIDS era um castigo divino. No decorrer dos anos oitenta preponderava um clima que anunciava o desaparecimento da homossexualidade. Não no que refere às práticas sexuais, mas de sua saída do cenário público através de “um declínio manso e quase imperceptível”.148 As análises acerca desse processo, assim como as notícias divulgadas pelos meios de comunicação, sugeriam uma coincidência mórbida entre um maximum de atividade sexual e a emergência da AIDS que utilizava o contato entre os corpos para se expandir. Nos Estados Unidos, a postura inicial dos grupos gays norte-americanos, face às informações sobre a AIDS, era de desconfiança. Temia-se que o discurso médico se reapropriasse da homossexualidade e passasse a exercer sobre os indivíduos seu controle institucional.149 Quando esta síndrome começou a fazer suas vítimas no segmento homossexual - apesar das divergências entre os ativistas -, os grupos gays começaram a se dedicar à prevenção e ao tratamento da doença. Os governos norte-americano e britânico adotaram posturas e ações lentas em relação à prevenção, tratamento e assistência das vítimas, o que levou os gays a entender que estavam sendo ignorados, tal fato aumentou a necessidade de envolvimento político. 150 A organização dos ativistas foi à forma de reação adotada para fazer frente à AIDS. Ao invés do silêncio, a epidemia tinha nome: AIDS – Síndrome da ImunoDeficiência Adquirida. Os ativistas gays se apropriaram do nome, assim como de todos os significados que o acompanhavam, e foram às ruas reivindicar. Eles fizeram manifestações contra políticas discriminatórias e protestaram contra políticos. Em 1987, o ACT-UP

147 148

TREVISAN, João Silvério. Op. Cit., p. 438. PERLONGHER, N. O desaparecimento da homossexualidade. Saúde e Loucura, no. 3, 1992, p.8. 149 SOUZA, Pedro. Op. Cit., p. 28-30. 150 SPENCER, Colin. Op. Cit., p. 357.

58

iniciou suas atividades em Nova Iorque, dando origem a um estilo diferente de ativismo,151 cujas novidades estava na difusão de informação, nas ações radicais e nas críticas ao desempenho institucional ao tratar a questão da epidemia. Os grupos, munidos pelos aspectos positivos da identidade homossexual se empenharam em campanhas de prevenção e tratamento da doença. O segmento gay, a duras penas, teve de enfrentar a epidemia, empreendeu ações educativas, nas quais - ao mesmo tempo em que aprendia -, ensinava que as práticas sexuais tinham que ser planejadas, teve que empreender ações de assistência às vítimas, teve que aprender a conviver com morte. A partir desse contexto se alicerçaram os laços entre as pessoas envolvidas na luta contra a AIDS para triunfar sobre a negligência das autoridades governamentais. No final dos anos oitenta e início dos anos noventa, o perfil social da AIDS começou a mudar, deixando de ser uma “doença gay” para atingir outros segmentos da sociedade. Contudo, a luta contra a epidemia definitivamente trouxe a público o debate sobre a diversidade de práticas sexuais.152 Neste ponto é importante retomar uma das questões levantadas por Jurandir Freire Costa.153 O autor, ao discutir o impacto da AIDS no imaginário social, reconhece que as experiências iniciais de aceitação e revalorização da “identidade homossexual” representam uma novidade cultural que o surgimento da AIDS ajudou a consolidar. No verão de 1990, um novo movimento começou a tomar forma quando os ativistas, muitos dos quais envolvidos com o grupo ativista ACT-UP, formaram a Queer Nation. Rapidamente, esse movimento se tornou referência importante para a história do ativismo gay e lésbico. Enquanto as manifestações ligadas a Stonewall, em 1969, servem como referência para o começo da liberação gay e lésbica, há um consenso de que foi o reconhecimento da AIDS como um problema central e onipresente que levou a uma radicalização política maior do segmento gay e do aparecimento da Queer Nation. O termo “queer”, originalmente aplicado de forma pejorativa, foi revertido no seu sentido para ser adotado como uma afirmação positiva. O movimento possui participantes que não são nem gays, nem lésbicas, mas que se reconhecem na postura adotada pelo Queer Nation. Essa forma de ativismo atraiu pessoas interessadas em debater sobre a
151 152

SHOWALTER, Elaine. Op. Cit., p. 250. PARKER, Richard G. Corpos Prazeres e Paixões. São Paulo: Best Seller, 1991. p. 147. 153 COSTA, Jurandir Freire. Op. Cit., 167.

59

diversidade,154 em participar de políticas mais radicais e atuar em ações diretas. O Queer Nation também enfatizou a inclusão de bissexuais, transgêneros e outras minorias sexuais sob o “guarda-chuva” queer, esboçando uma novidade que apareceu nos anos noventa, a importância das palavras em afirmar a diversidade das orientações sexuais, assim como os papéis de gênero.155 No período que compõe a virada do século, as gerações presenciaram manifestações, em nome da diversidade, ao redor do mundo: como as celebrações ligadas ao dia 28 de junho: “Dia do Orgulho GLBT” (nome utilizado pela parada de São Paulo: a maior do planeta).

154 155

HERDT, Gilbert. Same Sex, Different Cultures. Boulder: Westview Press, 1997. p. 8-10. FACCHINI, Regina. Sopa de Letrinhas? Movimento homosexual e produção de identidades coletivas nos anos 90: um estudo a partir da cidade de São Paulo. Campinas: IFCH-Unicamp, 2002.

60

4 O tratamento da sexualidade nas Linguagens Documentárias no período moderno

Para compreender o tratamento dado à sexualidade pelas LDs, é fundamental retomar Foskett. O autor sugere que os sistemas de classificação refletem a estrutura da sociedade na qual foram criados, sendo influenciados pelos paradigmas culturais e ideológicos.156 Assim, é preciso afirmar que com o advento da Idade Contemporânea, o homem abraçou a Razão com a certeza de que, através do conhecimento científico, dominaria todos os seus elementos. Esse aspecto exigiu o desenvolvimento de parâmetros, definidos através da linguagem – que alcançassem a dimensão universal – com o objetivo de servir à compreensão mútua.157 Porém, a linguagem ocupava, e ainda ocupa, diferentes campos no tocante às atividades humanas, entre os quais o da política. Aqui, a noção de “esfera pública” burguesa, elaborada por Habermas, é central para entendermos a importância da relação entre a linguagem e o poder. Para o autor a origem da “esfera pública” está ligada a um conjunto de “pessoas privadas” reunidas para discutir assuntos de “interesse comum”.158 Habermas tem sua concepção de “esfera pública” criticada por Nancy Frazer. A autora ressalta o fato de que, nas suas origens, a “esfera pública” burguesa era o campo de treinamento e a base de poder dos homens que se colocavam como classe universal. Frazer recorre à historiografia que registra o papel dos grupos sociais subordinados mulheres, gays e lésbicas - e os apresenta enquanto públicos alternativos.159 Havia, assim, uma pluralidade de públicos mantendo relações conflituosas com o público burguês. Neste sentido, a autora aponta um número significativo de exclusões presentes no processo de formação da classe burguesa enquanto elite emergente. Essa concepção de esfera pública burguesa se refletiu nos diversos campos da linguagem, inclusive a dos sistemas de classificação da informação, os quais foram
FOSKETT, A.C. Mysoginists All: a study in critical classification. Library Resources & Technical Services 15.2 (Spring 1971): 117-21. Apud: OLSON, Hope A. The Power to Name: Locating the Limits of Subject Representation in Libraries. Dordrecht/ Boston / London: Kluwer Academic Publishers, 2002. p. 7. 157 HABERMAS, Jürgen. O Discurso Filosófico da Modernidade. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1990. p. 54. 158 HABERMAS, Jürgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984. p. 104. 159 FRAZER, Nancy. Rethinking the Public Sphere: a contribution to the critique of actually existing Democracy. Social Text. 25/26, 1990, p. 67.
156

61

baseados, consecutivamente, na “razão triunfante” e na “preferência terminológica do público majoritário”. Este capítulo busca apresentar como Dewey, por um lado, enunciou esses princípios através da Classificação Decimal Dewey (CDD), enquanto, por outro, Cutter – ao adotar princípios diferenciados, formou as bases da Library of Congress Subject Headings (LCSH). A sistematização dessas linguagens possui normas que se organizaram a partir da identidade do homem, branco, burguês, heterossexual, ocidental, cristão. A recuperação desse processo ajuda a explicar a montagem dessas estruturas, assim como ajuda a entender porque às vezes alguns termos ganham tons sexistas ou homofóbicos.

4.1 Nos moldes do projeto moderno, a sistematização dos termos.

A partir do século XVIII, começou a se construir a separação dos papéis de gênero, onde a esfera pública, predominantemente, se tornou uma arena masculina e a esfera privada passou a ser de domínio feminino. Não se tratava de uma divisão, mas da montagem de um sofisticado aparato para subjugar a cena privada – associado à mulher, por sua vez associada ao caótico mundo da natureza -, e impor o poder dos personagens masculinos que ocupavam a esfera pública, os quais detinham o direito à palavra e o poder de dar identidade a diferentes assuntos. Neste contexto se estabeleceram os tópicos que se adequaram à terminologia presente nas obras de Dewey e Cutter. Entre 1876 e 1932, Dewey escreveu a introdução para treze lançamentos da CDD, sendo que o último era o produto de quarenta e quatro anos de maturação conceitual e o conteúdo, ao final, não revelava grandes alterações epistemológicas. O autor se apoiou em alguns aspectos para definir o sistema de organização do conhecimento, entre os quais a epistemologia e o parecer dos experts.160 Dewey começou com uma estrutura abrangente baseada nas classes utilizadas pela St. Louis Public School Library (um esquema produzido por Willian T. Harris): tratava-se de uma estrutura de dez classes derivada da classificação do conhecimento de Francis Bacon. Esses princípios se ligavam a um esquema de classificação decimal, sintetizando a base sobre a qual o sistema de representação foi construído. Ao usá-la, Dewey reiterou a
160

OLSON, Hope A. Op. Cit. , p. 27.

62

metáfora baconiana de uma ciência masculina dominando uma natureza feminina.161 Tratava-se do modelo do cientista moderno se distanciando do objeto de estudo para não se deixar levar pela subjetividade. As categorias classificatórias de Bacon denotam um modelo epistêmico originado na tradição cartesiana, segundo o qual a realidade pode ser conhecida através da razão em oposição à perspectiva particular gerada pelo caráter subjetivo. Nesse sentido, tudo que não fosse fruto da objetividade não era considerado uma forma válida de conhecimento, segundo a epistemologia cartesiana. Nela a razão masculina se opõe à emoção feminina. Dewey se apóia nesse pressuposto para produzir um sistema de classificação construído a partir de aspectos objetivos.162 A principal meta deweyana - enquanto proposta de uma linguagem universal - era evitar confusões no processo de comunicação. Para tanto, os números arábicos foram considerados como a única forma de representação do conhecimento que poderia ser utilizada em âmbito internacional. Os números foram associados aos assuntos, constituindo-se assim a relação entre números e significados temáticos, e, por fim, os temas foram reunidos no mesmo lugar. Além disso, os números também possuíam outra característica importante para sua adoção como linguagem universal: além do potencial para a expansão sem limites, um caráter objetivo inquestionável.163 Para atingir tal característica, o conteúdo e a estrutura da CDD eram definidos, primeiramente, a partir da regra epistêmica, que privilegiava o parecer de especialistas das diversas áreas de conhecimento.164 Ele privilegiou a proeminente autoridade do saber competente. Para tanto, contou com o parecer dos acadêmicos (botânicos, matemáticos, psiquiatras), contemporâneos do autor durante o processo de elaboração da CDD. O objetivo era refletir a posição dos especialistas do saber nas diferentes áreas do conhecimento ocidental.165 Essa prática não consistia em novidade, visto se tratar de uma tradição reconhecida desde a Antigüidade Clássica e na qual o próprio esquema de Bacon se apoiava.166
161 162

Ibidem. Ibidem. 163 Idem, p. 21. 164 Idem, p. 18. 165 Idem, p. 28. 166 Idem, p. 29.

63

As definições adotadas por Dewey foram derivadas da visão de especialistas temáticos, experts em suas disciplinas. A opinião deles foi levada em consideração para se justificar às decisões que foram tomadas para a construção do aparato. Nesse caso, para cada termo receber um tratamento dentro da linguagem do sistema, ocorreu a consulta a um especialista à época. Estes especialistas determinaram os temas de suas disciplinas, os quais foram associados aos números e à linguagem proposta por Dewey. Esse modelo, baseado na autoridade acadêmica, era nutrido pelas regras de comando dos especialistas que construíam a ordem, a conformidade e a aceitação, enquanto modelo de um sistema com cobertura universal do conhecimento.167 O controle através da autoridade acadêmica representou o meio através do qual se forçava o indivíduo a se adequar às normas de uma linguagem universal. Dewey ao aceitar o pressuposto de que a universalidade e a razão eram necessárias - para controlar a diversidade caótica -, subjugou a idéia das diferenças em nome da universalidade. Em 1876, no mesmo ano em que Dewey publicou a primeira edição de sua classificação, o Departamento do Interior dos Estados Unidos, através da Secretaria de Educação, publicou a Rules for dictionary Catalog, de Charles Cutter. O autor fez três revisões desta obra, sendo que sua quarta edição, publicada em 1904, foi a mais citada e mais debatida. A obra de Cutter foi a progenitora da LCSH.168 Para Cutter um catálogo deveria atingir os seguintes objetivos: capacitar uma pessoa a encontrar um item específico - fosse através do nome do autor, do seu título, ou do assunto -, a mostrar o que uma biblioteca reunia em seu acervo, e a auxiliar um usuário na escolha de um livro, segundo suas necessidades.169 Cutter também propôs os meios através dos quais se poderia atingir esses objetivos, incluindo duas das formas mais presentes nos catálogos correntes: as “entradas por assunto” ampliadas pelas “referências cruzadas”. Entre os métodos para elaboração desse sistema, o autor optou por: entradas que levassem em consideração as pessoas que o usavam; as que mantivessem relação de uma entrada com as outras, gerando um princípio que cobrisse a todas; e as que possibilitassem uma organização que ajudasse na localização. Essas opções focalizavam o “público”, a

167 168

Idem, p. 144. Idem, p. 38. 169 Idem, p. 39.

64

“linguagem universal”, e a “estrutura hierárquica”.170 Para Cutter, o esquema só poderia ser considerado válido se conseguisse ajudar seus usuários. Nesse caso, o público era o árbitro da linguagem incorporada no catálogo. Para o autor, o usuário do sistema possuía um modo peculiar de observar as coisas. Essa idéia parece não se articular com a regra da linguagem universal, porém, essa postura atendia às necessidades de um público singular com necessidades específicas. Tratava-se de encontrar um nome para cada tema, para esses, então, serem reunidos sob um contexto de semelhança. Algumas vezes as palavras não eram exatamente sinônimas, mas eram tratadas como se fossem. Essa sistematização além de optar pela exclusão de alguns temas, também se orientava por meio de uma visão conservadora. Para Hope A. Olson, a proposta do autor não se preocupava com a predominância ideológica desse público.171 Se a linguagem era universal e derivava do uso por um público singular, a inclusão de “todos os outros” não era possível. Cutter não via problemas em privilegiar um termo em relação ao outro. Nesse processo, a opinião da maioria era privilegiada por uma seqüência de regras práticas, como por exemplo, a de que face às palavras sinônimas, devia-se escolher palavras utilizadas pelo maior número de pessoas. Uma vez que a terminologia da entrada fosse escolhida, as demais palavras sinônimas deveriam ser relacionadas e também obedeceriam a uma ordem determinada pela preferência do público. Nesse sentido, a opinião da maioria era imposta para todo mundo.172 Com tais características, àqueles que não se ajustassem, ou àqueles que de alguma maneira fossem diferentes, restava a exclusão. Cutter levantou a necessidade da estrutura hierárquica com o objetivo de arranjar o vocabulário da linguagem universal,173 apoiando-se na lógica da razão pública. Na sua concepção, essa circunscreveria os limites para o controle da linguagem, porém o idealizado público singular, por vezes, não conseguia atingir esse objetivo. Nesse aspecto, o autor reconheceu a dificuldade deste em determinar os níveis de especificidade e de organização, assim prescreveu regras para garantir a uniformidade de acesso, visto que ele mesmo passou a ter dúvidas em relação à sabedoria do público.

170 171

Idem, p. 40. Idem, p. 41. 172 Idem, p. 42. 173 Idem, p. 94.

