Capítulo 1 - Despertando

Lá estava eu nas profundezas do submundo ou mundo espiritual chame como quiser,
no momento mais esperado da minha vida, o dia em que enfim me revelaria como
realmente sou, porém há algo que me impede um sentimento que eu não deveria
sentir, pois é proibido. Algo que eu não esperava que me pegou desprevenida e me
invadiu por completo sem misericórdia, então sou tomada por uma desesperada
vontade de fugir, de correr o mais rápido que posso e me esconder até tudo isso
passar, mas seria burrice tentar fugir do próprio destino.

Alguns dias atrás...

O vento batia forte em meu rosto esvoaçando meus cabelos e provocando um
zumbido agoniante em meu ouvido, respiro fundo olhando em volta em busca de
algo ou alguém, mas não vejo nada, olho para meu reflexo na água empoçada no
chão ao meu lado, estou usando um espartilho e um short preto de couro com um
casaco sobretudo preto por cima que vai até meu calcanhar, uma bota preta bem
apertada até um pouco abaixo dos joelhos, no meu cinto havia duas facas e uma
espada, pendurado nas minhas costas um arco e flecha, meus olhos brilhavam de
emoção, sua cor era um vermelho vivo e intenso, minha expressão era de fúria, de
raiva como as de um caçador, na minha boca um par de presas enormes reforçava
minha expressão ameaçadora, ouço um barulho atrás de mim e quando vou me
virar para ver o que era...

—Acorda Vick, já pousamos! - Erick me balançava de um lado para o outro na
poltrona do avião.

Em um reflexo me virei e segurei direto no seu pescoço com o máximo das minhas
forças.

—Você está me machucando! - ele gemeu.
—Ops. - sorri e soltei seu pescoço. - Foi um reflexo.
—Se você continuar me atacando toda vez que eu for te acordar um dia você acaba
me machucando de verdade. - ele passou a mão no pescoço.
—Eu só estava tendo um sonho. - dei de ombros enquanto olhava para o corredor
quase vazio do avião.
—Sonho ou pesadelo?
—Acredite em mim maninho, não vai querer saber. - respondi me levantando para
descer do avião.
—Você é esquisita. - ele retrucou também se levantando.
—Essa é apenas uma das minhas qualidades. - sorri irônica pegando minha
bagagem de mão.

Minha família estava mudando de Nova York para Strangevill, uma cidade do
interior dos Estados Unidos localizada no estado de Nevada, era uma mudança
bem radical, mas estava disposta a encarar.

Não tenho uma família muito grande tem meu meio irmão que se chama Erick
Sumpter, tem 14 anos é filho do meu padrasto Charles e da minha mãe Hanna, e eu
sou Vicktoria Manson mais conhecida como Vick, estou prestes a fazer 16 anos.
Meu pai morreu pouco tempo depois que nasci, mas antes disso conseguiu trazer a
"vida" sua herdeira, no caso eu.

Assim que coloquei os pés fora do avião admirei a paisagem, montanhas bem
distantes faziam um semicírculo ao redor da cidade, pelo que podia ver tudo era
bem verde e as pessoas eram bem receptivas, o próprio aeroporto tinha uma
aparência rústica, não velha, mas sim clássica, sempre adorei isso. O ar ventou frio
esvoaçando meus cabelos, sorri percebendo que o clima desse lugar era meu
preferido. Mal sabia eu as surpresas que me aguardavam.

Olhei em volta até localizar minha mãe rodeada de malas no meio do aeroporto
atrapalhando a passagem das pessoas, ela contava insistentemente as malas
tentando se convencer de que não faltava absolutamente nada.

—Mãe? Não vai ter um surto outra vez, vai? - sorri colocando minha bagagem de
mão em cima de uma pilha de malas.
—...dez, onze, doze! - ela exclamou apontando para minha bagagem. - Pronto aqui
estão todas as malas, agora só falta aquelas tralhas que seu irmão insistiu em
trazer... - ela olhou para algo atrás de mim. - Ali está, agora sim, não falta nada.

Olhei para trás e vi Erick e Charles se esforçando para carregar alguma coisa, eles
pareciam precisar de uma mãozinha, mas estavam indo bem, então não me
incomodei em ajudá-los.

—O que achou? - mamãe perguntou sorrindo e olhando em volta. - Vou arriscar e
dizer que amou. - arqueou a sobrancelha.
—Você sabe que sim. – respondi sorrindo. – Como aqui é bonito e calmo.
—Bem diferente de Nova York. – Erick disse se jogando no chão e suspirando
cansado.