65

Por vezes, a busca de um sistema - definido pelas necessidades singulares de uma comunidade - possuía obstáculos, surgidos de uma diversidade de necessidades que não se constituía enquanto maioria. Diante da inconsistência do público, o autor prescrevia que o mesmo deveria adaptar seu comportamento ao uso do catálogo. Na iminência de tais casos, Cutter acreditava que uma universalidade planejada era melhor do que não ter nenhuma universalidade. Em sua obra, ele estabelece como objetivo o ideal de uniformidade, onde privilegiava, inicialmente, a representação temática direcionada às necessidades de um público homogêneo. Quando não era possível considerar o público enquanto árbitro, a segunda opção era adotar os nomes de cabeçalhos usados por outros catálogos. Tal opção conduzia à adoção de uma linguagem com o objetivo de reunir temas similares. Esta proposta criou uma estrutura de controle, porém ficou evidente que o tratamento igualitário à diversidade não era um requisito necessário à ordenação. O ano de 1876 foi importante para o futuro das LDs mais utilizadas pelas bibliotecas, pois Dewey e Cutter estabeleceram os princípios de suas estruturas e as justificaram sob a idéia de subjugar sob a autoridade acadêmica e sob a razão de um público majoritário a anarquia da natureza. Na forma de um paternalismo característico do período, cujo controle se estendia através da ordem imposta por uma hierarquia estruturada em oposição ao medo da anarquia e do caos. Não havia espaço para a tolerância apoiada nos moldes da razão legitimada pela esfera pública.174 O conceito de público-masculino, em oposição ao privado-feminino, é a chave para observar como Cutter e Dewey cooptam a voz dos outros, enquanto grupo heterogêneo que é homogeneizado através do poder da autoridade e da razão pública.175 Ambos incorporaram idéias rígidas às suas propostas: Dewey ao empregar a hierarquia através do modelo decimal de classificação,176 Cutter, ao privilegiar uma estrutura conectiva, na forma dicionário-catálogo, propondo um conjunto inteiro e fechado de relações entre nomes. Nesses modelos, os termos foram representados a partir da uniformidade, onde o resultado foi a marginalização e a exclusão de tópicos que não se ajustavam, ou por causa dos cânones eleitos pelos especialistas para descrevê-los, ou por causa do público singular
174 175

Idem, p. 61. Idem, p. 66. 176 Idem, p. 140.

66

não valorizá-los.177 As obras de Dewey e Cutter refletem um contexto cultural, cujas pressuposições constituem um patrimônio que alcançou a contemporaneidade. O debate teórico sobre universalidade da linguagem, contudo, ainda no século XIX, deu lugar à diversidade de interpretações. Essa ambivalência deixou em aberto a questão de que uma linguagem universal tinha limites e que esses limites não estavam nitidamente definidos. Os sistemas de classificação, almejados por Dewey e por Cutter, não eram neutros e estavam longe de serem ferramentas objetivas, visto que refletiam a reforçavam perspectivas singulares.178 Dewey, por exemplo, reconhecia que durante a classificação pessoas diferentes, em locais diferentes, ou a mesma pessoa – passado um longo período de tempo -, classificavam o mesmo conteúdo de forma diferente. Esse aspecto levou Dewey a aceitar como válidas as razões locais para decidir o que fosse considerado, em nível prático, como a melhor forma para classificar os assuntos. No caso de Cutter, quando o autor advoga em favor das necessidades de um público singular, indiretamente, essa postura gera o debate sobre a imposição de uma universalidade em detrimento da diversidade. Apesar de todos os esforços de Dewey e Cutter em subjugar a natureza caótica, estava claro que suas propostas não conseguiam acomodar adequadamente todas as especificidades. A proposta de vocabulários universais, com estruturas rígidas, não conseguiria atingir esse objetivo. Em parte, devido aos limites esboçados entre esse preterido público universal e os públicos marginalizados e excluídos. Dewey e Cutter não viviam ainda em um mundo tão complexo quanto o contemporâneo, assim não puderam antecipar os problemas enfrentados pelos sistemas de classificação do século XXI. 4.2 O tratamento da informação enquanto reiteração do saber competente A CDD e a LCSH de hoje em dia, carregam o legado de Dewey e Cutter, visto que reiteram procedimentos que têm o objetivo de produzir a uniformidade. O que está exposto nos catálogos da grande maioria das unidades de informação – bibliotecas, centros de documentação, por exemplo – é o interpretação das LDs realizada pelos indexadores. Tratase de um passo além dos princípios apresentados por Dewey e Cutter: o da aplicação
177 178

Idem, p. 141. Idem, p. 93.

67

técnica desses modelos.179 Eles possuem três características: um vocabulário limitado (a partir do qual um indexador escolhe termos para descrever o conteúdo de um documento); uma notação ou um cabeçalho para cada conceito; e uma estrutura que define as relações entre os conceitos. O profissional da informação, ao usar esses instrumentos de classificação, outorga um nome ao documento, rotulando-o e atribuindo a esse uma identidade. Essa postura – enquanto atividade técnica - não é isenta de uma visão de mundo baseada em experiências pessoais, crenças e paradigmas. O ato de representar um determinado assunto não consiste apenas em atribuir números de classificação, segundo a perspectiva deweyana, ou determinar o cabeçalho de assunto, segundo a perspectiva cutteriana. Olson denomina esse processo como “nomear”,180 pois não o entende como uma simples tarefa, mas como uma forma de poder ligado ao controle da representação dos conteúdos e do acesso aos assuntos. O ato de nomear está na base da construção dos SRIs, poderosas ferramentas que, ao impor a uniformidade, estabelecem - segundo a definição da autora - uma linguagem universal arbitrária, despótica, tirânica e violenta. As LDs – em questão - possuem a função de nomear o universo de conceitos presentes nas publicações mais generalizadas. O tratamento apoiado nesses instrumentos define os limites do sistema de representação no que se refere às suas inclusões e exclusões. Esse processo acaba produzindo sérios problemas face à imposição de uma linguagem universal para a representação dos assuntos.181 Para Olson, a necessidade desta imposição acabou por marginalizar e excluir os “outros” que não eram homens, brancos, ocidentais, burgueses, heterossexuais e cristãos.182 Dos setores sociais que mais contestaram a legitimidade dessas ferramentas, estava o das feministas – que possuem as melhores críticas documentadas - e se referiam ao sexismo presente na representação de materiais sobre e para mulheres.183 Enquanto resultado da crítica ao sexismo, foram empreendidas ações e reflexões com o objetivo de denunciar a parcialidade dos sistemas de representação.

179 180

Idem, p. 183-4. Idem, p. 4. 181 Idem, p. 6. 182 Idem, p. 142. 183 Idem, p. 7.

68

Esta parcialidade ocorria porque os sistemas foram montados a partir de oposições binárias, onde a relação hierárquica entre dois conceitos tornava um dominante e visível e o outro subordinado e invisível.184 Aqui é possível identificar uma das dicotomias existentes no pensamento ocidental, segundo a qual o sujeito autorizado a falar em nome da razão e da objetividade foi associado ao masculino, enquanto ao feminino coube o campo das emoções e da subjetividade. Por se ligar à razão o sujeito masculino produz o conhecimento e pode definir e impor seus modelos de “verdade universal” subordinando o dos “outros”. As feministas rejeitaram essa primazia masculina, buscando promover a revalorização da esfera feminina. Tal postura crítica produziu resultados e mudanças nas LDs, mas acabou gerando outros problemas. O tratamento igualitário entre os homens e as mulheres tentado pela CDD 21 demonstrou que algumas diferenças, hierarquicamente, acabaram sendo mais valorizadas do que as outras, gerando uma série de opressões. O resultado é que no topo da hierarquia haverá sempre um grupo reunido devido a sua especificidade - como as mulheres, por exemplo -, mas haverá a dispersão de outros grupos associados ao gênero feminino localizado em um nível hierárquico menor.185 Na CDD, o princípio básico é que as partes da classificação são arranjadas pela disciplina e não pelo tema. Porém quando se trata de acomodar materiais sobre identidades ligadas a grupos sociais, esses são classificados para ficar em conjunto (da mesma forma que um gueto), cada vez mais especifico se a identidade possuir outras sub-identidades – ligadas a gênero, raça, classe social, orientação sexual, religião – que vão sendo constituídas à medida que se recuperam as combinações possíveis através das tabelas que compõe a CDD.186 Assim, diversas facetas podem ser incluídas no número de classificação, visto que esse, primeiramente, é associado a um tema, no qual mais elementos são representados através das concatenações com outros números. Essa possibilidade, contudo, cria guetos onde o “outro” é colocado, sendo que, ao mesmo tempo, esse “outro” ocupa uma posição privilegiada sobre os demais “outros”. Desta forma, as diferenças vão sendo mapeadas, em nível de especificidade, e as subdivisões obedecem à hierarquia da uniformidade deweyana, construída a partir de uma
184 185

Idem, p. 179. Idem, p. 175. 186 Idem, p. 190.

69

primeira identidade delimitada pelo gênero masculino.187 Este dilema, segundo Olson, ainda pode ser tratado como uma oposição entre a idéia do gueto e a da diáspora, onde é possível isolar grupos marginalizados concentrando-os em uma área, em oposição à dispersão dos mesmos. Assim eles não têm uma existência concentrada em um local, mas correm o risco de serem assimilados noutras áreas da CDD e perderem sua identidade se não se concentrarem. O gueto e a diáspora, segundo a autora, são imagens espaciais delineadas a partir da experiência histórica de grupos marginalizados.188 O gueto é formado por uma concentração forçada de pessoas que dividem uma característica particular. Há diversos aspectos que criam e mantêm os guetos: social, econômico, político, psicológico. Um aspecto relevante da guetoização é o confinamento. Eles se institucionalizam de várias formas, inclusive nos catálogos das unidades de informação. Outro aspecto sobre os guetos, ressaltado pela autora, se refere à idéia da visibilidade. A visibilidade de grupos marginalizados faz do espaço um conceito importante que deve ser considerado pelo processo de representação temática. Os indivíduos que têm características comuns podem viver em espaços transparentes sem as barreiras do gueto. Em oposição, há o espaço do gueto que preserva as demais identidades, mas apresenta a visibilidade controlada do “outro”. O outro mecanismo a que se refere a autora é a diáspora, que funciona como um produtor de dispersão do grupo. Essa idéia também pode ser traduzida como a inexistência de raízes, de vínculos que liguem o sujeito a algum lugar. A diáspora altera o contexto referente aos grupos que não estão visíveis, pois são colocados em diferentes locais produzindo identidades híbridas.189 No arranjo característico da CDD esses problemas acabam ocorrendo, pois o sistema de classificação elaborado por Dewey não consegue evitar essa característica, particularmente quando a diversidade atravessa uma categoria. O autor, ao invocar a idéia de uma linguagem universal apoiada em processos racionais, não previu uma norma que estabelecesse o tratamento igualitário da diversidade humana. Tal fato está na raiz da falta

187 188

Idem, p. 212. Idem, p. 185. 189 Idem, p. 186.

70

de flexibilidade dessa linguagem.190 Se a CDD dilui ou guetoiza, ela o faz em nome de uma funcionalidade motivada pelas áreas de especialidades da razão. Dewey deixou os especialistas livres para estabelecer seus cânones. Eles definiram o que era menor, ou o que era o “outro”, relegando-o a uma posição secundária e amontoando-o com diversos “Outros” que partilhassem uma relação em um mesmo conceito, ou que fosse agrupado com algum conceito que fosse julgado grande o suficiente para ter seu próprio número.191 Os temas menores, então, compuseram essa hierarquia através de uma oposição binária. Eles são os membros subordinados aos temas maiores que são dominantes. Neste sentido, os temas menores passaram a ser considerados pequenos e menos importantes. A autoridade acadêmica que inicialmente orientou Dewey acabou por construir espaços de alocação dentro da CDD, semelhantes aos guetos urbanos.192 Se se esperava que a linguagem universal deweyana nomeasse a informação para dar-lhe uma identidade, ela também acabou por salientar a diferenciação. Essa estrutura, simbolicamente, resultou na marginalização de determinados grupos. Porém, a proposta de universalidade não era uma questão exclusiva à CDD: ela também estava presente na sistematização da LCSH. Neste mesmo período de Dewey, Cutter produzia uma linguagem restrita, uniforme e que subordinou tudo o que se adequava ao entendimento público. Para Cutter, a identidade era outorgada de acordo com o hábito público, assim como a autoridade era reconhecida através da obediência, da conformidade e da aceitação das regras. Nesse caso, o autor dimensiona a diversidade através da idéia do anormal, da exceção à norma, do desviante da regra pública. A partir de então Cutter colocou o não usual nas margens da linguagem universal, construída sobre princípios que marginavam ou excluíam os desvios. Para o não usual ser incluído deveria ser anormal demais, grotesco, ou incomum, sendo que apenas exemplos extremos eram considerados de interesse do público.193 O tratamento do outro não era feito na base de uma exclusão absoluta, mas de uma marginalização que o escondia atrás do termo majoritário, reconhecido enquanto identidade validada na autoridade do público.

190 191

Idem, p. 175. Idem, p. 122. 192 Idem, p. 181. 193 Idem, p. 81.

71

Nesse caso, os valores deste poderiam apagar tópicos relacionados ao interesse minoritário por não considerá-los importantes para a maioria da sociedade.194 O tópico marginalizado pelo público não tinha uma voz para nomeá-lo.195 O que era o mesmo que dizer que não podia ser expresso nesta linguagem. O diferente era inexprimível, tendo assim a sua identidade negada em oposição à identidade aceita pela maioria. Esse modelo refletia os produtos resultantes vistos pelos usuários: os catálogos.196 Essa autoridade era responsável pela restrição do vocabulário. Provavelmente os editores da LCSH, com o passar do tempo, reconheceram que essa singularidade não funcionava sempre, porque começaram a alterar os cabeçalhos da LCSH. Em 1996, por exemplo, a palavra “Seres Humanos” substituiu a palavra “Homem” no cabeçalho da LCSH. Até então “Homem” ainda era usado como um termo genérico para se referir à humanidade. Na hierarquia da lista, era o termo dominante, ou a norma, que podia ser entendido tanto em nível biológico quanto antropológico. As palavras “mulheres” e “homens” eram termos menores de “Homem”. Nesta hierarquia, “mulheres” eram subordinadas a “Homem”.197 O termo “Homem”, ideologicamente, destacava o poder dos poucos privilegiados que dominaram, e ainda dominam, o ocidente. Essa universalização criava uma categoria hegemônica que tinha o poder de definir. Assim, nas relações hierárquicas do cabeçalho de assunto, os termos “menores” eram definidos como subordinados aos termos maiores, visto que conceitualmente estavam contidos por sua cobertura.198 Esse aspecto expõe os limites, sistematizados por Cutter, entre universalidade e diversidade, revelando como estes se referem mais a questões construídas sob um determinado contexto social – apoiados mais no entendimento público do que em fatos inatos. A proposta de Cutter é parte da cultura na qual ela cresceu, baseada, também, no dualismo da lógica cartesiana, valorizando a razão pública e rejeitando a diversidade (mesmo tacitamente quando reconhecia sua existência). Entretanto, as inconsistências da proposta cutteriana levaram ao reconhecimento de que era preciso fazer revisões e

194 195

Idem, p. 93. Idem, p. 143. 196 Idem, p. 144. 197 Idem, p. 149. 198 Idem, p. 150.

72

acréscimos periodicamente na LCSH,199 o que possibilitou a inclusão de temas para os quais originalmente ainda não havia representação. Na concepção de Dewey e Cutter, os modelos de representação temática homogeneizaram e rejeitavam as exceções e as diferenças.200 Tal fato ocorreu porque o processo de sistematização propôs a contraposições de nomes, criando situações propícias ao emprego privilegiado de uma identidade. A aplicação desses princípios, num primeiro momento, fez com que os profissionais da informação reiterassem o discurso autorizado, e posteriormente, criticassem esse discurso por marginalizar ou excluir a diversidade. Essa atitude abriu espaço à revisão dos limites entre o sujeito e o “outro”. O aparecimento de tal elemento passa a diluir essa polaridade binária, colocando questões que as LDs tradicionais não conseguiam resolver. O caminho estava aberto às novas propostas.

4.3 A hierarquia dos “termos” modernos: Homossexualismo/ Psiquiatria

Desde as implementações das propostas de Melvil Dewey e de Charles Cutter, ocorreram muita mudanças referentes à CDD e a LSCH, mas o acesso aos assuntos, durante muitos anos, foi veículo de valores que privilegiaram discursos do pensamento dominante. Os tabus, propagados através desses discursos pretendiam legitimar a ordem – entendida como razão científica e razão pública – por temor da anarquia, ou medo do caos, marca da civilização montada sob os moldes do homem burguês. No próprio Oxford English Dictionary, à época de Dewey e Cutter, havia a definição que apresentava uma leitura da anarquia, e da falta de ordem, como “desordem moral” e “ausência ou não reconhecimento da autoridade e da ordem em nenhuma esfera”.201 Nessa perspectiva, a ordem era uma condição na qual todas as coisas estavam num lugar apropriado, desempenhando funções de uso apropriadas e em obediência a uma autoridade constituída. Essa definição não era apenas ideal, mas transparecia através da sistematização presente nos catálogos e nas atitudes dos profissionais presentes nas bibliotecas.

199 200

Idem, p. 167. Idem, p. 106. 201 Idem, p. 16.

73

Olson apresenta o relato de Judy Grahn202 que, em 1961, ao tentar conseguir livros que tratavam do tema homossexualidade, foi informada de que esses assuntos eram acessíveis apenas a acadêmicos, psiquiatras e advogados, porque eram esses profissionais que lidavam com temas referentes a doenças mentais e à criminalidade. O que mais impressionou Judy foi o fato de que as próprias palavras referentes ao tema – homossexual ou lésbica - sequer tenham sido proferidas pelos bibliotecários. O cuidado de não nomear parece seguir, religiosamente, a orientação dada pelo apóstolo Paulo, em sua epístola aos Efésios (como já foi tratado no segundo capítulo). Outra especulação, paralela em nível religioso, é a de que a organização da uniformidade da linguagem, a partir do ato de nomear, é tomada pelo gênero masculino, de forma semelhante ao poder dado a Adão por Deus.203 Essas considerações reiteram a idéia de que os valores os religiosos parecem ter sido traduzidos para a modernidade científica, que os legitima pelo poder da razão, e que, posteriormente, esses mesmos valores passam a se refletir no processo de mediação realizada pelos profissionais nas bibliotecas. O relato de Judy Grahn, presente na reflexão de Olson,204 é importante para entendermos todo esse processo e como o acesso ao assunto homossexualidade era tratado em bibliotecas norte-americanas no início dos anos sessenta. Essas atitudes, segundo a autora, se originaram de uma aceitação, inquestionável, de pressupostos presentes no senso comum.205 Ela se refere a Foskett, quando este escreveu sobre o problema, afirmando que os criadores dos esquemas de sistematização das linguagens não escapavam as compreensões dadas por suas experiências pessoais e pelo contexto temporal, o que os conduzia a resultados “preconceituosos”.206 Poucas mudanças, efetivamente, ocorreram no tocante ao tratamento da informação para homossexuais, assim como para outros grupos minoritários, sendo identificado três problemas: a maioria das representações se baseia numa visão parcial; elas não atendem a um tratamento igualitário para denotar as diferenças; elas homogeneizam os resultados,

202

GRAHN, Judy. Another Mother Tongue. Gay Words, Gay Worlds. Boston: Beaton Press, 1984. p. xi. apud: OLSON, Hope A. Op. Cit., p. 2. 203 OLSON, Hope A. Op. Cit., p. 129. 204 GRAHN, Judy. Op.Cit, p. xi. apud: OLSON, Hope A. Op. Cit., p. 2. 205 OLSON, Hope A. Op. Cit.,, p. 3. 206 FOSKETT, A.C. Op. Cit, 117-21. apud: OLSON, Hope A. Op. Cit., p. 7.

74

impondo uma linguagem universal em diversos contextos.207 A representação da homossexualidade na CDD e na LCSH foi afetada pelos padrões herdados de Dewey e de Cutter, pois a tentativa desses autores em produzir linguagens universais acabou por gerar setores colocados nas margens dos sistemas. Na CDD, não é possível atingir a proposta original do autor, visto que o conceito de universalidade é aplicado como se contemplasse a diversidade.208 Nesse sentido, a classificação das publicações sobre homossexualidade vai encontrar dificuldades. Como a organização é feita por áreas do conhecimento, o material pode ser classificado em, pelo menos, três locais diferentes: Ciências Sociais (classe 300), Artes (700) e Literatura (classe 800), podendo gerar o efeito da diáspora, onde as informações são colocadas em lugares separados sob diferentes classificações. Por outro lado, também há o fenômeno da guetoização, visto que o número geral de um assunto – como “Estratificação Social” - é separado por meio de números específicos. Assim, a seção para gays e lésbicas é a “305”, e eles ficam juntos com outros grupos sociais que tenham características em comum, tais como: raça, classe social, religião, etnia.209 Para se estabelecer uma distinção entre esses segmentos, a CDD faz o uso das tabelas. Ao fazer a classificação a CDD estabelece caminhos – ou por meio da orientação sexual, ou por meio da raça -, que sedimentam os guetos e que acabam privilegiando a representação de um aspecto referente a identidade em detrimento dos “outros”.210 Na CDD, a Tabela 1 possui a categoria numérica para homens gays acompanhada por lésbicas (reiterando o padrão de listar o gênero feminino após o masculino). Para uma melhor visualização dessa organização fomos buscar essa forma de sistematização na Tabela 1 da vigésima primeira edição da CDD,211 a partir da qual serão reproduzidos trechos, colocados dentro de quadros e com destaque para as frases em negrito, com o objetivo de apresentar o caminho realizado para se sistematizar a informação referente a gays, lésbicas, bissexuais e transsexuais no seu interior:

207 208

OLSON, Hope A. Op. Cit., p. 9. Idem, p. 223. 209 Idem, p. 175. 210 Idem, p. 222. 211 Dewey Decimal Classification and relative index. Edition 21. Albany: Forest Press, 1996. Vol. 1. p. 3-28.

75

TABLE 1. Standard Subdivisions SUMMARY - 01 Philosophy and theory - 02 Miscellany - 03 Dictionaries, encyclopedias, concordances - 04 Special topics - 05 Serial publications - 06 Organizations and management - 07 Education, research, related topics - 08 History and description with respect to kinds of persons - 09 Historical geographic, persons treatement - 08 History and description with respect to kinds of persons SUMMARY - 080 1-080 9 Forecasting, statistics, illustrations, serials, museums and collecting, historical and geographic treatment - 081 Men - 082 Women - 083 Young people - 084 Persons in specific stages of adulthood - 085 Relatives Parents - 086 Persons by miscellaneous social characteristics - 087 Persons with disabilities and illnesses, gifted persons - 088 Occupational and religious groups - 089 Racial, ethnic, national groups - 086 *Persons by miscellaneous social characteristics Not provided for elsewhere - 086 2 * Persons by social and economic levels - 086 3 *Persons by level of cultural development

- 086 5

*Persons by marriage status

- 086 6

*Persons by sexual orientation Including persons with no sexual orientation, transsexuals - 086 62 *Heterosexuals - 086 63 *Bisexuals - 086 64 *Gays - 086 642 *Gay men - 086 643 *Lesbians

76

Trata-se das identidades de gênero sexual contempladas pelo esquema deweyano e elaboradas enquanto definições adequadas à hierarquia da Tabela 1, sendo incluídas através dos tópicos destinados às pessoas em virtude da orientação sexual.212 É preciso destacar ainda o caso dos “estudos queer” que por causa da novidade histórica e da sua proposta teórica são considerados de difícil classificação.213 A LSCH também possui aspectos que precisam ser destacados no tocante ao tratamento da homossexualidade. Desde 1897, Cutter através de sua obra - Rules for a Dictionary Catalog – revelou já possuir a consciência sobre o uso do termo “inversão” Havelock Ellis já escrevia sobre esse assunto -,214 porém, como foi visto, ele defendia que o catálogo deveria utilizar a terminologia mais corrente e familiar ao público. Essa proposta, apoiada na perspectiva do “público singular”, é criticada por Olson, pois a autora a considera um fator que oprime e marginaliza as pessoas que não compartilham das normas do público majoritário, entre elas, as que se referem à orientação sexual.215 Olson não foi a primeira a se contrapor a essa perspectiva cutteriana. Em 1971, Sanford Berman,216 à época indexador na Hennepin County Library, apresentou o trabalho “Prejudices and Antipathies: A Tract on the LC Subject Heads Concerning People”, onde também criticou a forma como este tema era representado na LCSH. Seu trabalho é importante porque, além de colocar o problema em evidência, propõe mudanças sobre o tratamento do assunto na LCSH. Ellen Greenblatt em seu artigo “Homosexuality: The Evolution of a Concept in the Library of Congress Subject Headings” recupera a história do termo “Homossexualidade”, demonstrando como até 1946 este foi um sub-tópico de “Perversão Sexual.”
OLSON, Hope A. Op. Cit., p. 219. O termo queer, como foi visto no capítulo segundo, originalmente era utilizado de forma pejorativa, depois passou a ser adotado como uma afirmação positiva pelo movimento GLBT. No campo teórico fundamentou uma linha de estudos referentes à descontrução das identidades de gênero sexual. PARKER, Richard. Abaixo do equador: culturas do desejo, homossexualidade masculina e comunidade gay no Brasil. Rio de Janeiro/ São Paulo: Record, 2002. p. 26. 214 OLSON, Hope A. Op. Cit., p. 75. 215 CAMPBELL, G. Queer theory and the creation of contextual subject access tools for gay and lesbian communities. Knowledge Organization. 27 (3) 2000, p.128. 216 BERMAN, Sanford. Prejudices and antipathies: a tract on the LC subject heads concerning people. Metuchen, N.J.: The Scarecrow Press, Inc., 1971. apud: MOYA, Cynthia Ann. Chapter 5: Libraries visited for this study In: Talking About Pornography: A Comparative Subject Analysis of Sexually Explicit Materials. Disponível no: http://www.green-bean.com/cynde/TalkingAboutPorn.htm acessado em 20 de agosto de 2004.
213 212

77

Posteriormente, a palavra homossexualidade passou a ser utilizada como cabeçalho, sendo que havia um re-direcionamento de “Perversão Sexual” para “Homossexualidade”. À época, segundo a autora, “Perversão Sexual” passou a ser denominada “Desvio Sexual” e essa expressão permaneceu até 1972.217 Naquela época, a autora alertava que embora a LC, supostamente, devesse fazer mais o uso da linguagem pública corrente, na verdade adotava termos médicos e científicos. Se fosse para utilizar o princípio correto, deveria ter adotado o termo “gays”, utilizando-o preferencialmente à “Homossexualidade”. Posteriormente, ela chamou a atenção para o fato de que apesar do “The New York Times” fazer uso do termo há muitos anos, “gays” passou a compor a LCSH apenas em 1987. Nesse sentido, a postura da LC, enquanto responsável pelas atualizações da LCSH, era a de ser muito lenta em implementar mudanças para refletir uma terminologia de uso comum do público. Na LCSH, a propensão em representar grupos marginalizados e tópicos ligados às questões como a da orientação sexual, ganhou voz nos últimos vinte e cinco anos e ainda não foram totalmente abrangidas.218 Uma das possíveis razões é que a proposta da necessidade de uma linguagem universal, deixada por Cutter, criou a expectativa de um sistema capaz de incluir todas as coisas o que, na realidade, é algo inconsistente já que há diferenças advindas do contexto temporal.219 Para se explorar o limite entre a diversidade e a universalidade na LCSH, é preciso aproximá-la da seguinte dualidade: as referências de equivalência e as referências de relação. As referências de equivalência dirigem os usuários de termos não escolhidos (sinônimos, por exemplo) para o cabeçalho autorizado.220 Nelas, a escolha de um termo em relação aos “outros” indica que todos são o mesmo, estabelecendo, assim, a equivalência entre termos que em princípio não são equivalentes para os usuários.221 Já as referências feitas por relação são de vários tipos, mas - principalmente – servem para estabelecer as
O texto não informa precisamente como ocorreu o processo de mudança da expressão “perversão sexual” para “desvio sexual”. GREENBLATT, Ellen. Homosexuality: The Evolution of a Concept in the Library of Congress Subject Headings. In: Gay and Lesbian Library Service. GOUGH Cal; GREENBLATT, Ellen. (ed.),. Jefferson, NC: McFarland & Company, 1990. p. 75-101. apud: MOYA, Cynthia Ann. Op. Cit. 218 OLSON, Hope A. Op. Cit., p. 143. 219 Idem, p. 222. 220 Embora o texto da autora proporcione um entendimento que coloca a idéia de oposição entre referências de equivalência e referências de relação, do ponto de vista da estrutura lingüística as referências de equivalência também são referências de relação. Apontamentos de aula da professora Marilda Lopes Ginez de Lara. 221 OLSON, Hope A. Op. Cit., p. 146.
217

78

relações hierárquicas. Os termos gerais (BT: Broader terms) estão situados no plano hierárquico maior e criam o contexto. Nesse caso, a palavra “minorias”, enquanto termo geral, serve para contextualizar o termo “gays”, relacionando, e subjugando hierarquicamente, diversas questões: gênero, raça, etnia e orientação sexual (gays,

lésbicas). O BT normalmente não aparece para os usuários no catálogo, contudo, é responsável pelo contexto de um cabeçalho. Os termos específicos (NT: Narrower terms) estão postos no sentido hierárquico inverso. No caso, o termo “gays” está abaixo do termo “minorias”. Além disso, os usuários poderão ser convidados a vê-lo através da referência “veja também”. Essas referências permitem a especificação de cabeçalhos. No caso de “minorias”, como já foi dito, há diversos grupos listados na LCSH. A estrutura criada para essas referências põe o cabeçalho “minorias” no centro da hierarquia, ao mesmo tempo em que concentra todos esses grupos no mesmo local.222 Há referências que não representam uma relação hierárquica: trata-se do termo relacionado (RT: Related term), também conhecido como uma relação associativa. Neste exemplo “Discriminação” é um termo relacionado a “Minorias”. Ainda há duas divisões adicionais para entrada de dados - que fornecem informação contextual -, a maior é denominada “Nota Explicativa” (SN: Scope Note) que define o cabeçalho. E a própria forma de classificação da LCC.223 Nela, por exemplo, há números de referência na área de “Sociologia” e na área de “Psiquiatria” que servem para contextualizar o tema homossexualidade. No caso da última área, ela possibilita que este seja representado ainda como uma patologia. O termo “minoria” – entendido não como categoria numérica, mas como categoria sociológica e política -, ao ser veiculado pela LCSH, traz em sua definição aspectos que fazem a representação dos grupos não-dominantes. Deve-se chamar a atenção para o fato de que esses termos se constituíram não pelos sujeitos que, por meio deles, foram enunciados, mas pelo seu contrário, pelo dominador, enquanto a palavra “discriminação”, utilizada como termo relacionado, reitera as questões sócio-culturais, dela decorrentes, referentes à opressão e à estigmatização dos grupos minoritários

222 223

Idem, p. 147. Idem, p. 148.

79

No tocante à seleção desses termos, os indexadores da LC são instruídos por um documento - o Manual da LCSH - que estabelece as regras para a elaboração dos cabeçalhos.224 Neste ponto, os críticos afirmam que a LCSH, mesmo ao adotar a política de atualização da LC, buscando os termos e as categorias mais correntes, rejeitando os mais antigos ou os tratando como equivalentes, produzem respostas inertes, apoiadas num ponto de vista obsoleto ou ultrapassado, em relação aos temas ligados à homossexualidade. Tal perspectiva, segundo a compreensão crítica, corre o risco de perder a dimensão histórica, impedindo os pesquisadores de mapear a evolução dos termos correntes e dos conceitos de um período para outro.225 As LDs tradicionais, portanto, não são ferramentas neutras, elas refletem os valores dominantes. O problema mais presente está no limite de seus sistemas de representação: eles não dão conta da universalidade, seja através dos números de classificação da CDD, ou do cabeçalho de assunto da LCSH que não traduzem satisfatoriamente conceitos referentes aos “outros”. Na verdade, essas ferramentas, enquanto linguagens universais, colocam a diversidade na marginalidade de suas linguagens. Neste ponto, os estudo mais recentes sobre as necessidades de informação de gays e lésbicas, anunciam um caminho diferente, no qual seja possível ao “outro” construir, no seu espaço de alteridade, as suas representações.

4.4 A transição: dos conceitos hierárquicos à dinâmica da desconstrução

Parte da dificuldade de se representar as coleções através da CDD e da LCSH está em acomodar os temas mais a partir da universalidade do que da diversidade, da semelhança do que da diferença. Nelas, os indexadores obedecem às instruções fornecidas para a sistematização. Nas LDs tradicionais, as estruturas produzem arquivos lineares construídos sobre bases hierárquicas. A linearidade da CDD é numérica e a da LCSH é alfabética e suas bases contemplam uma combinação parcial, marcada pelo privilégio de

224 225

Idem, p. 223. CAMPBELL, G. Queer theory and the creation of contextual subject access tools for gay and lesbian communities. Knowledge Organization. 27 (3) 2000, p.128.

80

umas categorias em relação às outras.226 Em ambos os casos, a linguagem universal não é uma linguagem estática, embora seja efetivamente controlada e oferece algumas possibilidades para mudanças. A CDD e a LCSH possibilitam um bom número de traduções, mas não se definem como uma fórmula mágica de representação para a existência inteira (ou de todas as informações), e em todos os contextos, sem provocar marginalizações e exclusões.227 Segundo Olson,228 Drucilla Cornell, em sua obra “The Philosophy of the Limit”, apresenta uma estrutura teórica para a transformação deste contexto, na região dos limites de um sistema de representação, onde se pode localizar o espaço da marginalização e da exclusão. A partir desta constatação, a autora enfatiza que é preciso deixar o “outro” (os marginalizados e os excluídos) falarem por si mesmos. Trata-se do desenvolvimento de uma relação ética, onde o “outro” é guiado por princípios – não obtusos - para planejar uma técnica ativa de representação das suas necessidades de informação, rompendo assim com os limites onde foram colocados. Essa proposta pode criar espaços legítimos para a expressão da voz do “outro”. Olson denomina essas técnicas como “excêntricas”, na perspectiva de que a origem grega dessa palavra a define como “fora do centro”, ou seja, o “outro” deve trabalhar não a partir do centro, mas a partir das margens - de qualquer sistema em uso. Assim deve romper com os limites construídos, elaborando o próprio espaço e sendo dinâmico no tocante às mudanças do contexto local e temporal.229 Esta proposta se manifestou na pesquisa sobre os sistemas de representação, a qual abraçou a idéia da multiplicidade e da identidade comunitária, afirma Olson ao comentar a proposta de Cornel. 230 Essa aproximação forneceu elementos para a revisão das ferramentas correntes, projetando o desenvolvimento de novos caminhos. Se uma vez o Classification Research Group sonhou com a unidade de classificação de diversos temas específicos dentro de um grande sistema, propondo mecanismos teóricos universais, atualmente a pesquisa sobre classificação está se movendo na direção oposta.
226 227

OLSON, Hope A. Op. Cit., p. 192-3 Idem, p. 223-5. 228 CORNELL, Drucilla. The Philosophy of the Limit. New York: Routledge, 1992. apud: OLSON, Hope A. Op. Cit., Idem, p. 227. 229 OLSON, Hope A. Op. Cit., Idem, p. 227. 230 CORNELL, Drucilla. Op. Cit. New York: Routledge, 1992. apud: OLSON, Hope A. Op. Cit., p. 227.