Ele e Charles se aproximaram com o restante das malas, Erick não gostava muito
de climas frios, ele era exatamente o contrário de mim, mas não podia reclamar,
tivemos que nos mudar, Charles havia recebido uma proposta irrecusável para
trabalhar como chefe em um restaurante da cidade, que proporcionaria um belo
estilo de vida para nossa família.

—Querido, que tal pedirmos um taxi? - mamãe disse indo em direção a Charles.
—Acho melhor pedir dois. - sorri. - Um só para as malas.
—Vou procurar um telefone. – ele disse se afastando.
—Erick será que tem como você tirar essa expressão fechada do seu rosto? Não
deu um sorriso desde que chegou. – minha mãe disse abraçando-o.
—Não queria ter me mudado, gostava da minha vida em Nova York, dos meus
amigos, da minha escola, da minha turma. Mas como nada disso é importante para
vocês, tive que vir forçado para esse lugar chato que parece que parou no tempo.
—Larga de ser dramático. – provoquei. – Parece criança, está com saudade daquela
creche onde você estudava?
—Não começa, eu não sou criança!
—Claro, você é a pessoa mais madura que eu conheço. - disse de maneira
sarcástica.

Irritar o Erick era um dos meus passatempos favoritos.

Lá no fundo eu não me importava muito com mudanças, nunca me afeiçoei demais
a lugares ou pessoas, mas por ter vivido minha vida inteira em Nova York quando
minha mãe disse que nos mudaríamos fiquei um pouco receosa, não sabia o que
esperar, mas ao chegar em Strangevill me senti em casa, como se desde sempre
esse fosse meu lugar - mas é claro que era, eu nasci para viver aqui, só não sabia
disso ainda.

O caminho para nova casa não foi muito longo, estava muito entusiasmada,
olhando pelo vidro do carro as casas antigas, a decoração retrô, os postes de luz
que só se viam em filme antigo, as ruas calmas, sem toda aquela agitação de Nova
York. Nada de prédios altos, outdoors ou arranha céus, nada de congestionamentos
no trânsito e pedestres para todos os lados, se via algumas pessoas sentadas
conversando em uma esquina, outras andando devagar sem olhar para os lados ao
atravessar a rua por saberem que o movimento era pequeno, apenas paz e
tranquilidade.

Logo o carro estacionou em frente a uma casa azul, era grande e tinha um pequeno
jardim na porta com algumas flores e um caminho de pedras até a entrada da
frente, onde havia uma varanda, a casa tinha um ar retrô também, com dois
andares e uma árvore com um balanço ao lado esquerdo da casa, algumas folhas
espalhadas pelo quintal e ao fundo uma casinha de cachorro que deve ter sido
abandonada a muito tempo, a casa era simplesmente perfeita para uma garota
como eu.

—Bem vindos a nova casa. - Charles disse descendo do carro.
—Vamos morar nessa casa velha? - Erick fez uma careta. - Porque tudo aqui é tão
antigo?
—A palavra é clássico, Erick. - desci do carro maravilhada.
—Você só curte velharia. - Erick colocou os fones e se encostou ao carro.
—Não querem conhecer a casa? Já está praticamente toda mobilhada, inclusive os
quartos. - mamãe tentou entusiasmar meu irmão - Acho que irá gostar do seu
quarto, querido. - ela retirou os fones dele. - Não finja que não está ouvindo.
—Ok. - respondeu cabisbaixo.

Eu havia insistido que meu quarto fosse exatamente como era antes, por isso
estava dormindo a três dias seguidos no sofá da sala - que não é nada confortável -
os móveis do meu quarto tiveram que vir na frente para que quando eu chegasse já
estivesse tudo pronto.

Enquanto mamãe tentava convencer Erick de que se mudar não era o monstro de
sete cabeças que ele estava imaginando, Charles conduzia e coordenava a equipe
da mudança que acertava os últimos detalhes dos móveis, já eu larguei as malas no
chão e segui andando até o balanço que havia atraído minha atenção, antes de me
sentar puxei a corda duas vezes para ver se estava firme, quando a corda rangeu
fazendo barulho decidi que definitivamente não era confiável, segui andando para
dentro da casa. Tudo era bem amplo e iluminado, o piso de madeira polido e o
acabamento na base do teto, o enorme lustre pendurado na cozinha e o corrimão
todo talhado da escada, segui subindo degrau por degrau a procura dos quartos da
casa.