81

Hoje em dia, fala-se da redefinição do controle de autoridade através do estabelecimento de múltiplos termos autorizados. Hanne Albrechtsen,231 por exemplo, sugeriu a expressão “ecologias da informação”, a qual se refere à elaboração de sistemas que atendem a necessidades de informações de um determinado meio, o qual se estabelece dentro da especificidade de um contexto. Além disso, não se ostenta mais a crença de que um esquema de classificação seja culturalmente neutro e, portanto, aplicável universalmente, mas se reconhece a sua relatividade em relação aos demais.232 Estas novidades afetaram o segmento GLBT, cuja crescente influência e visibilidade conduziu a novas reflexões no tocante ao tratamento de suas necessidades de informação: histórica, intelectual, social e política. Ao admitir a existência das bases culturais diferenciadas e das parcialidades, os pesquisadores olharam, inevitavelmente, tais segmentos se empenhando em atualizar os esquemas existentes e em criar outros novos. O resultado ideal seria aproveitar os vocabulários já construídos e recuperar as categorias de classificação sobre o segmento GLBT. Porém, os teóricos da área embarcaram nesse novo cenário com suspeitas acerca das próprias técnicas e tradições referentes aos sistemas de representação. A teoria sobre a representação temática entrou em um período altamente politizado. Nessa época, os pesquisadores partem do pressuposto de que não há mais ingenuidade: o saber e o poder se entrelaçam no significado que circula com as informações. Não se trata de uma crise que aflige apenas esse campo de estudos, mas se estende a outros que descobriram que seus “axiomas” universais pertencem, efetivamente, a um contexto e atendem às necessidades de um grupo dominante, devendo ser revisados para acomodar as preocupações dos grupos “marginalizados”.233 Essa abordagem reconhece que a presença de categorias universais no sistema de acesso à informação reitera a idéia de um desvio à norma majoritária. Nesse caso, sistemas que empreendem um esquema diferente, a partir das margens, se alicerçam na legitimidade que outros segmentos têm à expressão, vistos até então como opostos à norma. Neles, os
231

ALBRECHTSEN, Hanne. “Keynote Adress Extanded Abstract: The dynanism and stability of classification in information ecologies – problems and possibilities. In: BEGHTOL, Calre. Et al. (ed.) Dynamism and Stability in Knowledge Organization: Proocedings of the Sixth International ISKO Conference, 10-13 July 2000, Toronto, Canada. Wurzburg: Ergon Verlag, 2000. p. 1-2. 232 CAMPBELL, G. Op. Cit., p. 123. 233 Ibidem.

82

termos, conceitos e categorias são adotados para refletir uma posição cultural específica, mais do que se referir a um sistema essencial e inato composto por categorias universais. Quando os sistemas de classificação começaram a se basear nas necessidades de comunidades específicas, como a GLBT, eles delinearam os princípios sobre o pensamento - corrente nas pesquisas contemporâneas – relacionado ao tratamento da informação. Nesse caso, de que um sistema é contextual, socialmente determinado e culturalmente relativo. Esses sistemas, por si mesmos, assim como as pessoas que o projetaram e o usam, têm consciência de que os esquemas adotados são resultados de suas posições e tendências. Se espera, também, que os elaboradores dos novos sistemas de classificação articulem suas posições às da comunidade para quem o esquema será projetado. Esse posicionamento fará parte, fundamentalmente, da natureza da ferramenta, e se tornará o meio através do qual leitores, usuários e críticos do sistema se rebelarão e encontrarão novas categorias transitórias. Os projetistas das ferramentas de acesso à informação terão que se questionar sobre quem será o usuário do sistema. Além disso, esse exame nunca terminará, e será algo com que os projetistas terão que se acostumar.234 Essas novidades atraíram pesquisas consideráveis no campo de estudos da informação, tanto dos profissionais (ao criar e implementar ferramentas de acesso mais eficientes) quanto dos teóricos (ao tentar articular os fundamentos conceituais sobre os quais estas ferramentas se apóiam). Dois problemas têm desafiado aplicação técnica das LDs tradicionais nos anos recentes: primeiro se percebe que a determinação do conteúdo temático de um assunto é um processo subjetivo inerente, cuja representação é difícil de ser reproduzida identicamente por indexadores diferentes. Segundo é que as ferramentas que buscam oferecer acesso “universal”, como a CDD ou a LCSH, prestam acesso inadequado a grupos “marginalizados”.235 Os termos que aparecem nessas ferramentas para representar segmentos definidos pela orientação sexual, freqüentemente, são inadequados. Os posicionamentos destes termos, nas categorias de classificação, refletem ideologias e compreensões que são inválidas ou datadas, e essas ferramentas não fornecem distinções refinadas para satisfazer

234 235

Idem, p. 129 Idem, p. 122.

83

as necessidades de informação do segmento gay e lésbico. Enquanto resultado destes problemas, os pesquisadores que estudam sobre os sistemas de representação se tornaram céticos em relação a um de seus princípios fundamentais: o de que o documento tem um conteúdo temático inato, o qual é reconhecido pelo indexador e depois é traduzido para a linguagem documentária.236 Hoje, aceita-se a idéia de que o profissional ao reproduzir essa prática reitera, sem qualquer posicionamento crítico, os valores ideológicos que sustentam a construção social. Nos anos setenta e oitenta, a comunidade de estudos literários da Europa e da América do Norte experimentou uma revolução epistemológica similar a que a pesquisa sobre classificação enfrenta no final dos anos noventa. Os críticos literários foram forçados a reconhecer que suas técnicas e hipóteses - ligadas à perspectiva universal - eram importantes, mas que certas comunidades e minorias necessitavam de novas técnicas e de hipóteses diferentes. Particularmente, o aparecimento dos estudos sobre gays e lésbicas, e posteriormente sobre a teoria “queer”, motivou a comunidade de estudos literários a re-examinar muitos de seus textos canônicos e a vê-los de uma forma diferente. De repente, as obras “marginalizadas” – entendidas aqui como colocadas à margem dos sistemas teóricos adquiriram um novo interesse e obras clássicas, consideradas até então sobre outro viés, tiveram seus temas ligados à homossexualidade investigados.237 Essa postura se tornou ainda mais problemática com a incapacidade do próprio termo “homossexualidade” servir como referência à comunidade GLBT. Neste ponto, ainda não há consenso sobre esse debate. O eixo da discussão gira em torno da idéia de que há experiências não categorizadas e, portanto, obscurecidas embaixo do termo “homossexualidade”. Assim, a representação delas está esperando para ser desvelada e nomeada.238 Este debate revela que o tratamento da informação, mesmo que seja feito a partir das margens, também pode produzir outras formas de “uniformidade” que escondam a diversidade. Essa ferramenta - com o objetivo de tratar diferentes aspectos sobre a comunidade GLBT -, terá que ser altamente sensível ao tentar compor o sistema de representação,
236 237

Ibidem. Idem, p. 123. 238 Idem, p. 128.

84

inclusive quanto for tratar de diferentes momentos da história para não impor termos contemporâneos para outras épocas, tendo que recuperar seus significados longínquos e variados. Tais como palavras presentes em documentos provenientes de diversos contextos, desde a antiguidade, do período medieval ou mesmo da época contemporânea. Particularmente, esse é o caso para termos como “sodomia”, por exemplo, ao qual Foucault designa como uma “categoria extremamente confusa”, e que foi usada para denotar atividades tão diversas como bestialidade, masturbação, pederastia ou luxúria, entre outras. Atualmente, pode se referir a sexo oral, ou anal, mesmo entre pessoas heterossexuais casadas, e pode ser utilizada enquanto categoria criminal, em alguns países, para colocar pessoas na prisão. Nesse caso, a reflexão dos pesquisadores deve levar em consideração todos esses desenvolvimentos terminológicos. 239 Além disso, os membros da comunidade GLBT, público para quem esse sistema será destinado, ocupam duas perspectivas distintas, mas relacionadas às suas necessidades de informação: por um lado, há a aqueles que entendem suas identidades como permanentes e imutáveis; e por outro, aqueles que acreditam que as identidades sejam socialmente construídas. Nos dois casos, mesmo que suas categorias sejam fluídas e instáveis, eles desejam ter o sentimento de pertencimento a uma comunidade. Há outra perspectiva, desenvolvida a partir da teoria “queer”, que dilui completamente a questão das identidades de gênero sexual, afastando-as do ser um comportamento possível de ser definido, mesmo quando é tratada através da perspectiva construcionista. Na verdade, os teóricos evitam se colocar na posição de prestar testemunho às manifestações que possam ser apropriadas em nível de definição, face ao declínio das construções formais sobre qualquer fenômeno que se cristalize enquanto uma identidade. A academia, especificamente os estudiosos que se engajaram nessa perspectiva, enfrentaram – e enfrentam - uma enorme oposição de membros da comunidade GLBT que afirmam que existe algo que pode ser denominado, pelo menos em nível de suas experiências. Os pesquisadores da área de representação temática podem aguardar para serem dilacerados, como aconteceu com os críticos literários e os historiadores, que ficaram a meio caminho entre a academia e a comunidade GLBT.240

239 240

Ibidem. Ibidem.

85

As teorias de classificação da comunidade GLBT podem ser divididas entre dois conceitos de sobrevivência: o da integração em um inteiro universal; e o da separação numa minoria visível.241 Ao conhecer essas ambigüidades, os estudiosos da área de classificação estarão melhores posicionados para criar ferramentas novas, e melhores, para o acesso à informação deste segmento, mesmo que seja para limitar o sistema aos objetivos e preocupações de uma comunidade em particular.

241

Idem, p. 129.

86

5 O desafio das mudanças provocadas pela explosão da informação

A partir dos anos cinqüenta, o conceito de LDs (que na reflexão de Dewey e Cutter podiam abarcar a universalidade), passou por um forte processo de transformação. Começaram a ocorrer dinâmicas não previstas pelos sistemas de classificação, entre as quais: um enorme aumento na produtividade de informação; origem de movimentos sociais com necessidades específicas; e uma liberação impressionante do potencial da razão moderna, antes bloqueado pelos valores da religião ocidental, que se acentuou através da racionalidade comunicativa.242 Surgem novas propostas de classificação, entre elas os “thesauri”. Esses instrumentos passaram a classificar a informação de campos cada vez mais específicos. Essas linguagens pareciam dar respostas mais adequadas aos problemas que Dewey e Cutter não tinham como dimensionar. As novas ferramentas exploraram, entre muitos aspectos, a presença do “outro”, da diversidade, caminhando em sentido oposto à universalidade de sistemas binários e hierarquizados, como os da CDD e da LCSH: os modelos deweyano e cutteriano não podiam mais fazer uma representação satisfatória do mundo que surgira. No decorrer dos anos sessenta, novos sujeitos – ligados ao debate sobre gênero, raça, orientação sexual - estavam dando uma nova dimensão às lutas política. Naquele momento, a homossexualidade se tornou uma instância de debate dos próprios homossexuais. Eles rompiam com a visão do "homossexual" estabelecida nos moldes do conhecimento instituído, dando mais atenção a como a ciência e a atuação política haviam interagido na sua construção social. É importante destacar: os bibliotecários e os arquivistas estiveram na vanguarda desses movimentos, trabalhando para coletar e preservar materiais relevantes para a história e a cultura GLBT. Além disso, diante da incapacidade das LDs tradicionais em fazer a representação dessas novidades, eles projetaram “ferramentas” com o objetivo de classificar a informação utilizada pelo público GLBT: tesauros para esse público. Esses instrumentos apesar de possuirem qualificação técnica em seus sistemas de classificação, em nível de arranjo, de estrutura conceitual, não estavam livres dos valores políticos e
242

ROUANET, Paulo Sérgio. Razões do Iluminismo. São Paulo: Cia das Letras, 1989. p. 147-8.

87

ideológicos propagados pelas organizações a que atendiam.

5.1 Quando novos sujeitos entram em cena: o segmento GLBT

Embora a rebelião de “Stonewall” seja um evento bem conhecido no meio gay e lésbico, a comunidade, em geral, não possui consciência sobre outros movimentos que antecedem esse fato. Nos Estados Unidos, por exemplo, o ativismo - social e político - das minorias sexuais provavelmente começou quando Henry Gerber e alguns associados formaram a Society for Human Rights (SHR)no ano de 1924, em Chicago. Acredita-se que essa organização tenha sido o primeiro grupo de consciência social gay e lésbico norteamericano. A organização foi registrada pelo estado de Illinois e lançou alguns números de uma publicação que pertencia à SHR, a “Friendship and Freedom”. Porém, os seus participantes acabaram sendo presos e expostos ao escrutínio público.243 Outros movimentos semelhantes a este surgiram depois, como a “Mattachine Society”, em 1951, e a “Daughters of Bilitis”, em 1953. Em nível de projeção política, o movimento por direitos gays e lésbicos, tanto nos Estados Unidos quanto em qualquer outro lugar do mundo, fincou suas bandeiras após as rebeliões de Stonewall, iniciadas na cidade de Nova Iorque em 28 de junho de 1969. Este evento é considerado pelos historiadores como o início da radicalização da defesa dos interesses e de origem do futuro segmento GLBT. Depois de Stonewall, muito gays e lésbicas abandonaram o modelo integracionista de aceitação, em favor de um movimento separatista que enfatizava as características exclusivas de um estilo de vida. Esta mudança de atitudes teve um efeito enorme sobre a cultura gay e lésbica, influenciando o papel desenvolvido por diversas instituições, entre as quais, bibliotecas e arquivos específicos para as minorias sexuais.244 Stonewall representa a explosão de uma de inquietude silenciada – por décadas -, alimentada pelos sentimentos de injustiça, desamparo, exclusão, vivenciados por muitos gays e lésbicas. Aparentemente, a catálise necessária para a ação foi o clima político dos anos sessenta, com forte ênfase nas idéias de justiça e de igualdade social. De fato, os
243

LUKENBILL, W. B. Modern gay and lesbian libraries and archives in North America: a study in community identity and affirmation. Library Management. 23 (1/2) 2002, p. 93. 244 Ibidem.

88

movimento minoritário deste período estava intimamente ligado ao movimento pelos direitos civis norte-americanos – este foi utilizado como um modelo -, e com o qual gays e lésbicas estiveram envolvidos.245 Os movimentos sociais, deste período, surgiram com propósito à resolução de problemas específicos, desenvolvendo formas de convivência e participação que foram vividas como positivas em si mesmas.246 Os grupos, relacionados às questões minoritárias, apesar de sua composição heterogênea, internamente procuravam enfatizar a igualdade de seus integrantes. Assim, o movimento feminista ganhou um novo impulso, os negros vieram a público exigir os direitos de cidadania, e os homossexuais mantidos sob o signo do preconceito explodiram na forma de rebeliões e acabaram com o silêncio, começando a se organizar com toda a intensidade, a partir das questões vitais colocadas pelo momento. Do ponto de vista público, o desafio era tornar enunciável uma prática sexual diferente e dizer-se sujeito dela. Afinal tratava-se de nomear aspectos da própria subjetividade invadindo a palavra do outro, já que discursivamente a construção de uma identidade homossexual já estava previamente definida (como pudemos ver no capítulo segundo): pela medicina, pela psiquiatria e por outros domínios correlatos do saber. Os homossexuais ao falar de si se sujeitam a um discurso que não haviam produzido. Esta constatação tem uma conseqüência importante à análise histórica. Isto porque, trabalhando com a noção de sujeito, podemos relacionar o surgimento dos movimentos de afirmação gay e lésbica, com a configuração da possibilidade de expressão de uma subjetividade, baseada na identificação com uma certa prática sexual.247 Afinal, como pensar que o movimento pelos direitos defenderia a afirmação de um sujeito ainda não constituído? Desde os anos sessenta, intelectuais e acadêmicos - gays e lésbicas - dedicaram uma enorme atenção para analisar e refletir sobre a questão da identidade e de outras teorias ligadas ao movimento gay e lésbico. Num esforço de entender melhor sua dinâmica e história.248 A noção de identidade e auto-estima, tanto quanto as preocupações políticas de grupo, são importantes para todos os movimentos sociais culturais e políticos. No tocante à
245 246

Idem, p. 94. FRAZER, Op. Cit., p. 69. 247 BOYERS, Steinery Robert. Homosexualidad: Literatura y Politica. Madrid: Alianza Editorial, 1985. p 18. 248 LUKENBILL, W.B. Op. Cit., 94

89

identidade, é possível levantar a hipótese de que foi no espaço onde se desenvolvia a literatura que a subjetividade começou a ser solidificada através de um largo público leitor. O romance substituía a realidade das ações humanas por relações entre personagens, assegurando o desenvolvimento literário da subjetividade das pessoas. Neste sentido, elas formavam uma esfera pública de argumentação literária, onde a subjetividade oriunda da intimidade se comunicava consigo para se entender a si própria. Graças à mediação da literatura, esse conjunto de experiências da privacidade ligada ao público leitor ingressou na esfera política.249 A consciência que a esfera pública política tinha era intermediada pela consciência da esfera pública literária. Nestas duas configurações constitui-se um público de pessoas privadas, cujo entendimento desenvolveu-se no discurso literário que as apresentava enquanto seres humanos com experiências distintas e ligadas por causa de sua subjetividade. Didier Eribon,250 de forma similar a Costa,251 analisa a obra literária de Oscar Wilde, procurando demonstrar como a caracterização das personagens desse escritor, paulatinamente, esboçou a figura do homossexual. Esse trabalho de “engenharia subjetiva” tornou evidente a existência de uma divisão dos seres humanos em duas categorias essenciais quanto à “natureza” de sua sexualidade: heterossexuais e homossexuais. A força desta construção seria medida pelo fato de que essa crença sempre foi partilhada pela maioria - tanto dos que condenavam as práticas sexuais entre pessoas do mesmo sexo como desvio, perversão ou vício, quanto daqueles que saíram em campo a defendendo. Nessa “esfera do privado”, o sujeito homossexual construiu sua “identidade íntima”. E por ocasião de mudanças bruscas, ou ao longo da lenta evolução da vida social passou a questionar o desequilíbrio de sua “esfera do privado” diante da “esfera pública”, por causa das mutações políticas. Na “esfera do público”, o homossexual passou a viver a condição político-jurídica de cidadão, cujas regras de manutenção obedecem a leis mais ou menos impessoais e, em princípio, válidas para todos. Assim, o conflito psicológico se tornou

249 250

HABERMAS, Jürgen, Op. Cit., 1984. p. 72 ERIBON, Didier. Réflexions sur la question gay. Paris: Fayard, 1999. p. 205 251 COSTA, Jurandir Freire. Op. Cit.. 1992.

90

político quando desestruturou a “esfera do privado”, trazendo à tona a mediação social imperceptível na polarização conflito político-conflito psicológico.252 Nesse processo, a auto-estima se constitui como um aspecto desta mediação, pois é afetada por forças intra-pessoais tanto quanto como por causas externas. Ela é alimentada pela estima comunicada por outras pessoas, em âmbito externo, e por um sentimento pessoal, no âmbito interno. Na “esfera pública”, a apresentação de si é dirigida para manter uma auto-imagem adequada e preservar, senão para aumentar, a auto-estima. Ao atuar dessa maneira, o sujeito (ou grupo) procura por uma imagem de si que seja conceitualmente satisfatória e poderosa. É através desses processos de constituição da formação da própria imagem - e do imaginário social - que os comportamentos do sujeito e dos grupos são organizados, transformando-se em realidade. Noutras palavras, é por causa das identidades individuais que as comunidades podem se reconhecer umas às outras e a partir de então estabelecer relações sociais.253 Neste ponto, a teoria do desvio foi - e em alguns meios continua a ser - vista como uma maneira adequada para pesquisar a identidade homossexual. Bill Lukenbill, cita o estudo de Enroth, autor que usa esta aparato para refletir sobre a origem do movimento eclesiástico gay e lésbico, sugerindo que esses grupos compartilhavam um senso comum em relação à orientação sexual. Tal entendimento os colocava na categoria de desviantes sociais, relegados às margens da sociedade e percebidos pelos outros como a re-negação coletiva da ordem social.254 Enroth ainda notou que as publicações dos anos setenta - que vinham de congregações gays e lésbicas - refletiam características que ele denominou como de “salvação do estigma”. Na sua visão, tratava-se de um apelo do grupo de gays e lésbicas pela aprovação da maioria de seu comportamento desviante. Neste ponto, esses grupos eclesiásticos assumiam a diferença se subjugando hierarquicamente ao outro grupo que, por pertencer à maioria, atendiam ao padrão de reprodução das normas sociais. Embora a teoria do desvio tenha sido aplicada para pesquisar criminosos e homossexuais, para Lukenbill esta prática foi descartada por alguns teóricos por ser falha

252 253

COSTA, Jurandir Freire. Violência e Psicanálise. Rio de Janeiro: Graal, 1986. p. 133. LUKENBILL, W. B. Op. Cit., p. 94-5. 254 ENROTH, R.M. The homosexual church: an ecclesiastical extension of a sulbculture. Social Compass, vol 21, No. 3, p. 355-60. apud: LUKENBILL, W. B. Op. Cit., p. 95.

91

na sua fundamentação devido à sua parcialidade – ela é construída a partir de um modelo hegemônico alicerçado em bases hetero-normativas conceitual. Outro estudo referente ao movimento eclesiástico gay e lésbico, foi o de Warner sobre a “Universal Fellowship of Metropolitan Community Churches” (UFMCC) que atende à uma população enorme composta por gays e lésbicas, mas o autor observa que além da UFMCC não ser uma igreja freqüentada exclusivamente por gays e lésbicas, ela se baseava noutro pressuposto de um ponto de vista cristão para a aceitação da homossexualidade: a teoria essencialista. De acordo com o qual, a orientação homossexual não era um comportamento aprendido, mas inato ao indivíduo e não podia ser mudado ou alterado. Posteriormente, essa postura adotada pela igreja passou a sustentar que os homossexuais não eram responsáveis por suas condições e - em termos religiosos -, tratava-se de um dom de Deus. Socialmente, a teoria sustentava enfaticamente o conceito de que aos gays e às lésbicas era permitido ser quem eles eram e se tornar parte do contexto social e cultural.256 Por outro lado, em oposição à teoria essencialista há a teoria construcionista pósmoderna que diz que os indivíduos são parte de uma comunidade de diálogo específica, onde cada segmento define seu próprio sistema de valor. Conseqüentemente, a identidade gay não existe como um fato inerente, mas é inspirada e estruturada por diferentes contextos sociais. Trata-se de uma identidade construída historicamente. Jeffrey Weeks, particularmente, defende que as construções mais recentes se referem à política de autoidentificação gay e lésbica.257 A teoria do discurso representa outra forma de olhar gays e lésbicas, quando dá ênfase a pesquisa histórica que recupera os atributos que sustentam essas identidades. Reynolds, citado por Lukenbill,258 explica que a teoria do discurso - apoiada nas mudanças
Ibidem. WARNER, R.S. The Metropolitan Community churches and the gay agenda: the power of Pentacostalism and essentialism. BROMLEY, D.G.; NEITZ, M.J.; & GOLDMAN, M.S. (Eds). Religion and the Social Order: sex, lies, and Sanctity – religion and deviance in North America. Greenwich: JAI Press, 1995. p. 81-108. apud: LUKENBILL, W. B. Op. Cit., p. 96. 257 WEEKS. Sexuality and its discontents: meanings, myths & modern sexualitues. London-New York: Routledge, 1993. p. 191. 258 REYNOLDS, R. Post modernism and gay/ queer identities. ALDRICH, R. (Ed.) Gay Perspectives II: more essays in Australian gay culture, Australian Centre for Gay and Lesbian Research, Sydney, 1994. p. 245-74. apud: LUKENBILL, W. B. Op. Cit., p. 95.
256 255

255

encontradas na sua estrutura

92

de contexto histórico – defende a noção de identidade coerente com a temporalidade e afirma que o sentimento de “self” se constrói. Noutras palavras, a identidade homossexual é transitória e flutua de uma posição subordinada a um contexto e depois para outra, por vezes até mesmo contraditórias. Esta teoria pós-moderna sugere que as identidades se desenvolvem através das experiências, e a comunidade é constituída por meio da experiência histórica. Apesar dos arquivos, bibliotecas, da atuação de profissionais gays e lésbicas se desenvolverem após o contexto político dos anos sessenta. O desenvolvimento deles não pode ser explicado apenas como ativismo político. Para uma apreciação efetiva, é preciso entender a importância do papel desempenhado pela constituição de uma identidade apoiada na política do ser diferente, assim como de tomar conhecimento das teorias epistemológicas, através dos estudos sociais e históricos ligados à origem desse movimento. Esta perspectiva ajuda a compreender as necessidades de informação da comunidade GLBT, enquanto uma comunidade de diálogo, onde seus membros agem coletivamente apresentando sua vontade. Os arquivos e bibliotecas gays aparecem, especialmente onde há lideranças, tanto de intelectuais como de bibliotecários, que reconhecem a importância histórica da documentação enquanto suporte às necessidades da comunidade GLBT.259 Esse fator, particularmente, parece fundamental para o movimento por direitos das minorias sexuais e para a constituição dos centros de documentação.

5.2 Experiências em centros de documentação ligados ao segmento GLBT Desde as mudanças políticas e sociais ocorridas após os eventos dos anos sessenta, inúmeras bibliotecas e arquivos gays e lésbicos se desenvolveram ao redor do mundo. Antes, porém, é preciso recordar que um dos mais antigos centros de documentação e que continha uma enorme divisão de materiais sobre a homossexualidade não existe mais: o Instituto de Ciência Sexual de Berlim, comandado por Magnus Hirshfeld. O seu líder,

259

LUKENBILL, W. B. Op. Cit., p. 94-5.

93

desde 1897, fundara o “Comitê Científico Humanitário” que é considerado o primeiro grupo sócio-político a lutar pela descriminalização da homossexualidade na história.260 No apogeu deste Instituto, a biblioteca continha 20.000 livros e uma grande coleção de fotografias e de outros materiais, mas foi destruída com ascensão do nazismo, em 06 de maio de 1933, por ordem de Hitler, que declarou que as publicações e as associações homossexuais eram ilegais. Durante esse período, Hirshfeld teve que se exilar do país para não ser preso. Esse fato ajuda a entender afirmações como as da autora lésbica americana, Patrícia Nell Warren, de que a história gay e lésbica é frágil e vulnerável.261 Ela lamenta o fato de que os centros de documentação sejam poucos em termos numéricos e que eles não sejam tão bem mantidos e alojados. Para a autora, a preservação desse locais é necessária, visto que para se recuperar a história de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros qualquer informação, em qualquer suporte, é importante. Caso contrário, não há como recuperar as experiências sem os documentos, pois são eles que guardam essas evidências. Esta perspectiva ajuda a entender a importância das bibliotecas e dos arquivos como espaços onde se concentram documentos organizados e acessíveis, úteis à pesquisa e ao encontro do sujeito com a documentação. Essas coleções são necessárias para ajudar a definir e esclarecer as experiências históricas. O acervo, ao ser conservado, permite que as gerações de gays e lésbicas - que se sucedem - possam se reunir através desse elo representado pelos livros, revistas, fotografias, diários pessoais, entre tantas coisas.262 Muito do material que é coletado pelos centros de documentação gays e lésbicos são únicos e, geralmente, não são encontrados em bibliotecas ou arquivos comuns. Além disso, boa parte das entidades não tem apoio econômico e sobrevivem do trabalho de voluntários. Assim, poucas delas possuem um quadro com profissionais habilitados a catalogar e a classificar o material adequadamente, não conseguindo fazer com que este, que apesar de ser coletado, possa ser avaliado pelos pesquisadores e usuários.263 Neste sentido, a

260

LAURITSEN, John; & THORSTAD, David. The Early Homosexual Rights Movement (1864-1935). New York: Times Change Press, 1974. p. 9-13. 261 WARREN, Patricia Nell. How real is our sense of “history”? Disponível no: http://www.rslevinson.com/gaylesissues/features/collect/guest/blwarren.htm. Acessado em 20 de ago. de 2004 262 KNIFFEL, L. You gotta have Gerber-Hart: a gay and lesbian library for the Midwest. AmericanLibraries. 24 (10) Nov 93, p. 960. 263 LUKENBILL, W. B. Op. Cit., p. 98-9.

94

inexistência de um bom aparato técnico pode gerar o desconhecimento do material guardado no acervo. Embora não haja estatísticas exatas, calcula-se que haja por volta de 110 entidades, que atendam as necessidades de informação do segmento gay e lésbico, espalhadas pelo planeta.264 Algumas de propriedade das universidades, tanto privadas quanto públicas, outras mantidas pelo poder público, mas a maioria pertence a grupos e organizações que funcionam com donativos e com a colaboração de voluntários. Para uma apreciação em termos da dimensão do valor dessas entidades, é preciso reconhecer a importância do seu papel em atender às necessidades de informação dos grupos gays e lésbicos, tanto quanto a de outras identidades, que foram sendo constituídas. No caso norte-americano, por exemplo, há o “One Institute and Archives” localizado na cidade de Los Angeles. Ele é afiliado à “University of Southern California”.265 A universidade pagou pela construção de seus novos alojamentos, mas o Instituto sustenta suas operações por conta própria. A missão desta entidade é fomentar a aceitação da diversidade sexual e de gênero, em nível de experiências ao redor do mundo, dando apoio às atividades de educação e de pesquisa. Para tanto, se dedica à tarefa de adquirir, de preservar, de organizar e de dar acesso público à informações em diferentes suportes sobre o segmento GLBT. Para que não haja necessidade de se repetir à similaridade dos objetivos das demais instituições apresentadas abaixo, é importante esclarecer que, grosso modo, essas proposições quando não são idênticas, são muito parecidas. Tal fato pode ser explicado pela abrangência das idéias divulgadas em relação aos direitos gays e lésbicos pós-Stonewall, cuja projeção se tornou um fenômeno mundial. Os movimentos organizados sob esta bandeira, particularmente aqueles onde os bibliotecários se envolveram, puderam retomar e redefinir a importância da preservação da história através da documentação. Em Chicago, um centro que possui em suas bases o reconhecimento histórico do ativismo, é a “Gerber Hart Library” que recebeu esse nome em homenagem ao organizador do primeiro grupo em defesa dos direitos gays: o “Society for Hunan Rights”, já citado no item anterior.266 Para funcionar, a biblioteca conta com o trabalho de voluntários e depende
264 265

Idem, p. 97. Idem, p. 96. 266 KNIFFEL, L. Op. Cit., p. 958.

95

de doações. Ela mantém uma coleção de 8.000 volumes e materiais arquivados, além dessa coleção, presta serviços ligados a programas culturais e educacionais para gays, lésbicas e bissexuais. Além dos centros de documentação mantidos por universidades e por voluntários, também há coleções específicas para gays e lésbicas presentes nas bibliotecas públicas. Como na “New York Public Library”, famosa por ser um grande centro de pesquisa em nível mundial, que apesar de ter materiais de grande importância para o segmento gay, possui um guia que avisa ao usuário de que há muita dificuldade em encontrá-los. A maior parte do material foi sistematizada de forma bastante vaga, a qual colocava esses itens sob o cabeçalho “taboo”.267 Nesses casos, grupos como o “Gay, Lesbian, Bisexual and Transgendered Round Table”, órgão profissional que reúne bibliotecários gays e lésbicas - que veremos mais a frente -, criticam severamente a atuação do profissional que não se mobiliza para garantir o acesso dos usuários gays e lésbicas, acusando-os de tratar o tema com indiferença ou mesmo com negligência.268 Outro centro importante para o segmento gay e lésbico se encontra na Filadélfia: a “AIDS Library”. Em parte, devido a história inicial da síndrome que acabou associando a identidade gay à AIDS. Foi uma das primeiras bibliotecas abertas ao público que se dedicou a fornecer informação exclusivamente sobre a epidemia de HIV.269 Neste ponto, é preciso enfatizar que o impacto da AIDS, cujo debate gerou uma quantidade enorme de literatura, passando a exercer uma importante força na produção cultural (inclusive de temas relacionados à comunidade gay e lésbica), inicialmente, fez com que as LDs tradicionais acrescentassem termos que refletissem essa produção, e posteriormente, ocorreu a elaboração de tesauros específicos dedicados à questão da AIDS. Na costa oeste, ainda em nível de atendimento público, a “San Francisco Public Library” mantém o “James C. Hormel Gay and Lesbian Center”, o qual preserva o material ligado às experiências de gays e lésbicas e é o centro mais eficiente em termos de garantia ao acesso do usuário. No caso do “Hormel Center”, por exemplo, os bibliotecários utilizam

267 268

LUKENBILL, W. B. Op. Cit., p. 98. GREENBLATT, Ellen. Barriers to GLBT Library Service in the Eletronic Age. Information for Social Age, 12, winter 2001. p. 76. 269 LUKENBILL, W. B. Op. Cit., p. 97.

96

uma conhecida lista da LCSH denominada “gay subject headings”, desenvolvida por Sanford Berman para o “Hennepin County Library”. Eles também adotam a CDD 20 para fazer a classificação do material. Em homenagem ao ativista gay Harvey Milk, uma seção da biblioteca pública de São Francisco recebeu seu nome. Nela é mantida uma coleção que trata de questões específicas das minorias sexuais.270 Milk foi morto junto com o prefeito, George Moscone – por um conservador chamado Dan White -, em 1978. Noutros países, há experiências como a empreendida no Canadá, através do “Canadian Lesbian and Gay Archives” que privilegia a documentação produzida sobre gays e lésbicas no próprio país ou que tenha origem noutros países, mas que seja concernente aos canadenses. Essa entidade desenvolveu uma política de planejamento e desenvolvimento da coleção, a qual está sistematizada através de um documento, o qual indica uma ampla série de materiais considerados importantes para a comunidade gay e lésbica, em termos de preservação de sua história e cultura.271 Na Äfrica do Sul existe o “Gay and Lesbian Archives of South Africa”, sua missão, porém, possui uma peculiaridade que o diferencia dos demais centros, ela é mais ampla porque busca catalisar e atender outras comunidades que tiveram suas experiências silenciadas.272 Enquanto que na Holanda, a missão do centro é similar aos demais, trata-se do “Homodok-Lesbian Archives Amsterdam” - Centro de Documentação Homossexual – Arquivos Lésbicos de Amsterdam - (Homodok-LAA) – que é uma reunião de duas bibliotecas – o “Homodok”, (the Homosexual Documentation Centre) e a Ann Blaumanhuis, um arquivo lésbico. O “Homodok-LAA”, desenvolveu, e publica, o “A Queer Thesaurus: an international thesaurus of gay and lesbian index terms”, obra bilíngüe em holandês e em inglês.273 Os bibliotecários o utilizam porque acreditam que a informação sobre o segmento gay e lésbico é difícil de ser encontrada - como pudemos observar pelos argumentos, de Patrícia Nell Warren (apresentados acima) - e desaparece facilmente se não se aplicam categorias que lhe sejam próprias. Esse tesauro atende as necessidades colocadas pelos estudos culturais, mas tem um fim político: foi escrito para ser um instrumento de

270 271

Idem, p. 98. Ibidem. 272 Idem, p. 96. 273 MOYA, Cynthia Ann. Op. Cit.