Foi então que Erick passou correndo por mim, sorrindo, garoto esquisito, o que
será que minha mãe havia dito para convencê-lo?

Nesse momento recordei um episódio que havia acontecido na minha antiga casa,
havia sido difícil explicar para minha mãe como Erick rolou dois lances de escada a
baixo, não havia sido intencional, mas é porque quando me empolgo perco um
pouco a noção da minha força que chega a ser muito maior do que se pode
imaginar para uma garota da minha idade, então quando seu irmão mais novo te
desafia em uma corrida escada a cima é meio complicado se conter, principalmente
quando ele fica te empurrando.

Continuei subindo as escadas e por extinto segui até a última porta do corredor, e
como esperava aquela era a porta certa, minhas coisas já haviam chegado, estava
tudo como no meu antigo quarto, a cama bem distante da janela, a escrivaninha ao
lado com meus livros e cadernos, o abajur que era do meu pai, o computador no
outro canto do quarto e entre a cama e a porta meu guarda-roupas todo forrado
com espelho por fora o que dava a sensação de que o quarto era bem maior. A
primeira coisa que fiz foi fechar as cortinas pretas que deixavam o quarto
totalmente escuro. Sempre adorei a escuridão, faz com que eu me sinta única,
completa e segura, raramente ascendia à luz - deve ser porque enxergo melhor no
escuro. Deitei na cama e fiquei encarando o telhado que estava cheio de adesivos
incandescentes em forma de borboleta que brilhavam no escuro, não demorei
muito para cair no sono novamente, o cansaço da viagem estava me afetando.

Depois de algum tempo, que havia sido a tarde toda, acordei com um grito vindo da
cozinha, era a voz da minha mãe, de repente o ar ficou mais pesado, pude sentir
uma mistura de pânico e preocupação, era mais uma coisa de que era capaz, sentia
os sentimentos quando emanados em intensidade, nem me preocupei em usar as
escadas sai do quarto correndo e pulei direto na sala de estar que ficava ao lado da
cozinha, tive sorte já que ninguém estava olhando, qualquer outra pessoa teria
quebrado a perna ou distendido um músculo pulando de uma altura daquelas, mas
não eu. Aterrissei perfeitamente no chão e corri até a cozinha em direção ao grito
que havia escutado, ao chegar lá me arrependi amargamente de ter saído do
quarto.

Sangue derramado pelo chão, espalhando seu cheiro por todo o ambiente, Charles
havia deixado o vidro da mesa cair e ao tentar pega -lo cortou seu braço, era um
corte bem grande e sangrava muito, parei no vão da porta e fiquei estática olhando
a cena, minha garganta ficou seca, depois de um curto espaço de tempo começou a
queimar e por minha cabeça se passavam milhares de coisas horripilantes.

Constatei rapidamente que aqueles sentimentos de pânico e preocupação vinham
da minha mãe que estava ao lado de Charles e segurava seu braço cortado. Um
desejo abominável tomava conta do meu corpo, uma sede que não conseguia
controlar, era algo inevitável.

—Vick? – ouvi meu irmão atrás de mim, mas não me virei para olhá-lo, não
conseguia estava paralisada.

Tentei responder, mas minha voz falhou, fixei meu olhar no sangue que se
derramava no chão, conseguia ouvir perfeitamente cada gota que pingava no chão
da cozinha e respingava nos móveis espalhando um cheiro convidativo e
enlouquecedor, foi nesse momento que involuntariamente dei dois passos para
frente.

—Erick, tire sua irmã daqui! - eu ouvia a voz nervosa da minha mãe, mas não
conseguia olhar para ela.

Erick se aproximou e puxou meu braço, primeiro gentilmente, mas quando
percebeu que não me movia começou a puxar meu braço cada vez mais forte, em
vão, continuei andando em direção ao meu padrasto.

—Mãe, não está dando muito certo. - Erick disse preocupado. - Mãe, o que eu faço?
—Vick seus olhos. - finalmente eu havia conseguido desviar o olhar do sangue e
conseguido olhar para minha mãe.
—O que há com eles? - respondi entredentes ainda olhando fixamente o sangue.
—Eles estão ficando vermelhos e como você está branca e gelada. - Erick sussurrou
em meu ouvido para que Charles não escutasse.

Nesse momento involuntariamente coloquei minhas mãos em cima do ferimento
de Charles, que me lançou um olhar confuso.

—Acho melhor você soltar meu braço. – seu olhar demostrava que ele sentia um
pouco de dor. - Está doendo.

Após ele dizer isso despertei e percebi o que estava fazendo, meio que sai de uma
hipnose, o sangue tem esse efeito sobre mim, ele me chama e quando isso acontece
os resultados não são muito bons.

—Acho que não estou me sentindo muito bem. - foi então que percebi que estava
segurando o braço de Charles e que minhas mãos estavam completamente sujas
com seu sangue. - Acho que não reajo muito bem ao ver sangue. - pisquei duas
vezes até conseguir soltar seu braço.
—Vicktoria é hematófoba, não pode ver sangue, não é querida? - mamãe disse
respirando fundo e disfarçando seu nervosismo - Vick, saia daqui, agora! - o olhar
da minha mãe era firme e ao mesmo tempo temeroso.
—Desculpa. - disse sentindo um pouco de culpa se espalhando dentro de mim e sai
da cozinha correndo.

Subi as escadas rapidamente e me tranquei no quarto. Apoiei meu corpo na porta e
escorreguei até sentar no chão, coloquei a cabeça entre as pernas e respirei fundo
tentando me acalmar.

—Vick! - Erick bateu na porta. - Está tudo bem? – pude sentir a preocupação
emanando através da porta, ele realmente queria saber como eu estava.
—Fica longe de mim! - disse baixo, mas em uma altura suficiente para ele escutar,
foi tudo o que consegui pronunciar naquela situação.
—Tudo bem, mas qualquer coisa eu vou estar lá em baixo. - ouvi os passos dele se
afastando pelo corredor.

Minhas mãos estavam completamente cobertas de sangue e o cheiro rapidamente
se espalhou por todo o quarto, não consegui controlar e no impulso levei-as até a
boca, lambendo todo o sangue que nelas havia, isso não era uma atitude muito boa,
afinal era o sangue do Charles, a pessoa que me criou como sua filha, mas por outro
lado, não havia avançado no pescoço dele ao ver tanto sangue, isso já foi bem
difícil.

Confesso que não sou muito normal.

Melhor dizendo, pareço ser bastante normal, me comporto como qualquer outra
pessoa, tudo bem que posso ser um pouco obscura e misteriosa, mas nada a mais
que isso. No final de tudo sou uma adolescente perfeitamente normal ao ver de
outras pessoas, mas só que sou uma vampira.
É, isso mesmo. Vampira!

Verdadeiramente sou uma vampira, não completamente, pois ainda tenho uma
parte humana dentro de mim, sou metade humana e metade vampira. Existem
muitos outros como eu por aí, mas nenhum deles são exatamente iguais, sou única
herdeira de um clã de vampiros extremamente poderosos, o clã Deiash, meu pai
era líder desse clã, mas depois de sua morte essa responsabilidade se tornou
minha, é meu destino me transformar completamente quando fizer 16 anos, assim
assumirei minha verdadeira forma que ao ver dos humanos é um pouco
apavorante, na verdade sou mais bonita e perigosa, meus cabelos são de um tom
castanho avermelhado, longos e repicados, meus olhos são acinzentados, mas
quando estou com raiva ou sede ficam vermelhos, tenho presas imensas na boca,
minha força é surreal, entretanto em forma humana tenho 1,65 metros de altura,
cabelos castanhos que vão até um pouco abaixo do ombro, olhos negros, pele
morena clara e fisicamente sou magra como qualquer outra garota comum e não
represento medo à ninguém, apesar de que sou capaz de coisas que muitos nem
imaginam.

Sou filha de um vampiro com uma humana, mesmo isso sendo proibido, mas foi
aceito, porque quando minha mãe engravidou era uma feiticeira, mas meu avô, pai
da minha mãe ao descobrir que ela estava envolvida com um vampiro selou seus
poderes a transformando em uma humana normal, então quando nasci minha mãe
já sabia que eu não seria como os outros.

Na forma humana não preciso de sangue para viver, mas isso não quer dizer que
não tenha sede, já avancei no pescoço de muitas pessoas e fui obrigada a apagar
aquilo da mente delas, mais uma coisa de que sou capaz de fazer, mas não sempre,
pois desgasta e requer esforço.

Todas as noites quando durmo quase sempre vou para um lugar ao qual
chamamos de “submundo” nome dado ao mundo espiritual, lá sou completamente
vampira e assim que meu pai morreu me transportei até lá pela primeira vez e um
ancião me contou quem eu era e do que era capaz, eu tinha apenas dois anos de
idade, foi um pouco difícil de me ensinar que não deveria contar sobre aquilo para
ninguém.