97

conscientização e para promover informações positivas e de afirmação das identidades gay e lésbica. Aqui no Brasil, o Arquivo Edgard Leuenroth (AEL) – Centro de Pesquisa e Documentação Social do IFCH da UNICAMP -, apesar de não ser uma instituição exclusivamente gay e lésbica, recebeu, ao longo da segunda metade dos anos oitenta, diversas coleções de grupos de militância do movimento homossexual brasileiro, especificamente de grupos cariocas e paulistas que encerravam suas atividades.274 Além desta documentação, o AEL recebe, sistematicamente, documentos de grupos atuais. Desde que obedecidas algumas normas, o acesso e uso público dos documentos são autorizados.275 Há outros centros de documentação, para gays e lésbicas, existentes tanto no Brasil quanto no mundo, e que também reiteram, entre suas proposições, o empenho em preservar a história e a herança do segmento GLBT, assim como em corrigir a negligência gerada por atitudes sociais ou governamentais, cujo resultado foi a falta de preservação de suas experiências. Os objetivos dessas instituições também refletem a necessidade de recuperar o aspecto positivo das identidades, da sua auto-imagem, e de seu reconhecimento social e cultural.276 De forma geral, todos esses centros projetam a necessidade de se construir uma comunidade de diálogo,277 cuja ênfase está na constituição de uma identidade afirmativa, ou seja, de uma identidade que se desenvolva a partir da valorização de experiências individuais de gays e de lésbicas. Com o aumento dos centros de documentação gays e lésbicas - apesar das dificuldades citadas -, alguns desses locais se desenvolveram em termos de qualificação do quadro profissional e do tratamento do material, buscando melhorar o atendimento de pesquisadores e interessados no assunto. Essa postura fez com que os profissionais da área refletissem sobre os sistemas de classificação, onde logo se fez sentir o impacto nos vocabulários controlados e na produção de linguagens documentárias específicas. Os bibliotecários, ligados o segmento gay e lésbico, ao trabalhar nesses centros de documentação, se colocaram na vanguarda da criação de ferramentas que atenderam a uma perspectiva diferente, mas não menos ideológica. Este grupo, ao refletir sobre uma
274

ZANATTA, Elaine Marques. Documento e Identidade: o movimento homossexual no Brasil na década de 80. Cadernos AEL, no. 5/6, 1996/1997. p. 193-4. 275 Idem, p. 217. 276 LUKENBILL, W. B. Op. Cit., p. 96. 277 Idem, p. 95.

98

linguagem sistemática para fazer a representação dos assuntos, dividiu-se entre a possibilidade de continuar utilizando, ou de adequar as LDs tradicionais às necessidades específicas, e a possibilidade de partir para a elaboração de tesauros que atendessem às demandas emergentes com o movimento homossexual e, posteriormente, com a fragmentação do segmento representada pela sigla GLBT. A reviravolta política refletiu-se na missão desses centros de documentação, na atuação dos profissionais e nas ferramentas técnicas, sistematizando uma linguagem que criou termos adotados orgulhosamente como símbolo de afirmação. O movimento gay e lésbico recuperou termos antes considerados negativos - como “queer” -, e que passaram a ser utilizados por acadêmicos e ativistas, como uma expressão positiva e de questionamento ao poder. Os documentos, contudo, ainda continuaram tendo diversos significados. A diferença se manifestou apenas nas novas regras do contexto, no qual as novas propostas de linguagem documentária produziram, agora, múltiplos “centros” de discursos legítimos do poder.
5.3 O profissional da informação face às necessidades de informação do segmento GLBT

A movimentação social dos anos sessenta despertou os bibliotecários norteamericanos – tanto em nível pessoal quanto em nível profissional – a dedicar-se às causas ligadas à transformação da sociedade. A “Social Responsability Round Table” (SRRT), que surgiu de reuniões do “Congress for Change”, realizado em um pequeno hotel de Baltimore, incentivou lideranças a assumirem essas responsabilidades na “American Library Association” (ALA), e os bibliotecários a se envolver com os assuntos ligados às questões sociais.278 A SRRT surgiu no auge das revoluções sociais, em meio às mobilizações dos diversos grupos. Os reflexos do período sinalizavam para mudança qualitativa da postura dos profissionais em relação à questão da homossexualidade. Antes deste período, houve casos extremos em que bibliotecários ou não permitiam, ou retiraram livros das estantes que contivessem referência ao tema homossexualidade.279 Era comum, entre profissionais, a destruição de materiais voltados a gays, a criação de
278 279

BRYANT, Eric. Pride & Prejudice. Library Journal 120 (june 15 1995): p. 39. SEIDEL, Heike. The Invisibles: lesbian women as library users. Progressive librarian.14 (1998): p. 35.

99

listas de cabeçalho pejorativas, a elaboração de inventários que utilizavam eufemismos para se referir às minorias sexuais, ou que não se referiam a elas absolutamente – a biblioteca pública de Nova Iorque, como foi visto, passou por esse problema -, assim como ocorria também uma forte resistência em falar sobre o assunto, reiterando os padrões ideológicos alicerçados na medicina e na jurisprudência. Em 1970, a SRRT reivindicou junto à ALA a formação da primeira organização profissional de gays e lésbicas do mundo, conseguindo fundar a: “Task Force on Gay Liberation”. Criada por Israel Fishman,280 principalmente, como um meio para reunir esse segmento e promover fóruns para troca de experiências. O objetivo dessa organização era o de corrigir as injustiças que foram cometidas, produzindo mudanças eficazes que melhorassem os serviços voltados a gays e a lésbicas nos centros de documentação. Em 1971, quando Barbara Gittings,281 uma ativista lésbica de longa data – ligada ao primeiro grupo feminino (Daughters Of Bilites, desde 1958) -, e que não tinha credenciais de bibliotecária, recebeu a liderança da organização, ela começou a planejar ações e programas que refletissem tanto as preocupações da bibliotecomia, quanto as da comunidade gay. Para tanto, procurou trabalhar a partir de aspectos coerentes ao âmbito profissional e que garantissem a visibilidade do segmento gay e lésbico. Trabalhos como o de Barbara Gittings, fizeram com que a comunidade GLBT, em parte, se tornasse responsável pela abertura da biblioteconomia para o trabalho com diversos campos da sexualidade, até então ignorados. Na conferência de Dallas em 1971, graças a ações como a “Hug a Homosexual” (ou: Abrace um Homossexual),282 a visibilidade do grupo, que inicialmente parecia uma afronta, começou a se manifestar. Nesse mesmo ano, foram aprovadas importantes deliberações, como a de uma política de anti-discriminação. Ao mesmo tempo, como vimos no item anterior, começaram a ocorrer o crescimento dos centros de documentação – bibliotecas e arquivos - ligados à experiência de gays e lésbicas. Desde sua fundação, a organização mudou para incluir outras identidades de gênero sexual, assim assumiu o nome de “Gay, Lesbian, Bisexual and Trangenders Task Force”

CARMICHAEL Jr., James V. 'They sure got to prove it on me': millennial thoughts on gay archives, gay biography, and gay library history. Libraries and Culture. 35 (1) Winter 2000, p. 92. 281 Ibidem. 282 BRYANT, Eric. Op. Cit., p. 39.

280

100

(GLBTF).283 Nos anos mais recentes, o grupo concentra esforços em refletir sobre as necessidades de informação do segmento GLBT, particularmente, prestando atenção a como melhorar o desempenho dos profissionais da área. Para encarar o preconceito e lutar pela mudança de atitudes da sociedade. Nesse caso, parte-se do princípio que o profissional deve respeitar a liberdade intelectual dos usuários gays e lésbicas, cujo exercício pressupõe que eles tenham pleno acesso aos materiais disponíveis no acervo, sem nenhum tipo de restrição. A liberdade intelectual se baseia na convicção de que a liberdade de escolha, assim como a de acesso, são requisitos imprescindíveis e inalienáveis aos direitos individuais. Apesar de todos os esforços, segundo a avaliação dos críticos, os resultados ainda não são satisfatórios. Fora os profissionais de bibliotecas e arquivos, que trabalham especificamente para o usuário gay e lésbica, a maior parte dos bibliotecários ainda não assume esse compromisso. Eles continuam a subestimar as necessidades de informação de seus clientes.284 Nesse caso, apela-se para os princípios que orientam os bibliotecários norte-americanos, segundo os quais todos os segmentos sociais devem ser tratados com igualdade. Há autores que tecem algumas considerações acerca deste aspecto, entre as quais está a da atuação do profissional enquanto pessoa.285 Os críticos acreditam que diversos aspectos podem gerar à falta de cooperação dos bibliotecários, entre eles: a crença de que o investimento nessa área pode gerar o desrespeito de sua comunidade; de que poderá ser confundido e sofrer com o preconceito; de que também o faça por questões religiosas ou ideológicas. Enfim, seja qual for o motivo, o desamparo do profissional afeta negativamente o acesso à informação de gays e lésbicas.286 Em nível social, as análises se referem ao papel da concentração geográfica e da configuração geopolítica na qual o profissional atua. Em locais com uma visível comunidade gay e lésbica, há uma maior atuação no campo do desenvolvimento de coleções e mais serviços dedicados ao segmento. O profissional é procurado pelo usuário em busca de materiais específicos, ou mesmo por grupos de ativistas interessados em usar o
283 284

CARMICHAEL Jr., James V. Op. Cit., p. 88. MONROE, Judith. Breaking the silence barrier: libraries and gay and lesbian students. Collection Building. 9 (1) 1988, 44. p. 44 285 BRYANT, Eric. Op. Cit., p. 39. 286 Ibidem.

101

espaço da biblioteca, para fazer reuniões ou para promover palestras.287 Nesse caso, uma atmosfera pública favorável define possibilidades melhores de atuação do profissional. Em localidades menores, a invisibilidade do segmento gay e lésbico caminha no sentido inverso da garantia de acesso à informação. É comum que os clientes homossexuais na condição de moradores de cidades pequenas, ou da área rural, não desejem ver sua privacidade exposta diante de um público conservador. Nesses casos, fica mais fácil aos profissionais acreditarem que não há gays e lésbicas entre os usuários.288 Para se avaliar melhor essa circunstância, os profissionais devem considerar alguns problemas que afligem as minorias sexuais. Por exemplo, gays e lésbicas, muitas vezes, optam pela "invisibilidade" em comunidades pequenas porque temem ser vítimas de discriminação verbal, ou mesmo de violência física, assim preferem não ser reconhecidos como homossexuais. Por isso, caso não sintam confiança no ambiente, eles dificilmente pedirão ajuda ao profissional.289 Essa situação exige que o profissional apresente soluções criativas, as quais visam atender gays e lésbicas que preferem ficar em silêncio a fazer perguntas na frente de outras pessoas. Nesse caso, o papel dos catálogos é fundamental, pois, durante a puberdade, por exemplo, muitos jovens não se reconhecem nos padrões majoritários e ficam confusos em relação ao que sentem. Mais do que os adultos, os adolescentes hesitam em procurar orientação de outras pessoas, pois temem não ser entendidos e ser rejeitados.290 Nesses casos, o ambiente anônimo torna-se o canal ideal, senão o único, para se conseguir a informações necessárias. Além disso, os materiais também podem atender as necessidades de outras pessoas que estejam interessadas no estilo de vida gay, apesar de não fazerem parte dele diretamente. É o caso dos pais, irmãos, amigos, educadores, colegas de trabalho,291 em busca de uma melhor compreensão o segmento GLBT. A consulta ao catálogo, nesse sentido, gera outro ponto de debate importante ao profissional, cuja reflexão se refere à forma como se classificam e se catalogam os materiais para gays e lésbicas nas bibliotecas.292 Os sistemas de classificação, como já foi
287 288

BRYANT, Eric. Op. Cit., p. 38-9. Idem, p. 39. 289 SEIDEL, Heike. Op. Cit., p. 35. 290 Idem, p. 37. 291 Ibidem. 292 Idem, p. 38.

102

visto, ainda privilegiam os vocabulários hierárquicos e que se constroem na forma de oposições, em cuja base se encontra a questão do preconceito. É preciso reiterar a presença dessas tensões para enfatizar que o sistema de classificação não foi pensado para atender a comunidade GLBT. Em muitos casos, é comum que os catálogos organizem as informações do segmento gay e lésbico sob o termo homossexualismo (amplamente recusado por denotar a idéia de doença), ou dos termos "homossexualidade" e "homossexual" que também são rejeitados porque, geralmente, se referem mais à homossexualidade masculina. Pior do que a palavra é a existência no acervo de materiais datados, cujos conteúdos não reflitam as perspectivas teóricas atualizadas.293 O profissional, então, deve estar bem informado sobre todos esses aspectos, que se constituem enquanto elementos de reflexão sobre as formas de busca, assim como das necessidades de informação que interessam ao segmento GLBT. Aqui é preciso enfatizar, cabe ao bibliotecário aperfeiçoar o atendimento realizando: um exame crítico da coleção, o descarte regular e a atualização do material, fazendo o uso de categorias – como gay, lésbica, bissexual, transgênero -, para dar visibilidade a tópicos de interesse do segmento GLBT nos sistemas de classificação.294 No extremo dessas propostas engendradas pelo GLBTTF (Gay, Lesbian, Bisexual and Trangenderes Task Force), está o bibliotecário, cuja menor ação é melhor do que nada, sendo fundamental que ele garanta o acesso às comunidades apoiadas nas identidades de gênero e de orientação sexual. Desta forma, elas podem participar exercendo seus direitos, como podem, também, ocupar os espaços oferecidos pelas bibliotecas.295 Ainda que a maior parte não possua todas essas características, são espaços valiosos a partir dos quais se pode fomentar imagens positivas da comunidade GLBT. Os bibliotecários, segundo essas propostas, podem, e devem, entender a si próprios como promotores da transformação social, ajudando nas lutas dos grupos gays e lésbicos, ao colocar a pessoa em contato com materiais que atendam às suas necessidades de informação. Noutras palavras, devem assumir a responsabilidade de lutar pela liberdade

293 294

MONROE, Judith. Op. Cit., p. 44. SEIDEL, Heike. Op. Cit., p. 38. 295 BRYANT, Eric. Op. Cit., p. 39.

103

intelectual, referente aos interesses dos sujeitos que ocupam as “margens” em contraponto aos sujeitos que definem as relações a partir do centro do sistema social. Para ocorrerem essas transformações é preciso que o profissional reflita sobre a dinâmica do contexto cultural que se modifica constantemente, adequando-se às propostas emergentes. Esta prática se faz a partir do seu envolvimento intelectual, quando reflete sobre a questão do impacto das identidades, situando-as nas origens de processos que delimitam suas possibilidades de atuação. As condições são deflagradas historicamente, mas o limite de desta prática ainda é de âmbito pessoal. O trabalho do bibliotecário se tornou fundamental, visto que a competência para ler o universo semântico gay e lésbico se articulou com a importância de se guardar, sistematizar e divulgar a documentação desse segmento. Este encontro deu origem a locais que cristalizam as identidades de gênero e de orientação sexual. O profissional, a partir da origem da GLBTTF, participou de um processo no qual sua atuação define suas opções, não apenas profissionais, mas políticas, ao atender, ou não, a comunidade gay e lésbica.296 As práticas discursivas minoritárias tornam-se parte do trabalho de seleção de termos, cujo objetivo é o de resistir e de legitimar a diferença. É preciso enfatizar ainda que essas ações deram origem às instituições documentárias que se desenvolverem, primeiro na forma de entidades voluntária, depois como instituições profissionais com enfoque na luta contra a discriminação em nível social e político.297 Prestar atenção a essas premissas proporciona a certeza de que o trabalho do profissional sempre gravitou em torno de uma perspectiva de poder. Nela as palavras se formalizam dentro de um contexto que controla seus significados, seja o universal ou o específico. A competência do profissional, portanto, se articula com um processo de conscientização, cuja eficácia está na sedimentação das identidades. Ele terá que traduzir a linguagem produzida a partir da comunidade GLBT para uma linguagem sistematizada, mas que atenda aos fins da transformação social experimentada pelas minorias na contemporaneidade. Assim, a fase inicial estabelece os objetivos que deverão estar claros e que deverão ser atingidos no decorrer do processo: a montagem de um sistema que

296 297

CARMICHAEL Jr., James V. Op. Cit., p. 91. Ibidem.