O submundo é como se fosse uma realidade paralela a essa, isso mesmo existe dois
mundos, um paralelo ao outro, vivendo em constante sintonia apesar das ultimas
mudanças. Um é esse em que os seres humanos vivem e conhecem, chamado
popularmente de realidade, o outro é um que a raça humana desconhece, pelo
menos a grande maioria, o nosso mundo, um lugar onde pessoas normais não
vivem e sim criaturas sobrenaturais. Criaturas essas que podem viver livremente
em qualquer um dos dois mundos, mas só podem se mostrar e assumir no
submundo, já que seres humanos não podem saber de nossas existências.

O submundo é um local onde as criaturas sobrenaturais vivem em sono, seus
espíritos são transportados para lá quando dormem, lá não é como aqui, é
perigoso, tudo pode acontecer, e se você por um acaso morrer no mundo espiritual
sua vida também acabará no mundo real.

Tudo é organizado e dividido, existem cidades para cada tipo de criatura, e se não
quiser arranjar problemas não invada o território inimigo, isso não costuma acabar
bem, existe uma rivalidade muito grande entre muitas raças, são poucas as que
vivem pacificamente. O submundo é como o berço das criaturas mais perigosas
existentes na terra, lá se pode ser quem você realmente é sem que ninguém
estranhe ou se assuste.



Percebendo que havia lambido todo o sangue de minhas mãos parei
imediatamente e me arrependi, minha consciência pesou.

—Esse é o sangue do Charles, meu padrasto, eu sou um monstro! – disse para mim
mesma, decepcionada.

Se fosse apenas a culpa seria ótimo, mas não, ver aquele sangue todo despertou
meu vampirismo, de repente eu estava com sede, sede de sangue.

Quando um vampiro fica com sede não é como se pudéssemos controlar, é algo que
foge da nossa capacidade de resistência, aos poucos vai nos deixando loucos, é
como se houvesse uma névoa densa em nossa mente, não conseguimos pensar com
clareza, nos tornamos mais agressivos, o nosso objetivo se torna somente e
exclusivamente, sangue.
Alguns de nós conseguem “resistir” a isso, de certa maneira possuem um controle
maior - desde pequena eu venho trabalhando essa minha resistência, evoluí
bastante, mas não o necessário.

—Vick. - ouvi a voz da minha mãe atrás da porta. - Estou entrando. - senti que ela
empurrava a porta atrás de mim.

Desencostei-me da porta para que ela pudesse entrar, rapidamente limpei o canto
da minha boca com as costas da mão que estava sujo com o sangue do Charles,
andei até minha cama e me sentei cabisbaixa.

—Não deveria ter gritado mãe, devia ter me avisado de alguma maneira para não
descer. – olhei minhas mãos me lembrando de quanto sangue havia nelas até
poucos segundos. - Quase que o Charles descobre, percebeu o quanto ele achou
aquilo estranho? Eu quase avancei nele! – apesar da minha aparente irritação
minha voz era baixa, mas bastante afiada, acho que ela percebeu isso.
—Graças a Deus não fez isso! - ela colocou a mão no coração. - Minha filha, me
desculpe, na hora eu nem pensei. Olhe para mim. – ela ascendeu a luz - Seus olhos
estão mais claros que o normal e suas presas estão crescendo. – ela mudou de
assunto, é claro que mudaria, não iria admitir que aquilo tudo havia sido culpa
dela.
—Eu sei disso. - mordi o lábio inferior. - O que houve com o Charles? – respirei
fundo, já estava começando a ficar irritada.
—Enrolou um pano no braço e foi para o hospital mais próximo, eu já limpei o
sangue lá embaixo.
—Como se adiantasse, vou sentir o cheiro impregnado durante semanas! – minhas
palavras saíram mais duras do que eu imaginava.

Por alguns segundos ela ficou em silêncio, acho que percebeu o que estava
havendo ali, ela já havia testemunhado várias vezes meus vampirismo
despertando, então aprendeu que conversar comigo não era a melhor opção.

—Vou terminar o jantar, quer comer alguma coisa? – ela perguntou atenciosa.
—Não é exatamente comida que quero agora, mãe. - o sangue de Charles espalhado
pelo chão da cozinha invadiu minha mente.
—Tudo bem, qualquer coisa me chame, e querida não faça nada do que possa se
arrepender depois. - disse saindo do quarto e fechando a porta.

—Não faça nada do que possa se arrepender depois. – repeti irônica depois de ter
certeza de que ela não poderia ouvir. – É muito fácil falar!

Deitei na minha cama e fiquei encarando o teto, era um costume meu ficar
encarando as coisas por horas, um meio que havia encontrado para tentar me
acalmar.

Já eram duas horas da manhã e não conseguia dormir direito, meus sentidos são
mais aguçados durante a noite e quando estou sedenta de sangue eles ficam ainda
melhores, não pude evitar ouvir um grupo de jovens subindo a rua da minha casa,
minha garganta começou a queimar e senti minhas presas crescendo pressionando
meu lábio inferior, não resistindo a tentação levantei e comecei a andar em círculos
pelo quarto, a inquietação e a cede tomaram conta de mim, ainda descalça abri a
janela do meu quarto e me debrucei na sacada, consegui avistá-los, não estavam
muito longe, eram cinco garotos deviam ter uns 16 á 19 anos, aparentemente
estavam bêbados, por isso não perceberam quando pulei da sacada do meu quarto
no segundo andar e corri até atrás deles, quando passavam em frente a um lote
vago puxei um deles e o arrastei para detrás do muro, tampei sua boca e o
imobilizei segurando seus braços.

—Você é louca? O que pensa que está fazendo? - ele perguntou desorientado e sem
equilíbrio, quando finalmente destampei sua boca.
—Shiu! - minhas presas começaram a crescer então virei sua cabeça tendo uma
melhor visão de seu pescoço.
—Meu Deus quem é você? Melhor ainda o que é você? - ele tentou fugir, em vão, eu
era mais forte.
—Eu? – perguntei descendo meu dedo indicador pelo seu pescoço. – Não sou
ninguém. – sorri aproximando meus dentes no lado esquerdo de seu pescoço.

Ele se debateu tentando se soltar, mas era tarde demais passei meus dois braços
em volta do seu corpo e dei uma mordida certeira, sentindo o gosto do sangue em
minha boca, me deliciando com a sensação que aquilo transmitia, à medida que o
líquido vermelho e viscoso descia por minha garganta eu me sentia mais calma e a
queimação em minha garganta diminuía. Antes que o garoto pudesse resistir já
estava desmaiado.

Três meses, havia três meses que não bebia sangue, e só porque vi o Charles
machucado a sede falou mais alto. Não me agrada nenhum pouco ferir pessoas
inocentes, nunca irei me acostumar com isso, ver humanos como “alimento”, isso
não é certo.

Depois de beber o suficiente de seu sangue fiz um esforço para entrar em sua
mente e apagar da memória o que ele havia visto, já que é proibido deixar que um
humano descubra sobre nossa existência, se eles descobrirem tem que ser por
conta própria, não podemos contar á eles, nem mesmo deixar que nos veja de
propósito, quem viola essa lei, digamos que morre.

Deixei-o ali deitado no chão encostado no canto do lote vago e voltei para o meu
quarto, eu não sabia quem ele era, ou se era uma pessoa boa ou ruim, fui dormir
me forçando a acreditar que ele era o pior garoto do mundo, que uma pessoa da
sua idade não estaria a essa hora da manhã andando bêbado pela rua se não
estivesse fazendo uma coisa errada. Só assim eu não me sentiria tão culpada pelo
que fiz, mas no fundo eu sabia que mesmo que ele não fosse a pessoa com a melhor
índole do planeta o que eu havia feito era extremamente errado.

Minutos depois me vi pulando novamente a sacada levada pelo peso da minha
consciência, atravessei a rua e andei novamente até o lote vago.
Meu coração disparou, ele não estava mais ali, não fazia nem quinze minutos que
eu o havia deixado inconsciente no chão. Como ele poderia ter se recuperado tão
rapidamente?

Ainda atordoada voltei para o meu quarto, se ele não estava mais lá isso só
significava que ele estava bem e que havia voltado para sua casa, certo? Bom, foi
nisso em que me vi forçada a acreditar, eu não queria pensar em outras
possibilidades, eu não podia pensar em outras possibilidades. Ninguém se
recupera de uma mordida de vampiro tão rapidamente, talvez eu não tenha
tomado tanto sangue quanto imaginava, ou talvez ele seja um atleta com um
sistema imunológico muito forte. Só isso poderia explicar, não havia nenhuma
outra alternativa lógica o suficiente... E me deixando levar por toda aquela
confusão de pensamentos acabei pegando no sono.

—Fim—



 Dama da Noite “A Rosa”
 Capítulo por: Alynne Milhomem
 Tumblr: damadanoite-w.tumblr.com

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