104

represente, adequadamente, as necessidades de informação de gays, lésbicas, bissexuais e transgêneros. Entretanto, ainda restou uma questão: mesmo que fosse possível uma representação plena no sentido das palavras ligadas ao segmento GLBT, sempre haverá a possibilidade de se realizar diferentes leituras, que por mais que sejam específicas, omitem ou privilegiam idéias. Nesse caso, quando o movimento homossexual correu em direção à fragmentação, da perspectiva universal para as particulares, só se produziu um sistema com identidades pluralizadas, destinadas a usuários específicos, mas tal perspectiva não isentou o bibliotecário de anular a subjetividade do processo de análise da documentação.

5.4 Linhas teóricas para pensar a análise da informação GLBT

No final dos anos oitenta e início dos anos noventa, críticos como Eve Kosofsky Sedgwick, uma das teóricas mais eminentes dos estudos “queer”, apresentou alguns dos desafios, e das possíveis soluções, que hoje contribuem para a reflexão sobre análise documentária, assim como da elaboração de teorias de acesso à informação e de ferramentas para o trabalho com culturas, contextos e comunidades específicas.298 Para esse debate, porém, é preciso antecipar a distinção de dois conceitos importantes tanto para a teoria da classificação quanto para a crítica literária - “aboutness”, entendido como a análise das características inatas do conteúdo de um documento, e “meaning” como a análise que leva em consideração os fins ou uso específico do conteúdo de um documento. Particularmente, a opção em preservar os conceitos em língua inglesa se deve à melhor operacionalização da teoria exposta por Campbell. Esse autor parte do pressuposto de que determinar o conteúdo de um documento se trata mais de um procedimento subjetivo. E que apesar das ferramentas de tradução do conteúdo dos documentos para as LDs serem complexas, há poucas regras formais para a análise conceitual desses mesmos documentos. Para ele, essa tarefa se torna mais complicada quando se refere às obras literárias e isso se deveria ao limite muito tênue e ambíguo entre o que é o conteúdo e o que é a interpretação do analista.299
298

SEDGWICK, Eve Kosofsky. Epistemology of the Closet. Berkeley: University of California Press, 1990. apud: Campbell, G. Op. Cit., p. 123. 299 CAMPBELL, G. Op. Cit., p. 124.

105

Quando o tema se refere à homossexualidade, esta ambigüidade aumenta, pois os tabus que circulam o tema produzem barreiras acerca de apresentação da própria palavra. Romances homossexuais transformam-se numa sucessão de termos sutis, alusivos e simbólicos. Diante desta constatação, os críticos literários alavancaram o debate acerca de uma estrutura teórica, que fosse bem fundamentada, para distinguir o que de fato eram dados objetivos do texto e o que poderia ser a interpretação. Primeiramente, foi preciso recuperar a distinção entre o que era um discurso que fazia a “menção” e o que era um discurso que falava “sobre”. Além desse fator, para a análise efetiva do conteúdo literário, era preciso avaliar ainda aspectos extra-textuais, tais como: quem produziu o texto; com qual objetivo ele foi produzido; e, para quem ele estava direcionado.300 Essa linha de pesquisa, segundo Campbell, ajudou a aprofundar a distinção analítica feita a partir da noção de “aboutness”, enquanto a busca de uma essência intrínseca do conteúdo no documento, e a de “meaning” como entendimento contextual do qual o leitor se apropriava na leitura do documento. No tocante à primeira, ele recordou como essa hipótese, por muito tempo, alimentou os sistemas de classificação. Os indexadores se esforçavam em traduzir o conteúdo dos documentos para os sistemas (fosse conceitualmente ou notacionalmente). O fato da leitura do analista produzir representações contextualizadas, sequer era considerado.301 Nesse caso, o “aboutness” conferia ao documento características estáveis. Essa perspectiva privilegiou a objetividade do conteúdo, e posteriormente se chegou à conclusão de que essa espectativa não era possível: ela possuía limites por não conseguir se restringir a elementos intrínsecos do documento. Se o “aboutness” fosse tão estável os indexadores, então, seriam capazes de fazer sempre a mesma análise, independente de qualquer fator. Face à essa falta de consistência, tornou-se necessário desenvolver outras estratégias para se alcançar resultados melhores. No contexto literário, durante um determinado período, os críticos refletiram sobre a transferência da ênfase do conjunto de reflexões, com significados supostamente estáveis dos conteúdos literários, para uma ênfase numa leitura subjetiva e contextualizada das obras. Em termos de análise crítica, esta postura ajudou a compreender a importância da

300 301

Ibidem. Ibidem.

106

noção de “meaning” em detrimento da noção de “aboutness”. E a apresentou não como uma qualidade inata, aguardando para ser “descoberta”, mas como o resultado de uma operação baseada em pressupostos contextualizados.302 Esta ênfase questionava a autoridade do próprio texto e, no tocante a essa perspectiva, a idéia de “aboutness” não existia, visto que o único caminho possível era o da interpretação. Desta forma, no texto nada poderia ser avaliado como definitivo, mas suas características sempre seriam interpretações dadas pelos leitores, no caso: indivíduos ligados a um contexto, pelo discurso específico e, também, pertencentes a uma comunidade específica. Na contemporaneidade, os pesquisadores da área de análise documental se convenceram de que os significados essenciais e universais são impossíveis, da mesma forma como os críticos literários o fizeram no passado.303 Eve Kosofsky Sedgwick,304 particularmente, se aprofundou na noção de “meaning” em um dos capítulos de sua obra Epistemology of the Closet, considerada um dos maiores trabalhos sobre as relações homossociais masculinas na literatura. A importância dessa reflexão se encontra na estrutura teórica que sustenta o seu pensamento. Nele, ocorre a combinação da crítica literária com a teoria literária e, posteriormente, de ambas as perspectivas com a análise social. Sua leitura crítica explora caminhos nos quais a homossexualidade masculina, assim como a paranóia e a opressão através das quais o tema é visto socialmente, se infiltrou nas fundações epistemológicas da sociedade e da cultura ocidental. A autora argumenta que a visibilidade das comunidades gays veio no rastro da epidemia de AIDS. A síndrome suplantou a paranóia e a opressão, fazendo o debate sobre a homossexualidade se tornar um tópico da maior urgência social. No final dos anos oitenta, a crítica produzida pela autora se inseria em um contexto muito atribulado, cujos debates se organizavam em torno de questões intensas como a identidade social e política da comunidade gay americana, os usos e abusos da pesquisa e da educação médica em tempos de AIDS, e as decisões legais referentes à homossexualidade masculina nos Estados Unidos. No estudo da autora há duas teses primárias: a de que há uma distinção subjacente
302 303

Idem, p. 126. Ibidem. 304 SEDGWICK, Eve Kosofsky. Op. Cit. apud: Campbell, G. Op. Cit., p. 126.

107

entre a homossexualidade e a heterossexualidade, estruturada no pensamento da cultura ocidental moderna; e a de que se pode entender melhor essa distinção em termos de uma oposição binária entre uma visão minoritária, que vê a homossexualidade como uma experiência de um subsistema marginalizado da sociedade, e uma visão universal, que vê a homossexualidade, e as preocupações homossexuais, como algo que penetra todo pensamento e todos os níveis sociais. Na base dessas teses, a autora articula os axiomas, dos quais quatro são relevantes para os estudos ligados à análise de documentos: 305

1) O de que as pessoas diferem umas das outras na forma de confrontar definições tradicionais e de articular as diferenças. Nesse caso, as categorias (tais como “straight” e “gay”) são inadequadas, e sua sobrevivência depende da habilidade delas para fazer, modificar e refazer categorizações provisórias sobre essas identidades.

2) O de que assuntos referentes a gênero e orientação sexual podem ser relevantes, mesmo quando tais assuntos não compõem um “conteúdo” temático enquanto parte da obra.

3) A de que a questão da natureza versus a da educação nos estudos “gays” precisa ser reformulada, e que a questão mais importante não é: como as pessoas se tornam “gay”, mas para quem a definição homo/heterossexual é de importância central?

4) A de que os estudos históricos, em seus esforços para recuperar a idéia de uma identidade homossexual, inadvertidamente criaram uma apresentação coerente e monolítica da homossexualidade como a que se conhece atualmente.
306

Estas teses e axiomas, segundo Campbell,

têm implicações sugestivas para a

305 306

Ibidem. CAMPBELL, G, Op. Cit, p. 127.

108

teoria análise documentária e de acesso à informação. Primeiro, porque elas sugerem que assuntos referentes à categorização, tanto ao agrupar quanto ao diferenciar, têm um papel vital no crescimento e na sobrevivência da comunidade homossexual. Segundo, porque se as afirmações da autora são justificáveis, então é possível defender que todos os trabalhos, sem levar em consideração seus conteúdos, são, em alguma medida, sobre homossexualidade, visto que um sistema de classificação - planejado para a comunidade gay -, teoricamente pode cercar os documentos de todas as áreas temáticas. O terceiro aspecto se constrói a partir da idéia de que as comunidades e teóricos gays continuariam a se dividir entre duas leituras possíveis sobre a homossexualidade: a das teorias essencialistas e a das construtivistas. Campbell observa que para a autora, por um lado, a leitura da homossexualidade, como uma essência transhistórica e transcultural, poderia ser descoberta (assim como a idéia dos preconceitos perenes em nível histórico) e desmantelada; por outro, muitos leitores – que seguem a perspectiva foucaultiana (Foucault afirma que o homossexual moderno apareceu em 1870, quando a prática da “sodomia” deixou de se referir a atos e se tornou uma identidade individual) – verem sua leitura legitimada, tendo em vista que as identidades são construções locais, históricas e culturais. Ele prossegue na análise enfatizando que, pelo seu entendimento, nas comunidades gays as pessoas continuariam sendo diferentes, as categorias poderiam ou não ser assimiladas, e os rótulos provisórios continuariam sendo produzidos. Tudo por causa de uma identidade que não é monolítica, não se refere a uma categoria estável, e sobre a qual não há consenso. E que a sobrevivência do grupo homossexual na perspectiva marginalizada dependeria ainda da subversão regular e freqüente da própria categoria. 307 Após apresentar tantos aspectos ligados à dissolução da identidade, as teorias e axiomas propostos por Sedgwick sofreram uma profunda oposição, fato que a levou a ser rotulada como homofóbica. A crítica de seu trabalho foi feita por David van Leer.308 Ele contestou, inicialmente, o uso da linguagem da autora, sugerindo que seu estilo coloquial, com o uso de termos como “Fag”, denunciavam uma homofobia latente. O problema, segundo ele, não era de natureza pessoal, visto que a simpatia da autora, assim como sua
307 308

Ibidem. VAN LEER, David. The Beast of the Closet: homosociality and the patology of manhood. Critical Inquiry 15: p. 587-605. apud. CAMPBELL, G. Op. Cit., p. 127.

109

lealdade em relação à comunidade gay não podia ser questionada, nem mesmo seu nível de consciência sobre o segmento. O problema, na verdade, devia-se ao fato de Sedgwick não ser “gay”, por isso sua terminologia seria problemática, visto o uso ostensivo dos termos ligados a estereótipos sexuais. Ao ser incapaz de falar a partir do vocabulário da minoria, a autora utilizava forçosamente o vocabulário da maioria. O argumento de Van Leer condena a autora como alguém que fala contra a comunidade, pois ele entende, a despeito de suas boas intenções, que ela não desvela o entendimento homofóbico, mas o subscreve.309 Para Campbell,310 Sedgwick possui um grande mérito: ela faz uma reflexão a partir das perspectivas binárias mais importantes, e que estão na base da organização do conhecimento sobre homossexualidade: a visão essencialista versus a visão construtivista; a visão minoritária versus a visão universal; a visão da homossexualidade como o estilo de vida de uma minoria, versus a homossexualidade enquanto um conceito com implicações universais para todo mundo, sendo indiferente a questão da orientação sexual. Essa perspectiva teórica também revela outro aspecto fundamental à análise de documentos: se de fato não há nada no texto que possa ser isolado como “intrínseco”, a tarefa crítica não é mais encontrar o conteúdo no texto, mas é identificar e articular as posições ideológicas, sociais e culturais a partir das quais se encontra o conteúdo do texto.311 Essa exigência sinaliza para a ultrapassagem das tarefas técnicas do bibliotecário, colocando-o mais na posição de um intelectual ligado ao entendimento da circulação dos termos através das linguagens.

309 310

Ibidem. CAMPBELL, G. Op. Cit., p. 127. 311 Idem, p. 128.

110

6 Considerações finais

É inevitável e necessário concluir essa reflexão comparando a presença desse debate entre os bibliotecários norte-americanos e os bibliotecários brasileiros. A pesquisa nas bases de dados revela que esta discussão, quando comparadas as duas realidades, está por ser iniciada aqui. No Brasil, uma explicação hipotética para essa carência de títulos na área de documentação pode ser atribuída à atualidade do assunto. Nesse ponto, o contato com a literatura norte-americana foi muito importante, pois suas reflexões indicaram respostas pertinentes à escrita dessa monografia. Após o início das leituras, o fato dos norte-americanos estarem avançados nesse debate não pareceu misterioso, visto que a primeira associação profissional declaradamente gay do mundo (ALA’s Gay, Lesbian, Bisexual and Transgendered Task Force) constitui-se nesse país - há muito mais tempo do que a militância homossexual no Brasil -, e seus participantes começaram a produzir uma série de reflexões que colocou em evidência a relação da biblioteconomia com esta questão. Nesse caso, é possível fazer algumas avaliações, como, por exemplo, a de que no Brasil os ventos de Stonewall – evento que marca a transformação da postura do bibliotecário em relação à comunidade GLBT - demoraram um pouco mais para chegar. Entre 1964 e 1984, o país esteve sob a repressão de um regime militar responsável por um forte silenciamento de qualquer manifestação social. Só com o abrandamento da ditadura, no final nos anos setenta, através da “abertura lenta e gradual” do espaço político é que essas idéias começaram a se manifestar. Elas chegaram por meio de sujeitos que voltavam do exílio e que no exterior mergulharam na efervescência cultural pós-Stonewall, ou, simplesmente, através do contato dos sujeitos com a literatura que descrevia o fenômeno. O canal público, possível à apresentação das idéias, era o dos jornais alternativos, ou, como ficaram mais conhecidos, dos tablóides da imprensa nanica. Desde a instalação do regime militar, eles começaram a surgir em resposta ao controle sobre tudo o que era publicado na grande imprensa. Particularmente, o Lampião da Esquina ousou tratar a questão da homossexualidade, abordada de forma moralista pela grande imprensa. O Lampião desapareceu, mas a identidade se solidificou através das ações promovidas pelos grupos gays e lésbicos brasileiros que, no decorrer dos anos oitenta e

111

noventa, se depararam com a crise da AIDS, defenderam propostas junto ao Congresso Nacional - por ocasião da assembléia nacional constituinte -, inéditas até então. Nas universidades, surgiram os trabalhos acadêmicos sobre a homossexualidade, as bibliografias, organizadas por professores, com a ajuda de bibliotecários, e a consciência de que era importante preservar a documentação. Hoje em dia há grupos que possuem seus arquivos – Grupo Gay da Bahia, Rede de Informação Um Outro Olhar - e que guardam materiais ligados à experiência GLBT. Em nível nacional, contudo, a literatura acadêmica da área de biblioteconomia, não possui uma quantidade de reflexões que cerquem o tema, como já vem acontecendo noutras áreas. No Brasil, grosso modo, as bibliotecas brasileiras utilizam as linguagens documentárias tradicionais, secundando, assim, todos os problemas que pudemos observar no decorrer dessa reflexão, mas já há inovações que demonstram a sensibilidade de profissionais, ligados a centros de documentação específicos, como o “Tesauro para estudos de gênero e sobre mulheres”(citado na parte de referências dessa monografia) que atende à necessidade de instituições interessadas em tratar acervos voltados a este segmento social. Porém, no tocante à comunidade GLBT brasileira ainda não há nada comparável. Na linguagem geral circulam palavras de pelo menos três discursos que convivem na cena contemporânea. Não é difícil identificar argumentos que fluem das doutrinas cristãs ligadas à idéia de que Deus espera que os homossexuais abandonem a vida de pecados, assim como é possível observar discursos que falam da cura clínica do “homossexualismo”. Porém, o espaço que nasceu com o debate sobre a questão homossexual garantiu ao segmento GLBT um direito à fala que, atualmente, não é mais calado por uma fé que define o que não deve ser dito, ou por uma ciência médica que traça as fronteiras entre o que é considerado normal e o que é considerado desvio. O discurso construído em torno do ativismo, entretanto, é criticado, pois a perspectiva antropológica busca contemporizar a questão GLBT, observando sua legitimidade no cenário brasileiro, quando pensa sobre as diferenças culturais. Se levarmos essa crítica ao pé da letra, é possível indagar, também, sobre a própria legitimidade dos discursos cristão e médico. Nesse caso, o dilema colocado por Oswald de Andrade parece se colocar perante o bibliotecário novamente - “Tupi or not Tupi”, eis a questão -, é preciso devorar as palavras para digeri-las e transformá-las, dando-lhes um contexto brasileiro.

112

7 Referências:

ALBRECHTSEN, Hanne. “Keynote Adress Extanded Abstract: The dynanism and stability of classification in information ecologies – problems and possibilities. In: BEGHTOL, Calre. Et al. (ed.) Dynamism and Stability in Knowledge Organization: Proocedings of the Sixth International ISKO Conference, 10-13 July 2000, Toronto, Canada. Wurzburg: Ergon Verlag, 2000. p. 1-2.

AMARAL, Maria Célia. Lista de Assuntos FFLCH/ USP (relato de experiência ad elaboração). Disponível no: http://www.ufpe.br/snbu/docs/90.a.pdf. Acessado em 10 de agosto de 2004.

ARIÈS, Philippe; BÉJIN, André (Orgs). Sexualidades Ocidentais. São Paulo: Brasiliense, 1987. ANZIEU, Didier. Edipe avant le complexe, Les Temps Modernes, vol 22, no 245, oct. 1966, p. 675-715.

BACCEGA, Maria Aparecida. Palavra e Discurso: História e Literatura. São Paulo: Ática, 1995.

BACCEGA, Maria Aparecida. Conhecimento, Informação

e

Tecnologia

Comunicação & Educação. São Paulo, (11): 7-16, jan./ abr. 1998.

BAILEY, Derrick Sherwin. Homosexuality and the Western Christian tradition. London-New York-Toronto: Longmans, green and Co, 1955.

BAUDRY, André & DANIEL, Marc. Os Homossexuais. Rio de Janeiro: Artenova, 1977.

BELLINI, Lígia. A Coisa Obscura: mulher sodomia e Inquisição no Brasil colonial. São Paulo: Brasiliense, 1987.

113

BERMAN, Sanford. Prejudices and antipathies: a tract on the LC subject heads concerning people. Metuchen, N.J.: The Scarecrow Press, Inc., 1971.

BLECUA, José Manuel. Lingüística e Comunicação. Rio de Janeiro: Salvat Ed, 1979.

BOSWELL, John. Christianisme, tolerance sociale et homosxualité: les homosexuals en Europe Occidentale des débuts de l’ère chrétienne au XIVe. Siècle. France: Gallimard, 1985.

BOSWELL, John. Hacia un enfoque amplio. Revoluciones universales y categorías relativas a la sexualidad. In: BOYERS, Steinery Robert. Homosexualidad: Literatura y Politica. Madrid: Alianza Editorial, 1985.

BOYERS, Steinery Robert. Homosexualidad: Literatura y Politica. Madrid: Alianza Editorial, 1985.

BROWN, Judith C. Brown. Immodest Acts: the life of a lesbian nun in Renaissance Italy. Oxford University Press, 1986.

BRUSCHINI, Cristina (et al). Tesauro para Estudos de Gênero e sobre Mulheres. São Paulo: Fundação Carlos Chagas/ Ed. 34, 1994.

BRYANT, Eric. Pride & Prejudice. Library Journal 120 (june 15 1995): 37-39.

BUFFIÈRE, Félix. Eros adolescent: la pédérastie dans la Grèce antique. Paris: Societe d’edition “Les Belles Lettres”, 1980.

CABRÉ, Maria Teresa. La Terminologia: teoria, metodologia, aplicaciones. Barcelona: Antardida/ Empuries, 1993

114

CAMPBELL, G. Queer theory and the creation of contextual subject access tools for gay and lesbian communities. Knowledge Organization. 27 (3) 2000, p.122-31.

CAMPOS, Astério Tavares. Linguagens documentárias. Revista de Biblioteconomia de Brasília. v. 14, no.1, p. 85-8, jan./jun. 1986.

CARMICHAEL Jr., James V. 'They sure got to prove it on me': millennial thoughts on gay archives, gay biography, and gay library history. Libraries and Culture. 35 (1) Winter 2000, p.88-102.

CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1980.

CHAUÍ, Marilena. Cultura e Democracia: O discurso competente e outras falas. São Paulo: Ed Moderna, l98l.

CHAUÍ, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo, Ática, 1995.

CHAUMIER, Jacques. As Técnicas Documentais. Mem Martins, Lisboa, Porto, Faro, Queluz: Europa-América Ltda.

CHILDE, Gordon. A Evolução Cultural do Homem. Rio de Janeiro: Zahar Ed., 1981.

CINTRA, Anna Maria Marques et al. Para Entender as Linguagens Documentárias. São Paulo: Polis, 1994.

COELHO, Cláudio Novaes Pinto. Os Movimentos Libertários em questão. Petrópolis: Vozes, 1987.

CORNELL, Drucilla. The Philosophy of the Limit. New York: Routledge, 1992.

COSTA, Jurandir Freire. Violência e Psicanálise. Rio de Janeiro: Graal, 1986.

115

COSTA, Jurandir Freire. A Inocência e o Vício: estudos sobre o homoerotismo. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 1992.

COSTA, Jurandir Freire. A face e o Verso: Estudos sobre o homoerostismo II. São Paulo: Escuta, 1995.

D’EAUBONNE, Françoise. Éros Minoritaire. Paris: André Balland, 1970.

D’EMILIO, John. Making Trouble: Essays on gay history, politics and the university. New York, London: Routledge, 1992.

Dewey Decimal Classification and relative index. Edition 21. Albany: Forest Press, 1996. Vol. 1.

DUBERMAN, Martin et al. (Ed by). Hidden from History: reclaiming the gay and lesbian past. NewYork: Meridian, 1989.

ECO, Umberto. O Signo. Lisboa: Editorial Presença, 1990.

ENROTH, R.M. The homosexual church: an ecclesiastical extension of a sulbculture. Social Compass, vol 21, No. 3, p. 355-60.

ERIBON, Didier. Réflexions sur la question gay. Paris: Fayard, 1999.

ERWIN, Susan. A Linguagem na Psicologia Humana. TAX, Sol. (org.) Panorama da Antropologia. Rio de Janeiro: Fundo de Cultura, 1966.

FACCHINI, Regina. Sopa de Letrinhas? Movimento homosexual e produção de identidades coletivas nos anos 90: um estudo a partir da cidade de São Paulo. Campinas: IFCH-Unicamp, 2002.

116

FILHO, Amílcar Torrão. Tríbades Galantes, Fanchonos Militantes: homossexuais que fizeram história. São Paulo: Summus, 2000.

FONTES, J. Brasil.Contra Naturam. Diponível no : http://www.lite.fae.unicamp.br/revista/sex01.htm Acessado em 05 jun. 2002.

FOSKETT, A.C. Mysoginists All: a study in critical classification. Library Resources & Technical Services 15.2 (Spring 1971): 117-21.

FOSKETT, A.C. The Subject Approach to Information. London: Clive Bingley, 1977.

FOUCAULT, Michel. História da Sexualidade: a vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1988.

FOUCAULT, Michel.História da Sexualidade II: o uso dos prazeres. Rio de Janeiro: Graal,1988.

FRASER, Ronald (org). 1968: a student generation in revolt. New York: Pantheon Books, 1988.

FRAZER, Nancy. Rethinking the Public Sphere: a contribution to the critique of actually existing Democracy. Social Text. 25/26, 1990. p. 67-77.

GRAHN, Judy. Another Mother Tongue. Gay Words, Gay Worlds. Boston: Beaton Press, 1984.

GRAMSCI, Antônio. Os intelectuais e a organização da cultura. São Paulo: Círculo do Livro, s.d.

117

GREENBLATT, Ellen. Homosexuality: The Evolution of a Concept in the Library of Congress Subject Headings. In: GOUGH Cal and GREENBLATT Ellen (Ed.) Gay and Lesbian Library Service. Jefferson, NC: McFarland & Company, 1990. p. 75-101.

GREENBLATT, Ellen. Barriers to GLBT Library Service in the Eletronic Age. Information for Social Age, 12, winter 2001.

GUIMARÃES, Celeste Zenha. Homossexualismo: Mitologias Científicas. Tese de doutorado apresentada ao Depto. de História da IFCH-UNICAMP, em maio de 1994.

GUIMARÃES, Eduardo. Os Estudos Sobre Linguagens: uma História das Idéias. Disponível no: http://www.comciencia.br/reportagens/linguagem/ling14.htm. Acessado em 28 de junho de 2004.

HABERMAS, Jürgen. Mudança Estrutural da Esfera Pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1984.

HABERMAS, Jürgen. O Discurso Filosófico da Modernidade. Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1990.

HALPERIN, David M. One Hundred Years of Homosexuality. New York: Routledge, 1990.

HALSALL, Paul. People with a History: an on-line guide to lesbian, gay, bisexual and trans* History. Disponível no: http://www.fordham.edu/halsall/pwh/. Acessado em internet em 24 jun. 2004.

HERDT, Gilbert. Same Sex, Different Cultures. Boulder: Westview Press, 1997.

HOCQUENGHEM, Guy. A Contestação Homossexual. São Paulo: Brasiliense, 1980.

118

HUNT, Morton M. Dilema na Grécia: A invenção do Amor. In: Sexo: Teoria e prática. São Paulo: IBRASA, 1974.

KNIFFEL, L. You gotta have Gerber-Hart: a gay and lesbian library for the Midwest. American-Libraries. 24 (10) Nov 93, p.958-9.

KAULA, Prithvi N. Repensando os Conceitos no Estudo da Classificação. Disponível no: http://www.conexaorio.com/biti/kaula/ . Acessado em 06 de novembro de 2004.

KRIEGER, Maria da Graça. Terminologia Revisitada. D.E.L.T.A., São Paulo, v. 16, n. 2, p. 52.

LADO, Robert. Introdução à Lingüística Aplicada. Petrópolis: Vozes, 1972.

LANCASTER, F.W. Indexação e resumos: teoria e prática. Brasília: Briquet de Lemos, 1993.

LAQUEUR, Thomas. Inventando o Sexo: Corpo e gênero dos gregos a Freud. Rio de Janeiro: Relume-Dumará, 2001.

LARA, Marilda Lopes Ginez de. O Unicórnio (o Rinoceronte, o Ornitorrinco ... ), a Análise Documentária e a Linguagem Documentária. DataGramaZero - Revista de Ciência da Informação, v.2, n.6, dez/2001.

LAURITSEN, John; & THORSTAD, David. The Early Homosexual Rights Movement (1864-1935). New York: Times Change Press, 1974.

LENTINO, Noêmia. Guia teórico, prático e comparado dos principais sistemas de classificação bibliográfica. São Paulo: Polígono, 1971.

119

LEVER, Maurice. Lês Bûchers de Sodome: Histoire dês “Infames”. France: Fayard, 1985.

LEWINSOHN, Richard. História da Vida Sexual. Lisboa: Livros do Brasil.

LOPES, Edward. Fundamentos da Lingüística Contemporânea. São Paulo: Cultrix, 1975.

LUKENBILL, W. B. Modern gay and lesbian libraries and archives in North America: a study in community identity and affirmation. Library Management. 23 (1/2) 2002, p. 93-100.

LÖWY, Michael. Para uma Sociologia dos Intelectuais Revolucionários. São Paulo: LECH, 1979.

MARCH, Sue. Libertação Homossexual. São Paulo: Nova Época Editorial, 1981.

MARTINS, Wilson. A Palavra Escrita: história do livro, da imprensa e da biblioteca. São Paulo: Ática, 1998.

MARX, K; ENGELS, F. Obras Escolhidas. São Paulo: Alfa-Ômega, 1977.

MATOS, Olgária. Paris 1968: as barricadas do desejo. São Paulo: Brasiliense, 1981.

MISSE. Michel. O Estígma do Passivo Sexual. Rio de Janeiro: Achiamé, 1979.

MONEY, John. Gay, Straight and In-Between: the sexology of erotic orientation. New York: Oxford University Press, 1988.

120

MORAES, Alice Ferry de; ARCELLO, Etelvina Nunes. O Conhecimento e sua Representação. Disponível no: http://www.informacaoesociedade.ufpb.br/1020004.pdf. Acessado em 21 ago. 2004.

MONROE, Judith. Breaking the silence barrier: libraries and gay and lesbian students. Collection Building. 9 (1) 1988, 43-46.

MOYA, Cynthia Ann. Chapter 5: Libraries visited for this study. In: Talking About Pornography: A Comparative Subject Analysis of Sexually Explicit Materials. Disponível no: http://www.green-bean.com/cynde/TalkingAboutPorn.htm. Acessado em 20 de agosto de 2004.

OLSON, Hope A. The Power to Name: Locating the Limits of Subject Representation in Libraries. Dordrecht/ Boston / London: Kluwer Academic Publishers, 2002.

PAGLIA, Camille. Personas Sexuais: Arte e decadência de Nefertite a Emilly Dickinson. São Paulo: Companhia da Letras, 1992.

PARKER, Richard G. Corpos Prazeres e Paixões. São Paulo: Best Seller, 1991.

PARKER, Richard G. Abaixo do equador: culturas do desejo, homossexualidade masculina e comunidade gay no Brasil. Rio de Janeiro/ São Paulo: Record, 2002.

PERLONGHER, Nestor. O desaparecimento da homossexualidade. Saúde e Loucura, no. 3, 1992

PEREIRA, Carlos Alberto Messeder. O que é Contracultura. São Paulo: Brasiliense, 1986.

PETRI, Dino. Sociolingüistica: os níveis de fala. São Paulo: Edusp, 1997.

121

PIAGET, Jean. Epistemologia Genética. São Paulo: Martins Fontes, 1990.

PIEDADE, M.A. Requião. Introdução à Teoria da Classificação. Rio de Janeiro: Interciência, 1983.

POLLAK, Michael. Os Homossexuais e a AIDS. São Paulo: Estação Liberdade, 1990.

REGARDS SUR L’AMOUR ENTRE HOMMES. Disponível no: http://www.lambdaeducation.ch/content/menus/histoire/planhistoire.html. Acessado em 26 jul. 2004.

REIS FILHO, Daniel Aarão. A construção do Socialismo na China. São Paulo: Brasiliense, 1981.

REYNOLDS, R. Post modernism and gay/ queer identities. In: ALDRICH, R. (Ed.) Gay Perspectives II: more essays in Australian gay culture, Australian Centre for Gay and Lesbian Research, Sydney, 1994.

RICHARDS, Jeffrey. Sexo, Desvio e Danação: as minorias na Idade Média. Rio de Janeiro: Jorge Zahar ed., 1993.

ROBINSON, Paul. A Modernização do Sexo: ensaios sobre Ellis, Kinsey, Máster & Johnson. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,1977.

ROUANET, Paulo Sérgio. Razões do Iluminismo. São Paulo: Cia das Letras, 1989.

SALLES, Catherine. Nos submundos da Antigüidade: les bas-fonds de l’antiquité. São Paulo: Brasiliense, 1987.

SAYÃO, Fernando. Bases de dados: a metáfora da memória científica. Ci. Inf., Brasília, v. 25, n. 3, set./dez. 1996. p. 314-8.

122

SMIT, Johanna. O que é Documentação. São Paulo: Brasiliense, 1986.

SEIDEL, Heike. The Invisibles: lesbian women as library users. Progressive Librarian.14 (1998): p. 34-43.

SERGENT, Bernard. L’homosexualité dans la mythologie grecque. Paris: Payot, 1984.

SCHAFF, Adam. Linguagem e Conhecimento. Coimbra: Almedina, 1974. SEDGWICK, Eve Kosofsky. Epistemology of the Closet. Berkeley: University of California Press, 1990.

SHOWALTER, Elaine. Anarquia Sexual: sexo e cultura no fin de siècle. Rio de Janeiro: Rocco, 1993.

SOUZA, Pedro. Confidências da Carne: o público e o privado na enunciação da sexualidade. Campinas: Tese de doutorado apresentada à comissão examinadora da Unicamp, 1993.

SPENCER, Colin. Homossexualidade: Uma história. Rio de Janeiro: Record, 1996. TÁLAMO, Mária de Fátima G. M. Linguagem Documentária. Ensaios APB, no. 45.

TERRA, Ernani. Linguagem, língua e fala. São Paulo: Scipione, 1997. TREVISAN, João Silvério. Devassos no Paraíso: a homossexualidade no Brasil, da colônia à atualidade. Rio de Janeiro-São Paulo: Record, 2000.

VAN DER LAAN, Regina Helena; FERREIRA, Gloria Isabel Sattamini. Tesauros e Terminologia. Disponível no: http://www.biblioestudantes.hpg.ig.com.br/texto_104.pdf. Acessado em 20 de agosto de 2004.

123

VAN LEER, David. The Beast of the Closet: homosociality and the patology of manhood. Critical Inquiry 15: p. 587-605.

VIGOTSKY, Lev Semenovitch; LURIA, Alexander Romanovitch; LEONTIEV, Alex N. Linguagem, desenvolvimento e aprendizagem. São Paulo: Ícones, 1988.

WARNER, R.S. The Metropolitan Community churches and the gay agenda: the power of Pentacostalism and essentialism. BROMLEY, D.G.; NEITZ, M.J.; & GOLDMAN, M.S. (Eds). Religion and the Social Order: sex, lies, and Sanctity – religion and deviance in North America. Greenwich: JAI Press, 1995.

WARREN, Patricia Nell. How real is our sense of “history”?. Disponível no: http://www.rslevinson.com/gaylesissues/features/collect/guest/blwarren.htm Acessado em 20 de agosto de 2004

WEEKS. Sexuality and its discontents: meanings, myths & modern sexualities. London-New York: Routledge, 1993.

ZANATTA, Elaine Marques. Documento e Identidade: o movimento homossexual no Brasil na década de 80. Cadernos AEL, no. 5/6, 1996/1997. p. 193-220.

124

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->